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DESCRIÇÃO O sistema de contratações públicas e as noções gerais de licitações e contratos administrativos. PROPÓSITO Conhecer as noções gerais de licitações e contratos administrativos para uma compreensão imprescindível do direito administrativo e da relação do Estado com particulares, assim como sua consubstanciação em normas influentes em todo o processo de contratações públicas e gestão de contratos administrativos. PREPARAÇÃO Antes de iniciar a leitura deste conteúdo, tenha à mão duas leis (as de nº 14.133/2021 e 8.666/1993) para ter uma melhor compreensão do assunto a ser tratado. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar competências, responsabilidades e princípios regentes das licitações MÓDULO 2 Reconhecer os tipos e as fases das licitações INTRODUÇÃO O tema das licitações e contratos públicos possui grande relevo na prática administrativa, sendo objeto de inúmeras discussões na doutrina e na sociedade como um todo. Por meio de contratos administrativos – em regra, celebrados a partir de procedimentos licitatórios –, a Administração Pública interage com os agentes econômicos em busca da consecução dos objetivos constitucionalmente postos a cargo do poder público. Imagem: José Cruz/ABr / www.agenciabrasil.gov.br / Wikimedia Commons / CC BY 3.0 br Segundo o Ipea (2018), as compras públicas correspondiam a 12,5% do produto interno bruto (PIB) brasileiro em 2019, representando uma parcela importante da economia nacional. O Estado, portanto, pode atuar como um indutor do fortalecimento da economia e de setores estratégicos a partir do direcionamento dos investimentos públicos. No campo profissional dos operadores do direito, o mercado de licitações e contratos se mostra pujante. A importância da área no PIB é sintomática das possibilidades que se abrem aos advogados capacitados para atuar com o poder público. Com órgãos de controle cada vez mais atuantes, entender os pormenores das licitações e contratos administrativos põe esse profissional em um patamar superior na comparação com aqueles que desconhecem essa seara jurídica. Por fim, registramos que a aprovação da Lei federal n° 14.133/2021, em abril de 2021, abriu uma nova janela de oportunidades tanto para a sociedade quanto para os profissionais que pretendem seguir carreira na área, seja no setor privado ou no público. O novel diploma, que estará plenamente em vigor em dois anos, precisará ser efetivamente operado como uma ferramenta de modernização da gestão pública por todos que militam na área. O desafio e as oportunidades, desse modo, estão colocados. MÓDULO 1 Identificar competências, responsabilidades e princípios regentes das licitações LICITAÇÃO: COMPETÊNCIAS, RESPONSABILIDADES E PRINCÍPIOS REGENTE AS LICITAÇÕES E OS CONTRATOS ADMINISTRATIVOS SÃO O DIA A DIA DA ADMINISTRAÇÃO E UM DOS TEMAS MAIS IMPORTANTES DO DIREITO ADMINISTRATIVO. O Tribunal de Contas da União (TCU) e seus congêneres estaduais se dedicam, em grande parte das suas atividades, a analisar as contratações públicas. O assunto movimenta grandes quantias e está diuturnamente na mídia: Pelo viés positivo Com os anúncios de novos investimentos. Imagem: Shutterstock.com. Pelo viés negativo Com críticas acerca da insegurança jurídica, das obras e dos serviços parados – ou até por conta das denúncias de irregularidades. Compreender os entes competentes que atuam na área, os responsáveis pelo funcionamento e os princípios das licitações é o objetivo do presente módulo, que busca, com isso, nivelar o conhecimento sobre o tema. CONCEITO As licitações podem ser conceituadas, segundo Flávio Amaral Garcia (2018, p. 49), como um “processo de natureza instrumental” voltado para assegurar a contratação mais eficiente e o melhor custo-benefício nos contratos públicos. Esse procedimento, em suma, é uma ferramenta necessária para o atendimento dos princípios constitucionais da eficiência, da economicidade e da moralidade, com a função precípua de harmonizar os resultados econômicos e os ditames axiológicos da Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB) de 1988. Foto: Shutterstock.com. Desse modo, as licitações constituem um procedimento objetivo e isonômico instituído pela CRFB/1988 para, sempre que for possível, orientar a escolha dos particulares que estabelecerão contratos com o poder público. Seu objetivo é incrementar a eficiência da gestão estatal e o respeito aos princípios da moralidade e da impessoalidade (ambos previstos no artigo 37, caput, da CRFB/1988). A LICITAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA E NO DIREITO INFRACONSTITUCIONAL A regra licitatória possui matriz constitucional, segundo o artigo 37, XXI, da CRFB/1988, devendo ser seguida por todos os entes da Federação e por todos os agentes públicos. Dispõe o artigo 37 que: [...] RESSALVADOS OS CASOS ESPECIFICADOS NA LEGISLAÇÃO, AS OBRAS, SERVIÇOS, COMPRAS E ALIENAÇÕES SERÃO CONTRATADOS MEDIANTE PROCESSO DE LICITAÇÃO PÚBLICA QUE ASSEGURE IGUALDADE DE CONDIÇÕES A TODOS OS CONCORRENTES, COM CLÁUSULAS QUE ESTABELEÇAM OBRIGAÇÕES DE PAGAMENTO, MANTIDAS AS CONDIÇÕES EFETIVAS DA PROPOSTA, NOS TERMOS DA LEI, O QUAL SOMENTE PERMITIRÁ AS EXIGÊNCIAS DE QUALIFICAÇÃO TÉCNICA E ECONÔMICA INDISPENSÁVEIS À GARANTIA DO CUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES. Além da previsão acima, o caput desse artigo prevê princípios que informam toda a atividade administrativa, inclusive as contratações públicas. O artigo 22, XXVII, por sua vez, atesta que é competência da União Federal legislar sobre regras gerais de licitações e contratos administrativos. Esse assunto também é previsto em outros dispositivos específicos. EXEMPLO O que prevê a necessidade de lei regulamentando os procedimentos de contratações nas estatais (artigo 173, §1°, III, regulamentado pela Lei nº 13.303/16) e outro que versa sobre a concessão ou a permissão de serviços públicos (artigo 175, regido pela Lei nº 8.987/95). No plano infraconstitucional, a Lei nº 8.666/1993 estabeleceu originalmente as regras gerais de licitações e contratos administrativos em nosso país sob a égide da CRFB/1988. Em 1º de abril de 2021, foi promulgada a Lei nº 14.133/2021, que é conhecida como a nova Lei Geral de Contratações Públicas brasileira. Contudo, durante dois anos, os dois estatutos legais conviveram em nosso ordenamento jurídico – salvo o trecho compreendido entre os artigos 89 e 108 da Lei nº 8.666/1993. Seus dispositivos, que versam sobre os crimes licitatórios, foram imediatamente revogados pelo novel diploma. Foto: Shutterstock.com. COMPETÊNCIAS EM MATÉRIA DE LICITAÇÕES No artigo 22, XXVII, a CRFB/1988 estabelece competir privativamente à União legislar sobre as normas gerais de licitação e contratação em todas as modalidades para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Compete a Estados e Municípios, por outro lado, suplementar as normas gerais federais no que lhes couber, destaca o artigo 24, §2°. Foto: Shutterstock.com. O tema das normas gerais em licitações e contratos e os limites da autonomia de Estados e Municípios é um dos mais antigos e controversos na interpretação das normas gerais. Quando da vigência da Lei nº 8.666/1993, havia muita discussão sobre o significado e os limites das normas gerais. Segundo Rafael Oliveira (2012), essas normas são definidas como um conceito jurídico indeterminado. Dotadas de elevado grau de abstração, elas pretendem assegurar a uniformidade do processo licitatório em todas as unidades federativas sem interferir nas peculiaridades locais de cada ente subnacional. De acordo com Egon Bockmann Moreira (2021), a doutrina e a jurisprudência, com o passar dos anos, passaram a reconhecer o caráter “material restritivo” do conceito de normas gerais, atribuindo aos entes federados uma ampla margem de conformação dos procedimentos licitatórios – inclusive apontando que algumas normas da Lei nº 8.666/1993 seriam inconstitucionais por violar o espaçoOLIVEIRA, R. C. R. Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos: comparada e comentada. Rio de Janeiro: Forense, 2021b. OLIVEIRA, R. C. R. Licitações e contratos administrativos. Rio de Janeiro: Forense/Método, 2012. PEREIRA JÚNIOR, J. T. Critérios de julgamento. In: Observatório da nova lei de licitações. Publicado em: 20 jan. 2020. Consultado na internet em: 26 maio 2021. SARLET, I. W.; MARINONI, L. G.; MITIDIERO, D. Curso de Direito Constitucional. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. SILVA, A. do C. E. O princípio da segurança jurídica (proteção à confiança) no direito público brasileiro. In: Revista de direito administrativo. v. 237. 2004. p. 271-316. EXPLORE+ Pesquise este artigo do professor Jessé Torres Pereira Júnior: PEREIRA JÚNIOR, J. T. Critérios de julgamento. In: Observatório da nova lei de licitações. Publicado em: 20 jan. 2020. Consultado na internet em: 26 maio 2021. Leia os seguintes livros: JUSTEN FILHO, M. Comentários à Lei de Licitações e Contratações Administrativas. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. OLIVEIRA, R. C. R. Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos: comparada e comentada. Rio de Janeiro: Forense, 2021b. CONTEUDISTA Dante Tomaz CURRÍCULO LATTES javascript:void(0);de liberdade de Estados e Municípios. EXEMPLO O artigo 87, §3°, teria extrapolado o âmbito de competência da União ao fixar quais agentes públicos municipais e estaduais deveriam aplicar a sanção de inidoneidade nos contratantes do poder púbico. Para Garcia (2018), trata-se de matéria eminentemente administrativa e de organização interna, insuscetível de ingerência pelo governo federal. Outros aspectos são mais polêmicos: PODERIAM OS ENTES FEDERADOS INSTITUÍREM NOVAS MODALIDADES DE LICITAÇÃO? REQUISITOS DE HABILITAÇÃO NÃO PREVISTOS EM LEI? ATUALIZAR OS VALORES PARA DISPENSA DE LICITAÇÃO? A doutrina, assim como os tribunais superiores e a Administração Pública em distintos níveis, já se debruçou sobre esses e outros tópicos. Respostas diversas foram alcançadas, ora prestigiando a autonomia federativa, ora ampliando o escopo das normas gerais de licitações. EXEMPLO Marçal Justen Filho (2015) afirma que constituem expressões de normas gerais os dispositivos da Lei de Licitações referentes a requisitos mínimos de validade da contratação administrativa, hipóteses de obrigatoriedade e não obrigatoriedade de licitação, requisitos de participação em licitação, modalidades de licitação, tipos de licitação e regime jurídico da contratação administrativa. Verifica-se, assim, que – não obstante a crítica do professor Egon sobre um excesso de liberdade aos entes subnacionais, o que elevaria a insegurança jurídica – os parâmetros traçados por Justen Filho reduzem exponencialmente o espaço de inovações em Estados e Municípios no tocante aos principais aspectos dos certames licitatórios. A jurisprudência se posicionou sobre alguns casos polêmicos, inúmeras vezes restringindo a liberdade de conformação dos entes federados. EXEMPLO No julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3.670/DF, em 2007, o Supremo Tribunal Federal (STF) consignou que a fixação de critérios da habilitação não previstos na legislação ofende a competência da União para legislar sobre normas gerais por restringir o caráter competitivo do certame. Em um julgado mais recente (ADI 4.658), o STF considerou ser inconstitucional, por adentrar no âmbito de competência da União, a criação da hipótese de dispensa de licitação não prevista na legislação federal. Vejamos o precedente: EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. DIREITO CONSTITUCIONAL. ARTIGO 34, VII DA LEI ESTADUAL PARANAENSE N. 15608/2007. LICITAÇÃO E CONTRATAÇÃO. NORMAS GERAIS. HIPÓTESE INOVADORA DE DISPENSA DE LICITAÇÃO. INVASÃO DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA DA UNIÃO. INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL. PROCEDÊNCIA DA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. MODULAÇÃO DOS EFEITOS. (ADI 4.658, 2019, grifos nossos) O tema é cheio de nuances: qualquer resposta definitiva revela-se açodada. Apenas a análise pormenorizada de cada caso concreto permite verificar se a norma – conste ela na Lei nº 14.133/2021 ou na Lei nº 8.666/1993 – é nacional ou de caráter federal, aplicando-se apenas à União Federal. As balizas interpretativas a serem manejadas para descobrir a competência de cada ente envolvem a seguinte análise: se o dispositivo, em si, trata de matéria inserida no âmbito de competência do ente subnacional, especialmente no caso das normas procedimentais (artigo 24, XI, CRFB/1988) dirigidas ao atendimento de interesse regional e/ou local, ou se representa um vetor axiológico a ser observado por todos os poderes e unidades federadas, o que atrai o status de norma geral. A NOVA LEI DE LICITAÇÕES E CONTRATOS PROVAVELMENTE ENSEJARÁ DEBATES SIMILARES QUANTO ÀS LINHAS DIVISÓRIAS DA COMPETÊNCIA ESTADUAL E FEDERAL, TENDO SIDO PERDIDA UMA BOA OPORTUNIDADE DE SE PACIFICAR A CELEUMA. QUANTO AO PONTO, A NOVIDADE MAIS INTERESSANTE E COM MAIOR POTENCIAL TRANSFORMADOR FOI A CRIAÇÃO DO PORTAL NACIONAL DE CONTRATAÇÕES PÚBLICAS (PNCP) PELO ARTIGO 174 DA NOVA LEI. Trata-se de um órgão nacional que, a ser integrado por representantes da União, dos Estados e dos Municípios, criará obrigações para todos os entes e terá o potencial de incrementar sobremaneira a transparência das contratações públicas de todos eles. COMENTÁRIO A despeito de possíveis críticas quanto à violação da autonomia federativa, parece ser o caso de uma norma geral voltada para a defesa dos princípios constitucionais da moralidade e da transparência. RESPONSABILIDADES EM MATÉRIA DE LICITAÇÕES Outro tema relevante em licitações é compreender as responsabilidades dos atores envolvidos no processo: O ente público contratante Os servidores que atuam nas distintas fases do certame Os particulares São essas as três figuras que surgem e se relacionam no âmago de licitações, cada uma delas sujeita a regras e regimes de responsabilidade diferentes. O assunto possui enorme relevância prática por dois motivos: SEGUIDAS ACUSAÇÕES DE MALFEITOS ENVOLVENDO LICITAÇÕES Isso mantém o tema na ordem do dia das discussões da sociedade civil. EXPANSÃO DAS ATIVIDADES DOS ÓRGÃOS DE CONTROLE Ela atrai uma série de riscos aos agentes públicos atuantes em licitações e contratos, bem como aos particulares que se relacionam com o poder público. Dessa forma, todo profissional ou estudioso do tema precisa conhecer os principais aspectos das responsabilidades na área. Veja-os abaixo. RESPONSABILIDADE DO ESTADO NAS LICITAÇÕES Quanto à responsabilidade do ente público contratante no curso dos procedimentos das licitações, ele está sujeito à regra geral prevista no artigo 37, §6°, da CRFB/1988. Ela, portanto, é objetiva pelos danos que seus agentes, nessa condição, causarem aos particulares, estando assegurado o direito de regresso em casos de dolo ou culpa. NO CURSO DO CONTRATO ADMINISTRATIVO, A RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL É DE CARÁTER SUBJETIVO, SENDO REGIDA PELA TEORIA DAS ÁLEAS OU PELA MATRIZ DE RISCOS. TEORIA DAS ÁLEAS javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) No regime da Lei nº 8.666/1993, artigo 65, II, d. MATRIZ DE RISCOS Sistema que já era largamente utilizado em contratos de concessão de longo prazo no regime diferenciado de contratações (RDC) e expressamente consagrado como regra geral no artigo 103 e nos artigos seguintes da Lei nº 14.133/2021. A nova lei, em seu artigo 89, §2°, dispõe que o contrato precisa prever a responsabilidade das partes no curso da relação contratual. Isso está em consonância com o espírito de maior flexibilidade na divisão de responsabilidade no curso da relação contratual. RESPONSABILIDADE DOS AGENTES PÚBLICOS EM LICITAÇÕES A responsabilidade dos agentes públicos atuantes em procedimentos licitatórios, ainda que apenas abordando seus aspectos gerais, possui nuances que exigem um estudo apurado. De início, é relevante pontuar que o regime de responsabilidade dos agentes públicos, em geral, é subjetivo, sendo necessária a demonstração de dolo ou culpa para puni-los ou submetê-los a sanções oriundas dos órgãos de controle. OCORRIDA NO ÂMBITO DE CADA ÓRGÃO OU ENTIDADE, A FASE INTERNA DAS LICITAÇÕES É CONCEITUADA POR GARCIA (2018, P. 189) COMO A “SEQUÊNCIA DE ATOS PREPARATÓRIOS INTERNOS DE CADA ÓRGÃO OU ENTIDADE PARA A REALIZAÇÃO DA LICITAÇÃO”. NESSA FASE, A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA VERIFICA A NECESSIDADE DE CONTRATAÇÃO E INICIA OS TRÂMITES PARA PREPARAÇÃO DO EDITAL DA LICITAÇÃO. Por se tratar de uma fase procedimental, ela era considerada como submetida à competência dos entes federados. A Lei nº 8.666/1993 não a regulamentava de forma expressa, mas a nova lei (a de nº 14.133/2021) dedica um capítulo próprio ao assunto em seu artigo 18 e nos artigos seguintes. O TCU, conforme aponta Flávio Amaral Garcia (2018), costuma responsabilizar as autoridades superiores dos órgãos contratantes por vícios nas fases interna e externa – e até durante a execução do contrato. A mesma lógica aplica-se ao controle externo pelo Ministério Público (MP). Foto: rafastockbr / Shutterstock.com. COMENTÁRIO Infelizmente, no caso do MP, é comum a propositura de ações de improbidade e criminais fundamentadasna violação de princípios genéricos ou sem a adequada demonstração da subjetividade na conduta. Flávio Amaral Garcia (2018) destaca – a nosso ver, com razão – que responsabilizar as autoridades superiores por qualquer ato maculado previamente é irrazoável e gera um desincentivo ao ingresso de pessoas bem-intencionadas no serviço público. Nesse sentido, Gustavo Binenbojm e André Cyrino (2018), fundamentados no artigo 28 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), defendem uma maior racionalidade na aplicação de sanções aos agentes públicos, ressaltando o dever de existir uma tolerância com erros decorrentes de condutas de boa-fé e cautelosas. COMENTÁRIO A nova LINDB e a sofisticada construção doutrinária de Binenbojm e Cyrino, que defendem o chamado “direito ao erro” do administrador, poderiam, assim, auxiliar a romper o paradigma do excesso de controle. Outros pontos sobre a responsabilidade dos agentes públicos envolvidos em licitações devem ser ressaltados. O primeiro é a mudança operada pela nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos, que, rompendo com a lógica até então vigente na Lei nº 8.666/1993, retirou a regra geral de formação de comissão de licitação (artigo 6°, XVI, Lei nº 8.666/1993) para reger os procedimentos licitatórios e criou a figura do “ agente de contratação”. O agente de contratação trata-se de uma figura definida na nova lei como a: AGENTE DE CONTRATAÇÃO Aproximou-se da lógica da Lei do Pregão, que, tal como a Lei nº 8.666/1993, será futuramente revogada por completo pela Lei nº 14.133/2021. [...] PESSOA DESIGNADA PELA AUTORIDADE COMPETENTE, ENTRE SERVIDORES EFETIVOS OU EMPREGADOS PÚBLICOS DOS QUADROS PERMANENTES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, PARA TOMAR DECISÕES, ACOMPANHAR O TRÂMITE DA LICITAÇÃO, DAR IMPULSO AO PROCEDIMENTO LICITATÓRIO E EXECUTAR QUAISQUER OUTRAS javascript:void(0) ATIVIDADES NECESSÁRIAS AO BOM ANDAMENTO DO CERTAME ATÉ A HOMOLOGAÇÃO. (LEI Nº 14.133, 2021, art. 6º, LX) A comissão de licitação fica reservada apenas às licitações que envolvam bens ou serviços especiais, conforme prevê o artigo 8°, §2°. Nessa esteira, é fundamental que o agente de contratação tenha a segurança de que não será punido por qualquer equívoco. ISSO REFORÇA A NECESSIDADE DE QUE A RESPONSABILIZAÇÃO DOS AGENTES PÚBLICOS ATUANTES EM LICITAÇÕES OBEDEÇA A CRITÉRIOS CLAROS, SEM UM FUROR PUNITIVISTA. Em consonância com esse objetivo, o artigo 10 da Lei nº 14.133/2021 estabelece que, na eventual necessidade de defesa nas esferas judicial, controladora e judicial em razão de ato praticado com a estrita observância de orientação constante de parecer jurídico, o órgão de assessoria jurídica pode defender o agente acusado. Trata-se de mais uma salvaguarda para que uma importante função seja exercida sem temores excessivos que engessam a adequada persecução do interesse público subjacente. RESPONSABILIDADE DOS PARTICULARES PARTICIPANTES OU CONTRATADOS A responsabilidade dos participantes de procedimentos licitatórios e contratados pelo poder público também guarda peculiaridades. No curso do procedimento licitatório, os princípios licitatórios e constitucionais devem ser observados pelos particulares, os quais, por sua vez, precisam atuar de forma moral, proba e de estrita boa-fé, opondo-se a conluios e a quaisquer tentativas de lesar o ente público e os demais contratantes. O contratado que atua de modo indevido em processo licitatório está sujeito não só à responsabilização criminal – cuja análise transborda os limites deste estudo –, mas também à civil e administrativa. Desse modo, ele pode ser punido por: Administração contratante Órgãos de controle interno e externo (entre eles, MP e Tribunal de Contas) De todos os dispositivos da Lei nº 14.133/2021, dois artigos precisam ser mencionados: ARTIGO 73 Seu teor prevê que, na hipótese de contratação direta indevida ocorrida com dolo, fraude ou erro grosseiro, o contratado e o agente público responsável responderão solidariamente pelo dano causado ao erário, sem prejuízo de outras sanções legais cabíveis. ARTIGO 155 Tal artigo enseja a responsabilização administrativa do licitante caso ele incorra em alguma destas doze condutas: Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Dar causa à inexecução parcial do contrato. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Dar causa à inexecução parcial do contrato que cause grave dano à administração, ao funcionamento dos serviços públicos ou ao interesse coletivo. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Dar causa à inexecução total do contrato. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Deixar de entregar a documentação exigida para o certame. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Não manter a proposta, salvo em decorrência de fato superveniente devidamente justificado. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Não celebrar o contrato ou não entregar a documentação exigida para a contratação quando ele for convocado dentro do prazo de validade de sua proposta. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Ensejar o retardamento da execução ou da entrega do objeto da licitação sem motivo justificado. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Apresentar declaração ou documentação falsa exigida para o certame ou prestar declaração falsa durante a licitação ou a execução do contrato. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Fraudar a licitação ou praticar ato fraudulento na execução do contrato. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Comportar-se de modo inidôneo ou cometer fraude de qualquer natureza. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Praticar atos ilícitos com vistas a frustrar os objetivos da licitação. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Praticar ato lesivo previsto no artigo 5º da lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção). PRINCÍPIOS DAS LICITAÇÕES OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Os princípios gerais de licitações e contratos administrativos são um tema que sofreu profundas alterações na nova Lei de Licitações e Contratos, tendo o rol de princípios expressos crescido em comparação com o da Lei nº 8.666/1993. OS PRINCÍPIOS SÃO UMA ESPÉCIE DO GÊNERO NORMA. Eles contrapõem-se às regras, sendo comandos normativos dotados de significativo grau de abstração, vagueza e indeterminação. Em seu conteúdo, exigem a realização de algum objetivo jurídico da melhor forma possível. Estando em consonância com as possibilidades fáticas e jurídicas, aponta Sarlet (2017), eles não impõem ou obrigam a adoção de determinado comportamento, e sim a otimização de um direito ou bem jurídico. Previstos no artigo 37, caput, da CRFB/1988, os princípios reitores da atividade administrativa consubstanciam os seguintes comandos: Legalidade Impessoalidade Moralidade Publicidade Eficiência Os princípios listados dirigem-se a todos os ramos da atividade pública brasileira; contudo, eles não afastam a aplicação de princípios setoriais. EXEMPLO O princípio da licitação (artigo 37, XXI, CRFB/1988), que impõe a realização de certame licitatório antes de o poder público escolher seus contratantes. PRINCÍPIOS DAS LICITAÇÕES EM ESPÉCIE: COMPARATIVO ENTRE A LEI N° 8.666/1993 E A LEI N° 14.133/2021 A Lei nº 8.666/1993 prevê o seguinte rol de princípios expressos: A LICITAÇÃO DESTINA-SE A GARANTIR A OBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA ISONOMIA, A SELEÇÃO DA PROPOSTA MAIS VANTAJOSA PARA A ADMINISTRAÇÃO E A PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL SUSTENTÁVEL E SERÁ PROCESSADA E JULGADA EM ESTRITA CONFORMIDADE COM OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DA LEGALIDADE, DA IMPESSOALIDADE, DA MORALIDADE, DA IGUALDADE, DA PUBLICIDADE, DA PROBIDADE ADMINISTRATIVA, DA VINCULAÇÃO AO INSTRUMENTO CONVOCATÓRIO, DO JULGAMENTO OBJETIVO E DOS QUE LHES SÃO CORRELATOS. (LEI Nº 8.666, 1993, art. 3º, grifos nossos) A Lei nº 14.133/2021 ampliou o número de princípios expressos para17, abarcando ainda aqueles previstos no artigo 37 da CRFB/1988. COMENTÁRIO Trata-se de uma opção legislativa sintomática da importância adquirida pelos princípios na ordem jurídica brasileira nos últimos anos. Vejamos a nova lista de princípios: NA APLICAÇÃO DESTA LEI, SERÃO OBSERVADOS OS PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE, DA IMPESSOALIDADE, DA MORALIDADE, DA PUBLICIDADE, DA EFICIÊNCIA, DO INTERESSE PÚBLICO, DA PROBIDADE ADMINISTRATIVA, DA IGUALDADE, DO PLANEJAMENTO, DA TRANSPARÊNCIA, DA EFICÁCIA, DA SEGREGAÇÃO DE FUNÇÕES, DA MOTIVAÇÃO, DA VINCULAÇÃO AO EDITAL, DO JULGAMENTO OBJETIVO, DA SEGURANÇA JURÍDICA, DA RAZOABILIDADE, DA COMPETITIVIDADE, DA PROPORCIONALIDADE, DA CELERIDADE, DA ECONOMICIDADE E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL SUSTENTÁVEL, ASSIM COMO AS DISPOSIÇÕES DO DECRETO-LEI Nº 4.657, DE 4 DE SETEMBRO DE 1942 (LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO). (LEI Nº 14.133, 2021, art. 5º, grifos nossos) O alargamento do rol de princípios trazido pela nova lei vem sendo criticado por parcela da doutrina sob o argumento de que, por ele ser exemplificativo, a inserção de mais princípios no dispositivo não é uma vantagem. O crescimento, destaca Oliveira (2021b), não afastou o fato de que outros princípios licitatórios seguem existindo a despeito de não terem sido contemplados no artigo 5° da nova lei. EXEMPLO Princípio do formalismo moderado. PRINCÍPIOS EM ESPÉCIE Independentemente da opinião que a doutrina possa ter sobre a proliferação principiológica, a opção do legislador foi clara a respeito. Isso demanda uma breve análise de cada um dos 18 princípios listados a seguir. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE (JURIDICIDADE) Trazido pelo artigo 37, caput, da CRFB/1988, o princípio da legalidade é reiterado tanto pelo artigo 3° da Lei n° 8.666/1993 quanto pelo 5° da Lei nº 14.133/2021. A moderna doutrina administrativista defende que a noção de legalidade como vinculação à lei estrita em sentido formal deve ser substituída pela vinculação ao ordenamento jurídico como um todo, sendo mais correto o termo “juridicidade”, frisa Binenbojm (2014). A NOVA LEI, CONTUDO, MANTEVE A NOMENCLATURA PREVISTA NA CRFB/1988. O princípio da legalidade busca assegurar outros princípios. Elencaremos dois deles a seguir: SEGURANÇA JURÍDICA Na sua vertente previsibilidade. ISONOMIA ENTRE OS PARTICIPANTES DO PROCEDIMENTO Eles têm a segurança de que o poder público licitante não criará regras ad hoc ou fugirá das normas previstas no ordenamento jurídico. PRINCÍPIO DA IMPESSOALIDADE A impessoalidade significa “buscar sempre atingir a finalidade pública prevista em lei, sem privilégios ou favorecimentos a qualquer pessoa”, explica Garcia (2018, p. 63). A licitação, em si, constitui um instituto jurídico cuja razão de existir é assegurar a impessoalidade na escolha dos contratantes do Estado, sendo esse um dos princípios fundantes dos procedimentos licitatórios. PRINCÍPIO DA MORALIDADE Segundo Flávio Amaral Garcia (2018), o princípio da moralidade consubstancia-se no conjunto de regras da boa administração. Ele precisa sempre funcionar com a observância da ética e em respeito à finalidade a que se destina. A escolha da proposta mais vantajosa e econômica ao poder público, em procedimento imparcial e impessoal, atende aos ditames morais. Trata-se mais, desse modo, de um princípio constitucional diretamente vinculado às licitações. PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE E TRANSPARÊNCIA O princípio da publicidade consiste no dever dos integrantes da Administração Pública de divulgar seus atos, com o escopo precípuo de assegurar/resguardar o legítimo exercício do javascript:void(0) javascript:void(0) controle externo sobre sua atividade, pontua Garcia (2018). Já o princípio da transparência está inserido no da publicidade, diz Oliveira (2021a). A PUBLICIDADE DOS PROCEDIMENTOS DE LICITAÇÕES, SEJA PERANTE A SOCIEDADE OU OS ÓRGÃOS DE CONTROLE, CONFIGURA UM ASPECTO CRUCIAL NO CONTROLE DAS CONTRATAÇÕES PÚBLICAS. COMENTÁRIO Mostrou uma evolução a nova Lei de Licitações e Contratos ao estabelecer, no seu artigo 54, que a publicidade do edital de licitação deverá ser realizada mediante a divulgação e a manutenção do inteiro teor do ato convocatório e de seus anexos no PNCP. Com isso, evita-se a prática de editais de licitação divulgados apenas em jornais e diários oficiais locais, restringindo o acompanhamento do certame e a possível participação de outros interessados. PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA, EFICÁCIA, ECONOMICIDADE E CELERIDADE O último dos princípios trazidos no artigo 37, caput, da CRFB/1988 consiste na ideia de que o Estado tem de buscar a efetivação célere das políticas públicas a que está obrigado a partir das opções com melhor custo-benefício, frisa Oliveira (2021a). Por almejarem a contratação concomitante da proposta mais vantajosa e do contratante mais preparado, as licitações mostram ser um procedimento administrativo embebido da axiologia do princípio da eficiência. Além do princípio da eficiência, o artigo 5° da Lei nº 14.133/2021 prevê os seguintes princípios: Da eficácia Da economicidade Da celeridade COMENTÁRIO Entendemos que eles reforçam a previsão constitucional da eficiência, já que a eficácia não oferece deveres novos ou um estado de coisas a se atingir diverso daquele exposto pelo princípio da eficiência. A economicidade é a dimensão do custo-benefício da eficiência; dessa maneira, a celeridade impõe que a licitação e os incidentes dela decorrentes sejam resolvidos no menor tempo possível, maximizando a eficiência na atuação estatal. PRINCÍPIO DO INTERESSE PÚBLICO O referido princípio consiste na ideia de que a atuação estatal sempre deve estar voltada para a consecução das finalidades públicas, ou seja, a concretização dos princípios fundamentais e das necessidades coletivas (interesse público primário) ou em benefício do erário e das finanças públicas (interesse público secundário), destaca Oliveira (2021b). ASSIM COMO TODA A ATUAÇÃO ADMINISTRATIVA, AS LICITAÇÕES TÊM DE SER COMPREENDIDAS COMO UM INSTRUMENTO PARA ATINGIR OS INTERESSES PÚBLICOS – E NÃO UM FIM EM SI MESMO. PRINCÍPIO DA PROBIDADE ADMINISTRATIVA O princípio da probidade administrativa é uma das hipóteses que, segundo a doutrina, compõe o rol de princípios previstos nas Leis nº 8.666/1993 e nº 14.133/2021. COMENTÁRIO Nenhum conteúdo ou comando é extraído do referido princípio que não seja igualmente extraível do que trata da moralidade. Ele é, portanto, redundante. PRINCÍPIO DA IGUALDADE Tal qual o princípio anterior, trata-se de uma repetição, no rol infralegal, de um princípio de ordem constitucional, já que seus objetivos seriam satisfeitos pelo da impessoalidade. Contudo, com algum esforço hermenêutico, é possível distinguir a impessoalidade, cujo núcleo pretende evitar que subjetivismos influenciem na atuação administrativa, da igualdade, que impõe um dever objetivo de que todo administrado em situação equivalente seja tratado de forma equânime. No universo das licitações, podemos identificar que a impessoalidade justifica as regras de impedimento na atuação como agente de contratação de servidores públicos que sejam parentes ou próximos de pessoas (físicas ou acionistas de pessoas jurídicas) que contratem com a Administração Pública (artigo 7°, III). Verificamos ainda que o princípio da igualdade fundamenta o dever de tratar os licitantes de maneira equânime. Foto: Shutterstock.com. PRINCÍPIO DO PLANEJAMENTO A doutrina – a nosso ver, com razão – aponta que o planejamento é um dever da Administração decorrente do princípio da eficiência – e não um princípio autônomo, pontua Oliveira (2021a). AFINAL, O DEVER DE PLANEJAR É UBÍQUO EM TODO O TEXTO DAS LEIS DE LICITAÇÃO, SENDO UMA DECORRÊNCIA LÓGICA DE UMA GESTÃO EFICIENTE. De todo modo, sua inclusão no rol exemplificativo do artigo 5° da nova lei (o princípio não estava previsto no artigo 3° da Lei nº 8.666/1993) demonstra a posição privilegiada que o legislador atribuiu ao dever de planejamento na gestão pública.nacional sustentável. A competitividade já estava prevista na Lei nº 8.666/1993 na condição de objetivo da licitação, ou seja, a seleção da proposta mais vantajosa. Na nova lei, ela recebeu formalmente a alcunha de princípio da competitividade e manteve o status de objetivo do procedimento licitatório (ainda presente no artigo 11, I, da Lei n° 14.133/2021), reforçando, assim, seu caráter normativo. PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL SUSTENTÁVEL Previsto como um dos objetivos da licitação na Lei nº 8.666/1993, o desenvolvimento nacional sustentável, tal qual o princípio da competitividade, foi elevado formalmente ao status de princípio pela Lei nº 14.133/2021. COMENTÁRIO Sua previsão era mais adequada apenas sob a alcunha de objetivo (o que continua no artigo 11, IV), porém sua inclusão no rol de princípios reforça que o objetivo de alcançar o desenvolvimento nacional sustentável deve ser um vetor interpretativo de todos os dispositivos da lei de licitações. PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO A extensão do rol de princípios expressos da nova lei (mais de 20 citados nominalmente) não alterou seu caráter exemplificativo, existindo importantes princípios que não foram elencados no rol do artigo 5° da Lei nº 14.133/2021, tampouco no artigo 3° da Lei nº 8.666/1993. UM DOS MAIS PROEMINENTES E FAMOSOS É O PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO. Alexandre Santos de Aragão (2013) afirma que ele decorre da ponderação dos princípios da legalidade e da vinculação ao edital com o princípio da competitividade, pois eles não poderiam atrapalhar a obtenção da proposta mais vantajosa ao poder público. Afinal, segundo Oliveira (2021b), as licitações são, por natureza, um procedimento instrumental, e eventuais equívocos meramente formais não devem afastar bons licitantes. EXEMPLO O exemplo mais clássico da doutrina é o do licitante com a melhor proposta eliminado por ter se esquecido de carimbar uma página da sua proposta. Não haveria razoabilidade em tal medida. O artigo 12, III, da Lei nº 14.133/2021 agiu bem ao fixar que o desatendimento de exigências meramente formais que não comprometam a aferição da qualificação do licitante ou a compreensão do conteúdo de sua proposta não importará seu afastamento da licitação ou a invalidação do processo, positivando o que já era quase unanimemente aceito como o ideal na condução de certames licitatórios. PRINCÍPIOS DAS LICITAÇÕES O especialista Dante Tomaz abordará e explicará diversos princípios. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. HÁ INÚMERAS POLÊMICAS SOBRE A COMPETÊNCIA PARA SE LEGISLAR SOBRE LICITAÇÕES E CONTRATOS ADMINISTRATIVOS. SOBRE O TEMA, É CORRETO AFIRMAR QUE... A) A Lei nº 8.666/1993 e a Lei nº 14.133/2021 configuram-se apenas como leis federais, ou seja, voltadas para aplicação exclusiva no âmbito da União. O emprego delas por estados e municípios decorre tão somente da ausência da utilização da competência outorgada pela Constituição pelos entes subnacionais. B) A edição de normas gerais em licitações e contratos é de competência comum entre os entes, devendo uma lei complementar federal regulamentar como se dará tal exercício. C) A União possui competência para legislar sobre normas gerais de licitações e contratos e os Estados-membros, para tratar de normas gerais no âmbito estadual. Os municípios estão completamente alijados do condomínio legislativo sobre o tema. D) A competência para legislar privativamente sobre normas gerais atribuída pela Constituição à União afasta totalmente a possibilidade de Estados-membros e municípios instituírem normas procedimentais sobre o assunto. E) A competência privativa da União para legislar sobre normas gerais de licitações e contratos não impede que Estados-membros e municípios editem normas sobre procedimentos na matéria. 2. SOBRE O TEMA DOS PRINCÍPIOS DAS LICITAÇÕES, APONTE A ALTERNATIVA CORRETA. A) O rol de princípios previsto no artigo 3° da Lei nº 8.666/1993 e no artigo 5° da Lei nº 14.133/2021 exaure o tema, não havendo outros princípios aplicáveis. B) O princípio do julgamento objetivo confere grande margem de discricionariedade ao gestor público, que pode se valer de visões subjetivas ao julgar as propostas dos licitantes. C) A nova Lei de Licitação e Contratos (Lei nº 14.133/2021) apenas repete o elenco de princípio da Lei n° 8.666/1993, classificando inclusive o desenvolvimento nacional sustentável apenas como um objetivo a ser atingido. D) Os princípios previstos de forma expressa nas Leis de Licitações e Contratos estão previstos em um rol exemplificativo, o que não impede que outros princípios gerais do direito, da Administração Pública e até mesmo setoriais sejam reconhecidos pela doutrina, sendo o princípio do formalismo moderado um exemplo disso. E) A estrita legalidade e a formalidade dos procedimentos licitatórios impedem o uso de princípios nas contratações públicas por serem ambas normas abstratas e dotadas de alta carga axiológica. GABARITO 1. Há inúmeras polêmicas sobre a competência para se legislar sobre licitações e contratos administrativos. Sobre o tema, é correto afirmar que... A alternativa "E " está correta. A alternativa é a única que preconiza exatamente o comando constitucional que divide as competências em matérias de licitações e contratos. A competência privativa da União se restringe à edição de normas gerais, enquanto os demais entes subnacionais podem editar outras sobre procedimentos no tema. 2. Sobre o tema dos princípios das licitações, aponte a alternativa correta. A alternativa "D " está correta. Os princípios previstos em lei não esgotam o assunto apesar de sua grande quantidade. A alternativa cita corretamente o do formalismo moderado, único princípio não expresso trabalhado ao longo do material. MÓDULO 2 Reconhecer os tipos e as fases das licitações OS TIPOS DE LICITAÇÕES DEFINIÇÃO Os tipos de licitações são os critérios de julgamento utilizados para averiguar as propostas ofertadas pelos participantes de procedimentos licitatórios. A classificação das licitações em tipos, portanto, obedece ao formato de análise dos licitantes que oferecem as melhores propostas. TIPOS DE LICITAÇÃO NA LEI N° 8.666/1993 E NA LEI N° 14.133/2021 Segundo Garcia (2018), os critérios de julgamento de licitação precisam estar expressos no edital de forma clara, objetiva e transparente. A nova Lei de Licitações não tem previsão análoga à do artigo 44, §2°, da Lei n° 8.666/1993, cujo teor estabelecia a proibição de qualquer oferta de vantagem não prevista no edital. ATENÇÃO A retirada dessa previsão não fará falta, já que, pela própria lógica da vinculação ao edital e da isonomia, é possível extrair a proibição de critérios de julgamento não previstos em lei. Para Oliveira (2021b), a Lei nº 14.133/2021 prevê mais opções de critérios de julgamento que a de nº 8.666/1993. Na antiga lei, estavam previstos os seguintes tipos no artigo 45, §1°: Menor preço Melhor técnica Técnica e preço Maior lance ou oferta A nova lei, por sua vez, elencou os seguintes tipos em seu artigo 33: Menor preço Maior desconto Melhor técnica ou conteúdo artístico Técnica e preço Maior lance (no caso de leilão) Maior retorno econômico A Lei nº 14.133/2021 inovou ao prever que os julgamentos que envolvam o menor preço ou o maior desconto precisam observar parâmetros mínimos de qualidade (artigo 34, caput, da nova Lei). Jessé Torres Pereira Júnior (2021) celebra essa mudança – e com razão, frisamos – ao pontuar que o artigo 45, §1º, I, da Lei nº 8.666/1993 considerava exclusivamente mais vantajosa para a Administração a proposta que oferecesse o menor preço e cumprisse os requisitos do edital. O problema é que tal visão não observa parâmetros de qualidade mais elevados além desses requisitos mínimos, o que poderia significar maior economia e eficiência no longo – ao invés no curto – prazo. Foto: Shutterstock.com. A nova lei também inovou positivamente ao prever, no artigo 34, §1°, que os custosindiretos – relacionados, entre outros fatores vinculados a seu ciclo de vida, com despesas de manutenção, utilização, reposição, depreciação e impacto ambiental do objeto licitado – poderão ser considerados para a definição do menor dispêndio, conforme disposto em regulamento, sempre que forem objetivamente mensuráveis. Em muitos casos, os gestores de contratos, por conta da dificuldade de mensuração desses custos e da falta de previsão expressa do dever de levá-los em consideração, os ignoravam, ocasionando um evidente prejuízo à adequada gestão pública. Espera-se que essa evolução rompa tal ciclo. Entretanto, não há dúvidas de que a maior “novidade” quanto ao tópico dos tipos de licitações é a inclusão do critério de julgamento denominado “maior retorno econômico”. COMENTÁRIO Essa novidade, na verdade, é relativa: tal critério já estava previsto na Lei do Regime Diferenciado de Contratações (Lei n° 12.462/11), que era uma norma com âmbito de aplicação restrito aos objetos nela elencados. javascript:void(0) OBJETOS NELA ELENCADOS Eles estavam inicialmente elencados apenas para as obras e os serviços relacionados aos Jogos Olímpicos de 2016 e à Copa do Mundo de 2014 – e, posteriormente, para inúmeros setores, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o sistema penitenciário e a segurança pública, além de outros setores previstos em seu artigo 1°. A doutrina divergia acerca da possibilidade de utilização do procedimento do RDC, inclusive dos tipos de licitação ora analisados, para os certames licitatórios regidos pela Lei n° 8.666/1993. A nova lei, ao consagrá-lo, finda a discussão em definitivo. TIPOS DE LICITAÇÃO EM ESPÉCIE Elencaremos agora seis tipos de licitação em espécie: MENOR PREÇO O tipo de licitação considerado como regra geral no Brasil, segundo Garcia (2018), leva em conta única e exclusivamente o preço cobrado pelos possíveis contratados do poder público. Não há, portanto, preocupações com a qualidade além dos critérios mínimos previstos no edital. Dos licitantes que chegaram até a etapa de julgamento, o vencedor será o que ofertar o preço mais baixo. Simples assim. Trata-se do único critério previsto na Lei do Pregão (artigo 4°, X, da Lei n° 10.520/2002). MAIOR DESCONTO Tal critério é bastante similar ao do menor preço, pois seu objetivo é gerar o menor dispêndio ao poder público. A diferença é que o vencedor será o licitante que oferecer o maior desconto em relação a um preço de referência previamente fixado pela Administração Pública no edital, explica Garcia (2018). Foto: Shutterstock.com. O artigo 34, §2°, da Lei nº 14.133/2021 regulamentou esse tipo de licitação. Ele fixou que: O julgamento por maior desconto terá como referência o preço global fixado no edital de licitação. O desconto será estendido aos eventuais termos aditivos. MELHOR TÉCNICA OU CONTEÚDO ARTÍSTICO Única hipótese de critério de julgamento não vinculada ao preço, ela tem sua aplicação restrita para a contratação de projetos e trabalhos de natureza técnica, científica ou artística, conforme prevê o artigo 35, parágrafo único, da Lei n° 14.133/2021. Trata-se de um objeto mais restrito que o previsto no artigo 46 da Lei n° 8.666/1993. A legislação antiga, afinal, possibilitava sua utilização para serviços de natureza predominantemente intelectual: Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Elaboração de projetos. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Cálculos. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Fiscalização. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Supervisão. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Gerenciamento. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Engenharia consultiva em geral. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke Elaboração de estudos técnicos preliminares e de projetos básicos e executivos. O procedimento do tipo melhor técnica foi parametrizado no artigo 37 da nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos, sendo estabelecido nele que o julgamento por melhor técnica ou por técnica e preço deve ser realizado por: VERIFICAÇÃO DA CAPACITAÇÃO E DA EXPERIÊNCIA DO LICITANTE Ambas são comprovadas por meio da apresentação de atestados de obras, produtos ou serviços previamente realizados. ATRIBUIÇÃO DE NOTAS A QUESITOS DE NATUREZA QUALITATIVA Essa atribuição é feita por uma banca composta por, no mínimo, três integrantes, sejam eles servidores efetivos e/ou profissionais de renome contratados com essa finalidade. Ela é designada para esse fim de acordo com orientações e limites definidos em edital. São considerados nesse processo os seguintes quesitos: Demonstração de conhecimento do objeto Metodologia e programa de trabalho Qualificação das equipes técnicas Relação dos produtos que serão entregues ATRIBUIÇÃO DE NOTAS POR DESEMPENHO DO LICITANTE EM CONTRATAÇÕES ANTERIORES Essa atribuição é aferida em: Documentos comprobatórios (tratados pelo §3º do artigo 88 da Lei nº 14.133/2021). Registro cadastral unificado disponível no PNCP. O artigo 38 destaca que, no tipo de licitação melhor técnica ou por técnica e preço, a obtenção de pontuação devido à capacitação técnico-profissional exigirá que a execução do respectivo contrato tenha participação direta e pessoal do profissional correspondente. JÁ A LEI N° 8.666/1993, POR ACEITAR UMA MAIOR AMPLITUDE ÀS LICITAÇÕES DO TIPO MELHOR TÉCNICA, PREVIA UM PROCEDIMENTO DIFERENTE E MAIS AMPLO EM SEU ARTIGO 46, §1°: A ABERTURA DE ENVELOPES CONTENDO AS PROPOSTAS TÉCNICAS DOS LICITANTES PREVIAMENTE QUALIFICADOS E, EM SEGUIDA, A AVALIAÇÃO E A CLASSIFICAÇÃO DELAS DE ACORDO COM OS CRITÉRIOS PERTINENTES E ADEQUADOS AO OBJETO LICITADO, SENDO ELES DEFINIDOS COM CLAREZA E OBJETIVIDADE NO INSTRUMENTO CONVOCATÓRIO. Eram considerados pela lei de 1993: Capacitação e experiência do proponente. Qualidade técnica da proposta (compreendendo metodologia, organização, tecnologias e recursos materiais a serem utilizados nos trabalhos). Qualificação das equipes técnicas a serem mobilizadas para a sua execução. Em seguida, eram abertas as propostas de preços dos licitantes que tivessem atingido a valoração mínima estabelecida no instrumento convocatório. Com isso, podia ser iniciada a negociação. COMENTÁRIO Entendemos que o legislador agiu corretamente ao restringir o tipo de licitação melhor técnica. MELHOR TÉCNICA E PREÇO O critério melhor técnica e preço possui um espectro de utilização mais amplo, podendo ser manejado em licitações quando o objeto se enquadrar em uma destas cinco hipóteses: SERVIÇOS TÉCNICOS ESPECIALIZADOS DE NATUREZA PREDOMINANTEMENTE INTELECTUAL Caso em que o critério de julgamento de técnica e preço deve ser preferencialmente empregado. SERVIÇOS MAJORITARIAMENTE DEPENDENTES DE TECNOLOGIA SOFISTICADA E DOMÍNIO RESTRITO Conforme atestam as autoridades técnicas de reconhecida qualificação. BENS E SERVIÇOS ESPECIAIS DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E DE COMUNICAÇÃO OBRAS E SERVIÇOS ESPECIAIS DE ENGENHARIA OBJETOS QUE ADMITAM SOLUÇÕES ESPECÍFICAS E ALTERNATIVAS E VARIAÇÕES DE EXECUÇÃO Quando essas soluções e variações puderem ser adotadas à livre escolha dos licitantes, de acordo com critérios objetivamente definidos no edital de licitação (artigo 36, §1°, da lei nº 14.133/2021), serão geradas repercussões significativas e concretamente mensuráveis quanto à: Qualidade Produtividade Rendimento Durabilidade O artigo 36, §2°, da nova lei estipula que devem ser avaliados e ponderados dois tipos de proposta: Propostas técnicas. Propostas de preço: apresentadas pelos licitantes na proporção máxima de 70% de valoração para a proposta técnica. ATENÇÃO Sem previsão análoga na Lei n° 8.666/1993, uma interessante novidade, por valorizar a experiência prática de potenciais contratantes e poder auxiliar na melhoria da gestão pública, é o disposto no artigo 36, §3°, da nova lei: está definido nele que o desempenho pretérito na execução de contratos coma Administração Pública precisa ser considerado na pontuação técnica. Sob a égide da Lei nº 8.666/1993, o tipo melhor técnica e preço é idêntico ao do tipo melhor técnica – salvo pelo artigo 46, §2°. Esse artigo adiciona o dever de: Realizar uma avaliação. Valorizar as propostas de preços conforme critérios objetivos preestabelecidos no instrumento convocatório. Prever que a classificação dos proponentes será feita de acordo com a média ponderada das valorizações das propostas técnicas e de preço (segundo os pesos preestabelecidos no instrumento convocatório). MAIOR LANCE, NO CASO DE LEILÃO A nova Lei de Licitação e Contratos previu esse novo tipo como o critério de julgamento para reger os leilões. javascript:void(0) LEILÕES Modalidade destinada à alienação de bens imóveis ou móveis inservíveis ou legalmente apreendidos a quem oferecer o maior lance, conforme prevê o artigo 6°, XL. MAIOR RETORNO ECONÔMICO Principal novidade constante na Lei nº 14.133/2021 no que tange aos tipos de licitação, essa modalidade estava até então restrita – ao menos à luz do direito positivo, já que existia doutrina militante em favor de sua aplicação ampla – ao RDC. Agora, porém, ela poderá ser utilizada pela Administração Pública sempre que estiverem presentes seus pressupostos. Esse tipo se volta exclusivamente para os contratos de eficiência, ou seja, aqueles que, na forma do artigo 6°, LIII, têm por objeto a prestação de serviços. Essa prestação pode incluir a realização de obras e o fornecimento de bens com o objetivo de proporcionar economia ao contratante na forma de redução de despesas correntes, remunerando o contratado com base em percentual da economia gerada. Foto: Shutterstock.com. O artigo 39 dispõe que a análise do maior retorno econômico considerará a maior economia para a Administração, enquanto a remuneração deverá ser fixada em um percentual que incidirá de forma proporcional à da economia efetivamente obtida na execução do contrato. Nas licitações que adotarem a referida modalidade, os licitantes terão de apresentar: Proposta de trabalho contemplando as obras, os serviços ou os bens com os respectivos prazos de realização ou fornecimento. Economia que se estima gerar expressa em unidade de medida associada à obra, ao bem ou ao serviço – e em unidade monetária. Proposta de preço correspondendo ao percentual sobre a economia que se estima gerar durante determinado período e expressa em unidade monetária (artigo 39, §1°). O edital precisará prever os parâmetros objetivos de mensuração da economia gerada com a execução do contrato, que servirá de base de cálculo para a remuneração devida ao contratado (artigo 39, §2°). Para efeito de julgamento da proposta, o retorno econômico será o resultado da economia que se estima gerar com a execução da proposta de trabalho, sendo deduzida a proposta de preço (artigo 39, §3°). QUANDO NÃO FOR GERADA A ECONOMIA PREVISTA NO CONTRATO DE EFICIÊNCIA, A DIFERENÇA ENTRE A ECONOMIA CONTRATADA E A EFETIVAMENTE OBTIDA SERÁ DESCONTADA DA REMUNERAÇÃO DO CONTRATADO. SE A DIFERENÇA ENTRE A CONTRATADA E A EFETIVAMENTE OBTIDA FOR SUPERIOR AO LIMITE MÁXIMO ESTABELECIDO NO CONTRATO, O CONTRATADO SE SUJEITARÁ A OUTRAS SANÇÕES CABÍVEIS (ARTIGO 39, §4°). FASES DA LICITAÇÃO QUAIS SÃO AS FASES DAS LICITAÇÕES? De acordo com a doutrina especializada, os atos do processo licitatório são agrupados em duas fases: interna e externa. Na fase externa (ou licitação propriamente dita), há o processo de seleção dos particulares interessados, esclarece Aragão (2013). Na interna, o poder público define o objeto a ser licitado e toma as medidas imprescindíveis à abertura do procedimento. EXEMPLO Escolha do tipo, cautelas orçamentárias, redação das minutas de edital e contrato, além da sua análise jurídica. AS LICITAÇÕES, PORTANTO, SE DIVIDEM EM DUAS FASES: INTERNA E EXTERNA. Apesar disso, o artigo 17 da Lei nº 14.133/2021 parece prever mais fases do que as duas clássicas ao estabelecer que o processo de licitação observará, na sequência, as seguintes fases: I Preparatória. II De divulgação do edital de licitação. III De apresentação de propostas e lances (quando for o caso). IV De julgamento. V De habilitação. VI Recursal. VII De homologação. A contradição, porém, é apenas aparente: a lei apenas prevê, entre os incisos II e VI, o que a doutrina já classificava como etapas da fase externa. FASE INTERNA DA LICITAÇÃO Segundo Flávio Amaral Garcia (2018), a fase interna da licitação pode ser conceituada como atos preparatórios internos de cada órgão ou entidade e concatenados sucessivamente para a realização da licitação. NESSA FASE, OS ATOS SE DESENVOLVEM APENAS INTERNA CORPORIS. Como se afirmou anteriormente, a fase interna não estava disciplinada na Lei nº 8.666/1993, o que conferiu grande liberdade de conformação aos entes subnacionais por ela se subsumir ao conceito de procedimento e, portanto, ser passível de regulação pelos entes subnacionais. A polêmica sobre tal fase ser de competência dos entes federados ou da União deve exsurgir pelo fato de a Lei nº 14.133/2021 regulamentar a matéria em minúcias nos artigos 18 e seguintes. Oliveira (2021b, p. 238) classifica como “salutar” a preocupação da nova lei com a fase preparatória por entender – e com absoluta razão – que uma fase interna malfeita ressoa diretamente na eficiência da licitação e do próprio contrato. Essa fase é indispensável para o respeito ao planejamento e ao princípio da eficiência. O ARTIGO 18 DA LEI Nº 14.133/2021 ESTABELECE QUE A FASE PREPARATÓRIA DO PROCESSO LICITATÓRIO É CARACTERIZADA PELO PLANEJAMENTO. ELA PRECISARÁ COMPATIBILIZAR-SE TANTO COM O PLANO DE CONTRATAÇÕES ANUAL (SEMPRE QUE ELE FOR ELABORADO) DE QUE TRATA O INCISO VII DO ARTIGO 12, CAPUT, DA MESMA LEI QUANTO COM AS LEIS ORÇAMENTÁRIAS. Além disso, deverão ser abordadas todas as considerações técnicas, mercadológicas e de gestão com potencial para interferir na contratação. Estão compreendidos nesse rol: Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A descrição da necessidade da contratação fundamentada em estudo técnico preliminar que caracterize o interesse público envolvido. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A definição do objeto para o atendimento da necessidade por meio de termo de referência, anteprojeto, projeto básico ou projeto executivo, conforme o caso. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A definição das condições de execução e pagamento das garantias exigidas e ofertadas e das condições de recebimento. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke O orçamento estimado com as composições dos preços utilizados para sua formação. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A elaboração do edital de licitação. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A elaboração de minuta de contrato, quando necessária, que constará obrigatoriamente como anexo do edital de licitação. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke O regime de fornecimento de bens, de prestação de serviços ou de execução de obras e serviços de engenharia, sendo observados os potenciais de economia de escala. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A modalidade de licitação, o critério de julgamento, o modo de disputa e a adequação e a eficiência da forma de combinação desses parâmetros para os fins de seleção da proposta apta a gerar o resultado de contratação mais vantajoso para a Administração Pública, sendo considerado todo o ciclo de vida do objeto. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A motivação circunstanciada das condições do edital. Daremos o exemplo de três tipos de justificativa: das exigências de qualificação técnica mediante a indicação das parcelas de maior relevância técnica ou valor significativo do objeto e de qualificação econômico-financeira; dos critérios de pontuação e julgamento das propostas técnicas nas licitaçõescom julgamento por melhor técnica ou técnica e preço; e, por fim, das regras pertinentes à participação de empresas em consórcio. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A análise dos riscos que possam comprometer o sucesso da licitação e a boa execução contratual. Imagem: Shutterstock.com adaptada por Yuri Cooke A motivação sobre o momento da divulgação do orçamento da licitação, observado o artigo 24 da lei. Os parágrafos primeiro e segundo do artigo 18 da nova lei regulamentam o estudo técnico preliminar com um elevado grau de detalhes. ATENÇÃO Um ponto a ser observado na regulamentação da fase interna, além da questão da competência já abordada, é como os inúmeros requisitos serão operacionalizados em municípios menores e em órgãos não equipados, já que as exigências se tornarão enormes. Contudo, a estruturação prevista nessa legislação pode ter o condão de incentivar uma maior qualidade na fase preparatória. FASE EXTERNA DAS LICITAÇÕES A fase externa das licitações se conceitua como o momento em que o poder público leva ao conhecimento de terceiros sua vontade de celebrar um contrato, tendo como seu marco a publicação do edital, o que dá ciência formal aos interessados do início do certame e possibilita que eles preparem sua participação e/ou proposta de preços, conceitua Garcia (2018). Segundo o artigo 17 da Lei n° 14.133/2021, há seis etapas na fase externa: Divulgação do edital de licitação Apresentação de propostas e lances (quando for o caso) Julgamento Habilitação Recursal Homologação Seguindo o exemplo de leis mais modernas, como, por exemplo, a do Pregão e do RDC, a nova lei agiu bem ao inverter a regra da Lei nº 8.666/1993 e colocar a fase de habilitação depois da etapa de julgamento, evitando, com isso, a análise de documentação de todos os licitantes sem necessidade. Por fim, o artigo 164 da Lei nº 14.133/2021 (similar ao artigo 41, §1°, da Lei nº 8.666/1993) prevê que qualquer pessoa pode ser parte legítima para impugnar um edital de licitação por irregularidade na aplicação dessa lei ou para solicitar esclarecimento sobre os seus termos, devendo protocolar o pedido em até três dias úteis antes da data de abertura do certame. A faculdade se justifica pela importância que os editais possuem no início da fase externa. FASES DAS LICITAÇÕES O especialista Dante Tomaz abordará as diferentes fases das licitações. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. SOBRE OS TIPOS DE LICITAÇÃO, MARQUE A ALTERNATIVA CORRETA. A) A Lei nº 14.133/2021 não inovou no tema, se limitando a repetir exatamente os mesmos critérios da Lei n° 8.666/1993. B) Os tipos de julgamento se referem ao modelo de formulação do edital, não tendo relação com os critérios de julgamento. C) O tipo de licitação denominado “maior retorno econômico” está previsto tanto na Lei nº 14.133/2021 quanto na Lei nº 8.666/1993. D) O tipo de licitação técnica e preço é a regra geral no Brasil. E) A grande novidade da Lei nº 14.133/2021, quanto aos tipos de licitação, é a previsão expressa do critério de julgamento “maior retorno econômico”. 2. SOBRE O TEMA DAS FASES DA LICITAÇÃO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA. A) Assim como a Lei n° 8.666/1993, a nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos não regulamentou a fase interna das licitações. B) A fase preparatória das licitações tem início com a publicação do edital. C) A Lei n° 14.133/2021 inovou ao regulamentar a fase preparatória das licitações. D) O gestor público tem discricionariedade para decidir em qual momento deseja iniciar a fase externa: se na publicação do edital, no chamamento para a habilitação ou no chamamento para o julgamento. E) A nova Lei de licitações rompeu com o padrão da Lei nº 8.666/1993 e extinguiu a divisão das licitações em fases. GABARITO 1. Sobre os tipos de licitação, marque a alternativa correta. A alternativa "E " está correta. A alternativa é a única cujo conteúdo está diretamente relacionado ao novo comando legal – ao contrário das demais, que contradizem normas citadas. O maior retorno econômico trata-se de uma modalidade até então restrita ao RDC, passando a poder ser utilizada pela Administração Pública sempre que estiverem presentes seus pressupostos. 2. Sobre o tema das fases da licitação, assinale a alternativa correta. A alternativa "C " está correta. A alternativa está em perfeita consonância com o artigo 18 da Lei n° 14.133/2021, sendo ela uma das principais novidades da nova lei quanto a esse tema. A fase preparatória dedica-se ao planejamento, sendo positiva, pois uma fase interna malfeita ressoa diretamente na eficiência da licitação e do próprio contrato. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Como vimos neste conteúdo, as noções gerais de licitações envolvem importantes aspectos para a compreensão do tema, merecendo um olhar atento por parte dos estudiosos do direito. Tratamos da competência delas, destacando que a CRFB/1988 diz competir à União a edição de normas gerais sobre o tema e que é permitida aos entes subnacionais uma regulamentação suplementar sobre procedimentos e questões de interesse local que não violem as normas gerais. Apesar disso, frisamos que esse tema é envolto em grande celeuma, havendo decisões dos tribunais e posições doutrinárias com sentidos diversos. Em seguida, nos aprofundamos sobre o tópico das responsabilidades em licitações, abordando separadamente a que é atribuída ao Estado enquanto ente licitante, aos agentes públicos que atuam em licitações e aos particulares que se relacionam com o poder público. Quanto a esse tópico, portanto, estabelecemos a necessidade de racionalização do controle para se evitar uma cultura de medo na Administração Pública. Também discorremos sobre os princípios aplicáveis às licitações, tratando separadamente de todos aqueles citados expressamente na CRFB/1988 e nas Leis n° 8.666/1993 e n° 14.133/2021. Estudamos ainda os tipos de licitação, destacando como a nova Lei de Licitações se diferenciou da Lei nº 8.666/1993, em especial pela redução do espaço dos tipos focados na técnica e pela adoção do tipo maior retorno ao poder público (até então restrito ao RDC). Por fim, descrevemos as fases das licitações. Para tal, apontamos as diferenças da fase interna, chamada de preparatória na Lei n° 14.133/2021, e da externa (ou licitação propriamente dita), que se inicia com os particulares sendo informados da realização do certame. AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ARAGÃO, A. S. de. Curso de Direito Administrativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. ÁVILA, H. Teoria da segurança jurídica. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2016. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. BRASIL. Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências. BRASIL. Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021. Lei de Licitações e Contratos Administrativos. BRASIL. Programas visam inserir micro e pequenas empresas nas compras governamentais. In: Ipea. Publicado em: 23 nov. 2018. Consultado na internet em: 26 maio 2021. BINENBOJM, G.; CYRINO, A. O artigo 28 da LINDB – a cláusula geral do erro administrativo. In: Revista de direito administrativo. 2018. p. 203-224. BINENBOJM, G. Uma teoria do direito administrativo: direitos fundamentais, democracia e constitucionalização. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2014. GARCIA, F. A. Licitações e contratos administrativos: casos e polêmicas. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2018. JUSTEN FILHO, M. Curso de Direito Administrativo. 11. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. MOREIRA, E. B. Dinâmica da regulação: estudo de casos da jurisprudência brasileira: a convivência dos tribunais e órgãos de controle com agências reguladoras, autoridade da concorrência e livre iniciativa. Belo Horizonte: Fórum: 2021. OLIVEIRA, R. C. R. Curso de direito administrativo. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense/Método, 2021a.OLIVEIRA, R. C. R. Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos: comparada e comentada. Rio de Janeiro: Forense, 2021b. OLIVEIRA, R. C. R. Licitações e contratos administrativos. 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CONTEUDISTA Dante Tomaz CURRÍCULO LATTES javascript:void(0);