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Indaial – 2023 AdAptAdA Prof.ª Kauana Borges Marchini Siqueira 2a Edição EducAção FísicA Elaboração: Prof.ª Kauana Borges Marchini Siqueira Copyright © UNIASSELVI 2023 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI. Núcleo de Educação a Distância. Siqueira, Kauana Borges Marchini. Educação Física Adaptada e Saúde. Kauana Borges Marchini Siqueira. Indaial - SC: Arqué, 2022. 188p. ISBN ISBN Digital “Graduação - EaD”. 1. Educação 2. Esporte 3. Saúde CDD 796.087 Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 Prezado acadêmico, seja bem-vindo à disciplina de Educação Física Adaptada. Este livro foi elaborado para contribuir com a sua formação profissional, auxiliando em seus estudos e ampliando os seus conhecimentos de Educação Física Adaptada. Neste material, além dos aspectos que envolvem as pessoas com deficiência e o esporte adaptado, também abordaremos alguns pontos relevantes acerca da relação entre saúde e atividade física. Na Unidade 1, aprenderemos a Educação Física Adaptada, abordando aspectos históricos e sociais acerca das pessoas com deficiência. Além disso, vamos conhecer alguns tipos de deficiência e suas características. Ao final desta primeira unidade, veremos as modalidades que fazem parte do maior evento mundial do esporte adaptado, os Jogos Paralímpicos. Em seguida, na Unidade 2, estudaremos a Educação Física e a Inclusão. Conheceremos a legislação que rege a inclusão das pessoas com deficiência e como este tema é abordado nos documentos que orientam a nossa prática pedagógica na Educação Física. Também vamos ver e refletir sobre como podemos promover uma Educação Física inclusiva, conhecendo alguns jogos e atividades que podem auxiliar nesta prática. Por fim, na Unidade 3, abordaremos o tema da Atividade Física na Saúde e na Doença. Você sabe a importância da atividade física para a promoção da saúde? Co- nhece as estratégias para prescrição de exercícios para populações especiais, como hipertensos, diabéticos, cardiopatas, pessoas com câncer? Sabe quais são as reco- mendações mais atualizadas para a prática de atividade física? Tudo isso será respon- dido ao longo desta unidade. Agora, vamos iniciar nossa jornada pelos conhecimentos da desta disciplina. Bons estudos! Prof.ª Kauana Borges Marchini Siqueira APRESENTAÇÃO Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. 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A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. ENADE LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conheci- mento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa- res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! SUMÁRIO UNIDADE 1 - EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA .........................................................1 TÓPICO 1 - SOCIEDADE E AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA ................................ 3 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3 2 ASPECTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA ........................... 3 2.1 AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA AO LONGO DA HISTÓRIA ........................................ 4 2.2 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA ...............................................................7 3 O QUE É INCLUSÃO? ............................................................................................8 RESUMO DO TÓPICO 1 ............................................................................................ 9 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 10 TÓPICO 2 - DEFICIÊNCIAS: CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS ........................ 13 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 13 2 O QUE É DEFICIÊNCIA? ...................................................................................... 14 3 CONHECENDO AS DEFICIÊNCIAS ..................................................................... 14 3.1 DEFICIÊNCIA AUDITIVA .....................................................................................................15 3.2 DEFICIÊNCIA VISUAL ........................................................................................................16 3.3 DEFICIÊNCIA INTELECTUAL ............................................................................................18 3.3.1 Síndrome de Down ...................................................................................................19 3.4 DEFICIÊNCIA FÍSICA ..........................................................................................................21 3.4.1 Origem neurológica .................................................................................................. 22 3.4.2 Origem ortopédica ................................................................................................... 24Pessoas com TEA podem ter comprometimento intelectual, dificul- dades de linguagem e, de modo geral, apresentam pouca habilidade motora (VARA; CIDADE, 2020). 27 3.6 DEFICIÊNCIAS MÚLTIPLAS O termo “deficiência múltipla” é utilizado para caracterizar o conjunto de duas ou mais deficiências associadas, que podem ser de origem física, sensorial, emocional ou comportamental. Dentre os exemplos de deficiência múltipla temos a surdocegueira. 3.6.1 Surdocegueira Apesar de a denominação dar a entender que pessoas surdocegas não ouvem e nem enxergam, raramente isso acontece. De modo geral, pessoas com esta condição apresentam dificuldades no uso dos sentidos de distância (visão e audição), de modo que recebem os estímulos, mas as informações são distorcidas (VARA; CIDADE, 2020). As causas da surdocegueira podem ser congênitas ou adquiridas, podendo ocorrer de maneira concomitante ou separada. Um exemplo é a Síndrome de Usher, principal causa de surdocegueira, na qual há uma perda auditiva no nascimento e perda progressiva da visão (VARA; CIDADE, 2020). INTERESSANTE Você já ouviu falar em Victorine Morriseau e Helen Keller? Victorine Mor- riseau é considerada a primeira mulher surdocega a ser educada formal- mente, por volta do ano de 1789, em Paris, França. Helen Keller também era surdocega e iniciou sua alfabetização no ano de 1887, no Instituto Perkins, nos Estados Unidos. Ela foi a primeira surdocega a se graduar numa universidade, ela falava cinco idiomas e escreveu três livros. Fonte: VARA, M. F. F.; CIDADE, R. E. Educação física adaptada. Curitiba: Intersaberes, 2020. DICA Borboletas de Zagorky é um documentário produzido pela BBC que mostra as potencialidades das pessoas surdocegas. Assista em: https://bit.ly/3pHereC. 28 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • O termo correto para se referir às pessoas que possuem alguma deficiência é “pessoa com deficiência”. • A pessoa com deficiência é aquela que apresenta impedimentos físicos, mentais, sensoriais ou intelectuais de interagir e participar plenamente da sociedade em condição de igualdade com as demais pessoas. • Apesar das limitações físicas e de movimentação, em geral, pessoas com paralisia cerebral não possuem nenhum comprometimento cognitivo. • Mesmo não sendo consideradas deficiências, os transtornos de desenvolvimento são condições que exigem um preparo e uma adaptação do ambiente para a inclusão de pessoas com essas condições. 29 AUTOATIVIDADE 1 A deficiência, por uma visão biológica, pode ser entendida como um problema funcional ou estrutural do corpo, que leva o indivíduo a uma incapacidade ou impedimento por consequência dessas alterações. Sobre os tipos de deficiência, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A surdez é uma deficiência física, que pode ser congênita ou adquirida, em que a pessoa afetada não é capaz de ouvir nenhum som. ( ) A cor das bengalas é utilizada para sinalizar diferentes tipos de deficiência visual, a branca é usada por pessoas cegas e a verde para os que possuem baixa visão. ( ) A síndrome de Down é causada por uma desordem genética chamada trissomia do cromossomo 21. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – V. d) ( ) F – F – V. 2 Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Espectro do Autista são transtornos de neurodesenvolvimento. Acerca deste assunto, analise as sen- tenças a seguir: I- Transtornos de neurodesenvolvimento são condições que se manifestam na infância e, clinicamente, se manifestam por excesso ou déficit em atingir alguns marcos esperados para a idade. II- O Transtorno do Espectro Autista se caracteriza por um déficit na comunicação social, compensado por um aumento nas habilidades motoras, e é causado por alterações genéticas. III- Uma das manifestações do TDAH é a desatenção, o que faz a pessoa ter dificuldade em manter o foco em atividades específicas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 30 3 A deficiência intelectual é definida como um comprometimento intelectual e adaptativo, que limita o raciocínio, a aprendizagem e a resolução de problemas. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A deficiência intelectual nem sempre tem uma causa específica, mas pode ser ocasionada por condições genéticas ou acontecimentos pré-natais, durante o nascimento ou após o nascimento da criança. b) ( ) A deficiência intelectual é classificada em cinco níveis, do limítrofe ao profundo. Apesar dos diferentes níveis de comprometimento intelectual, pessoas com este tipo de deficiência não possuem limitações físicas, sendo bastante independen- tes nas tarefas da vida diária. c) ( ) O QI (Quociente de Inteligência) é a escala utilizada para mensurar o grau de comprometimento intelectual. Quanto maior a pontuação nos testes de QI, maiores as limitações de aprendizagem. d) ( ) A síndrome de Down é um tipo de deficiência intelectual causada por uma falta de oxigenação no momento do nascimento da criança. 4 As deficiências físicas se caracterizam por alterações funcionais ou anatômicas que prejudicam a independência do sujeito, comprometem a realização dos padrões mo- tores esperados e interferem na sua movimentação ou locomoção. Descreva como são classificadas as deficiências físicas e exemplifique cada uma delas. 5 Para a definição de deficiência, alguns autores apontam que há um modelo médico e um modelo social, que devem ser considerados para a elaboração de um conceito inclusivo do que é deficiência. Disserte sobre esses dois modelos. 31 TÓPICO 3 - ESPORTE ADAPTADO E PARALÍMPICO 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 Você sabe o que é esporte adaptado e esporte paralímpico? Pode parecer que se trata exatamente da mesma coisa, mas não é bem assim. Esporte adaptado é uma nomenclatura que abrange modalidades esportivas realizadas pelas pessoas com deficiência tanto com o objetivo de inclusão quanto de aprimoramento da aptidão física e de questões motoras. Fazem parte dos esportes adaptados tanto as modalidades convencionais que tiveram suas características modificadas para a participação das pessoas com deficiên- cia, como é o caso do vôlei sentado ou do basquete em cadeira de rodas, quanto mo- dalidades criadas especialmente para pessoas com deficiência, como o goalball, exclu- sivo para pessoas com deficiência visual. De modo geral, podemos afirmar que qualquer modalidade esportiva pode ser adaptada para a inclusão de pessoas com deficiência. Já o esporte paralímpico são aquelas modalidades adaptadas reconhecidas pelo Comitê Paralímpico Internacional. Inclui-se nesta categoria as modalidades presentes nas Paralimpíadas de Verão e de Inverno. Para a participação nos jogos oficiais desta competição, além dos índices exigidos para a classificação do atleta e/ou da equipe, é necessária uma avaliação médica e funcional do atleta. Neste terceiro tópico, vamos conhecer um pouco mais acerca do esporte adap- tado e paralímpico, além de discorrer sobre as principais características das modalida- des que compõem esse evento mundial do esporte adaptado. 2 JOGOS PARALÍMPICOS Os melhores atletas do mundo do esporte adaptado se reúnem a cada quatro anos nos Jogos Paralímpicos. Segundo do mundo, atrás apenas das Olimpíadas, os Jogos Paralímpicos é o maior evento quando se trata de esporte para pessoas com deficiência. Desde o ano de 2012, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos compartilham a mesma cidade-sede. O movimento que deu origem aos Jogos Paralímpicos nasceu na Europa, com uma competição internacional, no ano de 1952, em Stoke Mandeville, Inglaterra. Essa edição contou com 130 atletas com lesão medular de apenas dois países, Inglaterra e Holanda. Em 1960, foi organizada,em Roma, a competição que é considerada a primeira edição dos Jogos Paralímpicos. 32 Ao longo do tempo, outros grupos de pessoas com deficiência foram sendo acolhidos na competição. Na primeira edição dos Jogos Paralímpicos, em 1960, partici- param cerca de 400 atletas em oito modalidades. Já na última edição, em Tóquio 2020, foram mais de quatro mil atletas que competiram nas 22 modalidades que compõem os Jogos (CPB, 2022). O Brasil conta com uma participação de destaque nas edições dos Jogos Paralímpicos. A primeira participação do país foi em 1972, em Heidelberg, Alemanha. A primeira medalha, de prata, veio quatro anos depois na edição de Toronto, no Canadá, e a primeira medalha de ouro, em 1982, em Stoke Mandeville, Inglaterra. Na última edição dos Jogos, em Tóquio, o Brasil contou com a participação de 260 atletas, e alcançou a sétima colocação geral, com 22 medalhas de ouro, 20 de prata e 30 de bronze (CPB, 2022). Os Jogos Paralímpicos têm uma edição de verão e de inverno, assim como os Jogos Olímpicos. A primeira edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno ocorreu em Ör- nsköldsvik, na Suécia, em 1976. Cada um dos eventos conta com modalidades próprias: • Modalidades de Verão: atletismo; badminton, basquete em cadeira de rodas; bocha; canoagem; ciclismo; esgrima em cadeira de rodas; futebol de cegos; futebol PC; goalball; halterofilismo; hipismo; judô; natação; badminton; taekwondo; remo; rugby em cadeira de rodas; tênis de mesa; tênis em cadeira de rodas; tiro com arco; tiro esportivo; triatlo; vôlei sentado. • Modalidades de Inverno: esqui cross-country; curling em cadeira de rodas; esqui alpino; biatlo; hóquei no gelo; snowboard. NOTA O termo paralímpico é uma associação entre o prefixo grego “para”, que significa paralelo, e o termo “olímpico”, representa a condição paralela en- tre os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Cabe destacar que, por muitos anos, foi utilizado o termo paraolímpico, unindo “paraplegia” e “olimpíada”, mas o fato de envolver outras deficiências, além de modificações linguísti- cas resultaram na mudança do termo. 3 MODALIDADES PARALÍMPICAS Vamos conhecer algumas características das modalidades que compõem os Jogos Paralímpicos de Verão e de Inverno? 33 3.1 MODALIDADES PARALÍMPICAS DE VERÃO Os Jogos Paralímpicos incluem pessoas com diferentes deficiências, que são divididas, basicamente, em seis grupos: amputados, lesão medular, paralisia cere- bral, deficiência mental, deficiência visual e o grupo denominado “les autres” (os outros, em francês), que agrupa atletas que não se encaixam nas outras cinco catego- rias. Nem sempre a modalidade recebe atletas de todos os grupos, algumas são exclu- sivas para tipos específicos de deficiência. Além das regras de cada uma das modalidades, os atletas também devem obedecer a classificação funcional. Esta tem por objetivo determinar se a pessoa realmente possui alguma deficiência e, principalmente, agrupar os atletas de modo que ninguém obtenha vantagem por favorecimento de condições físicas, garantindo, desta forma, uma igualdade entre os competidores. 3.1.1 Atletismo Nos Jogos Paralímpicos, esta modalidade contempla atletas com deficiência física, visual e intelectual, de ambos os sexos. Fazem parte do atletismo as provas de corrida, saltos, lançamentos e arremessos, conforme detalhado no Quadro 4: Quadro 4 – Provas de atletismo dos Jogos Paralímpicos FONTE: adaptado de CPB (2022) PISTA CAMPO RUA Velocidade: 100 m, 200 m, 400, rev. 4 x 400 m e rev. 4 x 100 m Meio fundo: 800 m, 1.500 m Fundo: 5.000, 10.000 m Salto em distância Salto em altura Salto Triplo Lançamento de disco e club Lançamento de dardo Arremesso de peso Maratona (42 km) Meia-maratona (21 km) Nesta modalidade, os atletas são divididos em classes sinalizadas por números e letras, os números indicam o grau de comprometimento (quanto menor, mais grave é a deficiência) e as letras, o tipo de esporte. Os que disputam provas de corrida (velocidade, meio fundo, fundo e maratona) e aqueles que fazem as provas de saltos, levam a letra T (track) em sua classe: • T11 a T13: deficiências visuais. • T20: deficiências intelectuais. • T31 a T38: paralisados cerebrais (31 a 34 para cadeirantes: 35 a 38 para andantes). • T40 e T41: anões. 34 • T42 a T44: deficiência nos membros inferiores. • T45 a T47: deficiência nos membros superiores. • T51 a T54: competem em cadeiras de rodas. • T61 a T64: amputados de membros inferiores com prótese. Os atletas que participam das provas de arremessos e lançamentos, são identificados com a letra F (field) em sua classificação funcional: • F11 a F13: deficiências visuais. • F20: deficiências intelectuais. • F31 a F38: paralisados cerebrais (31 a 34 para cadeirantes: 35 a 38 para andantes). • F40 e F41: anões. • F42 a F46: amputados ou deficiência nos membros superiores ou inferiores (F42 a F44 para membros inferiores e F45 a F46 para membros superiores). • F51 A F57: competem em cadeiras de rodas (sequelas de poliomielite, lesões medu- lares, amputações). IMPORTANTE Os atletas com deficiência visual possuem atletas-guia e de apoio. Essa utilização varia de acordo com a classe funcional. Nas provas de 5000 m, de 10.000 m e na maratona, os atletas das classes T11 e T12 podem ter o auxílio de até dois atletas-guia durante o percurso. No caso de pódio, recebe medalha o atleta-guia que terminar a prova. 3.1.2. Badminton O badminton adaptado é uma modalidade recente dos Jogos Paralímpicos, tendo sua estreia nos Jogos de Tóquio 2020. Participam da modalidade deficientes físicos, tanto aqueles que usam cadeira de rodas, quanto os andantes. As provas podem ser individuais, duplas (masculinas e femininas) e mistas (com mistura de atletas de diferentes classes). As classes do badminton são: • WH1 e WH2: atletas com cadeiras de rodas. • SL3 e SL4: atletas com deficiência nos membros inferiores que andam. • SU5: atletas com deficiência nos membros superiores. • SS6: anões. 35 3.1.3 Basquete em cadeira de rodas Inspirado no basquete convencional, o basquete em cadeira de rodas é uma modalidade que envolve pessoas com deficiência física e motora, dos sexos masculino e feminino. As cadeiras são adaptadas e padronizadas, conforme estabelecido pela Federação Internacional de Basquete em Cadeira de Rodas. As medidas da quadra, altura das cestas e regras seguem a padronização do basquete olímpico, e cada atleta deve quicar, arremessar ou passar a bola a cada dois toques dados na cadeira. A partida tem a duração de quatro quartos de dez minutos. Na classificação fun- cional, os atletas são avaliados conforme comprometimento físico-motor, recebendo uma pontuação entre 1 e 4,5 (quanto maior a deficiência, menor a pontuação). Cada equipe conta com cinco atletas em quadra e cada time não pode ultrapassar o total de 14 pontos. Isso visa impossibilitar que a equipe só tenha atletas com menor comprometimento. 3.1.4 Bocha A bocha é um esporte adaptado que contempla atletas de ambos os sexos, deficiência severa ou elevado grau de paralisia cerebral. Ela pode ser jogada de forma individual, duplas ou equipes de três atletas. A competição consiste em lançar bolas de cor (azul ou vermelhas) o mais próximo possível da bola alvo (também chamada de Jack). Para isso, os atletas ficam em um espaço demarcado, chamado de box. Os atletas devem lançar as bolas dentro dos limites da quadra, para este lançamento é permitido usar as mãos, os pés e instrumentos de auxílio. Atletas com maior comprometimento contam com a ajuda de um assistente desportivo (calheiros) em seu lançamento. A bocha conta com quatro classes na classificação funcional, conforme o grau de deficiência e a necessidade de auxílio. • BC1: o atleta apresenta paralisia cerebral com disfunção motora que afeta todo o corpo. Os ajudantes podem estabilizar a cadeira de rodas do jogador e entregar a bola, quando pedido. • BC2: o atleta apresenta paralisia cerebral com disfunção motora que afeta todo o corpo,mas com menor comprometimento. Não é permitido ter ajudantes. • BC3: o atleta pode apresentar paralisia cerebral ou uma deficiência de origem não cerebral ou degenerativa. Nesta classe estão os atletas com maior comprometimento motor. É permitido aos atletas usar instrumento auxiliar (ponteira e calha) e ajuda de um assistente desportivo. • BC4: os atletas nesta classe também possuem deficiência severa, com grave disfun- ção locomotora nos quatro membros. É permitido assistência apenas aos atletas que jogam com o pé. 36 3.1.5 Canoagem A canoagem paralímpica fez sua estreia nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016. Nesta modalidade competem homens e mulheres com deficiência físico-motora. Nos jogos são disputadas apenas as provas de caiaque velocidade 200 m em águas calmas. A classificação funcional é feita com base no grau de movimentação dos membros superiores, inferiores e o tronco. As classes KL contemplam os atletas do caiaque, e VL os atletas que usam embarcação Va’a. • KL1: somente os braços na remada. • KL2: tronco e braços na remada. • KL3: braços, tronco e pernas na remada. 3.1.6 Ciclismo O ciclismo adaptado engloba atletas de ambos os sexos com paralisia cerebral, deficiência visual, amputação e lesão medular (cadeirantes) e segue as regras da União Internacional de ciclismo. A provas podem ser de pista (velódromo) ou estrada, e são permitidos quatro tipos diferentes de bicicletas: • Convencionais: bicicleta para atletas amputados e com outras deficiências físico- motoras. Podem ter adaptações específicas para o uso de câmbios e freios. • Triciclos: possuem duas rodas atrás para dar mais equilíbrio. Usadas por atletas com paralisia cerebral. • Handbikes: são impulsionados pelos braços. São para atletas com paraplegia e tetraplegia. • Tandem: são bicicletas de dois lugares, utilizadas por atletas com deficiência visual. O guia vai na frente e o atleta atrás. Com relação à classificação funcional, os atletas desta modalidade são divididos em quatro classes: • H1 a H5: atletas impulsionam a bicicleta adaptada (handbike) com os braços. • T1 e T2: ciclistas com paralisia cerebral cuja deficiência impede de andar numa bicicleta convencional (competem em triciclos). • C1 a C5: atletas competem em bicicletas convencionais. Classes direcionadas aos competidores com deficiência físico-motora e amputados. • Tandem: classe destinada aos deficientes visuais. As bicicletas são de dois lugares e o ciclista da frente, ou “piloto”, enxerga normalmente. 37 3.1.7 Esgrima em cadeira de rodas A esgrima em cadeira de rodas é uma modalidade tradicional, presente desde a primeira edição dos Jogos Paralímpicos. Envolve atletas com deficiências motoras (amputação, lesão medular ou paralisia cerebral), de ambos os sexos. As regras são semelhantes às da esgrima olímpica, com duelos de florete, espada e sabre. A competição acontece em pistas de 4 metros de comprimento e 1,5 metros de largura. Em cada tipo de prova há uma proteção específica para o atleta e para a cadeira, com regras de pontuação de acordo com o local de toque do implemento. • Florete: ponta da lâmina toca no tronco do rival. • Espada: ponta da arma toca em qualquer parte acima do quadril do rival. • Sabre: ponta da arma ou lâmina toca em qualquer parte acima do quadril do rival. Para as competições, os atletas são classificados da seguinte maneira: • A: atletas com mobilidade no tronco; amputados ou com limitação de movimento. • B: atletas com menor mobilidade no tronco e equilíbrio. • C: atletas com tetraplegia, com comprometimento do movimento do tronco, mãos e braços. 3.1.8 Futebol de cegos (futebol de cinco) O futebol de cegos é uma modalidade adaptada para atletas do sexo masculino com deficiência visual. Nos Jogos Paralímpicos, é uma modalidade exclusiva para atletas da classe B1 (sem percepção visual em ambos os olhos ou, com percepção luminosa, mas incapacidade de reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância ou direção). O futebol de cegos baseia-se nas regras do futsal, inclusive com medida da quadra semelhante, que, neste caso, tem bandas junto às linhas laterais que impedem que a bola saia. Cada time é formado por cinco jogadores: um goleiro (sem deficiência visual) e quatro jogadores na linha (com deficiência visual). A bola possui guizos para que os atletas consigam ouvi-la, por este motivo as partidas são silenciosas, podendo haver manifestação da torcida apenas na hora do gol. O jogo tem duração de dois tempos de 15 minutos com dez minutos de intervalo. Os jogadores usam uma venda nos olhos, caso eles a toquem, cometerão uma falta. Com cinco infrações, o atleta é expulso de campo e pode ser substituído por outro jogador. Além disso, há no jogo um guia (chamador), que fica atrás do gol adversário com o objetivo de orientar os atletas de seu time. O chamador pode dizer onde os jogadores devem se posicionar e para onde devem chutar. O técnico e goleiro também auxiliam em quadra. 38 3.1.9 Futebol PC (futebol de sete) O futebol PC é uma modalidade adaptada baseada no futebol, da qual participam atletas do sexo masculino, com paralisia cerebral, decorrente de sequelas de traumatismo cranioencefálico ou de acidentes vasculares cerebrais. Os atletas são classificados em três classes: • FT1: são os atletas que possuem comprometimento severo. • FT2: atletas que possuem comprometimento mediano. • FT3: os atletas possuem comprometimento leve. É obrigatório pelo menos um atleta da classe FT1 e, no máximo, um da FT3 em campo, durante toda a partida. Cada equipe possui sete jogares, sendo um goleiro e seis na linha, além de cinco atletas reservas. A partida tem a duração de dois tempos de 30 minutos, com intervalo de dez minutos entre eles. 3.1.10 Goalball O Goalball é uma modalidade exclusiva de competições paradesportivas para atletas com deficiência visual de ambos os sextos. A equipe é composta por três atletas, que podem ser cegos ou ter baixa visão (todos devem jogar vendados). O objetivo é fazer gol na baliza adversária. A quadra tem dimensões semelhantes à quadra de vôlei, contando com um gol de cada lado. O jogo é dividido em dois tempos de 12 minutos, com três minutos de intervalo. A bola usada no goalball é de borracha e possui um guizo em seu interior. Assim como no futebol de cegos, o jogo deve ser silencioso. Os jogadores podem ser classificados em três classes, que competem juntas: • B1: os atletas são cegos totais ou com percepção de luz, no entanto, não conseguem reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância. • B2: os atletas possuem percepção de vultos. • B3: os atletas conseguem definir imagens. 3.1.11 Halterofilismo O halterofilismo é uma modalidade que envolve atletas amputados e com paralisia cerebral. De acordo com as regras, os atletas devem conseguir estender completamente os braços com não mais do que 20 graus de perda em ambos os cotovelos para realizar um movimento válido. Assim como no halterofilismo olímpico, os atletas são classificados por peso corporal. 39 3.1.12 Hipismo O hipismo é uma modalidade adaptada que engloba pessoas com deficiência física ou visual, em provas de adestramento individual, estilo livre individual e por esqui- pes. A classificação funcional é feita conforme a deficiência: • Grau I: cadeirantes com comprometimento severo nos quatro membros. • Grau LI: cadeirantes ou andantes com boa funcionalidade dos braços, atletas com comprometimento unilateral severo ou cegos. • Grau LLI: andantes com comprometimento unilateral, moderado nos quatro membros ou severo nos braços, atletas com deficiência visual severa. • Grau LV: comprometimento leve em um ou dois membros, atletas com deficiência visual moderada. • Grau V: comprometimento leve em um ou dois membros, atletas com deficiência visual leve. 3.1.13 Judô O judô paralímpico é uma modalidade adaptada para atletas com deficiência visual de ambos os sexos, que segue as regras da modalidade olímpica, com a diferença que osatletas iniciam a luta já em contato com o quimono do oponente. Além da categorização por peso, os atletas seguem a classificação funcional (J1 e J2). Nos Jogos Paralímpicos atletas de diferentes classes podem competir juntos. • J1 (antigo B1): atletas sem nenhuma percepção em ambos os olhos até a percepção de luz com incapacidade de reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância ou direção. • J2 (antigos B2 e B3): atletas que conseguem definir imagens e percepção de vultos. 3.1.14 Natação A natação para atletas deficientes inclui aqueles com limitações físico motoras, deficiência visual e deficiência intelectual de ambos os sexos. Dentre as adaptações estão largadas feitas da água para atletas com maior comprometimento e o aviso do tapper, com um toque de bastão, no momento da virada para atletas cegos. A classificação começa com a letra S (swimming) e o atleta pode ter classificações diferentes para o nado peito (SB) e o medley (SM). Quanto maior o número de classe, menor o comprometimento: • S1 a S10 / SB1 a SB9 / SM1 a SM10: atletas com limitações físico-motoras. • S11, SB11, SM11 S12, SB12, SM12 S13, SB13, SM13: atletas com deficiência visual. • S14, SB14, SM14: atletas com deficiência intelectual. 40 3.1.15 Remo Podem participar das competições de remo atletas do sexo masculino ou feminino com deficiência física ou visual. O percurso tem a distância de 1000 m em linha reta. Os barcos podem ser individuais (single-skiff), para duplas (double-skiff) ou para quatro pessoas com timoneiro (4+), mas somente a prova de tripulação 4+ está presente no programa Paralímpico. As classes são determinadas de acordo com a capacidade motora do atleta e cada classe utiliza um tipo de barco. • AS: os atletas usam braços e ombros para remar. Tripulação masculina ou feminina. Barco single-skiff. • TA: os atletas usam tronco e braços para remar. Tripulação mista. Barco double-skiff. • LTA: os atletas usam perna, tronco e braços. Tripulação mista (dois homens, duas mulheres e um timoneiro). Barco 4+ com assento deslizante. 3.1.16 Rugby em cadeira de rodas O rugby em cadeira de rodas contempla atletas tetraplégicos (ou deficientes com sequelas parecidas com o de tetraplégico) de ambos os sexos. Não há divisão de gênero nas equipes, que são formadas por quatro atletas, além de oito reservas. O jogo ocorre numa quadra de 15 m x 28 m, com duração de quatro tempos de oito minutos cada, e tem por objetivo ultrapassar a linha do gol com as duas rodas da cadeira e a bola nas mãos. Os atletas são divididos em sete classes de pontuação (0,5 a 3,5), conforme a mobilidade. A somatória das classes dos atletas em quadra não pode ultrapassar oito pontos. Cada mulher em quadra. Acrescenta 0,5 pontos ao limite da equipe. 3.1.17 Taekwondo O taekwondo é uma modalidade de luta que passou a integrar o programa dos Jogos Paralímpicos a partir de Tóquio 2020. A competição possui regras semelhantes às dos Jogos Olímpicos, com participação de ambos os sexos. Os atletas são classificados por peso e de acordo com a deficiência/mobilidade. Fora do programa paralímpico há outras categorias, mas durante os Jogos são permitidas apenas duas: • K43: atletas com amputação bilateral do cotovelo até a articulação da mão, dis- melia bilateral. • K44: atletas com amputação unilateral do cotovelo até a articulação da mão, dismelia unilateral, monoplegia, hemiplegia leve e diferença de tamanho nos membros inferiores. 41 3.1.18 Tênis de mesa No tênis de mesa, participam atletas de ambos os sexos que sejam cadeirantes, amputados ou com paralisia cerebral. Os jogos podem ser individuais, duplas ou equipes, numa disputa de melhor cinco sets, que podem chegar a 11 pontos. A única diferença em relação à modalidade olímpica está no saque para os cadeirantes. Os atletas são divididos em onze classes, de acordo com a mensuração do alcance de movimentos, da força muscular, das restrições locomotoras, do equilíbrio na cadeira de rodas e a da habilidade de segurar a raquete. • 1, 2, 3, 4 e 5: atletas cadeirantes. • 6, 7, 8, 9, 10: atletas andantes. • 11: atletas andantes com deficiência intelectual. 3.1.19 Tênis em cadeira de rodas O tênis em cadeira de rodas é bastante semelhante ao esporte convencional. Sua adaptação se dá em permitir que a bola quique duas vezes no chão antes de ser rebatida. Esta modalidade inclui homens e mulheres com deficiência de locomoção. As provas podem ser individuais ou em duplas, e os atletas se dividem em duas classes: • Open ou aberta: atletas com alguma deficiência nos membros inferiores. • Quad ou tetra: atletas com deficiência em três ou mais extremidades do corpo. 3.1.20 Tiro com arco O tiro com arco é disputado em provas individuais ou em equipe (trio), com regras semelhantes às do esporte convencional. Podem participar desta modalidade atletas com paralisia cerebral, com deficiência física e múltiplas deficiências de ambos os sexos. As classes funcionais são determinadas pela capacidade do atleta em ficar em pé e/ou locomover tronco e braços: • ARST: atletas sem deficiência nos braços, mas possuem grau de perda de força muscu- lar nas pernas, de coordenação ou mobilidade articular. Podem atirar em pé ou sentado. • ARW1: atletas com deficiência nos braços e nas pernas, com movimentos limitados e pouco controle dos braços e pouco ou nenhum controle do tronco. • ARW2: atletas com paraplegia e mobilidade articular limitada nos membros inferiores e que precisam da cadeira de rodas para uso diário. 42 3.1.21 Tiro esportivo O tiro esportivo é uma modalidade que inclui homens e mulheres com deficiência física nos membros superiores ou inferiores. Nos Jogos Paralímpicos são utilizadas carabina e pistolas para tiros com distâncias entre 10 e 50 metros. Dependendo das limitações existentes (grau de funcionalidade do tronco, equilíbrio sentado, força muscular, mobilidade de membros superiores e inferiores), e das habilidades que são requeridas no tiro, os atletas são divididos em duas classes: • SH1: atiradores de pistola e carabina que não requerem suporte para a arma. • SH2: atiradores de carabina que não possuem habilidade para suportar o peso da arma com seus braços e precisam de um suporte para a arma. 3.1.22 Triatlo O triatlo começou a ser disputado nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016. Participam da disputa atletas cadeirantes, amputados e cegos, de ambos os sexos. O percurso da prova consiste em 750 m de natação, 20 km de ciclismo e 5 km de corrida. A classificação funcional com seis classes: • SH1: cadeirantes competem na PTWC. Utilizam handcycle e cadeira de rodas para corrida. A classe ainda é dividida nas subclasses PTWC1 (deficiências mais severas) e PTWC2 (menos severas). • PTS2, PTS3, PTS4 e PTS5: atletas com deficiências físico-motoras e paralisia cerebral andantes competem nestas classes, sendo a PTS2 para deficiências mais severas e PTS5 para deficiências mais moderadas. • PTVI: classe destinada a triatletas cegos. As subclasses seguem as definições da IBSA (Federação Internacional de Esportes para Cegos), ou seja, são divididos em PTVI1, PTVI2 e PTVl3. 3.1.23 Vôlei sentado O vôlei sentado é uma modalidade adaptada para homens e mulheres com deficiências físicas ou de locomoção. Dentre as adaptações, estão o tamanho da quadra, que é menor, e a rede mais baixa do que o esporte convencional, além da possibilidade de bloqueio de saque. Exceto nos deslocamentos, os jogadores devem manter o contato com o solo durante todo o tempo de jogo. Os atletas são classificados em dois grupos: • VS1: nesta classe estão os atletas com uma deficiência que tem maior impacto nas funções essenciais da modalidade, por exemplo, amputados de perna. • VS2: nesta classe encontram-se os atletas com uma deficiência com menor interfe- rência nas funções em quadra, por exemplo, amputação de parte do pé, amputação de polegar. 43 INTERESSANTE Acadêmico, você percebeu que os Jogos Paralímpicos contemplam as defici- ênciasfísicas, intelectuais e visuais, mas não incluem os surdos? Pessoas com deficiência auditiva possuem um evento específico, conhecido como Surdo- limpíadas. As modalidades seguem as mesmas regras das competições con- vencionais, apenas com adaptação dos sinais sonoros por visuais. A primeira edição desses jogos, que acontecem a cada quatro anos, ocorreu em 1924, em Paris. A Surdolimpíadas também contempla modalidades de verão e de inverno. Para participar das competições, é preciso que o atleta tenha perda auditiva de 55 decibéis no seu melhor ouvido. Não é permitido o uso de recur- sos para a deficiência, como aparelhos auditivos e implantes cocleares. 3.2 MODALIDADES PARALÍMPICAS DE INVERNO Assim como os Jogos Paralímpicos de Verão ocorrem seguidos dos Jogos Olímpicos, as edições das Paralimpíadas de Inverno também ocorrem da mesma forma. Sendo hospedados na mesma cidade-sede, os atletas que participam dos jogos de inverno também são divididos em seis categorias de deficiência: amputação, lesão me- dular, paralisia cerebral, deficiência intelectual, deficiência visual e “les autres”. Apesar do Brasil não ter uma tradição em esportes de neve, em virtude do seu clima tropical, o país já participou de três edições dos jogos, inclusive na de Pequim 2022, mas ainda não faturou nenhuma medalha. Agora, vamos conhecer as modalidades adaptadas de inverno! 3.2.1 Esqui cross-country No esqui cross-country participam atletas com deficiência física e visual, de ambos os sexos. Eles participam de provas curtas (de velocidade), médias (5 km a 20 km) e longas (10 km a 20 km) ou no revezamento por equipes. Atletas com deficiência física competem nas categorias sitting, com o atleta sentado, utilizando uma cadeira equipada com um par de esquis, ou standing, com o atleta em pé. Atletas com deficiência visual competem na categoria visually impaired. Os atletas das classes B2 e B3 podem competir acompanhado de guia. 44 3.2.2 Curling em cadeira de rodas O curling em cadeira de rodas é uma adaptação do curling (um esporte coletivo praticado em pista de gelo, que tem como objetivo lançar pedras de granito o mais próximo possível do alvo, para isso usa-se varredores). Homens e mulheres compõe as equipes mistas, que são abertas a qualquer pessoa com dificuldade de locomoção. 3.2.3 Esqui alpino Esta modalidade é uma adaptação do esqui alpino convencional. Participam desta modalidade atletas de ambos os sexos com deficiência física ou visual. A modalidade apresenta as disciplinas Downhill e Super-G, de velocidade; as Slalom e Slalom Gigante, consideradas provas técnicas; e Super Combinado, que consiste numa combinação de Slalom e Downhill ou Super-G. O esqui alpino possui três categorias: • LW1 a LW9: são para atletas com alguma amputação que competem em pé. • LW10 a LW12: atletas que possuem alguma deficiência de paraplegia e competem sentados. • B1-B3: para atletas com deficiência visual. Os atletas com deficiência visual podem usar um guia, neste caso, o guia inicia a prova sem passar pelo portão inicial, permitindo que ele esteja um pouco à frente do atleta para oferecer a ele instruções verbais. 3.2.4 Biatlo O biatlo combina duas disciplinas distintas, o esqui cross-country e o tiro esportivo, exigindo do atleta resistência física e capacidade de precisão de tiro. Esta modalidade contempla atletas com deficiência física ou visual, de ambos os sexos. Os atletas com deficiência física são divididos nas categorias sentado ou em pé. O biatlo paralímpico consiste em 7,5 km, dividido em três etapas de 2,5 km, entre as duas etapas os atletas devem acertar dois alvos localizados a uma distância de 10 m. Os rifles dos atletas cegos são equipados com óculos eletroacústicos. Quanto mais próximo do alvo o atleta aponta, mais alto é o tom. 45 3.2.5 Hóquei no gelo O hóquei no gelo é uma modalidade adaptada praticada por homens e mulheres com deficiência física. Ao invés dos patins, como na modalidade convencional, os atletas usam trenós, com duas lâminas, duas varas (uma tem uma ponta para empurrar e outra para o tiro). Cada equipe conta com 13 jogadores e dois goleiros. 3.2.6 Snowboard O snowboard paralímpico é uma versão adaptada do snowboard para atletas com deficiências. Nesta modalidade competem homens e mulheres, divididos em dois grupos de categorias: • SBLL-1, SBLL-2: atletas com comprometimento nos membros inferiores. • SB-UL: atletas com comprometimento nos membros superiores. As provas são dividias em snowboard cross, na qual os atletas percorrem um trajeto cheio de obstáculos, e a classificação é feita com tomada de tempo individual. Em seguida, os atletas avançam na competição conforme o tempo de cada round, e ocorre o banked slalom, na qual os atletas têm o trajeto com banco de viradas, todos os atletas descem três vezes, o melhor tempo determina o resultado final. 46 “NÃO É SUPERAÇÃO, É TREINO”: COMO TORCER NA PARALIMPÍADA SEM PRECONCEITOS E CLICHÊS Diogo Magri “Manual da Paralimpíada: não olhe para a deficiência, olhe para a eficiência. Sem usar ‘que superação’ só por ver alguém sem perna, braço, cadeirante, cego/baixa visão ou com paralisia. A gente treina pra caramba para estar lá”. O desabado é da atleta brasileira Verônica Hipólito, velocista campeã mundial e medalhista paralímpica, cujo conselho publicado em uma rede social durante o encerramento dos Jogos Olímpicos de Tóquio chamou a atenção sobre como torcer – sem cometer gafes nem destilar preconceitos – para os esportistas durante os Jogos Paralímpicos, que começam nesta terça-feira e seguem até 5 de setembro. O Brasil chega a esta edição da Paralimpíada como uma potência: há três edições o país fica entre os 10 maiores medalhistas e a meta deste ano é que os 260 atletas da delegação brasileira repitam o feito e tragam para casa a sonhada 100ª medalha de ouro de sua história. Portanto, torcer por um time tão vencedor não é difícil, mas algumas dicas são bem-vindas para que se evitem clichês inoportunos. “Foi um desabafo mesmo. A Olimpíada deu uma boa viralizada, os atletas ganharam seguidores e vaquinhas. Isso é muito grande para a gente. Quando chega a Paralimpíada, dá uma esfriada. Quem permanece comentando sempre fala em ‘exemplo de superação’”, justifica Hipólito. “Pensa numa coisa que a gente odeia… e nunca ninguém vem perguntar para o atleta. Isso é capacitismo e eu não preciso ficar acusando o tempo todo”, reclama ela. Capacitismo, como explica a própria atleta, é o preconceito que as pessoas com deficiência sofrem quando alguém diz, de forma explícita ou implícita, que elas não têm capacidade de fazer algo. É disso que os atletas paralímpicos reclamam quando ouvem de torcedores clichês como “exemplo de superação”, “se ele consegue, eu também consigo”, “eu não tenho nada e ainda reclamo”, dentre outros. “Não é superação, é treino. A deficiência nada mais é do que uma característica. Eu já vi cadeirante passar em frente de igreja e ouvir: ‘vou orar para você melhorar’. Não queremos piedade de ninguém, queremos autonomia e inclusão”, afirma. O debate é acentuado em ano de Paralimpíada, o auge do esporte de alto rendimento para atletas com deficiência, mas não significa que a discussão tenha que ficar presa aos Jogos. “Falamos de racismo, machismo, LGBT+fobia, mas considero LEITURA COMPLEMENTAR https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/09/fotorrelato/1473452670_342379.html https://twitter.com/vehipolito/status/1424349294837051396 https://brasil.elpais.com/noticias/juegos-olimpicos/ https://brasil.elpais.com/noticias/juegos-olimpicos/ https://brasil.elpais.com/noticias/juegos-paralimpicos/ https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-24/brasil-chega-aos-jogos-de-toquio-como-uma-potencia-paralimpica-que-busca-sua-100-medalha-de-ouro.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-24/brasil-chega-aos-jogos-de-toquio-como-uma-potencia-paralimpica-que-busca-sua-100-medalha-de-ouro.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-09/os-campeoes-sem-medalhas-que-a-olimpiada-de-toquio-revelou-ao-brasil.htmlhttps://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-09/os-campeoes-sem-medalhas-que-a-olimpiada-de-toquio-revelou-ao-brasil.html https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/deportes/1518020971_661730.html 47 que o capacitismo é uma pauta deixada de lado”, opina Hipólito. “Esses dias ouvi que Paralimpíada é para atletas paralíticos. Ou que PcDs (pessoas com deficiência) são ‘portadores de necessidades especiais’. Minha única necessidade ‘especial’ é comer um hambúrguer todo dia”, descontrai. “O movimento paralímpico tem uma função educativa, porque falar dele também é falar do preconceito do ministro da Educação, filas e vagas preferenciais, educação inclusiva, mobilidade urbana. A partir do momento que ganhamos mais espaço na mídia, se entende mais sobre o esporte e ele recebe mais investimento. Se torna um ciclo que culmina numa sociedade com mais inclusão, mas não é uma pauta para acontecer a cada quatro anos – o manual paralímpico também é um manual para a vida”. A velocista de 24 anos entrou no esporte paralímpico aos 16, depois da retirada de um tumor no cérebro e um AVC que, dois anos antes, paralisaram o lado direito do seu corpo. O atletismo, que ela já conhecia desde criança, virou instrumento de reabilitação para voltar a andar. Logo depois, já se transformou em conquistas. Verônica Hipólito foi campeã mundial dos 200 metros rasos em 2013, campeã panamericana nos 100 m, 200 m e 400 m rasos em 2015 e ganhou duas medalhas na Rio 2016: prata nos 100 m e bronze nos 400 m. Todas as conquistas foram na classe T38 do atletismo paralímpico, mas depois da Paralimpíada do Rio, ela passou por uma série de dificuldades que prejudicaram sua continuidade no esporte. Retomou às competições em 2019, mas mudou da T38 para a T37, uma categoria para atletas com uma dificuldade motora maior. “Eu concordei com a minha reclassificação porque passei a sentir uma dificuldade muito maior no lado direito do meu corpo após essas cirurgias”, conta. Fora da competição em Tóquio, ela é uma das comentaristas dos Jogos no canal SporTV. Entendendo a categorização das provas A categorização das provas é outra especificidade dos Jogos Paralímpicos. Ao contrário do que acontece na Olimpíada, o Comitê Paralímpico Internacional (IPC) precisa abrigar deficientes físicos, visuais e intelectuais no mesmo esporte, ainda que eles não possam competir entre si. A classificação funcional, desta forma, permite que atletas com membro superior amputado corram entre si no atletismo, mas não contra atletas sem membro inferior, por exemplo. Funciona como a separação entre pesos leve, médio e pesado do judô ou boxe, por exemplo. O atletismo de velocidade tem categorias do T11 ao T64, utilizando a letra T pela palavra inglesa track (pista). Já as provas de campo, como arremesso e lançamento, usam o F de field (campo), indo da F11 a F64. Caso semelhante acontece na natação, que tem classes do S1 ao S14 (S de swimming), no ciclismo (H1 a H4 para bicicletas adaptadas, T1 e T2 para triciclos e C1 a C5 para bicicletas convencionais) e na maioria dos esportes paralímpicos, cada um com suas regras. https://brasil.elpais.com/opiniao/2021-08-18/a-crueldade-do-ministro-da-educacao-terrivelmente-evangelico-com-as-criancas-com-deficiencia-nas-escolas-publicas.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-24/sir-ludwig-guttmann-o-pai-do-movimento-paralimpico.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-24/sir-ludwig-guttmann-o-pai-do-movimento-paralimpico.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-08/beatriz-ferreira-leva-prata-inedita-e-confirma-o-melhor-desempenho-do-boxe-brasileiro-na-historia-das-olimpiadas.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-08/beatriz-ferreira-leva-prata-inedita-e-confirma-o-melhor-desempenho-do-boxe-brasileiro-na-historia-das-olimpiadas.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-08/beatriz-ferreira-leva-prata-inedita-e-confirma-o-melhor-desempenho-do-boxe-brasileiro-na-historia-das-olimpiadas.html 48 “O critério é provar por meio da ciência que atletas com a mesma funcionalidade podem competir sem que um tenha vantagem sobre o outro. No atletismo, o Comitê consegue juntar deficiências bem semelhantes ao expandir o número de classes. Na natação é um pouco mais polêmico, porque um atleta sem perna pode competir com um sem braço. É por serem polêmicas que as classificações são revisadas frequentemente”, pontua a atleta. A natação paralímpica abrange deficiências motoras nas categorias S1 a S10, visuais de S11 a S13 e intelectuais na S14. São 14 especificidades na natação contra 54 no atletismo, por exemplo, o que torna as categorias dos nadadores mais abrangentes dentre as deficiências. Um exemplo concreto de classificação que suscitou questionamentos na comunidade desportiva na natação é o caso do brasileiro Daniel Dias, um dos maiores atletas paralímpicos da atualidade. Competindo na categoria S5, o nadador conquistou 24 medalhas paralímpicas, 14 delas de ouro, no entanto, uma mudança de critérios do IPC em 2019 trouxe esportistas com menos dificuldades motoras que o brasileiro para a sua categoria. Isso fez com que o competidor perdesse cinco recordes mundiais e diminui suas chances de medalha em Tóquio 2020, ainda que Dias continue como um dos favoritos ao pódio. O atleta chegou a dizer que estava “triste” com a nova classificação funcional e que os critérios adotados no meio do ciclo paralímpico “tiram a credibilidade” do esporte. As regras, entretanto, pouco devem influenciar os torcedores e fãs da competição paralímpica. “Ninguém assistiu às Olimpíadas sabendo todas as regras do surfe ou do skate. A galera simplesmente curtiu, e a Paralimpíada é a mesma coisa”, reforçou. Para a velocista, essa é a dica principal: torcer sem se preocupar com critérios, sem ser preconceituoso e sem exagerar no “coitadismo”. “Se divirtam, sequem os adversários, deem risadas. A deficiência é só uma característica. Existem pessoas gordas e magras, altas e baixas, com mão e sem mão, e não é mais importante do que isso”, concluiu. Também vale lembrar que desde 2011 o Brasil adota o padrão internacional e mudou a grafia para Paraolimpíada para Paralimpíada. Em Tóquio, o Brasil aposta no atletismo como seu carro-chefe para alcançar a meta de se manter entre os top 10 da competição. Na Rio 2016, 33 das 72 medalhas vieram de lá, incluindo 8 de 14 ouros. “E Paris 2024 é logo ali. Já estou treinando para chegar no meu melhor daqui três anos”, garantiu Hipólito. FONTE: https://bit.ly/3wvp3Bc. Acesso em: 25 ago. 2022. https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/15/deportes/1473970357_549612.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-05/brasil-se-confirma-como-fabrica-de-skatistas-e-pedro-barros-fatura-a-prata-no-skate-park-em-toquio.html https://brasil.elpais.com/esportes/jogos-olimpicos/2021-08-05/brasil-se-confirma-como-fabrica-de-skatistas-e-pedro-barros-fatura-a-prata-no-skate-park-em-toquio.html 49 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • As diferenças entre esporte adaptado e esporte paralímpico. • O contexto histórico da criação dos Jogos Paralímpicos. • As adaptações que algumas modalidades sofreram para que pudessem incluir as pessoas com deficiência e fazerem parte do programa dos Jogos Paralímpicos de Verão e de Inverno. • As classificações funcionais que buscam agrupar os atletas com deficiência, de modo que ninguém leve desvantagem nas competições esportivas. 50 AUTOATIVIDADE 1 Os Jogos Paralímpicos são o segundo maior evento esportivo do mundo e reúnem os melhores atletas do esporte adaptado em diferentes modalidades. Sobre as modalidades presentes nos Jogos Paralímpicos, considere as afirmações. I- O atletismo paralímpico é uma modalidade que conta com provas de pista (velocidade, meio-fundo e fundo), campo (saltos lançamentos e arremessos) e rua (maratona e meia maratona). II- Dentre as adaptaçõesdo vôlei sentado está a possibilidade de bloqueio de saque, diferentemente do que ocorre na modalidade tradicional. III- O futebol para cegos e o futebol PC são modalidades para pessoas com deficiência vi- sual e paralisia cerebral respectivamente, com competidores masculinos e femininos. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II e III estão corretas. b) ( ) Somente a sentença I está correta. c) ( ) As sentenças I e II estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 2 Os Jogos Paralímpicos reúnem atletas de elite das modalidades adaptadas. Na edição dos Jogos Paralímpicos de Verão de 2022, em Tóquio, foram realizadas competições em 22 modalidades diferentes. Sobre as modalidades de lutas presentes nos Jogos Paralímpicos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) São três as modalidades de lutas presentes nos Jogos Paralímpicos, judô, luta paralímpica e taekwondo. b) ( ) O judô é uma modalidade para atletas com deficiência visual, e dentre as adaptações está a possibilidade e iniciar a luta com as mãos tocando o quimono do adversário. c) ( ) Diferente de outras modalidades, no judô não há uma classificação funcional dos atletas, que são categorizados apenas de acordo com o peso. d) ( ) Diferente de outras modalidades, no taekwondo não há uma classificação fun- cional dos atletas, que são categorizados apenas de acordo com o peso. 51 3 Os Jogos Paralímpicos reúnem atletas com diferentes tipos de deficiência. Algumas modalidades são adaptadas para tipos específicos de deficiência. Sobre as modalidades presentes nos Jogos Paralímpicos, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O goalball é uma modalidade praticada por deficientes visuais e criada especialmente para este público. ( ) Dependendo do grau de deficiência visual do atleta, ele pode competir com um atleta-guia, que é uma pessoa preparada para auxiliar em relação ao percurso. Como exemplo de modalidades com categorias que permitem atleta-guia estão o atletismo e o ciclismo. ( ) Uma das adaptações do basquete em cadeira de rodas é a diminuição da altura das cestas. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) V – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O esporte apresenta um papel bastante importante na inclusão das pessoas com deficiência. Apesar de, equivocadamente, algumas pessoas utilizarem esporte adaptado e esporte paralímpico como sinônimos, esses termos não se referem a mesma coisa. Diante disso, responda: quais as diferenças entre esporte adaptado e paralímpico? Exemplifique. 5 Os Jogos Paralímpicos reúne diferentes modalidades esportivas. Nas regras de cada modalidade é especificado o tipo de deficiência que o atleta pode ter e em qual categoria ele pode participar, de modo a garantir uma competição igualitária entre os atletas, não permitindo que alguém leve desvantagem em virtude de sua deficiência. Com base nos conhecimentos adquiridos ao longo desta unidade, cite quatro modalidades presentes nas Paralimpíadas de Verão em que há a participação de atletas com deficiência visual. 52 REFERÊNCIAS ANTONARAKIS, S. E. et al. Down syndrome. Nature Reviews Disease Primers, [s. l.], v. 6, n. 1, 2020. APA – AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Tradução de Maria Inês Corrêa Nascimento et al. Porto Alegre: Artmed Editora, 2014. Disponível em: https://bit.ly/3Kk2GnM. Acesso em: 25 ago. 2022. ARANHA, M. S. 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Curitiba: Intersaberes, 2020. https://bit.ly/3QO108P 54 55 EDUCAÇÃO FÍSICA E INCLUSÃO UNIDADE 2 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer a legislação acerca da inclusão de pessoas com deficiências; • entender os aspectos da Educação Física adaptada na Base Nacional Comum Curri- cular (BNCC); • identificar as barreiras que impedem a inclusão da pessoa com deficiência; • conhecer as formas de promover a acessibilidade, bem como o uso de tecnologia assistiva para promover a inclusão; • refletir acerca dos direcionamentos necessários para promoção de uma Educação Física inclusiva; • compreender a atuação profissional inclusiva no cotidiano escolar; •possibilitar o conhecimento de jogos e atividades inclusivas para as aulas de Educa- ção Física. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ASPECTOS LEGAIS DA INCLUSÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA TÓPICO 2 – ACESSIBILIDADE E BARREIRAS NA INCLUSÃO TÓPICO 3 – CAMINHOS PARA UMA EDUCAÇÃO FÍSICA INCLUSIVA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 56 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 57 TÓPICO 1 — ASPECTOS LEGAIS DA INCLUSÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, ao longo da Unidade 1, vimos que o caminho das pessoas com deficiência até uma realidade de inclusão não foi fácil. A história está marcada por situações de exclusão e segregação dessas pessoas e, ainda que tenhamos evoluído no caminho da inclusão, há muito ainda a ser feito. Dentre os muitos aspectos que permitiram os avanços no tratamento dado às pessoas com deficiência, aqueles relacionados aos aspectos legais tem um papel muito importante. Ainda que pareça que a inclusão é um assunto relativamente novo, especialmente quando observamos que as principais leis que buscam amparar as pessoas com deficiência têm menos de 30 anos, a busca por uma sociedade que abarque a todos de maneira igualitária não é tão recente assim. Conforme apontado por Amaral (2019, p. 37), o lema da Revolução Francesa, no século XVIII, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” já indicava uma preocupação com a dignidade da pessoa humana e um direcionamento social ao entendimento que somos todos iguais, apesar da nossa individualidade. Ao longo do século XIX e início do século XX, a Revolução Industrial e o desenvolvimento da ciência e da medicina proporcionaram uma maior integração das pessoas com deficiência. Entretanto, o principal documento que desencadeou o desenvolvimento de políticas públicas e legislações em busca de igualdade e inclusão foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançada em 1948 pela Organização das Nações Unidas (ONU) após o fim da Segunda Guerra Mundial, em seu Art. 1º afirma que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos” (ONU, 1948, p. 2). O entendimento de liberdade, igualdade e dignidade de todas as pessoas orienta nossa Constituição e é base para o desenvolvimento de leis que buscam tornar nossa sociedade e nosso país mais inclusivo com todos, dentre os quais as pessoas com deficiência. Ao longo deste primeiro tópico, conheceremos com mais detalhes alguns aspectos legais da inclusão das pessoas com deficiência, além dos conceitos de acessibilidade e barreiras para a inclusão. 58 INTERESSANTE Você sabia que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é o documento mais traduzido no mundo? Ele já foi traduzido para mais de 500 idiomas. A versão em português pode ser acessada em: https://bit.ly/3KHThqC. 2 A LEGISLAÇÃO E A INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA Acadêmico, como vimos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi um importante passo na busca da inclusão. Entretanto, os frutos desse movimento de conscientização e ações para garantia dos direitos humanos ocorreu ao final do século XX e início do século XXI, período em que temos a criação de leis mais específicas com objetivo de amparar às pessoas com deficiência (MONTEIRO et al., 2016). O ano de 1981 foi declarado pela ONU como o “Ano Internacional das Pessoas Deficientes”, e o principal objetivo deste movimento foi chamar a atenção dos países participantes das Nações Unidas quanto a criação de leis e movimentos que garantissem igualdade de oportunidade para as pessoas com necessidades especiais. Neste sentido, as políticas públicas deveriam voltar-se a proporcionar às pessoas com deficiência assistência e reabilitação adequadas, educação, oportunidades de trabalho e acessibilidade. Além disso, a educação e a informação acerca do direito das pessoas com deficiência de participarem e contribuírem nos âmbitos econômicos, sociais e políticos também deveriam ser promovidos (BRASIL, 1981). 2.1 DOCUMENTOS E LEGISLAÇÕES Agora vamos conhecer alguns documentos algumas leis e documentos que direcionam nossas ações para com as pessoas com deficiência, especialmente em relação à Educação Inclusiva. Apresentaremos os itens em ordem cronológica, dessa forma será possível visualizar o caminho legislativo em busca da inclusão. 2.1.1 Constituição Federal (1988) A Constituição Federal é a lei máxima de nosso país e, a partir dela, todo conjunto de preceitos e normas são validadas. A Constituição define as diretrizes e princípios da nossa sociedade. A atual Constituição foi promulgada em 1988 e garante vários direitos 59 fundamentais, dentre eles, no seu Art. 6º estão: “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados” (BRASIL, 1988). O principal destaque que damos à Constituição é a garantia do direito à educação a todos os brasileiros, sendo dever do Estado oferecer atendimento educacional espe- cializado para as pessoas com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. 2.1.2 Lei nº 7.853 (1989) A Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência foi orientada pela Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989. Esta lei garantiu às pessoas com deficiência a integração social, assegurando seus direitos individuais e sociais, dentre os quais a educação e o tratamento prioritário. Com relação à educação, em seu Art. 2º ficou estabelecida a Educação Especial, desde a pré-escola até a habilitação profissional; a inserção no sistema educacional; a oferta de Educação Especial pública e gratuita. Nesta lei também se inclui direitos relacionados à formação profissional e ao trabalho (BRASIL, 1989). Podemos afirmar que esta lei é resultado direto do movimento das Nações Unidas em favor de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência. 2.1.3 Declaração de Jomtien (1990) A Declaração de Jomtien foi um documento elaborado durante a Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtien, na Tailândia. Seu objetivo foi fornecer definições e abordagens para satisfazer as necessidades básicas educacionais de crianças, jovens e adultos. De acordo com este documento, são consideradas necessidades básicas os instrumentos de leitura, escrita, expressão oral, cálculo e resolução de problemas, além dos conteúdos básicos de conhecimento, habilidades, valores e atitudes. Com essas necessidades básicas satisfeitas garante-se que a pessoa possa desenvolver suas po- tencialidades para viver e trabalhar com dignidade e qualidade de vida (UNESCO, 1990). 2.1.4 Declaração de Salamanca (1994) Em 1994, em Salamanca, na Espanha, aconteceu a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, a qual foi realizada pela UNESCO. O principal objetivo dessa conferência foi discutir a inclusão da criança com deficiência no ensino regular. Para realizar esta integração e inclusão, segundo a 60 Declaração, a pedagogia deve estar centralizada na criança, de modo a atender às suas necessidades. Os países signatários, dentre eles o Brasil, concordaram que todas as crianças têm direito à educação, e esta deve respeitar seus interesses, capacidades e necessidades individuais (UNESCO, 1994). Desse modo, a integração da criança com deficiência no ensino regular pode ser um meio para diminuir a discriminação e iniciar uma revolução no comportamento humano (MONTEIRO et al., 2016). 2.1.5 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, é denominada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Dentre as determinações desta lei, estão o ensino público e gratuito como o direito detodos. Com relação à Educação Especial, há um capítulo específico, o qual destaca a oferta da Educação Especial desde a Educação Infantil; a adequação pedagógica para atender aos alunos com deficiência e a criação de instituições privadas sem fins lucrativos. Além disso, o texto trata acerca da formação dos professores e adequação dos currículos e recursos de modo a atender às necessidades das pessoas com deficiência (BRASIL, 1996). 2.1.6 Convenção da Guatemala (1999) A Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discri- minação Contra as Pessoas Portadoras de Deficiência foi realizada pela Organização dos Estados Americanos no ano de 1999, e ficou conhecida como Convenção da Guatemala. Seu objetivo foi prevenir e eliminar todas as formas de discriminação contra as pessoas com deficiência, utilizando para isso medidas legislativas, sociais ou educacionais. O documento também direcionou ações para a Educação Especial e reforçou os direitos iguais à participação, aprendizagem e trabalho (OEA, 1999). 2.1.7 Portaria nº 3.284 (2003) A portaria nº 3.284, de 7 de novembro de 2003, foi estabelecida pelo Ministério da Educação e dispõe normativas de acessibilidade para que pessoas com deficiência tenham condições básicas de acesso ao ensino superior. Essas condições se referem à eliminação de barreiras arquitetônicas, adaptação dos ambientes, vagas de estacio- namento reservadas, além de adaptações pedagógicas para facilitar a aprendizagem, como acervo em braile, intérprete de Libras e flexibilidade na correção de provas escri- tas (BRASIL, 2003). 61 ESTUDOS FUTUROS Mais adiante, neste tópico, aprenderemos com mais detalhes o que é acessibilidade, como podemos promovê-la e quais as principais barreiras para a inclusão das pessoas com deficiência. 2.1.8 Decreto nº 5.626 (2005) Em dezembro de 2005, o Decreto nº 5.626 regulamentou a Língua Brasileiras de Sinais (Libras) como disciplina curricular obrigatória nos cursos superiores de formação de professores e no curso de Fonoaudiologia, e disciplina optativa nos demais cursos de Educação Profissional e Superior (BRASIL, 2005). 2.1.9 Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação (2007) O Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação foi implementado no Brasil por meio do Decreto nº 6.094, de 24 de abril de 2007. Este documento dispõe sobre a mobilização e colaboração entre Municípios, Estados e Governo Federal para melhoria da qualidade da educação básica. Dentre os itens apontados, destacou-se a importância da acessibilidade arquitetônica, da sala de recursos e a formação docente para atendimento das pessoas com deficiência (BRASIL, 2007). 2.1.10 Política Nacional de Educação Especial (2008) A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva foi um documento elaborado por especialistas da área com o objetivo de: [...] assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, transtor- nos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir: acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais elevados do ensino [...] (BRASIL, 2008, p. 14). O documento destaca ainda que o atendimento educacional especializado é diferente daquele desenvolvido na sala de aula regular, e deve ser realizado com a finalidade de complementar e/ou suplementar a formação dos alunos, garantindo que eles tenham autonomia e independência (BRASIL, 2008). 62 2.1.11 Resolução CNE/CEB nº 4/2009 (2009) A Resolução nº 4 do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Câmara de Educação Básica (CEB), de 2 de outubro de 2009, instituiu as Diretrizes Educacionais para o Atendimento Especializado na Educação Básica. O principal destaque deste documento se dá em relação a implementação do atendimento especializado em salas de recursos. Reforçando a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educa- ção Inclusiva, esta resolução indica que os alunos com deficiência devem ser matricu- lados em classes comuns do ensino regular, e o atendimento educacional especializado deve ser realizado no contraturno em instituição escolar ou em instituições comunitá- rias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos (BRASIL, 2009). 2.1.12 Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (2011) O Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite foi instituído pelo Decreto nº 7.612, de 17 de novembro de 2011. Seus eixos de atuação são: o acesso à educação por meio da Educação Inclusiva e de transporte ade- quado para tal; a atenção à saúde, em especial os serviços de habilitação e reabilitação, além da prevenção das causas de eficiência; a inclusão social, ampliando a participação dessas pessoas no mercado de trabalho e o acesso às políticas de inclusão social; e a acessibilidade da pessoa com deficiência com o acesso a recursos de acessibilidade e o desenvolvimento e inovação em tecnologia assistiva (BRASIL, 2011). 2.1.13 Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015) Em 6 de Julho de 2015 foi instituída a Lei nº 13.146, denominada Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência ou Estatuto da Pessoa com Deficiência (BRA- SIL, 2015). Apesar das outras leis, decretos e documentos publicados até esse mo- mento, podemos considerar o Estatuto da Pessoa com Deficiência como um grande marco em busca da inclusão no nosso país, para além dos parâmetros educacionais. Segundo esta lei: Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2015). 63 O Estatuto da Pessoa com Deficiência ainda reitera o direito à igualdade de oportunidades ao atendimento prioritário, ao direito à saúde e educação, sempre de forma a manter o máximo de autonomia e de garantir a eliminação de barreiras que possam dificultar a participação e o atendimento pleno às pessoas com deficiência. No Capítulo IV, é tratado acerca do direito à educação, dentre os pontos abordados destacamos o Art. 27, que diz: A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem (BRASIL, 2015). Ainda no Capítulo IV, no Art. 28, item V, esse direito é assegurado em todas as modalidades educacionais e que o poder público é responsável por desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar a “adoção de medidas individualizadas e coletivas em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência, favorecendo o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem em instituições de ensino” (BRASIL, 2015). De modo mais específico à Educação Física, ainda no Art. 28, no item XV, destaca- se que a pessoa com deficiência deve ter acesso “em igualdade de condições, a jogos e a atividades recreativas, esportivas e de lazer, no sistema escolar” (BRASIL, 2015). E, no Capítulo IX, o qual trata do direito à cultura, esporte, ao turismo e ao lazer, o Art. 42 destaca que “a pessoa com deficiência tem direito à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas” (BRASIL, 2015). Mais especificamente com relação ao esporte e jogos, o Art. 43 aponta o protagonismo das pessoas com deficiência na participação dessas atividades, garantindo-lhes treinamento e recursos adequados, igualdade de oportunidades e condições tanto em eventos e serviços prestados quanto no sistema escolar. Diante disso, cabe salientar a importância de buscar formas efetivasde inclusão das pessoas com deficiência nas aulas de Educação Física, não só pelos inúmeros benefícios que essa ação proporcionará a todos, mas pelo nosso papel cidadão de garantir os direitos pelos das pessoas com deficiência. Pois, assim, também cumprimos o disposto no Art. 8º do Estatuto, o qual diz: Art. 8º É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pes- soa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos refe- rentes à vida, à saúde, à sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação, à educação, à profissionalização, ao tra- balho, à previdência social, à habilitação e à reabilitação, ao trans- porte, à acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à informação, à comunicação, aos avanços científicos e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comu- 64 nitária, entre outros decorrentes da Constituição Federal, da Conven- ção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-es- tar pessoal, social e econômico (BRASIL, 2015). Além dos itens destacados anteriormente, o Estatuto da Pessoa com Deficiência define quais são as barreiras que impedem a acessibilidade das pessoas com deficiência. Reforça o direito à vida digna e a sua autonomia, interesse e consentimento para que tomar decisões em relação a sua saúde, procedimentos e tratamentos realizados. Também afirma o direito à saúde e a à reabilitação de forma prioritária e precoce, para garantir a melhor qualidade de vida possível. Por fim, cabe destacar que a esta lei indica que estão passíveis de punição, com multa e prisão previstas em lei, qualquer ato de discriminação de pessoa em razão da sua deficiência. 2.1.14 Política Nacional de Educação Especial (2020) O Decreto nº 10.502, de 30 de setembro de 2020, institui a Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida. Este decreto visa substituir o documento de 2008. Este documento destaca acerca dos serviços e recursos da Educação Especial, como centro de atendimentos especializados, centros de capacitação profissional, classes e escolas bilíngues para surdos, material didático acessível e tecnologias assistivas (BRASIL, 2020). Alguns pesquisadores e entidades da área temem que esta nova Política Nacional de Educação Especial leve a retrocesso em relação à inclusão das crianças com deficiência no ensino escolar regular, especialmente por reforçar a necessidade de serviços de Educação Especial. Contudo, os resultados desta nova política na educação de pessoas com deficiência só poderão ser analisados daqui a alguns anos, observando a forma que estados e municípios colocarão em prática os direcionamentos instituídos com este documento. 3 EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA NA BNCC Como vimos anteriormente, existem vários documentos e dispositivos legais que garantem a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade e no espaço escolar. Conseguir adequar as exigências legislativa à realidade escolar é um grande desafio para gestores e professores, de modo a transformar as ideias e conceitos em uma prática pedagógica transformadora. O conhecimento dos conceitos e documentos que estruturam nossa política educacional é de fundamental importância para que possamos atuar de forma a garantir a qualidade e o cumprimento dos direitos de todos. Quando falamos da inclusão das pessoas com deficiência isso é ainda mais importante. O processo de inclusão escolar, 65 segundo Coelho, Soares e Roehrs (2019) vai além de simplesmente inserir a pessoa com deficiência no ensino regular, é necessário realizar adaptações e flexibilizações para atender as necessidades de todos e garantir o máximo de autonomia, participação, aprendizagem e socialização. Nas aulas de Educação Física, o planejamento deve ser diferenciado, de forma que não sejam criadas ainda mais barreiras para os alunos com deficiência e, ao invés de inclusão, termos apenas uma integração deste aluno às aulas, sem um real desen- volvimento de suas potencialidades e contribuição de sua participação no processo de aprendizagem e socialização de todos os alunos (COELHO; SOARES; ROEHRS, 2019). Atualmente, o principal documento que norteia o planejamento curricular e a prática pedagógica escolar é a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017). A BNCC apresenta as aprendizagens essenciais esperadas de todos os alunos ao longo das etapas da Educação Básica, considerando habilidade e competências que devem ser desenvolvidas de maneira transdisciplinar e interdisciplinar, isto é, o currículo não é tratado por disciplinas fragmentadas que geram apenas conhecimentos específicos. Quando nos referimos à inclusão da pessoa com deficiência no ambiente escolar, imediatamente nos remetemos à Educação Especial. Contudo, a BNCC apresenta poucas orientações e informações a esse respeito, o termo “Educação Especial” aparece apenas duas vezes ao longo de todo o documento, O documento destaca que suas ações desenvolvidas a partir da BNCC devem ser consideradas e adequadas às diferentes modalidades de ensino, inclusive a Educação Especial (BRASIL, 2017). Na abordagem da área de Ciências da Natureza no Ensino Fundamental I, o documento propõe estudos do corpo humano, aspectos relativos à saúde e a políticas públicas, incluindo o desenvolvimento de atitudes de respeito e acolhimento às diferenças e diversidades: Nos anos iniciais, pretende-se que, em continuidade às abordagens na Educação Infantil, as crianças ampliem os seus conhecimentos e apreço pelo seu corpo, identifiquem os cuidados necessários para a manutenção da saúde e integridade do organismo e desenvolvam atitudes de respeito e acolhimento pelas diferenças individuais, tanto no que diz respeito à diversidade étnico-cultural quanto em relação à inclusão de alunos da educação especial (BRASIL, 2017, p. 327). De forma geral, olhando para este importante documento orientativo, pode- mos nos questionar: como promover a inclusão nas aulas de Educação Física com base na BNCC? 66 3.1 EDUCAÇÃO FÍSICA NA BNCC, COMO PROMOVER A INCLUSÃO? A resposta ao questionamento anterior não é simples. De imediato, devemos entender que mais do que receitas prontas, desenvolver o conhecimento necessário para promover uma Educação Física inclusiva é primordial. O que isso significa? Que te- mos que ter as ferramentas que permitam adaptar nossas ações pedagógicas de forma a atender as necessidades individuais de nossos alunos dentro da realidade escolar, so- cial e cultural que eles estão inseridos. E quais são essas ferramentas? Além do supor- te material, da estrutura escolar adequada e acessível, como veremos mais adiante, o conhecimento necessário para realizar as adequações e flexibilizações dos conteúdos. A Educação Física é uma área extremamente rica em conhecimentos e conteú- dos relacionados às práticas corporais que permitem experiências diversificadas. A BNCC descreve as seguintes unidades temáticas para as aulas de Educação Física: jogos e brincadeiras, esportes, ginásticas, danças, lutas e práticas corporais de aventura. Todas essas unidades podem ter seu planejamento adequado para a inclusão de alunos com deficiência. Um ponto que merece destaque é o esporte. Infelizmente, em muitas escolas, o conteúdo da Educação Física ainda se remete exclusivamente ao esporte e geralmente com um foco em desempenho, deixando que a prática seja associada aos conceitos de rendimento e habilidade. É necessária uma mudança com foco na equidade e na valorização das diferenças e potencialidades individuais, para que este conteúdo seja trabalhado numa perspectiva de inclusão (NUNES et al., 2021). O esporte, especialmente o esporte adaptado e paralímpico, pode ser um conteúdo rico em aprendizagens e uma porta de entrada para que a inclusão de crianças com deficiências, ou mesmo a discussão deste conteúdo ocorra em turmas que3.5 TRANSTORNOS DE NEURODESENVOLVIMENTO ....................................................... 25 3.5.1. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) .......................... 26 3.5.2 Transtorno de Espectro Autista ........................................................................... 26 3.6 DEFICIÊNCIAS MÚLTIPLAS ..............................................................................................27 3.6.1 Surdocegueira ..........................................................................................................27 RESUMO DO TÓPICO 2 ..........................................................................................28 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................29 TÓPICO 3 - ESPORTE ADAPTADO E PARALÍMPICO ............................................ 31 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 31 2 JOGOS PARALÍMPICOS ..................................................................................... 31 3 MODALIDADES PARALÍMPICAS .......................................................................32 3.1 MODALIDADES PARALÍMPICAS DE VERÃO ................................................................. 33 3.1.1 Atletismo ...................................................................................................................... 33 3.1.2 Badminton ..................................................................................................................34 3.1.3 Basquete em cadeira de rodas ............................................................................. 35 3.1.4 Bocha .......................................................................................................................... 35 3.1.5 Canoagem .................................................................................................................. 36 3.1.6 Ciclismo....................................................................................................................... 36 3.1.7 Esgrima em cadeira de rodas ................................................................................ 37 3.1.8 Futebol de cegos (futebol de cinco).................................................................... 37 3.1.9 Futebol PC (futebol de sete) ..................................................................................38 3.1.10 Goalball ......................................................................................................................38 3.1.11 Halterofilismo ............................................................................................................38 3.1.12 Hipismo ...................................................................................................................... 39 3.1.13 Judô ........................................................................................................................... 39 3.1.14 Natação ..................................................................................................................... 39 3.1.15 Remo ..........................................................................................................................40 3.1.16 Rugby em cadeira de rodas..................................................................................40 3.1.17 Taekwondo ................................................................................................................40 3.1.18 Tênis de mesa ...........................................................................................................41 3.1.19 Tênis em cadeira de rodas .....................................................................................41 3.1.20 Tiro com arco ...........................................................................................................41 3.1.21 Tiro esportivo ........................................................................................................... 42 3.1.22 Triatlo ......................................................................................................................... 42 3.1.23 Vôlei sentado ........................................................................................................... 42 3.2 MODALIDADES PARALÍMPICAS DE INVERNO ...........................................................43 3.2.1 Esqui cross-country ................................................................................................43 3.2.2 Curling em cadeira de rodas .................................................................................44 3.2.3 Esqui alpino ...............................................................................................................44 3.2.4 Biatlo ...........................................................................................................................44 3.2.5 Hóquei no gelo .........................................................................................................45 3.2.6 Snowboard ................................................................................................................45 LEITURA COMPLEMENTAR ..................................................................................46 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................49 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................50 REFERÊNCIAS .......................................................................................................52 UNIDADE 2 — EDUCAÇÃO FÍSICA E INCLUSÃO...................................................55 TÓPICO 1 — ASPECTOS LEGAIS DA INCLUSÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA .....................................................................................................57 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 57 2 A LEGISLAÇÃO E A INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA ......................58 2.1 DOCUMENTOS E LEGISLAÇÕES .....................................................................................58 2.1.1 Constituição Federal (1988) ....................................................................................58 2.1.2 Lei nº 7.853 (1989) .................................................................................................... 59 2.1.3 Declaração de Jomtien (1990) .............................................................................. 59 2.1.4 Declaração de Salamanca (1994) ......................................................................... 59 2.1.5 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) .................................60 2.1.6 Convenção da Guatemala (1999) ..........................................................................60 2.1.7 Portaria nº 3.284 (2003) ..........................................................................................60 2.1.8 Decreto nº 5.626 (2005) ..........................................................................................61 2.1.9 Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação (2007) .........................61 2.1.10 Política Nacional de Educação Especial (2008) ...............................................61 2.1.11 Resolução CNE/CEB nº 4/2009 (2009) ............................................................. 62 2.1.12 Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (2011) .................. 62 2.1.13 Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (2015) ...................... 62 2.1.14 Política Nacional de Educação Especial (2020) ..............................................64 3 EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA NA BNCC ........................................................64 3.1 EDUCAÇÃO FÍSICA NA BNCC, COMO PROMOVER A INCLUSÃO? ........................... 66 RESUMO DO TÓPICO 1 ..........................................................................................68não apresentam alunos com deficiência. Algumas destas modalidades adaptadas permitem o protagonismo de um aluno com deficiência, uma vez que algumas destas adaptações, como praticar determinada modalidade sentado, realizar um lançamento sem utilizar as mãos, impõe uma nova dificuldade a todos os alunos da turma, mesmo os mais habilidosos nos esportes tradicionais. Ademais, a interação e a socialização dos alunos, permitem que outros conteúdos sejam desenvolvidos, pois o professor e a turma conseguirão direcionar a prática para torná-la acessível e desafiadora a todos. Diante disso, para realizar uma Educação Física inclusiva à luz da BNCC, podemos pontuar que é necessário ao professor adquirir os conhecimentos técnicos necessários para o desenvolvimento de cada uma das unidades temática. Em sua prática profissional, trabalhar com foco nas necessidades individuais dos alunos, propondo um planejamento que seja desafiador para todos os alunos, não apenas aquele com deficiência, identificar eventuais barreiras que impeçam a acessibilidade e a inclusão 67 de alunos com deficiência nas aulas de Educação Física, e juntamente com outros membros da unidade escolar criar as condições necessárias para um ensino inclusivo e de qualidade. E, por fim, estar ciente que a vivência prática da inclusão é que o tornará efetivamente pronto e apto para este desafio (SOUZA; SOUZA; MIRANDA, 2018). ESTUDOS FUTUROS No Tópico 3 dessa unidade, veremos algumas ações necessárias para a promoção da inclusão nas aulas de Educação Física, além de alguns exem- plos de jogos e brincadeiras inclusivos. 68 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • O conhecimento dos principais documentos internacionais que serviram de base para a criação da atual legislação em relação à pessoa com deficiência. • As principais leis nacionais que garantem os direitos, dentre os quais o acesso à educação da pessoa com deficiência. • A forma que a Educação Especial foi abordada na BNCC. • Questionamentos e reflexões acerca da Educação Física adaptada com base na BNCC. 69 RESUMO DO TÓPICO 1 AUTOATIVIDADE 1 O caminho em busca de uma sociedade mais inclusiva passou por inúmeros ajustes legislativos, como forma de assegurar os direitos e o respeito às pessoas com defici- ência. Com base na legislação brasileira, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015 é o principal documento que garante o direito das pessoas com deficiência em relação à saúde, educação, moradia, alimentação, esporte, lazer, dentre outros. b) ( ) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 foi a primeira lei na- cional que deu direcionamento às políticas públicas de inclusão das pessoas com deficiência. c) ( ) Apesar de ser reconhecida como língua oficial pelo Decreto nº 5.626/2005, a Língua Brasileira de Sinais não é considerada como disciplina obrigatória em cursos de formação de professores. d) ( ) A Declaração de Salamanca foi a primeira lei brasileira que instituiu a obrigação a inclusão da criança com deficiência no ensino regular escolar. 2 Políticas públicas em busca de igualdade e inclusão das pessoas com deficiência foram resultado de diversos movimentos internacionais em várias partes do mundo. Em algumas destas reuniões, os países signatários assumiram compromissos específicos, que foram transformados em leis nacionais para garantir esses direitos em seus territórios. Com base nos conhecimentos adquiridos acerca dos principais documentos internacionais que direcionaram as legislações relativas às pessoas com deficiência, analise as sentenças a seguir: I- Na Declaração de Salamanca, fruto da Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, os países signatários se comprometeram a integrar a criança com deficiência no ensino regular, como forma de respeitar suas capacidades. II- A Declaração Universal dos Direitos Humanos, lançada após a Segunda Guerra Mundial, foi o primeiro documento internacional que apontou a necessidade de inclusão das pessoas com deficiência no ambiente escolar. III- A Declaração de Jomtien, elaborada durante a Conferência Mundial de Educação para Todos, discutiu a necessidade de inclusão da criança com deficiência no ensino regular. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) Somente a sentença I está correta. d) ( ) As sentenças II e III estão corretas. 70 3 A Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, também denominada Lei Brasileira da Pessoa com Deficiência ou Estatuto da Pessoa com Deficiência, foi um grande marco em busca da inclusão dessas pessoas em nossa sociedade. Com base nos conheci- mentos adquiridos sobre esta lei, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O Estatuto da Pessoa com Deficiência, aborda acerca dos direitos à saúde, educação, trabalho, de forma que a pessoa com deficiência seja tratada em igualdade de oportunidades e de forma prioritária. ( ) O Estatuto não trata especificamente da Educação Física, mas afirma que é direito das pessoas com deficiência ter acesso a atividades de jogos e esportes no sistema escolar. ( ) O Estatuto considera pessoa com deficiência toda aquela que apresenta algum impedimento físico, mental, intelectual ou sensorial a longo prazo e que, diante de alguma barreira, não tem plenas condições de igualdade com os demais. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) V – V – V. d) ( ) F – F – V. 4 Atualmente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é o principal documento que orienta o planejamento curricular e a prática pedagógica educacional no Brasil. De acordo com o conteúdo abordado neste tópico, disserte acerca das possibilidades de abordagem da Educação Física de forma inclusiva com base na BNCC. 5 Documentos internacionais criados a partir de reuniões de diversos países tem papel fundamental no desenvolvimento de políticas públicas. Em relação às políticas públicas em favor dos direitos das pessoas com deficiência não foi diferente. Com base neste conhecimento, escolha um documento internacional e descreva o seu principal direcionamento para o desenvolvimento de políticas públicas brasileiras com relação às pessoas com deficiência, 71 ACESSIBILIDADE E BARREIRAS NA INCLUSÃO 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 2 - Acadêmico, como vimos no Tópico 1 desta unidade, existem vários documentos e dispositivos legais que garantem a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade e no espaço escolar. Em vários deles é mencionado acerca da garantia de acessibilidade e da eliminação das barreiras para a inclusão das pessoas com deficiência. Esses termos são frequentes quando o assunto é inclusão. E mais ainda, são relevantes e muito importantes. Neste tópico, iremos aprender os conceitos de acessibilidade e barreiras, vendo com detalhes quais são as categorias de classificação de cada um desses conceitos. Para que, de posse deste conhecimento, possamos ter atitudes ao encontro da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência. Neste tópico também iremos conhecer a tecnologia assistiva. Acadêmico, você já ouviu falar de tecnologia assistiva? Talvez o termo não soe familiar, mas provavelmen- te você conhece alguns desses recursos que são fundamentais para que possamos re- mover as barreiras e garantir a acessibilidade que permitem às pessoas com deficiência participarem da sociedade com toda a sua potencialidade. Vamos ao conteúdo! 2 ACESSIBILIDADE Em geral, quando falamos de inclusão, falamos de acessibilidade. Mas você sabe o que é acessibilidade? De acordo com o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015), em ser Art. 3º, inciso I, a acessibilidade é definida como: possibilidade e condição de alcance para utilização, com seguran- ça e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentosurbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida (BRASIL, 2015). A acessibilidade é um direito da pessoa com deficiência, para que ela possa participar da vida comum. Desse modo, a escola também deve ser acessível, tanto em seus ambientes quanto nos serviços possibilitando um aprendizado com autonomia e segurança. 72 De forma conceitual, temos que compreender a acessibilidade “de forma ampla, e não apenas restrita a questões físicas e arquitetônicas” (BRASIL, 2013, p. 36). Deste modo, os tipos de acessibilidade podem ser classificados em: atitudinal, arquitetônico, metodológico, comunicacional, programático e instrumental (BRASIL, 2013; SASSAKI, 2005). 2.1 ACESSIBILIDADE ATITUDINAL A acessibilidade atitudinal se refere à nossa atitude com relação à percepção do outro, que deve ser livre de preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminação. As outras formas de acessibilidade estão relacionadas a essa, uma vez que precisamos de uma consciência e ação inclusiva para eliminação das barreiras em busca de uma efetiva inclusão das pessoas com deficiência. A acessibilidade atitudinal é promovida por meio de programas e práticas de conscientização das pessoas acerca da diversidade humana, da compreensão da deficiência e das potencialidades da pessoa com deficiência, do conhecimento dos diretos e deveres de cada cidadão em relação ao tema e das formas de auxiliar as pessoas com deficiência em suas necessidades. 2.2 ACESSIBILIDADE ARQUITETÔNICA A acessibilidade arquitetônica é a mais conhecida quando nos referimos a esse tema, e, por vezes, todo o conceito de acessibilidade acaba se restringindo a ela. Esse tipo de acessibilidade se refere às barreiras físicas nos edifícios, nas residências, nos espaços urbanos, no transporte coletivo e demais equipamentos e espaços, sejam estes públicos ou privados. Dentre os exemplos que acessibilidade arquitetônica podemos destacar a presença de rampas e corrimões, importantes para qualquer pessoa com dificuldade de locomoção (Figura 1). Figura 1 – Rampa e corrimão que permitem a acessibilidade arquitetônica Fonte: https://bit.ly/3Rri7wX. Acesso em: 1 set. 2022. https://bit.ly/3Rri7wX 73 Os banheiros e elevadores adaptados também são exemplos de acessibilidade arquitetônica, especialmente por permitirem autonomia das pessoas com deficiência em suas necessidades da vida diária (Figura 2). Figura 2 – Elevador que permitem a acessibilidade arquitetônica Fonte: https://bit.ly/3e9t47X. Acesso em: 1 set. 2022. O piso tátil e avisos sonoros para travessia em faixas de pedestre são formas de acessibilidade para pessoas com deficiência visual (Figura 3). Figura 3 – Piso tátil para orientação de pessoas com deficiência visual Fonte: https://bit.ly/3B3AAue. Acesso em: 1 set. 2022. 74 INTERESSANTE Você sabia que existem dois tipos de piso táteis? Um é denominado piso tátil direcional, ele apresenta frisos (riscos) que indicam o sentido do fluxo, para aju- dar a guiar o usuário para qual direção ele pode caminhar com segurança. O outro, é o piso tátil alerta, ele tem um relevo de bolinhas, e indica que há algum obstáculo, equipamento público ou mudança de direção. 2.3 ACESSIBILIDADE METODOLÓGICA A acessibilidade metodológica também pode ser denominada acessibilidade pedagógica, e se refere à eliminação de barreiras nas técnicas e metodologias de estudo. Deste modo, adaptações curriculares, flexibilização do tempo, utilização de recursos e estilos de aprendizagem diversos, como pranchas de comunicação, textos impressos em tamanhos ampliados, softwares de comunicação alternativa e leitores de tela são exemplos de acessibilidade metodológica. Especificamente a respeito da prancha de comunicação (Figura 4), elas são construídas utilizando bibliotecas ou sistemas de símbolos. Essas figuras são simples e de fácil reconhecimento e permitem que as pranchas sejam adaptadas de forma individualizada, para atender a necessidade do usuário e do momento. Pode-se, por exemplo, ter uma prancha para atendimento médico e outra para atendimento hospitalar. Figura 4 – Exemplo de prancha de comunicação de símbolos para alimentação Fonte: https://bit.ly/3wKgUsE. Acesso em: 1 set. 2022. 75 2.4 ACESSIBILIDADE COMUNICACIONAL A acessibilidade comunicacional diz respeito à eliminação de barreiras na comunicação interpessoal (língua de sinais, linguagem corporal), na comunicação escrita (jornais, revistas e livros em braile, com letras ampliadas ou tecnologia assistiva) e na comunicação virtual (acessibilidade digital). 2.5 ACESSIBILIDADE PROGRAMÁTICA A acessibilidade programática se refere à eliminação de barreiras nas políticas públicas. Assim, tanto a criação de leis, decretos, portarias e regulamentos com o objetivo de promover o direito das pessoas com deficiência, quanto a informação e aplicação destes dispositivos legais enquadram-se nesta classificação. 2.6 ACESSIBILIDADE INSTRUMENTAL A acessibilidade instrumental se refere à eliminação das barreiras nos ins- trumentos e utensílios de estudo, como lápis, borracha, caneta, carteira (Figura 5), nos instrumentos de trabalho, nas atividades da vida diárias (roupas, embalagens) e de lazer, esporte e recreação. Este tipo de acessibilidade, cabe destacar, é primordial para a participação e a aprendizagem da pessoa com deficiência no espaço escolar e no esporte, de modo que ela possa realmente ser incluída, desenvolver e demonstrar suas potencialidades. Figura 5 – Exemplos de utensílios que ajudam a na escrita e leitura Fonte: Bersch (2017, p. 5) 3 BARREIRAS De encontro com a acessibilidade, nós temos as barreiras, cuja definição encontramos no Art. 3º, inciso IV, do Estatuto da Pessoa com Deficiência: 76 Qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança (BRASIL, 2015). O Estatuto classifica as barreiras em tipos: urbanísticas, arquitetônicas, nos transportes, nas comunicações, atitudinais e tecnológicas (BRASIL, 2015). 3.1 BARREIRAS URBANÍSTICAS As barreiras urbanísticas são aquelas existentes nas vias e espaços públicos e privados de uso coletivo. Como exemplo, podemos citar calçadas não pavimentadas ou com pavimentação que dificulte a locomoção de cadeiras de rodas (Figura 6). Figura 6 – Barreira urbanística: calçada com buracos que impossibilita a locomoção com cadeira de rodas Fonte: https://bit.ly/3wQ85xr. Acesso em: 1 set. 2022. 3.2 BARREIRAS ARQUITETÔNICAS Barreiras arquitetônicas são aquelas existentes em edifícios públicos ou privados. Por exemplo, locais que só podem ser acessados por escadas (Figura 7) ou portas que não permitem a passagem de cadeiras de rodas. https://bit.ly/3wQ85xr 77 Figura 7 – Local com escada que não permite acesso a um cadeirante como exemplo de barreira arquitetônica Fonte: https://bit.ly/3wJEWEf. Acesso em: 1 set. 2022. 3.3 BARREIRAS NOS TRANSPORTES As barreiras existentes nos sistemas e meios de transportes são denominadas barreiras nos transportes. Como exemplo, podemos citar ônibus sem local adequado para que o cadeirante viaje de maneira segura, ou um terminal de transporte que não permita ao deficiente visual localizar o local de embarque adequado. 3.4 BARREIRAS NAS COMUNICAÇÕES E INFORMAÇÕES As barreiras nas comunicações e informações são definidas por obstáculos, entraves, atitudes ou comportamentos que dificultem ou impossibilitem que a pessoa com deficiência expresse ou receba informações e mensagens por intermédio dos sistemas de comunicação e tecnologia da informação, como, porexemplo, sistemas de telefonia que não permitam a utilização por pessoas com deficiência auditiva. 3.5 BARREIRAS ATITUDINAIS As barreiras atitudinais referem-se às atitudes ou comportamentos que prejudiquem ou impeçam a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidade com as demais pessoas. Neste aspecto, atitudes como oferecer vantagens às pessoas com deficiência, ou antecipar-se a ela (pseudoparticipação), de forma protetora como se a pessoa fosse incapaz de realizar determinada atividade de forma completa, são exemplos de barreiras atitudinais. 78 3.6 BARREIRAS TECNOLÓGICAS Qualquer dificuldade ou impedimento à pessoa com deficiência em acessar tecnologias é considerada uma barreira tecnológica. Exemplos de barreiras tecnológicas são vídeos sem opções de legendas e Libras, ausência de audiodescrição, imagens em sites e mídias sociais sem texto alternativo, dentre outros. 4 TECNOLOGIA ASSISTIVA Anteriormente, nesta unidade, já utilizamos o termo “tecnologia assistiva”. Você já conhecia este termo anteriormente? Sabe o que é e quais são as categorias de tec- nologia assistiva? De acordo com Bersch (2007), tecnologia assistiva é uma expressão para denominar recursos e serviços que facilitam a independência de pessoas com deficiência, contribuindo para proporcionar ou ampliar as habilidades funcionais dessas pessoas. Com este auxílio, a habilidade funcional é ampliada, possibilitando a realização da atividade ou da função desejada e que está impedida em virtude da deficiência. 4.1 MODALIDADES DE TECNOLOGIA ASSISTIVA O Estatuto da Pessoa com Deficiência, em seu Art. 3º, inciso III, considera tecnologia assistiva todos os: produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2015). A tecnologia assistiva pode ser classificada em 12 categorias, conforme proposto por Bersch (2017). Veremos detalhadamente cada uma destas categorias a seguir. 4.1.1 Auxílios para a vida diária e vida prática Todos os materiais e produtos que tem por finalidade favorecer a autonomia e independência nas tarefas do dia a dia ou facilitam o cuidado daquelas pessoas com deficiência que necessitam de auxílio nas atividades de alimentação (Figura 8), vestimenta, dentre outras, encontram-se nesta categoria. Como exemplo, podemos citar talheres modificados, roupas desenhadas para facilitar o despir e o vestir, barras de apoio etc. Recursos para pessoas com deficiência visual, permitindo-lhes consultar relógio, uso de calculadoras, identificação de cores e peças de vestuário, também estão encontram nesta categoria. 79 Figura 8 – Tecnologia assistiva para a vida diária. utensílios para auxílio na atividade de alimentação (talheres adaptados, acessório para prato e fatiador de pão) Fonte: Bersch (2017, p. 5). 4.1.2 Comunicação aumentativa e alternativa Fazem parte desta categoria recursos que buscam atender pessoas sem fala ou escrita funcional, ou que apresentem dificuldades na sua habilidade de falar, escrever e/ou compreender em defasagem com sua necessidade de comunicação. Como exemplo temos as pranchas de comunicação, tecnologias vocalizadoras (pranchas com produção de voz) (Figura 9) e alguns softwares específicos que garantem eficiência à função comunicativa. Figura 9 – Prancha de comunicação em tablet com produção de voz Fonte: Bersch (2017, p. 6). 4.1.3 Recursos de acessibilidade ao computador Esta categoria de tecnologia assistiva é composta por hardwares e softwares que tornam o computador acessível a pessoas com deficiências visuais, auditivas, intelectuais e motoras. Inclui-se tanto dispositivos de entrada como mouse (Figura 10), teclados e acionadores, quanto sons, imagens e informações táteis. 80 Os softwares que realizam ajustes de cores e tamanhos de informações, leituras de tela, de textos impressos, impressoras em relevo e em braile também fazem parte deste grupo. Figura 10 – Exemplos de diferentes modelos de mouse adaptados Fonte: Bersch (2017, p. 7). INTERESSANTE Você já pensou como pessoas com deficiência visual utilizam o computador? Existem algumas tecnologias que auxiliam na leitura das telas e na interface destes usuários com os programas e a internet, uma destas tecnologias é o DOSVOX. Este sistema é gratuito e se comunica com o usuário por meio de sín- tese de voz, realizando a leitura e amplificação de telas, formatação em braile e simplificando ao acesso e a busca em algumas plataformas de conteúdo. Você pode conhecer mais a respeito do DOSVOX em: https://bit.ly/3B6HtLm. E ver como ele funciona, em: https://bit.ly/3KLIkEs. 4.1.4 Sistemas de controle de ambiente As tecnologias de automação residencial, desde as mais simples até as mais complexas, são parte desta categoria. Controle remoto para pessoas com limitações motoras, permitindo ligar, desligar e ajustar o ambiente em relação a luminosidade, tem- peratura, abertura e fechamento de portas e janelas, funcionamento de equipamentos e acionamento de sistemas de segurança, estão dentre os exemplos de sistemas de controle de ambiente (Figura 11). Essas tecnologias têm ganhado bastante destaque e se tornado cada vez mais acessíveis, principalmente em virtude do desenvolvimento de tecnologias de assistência virtual integrada pela internet, que permitem comunicação sem fio entre equipamentos como celulares, eletrodomésticos, iluminação etc. https://bit.ly/3B6HtLm 81 Figura 11 – Representação de controle de ambiente por automação Fonte: Bersch (2017, p. 7). 4.1.5 Projetos arquitetônicos para acessibilidade Projetos e adequações arquitetônicas e urbanísticas que retiram ou reduzem barreiras físicas estão nesta categoria. Essas adaptações estruturais se dão por meio de rampas, elevadores, adequações de ambientes e mobiliários, dentre outros (Figura 12). 82 Figura 12 – Exemplo de adequações arquitetônicas necessárias para tornar uma sala de aula acessível a pessoas com deficiência Fonte: Dischinger et al. (2009, p. 43) 4.1.6 Órteses e Próteses As órteses (Figura 13) são peças colocadas junto a um segmento corporal com o objetivo de melhorar o posicionamento, fazer a estabilização ou melhorar a função. Ajudam na mobilidade, na execução de funções manuais, correção postural etc. 83 Figura 13 – Órtese para membro superior Fonte: https://bit.ly/3KDroQe. Acesso em: 1 set. 2022. As próteses (Figura 14) são peças artificiais criadas para substituir partes ausentes do corpo. Geralmente feitas sob medida. Figura 14 – Prótese para membro superior Fonte: https://bit.ly/3ebzq6S. Acesso em: 1 set. 2022. 4.1.7 Adequação postural Nesta categoria enquadram-se os equipamentos e recursos que auxiliam e estabilizam a postura, tanto nas posições em pé, quanto sentada e deitada. Além de prevenir deformidades corporais, a tecnologia assistiva de adequação postural facilita o desempenho funcional. Dentre os exemplos temos cadeiras de rodas com assentos e encostos sob medida, almofadas de leito e estabilizadores ortostáticos (Figura 15). https://bit.ly/3KDroQe https://bit.ly/3ebzq6S 84 Figura 15 – Modelos de cadeiras de rodas sob medida e estabilizadores ortostáticos Fonte: Bersch (2017, p. 9) 4.1.8 Auxílios de mobilidade Os equipamentos e estratégias que melhoram a mobilidade pessoal fazem parte desta categoria (Figura 16). Dentre os quais destacamos bengalas, muletas, andadores, cadeiras de rodas e scooters. Figura 16 – Carrinho, cadeira de rodas e andador como equipamentos de auxílio a mobilidade Fonte: Bersch (2017, p. 9) 85 4.1.9 Auxílios para ampliação da função visual e recursos que traduzem conteúdos visuais em áudio ou informação tátil Equipamentos, materiais e softwares que facilitam a identificação de textos e informações escritas.Como exemplo podemos citar: lentes, lupas manuais ou eletrônicas, softwares ampliadores de tela, material impresso com textura e relevos (Figura 17), mapas e gráficos táteis, aplicativos com retorno de voz. Figura 17 – Exposição de museu com figuras em relevo Fonte: https://bit.ly/3ed5IOP. Acesso em: 1 set. 2022. 4.1.10 Auxílios para melhorar a função auditiva e recursos utilizados para traduzir os conteúdos de áudio em imagens, texto e língua de sinais Nesta categoria, estão equipamentos materiais e softwares que favorecem a comunicação para pessoas com deficiência auditiva, dentre os quais podemos destacar os aparelhos de surdez, sistemas com alerta tátil-visual, softwares e aplicativos que transformam em voz o texto digitado e em texto a mensagem falada (Figura 18), livros e materiais em Libras e sistemas de legendas automáticas (close-caption, subtitles). https://bit.ly/3ed5IOP 86 Figura 18 – Aparelho de surdez, software de transformação de texto em voz e voz em texto Fonte: Bersch (2017, p. 10) 4.1.11 Mobilidade em veículos A tecnologia assistiva de mobilidade em veículo é aquela que permite a uma pessoa com deficiência física dirigir um automóvel ou acessar com autonomia e segurança um veículo. São exemplos desta categoria as adaptações nos veículos e serviços de autoescola para pessoas com deficiência, além dos facilitadores de embarque e desembarque, como rampas e elevadores em veículos particulares ou de transporte coletivo. 4.1.12 Esporte e lazer São os recursos que favorecem à pessoa com deficiência a prática de atividades esportivas e de lazer. Como exemplo, temos as bolas sonoras, próteses para escalada no gelo, cadeiras de rodas específicas para as modalidades paradesportivas, dentre outros (Figura 19). Figura 19 – Cadeira de rodas adaptada para basquete, bola com guizo, suporte para jogo de cartas e prótese para escalada no gelo Fonte: Bersch (2017, p. 11) 87 4.2 TECNOLOGIA ASSISTIVA NA EDUCAÇÃO No processo educacional, a tecnologia assistiva tem um papel fundamental no desenvolvimento do aluno no processo pedagógico, pois contribui para a sua autonomia na construção individual e coletiva do conhecimento. Calheiros, Mendes e Lourenço (2018) destacam que ainda há bastante confusão em determinar o que é tecnologia assistiva e, no âmbito educacional, é comum a confusão entre tecnologia assistiva e tecnologia educacional. Esta confusão acaba por prejudicar o progresso pedagógico, pois pode: superestimar práticas a serem reconhecidas como uso de recursos de tecnologia assistiva, e também subestimar aquelas que muitas vezes são alicerçadas e dependentes do recurso de tecnologia assistiva, indiscriminando, em ambas as situações, o real papel das estratégias didáticas do docente, dos materiais e equipamentos utilizados e das ações promovidas com o aluno alvo (CALHEIROS; MENDES; LOURENÇO, 2018, p. 233-234). Além disso, o custo para aquisição e manutenção de alguns equipamentos e softwares, e a formação precária para a utilização de tecnologia assistiva podem contribuir para a diminuição do acesso e da utilização desta área do conhecimento no cotidiano escolar. Ainda assim, é de suma importância o conhecimento e popularização da tecnologia assistiva para que esta se torne cada vez mais disponível a todos que necessitam dela. ATENÇÃO Temos que cuidar para diferenciar a tecnologia assistiva de outras tecnologias que favorecem a área médica e de reabilitação. A tecnologia assistiva é um re- curso do usuário, da pessoa com deficiência, e o acompanha em diferentes ati- vidades do seu cotidiano. A bengala da pessoa com deficiência visual a acompa- nha ao longo do dia, assim como a cadeira de rodas de alguém com deficiência física ou um software de comunicação utilizado por uma pessoa com deficiên- cia que apresenta esta limitação. A tecnologia assistiva tem por objetivo romper barreiras (sensoriais, motoras ou cognitivas) permitindo acesso à informação e participação ativa na tarefa realizada. Sem ela, a ação ou aprendizagem, no caso do ambiente escolar, seria restrita ou inexistente. 88 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • A conceitualização de acessibilidade e barreiras para a inclusão da pessoa com deficiência. • As seis categorias de acessibilidade e como podemos fazer para promovê-las. • As principais barreiras que impedem a participação social e o exercício do direito das pessoas com deficiência. • O que é tecnologia assistiva e suas categorias, além da importância desta tecno- logia para a inclusão e autonomia da pessoa com deficiência na sociedade e no ambiente escolar. 89 AUTOATIVIDADE 1 Segundo o Estatuto da Pessoa com Deficiência, a acessibilidade pode ser definida como a possibilidade e a condição de alcance das pessoas com deficiência para uti- lização, com segurança e autonomia, espaços, mobiliários, equipamentos, edifica- ções e transportes, públicos ou privados, Diante desta afirmação, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A acessibilidade arquitetônica diz respeito à eliminação de barreiras nos edifícios, residências e espaços urbanos, como, por exemplo, a instalação de rampas e pisos táteis ( ) A acessibilidade atitudinal se refere à eliminação de barreiras nas políticas públicas, por meio da criação de legislação que promova o direito das pessoas com deficiência. ( ) A acessibilidade metodológica diz respeito à eliminação das barreiras nos instru- mentos e métodos de estudo, tendo como exemplo a adaptação de utensílios como lápis, cadernos, carteiras e materiais didáticos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – V. d) ( ) F – F – V. 2 Qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação plena da pessoa com deficiência na sociedade, impedindo-a de se movimentar, se expressar, se comunicar e circular com segurança é compreendido como uma barreira. De acordo com a classificação dos tipos de barreiras, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Uma calçada quebrada que não permite a passagem de uma pessoa com deficiên- cia física utilizando uma cadeira de rodas é um exemplo de barreira arquitetônica. b) ( ) A utilização de vídeos com legendas ou tradução em Libras é uma forma de superar a barreira atitudinal, garantindo acessibilidade às pessoas com defici- ência auditiva. c) ( ) As barreiras atitudinais dizem respeito a comportamentos que prejudiquem ou impeçam a participação igualitária da pessoa com deficiência, como, por exemplo, oferecer vantagens por considerar que ela não terá capacidade de realizar a ação por meios próprios. d) ( ) Barreiras tecnológicas são aquelas que impedem a pessoa com deficiência de acessar tecnologias, como a falta de elevador ou rampa automática para acesso em ônibus de transporte público. 90 3 A eliminação de barreiras e a garantia de acessibilidade da pessoa com deficiência podem ser realizadas por meio da tecnologia assistiva. Diante disso, considere as informações a seguir: I- Adequações de mobiliários e ambientes com itens planejados como rampas e elevado- res são formas de tecnologia assistiva de projetos arquitetônicos para acessibilidade. II- A tecnologia assistiva é um sistema composto por, dentre outros itens, equipamentos, recursos e serviços que têm por objetivo promover a autonomia e a independência da pessoa com deficiência, facilitando a acessibilidade e a inclusão desta na sociedade. III- Cadeiras de rodas e andadores são exemplos de tecnologia assistiva de categoria de auxílios para a vida diária e vida prática. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) As sentenças II e III estão corretas c) ( ) Somente a sentença II está correta. d) ( ) As sentenças I e III estão corretas. 4 Os conceitos de acessibilidade, barreiras e tecnologia assistiva estão interligados. Com base no conteúdo estudado neste tópico,disserte sobre esta afirmação. 5 Defina o que é tecnologia assistiva de mobilidade em veículos e aponte qual barreira ela elimina. 91 TÓPICO 3 - CAMINHOS PARA UMA EDUCAÇÃO FÍSICA INCLUSIVA 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 Acadêmico, ao longo desta segunda unidade adquirimos alguns conhecimentos e vimos alguns conceitos importantes para realizar uma prática profissional inclusiva, especialmente nas aulas de educação física escolar. Estes conhecimentos nos dão base para que possamos planejar e avaliar as aulas com qualidade, de forma a garantir não só o cumprimento dos direitos das pessoas com deficiência, mas o respeito à sua autonomia e individualidade, promovendo uma verdadeira inclusão. As aulas de Educação Física, por estarem centradas em práticas corporais, são momentos que favorecem a socialização e a criação de vínculos entre os alunos e professor-aluno. Podendo ser uma excelente oportunidade de vivência da inclusão para todos os alunos, além de permitir ao aluno com deficiência demonstrar suas potencialidades para além dos conteúdos de sala de aula, de forma a demonstrar a superação das capacidades humanas, ampliando a visão de todos sobre a participação efetiva da pessoa com deficiência na sociedade. Por esta ótica, percebemos como é grande a nossa responsabilidade ao conduzir essas aulas! Para finalizar o conteúdo desta unidade, no Tópico 3 vamos realizar uma abordagem mais “prática” em relação a nossa atuação inclusiva na educação física escolar. A seguir, conheceremos algumas ações para a promoção da inclusão nas aulas de Educação Física. Mais do que apenas incluir um aluno com deficiência, este conhecimento pode e deve ser propagado entre todos os alunos, para que possamos contribuir para uma sociedade que respeite as pessoas com deficiência. Isso significa que são conteúdos que podem ser trabalhados também em turmas que não têm a presença de um aluno com deficiência. Ao final deste tópico, conheceremos algumas possibilidades de jogos e atividades inclusivos que podem ser realizados nas aulas práticas de Educação Física. 2 AÇÕES E REFLEXÕES PARA PROMOÇÃO DA INCLUSÃO NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA Promover a inclusão da pessoa com deficiência nas aulas de Educação Física pode ser um desafio para o professor. Mas como devemos fazer? Quais ações devem ser tomadas? O primeiro passo é o conhecimento. 92 Como vimos na Unidade 1, existem diferentes tipos de deficiência e cada uma delas necessita de ações diferenciadas para proporcionar acessibilidade e inclusão. Um aluno com deficiência visual tem necessidades distintas de um com deficiência motora que, por sua vez, é diferente de alguém com transtorno de espectro autista. Deste modo, conhecer as principais características da deficiência ajuda a planejar adequadamente as ações. Neste aspecto, cabe destacar, conforme apontam Vara e Cidade (2020, p. 44), que o professor deve levantar as “informações básicas, como: tipo de deficiência; idade em que apareceu a deficiência; se ela foi repentina ou gradativa e se é transitória ou permanente; as funções e as estruturas que estão comprometidas”. Também é importante verificar se há algum tipo de atividade contraindicada. O segundo passo talvez seja o mais importante em direção à inclusão é a valorização do aluno. Devemos perguntar ao aluno: • O que você PODE fazer? • O que você CONSEGUE fazer? • Por quanto tempo ele poderá permanecer ATENTO às atividades propostas? • Quais os INTERESSES e NECESSIDADES dele em relação às atividades propostas? Com base nestas informações é possível que o professor realize o planejamento das aulas realizando as adequações e adaptações necessárias para que todos os alunos aprendam e participem de maneira ativa. Neste aspecto, cabe destacar a necessidade de atividades com diferentes graus de dificuldade e possibilidades de execução, que possam ser realizadas de forma individual, em pequenos ou grandes grupos. A aula deve ser interessante e benéfica a todos os alunos, e não apenas àqueles com deficiência (VARA; CIDADE, 2020). 2.1 ATITUDES POSITIVAS PARA COM OS ALUNOS COM DEFICIÊNCIA Atitudes positivas são ações que buscam valorizar e respeitar a pessoa na sua individualidade. Para o aluno com deficiência, atitudes positivas facilitam a inclusão e fortalecem a relação entre professor e aluno. Essas atitudes positivas podem ter uma característica mais geral, aplicada a todas as pessoas com deficiência, ou serem mais específicas, de acordo com as limitações decorrentes do tipo de deficiência (MARQUES; CIDADE; LOPES, 2009). De forma geral, Marques, Cidade e Lopes (2009) apontam como atitudes positivas para com os alunos com deficiência: • acolher e valorizar o aluno com ênfase em suas potencialidades; • criar um clima que ofereça segurança e confiança para que o aluno consiga expressar suas vivências, expectativas, preocupações e medos; • ficar alerta com possíveis situações de apatia, tristeza e cansaço; • estimular a expressão corporal e linguística, sobretudo em alunos com acometimentos mais severos; 93 • em relação a aprendizagem, ter uma atitude aberta, flexível e incessante na busca da melhor forma de comunicação, aplicação das estratégias metodológicas e avaliação; • ter flexibilidade na organização de horários e duração das atividades; • manter rotinas que ajude os alunos a antecipar situações e a estruturar temporalmente seu mundo; • ter atitude investigativa e aberta, procurar experimentar novos métodos, materiais ou sugestões; • contribuir para a mobilidade dentro da escola ou no espaço de atuação, por meio da eliminação de barreiras arquitetônicas; • providenciar adaptações específicas e o uso de tecnologia assistiva, como muletas, andadores, cadeiras de rodas, meios de comunicação adequados, dentre outros. • saber como manejar e familiarizar-se com instrumentos mais específicos como, sondas, coletores, órteses, dentre outros; • utilizar recursos pessoais como amigo tutor, voluntários e familiares; • manter uma observação permanente. 2.1.1 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência visual Com relação à pessoa com deficiência visual é importante saber o nível de orien- tação e mobilidade. Para essas pessoas, a principal via de recepção de informações é a audição, sendo este aspecto ambiental importante para proporcionar o desenvolvimento pleno das atividades. Em alguns casos de deficiências visuais, como o glaucoma e o al- binismo, o excesso de luminosidade pode dificultar a visão. Outras atitudes positivas são: • sempre verbalizar as explicações. Falar de forma clara, objetiva e tranquila, repetindo, se necessário, isto facilitará a percepção do aluno; • chamar o aluno pelo nome ao dirigir-se a ele, esta ação transmite segurança ao aluno; • para alunos com baixa visão, demonstrar atividades dentro do seu campo visual; • para os alunos cegos, demonstrar o exercício a partir da ajuda física, por meio de contato, para que depois ele possa executar a atividade sozinho; • usar dicas específicas ambientais, como muros, cheiro característico de algum local, posição do Sol, isto auxiliará o aluno em sua locomoção e formação de um mapa mental do ambiente físico; • evitar ambientes com muitos estímulos sonoros para desenvolver suas atividades; • usar cores que aumentem o contraste entre equipamento e plano de fundo; • utilizar dispositivos ou adaptações sonoras aos equipamentos, como embrulhar bolas em sacos plásticos, guizos para a marcação de ações específicas, como gols e pontos; • intercalar alunos com deficiência visual com alunos sem deficiência visual, para facilitar a integração e a referência. Em atividades com deslocamento, é possível ligar o aluno ao seu condutor, com barbantes ou lenços; • cuidado com o uso de expressões e palavras genéricas para solicitar, como por exemplo: “Ei, você. Venha aqui!” 94 • ao se aproximar ou se afastar de pessoas com deficiência visual, sempre o comunicar a respeito disso, se apresentar e se despedir; • avisarquanto a problemas nas suas vestimentas; • buscar trabalhar as atividades por etapas, para que os alunos se sintam seguros; • não demonstre excesso de proteção. O aluno com deficiência visual é um ser humano, deve ser tratado como os demais e ter liberdade. 2.1.2 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência auditiva Para pessoas com deficiência auditiva, a visão pode ser uma importante via de recepção de informação, por isso, esse aspecto é bastante considerado para ações po- sitivas. São consideradas ações positivas para com as pessoas com deficiência auditiva: • durante sua intervenção, sempre falar com o aluno de frente para ele. Muitos deles podem fazer leitura labial; • falar de forma objetiva e clara; • criar sinais que sejam de fácil reconhecimento para comunicação à distância; • não mascar chicletes enquanto fala; • adotar uma linguagem compatível ao nível de compreensão do aluno; • utilizar estratégias visuais para aplicar suas atividades, como cartões de instrução, cronômetros e placares • não mude constantemente as regras das atividades e sempre que fizer isso, chame todos os alunos e dê uma instrução clara; • tente estimular o maior envolvimento dos alunos; • utilize Libras. Para alunos com surdocegueira: • é importante ser flexível, paciente e criativo; • empregar várias formas de ensino, como explanação, tateação, assistência física; • alterar as regras das atividades; • modificar o ambiente de acordo com as necessidades do aluno (comandos visuais, iluminação, acessibilidade). Especialmente nas atividades de Educação Física, de acordo com Vara e Cidade (2020), o professor deve centrar as atividades para o desenvolvimento da coordenação e do equilíbrio, em todas as suas variações. 95 2.1.3 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência intelectual Pessoas com deficiência intelectual apresentam problemas para a realização de tarefas em virtude das dificuldades de manter a atenção, se antecipar aos estímulos e oferecer respostas na resolução dos problemas (VARA; CIDADE, 2020). Assim, as ações positivas para com a pessoa com deficiência intelectual são: • selecionar atividades que estejam de acordo com o desenvolvimento do aluno; • propor atividades que chame a atenção dos alunos; • realizar adaptações nas atividades, se necessário; • não subestimar a capacidade do aluno; • atividades mais complexas devem ser desenvolvidas por etapas; • evitar situação frustrantes; • evitar instruções longas, prezando por orientações claras e breves; • utilizar demonstrações, se necessário; • fixar regras em cartazes com comandos visuais chama a atenção e facilita a ação; • usar o reforço positivo pode estimular a atenção e reduzir a impulsividade; • evitar ambientes com muitos estímulos e distrações; • oferecer atividades que proporcionem a diminuição da impulsividade e hiperatividade, como técnicas de respiração e movimentos executados em velocidade lenta; • destacar os pontos relevantes de cada tarefa a ser executada, facilitando a atenção seletiva e a concentração; • solicitar que o aluno explique o que ele vai fazer. O planejamento motor faz com que o aluno pense antecipadamente na ação a ser executada. • evitar, se possível eliminar, atividades que forcem a comparação entre os alunos. Para essas pessoas, a demonstração simples e objetiva é bastante importante. Desse modo, utilizar um colega como tutor pode facilitar o ensino, pois ele torna-se referência e exemplo para o aluno com deficiência. 2.1.4 Ações positivas em relação à pessoa com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno de Espectro Autista (TEA) Tanto o TDAH quanto o TEA são condições bastantes complexas. Entretanto, existem ações comuns que podem facilitar a inclusão e a aprendizagem dessas pessoas: Ações positivas para com pessoas com TDAH: • estabelecer uma rotina estruturada e consistente para o aluno conhecer a prática e evitar pausas e distrações; • escrever as regras em cartões e cartazes de comando visual, de preferência, essas regras podem ser estabelecidas em conjunto com os alunos; 96 • intercalar atividades de movimentos lentos, com outras mais agitadas; • solicitar ao aluno que repita ou compartilhe as instruções que foram dadas com um colega; • realizar um feedback positivo imediatamente após o aluno realizar a tarefa solicitada com bom desempenho, compatível ao seu processo de aprendizagem; • proporcionar um ambiente tranquilo e organizado, para evitar distrações e desvios de atenção; • diversificar os recursos e estratégias pedagógicas mantém a novidade e facilita o foco de atenção; • dar destaque aos comandos relevantes, para auxiliar o aluno em que ele deve manter o foco. Ações positivas para pessoas com TEA: • além das atividades físicas, promover a interação social do aluno de forma respeitosa; • sempre que possível, realize atividades que alternem ambientes externos com internos, inclusive atividades em frente a espelhos; • a utilização de músicas pode facilitar a interação social; • não reprimir as condutas repetitivas, elas ajudam a controlar o estresse; • evitar estímulos desagradáveis como barulhos altos, luzes ofuscantes e cheiros fortes. 2.1.5 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência física Existem diversos tipos de deficiência físicas. Assim, o nível de comprometi- mento motor da pessoa vai determinar qual ação deve ser tomada. De modo geral, podemos destacar: • conhecer a deficiência do seu aluno, quais movimentos ele pode realizar, quais não consegue; • promover a acessibilidade e a autonomia, principalmente removendo as barreiras ar- quitetônicas que possam dificultar o acesso do aluno ao local das aulas e à participa- ção plena nas atividades; • procure diversificar as experiências corporais. 2.2 EDUCAÇÃO FÍSICA E ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Conforme previsto em lei, as escolas que contam com alunos com deficiência podem contar com um serviço de Atendimento Educacional Especializado (AEE). Este atendimento acontece no contraturno escolar, e pode ocorrer na escola regular, 97 numa sala de recursos multifuncionais ou em alguma instituição especializada. O AEE é realizado por professores especialistas em Educação Inclusiva, que possuem a responsabilidade de auxiliar os alunos em busca de autonomia, ampliando suas habilidades, como a comunicação e a mobilidade (BERSCH, 2007). Além disso, esses professores de AEE trabalham em parceria com outras áreas como a Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Fonoaudiologia e mesmo a Engenharia, garantindo os recursos necessários e adequados para o pleno desenvolvimento das pessoas com deficiência, e contribuindo para a manutenção e aumento da qualidade de vida deles. O professor de Educação Física também deve atuar em parceria com o professor de AEE, assim como os demais educadores da escola. Sempre que o professor identificar dificuldades ou barreiras que impeçam o pleno desenvolvimento do aluno com deficiência, deverá comunicar o AEE. Em conjunto, serão buscadas e trabalhadas as soluções necessárias para garantir o desenvolvimento pleno e a autonomia do aluno. 3 JOGOS E ATIVIDADES PARA AS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA A Educação Física é um componente curricular obrigatório. Desse modo, o planejamento pedagógico deve contemplar além do desenvolvimento dos conteúdos de acordo com as fases e séries de ensino, a participação de todos os alunos, incluindo aqueles com alguma deficiência. Deste modo, as atividades não devem favorecer um ou outro aluno, mas serem meios de experiências ativas e efetivas na Educação Física. Conforme já abordamos anteriormente, apesar do esporte predominar como conteúdo da Educação Física, especialmente no ensino fundamental e médio, existem outros conteúdos que devem compor o plano de ensino. Realizar as adaptações necessárias exige conhecimento e criatividade. Vara e Cidade (2020) propõem a utilização da estratégia “se/como”, para realizar as adaptações necessárias a participaçãodas pessoas com deficiência. Assim, podemos estruturar: se meu aluno não consegue ficar em pé, como posso adaptar a atividade de dança para que ele participe? Para além da teoria e das conceitualizações, sabemos das inúmeras dificulda- des para a promoção de uma Educação Física inclusiva. Martins (2014) destaca que dentre as dificuldades apontadas pelos docentes estão: falta de formação adequada, escassez de materiais para o desenvolvimento das atividades, turmas grandes e pou- ca flexibilidade curricular. Quanto a flexibilidade curricular, Alves e Fiorini (2018) apontam que este é um fator fundamental para a promoção da inclusão na Educação Física, em virtude da possibilidade de seguir diferentes enfoques para o mesmo conteúdo, ou, ainda, 98 trabalhar com objetivos individualizados distintos entre os alunos. Mesmo diante de outras possibilidades, há de se concordar que as modalidades esportivas adaptadas ou paralímpicas são conteúdos que promovem e facilitam a inclusão do aluno com deficiência e a participação de todos no processo de aprendizagem. Além da flexibilização curricular, os autores destacam as necessidades de adaptações ambientais e de tarefas, especialmente com ajustes em relação às regras. As estratégias de ensino também devem ser adequadas, para tal, seguir as atitudes positivas, conforme apresentado anteriormente, é um bom pontapé inicial (ALVES; FIORINI, 2018). O colega tutor é uma estratégia que pode facilitar o trabalho do professor em relação à inclusão de um aluno com deficiência. O colega tutor pode ser um amigo de sala ou alguém próximo ao aluno, que auxiliará o aluno com deficiência em suas atividades. Esta função pode, inclusive, ser revezada entre os colegas de turma. O colega tutor deve ser preparado para exercer essa função, para que consiga ofertar a melhor forma de auxílio. Fulk e King (2001) apresentam algumas diretrizes importantes para desenvolver essa função: • Explicar a finalidade e papéis de ação: o tutor deve conhecer sua função e quais ações serão desenvolvidas. Além disso, precisa conhecer as principais características da deficiência na qual irá atuar. • Colaboração e cooperação: é importante conhecer a diferença entre os termos e analisar a situação para ver qual atenderá melhor às demandas da pessoa com deficiência e da atividade proposta. • Treinamento: a pessoa que irá exercer a tutoria precisa conhecer e vivenciar a defi- ciência, além de discutir junto aos seus pares, professores ou especialistas quais as melhores estratégias de feedback e correção. • Modelar comportamentos: estimulando a pessoa com deficiência a tentar executar a atividade proposta dentro de suas potencialidades, auxiliando-a a relacionar com situações cotidianas e outras tarefas que demandem ações similares. • Roteiros pré-estabelecidos: para atuar da melhor forma, o amigo tutor precisa ter ciência do que será desenvolvido para que não precise compreender ou receber instruções sobre a tarefa durante a execução dela. • Acompanhamento e orientação: analisar as principais barreiras apresentadas e como acompanhar e orientar a pessoa com deficiência. • Avaliação do processo de tutoria: após a ação desenvolvida, analisar os pontos posi- tivos e negativos, buscando feedback junto à pessoa com deficiência e ao professor ou profissional responsável pelas atividades propostas. 99 DICA O currículo escolar pressupõe não apenas a aplicação dos conteúdos deter- minados em cada etapa do processo educacional, mas também a avaliação adequada da aprendizagem dos alunos. Realizar a avaliação de forma inclu- siva pode ser um desafio ao professor de Educação Física. O livro “Educação Física Adaptada: o passo a passo da avaliação”, organizado por José Irineu Gorla, é um instrumento que pode orientar e auxiliar esta tarefa. Fonte: GORLA, J. I. Educação física adaptada: o passo a passo da avaliação. São Paulo: Phorte, 2013. 3.1 JOGOS E ATIVIDADES Neste subtópico, vamos conhecer alguns exemplos de jogos e atividades que podem ser realizados durante uma aula de Educação Física. Estas atividades foram de- senvolvidas de modo a incluir algum aluno com deficiência, levando em conta suas características individuais e a estrutura física e humana disponível no espaço escolar. O principal objetivo deste conteúdo é suscitar sua criatividade, ser ponto de partida para que você consiga realizar uma Educação Física e uma Educação Inclusiva em sua atuação profissional. Como já destacado anteriormente, conhecer a turma, o aluno, a sua deficiência e a estrutura escolar são atitudes fundamentais para desenvolver um planejamento que atendam às necessidades de aprendizagem de todos os alunos, não apenas aquele com deficiência. Além disso, é importante que o conteúdo esteja de acordo com o plano curricular. Essas atividades podem ser realizadas, inclusive, em turmas que não tenham alunos com deficiência. Elas permitem aos alunos perceber as dificuldades, desenvol- vendo empatia e respeito para com as pessoas com deficiência. Ademais, estas ex- periências permitem conhecer as potencialidades das pessoas com deficiência. Ações como essas são muito importantes para que tenhamos uma transformação social, per- mitindo que as crianças sejam educadas, em todos os sentidos, de forma inclusiva. Acadêmico, vamos conhecer essas atividades? 100 3.1.1 Atividades adaptadas – deficiência física A sequência de atividades exemplificadas a seguir tem por foco vivenciar e incluir pessoas com deficiência física. Assim, as adaptações podem ocorrer em relação à locomoção, à substituição de ações com membros inferiores pelos superiores e vice- versa, atividades de coordenação, e todas aquelas que sua criatividade permitir para que um aluno com deficiência seja incluso nas aulas de Educação Física. • Andando com cadeiras Materiais necessários: cadeiras de rodas ou cadeiras escolares que os alunos aguentem carregar. A proposta desta atividade é que todos os alunos vivenciem situações em que há pouca ou nenhuma mobilidade dos membros inferiores, para isso poderão utilizar cadeiras de rodas ou mesmo cadeiras comuns. Uma parte da turma pode realizar a atividade, enquanto outra garante a segurança e o auxílio dos colegas, se necessário. Eles poderão se movimentar de um local ao outro, deslocar-se da sala ao pátio, utilizar o bebedouro etc. Em seguida, os grupos podem se inverter. Ao final, os alunos podem dividir as experiências. Qualquer jogo ou atividade pode ser praticado com esta perspectiva. Vamos conhecer mais um exemplo a seguir. • Basquete em cadeiras Figura 20 – Turma de alunos jogando basquete em cadeiras Fonte: https://bit.ly/3B5vGwA. Acesso em: 1 set. 2022. https://bit.ly/3B5vGwA 101 Materiais necessários: cadeiras de rodas ou cadeiras escolares que os alunos aguentem carregar, bola, cesto. A proposta desta atividade é aprender alguns fundamentos do basquete. O ideal seria que todos os alunos tivessem acesso às cadeiras de rodas adaptadas para a modalidade, sabemos que essa realidade é rara. Mesmo assim, é possível realizar a atividade colocando todos os alunos em cadeiras comuns. A realização do jogo pode ser feita de forma estática, sem que os alunos movimentem as cadeiras, ou de forma dinâmica, permitindo que os alunos se movimentem com as cadeiras quando não estão com a bola e realizem o passe somente em posição estática. O objetivo pode ser realizar a cesta, como num jogo comum, ou treinar fundamentos específicos, como passes e jogadas. Outras regras e adaptações podem ser combinadas juntamente com os alunos, sempre levando em consideração as características dos participantes da atividade, de modo que ninguém seja prejudicado ou leve vantagem na situação. • Vivenciando estar imobilizados Materiais necessários: coletes, camisetas ou blusas, objetivos de uso diário. O objetivo desta atividade é que os alunos vivenciem situações em que não é possível utilizar os membros superiores. Para isso, eles poderão vestir acamiseta, colete ou blusa por cima dos braços ou ainda colocar as mãos no bolso. Em seguida deverão realizar as atividades propostas. Podem ser atividades do cotidiano escolar, como carregar a mochila, beber água, abrir uma embalagem, ou atividades específicas da aula de Educação Física, como uma brincadeira de pega-pega, lançar uma bola ou fazer um passe, realizar um movimento gímnico etc. Da mesma forma que a atividade com a cadeira, esta condição pode ser utilizada em diversas vivências práticas da aula de Educação Física. • Bocha inclusiva Materiais necessários: bolas em três cores diferentes, calha (pode ser confec- cionada com canos de PVC). Para realizar o jogo de bocha você precisará de seis bolas azuis, seis bolas vermelhas e uma bola branca (as cores podem ser diferentes, desde que obedeçam a estas quantidades e tenham cores contrastantes). A regra geral da modalidade determina que, inicialmente, a bola branca é lançada, e o objetivo de cada uma das equipes (vermelha ou azul) é lançar suas bolas coloridas o mais próximo possível da bola branca. Nesta modalidade adaptada, os lançamentos podem ser efetuados com as mãos, com os pés, em pé, sentado ou deitado, ou ainda com auxílio de materiais, como calhas. 102 O campo do jogo também pode ser adaptado, na quadra, na sala ou em alguma superfície que seja confortável para os praticantes. O importante é garantir a participação de todos, a aprendizagem e a diversão. Figura 21 – Aluno com paralisia cerebral jogando bocha com ajuda de uma calha Fonte: https://bit.ly/3CMdRnG. Acesso em: 1 set. 2022. DICA Ficou curioso a respeito da bocha adaptada? Veja neste vídeo o relato das professoras e algumas imagens da aula: https://bit.ly/3RsCwlb. • Vôlei sentado Materiais necessários: bola de vôlei (ou bexiga, bola leve), rede (ou corda). Como já vimos na Unidade 1, o vôlei sentado é uma modalidade paralímpica e que apresenta fácil adaptação para que seja vivenciada nas aulas de Educação Físi- ca. Nesta adaptação para as aulas inclusivas, os alunos deverão ser divididos em duas equipes e, como principal regra, não podem tirar o quadril do chão durante os movimen- tos do jogo. 103 Além da adaptação de locomoção, a altura da rede é menor e o tamanho da quadra também pode ser reduzido. O jogo pode ser efetuado com a bola tradicional de vôlei, ou mesmo com bexigas ou bolas mais leves, para facilitar o movimento e a execução dos fundamentos pelos alunos. As regras também podem ser adaptadas para incluir a participação de todos. O número de alunos por equipe pode ser ajustado, pode-se determinar um número mínimo de toques entre os jogadores da mesma equipe antes de passar a bola para o campo adversário, ou ainda que todos toquem na bola antes de realizar o repasse. Um ponto é contado toda vez que a equipe acerta a bola no chão da área adversária. • Pega-pega bola sentado Material necessário: bola. Um aluno será designado pegador e ficará com uma bola, e os demais deverão evitar ser pegos. Todos deverão ficar sentados no espaço, podendo apenas se locomover nesta posição. O pegador deverá arremessar a bola nos colegas, aquele que for tocado pela bola passa a ser o pegador. Tanto é possível alternar o aluno pegador, quanto aumentar o número de pegadores na atividade. 3.1.2 Atividades adaptadas – deficiência visual Os exemplos de atividades apresentadas na sequência são voltados para inclusão de alunos com deficiência visual. As principais características são a diminuição ou eliminação da capacidade visual por parte dos participantes, por meio de vendas, e a valorização da habilidade sensorial auditiva e tátil. • Siga o comando Material necessário: vendas. Para a realização desta atividade, os alunos deverão formar duplas. Um dos alunos ficará vendado e o outro será o guia. Num primeiro momento, o aluno vendado poderá explorar o ambiente segurando no braço ou na mão do guia. Pode-se ir colocando obstáculos e aumentando a velocidade, com corridas, para aumentar a dificuldade. Em seguida, com o aluno próximo ao seu guia, seguindo apenas o comando de voz, sem tocá-lo, ele deverá se locomover pelo espaço, realizando as mesmas atividades feitas em contato com o guia, seguindo as instruções. A dificuldade também pode ser aumentada, separando o guia do aluno vendado e este deverá encontrar e chegar ao seu guia apenas pelo comando de voz. 104 Esta adaptação, com um aluno vendado e outro como guia, pode ser realizada para a prática esportiva, como corridas e esportes coletivos, além de outros jogos e brincadeiras. • Goalball Materiais necessários: bola com guizo (ou embalada em saco plástico), duas traves de gol (ou materiais que demarquem essa área), barbantes ou cordas para delimitar a área de jogo. O goalball é um esporte criado para pessoas com deficiência visual. Pelas suas regras desportivas, cada equipe é formada por três jogadores, que são ao mesmo tempo goleiros e arremessadores. A bola não pode ser chutada, apenas defendida com os pés. O arremesso é feito de forma rasteira para acertar o gol adversário. Na escola, o goalball pode ser praticado na quadra, com os alunos vendados. As linhas que demarcam o campo de jogo podem ser feitas com fita e barbante, para que tenham relevo e facilitem a identificação pelos praticantes. Caso não tenha bola com guiso disponível, pode-se envolver uma bola em uma sacola ou papel celofane para que seu barulho fique mais perceptivo. Na imagem a seguir vemos uma turma praticando goalball. Uma bola de bas- quete foi envolvida numa sacola e os gols foram determinados por cones. Figura 22 – Alunos vendados jogando goalball na escola Fonte: https://bit.ly/3KC0uIG. Acesso em: 1 set. 2022. 3.1.3 Atividades adaptadas – deficiência auditiva De modo geral, as limitações de um aluno com deficiência auditiva para as aulas de Educação Física são menores do que aquelas apresentadas por pessoas com deficiência física ou visual. Algumas pessoas com deficiência auditiva podem ter 105 dificuldades de coordenação e equilíbrio, fator que deve ser observado pelo professor na hora do planejamento dos conteúdos, tanto para garantir a segurança deste aluno, quanto para estimulá-lo a desenvolver estas habilidades. Ainda assim, cabe destacar que os jogos e esportes são bastante dependentes da audição: o apito que indica o início, pausa ou fim de uma partida, as instruções verbalizadas, dentre outras. Os jogos e atividades de mímicas podem ser bem explorados, inclusive para que os demais alunos tenham percepção das dificuldades e desenvolvam formas de comunicação não verbais. Estas formas de comunicação não verbais podem ser exploradas em diversas atividades. Pode-se combinar entre os alunos gestos específicos para sinalizar os comandos sonoros. Por exemplo, jogar o futebol com o árbitro sem utilizar o apito, apenas gestos. Outra possibilidade de conteúdo que pode ser explorado juntamente com alunos com deficiência auditiva são as atividades rítmicas e de dança. Ainda que pareça contraditório, pessoas com deficiência auditiva se beneficiam muito dessas atividades. Mesmo aquelas com grau de surdez elevado conseguem perceber a vibração do som. A dança pode ser uma excelente forma de expressão e inclusão para estas pessoas. DICA Veja como a dança pode ser uma forma de expressão e inclusão: https://bit.ly/3q0Sasv. 106 EDUCAÇÃO FÍSICA INCLUSIVA E AUTISMO: PERSPECTIVAS DE PAIS, ALUNOS, PROFESSORES E SEUS DESAFIOS André Schliemann Maria Luíza Tanure Alves Edison Duarte O transtorno do espectro do autismo (TEA) é um transtorno de natureza social e cognitiva caracterizado por persistentes deficiências na comunicação, comportamentos e interações sociais. Tais deficiências devem ser suficientemente graves para causar prejuízo em importantes áreas do funcionamento do indivíduo (pessoal, familiar, social, ocupacional, educação, dentre outras) sendo observadas normalmente em todos os contextos sociais e pessoais. Trata-se de uma patologiacrônica e complexa do neurodesenvolvimento que afeta aproximadamente 1,5% das crianças em idade escolar, cujos sinais já podem ser observados na primeira infância e tendem a acompanhar o indivíduo ao longo de sua vida. Apesar de não fazerem parte dos critérios diagnósticos, evidências em relatos clínicos e acadêmicos sugerem a presença consistente e pronunciada de dificuldades motoras nos indivíduos com TEA. Estas se revelam em prejuízos no equilíbrio e controle postural, no planejamento e encadeamento de ações motoras, na imitação de ações e gestos, na coordenação motora global e fina, nas atividades locomotoras e na marcha atípica na ponta dos pés. O tratamento do TEA tem como objetivo estimular de um lado a cognição, linguagem e interações sociais e, de outro, reduzir ou eliminar a rigidez comportamental e as estereotipias motoras, cabendo ressaltar que as intervenções com o objetivo de remediar dificuldades sensoriais e motoras associadas a esse transtorno são frequentemente empregadas como abordagens terapêuticas complementares. Nesse sentido, o emprego de exercícios físicos e práticas esportivas têm despertado um crescente interesse acadêmico e clínico por seus potenciais efeitos benéficos sobre os sintomas do TEA. Além das possibilidades terapêuticas para o tratamento de vários problemas associados ao autismo, exercícios físicos e práticas esportivas podem melhorar o condicionamento físico, saúde metabólica, qualidade de vida e contribuir para a melhoria das habilidades motoras, sociais, comportamentais e comunicativas dos indivíduos acometidos pelo TEA. As dificuldades motoras, sociais e comportamentais, no entanto, limitam as oportunidades de participação de indivíduos com TEA em atividades físicas e esportivas e constituem desafios significativos para o ensino na Educação Física e nos esportes. LEITURA COMPLEMENTAR 107 Tendo em vista que o acesso à Educação Física e à prática de esportes é um direito fundamental para todos – conforme Carta Internacional da Educação Física e dos Esportes proclamada pela UNESCO em 21 de novembro de 1978 – o objetivo desse artigo é discutir os desafios da inclusão de crianças e jovens com TEA nas atividades físicas e esportivas, tanto no contexto da educação física escolar quanto nos demais contextos da vida social (lazer, recreação e esportes). Para tanto, é apresentada uma revisão de estudos que tratam das perspectivas de pais, alunos e professores sobre essa temática seguida pela síntese e discussão dos principais desafios apontados por esses atores nas considerações finais. [...] Perspectivas dos alunos Apesar da extensa lista de benefícios físicos, psicológicos e sociais associados à participação regular em atividades físicas e esportivas, tanto na escola quanto fora dela, processos de exclusão no contexto escolar são prevalentes e potencialmente prejudiciais para os estudantes com deficiência. Em um estudo realizado para identificar como os estudantes com deficiência vivenciavam a experiência de inclusão nas aulas de Educação Física no Brasil, Alves et al. (2018) verificaram entre vários achados que esses estudantes descreviam as aulas de Educação Física como um lugar não amigável que desconsiderava suas necessidades e interesses. De fato, como citado por Alves et al. (2018, p. 1), “a Educação Física é um contexto onde os estudos revelam desvantagens para muitos estudantes, especialmente para aqueles com deficiências”. Para os estudantes com TEA, especificamente, a participação em contextos tradicionais da atividade física, como a Educação Física e os esportes organizados, pode ser especialmente problemática pela grande demanda de habilidades sociais e atléticas dessas atividades. Em um estudo realizado com o propósito de investigar como estudantes com TEA vivenciavam as aulas de Educação Física, Healy, Msetfi e Gallagher identificaram que entre os principais desafios mencionados pelos estudantes encontravam-se aqueles relacionados com sua falta de habilidade física para lidar com as diversas situações dos jogos. Além da falta de habilidade, medo de contusões e questões sensoriais (ex.: barulho excessivo, calor e sensibilidade tátil) foram citados também pelos estudantes. Estes revelaram conformismo com as dificuldades vivenciadas e aceitação de suas dificuldades motoras. Outro tema recorrente identificado nesse estudo foi a interação com os colegas, tanto a vivência de experiências positivas como a camaradagem e possibilidade de iniciar novas amizades quanto as negativas como bullying e comparações sociais negativas. 108 Por fim, o estudo também identificou o tema da exclusão com relatos de duas situações distintas. Uma em que os estudantes mencionaram que foram excluídos da atividade pelo próprio professor e outra na qual os próprios alunos solicitavam sua exclusão das atividades por não se sentirem hábeis para realizar as tarefas propostas ou para participar de jogos, principalmente, daqueles que envolviam o contato com bolas. Obrusnikova e Cavalier investigaram, por sua vez, a participação dos alunos com TEA em atividades físicas (de intensidade moderada a vigorosa) realizadas após o turno escolar. Por meio da elucidação por meio de fotografias, os autores identificaram que as barreiras mais citadas pelos alunos envolviam: o interesse por atividades sedentárias, particularmente aquelas que envolviam a utilização de tecnologia (como os jogos de videogame e de computadores e assistir a programas de televisão), falta de colegas para praticar exercícios e falta de tempo dos pais. Dentre os fatores facilitadores mais comumente citados encontravam-se, por outro lado, a disponibilidade de equipamentos de ginástica, a possibilidade de praticar esportes individuais ou em duplas (ex.: natação, tênis de campo) e o suporte de pais e colegas. Resultados semelhantes foram obtidos por Stanish et al. em um estudo com- parativo entre as percepções de um grupo de adolescentes com TEA e um grupo de ado- lescentes com desenvolvimento típico quanto à participação em atividades físicas e esportivas. Os autores verificaram que não obstante os dois grupos compartilhassem as mesmas percepções em relação a diversos aspectos investigados (ex.: pouca disponi- bilidade de tempo para praticar esportes e exercícios, ter um espaço adequado, preo- cupação com a aparência, gosto por caminhadas e por esportes individuais), algumas percepções contrastantes foram identificadas. Os estudantes com TEA, por exemplo, relataram com maior frequência que não gostavam das aulas de ginástica e de praticar esportes coletivos. Ao serem questionados a respeito do que preferiam fazer nas horas livres, 25% dos adolescentes com TEA responderam “esportes ou exercícios” contra 58% dos adolescentes com desenvolvimento típico. Adolescentes com TEA eram menos propensos a responder que os esportes e exercícios eram formas possíveis de se fazer amigos e a achar que tais atividades os fariam se sentir bem. Apesar das diferenças observadas, os autores verificaram que a maior parte dos adolescentes com TEA apresentou uma percepção positiva em relação aos esportes e exercícios e que gostaria de fazer mais atividades físicas do que faz atualmente. Promoção de atividades físicas e esportivas para jovens e crianças com TEA requer planejamento cuidadoso, inclusive em relação aos espaços utilizados na Educação Física. Estudo realizado por Lamb, Firbank e Aldous investigou como crianças com TEA vivenciavam as aulas de Educação Física a partir da sua interação com espaços e estruturas tradicionais do campo da Educação Física, tais como: vestiários, quadras, ginásios, piscinas e salas de aula. Os vestiários, por exemplo, foram relatados pelos estudantes com TEA como áreas que provocavam emoções negativas. Tais espaços, 109 segundo os autores, conferiam aos alunos, de uma forma geral, um sentimento de liberdade que possibilitava, por estarem longe da supervisão dos professores, a ocorrência de uma infinidadede disposições e práticas que, embora pudessem ser consideradas habituais para as circunstâncias, eram de difícil reconhecimento e julgamento por parte dos estudantes com TEA. Além dos vestiários, as mudanças de ambientes, corredores cheios e barulhentos também aumentavam a ansiedade e o sentimento de medo dos estudantes com TEA. O estudo concluiu que a ação prévia dos professores em relação às potenciais barreiras representadas por esses espaços de Educação Física pode ajudar na preparação de uma experiência rica e inclusiva para os alunos com TEA e que os professores deveriam ser mais bem instruídos para oferecer estratégias que facilitassem a comunicação e interação social dos seus alunos com TEA permitindo o maior engajamento e aprendizagem nas aulas de Educação Física. A percepção, vivência e reflexões da participação de estudantes com autismo de alto funcionamento em atividades físicas foram investigadas por Arnell, Jerlinder e Lundqvist e organizadas por meio de um modelo conceitual denominado de participação condicional em atividades físicas. Os autores verificaram que cinco temas sintetizavam as percepções e vivências desses alunos. O primeiro era a percepção de competência e autoconfiança como fator importante que afetava a disposição para participar das atividades físicas. Diversos alunos manifestaram que se sentiam competentes em atividades físicas específicas, principalmente naquelas que consideravam fáceis e estavam acostumados. Alguns, no entanto, manifestaram falta de confiança durante as atividades físicas o que poderia estar relacionado ao seu desempenho nas atividades físicas, como também à baixa autoestima associada à sua aparência ou ao seu corpo. Falta de competência e confiança, por sua vez, levavam a uma percepção de vulnerabilidade, o que era refletido em estresse e ansiedade para alguns. Outro tema identificado foi a motivação. De acordo com os adolescentes, a apreciação e percepção do sentido e significado da atividade foram os dois principais aspectos que influenciavam sua motivação para ser fisicamente ativo. Atividades divertidas, relevantes para o aluno e conduzidas por pessoas selecionadas pelos próprios adolescentes foram identificadas como poderosos fatores motivacionais para a participação. O terceiro tema foi o ajuste às demandas externas. Segundo os adolescentes, durante as atividades físicas eles eram expostos a diferentes demandas (sociais, ambientais e relacionadas a própria atividade) que afetavam a sua participação de diferentes formas. Durante as atividades físicas, as demandas sociais eram percebidas em conjunto com as interações sociais e apontadas como uma razão para a não participação, especialmente em situações em que essa interação ocorria em um contexto social no qual eles não se sentiam confortáveis. Para alguns adolescentes, a dificuldade de se ajustar aos outros fazia que eles preferissem atividades físicas solitárias, ao invés de se envolverem em atividades de grupo ou esportes coletivos. 110 A previsibilidade das atividades em si e de como elas deveriam ser executadas foi citada pelos alunos como um fator necessário para que se sentissem confortáveis para participar das atividades físicas. Familiarização com a atividade e o ambiente, estar preparado e saber o que fazer aumentavam a percepção de previsibilidade e, consequente, disposição do aluno para participar e se engajar nas atividades físicas. Por fim, a liberdade de escolha e oportunidade para influenciar a atividade, tam- bém, foram enfatizadas como importantes fatores para participação em atividades físi- cas. Os adolescentes manifestaram que gostariam de fazer escolhas ativas em relação à atividade em si, seu contexto e o contexto social como forma de aumentar a disposi- ção de participação nessas atividades. Ainda, segundo os adolescentes, seria importan- te que o professor de Educação Física estivesse interessado e receptivo para discutir e oferecer tais oportunidades de influência na escolha e condução das atividades e para entender as habilidades e necessidades de seus alunos com TEA. Perspectivas dos professores Assim como os pais desempenham um papel central na promoção e na oferta de oportunidades de participação em atividades físicas e esportivas aos seus filhos, a habilidade dos professores de Educação Física é crucial para acomodar os estudantes com deficiência em suas aulas. Em um estudo de revisão para investigar as experiências vivenciadas por pro- fessores e alunos com deficiências na inclusão nas aulas de Educação Física, Rekaa, Hanisch e Ytterhus verificaram que os professores descreviam a Educação Física in- clusiva em termos favoráveis e desfavoráveis, sugerindo que essa ambiguidade de- monstrava que as experiências vividas em contextos específicos eram decisivas para as atitudes dos professores em relação à Educação Física inclusiva. De um lado, os professores relataram experiências que acreditavam representar o potencial da Educação Física inclusiva para proporcionar benefícios sociais mútuos aos alunos com e sem deficiência e, de outro, relataram experiências que apontavam para as desafios do dia a dia da sua prática profissional como, por exemplo, lidar com estudantes com incapacidade grave nas aulas de Educação Física. Além disso, diversos estudos revistos verificaram que muitos professores de Educação Física se sentiam incompetentes para lidar com as necessidades dos estudantes com deficiência. As atitudes positivas dos professores de Educação Física em relação à inclusão, frequentemente, aparentavam estar calçadas na norma que os professores devem suportar o sucesso de cada um de seus estudantes na classe. As atitudes negativas, por sua vez, pareciam estar relacionadas a um foco estreito em relação a filosofia de ensino, não ter planos detalhados de suas aulas e ausência de disciplinas de Educação Física adaptada na sua formação acadêmica. 111 Estudos sugerem que programas de treinamento e de formação de professores em Educação Física adaptada contribuem para uma percepção mais favorável dos processos de inclusão de estudantes com deficiência e para a melhor percepção de autoeficácia dos professores. Beamer e Yun, por exemplo, investigaram as crenças e comportamentos reportados pelos professores em relação à inclusão de estudantes com TEA nas aulas de Educação Física. Obruniskova e Dillon, por sua vez, examinaram os principais desafios mencionados pelos professores de Educação Física no ensino de estudantes com TEA nas aulas de Educação Física. Os desafios apontados pelos professores foram categorizados em nove temas: comportamentos desatentos e hiperativos, dificuldades sociais, dificuldade de regulação emocional, dificuldades para entender e realizar tarefas, foco estreito e inflexibilidade para aderir a diferentes rotinas e estruturas, isolamento pelos companheiros de classe, efeitos negativos na aprendizagem dos colegas de classe e necessidade de suporte. Segundo as autoras, boa parte dos desafios reportados pelos professores resultavam da necessidade de utilizar instruções com um alto nível de direcionamento, comandos, contato físico e da assistência de um professor auxiliar, acompanhante ou de um próprio colega de classe. Os professores também reportaram que os comportamentos desatentos e hiperativos demandavam deles um esforço extra para prover supervisão adicional para manter os estudantes com TEA focados na tarefa. Por fim, o estudo concluiu que as deficiências sociais características do TEA tinham consequências profundas no desenvolvimento dos alunos, especialmente no que se referia à aprendizagem de situações de cooperação e competição, contextos nos quais os alunos apresentavam dificuldades para interagir com seus companheiros. Quando não conduzidos adequadamente, os desafios relatados pelos professores po- diam resultar em baixa motivação para participar das atividades físicas propostas, iso- lamento social, baixa autoestima, ansiedade, agressãoAUTOATIVIDADE ...................................................................................................69 TÓPICO 2 - ACESSIBILIDADE E BARREIRAS NA INCLUSÃO ...............................71 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................71 2 ACESSIBILIDADE ................................................................................................71 2.1 ACESSIBILIDADE ATITUDINAL .........................................................................................72 2.2 ACESSIBILIDADE ARQUITETÔNICA ................................................................................72 2.3 ACESSIBILIDADE METODOLÓGICA ................................................................................74 2.4 ACESSIBILIDADE COMUNICACIONAL ...........................................................................75 2.5 ACESSIBILIDADE PROGRAMÁTICA ................................................................................75 2.6 ACESSIBILIDADE INSTRUMENTAL .................................................................................75 3 BARREIRAS ........................................................................................................ 75 3.1 BARREIRAS URBANÍSTICAS.............................................................................................76 3.2 BARREIRAS ARQUITETÔNICAS .......................................................................................76 3.3 BARREIRAS NOS TRANSPORTES...................................................................................77 3.4 BARREIRAS NAS COMUNICAÇÕES E INFORMAÇÕES ...............................................77 3.5 BARREIRAS ATITUDINAIS ................................................................................................77 3.6 BARREIRAS TECNOLÓGICAS ......................................................................................... 78 4 TECNOLOGIA ASSISTIVA...................................................................................78 4.1 MODALIDADES DE TECNOLOGIA ASSISTIVA ............................................................. 78 4.1.1 Auxílios para a vida diária e vida prática .............................................................. 78 4.1.2 Comunicação aumentativa e alternativa ............................................................79 4.1.3 Recursos de acessibilidade ao computador ......................................................79 4.1.4 Sistemas de controle de ambiente ......................................................................80 4.1.5 Projetos arquitetônicos para acessibilidade ......................................................81 4.1.6 Órteses e Próteses ...................................................................................................82 4.1.7 Adequação postural .................................................................................................83 4.1.8 Auxílios de mobilidade ............................................................................................84 4.1.9 Auxílios para ampliação da função visual e recursos que traduzem conteúdos visuais em áudio ou informação tátil.......................................................85 4.1.10 Auxílios para melhorar a função auditiva e recursos utilizados para traduzir os conteúdos de áudio em imagens, texto e língua de sinais................85 4.1.11 Mobilidade em veículos ..........................................................................................86 4.1.12 Esporte e lazer .........................................................................................................86 4.2 TECNOLOGIA ASSISTIVA NA EDUCAÇÃO .................................................................... 87 RESUMO DO TÓPICO 2 ..........................................................................................88 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................89 TÓPICO 3 - CAMINHOS PARA UMA EDUCAÇÃO FÍSICA INCLUSIVA .................. 91 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 91 2 AÇÕES E REFLEXÕES PARA PROMOÇÃO DA INCLUSÃO NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ............................................................................................... 91 2.1 ATITUDES POSITIVAS PARA COM OS ALUNOS COM DEFICIÊNCIA ...................... 92 2.1.1 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência visual ........................ 93 2.1.2 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência auditiva ................... 94 2.1.3 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência intelectual .............. 95 2.1.4 Ações positivas em relação à pessoa com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno de Espectro Autista (TEA) ........ 95 2.1.5 Ações positivas em relação à pessoa com deficiência física ........................ 96 2.2 EDUCAÇÃO FÍSICA E ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO .............. 96 3 JOGOS E ATIVIDADES PARA AS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA ........ 97 3.1 JOGOS E ATIVIDADES ....................................................................................................... 99 3.1.1 Atividades adaptadas – deficiência física ......................................................... 100 3.1.2 Atividades adaptadas – deficiência visual ....................................................... 103 3.1.3 Atividades adaptadas – deficiência auditiva ................................................... 104 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................106 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................ 113 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 114 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 116 UNIDADE 3 — ATIVIDADE FÍSICA NA SAÚDE E NA DOENÇA ............................ 121 TÓPICO 1 — ATIVIDADE FÍSICA E PROMOÇÃO DA SAÚDE ................................ 123 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 123 2 RELAÇÃO ENTRE ATIVIDADE FÍSICA E SAÚDE.............................................. 123 2.1 AFINAL, O QUE É ATIVIDADE FÍSICA? ..........................................................................127 2.1.1 Domínios da atividade física ................................................................................. 128 2.2 COMO MEDIR O NÍVEL DE ATIVIDADE FÍSICA ..........................................................129 2.2.1 Métodos diretos ....................................................................................................... 131 2.2.2 Métodos indiretos .................................................................................................. 133 3 ATIVIDADE FÍSICA X COMPORTAMENTO SEDENTÁRIO ................................ 135 3.1 BARREIRAS PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA ............................................. 136 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................138 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 139 TÓPICO 2 - RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA .......... 141 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 141 2 RECOMENDAÇÕES ATUALIZADAS PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA .....142 2.1 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA CRIANÇAS E JOVENS ........................................................................................................... 142 2.1.1 Crianças de até 5 anos .......................................................................................... 143 2.1.2 Criançase comportamentos desafiadores e opositores. A síntese das perspectivas dos pais, alunos e professores em relação à participação de jovens e crianças com TEA em atividade físicas e esportivas poderia ser descrita pelo seguinte cenário: Pais sobrecarregados diante das responsabilidades de criar um filho/filha com TEA que reconhecem e valorizam a importância da atividade física para o desenvolvimento de seus filhos, mas que têm que priorizar os recursos financeiros, tempo e energia para as terapias que visam desenvolvimento da comunicação e da interação social. Quando conseguem superar esses obstáculos não encontram programas de atividade física adequados e professores preparados para lidar com seus filhos. Os alunos, por usa vez, se sentem excluídos das atividades físicas, não veem significado nas propostas, não têm motivação para participar e se engajar nas atividade físicas e esportivas, sofrem com a discriminação dos colegas e, em raras ocasiões, encontram suporte de professores que compreendem suas necessidades e adaptam as aulas para sua inclusão. Os professores, 112 por sua vez, não se sentem capacitados para enfrentar os desafios da inclusão de alunos com TEA em suas aulas, encontram-se sem o apoio de auxiliares, sobrecarregados com muitos alunos em sala de aula e com a responsabilidade de dar conta das demandas de seus alunos sem deficiência. [...] Fonte: SCHLIEMANN, A.; ALVES, M. L. T.; DUARTE, E. Educação física inclusiva e autismo: perspectivas de pais, alunos, professores e seus desafios. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 34, n. esp., p. 77-86, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3e4TCqS. Acesso em: 1 set. 2022. https://bit.ly/3e4TCqS 113 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • Quais ações são necessárias para atender com qualidade um aluno com deficiência. • O que são atitudes positivas e como elas podem ser aplicadas para garantir respeito e valorizar a pessoa com deficiência. • Quais são as principais atitudes positivas que podemos ter com a pessoa com deficiência de acordo com as suas características. • Alguns exemplos de atividades que podem ser aplicados em aulas práticas de Edu- cação Física para incluir alunos com deficiência. 114 AUTOATIVIDADE 1 As atitudes positivas são ações fundamentais para o processo de inclusão social da pessoa com deficiência. No ambiente escolar, essas ações garantem o respeito e a consideração do aluno com deficiência como protagonista do seu processo de ensino aprendizagem. Diante disso, analise as sentenças a seguir: I- Dentre as atitudes positivas para com alunos com deficiência visual com glaucoma ou albinismo está a diminuição do contraste entre equipamento e plano de fundo, para diminuir o excesso de cores e facilitar a visualização durante as aulas. II- Manter-se no campo de visão posicionando-se de frente para o aluno é uma atitude positiva para com pessoas com deficiência auditiva, por facilitar a leitura labial. III- Evitar um ambiente com muitos estímulos e distrações é uma atitude positiva que pode ser utilizada tanto com alunos com deficiência intelectual quanto com alunos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) As sentenças II e III estão corretas. c) ( ) Somente a sentença II está correta. d) ( ) As sentenças I e III estão corretas. 2 A atitude do professor diante do desafio de ensinar com qualidade e promover a inclusão de um aluno com deficiência faz toda a diferença para um resultado positivo no processo de ensino-aprendizagem. Com base no conteúdo estudado, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O conhecimento e a experiência do professor são essenciais para desenvolver as atividades, por isso é o professor quem deve escolher para o aluno quais atividade ele acredita que o aluno é capaz de realizar, e o aluno é obrigado a fazer para ga- rantir o sucesso da aprendizagem. ( ) Nas aulas de Educação Física, mediante a necessidade de adaptação dos conte- údos, somente as características e condições do aluno com deficiência devem ser considerada, os demais alunos da turma têm que compreender que para eles tudo é mais fácil. ( ) As atitudes positivas são ações que buscam valorizar e respeitar as pessoas com deficiência, e podem ser realizadas de maneira geral ou mais específicas, levando em conta o tipo de deficiência. 115 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – V. d) ( ) F – F – V. 3 Conforme previsto em lei, as escolas que contam com alunos com deficiência podem contar com um serviço de Atendimento Educacional Especializado (AEE). Sobre o AEE, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O aluno que frequenta o AEE não tem nenhuma necessidade de frequentar o ensino regular, pois o atendimento especializado já contempla todas as necessidades educacionais deste aluno. b) ( ) O AEE funciona como um “reforço escolar”, conta com um professor especializado na disciplina que o aluno tem dificuldade e irá trabalhar para melhorar o desempenho do aluno com deficiência no ensino regular. c) ( ) O AEE é destinado apenas ao desenvolvimento da leitura, escrita e matemática, as demais disciplinas, como a Educação Física, deverão solicitar o amigo tutor quando perceberem alguma dificuldade ou barreira do aluno com deficiência. d) ( ) O AEE deverá acontecer em contraturno escolar, seu objetivo é ampliar a autonomia e as habilidades do aluno com deficiência. 4 Atitudes positivas para com pessoas com deficiência podem ser compreendidas como ações que valorizam e respeitam a individualidade da pessoa com deficiência, facilitam a inclusão e o fortalecimento da relação professor-aluno. Imagine que você é professor de Educação Física do 5º ano do Ensino Fundamental, e recebeu em sua turma o João, um aluno com baixa visão em virtude do glaucoma. Exemplifique ao menos três atitudes positivas que você pode ter para com o João, facilitando sua inclusão na turma e nas aulas: 5 Imagine que você é professor de Educação Física do Ensino Fundamental, e dentre os conteúdos que constam no seu planejamento pedagógico estão os esportes coletivos. Neste ano, dentre os alunos da sua turma do 7º ano está a Ana. Ana é uma aluna com paraplegia, faz o uso de cadeira de rodas, não possui movimento dos membros inferiores, mas tem bom controle de tronco e habilidade com as mãos. Dentre as possibilidades de conteúdos a serem trabalhados, sugira e descreva uma atividade com esta temática que possa incluir a participação da Ana: 116 REFERÊNCIAS ALVES, M. L. T.; FIORINI, M. L. S. Como promover a inclusão nas aulas de educação física? A adaptação como caminho. 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Brasília, DF: Ministério da Educação, 2003. Disponível em: https://bit.ly/33iGuVc. Acesso em: 1 set. 2022. 117 BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, DF: Presidência da República, 2005. Disponível em: https://bit.ly/2HHUTTl. Acesso em: 1 set. 2022. BRASIL. Decreto nº 6.094, de 24 de abril de 2007. Dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, pela União Federal, em regime de colaboração com Municípios, Distrito Federal e Estados, e a participação das famílias e da comunidade, mediante programas e ações de assistência técnica e financeira, visando a mobilização social pela melhoria da qualidade da educação básica. Brasília, DF: Presidência da República, 2007. Disponível em: https://bit. ly/3Q7mFHJ Acesso em: 1 set. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. 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Curitiba: Intersaberes, 2020. 120 121 ATIVIDADE FÍSICA NA SAÚDE E NA DOENÇA UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender a importância da prática de atividade física para a promoção da saúde; • refletir acerca do papel do profissional de Educação Física na promoção da saúde; • compreender os efeitos do exercício físico no tratamento de diversas condições de saúde; • conhecer as recomendações para a prática de atividade física em diferentes populações. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ATIVIDADE FÍSICA E PROMOÇÃO DA SAÚDE TÓPICO 2 – RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA TÓPICO 3 – ATIVIDADE FÍSICA E EXERCÍCIO FÍSICO PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 122 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 123 TÓPICO 1 — ATIVIDADE FÍSICA E PROMOÇÃO DA SAÚDE UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, chegamos à terceira unidade de nossa apostila, e agora vamos conhecer um pouco mais das relações entre a atividade física e a saúde. Ainda que para nós, profissionais de Educação Física e estudantes da área da saúde, seja um tanto quanto óbvio os benefícios da prática regular de atividade física para a saúde, é bastante importante nos aprofundarmos nesteassunto. Somente assim nossa atuação poderá levar informações de qualidade aos nossos alunos e à população em geral e proporcionar mudanças positivas no estilo de vida. O entendimento da prática de atividade física como forma de prevenção de diferentes doenças não é um conceito novo e já nos acompanha desde a Grécia Antiga, como veremos no início deste primeiro tópico. É o entendimento desta relação que permitiu o reconhecimento da Educação Física como uma área da saúde, reconhecendo nossa atuação profissional com o movimento humano importante não apenas na prevenção de doenças, mas também como uma estratégia fundamental no tratamento de diferentes condições de saúde, conforme estudaremos ao final desta Unidade 3. Além dos aspectos históricos, ao longo deste tópico vamos conceitualizar a atividade física, conhecendo cada um dos seus domínios. Também iremos aprender alguns métodos de mensuração dos níveis de atividade física, os quais permitem saber se uma pessoa é fisicamente ativa. Por fim, conheceremos as principais barreiras relacionadas à atividade física e que podem impedir alguém de atingir as recomendações mínimas para a prática de atividade física. 2 RELAÇÃO ENTRE ATIVIDADE FÍSICA E SAÚDE Para bem compreendermos a íntima relação entre atividade física e saúde temos que, mais uma vez, voltar nosso olhar para a história. Ainda que o vínculo e as associações entre esses dois campos sejam relativamente recentes no contexto científico, especialmente quando observamos a atividade física como um campo da Saúde Pública, esta relação já era explorada em tempos remotos. 124 Na Grécia Antiga, tanto em Esparta quanto em Atenas, a prática de atividade física com objetivo de aprimorar a aptidão física era comum. Enquanto em Atenas esta prática era destinada à formação e aprimoramento pessoal, físico e moral de adultos e crianças, em Esparta o foco principal era o desenvolvimento militar. Platão também destacou em duas de suas obras, A República e Timeo, a importância da ginástica para a preparação militar e para a formação da personalidade (FLORINDO, 2012). Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da medicina, foi o primeiro a estudar a relação entre atividade física e saúde. Dispensando eventuais explicações sobrenaturais das causas que levavam ao desenvolvimento de doenças, ele relacionou que estas podiam ser consequência tanto das características do indivíduo quanto da relação deste com o ambiente, especialmente no que diz respeito aos seus hábitos e estilo de vida. Sua abordagem valorizava a prática de exercícios e o cuidado com a alimentação como forma de prevenção de doenças. Cláudio Galeno (129-201 a.C.) também deixou sua marca na história da atividade física. Além de enfatizar a importância da prática regular de exercício físico na sua obra A Arte de Preservar a Saúde, ele criou, por assim dizer, o primeiro “manual” para a prática de exercícios, em sua obra Massagem, cuja parte do conteúdo descrevia padrões para prescrição de exercícios (FLORINDO, 2012). Na Idade Média, o destaque é o médico suíço Paracelsius (1493-1541) que enfatizou a importância da alimentação e do exercício físico como fatores protetores para doenças ocupacionais, por meio dos seus estudos com mineradores. Já no Período Renascentista, o médico italiano Girolamo Mercuriali (1530-1606) publicou o livro A Arte da Ginástica Entre os Antigos, inspirado nos estudos da Antiga Grécia, obra na qual ele abordou a prática de atividade física como ação benéfica para melhora da saúde e é considerado o primeiro tratado histórico-médico da atividade física. Outro ponto importante deste período histórico é a divisão do entendimento da atividade física como um meio para formação da personalidade, ideia defendida por educadores ou como uma forma de manter e aprimorar a saúde, visão compartilhada pelos médicos. A união destas duas tendências foi feita no Tratado de Sanitate Tuenda, escrito pelo médico Marsílio Cagnati (1543-1612) (FLORINDO, 2012). Os primeiros estudos que relacionavam o nível de atividade física à saúde foram realizados pelo italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714). Médico e professor universitário, ele estudou o desenvolvimento de doenças em diversas classes de trabalhadores e também em atletas, apontando como resultado de suas pesquisas epidemiológicas as primeiras evidências de associação entre baixos níveis de atividade física e o maior risco do desenvolvimento doenças (FLORINDO, 2012; PAFFENBARGER JR; BLAIR; LEE, 2001). A Revolução Industrial ocorrida no século XIX e o desenvolvimento das condi- ções sanitárias e de saúde proporcionaram mudanças significativas no comportamento das pessoas. Além do desenvolvimento de máquinas que substituíram trabalhos que 125 antes eram realizados manualmente e da migração da população do campo para a ci- dade, o aprimoramento dos cuidados com a saúde, com o surgimento das primeiras vacinas, das melhores condições de saneamento básico e dos níveis educacionais con- tribuíram para a diminuição da mortalidade e um aumento da expectativa de vida. As- sim, ao final do século XIX e ao longo do século XX, temos uma modificação no processo saúde-doença, com um predomínio de doenças crônicas como causas de morbidade e mortalidade frente às doenças infectocontagiosas, mais comuns anteriormente. A segunda metade do século XX foi um período crucial para a consolidação dos conhecimentos acerca da relação entre atividade física e saúde. Além da criação da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1948, cujo principal objetivo é a discussão e a normatização de ações para a Saúde Pública mundial, houve um crescimento exponencial de estudos científicos, confirmando as primeiras hipóteses de que o aumento do risco de desenvolvimento de algumas doenças poderia estar relacionado a baixos níveis de atividade física (FLORINDO, 2012). A publicação de 1953 do Dr. Jeremy Morris (1910-2009) é considerada um marco e um clássico nos estudos epidemiológicos da atividade física. Durante dois anos, Morris juntamente com um grupo de pesquisadores acompanharam a rotina de motoristas e cobradores do transporte público de Londres. Os motoristas apresentavam uma rotina de trabalho mais sedentária, enquanto os cobradores eram considerados fisicamente ativos, por se deslocar pelo veículo durante o período de trabalho. Ao final do acompanhamento, eles observaram uma maior incidência de mortalidade por doenças cardiovasculares entre os motoristas quando comparados aos cobradores (MORRIS et al., 1953). A fim de confirmar os achados neste estudo, Morris e sua equipe, repetiram o experimento comparando telefonistas e carteiros, cujas rotinas de trabalho eram, respectivamente, sedentárias e fisicamente ativas. Os resultados encontrados foram semelhantes ao primeiro, com melhores condições de saúde para os trabalhadores fisicamente ativos (FLORINDO, 2012; PAFFENBARGER JR; BLAIR; LEE, 2001). Estes primeiros resultados estimularam o desenvolvimento de diversos outros estudos, tanto pela equipe do Dr. Morris, quanto por outros pesquisadores da época. Não apenas para confirmar os achados, mas para expandir o entendimento do papel da atividade física na saúde. Assim, foram realizados estudos controlando possíveis fatores de confusão, como níveis de estresse, uso de tabaco, álcool, medidas de circunferência de cintura, peso corporal e a prática detalhada de atividade física, reforçando a associação de que maiores níveis de atividade física diminuem a mortalidade por doenças coronarianas (FLORINDO, 2012). Estas primeiras fortes evidências científicas fizeram surgir os primeiros estudos longos de coorte. Dentre eles destacamos os conduzidos pelo Dr. Ralph S. Paffenbarger Jr (1923-2007), que foi professor na Escola de Saúde Pública de Harvard e na Escola de Medicina da Universidade de Stanford, ambas instituições americanas. Seu grupo de pesquisa acompanhou, durante 22 anos, um grupo de 3.686 estivadores da cidade 126 deSão Francisco. Eles foram avaliados quanto ao nível de atividade física ocupacional, tabagismo, pressão arterial, glicemia, níveis de gordura no sangue e histórico de doença coronariana. Ao final do acompanhamento, os resultados apontaram que altos níveis de atividade física associados ao controle dos fatores de risco poderiam reduzir em até 88% a chance de ataque cardíaco fulminante neste grupo de trabalhadores (PAFFENBARGER JR et al., 1977). Outro estudo de destaque deste grupo é uma coorte iniciada em 1960, com 16.936 estudantes de Harvard. Este acompanhamento acontece até os dias de hoje, e já apresentou diversas descobertas sobre a prática de atividade física e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (FLORINDO, 2012). NOTA Estudo de coorte, também denominado estudo longitudinal, de segui- mento ou de incidência, é um método de pesquisa bastante comum na epidemiologia. Ele se caracteriza por ser um estudo de caráter obser- vacional que tem por objetivo acompanhar uma população ao longo do tempo para observar se há associação entre uma exposição e um desfecho. Como no exemplo do estudo de Morris et al. (1953), a expo- sição observada foi a atividade física, o desfecho principal analisado foi a doença coronariana, e a população foram as duas categorias de tra- balhadores do transporte público de Londres, motoristas e cobradores. Eles concluíram que a maior exposição à atividade física (níveis mais altos) diminui o risco de desenvolver o desfecho, a doença coronariana na população estudada. Os avanços científicos deste período até os dias de hoje foram fundamentais não só para o entendimento da atividade física, do exercício e da aptidão física como componentes da saúde, como também para o crescimento da Educação Física como área de importância para a Saúde Pública. Ao final do século XX, em 1995, é lançado o primeiro posicionamento no Journal of American Medical Association, recomendando ao menos 30 minutos de atividade física moderada por dia para a prevenção de doenças crônicas (PATE et al., 1995). No Brasil, o crescimento desta área de pesquisa se deu a partir da década de 1990, com o surgimento de grupos de estudo e pesquisa direcionados em compreender o comportamento da população nacional em relação à atividade física e os efeitos desta na saúde. Em 2007, foi criada a Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, que reúne os principais pesquisadores da área no nosso país. E em 2021, este grupo, com apoio do Ministério da Saúde, criou o Guia de Atividade Física para a População Brasileira (BRASIL, 2021). Ademais, diversos pesquisadores brasileiros vêm se destacando ao estudar as relações entre a atividade física a saúde e a qualidade de vida. 127 Neste sentido, cabe destacar alguns avanços e aprofundamentos no entendi- mento desta relação, como o Pentáculo do Bem-Estar, proposto por Nahas, De Barros e Francalacci (2000). Segundo os autores, a qualidade de vida pode ser determinada por fatores socioambientais, como condições de trabalho, educação, meio ambiente, dentre outros; ou individuais, que são as características de cada pessoa. Assim, eles propõem cinco aspectos que devem ser considerados como fundamentais para manutenção da qualidade de vida: nutrição, controle do stress, atividade física, comportamento preven- tivo e qualidade dos relacionamentos. Este conceito amplia o entendimento de saúde como bem-estar físico, mental e social, pois olha para as ações que previvem danos à saúde e para a qualidade da nossa relação social, inclusive apontando os benefícios de cultivar bons relacionamentos e bons sentimentos com as outras pessoas e em se desenvolver a espiritualidade para melhorar a saúde e o bem-estar. ESTUDOS FUTUROS No Tópico 2 desta Unidade conheceremos com detalhes quais são as re- comendações atuais de atividade física para a população brasileira. 2.1 AFINAL, O QUE É ATIVIDADE FÍSICA? Quando falamos de atividade física, por vezes há uma confusão quanto ao seu conceito. Qualquer movimento corporal é atividade física? Escovar os dentes, passear com o cachorro, se deslocar para o trabalho de bicicleta é atividade física? Exercício físico e atividade física são a mesma coisa? A atividade física inicialmente foi definida como “qualquer movimento corporal produzido pelo músculo esquelético que resulta em dispêndio de energia” (CASPERSEN; POWELL; CHRISTENSON, 1985, p. 185). Atualmente, esse conceito apresenta-se um pou- co mais aprimorado, com o entendimento de que atividade física é qualquer movimento corporal voluntário que resulte em gasto energético acima dos níveis de repouso (ACSM, 2016). Por esta compreensão, podemos classificar como atividade física qualquer movi- mento causado por contração muscular voluntária que resulte em gasto energético, des- de escovar os dentes, levantar-se ou se sentar em uma cadeira, varrer a casa, caminhar, praticar um esporte, fazer uma aula de dança ou um treino de musculação. Cabe destacar que a atividade física é um comportamento complexo, que reúne aspectos biológicos/fisiológicos, comportamentais, psicológicos, socioculturais e ambientais. Isto é, não podemos reduzir este conceito apenas ao movimento corporal e ao dispêndio de energia. Por vezes, é comum confundir os conceitos de atividade física e de exercício físico. O exercício é um tipo de atividade física, o qual tem por 128 característica ser planejado, estruturado e repetitivo, com o objetivo de manter ou melhorar as capacidades de aptidão física, como força, resistência muscular, flexibilidade, aptidão cardiorrespiratória e composição corporal (ACSM, 2016; CASPERSEN; POWELL; CHRISTENSON, 1995). Todo exercício físico é um tipo de atividade física, porém nem toda atividade física é exercício. O gasto energético promovido pela atividade física é um dos componentes observados quando se realiza a mensuração do nível de atividade física do sujeito. O gasto energético de uma atividade é medido em quilocalorias (kcal) ou quilojoules (kJ), sendo que quanto maior o esforço para realizar uma determinada atividade, maior o seu gasto energético e sua classificação de intensidade (CASPERSEN; POWELL; CHRISTENSON, 1995). Entretanto, medir o gasto energético de uma atividade é algo muito complexo, mesmo dentro do ambiente laboratorial. Em geral, o gasto energético estimado da maioria das atividades já foi determinado em estudos anteriores e é apresentado de forma absoluta em unidade de equivalentes energéticos, conhecidos por sua sigla em inglês MET (Resting Metabolic Rate) (FARIAS JÚNIOR, 2012). A seguir, veremos como as atividades físicas podem ser classificadas, de acordo com o contexto de sua prática. 2.1.1 Domínios da atividade física Os domínios da atividade física são uma classificação comumente utilizada para determinar em qual contexto determinada atividade é realizada, sendo divididas em quatro grupos (BRASIL, 2021; FARIAS JÚNIOR, 2012): • Atividade física no tempo livre Classifica-se como atividade física no tempo de lazer toda a prática realizada no tempo livre do sujeito, ou seja, quando este não está trabalhando, se deslocando ou realizando as tarefas domésticas. É uma ação baseada em preferências e oportunidade. Podendo ser realizada em clubes, praças, academias, parques ou mesmo na rua, como por exemplo, jogar futebol, andar de bicicleta, fazer caminhada, praticar uma arte marcial, participar de brincadeiras e jogos, como pega-pega, soltar pipas etc. • Atividade física no deslocamento A atividade física no deslocamento é toda aquela realizada para se deslocar de forma ativa de um local ao outro. Como exemplo de atividade física deste domínio temos o uso de bicicleta, caminhada, manejo de cadeira de rodas, uso de patinete sem motor, skate, andar a cavalo, além do uso de escadas ao invés de elevadores. 129 • Atividade física ocupacional Toda a prática de atividade física como função específica do trabalho ou estudo é compreendida como atividade física ocupacional.Por exemplo, temos atividades mais leves, como as funções de escritório, que exigem mais tempo sentado, até funções com maiores exigências físicas como plantar, varrer, carregar objetos, caminhar, participar de aulas de educação física ou brincar no recreio. • Atividade física nas tarefas domésticas Todas as atividades desempenhadas para cuidado do lar e da família são classificadas como atividade física nas tarefas domésticas. Dentre os possíveis exemplos podemos citar cortar grama, limpeza da casa (varrer, lavar, fazer faxina), dar banho na criança, cuidar de animais de estimação e fazer compras. 2.2 COMO MEDIR O NÍVEL DE ATIVIDADE FÍSICA Vimos anteriormente que as atividades físicas podem ocorrer em quatro diferentes domínios (tempo livre, deslocamento, ocupacional e tarefas domésticas) e serem classificada em três níveis de intensidade (leve, moderada ou vigorosa). Mas por qual motivo é importante medir o nível de atividade física? Atualmente, já sabemos que maiores níveis de atividade física estão relacio- nados a riscos menores do desenvolvimento de diversas doenças crônicas, como hi- pertensão arterial, diabetes e obesidade. Assim, determinar o nível de atividade física de uma pessoa ou de uma população nos permite saber um aspecto importante rela- cionado à saúde. Também é possível determinar se há a necessidade de algum tipo de intervenção para melhorar os níveis de atividade física e, ao depender do instrumento utilizado para a avaliação, visualizar quais as diferenças nos níveis de atividade física de cada um dos domínios. Por ser um comportamento complexo, não existe uma medida universal e comum para atividade física. De modo geral, os diferentes métodos buscam medir ou estimar três variáveis principais: intensidade, frequência e duração da atividade física. As classificações da intensidade já foram apresentadas anteriormente (leve, moderada ou vigorosa), medida de forma absoluta, em METs, ou relativa, pela percepção subjetiva do sujeito. Ainda que não seja consenso entre os pesquisadores, em geral, adota-se como ponto de corte para a população adulta, a seguinte classificação para as medidas absolutas de atividade física: atividade física leve 6 METs (ACSM, 2016). Outras formas de determinar a intensidade de uma atividade física é por meio de parâmetros subjetivos, como sudorese, frequência cardíaca, frequência respiratória ou nível de 130 percepção subjetiva do esforço (BRASIL, 2021; FARIAS JÚNIOR, 2012). Cabe destacar que as formas relativas podem ser sub ou superestimadas por condições ambientais, como o clima, ou mesmo por fatores psicológicos, como o nível de estresse. A percepção subjetiva do esforço é um instrumento prático e de fácil aplicação para mensuração da intensidade da atividade física e apresenta boa correlação com os parâmetros fisiológicos de esforço, como frequência cardíaca e respiração, assim como com o gasto energético dispendido na atividade. Utilizando a escala de percepção subjetiva de esforço de Borg (ACSM, 2016) que permite atribuir uma nota entre zero e dez para o esforço, podemos dividir a intensidade da atividade física da seguinte maneira: Quadro 1 – Classificação de intensidade da atividade física de acordo com a Percepção Subjetiva do Esforço (PSE) INTENSIDADE ESCALA PSE PERCEPÇÃO SUBETIVA DO ESFORÇO VIGOROSA 10 ATIVIDADE DE ESFORÇO MÁXIMO É quase impossível continuar. Completamente sem fôlego, incapaz de falar. Não é possível manter por mais tempo. 9 ATIVIDADE MUITO DIFÍCIL Muito difícil manter a intensidade do exercício. Mal consegue respirar e falar apenas algumas palavras. 8 ATIVIDADE VIGOROSA No limite desconfortável. Falta de ar. Consegue falar uma frase.7 MODERADA 6 ATIVIDADE MODERADA Respirar profundo, é possível manter uma conversa curta, mas não cantar. Pouco confortável.5 LEVE 4 ATIVIDADE LEVE Parece que é possível manter o esforço por horas. Fácil de respirar, conversar e cantar. 3 2 1 ATIVIDADE MUITO LEVE Quase nenhum esforço, mas mais do que ficar sentado. 0 NENHUMA ATIVIDADE Esforço necessário apenas para ficar sentado ou deitado, sem estar dormindo. Fonte: adaptado de ACSM (2016) A frequência pode ser mensurada em número de dias da semana, quantidade de vezes no mês ou no ano destinadas à prática da atividade ou de um grupo de atividades. Ou por meio de escalas ancoradas com nunca, raramente, frequentemente e sempre. Por não ser um comportamento estável, a duração da atividade nem sempre é mensurada com precisão. As medidas mais comuns de duração são em quantidade de tempo (minutos ou horas) ou em escala politômica ( 30 minutos etc.). 131 Os métodos e técnicas de mensuração a atividade física podem ser classifica- dos em objetivos ou subjetivos (FARIAS JÚNIOR, 2012). Existem diversos instrumentos e métodos para medir o nível de atividade física, cada qual com suas características, podendo ser mais ou menos precisos em mensurar a intensidade, duração e frequência, além da possibilidade de se avaliar ou não os diferentes domínios da atividade física. A unidade de medida também varia conforme o instrumento ou método utilizado. A escolha adequada de um instrumento deve levar em consideração a população utilizada, a faixa etária dos avaliados, tempo e custos disponíveis, o tipo de intervenção que será realizada, o grau de condicionamento, além da reprodutibilidade do método e a validade do instrumento (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). A seguir, conheceremos com mais detalhes alguns métodos e instrumentos para mensurar os níveis de atividade física. 2.2.1 Métodos diretos Os métodos diretos são aqueles que mensuram de forma direta algum componente ou comportamento para determinar o nível de atividade física, como sensores de movimentos, monitores de frequência cardíaca, GPS, água duplamente marcada e observação direta do comportamento (MAFRA; NETO, 2019). Os avanços tecnológicos têm tornado alguns desses equipamentos mais acessíveis e precisos, possibilitando seu uso não apenas em pesquisas, mas no cotidiano, como é o caso dos relógios inteligentes conectados a aplicativos de celulares que monitoram a frequência cardíaca, o número de passos e tempo gasto com a atividade física. Vamos conhecer os detalhes de cada um destes principais métodos: • Água duplamente marcada A água duplamente marcada é um método utilizado para estimar o gasto energético desde a década de 1980. Ele consiste na ingestão de uma quantidade de água marcada com isótopos de oxigênio e deutério, que tem as diferenças entre ingestão e eliminação medidas. O oxigênio é eliminado pelo corpo como água e dióxido de carbono, e o deutério como água. Este é um procedimento de alto custo realizado somente em laboratório, mas é o principal método utilizado para validar instrumentos e equipamentos que estimam o gasto energético, juntamente com a calorimetria direta e indireta (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). • Frequência cardíaca Uma das formas de se medir a frequência cardíaca é com o uso de frequencímetros ou monitores de frequência cardíaca. A medida da frequência cardíaca 132 permite estimar a intensidade, duração e frequência de uma atividade por meio da contagem de batimentos cardíacos por minuto, se fundamentando na relação linear que existe entre a frequência cardíaca e o gasto energético. Atualmente, existem diferentes modelos de equipamentos, desde aqueles com sensores presos próximo ao peito até os relógios que realizam a marcação diretamente no pulso (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). • Quantidade de passos Os pedômetros são sensores de movimentos verticais do corpo capazes de estimar a quantidade de passos de uma pessoa. Quanto maior a quantidade de passos, maior o nível de atividade física. Os pedômetros são equipamentos de baixo custo e fácil uso, alguns modelos mais robustos podemser ajustados quanto à amplitude da passada para se tornar mais preciso. Ainda assim, este não é um bom equipamento para medir atividades aquáticas e nem exercícios isométricos, pois dependem da atividade de caminhada para realizar a mensuração do nível de atividade física (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). • Aceleração do corpo Os acelerômetros são pequenos aparelhos portáteis sensíveis a aceleração do corpo, eles são capazes de detectar diferentes movimentos do corpo, estimando o nível de atividade física e a intensidade desta atividade, bem como o tempo em comportamento sedentário. Existem os modelos tradicionais, mais sensíveis aos movimentos verticais do corpo, porém com limitações para mensuração de atividades como ciclismo, natação e exercícios com pesos, e os modelos tridimensionais, que são bastante precisos especialmente quanto a intensidade dos exercícios realizados. (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). • Observação direta A observação direta consiste no procedimento de observar o indivíduo em diferentes contextos e registrar as atividades realizadas quanto ao tipo, duração e intensidade. É um método bastante utilizado com crianças, pela dificuldade que estas apresentam em responder questionários ou preencher diários de atividade. Essas observações podem ser realizadas em tempo real ou por meio de vídeos. A principal vantagem deste método é a possibilidade de avaliação de aspectos qualitativos da atividade física, como questões ambientais e sociais e como estes aspectos se relacionam com a intensidade, frequência e duração da atividade física (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). O Quadro 2 apresenta os principais métodos e instrumentos objetivos de avaliação da atividade física, suas unidades de medida, além das principais vantagens e desvantagem de cada um deles: 133 Quadro 2 – Métodos e instrumentos objetivos para avaliação dos níveis de atividade física INSTRUMENTO UNIDADE DE INSTRUMENTO / MEDIDA TIPO DE RESULTADO VANTAGENS E DESVANTAGENS Água duplamente marcada Produção de CO² Frequência: não Intensidade: não Duração: não Gasto energético: sim Vantagens: alta precisão do gasto energético. Desvantagens: custo elevado, necessidade de equipamento e pessoal especializado. Frequência cardíaca Frequencímetro / Batimentos por minuto (bpm) Frequência: sim Intensidade: sim Duração: sim Gasto energético: sim Vantagens: baixo custo, fácil de usar. Desvantagens: medida limitada de gasto energético. Quantidade de passos Pedômetros / Passos (contagem) Frequência: não Intensidade: não Duração: sim Gasto energético: sim Vantagens: baixo custo, fácil de usar, não precisa de supervisão. Desvantagens: registro impreciso de atividade física (frequência e intensidade). Aceleração do corpo Acelerômetro / Movimento (counts) Frequência: sim Intensidade: sim Duração: sim Gasto energético: sim Vantagens: baixo custo, portátil. Desvantagens: pode superestimar o gasto energético. Observação direta Atividade (classificação) Frequência: sim Intensidade: sim Duração: sim Gasto energético: sim Vantagens: alta precisão do tipo de atividade física realizada, possibilidade de observação de interações ambientais e sociais. Desvantagens: necessário maior disponibilidade de tempo e de pessoas, inviável para aplicação durante longos períodos, não mede atividade física habitual. Fonte: adaptado de Mafra e Neto (2019) e Cafruni, Valadão e Mello (2012) 2.2.2 Métodos indiretos Os métodos indiretos de medida da avaliação física são aqueles que dependem de informações que são fornecidas pelos indivíduos para determinar o nível de atividade física. Fazem parte destes métodos os diários, recordatórios, as entrevistas estruturadas e os questionários. De modo geral, apresentam como principal vantagem o baixo custo para aplicação e a possibilidade de avaliação de uma quantidade maior de pessoas num período mais curto (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). 134 • Diários e recordatórios Ambos os instrumentos consistem em registro de atividade física realizada em um intervalo de tempo. Enquanto no diário, o indivíduo registra a atividade atual, no recordatório ele deve utilizar-se da memória para registrar uma atividade já realizada. Os diários nem sempre conseguem mensurar os níveis de atividade física habitual, por se compreender um pequeno registro de tempo, geralmente entre um e três dias. Já no recordatório, o principal viés é a memória, pois nem sempre o indivíduo se recorda com precisão de todas as suas atividades (MAFRA; NETO, 2019; CAFRUNI; VALADÃO; MELLO, 2012). • Questionários Os questionários são, sem sombra de dúvida, o instrumento com maior quan- tidade de modelos propostos. Atualmente, existem questionários validados para dife- rentes faixas etárias e populações. Os dois modelos mais utilizados nas pesquisas são o Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ) e o Questionário de Atividade Física Habitual de Baeck (BQHPA) (BAECKE; BUREMA; FRIJTERS, 1982). O IPAQ foi desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde, em 1998, e posteriormente outras versões e idiomas foram validados, inclusive para o Brasil (MATSUDO et al., 2001; HALLAL; VICTORIA; LIMA, 2002). Existe a versão longa do IPAQ com 27 questões, e a versão curta com sete questões. Na versão longa os indivíduos são avaliados em cada um dos domínios da atividade física, e na versão curta somente quanto a intensidade da prática de atividade física. Em ambas o sujeito pode ser classificado de forma categórica como sedentário, insuficientemente ativo, ativo ou muito ativo ou ainda de forma numérica de acordo o gasto energético das atividades realizadas medidas em METs. O BQHPA foi criado na Holanda e é composto por 16 questões que avaliam cada um dos quatro domínios da atividade física. Ele está estruturado em escala Likert, com resposta de intensidade de um a cinco. O BQHPA foi validado para a população brasileira (FLORINDO et al., 2004), para pessoas que vivem com HIV (FLORINDO et al., 2006) e adaptado para idosos (MAZO et al., 2001). Em relação às desvantagens deste tipo de instrumento, estão a dificuldade em aplicar esses instrumentos em crianças e pessoas com baixa escolaridade, além das respostas estarem sujeitas ao viés de memória. 135 3 ATIVIDADE FÍSICA X COMPORTAMENTO SEDENTÁRIO Agora nós já aprimoramos nosso conhecimento acerca da atividade física, seus componentes de intensidade, duração e frequência, bem como seus domínios de atividade física no lazer, ocupacional, de locomoção e nas tarefas domésticas. Contudo, existe um outro conceito muito importante quando tratamos de atividade física e saúde: o comportamento sedentário. Comportamento sedentário é qualquer comportamento que fazemos quando estamos acordados com gasto inferior a 1,5 METs ou enquanto estamos sentados, reclinados ou deitados. Podemos citar como exemplo deste comportamento o ato de dirigir, atividades executadas na posição sentada como estudar ou trabalhos de escritório ou assistir televisão. Pessoas incapazes de ficar em pé, como cadeirantes e acamados também apresentam comportamento sedentário (BULL et al., 2020). Os estudos apontam que altos níveis de comportamento sedentário, que signi- fica um maior tempo nas posições sentada, deitada e reclinada com baixo gasto ener- gético estão associadas ao aumento de risco de desenvolvimento de doenças crônicas e a morte por todas as causas, por doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer (BULL et al., 2020). Passar um tempo elevado em comportamento sedentário pode re- duzir ou mesmo anular os benefícios proporcionados pela prática de atividade física. O uso excessivo de telas, como televisão, computador e celulares tem sido apontado nos estudos como um dos principais causadores do aumento do tempo em comportamento sedentário. Sendo recomendada a redução do tempo em comporta- mento sedentário,buscando atividades físicas, ainda que de intensidade leve, como forma de interromper esse comportamento. Uma recomendação está em movimentar-se por pelo menos 5 minutos a cada uma hora que se fica sentado, deitado ou reclinado. Esta pausa pode ser utilizada para ficar em pé, ir ao banheiro, beber água, realizar movimentos leves com o corpo, como alongamentos e mudar de posição. Pessoas que apresentam uma rotina diária com muito tempo em comportamento sedentário devem tentar compensar esse comportamento aumentando a quantidade e a intensidade de atividade física no seu dia, inclusive pela prática regular de exercícios físico em intensidade moderada a vigorosa. 136 3.1 BARREIRAS PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA Ainda que saibamos dos benefícios à saúde proporcionados pela atividade física, é alta a prevalência de pessoas consideradas insuficientemente ativas. Dados mundiais mais recentes apontam que cerca de 27,5% dos adultos e 81% dos adolescentes não atingem as recomendações mínimas para a prática de atividade física. Como forma de modificar este quadro, a Organização Mundial da Saúde propôs o Plano Global de Ação em Atividade Física, que tem por objetivo reduzir em cerca de 15% a inatividade física entre adultos e adolescentes (BULL et al., 2020). São inúmeros os fatores que impedem uma pessoa de manter-se fisicamente ativa, a esses fatores denominamos barreiras para a prática de atividade física. Essas barreiras podem ser reais ou percebidas. Uma barreira real é algo que realmente impede a pessoa de praticar atividade física, como, por exemplo, uma doença que deixa o indivíduo acamado ou impossibilitado de se movimentar; uma barreira percebida é algo que dificulta, de acordo com o julgamento individual, que se adote um estilo de vida fisicamente ativo, como por exemplo o medo de se machucar ou sentir-se velho demais para determinada atividade (REICHERT, 2012). As barreiras podem variar de acordo com a condição social, o local de moradia, a idade, o sexo, dentre outros. Para o profissional de Educação Física é de extrema importância conhecer as barreiras individuais, para que eventuais propostas de inter- venção com atividade física e exercício tenham melhor adesão, e por consequência melhores resultados. Dentre as barreiras pessoais para a prática de atividade física mais comumente apresentadas estão a falta de dinheiro, falta de tempo, jornada de trabalho extensa, falta de energia, falta de companhia, lesão ou doença, medo de se machucar, preguiça, não gostar de atividade física e se sentir muito velho (PINTO et al., 2017; REICHERT, 2012). Além dessas barreiras pessoais, que podem ser um obstáculo para que qualquer pessoa tenha uma rotina fisicamente ativa, não podemos nos esquecer das barreiras relacionadas às pessoas com deficiência. Como vimos na Unidade 2 deste material, existem seis barreiras que limitam ou impedem a participação social da pessoa com deficiência: 1) barreiras urbanísticas; 2) barreiras arquitetônicas; 3) barreiras nos transportes; 4) barreiras nas comunicações; 5) barreiras atitudinais; e, 6) barreiras tecnológicas (BRASIL, 2015). Não apenas a participação social, mas cada uma destas barreiras também é um entrave para que pessoas com deficiência tenham níveis adequados de atividade física. Não apenas na dificuldade de se locomover ou acessar algum espaço, mas também em não serem incluídas socialmente em atividades que permitam que elas se movimentem mais fisicamente, ou não recebam as informações adequadas dos benefícios da prática de atividade física para a sua saúde. 137 Algumas ações, especialmente vinculadas a políticas públicas, podem auxiliar na superação destas barreiras, como a criação e manutenção de espaços públicos e gratuitos para a prática de atividade física distribuídos geograficamente nas cidades, como parques, pistas de caminhada, centros esportivos. Melhora na qualidade de transporte público e de estrutura que permita um deslocamento ativo e seguro para todos, como ciclovias. Ações junto a empresas públicas e privadas para incentivar a prática de atividade física entre os funcionários, ou mesmo ações entre escola e comunidade que incentivem a participação dos alunos e seus familiares em atividades físicas não apenas no período letivo, mas no contraturno escolar. 138 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • A história da relação entre atividade física e saúde. • O conceito de atividade física e os seus domínios. • Os principais instrumentos para medir o nível de atividade física de maneira objetiva e subjetiva. • O conceito de comportamento sedentários e as principais barreiras para a prática de atividade física. 139 RESUMO DO TÓPICO 1 AUTOATIVIDADE 1 A atividade física é definida como qualquer movimento corporal voluntário que resulte em gasto energético acima dos níveis de repouso. O contexto de prática da atividade física é um aspecto que permite a sua classificação em diferentes domínios. Com base nos conhecimentos acerca dos domínios para análise do nível de atividade física, analise as sentenças: I- Os contextos ou domínios para a prática de atividade física são: ocupacional, deslocamento, tempo livre e tarefas domésticas. II- Um exemplo de atividade física no tempo livre é pedalar de casa até o trabalho. III- Realizar faxina na casa, cuidar das crianças ou de animais domésticos são exemplos de atividades físicas realizadas no domínio de atividade física nas tarefas domésticas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 2 Medir o nível de atividade física é de suma importância não apenas para conhecer os hábitos relacionados a prática de atividade física, mas também para propor intervenções que sejam efetivas nas mudanças de hábitos. Considerando os conhecimentos adquiridos acerca de instrumentos e métodos para a avaliação da atividade física, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Os frequencímetros são instrumentos subjetivos para a avaliação dos níveis de atividade física. ( ) Os questionários são um dos instrumentos mais utilizados para avaliar o nível de atividade física principalmente pela possibilidade de avaliar mais pessoas em um menor intervalo de tempo. ( ) Dentre os instrumentos objetivos para avaliação da atividade física podemos citar os acelerômetros, pedômetros e a observação direta. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – V – V. 140 3 A relação entre a atividade física e saúde evolui ao longo da história, de modo que pudemos compreender com mais profundidade qual o papel da prática regular de atividade física em diversos aspectos da nossa saúde. Com base no conhecimento dos aspectos históricos da atividade física, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Na Idade Média foram realizados os primeiros experimentos que indicavam que maiores níveis de atividade física diminui o risco de doenças cardiovasculares, como o estudo do Dr. Jeremy Morris. b) ( ) Apesar do conhecimento dos benefícios da prática de atividade física para saúde, ainda não foi possível estabelecer uma dose mínima que reduza o risco de doenças crônicas não transmissíveis. c) ( ) Mudanças no estilo de vida relacionadas à urbanização e os avanços nos conhecimentos relacionados à saúde, especialmente no início do século XX, modificaram o processo saúde-doença, aumentando a incidência de doenças infectocontagiosas. d) ( ) As primeiras associações registradas entre atividade física e saúde foram reali- zadas na Grécia Antiga, com Hipócrates. 4 Ainda que saibamos dos benefícios à saúde proporcionados pela atividade física, é alta a prevalência de pessoas consideradas insuficientemente ativas. Dados mundiais mais recentes apontam que cercade 27,5% dos adultos e 81% dos adolescentes não atingem as recomendações mínimas para a prática de atividade física. O que são barreiras para a prática de atividade física? Cite pelo menos dois exemplos 5 Quando falamos de atividade física, por vezes há uma confusão quanto ao seu conceito. Qual a diferença entre atividade física e exercício físico? 141 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 TÓPICO 2 - Dados globais estimam que um em cada quatro adultos e mais do que três em cada quatro não atingem as recomendações mínimas para a prática de atividade física (BULL et al., 2020). No Brasil, a situação é ainda mais grave, 47% da população é considerada insuficientemente ativa, e quando os dados são separados por sexo, as mulheres apresentam maior prevalência de inatividade física do que os homens. Para que alguém seja considerado fisicamente ativo é necessário que se atinja as recomendações mínimas para a prática de atividade física. No tópico anterior conhecemos um pouco dos aspectos históricos da relação entre atividade física e saúde. Vimos que em 1995 foi lançado no Journal of American Medical Association o primeiro documento oficial com recomendações de quantidades mínimas para a prática habitual de atividade física, considerando esta como um fator protetor para o aumento do risco de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis e a mortalidade. Ao longo dos anos, atualizações foram sendo publicadas conforme o conheci- mento científico da área de epidemiologia da atividade física avança. A publicação mais recente da OMS são as Diretrizes da Organização Mundial da Saúde 2020 sobre Atividade Física e Comportamento Sedentário (BULL et al., 2020). O Brasil também ganhou um documento com recomendações específicas para a prática de atividade física, que é o Guia de Atividade Física para a População Brasileira (BRASIL, 2021). O Guia foi lançado pelo Ministério da Saúde e elaborado por pesquisadores renomados da área de atividade física e saúde. Documentos como esses são de extrema importância tanto para orientar a prática profissional na área da Educação Física e saúde, quanto para auxiliar a população na busca de estratégias efetivas para diminuir o número de pessoas insuficientemente ativas. Com base nesses dois documentos, vamos conhecer agora quais são as reco- mendações para a prática de atividade física. 142 DICA • Acesse e conheça o Guia de Atividade Física para a População Brasileira: ht- tps://bit.ly/3SvIpyE. • Acesse e conheça as Diretrizes da Organização Mundial da Saúde 2020 sobre Atividade Física e Comportamento Sedentário: https://bit.ly/3DVpt8g. 2 RECOMENDAÇÕES ATUALIZADAS PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA Ao longo deste subtópico vamos conhecer as recomendações mais atualizadas para a prática de atividade física. Essas informações são baseadas nos dois principais documentos norteadores para a prática de atividade física, o Guia de Atividade Física para a População Brasileira (BRASIL, 2021) e as Diretrizes da Organização Mundial da Saúde 2020 sobre Atividade Física e Comportamento Sedentário (BULL et al., 2020). Serão apresentadas as recomendações para crianças, adultos, gestantes, idosos e pessoas com deficiência. 2.1 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA CRIANÇAS E JOVENS A infância e a adolescência são dois períodos de extrema importância na nossa vida. Enquanto nos anos iniciais temos alguns aprendizados e experiências fundamentais ao nosso desenvolvimento, na adolescência lapidamos a formação da nossa personalidade e de valores que podem nos acompanhar ao longo de toda a vida. A atividade física é muito importante neste período, mas sabemos que as diferentes etapas de desenvolvimento exigem tipos diferentes de atividades físicas, das mais simples às mais complexas, como veremos a seguir. 143 2.1.1 Crianças de até 5 anos A prática de atividade física é muito importante nos anos iniciais, pois este é um período de rápido crescimento e desenvolvimento físico, cognitivo e motor. Baixos níveis de atividade física neste período podem ocasionar prejuízos no desenvolvimento, além de aumentar o risco de inatividade física na adolescência e na vida adulta (DA SILVA et al., 2021). A prática de atividades física de intensidade moderada a vigorosa proporciona inúmeros benefícios à saúde da criança, conforme destacado no Quadro 3: Quadro 3 – Benefícios da prática de atividade física por crianças de 0 a 5 anos BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA • auxilia no controle do peso adequado e na diminuição do risco de obesidade; • melhora a qualidade do sono; • auxilia na coordenação motora; • melhora as funções cognitivas e a prontidão para o aprendizado; • ajuda na integração e no desenvolvimento de habilidades psicológicas e sociais; • contribui para o crescimento saudável de músculos e ossos; • melhora a saúde do coração e a condição física. Fonte: Brasil (2021, p. 10) Nesta fase, o principal tipo de atividade física são os jogos e brincadeiras que devem ser sempre seguras, de acordo com cada idade, e supervisionadas por um adulto. Estas atividades podem ser realizadas dentro de casa ou ao ar livre, sendo este último um ambiente que deve ser priorizado sempre que possível, por proporcionar à criança contato com a natureza e auxiliar na regulação do ciclo circadiano (DA SILVA et al., 2021). Deslocamentos ativos, como caminhadas ou pedaladas, também podem ser incluídos na rotina da criança. Além disso, as atividades escolares e nas aulas de Educação Física também devem propiciar jogos e brincadeiras que proporcionem diferentes movimentos corporais. Atividades em meio líquido devem ser incentivadas, sempre com a supervisão de um adulto. Aprender a nadar, flutuar e mergulhar garantem maior segurança e adaptação da criança à água. No Quadro 4, apresentamos as recomendações diárias de tempo de atividade física e exemplos de atividades para bebês e crianças. 144 Quadro 4 – Recomendações de doses e exemplos de atividades físicas de acordo com a faixa etária IDADE TEMPO DE ATIVIDADE FÍSICA EXEMPLO DE ATIVIDADES 0 a 1 ano Pelo menos 30 minutos por dia de barriga para baixo (posição de bruços), podendo ser distribuídos ao longo do dia. Brincadeiras e jogos que deixem a criança de bruços ou sentada movimentando braços e pernas e que estimulem movimentos de alcançar, segurar, puxar, empurrar, engatinhar, rastejar, rolar, equilibrar-se com ou sem apoio, sentar e levantar, dentre outros. 1 a 2 anos Pelo menos três horas de atividades físicas de qualquer intensidade, podendo ser distribuídas ao longo do dia. Brincadeiras e jogos que envolvam atividades como equilibrar nos dois pés, equilibrar num pé só, girar, rastejar, andar, correr, saltitar, escalar, pular, arremessar, lançar, quicar e segurar, dentre outras. 3 a 5 Pelo menos três horas de atividades físicas de qualquer intensidade, sendo, no mínimo, uma hora de intensidade moderada a vigorosa que pode ser acumulada ao longo do dia. Brincadeiras e jogos que envolvam atividades como caminhar, correr, girar, chutar, arremessar, saltar e atravessar ou escalar objetos, dentre outras. A atividade física também pode ser realizada na aula de educação física escolar, em escolinhas esportivas e/ou com deslocamentos ativos. Fonte: adaptado de Brasil (2021) A redução do comportamento sedentário também é importante nesta idade. Deve-se evitar que bebês e crianças, quando acordados, permaneçam por mais de uma hora seguida em carrinhos, cadeirinhas e berços. O tempo de tela, incluindo televisão, celular, tablet, computadores e videogames, deve ser reduzido ao máximo. Exceto às crianças de até 1 ano, para as quais não é recomendado nenhum tempo de tela, a utilização destes dispositivos não deve ultrapassar uma hora por dia para as crianças de 1 a 5 anos. 2.1.2 Crianças e jovens de 6 a 17 anos Dados brasileiros apontam que 71,7% dos meninos e 86,5%das meninas não atingem 300 minutos semanais de prática de atividade física. Nesta fase da vida, além dos benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais, a prática regular de atividade auxilia na manutenção de uma alimentação mais equilibrada e diminui comportamentos de riscos como tabagismo, álcool e uso de drogas ilícitas (DUMITH et al., 2021). O Quadro 5, destaca alguns benefícios, dentre inúmeros, da prática regular de atividade física nos níveis recomendados. 145 Quadro 5 – Benefícios da prática de atividade física por crianças e jovens de 6 a 17 anos BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA • promove o desenvolvimento humano e bem-estar, ajudando a desfrutar de uma vida plena com melhor qualidade; • melhora as habilidades de socialização; • melhora a saúde do coração e a condição física; • desenvolve habilidades motoras, como correr, saltar e arremessar; • melhora o humor e reduz a sensação de estresse e os sintomas de ansiedade e de depressão; • ajuda no melhor desempenho escolar; • auxilia no controle do peso adequado e na diminuição do risco de obesidade; • ajuda na adoção de uma vida saudável, como melhora da sua alimentação e diminuição do seu tempo em comportamento sedentário (como tempo em frente ao celular, computador, tablet, videogame e televisão). Fonte: adaptado de Brasil (2021, p. 16) Nestas faixas etárias a recomendação é de pelo menos 60 minutos diários de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa. Este tempo pode ser dividido em blocos menores para facilitar a realização. Também é recomendado que, ao menos três vezes na semana, a criança ou jovem realize atividades de fortalecimento ósseo e muscular, com movimentos de saltar, puxar e empurrar. A realização de atividades em grupos pode facilitar a adesão da criança ou jovem, dando preferência para atividades que eles gostam, como esportes, lutas, danças, ginásticas, além de jogos e brincadeiras. O deslocamento ativo deve ser sempre incentivado, desde que seja seguro. As atividades escolares, tanto as regulares quanto as extracurriculares, devem proporcio- nar momentos fisicamente ativos, especialmente nos intervalos e aulas de educação fí- sica. A ajuda nas tarefas domésticas também é uma forma de contribuir para que crian- ças e adolescentes atinjam as recomendações diárias de atividade física. É importante orientar crianças e jovens de que todo movimento conta, por isso é fundamental buscar atitudes ativas no nosso cotidiano. Para aqueles insuficientemente ativos, começar aos poucos pode ser uma boa estratégia. O professor de educação física, além de mostrar as variadas possibilidades de atividades física e práticas corporais, deve buscar ser um exemplo no incentivo a uma rotina fisicamente ativa em busca da saúde. A redução do comportamento sedentário, especialmente relacionado ao tempo de tela, deve ser priorizada. Ensinar as crianças e jovens a movimentar-se sempre que ultrapassarem uma hora em comportamento sedentários e organizar a rotina com momentos adequados para estudo, necessidades básicas, atividade física e demais momentos de lazer é de fundamental importância para que elas adquiram hábitos que irão contribuir para uma melhor saúde e qualidade de vida. 146 2.2 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA ADULTOS Segundo a classificação etária, são considerados adultos pessoas com idade entre 18 e 60 anos. O maior corpo de evidências científicas em relação aos benefícios de praticar atividade física nos níveis recomendados é para os adultos. Alguns dos benefícios já comprovados estão listados no Quadro 6: Quadro 6 – Benefícios da prática de atividade física por adultos BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA • promove o desenvolvimento humano e bem-estar, ajudando a desfrutar de uma vida plena com melhor qualidade; • previne e diminui a mortalidade por diversas doenças crônicas, tais como pressão alta, diabetes, doenças do coração e alguns tipos de câncer (como mama, estômago e intestino); • ajuda a controlar o seu peso, melhorando não apenas a saúde, mas também a relação com o corpo; • diminui os sintomas da asma; • diminui o uso de medicamentos em geral; • diminui o estresse e sintomas de ansiedade e depressão; • melhora o seu sono; • promove prazer, relaxamento, divertimento e disposição; • ajuda na inclusão social, e na criação e fortalecimento de laços sociais, vínculos e solidariedade; • resgata e mantém vivos diversos aspectos da cultura local. Fonte: adaptado de Brasil (2021, p. 23) A recomendação do Guia de Atividade Física é de pelo menos 150 minutos semanais de atividade de intensidade moderada, ou 75 minutos semanais de atividade de intensidade vigorosa. Essas doses podem ser alcançadas combinando atividades com diferentes intensidades ao longo da semana. Exercícios de fortalecimento para músculos e ossos, como a musculação ou exercícios resistidos, também são recomendados ao menos duas vezes na semana como parte das atividades semanais. Aumentar a intensidade das atividades físicas realizadas nos diferentes domínios (lazer, locomoção, ocupacional e tarefas domésticas) é uma excelente estratégia para se atingir as recomendações. Envolver-se em atividades culturais e organizar a rotina para incluir a prática regular de atividade física também ajuda a diminuir o sedentarismo. Como para as crianças e jovens, diminuir o comportamento sedentário com pequenas atitudes ajuda a melhorar a qualidade de vida. Pessoas que possuem atividades ocupacionais que exijam muito tempo sentado devem ser incentivadas a compensar este comportamento com atividades físicas com maior duração e intensidade. 147 Iniciativas por meio de políticas públicas e empresas privadas tem papel importante no aumento dos níveis de atividade física. Estes incentivos incluem equipamentos de esporte, lazer e cultura, estrutura física de ambientes, como bicicletários e vestiários, além de programas de incentivo a prática regular de atividade física, como desconto em estabelecimentos, atividades comunitárias, dentre outros. 2.3 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA GESTANTES A gestação é um período que envolve diversas modificações e cuidados na saúde feminina. Desde meados da década de 1980, quando surgiram as primeiras orientações sobre a prática de exercícios por gestantes houve um aumento na quantidade de evidências apontando quanto aos inúmeros benefícios da atividade física na saúde da mãe e do bebê. Ainda assim, existe um temor popular quanto a segurança da prática de atividade física durante a gestação, especialmente em relação à saúde do bebê e o risco de parto prematuro (MIELKE et al., 2021). Entretanto, as evidências apontam justamente no sentindo contrário ao temos popular. A prática de atividade física durante a gestação e no pós-parto proporciona inúmeros benefícios para a saúde global da mãe e da criança, como é possível observar no Quadro 7. Quadro 7 – Benefícios da prática de atividade física por gestantes e mulheres no pós-parto BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA • promove o desenvolvimento humano e bem-estar, ajudando a desfrutar de uma vida plena com melhor qualidade; • promove relaxamento, divertimento e disposição; • auxilia no controle do peso corporal; • diminui o risco do desenvolvimento de hipertensão e diabetes gestacional; • reduz o risco do desenvolvimento de pré-eclâmpsia; • melhora a capacidade de fazer as atividades do dia a dia; • ajuda a diminuir a intensidade das dores nas costas; • reduz o risco de depressão; • ajuda na inclusão social, e na criação e fortalecimento de laços sociais, vínculos e solidariedade; • reduz o risco de o bebê nascer prematuro; • ajuda o bebê a nascer com peso adequado. Fonte: adaptado Brasil (2021, p. 38) 148 Para mulheres sem complicações gestacionais que possam contraindicar a prática de atividade física, é sempre importante destacar que uma rotina ativa não aumenta o risco de aborto, de malformaçãono bebê, de ruptura de bolsa, de indução ao trabalho de parto, de mortalidade do bebê após o nascimento, nem em relação a composição, quantidade e qualidade do leite materno. As recomendações mínimas também são de 150 minutos por semana de atividades de intensidade moderada, ou 75 minutos de atividades vigorosas. Para mulheres que já eram ativas antes da gestação ou do pós-parto, a rotina e os níveis de atividade física podem ser mantidos. Para aquelas que eram sedentárias, é recomendado iniciar com atividades de intensidade leve e com menor duração, que podem ser aumentadas progressivamente conforme a mulher se sinta confortável e segura. Atividades físicas podem ser realizadas até o dia do parto. No pós-parto, o retorno às atividades ou início da prática de atividades físicas só deve ser realizado após a avaliação de um profissional de saúde, preferencialmente aquele que acompanhou a gestação. Exercícios para fortalecimento da musculatura pélvica são importantes neste período. Atividades que apresentem risco de impacto ou queda, que apresentem maior contato físico, que causem pressão na região abdominal ou mergulhos em profundidade devem ser evitados durante a gestação. Gestantes que apresentam doenças respiratórias leves controladas, doenças leves do coração, diabetes do tipo 1, desde que bem controlada, pré-eclâmpsia leve, ruptura prematura de membranas pré-termo (antes da 37ª semana de gestação), placenta prévia após 28 semanas, deficiências nutricionais ou desnutrição e que pretendem seguir com prática de exercícios físicos devem ser acompanhadas e orientadas por um profissional de saúde capacitado. Já para gestantes com doenças respiratórias graves, doenças cardíacas graves com intolerância ao exercício físico, arritmia grave ou descontrolada, descolamento de placenta, restrição no crescimento intrauterino, trabalho de parto prematuro ativo, sangramento, ou pré- eclâmpsia grave a prática de exercício físico é desaconselhada. Incluir a prática regular de atividade física na rotina podem proporcionar momentos de relaxamento e bem-estar durante este período, em que há um maior desgaste físico e emocional em virtude das demandas da gestação, e principalmente, dos cuidados com o bebê. 2.4 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA IDOSOS A diminuição nos níveis de atividade física é um dos principais efeitos do envelhecimento e está associada às modificações fisiológicas, morfológicas, neuromusculares, cognitivas e metabólicas que ocorrem com o avançar da idade. A 149 redução da força e da massa muscular favorecem o surgimento de comorbidades como a sarcopenia e a obesidade, além de aumentar o risco para quedas e fraturas que, por sua vez, comprometem ainda mais a qualidade de vida dos idosos (COELHO- RAVAGNANI et al., 2021). Um dos grandes desafios dos profissionais de saúde, especialmente na área da Educação Física, é promover e aplicar estratégias que permitam o aumento e a manutenção dos níveis adequados de atividade física conforme ocorre o envelhecimento, especialmente quando observamos o crescente número de idosos em virtude do aumento da expectativa de vida. Vivemos mais e devemos aproveitar esse tempo com melhor saúde e qualidade de vida. Os benefícios da prática de atividade física são ainda maiores para os idosos, como podemos observar no Quadro 8: Quadro 8 – Benefícios da prática de atividade física por idosos BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA • promove o desenvolvimento humano e bem-estar, ajudando a desfrutar de uma vida plena com melhor qualidade; • melhora as habilidades de socialização, por meio da participação em atividades em grupo; • aumenta a energia, disposição, autonomia e independência para realizar as atividades do dia a dia; • reduz o cansaço durante o dia; • melhora a mobilidade e fortalece músculos e ossos; • reduz as dores nas articulações e nas costas; • melhora a postura e o equilíbrio; • reduz o risco de quedas e lesões; • melhora a qualidade do seu sono; • melhora a autoestima e autoimagem; • auxilia no controle do peso corporal; • reduz os sintomas de ansiedade e de depressão; • ajuda no controle da pressão alta; • reduz o colesterol e o diabetes; • reduz o risco de desenvolver doenças do coração e alguns tipos de câncer; • melhora a saúde dos pulmões e a circulação; • ajuda na manutenção da memória, atenção, concentração, raciocínio e foco. • reduz o risco para demência, como a doença de Alzheimer. Fonte: adaptado Brasil (2021, p. 28) As doses de atividade física recomendadas às pessoas idosas se assemelham aos adultos, com no mínimo 150 minutos de atividades semanais de intensidade moderada, ou 75 minutos de atividades vigorosas. A combinação de atividades de intensidades diferentes e a divisão em blocos menores de tempo também pode ser uma estratégia para se atingir as recomendações. 150 Os idosos também podem aprimorar os níveis de atividade física nos diferentes domínios. Especialmente no tempo livre, é importante buscar atividades físicas que proporcionam prazer e bem-estar, como jogos ativos, esportes e danças, que podem ser realizados com amigos ou familiares. Deslocamentos ativos devem ser incentivados, com cuidado, especialmente com uso de calçados adequados e confortáveis, para que ocorram com segurança, evitando acidentes, quedas e lesões. Cuidados adicionais devem ser observados para aqueles idosos que apresentam comorbidades como diabetes e hipertensão, especialmente durante a prática de atividades de intensidade vigorosa. Alimentação, hidratação e sono adequados são fundamentais para garantir uma prática segura, confortável e prazerosa. Para idosos sedentários, o incremento nos níveis de atividade física e redução do tempo sedentário devem ser realizados aos poucos. Se necessário, um médico ou Unidade Básica de Saúde pode ser consultado para verificar parâmetros de saúde antes do início da prática de atividade física regular. 2.5 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA Na Unidade 1 deste livro, conhecemos com detalhes os diferentes tipos de deficiência. Estudos apontam que pessoas com deficiência permanecem mais tempo em comportamento sedentário e apresentam níveis mais baixos de atividade física, quando comparados a pessoas sem deficiência (ORCIOLI-SILVA et al., 2021). Existem diversas razões e barreiras que favorecem que pessoas com deficiên- cias sejam insuficientemente ativas. Contudo, este comportamento pode aumentar o risco do desenvolvimento de comorbidades, o quadro que se torna ainda mais preocu- pante quando consideramos que já existe o risco do desenvolvimento de comorbidades associadas às próprias deficiências. A prática de atividade física por pessoas com deficiência proporciona inúmeros benefícios à saúde e a qualidade de vidas destas pessoas, como é possível observar no Quadro 9. 151 Quadro 9 – Benefícios da prática de atividade física por pessoas com deficiência BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA • promove o desenvolvimento humano e bem-estar, ajudando a desfrutar de uma vida plena com melhor qualidade; • aumenta a autonomia para realização das atividades diárias; • promove relaxamento, divertimento e disposição; • aumenta a força muscular, a resistência, a coordenação motora, o equilíbrio, a flexibilidade e a agilidade; • melhora as habilidades de socialização; • ajuda na inclusão social, e na criação e fortalecimento de laços sociais, vínculos e solidariedade; • auxilia no controle do peso adequado e na diminuição do risco de obesidade; • melhora a imunidade; • melhora a atenção, a memória e o raciocínio, assim como reduz o risco de declínio cognitivo; • melhora o humor, e reduz a sensação de estresse e os sintomas de ansiedade e de depressão; • melhora a circulação sanguínea e diminui o risco de doenças do coração, diabetes, hipertensão e colesterol alto. FONTE: adaptado de Brasil (2021, p. 44) A pessoa com deficiência pode realizare jovens de 6 a 17 anos ........................................................................ 144 2.2 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA ADULTOS ....... 146 2.3 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA GESTANTES ......147 2.4 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA IDOSOS .... 148 2.5 RECOMENDAÇÕES PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA .............................................................................................. 150 3 RISCOS E BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA ......................... 152 3.1 BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA ......................................................152 3.2 RISCOS ASSOCIADOS À PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA ..................................... 154 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................ 155 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 156 TÓPICO 3 - ATIVIDADE FÍSICA E EXERCÍCIO FÍSICO PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS .................................................................................. 159 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 159 2 ATIVIDADE FÍSICA X EXERCÍCIO FÍSICO ........................................................ 159 2.1 PRINCÍPIOS BÁSICOS NA PRESCRIÇÃO DE EXERCÍCIOS FÍSICOS ....................... 161 3 RECOMENDAÇÕES E EVIDÊNCIAS NA PRESCRIÇÃO DE EXERCÍCIO FÍSICO PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS ............................................................161 3.1 OBESIDADE ....................................................................................................................... 162 3.1.1 Diagnóstico da obesidade ..................................................................................... 163 3.1.2 Exercício físico e obesidade ................................................................................ 164 3.2 DISLIPIDEMIA ................................................................................................................... 164 3.2.1 Diagnóstico de dislipidemia ................................................................................. 165 3.2.2 Exercício físico e dislipidemia ............................................................................ 166 3.3 DIABETES ..........................................................................................................................167 3.3.1 Diagnóstico de diabetes ........................................................................................167 3.3.2 Exercício físico e diabetes................................................................................... 168 3.4 SÍNDROME METABÓLICA ...............................................................................................170 3.4.1 Diagnóstico de síndrome metabólica.................................................................170 3.4.2 Exercício físico e síndrome metabólica .............................................................171 3.5 CARDIOPATIAS ..................................................................................................................171 3.5.1 Exercício físico e cardiopatias ...............................................................................171 3.5.2 Hipertensão arterial ...............................................................................................172 3.6 CÂNCER .............................................................................................................................173 3.6.1 Exercício físico e câncer ........................................................................................174 LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................177 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................ 181 AUTOATIVIDADE .................................................................................................182 REFERÊNCIAS .....................................................................................................184 1 UNIDADE 1 - EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer os aspectos históricos da Educação Física adaptada; • refletir sobre a importância da inclusão das pessoas com deficiências na Educação Física; • identificar as principais características que compreendem cada uma das deficiências; • distinguir as modalidades paradesportivas e sua importância na Educação Física adaptada; • diferenciar esporte adaptado de esporte paralímpico. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SOCIEDADE E AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA TÓPICO 2 – DEFICIÊNCIAS: CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS TÓPICO 3 – ESPORTE ADAPTADO E PARALÍMPICO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 SOCIEDADE E AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 1 - UNIDADE 1 Encontrar uma pessoa com deficiência é bastante comum no nosso cotidiano atual. Felizmente, ao longo das últimas décadas, avançamos muito quando o assunto é inclusão das pessoas com deficiências, não apenas no mercado de trabalho, mas nas mais diversas atividades que compõem nossa rotina e nossa cultura, mas nem sempre foi assim! Houve um longo caminho histórico para que essas pessoas saíssem desta condição de exclusão e segregação, e é este assunto que abordaremos neste primeiro tópico: a sociedade e as pessoas com deficiência. Vamos descobrir como as pessoas “diferentes” eram vistas em alguns momentos da história, e como estamos caminhando para sermos uma sociedade mais inclusiva e acessível. Além disso, vamos conhecer o papel da Educação Física Adaptada não apenas como meio de inclusão para as pessoas com deficiência no âmbito esportivo, mas também na educação, saúde e qualidade de vida. 2 ASPECTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA O último censo da população brasileira mostrou que temos cerca de 45 mi- lhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Esse número indica que mais de 20% de nossa população possui alguma dificuldade, em diferentes graus, para se loco- mover, ouvir, enxergar ou alguma deficiência mental e intelectual (CENSO, 2010). Isso aponta para a importância de conhecermos as deficiências para o desenvolvimento de uma prática profissional adequada, que consiga incluir todas as pessoas e desen- volver suas potencialidades. Antes de adentramos nos aspectos históricos da Educação Física Adaptada, precisamos conhecer o percurso das pessoas com deficiência ao longo do desenvolvi- mento da sociedade. Ainda que as coisas não pareçam fáceis nos dias de hoje quando o assunto é inclusão, saiba que elas foram ainda mais complicadas no passado. Vamos conhecer essa história? 4 2.1 AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA AO LONGO DA HISTÓRIA As pessoas com deficiência sempre estiveram presentes em diferentes épocas, mas nem sempre elas eram vistas! Sua trajetória é marcada pela luta pela sobrevivência e pela busca da cidadania. De modo geral, podemos classificar a participação das pessoas com deficiência na sociedade em quatro estágios: exclusão, segregação, integração e inclusão. Ainda que estes estágios sejam apresentados aqui de forma cronológica, é importante frisar que eles não ocorreram de maneira individual, linear e cronológica. Nas sociedades mais primitivas, a capacidade de realizar as tarefas como caça, pesca, coleta de alimentos e deslocamento junto com o grupo era fundamental para manutenção da vida. Assim, todos aqueles que apresentassem quaisquer dificuldades nessas tarefas (idosos, doentesatividade física independente da sua deficiência. Buscando formas de se movimentar de maneira segura e confortável, de acordo com as suas características e preferências. As doses recomendadas de acordo com cada idade para este público estão demonstradas no Quadro 10: Quadro 10 – Recomendações de doses de atividades físicas para pessoas com deficiência de acordo com a faixa etária FAIXA ETÁRIA RECOMENDAÇÕES 0 a 1 ano Pelo menos 30 minutos por dia na posição de bruços, podendo ser distribuídas ao longo do dia. As crianças com qualquer deficiência devem ser estimuladas dentro das suas potencialidades desde as primeiras fases de vida. 1 a 2 anos Pelo menos três horas por dia de atividades físicas de qualquer intensidade, podendo ser distribuídas ao longo do dia. 3 a 5 anos Pelo menos três horas por dia de atividades físicas de qualquer intensidade, sendo, no mínimo, uma hora de intensidade moderada a vigorosa que pode ser acumulada ao longo do dia. 6 a 17 anos 60 minutos ou mais atividade física por dia, com preferência para aquelas de intensidade moderada. Incluir em pelo menos três dias na semana atividades de fortalecimento dos músculos e ossos, como saltar, puxar, empurrar ou praticar esportes. Adultos Realizar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada ao longo da semana ou pelo menos 75 minutos de atividade vigorosa, ou uma combinação equivalente. Atividades de fortalecimento muscular devem ser realizadas envolvendo os principais grupos musculares em dois ou mais dias da semana. Idosos A recomendação é a mesma dos adultos. Adicionalmente, aqueles com mobilidade reduzida devem fazer atividade física para melhorar o equilíbrio e evitar quedas, três ou mais dias na semana. Fonte: adaptado de Brasil (2021) 152 A prática de atividade física por pessoas com deficiência pode ser realizada no tempo livre, no deslocamento, nas atividades de trabalho ou estudo e nas tarefas domésticas. O incentivo da família e dos demais que convivem e auxiliam na rotina das pessoas com deficiência é primordial para que esta prática seja incorporada à rotina. A diminuição das barreiras e a garantia de acessibilidade também são pontos importantes que devem ser observados a fim de garantir maior independência e autonomia das pessoas com deficiência, tanto nos deslocamentos quanto nas demais atividades. Algumas adaptações também podem ser necessárias para garantir maior segurança e autonomia. 3 RISCOS E BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA No subtópico anterior, conhecemos as recomendações atualizadas para a prática de atividade física, conforme orientação do Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Agora vamos conhecer alguns outros benefícios e alguns riscos associados à prática de atividade física. 3.1 BENEFÍCIOS DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA O aumento no número de pesquisas científicas de qualidade nos proporcionou um conhecimento mais aprofundado dos benefícios da prática regular de atividade física. Atualmente, já sabemos que maiores níveis de atividade física estão relacionados a diminuição da mortalidade por todas as causas e a melhora da saúde cardiovascular e metabólica. Em relação ao balanço energético, os estudos apontam que maiores doses de atividade física auxiliam na redução do peso corporal, na manutenção da perda de peso e na diminuição da obesidade abdominal. Quanto à saúde musculoesquelética, ossos, articulações e músculos são beneficiados com a prática de atividade física, auxiliando, portanto, na saúde funcional do indivíduo (ACSM, 2016). Além das condições supracitadas, a prática regular de atividade física propor- ciona benefícios ao nosso sono e à nossa saúde mental. Estima-se que cerca de 12% da população mundial sofra com alguma desordem mental. As comorbidades geradas por estes transtornos podem reduzir a expectativa de vida destas pessoas em até 20 anos. Transtornos mentais também estão relacionados a níveis mais baixos de ati- vidade física e maior tempo em comportamento sedentário (ACSM, 2016; SCHUCH; VANCAMPFORT, 2021). Transtornos mentais são condições multifatoriais, entretanto estudos apontam que pessoas com maiores níveis de atividade física apresentam cerca de 20% menos chances de desenvolver depressão. 153 A atividade física também exerce efeito protetivo em relação à ansiedade e ao estresse, com redução da incidência de ansiedade em 26% para aquelas que apresentam uma rotina mais ativa. Outros transtornos mentais também têm seus sintomas melhorados com a prática regular de atividade física, como o transtorno bipolar e a esquizofrenia (SCHUCH; VANCAMPFORT, 2021). A melhora da capacidade cardiorrespiratória e o controle do peso corporal, proporcionados pela prática de atividade física, também estão relacionados à diminuição de sintomas de depressão, de ansiedade e de esquizofrenia. Em crianças, estes benefícios também são observados, incluindo, ainda a diminuição da ansiedade e da depressão em crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Intervenções com atividade física para este grupo reduziu os problemas sociais em mais de cinco vezes e os comportamentos agressivos em quase quatro vezes (SCHUCH; VANCAMPFORT, 2021). Observando esses resultados podemos perceber que as mudanças fisiológicas ocasionadas pela prática regular de atividade física vão além do controle glicêmico, diminuição da taxa de colesterol, controle do peso e demais benefícios relacionados às doenças crônicas não transmissíveis. No caso dos transtornos mentais, especialmente a ansiedade e a depressão, a liberação de neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer e bem-estar, como a dopamina e a serotonina, tem papel fundamental nestes resultados (ANIBAL; ROMANO, 2017). Ademais, destacamos ainda que todas essas modificações provocadas pelo exercício físico auxiliam na melhora da sensação de bem-estar e contribuem para um aumento na qualidade de vida. Outro benefício da atividade física é o ocasionado ao setor econômico. Quan- do falamos em redução do risco de doenças, também estamos tratando de diminui- ção de gastos no setor de saúde. No Brasil, no ano de 2017, doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, hipertensão, câncer e doenças isquêmicas do coração representaram aproximadamente 6,5% das internações, e cerca de 10,6% dos custos de internação no Sistema Único de Saúde (SUS), isto representa cerca de R$ 300 mi- lhões (CUPOLLILO, 2021). Um estudo recente de Hafner et al. (2020) apontou que a inatividade física, além do aumento da mortalidade, causa uma diminuição na produtividade, especialmente pelo impacto causado pelas doenças associadas a esse comportamento. Essa mesma pesquisa indicou que uma redução de 15% nos níveis de inatividade física na população mundial pode levar a um aumento do produto interno bruto (PIB) global entre 6 e 8,6 trilhões de dólares ao longo de 30 anos, entre 2020 e 2050. 154 Estes números reforçam ainda mais a importância de estratégias diversas para um incremento nos níveis de atividade física da nossa população. Estas ações devem englobar políticas públicas e atitudes individuais. Profissionais da saúde, principalmente da Educação Física, têm papel fundamental nessas mudanças de comportamento. Nossas ações devem se iniciar desde a atuação na escola, não apenas proporcionando atividades práticas às crianças, mas conscientizando toda a comunidade escolar, alunos, pais, professores e funcionários dos benefícios se ser fisicamente ativo. A atuação do profissional de Educação Física no SUS e em equipes multidisciplinares de saúde também é importante para modificar esta realidade. 3.2 RISCOS ASSOCIADOS À PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA Os incontáveis benefícios da prática de atividade física já nos são conhecidos. Entretanto, existem alguns riscos associados a esse comportamento que devem ser considerados, são eles as lesões musculoesqueléticas e as complicações cardiovascu- lares (ACSM, 2016). As lesões musculoesqueléticasestão associadas à intensidade e à natureza da atividade, a condições pré-existentes e anomalias musculoesqueléticas. Os dois primeiros fatores, intensidade e natureza da atividade, são os mais responsáveis por lesões musculoesqueléticas. Atividades de alta intensidade, como as corridas e esportes competitivos apresentam maiores riscos de lesão. Em relação à natureza da atividade, atividades que permitem maior contato entre os participantes, como futebol, basquete e as lutas são as mais arriscadas de ocasionarem lesão. Contudo, as evidências também apontam que a melhora da aptidão física está inversamente relacionada às lesões musculoesqueléticas, ou seja, conforme a aptidão física melhora o risco de lesões diminui (ACSM, 2016). Dentre as complicações cardiovasculares, a morte súbita e o infarto agudo do miocárdio são as que apresentam maior risco associado à prática de atividade física. Sendo que esses eventos geralmente têm como causa anomalias genéticas e hereditárias. A literatura aponta que o risco de morte súbita em atletas é maior para homens do que para mulheres. O maior risco de complicações cardiovasculares está em atividades praticadas com intensidade moderada por pessoas com doenças cardiovasculares pré-existentes. Para o infarto agudo do miocárdio, o risco é maior durante atividades vigorosas do que nos períodos de descanso. No entanto, o aumento do volume semanal de atividade física se associa inversamente ao risco de complicações cardiovasculares (ACSM, 2016). 155 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • A prevalência de inatividade física no Brasil e no Mundo. • Quais são as doses mínimas recomendadas de atividade física para crianças, adultos, gestantes, idosos e pessoas com deficiência. • Os principais benefícios da prática de atividade física para crianças, adultos, gestan- tes, idosos e pessoas com deficiência. • Os impactos econômicos da inatividade física no Brasil e no Mundo. • Os riscos mais comuns associados à prática de atividade física. 156 AUTOATIVIDADE 1 Atualmente o Guia de Atividade Física para a População Brasileira apresenta recomendações específicas para diferentes grupos etários e condições. Sobre as recomendações de atividade física para adultos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Adultos devem realizar pelo menos 75 minutos semanais de atividades físicas de intensidade vigorosa. b) ( ) Adultos, por estarem em idade produtiva, devem concentrar suas atividades físicas em maior quantidade no domínio ocupacional. c) ( ) Adultos devem realizar no mínimo 25 minutos diários, durante três dias na semana, de atividades físicas de intensidade moderada. d) ( ) Pessoas que possuem atividades ocupacional com baixa exigência física não necessitam compensar o tempo de comportamento sedentário. 2 A prática de atividade física por pessoas com deficiência proporciona inúmeros benefícios à saúde e a qualidade de vidas destas pessoas. Sobre as recomendações de atividade física para pessoas com deficiência, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A diminuição das barreiras e melhoras na acessibilidade são pontos importantes para garantir autonomia e independência para que pessoas com deficiência pratiquem atividade física. ( ) Além das recomendações de 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada, idosos devem fazer atividades que melhorem o equilíbrio com o objetivo de evitar quedas. ( ) Crianças com deficiência devem ser estimuladas a ser fisicamente ativas desde as primeiras fases da vida, sendo recomendado pelo menos três horas diárias de atividades físicas leves, moderadas ou vigorosas para a faixa etária de 1 a 2 anos desta população. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) V – V – V. d) ( ) V – V – F. 157 3 A infância e a adolescência são dois períodos de extrema importância na nossa vida. Enquanto nos anos iniciais temos alguns aprendizados e experiências fundamentais ao nosso desenvolvimento, na adolescência lapidamos a formação da nossa personalidade e de valores que podem nos acompanhar ao longo de toda a vida. Sobre as recomendações e a prática de atividade física por crianças e jovens, analise as sentenças: I- Por gostarem de jogos e brincadeiras, sendo por consequência mais ativos, cerca de 71,7% dos meninos são considerados fisicamente ativos, enquanto 86,5% das meninas atingem as recomendações para a prática de atividade física. II- Crianças que praticam pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa possuem menor risco de obesidade. III- Como bebês não conseguem se locomover sem ajuda e supervisão de um adulto, é recomendado deixá-los se movimentar apenas em carrinhos e cadeirinhas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença I está correta. 4 Mulheres grávidas e no pós-parto também devem ser estimuladas a praticarem atividade física durante este período de suas vidas. Cite pelo menos quatro benefícios da prática de atividade física pelas gestantes e/ou no pós-parto: 5 Um dos grandes desafios dos profissionais de saúde, especialmente na área da Edu- cação Física, é promover e aplicar estratégias que permitam o aumento e a manu- tenção dos níveis adequados de atividade física conforme ocorre o envelhecimento. Segundo o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, quais são as reco- mendações de frequência e intensidade de atividade física para idosos? 158 159 TÓPICO 3 - ATIVIDADE FÍSICA E EXERCÍCIO FÍSICO PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 Ao longo desta unidade, vimos a relação entre atividade física e saúde e conhecemos as recomendações mais atualizadas acerca dos níveis mínimos de atividade física para reduzir o risco de desenvolvimento de doenças, especialmente doenças crônicas não transmissíveis, que estão entre as maiores causas de morte no mundo. Além dos níveis adequados de atividade física, a prática regular de exercícios também contribui não apenas na prevenção, mas no tratamento e controle de diferentes doenças. A literatura científica já encara o exercício físico como uma polipílula em virtude dos diversos efeitos e benefícios proporcionados por meios das alterações fisiológicas no organismo causados pelo exercício físico. Acadêmico, no Tópico 3, conheceremos algumas recomendações e diretrizes para a prescrição de exercícios físicos em populações especiais, no caso, com algumas patologias. Atualmente, há evidências de exercício físico como parte de um tratamento não medicamentoso para muitas condições de saúde. No nosso material, vamos nos ater às doenças mais comuns de encontrarmos durante a nossa prática profissional. O atendimento especializado para prescrição de exercícios é uma área crescente no campo da Educação Física. Esperamos que com este material você possa ter as primeiras noções necessárias para efetuar uma intervenção com qualidade. Sempre é importante ressaltar que prescrição de exercício físico deve ser realizada da forma mais individualizada possível, levando em consideração não apenas as características e necessidades da pessoa, mas as possibilidades oferecidas pelo ambiente, de forma que a prática seja prazerosa e, sobretudo segura. Para começar, vamos revisar alguns conceitos sobre exercício físico e conhe- cer os modelos mais estudados e indicados na prescrição de exercícios para popula- ções especiais. 2 ATIVIDADE FÍSICA X EXERCÍCIO FÍSICO Como já vimos no Tópico 1, existem diferenças importantes entre os conceitos de exercício físico e atividade física. Embora a confusão de termos seja comum, nós, profissionais de Educação Física, devemos ter bastante clareza nestas diferenças. 160 Retomando, a atividade física é definida como qualquer movimento corporal voluntárioque eleve o gasto energético acima dos níveis basais, enquanto o exercício físico é um tipo de atividade física que tem por característica ser estruturado, planejado e executado de forma repetitiva. O principal objetivo do exercício físico é aperfeiçoar os componentes da aptidão física, como força, resistência muscular, flexibilidade, capacidade cardiorrespiratória e composição corporal (ACSM, 2016). De modo geral, a prática regular de exercícios físicos proporciona melhora da função cardiovascular e respiratória, em virtude de adaptações centrais e periféricas proporcionadas pela captação de oxigênio, diminuição da frequência cardíaca e dos níveis de pressão arterial, aumento da densidade capilar no músculo esqueléticos. Reduções na pressão arterial, nos níveis de gordura corporal, na inflamação e na resistência à insulina proporcionadas pelo exercício físico também contribuem para a diminuição do risco de complicações cardiovasculares. O exercício também melhora a função cognitiva e reduz o risco de lesões e quedas, especialmente em indivíduos idosos (ACSM, 2016). As recomendações que serão apresentadas, são, em sua maioria, evidências originadas de estudos de intervenção com exercício físico. Nestes estudos, pesquisa- dores oferecem uma intervenção com exercício a um grupo de pessoas com alguma característica semelhante, como a presença de alguma doença, e observam os efeitos do exercício ao longo de dias ou semanas. Para tornar os resultados mais confiáveis, eles podem comparar o grupo que se exercitou com um grupo controle, que pode ser formado por sujeitos com condições semelhantes ao grupo exercitado, mas que não praticou exercício no mesmo período, ou ainda, com um ou mais grupos que praticaram exercícios diferentes. Por todo esse contexto científico, alguns modelos de exercícios são mais fáceis e mais comuns de serem aplicados e avaliados, como o exercício aeróbico e o resistido. As evidências serão apresentadas em relação a esses dois modelos de exercício físico. Isso significa que outras modalidades de exercício como Pilates, Yoga ou dança, por exemplo, não funcionem? Não! Nestes casos, apenas podemos afirmar que não há indícios suficientes que apontam que esses ou algum outro tipo de exercício é seguro e eficaz em melhorar componentes da aptidão física para pessoas com necessidades especiais. 161 2.1 PRINCÍPIOS BÁSICOS NA PRESCRIÇÃO DE EXERCÍCIOS FÍSICOS Como já apontado, a prescrição de exercício físico deve ser realizada de maneira individualizada, levando em consideração não apenas as características individuais, mas também os objetivos esperados com a prática do exercício. Os padrões de recomendação para a prescrição individualizada sempre levarão em consideração quatro fatores: frequência, intensidade, duração e tipo de exercício (ACSM, 2016). Frequência é a quantidade de sessões que serão realizadas, em geral, apontada de forma semanal: duas vezes por semana, três vezes por semana, e assim por diante. A intensidade é o indicativo do “quão pesado” ou desgastante fisicamente é a atividade. Esta intensidade pode ser controlada utilizando diversos parâmetros como percentual de frequência cardíaca, de VO2 máximo, METs, ou % de repetição máxima. Quanto à duração do exercício físico, ela é controlada por meio da medição do tempo total da sessão ou o tempo destinado a prática de um tipo de exercício, considerando os períodos de esforço e recuperação, que também devem ser controlados. Quanto aos tipos de exercícios, serão considerados nas recomendações apresentadas os exercícios aeróbicos e resistidos. Os exercícios aeróbicos exigem o uso de oxigênio para a produção de energia muscular. Além disso, exigem a performance de uma grande quantidade de grupos musculares, como exemplo de exercícios aeróbicos temos a caminhada, corrida, natação, bicicleta estacionária, ciclismo na rua e remo. Já os exercícios resistidos são aqueles que exigem um trabalho de contra resistência dos músculos esqueléticos. Exercícios resistidos promovem a melhora da força e da resistência muscular, e podem gerar hipertrofia do músculo esquelético. São exemplos de exercícios resistidos, exercícios com pesos (musculação), exercícios com elásticos ou mesmo exercícios realizados com o peso do corpo (ACSM, 2016). 3 RECOMENDAÇÕES E EVIDÊNCIAS NA PRESCRIÇÃO DE EXERCÍCIO FÍSICO PARA POPULAÇÕES ESPECIAIS Ao longo desta unidade vimos a importância e de se manter fisicamente ativo. A prática regular de exercícios físicos pode ser uma das estratégias para atingir as recomendações de atividade física. No entanto, o exercício físico, planejado, estruturado e sistematizado, proporciona benefícios adicionais, especialmente em pessoas que já apresentam algum quadro de doença (ACSM, 2016). Até alguns anos atrás, em algumas condições clínicas, como pacientes em tratamento de câncer, a principal recomendação médica era ficar em repouso e evitar esforço físico. Atualmente, sabemos que não apenas no câncer, mas em diversas outras doenças, o exercício físico é remédio, atuando como uma estratégia não medicamentosa eficaz para complementar o tratamento médico. 162 Conforme o corpo de evidências vai crescendo, algumas entidades científicas reúnem grupos de pesquisadores especialistas e elaboram documentos, denominados guias ou diretrizes, que têm por objetivo orientar e facilitar a prática do profissional de saúde. Dentre estes, existem guias específicos de prescrição de exercícios físicos a algumas populações especiais. De posse deste conhecimento, é possível oferecer uma orientação segura e adequada de forma que o praticante usufrua dos melhores benefícios possíveis do exercício físico. Realizar uma avaliação física de qualidade é um componente essencial para a prescrição de exercícios físicos. Em pessoas que apresentam algum quadro patológico, ou maior risco de desenvolvimento de doenças, como é o caso de idosos e de pessoas com algumas deficiências, esta avaliação é ainda mais importante para garantir a segurança da prática e a diminuição do risco de complicações advindas do exercício. Relato de sinais e sintomas, como dores e desconfortos, devem ser avaliados e sempre considerados, frequência respiratória curta, síncopes, dispneia noturna, edemas, palpitações ou taquicardias, claudicação intermitente e fadiga excessiva, inclusive em atividades usuais pode ser um indicativo de que sugerem doenças metabólicas, cardíacas e/ou renais (ACSM, 2016). Além do histórico médico e familiar, questionários como o PAR-Q, que avalia o risco de complicações advindas da prática de exercício devem ser utilizados no processo de avaliação. Pacientes com risco elevado de complicações, histórico familiar de doenças cardiovasculares, sintomáticos para as doenças diagnosticadas devem receber liberação médica para a prática de exercícios. Isto garante segurança de intervenção tanto para o paciente quanto para o profissional de Educação Física. Na sequência, iremos conhecer as principais evidências e recomendações para a prática de exercícios em sete grupos de doenças: obesidade, dislipidemia, diabetes, síndrome metabólica, cardiopatias, câncer e doenças que causam imunossupressão. 3.1 OBESIDADE Uma frase de Hipócrates (460-377 a.C.) mostra que, desde a antiguidade, há uma preocupação com os efeitos do excesso de peso para a saúde: “a corpulência não é apenas uma enfermidade em si, mas o prenúncio de outras. A morte súbita é mais comum naqueles que são naturalmente gordos do que nos magros” (ABESO, 2016, p. 10). A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo anormal ou excessivo de gordura pelo corpo, que pode ser causada por diversos fatores, como estilo de vida, distúrbios hormonais, uso de medicamentos, fatores genéticos, psicológicos e comportamentais (MAPA..., 2022). 163 Dados da Organização Mundial da Saúde para o ano de 2025 estimam que 2,3 milhões de pessoas estejam com sobrepeso e mais de 700 milhões com obesidade. No Brasil,mais de 50% da população apresenta sobrepeso e cerca de 20% da população é obesa. Os números são ainda mais preocupantes quando constatamos que, entre as crianças e adolescentes, uma em cada três tem sobrepeso, e 11% das crianças e adolescentes com idade entre 5 e 19 anos tem obesidade. Comparativos históricos mostram que a prevalência de obesidade dobrou na última década, quando comparado ao início dos anos 2000, principalmente entre os mais jovens (MAPA..., 2022; SILVA, 2021). Estudos apontam que 84% das crianças com obesidade também terão a mesma condição na idade adulta. O excesso de gordura corporal está associado ao desenvolvimento de outras doenças como a diabetes do tipo 2, doenças cardiovasculares, dislipidemia, infertilidade e alguns tipos de câncer, dentre outras. Estas comorbidades podem aparecer já na infância, em virtude da obesidade. 3.1.1 Diagnóstico da obesidade Ao longo do tempo, buscou-se melhores formas de diagnosticar a obesidade e notou-se que a combinação entre medidas de massa corporal e distribuição de gordura é a melhor estratégia para avaliação clínica. O Índice de Massa Corporal (IMC) é o indicador mais utilizado na avaliação da adiposidade corporal. Contudo o IMC nem sempre apresenta boa correlação com a gordura corporal, podendo subestimar a quantidade de gordura em pessoas com baixa quantidade de massa muscular, como idosos, ou superestimar em indivíduos com maiores quantidades de massa muscular. É considerado obeso o indivíduo com IMC superior a 30kg/m² e em pessoas idosas é considerado normal IMC entre 22 e 27 kg/m² (ABESO, 2016). Na Tabela 1, podemos observar a classificação do IMC e o risco de desenvolvi- mento de doenças. Tabela 1 – Classificação internacional de obesidade segundo o Índice de Massa Corporal (IMC) e o risco de desenvolvimento de doenças IMC (kg/m²) CLASSIFICAÇÃO OBESIDADE GRAU/CLASSE RISCO DE DOENÇAS 40,0 Obesidade III Muitíssimo elevado Fonte: Abeso (2016, p. 16) 164 Outras medidas antropométricas também podem ser utilizadas como indicativo de aumento na quantidade de gordura corporal. Para medida de circunferência abdominal, o ponto de corte é de 94 cm para homens e 80 cm para as mulheres, ou seja, medidas superiores a essas indicam aumento do risco de desenvolvimento de doenças metabólicas. Para a relação cintura/estatura, o ponto de corte para adultos é de 0,5 (ABESO, 2016). Para crianças e adolescentes, o diagnóstico de obesidade é feito utilizando as curvas de IMC de acordo com o sexo e a idade, por meio do escore Z. São classificadas como sobrepeso criança com valor +1, e como obesas com valor +2 no Z-IMC. Pode- se ainda utilizar o índice de percentil de 85 a 95%. Apesar de, na prática clínica, o IMC poder ser utilizado isoladamente para rastreamento da obesidade, o uso de outros métodos de avaliação da composição corporal como dobras cutâneas, bioimpedância, absorciometria com raios-X de dupla energia (DEXA) juntamente com as medidas antropométricas ajudam a minimizar as limitações dos métodos. 3.1.2 Exercício físico e obesidade A prática regular de atividade física, juntamente com uma alimentação balanceada, é uma das estratégias de prevenção da obesidade. O tratamento da obesidade deve ser multidisciplinar, envolvendo além do profissional de Educação Física, médico, nutricionista e psicólogo. O principal objetivo é que mudanças nos hábitos e estilo de vida se tornem permanentes. A recomendação para a prática de atividade física é de atingir ao menos as recomendações de doses referentes à idade, sendo ideal de 200 a 300 minutos semanais de atividade física para alcançar uma perda de peso efetiva (RYAN; KAHAN, 2018). De modo geral, qualquer tipo de exercício físico pode ser praticado, preferencialmente com intensidade moderada ou vigorosa. O exercício contribui para um balanço energético negativo que favorece o emagrecimento. Exercícios de força muscular, que favoreçam a hipertrofia, é uma estratégia interessante que auxilia na melhora do metabolismo, que fica prejudicado em situações de restrição calórica e evita a perda de massa magra durante a perda de peso (BOTTCHER, 2019). Cuidados específicos devem ser tomados caso haja outras doenças associadas a obesidade, como cardiopatias, diabetes etc. 3.2 DISLIPIDEMIA A dislipidemia pode ser definida como um distúrbio no metabolismo de lipídios (colesterol total e triglicerídeos) e das lipoproteínas (lipoproteínas de alta densidade – HDL; e lipoproteínas de baixa densidade – LDL), o que faz com que os níveis destes lipídeos ultrapassem margens consideradas saudáveis. Essas alterações podem favorecer o aparecimento de outras doenças, como a aterosclerose, elevando o risco de eventos cardiovasculares (SOARES et al., 2019). 165 De modo geral, as dislipidemias podem ser classificadas como de origem primárias ou secundárias. Nas de origem primárias, as mudanças nos níveis de lipídios ocorrem por fatores genéticos, ou seja, mesmo que a pessoa mantenha um estilo de vida saudável e quantidade de gordura corporal adequada, ela pode ter dislipidemia. Já a secundária, ocorre como consequência de outras doenças, como obesidade, hipotiroidismo, diabetes, ou mesmo de estilo de vida insalubre (FALUDI et al., 2017). 3.2.1 Diagnóstico de dislipidemia O diagnóstico da dislipidemia é feito por meio de exames de sangue labora- toriais, que quantificam os níveis de lipídios no sangue. Valores muito acima ou muito abaixo dos desejáveis podem indicar dislipidemia. A Tabela 2 apresenta dos valores de referência do perfil lipídico para adultos com idade superior a 20 anos. Tabela 2 – Valores referenciais do perfil lipídico (adultos >20 anos) LÍPIDES COM JEJUM (mg/dL) SEM JEJUM (mg/Dl) CATEGORIA REFERENCIAL Colesterol total 40 > 40 Desejável Triglicéridespara a prática de exercícios físicos por pessoas com dislipidemia ANTES DE COMEÇAR A PRÁTICA Recomenda-se uma avaliação clínica e teste ergoespirométrico ou ergométrico. EXERCÍCIOS AERÓBICOS 30 a 60 minutos de exercícios realizados entre o limiar aeróbico e o ponto de compensação respiratória, ou 60 a 80% da frequência cardíaca pico. EXERCÍCIOS RESISTIDOS 15 a 20 minutos de exercícios com intensidade de até 50% da contração voluntária máxima. Inicialmente, duas a quatro séries de 10 a 15 repetições de exercícios para grandes grupos musculares, podendo evoluir para duas a quatro séries de 8 a 12 repetições para cargas mais altas. DOSE DE EXERCÍCIO SEMANAL 60 minutos de exercício combinado (aeróbico e resistido) de três a cinco vezes por semana. Fonte: o autor Cuidados adicionais devem ser tomados em caso de outras doenças associadas a dislipidemia ou avaliação de alto risco de evento cardiovascular. 167 3.3 DIABETES Diabetes é a denominação para um grupo de doenças que resultam em altos níveis de glicose no sangue. De acordo com a Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (RODACKI et al., 2021), o diabetes pode ser classificado da seguinte maneira: • Diabetes tipo 1: mais comum em crianças e adolescentes, sendo uma doença autoimune e que necessita do uso regular de insulina. • Diabetes tipo 2: é o tipo mais frequente e está associado à obesidade e ao envelhecimento. Tem como característica inicial a resistência à insulina. • Diabetes gestacional: é caracterizado por alterações nos níveis de glicemia que atingem as mulheres durante a gestação. Desenvolver diabetes gestacional aumenta o risco de desenvolver diabetes do tipo 2 após a gestação. • Outros tipos de diabetes: são causadas por problemas genéticos ou associados a outras doenças, ou ao uso de medicamentos. Dentre as várias complicações, as pessoas com diabetes estão mais sujeitas a desenvolver outras doenças como neuropatia periférica, retinopatia diabética, doença renal, dislipidemias, doença hepática e a síndrome do pé diabético. 3.3.1 Diagnóstico de diabetes O diagnóstico de diabetes do tipo 2 e do diabetes gestacional é feito por meio de exame de sangue, como a glicemia plasmática em jejum, o teste de tolerância oral à glicose (TOTG) e a hemoglobina glicada (A1c). Os critérios para diagnóstico do diabetes tipo 2 e pré-diabetes estão apresentados na Tabela 3: Tabela 3 – Critérios laboratoriais para diagnóstico de Diabetes tipo 2 e pré-diabetes CRITÉRIOS NORMAL PRÉ-DM2 DM2 Glicemia de jejum (mg/dL) * 125 Glicemia 2h após TOTG (mg/dL) ** 199 HbA1c (%) 6,4 Nota: DM2: diabetes tipo 2; TOTG: teste de tolerância oral à glicose; HbA1c: hemoglobina glicada; * considera-se como jejum a cessação de ingestão calórica por ≥ 8 horas. ** Carga oral equivalente a 75g de glicose anidra diluída em água. Fonte: Cobas et al. (2021, p. 2) Como critério de diagnóstico de diabetes, recomenda-se considerar glicemia plas- mática de jejum ≥ 126 mg/dl, glicemia duas horas após sobrecarga de 75g de glicose anidra ≥ 200 mg/dl, HbA1c ≥ 6,5%. São necessários dois exames alterados para confirmação diag- nóstica. Se somente um exame estiver alterado, ele deve ser repetido para confirmação. 168 O diagnóstico de diabetes deve ser estabelecido se houver glicemia de jejum ≥ 126 mg/dl e HbA1c ≥ 6,5% numa mesma amostra de sangue. Já diagnóstico de diabetes do tipo 1 e de outros tipos de diabetes, além de alterações na glicemia indicadas pelos exames de sangue, outros exames podem ser solicitados, de acordo com as suspeitas médicas. 3.3.2 Exercício físico e diabetes Dentre as evidências e recomendações que temos para a prática de atividades físicas para pessoas com diabetes do tipo 2 e pré-diabetes estão a redução do comportamento sedentário e a manutenção dos níveis mínimos recomendados de atividade física, com 150 minutos semanais de atividades de intensidade moderada. As recomendações para a prática de exercício físico de acordo com a Diretriz Brasileira de Atividade Física (SILVA JUNIOR et al., 2021) estão sumarizadas no Quadro 12: Quadro 12 – Recomendações para a prática de exercícios físicos por pessoas com Diabetes tipo 2 ANTES DE COMEÇAR A PRÁTICA Rastreamento de doenças cardiovasculares somente para pessoas com sintomas típicos ou que apresentem alto risco cardiovascular. EXERCÍCIOS AERÓBICOS Exercícios aeróbicos de moderada ou alta intensidade, sem permanecer mais do que dois dias consecutivos sem exercício. EXERCÍCIOS RESISTIDOS De uma a duas séries de 10 a 15 repetições de cinco ou mais exercícios. DOSE DE EXERCÍCIO SEMANAL Exercícios aeróbicos: mínimo de 150 minutos semanais Exercícios resistidos: duas a três sessões por semana, em dias não consecutivos. Fonte: adaptado de Silva Junior et al. (2021) Para pessoas idosas com diabetes tipo 2, também é recomendada a prática de exercícios de equilíbrio e flexibilidade, com o objetivo de reduzir o risco de quedas. Existem alguns riscos e restrições que devem ser considerados na prescrição e prática de exercícios físicos por pessoas com diabetes tipo 2, conforme consta no Quadro 13: 169 Quadro 13 – Complicações microvasculares do diabetes tipo 2 e restrições para o exercício Fonte: Silva Junior et al. (2021 p. 5) CONDIÇÃO LIMITAÇÃO RECOMENDAÇÕES RESTRIÇÕES MODALIDADE Neuropatia periférica sensitiva Perda de sensibilidade protetora dos membros infe- riores. Maior risco de lesões osteo- mioarticulares e ulcerações. Inspecionar o inte- rior dos calçados. Usar tênis e meias apropriados. Evitar exercícios com impacto repetido sobre os pés: esteira, caminhada pro- longada, corrida, escada. Braquiergonomia, hidroginástica, natação, remo, bicicleta estacio- nária, exercícios de musculação (sentado). Neuropatia autonômica Hipotensão postural, disfunção na termorregula- ção. Redução da sensação de sede, taquicar- dia de repouso, tendência a ar- ritmias e isque- mia silenciosa, hipoglicemia assintomática. Hidratação: não esperar sentir sede para se hidratar. Valorizar os períodos de aquecimento e desaquecimento. Avaliação cardio- vascular obrigatória pré-participação. Evitar exercício em ambiente muito quente ou muito frio. Analisar caso a caso. Retinopatia Redução da acuidade visual. Risco de he- morragia vítrea e deslocamen- to de retina. Após fotocoagula- ção a laser, aguardar três a seis meses para o reinicio do treinamento. Moderada: evitar exercícios com manobra de Valsalva, como levantamento de peso. Grave: evitar, além dos exercí- cios anteriores, saltos, lutas e esportes com- petitivos. Proliferativa: Evitar, além dos exercícios ante- riores, corrida, esportes com raquetes e de alta intensidade. Analisar caso a caso. Nefropatia Fraqueza, náu- seas, intolerân- cia ao exercício. Elevação transitó- ria da proteinúria. Hematúria. Risco de hipoglice- mia aumentado em pessoas com clea- rence de creatinina mais baixo. Não há. Não há. 170 3.4 SÍNDROME METABÓLICA A síndrome metabólica é o termo utilizado para descrever um conjunto de fatores que, associados, elevam o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, além de outras alterações negativas na saúde. A síndrome metabólica é uma condição associada à obesidade e tem como base a resistência à insulina. Seu desenvolvimento é resultado de um estilo de vida insalubre, especialmente em relação à inatividade física e alimentação inadequada (OLIVEIRA et al., 2020). Um estudo recente com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde, estimou a prevalência de síndrome metabólica na população brasileira de 38,4%, com ocorrência maior entre as mulheres (41,8%), indivíduos com baixa escolaridade (47,5%) e idosos (66,1%) (OLIVEIRA et al., 2020). 3.4.1 Diagnóstico de síndrome metabólica O diagnóstico de síndrome metabólica é feito por meio de uma combinação de critérios e diagnóstico de outras doenças,como a dislipidemia e hipertensão arterial. Valores superiores ao ponto de corte para circunferência abdominal, de acor- do com o sexo e a etnia é o critério obrigatório de diagnóstico, acrescido de pelo me- nos mais dois critérios dos quatro a serem considerados, conforme apresentado no Quadro 14: Quadro 14 – Critérios diagnósticos de síndrome metabólica em homens e mulheres, incluindo ponto de corte da circunferência abdominal como critério obrigatório CRITÉRIO OBRIGATÓRIO MAIS 2 DE 4 CRITÉRIOS Obesidade visceral (circunferência abdominal): medidas de circunferência abdominal conforme a etnia (cm) para homens (H) e mulheres (M): Europídeos: ≥ 94 cm (H); ≥ 80 cm (M). Sul-africanos, Mediterrâneo Ocidental e Oriente Médio: idem a europídeos. Sul-asiáticos e chineses: ≥90 cm (H); ≥80 cm (M); japoneses: ≥90 cm (H); ≥85 cm (M); sul-americanos. América Central: usar referências dos sul-asiáticos. Triglicérides ≥150mg/dL ou tratamento. HDL 130 mmHg ou Pressão Arterial Diastólica > 85mmHg ou tratamento. Glicemia de jejum > 100mg/dL ou diagnóstico prévio de diabetes. (Se glicemia > 99 mg/dl, o teste de tolerância à glicose é recomendado, mas não necessário para diagnóstico da síndrome metabólica). FONTE: Abeso (2016, p. 17) 171 3.4.2 Exercício físico e síndrome metabólica A prática de exercícios físicos é parte fundamental da estratégia não medicamentosa de tratamento da síndrome metabólica. Por ser um conjunto de doenças associadas que inclui obrigatoriamente a obesidade, além da possibilidade de incluir dislipidemia, hipertensão e diabetes, não há uma diretriz específica com recomendações para a prática de exercícios físicos para pessoas com síndrome metabólica. Assim, além de buscar atender as recomendações mínimas para a prática de atividade física, deve se seguir as recomendações específicas das comorbidades que compõem o quadro de cada paciente, tornando ainda mais individualizada a prescrição de exercícios para pessoas com síndrome metabólica. 3.5 CARDIOPATIAS Cardiopatia é um termo utilizado para designar doenças que afetam o sistema cardiovascular. As cardiopatias podem ser de origem congênita, quando a pessoa apresenta os primeiros sintomas no nascimento ou nas primeiras semanas de vida, ou adquirida, em decorrência de outros fatores, principalmente aqueles relacionados ao estilo de vida. Os tipos mais comuns de cardiopatias são a hipertensão arterial, doença arterial coronariana, arritmia cardíaca, dentre outras. Em atletas, a miocardite hipertrófica é uma cardiopatia associada a morte súbita de atletas com menos de 35 anos. Sintomas de cardiopatia podem incluir fadiga, falta de ar, elevação da pressão arterial e alterações irregulares na frequência cardíaca. O diagnóstico varia conforme a suspeita clínica da cardiopatia, assim como o tratamento (GHORAYEB et al., 2019). 3.5.1 Exercício físico e cardiopatias O exercício físico tem papel fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento de cardiopatias. As recomendações de exercício físico podem ser específicas para cada tipo de cardiopatia, como veremos a seguir para a hipertensão arterial. De modo geral, cabe destacar que tanto os exercícios aeróbicos quanto os resistidos são importantes como parte do tratamento de uma cardiopatia. As recomendações de diferentes cardiopatias indicam doses de 30 a 60 minutos por dia de exercícios aeróbicos, numa frequência de três a cinco vezes por semana com intensidade de leve a moderada. Para os exercícios resistidos, a recomendação é de duas séries de 10 a 15 repetições, uma a duas vezes por semana, com pelo menos um dia de intervalo entre as sessões em intensidade leve a moderada (CARVALHO et al., 2020; GHORAYEB et al., 2019). 172 Em pacientes cardiopatas, alguns riscos devem ser avaliados de forma a garantir maior segurança na prescrição e na prática do exercício físico. Os riscos de eventos cardiovasculares, são maiores em pacientes sintomáticos, com internação por descompensação cardiovascular recente (8 a 12 semanas) e com menor capacidade funcional (CARVALHO et al., 2020). 3.5.2 Hipertensão arterial A hipertensão é uma cardiopatia que se caracteriza por níveis elevados de pressão arterial. Estima-se que a hipertensão atinja de 30 a 45% da população mundial, com prevalência de cerca de 60% em pessoas com mais de 60 anos. Níveis elevados de pressão arterial aumentam o risco de doenças cardiovasculares, como acidentes vasculares cerebrais, infarto do miocárdio, morte súbita cardíaca, além de doença renal crônica e demência (MARTIN, 2022). • Diagnóstico de hipertensão O diagnóstico de hipertensão é feito de forma clínica, considerando alterações repetitivas e persistentes nos níveis da pressão arterial. Os valores de referência para classificação da pressão arterial na população brasileira estão apresentados na Tabela 4: Tabela 4 – Classificação da pressão arterial medida na posição sentada para pacientes com 16 anos ou mais Classificação PAS (mmHg) PAD (mmHg) Ótima 180 E/OU >110 Hipertensão sistólica isolada >140 Etem origem em tecidos conjuntivos, carcinomas se originam de células epiteliais, leucemias são denominações de cânceres na medula óssea e linfomas e mielomas de células do sistema imunológico (INCA, 2019). 174 Estima-se que em 2030 teremos 23,1 milhões de diagnóstico de câncer e 13 milhões de mortes ocasionadas por estas doenças a nível mundial. No Brasil, os dados mais recentes apontam uma incidência de 625 mil novos casos ao ano. A localização primária do tumor mais comum no Brasil são a mama para as mulheres (29,7%) e a próstata para os homens (29,2%) (DEMINICE, 2022; INCA, 2019). Um estudo recente apontou que atividade física de lazer está associada à redução do risco de 13 tipos de câncer, dentre os quais estão câncer de mama, cólon, cabeça e pescoço, pulmão, fígado, rim e endométrio (MOORE et al., 2016). Outro estudo indicou que benefícios máximos de redução de risco de câncer são alcançados com cerca de duas a três vezes a recomendação semanal mínima de prática de atividade física (RUIZ-CASADO et al., 2017). Os sintomas podem variar bastante de acordo com a localização do tumor, entretanto a fadiga, a sarcopenia e a caquexia são as condições mais comuns em virtude da doença e do tratamento. O diagnóstico pode ser realizado por meio de exames de imagens, presença de biomarcadores e sintomas clínicos e os principais tratamentos disponíveis atualmente incluem cirurgias, quimioterapia, radioterapia e terapias alvo (INCA, 2019). 3.6.1 Exercício físico e câncer Em relação à prática de exercícios físicos, as evidências apontam que elas podem ser realizadas durante e após o tratamento para o câncer, inclusive nos períodos de quimioterapia e de radioterapia. Na fase de pré-tratamento os benefícios do exercício físico são a atenuação da atrofia muscular e da disfunção física, a diminuição de incidência de efeitos adversos nas fases subsequentes do tratamento, o tempo de hospitalização e os custos com tratamento; durante o tratamento, o exercício físico contribui para aumento da força e da massa muscular, atenua sintomas depressivos e reduz a fadiga; na fase após o tratamento, a prática de exercícios auxilia na redução da ansiedade e de sintomas depressivos, reduz a fadiga, melhora a função física, previne o aparecimento de recidivas e de comorbidades e aumenta a sobrevida (DEMINICE, 2022). O aval médico é fundamental para que o programa de exercício físico seja seguro. Entretanto, nem sempre é necessária a supervisão durante a prática, conforme é indicado na Figura 1: 175 Figura 1 – Fluxograma de etapas mais importantes para o encaminhamento de sobreviventes do câncer para programas de exercício físico Fonte: Deminice (2022, p. 8) 1. Aval do médico oncologista para prática de atividade/exercícios físicos 2. Avaliação e identificação do perfil de saúde e possíveis riscos envolvidos. Nivel de supervisão e local recomen- dados para praticar exercícios Antes do tratamento Durante o tratamento Após o tratamento Condições gerais • Mudanças importantes na composição corporal: caquexia, osteoporose, IMC>35; • Presença de disfunções físicas severas: neuropatia periférica, ataxia, perda de equilíbrio ou independência; • Presença de complicações hematológicas severas: anemia, trombocitopenia, neutrope- nia, dor; • Tratamento paliativo. Supervisão: multipro- fissional especializa- da (Ex: fisioterapeu- tas, profissionais de educação física e/ ou médicos). Local: hospitais, clínicas oncológicas. Condições específicas à fase do contínuo do câncer • Presença de tumores ósseos ou metástase óssea; • Presença de tumores ósseos ou metástase óssea. • Cirurgia de pulmão ou abdominal; • Linfedema, inflamação local ou celulite exacerbados; • Extrema fadiga; • Ostomia; • Linfedema, inflamação local ou celulite exacerbados. Supervisão: espe- cializada (Ex: profis- sionais de educação física especialista em oncologia) Local: clínicas e academias especializadas. Condições gerais • Pacientes metastaticos com presença mínima de efeitos adversos; • Presença de efeitos adversos que podem comprometem a função física ou aumentam o risco de complicações: fadiga, neuropatia periférica leve, sarcopenia, osteopenia; • Presença de morbidades: doenças cardiovasculares, diabetes, síndrome metabólica, artrites. Condições específicas à fase do contínuo do câncer • Uso de cateteres; • Presença de linfedema. • Uso de cateteres; • Presença de linfedema. Supervisão não necessária, porém recomendada. Local: clubes, academias, comunidade e outros. Autogestão do exercício usando guias e recomenda- ções gerais Condições gerais • Presença mínima ou ausência de efeitos adversos e morbidades: baixa fadiga, ausência de limitações físicas e mudanças na composição corporal, sobrepeso (IMC>30), diabetes tipo 2 e hipertensão controladas e outras. Em relação à prescrição de exercícios físicos para pessoas em tratamento de câncer ou para os sobreviventes, a sumarização das evidências conforme as recomendações existentes (REF) está apresentada no Quadro 16: 176 Quadro 16 – Recomendações para a prática de exercícios físicos por pessoas com câncer ANTES DE COMEÇAR A PRÁTICA Consultar o médico oncologista para realizar a liberação e verificar eventuais riscos. EXERCÍCIOS AERÓBICOS Exercícios aeróbicos com pelo menos 75 minutos semanais de intensidade vigorosa ou 150 minutos semanais de intensidade moderada. EXERCÍCIOS RESISTIDOS As 16 primeiras sessões podem ser realizadas com cargas mais baixas para observar os sintomas. Séries com entre 8 e 12 repetições com sobrecarga progressiva e intensidade moderada, com objetivo de aumento da massa muscular. DOSE DE EXERCÍCIO SEMANAL Exercícios aeróbicos: três a cinco dias por semana. Exercícios resistidos: três a cinco sessões por semana. Fonte: o autor Dentre os cuidados que devem ser observados na prescrição de exercícios para pacientes com câncer estão: observar braços e ombros em relação a inchaço, dor e lesão para pacientes com câncer de mama; pacientes com ostomia apresentam maior risco de hérnia, sendo necessário observar quais tipos de exercícios são mais seguros; pacientes com câncer ou metástase óssea apresentam maior risco de fraturar; e mulheres com câncer ginecológico possuem maior risco de desenvolver infecções. Também é recomendado não realizar a sessão de treinamento em caso de anemia, ou de sintomas como vômitos e diarreias. Em caso de febre, o treinamento deve ser retomado somente após 24 horas sem sintomas de infecção. Caso o paciente em tratamento relate náuseas, tonturas, fadiga e dores excessivas ou falta de ar, o treino deve ser interrompido imediatamente (CAMPBELL et al., 2019). 177 O PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA SAÚDE PÚBLICA: ATIVIDADE FÍSICA E O NASF Daniel Lemos da Silva Atualmente, muito se fala da prática de atividades físicas, alimentação saudável, prevenção de doenças e muitas outras informações sobre a saúde do indivíduo. Porém, para se alcançar uma saúde adequada requer um poder aquisitivo que possa suprir essa necessidade que atualmente tem sido extremamente importante na vida da população. Dessa forma, para que a população pudesse adquirir uma vida saudável, o governo, por meio de políticas públicas, criou meios e mecanismos para a promoção da saúde dos beneficiários do serviço público e assim incorporou no grupo de profissionais da saúde o Profissional de Educação Física por meio da Resolução nº 218, de 6 de março de 1997 do conselho nacional de saúde. Para que se possa entender o papel do Profissional de Educação Física na saúde pública deve-se entender a diferença entre atividade e exercício físico, sendo este uma sequência sistematizada, de forma planejada com um objetivo a atingir, já aquele sendo o movimento humano com o objetivo de gasto energético acima dos níveis de repouso, assim promovendo benefícios para a população e para o Governo diminuindo gastos e evitando o uso de medicamentos. Outra informação importanteque será abordado neste trabalho é a origem das políticas de saúde, a qual surgiu primariamente na Constituição Federal de 1988 que se objetivou em reduzir as desigualdades, procurou proporcionar acesso igualitário para todos, e direito à saúde como direito fundamental. A partir dessas políticas, o Governo o governo criou alguns projetos com a finalidade de promover, prevenir e melhorar a saúde da população e dessa forma diminuir o risco de morte causado por doenças. Atividade física e Saúde Pública Sabemos que a prática de atividade física faz bem para a mente e o corpo. Os benefícios vão muito além de manter ou perder peso. Dentre as vantagens para a saúde estão a redução do risco de hipertensão, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, diabetes, câncer de mama e de cólon, depressão e quedas em geral. LEITURA COMPLEMENTAR 178 Para o Conselho Nacional De Educação Física (CONFEF), define o seguinte conceito para a atividade física: “A atividade física é todo movimento corporal voluntário humano, que resulta num gasto energético acima dos níveis de repouso, caracterizado pela atividade do cotidiano e pelos exercícios físicos”, resumidamente a atividade física engloba todo movimento humano, desde subir escadas e locomoção ao esporte. É importante também conhecer a definição de exercício físico, que para o CONFEF é “sequência sistematizada de movimentos de diferentes segmentos corporais, executados de forma planejada, segundo um determinado objetivo a atingir”, ou seja, é um treinamento, com atividades pré-programadas. Para Stein (1999) a introdução de novas tecnologias no cotidiano do homem moderno, transformou a sua forma de vida, pois se em um passado não tão distante ele era um indivíduo do campo, sendo fisicamente ativo, com as ondas migratórias para as grandes cidades passou a adotar um estilo de vida urbano, com um comportamento tipicamente sedentário, com pouca ou nenhuma realização de atividades físicas, já que as tecnologias do mundo moderno, facilitam o esforça que seria realizado por meio das atividades como, subir escadas, caminhadas para se deslocar etc. Moretti (2009) Complementa a fala, também citando a mudança de comportamento e estilo de vida entre os séculos XX e XXI, citando também as mudanças das doenças características, decorrendo por meio da mudanças do estilo de vida, entre as doenças citadas estresse, drogadição, desnutrição tanto qualitativa quanto quantitativa, inatividade física, excesso de lixo, esgoto, falta de água, poluição atmosférica, sonora, visual, diminuição das áreas verdes e ocupação desordenada, que resultam em demandas sociais, políticas e institucionais. Políticas essas que são o foco dessa pesquisa. Como se sabe, a atividade física em toda sua amplitude apresenta efeitos benéficos em relação à saúde, além de retardar o envelhecimento e prevenir o desenvolvimento de doenças crônicas degenerativas, as quais são derivadas do sedentarismo, sendo um dos maiores problemas e gasto com a saúde pública nas sociedades modernas nos últimos anos. Tudo isso tem sido causado principalmente pela inatividade física e consequentemente influenciada pelas inovações tecnológicas e más hábitos alimentares (Filho et al. 2013). Filho et al. (2013) resume bem a importância da atividade física no processo de envelhecimento, assim como reforçam a ideia da mudança dos hábitos humanos nas últimas décadas. O Profissional De Educação Física Na Saúde Pública A prática regular de exercício físico é capaz de prevenir doenças, principalmente as que envolvem desdobramentos cardiometabólicos. 179 Adicionalmente, ela é muito utilizada também como forma de tratamento de patologias que envolvam não somente componentes cardiovasculares e metabólicos, mas também em doenças dos ossos e articulações, sendo o profissional de educação física, o responsável pela promoção dessa prática. Em relação ao trabalho do profissional de educação física enquanto profissional da área de Saúde, é importante destacar o grande papel de sua intervenção em centros de saúde pública. Como citado por Silva et al. (2013), “o profissional de educação física é capacitado para intervir por meio da prevenção, promoção e reabilitação da saúde por meio da educação, oferecimento de eventos, lazer e esportes, desempenhando deste modo, atividades muito importantes no âmbito da saúde coletiva”. Um dos primeiros documentos a consolidar o profissional de educação física como um profissional de saúde foi a Resolução nº 218, de 6 de março de 1997 do conselho nacional de saúde, que colocava o profissional de educação física, junto de mais 12 profissões, como áreas de atuação da saúde. A prática regular de exercícios atua preventivamente contra o desenvolvimento de doenças, mas também melhora todos os componentes de saúde, desde o biológico até o mental e social, por isso a atuação destes profissionais no serviço público, oferece benefícios para a população e para os próprios órgãos governamentais. Tendo em vista a saúde da população, é importante ressaltar que quando se investe na prevenção de doenças, é fundamental a atuação de profissionais de educação física para que os resultados com a atividade física sejam os melhores possíveis na promoção da saúde e do bem-estar, trabalhando o corpo em sua totalidade. NASF O NASF criado a partir da portaria nº 154, de 24 de janeiro de 2008, tem como objetivo ampliar a abrangência e o escopo das ações da atenção básica, bem como sua resolubilidade, apoiando a inserção da estratégia de Saúde da Família na rede de serviços e o processo de territorialização e regionalização a partir da atenção básica. Atualmente o NASF é regulamentado pela Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011, e são compostos por equipes multiprofissionais que atuam de forma integrada com as equipes de Saúde da Família (ESF), como citado por Gonçalves et al. (2015) a composição dos Núcleos, pode ser formada por trabalhadores de diferentes categorias profissionais, tais como: profissionais de educação física, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, médicos, dentre outros. Para dos Anjos et al. (2013), e o NASF representa um marco importante na saúde, dando maior ênfase na promoção da saúde e no cuidado à população. A autora ainda afirma que a inclusão de novos profissionais de saúde amplia a possibilidade de 180 se responder aos novos e antigos desafios da morbidade dos brasileiros, tais como o sofrimento psíquico, as modificações no padrão nutricional e o aumento da longevidade da população, que, para o sistema de saúde do Brasil, representa um maior número de pessoas comorbidades e, principalmente, com doenças crônicas não degenerativas. Desde a regulamentação da profissão, por meio da Lei 9.696/1998, o profissional de educação física tem ganhado cada vez mais respeito, e isso tem ultrapassado barreiras anteriormente impostas, com a implantação do profissional de educação física na saúde pública, afirma a profissão como meio de promoção da saúde. Como citado por Guimarães (2013), o Ministério da Saúde atento aos fatores determinantes de saúde e aos altos índices de sedentarismo no Brasil, incluiu a atividade física no Sistema Único de Saúde, como o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população. Outro objetivo da atividade física no Sus e redução no consumo de medicamentos, como citado por da Silva (2011) a atividade física tem sido uma forma muito eficiente em prevenir e tratar muitas doenças crônicas. A atuação do profissional de educação física nos núcleos multidisciplinares do NASF, acontece na por meio da prescrição do exercícios física orientado, e como citado por Valerio e Rall (2018) “atividade física tem se destacado como ponto de partida para se conseguir melhores condições de saúde”, o profissional de educação física não tem somente a função de passar exercícios, este profissional também irá trabalhar com a orientação a respeitodo benefício da prática da atividade física, trabalhará fatores motivacionais, inclusão social, cultura e educação com relação aos esportes e principalmente, tentar dentro destes e de outros aspectos aumentar a adesão ao exercício. Considerações finais Portanto, a prática de atividades físicas como também os exercícios físicos é um direito da população, como também um dever do Estado em proporcionar uma vida saudável e ativa a fim de melhorar as condições de saúde dos beneficiários do Sistema Único de Saúde e com isso criou algumas ações com o intuito de melhorar a vida de todos. Assim, a política pública de saúde tem por objetivo a promoção de uma vida saudável por meio de práticas de atividades físicas, alimentação saudável, e acesso a qualquer tipo de prevenção de doenças causadas pelo sedentarismo. FONTE: https://bit.ly/3BGOxxc. Acesso em: 28 ago. 2022. 181 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • Os principais tipos de exercício físico utilizados nas pesquisas científicas da área da educação física. • Aprendeu os critérios adotados para o diagnóstico de algumas doenças. • Conheceu as recomendações para a prescrição de exercício físico para pessoas com obesidade, dislipidemia, diabetes tipo 2, cardiopatias e câncer. • Conheceu os principais aspectos que devem ser cuidados para que a prescrição de exercícios em populações especiais seja segura e de qualidade. 182 AUTOATIVIDADE 1 Algumas populações especiais, que apresentam peculiaridades em sua condição de saúde em virtude de alguma doença, apresentam recomendações específicas para a prescrição de exercícios físicos. Com base nos conhecimentos adquiridos acerca das recomendações para a prescrição de exercícios para populações especiais, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Pacientes com cardiopatias e que apresentam menor capacidade funcional, devem realizar exercícios de intensidade vigorosa para diminuir o risco de complicações cardiovasculares. b) ( ) Para pessoas com hipertensão arterial, é recomendado que, durante a prática, os níveis da pressão arterial se mantenham entre 220/105mmHg e, quando em repouso, os valores ultrapassarem 160/100mmHg a prática não deve ser iniciada. c) ( ) Pessoas com dislipidemias devem dar preferência aos exercícios resistidos, pois as evidências apontam que estes são mais eficazes na redução dos níveis de lipídios. d) ( ) Somente a prática de exercício físico já é suficiente para melhorar sintomas de diversas doenças e reduzir o risco de complicações, outras mudanças no estilo de vida só devem ser realizadas se houver orientação médica. 2 A prática regular de exercícios físicos é muito importante para o controle do diabetes do tipo 2, em relação a esta doença e as recomendações para prescrição de exercícios para estes pacientes analise as afirmativas a seguir: I- O diabetes tipo 2 é uma alteração nos níveis de glicose no sangue em resposta à resistência a insulina. Seu diagnóstico é confirmado por meio de exames laborato- riais alterados. II- Pacientes com diabetes devem praticar pelo menos 150 minutos semanais de exercícios aeróbicos de intensidade moderada a vigorosa, evitando permanecer mais do que dois dias sem se exercitar. III- A neuropatia periférica é uma complicação que pode ocorrer em virtude da prática de exercícios por pessoas com diabetes tipo 2. Neste caso, é recomendado que se realize exercícios de caminhada na esteira ou corridas para diminuir o desconforto. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 183 3 Um estudo recente apontou que atividade física de lazer está associada à redução do risco de 13 tipos de câncer, dentre os quais estão câncer de mama, cólon, cabeça e pescoço, pulmão, fígado, rim e endométrio. Sobre as recomendações de prescrição de exercícios para pacientes com câncer, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O período de tratamento da doença é uma fase com bastante sintomas que causam desconforto ao paciente, por isso a prática de exercícios físicos deve ser suspensa durante este período. ( ) A liberação médica é imprescindível para a prática de exercícios físicos para pacientes e sobreviventes de câncer, assim como a orientação de um profissional de educação física, contudo a supervisão não é necessária para pacientes que apresentem pouco ou nenhum efeito adverso ou morbidades antes, durante e após o tratamento. ( ) O exercício resistido é importante para pacientes com câncer para manter ou aumentar a força e massa muscular, que podem ser deterioradas por efeitos da doença e do tratamento. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – V. b) ( ) F – V – V. c) ( ) V – V – F. d) ( ) V – F – F. 4 Quais são os quatro fatores que devem ser considerados na prescrição de exercícios físicos individualizados? Explique e exemplifique sua resposta. 5 O que é obesidade? Cite pelo menos dois critérios para diagnóstico da obesidade: 184 REFERÊNCIAS ABESO – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA. Diretrizes brasileiras de obesidade. 4 ed. São Paulo: ABESO, 2016. Disponível em: https://bit.ly/3LLBIGy. Acesso em: 26 set. 2022. ACSM – AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. Guidelines for exercise testing and prescription. 10th ed. Philadelphia, PA: Wolters Kluwer Health, 2016. ANIBAL, C.; ROMANO, L. H. Relações entre atividade física e depressão: estudo de revisão. Saúde em Foco, Teresina, v. 9, p. 190-199, 2017. BAECKE, J. A. H.; BUREMA, J.; FRIJTERS, J. E. R. 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Constantemente, eram abandonadas em cavernas ou deixadas à própria sorte na beira de rios. Foi na Roma Antiga que se iniciou uma outra prática comum com as pessoas com deficiência: a exibição delas em praças e casas comerciais, para entretenimento das pessoas (ARANHA, 2001; DIEHL, 2006). Independente do contexto, esse foi um período de intolerância e exclusão das pessoas com deficiência. Apesar dessa marca das sociedades mais antigas, nem todas desprezavam e eliminavam as pessoas com deficiência do seu convívio. Alguns registros e pinturas antigas indicam que no Egito Antigo havia uma preocupação com o cuidado das pessoas com deficiência, inclusive oferecendo tratamentos para pessoas com algum grau de limitação. No Antigo Egito, algumas pessoas com deficiência visual trabalhavam em atividades artesanais. Com o decorrer da história houve uma mudança no tratamento das pessoas com deficiência. Ainda na Antiga Grécia, aqueles que sofriam mutilações resultantes das guerras ou por acidentes de trabalho, fato comum em Esparta, passaram a ser atendidos e amparados pelo estado, entretanto, essa condição era dada apenas aos adultos (PEREIRA; SARAIVA, 2017). Especialmente com o advento do cristianismo, 5 as pessoas com deficiência ou doenças graves passam a ser cuidadas. Seguindo a doutrina cristã de caridade e amor ao próximo, as pessoas passaram a se preocupar em ajudar os pobres e marginalizados socialmente, incluindo as pessoas com algum tipo de deficiência, física ou mental. Entretanto, a caridade que permitia o cuidado e evitava o extermínio, não ga- rantia a integração social. Na Idade Média, a pessoa com deficiência ainda era consi- derada uma “aberração”, por isso elas eram separadas do convívio social, escondidas em porões, asilos, ilhas, guetos, tornando-se “invisíveis” socialmente. Este movimento dá início às primeiras entidades destinadas a dar assistência às pessoas com defici- ência, como o Typhlokomeion, no Império Bizantino, que amparava pessoas cegas, oferecendo alimentação e abrigo para os mais pobres, que ficavam lá até a morte. A segregação foi a marca desse período (DIEHL, 2006; FRANÇA; MARTINS, 2019; PE- REIRA; SARAIVA, 2017). INTERESSANTE Era comum, entre os séculos XVI e XIX, que pessoas com deficiência se apresentassem em circos e praças públicas, por serem considerados “aberrações”. Um exemplo foi Josephine Myrtle Corblin, conhecida como a “mulher de quatro pernas”, ela se apresentava em um circo nos Estados Unidos. Fonte: https://bit.ly/3AjMe2l. Acesso em: 25 ago. 2022. https://bit.ly/3AjMe2l 6 O avanço do conhecimento, especialmente na área da medicina e saúde, a partir do século XVI, proporciona um novo olhar para essas pessoas, com a busca das causas e possíveis curas para as deficiências, que passam a ser vistas como enfermidades (DIEHL, 2006). Esse momento histórico possui um caráter bastante assistencialista, inclusive com leis que garantiam fundos para a criação e manutenção de hospitais e asilos, como por exemplo a Lei dos Pobres, promulgada por Henrique VIII, que obrigava os súditos a pagarem taxas para esse fim (PEREIRA; SARAIVA, 2017). Também nesse período surgiram as primeiras instituições voltadas ao tratamento e acompanhamento das pessoas com deficiência, como o Instituto Real, em Paris, que foi a primeira escola para cegos (DIEHL, 2006; PEREIRA; SARAIVA, 2017). A partir do século XIX, com o avanço dos estudos científicos e das técnicas ortopédicas para reabilitação e tratamento de lesões e deficiências, abre-se um novo horizonte no tratamento das pessoas com deficiência. Especialmente após a Guerra Civil, nos Estados Unidos, surgiram várias instituições com o objetivo de acolher e tratar os veteranos de guerra com alguma deficiência. A sociedade passa a buscar meios para (re)inserir essas pessoas no convívio social, mas com a exigência que se adaptem e tentem garantir seu próprio sustento (DIEHL, 2006; PEREIRA; SARAIVA, 2017). As instituições, além de realizarem os cuidados e serviços relacionados à reabilitação, também passam a ensinar atividades laborais, como os trabalhos manuais. Como exemplo, temos a Sociedade e Lar para Deficientes, que surgiu na Dinamarca, em 1872 (PEREIRA; SARAIVA, 2017). Temos, então, uma fase de integração. Esse período também é marcado pelo surgimento dos primeiros debates e políticas públicas voltados às pessoas com deficiência. Grandes avanços quanto ao tratamento médico e social dado às pessoas com deficiência aconteceram ao longo do século XX. Após as duas grandes guerras, especialmente a Segunda Guerra Mundial, esse movimento ganha ainda mais força. Não apenas devido ao aumento dos mutilados sobreviventes da guerra, mas também com uma mudança social que buscou meios para melhorar a qualidade de vida e as políticas assistenciais a população como um todo, especialmente os mais pobres, crianças, idosos e pessoas com deficiência (PEREIRA; SARAIVA, 2017), mas apenas a integração não é suficiente! Assim, já no final do século XX, surgem leis em diversos países que buscam garantir igualdade de acesso para as pessoas com deficiência aos serviços e sistemas sociais. A integração passa a ser melhorada em busca da inclusão das pessoas com deficiência. Esses quatro estágios que mencionamos ao longo deste subtópico podem ser observados na Figura 1. O balão azul representa a inclusão, enquanto os balões laranja, verde e cinza, indicam as situações de exclusão, segregação e integração, respectivamente: 7 Figura 1 – A participação da pessoa com deficiência na sociedade Fonte: https://bit.ly/3QQVl1G. Acesso em: 25 ago. 2022. 2.2 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA A sistematização da Educação Física Adaptada é recente em nossa história, as- sim como a adoção dessa denominação, que aconteceu em 1950 por meio da American Association for Health Physical Education, Recreation and Dance (AAHPERD). Apesar disso, há indícios históricos que apontam para a utilização de exercícios como forma de reabilitação e para prevenção de doenças pelos chineses, cerca de 2500 a.C. (COSTA; SOUZA, 2004). A Educação Física Adaptada surgiu para atender aos corpos que não se encaixavam nos padrões estéticos socialmente aceitos: bonitos, fortes e saudáveis. Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se crescente a preocupação com a reabilitação e a reinserção social dos feridos e mutilados nas batalhas, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Assim, surge na Inglaterra o Centro Nacional de Lesionados Medulares do Hospital de Stoke Mandeville, o foco principal dessa instituição era a utilização do esporte e do exercício físico como forma de reabilitação e de amenizar os danos psicológicos, por meio da integração promovida pelo esporte. Já nos Estados Unidos, o esporte adaptado era utilizado como uma forma de integração e socialização, inclusive com a promoção de competições desportivas (COSTA; SOUZA, 2004). Os Jogos de Stoke Mandeville, em 1948, idealizados pelo neurologista alemão, Dr. Ludwig Guttman, foram a primeira competição oficial de esporte adaptado, envolvendo 16 veteranos de guerra. Daí em diante, váriasoutras competições começaram a ocorrer em diversos lugares do mundo, culminando nos Jogos Paralímpicos, denominados inicialmente de Olimpíadas dos Portadores de Deficiência, em 1960, na cidade italiana de Roma. https://bit.ly/3QQVl1G 8 ESTUDOS FUTUROS Abordaremos as Paralimpíadas com mais detalhes no Tópico 3 desta unidade. Esse movimento da Educação Física de promover a saúde, bem-estar e integração social do corpo “imperfeito e limitado” e fora do padrão da pessoa com deficiência se estendeu para além do ambiente esportivo e integra. Atualmente, a escola e outros espaços de práticas corporais, como academias, clubes e até mesmo ambientes on-line. 3 O QUE É INCLUSÃO? Acadêmico, ao longo deste primeiro tópico, vimos alguns importantes aspectos históricos até chegarmos à inclusão das pessoas com deficiência em nossa sociedade. Todavia, afinal, o que é inclusão? Vamos conhecer a definição a seguir. Segundo Aranha (2001), a inclusão pode ser definida como um processo de ajuste mútuo, no qual a pessoa com deficiência manifesta suas necessidades e desejos e a sociedade, por sua vez, implementa os ajustes necessários para que essa pessoa tenha acesso e convivência no espaço comum. A inclusão, por este entendimento, é uma relação que supera a simples in- tegração da pessoa com deficiência à sociedade. É uma responsabilidade de todos possibilitar o necessário para a convivência das pessoas com deficiência com as melhores condições. A educação e a Educação Física, de modo especial, têm um papel muito importante na garantia da inclusão da pessoa com deficiência. Conforme destacam Costa e Sousa (2004), não há como pensar a educação física desvinculada da educação física adaptada. As práticas devem ser sempre direcionadas de forma que valorizem as diferenças e as potencialidades de cada um, atendendo e valorizando todas as pessoas com suas individualidades e necessidades, e não apenas os corpos “perfeitos e padronizados”. 9 Neste tópico, você aprendeu: • No Brasil, temos mais de 45 milhões de pessoas com deficiência, o que representa mais de 20% da nossa população. • Podemos classificar a participação das pessoas com deficiência em quatro estágios: exclusão, segregação, integração e inclusão. • Por muito tempo, as pessoas com deficiências eram tratadas como aberrações, sendo separadas do convívio social. Aquelas que não eram escondidas, eram expostas de maneira vexatória, especialmente em circos e praças. • O avanço nos conhecimentos de medicina e saúde proporcionaram a integração das pessoas com deficiência, pois sua condição passou a ser percebida como enfermida- de, abrindo horizontes para novos tratamentos e cuidados. • As grandes guerras no século XX tiveram papel fundamental no movimento de in- clusão das pessoas com deficiência e no desenvolvimento da Educação Física adap- tada, pois proporcionaram, num primeiro momento, a preocupação com o cuidado e reabilitação dos sobreviventes, que se estendeu para outras pessoas com necessi- dades especiais por meio de políticas públicas específicas. RESUMO DO TÓPICO 1 10 AUTOATIVIDADE 1 Os processos históricos que descrevem a participação das pessoas com deficiência na sociedade podem ser divididos em quatro estágios. Assinale a alternativa CORRETA sobre as denominações: a) ( ) Execução, separação, integração e inclusão. b) ( ) Exclusão, segregação, integração e inclusão. c) ( ) Execução, segregação, aberração e inclusão. d) ( ) Exclusão, segregação, aberração e inclusão. 2 As pessoas com deficiência sempre estiveram presentes nas sociedades em diferentes momentos históricos. Em cada um desses momentos, essas foram tratadas de maneira diferente. Acerca das pessoas com deficiência ao longo da história, analise as sentenças a seguir: I- Na Idade Média, por acreditarem que as deficiências eram castigos divinos, as crianças que nasciam nessas condições eram abandonadas em cavernas e florestas. II- Na Europa, a preocupação com as pessoas com deficiência fez com que alguns governantes garantissem políticas assistenciais, por meio de pagamentos de taxas que eram utilizadas para manter hospitais e asilos. III- A partir do século XX, além da atenção com os cuidados e a reabilitação de pessoas com deficiência, as instituições assistenciais passaram a se preocupar com o ensino de atividades laborais que pudessem garantir a subsistência dessas pessoas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença I está correta. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 A Educação Física adaptada pode ser compreendida como uma área da educação fí- sica que atende pessoas com deficiência e aquelas que necessitam que algum aten- dimento especial. Sobre a Educação Física adaptada, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A Educação Física adaptada tem por objetivo corrigir os defeitos físicos e aprimorar as aptidões daquelas pessoas que nasceram com deficiência e dificuldades de locomoção e movimentação. b) ( ) A Educação Física adaptada, por meio do esporte de rendimento, auxilia na so- cialização das pessoas com deficiência, pois, ao competir com pessoas sem de- ficiência, elas são obrigadas a superar suas dificuldades se adaptando às regras esportivas existentes. 11 c) ( ) A Educação Física adaptada só diz respeito às atividades esportivas, como os Jogos Paralímpicos, não tendo atuação em outros espaços de práticas corporais. d) ( ) A Educação Física adaptada busca atender àqueles que, em virtude das suas deficiências e limitações, não se encaixam nos padrões socialmente aceitos. Promovendo saúde, qualidade de vida e inclusão. 4 A inclusão das pessoas com deficiência é avanço recente em nossa sociedade e ainda há um longo caminho na garantia dos direitos e da plena participação des- sas pessoas, e a Educação Física tem um papel muito importante neste processo. Disserte acerca da importância da Educação Física no processo de inclusão das pessoas com deficiência: 5 Ao longo da história, a forma com que as pessoas com deficiência foi se modificando, implicando sempre na participação dessas pessoas na sociedade. Discorra acerca dos quatro estágios que marcam a participação das pessoas com deficiência na sociedade. 12 13 DEFICIÊNCIAS: CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 TÓPICO 2 - Ao longo do tempo, diversas denominações foram utilizadas para se referir às pessoas com deficiência, como portador de deficiência, aleijado, defeituoso, inválido, dentre outros. Alguns destes termos ofendem e colocam a pessoa com deficiência em situação constrangedora e vexatória. Conforme explicita Sassaki (2003), o cuidado com a linguagem também faz parte da construção de uma sociedade inclusiva e pode indicar respeito ou preconceito em relação às pessoas com deficiência. Acadêmico, no Tópico 2, abordaremos o conceito de deficiência e conheceremos as principais características de algumas delas. O objetivo deste tópico não é esgotar o conhecimento deste assunto tão amplo. Pelo contrário, a partir dos pontos abordados e conforme a necessidade e realidade profissional de cada um, deveremos sempre buscar o conhecimento de forma a realizar com qualidade nosso papel em busca de uma Educação Física e uma sociedade mais inclusivas. Antes de identificarmos alguns tipos de deficiências, vamos conceituar o que é a deficiência, de acordo com duas perspectivas de conhecimento. DICA Como vimos, tornar nossa linguagem adequada é extremamente impor- tante para a inclusão das pessoas com deficiência. No artigo “Terminologia sobre deficiência na era da inclusão”, Romeu Kazumi Sassaki aborda, de maneira simples e direta, 59 palavras ou expressões que são utilizadas incorretamente para se referir às pessoas com deficiência. Fonte: SASSAKI, R. K. Terminologia sobre deficiência na era da inclusão. In: VIVARTA, V. (coord.). Mídia e deficiência. Brasília: Andi/FundaçãoBanco do Brasil, 2003. p. 160-165, 2003. Disponível em: https://bit.ly/3QO108P. Acesso em: 25 ago. 2022. https://bit.ly/3QO108P 14 2 O QUE É DEFICIÊNCIA? Conceituar deficiência não é uma tarefa simples, ela pode ser entendida tanto por uma visão médica, quanto por uma visão social. Esses modelos se complementam, vamos conhecer cada um deles? O modelo médico leva em conta para a definição de deficiência a dimensão biológica, com o entendimento de que este é um problema funcional ou estrutural do corpo, que leva o indivíduo a uma incapacidade ou impedimento por consequência dessas alterações ou danos (FERREIRA; GUIMARÃES, 2003). Neste modelo, a deficiência é encarada como uma desvantagem individual, que pode ser melhorada por meio da medicina ou da reabilitação, possibilitando que esta pessoa cumpra o seu papel social (MARQUES; CIDADE; LOPES, 2009). Com os avanços acerca do entendimento das deficiências, mais especificamente da pessoa com deficiência como cidadão, o conceito de deficiência foi acrescido de um olhar mais humanizado, um modelo social. Assim, além das questões biológicas, a deficiência também está associada às barreiras sociais que impedem que as pessoas com deficiência usufruam de seus direitos (SOLERA, 2018), ou seja, as desvantagens só existem porque há barreiras que dificultam a autonomia das pessoas com deficiência. A partir desses dois modelos, nós temos a definição de pessoa com deficiência de acordo com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência: Art. 2º [..] aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2015). Nosso papel, como professores e educadores, portanto, está em possibilitar um ambiente para que essas pessoas vivam de maneira autônoma, pra que a inclusão realmente aconteça e as pessoas com deficiência tenham uma participação plena e efetiva na sociedade. 3 CONHECENDO AS DEFICIÊNCIAS As deficiências podem ser de ordem sensorial, intelectual ou física. Além des- sas, abordaremos, a seguir, as deficiências múltiplas e os transtornos de neurodesen- volvimento, os quais são bastante presentes no cotidiano educacional atual. 15 3.1 DEFICIÊNCIA AUDITIVA É denominado surdo a pessoa que possui deficiência auditiva, a surdez. A sur- dez se caracteriza pela perda total ou parcial da audição, da capacidade de conduzir ou perceber sinais sonoros (DUARTE; GORLA, 2009). Esta condição pode ser congênita ou adquirida, podendo ser de três tipos, de acordo com Vara e Cidade (2020): • Condutiva: quando a lesão está localizada no ouvido externo ou médio e interfere na capacidade de condução do som, reduzindo a intensidade do som alcançado pelo ouvido interno. • Sensório-neural: quando a lesão está no ouvido interno ou no nervo auditivo. Pessoas com este tipo de lesão apresentam maior dificuldade com a fala. • Mista: é uma combinação da perda condutiva com a sensório-neural. Testes audiométricos conseguem medir os limiares auditivos, indicando, assim, o nível de surdez do indivíduo. Vamos ver no Quadro 1 esta classificação: Quadro 1 – Classificação da deficiência auditiva de acordo com os níveis de limiares auditivos DEFICIÊNCIA AUDITIVA LIMIAR AUDITIVO EXEMPLOS APROXIMADOS Leve 25 a 40 dB Sussurro/cochicho Moderada 41 a 55 dB Voz fraca Acentuada 56 a 70 dB Voz normal Severa 71 a 85 dB Tráfego, furadeira, voz forte Grave 86 a 90 dB Liquidificador, voz muito forte Profunda Superior a 90 dB Trem, britadeira, buzina de automóvel, turbina de avião, sons que causam dor Fonte: Diehl (2006, p. 43) A partir da surdez moderada já há uma dificuldade de aquisição de linguagem, sendo necessário à pessoa com deficiência auditiva utilizar-se da leitura labial para compreender o que foi dito. Na surdez profunda, a língua de sinais é o principal meio de comunicação dessa pessoa, esta comunicação visual utiliza gestos, expressões faciais e pequenos movimentos do corpo (DIEHL, 2006). 16 IMPORTANTE A língua de sinais é uma língua gestual, utilizada para a comuni- cação com pessoas surdas. A língua de sinais não é baseada em mímicas, cada gesto tem um significado próprio como se fosse uma palavra. Dessa forma, assim como há diversos idiomas, tam- bém há várias línguas de sinais ao redor do mundo. No Brasil, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão desde 2002. Fonte: https://bit.ly/3Al44lC. Acesso em: 25 ago. 2022. DICA Conheça mais de Língua Brasileira de Sinais assistindo a esse vídeo: ht- tps://bit.ly/3pL1yQG. 3.2 DEFICIÊNCIA VISUAL A deficiência visual é uma limitação na capacidade de visão, que pode ser reduzida ou anulada, e não pode ser corrigida por meio de lentes por prescrição regular (SILVA; VITAL; MELLO, 2012). A deficiência visual pode atingir um ou ambos os olhos, ter causa congênita ou adquirida. Dentre as causas congênitas estão a hereditariedade (albinismo), infecções transplacentárias (toxoplasmose, rubéola) e infecções neonatais (sarampo, oftalmia go- nocócica do recém-nascido, prematuridade). Além dessas, a cegueira pode ser causada por traumas, tumores e doenças, como o glaucoma, diabetes e degeneração macular (VARA; CIDADE, 2020). Uma pessoa é considerada cega quando possui uma perda visual nos dois olhos em níveis incapacitantes para realização de tarefas diárias, ou um campo visual inferior a 10 graus com melhor correção óptica no melhor olho, ou, ainda, acuidade visual inferior a 0,05. Esta pessoa pode, portanto, não ter nenhuma capacidade de visão (amaurose) ou ter alguma percepção visual, como vultos e luminosidade. 17 Quando há uma grande limitação na capacidade visual, mas que ainda permita que esta pessoa execute algumas atividades da vida diária, essa pessoa é classificada como tendo baixa visão. Para tal classificação, considera-se campo visual inferior a 20 graus com melhor correção óptica no melhor olho ou acuidade visual no inferior que 0,3 e maior ou igual a 0,05 no melhor olho (MOREIRA, 2014). Tanto a pessoa cega, quanto a que possui baixa visão, necessitam de recursos especiais para a comunicação. O braile é um sistema de escrita tátil, pelo qual a pessoa cega escreve e realiza leitura de palavras e textos. Já aqueles que possuem baixa visão, não utilizam o braile, mas necessitam de recursos especiais, como letras de tamanho aumentado ou em cores diferenciadas para facilitar a leitura (VARA; CIDADE, 2020). A pessoa com deficiência visual também pode utilizar alguns recursos para auxílio na locomoção e mobilidade, como o uso de cão-guia ou um guia humano. A bengala também pode ser utilizada. Além de auxiliar a pessoa com deficiência visual na identificação de algum obstáculo no percurso, a cor da bengala indica o tipo de deficiência: a bengala branca é utilizada pelo cego; a bengala verde por aqueles que possuem baixa visão; e a bengala vermelha e branca, pelas pessoas surdas e cegas. Figura 2 – Grau de deficiência visual e respectivas cores de bengala Fonte: https://bit.ly/3QS8bwu. Acesso em: 25 ago. 2022. https://bit.ly/3QS8bwu 18 3.3 DEFICIÊNCIA INTELECTUAL A deficiência intelectual pode ser definida como um comprometimento no funcionamento intelectual (inteligência) e no comportamento adaptativo, de modo que há uma limitação de raciocínio, aprendizagem, resolução de problemas, além de prejuízos nas habilidades sociais. Essa deficiência se origina na infância ou na ado- lescência (VARA; CIDADE, 2020). A pessoa com deficiência intelectual apresenta um ritmo mais lento de aprendizagem, com uma insuficiência intelectual que pode com- prometer as tarefas da vida diária, comunicação, adaptação social e segurança (SILVA; VITAL; MELLO, 2012). As causas da deficiência intelectual podem ser genéticas (genopatias, cromos- somopatias), pré-natais (hidrocefalia, infecções maternas,substâncias tóxicas – dro- gas, cigarros, medicamentos), perinatais (prematuridade, anóxia cerebral) ou pós-natais (meningite, encefalite, convulsões, traumatismo cranioencefálico, tumores, hipóxia). Apesar deste entendimento, nem sempre há uma causa específica para a deficiência in- telectual, com alguns autores, inclusive, apontando fatores ambientais e culturais para tal (VARA; CIDADE, 2020). A deficiência intelectual é classificada de acordo com a capacidade de aprendizagem e o grau de comprometimento do Quociente de Inteligência (QI), o qual é determinado por meio de testes que avaliam a capacidade cognitiva. De modo geral, o processo de aprendizagem é mais lento para essas pessoas e essa capacidade de aprendizagem é o que caracteriza o grau da deficiência intelectual, que, segundo Silva, Vital e Mello (2012), se divide em cinco tipos, conforme é possível visualizar no Quadro 2. Quadro 2 – Classificação da deficiência intelectual de acordo com a pontuação do Quociente de Inteligência (QI) CLASSIFICAÇÃO PONTUAÇÃO DE QI CARACTERÍSTICAS Profundo Abaixo de 19 - Grande dependência de outras pessoas - Limitações extremas de aprendizagem Severo Entre 20 e 35 - Necessidade de apoio de terceiros - Prejuízos de comunicação e mobilidade - Aprendizagem por meio de tarefas repetitivas e supervisionadas Moderado Entre 36 e 51 - Apresenta comprometimento motor aparente - Possui atraso de aprendizagem, mas consegue realizar maior interação social 19 Leve Entre 55 e 69 - Capacidade de realizar tarefas da vida diária, inclusive as escolares - Aprendizagem lenta Limítrofe Entre 68 e 84 - Dificuldades em exercer tarefas que exijam raciocínio lógico e grande demanda cognitiva FONTE: adaptado de Silva, Vital e Mello (2012) DICA Filme: Forrest Gump (1994). Considerado um clássico do cinema da década de 1990, e vencedor de quatro Oscar, Forrest Gump mostra uma pessoa com deficiência como protagonista. “Mesmo com o raciocínio lento, Forrest Gump (Tom Hanks) nunca se sentiu desfavorecido. Graças ao apoio da mãe, ele teve uma vida normal. Seja no campo de futebol, como um astro do esporte, lutando no Vietnã ou como capitão de um barco de pesca de camarão, Forrest inspira a todos com seu otimismo, mas a pessoa que Forrest mais ama pode ser a mais difícil de salvar: seu amor de infância, a doce e perturbada Jenny”. Fonte: https://bit.ly/3wv2RqI. Acesso em: 25 ago. 2022. A deficiência intelectual é uma das características da síndrome de Down, como veremos mais detalhadamente a seguir. 3.3.1 Síndrome de Down A síndrome de Down é causada por uma desordem genética chamada trissomia do cromossomo 21. Pessoas sem essa síndrome possuem 23 pares de cromossomos, enquanto a pessoa com síndrome de Down possui um cromossomo a mais no par 21. Apesar de já ser descrita anteriormente, ela só foi reconhecida como síndrome em 1886, por Langdon Down (MOREIRA; EL-HANI; GUSMÃO, 2000; SILVA; DESSEN, 2002). A deficiência intelectual é uma das características da síndrome de Down, entretanto, ela pode se manifestar em diferentes níveis. Além disso, há outros traços que caracterizam a pessoa com síndrome de Down como “hipotonia, baixa estatura, pescoço curto, orelhas com aparência dobrada típica, boca aberta com a língua protrusa, prega no canto dos olhos semelhante à das pessoas da raça mongólica, pele áspera e seca, dentes pequenos” (DIEHL, 2006, p. 79). https://bit.ly/3wv2RqI 20 A instabilidade atlanto-axial também pode ocorrer em pessoas com síndrome de Down, esta condição se caracteriza por um aumento da mobilidade da articulação cervical, entre as vértebras C1-C2. Nesta condição, a frouxidão ligamentar desta área aumenta o risco de lesão medular. Mesmo sem diagnóstico, sintomas como dificuldades para caminhar, fadiga e espasmos musculares devem ser avaliados. A participação em atividades físicas e esportes deve ser realizada com cautela para não colocar a pessoa em risco (ANTONARAKIS et al., 2020). Figura 3 – Menina com síndrome de Down Fonte: https://bit.ly/3AeKlnG. Acesso em: 25 ago. 2022. Pessoas com síndrome de Down também são mais propensas a desenvolver certas condições de saúde quando comparadas com a população geral, como cardio- patias, distúrbios neurológicos, problemas de visão e audição, doenças autoimunes, dentre outras. Tanto os sintomas como manifestações de saúde em pessoas com síndrome de Down estão descritas na Figura 4. Cabe destacar que, apesar dessas condições, a melhora dos tratamentos e terapias oferecidas a essas pessoas tem aumentado consi- deravelmente a qualidade de vida e a sobrevida delas (ANTONARAKIS et al., 2020). https://bit.ly/3AeKlnG 21 Figura 4 – Sintomas e manifestações de saúde de pessoas que podem ocorrer em pessoas com síndrome de Down FONTE: adaptado de Antonarakis et al. (2020, p. 3) 3.4 DEFICIÊNCIA FÍSICA A deficiência física pode ser entendida como uma alteração funcional ou anatômica, que prejudica a independência do sujeito, compromete a realização dos padrões motores esperados e interfere na sua movimentação ou locomoção (DIEHL, 2006; MARQUES; CIDADE; LOPES, 2009. As deficiências físicas podem ter origem neu- rológica ou ortopédica: • Origem neurológica: são lesões que afetam o sistema nervoso central, subdividindo- se em lesões cerebrais ou medulares. • Origem ortopédica: são problemas nos ossos, músculos e/ou articulações, subdivi- dindo-se em lesões musculares ou osteoarticulares. Apesar de algumas deficiências físicas terem causas congênitas, os dados apontam que, no Brasil, a maior parte delas é adquirida especialmente por acidentes de trânsito, acidentes de trabalho e violência urbana (DIEHL, 2006). 22 3.4.1 Origem neurológica Como vimos anteriormente, as lesões de origem neurológica podem ser cerebrais ou medulares, afetando diversas partes do corpo, conforme detalhado a seguir: • Monoplegia: um membro do corpo é afetado. • Diplegia: dois membros do corpo são afetados. • Triplegia: três membros do corpo são afetados. • Tetraplegia: quatro membros são afetados. • Paraplegia: comprometimento dos membros inferiores. • Hemiplegia: comprometimento completo de apenas um lado do corpo. Como exemplo de lesões de origem cerebrais, temos: acidente vascular cerebral (AVC), traumatismo crânio encefálico (TCE) e a paralisia cerebral. Já dentre as causas de lesões medulares, podemos citar a poliomielite, espinha bífida e os traumatismos medulares. Vamos conhecer algumas delas a seguir. • Paralisia cerebral De acordo com Diehl (2006, p. 94), a paralisia cerebral “é uma lesão que afeta o Sistema Nervoso Central (SNC) antes que seu desenvolvimento tenha se completado, causando desordem motora e sensitiva na movimentação ampla e fina do corpo”. Juntamente com esta condição, a pessoa com paralisia cerebral pode ter a ocorrência de convulsões, alterações de comportamento e, algumas vezes, deficiência intelectual. A paralisia cerebral pode ser classificada em três tipos, de acordo com a alteração do controle de movimento: ◦ Espástica: o tônus muscular é aumentado, causando uma desordem no mo- vimento voluntário. Ao invés de apenas uma parte do corpo participar do movi- mento, como ocorrem numa pessoa sem paralisia cerebral, todo o corpo participa. Pode ser agravada conforme o estado emocional. ◦ Atetóica: neste tipo, há variações do tônus muscular em estado de hipotonia ou hipertonia, causando movimentos involuntários no corpo, até mesmo quando a pessoa está em repouso. ◦ Atáxica: o tônus muscular frequentemente está diminuído, causando problemas na postura, equilíbrio, percepção tátil e coordenação motora. O atáxico tem de se concentrar para não cair e sua marcha é semelhante ao de uma pessoa intoxicada. É importante destacar que a paralisia cerebral é uma deficiência física e, na grande maioria dos casos, não há nenhum comprometimento intelectual. Assim, apesar de eventuais dificuldades de comunicação e movimentação, em virtude dos prejuízos da paralisia à coordenaçãomotora, essas pessoas têm total capacidade de entendimento. 23 • Espinha bífida A espinha bífida é uma má formação congênita que se caracteriza por uma falha no fechamento do tubo neural durante o período embrionário (HERNÁNDEZ et al., 2018). A espinha bífida pode ser classificada como oculta, meningocele ou mielomeningocele. Figura 5 – Tipos de espinha bífida Fonte: https://bit.ly/3AMgg05. Acesso em: 25 ago. 2022. A espinha bífida oculta é um tipo mais leve e comum, no qual não há nenhum indício externo da deficiência. Já nos tipos meningocele e mielomeningocele, há uma protuberância bem evidente nas costas, pois como não ocorreu o fechamento da coluna vertebral, parte da medula espinhal fica para fora. Na meningocele não existem células nervosas na protuberância, apenas meninge e líquido cefalorraquidiano e, raramente, a pessoa apresenta danos cognitivos. Já na mielomeningocele, existem células nervosas presentes na hérnia dorsal. Este é o tipo mais grave de espinha bífida, geralmente afeta as vértebras lombares e os membros inferiores (MARQUES; CIDADE; LOPES, 2009). • Lesão medular A medula espinhal, responsável por transmitir as sinapses nervosas do cérebro para o restante do corpo, é uma parte importante do Sistema Nervoso Central e está protegida pela coluna vertebral. Qualquer trauma ou lesão nesta parte do corpo pode acarretar danos irreversíveis, com perda parcial ou total da sensibilidade ou dos movimentos abaixo da região lesionada (DIEHL, 2006). Deste modo, quanto mais alta a lesão, maior o comprometimento, conforme detalhado no Quadro 3. https://bit.ly/3AMgg05 24 Quadro 3 – Classificação e consequências das lesões medulares FONTE: Diehl (2006, p. 98) ALTURA DA LESÃO CLASSIFICAÇÃO CONSEQUÊNCIA Acima da C4 Tetraplegia alta Perda da capacidade respiratória, perda sensitiva e do controle motor dos quatro membros e tronco. Cervicais abaixo da C4 Tetraplegia Perda sensitiva e do controle motor dos quatro membros e tronco. Torácicas Paraplegia alta Perda sensitiva e do controle motor dos membros inferiores e tronco. Lombares Paraplegia baixa Perda sensitiva e do controle motor da musculatura do quadril e dos membros inferiores. Sacrais e coccígeas Paralisia parcial Perda parcial da sensibilidade e do controle motor da musculatura e dos membros inferiores. As lesões medulares podem ter diversas causas, como traumas, tumores, do- enças infecciosas, neurológicas, sistêmicas ou vasculares. A pessoa com lesão medular pode apresentar comprometimento de força e amplitude de movimento, além de perdas sensoriais, descontrole de esfíncteres, complicações de funções respiratórias, circula- tórias e térmicas (VARA; CIDADE, 2020). DICA Filme: Intocáveis (2012) Este filme conta a história de tetraplégico milionário que contrata um homem da periferia para ser o seu acompanhante, apesar de sua aparente falta de preparo. Ao longo do filme, a relação que antes era profissional cresce e vira uma amizade que mudará a vida dos dois. 3.4.2 Origem ortopédica As deficiências físicas de origem ortopédica podem ser divididas em musculares e osteoarticulares. Nas musculares, temos a Distrofia Muscular Progressiva de Duchene, e nas osteoarticulares as malformações e amputações. 25 • Distrofia Muscular Progressiva de Duchenne De origem genética, a Distrofia Muscular Progressiva de Duchenne é uma doença neuromuscular caracterizada por uma degeneração progressiva da musculatura. Ela é transmitida pela mãe, portadora no gene, e afeta 50% dos filhos homens, sendo muito rara de se manifestar em meninas (VARA; CIDADE, 2020). A doença se manifesta por volta dos 4 anos de idade, com um desequilíbrio de marcha e perda de postura, que leva a criança a já necessitar de cadeira de rodas. Con- forme a doença evolui, a perda de força se acentua, de modo que há uma necessidade de auxílio em todas as tarefas da vida diária. Pessoas com Distrofia Muscular Progressiva de Duchenne tem baixa expectativa de vida, indo a óbito por volta dos 30 anos, geral- mente por insuficiência respiratória (DIEHL, 2006; SUN et al., 2020). • Malformação As malformações se caracterizam por uma ausência de membro ou parte dele ou rigidez articular, que se caracteriza por uma calcificação na articulação que limita a mobilidade da área atingida. As malformações podem ser causadas por toxicidade de substâncias, como alguns medicamentos. Elas podem ter origem na gestação ou no momento do parto (DIEHL, 2006). • Amputação A amputação é uma lesão adquirida, geralmente em virtude de um trauma que atinge o sistema nervoso periférico, sendo necessária a retirada total ou parcial da ex- tremidade afetada (HERNÁNDEZ et al., 2018). A amputação pode ocorrer em qualquer momento da vida, tendo causas congênitas, por falta de formação embrionária; trau- máticas, em virtude de acidentes; vasculares, como em recorrência de diabetes ou ar- teriosclerose; ou tumoral. Ao restante do membro que é amputado denominamos coto. O coto permite a colocação de próteses que substituem a extremidade perdida e auxiliam na movimen- tação e independência da pessoa que sofreu a amputação (DIEHL, 2006). 3.5 TRANSTORNOS DE NEURODESENVOLVIMENTO Os transtornos de neurodesenvolvimento são condições que se manifestam na infância, geralmente no período pré-escolar, e são caracterizados por déficits de desenvolvimento com prejuízos pessoais, sociais, acadêmicos e profissionais (APA, 2014). Os transtornos podem se manifestar clinicamente, tanto pelo excesso quanto pelo déficit em atingir o marco esperado pela criança. Neste livro, abordaremos mais detalhadamente o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Transtorno do Espectro Autista. 26 3.5.1. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) O Transtorno de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é definido, segundo o “DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais” (APA, 2014, p. 32), como “um transtorno do neurodesenvolvimento definido por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade”. O TDAH pode se manifestar de três formas (VARA; CIDADE, 2020): • Desatenção: dificuldade em reter e manter o foco em uma atividade, respondendo a qualquer estímulo ao seu redor. • Impulsividade: falta de controle dos impulsos, com dificuldade em esperar a sua vez, inclusive interrompendo conversas. • Hiperatividade: a pessoa é excessivamente inquieta, com dificuldade de controlar os movimentos corporais e ficar parada por longos períodos. Dentre as estratégias de tratamento para o TDAH estão terapias cognitivo- -comportamentais, acompanhamento médico psiquiátrico, uso de medicamentos, se necessário, e, principalmente, modificações ambientais. Situações e lugares que ofere- cem muitos estímulos são prejudiciais às pessoas com TDAH, sendo importante reduzir focos de distração e buscar abordagens que chamem a atenção para a atividade que será desenvolvida. 3.5.2. Transtorno de Espectro Autista Segundo o “DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais” (APA, 2014, p. 31), o Transtorno do Espectro Autista (TEA) se caracteriza: [...] por déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, incluindo déficits na reciprocidade social, em comportamentos não verbais de comunicação usados para interação social e em habilidades para desenvolver, manter e compreender relacionamentos. Além dos déficits na comunica- ção social, o diagnóstico do transtorno do espectro autista requer a presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Ainda não se sabe com exatidão a etiologia do TEA, supondo-se que seja uma interação genética e ambiental, entretanto, já é entendido que o TEA é causado por alterações estruturais e neuroquímicas do sistema nervoso central. Geralmente, o diag- nosticado ocorre entre 2 e 3 anos de idade, e há uma maior prevalência nas crianças do sexo masculino.