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<p>AULA 3</p><p>ERGONOMIA</p><p>Profª Silvana Bastos Stumm</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Para entendermos melhor a importância da ergonomia no contexto da</p><p>enfermagem do trabalho, vamos conversar sobre o ambiente e as condições</p><p>laborais e de que forma isso afeta a saúde do profissional. Em relação às</p><p>condições do local onde se trabalha, abordaremos a luz, as cores, o som e outros</p><p>pontos que podem afetar o trabalhador, causando-lhe problemas como lesões e</p><p>distúrbios osteomusculares. Analisaremos mais enfaticamente a cognição e</p><p>encerraremos falando sobre os aspectos afetivos e o atendimento humanizado.</p><p>Nossos temas para hoje são: organização do trabalho (OT); condições ambientais</p><p>de trabalho; ergonomia cognitiva e os aspectos cognitivos; riscos ergonômicos na</p><p>enfermagem; e aspectos afetivos do ser humano no local de trabalho.</p><p>TEMA 1 – ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO (OT)</p><p>Nem todos conseguem entender o vínculo entre ergonomia e OT, pois</p><p>muitos ainda veem na ergonomia uma mera inovação dos conceitos da OT</p><p>(Wisner, 1987). Segundo Faria (1984), ao conjunto de partes relacionadas entre</p><p>si e interdependentes, com o objetivo de atender às demandas projetadas, dá-se</p><p>o nome de organização do trabalho. A ergonomia, afirma Wisner (1987, p. 15),</p><p>[...] se distingue da organização do trabalho pela escala de suas</p><p>observações (método experimental e análise detalhada do trabalho) e</p><p>de sua expressão frequente nos detalhes – significativos - do dispositivo</p><p>técnico. Também se distingue pela importância de seus fundamentos</p><p>fisiológicos e psicológicos e pela predominância de critérios relativos ao</p><p>homem.</p><p>A Norma Regulamentadora n. 17/1978 (NR 17), conforme vimos em aulas</p><p>anteriores, também faz uma abordagem do tema. Inclusive, comentamos que a</p><p>OT deve ser adequada às necessidades psicofisiológicas do trabalhador, bem</p><p>como à natureza do trabalho (Brasil, 1978).</p><p>É interessante fazermos uma retrospectiva e pensarmos nas organizações</p><p>que se iniciaram com base no artesanato. A experiência advinda das</p><p>organizações feudal, eclesiástica e militar foram fundamentais, nesse processo. A</p><p>indústria do século XVIII, comenta Faria (1984), já praticava os princípios de</p><p>previsão, organização e controle da produção. Contudo, a OT industrial passou</p><p>por grande mudança no final do século XIX, conforme Iida (2016), em decorrência</p><p>da administração científica, mais tarde conhecida por taylorismo e instituída por</p><p>Taylor (1995), de quem já falamos em outro momento de nossos estudos. Suas</p><p>3</p><p>observações eram realizadas empiricamente e as tarefas, para o autor, eram</p><p>divididas entre gerentes e trabalhadores, entendendo Taylor (1995), conforme</p><p>afirma em seu livro Princípios de administração científica, que, dessa forma, o</p><p>trabalho seguiria as leis científicas. Enquanto gerentes estabeleciam métodos e</p><p>tempos-padrão, trabalhadores produziam e eram controlados no taylorismo, nos</p><p>conta Iida (2016). Em Taylor (1995), encontramos estudos de tempo e movimento</p><p>para padronizar os métodos e, também, os instrumentos de trabalho. A leitura é</p><p>interessante, pois nos permite fazer uma analogia entre o uso dos princípios do</p><p>próprio Taylor (1995) e os aplicados à disciplina que estamos estudando.</p><p>Inclusive, ele considerava os trabalhadores vadios quando a produção era baixa</p><p>e negligentes, se algum acidente ocorria. Entendia que qualquer acidente era</p><p>culpa do trabalhador (Taylor, 1995). Felizmente, essa postura mudou.</p><p>A ergonomia, conforme Abrahão et al. (2009), evoluiu de forma diferente se</p><p>compararmos ao período do taylorismo, e tem um cenário de produção bastante</p><p>diversificado. O “[...] trabalhador é multifuncional” (Abrahão et al, 2009) e adapta-</p><p>se a formas variadas de organização de serviços. Com essa mesma</p><p>compreensão, Faria (1984) entende a OT como um meio habitual para realizar</p><p>atividades compartilhadas, atingindo-se, assim, os objetivos estabelecidos pela</p><p>instituição. A OT contribui significativamente para a redução do estresse, da</p><p>fadiga, da monotonia, dos erros, afirmam Iida e Buarque (2016). Com a OT, o local</p><p>em que se labora naturalmente torna-se mais agradável, mais confortável. Há com</p><p>isso aumento da produtividade, reduzindo-se possíveis aspectos ainda negativos.</p><p>Voltando ao período da Revolução Industrial, que começou na Inglaterra</p><p>em meados do século XVIII, nos chama atenção o número de problemas relativos</p><p>à saúde. A jornada diária era intensa, atingindo 16 horas, e o risco de acidente</p><p>era grande, levando o indivíduo à fadiga. Contribuindo para isso, o trabalho, além</p><p>de repetitivo, era pesado. Durante essa época, conforme Freitas (2016), surgiram</p><p>várias e novas doenças em função dos fatores de risco existentes na indústria.</p><p>Iida e Buarque (2016) recomendam que se estabeleça uma OT</p><p>participativa, envolvendo os trabalhadores nas decisões da empresa. O ideal é o</p><p>indivíduo executar suas atividades sem que haja sobre isso controle rígido,</p><p>fazendo-o sentir-se respeitado. Decisões tomadas em conjunto e aprovadas</p><p>devem ser implantadas tão logo seja possível. Dessa forma, o trabalhador sente-</p><p>se valorizado e percebe claramente a relação existente entre o sugerido e o</p><p>adotado. Além disso, a oportunidade de participar diminui a resistência a</p><p>4</p><p>mudanças institucionais.</p><p>Dul e Weerdmeester (2017, p. 104) dizem que “a organização do trabalho</p><p>faz junção de vários cargos, de acordo com os objetivos da empresa”, entendendo</p><p>como fundamentais as formas flexíveis de organização, os grupos autônomos e o</p><p>estilo gerencial baseado na liderança. Em estruturas mais flexíveis, o chefe é</p><p>substituído pelo líder. Enquanto aquele ordena e controla, o líder participa junto à</p><p>equipe, desafiando-a e organizando o trabalho. Trabalhos em grupos autônomos</p><p>tendem a melhorar a produtividade e a qualidade do produto, afirmam Dul e</p><p>Weerdmeester (2017).</p><p>Concluindo este tema, podemos dizer que faz parte da OT tudo que</p><p>envolve o trabalho e o trabalhador, como conteúdo e posto de trabalho,</p><p>condições ambientais, posturas e métodos de trabalho e outros fatores.</p><p>TEMA 2 – CONDIÇÕES AMBIENTAIS DE TRABALHO</p><p>Segundo a NR 17 (Brasil, 1978), “as condições ambientais de trabalho</p><p>devem estar adequadas às características psicofisiológicas dos trabalhadores e à</p><p>natureza do trabalho a ser executado”. Mas de que forma estabelecemos essas</p><p>condições?</p><p>O ambiente de trabalho deve promover saúde e segurança, incluindo</p><p>nessas características o conforto e o bem-estar do indivíduo. Para tal, é</p><p>necessário sabermos se fatores físicos, químicos, biológicos estão respeitando as</p><p>normas regulamentadoras. As condições devem ser avaliadas, por meio do laudo</p><p>técnico das condições ambientais de trabalho (Ltcat), quantitativa ou</p><p>qualitativamente, dependendo do agente a ser verificado, caracterizando-se assim</p><p>a exposição ocupacional ao risco. O risco físico ruído, por exemplo, pode ser</p><p>medido, diferentemente da avaliação biológica. Esse laudo só pode ser elaborado</p><p>e assinado ou pelo engenheiro de segurança do trabalho ou pelo médico do</p><p>trabalho.</p><p>Vamos abordar rapidamente os riscos mais comuns no trabalho; no</p><p>entanto, antes de citá-los, devemos entender quais medidas são tomadas para</p><p>eliminar ou minimizar os riscos existentes. Primeiramente, devemos agir na fonte,</p><p>depois na trajetória e, por último, no indivíduo. Acompanhe o que Dul e</p><p>Weerdmeester (2017) dizem a esse respeito, sobre as formas de agir:</p><p>• na fonte – buscar eliminar ou reduzir o risco;</p><p>5</p><p>• na trajetória – procurar isolar a fonte ou o trabalhador;</p><p>• no trabalhador – reduzir o seu tempo de exposição ao risco ou recomendar</p><p>o uso de equipamento de proteção individual (EPI).</p><p>Independentemente do agente, a sequência de proteção sempre se dará</p><p>da forma conforme elencamos.</p><p>2.1 Ruído, vibração e temperatura</p><p>Podemos dizer que o conceito de ruído é um tanto complexo. O que para</p><p>uns é um som agradável, para outros é um barulho incômodo. Mas, sob o ponto</p><p>de</p><p>vista legal, estar no ambiente de trabalho ocupacionalmente exposto a um</p><p>ruído acima de 80 dB, na jornada diária de 8 horas, é prejudicial à saúde. Medidas</p><p>de prevenção devem ser adotadas, seguindo o roteiro: fonte, trajetória, indivíduo.</p><p>Não apenas a surdez é consequência dessa exposição, mas também a</p><p>irritabilidade, problemas de sono, zumbidos, dores de cabeça. Para avaliarmos o</p><p>nível de ruído, usamos o medidor de pressão sonora.</p><p>Figura 1 – Medidor de pressão sonora (I)</p><p>Crédito: Heavypong/Shutterstock.</p><p>Figura 2 – Medidor de pressão sonora (II)</p><p>Crédito: Heavypong/Shutterstock.</p><p>6</p><p>A vibração, outro risco físico, acomete parte ou o corpo inteiro do</p><p>trabalhador. Mãos e braços são bastante afetados se o instrumento/equipamento</p><p>utilizado provoca vibração nas extremidades. A de corpo inteiro decorre do</p><p>manuseio de equipamentos grandes, como maquinários agrícolas. É transmitida</p><p>pelos pés e pelo assento da máquina que está sendo utilizada, como um trator,</p><p>por exemplo.</p><p>A temperatura muito alta ou muita baixa também é prejudicial à saúde. O</p><p>conforto térmico é fundamental para o desempenho das atividades laborais.</p><p>Temperatura muito alta ou muito baixa sobrecarrega o organismo e provoca</p><p>doenças. Ambientes com baixas temperaturas reduzem a força e provocam</p><p>contraturas musculares, fato esse que compromete a habilidade do trabalhador.</p><p>Temperaturas altas, por sua vez, causam desidratação, podendo levar o</p><p>trabalhador ao colapso. O local de trabalho deve ser climatizado de acordo com a</p><p>atividade desempenhada e, em casos como os de frigoríficos, o uso de EPI é</p><p>essencial, além do controle do tempo de permanência do trabalhador no interior</p><p>das câmaras.</p><p>Figura 3 – Medidor de temperatura</p><p>Crédito: Ynettet/Shutterstock.</p><p>2.2 Iluminação, cor e ventilação</p><p>Outros fatores básicos para o conforto ambiental dizem respeito à</p><p>iluminação, à cor e à ventilação. Locais escuros, mal iluminados geram</p><p>desconforto, monotonia, fadiga, estresse. A iluminação precisa estar de acordo,</p><p>tanto com a tarefa estabelecida quanto com as características da visão do</p><p>operador. Excesso de brilho provoca ofuscamento visual, é como olhar para o Sol.</p><p>7</p><p>Em ambientes, o correto é usar luz difusa e superfícies foscas, evitando que</p><p>ocorram reflexos. O ideal é compor a luz natural de acordo com a luz do ambiente.</p><p>Outra recomendação, quando se tem luz diretamente sobre a tarefa, é que ela</p><p>seja mais intensa que a luz local. Deve-se evitar também a incidência direta da</p><p>luz nos olhos, podendo ser utilizado algum anteparo para amenizar essa situação.</p><p>Iluminação e cores contribuem para aumentar ou diminuir a produtividade e o</p><p>bem-estar do indivíduo. As cores não devem ser nem muito quentes, a ponto de</p><p>causarem perturbação e deixarem o indivíduo agitado/irritado, nem muito frias,</p><p>pois isso torna o ambiente monótono.</p><p>Figura 4 – Cores frias e cores quentes</p><p>Crédito: Zanna Pesnina/Shutterstock.</p><p>Imagine uma clínica ou hospital com as paredes em cores quentes como</p><p>vermelho ou amarelo... Por sua vez, ventilação nos remete às temperaturas que</p><p>já falamos, mas cabe aqui fazer mais algumas observações. Sob um aspecto</p><p>geral, entre as temperaturas de 20 ºC e 24 ºC e umidade relativa do ar entre 40%</p><p>a 80%, estamos na zona de conforto térmico. Na realidade, deve existir um</p><p>equilíbrio entre a temperatura, a umidade e a velocidade do ar. Consideramos,</p><p>ainda, que cada pessoa reage de forma própria ao calor e ao frio. A ventilação</p><p>pode ser natural (permite a circulação do ar por meio de aberturas, recomendada</p><p>em locais/hospitais onde há baixo risco de infecção); geral diluidora (tanto infla o</p><p>ar para o local quanto o exaure, ou ainda pode ter as duas funções); e exaustora</p><p>(bastante comum, esse tipo capta o ar contaminado existente no local de trabalho;</p><p>em uma sala cirúrgica, por exemplo).</p><p>2.3 Agentes biológicos</p><p>CORES FRIAS CORES QUENTES</p><p>8</p><p>Segundo Brevigliero, Possebon e Spinelli (2011), os agentes biológicos que</p><p>contaminam os ambientes ocupacionais são micro-organismos como vírus,</p><p>bactérias, protozoários, fungos, parasitas, presentes em sua maioria nos</p><p>hospitais, estabelecimentos de saúde em geral, laboratórios e outros locais. A</p><p>contaminação pode ocorrer por contato com materiais contaminantes e pessoas</p><p>portadoras de alguma doença. Para que isso não aconteça, o ambiente de</p><p>trabalho deve oferecer condições básicas de higiene, como vestiários separados</p><p>para troca de roupa comum e roupa de trabalho; boa sinalização, mostrando os</p><p>riscos; locais de fácil limpeza e desinfecção; área de tratamento de resíduos;</p><p>disponibilizar EPIs adequados à função.</p><p>TEMA 3 – ERGONOMIA COGNITIVA E OS ASPECTOS COGNITIVOS</p><p>Antes de nos aprofundarmos neste tema, primeiramente vamos abordar o</p><p>conceito de Abrahão et al. (2009) sobre cognição. Acompanhe: “cognição é um</p><p>conjunto de processos mentais que permite às pessoas, buscar, tratar, armazenar</p><p>e utilizar diferentes tipos de informações do ambiente. É a partir de processos</p><p>cognitivos que o indivíduo adquire e produz conhecimentos”. À forma como as</p><p>pessoas entendem e organizam essas informações dá-se o nome de processos</p><p>cognitivos, afirmam Abrahão et al. (2009). Com base nesse entendimento,</p><p>relembremos nossas aulas anteriores, em que dissemos que a ergonomia</p><p>cognitiva aborda processos mentais como a carga mental, a tomada de decisões,</p><p>a interação homem-computador, o estresse e o treinamento. Como processos</p><p>mentais ou aspectos cognitivos entendemos a percepção, a memória, o raciocínio</p><p>e a resposta motora, relacionados com as interações entre as pessoas e outros</p><p>elementos de um sistema (Iida, 2014; Iida; Buarque, 2016). Percepção, conforme</p><p>Abrahão et al. (2009), “é um conjunto de processos pelos quais recebemos,</p><p>reconhecemos, organizamos e entendemos as sensações recebidas dos</p><p>estímulos ambientais”. Visão, audição e olfato são alguns exemplos de métodos</p><p>perceptivos. Essa é a forma estruturalista (Abrahão et al., 2009).</p><p>Independentemente de como se aborde a ergonomia, percepção e</p><p>cognição não se separam. Vamos perceber (processo perceptivo) o objeto pelo</p><p>nosso sistema sensorial, e nosso cérebro irá interpretá-lo e integrá-lo (processo</p><p>cognitivo) para entendermos do que se trata.</p><p>Figura 5 – Cognição</p><p>9</p><p>Créditos: Tuulijumala/Shutterstock; Pathdoc/Shutterstock.</p><p>Outro modo de se compreender e contrário a esse formato refere-se à</p><p>abordagem da Gestalt (Abrahão et al., 2009) ou regras da Gestalt (Iida; Buarque,</p><p>2016). Conforme Iida e Buarque (2016), por essas regras, nosso cérebro, ao</p><p>visualizar uma imagem, a organiza e atribui um significado que depende das</p><p>formas, proporções, localizações e interações entre seus elementos. Segundo</p><p>Abrahão et al. (2009), a Gestalt baseia-se nos princípios da proximidade,</p><p>similaridade, acabamento, simetria, figura-fundo e continuidade. Vamos separá-</p><p>los em subitens e exemplificá-los, para deixar mais clara a compreensão desses</p><p>princípios.</p><p>3.1 Proximidade</p><p>Em um arranjo de objetos, nossa tendência é enxergar os mais próximos</p><p>como se formassem um grupo.</p><p>Figura 6 – Proximidade</p><p>Fonte: Elaborado com base em Abrahão et al., 2009.</p><p>3.2 Similaridade</p><p>Nossa tendência é agrupar objetos que se parecem.</p><p>10</p><p>Figura 7 – Similaridade</p><p>Crédito: Peter Hermes Furian/Shutterstock.</p><p>3.3 Acabamento</p><p>Diante de objetos ou figuras que não estão completos, temos a tendência,</p><p>de forma perceptiva, a acabá-los.</p><p>Figura 8 – Acabamento</p><p>Crédito: One Line Man/Shuttertstock.</p><p>11</p><p>3.4 Simetria</p><p>Nossa tendência é ver objetos formando imagens espelhadas em torno de</p><p>seu centro. Veja o conjunto de sinais da Figura 9. Enxergamos quatro conjuntos</p><p>de sinais ao invés de oito individuais.</p><p>Figura 9 – Simetria</p><p>Fonte: Elaborado com base em Abrahão et al., 2009.</p><p>3.5 Figura-fundo</p><p>Algumas figuras destacam-se em relação a outras.</p><p>Na Figura 10, vemos</p><p>um plano de fundo e uma imagem em destaque.</p><p>Figura 10 – Figura-fundo</p><p>Crédito: Temsa/Shutterstock.</p><p>12</p><p>3.6 Continuidade</p><p>Vemos formas harmoniosas ou contínuas, ao invés de imagens</p><p>descontinuadas.</p><p>Figura 11 – Visão contínua</p><p>Fonte: Elaborado com base em Abrahão et al., 2009.</p><p>Nem sempre o ambiente está apto a atender nossas necessidades. Ao</p><p>promovermos mudanças, o que diversas vezes é fundamental, devemos tomar</p><p>bastante cuidado a fim de evitar a ocorrência de acidentes. Além disso, as</p><p>condições ambientais que vimos no tema anterior exercem grande influência,</p><p>nesse contexto. Com a análise ergonômica do trabalho, que veremos ao longo de</p><p>nossas aulas, entenderemos isso melhor. É importante, nesse momento, saber</p><p>que há maneiras e procedimentos corretos que permitem adaptar o ambiente ao</p><p>trabalhador. Vejamos o exemplo do avanço tecnológico obtido com a chegada da</p><p>internet. Com esse acontecimento, afirmam Iida e Buarque (2016), deixamos de</p><p>ter informações em papel e passamos a ter acesso às informações on-line, ou</p><p>seja, de forma rápida e dinâmica, ultrapassando fronteiras até então existentes e</p><p>permitindo tomadas mais ágeis de decisão. O uso da cognição nos auxiliou nesse</p><p>processo.</p><p>Pensando, então, na ergonomia cognitiva, Abrahão et al. (2009) afirmam</p><p>que o seu grande objetivo é ampliar estudos sobre novos métodos de análise,</p><p>bem como sobre modelos explicativos da atividade cognitiva, em face do trabalho</p><p>e, além disso, entender como as informações são selecionadas pelo trabalhador</p><p>para ele saber agir de acordo com o que cada situação exige, captando, tratando</p><p>e utilizando as informações essenciais para tanto.</p><p>13</p><p>TEMA 4 – RISCOS ERGONÔMICOS NA ENFERMAGEM</p><p>Vimos vários assuntos e discutimos vários temas. Seria fácil e simples</p><p>pensarmos que os riscos existem porque condições não são estudadas, posturas</p><p>corretas não são adotadas e mobiliários não atendem as necessidades dos</p><p>usuários. Esse fato é verdadeiro, mas, para obtermos sucesso em nossas</p><p>análises e avaliações, é fundamental o envolvimento da alta administração de</p><p>uma instituição ou organização. Neste tema, vamos focar especialmente os riscos</p><p>que envolvem a atividade profissional de enfermagem, que comumente atua em</p><p>situações emergenciais.</p><p>De acordo com Alexandre (2001), entre os riscos ocupacionais existentes</p><p>na área de saúde estão as lesões que ocorrem no sistema musculoesquelético. A</p><p>maioria deve-se ao fato da existência de mobiliários, bem como de postos de</p><p>trabalho e de equipamentos que não oferecem boas condições ergonômicas. O</p><p>transporte e a movimentação de pacientes estão entre os procedimentos que mais</p><p>geram desconforto ao profissional. A fim de melhorar essa condição, Alexandre</p><p>(2001) indica que sejam avaliadas as condições físicas do paciente e que ele seja</p><p>preparado para que saiba de que forma será movimentado e, assim, possa</p><p>colaborar, se possível; preparar o ambiente, observando como se encontra e o</p><p>que será necessário fazer, como remover algum objeto, por exemplo, ou travar as</p><p>rodas de uma maca. Além disso, o profissional, para evitar que sofra lesões,</p><p>deverá estar treinado para manipular o paciente.</p><p>Batista et al. (2015) destacam aqueles mesmos problemas em unidades de</p><p>terapia intensiva (UTIs) para adultos. O paciente encontra-se em estado crítico de</p><p>saúde, e o enfermeiro despende grande esforço físico para movimentar o</p><p>acamado. Os membros superiores, os membros inferiores e a coluna do</p><p>enfermeiro, com isso, sofrem desgaste. Contribui para todo esse contexto o fato</p><p>de haver pouco espaço para se realizar movimentos e o ritmo de trabalho ser</p><p>intenso. O risco ergonômico pode ser reduzido quando o paciente apresenta</p><p>algum nível de consciência. A manutenção dos equipamentos, mobiliários mais</p><p>adequados também contribuem para diminuição dos riscos, uma vez que o</p><p>profissional de enfermagem é o mais afetado.</p><p>Analise a Figura 12. Nela, a enfermeira está auxiliando a paciente a se</p><p>levantar. No entanto, sua coluna se curva e a paciente apoia-se com firmeza.</p><p>Aparentemente, essa é uma ação corriqueira, cuja repetição pode provocar dores</p><p>14</p><p>na coluna, nas articulações, nas pernas e, em situações mais graves, lesões no(a)</p><p>profissional de enfermagem.</p><p>Figura 12 – Movimentação de uma paciente</p><p>Crédito: Alexander Raths/Shutterstock.</p><p>Entendemos, dessa forma, que as lesões por esforços repetitivos (LER) e</p><p>os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (Dort) acometem</p><p>sobremaneira o setor de enfermagem, assim como outros riscos ergonômicos</p><p>causados por carga horária excessiva, ambiente insalubre, estresse, recursos</p><p>humanos muitas vezes escassos, repetitividade de movimentos e sobrecarga.</p><p>Figura 13 – Exemplo de postura correta ao se transportar um paciente</p><p>Créditos: Gorodenkoff/Shutterstock.</p><p>15</p><p>Figura 14 – Outro exemplo de postura correta ao se transportar um paciente</p><p>Créditos: Gorodenkoff/Shutterstock.</p><p>Mota e Teles (2012) apresentaram um estudo sobre os riscos ergonômicos</p><p>que mais atingem os profissionais de enfermagem no ambiente hospitalar, entre</p><p>os quais se encontram o esforço físico, o carregamento de peso, a postura</p><p>inadequada e o espaço insuficiente para trabalhar, tendo como resultado</p><p>distúrbios osteomusculares. As autoras afirmam que o trabalho do setor de</p><p>enfermagem exige bastante “[...] esforço físico, de ritmo pesado e em</p><p>circunstância inadequadas, sem pausas para descanso” (Mota; Teles, 2012, p.</p><p>40). Além das posturas, os movimentos são repetitivos e muitos equipamentos</p><p>hospitalares emitem ruído alto, acarretando, possivelmente, diminuição da</p><p>produtividade nas atribuições dos profissionais de enfermagem.</p><p>Nas situações ora descritas, percebemos que é fundamental a adoção de</p><p>um programa que incentive a prática da ergonomia. É essencial que a alta</p><p>administração das instituições envolvidas seja enfática nesse sentido, mantendo</p><p>programas como de ginástica laboral, incentivando o trabalhador a praticá-la,</p><p>promovendo capacitações na área de ergonomia e valorizando o profissional de</p><p>enfermagem.</p><p>TEMA 5 – ASPECTOS AFETIVOS DO SER HUMANO NO LOCAL DE TRABALHO</p><p>A enfermagem, conforme Dias, Oliveira e Dias (2008), envolve duas áreas:</p><p>objetiva e subjetiva. A área objetiva trata do desenvolvimento de novas técnicas e</p><p>procedimentos; a área subjetiva cuida dos aspectos afetivos do trabalho, como a</p><p>sensibilidade e a intuição. Segundo Pinheiro e Bomfim (2009), a afetividade</p><p>enaltece a cor, o brilho e o calor das relações humanas. Sawaia (1999, citado por</p><p>Pinheiro; Bomfim, 2009, p. 51), a define como “[...] a tonalidade e a cor emocional</p><p>que impregna a existência do ser humano, compreendendo as emoções e os</p><p>16</p><p>sentimentos”. Contempla, afirmam Pinheiro e Bomfim (2009), características,</p><p>atitudes e valores pessoais.</p><p>Sem dúvida, em uma instituição hospitalar, o profissional de enfermagem é</p><p>quem mais interage com o paciente. Para que essa relação seja saudável, deve-</p><p>se estabelecer uma forma empática de contato para além dos procedimentos</p><p>técnicos, chamada de sentimento de identificação. Isso pode ser sinalizado pelo</p><p>profissional de diversas formas; porém, é pelo toque que se proporciona conforto,</p><p>calor humano e transmite-se a mensagem de que o paciente não está sozinho,</p><p>diante da dor e do sofrimento. Há uma troca, há empatia nessa relação</p><p>profissional/paciente. No toque instrumental, conforme Dias, Oliveira e Dias</p><p>(2008), não há contato físico; já no toque afetivo, o paciente tem a sensação de</p><p>proximidade e conforto.</p><p>Um estudo realizado por Prochet e Silva (2011) avaliou esses aspectos em</p><p>pacientes idosos. De acordo com a pesquisa, verificou-se que a percepção de</p><p>afetividade obteve melhor resultado nos comportamentos verbais, em relação aos</p><p>não verbais. Os idosos sentiram-se mais satisfeitos com a demonstração</p><p>de</p><p>sinceridade e honestidade por parte da equipe de enfermagem, no que trata do</p><p>comportamento verbal. O ponto negativo diz respeito à falta de explicação do</p><p>motivo que os levou a serem internados, bem como a execução do cuidado ter</p><p>sido bastante rápida. No aspecto não verbal, o que mais os satisfez foi a</p><p>expressão positiva transmitida pelo olhar. O que os incomodou foi o fato de não</p><p>serem ouvidos com atenção e interesse, além de não se fazer silêncio para ouvi-</p><p>los (Prochet; Silva, 2011).</p><p>Hospitais e clínicas são como empresas ou organizações, quando se fala</p><p>em humanização, dizem Vergara e Branco (2001). Nesse sentido, destaca-se a</p><p>maximização do retorno para os proprietários, agregando outros valores como a</p><p>melhoria da qualidade de vida e de trabalho, a mitigação das desigualdades e a</p><p>contribuição para o crescimento e desenvolvimento das pessoas; a preocupação</p><p>com ações para eliminar os desequilíbrios ecológicos, superar injustiças sociais,</p><p>apoiar atividades comunitárias e exercer-se a cidadania corporativa.</p><p>Um ambiente hospitalar humanizado, segundo Backes, Lunardi Filho e</p><p>Lunardi (2006), valoriza e respeita a dignidade do ser humano,</p><p>independentemente de ser ele um paciente, um familiar ou aquele que faz parte</p><p>do seu quadro funcional. Isso contribui, ainda, para promover condições para um</p><p>atendimento de qualidade, afirmam os autores. Os profissionais da área da saúde</p><p>17</p><p>necessitam de condições materiais e humanas para que se estabeleça contato</p><p>afetivo com os pacientes e com quem eles estiverem envolvidos. Ampliar</p><p>conhecimentos referentes à humanização em estabelecimentos de saúde implica</p><p>determinar um sistema ativo, criativo, participativo e ordenado de educação</p><p>(Backes; Lunardi Filho; Lunardi, 2006).</p><p>Dessa forma, apontam Santiago e Carvalho (2006), o aspecto</p><p>comportamental é mister para qualquer profissão, em especial na área da saúde.</p><p>As habilidades fundamentais para executar qualquer tipo de tarefa, especialmente</p><p>no setor da saúde, vão além dos aspectos cognitivos, dizem as autoras, e</p><p>abrangem também as características afetivas do trabalhador. E a área da saúde</p><p>destaca-se pelos inúmeros pormenores que dela fazem parte. Vale ressaltar que</p><p>as características cognitivas, psicomotoras e afetivas são intrínsecas às</p><p>atividades dos profissionais de enfermagem, tanto nos trabalhos mais simples</p><p>quanto nos mais complexos. Portanto, em sua formação, esses profissionais</p><p>devem viver experiências que lhes possibilitem desenvolver e/ou aprimorar tais</p><p>características, como assinalam Santiago e Carvalho (2006).</p><p>Além do que dissemos até agora, ressaltamos que é igualmente importante</p><p>o aspecto afetivo desenvolvido entre os profissionais no ambiente de trabalho.</p><p>Existir bem-estar e bom relacionamento gera um ambiente mais agradável e</p><p>produtivo, provendo ao local um aspecto mais humanizado. Qualquer ambiente</p><p>laboral deve apresentar condições que nos transmitam segurança e conforto.</p><p>Trabalharmos em uma instituição onde os fatores ambientais, como ruído,</p><p>temperatura, iluminação e cores respeitam as normas regulamentadoras nos</p><p>oferece segurança, bem-estar físico e mental.</p><p>18</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ABRAHÃO, J. I. et al. Introdução à ergonomia: da prática à teoria. São Paulo:</p><p>Edgard Blucher, 2009.</p><p>ALEXANDRE, N. M. C. Recomendações básicas: aspectos ergonômicos e</p><p>posturais nas atividades dos trabalhadores da área de saúde. In: FERREIRA, N.</p><p>L. et al. Manual sobre ergonomia. Campinas: Unicamp, 2001. p. 41-49.</p><p>Disponível em:</p><p><http://www.dgrh.unicamp.br/documentos/manuais/man_dsso_ergonomia.pdf>.</p><p>Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>BACKES, D. S.; LUNARDI FILHO, W. D.; LUNARDI, V. L. O processo de</p><p>humanização no ambiente hospitalar centrado no trabalhador. Revista de</p><p>Enfermagem Brasileira, v. 40, n. 2, p. 221-227, 2006. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/pdf/reeusp/v40n2/09.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>BATISTA, G. M.S. et al. Riscos ergonômicos dos profissionais de enfermagem em</p><p>unidade de terapia intensiva adulta: uma revisão de literatura. E&C: Engineering</p><p>na Science, v. 2, n. 5, p. 94-104, 2015.</p><p>BRASIL. Ministério do Trabalho. NR 17 – Ergonomia. In: _____. Portaria n. 3.214,</p><p>de 8 de junho de 1978. Diário Oficial da União, Brasília, 6 jul. 1978. Disponível</p><p>em: <https://enit.trabalho.gov.br/portal/images/Arquivos_SST/SST_NR/NR-</p><p>17.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>BREVIGLIERO, E.; POSSEBON, J.; SPINELLI, R. Higiene ocupacional: agentes</p><p>biológicos, químicos e físicos. 6. ed. São Paulo: Senac, 2011.</p><p>DIAS, A. B.; OLIVEIRA, L.; DIAS, M. G. S. O toque afetivo na visão do enfermeiro.</p><p>Revista Brasileira de Enfermagem, v. 61, n. 5, p. 603-607, 2008. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/pdf/reben/v61n5/a12v61n5.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>DUL, J.; WEERDMEESTER, B. Ergonomia prática. São Paulo: Blucher, 2017.</p><p>FARIA, N. M. Organização do trabalho. São Paulo: Atlas, 1984.</p><p>FREITAS, L. C. Manual de segurança e saúde. Coimbra: Edições Sílabo, 2016.</p><p>IIDA, I. Ergonomia: projeto e produção. São Paulo: Edgard Blucher, 2014.</p><p>IIDA, I.; BUARQUE, L. Ergonomia: projeto e produção. São Paulo: Edgard</p><p>Blucher, 2016.</p><p>19</p><p>MOTA, I. C. J. C.; TELES, N. S. B. Riscos ergonômicos aos quais os profissionais</p><p>de enfermagem estão expostos em ambiente hospitalar: uma revisão da literatura.</p><p>Revista Diálogos Acadêmicos, Fortaleza, v. 1, n. 1, p. 39-48, jan./jun. 2012.</p><p>PINHEIRO, G. R.; BOMFIM, Z. A. C. Afetividade na relação paciente e ambiente</p><p>hospitalar. Revista Mal-Estar e Subjetividade, Fortaleza, v. 9, n. 1, p. 45-74, mar.</p><p>2009. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/malestar/v9n1/03.pdf>.</p><p>Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>PROCHET, T. C.; SILVA, M. J. P. Percepção do idoso dos comportamentos</p><p>afetivos expressos pela equipe de enfermagem. Escola Anna Nery Revista de</p><p>Enfermagem, v. 15, n. 4, p. 784-790, 2011. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/pdf/ean/v15n4/a18v15n4>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>SANTIAGO, P. S. N.; CARVALHO, D. V. Habilidades afetivas na formação do</p><p>profissional de enfermagem. Revista Mineira de Enfermagem, v. 10, n. 3, p. 292-</p><p>296, 2006. Disponível em: <http://www.reme.org.br/artigo/detalhes/422>. Acesso</p><p>em: 1 dez. 2020.</p><p>TAYLOR, F. W. Princípios de administração científica. 8. ed. São Paulo: Ed</p><p>Atlas, 1995.</p><p>VERGARA, S. C.; BRANCO, P. D. Empresa humanizada: a organização</p><p>necessária e possível. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v.</p><p>41, n. 2, p. 20-30, 2001. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/pdf/rae/v41n2/v41n2a03>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>WISNER, A. Por dentro do trabalho: ergonomia – método e técnica. Trad.: Flora</p><p>M. G. Vezzá. São Paulo: FTD; Oboré, 1987.</p><p>Conversa inicial</p>