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LG – 2o dia | Caderno 1 - Amarelo - Página 8 QUESTÃO 8 (...) Da garrafa estilhaçada, no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue... não sei. Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora. ANDRADE, Carlos Drummond de. A morte do leiteiro. As chamadas funções da linguagem vinculam-se aos elementos da comunicação. Em função da natureza do texto e da ênfase nele pretendida, pode-se afirmar que, no fragmento anterior – em que se descrevem detalhes da morte de um leiteiro na madrugada, confundido com um ladrão –, prepondera a função emotiva, marcada pela presença de verbo da primeira pessoa do singular. metalinguística, pelo tratamento especial dado aos aspectos da língua padrão. referencial, dada a intenção de informar, com detalhes, sobre uma ocorrência. conativa, pela nítida finalidade de provocar a emoção dos interlocutores. poética, pelo tratamento expressivo dado às palavras que traduzem o acontecido. QUESTÃO 9 Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição de sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz neste caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão, ao vencedor, as batatas. ASSIS, Machado de. Quincas Borba. No texto anterior, a passagem “Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas” remete a uma característica do estilo de Machado de Assis, perceptível no comentário: “A concepção de mundo que transparece na obra de Machado marca-se por acentuado pessimismo.” “O humor, para Machado, é uma espécie de válvula de escape diante da constatação da miséria do homem.” “Para ele, os bons sentimentos, quando surgem, escondem sempre uma outra face, egoísta e hipócrita.” “O autor penetra na consciência de cada personagem, descrevendo seu mundo interior.” “Na realidade, esse autor não quer um leitor comum da narrativa, mas um cúmplice do que está sendo exposto.” QUESTÃO 10 — Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não? — Esquece. — Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou “esqueça”? Ilumine-me. Mo diga. Ensines-lo-me, vamos. — Depende. — Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não sabes-o. — Está bem. Está bem. Desculpe. Fale como quiser. VERÍSSIMO, L.F. Jornal do Brasil, 1994. O texto tem por finalidade satirizar a preocupação com o uso e a colocação das formas pronominais átonas. ilustrar ludicamente várias possibilidades de combinação de formas pronominais. esclarecer pelo exemplo certos fatos da concordância de pessoa gramatical. exemplificar a diversidade de tratamentos que é comum na fala corrente. valorizar a criatividade na aplicação das regras de uso das formas pronominais.