Logo Passei Direto
Buscar

texto da aula

Aula sobre alfabetização e letramento na EJA: reflexão sobre a aprendizagem da leitura e escrita em jovens e adultos, análise do analfabetismo, teoria e método de Paulo Freire, orientações metodológicas (palavras geradoras, famílias silábicas, gêneros textuais), formação docente e avaliação.

User badge image
Iza Gomes

em

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

<p>18/03/2024, 16:29 UNINTER ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO -FUNDAMENTOS E METODOLOGIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA AULA 6 1/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER Sônia de Fátima Radvanskei Jane Aparecida Radvanskei da Silva CONVERSA INICIAL Nesta aula, faremos uma reflexão sobre o aprendizado da leitura e da escrita nas classes de alfabetização da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Iniciaremos contextualizando os jovens e adultos na sociedade contemporânea, faremos uma breve análise sobre o analfabetismo, refletiremos sobre a formação de professores nas classes de alfabetização de adultos e destacaremos Paulo Freire e sua teoria para alfabetização de adultos. As reflexões trazidas aqui destacam a importância de procedimentos adequados para inserir os jovens e adultos no processo de alfabetização e letramento. Cabe ao professor criar metodologias significativas partindo de palavras geradoras e famílias silábicas, mas ao mesmo tempo introduzir vários outros recursos didáticos, explorando diferentes gêneros textuais para despertar os interesses dos jovens e adultos nesse processo de aprendizagem. Esta aula, portanto, tem como objetivos: compreender o processo de aquisição de leitura e escrita nas classes de alfabetização de adultos; conhecer e compreender o método Paulo Freire; compreender a importância de trabalhar com diferentes recursos didáticos e gêneros textuais para a aprendizagem de jovens e adultos; diversificar o trabalho nas classes de jovens e adultos, visando práticas que levam em conta a teoria de Paulo Freire. TEMA 1 - ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Analisando um pouco a história da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil, podemos observar que cada vez mais aumenta a procura de adultos por essa modalidade de ensino. Partindo https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 2/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER da ideia de ter um adulto como aluno, é inviável organizar a aula com o mesmo encaminhamento metodológico que se tem com crianças. aluno jovem ou adulto não domina apenas uma parte do mundo a dos conteúdos escolares -, mas é capaz de tramitar em uma sociedade letrada utilizando outros referenciais e recursos. Possibilitar a eles entrar em um universo letrado significa colocar em suas mãos os instrumentos próprios dessa sociedade, sem negar os que já possuem, e ampliar sua forma de pensar e se relacionar com o mundo mediado pela escrita. Paulo Freire (2002) diz que, quanto mais uma pessoa aprende a ler letras, palavras e histórias, cada vez mais aprende a ler a vida, o mundo e a "palavramundo". Por isso, para ensinar os ensinamentos da escola, o professor deve partir dos conhecimentos que seus alunos trazem da escola da vida. Somente uma relação dialógica entre professor e aluno pode garantir a apropriação do conhecimento. Sendo assim, é importante lembrar que o adulto possui experiências sociais distintas da criança; muitas vezes domina os mais diferentes conteúdos, mas não é capaz de registrá-los. Por isso a importância da mediação entre o conhecimento prévio trazido pelo adulto e a reorganização dos conteúdos escolares que serão ensinados. Freire (1981) ressalta: Se antes a alfabetização de adultos era tratada e realizada de forma autoritária, centrada na compreensão mágica da palavra, palavra doada pelo educador aos analfabetos; se antes os textos geralmente oferecidos como leitura aos alunos escondiam muito mais do que desvelavam a realidade, agora, pelo contrário, a alfabetização como ato de conhecimento, como ato criador e como ato político é um esforço de leitura do mundo e da palavra. (p. 19) Dessa maneira, o papel do professor é essencial, pois terá uma postura avaliativa constante, analisando todo o processo de ensino aprendizagem. Isso dará indicativos quanto à necessidade de reorganização de sua prática pedagógica. Nessa perspectiva, não se avalia apenas o que os alunos sabem ou não fazer, avalia-se a ação pedagógica como um todo com vistas a sua superação. Freire (1981, p. 19) ainda esclarece: Por outro lado, na medida mesma em que este educador vai superando a visão mágica e autoritária da começa a dar a atenção necessária ao problema da mais oral em certas áreas do que em outra e que exige procedimentos educativos especiais. Em áreas cuja cultura tem memória preponderantemente oral e não há nenhum projeto de transformação infraestrutural em andamento, o problema que se coloca não é o da leitura da palavra mas o de uma leitura mais rigorosa do mundo, que sempre precede a leitura da palavra. Se antes raramente os grupos populares eram estimulados a escrever seus textos, agora é fundamental fazê-lo, desde o começo https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 3/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER mesmo da alfabetização para que, na pós-alfabetização, se vá tentando a formação do que poderá vir a ser uma pequena biblioteca popular, com inclusão de páginas escritas pelos próprios educandos. O aluno jovem ou adulto deve ser protagonista de sua história e de sua vida, e reconhecer as várias funções que a escrita pode ter (informar, entreter, convencer, instituir, definir etc.). Sua formação é direcionada para que se torne bom leitor, encontre e compreenda informações escritas, expresse-se de forma clara e adequada ao objetivo de comunicar. Quanto ao conhecimento numérico, muitos já possuem, ainda que em graus diferentes, dependendo da intensidade com que vivenciam situações de quantificação e medidas. Todavia, o conhecimento informal que possuem acerca dos números não é suficiente para que compreendam o sistema de numeração decimal e o usem de maneira adequada, identificando suas relações com cálculos escritos. Assim, cabe à escola trabalhar conteúdos como esses de maneira formal e significativa. TEMA 2 - ANALFABETISMO Muitas vezes, o indivíduo cresce e, por conta das condições sociais em que vive e das responsabilidades da vida adulta, não consegue ir à escola ou finalizar os estudos e não aprende a ler e a escrever. Há outras condições mais objetivas em seu dia a dia, como ter de trabalhar para sustentar a casa, a própria moradia etc. Então, os alunos da EJA são aqueles que não tiveram a possibilidade de concluir seus estudos em seu tempo regular e buscam nessa modalidade de ensino sua inserção na sociedade letrada. Portanto, a escola deve não somente formar sujeitos sociais alfabetizados, mas também letrados. Nesse sentido, muito analfabetos correspondem ao conceito, segundo o INAF Nacional de Analfabetismo), dos indivíduos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem "a leitura de palavras e frases ainda que uma parcela consiga ler números familiares (de telefone, preços etc.)" (INAF, 2008, p. 20). Diferentemente do conceito de alfabetizado, que consiste nas seguintes características: Para o INAF, alfabetismo é a capacidade de compreender e utilizar a informação escrita e refletir sobre ela, um contínuo que abrange desde simples reconhecimento de elementos da linguagem escrita e dos números até operações cognitivas mais complexas, que envolvem a integração de informações textuais e dessas com os conhecimentos e as visões de mundo aportados pelo leitor. https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 4/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER Dentro desse campo, distinguem-se dois domínios: o das capacidades de processamento de informações verbais, que envolvem uma série de conexões lógicas e narrativas, denominada pelo INAF como letramento, e as capacidades de processamento de informações quantitativas, que envolvem noções e operações matemáticas, chamada numeramento. (INAF, 2008, p. 4) Saiba mais Esse documento analisa o índice de analfabetismo e a relação com o mundo do trabalho, muito interessante para a compreensão sobre um extrato da realidade brasileira. Para saber mais, acesse: Portanto, os professores nessas classes de alfabetização para adultos, seguindo o legado que Paulo Freire enfatiza, precisam ser libertadores, capazes de despertar o desejo de alfabetizar e letrar do indivíduo. Mas quem falou que o adulto não é letrado e alfabetizado? Existem inúmeras formas de alfabetizar e letrar adultos, porém, o que afirmamos aqui é a necessidade de uma alfabetização e letramento culto que não pode ser passado para o indivíduo somente por meio da escola, mas com a possibilidade de ler e escrever. Paulo Freire destaca um novo olhar de educação para esses adultos que sofreram e sofrem com o preconceito, pois vivem em uma sociedade em que precisam todos os dias se curvar àqueles que são seus opressores. Por isso, o novo conceito de educação libertadora proposto por Freire diz que os conhecimentos adquiridos pelos educandos devem ser sempre considerados, pois somente se conhece o que é bom quando se conhece o ruim. Os educandos têm vontade de adquirir novos conhecimentos para, assim, poderem ser mais libertos de um sistema em que opressores oprimem e oprimidos sofrem. Sendo assim, não adianta uma transferência de conhecimentos sem que mútuas experiências sejam respeitadas. Daí a importância do professor, que, ao nosso ver, está entre os dois lados, o do opressor e do oprimido. Esse profissional tem o dever de transmitir e respeitar conhecimentos e transferências, eliminando qualquer preconceito existente. Muitas vezes, os opressores não querem indivíduos críticos, e sim passivos, domáveis, obedientes, controláveis. Na verdade, o que pretendem os opressores "é transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime, e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os dominem" (Freire, 1997, p. 84). professor alfabetizador do aluno adulto será o libertador https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 5/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER desse aluno para a vida, considerando estudante da EJA como um ser já com vida praticamente organizada; o que lhe falta é a liberdade que o professor deve dar, por meio da construção dos múltiplos conhecimentos. Queremos então chamar a atenção para o fato de que ensinar não é somente transferir conhecimentos, mas também respeitar o conhecimento já adquirido pelos alunos, realizando a soma de suas experiências já existentes com as que o próprio professor terá de transferir, o que chamamos então de troca de saberes. Assim, ato de transferir conhecimento vai muito além de ensinar, aprender e fazer. Transferir conhecimentos requer necessidades extraordinárias de respeito e de conhecimento por parte do professor, que, na maioria das vezes, não é encontrado em livros ou aprendido nas faculdades. Cabe aos professores perceber a necessidade real de cada aluno e de cada turma para poder andar com seus alunos, juntos, em um caminho repleto de conhecimentos e boas experiências. Freire (1981) explica essa relação: Inicialmente me parece interessante reafirmar que sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como um ato criador. Para mim seria impossível engajar-me num trabalho de memorização mecânica dos ba-be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo- lu. Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Ensino em cujo processo alfabetizador fosse "enchendo" com suas palavras as cabeças supostamente "vazias" dos alfabetizandos. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato criador, processo da alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem. Na verdade, tanto o alfabetizador quanto o alfabetizando, ao pegarem, por exemplo, um objeto, como laço agora com o que tenho entre os dedos, sentem o objeto, percebem o objeto sentido e são capazes de expressar verbalmente o objeto sentido e percebido. Como eu, o analfabeto é capaz de sentir a caneta, de perceber a caneta e de dizer caneta. Eu, porém, sou capaz de não apenas sentir a caneta, de perceber a caneta, de dizer caneta, mas também de escrever caneta e, consequentemente, de ler caneta. A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral. Esta montagem não pode ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando. Aí tem ele um momento de sua tarefa criadora. (p. 13) Por isso a importância de trabalhar com aluno como um ser pensante, e autônomo; aquele que pensa, tem criticidade e opinião própria, tem suas experiências e conhecimentos respeitados pelo professor. O aluno não recebe depósitos de conhecimentos e conteúdo; aprende a respeitar opiniões e impõe respeito, é capaz de construir um conhecimento rico com toda a sala de aula, além de ajudar o professor no ato mais importante: o de aprender de fato tudo que lhe é passado. O professor, por https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 6/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER sua vez, é o questionador, o que desperta o interesse do aluno em enxergar as coisas da maneira correta, além de aumentar a sede de aprender. É um profissional inteligente e ao mesmo tempo inquieto, que só fica satisfeito quando todos os alunos conseguem ser autônomos em suas ideias e pensamentos. O professor, portanto, deve: a) enxergar os alunos como sujeitos inteligentes, que desenvolveram suas estratégias de sobrevivência na cultura escolar; b) considerar que esses sujeitos chegam à sala de aula com conhecimentos já construídos; c) reconhecer a necessidade de diagnosticar cientificamente os saberes dos alunos, bem como os motivos reais que os levam a querer e necessitar aprender e transferir o conhecimento, a ler e escrever, a pensar e criticar; d) considerar que esses sujeitos já tiveram no passado uma tentativa de aprendizagem que acabou sendo frustrada pela vida, fazendo-os, de certa forma, fracassar. Esse sentimento de fracasso pode desencadear a falsa sensação de incapacidade de aprendizagem e o sentimento de desamparo para com a aprendizagem. Agora, vamos dar continuidade à reflexão sobre outros aspectos inerentes ao professor de jovens e adultos. TEMA 3 - PROFESSOR ALFABETIZADOR DE ADULTOS E SEUS SABERES Desde as primeiras campanhas de alfabetização de jovens e adultos, houve uma prática de improvisação de professores de EJA: primeiro, qualquer pessoa alfabetizada poderia ensinar um adulto a ler; segundo, o investimento em alfabetização de adultos não era rentável, logo, deveria ser gasto o mínimo possível com aqueles que não aprenderam a ler na idade apropriada. Assim, vários voluntários não habilitados (remunerados ou não) foram habilitados para dar conta da tarefa de alfabetizar jovens e adultos. Couto e Bonfim (2008) questionam esse amadorismo: Historicamente [...] a EJA sempre foi vista como uma modalidade de ensino que não requer, de seus professores, estudos nem especialização [...] como um campo eminentemente ligado à boa vontade. https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 7/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER Em razão disso, são raros os professores formados/ capacitados na área, existindo a ideia de que qualquer professor é automaticamente um professor de jovens e adultos. Com esta falsa premissa não se tem levado em conta que, para se desenvolver um ensino adequado a esses alunos, há necessidade de formação inicial e geral consistente, assim como de formação continuada. (p. 5) Os autores mencionam a "boa vontade" como ingrediente principal na ação do alfabetizador improvisado. Também nas campanhas de alfabetização criadas pelo Governo Federal - desde a primeira, em 1947, até o Programa Brasil Alfabetizado, lançado em 2003 -, não há exigência de estudos especializados para alfabetizar jovens e adultos. O despreparo dos alfabetizadores é uma das causas do baixo rendimento dos cursos de EJA. Um estudo de Soares (2006, p.1-6) informa que, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), em 2005, havia 1.698 cursos de pedagogia no Brasil, distribuídos em 612 instituições de ensino superior. Dentre essas, apenas 15 ofereciam habilitação em EJA (em um total de 27 cursos): sete instituições na Região Sul, quatro no Sudeste e quatro no Nordeste. Apenas 1,59% dos cursos de pedagogia ofereciam a habilitação em EJA, e nenhum deles nas regiões Norte e Centro- Oeste. Quanto aos currículos, as disciplinas específicas variavam, sendo constante a presença de metodologia de ensino em EJA e do estágio supervisionado. Outras disciplinas discutiam os fundamentos da EJA, suas bases psicológicas e sociais, a educação popular e as relações entre trabalho e educação. Como vimos, programas de formação para professores da EJA são muito limitados e ocorrem somente em alguns lugares do país, e muitas vezes essas formações estão preocupadas com a parte técnica do trabalho, ou seja, a metodologia de alfabetização, "saber como fazer" em vez do "saber por que estão fazendo". Isso se dá pelo fato de os alfabetizadores terem pouca ou nenhuma experiência com alfabetização. O saber do professor vai muito além de algo aprendido por ele no ensino superior em seu curso de licenciatura, sendo que uma formação essencial que professor deve ter é o magistério, como de suma importância para ato educativo. Os professores alfabetizadores hoje são os responsáveis por, principalmente, formar alunos a ler e escrever. São os verdadeiros soldados em prol da erradicação do analfabetismo e do de analfabetismo funcional. Este último tipo corresponde ao indivíduo que não sabe ler e escrever. A ideia de ser alfabetizado significa que indivíduo sabe escrever pelo menos seu próprio nome. https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 8/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER Uma pesquisa realizada por Ribeiro (2001, p. 1) sobre o impacto dos programas de educação de jovens e adultos quanto aos níveis de alfabetismo (ou letramento) mostrou que, para avaliar tal impacto, é necessário desenvolver uma metodologia de avaliação que possibilite não apenas medir a capacidade de processar informação escrita, mas também verificar mudanças de atitude em relação ao uso da língua escrita na vida social. Essas mudanças não podem ser alcançadas a menos que os programas de EJA invistam realmente em atividades relacionadas aos usos sociais da língua escrita: Se querem que (os alunos de EJA) leiam jornais, participem de debates sobre problemas sociais ou que participem da educação dos filhos, as práticas escolares dessem estar intencionalmente voltadas para essas metas. Os pesquisadores, por seu lado, e querem avaliar com rigor os resultados de programas educativos, devem procurar relacioná-los com o tipo de aprendizagens que tais programas oferecem. Finalmente, os que definem as políticas educacionais, se querem comprovação da eficácia dos programas, devem criar condições para que esses possam promover uma educação de qualidade, criando reais oportunidades para que os alunos ampliem seu universo de práticas culturais (Ribeiro, 2001, p. 12) Assim, fica claro que os professores de EJA encontram muitos desafios para trabalhar nas classes de jovens e adultos, pois a heterogeneidade da turma assusta o professor. Daí a necessidade de uma formação que leve em conta essa diversidade: número reduzido de alunos em sala para um trabalho mais individualizado, desenvolvimento de atividades e metodologias diferenciadas, trabalho com interdisciplinaridade e trocas de experiência entre alfabetizadores. TEMA 4 - PAULO FREIRE E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Paulo Freire (1921-1997), nos anos 1960, trabalhava na Divisão de Extensão da Universidade de Pernambuco e buscava estreitar a relação entre a universidade e a educação popular. Lá, fez seu primeiro ensaio de alfabetização com um pequeno grupo de adultos. Essa experiência testou e consolidou suas ideias. Freire afirmava que o analfabeto adulto, embora sem instrução escolar, possuía um valioso legado de experiência e conhecimento, como participante do mundo do trabalho e da cultura. A alfabetização deveria ser um instrumento para que indivíduos analfabetos ganhassem consciência de seus direitos políticos sociais e econômicos: "a educação é um ato político, que pode contribuir para a transformação social e a libertação dos oprimidos" (Freire, 1981, p. 29-61). Freire pretendia que a educação libertasse os oprimidos da condição de pobreza e inferioridade em que viviam. A educação libertadora de Freire se opunha ao conceito, também proposto por ele, de https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 9/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER educação bancária, aquela que julga possível e suficiente "depositar" conhecimento na cabeça do educando, como quem dinheiro no banco (Freire, 1981, p. 63-87). O que acontece com os que não aprenderam a ler na infância? Eventualmente sentem a falta da leitura e procuram classes de alfabetização de adultos, mas nem sempre encontram ali compreensão de seus pontos de vista e resposta às suas necessidades educacionais. Freire argumentava que métodos tradicionais, velhas cartilhas, cujas lições repetiam que "Ivo viu a uva", nada tinham a ver com universo dos adultos. Em lugar do ba-be-bi-bo-bu, o que deveria ser a leitura das classes de alfabetização? Freire (2006, p. 20) responde: as palavras com que organizar o programa de alfabetização deveriam vir do universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietações, as suas reinvindicações, os seus sonhos. Deveriam vir carregadas de significação de sua experiência, e não da experiência do educador. Sobre o lugar do alfabetizando no processo de alfabetização, diz ele: Inicialmente me parece interessante reafirmar que sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo como um ato criador. Para mim, seria impossível engajar-me num trabalho de memorização mecânica dos ba-be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo- lu. Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo de alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. (ibidem) A grande inovação metodológica foi propor que a aprendizagem começasse pela discussão de temas geradores de caráter político-social. Em lugar de cartilha, foram usadas palavras significativas, extraídas do universo vocabular dos adultos. Essas palavras eram desmembradas em sílabas, que davam origem às famílias silábicas e, das combinações de sílabas, surgiam novas palavras. A marca original da proposta de Paulo Freire era a ênfase no caráter político da alfabetização, a discussão sobre o lugar do homem no mundo e seu diálogo com outro, o reconhecimento do valor social do trabalho, da capacidade do homem para transformar a natureza, da importância da palavra do homem do povo, que não se ouvia na urna nem nos jornais, mas sim nos círculos de cultura. Seu método repousava no diálogo como elemento de comunicação entre os homens, ou melhor, entre consciências, para transformar mundo. Repousava ainda na crença de que o povo oprimido e explorado é capaz de pensar a realidade social e concluir pela necessidade de transformação. Do ponto de vista técnico, porém, o método não apresentava novidade. A ideia de desmembrar palavras https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 10/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER em sílabas e a partir daí formar as chamadas famílias silábicas era a base do conhecido método de palavração. Dado o sucesso da experiência em 1963, educador Paulo Freire foi convidado pelo ministro da educação Paulo de Tarso para elaborar Plano Nacional de Alfabetização, cuja meta era alfabetizar cinco milhões de adultos em dois anos. Começou-se a treinar milhares de alfabetizadores de jovens e adultos, e esse governo tinha como palavras de ordem os conceitos formulados por Freire de conscientização, pedagogia do oprimido, educação libertadora, cultura popular, diálogo, círculos de cultura, entre outros. Esse plano durou apenas alguns meses, pois presidente da época foi deposto e uma junta militar assumiu o poder. Freire foi considerado subversivo e preso pelas autoridades militares. Exilou-se primeiro na Bolívia, passando depois para Chile, e dali para outros países. Sua trajetória acadêmica e participação em movimentos de educação popular de diversos países deram- lhe renome internacional. Vejamos a seguir alguns pontos importantes quando se trabalha o método de Paulo Freire. TEMA 5 - A TEORIA EM AÇÃO Freire preconizava alfabetizar com palavras significativas para os alunos. Mas por onde começar? Que palavras escolher? Algumas palavras servem de base para a alfabetização, atendendo aos critérios exigidos pelo método: palavras significativas para os alunos, associadas a temas de interesse social, político e econômico; variedade de relações letra-som, de modo a englobar as combinações mais frequentes da língua escrita; produtividade da palavra para formar novas combinações usando as sílabas das famílias silábicas. Muitas palavras podem surgir em uma classe de alfabetização, mas aquelas que professor considera inadequadas podem despertar curiosidade e constituir um desafio. O professor deve ter bom senso e aceitar a sugestão, fazendo com que os alunos façam tentativas de escrita. Na técnica de alfabetização explicada por Freire, utiliza-se uma palavra geradora, sempre contextualizada em determinado tema de importância da turma; em seguida, ela é separada em https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 11/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER sílabas, dando origem às famílias silábicas. Assim, novas palavras serão formadas com as sílabas estudadas e, desse ponto em diante, os alunos criam frases e textos coletivos. Freire (1981) apresenta o seguinte exemplo para compreendermos a síntese de sua teoria: A palavra tijolo, por exemplo, se inseriria numa representação pictórica, a de um grupo de pedreiros, por exemplo, construindo uma casa. Mas, antes da devolução, em forma escrita, da palavra oral dos grupos populares, a eles, para processo de sua apreensão e não de sua memorização mecânica, costumávamos desafiar os alfabetizandos com um conjunto de situações codificadas de cuja decodificação ou "leitura" resultava a percepção crítica do que é cultura, pela compreensão da prática ou do trabalho humano, transformador do mundo. No fundo, esse conjunto de representações de situações concretas possibilitava aos grupos populares uma leitura da leitura" anterior do mundo, antes da leitura palavra. Esta leitura" mais crítica da anterior menos crítica do mundo possibilitava aos grupos populares, às vezes em posição fatalista em face das injustiças, uma compreensão diferente de sua indigência. É neste sentido que a leitura crítica da realidade, dando-se num processo de alfabetização ou não e associada sobretudo a certas práticas claramente políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica. (p. 13) Nesse sentido, ao utilizar contexto e necessidades dos alunos da EJA, o professor apresenta as unidades da língua sílabas, palavras, frases e pequenos textos coesos - em um contexto que busca a compreensão da leitura, relacionar os conhecimentos e deixá-los significativos. Se em uma atividade surgir a palavra trabalho como palavra geradora, o professor deve discutir esse tema e fazer associações. Em seguida, deve trabalhar com a formação de famílias silábicas, a partir das sílabas da(s) palavra(s) geradora(s): (tra- ba- lho). Trabalha-se então os grupos "tra, tre ,tri, tro, tru", "ba, be ,bi ,bo, bu" e "lha, lhe, lho, Por fim, formar-se novas palavras com as sílabas estudadas, como bolha, trilho, tribo, e com elas forma-se frases. Pode-se também ditar palavras com sílabas já conhecidas; trabalhar em duplas, com um aluno ditando ao outro algumas palavras que conseguiu formar, depois, trocam-se os papéis; leitura e ditado, em que o aluno procura e recorta, em textos de revistas e jornais, palavras com o padrão silábico proposto, e cada aluno destaca pelo menos três palavras e dita-as par a turma; ditado de revisão: palavras com famílias silábicas que apresentam mais dificuldade para os alunos, entre muitas outras possibilidades. Ao se trabalhar com a teoria de Paulo Freire, o professor vai ensinando os nomes das letras gradativamente, à medida que vão aparecendo. Assim, os alunos não precisam ter dominado todo https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 12/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER alfabeto para fazer as diferentes combinações silábicas e relações com letras e som. Isso vai acontecer com atividades de letramento paralelas desenvolvidas na turma: apresentação do dicionário; atividades diversas com jornais, revistas, livros e outros; leitura e interpretação de textos curtos; leitura oral pelo aluno e pelo professor de diferentes gêneros em diferentes suportes (poesias, crônicas, lendas receitas, notícias etc.) e discussão após a leitura; construção de textos coletivos, individuais e em grupos; escrita de bilhetes e cartas; e desenvolver outras atividades que julgar necessário ampliando o grau de alfabetização e letramento da turma. Alguns professores que trabalham com classes de EJA apontam dificuldades com a turma heterogênea, com diferentes níveis de conhecimento de leitura, mas o que mais se admira nessas turmas é a determinação e a disposição para aprender. Algumas vezes, na aprendizagem da escrita, alguns alunos adultos manifestam desinteresse. Isso é comum nas classes de alfabetização de adultos. Kleiman e Signorini (2001) destacam que: Ao contrário do que acontece com os grupos de tradições letradas, para os não escolarizados a escrita não tem a função social de instrumentar para aquisição de conhecimentos, nem de legitimar esse conhecimento. Isto é, a concepção de texto e de escrita desses alunos não prevê um importante aspecto do potencial emancipador da escrita, aquele que lhes permitiria a aprendizagem continuada e independente e, assim, desenvolver e ajudar no desenvolvimento de seu grupo. As práticas de transmissão de conhecimentos nas comunidades são basicamente orais, construídas na interação face a face, com pessoas que eles conhecem, sobre cuja confiabilidade podem decidir com base nesse conhecimento, em situações de experiência concreta. Isso nos permite prever que, para a grande maioria dos alunos, a relação de confiança com o livro e com a palavra escrita, necessária para a escrita adquirir funções que vão além do utilitário, precisa ser construída, não é um dado. (p. 227) Por isso, é interessante estimular a leitura dos alunos adultos, ampliando os recursos didáticos: fotos, imagens, vídeos, histórias, contos, valorizar por meio de revistas e jornais a identidade do aluno, fazendo-o se sentir parte do processo de ampliação da alfabetização e letramento. Assim, ele mesmo sente a necessidade de aprender a leitura e escrita e a utilizar essa prática em seu meio social. Soares (1998) afirma que: Um adulto pode ser analfabeto, porque marginalizado social e economicamente, mas, se vive em um meio em que a leitura e a escrita têm presença forte, se se interessa em ouvir a leitura de jornais feita por um alfabetizado, se recebe cartas que outros leem para ele, se dita cartas para que um alfabetizado as escreva [...] se pede a alguém que lhe leia avisos ou indicações afixados em algum lugar, esse analfabeto é, de certa forma, letrado, porque faz uso da escrita, envolve-se em práticas sociais de leitura e de escrita. (p. 24) https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 13/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER NA PRÁTICA Organize um plano de aula para uma turma de EJA de escola pública seguindo as orientações da teoria de Paulo Freire. Como ficaria? FINALIZANDO Quando falamos em alfabetização de jovens e adultos, o documento mais importante foi Plano Nacional de Alfabetização, inspirado nas ideias de Paulo Freire. Freire pretendia que a educação libertasse os oprimidos da condição de pobreza e inferioridade em que vivem. Por isso, destacou a importância do professor nessas classes de alfabetização, que teria o papel fundamental de propor uma aprendizagem que começasse por palavras geradoras e significativas, extraída do universo vocabular dos alunos. Partindo dessa realidade social, deve-se dar ênfase no caráter político da alfabetização, discutindo lugar do homem no mundo e seu diálogo com o outro, reconhecer valor do homem na sociedade e seu poder de transformação do mundo. Como vimos, o método de Paulo Freire não traz novidades, pois parte de uma palavra geradora, para as famílias silábicas, frases e textos. Todavia, em uma classe de alfabetização de jovens e adultos, é esse o encaminhamento que faz toda a diferença no processo de inserir o adulto na aprendizagem da leitura e escrita. Cabe ao professor variar metodologias e explorar diferentes gêneros, despertando nesse aluno, que já foi tão oprimido na sociedade, a vontade de aprender a ler e escrever e utilizar essa prática no meio social em que vive. REFERÊNCIAS CARVALHO, M. Primeiras letras: alfabetização de jovens e adultos em espaços populares. São Paulo: Ática, 2010. COUTO, A. C. R.; BONFIM, A. M. o permanente amadorismo em EJA: a experiência da formação de educadores em educação de jovens e adultos no município do rio de Janeiro. In: Reunião da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), Caxambu, n. 31, 2008. FREIRE, P. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 2006. Pedagogia do oprimido. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 14/15</p><p>18/03/2024, 16:29 UNINTER Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. FREITAS, J. J. o jornal em salas de aula de educação de jovens e adultos, informação e cidadania. Curitiba: Aymará, 2009. KLEIMAN, A. B.; SIGNORINI, I. et al. (Orgs.). o ensino e a formação do professor: alfabetização de jovens e adultos. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2001. RIBEIRO, V. M. M. Impactos da escolarização: programas de educação de jovens e adultos e práticas de alfabetismo. In: Reunião da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), Caxambu, n. 24, 2001. SOARES, M. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 25, jan./abr. 2004. . Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 15/15</p>

Mais conteúdos dessa disciplina