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LITERATURA INFANTO-JUVENIL A Faculdade Multivix está presente de norte a sul do Estado do Espírito Santo, com unidades em Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Nova Venécia, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória. Desde 1999 atua no mercado capixaba, destacando-se pela oferta de cursos de graduação, técnico, pós-graduação e extensão, com qualidade nas quatro áreas do conhecimento: Agrárias, Exatas, Humanas e Saúde, sempre primando pela qualidade de seu ensino e pela formação de profissionais com consciência cidadã para o mercado de trabalho. Atualmente, a Multivix está entre o seleto grupo de Instituições de Ensino Superior que possuem conceito de excelência junto ao Ministério da Educação (MEC). Das 2109 institu- ições avaliadas no Brasil, apenas 15% conquis- taram notas 4 e 5, que são consideradas conceitos de excelência em ensino. Estes resultados acadêmicos colocam todas as unidades da Multivix entre as melhores do Estado do Espírito Santo e entre as 50 melhores do país. MISSÃO Formar profissionais com consciência cidadã para o mercado de trabalho, com elevado padrão de qualidade, sempre mantendo a credibil- idade, segurança e modernidade, visando à satis- fação dos clientes e colaboradores. VISÃO Ser uma Instituição de Ensino Superior reconheci- da nacionalmente como referência em qualidade educacional. R E I TO R GRUPO MULTIVIX R E I 2 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 3 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 BIBLIOTECA MULTIVIX (Dados de publicação na fonte) Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro Vilhagra Literatura Infanto-juvenil / VIHAGRA, Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro - Multivix, 2020 Catalogação: Biblioteca Central Multivix 2020 • Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. 4 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LISTA DE FIGURAS > Figura 1 – Quadro “Cinco filhos mais velhos de Charles I” de Anthony van Dyck 13 > Figura 2 – Infância e adolescência como etapas do desenvolvimento humano 14 > Figura 3 – Literatura infanto-juvenil 15 > Figura 4 – Com o nascimento da criança, nasce a literatura infanto-juvenil 16 > Figura 5 – O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry 17 > Figura 6 – Qual livro escolher? 18 > Figura 7 – Qualidade da produção editorial de obras infanto-juvenis 19 > Figura 8 – Consequências de uma escolha inadequada de livro infanto- juvenil 19 > Figura 9 – Pensamento mágico das crianças 21 > Figura 10 – Leitura de realismo mágico 22 > Figura 11 – Terceira fase de leitura 24 > Figura 12 – Quarta fase de leitura 25 > Figura 13 – Quinta fase de leitura 26 > Figura 14 – Hábito da leitura 27 > Figura 1 - Proclamação da República 31 > Figura 2 - Predomínio de obras literárias importadas do Velho Mundo 32 > Figura 3 - Obras literárias pedagogizantes 32 > Figura 4 - Monteiro Lobato 34 > Figura 5 - Início da Era Vargas 34 > Figura 6 - Ditadura Militar 36 > Figura 7 - A Ditadura Militar e a censura 36 > Figura 8 - Livro Coração de Onça e a temática dos Bandeirantes 37 > Figura 9 - Movimento “Diretas Já” 38 > Figura 10 - Modernização da narrativa e da poesia infanto-juvenil 39 > Figura 11 - MEC e as políticas públicas direcionadas à literatura infanto-juvenil 40 > Figura 12 - Programa Nacional Biblioteca da Escola 41 > Figura 12 - Políticas públicas de estímulo e de distribuição de livros 42 > Figura 13 - Avanço tecnológico 43 5 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 > Figura 14 - Tecnologias digitais e obras literárias infanto-juvenis 43 > Figura 1 - Coelho Neto 47 > Figura 2 – Além de bacharel em Direito, Coelho Neto também foi professor 48 > Figura 3 - Literatura infanto-juvenil pedagogizante e com valores nacionais 49 > Figura 4 – Estátua de Monteiro Lobato na cidade de Taubaté 49 > Figura 5 - Monteiro Lobato e o movimento “O Petróleo é nosso” 50 > Figura 6 - A menina do narizinho arrebitado 51 > Figura 7 – São Paulo, capital do estado paulista 52 > Figura 8 - Prêmio Jabuti 53 > Figura 9 - Ana Maria Machado 54 > Figura 10 - Ana Maria Machado como imortal da ABL 55 > Figura 11 - A personagem Nita e a imaginação das crianças 56 > Figura 12 – Belém, capital do Pará 57 > Figura 13 - A história e a cultura dos povos indígenas 58 > Figura 14 – Cariacica, no Espírito Santo 59 > Figura 15 - Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 59 > Figura 1 - Tratamento dado à leitura pelas escolas brasileiras 62 > Figura 2 - Literatura pedagogizante e a formação cidadã da criança e do jovem 63 > Figura 3 - Literatura voltada à alfabetização 64 > Figura 4 - Obras literárias infanto-juvenis associadas à alfabetização e ao letramento 65 > Figura 5 - A formação de leitores pela literatura infanto-juvenil 66 > Figura 6 - Linguagem e temáticas 67 > Figura 7 - Pais e a escola na formação do leitor pela literatura infanto- juvenil 68 > Figura 8 - Desempenho escolar dos jovens leitores 69 > Figura 9 - Leitor crítico 70 > Figura 10 - Literatura infanto-juvenil ligada à escrita, de acordo com a BNCC 73 > Figura 1 - A figura do docente e o fomento da leitura 77 > Figura 2 - A desmotivação para a leitura 78 > Figura 3 - Leitura como atividade individual e silenciosa 79 > Figura 4 - Espaços de leitura 80 6 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 > Figura 5 - Biblioteca Transcol 80 > Figura 6 - Biblioteca de Alexandria hoje 82 > Figura 7 - A biblioteca escolar 82 > Figura 8 - Exemplo de cantinho de leitura em uma escola municipal de Santa Catarina 84 > Figura 9 - A composição do acervo no cantinho de leitura é coletivo 84 > Figura 10 - Hábito da leitura e a contação de histórias 86 > Figura 11 - A leitura compartilhada 86 > Figura 12 - A leitura continuada 88 > Figura 1 - Realidade e fantasia na literatura infantil e juvenil 93 > Figura 2 - A transformação do leitor por meio da fantasia e da realidade nos textos infanto-juvenis 93 > Figura 3 - O humor nos textos infanto-juvenis 94 > Figura 4 - Humor como releitura dos contos de fadas 95 > Figura 5 – Chapeuzinho vermelho e os contos de fadas 96 > Figura 6 - Leitura de contos de fadas e a transmissão de valores 97 > Figura 7 - Poesia 98 > Figura 8 - Poesia infanto-juvenil e a supressão do posicionamento adultocêntrico 98 > Figura 9 - Histórias sem texto 100 > Figura 10 - Invenção de narrativas por meio das histórias sem texto 101 > Figura 11 - Ilustração no livro infantil 102 > Figura 12 - Letras Capitulares 103 7 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 10 1 ASPECTOS TEÓRICOS DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL 12 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 12 1.1 O QUE É LITERATURA INFANTIL E JUVENIL? 12 1.2 LITERATURA INFANTIL E JUVENIL, E COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA DO LEITOR 15 1.3 CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS CRITÉRIOS PARA A SELEÇÃO DE TEXTOS INFANTIS 18 1.4 PRIMEIRA FASE DE LEITURA DE TEXTOS INFANTIS 20 1.5 SEGUNDA E TERCEIRA FASES DE LEITURA DE TEXTOS INFANTIS 22 1.6 QUARTA E QUINTA FASES DE LEITURA DE TEXTOS JUVENIS 24 CONCLUSÃO 28 2 BREVE TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL BRASILEIRA 30 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 30 2.1 FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO XX 30 2.2 1920 ATÉ 1950 33 2.3 1950 ATÉ 1960 35 2.4 1970 ATÉ 1980 38 2.5 1990 ATÉ 2000 40 2.6 INÍCIO DO SÉC. XXI 42 CONCLUSÃO 44 3 PRINCIPAIS AUTORES BRASILEIROS DE LITERATURA INFANTIL E JUVENIL 46 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 46 3.1 COELHO NETO 46 3.2 MONTEIRO LOBATO 49 3.3 RUTH ROCHA 52 3.4 ANA MARIA MACHADO 54 3.5 DANIEL MUNDURUKU 56 3.5 ELISA LUCINDA 59 CONCLUSÃO 60 1UNIDADE 2UNIDADE 3UNIDADE 8 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017,MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 4 EDUCAÇÃO E LITERATURA INFANTIL E JUVENIL INTRODUÇÃO DA UNIDADE Esta unidade vai abordar diretamente o tema da Educação e a literatura infan- til e juvenil. O objetivo, portanto, será promover a discussão no que diz respeito à maneira pela qual a educação básica se associa à literatura infantil e juvenil, e propiciar a análise desse tipo de literatura como ferramenta direcionada ao desenvolvimento da leitura, sobretudo no que tange às crianças e aos jovens. Essa temática é fundamental, uma vez que você, na qualidade de futuro pro- fissional de Letras, atuará nesse contexto, principalmente no Ensino Funda- mental e no Médio. Logo, estar munido de conceitos, de reflexões e de prá- ticas pedagógicas as quais envolvem a literatura infanto-juvenil voltadas à Educação fará uma diferença considerável na sua atuação profissional. Assim, prezado(a) estudante, esperamos que você aproveite este e-book, mas sem se esquecer dos outros recursos didáticos ligados a ele. No mais, bons estudos. 4.1 A FUNÇÃO PEDAGÓGICA DA LEITURA A fim de começar este tópico, é interessante destacar a citação de Minuzzi (2019) sobre a maneira pela qual a literatura foi/é tratada nas escolas brasilei- ras ao longo do tempo. FIGURA 1 - TRATAMENTO DADO À LEITURA PELAS ESCOLAS BRASILEIRAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) 63 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Na visão da autora, Dentro do campo da literatura infanto-juvenil, ainda havia um outro aspecto: muitos acreditavam que os escritores, ao produzirem suas obras, não deveriam estar livres — eles deveriam ter sempre em seu horizonte o objetivo de formar as crianças; seus textos, portanto, deveriam ser formativos antes de mais nada. (MINUZZI, 2019, p. 15) Em outras palavras, a pesquisadora afirma que, desde a transição do sécu- lo XIX para o XX, um número considerável de autores(as) não produzia suas obras apenas para contar histórias ou manifestar seus sentimentos por meio da poesia. Para ela, havia no horizonte das obras a finalidade de um conteúdo formativo destinado aos leitores. Neste momento, você deve estar se perguntando: “que tipo de conteúdo seria esse?”. Pois bem, Minuzzi (2019, p. 15) responde: Os textos literários serviriam como modelos de conduta para o desenvolvimento de cidadãos e, nesse sentido, as histórias deveriam conter lições de moral. Esse conteúdo, denominado literatura pedagogizante, conforme já vimos an- teriormente, foi predominante nos livros infanto-juvenis. FIGURA 2 - LITERATURA PEDAGOGIZANTE E A FORMAÇÃO CIDADÃ DA CRIANÇA E DO JOVEM Fonte: Plataforma Deduca (2020) 64 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Porém, na década de 1980, esse panorama começou a mudar. Segundo Mi- nuzzi (2019, p. 15), tais obras literárias: [...] também teriam a função de passar informações que os professores julgam importantes ou necessárias aos alunos. Assim, esse é mais um aspecto dentro da visão da literatura como uma ferramenta útil (e utilitarista) ao ensino. Complementando a fala da autora, Maciel (2014, p. 8) também confirma isso, dizendo que “[...] os livros de literatura, no espaço escolar, conferem à criança uma multifacetada forma de acesso ao saber”. Portanto, de acordo com Minuzzi (2019), as obras literárias infanto-juvenis também possuíam essa função direcionada ao ensino, em particular ao ensi- no regular brasileiro. 4.2 LITERATURA E ALFABETIZAÇÃO Conforme vimos antes, as obras literárias infanto-juvenis são utilizadas nas es- colas regulares brasileiras tanto direcionadas para uma formação cívico-moral das crianças e dos jovens, centrada em uma perspectiva político-ideológica específica, quanto como uma ferramenta de auxílio nas práticas pedagógicas diárias dos(as) professores(as). Aliás, em relação a essa última característica, teremos de dar um destaque maior. Varella (2008) afirma que tais obras podem ser usadas nas aulas de língua materna, desenvolvendo, em especial, a alfabetização e o letramento. FIGURA 3 - LITERATURA VOLTADA À ALFABETIZAÇÃO Fonte: Plataforma Deduca (2020) 65 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Aliás, a autora faz uma distinção importante sobre esses dois últimos termos, conforme você pode ver a seguir: 1. Alfabetização: Processo de aprendizagem do código de uma língua, pelo qual o falante de uma língua converte o som em letras. 2. Letramento: Conjunto de habilidades e competências relacionados ao uso social de uma língua, tendo em vista a compreensão e a produção de textos. FIGURA 4 - OBRAS LITERÁRIAS INFANTO-JUVENIS ASSOCIADAS À ALFABETIZAÇÃO E AO LETRAMENTO Fonte: Plataforma Deduca (2020) Se você quiser aprender mais sobre o conceito de alfabetização e de letramento, sugerimos o artigo científico “Letramento e alfabetização: as muitas facetas”, da professora Magda Soares, cujo link é: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n25/n25a01.pdf. 66 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 4.3 LITERATURA INFANTIL E JUVENIL ASSOCIADA À FORMAÇÃO DOS LEITORES Devemos destacar que, entre as atividades envolvendo a utilização das obras literárias infanto-juvenis nas aulas de alfabetização e de letramento nas esco- las regulares brasileiras, um aspecto extremamente relevante emerge disso: a formação dos leitores. FIGURA 5 - A FORMAÇÃO DE LEITORES PELA LITERATURA INFANTO-JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020) Para Maciel (2014), a literatura infanto-juvenil é um recurso pedagógico extre- mamente valioso na geração e no estabelecimento do hábito de ler, quando se trata de crianças e também de adolescentes. Segundo o autor, podemos elencar dois motivos principais que explicam esse fato. O primeiro se deve à linguagem empregada, ou seja, tais livros possuem uma forma de escrita lúdica e direcionada a esse público, de modo a não pro- vocar estranhamento por parte dos leitores. O segundo fator está relacionado aos assuntos abordados. Em geral, eles es- tão relacionados ao dia a dia das crianças e dos jovens, gerando uma afinidade deles pelas obras. Por outro lado, o conteúdo também pode ser tão fantasioso e criativo que instiga a atenção e a curiosidade, propiciando gradativamente o ato de ler das crianças e jovens. 67 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 6 - LINGUAGEM E TEMÁTICAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) Desse modo, esses dois fatores associados às obras literárias infantis e juvenis estimulam consideravelmente o hábito da leitura, auxiliando na formação dos leitores. Todavia, para Saraiva (2008), é relevante destacar que isso dificilmen- te ocorreria se não houvesse a presença de dois agentes: os pais e a escola. Essa é uma questão interessante de ser discutida, uma vez que a ação de am- bos deve ser de complementaridade, isto é, é necessário que ambos ajam em conjunto para gerar o hábito de leitura e, consequentemente, a formação do leitor. Assim os familiares devem, desde cedo, proporcionar o contato de seus filhos com obras literárias. Somado a isso, a instituição escolar também deve, de maneira sistematizada e planejada, inserir a literatura infanto-juvenil nas prá- ticas pedagógicas do cotidiano da escola. 68 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 7 - PAIS E A ESCOLA NA FORMAÇÃO DO LEITOR PELA LITERATURA INFANTO- JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020) 4.4 BENEFÍCIOS DA CONSTRUÇÃO DOS HÁBITOS DE LEITURA POR MEIO DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL Apósexaminarmos o papel da literatura infanto-juvenil ligada à construção do hábito da leitura e, por sua vez, à formação dos leitores, principalmente de crianças e de jovens, vamos expor os principais benefícios gerados por esse processo. De fato, se fôssemos elencar todos, seria um trabalho exaustivo e longo, uma vez que são muitos os benefícios. Porém, aqui, podemos nos concentrar em três: a melhoria no desempenho escolar, a capacitação deatuar em sociedade e a criação do leitor crítico. Caso você tenha mais interesse em relação ao tema da formação de leitores por meio da literatura infanto-juvenil, indicamos o seguinte artigo científico: “Papel da Literatura Infantil e Infanto-Juvenil na Formação do Leitor”, de Gilmei Fleck, cujo link é: http://revistas.fw.uri.br/index.php/ revistalinguaeliteratura/article/view/72/137 69 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 4.4.1 MELHORIA DO DESEMPENHO ESCOLAR O primeiro benefício que podemos destacar, conforme aponta Maciel (2014), é a melhoria do desempenho escolar que a criança e o jovem leitor com o hábito da leitura possuem. FIGURA 8 - DESEMPENHO ESCOLAR DOS JOVENS LEITORES Fonte: Plataforma Deduca (2020) Não só o conhecimento da língua materna, no caso a Língua Portuguesa, fa- lada e escrita é aperfeiçoado, mas também o acesso ao conhecimento de ou- tras áreas, como a Matemática, as Ciências, a História etc., é proporcionado, aumentando a compreensão do pequeno e jovem leitor nessas áreas. Caso queira se aprofundar mais nesse tema, orientamos a leitura do artigo “A importância da leitura para o desempenho escolar dos alunos do ensino fundamental”, de José Simões e Beatrice Carnielli. Confira no link: http://periodicos.puc- campinas.edu.br/seer/index.php/reveducacao/article/ view/318/301 70 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 4.4.2 A CAPACITAÇÃO DE ATUAR EM SOCIEDADE O hábito de leitura também propicia à criança e ao jovem leitor a capacidade de atuar em sociedade de modo mais eficaz e desenvolto, nos mais variados con- textos envolvendo os atos de ler e de escrever. Na visão de Minuzzi (2017, p. 28), Saber ler e produzir textos de diferentes formatos, com diferentes objetivos e registros da língua é um ato de cidadania. Saber transitar entre as variações linguísticas é um dos passos necessários para viver em sociedade: se você precisa encaminhar um e-mail para seu chefe, mandar um recado de condolências, conversar com um amigo em um ambiente descontraído ou analisar um edital de um concurso, todas essas diferentes modalidades exigem uma adaptação do discurso. Isso não significa que a pessoa que não desenvolveu as capacidades de ler e de escrever não seja um/uma cidadão/cidadã e que não deve viver em socie- dade. No entanto, tal pessoa terá maior dificuldade no ingresso e no proveito das situações que abarcam aquelas ações. 4.4.3 CRIAÇÃO DO LEITOR CRÍTICO O último benefício que podemos evidenciar é a criação do leitor crítico. A criança e o jovem leitor, não só em longo prazo mas também em curto prazo, pode adquirir uma postura mais questionadora e reflexiva como um ser que ocupa um espaço no mundo. FIGURA 9 - LEITOR CRÍTICO Fonte: Plataforma Deduca (2020) 71 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Consoante Maciel (2014, p. 14), o hábito de ler, principalmente os livros infanto- -juvenis, contribui “[...] de maneira única para a formação de um leitor crítico e capaz de articular o mundo das palavras com o seu eu mais profundo e a comunidade onde ele se insere”. 4.5 A RELAÇÃO ENTRE A LITERATURA INFANTIL E JUVENIL E A EDUCAÇÃO BÁSICA BRASILEIRA Antes de discorremos sobre a relação entre literatura infanto-juvenil e a edu- cação básica nacional, devemos relembrar que esta última é dividida em três grandes segmentos, conforme você pode notar a seguir: 1. Ensino infantil: Primeira etapa da educação regular brasileira. Esse período compreende os estudantes de zero a cinco anos (sendo que os estudantes dos dois últimos anos devem ser matriculados em alguma instituição de ensino regularizada pelo MEC. 2. Ensino Fundamental: Segunda etapa do ensino regular, sendo a mais longa. Ela compreende estudantes de 6 até 14 anos de idade. 3. Ensino Médio: Por fim, a terceira e última etapa do ensino regular. Ela compreende estudantes de 15 até 17 anos de idade, encerrando a obrigatoriedade de vínculo com uma escola regular. Considerando isso, é importante frisar que a literatura infanto-juvenil possui um estreito vínculo com a educação básica. Podemos observar que aquela, conforme já mencionado por Marciel (2014), não é apenas associada à fruição e ao prazer de ler uma obra literária, mas também abre portas para o ensino em suas diversas facetas. 72 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Nesse contexto, cabe uma menção especial ao professor. A figura dele é fun- damental nesse processo, porque é ele que será um dos agentes que terá mais contato com os estudantes, seja no momento de incentivar a leitura, seja com alguma atividade pedagógica relacionada a alguma finalidade específica. 1.6 A MANEIRA PELA QUAL A BNCC TRATA A LITERATURA INFANTIL E JUVENIL Neste último tópico, vamos explorar como a Base Nacional Comum Curricu- lar (BNCC) lida com a literatura infanto-juvenil. É interessante abordar a Base, pois, atualmente, é um dos principais documentos oficiais que rege e regula a educação básica no Brasil. Em relação a ela, você pode explorá-la um pouco mais no item seguinte: 1. BNCC: Base Nacional Comum Curricular: O texto da BNCC pode ser acessado na íntegra por meio do site oficial: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/ 2. Proposta daBNCC: Esse documento almeja definir “[...] o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica” (BRASIL, 2017, p. 7). Caso queira saber mais sobre a figura do professor na relação entre literatura infanto-juvenil e a educação básica, sugerimos o artigo científico “A formação do professor e a literatura infanto-juvenil”, da professora Marisa Lajolo. Confira o link: http:// www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_05_p029- 034_c.pdf 73 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Depois de conhecer brevemente o documento, vamos analisar a maneira pela qual ele lida com a literatura infanto-juvenil. Analisando o documento, nota-se que ele a associa, principalmente, ao desenvolvimento da escrita: As experiências com a literatura infantil, propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo. Além disso, o contato com histórias, contos, fábulas, poemas, cordéis etc. propicia a familiaridade com livros, com diferentes gêneros literários, a diferenciação entre ilustrações e escrita, a aprendizagem da direção da escrita e as formas corretas de manipulação de livros. (BRASIL, 2017, p. 42) FIGURA 10 - LITERATURA INFANTO-JUVENIL LIGADA À ESCRITA, DE ACORDO COM A BNCC Fonte: Plataforma Deduca (2020) Você sabia que a BNCC teve três versões? Depois de várias consultas públicas, chegou-se à última versão: a de 2017. Se desejar se aprofundar mais sobre isso, sugerimos a leitura do capítulo 1 da monografia A literatura como prática pedagógica na educação infantil, de Karoline Araújo. O link dessa produção acadêmica é: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/19044/1/2017_ KarolineMoreiraDeAraujo_tcc.pdf. 74 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017,Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL CONCLUSÃO Esta unidade teve como objetivo apresentar a você uma série de reflexões e discussões no que diz respeito à literatura infanto-juvenil e à Educação. Assim, foi possível observar que a literatura direcionada a tal público não se limita apenas à fruição da leitura. Como vimos, ela pode proporcionar acesso ao en- sino em suas mais diversas formas, em especial ao ensino regular. Conforme aqui discutido, uma dessas formas está associada à alfabetização e ao letramento da língua materna, no caso o português. Em decorrência, também refletimos acerca da função da literatura infantil e juvenil tal qual mecanismo de incentivo à formação de leitores por meio da criação do hábito de leitura. Além disso, vimos, como consequência da formação de leitores por meio des- sa literatura, os benefícios gerados nas crianças e jovens leitores, os quais se manifestam em curto e em longo prazo. Por fim, depois de constatar a impor- tância da Literatura Infanto-Juvenil na educação básica nacional, analisamos a maneira pela qual ela é abordada no principal documento norteador da educação brasileira, a Base Nacional Comum Curricular. UNIDADE 5 75 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: LITERATURA INFANTO-JUVENIL > Discutir a função dos professores em relação ao estímulo à leitura de textos literários infantis e juvenis; > Conhecer espaços formais e não formais de leitura de textos literários infantis e juvenis; > Abordar algumas propostas de contação de histórias infantis e juvenis na educação básica nacional. 76 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 5 A DOCÊNCIA, A LITERATURA INFANTIL E O CONTAR HISTÓRIAS INTRODUÇÃO DA UNIDADE Na unidade passada, vimos o quanto os pais e os professores são peças-chave na formação do hábito de leitura, ainda mais no caso de livros infanto-juvenis, dos estudantes. Agora, esta unidade tem como objetivo refletir acerca do pro- fessor, da literatura infantil e da contação de histórias, em especial na pers- pectiva da construção do hábito de ler. Isso é relevante, uma vez que, conforme será visto adiante, como muitas famí- lias não estimulam tal hábito nos seus lares, a instituição escolar acaba sendo uma das principais responsáveis por isso, destacando-se a figura do docente nesse processo. Assim, em um primeiro momento, discutiremos a importância do papel do professor nesse contexto. Em seguida, abordaremos os espaços de leitura for- mais e não formais. Depois, aprofundando mais os espaços formais, conhe- ceremos a biblioteca escolar e o cantinho de leitura, locais voltados para a prática de leitura. Por último, vamos propor algumas práticas voltadas ao fomento e ao estímu- lo do hábito da leitura, principalmente envolvendo as obras literárias infanto- -juvenis, nas quais vocês, na qualidade de estudantes de Letras, podem base- ar suas propostas pedagógicas futuras. 5.1 O PAPEL DOS DOCENTES NO ESTÍMULO À LEITURA DE OBRAS LITERÁRIAS INFANTIS E JUVENIS Conforme você viu anteriormente, a formação dos leitores está diretamente ligada à promoção do hábito de leitura, em particular dos livros literários in- fanto-juvenis. Tal ação é propiciada por dois agentes: pela família e pela escola, sendo esta última encabeçada pelo professor. Neste tópico, vamos esmiuçar e detalhar sobre a figura desse último. 77 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 1 - A FIGURA DO DOCENTE E O FOMENTO DA LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Em relação a isso, é válido relembrar que, segundo Rosa e Nunes (2011, p. 2), a prática da leitura, ainda mais a de natureza infanto-juvenil no ambiente escolar, [...] implica na relação cognitiva e pode representar uma potencialidade para interferir no desenvolvimento infantil como um todo, além de ser um instrumento de construção do conhecimento para o aluno. Para tal, os docentes, principalmente os relacionados à Língua Portuguesa, detêm um papel fundamental, uma vez que, por eles terem uma formação profissional e pedagógica voltada para esse fim, a viabilização do hábito da leitura, sobretudo das obras infanto-juvenis, é mais eficaz. Porém, com a importância, vem também a responsabilidade, porque, depen- dendo das ações feitas, o resultado pode ser inverso, isto é, afastar os futuros leitores. Sobre isso, Rosa e Nunes (2011, p. 8) comentam que: [...] a criança e mesmo o jovem oferecem uma resistência à escola e ao ensino, porque a leitura torna-se algo obrigatório, imposto como estudo, e não como uma oportunidade de conhecimento dos diversos assuntos por meio das obras literárias. 78 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 2 - A DESMOTIVAÇÃO PARA A LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Portanto, discutiremos e apresentaremos possíveis propostas pedagógicas voltadas ao fomento do hábito da leitura que os docentes podem utilizar. As- sim, para iniciar essa discussão, começaremos pelos espaços de leitura, os quais serão tratados nos tópicos seguintes. 5.2 OS ESPAÇOS DE LEITURA PARA TEXTOS LITERÁRIOS INFANTIS E JUVENIS Como a escola desempenha uma função importante, bem como os seus agentes, com destaque para a figura do professor, no fomento à leitura de obras infanto-juvenis, deve-se ter em mente que o espaço no qual isso ocor- rerá também é fundamental e deve ser considerado. Segundo Perissé (2014), a leitura, atualmente, é uma atividade individual, em- bora, em outros tempos, isso fosse diferente. 79 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 3 - LEITURA COMO ATIVIDADE INDIVIDUAL E SILENCIOSA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Levando em consideração a leitura individualizada no contexto de construção do hábito de leitura, o primeiro passo que o docente deve incluir no seu pla- nejamento das propostas pedagógicas voltadas ao fomento da leitura, prin- cipalmente atrelada às obras literárias infanto-juvenis, é o espaço no qual isso deve acontecer. Você sabia que nem sempre a leitura foi feita de maneira individualizada? Aliás, na história da humanidade, isso é um fato recente. Se você quiser saber mais sobre isso, sugerimos a reportagem “Como a leitura se tornou um hábito individual”, de Juliana Lima. Confira no link: https://www.nexojornal. com.br/expresso/2017/11/23/Como-a-leitura-se- tornou-um-h%C3%A1bito-individual. 80 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 4 - ESPAÇOS DE LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Isso se justifica, porque o local onde a proposta pedagógica ocorrerá reúne um conjunto de características que influenciam na atividade de leitura. Assim, se o lugar não for limpo, organizado, convidativo visualmente e humanizado, dificilmente as atividades de promoção de leitura terão êxito. Perissé (2014) nos mostra que existem os espaços formais de leitura, como a própria sala de aula, a biblioteca e os cantinhos de leitura, e os espaços infor- mais de leitura, os quais ficam “além-muro” da escola, por exemplo, a Biblio- teca Transcol, salas com um acervo de livros, além de espaços climatizados para a leitura localizada em terminais de ônibus na grande Vitória, capital do Espírito Santo. FIGURA 5 - BIBLIOTECA TRANSCOL Fonte: Secult (2020) 81 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Aliás, existem outros projetos associados aos espaços não formais de leitura, conforme você pode ver aqui: 1. Projeto Dose deLeitura: Local criado dentro do Hospital Waldomiro Colautti, no município de Ibirama, em Santa Catarina. 2. Geladeira Mágica em Itaquaquecetuba (SP): Geladeira reformada, pintada, transformada em uma estante e colocada em espaços públicos ao longo da cidade. 3. Literatura no Varal em Gravataí (RS): Projeto de iniciativa popular, a partir do qual moradores estendem varais com livros literários infantis e juvenis pendurados neles, os quais ficam disponíveis à população. Diante disso, a seguir, veremos dois espaços formais de leitura voltados ao fomento do hábito de ler: a biblioteca e o cantinho de leitura. 5.3 A BIBLIOTECA E OS TEXTOS DE LITERATURA INFANTIL E JUVENIL Na visão de Perissé (2014, p. 117), a biblioteca “[...] é cultivo sistemático, busca, tentativa de ordenar o universo em estantes, convivência silenciosa com au- tores metamorfoseados em papel”. Ou seja, com o surgimento da escrita, o ser humano passou a registrar o mun- do por meio dos diversos materiais, a exemplo do papiro, do pergaminho, do livro etc. Em virtude disso, era necessário criar um espaço no qual tais regis- tros fossem guardados e organizados. As bibliotecas existem desde a Antiguidade, sendo a mais famosa a Biblioteca de Alexandria, situada no Egito. Hoje, ela ganhou uma nova estrutura, como você pode ver a seguir: 82 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 6 - BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA HOJE Fonte: Shutterstock (2020) Nessa conjuntura, as bibliotecas, com o tempo, passaram a se tornar lugares frequentes nos diversos centros de ensino, como é o caso do contexto brasi- leiro, em especial nas escolas regulares e nas instituições de ensino superior. Inclusive, conforme já expusemos nas unidades anteriores, as bibliotecas ti- veram uma grande expansão nos colégios brasileiros na década de 1990, por intermédio de políticas públicas, exemplo do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). No caso das escolas de ensino regular, segundo Perissé (2014), as bibliotecas escolares são espaços destinados a, além de acondicionar o acervo bibliográ- fi co, também a coordenar e a estimular a leitura dos estudantes. FIGURA 7 - A BIBLIOTECA ESCOLAR Fonte: Plataforma Deduca (2020) 83 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL No que concerne a isso, é interessante ressaltar que, segundo Rosa e Nunes (2011), deve-se desassociar a imagem arcaica de que a biblioteca é um lugar entediante e enfadonho sob a óptica dos estudantes, a fim de transformá-la em um espaço de aprendizagem e de fomento à leitura. Aliás, conforme as autoras nos alertam, como muitas crianças e jovens não tiveram acesso aos livros, principalmente os literários infanto-juvenis em seus lares, a biblioteca escolar tem a grande probabilidade de ser o primeiro con- tato com os livros que os estudantes terão (ROSA; NUNES, 2011). Por fim, Rosa e Nunes (2011, p. 5) atestam que o êxito da biblioteca no contato e no estímulo à leitura de livros infanto-juvenis “[...] depende do acervo biblio- gráfico e do profissional que nela atua”. 5.4 OS CANTINHOS DE LEITURA Outro espaço voltado ao ato de ler é o “cantinho de leitura”. Também chama- do de “biblioteca da sala”, “estante mágica”, “baú de leitura”, Souza e Cosson (2018, p. 101) afirmam que esse espaço [...] é composto com os livros dispostos em estantes, caixas e/ou baús – daí derivando as distintas denominações – na própria sala de aula para leitura individualizada dos alunos. Quanto menores são os alunos, mais bem elaborado é este espaço, podendo ir de almofadas com tapetes, confortáveis divãs, iluminação especial e itens diversos de decoração nas salas da Educação Infantil, até uma simples caixa deixada em um canto da sala de aula dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Se você quiser fazer uma leitura complementar sobre o papel da biblioteca não só em relação à literatura infanto-juvenil mas também à escola como um todo, indicamos o artigo científico “A função da biblioteca na escola”, de Luciana Ferreira. Veja em: https://periodicos.ufrn.br/informacao/article/ view/13302/9527. 84 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 8 - EXEMPLO DE CANTINHO DE LEITURA EM UMA ESCOLA MUNICIPAL DE SANTA CATARINA Fonte: Secretaria Municipal de Porto União (2020) Nesse viés, as autoras atestam que ele almeja [...] oferecer a leitura diretamente em sala de aula e não na biblioteca ou até substituí-la quando não tem uma na escola e tornar os livros mais acessíveis para os alunos (SOUZA; COSSON, 2018, p. 101). Em relação ao acervo bibliográfico, em particular o de livros literários infanto- -juvenis, tais espaços possuem uma quantidade variável de obras, sendo, por muitas vezes, feitos de maneira coletiva, ou seja, os professores, os estudantes e até a própria biblioteca escolar, se houver, contribuem para a oferta de livros no cantinho de leitura. FIGURA 9 - A COMPOSIÇÃO DO ACERVO NO CANTINHO DE LEITURA É COLETIVO Fonte: Plataforma Deduca (2020) 85 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Todavia, Souza e Cosson (2018, p. 101) chamam a atenção para o fato da pre- sença do profissional de educação nesse espaço, uma vez que “[...] confunde- -se o dar acesso ao livro com o trabalho pedagógico de formação do leitor”. Colocando em outras palavras, não é que se deve “[...] recusar a leitura inde- pendente como atividade inadequada na escola” (SOUZA; COSSON, 2018, p. 101), mas sim que é necessário que o professor faça a mediação desse pro- cesso, de modo que este esteja fundamentado em propostas pedagógicas associadas ao fomento do hábito da leitura, em particular às obras literárias infantis e juvenis. 5.5 PROPOSTAS DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS INFANTIS E JUVENIS APLICÁVEIS À ESCOLA I Após discutirmos o papel do docente, sobretudo dos profissionais associados à Língua Portuguesa, no que tange ao estímulo do hábito de leitura, bem como conhecermos sobre os espaços de leitura no qual isso pode ocorrer, vamos agora abordar algumas propostas que podem ser empregadas pelos professores para tal fim. Inicialmente, é relevante frisar que uma maneira eficiente de fomentar o há- bito da leitura, em especial nos anos finais do Ensino Fundamental (segmen- to em que o profissional de Letras começa a atuar), é pela contação de histó- rias (CAGNETI; SILVA, 2013). Se você quiser saber mais acerca da potencialidade que o cantinho de leitura possui, indicamos o seguinte artigo científico: http://www.editorarealize.com.br/revistas/fiped/ trabalhos/Modalidade_1datahora_16_06_2014_20_27_24_ idinscrito_1866_86c9e35a65fbf5dcb61fcad1773b3208.pdf 86 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 10 - HÁBITO DA LEITURA E A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) De acordo com Saraiva (2008, p. 52), a narrativa, ainda mais as ligadas ao uni- verso literário infanto-juvenil, proporciona ao leitor o “[...] confronto do mundo do texto com o mundo do real”, gerando curiosidade e interesse em quem lê. Assim, à medida que a curiosidade e o interesse crescem pelas histórias, desenvolve-se o hábito de leitura. Dessa forma, depois de entendermos a relevância da contação de histórias, vamos orientar acerca de alguns aspectos ligados à formação das propostas de contação de histórias. 5.5.1 A LEITURA COMPARTILHADA A leitura compartilhada, na visão de Brasil (2017), é uma atividade que envolve a leitura coletiva mediada pelo professor junto com os estudantes. FIGURA 11 - A LEITURA COMPARTILHADA Fonte: Plataforma Deduca (2020) 87 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.Uem 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Em geral, ela é feita oralmente a partir de uma obra, enquanto os alunos a ou- vem. No entanto, isso não ocorre passivamente. Durante esse ato, o professor pode interagir e instigar os estudantes por meio de questionamentos e inda- gações sobre alguma passagem da obra ou personagem etc. Portanto, nesse formato, o que é mais importante é o processo do que o pro- duto, ou seja, as interações feitas entre estudantes e o professor são essenciais no que diz respeito ao incentivo e à construção do hábito de ler. A seguir, você pode ver algumas técnicas as quais você pode empregar na prática da leitura compartilhada. 1. Destaque a ação de algum personagem: Você pode questionar os estudantes sobre algum comportamento de algum(ns) personagem(ns), ainda mais se este(s) estiver(em) diante de um dilema. 2. Instigue o estudante a encenar uma passagem: Após ler uma passagem do livro, você pode instigar um estudante, ou pequeno grupo, a encenar uma passagem na qual ele(s) devem considerar elementos corporais e expressivos. 3. Ressalte a temática: Depois da leitura compartilhada, você pode provocar os estudantes a refletirem sobre a temática abordada, relacionando-a à realidade deles, ou seja, se ela é próxima, distante etc. 4. Procure outros livros: Caso esteja na biblioteca escolar ou no cantinho de leitura, você pode perguntar aos estudantes se existe uma outra obra literária infanto- juvenil que possui um tema parecido com o que foi lido em conjunto. Ao procurarem, você pode questionar o que há de semelhante ou de diferente. 88 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 5.6 PROPOSTAS DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS INFANTIS E JUVENIS APLICÁVEIS À ESCOLA II Além da leitura compartilhada, podemos orientar um outro tipo: a leitura continuada. Esse tipo de leitura consiste no sequenciamento de narrativas, ou seja, o professor inicia uma história e cada estudante narra uma parte dela. FIGURA 12 - A LEITURA CONTINUADA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Esse tipo de proposta envolvendo a leitura é relevante, uma vez que os estu- dantes participam ativa e colaborativamente da construção da narrativa. Não só eles ficarão mais engajados com a obra narrada, mas também, depois disso, o professor pode orientar a turma a ler a obra escrita e compará-la com o que foi construído de forma coletiva. Se você quiser se aprofundar mais sobre esse tema, sugerimos o artigo científico “Leitura compartilhada: primícia da formação de leitores e escritores”, de Maria da Conceição Rosa. O link é: http://www.cap.uerj.br/site/ images/stories/noticias/xsesc/leitura-compartilhada.pdf 89 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL É interessante também, nesse processo de criação coletiva, que o professor oriente os estudantes a manterem alguns elementos da narrativa, a exemplo do narrador, com o intuito de que a corência do texto seja preservada. Aliás, caso você não se lembre dos elementos da narrativa, confira no item a seguir: 1. Narrador: A voz narrativa da história. Em geral, ele pode ser narrador em primeira pessoa (participante) ou em terceira pessoa (observador). 2. Enredo: Enredo é o assunto tratado na história. 3. Personagens: São os agentes que interagem na narrativa. Eles não necessariamente são pessoas, podendo ser animais, seres inanimados etc. 4. Tempo: Diz respeito à passagem temporal dos acontecimentos. Ele pode ser cronológico (linear) ou psicológico (em consonância com o pensamento do autor). 5 Ambiente: São cenários nos quais a narrativa ocorre. 90 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL CONCLUSÃO Nesta unidade, você viu o quanto a relação entre professor, a literatura e o contar histórias é intrínseca, visando à construção do hábito da leitura. Assim, inicialmente, vimos a importância que o professor, em sua atuação na sala de aula, tem no que se refere ao contato com os livros, principalmente os de literatura infanto-juvenil, e ao estímulo da leitura. Também vimos que, além de ter um planejamento de uma atividade peda- gógica de estímulo à leitura, é relevante que o professor conheça e leve em consideração os espaços de leitura, uma vez que eles desempenham uma função importante para o ato de ler. Sobre isso, vimos dois tipos: os espaços formais e os não formais. Em relação aos primeiros, conhecemos mais as ca- racterísticas da biblioteca escolar e do cantinho de leitura. Por fim, propomos a vocês algumas atividades de estímulo à leitura abarcan- do, principalmente, a contação de histórias infanto-juvenis a partir da leitura compartilhada e da leitura continuada. Desse modo, acreditamos que, com esse embasamento teórico e prático, vocês possam estar mais preparados para lidar com isso no futuro cotidiano escolar. Se você quiser conhecer um pouco mais sobre os elementos da narrativa, sugerimos o livro de Cândida Gancho: Como analisar narrativas (2008). UNIDADE 6 91 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: LITERATURA INFANTO-JUVENIL > Discutir aspectos essenciais ligados aos textos literários infantis e juvenis; > Refletir sobre a linguagem verbal e não verbal nesse tipo de textos; > Conhecer os principais gêneros textuais literários infantis e juvenis. 92 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 6 PRINCIPAIS ASPECTOS E GÊNEROS TEXTUAIS LIGADOS À LITERATURA INFANTIL E JUVENIL INTRODUÇÃO DA UNIDADE Nesta unidade, você terá acesso aos principais aspectos e gêneros textuais li- gados à literatura infantil e juvenil. Portanto, buscaremos aqui fazer uma refle- xão acerca dos aspectos essenciais ligados às obras destinadas a esse público, questionar sobre a linguagem verbal e não verbal nesses livros, bem como vamos também apresentar os principais gêneros textuais desse universo. Fazer isso é importante, pois, nesta parte, você vai se aprofundar mais sobre os livros literários infanto-juvenis a partir de tais aspectos, os quais são recor- rentes e também são fatores essenciais na configuração e na leitura dos livros. Assim, em primeiro lugar, esmiuçaremos a discussão entre a realidade e a fantasia no texto para crianças, observando como isso interfere na leitura e também no próprio leitor. Em segundo lugar, veremos o humor tanto na po- esia quanto na prosa, percebendo suas características nas obras infanto-juve- nis. Em terceiro lugar, daremos enfoque aos contos de fadas, gênero sempre presente nesse tipo de literatura. Prosseguindo, em quarto lugar, priorizaremos a poesia, notando como os ver- sos e suas características impactam os leitores. Em quinto lugar, apresentare- mos o conceito de histórias sem texto, vendo suas singularidades e caracterís- ticas principais. Por fim, veremos a ilustração do livro para crianças e como ela se relaciona na composição do texto voltado aos pequenos leitores. 6.1 REALIDADE E FANTASIA NO TEXTO PARA CRIANÇAS Iniciando o aprofundamento dos aspectos dos textos infanto-juvenis, o pri- meiro aspecto que vamos discutir envolve a realidade e a fantasia. Embora sejam dois conceitos complexos e instigantes, procuraremos dar uma abor- dagem mais didática e voltada ao contexto literário infanto-juvenil. 93 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 1 - REALIDADE E FANTASIA NA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020) Em primeiro lugar, devemos relembrar o que expusemos antes sobre as nar- rativas proporcionarem o contraste do mundo ficcional com o mundo real, instigando, assim,o interesse pela leitura (SARAIVA, 2008). Somado a isso, esse contraste da fantasia presente nas páginas de obras in- fanto-juvenis proporciona às crianças transformações profundas nelas pró- prias, uma vez que [...] a literatura instaura-se no trabalho com a linguagem, reveladora de pistas para a ideação da vida não tal qual ela é, mas como ela pode ser. Daí a sua perenidade. (AGUIAR, 2014, p. 18) FIGURA 2 - A TRANSFORMAÇÃO DO LEITOR POR MEIO DA FANTASIA E DA REALIDADE NOS TEXTOS INFANTO-JUVENIS Fonte: Plataforma Deduca (2020) 94 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Ainda sobre isso, a autora complementa, dizendo que Por essas razões, a arte literária é o espaço da imaginação, do lúdico, da liberdade. Aceitando o pacto ficcional proposto pelo autor, invento novos mundos, experimento emoções jamais sentidas e descubro-me capaz de correr riscos, alargar limites, enriquecer meu cotidiano e projetar caminhos. Ao término da leitura, não sou a mesma de antes, porque tenho comigo os resultados da experiência vivida, equilibrada na linha que une fantasia e realidade. (AGUIAR, 2014, p. 18) Por conseguinte, a fantasia e a realidade nos textos infanto-juvenis provocam transformações nos seus leitores, não só oferecendo experiências e vivências distintas, as quais contribuem para o desenvolvimento, mas também favore- cendo diretamente a transformação e o amadurecimento deles. 6.2 O HUMOR Outro aspecto associado aos textos infanto-juvenis é o humor. Muito explo- rado em diversas produções, seja na prosa, seja na poesia etc., a comicidade, além de garantir boas risadas, fornece ludicidade à leitura (MACHADO, 2014). FIGURA 3 - O HUMOR NOS TEXTOS INFANTO-JUVENIS Fonte: Freepik (2020) Ficou curioso sobre a relação entre fantasia, realidade e literatura infantil? Confira o seguinte vídeo: https://www. youtube.com/watch?v=4p4FaujoxKY. 95 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Segundo Machado (2008), as situações cômicas proporcionam o lúdico à lei- tura, facilitando-a, além de dar mais prazer a quem lê. Além disso, os diálogos, narrativas, versos etc. que contêm humor possuem uma construção linguística complexa, estimulando e desenvolvendo a interpretação textual dos leitores. Outro fator que merece destaque em relação ao humor é a aplicação deste nas releituras dos contos de fadas. Tais contos são refeitos com uma carga hu- morística maior e também produzem críticas aos comportamentos, inclusive, presentes na sociedade atual. FIGURA 4 - HUMOR COMO RELEITURA DOS CONTOS DE FADAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) Caso queira ler mais sobre os novos contos de fadas, principalmente com seu viés cômico, indicamos o trabalho de Vidal (2006) denominado Príncipes, princesas, sapos, bruxas e fadas: os “novos contos’ de fadas ensinando sobre como ser e viver na contemporaneidade. 96 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 6.3 OS CONTOS DE FADAS O próximo aspecto das obras literárias infanto-juvenis de que trataremos diz respeito a um dos gêneros textuais mais conhecidos: os contos de fadas. Para Vale (2008), eles surgiram na Europa a partir do século XVII, com os autores Charles Perrault, os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. FIGURA 5 – CHAPEUZINHO VERMELHO E OS CONTOS DE FADAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) Ainda de acordo com a autora, essas narrativas possuem uma origem folclóri- ca, ou seja, são originárias do povo europeu. Além disso, ela nos mostra que a constituição dessas histórias possui certa similaridade. Elas contêm persona- gens reais, como crianças, jovens, adultos, princesas, príncipes, até seres irre- ais, como anões, gigantes, duendes, bruxas etc. Sobre isso, Vale destaca que Esses seres são considerados tipos, pois se apresentam com virtudes ou defeitos exageradamente destacados. Assim, personificam o orgulho, a modéstia, a covardia, a feiura, a beleza, a bondade, a maldade. Suas características evidenciam-se no desenvolvimento da trama e interferem no destino dos protagonistas, na medida em que o bem triunfa sobre o mal, a coragem sobre a covardia, o belo sobre o feio, a modéstia sobre a prepotência. (VALE, 2008, p. 47) 97 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Em virtude disso, a autora também enfatiza a característica da transmissão dos valores relacionada aos contos de fadas, ou seja, devido a esse alto grau de simbolismo e de representação que as personagens detêm, os contos de fa- das conseguem, pela leitura, veicular valores sociais aos leitores (VALE, 2008). FIGURA 6 - LEITURA DE CONTOS DE FADAS E A TRANSMISSÃO DE VALORES Fonte: Plataforma Deduca (2020) A pesquisadora ainda nos mostra que os contos de fadas tradicionais pos- suem uma estrutura relativamente simples, a qual é feita a partir das seguin- tes etapas: 1. Situação inicial de equilíbrio; 2. Alteração desse equilíbrio, por conta de uma carência ou conflito por par- te do herói; 3. Apresentação das peripécias do herói que, com a ajuda dos seres/objetos mágicos, vence os obstáculos; 4. Por fim, é instaurada outra situação de equilíbrio. Se você se interessou sobre a questão da influência que os contos de fadas possuem em relação ao comportamento das crianças, indicamos o livro A psicanálise nos contos de fadas, de Bruno Bettelhein (2009). 98 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 6.4 A POESIA Outro aspecto relevante dos textos infanto-juvenis é a poesia. Diferentemen- te da prosa, a poesia explora mais aspectos estéticos da linguagem, como a rima, o ritmo, as figuras de linguagem etc. a fim de que o autor possa expres- sar suas inquietações e emoções de maneira única e singular. FIGURA 7 - POESIA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Aliás, esse fato se torna ainda mais interessante ao tratarmos das obras infan- to-juvenis na modalidade da prosa. Segundo Mello (2008, p. 61), o autor dessas obras deve suprimir “[...] o posicionamento adultocêntrico e assumir o ponto de vista infantil, expressando as aspirações e os sentimentos da criança, isto é, falando por ela”. FIGURA 8 - POESIA INFANTO-JUVENIL E A SUPRESSÃO DO POSICIONAMENTO ADULTOCÊNTRICO Fonte: Plataforma Deduca (2020) 99 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Nesse contexto, devido a esse diferencial, o autor, ao assumir a “voz” de uma criança, pode desenvolver uma linguagem mais inventiva e criativa, porém não menos complexa, como você pode ver a seguir: 1. Exemplo de poema infanto-juvenil “Voo”, de Cecília Meirelles: Alheias e nossas as palavras voam. Bando de borboletas multicores, as palavras voam. Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, as palavras voam. Voam as palavras Como águias imensas. Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam. Oh! Alto e baixo Em círculo e retas Acima de nós, em redor de nós As palavras voam. E às vezes pousam. 2. A análise do poema infanto-juvenil: Esse é um exemplo de poema em que o autor assume a voz infantil, expressando de maneira criativa o voo em suas diversas formas, seja das borboletas, das andorinhas, das gaivotas etc. De maneira aparentemente ingênua, o eu lírico trata nos versos das diversas formas de voar, mobilizando vários sentidos para isso. Outra questão que podemos pontuar acerca da poesia nos textos infanto-ju- venis é que eles, ao trabalharem a linguagem em seus versos, desenvolvem no leitor [...] a imaginação em movimento. Em todo texto poético, existe uma imaginação que se expressa através de imagens: essas acrescentam a um sentido primeiro,literal, um sentido analógico ou simbólico. (VALE, 2008, p. 64) 100 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 6.5 HISTÓRIAS SEM TEXTO Outro aspecto que podemos abordar no texto literário infantil e juvenil são as chamadas histórias sem texto. Também chamadas de narrativas por imagens, as histórias sem texto são obras “[...] sem enunciado verbal” (VALE, 2008, p. 43), apenas com figuras. FIGURA 9 - HISTÓRIAS SEM TEXTO Fonte: Plataforma Deduca (2020) Isto é, são narrativas “[...] apresentadas unicamente por imagens visuais, e o leitor vai construindo episódios ou pequenos relatos a partir das ilustrações, de acordo com sua fantasia e experiência de vida” (VALE, 2008, p. 43). Elas começaram a ser desenvolvidas em 1970, no Brasil, sendo já feitas em outros lugares do mundo. Inclusive, Nessas obras, as situações expressas nas gravuras têm estreita relação com o cotidiano infantil. Algumas dessas narrativas apresentam cenas isoladas, como “Ai que fome” [...], de Eva Furnari (1984), em que a ilustração mostra uma cozinha e a sala de jantar. (VALE, 2008, p. 43) Ainda de acordo com Vale (2008), a leitura dessa obra também é importante, uma vez que não só instiga a imaginação da criança como também, a partir da imagem, quem a lê pode desenvolver outras histórias originando-se daquela. 101 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 10 - INVENÇÃO DE NARRATIVAS POR MEIO DAS HISTÓRIAS SEM TEXTO Fonte: Plataforma Deduca (2020) 6.6 A ILUSTRAÇÃO DO LIVRO PARA CRIANÇAS O último aspecto sobre os textos literários infanto-juvenis diz respeito às ilus- trações dos livros destinados a tal público. De acordo com Vale (2008), nesses livros as ilustrações têm a função de complementar o texto escrito e compor a obra como um todo. Inclusive, por meio delas, também é possível contar histórias, bem como in- centivar os leitores a lerem os livros, uma vez que, devido às cores, aos traços, às formas etc. nas capas, ou no próprio miolo, a atenção dos pequenos leitores é despertada. Caso queira saber mais sobre isso, indicamos o artigo “Ler livros sem palavras, ler imagens e mundos”, de Daniela Segabinazi. Confira em: http://www.revistas.udesc.br/ index.php/linhas/article/view/1984723818372017022. 102 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 11 - ILUSTRAÇÃO NO LIVRO INFANTIL Fonte: Shutterstock (2020) Além disso, existem também outros elementos visuais que auxiliam as ilustra- ções. Trata-se dos recursos tipográfi cos, como você pode ver a seguir: 1. Fonte da letra: É um conjunto de caracteres, não só letras, com os mesmos atributos e tamanhos. 2. Tamanho: É essencial também aos olhos dos leitores, pois, dependendo da idade, as letras devem ser maiores e mais curtas, afetando, também, a dimensão das fi guras. 3. Espaçamentos: São os espaços entre as letras, as palavras, as linhas e os parágrafos. Dependendo do tamanho, pode interferir na leitura da obra. 103 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Um exemplo de um elemento que engloba os recursos tipográfi cos são as le- tras capitulares: aquelas maiores, mais chamativas e que iniciam os capítulos dos livros. Elas eram muito comuns nos textos medievais e até hoje inspiram os autores a comporem suas obras. FIGURA 12 - LETRAS CAPITULARES Fonte: Elaborada pelo autor (2020) De qualquer modo, é importante que você tenha em mente que, de igual forma que as fi guras, os recursos tipográfi cos também são importantes na composição das obras e também na leitura delas, seja de narrativas, seja de poesias etc. Logo, é muito importante que você leve em consideração tais ele- mentos no momento em que for utilizá-las nas atividades pedagógicas. Você sabia que o Prêmio Jabuti possui uma categoria específi ca para os ilustradores? Sim, existe. Inclusive, caso queira saber mais, basta verifi car o site: https:// www.premiojabuti.com.br/premiados-por-edicao/ premiacao/?ano=2019&eixo=d30301d0-832b-e811-a837- 000d3ac085f9 104 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL CONCLUSÃO Nesta unidade, pudemos discutir sobre os aspectos e os gêneros textuais es- senciais nas obras literárias infanto-juvenis. Dessa forma, vimos a relação entre fantasia e realidade no texto infantil e juvenil, e como esses gêneros influenciam na transformação do leitor, proporcionando-lhe novas experiências de vida. Além disso, notamos o quanto o humor traz prazer e ludicidade à leitura. Tam- bém vimos as características gerais dos contos de fadas, sobretudo a sua ca- pacidade de transmissão de valores. Somado a isso, pudemos nos aprofundar na poesia e no seu potencial de enriquecer a linguagem. Ademais, estudamos as histórias sem textos, notando como elas contribuem para o desenvolvimento da imaginação das crianças. Por fim, debruçamo- -nos nas ilustrações, evidenciando o quanto elas complementam o texto es- crito e ajudam a compor a obra literária. 105 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL REFERÊNCIAS AGUIAR, V. T. Leitura e educação: diálogos. In: PAIVA, A. et al. (org.). Literatura: saberes em movi- mento. 2. ed. 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Por muito tempo, ela foi tratada como uma literatura me- nor, isto é, inferiorizada em relação às demais. Todavia, com os avanços das pesquisas, bem como com o crescimento da produção editorial, tais obras não só se multiplicaram mas também se tornaram altamente relevantes. In- clusive, vale destacar que a literatura infanto-juvenil possui sua importância do ponto de vista educacional, na medida em que auxilia na aquisição, no aprimoramento da língua materna e no desenvolvimento também de outras disciplinas escolares, e também do ponto de vista da formação humana, pois transmite e consolida valores sociais às gerações futuras. Portanto, frente a essa desafiadora disciplina, desejamos-lhe um ótimo aproveitamento e que esse material seja proveitoso e benéfico em sua vida acadêmica. UNIDADE 1 11 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: LITERATURA INFANTO-JUVENIL > Definir os principais conceitos relacionados à literatura infantil e juvenil; > Refletir acerca dos critérios de seleção de obras de textos infantis e juvenis; > Conhecer as cinco fases de leitura de textos infantis e juvenis 12 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 1 ASPECTOS TEÓRICOS DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL INTRODUÇÃO DA UNIDADE Nesta unidade, denominada “Aspectos teóricos da literatura infantil e juvenil” ou, ainda, infanto-juvenil, vamos abordar as principais questões conceituais desse universo literário. Devido à extensão e aos vários trabalhos já produzidos sobre o assunto, iremos dar um enfoque mais prático, de modo a introduzir o tema para você, mas sem encerrar a discussão. Diante disso, em um primeiro momento, procuraremos definir a seguinte questão: “O que é literatura infantil e juvenil?”, cujo nome, inclusive, é do pri- meiro tópico. Já no segundo, chamado de “Literatura infantil e juvenil e com- petência linguística do leitor”, refletiremos sobre a linguagem empregada na obra literária para tal público. No terceiro, chamado de “Considerações acerca dos critérios para a seleção de textos infantis”, vamos discutir possíveis para- digmas pelos quais uma obra literária infanto-juvenil pode ser escolhida para determinada faixa etária. Já o quarto, quinto e sexto tópicos representam as cinco fases de leitura ela- boradas por Jardim (2008). Neles, veremos os critérios pelos quais um deter- minado livro literário pode ser utilizado adequadamente para o público leitor infantil e juvenil. 1.1 O QUE É LITERATURA INFANTIL E JUVENIL? A literatura infanto-juvenil, ou infantil e juvenil, é um conceito extremamente amplo, sendo que não queremos, ao refletir sobre alguns aspectos teóricos, limi- tar a discussão e os questionamentos sobre esse ramo da literatura neste tópico. Contudo, embora o seu conceito seja amplo, não podemos desconsiderar não só a sua importância mas também os seus vários benefícios, em particular, para a formação humana. Assim, inicialmente, vamos discutir o surgimen- to da literatura infanto-juvenil para, depois, abordar os principais conceitos relacionados a ela. 13 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Segundo Paiva (2008), a literatura infanto-juvenil está ligada diretamente à concepção de infância e de adolescência ao longo da história, que, inclusive, não foi igual ao longo do tempo. Antigamente, a criança e o adolescente eram tratados como pequenos adultos. Isso pode ser observado, por exemplo, nos quadros da época: FIGURA 1 – QUADRO “CINCO FILHOS MAIS VELHOS DE CHARLES I” DE ANTHONY VAN DYCK Fonte: Wikipedia (2020) No quadro do pintor Anthony van Dyck, feito no séc. XVII, as crianças eram retratadas como adultos pequenos. De igual maneira, elas eram tratadas socialmente. Por conseguinte, na Idade Moderna (me- ados do séc. XVIII), com os avanços das ciências, a percepção sobre a infância e, por sua vez, da adolescência mudou to- talmente. Elas passaram a ser etapas da vida humana relevantes, as quais deman- dam necessidades específicas, além de influenciarem diretamente na formação futura do indivíduo. Caso queira se aprofundar mais nessa discussão sobre a maneira pela qual a infância e a adolescência foram construídas socialmente, sugerimos a obra “História Social da Criança e da Família”, de Philippe Ariès. 14 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 2 – INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA COMO ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Fonte: Freepik (2020) É nesse contexto em que a literatura infanto-juvenil se insere. A principal característica desse tipo de literatura em relação às demais é a maneira pela qual a obra literária é escrita, ou seja, se ela é adaptada para o seu público. Aliás, Paiva (2008, p. 44-45) traz um questionamento relevante sobre isso. Para a autora, existem [...] questões fundamentais da existência humana que atingem crianças com intensidade semelhante à que atinge os adultos. Por trás das nossas costas, pretensamente protetoras, temas como morte, medo, abandono, separação e sexualidade confrontam a criança em seu cotidiano. Portanto, a literatura infanto-juvenil pode abordar dilemas e discussões pro- fundas e complexas, da mesma maneira do que os clássicos adultos. Isso não quer dizer que uma obra dessa natureza tenha de ser infantilizada. Contudo, para que isso ocorra, deve-se ter uma linguagem adequada e ajustada ao lei- tor em questão. 15 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 3 – LITERATURA INFANTO-JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020). 1.2 LITERATURA INFANTIL E JUVENIL, E COMPETÊNCIA LINGUÍSTICADO LEITOR Conforme vimos antes, para se falar acerca da literatura infanto-juvenil é ne- cessário ter em mente a noção de infância e de adolescência. E, como foi discutido, tais conceitos, além de recentes, transformaram a ideia de um “adulto pequeno” para um período da vida humana importante e que requer cuidados especiais. Em virtude disso, a literatura feita na época para adultos deveria ser ajustada para esse novo público, uma vez que eles ganharam um novo status social, bem como necessidades específicas para a sua formação. 16 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 4 – COM O NASCIMENTO DA CRIANÇA, NASCE A LITERATURA INFANTO-JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020). Por conta disso, o fator linguístico das obras literárias infanto-juvenis é decisi- vo, porque, dependendo da linguagem empregada nas criações literárias, o leitor dessa idade não conseguirá lê-las, muito menos compreendê-las. Ainda sobre isso, outro fator diferencial da literatura infanto-juvenil é a possi- bilidade de se utilizar os mais variados tipos de linguagem em sua composi- ção (PAIVA, 2008). Em livros desse tipo, podemos encontrar o texto escrito e também figuras, desenhos, animações etc., fato que pode desenvolver con- sideravelmente a formação e a competência leitora (isso será mais explorado nos tópicos seguintes). Porém, é importante destacar aqui que, embora essa linguagem seja adap- tada ao público infanto-juvenil, não significa que não possa ser enriquecedo- ra, complexa e instigante. Um exemplo que mostra esse fenômeno é a obra “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. 17 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 5 – O PEQUENO PRÍNCIPE, DE ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY Fonte: Folha (2020) Embora ele pertença à literatura infanto-juvenil, em sua narrativa, a criança e o jovem podem encontrar uma linguagem intensamente elaborada, com uma carga metafórica signifi cativa, sem falar da abordagem de temas caros ao ser humano, como a amizade, o medo, a empatia, a morte etc. Logo, as obras literárias destinadas a esses leitores devem considerar, bem como res- peitar, o nível e a capacidade linguística voltados a seus leitores e leitoras. Todavia, após discutirmos a questão da linguagem relacionada à capacidade linguística dos leitores infantis e juvenis, é comum surgir uma questão: como escolher obras literá- rias infanto-juvenis? Em relação a essa indagação frequente, sobretudo para os(as) docentes da edu- cação básica, procuraremos desenvolver algumas reflexões nos próximos tópicos. No link a seguir, a professora Patrícia Lopes comenta um pouco mais sobre a obra “O Pequeno Príncipe”. Confi ra em: https://www.youtube. com/watch?v=7AP_0GJnLss. 18 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 1.3 CONSIDERAÇÕES ACERCA DOS CRITÉRIOS PARA A SELEÇÃO DE TEXTOS INFANTIS Segundo o que foi explorado anteriormente, a seleção de textos para o públi- co infanto-juvenil, em especial para as crianças, mostra-se um desafio singu- lar, ainda mais no caso do contexto da educação básica. FIGURA 6 – QUAL LIVRO ESCOLHER? Fonte: Plataforma Deduca (2020). Em relação a isso, neste tópico, refletiremos sobre alguns critérios possíveis de serem utilizados. Segundo Jardim (2008, p. 66), a oferta de livros para tal público é extensa atualmente, contendo [...] livros dos mais diferentes formatos e materiais, com ilustrações coloridas e atraentes, figuras que muitas vezes se movimentam, alguns com recursos sonoros: aperta-se um botão e o livro se enche de música, ou se ouve a fala das personagens. Realmente, esse crescimento é considerável. Só para você ter uma noção, em 2016, a venda de livros literários infanto-juvenis aumentou 28%. Caso queira se aprofundar sobre esse panorama, sugerimos a reportagem “Livros infantis ganham espaço no mercado brasileiro”, da Agência Brasil. Confira em: http:// agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2017-04/livros-infantis-ganham- -espaco-no-mercado-brasileiro. 19 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Entretanto, ainda de acordo com a autora, embora exista uma grande quan- tidade, o conteúdo da produção em si acaba sendo [...] menos importante do que a parafernália audiovisual oferecida ao leitor (JARDIM, 2008, p. 66). FIGURA 7 – QUALIDADE DA PRODUÇÃO EDITORIAL DE OBRAS INFANTO-JUVENIS Fonte: Plataforma Deduca (2020). Portanto, dependendo da escolha feita, o que deveria ser uma ação benéfica, a qual iria impactar positivamente na formação da criança e do adolescente, poderá não surtir o efeito desejado. FIGURA 8 – CONSEQUÊNCIAS DE UMA ESCOLHA INADEQUADA DE LIVRO INFANTO- JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020). 20 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Logo, diante desse cenário desafiador, vamos refletir acerca dos critérios de seleção de livros de literatura infanto-juvenil. O primeiro aspecto que o(a) professor(a) deve levar em consideração é ter estabelecido objetivos claros para o trabalho que irá desenvolver, ou seja, a finalidade pedagógica que se pretende desenvolver com a obra selecionada (JARDIM, 2008, p. 66). Depois que isso foi definido, existe o segundo aspecto que deve ser obser- vado: a idade do leitor. Na visão de Jardim (2008), existe um conjunto de ca- racterísticas em um livro que, se atendido, torna a obra mais adequada para determinada faixa etária da criança. Com o intuito de organizar melhor tal seleção, Jardim, a partir dos estudos de Shliebe-Lippert e A. Beinlich, estabeleceu cinco fases de leitura. 1.4 PRIMEIRA FASE DE LEITURA DE TEXTOS INFANTIS A primeira fase de leitura, segundo Jardim (2008), vai dos dois até os cinco ou seis anos de idade. Para ela, “Nessa fase, a criança faz pouca distinção entre o mundo exterior e o interior, vivendo um período de grande egocen- trismo” (JARDIM, 2008, p. 68). Caso você não se lembre desse conceito, veja o item a seguir: 1. Conceito de egocentrismo Criado por Jean Piaget, o egocentrismo, fenômeno que ocorre entre o segundo até o sexto ano de vida, é a incapacidade de a criança não reconhecer e de se colocar no lugar do outro. 21 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 2. Jean Piaget Biólogo suíço do século passado, que contribuiu muito para a psicologia e, sobretudo, para a pedagogia, é um dos principais nomes do Construtivismo. Outra singularidade dessa fase, segundo a autora, é o “[...] pensamento mágico (JAR- DIM, 2008, p. 68), isto é, a imaginação da criança está disponível, a fi m de que ela interaja com a realidade, produzindo novas possibilidades de expressão e de interpretação na criança, as quais são importantes para o seu desenvolvimento. FIGURA 9 – PENSAMENTO MÁGICO DAS CRIANÇAS Fonte: Plataforma Deduca (2020). Fonte: Centre Culturel Suisse - Paris (2020) Se quiser saber mais sobre esse conceito piagetiano, indicamos o artigo científi co “Piaget: do egocentrismo (História de um conceito)”, de Jair Fonzar. 22 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Por isso, os livros de literatura infanto-juvenil devem ter textos escritos curtos, por conta da alfabetização, mas também conter [...] gravuras que apresentem objetos simples, isolados, pertencentes ao meio em que a criança vive e que possam ser identificados por ela (brinquedos, animais, etc.) (JARDIM, 2008, p. 68). Por último, a autora ainda comenta que outro fator interessante associado a livros dessa fase é que esses contenham e estimulem [...]brincadeiras que envolvam parlendas, quadrinhas e cantigas de roda, já que a criança gosta de versos infantis em virtude do ritmo, do jogo de palavras e de sons (JARDIM, 2008, p. 68). 1.5 SEGUNDA E TERCEIRA FASES DE LEITURA DE TEXTOS INFANTIS A segunda fase de leitura corresponde à idade entre cinco ou seis anos até os nove anos. De acordo com Jardim (2008, p. 68), essa idade seria a “idade de leitura de realismo mágico”, ou seja, um afloramento da capacidade imagina- tiva e criativa iniciada na fase anterior. No que diz respeito a isso, Trata-se de um período em que a criança deixa-se levar pela fantasia. É a idade dos contos de fadas. Prevalece, ainda, no texto poético o gosto pelo ritmo e pelas rimas (JARDIM, 2008, p. 68). FIGURA 10 – LEITURA DE REALISMO MÁGICO Fonte: Plataforma Deduca (2020). 23 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Dessa forma, livros literários que tenham recursos os quais instigam a imagina- ção da criança são relevantes para essa fase, principalmente se apresentarem em suas capas e páginas elementos comuns ao ambiente dela (brinquedos, membros da família etc.). Além disso, é interessante que o conteúdo escrito seja voltado para uma te- mática da fantasia, em especial aos contos de fada. Caso estes sejam em ver- so, é vantajosa a presença de rimas, bem como de outros recursos estilísticos sonoros, como aliterações, assonâncias e onomatopeias. Aliás, vale relembrar brevemente tais recursos sonoros: 1. Aliterações: Consiste na repetição de sons consonantais nos versos. 2. Assonâncias: Representa a repetição de vogais ao longo do poema. 3. Onomatopeias: É a reprodução escrita de sons presentes no nosso cotidiano. Já a terceira fase de leitura vai dos nove até os 12 anos. Para saber mais acerca dos recursos estilísticos sonoros usados na poesia infanto-juvenil, indicamos o artigo científico “Poesia infantil: uma linguagem lúdica”, da professora da UEM Maria de Lourdes Gonçalves, cujo link é: http://www.pucrs.br/edipucrs/ CILLIJ/praticas/POESIA_INFANTIL_OK.pdf. 24 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 11 – TERCEIRA FASE DE LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020). Segundo Jardim (2008, p. 68), a criança nessa faixa etária inicia um processo de configuração de “[...] uma fachada prática, realista, ordenada racionalmente, diante de um fundo mágico-aventuresco pseudorrealisticamente mascarado”. Complementando, a autora nos diz que esse público “Continua o interesse por contos de fadas e sagas, mas o leitor começa a buscar as histórias de aven- tura” (JARDIM, 2008, p. 68). Nesse sentido, as crianças dessa fase começam a transitar entre a infância e a adolescência, desenvolvendo ainda mais o pen- samento racional e crítico. Em virtude disso, é interessante que as obras literárias desse grupo etário não só foquem apenas em contos de fada, mas que comecem a abordar histórias envolvendo aventuras, em especial com personagens marcantes e notáveis. 1.6 QUARTA E QUINTA FASES DE LEITURA DE TEXTOS JUVENIS A quarta fase ocorre entre 12 até os 14 ou 15 anos. Conforme Jardim (2008, p. 68), “Nesse período, o pré-adolescente, pouco a pouco, toma consciência da própria personalidade”. 25 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Por conta disso, é recorrente o aparecimento do conflito não só do pré-adoles- cente com o outro mas também com ele próprio. FIGURA 12 – QUARTA FASE DE LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020). Somado a isso, essa fase de leitura é marcada pela “[...] leitura não psicológica orientada para o sensacionalismo” (JARDIM, 2008, p. 68). Quando a autora utiliza “sensacionalismo”, ela almeja evidenciar que, nessa fase, os aconteci- mentos e os eventos impactantes são mais procurados pelos(as) leitores(as). Desse modo, os livros que contenham narrativas com um enredo mais sur- preendente e chocante, principalmente que abordem histórias de amor, dra- máticas etc., são mais indicados para esse público. Inclusive, o interesse pela poesia acaba decaindo nesse período. Por fim, temos a quinta e última fase de leitura. Ela vai dos 14 até os 17 anos, ou seja, a adolescência definitiva. Já parou para refletir sobre o período da pré- adolescência? A fim de contribuir para essa reflexão, sugerimos o link https://www.youtube.com/ watch?v=nNzro3qr5Bk. 26 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 13 – QUINTA FASE DE LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020). Consoante Jardim (2008), nessa fase ocorre o “desenvolvimento da esfera es- tética-literária da leitura”. De acordo com a autora, Nesse período, o leitor já é capaz de valorizar, além da trama, a forma e o conteúdo das histórias. O interesse pelo mundo exterior começa a ser substituído pela participação no mundo interior e no mundo dos valores. (JARDIM, 2008, p. 68) Além disso, segundo a autora, A leitura passa a ser bem mais diversificada e abrange histórias de aventura de conteúdo mais intelectual, livros de viagens, romances históricos, biografias, histórias de amor, atualidades, literatura engajada, etc. (JARDIM, 2008, p. 68) Logo, nessa fase, obras literárias as quais abordem histórias de aventura, ro- mances de época, biografias sobre pessoas de destaque na mídia etc. são indicadas para o público dessa faixa etária. Outro fator importante é a quan- tidade de texto escrito. Nesse período, obras com parágrafos mais longos po- dem aparecer sem problemas. Aliás, antes de encerrar este tópico, gostaríamos de dar algumas dicas que estimulam o hábito da leitura no público infanto-juvenil. 27 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 14 – HÁBITO DA LEITURA Fonte: Plataforma Deduca (2020). Os pais devem ler junto com os filhos: As crianças são seres miméticos, ou seja, imitam o mundo à sua volta. Se os pais têm esse hábito em casa, certamente elas vão adquiri-lo ao longo da vida. Rodas de leitura nas escolas: A leitura compartilhada e dentro da sala de aula é um importante recurso didático para o estímulo da leitura. Apresentação da biblioteca: Caso não tenha na escola, procure uma biblioteca pública. Indicação de filmes adaptados de livros: Indique filmes para o(a) estudante e, depois, oriente-o(a) a ler a obra original. 28 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL CONCLUSÃO Esta unidade teve como objetivo definir os aspectos teóricos básicos da litera- tura infanto-juvenil. Conforme vimos, ela se diferencia, em particular, pela lin- guagem adaptada aos pequenos e jovens leitores, sendo que temas mais com- plexos e profundos podem ser igualmente tratados em suas histórias e versos. Além disso, podemos ver os possíveis critérios os quais, divididos em cinco fa- ses, visam selecionar uma obra, de acordo com o planejamento pedagógico do docente, e, principalmente, em relação à faixa etária do leitor. Por conse- guinte, de posse desses conceitos, esperamos que você dê os primeiros pas- sos no universo literário infanto-juvenil mais firmes e também esteja mais preparado(a) para aplicar tal conhecimento em sala de aula. UNIDADE 2 29 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: LITERATURA INFANTO-JUVENIL > Descrever, brevemente, a trajetória histórica da literatura infantil e juvenil brasileira; > Compreender o contexto histórico desse tipo de literatura no Brasil; > Relacionar os eventos históricos com as produções literárias infantis e juvenisde cada época. 30 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 2 BREVE TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL BRASILEIRA INTRODUÇÃO DA UNIDADE A unidade “Breve trajetória histórica da literatura infantil e juvenil brasileira” busca proporcionar um panorama histórico da evolução das obras literárias destinadas a esse público em território nacional. Considerando isso a partir de Becker (2008), Cavéquia (2013) e Coelho (2010), dividimos essa trajetória em seis partes. O primeiro período vai do final do século XIX ao início do XX. O segundo perío- do contempla de 1920 até 1950. Depois disso, temos o terceiro período, o qual vai de 1950 até 1960. Em seguida, há o quarto período, cuja duração é de 1970 até 1980. O quinto período começa em 1990 e prossegue até o ano 2000. Por fim, o sexto e último período representa o início do século XXI. Desse modo, vamos observar tanto as características histórico-sociais e cultu- rais, quanto as propriamente literárias e da linguagem feitas em cada época delimitada anteriormente, com o intuito de refletirmos acerca dos impactos gerados por tais características nas obras produzidas nos referidos contextos. Além disso, também veremos um pouco dos(as) autores(as) que mais se des- tacaram em cada fase. 2.1 FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO XX O primeiro período que iremos estudar referente à trajetória histórica da lite- ratura infanto-juvenil brasileira diz respeito à transição do final do século XIX para o início do século XX. Nesse período, o Brasil vivia também a transição, em nível político, do Império para a República, com a proclamação da República, em 1889, por Marechal Deodoro. 31 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 1 - PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA Fonte: Wikipedia (2020) Caso queira saber mais sobre esse evento histórico, sugerimos o vídeo feito pela professora Maria Aquino. Confira em: https://www.youtube.com/ watch?v=nkKJHFnLIpU No entanto, embora a independência já tenha sido feita, bem como a imple- mentação da república, isso não ocorreu no âmbito da produção editorial das obras literárias infanto-juvenis. Segundo Cavéquia (2012, p. 2): No Brasil, até o século XIX, a literatura destinada a crianças e jovens era importada, sendo majoritariamente constituída de traduções feitas em Portugal. Consistia numa literatura cara e, obviamente, para poucos. Não havia editoras no país e mesmo autores brasileiros tinham seus textos impressos na Europa. Iniciou-se nos primórdios do século XX um movimento em reação a essa situação. Dialogando com Cavéquia (2012), Becker (2008, p. 36) também atesta isso: Delinearam-se, nesse momento, as primeiras tentativas de formação de um público leitor infantil que registrava o caráter norteador das leituras surgidas no Velho Mundo. 32 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 2 - PREDOMÍNIO DE OBRAS LITERÁRIAS IMPORTADAS DO VELHO MUNDO Fonte: Plataforma Deduca (2020) Além disso, os livros de literatura para esse público, de uma maneira geral, tinham um objetivo pedagógico. Sobre isso, Becker (2008, p. 36) afi rma que: O compromisso pedagogizante, que marca a produç ã o dessa é poca, revela a posiç ã o assumida pelos intelectuais, preocupados, nesse momento histó rico, com um projeto: a modernizaç ã o do paí s. Atravé s da escola, acreditavam ser possí vel nã o só atingir esse objetivo, como també m in- centivar a adoç ã o de valores patrió ticos pelo povo, a começ ar pelas crianç as. FIGURA 3 - OBRAS LITERÁRIAS PEDAGOGIZANTES Fonte: Shutterstock (2020) 33 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Confira algumas obras apontadas por Becker (2008), que circulavam nesse período. Inclusive, muitas eram traduzidas, principalmente, por Carlos Jansen e Figueiredo Pimentel. 1. Contos seletos das mil e uma noites, publicado no Bra- sil em 1882. 2. Robinson Crusoé, publicado no Brasil em 1885. 3. Viagens de Gulliver, publicado no Brasil em 1888. 4. Don Quixote de la Mancha, publicado no Brasil em 1901. 2.2 1920 ATÉ 1950 O segundo período referente à história da literatura infanto-juvenil brasileira se refere aos anos 1920 até os anos 1950. Nesse tempo, o Brasil começava a dar seus primeiros passos republicanos. Sabia que um dos principais museus nacionais sobre a república pode ser visitado virtualmente? Se você quiser saber mais sobre ele e esse período da nossa história, acesse o link: http://museudarepublica. museus.gov.br/visita-virtual/ Nessa época, sobretudo na década de 1920, houve uma efervescência políti- ca e cultural em nosso país, com o aumento considerável do sentimento de progresso. Além disso, inicia-se um processo de urbanização do país e um dos reflexos disso é o surgimento e a consolidação de editoras nacionais, bem como do público leitor. Pode-se dizer que, nesse período, começaram a surgir autores nacionais com produções voltadas aos pequenos brasileiros, com destaque para dois: Coelho Neto e Monteiro Lobato. 34 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 4 - MONTEIRO LOBATO Fonte: Nova Escola (2020) Aliás, este último merece uma breve consideração: A criação literária do autor paulista dirigida às crianças centrou-se no receptor e, nessa trajetória, seguia os passos da elite artística, que buscava uma identidade de tipos e de linguagem na produção literária. Adaptaram- se os clássicos, e o folclore constituiu fonte preciosa para revelar um mundo bem brasileiro nos textos infantis. (BECKER, 2008, p. 37) Já na década de 1930, foi implementada a Era Vargas. Em sua duração, um forte pensamento nacionalista se instalou em vários setores da sociedade brasileira. Entre várias medidas impostas, surge o movimento Escola Nova, a fim de implementar uma série de mudanças curriculares e estruturais da educação nacional. FIGURA 5 - INÍCIO DA ERA VARGAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) 35 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Em virtude disso, a produção literária infanto-juvenil teve intensa influência da Era Vargas. Segundo Lajolo e Zilberman (apud BECKER, 2008, p. 38): [...] os autores, nessas décadas, tinham em vista um projeto que se coa- dunava com o espírito norteador do regime autoritário próprio do momento. Para tanto, privilegiaram o espaço rural como cenário para as ações de seus enredos, criaram um elenco de personagens infantis que pudessem transitar de um livro a outro, adaptaram clássicos, inseriram material folclórico e aproveitaram os feitos e figuras da História do Brasil. Além de Coelho Neto e Monteiro Lobato, outros autores também surgiram nessa época (COELHO, 2010): 1. Menotti Del Picchia 2. Malba Tahan 3. Vicente Guimarães 4. Viriato Correia 2.3 1950 ATÉ 1960 O terceiro período se concentra entre 1950 e 1960. No Brasil, durante essa época, houve a transição entre a República pós-Vargas e o início da Ditadura Militar. O período republicano pós-Vargas ainda manteve uma linha nacionalista, com um acentuado crescimento industrial e econômico. Todavia, quando João Goulart foi eleito, acabou herdando problemas econômicos de seu ante- cessor, Jânio Quadros. Além disso, houve uma série de medidas econômicas reformistas de base, inclusive, envolvendo a reforma agrária, fato altamente contrário às elites econômicas da época. Por conta disso, parcelas da população civil, juntamente com a alta cúpula dos militares, depuseram o presidente eleito e deram o golpe militar, insta- lando a ditadura.36 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 6 - DITADURA MILITAR Fonte: Plataforma Deduca (2020) Nesse contexto, além das perseguições, torturas e assassinatos de oposito- res políticos do regime militar, um fato merecedor de destaque foi a imple- mentação do Ato Institucional 5 (AI-5). Basicamente, esse ato não só cassava mandatos políticos e habeas corpus como também censurava a liberdade de expressão, em especial as produções artísticas. Caso queira saber mais acerca do AI-5, orientamos você a assistir ao vídeo da TV Cultura sobre esse fato histórico no seguinte link: https://www.youtube.com/ watch?v=2Wguze1bgMU FIGURA 7 - A DITADURA MILITAR E A CENSURA Fonte: Plataforma Deduca (2020) 37 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Por causa disso, os temas das obras literárias infanto-juvenis desse período acabaram sendo controlados, limitando-se a assuntos como: Destacaram-se entre esses temas o café, encarado como fonte primeira de riqueza, apontando-se o esgotamento das terras e o abandono das instituições públicas como responsáveis pelas mudanças que se operaram. A supremacia da vida urbana sobre a rural foi um segundo tema explorado. A zona campestre se transformou em local para lazer ou férias, mero pano de fundo para as aventuras das narrativas. Seus moradores foram desprestigiados, desprezando- se o homem do campo e sua fala característica. A Amazônia misteriosa mereceu destaque: passou a ser explorada em aventuras, como consequência do poder de comunicação da cultura de massa. (BECKER, 2008, p. 39) Nesse esteio, Becker (2008, p. 39) também nos mostra que outro tema foi bem explorado nos livros de literatura para tal público: a história dos bandeirantes. Com esses temas, transfiguraram-se em propaganda política os acontecimentos da memória nacional. Consideraram-se heróis os bandeirantes, e o oeste revelou riquezas de vulto, justificando-se, assim, a necessidade de empreender a continuação das obras daqueles pioneiros. Além disso, um elenco de nomes ilustres reforçaria o sentimento patriótico e serviria de exemplo aos jovens leitores. Um exemplo de uma obra desse período é Coração de onça, de Ofélia e Narsal Fontes, cuja temática aborda os bandeirantes na época das Entradas e Bandeiras: FIGURA 8 - LIVRO CORAÇÃO DE ONÇA E A TEMÁTICA DOS BANDEIRANTES Fonte: Cidade de São Paulo (2020) 38 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 2.4 1970 ATÉ 1980 O quarto período compreende a década de 1970 até a de 1980. Nele, há a tran- sição da Ditadura Militar para a Redemocratização. Entre outros fatores, como o desastre econômico e a resistência de uma parcela da população, o Regime Militar se desmantelou, dando início à reabertura política em 1984. FIGURA 9 - MOVIMENTO “DIRETAS JÁ” Fonte: Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (2020) Com a censura se desfazendo, há um crescimento expressivo de autores e de editoras voltadas à literatura infanto-juvenil. Para Becker (2008, p. 40), “[o] sal- do mais positivo que se pô de verifi car relacionou-se com os caminhos segui- dos pela narrativa e pela poesia e com o tratamento dispensado por ambas aos temas e à linguagem”. Ela também nos mostra que, nas obras em prosa: A linguagem reencontrou as sendas inovadoras abertas pelo Modernismo de 1922 e por Monteiro Lobato. Distanciando-se do padrã o formal culto, privilegiou-se o coloquialismo marcante da oralidade e registrou-se a presenç a de gí rias, dialetos e falares regionais. Já nas obras em verso, há um rompimento com a poética tradicional, em par- ticular com a métrica regular, permitindo uma modernização nessa área. Por um lado, os autores privilegiaram o enfoque do cotidiano infantil, reforç ando a independê ncia, a criaç ã o e a rebeldia da crianç a que, mesmo frá gil perante o mundo, pode deter a palavra e vê -lo com olhar ingê nuo e desarmado. Por outro lado, os aspectos anticonvencionais da realidade 39 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL mereceram destaque, valorizando-se a antropomorfização de animais e, na linguagem, a ênfase na exploração da sonoridade das palavras. Explorou- se, igualmente, a relação criança-natureza, focalizando-se as sensações e o mundo das cores. Finalmente, recuperou-se o folclore oral pela abordagem das modinhas infantis, das canções de ninar e das brincadeiras de roda. (BECKER, 2008, p. 41) FIGURA 10 - MODERNIZAÇÃO DA NARRATIVA E DA POESIA INFANTO-JUVENIL Fonte: Plataforma Deduca (2020) Outro fato dessa época e que influenciou diretamente a produção literária nacional foi a [...] lei de reforma de ensino que obriga a adoção de livros de autor brasileiro nas escolas de 1° grau. Surgem, assim, escritores como Fernanda Lopes de Almeida, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Marina Colasanti e Eliardo França. Trata-se de autores que compuseram/compõem uma literatura com fortes traços lobatianos, em que o lúdico, o inventivo, o real e o imaginário são preponderantes, além da busca pela linguagem e cultura brasileiras. (CAVÉQUIA, 2008, p. 3) Se você quiser saber mais acerca dessa lei e de outras implementadas nesse período, indicamos o artigo científico “O currículo das escolas brasileiras na década de 1970: novas perspectivas historiográficas”, de Beatriz Santos. 40 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 2.5 1990 ATÉ 2000 Nesse período da literatura infanto-juvenil brasileira, o cenário político social é de estabilização da República como forma de governo, ainda que sua prática não seja plena. A partir da Assembleia Constituinte, uma nova Constituição é promulgada, sendo utilizada até hoje. Se considerarmos o aspecto das inovações literárias das obras, de certa forma podemos notar uma continuidade do período anterior. Porém, uma série de políticas públicas, em especial advindas do Ministério da Educação, foram de- cisivas para o universo da literatura infanto-juvenil brasileira. FIGURA 11 - MEC E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DIRECIONADAS À LITERATURA INFANTO- JUVENIL Fonte: Ministério da Educação (2020) Em relação a isso, Cavéquia (2013, p. 3) nos diz que: Embora, no Brasil, por vários fatores dos quais não intenciono tratar nesse momento, o livro continue sendo um bem caro, o que dificulta seu alcance pelas camadas de poder aquisitivo mais baixo, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Governo Federal, tem possibilitado o acesso de inúmeras crianças a obras literárias de qualidade. A recente publicação Programa Nacional Biblioteca da Escola: (PNBE): leituras e bibliotecas nas escolas públicas brasileiras relata uma importante pesquisa avaliativa realizada com o objetivo de obter subsídios sobre o uso que vem sendo feito dos livros que são encaminhados às escolas e sobre o impacto desse programa na formação de leitores. 41 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 12 - PROGRAMA NACIONAL BIBLIOTECA DA ESCOLA Fonte: Plataforma Deduca (2020) Esse programa, implementado em 1997, promoveu a ampliação e o estímulo ao acesso à cultura do livro por meio da distribuição de acervos, entre eles o literário, às escolas públicas por todo o Brasil. Nesse cenário, outras políticas públicas também foram criadas depois do Pro- grama Nacional Biblioteca na Escola, os quais você pode ver a seguir: 1. Plano Nacional do Livro e da Leitura (2003): Consiste em um conjuntode projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbito federal, estadual e municipal) e pela sociedade. A prioridade do PNLL é transformar a qualidade da capacidade leitora do Brasil e trazer a leitura para o dia a dia do brasileiro. 2. Programa Livro Aberto (2004): Propõe-se a implantar bibliotecas públicas em municípios que não as possuem e revitalizar as já existentes. 42 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 3. Instituto Pró-Livro (2006): Associação de caráter privado e sem fins lucrativos mantida com recursos constituídos principalmente por contribuições de entidades do mercado editorial, com o objetivo principal de fomento à leitura e à difusão do livro. FIGURA 12 - POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESTÍMULO E DE DISTRIBUIÇÃO DE LIVROS Fonte: Plataforma Deduca (2020) 2.6 INÍCIO DO SÉC. XXI O último período é o início do século XXI. Atualmente, pode-se dizer que a República se estabilizou, bem como as instituições sociais, embora ainda te- nhamos muito a avançar como Estado democrático. Todavia, o fato mais marcante nesse cenário foi o avanço tecnológico, sobre- tudo das tecnologias digitais e o crescimento da internet, provocando uma revolução nas relações humanas, tanto em nível local quanto em nível global. 43 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 13 - AVANÇO TECNOLÓGICO Fonte: Plataforma Deduca (2020) Tais fatos impactaram diretamente na produção literária infanto-juvenil. E isso não foi diferente no Brasil. Sobre isso, Cavéquia (2008, p. 3) nos fala o seguinte: “[a]tualmente, no tecnológico e globalizado século XXI, a produção tem tido cres- cimento realmente significativo, tanto quantitativa quanto qualitativamente”. Assim, novos(as) autores(as) aparecem no mercado não só por meio das grandes editoras, mas também de modo independente, por intermédio, por exemplo, das redes sociais. Inclusive, o próprio público, com uma intimidade maior com essas tecnologias, gradativamente, tem acesso às produções, po- dendo até interagir diretamente com os(as) escritores(as). Outro detalhe que merece relevância são as obras tradicionais, ou seja, aque- las impressas no papel, conviverem ainda mais com as obras que utilizam esses novos recursos digitais disponíveis. FIGURA 14 - TECNOLOGIAS DIGITAIS E OBRAS LITERÁRIAS INFANTO-JUVENIS Fonte: Plataforma Deduca (2020) 44 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Cada vez mais, livros de narrativa e de poesia são publicados em formato de e-book, os quais permitem recursos como imagens e animações (vídeos, gifs etc.), além de sons (áudios e gravações). Somado a isso, também são utilizados mecanismos mais elaborados, a exem- plo dos links que levam a outros endereços eletrônicos e até o uso de QR code, o qual pode proporcionar experiências dinâmicas e tridimensionais sobre um determinado conteúdo. CONCLUSÃO Nesta unidade, pudemos traçar um breve balanço histórico acerca da produ- ção literária voltada às crianças e aos adolescentes brasileiros, nas visões de Becker (2008), Cavéquia (2013) e Coelho (2010). Segundo vimos anteriormente, estipulamos seis períodos. O primeiro diz res- peito ao final do século XIX e ao início do XX. Nesse tempo, predominaram as obras literárias importadas e traduzidas da Europa. Já o segundo vai de 1920 até 1950. Em tal contexto, houve uma busca de uma identidade e de uma linguagem própria nos livros literários infanto-juvenis. Com a Era Vargas, sur- giram obras de cunho nacionalista, explorando personagens históricos brasi- leiros. O terceiro período vai de 1950 até 1960. Nele, em virtude da censura e da perseguição da Ditadura Militar, as temáticas dos livros literários destina- dos ao público infanto-juvenil eram voltadas para a exaltação da nação, bem como para as riquezas naturais e, novamente, enalteciam personagens histó- ricos, a exemplo dos bandeirantes. Já o quarto período dura de 1970 até 1980. Com a redemocratização, houve uma retomada de escritores(as) voltados(as) às crianças e aos adolescentes, buscando renovar, principalmente, a linguagem empregada nas narrativas e nos versos rumo à modernização. O quinto período, de 1990 até o ano 2000, do ponto de vista da qualidade das obras literárias, foi uma continuidade da época anterior. Entretanto, foi grande a implementação das políticas públicas de incentivo ao livro e à leitura. Por fim, o sexto e último período representa o início do século XXI. Em um contexto mais recente, observamos que houve o crescimento exponencial de novos(as) autores(as) além, também, de as histó- rias e de as poesias para o público infanto-juvenil serem influenciadas pelas novas tecnologias digitais. UNIDADE 3 45 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: LITERATURA INFANTO-JUVENIL > Conhecer os principais autores brasileiros de literatura infantil e juvenil; > Apresentar as suas principais obras; detalhar o contexto de produção no qual eles estavam/estão inseridos. 46 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 3 PRINCIPAIS AUTORES BRASILEIROS DE LITERATURA INFANTIL E JUVENIL INTRODUÇÃO DA UNIDADE Esta unidade tem o objetivo de apresentar os(as) principais autores(as) brasileiros(as) de literatura infantil e juvenil. Além disso, vamos descrever e discutir brevemente acerca das suas principais obras literárias e detalhar o contexto de produção no qual eles(elas) estavam e ainda estão inseridos. Assim, inicialmente, vamos abordar o escritor Coelho Neto, considerado um dos primeiros autores brasileiros da literatura infanto-juvenil. Somado à his- tória dele, falaremos do seu livro mais conhecido, América. Depois disso, será a vez de Monteiro Lobato. Tido como um dos principais escritores para esse público, descreveremos sua vida e as obras que giram em torno do mundo do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Após isso, vamos nos encaminhar a Ruth Rocha, escritora paulistana e vencedora do Prêmio Jabuti. Conheceremos sua histó- ria de vida e seu livro mais renomado: Marcelo, Marmelo, Martelo. Em seguida, falaremos de Ana Maria Machado, autora carioca em plena ati- vidade. Vamos expor rapidamente a sua biografia, além de apresentar o seu livro Bento-que-bento-é-o-frade. Posteriormente, falaremos de Daniel Mun- duruku, autor paraense e um dos nomes mais relevantes da literatura infan- to-juvenil brasileira, sobretudo a indígena. A obra que detalharemos dele é Karú Tarú: o pequeno pajé. Por fim, encerraremos com a autora Elisa Lucinda. Apresentaremos os fatos mais relevantes da sua vida, bem como o seu livro Lili, a rainha das escolhas. 3.1 COELHO NETO Na unidade passada, pudemos ver, sucintamente, a trajetória da história da li- teratura infanto-juvenil brasileira. Dividida em seis períodos, refletimos acerca tanto dos eventos histórico-sociais e culturais quanto das principais caracte- rísticas literárias de cada época. 47 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Todavia, agora veremos os principais agentes responsáveis por isso, ou seja, os autores, a iniciar por Coelho Neto. FIGURA 1 - COELHO NETO Fonte: ABL (2020) Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em 1864, em Caxias, Maranhão. Fi- lho de uma indígena com um português, ele se mudou para o Rio de Janeiro aos seis anos de idade (CAVÉQUIA, 2013). Após desistir da faculdade de Medicina, Coelho Neto ingressou no curso de Direito. O desenvolvimento das suas habilidadesde escrita o fez entrar em contato com outros escritores da época, a exemplo de Olavo Bilac. Depois de ser incorporado ao funcionalismo público e ascender a cargos im- portantes, Coelho Neto foi nomeado docente da Escola Nacional de Belas Ar- tes e, em seguida, professor de Literatura do Ginásio Pedro II. 48 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 2 – ALÉM DE BACHAREL EM DIREITO, COELHO NETO TAMBÉM FOI PROFESSOR Fonte: Plataforma Deduca (2020) O autor em questão teve uma produção literária muito vasta e profícua. Entre elas, podemos destacar a obra infanto-juvenil América. Essa narrativa conta a história de Renato, criança que, depois da morte do pai, é levada pela mãe para estudar no internato América. Lá, a personagem vive uma série de acon- tecimentos até se formar (COELHO, 2010). Essa obra foi uma das primeiras escritas por autores brasileiros destinados às crianças e jovens brasileiros. Conforme discutimos antes, na transição do sé- culo XIX para o XX, os livros literários destinadas a essa faixa etária tinham um caráter pedagogizante, em especial ao estimularem valores cívicos e morais aos pequenos leitores relacionados à também jovem nação brasileira. Uma curiosidade sobre Coelho Neto é que ele foi fundador da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras. Para mais informações, sugerimos o seguinte link: http://www.academia.org.br/academicos/coelho- neto/biografia 49 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 3 - LITERATURA INFANTO-JUVENIL PEDAGOGIZANTE E COM VALORES NACIONAIS Fonte: Plataforma Deduca (2020) Nela, algumas características podem ser observadas, por exemplo, a cena do início da obra em que, por mais que doa no coração da mãe, Renato preci- sa ir à escola para que ele inicie a caminhada rumo à ciência dos homens e também para ser tornar um cidadão digno e respeitável. Outra característica marcante é o protagonista ser uma criança, fato muito incomum na época. 3.2 MONTEIRO LOBATO O segundo autor relevante, e talvez o mais conhecido, da literatura infanto- -juvenil brasileira é Monteiro Lobato. FIGURA 4 – ESTÁTUA DE MONTEIRO LOBATO NA CIDADE DE TAUBATÉ Fonte: Shutterstock (2020) Contemporâneo de Coelho Neto, José Bento Monteiro Lobato nasceu em 1882, na cidade paulista de Taubaté. Em 1904, formou-se em Direito pela Fa- culdade do Largo do São Francisco, mas acabou dedicando-se à sua paixão: as artes, em particular a literatura (COELHO, 2010). 50 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Ao se empenhar mais nesse meio, acabou conhecendo outras figuras impor- tantes da literatura da época; inclusive, chegou a participar da Semana de Arte Moderna de 22, evento que gerou a polêmica entre ele e Anita Malfatti. Depois disso, no final da década de 1930, Lobato integrou uma missão diplo- mática aos EUA, fato que o estimulou a se engajar a favor do desenvolvimento nacional. Aliás, é nessa época em que ele ajuda a fundar companhias brasilei- ras de petróleo, bem como a campanha “O Petróleo é nosso”, a qual propiciou uma mobilização nacional por tal recurso. FIGURA 5 - MONTEIRO LOBATO E O MOVIMENTO “O PETRÓLEO É NOSSO” Fonte: Plataforma Deduca (2020) Já no período do Estado Novo, por conflitos com o regime, foi perseguido e preso, sendo liberado no fim da Era Vargas. Depois, acaba morrendo em 1948 e é considerado um dos maiores autores brasileiros. Caso você queira saber mais sobre esse evento, indicamos a reportagem feita pelo professor Antonio Gonçalves Filho, cujo link é: https://cultura.estadao. com.br/noticias/artes,anita-malfatti-100-anos-de- polemica-com-monteiro-lobato,70002125682 51 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL O primeiro livro que publicou foi Urupês, em 1918. Entretanto, a primeira obra literária destinada ao público infanto-juvenil foi A menina do narizinho arre- bitado, em 1921. Segundo Cavéquia (2013, p. 3), “A partir de então tem-se uma mudança nos paradigmas de o que publicar para os leitores infanto-juvenis”. FIGURA 6 - A MENINA DO NARIZINHO ARREBITADO Fonte: Google Fotos (2020) Nela, Monteiro Lobato introduzia todo o universo do Sítio do Pica-Pau Amare- lo para os(as) leitores(as). Depois dessa obra, vieram ainda 39 títulos, os quais alargaram e enriqueceram ainda mais esse universo mágico. Conforme vimos antes, a grande inovação literária proporcionada por Mon- teiro Lobato foi a busca por uma linguagem próxima à identidade da maioria da população brasileira na época, além da inserção do folclore nacional nas páginas dos livros, fazendo com que o Brasil fosse enxergado de fato pelos(as) pequenos(as) brasileiros(as) daquele tempo (COELHO, 2013). 52 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 3.3 RUTH ROCHA A terceira escritora de livros infanto-juvenis que merece destaque é Ruth Ro- cha. Nascida em 1931, em São Paulo, Ruth Rocha cresceu na capital paulistana. FIGURA 7 – SÃO PAULO, CAPITAL DO ESTADO PAULISTA Fonte: Shutterstock (2020) Em sua infância, entrou em contato com os recém-publicados livros de Mon- teiro Lobato, pelo qual possuía admiração e em quem muito se inspirou. Em meados do século XX, Ruth Rocha se formou em Ciências Políticas na PUC-SP. Já no final da década de 1950, começou a trabalhar no Colégio Rio Branco. Inclusive, é nesse espaço que ela começou a esboçar as suas primei- ras obras literárias infanto-juvenis (COELHO, 2013). No início da década de 1980, Ruth Rocha passa a trabalhar na Editora Abril, as- sumindo a direção do departamento de publicação para o nicho de crianças e jovens. Devido à sua profícua produção literária reconhecida nacional e internacional- mente, a autora recebeu diversos prêmios, entre eles o Jabuti. Hoje, ela conti- nua em plena atividade, produzindo novos livros para o público infanto-juvenil. 53 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 8 - PRÊMIO JABUTI Fonte: Cidade de São Paulo Cultura (2020) Como falamos antes, foram muitas as criações de Ruth Rocha ao longo de sua vida. Porém, neste tópico, vamos nos dedicar a uma das suas principais obras: Marcelo, Marmelo e Martelo. Segundo Cavéquia (2013, p. 3), Ruth Rocha, entre outros autores que come- çaram junto com ela, “[...] compuseram/compõem uma literatura com fortes traços lobatianos, em que o lúdico, o inventivo, o real e o imaginário são pre- ponderantes”. 1. Livro Marcelo, Marmelo, Martelo: Publicado pela primeira vez em 1976, narra a vida do menino Marcelo que, em um dia, inicia uma série de questionamentos sobre o nome dado às coisas e às convenções sociais estabelecidas, chegando até a renomeá-los a partir de sua imaginação. Ruth Rocha e Otávio Roth produziram uma versão infantil da Declaração Universal dos Direitos Humanos e fizeram o lançamento dela em 1988, na sede da ONU, em Nova York. 54 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 2. Comentários sobre a obra: Conforme Cavéquia (2013), a característica literária de Ruth Rocha pode ser observada nessa obra, pois ela trabalha tanto a imaginação quanto a criação lúdica das crianças pela elaboração de novas palavras, além de dar mais protagonismo a elas.. 3.4 ANA MARIA MACHADO Outra autora importante da literatura infanto-juvenil brasileira é Ana Maria Machado. FIGURA 9 - ANA MARIA MACHADO Fonte: ABL (2020) Ficou interessado(a) em conhecer mais sobre Ruth Rocha? Sugerimos o site da autora. Confira em: http://www.ruthrocha.com.br/home. 55 MULTIVIX EAD Credenciada pela portariaMEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Natural da cidade do Rio de Janeiro, Ana Maria Machado nasceu em 1941. Passou sua infância no bairro de Santa Teresa e, em 1964, formou-se em Le- tras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofi a da Universidade do Brasil (COELHO, 2010). Após isso, passou a lecionar Língua Portuguesa nos colégios Santo Inácio e Princesa Isabel, bem como deu aula no curso de Letras da UFRJ e da PUC - RJ. Com a Ditadura Militar, Ana Maria Machado foi para o exílio em Paris e, depois, em Londres, praticando o ofício de jornalista. Com o fi m da Ditadura, ela volta ao Brasil e passa a se dedicar ao ramo editorial. Inclusive, junto com duas ami- gas, funda a primeira livraria brasileira dedicada exclusivamente à literatura infanto-juvenil, a Livraria Malasartes. Nessa época, Ana Maria Machado começou a escrever livros de fi cção, em particular os destinados às crianças e aos jovens. Em 2003, ela se tornou uma imortal na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 1. FIGURA 10 - ANA MARIA MACHADO COMO IMORTAL DA ABL Fonte: ABL (2020) Contemporânea de Ruth Rocha, Ana Maria Machado também compartilha de algumas características literárias de sua colega escritora, ou seja, suas Se você quiser saber mais sobre a Livraria Malasartes, sugerimos a reportagem sobre os 40 anos de nascimento dela no seguinte link: https:// oglobo.globo.com/rio/bairros/primeira-livraria- infantojuvenil-do-brasil-malasartes-completa-40- anos-na-gavea-23679491 56 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL obras infanto-juvenis, além de uma grande influência lobatiana, possuem tra- ços lúdicos, com narrativas contendo temáticas que estimulam a imaginação convivendo com a realidade da criança e com uma linguagem próxima ao universo delas. Entre os seus principais livros, está Bento-que-bento-é-o-frade. Com sua pri- meira publicação em 1977, essa narrativa conta a história de Nita, uma me- nina que conseguia moldar e recriar tudo à sua volta por meio de sua fértil imaginação. FIGURA 11 - A PERSONAGEM NITA E A IMAGINAÇÃO DAS CRIANÇAS Fonte: Plataforma Deduca (2020) Essa obra, além de grande sucesso, trouxe como protagonista uma persona- gem feminina, além de ter contribuído bastante para o protagonismo infantil na época. 3.5 DANIEL MUNDURUKU Seguindo a lista dos(as) autores(as) relevantes no cenário literário infanto-ju- venil brasileiro, apresentamos Daniel Munduruku. Natural de Belém, capital do estado do Pará, ele é da etnia Mundurucu e nasceu em 1964. 57 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 12 – BELÉM, CAPITAL DO PARÁ Fonte: Iphan (2020) Na década de 1980, muda-se para São Paulo, onde se graduou em Filosofia, História e Pedagogia (BRANDILEONE; VALENTE, 2018). Depois do mestrado e doutorado no curso de Educação, fez o pós-doutoramento em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente, mora em Lorena, inte- rior de SP, e continua a produzir novas obras literárias. Em relação à literatura infanto-juvenil brasileira escrita por indígenas, vale destacar que, a partir de 2008, elas passaram a ser incorporadas aos currícu- los escolares por meio da Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, que cria a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura dos povos indígenas nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país. (BRANDILEONE; VALENTE, 2018, p. 199) 58 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL FIGURA 13 - A HISTÓRIA E A CULTURA DOS POVOS INDÍGENAS Fonte: Freepik (2020) Dessa forma, com essa legislação, não só a produção e a distribuição das obras literárias dessa natureza aumentaram, como também novos(as) autores(as) indígenas surgiram, como é o caso de Daniel Munduruku. Em função disso, espera-se que se desenvolva o reconhecimento e o respeito no que tange aos costumes, às tradições e aos estilos de vida dos indígenas, fato que, durante muito tempo na história do Brasil, foi marginalizado e silen- ciado, contribuindo, assim, para a consolidação identitária dos povos originá- rios do Brasil nos dias de hoje. Entre uma grande quantidade de livros publicados, podemos enfocar na sua obra principal, Karú Tarú: o pequeno pajé. Nessa ficção, o autor narra a histó- ria de Karú Tarú, um menino de uma tribo que será iniciado aos segredos e saberes a fim de se tornar o pajé de sua comunidade. Escrita em terceira pessoa e de maneira bem original, Munduruku trabalha, nas páginas do livro, um [...] tema instigante pela proposta de trazer ao leitor uma experiência peculiar, partindo do horizonte de uma criança que se vê predestinada a este importante papel em sua tribo. (BRANDILEONE; VALENTE, 2018, p. 199) 59 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 3.5 ELISA LUCINDA Por fi m, a última escritora relevante no contexto da literatura infanto-juvenil é Elisa Lucinda. Nascida em 1958, em Cariacica, no Espírito Santo, Elisa Lucinda teve contato com as letras desde a infância e a adolescência, por causa de seu pai, que era professor. Na década de 1980, ela se formou em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo. FIGURA 14 – CARIACICA, NO ESPÍRITO SANTO Fonte: Prefeitura de Cariacica (2020) No fi nal dessa década, ela acaba se mudando para o Rio de Janeiro, onde decide focar na carreira de atriz. Morando lá, Elisa Lucinda estuda na Casa de Artes de Laranjeiras (CAL) e passa a atuar em peças teatrais e até na televisão. Atualmente, ela não só escreve literatura infanto-juvenil como também com- põe canções e CDs de poesia. Com uma produção literária considerável, Elisa Lucinda também demonstra ser uma excelente escritora de obras infanto-juvenis. Inclusive, em 2008, ela ganhou o prêmio de livro “Altamente Recomendável”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. FIGURA 15 - PRÊMIO DA FUNDAÇÃO NACIONAL DO LIVRO INFANTIL E JUVENIL Fonte: FNLIJ (2020) 60 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Aliás, uma das principais obras para esse público da autora é Lili, a rainha das escolhas. 1. Lili, a rainha das escolhas: Essa obra conta a história de Lili, uma menina negra, criativa e decidida, a qual faz uma série de questionamentos sobre a vida e sobre o mundo. 2. A temática racial e metafórica: Na obra, além da discussão racial, sobre ser uma mulher negra na sociedade atual, também é trabalhada em suas páginas a metáfora da liberdade. Vale ressaltar, ainda, que o livro possui várias ilustrações encantadoras, sendo que a narrativa é feita em forma de poema. CONCLUSÃO Nesta unidade, objetivamos não só apresentar os(as) escritores(as) de livros infanto-juvenis mais relevantes do Brasil mas também divulgar e comentar acerca das suas principais criações. Dessa forma, pudemos conhecer mais so- bre Coelho Neto, Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Daniel Munduruku e Elisa Lucinda. Portanto, com essa proposta, esperamos que você possa saber mais sobre eles e também que, após estudar esta unidade, você se sinta estimulado(a) e passe a utilizar tais obras no seu dia a dia escolar, principalmente nas aulas de literatura brasileira. UNIDADE 4 61 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 OBJETIVO Ao final desta unidade, esperamos que possa: LITERATURA INFANTO-JUVENIL > Discutir a relação entre educação e literatura infantil e juvenil; > Examinar o papel da literatura infantil e juvenil no desenvolvimento da leitura; > Conhecer a relação entre a literatura infantil e juvenil e a educação básica nacional. 62