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USINAGEM Diego Batista Valim Condições econômicas de corte Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Descrever as condições econômicas de corte. � Definir os custos de produção. � Identificar as informações relevantes apresentadas pelos fornecedores de ferramentas. Introdução Atualmente, a produção industrial apresenta um cenário extremamente competitivo, pois os clientes analisam diversos fatores na escolha de seus fornecedores, como qualidade, custo, prazos de entrega, entre outros. O custo do produto é, sem dúvida, um dos fatores mais relevantes e observados em uma negociação. Nesse contexto, a indústria de usinagem busca se manter competi- tiva e necessita atuar sob as condições de usinagem que conduzem ao mínimo de custo de fabricação. Neste capítulo, você estudará as condições econômicas de corte e os gastos avaliados para realização do cálculo de custo da produção, bem como identificará as informações relevantes para o processo de usinagem apresentadas nos catálogos de ferramentas dos fornecedores. Ciclos e tempos de usinagem A velocidade de corte entre os parâmetros de usinagem (velocidade de corte, profundidade e avanço) é a principal responsável pelo desgaste da ferramenta, o que impacta diretamente os custos de operação. Nesse contexto, é necessário aumentar, preferencialmente, a profundidade de corte, o avanço e, por último, a velocidade de corte. O aumento da profundidade de corte e do avanço devem respeitar as limitações de ferramenta, máquina-ferramenta e qualidade de acabamento requerida. Ao aumentar a velocidade de corte, o tempo de usinagem diminui, mas o desgaste da ferramenta é aumentado de forma significativa. Além de refletir em custos com a aquisição de mais ferramentas, o desgaste excessivo da ferra- menta provoca interrupções para a sua substituição. Em fabricação de grandes lotes, em processos seriados, o tempo perdido para troca de ferramenta pode ser muito alto, comparado ao tempo necessário para usinagem de diversas peças. Ao diminuir a velocidade de corte, o desgaste com ferramenta também diminui e, consequentemente, o tempo perdido com a troca de ferramenta também, porém o tempo efetivo de corte será maior, tornando a operação de baixa produtividade. Neste cenário, foi definida a velocidade máxima de produção, velocidade de corte esta em que o tempo de produção de uma peça em um lote é o mínimo possível. O ciclo de usinagem de uma peça pertencente a um lote qualquer é composto diretamente pelas seguintes etapas: 1. preparo da máquina-ferramenta para usinagem do lote; 2. carga, posicionamento da peça na máquina-ferramenta; 3. aproximação e posicionamento da ferramenta; 4. corte; 5. afastamento da ferramenta; 6. retirada da peça; 7. remoção da ferramenta para substituição; 8. recolocação e ajuste da nova ferramenta. Para cada uma das etapas citadas é correlacionado o tempo gasto para sua execução, assim temos: � tt = tempo total de usinagem de uma peça (minutos); � tc = tempo de corte (etapa 4); � ts = tempo secundário (etapa 2 e etapa 6); � ta = tempo de aproximação e afastamento da ferramenta (etapa 3 e etapa 5); � tp = tempo de preparo da máquina (etapa 1); � tft = tempo de troca da ferramenta (etapa 7 e etapa 8). Condições econômicas de corte2 O tempo total para usinar uma peça de determinado lote é obtido pela equação 1. tt = tc + ts + ta + + × tft tp Z Nt Z (1) Onde: Z = número de peças usinadas durante a vida da ferramenta. Nt = número de trocas da ferramenta. O tempo de corte é uma variável calculável, já o tempo de vida da ferramenta (T) é, muitas vezes, fornecido pelo fabricante, considerando que ao preparar a máquina-ferramenta foi fixada a ferramenta de corte. O número de trocas da ferramenta pode ser obtido pela equação 2: Nt = Z – 1 tc T (2) Se você substituir a equação 2 na equação 1 e reescrever, terá a equação 3 a seguir. ( )tt = tc + ts + ta + + × tft → tt = tc + ts + ta + + × tft tp Z tp Z tp Z tc T tc T 1 Z 1 Z Z Z – 1 tc T – → tt = tc + (ts + ta + – × tft) + ( × tft) (3) A equação 3 permite a separação e a análise dos tempos em três parcelas, obtendo a equação 4, a equação 5 e a equação 6. t1 = (ts + ta + – × tft) tp Z 1 Z (4) t2 = ( × tft) tc T (5) tt = tc + t1 + t2 (6) 3Condições econômicas de corte A equação 6 permite o entendimento mais fácil dos tempos gastos com cada operação. Onde: � tc = é o tempo de corte, dependente da velocidade. � t1 = é referente ao tempo improdutivo (posicionamento da peça na máquina-ferramenta, retirada da peça, tempo de aproximação e afasta- mento da ferramenta em relação à peça, preparo da máquina-ferramenta e troca de ferramenta), todos independentes da velocidade de corte. � t2 = é o tempo relacionado à troca da ferramenta. Essa parcela de tempo considera a velocidade e o tempo efetivo para realização da troca da ferramenta. Velocidade de corte de máxima produção É a velocidade de corte em que o tempo total de produção de uma peça é o mínimo possível. Desse modo, para o torneamento de uma peça cilíndrica com avanço e profundidade de corte constantes, escreve-se o tempo de corte em função da velocidade de corte, fazendo o uso das equações 7 (número de rotações), 8 (velocidade de avanço) e 9 (tempo de corte). n = 1000 × vc � × d (7) vf = f × n (8) tc = L vf (9) Substituindo a equação 7 na equação 8 e, em seguida, na equação 9, ob- temos a equação 10. tc = L × � × d 1000 × f × vc (10) Condições econômicas de corte4 Onde: � L = comprimento do corte (mm); � d = diâmetro da peça (mm); � f = avanço (mm); � vc = velocidade de corte (m/min). Substituindo a equação 10 na equação do tempo total (equação 3), tem-se a equação 11. tt = L × � × d 1000 × f × vc L × � × d 1000 × f × vc× T + (ts + ta + – × tft) + ( × tft) tp Z 1 Z (11) A partir da Equação de Taylor, que relaciona a vida da ferramenta à velo- cidade de corte, é possível obter a equação 12. T = K vc X (12) Substituindo a equação 12 na equação 11, obtém-se a equação 13. tt = L × � × d 1000 × f × vc L × � × d × vc X–1 1000 × f × K + (ts + ta + ) + ( – ) × tft tp Z 1 Z (13) A equação 13 também pode ser representada pela equação 6, em que cada termo representa respectivamente tc, t1 e t2. A Figura 1 ilustra a variação das três parcelas em função da velocidade de corte. O tempo t1 não depende da velocidade de corte, e t2 representa o tempo gasto com a troca da ferramenta. O t2 aumenta com o aumento da velocidade de corte e o tempo de corte (tc) diminui com o aumento da velocidade de corte. A velocidade de corte para máxima produção é obtida por meio da equação 14. vcmxp = K (X – 1) × tft X (14) 5Condições econômicas de corte Figura 1. Tempo de produção por peça x velocidade de corte. Fonte: Adaptada de Machado et al. (2009, p. 310). tt tc t2 t1 tt = t1 + t2 + tc tmin Vmxp V A equação 12, chamada de Equação de Taylor, foi proposta por Taylor para descrever a curva de desgaste da vida da ferramenta. Os parâmetros Custo da produção O custo da produção envolve muitas variáveis. Alguns gastos são indepen- dentes do processo, como o frete, e outros são dependentes do processo, por exemplo, o custo da ferramenta. Para realizar o custo de produção da operação você deve considerar somente a soma dos gastos dependentes do processo, conforme equação 15. Kp = Kus + Kum + Kuf (15) Onde: � Kp = custo da produção por peça; � Kus = custo da mão de obra de usinagem; Condições econômicas de corte6 � Kum = custo da máquina-ferramenta; � Kuf = custo das ferramentas. O custo da mão de obra por peça é obtido por meio da equação 16. Kus = tt × Sh 60 (16) Onde: � tt = tempo total gasto para produção de uma peça (min); � Sh = salário e encargos gasto com operador (R$/hora). Para calcular o custo da máquina-ferramentapor peça, considera-se o valor pago para aquisição do equipamento, o seu tempo estimado de vida, o custo com a manutenção, entre outros, utilizando a equação 17. [ ]Kum = tt 60 Kum = tt 60 1 H× ×(Vmi – Vmi × ) × j + + Kmc + Em × Ke × j m M Vmi M × Sm (17) Onde: � Vmi = valor pago pela aquisição do equipamento (R$); � m = idade da máquina-ferramenta (anos); � M = vida prevista para máquina-ferramenta (anos); � j = taxa de juros por ano; � Kmc = custo anual de manutenção da máquina-equipamento (R$/ano); � Em = espaço ocupado pela máquina (m²); � Ke = custo do m² ocupado pela máquina (R$/m²/ano); � H = horas trabalhadas por ano; � Sm = custo total da máquina (R$/hora). O custo da ferramenta por peça é obtido por meio da equação 18. Kuf = Kft Zt (18) 7Condições econômicas de corte O custo de uma troca da ferramenta (Kft) é obtido pela equação 19. Kft = Vsi Nfp Kpi NS + (19) O número de peças usinadas por tempo de vida da ferramenta (Zt) é obtido pela equação 20. Zt = T tc (20) Onde: � Nfp = vida média do porta-ferramenta, em quantidade de arestas de corte, até sua possível inutilização; � Vsi = custo de aquisição do porta-ferramenta; � Ns = número de aresta de corte da pastilha; � Kpi = custo de aquisição da pastilha. Substituindo as equações 16, 17 e 18 na equação 15 obtemos a equação 21. Kp = (tt × ) + ( × Sm) + = (Sh + Sm) + ( × Kft) Sh 60 tt 60 tt 60 tc T Kft Zt( ) (21) Se substituirmos a equação 13, expressão do tempo total de usinagem de uma peça (tt), na equação 21, e rearranjarmos matematicamente, obtemos a equação 22. tft 60( )Kft + × (Sh + Sm)Kp = × (Sh + Sm) + × (Sh + Sm) + × ( ) tc 60 tc T t1 60 – 1 Z (22) Podemos escrever a equação 22 de forma simplificada, utilizando a equação 23. Kp = C1 + × C2 + × C3 tc 60 tc T (23) Condições econômicas de corte8 Onde: � C1 = constante independente da velocidade de corte em R$/peça; � C2 = soma das despesas com mão de obra e máquina em R$/hora; � C3 = constante de custo relativo à ferramenta. Como pode ser observado na equação 23, o custo da produção de uma peça é dependente do tempo de corte, ou seja, assim como o menor tempo de fabricação para uma peça, ele também é dependente da velocidade de corte. Analogamente ao gráfico tempo × velocidade da Figura 1, temos o gráfico custo por peça × velocidade de corte, ilustrado na Figura 2. Figura 2. Custo de produção por peça x velocidade de corte. Fonte: Adaptada de Machado et al. (2009, p. 315). C Cmin C3 C1 C2 VC V C = C1 + C2 + C3 A velocidade de corte de mínimo custo é obtida pela equação 24. vco = C2 × K 60 × (X – 1) × C3 X (24) 9Condições econômicas de corte Informações apresentadas pelos fornecedores de ferramentas Os fornecedores de ferramentas seguem a normalização ISO (INTERNA- TIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION) para identificar suas ferramentas de corte e portas-ferramentas, sendo as principais a ISO 513 (2012) e a ISO 1832 (2017). A ISO 513 é responsável pela classificação das ferramentas segundo material de fabricação e aplicação e o material a usinar. Os fornecedores identificam suas ferramentas com as respectivas letras e cor: Grupo P (simbolizado pela cor azul), Grupo M (simbolizado pela cor amarela) Grupo K (simbolizado pela cor vermelha), Grupo N (simbolizado pela cor verde), Grupo S (simbolizado pela cor marrom) e H (simbolizado pela cor cinza). Os três primeiros Grupos (P, M e K) representam as ferramentas fabricadas de metal duro, as mais utilizadas industrialmente. A ISO 1.832 é responsável pelo índice numérico, composto por até doze caracteres, conforme ilustra a Figura 3. Cada campo é responsável por re- presentar uma informação sobre a ferramenta, conforme detalhado a seguir: 1. indica a formato da pastilha; 2. indica o ângulo de folga da pastilha; 3. indica a faixa de tolerância dimensional das pastilhas; 4. indica o tipo de pastilha, condição de fixação e/ou superfície de saída; 5. indica o tamanho da aresta de corte da pastilha (mm) e é composto por dois números; 6. indica a espessura da pastilha (mm) e é composto por dois números; 7. indica o raio da ponta da pastilha; 8. indica a condição da aresta de corte (símbolo de uso opcional); 9. indica o sentido de corte ou classificação da operação de usinagem (desbaste, acabamento ou média usinagem) ou outra informação rele- vante (é de uso opcional). Figura 3. Exemplo de código de ferramenta segundo ISO 1.832. 1 2 3 4 5 6 7 8 Condições econômicas de corte10 Além dessas informações, os fornecedores possuem liberdade para adi- cionar elementos considerados importantes sobre a sua ferramenta. Esses elementos, geralmente, apresentam: � formato da ferramenta; � utilização para corte externo e/ou interno; � dados de corte (velocidade de corte apropriada e curva de vida da ferramenta); � informações sobre refrigeração; � descrição geométrica e descrição de classe; � melhor aplicação; � fixação. 1. De acordo com a norma ISO 1.832:1991, os campos 1, 2 e 6 na identificação das pastilhas de torneamento correspondem, respectivamente, a: a) formato da pastilha, ângulo de folga da pastilha e tipo de pastilha. b) formato da pastilha, tipo de pastilha e espessura da pastilha. c) tipo de pastilha, tamanho da pastilha e espessura da pastilha. d) formato da pastilha, ângulo de folga da pastilha e espessura da pastilha. e) tipo de pastilha, ângulo de folga da pastilha e espessura da pastilha. 2. Leia as afirmações a seguir e, em seguida, assinale a alternativa correta. I. Quanto maior for a velocidade de corte maior será a produtividade. II. A velocidade máxima de produção é definida pela velocidade de corte, da qual se obtém o menor tempo possível para a produção de uma peça. III. Ao utilizar a máxima velocidade de corte da máquina-ferramenta, obtém-se o menor ciclo de usinagem possível. a) Somente a afirmação I está correta. b) Somente a afirmação II está correta. c) Somente a afirmação III está correta. d) As afirmações I e III estão corretas. e) As afirmações II e III estão corretas. 3. Leia as sentenças a seguir e, em seguida, assinale a alternativa correta. I. Ao aumentar a velocidade, o tempo de corte diminui, mas o tempo gasto com a troca de ferramenta aumenta. II. À medida que aumenta a velocidade de corte, aumenta também o custo com a ferramenta de 11Condições econômicas de corte usinagem, e o custo relativo da mão de obra diminui. III. O tempo gasto com o movimento de avanço, preparo da máquina- ferramenta e afastamento da ferramenta não se alteram com a variação da velocidade de corte. a) Todas as sentenças estão corretas. b) As sentenças I e II estão incorretas. c) As sentenças I e III estão incorretas. d) As sentenças II e III estão incorretas. e) Todas as sentenças estão incorretas. 4. Calcule a velocidade de corte de máxima produção no torneamento de um metal duro, sabendo que os parâmetros de Taylor para esse material são: X = 5; K = 6805; e o tempo gasto com a troca da ferramenta é de 160 segundos. a) 178,6 m/min. b) 186,75 m/min. c) 405,0 m/min. d) 423,4 m/min. e) Nenhuma das alternativas. 5. Observe as afirmações a respeito da velocidade de corte de mínimo custo e, em seguida, assinale a alternativa correta. I. Quanto maior for o lote (número de peças a usinar), maior será a velocidade de corte de mínimo custo. II. Quanto maior for o custo relativo da ferramenta de corte, menor será a velocidade de corte de mínimo custo. III. Quanto maior for o custo com a mão de obra e gastos com equipamentos, menor será a velocidade de corte de mínimo custo. a) Somente a afirmação I está correta. b) Somente a afirmação II está correta. c) Somente a afirmação III está correta. d) As afirmações I e II estão corretas. e) As afirmações II e III estão corretas. INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION.ISO 513:2012: classificação e aplicação de metais duros para a usinagem com arestas de corte definidas: designação dos grupos principais e grupos de aplicação. Rio de Janeiro, 2012. INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 1.832: 2017. Pastilhas intercambiáveis para ferramentas de corte: designação. Rio de Janeiro, 2017. MACHADO, A. R. et al. Teoria da usinagem dos materiais. São Paulo: Blucher, 2009. Condições econômicas de corte12 Leituras recomendadas DINIZ, A. E.; MARCONDES, F. C.; COPPINI, N. L. Tecnologia da usinagem dos materiais. São Paulo: MM, 1999. FERRARESI, D. Fundamento da usinagem dos metais. São Carlos: Blucher, 1969. NOVASKI, O. Custos de usinagem. Campinas, SP: UNICAMP, 1991. REBEYKA, C. J. Princípios dos processos de fabricação por usinagem. Curitiba: Intersa- beres, 2016. STEMMER, C. E. Ferramentas de corte I. 3. ed. Florianópolis: UFSC, 1993. 13Condições econômicas de corte Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.