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LÉXICO DA LÍNGUA
XUKURU DE ORORUBÁ
 EM PESQUEIRA-PE
Rosani Maciel Calado
Mapeando demandas e promovendo
formação docente
UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – UPE
Reitora: Profa. Dra. Maria do Socorro de Mendonça Cavalcanti
Vice-Reitor: Prof. José Roberto de Souza Cavalcanti
Conselho Editorial da Editora Universidade de Pernambuco – EDUPE
Membros Internos
Prof. Dr. Ademir Macedo do Nascimento
Prof. Dr. André Luis da Mota Vilela
Prof. Dr. Belmiro Cavalcanti do Egito Vasconcelos
Prof. Dr. Carlos André Silva de Moura 
Profa. Dra. Danielle Christine Moura dos Santos
Profa. Dra. Emilia Rahnemay Kohlman Rabbani
Prof. Dr. José Jacinto dos Santos Filho
Profa. Dra. Márcia Rejane Oliveira Barros Carvalho Macedo
Profa. Dra. Maria Luciana de Almeida
Membros Externos
Profa. Dra. Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento - Universidade Tiradentes (Brasil)
Profa. Dra. Gabriela Alejandra Vasquez Leyton - Universidad Andres Bello (Chile)
Prof. Dr. Geovanni Gomes Cabral - Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Brasil)
Profa. Dr. Gustavo Cunha de Araújo - Universidade Federal do Norte do Tocantins (Brasil)
Prof. Dr. José Zanca - Investigaciones Socio Históricas Regionales (Argentina)
Profa. Dra. Letícia Virginia Leidens - Universidade Federal Fluminense (Brasil)
Prof. Dr. Luciano Carlos Mendes de Freitas Filho - Instituto Federal da Bahia (Brasil)
Prof. Dr. Pedro Gil Frade Morouço - Instituto Politécnico de Leiria (Portugal)
Prof. Dr. Rosuel Lima-Pereira - Universidade da Guiana - França Ultramarina (Guiana Francesa)
Profa. Dra. Verónica Emilia Roldán - Università Niccolò Cusano (Itália)
Prof. Dr. Sérgio Filipe Ribeiro Pinto - Universidade Católica Portuguesa (Portugal)
Diretor Científi co e Coordenador: Prof. Dr. Carlos André Silva de Moura
Secretário Executivo: Felipe Ramos da Paixão Pereira Rocha
Assistente Administrativo: Renan Cortez da Costa 
Diagramador e designer: Eni Vieira
Imagem da capa: Freepik.com.br
Este livro foi submetido à avaliação do Conselho Editorial da Universidade de Pernambuco. 
Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução deste livro, ou de seus capítulos, para fi ns comerciais.
A referência às ideias e trechos deste livro deverá ser necessariamente feita com atribuição de créditos aos autores e à EDUPE.
Esta obra ou os seus artigos expressam o ponto de vista dos autores
e não a posição ofi cial da Editora da Universidade de Pernambuco – EDUPE
Catalogação na Fonte (CIP)
Núcleo de Gestão de Bibliotecas e Documentação - NBID
Universidade de Pernambuco
Elaborado por Claudia Henriques CRB 4/1600
Prof. Dr. Mário Ribeiro dos Santos
Prof. Dr. Rodrigo Cappato de Araújo
Profa. Dra. Rosangela Estevão Alves Falcão
Profa. Dra. Sandra Simone Moraes de Araújo
Profa. Dra. Silvânia Núbia Chagas
Profa. Dra. Sinara Mônica Vitalino de Almeida
Profa. Dra. Virgínia Pereira da Silva de Ávila
Prof. Dr. Waldemar Brandão Neto
Calado, Rosani Maciel
 Léxico da Língua Xukuru de Ororubá em Pesqueira-PE:
mapeando demandas e promovendo formação docente /
Rosani Maciel Calado. -- Recife : EDUPE, 2023.
 166 p.
 ISBN: 978-65-85651-28-8
 1. Léxico. 2. Indígenas. 3. Língua. 4. Formação de
professores. I. Título.
CDD: Ed. 23 -- 413.028
C1411
AGRADECIMENTOS
Quero iniciar minhas primeiras palavras de gratidão a Deus que é fonte 
inesgotável de sabedoria e minha ancestralidade encantados/as Xukuru 
da Serra do Ororubá, porque essa obra foi produzida em um contexto de 
pandemia mundial do COVID-19, onde as emoções psicológicas e a vida 
estavam ameaçadas no período de um governo negacionista. Quando vi 
pessoas conhecidas tendo suas vidas ceifadas, sofri junto aos familiares, 
também vivi e senti medo da morte, mas as leituras me transportavam 
para a escrita deste trabalho. Agradeço aos queridos/as professores/as à 
minha orientadora Profa. Dra. Débora Amorim Gomes da Costa-Maciel 
e aos professores Dr. Jonathas de Paula Chaguri (UPE), Prof. Dr. Edson 
Hely Silva (UFPE), que aceitaram mergulhar no conteúdo desta obra, 
ainda na fase de dissertação de mestrado. Agora ganhou o formato de 
E-book, esses docentes voltam a colaborar nas tessituras de prefácio e 
apresentação deste livro. Esse trabalho é a resposta do envolvimento e 
da escuta de professores/as da educação básica na cidade de Pesqueira e 
de histórias ouvidas de meus/minhas parentes consanguíneos/as e não 
consanguíneos Xukuru do Ororubá. Ele é também a inquietação de uma 
professora que “pisa” diariamente no chão da escola e por almejar que 
as histórias da língua Xukuru do Ororubá façam parte do cotidiano de 
escolas públicas e particulares na cidade de Pesqueira/PE a partir da Lei 
nº 11.645/08 de 10 de março. Na capa deste E-book , embora tenha meu 
nome, existe uma coletividade que faz com que ele pertença, também, 
a minha orientadora de Mestrado Profa. Dra. Débora Amorim Gomes 
da Costa-Maciel, porque com a parceria dela este trabalho foi possível. 
Aos meus avós maternos e pais Xukuru do Ororubá, discentes e amigos/
as que me rodeiam, direta e indiretamente e ao meu povo Xukuru do 
Ororubá, em nome da Dona Zenilda Xukuru, que contribuiu para vali-
dação do Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru, produto social que 
apresentaremos nesta obra, além dos parentes que cederam a sua imagem 
para compor o documento. Este coletivo colaborou para que eu pudesse 
realizar este grande sonho em minha vida acadêmica. Agradecer é um ato 
de humildade que nos instiga a olhar cada vez mais para nossa “incon-
clusão”. Por isso, “um ser ininterruptamente em busca, naturalmente 
em processo.” (FREIRE, 2005, p. 84), que parafraseando Freire, quero 
sempre está em “processo” de construção na educação...
Sou grata!
Dedico esta obra a cada parente criança, adolescente, pessoa jovem, 
adulta, idosa e encantados/as do meu povo Xukuru da Serra do Ororubá 
de Pesqueira/PE, que resistiu, resiste e existe com bravura para que a sua 
cultura seja respeitada.
LISTA DE IMAGENS
Imagem 1: As Línguas Macuxi e Xukuru do Ororubá 88
Imagem 2: As Línguas Macuxi e Xukuru 89
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Famílias do Tronco Tupi 46
Quadro 2: Línguas Tupi-Guarani 48
Quadro 3: Tronco Macro-Jê 50
Quadro 4: Palavras indígenas Xukuru do Ororubá 56
Quadro 5: Habilidades de Língua Portuguesa 57
Quadro 6: Habilidades Prioritárias da Língua Portuguesa 58
Quadro 7: Língua Xukuru do Ororubá 61
Quadro 8: Identificação docente 66
Quadro 9: Encontros virtuais – Temáticas 79
Quadro 10: Conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá 84
SUMÁRIO
PREFÁCIO.............................................................................................................................10
APRESENTAÇÃO.................................................................................................................11
CAPÍTULO I
APROXIMAÇÕES COM AS MEMÓRIAS DE FORMAÇÃO E A PESQUISA...................13
CAPÍTULO II
BRASIL, POVOS ORIGINÁRIOS E SUAS LÍNGUAS: PANORAMA GERAL...............27
2.1 ALDEAMENTO DE CIMBRES............................................................................................................................35
CAPÍTULO III
LÍNGUAS TUPI, TUPI- GUARANI, TRONCO MACRO-JÊ E AS LÍNGUAS ISOLADAS
.................................................................................................................................................44
3.1 PALAVRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ..................................................................................52Pira na planta-
ção de alimentos, como já mencionado neste capítulo. Com o tempo, os 
fazendeiros começaram a deixar de plantar alimentos nas terras e começa-
ram a plantar capim para alimentação do gado, uma maneira de expulsar 
42
os originários de suas terras para viverem em outros lugares. De acordo 
com o indígena Emanuel Alves de Freitas,
No tempo dos meus pais que eram jovens e o meus 
avôs aí tinha as fazendas do Joaquim Mota e passou 
para seu Pira, genro dele que eu acho que todo 
mundo conheceu ele í em Pesqueira. Meus tios 
trabalhavam no roçado plantando milho, feijão 
e aí o que acontecia naquela época? Tinha traba-
lho, tinha muita terra, o pessoal trabalhava, mas 
aí os fazendeiros começaram a plantar capim nas 
roças, aonde se plantava feijão, milho, fava, feijão 
de corda. Eles foram plantando capim e foi afas-
tando o pessoal de colocar roçado, eles não deixa-
vam mais. Então acabou com o futuro dos jovens. 
Que na época era eu, meus primos, os nossos vizi-
nhos, nossos conhecidos. O que aconteceu? Todo 
mundo veio embora porque não tinha um futuro. 
Nós solteiros jovens como que a gente ia poder 
se casar sem ter um futuro que não podia mais 
trabalhar nas terras que era indígena, que era dos 
fazendeiros, mas antigamente era tudo indígena. 
E aí veio às dificuldades, a seca também, as terras 
todas cheia de capim e transformou em pasto pro 
gado e o os nossos pais ficaram velhos e nós tivemos 
que sair (FREITAS, 2002, n.p).
Jovens como Emanuel Alves de Freitas e outros foram morar 
com familiares na região Sudeste do país para trabalhar em outras ati-
vidades profissionais. Mas, a falta de formação os obrigava a ir parar em 
metalúrgicas para vender sua força de trabalho, como relatou Emanuel 
Alves de Freitas (2002, n.p): “Sai pra procurar um futuro como aqui 
em São Paulo, no Recife, outros em Belo Horizonte e assim por diante. 
Por isso, que lá ficou esvaziado, meio esquecido, mas sempre continuou 
lá a área indígena.”
43
Na contemporaneidade, os indígenas com ancestralidade estão 
destinados a encontros pela espiritualidade, no presente e no futuro, que 
os envolvem, uma vez que o homem é um ser biopsicosocioafetivo e não é 
alheio ao mundo que o cerca num contexto social e cultural, desse modo 
“[...] a verdadeira riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente 
da riqueza de suas relações reais” (MARX, 2004, p. 40).
Muitas famílias permaneceram firmes, mobilizadas pelo territó-
rio indígena Xukuru do Ororubá, de modo que as memórias, as histó-
rias, a língua, o reconhecimento dos Xukuru, o sentimento de pertença, 
a afirmação e o direito às terras provocou conflitos com os latifundiários. 
Mas, mesmo diante do protagonismo do povo Xukuru do Ororubá, mui-
tos familiares, parentes e conhecidos migraram para outras regiões do 
Brasil para preservar suas vidas e suas famílias. E da Língua Xukuru do 
Ororubá ficaram “palavras, em sua maioria, são as que nomeiam partes do 
corpo humano, animais, alimentação, objetos e situações do cotidiano” 
(SILVA, 2018, p. 69-70).
Após situar com brevidade historicamente a realidade brasileira 
e, nesse contexto, o povo Xukuru do Ororubá, seguimos para discutir 
teoricamente a questão de algumas línguas indígenas, que se materializam 
como tronco para formação da Língua Xukuru do Ororubá, bem como 
as especificidades desta.
44
CAPÍTULO III
LÍNGUAS TUPI, TUPI- GUARANI, TRONCO 
MACRO-JÊ E AS LÍNGUAS ISOLADAS
No século XVI, pressupõe-se que existiam em torno de 1.200 a 
1.500 línguas indígenas no Brasil. Devido aos ensinamentos dos padres 
jesuítas por todas as regiões do país, a partir da segunda metade do século, 
esse número foi diminuindo ao longo do tempo. Apesar disso, o Censo/
IBGE de 2010 contabilizou 274 línguas faladas no Brasil, as quais devem 
ser consideradas patrimônio, sejam estas faladas no cotidiano ou reco-
nhecidas através de palavras para enaltecer eventos e identificar um grupo 
étnico. As 274 línguas originárias registradas pelo Censo IBGE/2010 
correm o risco de desaparecerem se nada for feito. Então, diante dessa 
situação, o que podemos fazer? Acredita-se que um dos caminhos pos-
síveis para se combater a perda linguística, assim como de palavras ainda 
existentes e não (re)conhecidas, como a do povo Xukuru, é a construção 
de materiais didáticos que contribuam com a propagação das línguas, 
como almejamos fazer com as palavras da Língua Xukuru do Ororubá, 
através da confecção do Dicionário Ilustrado de palavras.
As línguas dos povos indígenas no Brasil estão agrupadas, formando 
conjuntos como: Tupi, Tupi-Guarani, Tronco Macro Jê e as “línguas iso-
ladas ainda faladas no Brasil se encontre ameaçada de desaparecimento” 
(RODRIGUES, 1985, p. 94), não possuem parentesco com nenhuma 
outra língua. Todas enriquecem as expressões socioculturais do país e, na 
falta de uma delas, como, por exemplo, a Língua Xukuru do Ororubá, o 
município, o estado e o país se tornam mais pobres na cultura das línguas.
As línguas do Tronco Tupi estão com distribuição geograficamente 
“ao sul do rio Amazonas no Brasil” (RODRIGUES, 1985, p. 42), uma vez 
que, nesse Tronco linguístico existem várias línguas, ou seja, compreende-se 
como uma família linguística através da oralidade entre os povos indígenas. 
Todos os momentos são registrados no meio familiar pelo afeto, não somente 
enquanto história de uma etnia, mas também nas vivências pessoais.
45
Uma família linguística é um grupo de línguas para 
as quais se formula a hipótese de que tem uma ori-
gem comum, no sentido de que todas as línguas 
da família são manifestações, alteradas no correr 
do tempo, de uma só língua anterior. As línguas 
românicas - Português, Espanhol, Francês, Italiano 
constituem uma família, cujos membros derivam de 
uma língua ancestral bem conhecida historicamente 
- o Latim (RODRIGUES, 1985, p. 29).
Como as chamadas línguas românicas têm origens no Latim, 
o mesmo ocorre com a família das línguas do tronco Tupi, próximas 
umas das outras e que, sobretudo, adequam-se ao contexto de comu-
nicação. Sendo assim, o Tupi não é necessariamente uma língua e sim 
um conjunto de línguas.
Como todas as demais, as línguas dos povos indí-
genas do Brasil são inteiramente adequadas à plena 
expressão individual e social no meio físico em que 
tradicionalmente tem vivido esses povos. Embora 
diferentes, elas compartilham do que todas as quase 
seis mil línguas do mundo têm em comum: são 
manifestações da mesma capacidade de comuni-
car-se pela linguagem (RODRIGUES, 1985, p. 17).
O Tupi é uma coleção de línguas, por isso é importante o seu 
resguardo. Dependendo da situação de proteção e de investimento com 
políticas públicas, outros novos falantes da língua poderão surgir com 
a preservação das línguas originárias, mas são necessário investimentos 
para pesquisadores/as desenvolver pesquisas sobre as línguas originárias 
nos estados do Nordeste, do Brasil e do mundo.
As famílias do Tupi ou tronco Tupi, como também são conheci-
das, estão situadas nos limites do Brasil, visto que estão todas localizadas 
46
ao Sul do rio Amazonas e ao Norte (RODRIGUES, 1985, p. 42) como 
observado abaixo.
Quadro 1: Famílias do Tronco Tupi
Línguas Nº no mapa do 
Cimi Estado Falantes
Família Arikém Karitiána 167 RO 109
Família Jurúna 52 MT 126
Juruna (Yurúna)
Família Mondé Aruá 173ª RO ?
Cinta -Larga 186 MT, RO 953
Gavião (Ikõrõ, Digut) 189 RO 220
Mekém 179 RO 40
Mondé 185 RO ?
Suruí (Paitér) 187 RO 340
Zoró 188 MT, RO 175
Família Mundurukú 
Kuruáya 61 PA 52
Mundurukú 62 PA, AM 1.460
Família Ramráma Arára 
(Urukú, Karo) 190 RO 92
Itogapúk (Ntogapid) 165 RO 95
Família Tuparí Makuráp 170 RO 215
Túpari 176 RO 56
Wayoró 180 RO ?
Outras línguas Awetí 202 MT 36
47
Puruborá — RO ?
Mawé (Sateré) 65 PA 3.000
Fonte: Rodrigues (1985, p. 46).
Compreendemos no Tronco Tupi que algumas línguas são isola-
das e, provavelmente, surgiram a partir de migrações territoriais de povos 
originários por diversas situações da época da colonização. “Nessecaso 
estão às línguas Aweti, no alto Xingu, e Mawé, entre o baixo Tapajós, 
o baixo Madeira e o Amazonas. Uma terceira língua isolada ao nível de 
família é o Puruborá, em Rondônia, do qual talvez ainda haja alguns 
falantes.” (RODRIGUES, 1985, p. 42).
As línguas isoladas são um mistério e não sabemos ao certo como 
se configuraram ao longo da história no Brasil, uma vez que não têm 
parentesco com as famílias linguísticas do tronco Tupi, o que vem insti-
gar ainda mais o/a pesquisador/a sobre o tema desse estudo. A “família 
Tupi-Guarani destaca-se entre outras famílias linguísticas da América 
do Sul pela notável extensão territorial sobre a qual estão distribuídas 
suas línguas” (RODRIGUES, 1985, p. 32), em específico, no Brasil.
As línguas correspondentes ao Tupi-Guarani foram usadas no 
centro do continente e acreditamos em um número pequeno de fala-
das “em alguns países que constituem a América do Sul, como a Argen-
tina, Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa e no Brasil” 
(RODRIGUES, 1985, p,32), mais especificamente nos Estados de Ron-
dônia, cuja capital é Porto Velho, e Mato Grosso do Sul, com a capital 
Campo Grande. Nesse contexto, acredita-se na adequação da linguagem 
no cotidiano, “porque só existe língua se houver seres humanos que a 
falem” (BAGNO, 1999, p. 9) e, quando isso não ocorre com as línguas 
indígenas, entra em processo de apagamento pela falta da oralidade, como 
a Língua Xukuru do Ororubá.
No quadro a seguir, é possível analisar as línguas que ainda são 
faladas, quais os Estados e o número de falantes.
48
Quadro 2: Línguas Tupi-Guarani
Línguas Nº no mapa
do Cimi Estado Falantes
Akwáwa
Asurini do Tocantins (A. 
do Trocará, Akwáwa)
50 PA 131
Suruí do Tocantins 
(mudjetíre) 44 PA 101
Parakanã 51 PA 297
Amanayé 79 PA ?
Anambé (Turiwára?) 66 PA 61
Apiaká 64 MT (65) 2
Araweté 49 PA 136
Asuriní do ‘Xingu (A. do 
Coatinema, Awaeté) 50b PA 53
Avá (Canoeiro) 220 GO 101
Guajá 46 MA 240
Guaraní 5 MS 7.000
Kaiwá (koyová)
Mbiá (Mbua, Mbyá, 
Guaraní) 1 RS, SC, PR,
SP, RJ, ES 2.248
Nhandéva (Txiripá, 
Guaraní) 4 PR, SP, MS 4.900
Kamayurá 208 MT 207
Kayabi 63 MT 620
Kokáma 123 AM (411) ?
49
Língua Geral Amazô-
nica (Nheengatú, Tupí 
Moderno)
------ AM 3.000
Omágua (Kambéba) 126 AM (240) ?
Parintintín
Diahói 152 AM 13
Júma 154 AM 9
Parinrinrín (Kagwahív) 159 AM 118
Tenharín 161 AM 256
Tapirapé 271 MT 202
Tenetehára Guajajára 36 MA 6.776
Tembé 48 MA, PA 410
Uruewauwáu 169 RO 215
Urubú (Urubú-Kaapór) 47 MA 494
Wayampí (Oyampí) 45 AP 291
Xetá ----- PR 5
Fonte: Rodrigues (1985, p. 39).
Existem poucos falantes das línguas originárias e, se essas línguas 
não forem reconhecidas a partir das leis e políticas públicas, entrarão em 
processo de apagamento, como a língua do povo Xukuru do Ororubá, 
pois ocorrerá a perda na cultura das línguas indígenas. Uma vez que as 
leis garantem a valorização das línguas indígenas no Brasil, o que falta são 
olhares sensíveis a causa, porque leis nacionais e internacionais existem.
As línguas do Tronco Macro-Jê no Brasil são faladas nas regiões 
secas, entre os campos e cerrados. As línguas que constituem o Tronco 
Macro-Jê estão localizadas nos estados do Maranhão, na Região do Nor-
deste, e avançam para o Estado do Pará, entre outros estados do Brasil. No 
50
quadro abaixo, podem ser verificados os Estados e o número de falantes 
das línguas que correspondem o Tronco Macro Jê.
Quadro 3: Tronco Macro-Jê
Línguas Nº no mapa do 
Cimi Estado Falantes
Família Boróro
Boróro (Boróro Oriental, 
Orari)
199 MT 752
Umutína (Barbados) 198 MT 160
Família Botocudo Krenák, 
Nakrehé 12 MG, SP 70 (15?)
Família Jê Akwén (Akwê)
Xakriabá (Xikriabá) 16 MG (3.500)?
Xavánte (A’wé) 200 MT 4.413
Xerénte (Akwé) 42 GO 850
Apinayé 40 GO 508
Kaingáng (Coroado) 2 RS, SC, PR, 
SP 10.426
Kayapó Gorotíra 57 PA 1.030
Kararaô 55 PA 26
Kokraimôro 56 PA 120
Kubenkrangnotí 59 PA ?
Kubrenkrankêgn 58 PA 361
Menkrangnotí 60 PA ?
Tapayúna (?) 213 MT 26
Xakléng (Aweikoma) 3 SC 634
51
Família Karajá Javaé 219 GO 383
Karajá 218 GO, MT 1.194
Xambioá 43 GO 102
Família Maxakalí Maxakalí 13 MG 500
Pataxó 14 BA (1.762)?
Pataxó Hãhãhãe 15 BA (1.270)?
Outras línguas Guató 10 MS 220
Ofayé (Ofayé-Xavánte) 7 MS 23
Rikbaktsá (Erikbaktsá, 
Arikpaktsá) 193 MT 466
Yatê (Fulniô, Karnijó) 26 PE 4.000
Fonte: Rodrigues (1985, p. 56).
Os Fulni-ôs, habitantes de Águas Belas-PE, são a única etnia 
dos 14 povos indígenas de Pernambuco conhecidos em 2022, falan-
tes do Yatê, a língua ancestral do Tronco Macro-Jê. Os demais povos, 
como: Pankará, Atikum, Kambiwá, Kapinawá, Pankararu, Pipipã, Truká, 
Tuxá e os Xukuru do Ororubá, os Xukuru de Cimbres tiveram as línguas 
apagadas, devido aos aldeamentos realizados pelas missões religiosas 
no período da colonização. Entretanto, embora os indígenas Fulni-ô 
também tenham sido aldeados, continuaram falantes da língua Yatê e 
“viviam separados e conservavam sua língua originária” (SILVA, 2017, 
p. 86), apresentando mais de três mil palavras.
As línguas são importantes para a construção da identidade de um 
povo, mas é necessário políticas públicas de formações docentes continua-
das para avançar na cultura das línguas originárias. Para Rodrigues (1985, 
p. 5), “as línguas indígenas constituem [...] um dos pontos para os quais os 
linguistas brasileiros deverão voltar a sua atenção” (RODRIGUES, 1985, p. 
52
5). Por isso, pensamos na Formação Continuada junto aos/às professores/as 
sobre as palavras Xukuru para valorização, reconhecimento e enaltecimento 
a partir da revisitação da História da língua do povo Xukuru do Ororubá, 
que habitam na Serra do Ororubá, de acordo com a Lei nº 11.645/2008.
Com os quadros 4 (quatro) e 5 (cinco), procuramos apresentar 
informações do estudioso Aryon Dall Igna Rodrigues sobre as línguas ori-
ginárias nos anos de 1980. Mas, de acordo com o Censo do IBGE de 2010 
existem mais de 274 línguas indígenas no Território brasileiro, ou seja, quase 
100 (cem) línguas indígenas aumentaram em 30 (trinta) anos no Brasil.
Dos anos de 1980 até 2010, passaram-se 30 (trinta) anos. O 
Censo do IBGE de 2010 não apontou tipos de recursos e nem inves-
timentos para o estudo das línguas indígenas brasileiras. Nesse sentido, 
como houve o aumento das línguas indígenas faladas no Brasil? Não temos 
como responder no momento a essa pergunta.
3.1 PALAVRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ
Com a pesquisa, foi necessário revisitar a história das palavras da 
Língua Xukuru do Ororubá a fim de ressaltá-las por meio da “formação de 
professores [...] um campo de grande complexidade, no plano [...] profis-
sional” (NÓVOA, 2017, p. 12), que ocorreu de maneira “envolvente” em 
busca de possibilitar as mudanças no “modo de pensar, agir e interagir”, 
através de diálogos interativos no ensinar-aprender.
A “vida é dialógica” e, por isso, é necessário reconhecer para 
valorizar a língua do povo originário Xukuru do Ororubá. Muitas lín-
guas indígenas desapareceram e continuarão sumindo de maneira pro-
gressiva se nada for feito para serem preservadas, pois acredita-se que “é a 
intenção comunicativa que funda o uso da língua [...]” (MARCUSCHI, 
2001, p. 9) e, quando isso não ocorre com os grupos étnicos, a língua fica 
cada vez mais longínqua, como aconteceu com a Língua Xukuru do Oro-
rubá. Nesse contexto, para que o conjunto de palavras não desapareça, 
busca-se explorar estratégias para o reconhecimento nas escolas públi-
cas e privadas em Pesqueira. Dessa forma, a formação de professores 
53
possibilitará um momento de reflexão sobre a Língua Xukuru do Oro-
rubá. Sobretudo, para que seja (re)conhecida e valorizada.
Está explícito na Lei nº 9.394 -LDB: Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação Nacional “a educação abrange os processos formativos [...]” 
sobre as expressões socioculturais no Brasil. Por isso, o léxico sobrevi-
vente das tentativas de apagamento da língua Xukuru do Ororubá deve 
fazer parte de processos formativos de professores/as em Pesqueira/PE.
As inquietaçõesa partir do estudo proposto existem há algum 
tempo e trarão respaldo através da Formação Continuada. Daremos 
continuidade a esse trabalho, visto que muitos/as professores/as, atuantes 
na Educação Básica da rede pública e privada em Pesqueira, ainda não 
conhecem a língua do povo originário Xukuru do Ororubá de Pesqueira. 
Como a formação docente deve ser um processo contínuo, pretendemos 
promover mais momentos de reflexões, para formação pessoal, profissio-
nal e político- pessoal dos/as docentes na Educação Básica.
A formação é uma viagem aberta, uma viagem que 
não pode estar antecipada, é uma viagem interior, 
uma viagem na qual alguém se deixa influenciar a 
si próprio, se deixa seduzir e solicitar por quem vai 
ao seu encontro, e na qual a questão é esse próprio 
alguém, a constituição desse próprio alguém, e a 
prova e desestabilização e eventual transformação 
desse próprio alguém (LARROSA, 2017, p. 67).
Com essa viagem aberta na História da Língua Xukuru do Oro-
rubá, buscamos, com a Formação Continuada com os/as professores/
as, instigá-los/as a construir meios para contribuir com a propagação 
das palavras dessa língua indígena no cotidiano escolar, pois a Formação 
Continuada é uma maneira de intervir na realidade existencial (FREIRE, 
1996) da história da Língua Xukuru do Ororubá.
A formação de professores/as na cidade de Pesqueira será uma 
viagem longa, na qual teremos docentes que se reconhecerão como ori-
ginários/as Xukuru do Ororubá, não pela emoção do momento e nem 
54
por se deixar influenciar, mas por ser uma reflexão interior e também 
sobre a história originária local. Pois, de acordo com o questionário 
proposto aos docentes, não há relatos de ações realizadas na formação 
inicial e continuada acerca dessa temática.
Segundo Bagno (2007, p. 12), “cada uso da língua, cada uma 
de suas variações e, até mesmo, cada ato individual da fala é, nesse sen-
tido, um acontecimento, exatamente como aqueles outros que, por sua 
importância cultural, viram notícias e se tornam marcos históricos” e 
o conjunto de palavras da língua originária faz parte da história e das 
memórias do povo indígena habitante da Serra do Ororubá.
As palavras da Língua Xukuru do Ororubá, pensando a formação 
docente, foram um diferencial apresentado aos/às professore/as como um 
“marco histórico”, uma vez que serão disseminadas para o (re)conheci-
mento da beleza que até então estava apagada no tempo por falta de refle-
xão, mas serão “notícia” no meio educacional, porque “conhecer a história 
da língua [...] é precioso e deve ser cultivado” (BAGNO, 2007, p. 160 
– grifo do autor) no ensinar-aprender da Educação Básica em Pesqueira.
As palavras fazem parte da identidade do povo Xukuru do Ororubá 
e existe da parte da pesquisadora “esperança de produzir o objeto [que] é tão 
fundamental” para dar visibilidade (FREIRE, 2021 p, 45), para o reconheci-
mento e valorização da língua dos indígenas do povo da Serra do Ororubá.
cada língua indígena brasileira, não só reflete, assim 
aspectos importantes da visão de mundo desen-
volvida pelo povo que a fala, mas constitui, além 
disso, a única porta de acesso ao conhecimento 
pleno dessa visão de mundo que só nela é expressa. 
As múltiplas visões de mundo dos povos indígenas 
brasileiros - com todo o complexo cultural, social e 
emocional a elas associado - tem importância crí-
tica para o conhecimento humano por se terem 
desenvolvido, durante alguns milhares de anos 
com total independência histórica em relação às 
tradições culturais (RODRIGUES, 1985, p, 27).
55
O conjunto de palavras da língua indígena Xukuru do Ororubá 
“reflete” “aspectos” “importantes” dos povos originários que, no passado, 
foram faladas. E a Formação Continuada é uma porta aberta para combater 
o desconhecimento da língua, associado ao ensinar-aprender. Assim, é 
promover mais momentos de formações de professorasses/as, para a cons-
trução de um olhar reflexivo sobre as línguas indígena, porque refletem 
aspectos importantes das histórias, memórias e tradições culturais no Brasil.
Podemos dizer que as palavras da Língua Xukuru do Ororubá 
serão (re)conhecidas no contexto social e educacional e, assim, não serão 
esquecidas, porque “hoje tanto quanto ontem, contudo possivelmente 
mais fundamentado hoje do que ontem, estou convencido da importância 
da formação permanente de [...] educadores e educadoras” (FREIRE, 
2021, p. 32), bem como de todos/as aqueles/as que estão no “chão da 
escola”, ou seja, do porteiro ao diretor/a da instituição como: “ vigias, 
merendeiras, zeladoras” (FREIRE, 2021, p. 32), entre outros funcio-
nários da escola, para valorização das palavras da Língua Xukuru do 
Ororubá no cotidiano escolar.
Ainda é necessário que haja atenção à ausência de 
políticas públicas de formação continuada para uma 
educação das relações étnico raciais, que possibilitem 
a participação de especialistas no assunto, sobretudo 
convidando líderes indígenas para as escolas, como 
palestrantes e protagonistas das narrativas históricas 
sobre seu povo; orientações às professoras sobre as 
possibilidades de acesso a referenciais teórico- meto-
dológicos coerentes com as produções acadêmicas 
atualizadas sobre a temática indígena; planejamento 
institucional vislumbrando incluir a abordagem da 
temática indígena como conteúdo curricular siste-
mático e contínuo; subsídios didáticos adequados 
ao contexto local; por fim, visitas pedagógicas ao 
território indígena, previamente articuladas com 
suas lideranças (SILVA, 2018, p. 99).
56
As palavras da Língua Xukuru possivelmente são reconhecidas por 
muitos discentes originários das aldeias do território indígena. Sobretudo, 
porque existem discentes indígenas matriculados/as nas escolas na zona 
urbana de Pesqueira, como a escola Municipal Irmã Zélia de Nicácio, com 
25 (vinte e cinco) discentes indígenas provenientes de diferentes aldeias; 
assim como professores/as efetivos/as e funcionários/as contratados/as 
originários na rede pública educacional. Por isso, faz-se necessário que 
todos/as que fazem parte da escola (re)conheçam, valorizem e enalteçam 
o conjunto de palavras Xukuru do Ororubá, como as citadas no quadro 
abaixo, para superação do preconceito cultural contra a língua indígena.
Quadro 4: Palavras indígenas Xukuru do Ororubá
Conjunto de palavras da língua Xukuru
Casar Xacon
Chegar Teregon
Dormir Morixar
Comer Ucrin
Correr Ombrêra
Despedir Gutimem
Falar Noiem
Ouvir Pingomar
Viajar Ombrera motogue
Fonte: Livro Xukuru filhos da Mãe Natureza (2006, p. 66).
Por isso, é tão necessária a Formação Continuada, materializada 
como inserção social desta pesquisa, quando “supomos que essa realidade 
possa ser compreendida por nós como fruto de uma formação inicial e 
continuada [...] em um processo reflexivo” (COSTA-MACIEL, 2011, 
p. 18). A visão sobre os povos originários no território Xukuru do Oro-
rubá poderá ser outra e, a partir da Formação Continuada, poderemos 
57
estimular o reconhecimento das palavras Xukuru, pois muitos/as pro-
fessores/as não(re)conhecem a história dessa língua. Mas, acreditamos 
que, ao revisitarem a História da Língua Xukuru, serão motivados a 
ações pedagógicas no ensinar-aprender com o grupo-sala.
Inúmeros docentes atuantes na Educação Básica nasceram e/ou 
residem na cidade, trabalham em diferentes escolas e nos distritos do 
município de Pesqueira. Porém, desconhecem as palavras da Língua 
Xukuru do Ororubá. Para valorizá-las, é necessário (re)conhecê-las, por 
isso, a formação continuada possibilitará a formação pessoal e profissio-
nal a partir da Lei nº 11.645/2008 (BRASIL, 2008), uma vez que os/as 
docentes serão instigados/as nas formações a construírem meios para 
propagar as palavras da Língua Xukuru do Ororubá na educação.
A formação continuada proposta por nossa pesquisa está funda-
mentada nos “Reorganizadores Curriculares” do Município de Pesqueira 
(PESQUEIRA, 2022) para os anos iniciais, no qual encontra-se a valorização 
linguística de “palavras” da LínguaXukuru do Ororubá no processo forma-
tivo, visto que elas fazem parte da língua dos originários e nunca estarão fora 
de contexto socioeducacional e histórico, como podemos verificar abaixo.
Quadro 5: Habilidades de Língua Portuguesa
Fonte: Referencial Curricular de Pesqueira (2022, n.p)
58
As palavras da Língua Xukuru do Ororubá não constam em 
dicionários. Mas, com as formações continuadas, haverá oportunidade 
de conhecê-las, para que, a partir das vivências, os/as professores/as explo-
rem estratégias de valorização no contexto escolar em Pesqueira. Nos 
Reorganizadores Curriculares (PESQUEIRA, 2022) para os anos finais, 
encontra-se a valorização das expressões socioculturais local, colaborando, 
inclusive, para consolidação das habilidades apregoadas pelo documento:
Quadro 6: Habilidades Prioritárias de Língua Portuguesa
Fonte: Referencial Curricular de Pesqueira (2022, n.p).
De acordo com os Reorganizadores Curriculares (2022), as pala-
vras da Língua Xukuru do Ororubá serão revisitadas e vivenciadas no 
cotidiano da educação pública através da Formação Continuada para 
serem (re)conhecidas, valorizadas e enaltecidas, “diminuindo, assim, 
os riscos de perdas linguísticas e garantindo a manutenção da rica diver-
sidade linguística do país” (BRASIL, 1998, p. 121).
59
Segundo a LDB, no Art. 26-A, nos “estabelecimentos de ensino 
fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o 
estudo da história (...) indígena”, e a língua indígena Xukuru faz parte do 
contexto histórico em Pesqueira. Destaca-se que, por meio dos momentos 
formativos com os docentes, haverá a valorização.
Se considerarmos a quantidade de línguas, podemos 
dizer que ela representa 95% das existentes no Atlas 
linguístico mundial. Por issoquando se reivindicam 
os direitos linguísticos, eles se referem a uma mino-
ria de falantes, mas à maioria das línguas existentes 
no mundo. Trata-se assim da luta pela manutenção 
da diversidade linguística (FREIRE, 2017, p. 44).
Nesse sentido, espera-se que, no futuro, as palavras da Língua 
Xukuru sejam reconhecidas e enaltecidas de maneira local e mundial, 
através do estudo que se pretende dar continuidade na educação pública. 
Acreditamos que esse movimento servirá para o surgimento de Políticas 
Linguísticas Públicas, a partir da Formação Continuada, uma vez que 
brotarão novos rizomas.
Como a gente sabe que o pensamento se acumula 
rizomaticamente, eu acho que a gente sabe que vai 
cair uma chuva e uma hora os rizomas vão brotar, 
como vai ser isso? Eu não sei, a gente não tem con-
dições humanas de prever o futuro e também não 
sei se eu quero [...] mas é a certeza de que coisas vão 
sendo feitas (GARCIA, 2012, p. 32).
Que rizomas positivos para o enaltecimento das palavras Xukuru 
do Ororubá venham a brotar na perspectiva da formação dos/as pro-
fessores/as, visto que o momento será de grande importância para as 
reflexões entre os/as docentes empenhados/as e participantes no presente 
momento (FREIRE, 1996, p. 39) na Educação em Pesqueira.
60
Com a Formação Continuada iniciada com o nosso estudo e 
estimulado a continuidade, esperamos que.
Ultrapassaremos a esfera espontânea de apreensão 
da realidade, para chegarmos a uma esfera crítica na 
qual a realidade se dá como objeto cognoscível e no 
qual o homem assume uma posição epistemológica. 
A conscientização é neste sentido, um teste de reali-
dade. Quanto mais conscientização, mais se desvela 
a realidade, mais se penetra na essência fenomênica 
do objeto, frente ao qual nos encontramos para 
analisá-la. Por esta mesma razão, a conscientização 
não consiste em estar frente à realidade assumindo 
uma posição falsamente intelectual. Esta unidade 
dialética constitui, de maneira permanente, o modo 
de ser ou de transformar o mundo que caracteriza 
os homens. Por isso mesmo, a conscientização é um 
compromisso histórico. É também consciência his-
tórica: é inserção crítica na história, implica que os 
homens assumam o papel de sujeitos que fazem e 
refazem o mundo (FREIRE, 1989, p. 15).
A partir das formações continuadas, os/as professores/as poderão 
ultrapassar uma situação naturalizada para uma posição reflexiva no (re)
conhecimento das palavras da Língua Xukuru do Ororubá, assim como 
discutí-las, promovê-las e divulgá-las na escola, através da “consciência his-
tórica”, assumindo a cidadania e refletindo sobre o papel deles/as enquanto 
indivíduos ativos para refazer um novo “mundo” do reconhecimento e 
valorização das palavras Xukuru do Ororubá no cotidiano escolar.
A formação não se constrói por acumulação de 
cursos, de conhecimento ou de técnicas, mas assim 
através de um trabalho de reflexibilidade crítica [...] 
e de (re) construção permanente de uma identi-
dade pessoal. A formação vai e vem, avança e recua, 
61
construindo-se num processo de relações ao saber e 
ao conhecimento (NÓVOA, 1992, p. 13).
Com o conhecimento a ser vivenciado, os/as professores/as fomen-
tarão outros por meio das relações sociais que ocorrerão entre as interações 
de experiências sobre as palavras da Língua Xukuru do Ororubá, na qual 
os sujeitos aprendem uns com os outros em processos contínuos por vivên-
cias, flexibilização, reconstrução e aquisição com a formação continuada.
Entre o dito e o não dito, a conclusão é óbvia: a 
formação de professores será sempre importante 
para qualquer mudança educacional, sobretudo 
para a melhoria da qualidade do ensino. E pensar a 
qualidade da educação no contexto da formação de 
professores significa colocar-se a disposição da cons-
trução de um projeto de educação cidadã que propi-
cia condições para a formação de sujeitos históricos 
capazes de, conscientemente, produzir e transformar 
sua existência (CARVALHO, 2007, p. 6).
Alguns estudos já foram realizados sobre o povo Xukuru do 
Ororubá, como dissertações, teses, artigos, entre outros, porém não 
temos conhecimento sobre a confecção de Dicionário Ilustrado das 
palavras da língua dos povos originários da Serra do Ororubá. Por isso, 
aspiramos ao momento de reconhecimento das palavras que fazem parte 
da Língua Xukuru do Ororubá, através da continuidade de Formação 
Continuada e do dicionário nas escolas. Pois, “será importante para qual-
quer mudança” de valorização sociocultural no cotidiano escolar.
Quadro 7: Língua Xukuru do Ororubá
Conjunto de palavras Xukuru
Bom dia Bremen
Boa tarde Elareném
62
Boa noite Tataramém
De manha Imbemer
De noite Tataramen
Fonte: Livro Xukuru filhos da Mãe Natureza (2006).
Nas Formações Continuadas, os/as professores/as tiveram 
a oportunidade de vivenciar uma situação até então desconhecida e 
muitos serão provocados/as a “inquietação, um conjunto de perguntas, 
indagações ou silêncios” (FREIRE, 2013, p. 359-360) sobre a História 
das palavras da Língua Xukuru do povo da Serra do Ororubá. 
A imagem abaixo corresponde a XVII Assembleia do povo 
Xukuru do Ororubá, realizada em 2017, no espaço Mandaru no ter-
ritório indígena. Chamamos a atenção para as duas palavras da língua 
originária utilizadas na faixa de pano: limolaigo e toipe, as quais enri-
quecem as expressões socioculturais da etnia habitante na Serra do Oro-
rubá e que, por isso, devem ser reconhecidas no contexto educacional 
do município de Pesqueira, através de formação continuada, já que no 
passado foi à língua da etnia Xukuru do Ororubá.
A XVII Assembleia do povo originário Xukuru do Ororubá, em 
2017, teve o tema “limolaigo toipe: nenhum direito a menos: a nossa 
luta não para” e, como o próprio título chamou a atenção dos direitos a 
serem garantidos, um deles deve ser o reconhecimento do conjunto de pala-
vras da Língua Xukuru, mesmo que esta tenha sido apagada. De acordo 
com a Lei nº 11.645, de 10 março de 2008, que alterou a Lei Nº 9.394, 
de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases, são garantidos os 
direitos de (re)conhecimento e valorização através da revisitação da história 
da língua do povo Xukuru do Ororubá, não somente a “História e Cultura 
Afro-Brasileira”,mas também as culturas dos povos Indígena, como a 
Língua Xukuru do Ororubá, através da Formação Continuada e de novas 
reflexões no contexto socioeducacional em Pesqueira pelos professores(as).
Sendo assim, com esse estudo, aspiramos enaltecer o tema dessa 
pesquisa através de encontros com professores/as da educação pública, 
63
porque “nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres 
históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo.” 
(FREIRE, 1996, p. 31) para mudar a situação até então desconhecida da 
Língua Xukuru do Ororubá, fazendo com que todos/as venham (re)
conhecer a língua na educação pública e particular em Pesqueira.
Nesse sentido, acreditamos que a formação continuada a ser 
promovida na cidade de Pesqueira possibilitará o (re)conhecimento das 
palavras da Língua Xukuru do Ororubá, uma vez que ela faz parte da 
identidade do povo originário, habitantes na Serra do Ororubá. Devendo 
ser valorizada e enaltecida no contexto educacional de Pesqueira e quem 
sabe do Estado, do Brasil e até mesmo a nível mundial, para 
“consolidar a identidade de um grupo e promover a autoestima de seus 
membros e, por outro, o propósito de desenvolver solidariedade entre os 
diferentes” (MOREIRA; MACEDO, 2002, p. 21), através da Formação 
Continuada na Educação Básica.
Essa pesquisa, versando sobre palavras da Língua Xukuru do 
Ororubá, convida cada um(a) a (re)conhecer a língua originária do povo 
indígena que habita nos municípios de Pesqueira e Poção e também na 
região circunvizinha, a partir da Formação Continuada na Educação 
Básica, porque “acredito que a presente proposta oferece bastante con-
sistência do ponto de vista da linguística histórica e que poderá revelar-
-se útil como um modelo de desmembramento histórico das línguas” 
(RODRIGUES, 1985, p. 33) e de maneira especial a história da língua 
dos Xukuru do Ororubá de Pesqueira e Poção/PE.
O estudo que realizamos com a formação docente para vivência 
da identidade étnica do povo Xukuru do Ororubá no cotidiano escolar 
trará enriquecimentos para os/as professores/as da educação pública e 
particular da cidade de Pesqueira, pois “pesquiso para constatar, consta-
tando, intervenho, intervindo educo [...]. Pesquiso para [...] comunicar 
e anunciar a novidade.” (FREIRE, 1996, p. 32), uma vez que a ciência se 
fundamenta em pesquisas para dar resultados satisfatórios à sociedade, 
como o (re)conhecimento e valorização do tema desta pesquisa na cidade 
de Pesqueira através da formação continuada.
64
Olhando para a fundamentação teórica, base que alimentou a aná-
lise dos nossos dados, seguimos para a seção em que triangulamos - teoria, 
dados, olhar de pesquisadora- com vistas a cumprir os objetivos desta obra.
65
CAPÍTULO IV
“DA ESCUTA À AÇÃO” OLHARES SOBRE O 
QUE DIZEM OS/AS DOCENTES
Vejamos a seguir a análise dos dados e o relato da aplicação da 
experiência da inserção social da pesquisa, que foi orientada pelos obje-
tivos deste trabalho, que se comprometeu em sondar as demandas for-
mativas e intervir com formação continuada (FC) junto a professores/
as atuantes nas redes públicas e privadas de ensino em Pesqueira- PE, de 
maneira geral. E de forma específica, pesquisar as demandas formativas 
para o trato com o léxico da Língua Xukuru do Ororubá no contexto 
escolar; bem como, promover formação continuada para docentes de 
escolas públicas e privadas, voltada ao trato com palavras do léxico da Lín-
gua Xukuru do Ororubá. Este é um movimento que se compromete em 
aproximar, cada vez mais, os/as docentes às dimensões da identidade do 
povo Xukuru, a partir de reflexões sobre palavras em uso pela população 
indígena, que habita os municípios pernambucanos de Pesqueira e Poção.
4.1 CONHECIMENTO, PELOS/AS DOCENTES, DAS EXPRESSÕES 
SOCIOCULTURAIS XUKURU DO ORORUBÁ
Observamos que 33 (trinta e três) dos/as 34 (trinta e quatro) pro-
fessores/as que responderam a questionário registraram no questionário 
que não tiveram contato direto com as temáticas relacionadas às expressões 
socioculturais Xukuru do Ororubá, ao longo da Educação Básica, ou seja, 
no Ensino Fundamental e Médio. Apenas 5 (cinco) docentes indicaram 
que tiveram acesso a informações no Ensino Superior, no contexto da 
formação para docência (Magistério/Normal Médio/Faculdade).
O desconhecimento por parte dos/as 33 (trinta e três) docentes 
em relação à cultura do povo Xukuru do Ororubá nos moveu a pes-
quisar os municípios de origem e residência desses/as docentes, o que 
poderia justificar, por exemplo, a falta de contato com as dimensões 
66
das expressões socioculturais do citado povo indígena, por não terem 
residência no município de Pesqueira.
Quadro 8: Identificação docente
Cidade/Naturalidade Quantidade de participantes Residência
Pesqueira/PE 07 Pesqueira
Belo Jardim/PE 01 Pesqueira
Sanharó/PE 07 Pesqueira
Pesqueira/PE 13 Pesqueira
São Paulo/SP 01 Pesqueira
Pesqueira/PE 04 Pesqueira
Fonte: A autora (2022).
Ao observar o quadro, verificamos, a partir das respostas dos/as 34 
(trinta e quatro) participantes, que alguns/as professores/as são naturais 
de Pesqueira e/ou cidades próximas, como: Belo Jardim e Sanharó, mas 
residindo em Pesqueira. Em sua maior parte, residem há mais de 30 (trinta) 
anos em Pesqueira. Evidenciando, dentre outras questões, a dívida das 
políticas públicas para a formação, desde a Educação Básica, de cidadãos 
e cidadãs que reconheçam e valorizem as expressões socioculturais locais.
A cidade de Pesqueira contabilizava, em 2010, a 8ª maior popula-
ção indígena em números absolutos em área urbana do Brasil, correspon-
dendo a 4.048 indígenas (IBGE, 2010). Saber da existência de docentes 
que habitam há mais de três décadas na região e que afirmam não terem 
tido acesso, na formação (inicial ou continuada) para o serviço docente, 
à informações sobre os indígenas é revelador da opressão e da tentativa 
de apagamento da história do povo Xukuru do Ororubá na cidade onde 
os/as professores/as e indígenas residem.
O “desconhecimento” revelado com os dados contribui para 
que percebamos, dentre outras questões, que os estereótipos sobre as 
expressões socioculturais Xukuru do Ororubá poderiam ser evitados ao 
67
longo das gerações e, quem sabe, já superados na sociedade do tempo 
presente. Ao contrário, vemos, há mais de quatro séculos, as tentativas 
de apagamento dos elementos dessa cultura, como fizeram com a língua 
do povo na atualidade, que hoje usam alguns léxicos do repertório da 
língua originária, que resistiram as inúmeras tentativas de extinção.
Devemos lembrar que a formação dos/as professores/as partici-
pantes dessa etapa de nossa pesquisa foi anterior a Lei nº 11.645/2008, 
modificando o artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação 
Nacional (LDB) de 1996, em que normatiza o necessário ensino de his-
tória da cultura do povo indígena na Educação Básica. Acreditamos 
que a legislação não seja garantia do ensino da temática em sala de aula, 
se não vier acompanhada de outras políticas públicas que viabilizem a 
consolidação de práticas que não ecoem um discurso limitador diante 
das expressões socioculturais que foram pormenorizadas ao longo dos 
anos. A Lei, portanto, assegura um direito, mas exige ações como as que 
nos propomos nesta obra.
Na direção da garantia de direitos, a pesquisa que ora apresen-
tamos, ao tratar dos léxicos da Língua Xukuru do Ororubá, alcança os 
costumes, as histórias, as memórias e as transformações vivenciadas pelos 
indígenas, e se apresenta como um espaço de resgate da língua. Esse movi-
mento está em sintonia com a afirmação de Bonin (2010, p. 04), para quem 
“quando identificamos [...] estamos nos ocupando de nossa própria 
identidade e confirmando as certezas que construímos”.
A citada autora, porém, alerta para os aspectos que maquiam a 
“pedagogia da diversidade”. Sob esse prisma, ao serem incluídos como 
temática escolar, os povos indígenas são transportados para dentro de 
práticas pedagógicas, de currículos, de calendários,de datas comemorati-
vas, de políticas de ações afirmativas. Contudo, essa inserção é carregada 
de “uma série de mecanismos utilizados para ordenar, conformar, estabe-
lecer quais posições estes outros deverão ocupar” (BONIN, 2010, p. 04). 
O discurso da autora se firma no que Skliar (2003, p. 198) denuncia, a 
respeito dessa inclusão excludente
68
São autorizados, respeitados, aceitos e tolerados 
apenas uns poucos fragmentos da alma... o outro 
desse projeto educativo é peça no jogo do mesmo. 
“(...) É a pedagogia das supostas diferenças, em meio 
a nossa indiferença, a produção de uma diversidade 
que nota apenas a si mesma, entende apenas si, sente 
apenas a partir de si mesma (SKLIAR, 2003, p. 198).
Bonin (2010) e Skliar (2003) ergueram falas denunciadoras 
de uma situação que precisa ser superada e foi nessa perspectiva que 
movemos nossos esforços em busca de contribuir através desta obra. 
O cenário reafirma a relevância de nossa pesquisa, que se comprome-
teu, a partir de um olhar extensionista, a ofertar formação continuada 
para os/as docentes, a fim de contribuir com a superação das lacunas 
existentes e se prestar, enquanto pesquisa realizada na pós-graduação 
brasileira, como parte do papel da Universidade Pública, cujo compro-
misso, dentre tantas outras dimensões, está na valorização dos saberes 
dos diferentes povos e expressões socioculturais.
Além de questionarmos aos/as participantes desta pesquisa 
se eles/elas haviam recebido formação para o trato com as expressões 
socioculturais Xukuru do Ororubá, buscamos compreender se esses/
as docentes se reconheciam enquanto indígenas ou não- indígenas e se 
reconheciam a língua desse povo, uma vez que a ausência na formação 
poderia ser, de alguma forma, “superada” pelo reconhecimento docente 
a respeito das origens e das línguas indígenas.
Nessa direção, discutiremos, a seguir, uma segunda categoria.
4.2 RECONHECIMENTO/PERTENCIMENTO DAS ORIGENS E DA 
LÍNGUA INDÍGENA
Vejamos como se comportaram os/as docentes frente ao seguinte 
questionamento: “Os povos indígenas Xukuru do Ororubá habitam nos 
municípios de Pesqueira e Poção. Você enquanto morador/a da região 
se identifica como: indígena ou não indígena?
69
Das 34 (trinta e quatro) respostas ao questionário, 22 (vinte e 
duas) não se identificaram como Xukuru do Ororubá, 12 (doze) assu-
miram essa origem. Pesqueira é um município, com aproximadamente 
67.735 (sessenta e sete mil setecentos e trinta e cinco) habitantes, segundo 
o Censo IBGE/2010, e existem muitos parentescos entre as pessoas da 
cidade. Mas, como vimos, a maioria dos/as docentes não se identifica 
como Xukuru do Ororubá. Portanto, não há um sentimento de perten-
cimento a essa cultura indígena.
No bojo destas respostas, existem professores/as do território 
que residem na zona urbana de Pesqueira, há décadas, que conhecem 
os Xukuru do Ororubá, que sobem a Serra do Ororubá para participar 
do Toré e das assembleias anuais, mas que, mesmo assim, não se iden-
tificam como indígenas.
Seguimos com os questionamentos e buscamos saber se os/as 
professores/as identificavam a língua dos originários na Serra do Oro-
rubá. Nessa direção, perguntamos: “Você identifica a língua dos povos 
indígenas Xukuru do Ororubá de Pesqueira/PE como Língua Tupi, 
Yatê, Xavante, Xukuru do Ororubá?
Dentre as respostas, 3 (três) dos/as 34 (trinta e quatro) docentes 
identificam a língua do povo Xukuru do Ororubá como sendo Tupi; 01 
(um) como Xavante e 29 (vinte e nove) como Língua Xukuru do Oro-
rubá. Embora a maioria reconheça de forma correta a língua do povo em 
questão, observar docentes residindo na cidade há mais de 30 (trinta) anos 
sem saber identificar, parece revelador de demandas. Algumas inquieta-
ções podem ser feitas: afinal, esses docentes não lecionavam a alunos/as 
indígenas? No calendário escolar, quando a escola, de forma equivocada, 
faz alusão ao “dia do índio”, qual povo e língua são retratados? São ques-
tões que não são temas de nossa pesquisa, mas que podem ser respondidas, 
possibilitando novos estudos.
Cabe destacar aqui que o “Dia 19 de abril” foi criado para dis-
cussões sobre os direitos dos povos indígenas e que surgido a partir da rea-
lização do Congresso Indigenista no México em 1940, quando estiveram 
presentes etnias de vários países, sendo instituído no Brasil por meio do 
70
Decreto nº 5.540, de 2 de junho de 1943, pelo presidente Getúlio Vargas. 
A referida data, durante décadas, foi remetida a um passado distante 
dos originários da contemporaneidade. Ela representou os indígenas 
em uma moldura e os que nela não se encaixavam não eram indígenas. 
Muitos livros didáticos adotados em algumas escolas emolduraram os 
povos indígenas ao período da colonização.
Durante décadas, não foram provocadas reflexões nas escolas 
públicas e privadas que efetivamente valorizassem a cultura dos povos 
indígenas. A folclorização foi a tônica do processo. Porém, após muita 
luta, a Lei nº 14.402, de 8 de julho de 2022, foi apresentada pela indígena 
Joenia Wapichana, primeira mulher na história da política brasileira 
eleita como deputada federal do país no estado de Roraima em 2018.
É “importante frisar que a contribuição é ofertada 
pela coletividade e não pelo indivíduo isolado como 
remete a ideia do termo ‘índio’”. Segundo ela, a inten-
ção ao renomear a data é ressaltar, de forma simbó-
lica, não o valor do indivíduo estigmatizado “índio”, 
mas o valor dos povos indígenas para a sociedade 
brasileira. “O propósito é reconhecer o direito desses 
povos de, mantendo e fortalecendo suas identidades, 
línguas.[…]” (WAPICHANA, 2021). Acesso em: 08 jan. 2021, on line).
Na proposta de lei, recentemente aprovada pela Comissão de Cons-
tituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, a referida data passou 
a ser instituída como o “Dia dos Povos Indígenas”, que representa, dentre 
outras questões, um olhar plural sobre a diversidade de povos indígenas no 
Brasil e promove a “[...] liberdade contra o autoritarismo, da autoridade 
contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura [...]. A favor da 
luta contra qualquer forma de discriminação” (FREIRE, 1996, p. 115).
71
Com o retorno do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vencedor 
das eleições de 2022, acreditamos que o projeto de lei será sancionado, 
para se pensar em políticas públicas em nível nacional e, até mesmo, 
internacional. Esperamos que esse processo de afirmação e consolidação 
atinja as formações docentes e a presença nas escolas, para garantir a 
preservação das línguas indígenas, de modo que elas não desapareçam, 
mas sejam conhecidas pelas gerações futuras.
A promoção de formações docentes sobre a Língua Xukuru 
do Ororubá não pode ser mais retardada, e nos colocamos na defesa das 
demais línguas dos povos indígenas em Pernambuco, na região Nordeste, 
no Brasil e também a nível internacional, como foi instituída a Lei nº 
11.645/2008. Desejamos, a partir desta obra, dar as mãos aos nossos 
parentes e juntos, através da coletividade, realizar ações para efetivar a 
referida legislação e o “Dia dos Povos Indígenas.”
Na busca de aprofundar o conhecimento dos/as docentes sobre 
a língua do povo Xukuru do Ororubá, perguntamos se eles/as conhe-
ciam alguns léxicos (chamamos de palavras para ser mais acessível aos/
às professores/as) da língua ou alguém que as falasse. 
Das 34 (trinta e quatro) pessoas que participaram da pesquisa, 
29 (vinte e nove) afirmaram não conhecer palavras da Língua Xukuru 
do Ororubá e 05 (cinco) afirmaram que conheciam. Em comparação a 
questão anterior, vemos que reconhecer a língua de pertencimento de 
um povo, não implica em conhecê-la, embora se viva em um contexto 
de presença desse povo como população nativa. 20 (vinte) desses/as 
participantes afirmaram conhecer alguém que fala palavras da Língua 
Xukuru do Ororubá, no entando, os/as demais não conhecem.
Diantedesse cenário, uma questão nos incomoda: certamente 
ao longo dos anos, os/as professores/as participantes lecionaram para 
estudantes Xukuru, mas indicam que não conhecem pessoas que falem 
o vocabulário da língua originária. Afinal, mantém-se o apagamento da 
língua? Os/as discentes não se identificam ou não sabem falar alguma 
palavra? São questões que não podem ser respondidas pela nossa pes-
quisa, mas abre portas para outros estudos.
72
Em síntese, as informações possibilitaram compreender que o 
conjunto lexical da Língua Xukuru do Ororubá não faz parte do con-
texto das escolas públicas e privadas de Pesqueira, sobretudo, as palavras 
que se inserem no dia a dia das escolas, pois são parte das expressões 
socioculturais do citado povo indígena.
O léxico do povo originário Xukuru representa a identidade da 
etnia e por ser parte da cultura indígena em uso pela comunidade nos 
eventos do território, podemos dizer que a língua Xukuru do Ororubá 
faz parte da herança linguística e cultural sendo percebido por meio de 
escritas em bannes e cards.
O vocabulário da Língua Xukuru do Ororubá representa a nossa 
herança linguística. Ela carrega a história e a cultura dos ancestrais indí-
genas que habitam em Xukuru de Pesqueira. Então, por fazer parte da 
história, está acobertada pela Lei 11.645/2008, que normatiza a valoriza-
ção dos povos originários. O Brasil é signatário de alguns documentos, tais 
como a “assinatura de acordos, decretos e convenções internacionais.” 
(SILVA; SILVA, 2021, p. 5) para que as expressões socioculturais dos 
povos indígenas, a exemplo dos Xukuru do Ororubá, também sejam 
vivenciadas no cotidiano das escolas.
Dentre o conjunto de documentos internacionais, acordos que 
o Brasil assinou com outros países, está a Declaração da Organização das 
Nações Unidas – ONU, que em seu artigo 15, aprovou no ano 2007 os 
Direitos dos Povos Indígenas:
1. Os povos indígenas têm direito a que a dignidade 
e a diversidade de suas culturas, tradições, histórias e 
aspirações sejam devidamente refletidas na educação 
pública e nos meios de informação públicos.
2. Os estados adotarão medidas eficazes, em consulta 
e cooperação com os povos indígenas interessados, 
para combater o preconceito e eliminar a discrimi-
nação, e para promover a tolerância, a compreensão 
e as boas relações entre os povos indígenas e todos os 
demais setores da sociedade (ONU, 2007, p. 10-11).
73
A União, os Estados e os Municípios brasileiros, portanto, são 
promotores da boa convivência, a partir da tolerância e da compreensão 
entre não indígenas e povos originários, sobretudo, com a colaboração 
e participação destes últimos na construção de políticas que lhes dizem 
respeito para valorização da história e cultura indígena dos Xukuru, 
entre outros povos, na educação.
Não podemos esquecer que essa falta de conhecimento de pala-
vras originárias da língua indígena representa a manutenção dos efeitos 
da Lei Pombalina, que no século XVIII proibiu a oralidade dos povos 
originários. Essa lei provocou, dentre outras ações persecutórias, perse-
guições por parte de fazendeiros aos indígenas, que para fugir de violên-
cias e até mesmo da morte, silenciaram a língua como os Xukuru do 
Ororubá. Contudo, algumas palavras resistem. Na atualidade, podemos 
encontrar “alguns itens lexicais na abertura de eventos e em seus rituais.” 
(CARVALHO, 2018, p. 133) e nas assembleias na Serra do Ororubá, 
por exemplo. Para Carvalho (2018, p. 118),
Os Xukuru, assim como a larga maioria dos gru-
pos indígenas que imemorialmente viviam na costa 
leste e faixa paralela ao litoral, perderam sua língua 
ancestral por meio de trocas linguísticas interét-
nicas, em que a Língua Portuguesa não somente 
passara a ser a língua de prestígio como também 
a língua imposta (CARVALHO, 2018, p. 118).
Mas, nunca é tarde para revitalizar uma língua a partir de buscas 
pujantes de documentos. A revitalização da Língua Xukuru do Oro-
rubá será possível, no entanto, exigirá investimento por parte do poder 
público, no sentido de financiar pesquisadores/as e pesquisas para esse 
resgate lexical e linguístico. Movimento que, de forma muito preliminar, 
foi iniciado por nossa pesquisa. Além disso, é necessário que as escolas 
possam ter acesso a esses estudos. Para tanto, recursos didáticos devem ser 
pensados no sentido de tornar acessíveis aos/às docentes e professores/as.
74
É nessa direção que apresentaremos, nas próximas seções de nosso 
trabalho, o Dicionário Ilustrado, que retoma, de forma lúdica, um conjunto 
de palavras do léxico da Língua Xukuru do Ororubá, que estará disponibi-
lizado para todas as escolas públicas e privadas do município de Pesqueira, 
de forma física, e para todo o mundo, pelas redes virtuais de computadores.
Para finalizar a escuta das vozes docentes, seguimos para a última 
categoria, que buscou discutir a prática docente.
4.3 PRÁTICA DOCENTE E DEMANDAS PARA ENSINO DE PALA-
VRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ
Com vistas a entender se havia ocorrido algumas demandas na 
prática docente para o ensino da língua Xukuru, em face de Pesqueira 
ser uma cidade habitada por um percentual considerável de indígenas 
do povo Xukuru do Ororubá, perguntamos aos/às participantes se, em 
algum momento de sua ação como professor/a, ele/a sentiu necessidade de 
realizar atividades com a Língua do povo indígena Xukuru do Ororubá?
Entre as respostas, 15 (quinze) dos/as 34 (trinta e quatro) partici-
pantes sinalizaram que discutiram com seus/suas alunos/as questões rela-
cionadas ao conjunto de palavras da língua do povo Xukuru do Ororubá. 
Os demais, 18 (dezoito) docentes, afirmaram que nunca havia tratado 
dessa questão. Não sabemos dizer, pelas limitações do instrumento de 
pesquisa, se a ausência do trabalho docente está atrelada especificamente 
a língua indígena, conforme pergunta a questão, ou a outras dimensões 
das expressões socioculturais do povo indígena.
Acreditamos que, quando falamos da língua originária, estamos 
nos referindo às histórias, às memórias, à organização, à arte e à cosmo-
logia. Entendemos a diversidade linguística e sociocultural como uma 
riqueza que precisa ser conhecida, documentada, preservada e valorizada, 
a partir da revisitação da história da língua do povo indígena Xukuru do 
Ororubá. Quando perdemos uma língua originária, com a mesma se vai 
os conhecimentos incorporados a uma tradição, inclusive os aspectos 
socioculturais socializados de uma geração para outra de maneira oral.
75
Precisamos (re)conhecer que para qualquer povo indígena, seja 
os Xukuru da Serra do Ororubá, assim como os numerosos povos ori-
ginários no Brasil, as línguas representam um elemento vital. A morte 
de uma língua indígena é uma perda irrecuperável, porque com o apaga-
mento perde-se muito das expressões socioculturais indígenas. Por isso, é 
necessária a valorização e a preservação do conjunto de palavras da Língua 
Xukuru do Ororubá como um direito, não apenas do povo indígena 
Xukuru, mas da população que convive com essa cultura.
Portanto, defendemos nesta obra o reconhecimento, a defesa e a 
introdução de palavras dessa língua, assim como os demais aspectos das 
expressões socioculturais, no cotidiano das escolas públicas e privadas 
da Educação Básica, a partir da prática pedagógica dos/as docentes, em 
parceria com o povo originário que habita a região de Pesqueira.
Acreditamos que os/as 18 (dezoito) professores/as que não 
sentiram necessidade de realizar atividades sobre a Língua Xukuru do 
Ororubá, com seu grupo sala, têm motivações de diversas ordens, dentre 
as quais a falta de formação. Provavelmente, no processo formativo lhes 
faltou reflexão sistemática e compromissada com as expressões sociocul-
turais indígenas local, do estado e do país.
Essa formação, por exemplo, deve ocorrer como afirma Libâneo 
(2002), com a
[...] necessidade da reflexão sobre a prática a partir da 
apropriação de teorias como marco para as melhorias 
das práticas de ensino em que o professor é ajudadoa 
compreender o seu próprio pensamento e a refletir de 
modo crítico sobre sua prática e, também, a aprimo-
rar seu modo de agir, seu saber-fazer, internalizando 
também novos instrumentos. A [...] consideração dos 
contextos sociais, políticos e institucionais na configu-
ração das práticas escolares (LIBÂNEO, 2002, p. 70).
Acreditamos que as limitações dos documentos orientadores do 
currículo vigente, tais como a Base Nacional Comum Curricular (2018), 
76
não proporcionam aos/às professores/as condições para uma atuação de 
criticidade na busca de reflexões sobre a história dos povos originários, a 
exemplo do povo Xukuru do Ororubá. A carência de pesquisas sobre a 
temática indígena por desdobramento, contribui para o certo silencia-
mento do poder público para investir na formação docente.
Não se pode refutar que o problema está na forma-
ção inicial, mas não somente e, tão pouco no sen-
tido que é dado. A fragilidade da educação perpassa 
dimensões históricas, sociais e culturais. Para avançar 
neste debate, se faz necessário considerar, primei-
ramente, o projeto de formação de professores no 
Brasil, além claro, das condições materiais do traba-
lho docente. Nessa direção, destaca-se a relevância 
deste estudo para (re)pensar o processo formativo 
docente, especialmente, as políticas de formação de 
professores que norteiam os cursos de formação ini-
cial e continuada (OLIVEIRA, 2021, p. 15).
A ausência de demandas para tratar da Língua Xukuru do Oro-
rubá em sala de aula, registrada pelos/as participantes de nossa pesquisa, 
realça a importância da formação docente sobre a temática indígena a 
partir da Lei nº 11.645/2008, com vistas a superação de dificuldades 
advindas da formação inicial e do aprimoramento dessa prática. Além 
disso, ressalta a importância da elaboração de propostas de atividades 
baseadas na perspectiva da práxis criadora e não mimética, na Educa-
ção Básica da rede pública e privada. Uma vez que a prática docente 
“[...] requer o questionamento permanente, [...] quer da ação prática, 
[...] quer do conhecimento declarativo previamente adquirido, quer da 
experiência anterior” (ROLDÃO, 2007, p. 101).
Não podemos desprezar o número de docentes que se dedicaram 
a realizar atividades sobre a língua do povo indígena Xukuru do Ororubá, 
evidenciando, possivelmente, o desejo de contribuir com o ensino e a apren-
dizagem, através da criticidade com vistas a entender o passado com olhares 
77
para o presente sobre o protagonismo dos Xukuru do Ororubá. Contudo, 
devido à limitação do instrumento de coleta, questionário online, não pode-
mos esmiuçar essas práticas nem afirmar que elas estão em sintonia com 
atividades que contribuem com a história e a memória do povo indígena 
citado, já que não sabemos se não se limitam as datas oficiais do calendário 
escolar, reforçando os preconceitos e a discriminação da população retratada.
Destacamos a necessidade de, em outras pesquisas, conhecer qua-
litativamente a prática docente. Se, por exemplo, as discussões dos/as pro-
fessores/as sobre a língua/ expressões socioculturais originárias envolveu a 
população indígena que domina o conjunto de palavras da língua nativa. 
Não podemos esquecer que o exercício da docência ocorre com interações 
humanas, ou seja, a profissão não acontece de maneira isolada, fria, despre-
tensiosa sobre e com outrem. A interação é característica do relacionamento 
humano entre docentes e discentes e de acordo com Tardif (2014, p. 49-50)
A atividade docente não é exercida sobre um 
objeto, sobre um fenômeno a ser conhecido ou 
uma obra a ser produzida. Ela é realizada concre-
tamente numa rede de interações com outras pes-
soas, num contexto onde o elemento humano é 
determinante e dominante e onde estão presentes 
símbolos, valores, sentimentos, atitudes, que são 
passíveis de interpretação e decisão, interpretação 
e decisão, que possuem, geralmente, um caráter de 
urgência (TARDIF, 2014, p. 49- 50).
A interação docente com a população indígena Xukuru do 
Ororubá, a partir do trabalho em sala de aula, pode contribuir com a 
atuação dos/as professores/as como agentes propagadores/as de valores 
das expressões socioculturais do povo indígena que habita a maioria da 
Serra do Ororubá. Uma ação comprometida com os pilares da educação: 
“aprender a aprender; aprender a fazer; aprender a conviver e aprender a 
ser” (TROQUEZ; SILVA; MILITÃO, 2022, p. 18) e com a construção 
do conhecimento, da identidade, do sentimento de pertencimento e de 
78
valorização da cultura das mais de 4.000 (quatro mil) famílias indígenas 
que habitam na cidade de Pesqueira.
Mas, para isso, é necessário estabelecer como política pública as 
formações docentes sobre a temática indígena na Educação Básica, “de 
forma que os docentes reconheçam que podem promover mudanças” 
(GIROUX, 1997, p. 163) ao compreender que teoria e prática se relacio-
nam no ensino e aprendizagem, ou seja, “o que fazer é teoria e prática. É 
reflexão e ação.” (FREIRE, 2003, p. 121).
O avanço de políticas que propiciam a formação 
do professor [...] do magistério [...] com base nessa 
premissa emergem os seguintes questionamentos: 
Que projetos de formação temos hoje no Brasil? 
Pensando na diversidade de oferta de cursos de 
formação inicial, em que condições formativas os 
sujeitos se constituem professores? (TROQUEZ; 
SILVA; MILITÃO, 2022, p. 13).
Em tempos recentes, quando tivemos a atuação de um governo 
fascista, de extrema direita, não contamos com políticas nacionais para 
formação de professores/as. Contudo, existem esperanças após as elei-
ções do novo governo. E este estará disponível, para contribuir na pro-
posição de políticas públicas de formação docente de maneira macro, 
não somente na cidade em Pesqueira, mas em todo país nas discussões 
referentes aos povos indígenas.
Como contribuição para a formação docente, realizamos uma 
ação de formação continuada, detalhada abaixo como um relato de expe-
riência, vivenciado junto a docentes da Educação Básica que atuam na 
cidade de Pesqueira e a professores/as da cidade de Carpina também 
participaram na ocasião.
Após essa seção inicial de análise que orientou as ações para for-
mação continuada, vejamos, a seguir, o relato de nossa experiência inicial, 
que não se esgota no contexto deste e-book, mas que anuncia a necessidade 
de prosseguirmos em busca da garantia do direito dos povos originários.
79
4.4 FORMAÇÃO DOCENTE: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA
O presente relato trata de uma das ações atreladas a pesquisa que 
ora apresentamos e foi realizada no âmbito do mestrado Profissional em 
Educação PPGE-UPE, Campus Mata Norte. A ação teve como objetivo 
promover formação continuada, junto a docentes que atuam nas redes 
de ensino de Pesqueira, para interagir com palavras do léxico indígena 
Xukuru do Ororubá. A proposta se aportou na Lei nº 11.645/2008, 
que tornou obrigatório o estudo da temática dos povos indígenas na 
Educação Básica. A lei 10.639 de 2003 incluiu nos currículos a temá-
tica africana, em que modificou a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 
1996, para auxiliar no trabalho pedagógico da educação, embasada na 
valorização da cultura indígena.
Além disso, buscamos criar estratégias para ampliar os conhe-
cimentos docentes sobre palavras do povo originário Xukuru do Oro-
rubá e, por fim, elaboramos e divulgamos um Dicionário Ilustrado de 
palavras do léxico da Língua do citado povo, para o trabalho pedagógico 
da Educação Básica. Somando, assim, esforços em busca de ocupar espaço 
no cotidiano escolar, a partir do currículo vivido e prescrito, com vistas 
a superar estereótipos e preconceitos em relação aos povos indígenas.
Os encontros virtuais, via Google Meet, foram organizados em 
3 (três) encontros:
Quadro 9 - Encontros virtuais - Temáticas
Encontros Temática
1º Reflexões sobre a Lei nº 11.645/2008
2º Vocabulário da língua Xucuru do Ororubá na escola: estratégias possíveis
3º Culminância (apresentação de trabalhos)
Fonte: Autora (2023).
A vivênciajunto aos/às professores/as envolveu: a escolha do card 
de divulgação, confeccionado de forma gratuita no aplicativo Canva; 
80
geração de link para inscrição; envio do card em grupos de WhatsApp 
de docentes; leitura de textos; debate; relato de experiência; produção 
textual com contribuições para a construção do Dicionário Ilustrado 
da Língua Xukuru do Ororubá.
O primeiro passo foi a elaboração de um texto no Google Forms, 
direcionado aos/às professores/as atuantes nos anos iniciais da escola Irmã 
Zélia de Nicácio, na cidade de Pesqueira, para realização de inscrição no 
curso de formação docente, com data para início e término de inscrição.
No dia 01 de abril de 2022, foi postado nos grupos de WhatsApp 
de professores/as já existentes na escola: Anos Iniciais da Irmã Zélia, Pro-
fessoras dos 1º Anos, o card para inscrição dos/as interessados/as no curso 
de formação docente sobre a Língua Xukuru do Ororubá, na cidade de 
Pesqueira. No dia 30 (trinta) de abril, foram encerradas as inscrições e 
quatro professores/as estavam inscritos/as para as formações que ocor-
reram no mês de maio do mesmo ano.
Com as inscrições realizadas, abrimos o Google sala de aula e logo 
enviamos os convites para os/as professores/as por e-mail para entrarem na 
sala. O Google sala de aula foi um espaço para postar o material apresentado 
nos encontros, como slides, tirar dúvidas de professores/as, caso eles/as 
viessem a surgir, e para postar a atividade final, que foi a contribuição 
de palavras para a construção para o Dicionário Ilustrado.
Nas formações docentes, participaram 04 (quatro) professores/
as dos anos iniciais. Esse quantitativo evidencia de alguma forma, a resis-
tência de docentes da cidade de Pesqueira para participar de formação. 
Neste estudo, as chamaremos: Ubá; Macambira-de-flecha; Mandacaru; 
Mulungu. A escolha desses codinomes, feita por nós, estava vinculada a 
nomes de plantas com flores conhecidas em Pernambuco, mais precisa-
mente, na Caatinga. Nesse sentido, ao encaminhar com as apresentações, 
os/as professores/as foram representados/as através de flores, em diálogo 
com um pensamento da Clarice Lispector, em que ressalta: “sejamos 
como a primavera que renasce cada dia mais bela […]. Exatamente por-
que nunca são as mesmas flores”, na compreensão de que os/as profes-
sores/as “não eram as mesmas rosas” depois das formações docentes.
81
A professora Ubá com formação em História e Especialização em 
Assistência Social, Gestão Pública e Neuropedagogia Clínica e Institucio-
nal, estava em sala de aula no período da manhã, tarde e noite na cidade de 
Pesqueira. Macambira-de-flecha, no momento da pesquisa, atuava com 
uma turma do 1º Ano dos anos iniciais, tem formação em Pedagogia e 
faz Especialização em Psicopedagogia e Gestão Escolar. Mandacaru esteve 
como docente contratada pela Secretaria de Educação de Pesqueira/PE, na 
modalidade da Educação Básica, por mais de 12 (dez) anos e tem forma-
ção em Pedagogia e Psicopedagogia. Por último, o professor Mulungu tem 
licenciatura em Educação Física e Especialização em Educação Infantil e faz 
parte do quadro de professores/as contratado/as pela Secretaria de Educação.
Mesmo com a baixa adesão, acreditamos que o curso contribuiu 
com a formação dos/as docentes e possibilitou pensar a respeito da ressig-
nificação de suas práticas no cotidiano escolar, porque “[...] a formação 
vai e vem, avança e recua, construindo-se num processo de relações ao 
saber e ao conhecimento” (NÓVOA, 1992, p. 13).
Vejamos a seguir o passo a passo da vivência formativa.
1º Encontro: Reflexões sobre a Lei nº 11.645/2008
O primeiro encontro ocorreu em 5 de maio de 2022, às 20h, pelo 
Google Meet com exposição de slides com base na Lei nº 11.645/2008. Esse 
encontro com os/as professores/as visou contribuir tanto para a superação 
do olhar pejorativo sobre os vocabulários da Língua Xukuru do Ororubá, 
quanto para incentivar a aplicabilidade dessa língua no cotidiano da escola 
nas discussões sobre as expressões socioculturais indígenas e, com isso, 
ampliar as aquisições na comunidade em que a escola está inserida.
Nossa proposta se estruturou nas mobilizações dos povos indíge-
nas pelo reconhecimento de direitos na história socializada de pais e mães 
para filhos/as, nas línguas, no protagonismo, nos rituais, na cosmologia 
e na participação na afirmação da identidade étnica brasileira, com os 
fundamentos legais para a temática indígena respaldada na Lei nº 11. 
645/2008 e na Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas.
82
Os povos indígenas têm o direito de reviver e prati-
car sua identidade e tradições culturais, incluindo o 
direito de manter, desenvolver e proteger as mani-
festações de suas culturas, passadas, presentes e futu-
ras, tais como os sítios e estruturas arqueológicas e 
históricas, objetos, desenhos, cerimônias, tecnologia 
e obras de arte, assim com o direito à restituição da 
propriedade cultural, religiosa e espiritual retiradas 
deles sem seu livre e informado consentimento ou em 
violação às suas próprias leis (2007, Parte 2, Item 7).
Reforçamos o debate de que na construção de uma proposta cur-
ricular devem ser considerados os aspectos sociais e culturais. Pois, caso 
contrário, os/as discentes podem deixar de se apropriar da história local, de 
vivenciar e explorar outras realidades que fazem parte do contexto social 
não vivenciado e não conhecido. A partir das discussões, nesse primeiro 
encontro, ressaltamos o papel dos livros e de todo material didático utili-
zado em sala de aula, que devem realçar as expressões socioculturais indíge-
nas locais. Contudo, ressaltamos que a escola precisa ter sensibilidade para 
essa questão e estabelecer objetivos, de acordo com a realidade sociocultural 
dos estudantes, especificamente, pensando os Xukuru do Ororubá, entre 
outros povos indígenas que habitam em Pernambuco e no país.
Nessa perspectiva, enfatizamos que a Lei nº 11.645/2008 é um 
instrumento jurídico, direcionado para o ensino e a aprendizagem na Edu-
cação Básica, que busca promover o respeito e o reconhecimento à plura-
lidade sociocultural. Mas, mesmo com a presença dos documentos legais, 
o trabalho com a cultura indígena, como, por exemplo, a Língua Xukuru 
do Ororubá, entre outras línguas indígenas, ainda precisa de maior espaço 
no trabalho pedagógico das escolas. O trato com os povos indígenas se con-
centra, no dia 19 de abril (e quando são lembrados!). Configura-se como 
um trabalho realizado de maneira superficial, de modo estereotipado: 
são lembranças de uma figura caricata dos povos originários do passado, 
como se não ocorressem mudanças vivenciadas pelos indígenas. A Lei nº 
11.645/2008 possibilita ultrapassar a visão predominantemente balizada 
83
nos efeitos colonizadores, exigindo mudanças nas práticas docentes, con-
forme evidenciou nossa discussão sobre o estado da arte.
Ainda nesse primeiro encontro de formação docente, discuti-
mos o 09 (nove) de agosto, dia internacional dos povos indígenas. Essa 
data é passada de maneira despercebida no contexto educacional. Ela foi 
criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para garantir condi-
ções de existência aos originários de maneira global, como as expressões 
socioculturais e os direitos humanos, pois, de acordo com o artigo III: 
“os povos indígenas têm direito à autodeterminação. Em virtude desse 
direito determinam livremente sua condição política e buscam livre-
mente seu desenvolvimento econômico, social e cultural.” (Organização 
das Nações Unidas - ONU artigo III)
Para finalizar o primeiro encontro, destacamos a necessidade de 
afirmar o compromisso com a Lei nº 11.645/2008 e de dar continuidade 
a formação na semana seguinte. Nessa direção, avançamos.
2º Encontro de formação docente: línguas indígenas
No segundo encontro de Pesqueira, refletimos sobre a perda das 
línguas indígenas, desde a invasão dos portugueses no Brasil. Sobretudo, 
porque a colonização contribuiu para a perda de “quase 1.300 línguas 
diferentes,houve mais de 1.100 extintas desde então, restando hoje no Bra-
sil, apenas 180 línguas, faladas por uma população de 350.000 pessoas” 
(SECAD, 2006, p. 229). Porém, é lamentável a perda linguística dentre os 
povos indígenas existentes, como a perda da Língua Xukuru do Ororubá.
No Brasil os nomes das línguas são, na maioria dos 
casos, os mesmos nomes atribuídos aos respectivos 
povos: por exemplo, o povo “Xavánte” fala a língua 
“Xavante”. São raros os casos em que se fixou na lite-
ratura especializada ou no uso geral um nome distinto 
para a língua. Aqui temos o caso do povo “Fulniô”, 
cuja língua é “Yatê” (RODRIGUES, 2013, p. 10).
84
Discutimos com os/as docentes que o nome Língua Xukuru do 
Ororubá, como explica Xikão Xukuru foi dado devido ao conhecimento 
do próprio povo originário e do território. Segundo o cacique Xikão, 
líder indígena assassinado em Pesqueira/PE no dia 20 de maio de 1998, 
Ororubá é uma junção das palavras Ubá (uma planta) e Uru (uma ave 
da mata), que juntas formam Xukuru do Ororubá. A junção de palavras 
representam os cuidados dos originários com a Natureza, ou seja, com a 
preservação do território (Disponível em: Acesso em: 20 jun. 2018).
Diante das discussões desde o primeiro encontro, apresentamos 
um conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, com suas res-
pectivas pronúncias, assim como a pronúncia na Língua Portuguesa. 
As palavras apresentadas foram substantivos e verbos. Escolhemos as 
duas classes gramaticais para facilitar o trabalho docente no grupo-sala.
O conjunto de palavras apresentado nesse encontro fez parte dos 
substantivos e verbos. Explicitamos que “para o indígena”, toda palavra 
tem espírito. “Um nome é uma alma [...], diz-se na língua ayvu. É uma 
vida entonada em uma forma. Vida é o espírito em movimento. Espírito, 
para o indígena, são silêncio e som.” (JACUPE, 1998 p.18) Como todas 
as palavras indígenas são vidas em canção, segue o agrupamento que 
fez parte das discussões na formação docente nesse segundo encontro.
Quadro 10: Conjunto de palavras da língua Xukuru do Ororubá
Substantivos Substantivos Verbos
Abóbora – Creamun Alpercata – Tazapa Assoviar – Xeium
Água – Xuar Arapuca – Suacar Casar – Xacon
Banana – Côba Avó – Toiop Chegar – Teregon
Beiju – Xoxógo Avô – Toiam Comer – Ucrin
Café – Fonfon Barriga – Ambroar Correr – Ombrêra
85
Carne – Inxa Bisavó – Liopipom Falar – Noiem
Cachaça – Urinca
Fonte: Professores Xukuru (2006, p. 66-76).
As palavras citadas acima foram vivenciadas no encontro de for-
mação com base no livro Xukuru Filhos da Mãe Natureza, de autoria 
de Professores Xukuru. Contudo, essas palavras revelam uma história 
de mobilizações por direitos, transformações e protagonismos, que foi 
vivenciada de maneira sincrônica pelos Xukuru que viveram e vivem em 
Pesqueira e, de forma diacrônica, pelos originários da Serra do Ororubá, 
que ficaram sem a língua ao longo do tempo.
As palavras originárias do povo, em sua maioria habitantes da 
Serra do Ororubá, foram vivenciadas na formação docente a partir da 
história. Embora, aparentemente, estejam soltas, não foram refletidas de 
maneira isolada, mas a partir de memórias indígenas, que provocarão 
nos/as professores/as tomadas de decisões importantes no ensinar-apren-
der de modo interdisciplinar.
Ao apresentar esse conjunto de palavras da Língua Xukuru do 
Ororubá, os/as professores/as demonstraram interesse sobre a temática 
e curiosidades em saber mais sobre o porquê do desaparecimento das 
línguas indígenas no Brasil, como a Língua Xukuru do Ororubá. Porém, 
como tínhamos 1h para discussão, elencamos e discutimos alguns pon-
tos, como: a imposição da Língua Portuguesa como língua majoritária 
no Brasil, a partir da chegada dos colonizadores portugueses; os aldea-
mentos; mortes dos povos originários; e ausência de políticas públicas.
Ressaltamos que os portugueses, por terem invadido (descon-
truindo assim a visão de “descoberta”) o Brasil e imposto as expressões 
socioculturais coloniais, contribuíram decisivamente para que línguas 
indígenas fossem apagadas, em função da proposta de catequização dos 
povos indígenas. Com isso, as migrações indígenas aconteciam com mais 
frequência por sofrerem todo tipo de violência física e simbólica.
Os aldeamentos contribuíram para que a Língua Xukuru do 
Ororubá, entre outras dos povos indígenas, fossem apagadas, uma vez 
86
que os indígenas eram desagregados da família e das terras, como ocor-
reu com o citado povo indígena. Nos aldeamentos outrora, os indígenas 
foram submetidos a uma rígida disciplina de trabalho. Os originários 
que não aceitavam eram tidos como rebeldes, selvagens e perseguidos.
Os jesuítas, para manter os originários nos aldeamentos, utiliza-
vam a premissa de que eles/as estariam protegidos/as e livres da violência 
de colonos, assim como do frio e da fome. Porém, tinham interesse de 
catequizá-los com os ensinamentos da fé cristã, o que fortemente favore-
ceu a perda de línguas originárias, como a Língua Xukuru do Ororubá.
Os indígenas que não aceitavam ficar nos aldeamentos e resistiam 
aos ensinamentos foram perseguidos. Muitos foram mortos no enfreta-
mento à colonização. Por isso, as vozes, as histórias socializada entre pais 
e filhos e a língua de povos indígenas foram silenciadas, porque não foi 
assegurado o direito de se fazerem ser ouvidas, como a Língua Xukuru 
do Ororubá. Em outros termos,
um exemplo claro é o que acontece com os povos 
indígenas do Nordeste que, por falarem apenas o 
português, como resultado de cinco séculos de 
opressão e repressão cultural, têm sofrido forte 
discriminação e preconceito por parte do Estado, 
da sociedade em geral e até mesmo de outros povos 
indígenas. É comum ouvir a seu respeito: “Eles não 
se parecem com índios e nem falam a gíria indí-
gena” (SECAD, 2006, p. 122-123).
Outra situação que contribuiu com o desaparecimento línguas 
indígenas no Brasil foi o fato dos originários terem contraído enfermi-
dades, como a gripe, a qual os povos indígenas não tinham proteção 
de anticorpos. A gripe, por infectar os povos indígenas em poucos dias, 
semanas e meses, exterminava aldeias inteiras. Então, ela também foi 
uma das causas do apagamento de línguas indígenas.
Um outro ponto discutido na formação tratou sobre alguns 
livros didáticos, que apresentam os povos indígenas de maneira 
87
folclorizada e com e visão preconceituosa, como indígenas selvagens, 
de cabelos lisos, olhos puxados, arcos e flechas, nus e pintados. Esse é um 
pensamento colonialista, presente em alguns livros didáticos presentes no 
contexto escolar e, principalmente, nos anos iniciais da Educação Básica.
Línguas, como formas de vida, recortam o mundo, 
produzem e comunicam valores e constroem pers-
pectivas e sociedades. Elas expressam e organizam 
cosmologias, racionalidades, temporalidades, valo-
res, espiritualidades. Uma língua funda e organiza 
o mundo, pois é material constituído de culturas, 
de sujeitos culturais, políticos e humanos (SECAD, 
2006, p. 122).
Os saberes dos povos indígenas eram transmitidos de geração em 
geração no ambiente familiar, entre pais e filhos, por meio de histórias 
narradas oralmente. Além da arte de contar histórias, os povos originá-
rios tinham e têm habilidades de produzir artesanatos, como colares, 
brincos, anéis e pinturas nos corpos. Sem a valorização das expressões 
socioculturais indígenas, o Brasil perde a riqueza da sociodiversidade.
Para finalizar o segundo encontro com os/as professores/as nesse 
momento histórico e para conclusão do curso de formação docente, 
solicitamos que contribuíssem com a junção de palavras para construção 
do Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru do Ororubá. Nessa direção, 
seguimos para o encontro final.
3º Encontro de formação docente (apresentação de trabalhos)
Ao caminharmos para nosso último encontro de formação docente, 
ainda refletimos sobre a Língua Xukuru doCAPÍTULO IV
“DA ESCUTA À AÇÃO” OLHARES SOBRE O QUE DIZEM OS/AS DOCENTES.............65
4.1 CONHECIMENTO, PELOS/AS DOCENTES, DAS EXPRESSÕES SOCIOCULTURAIS 
XUKURU DO ORORUBÁ.............................................................................................................................................65
4.2 RECONHECIMENTO/PERTENCIMENTO DAS ORIGENS E DA LÍNGUA INDÍGENA.....68
4.3 PRÁTICA DOCENTE E DEMANDAS PARA ENSINO DE PALAVRAS DA LÍNGUA 
XUKURU DO ORORUBÁ..................................................................................................................................................74
4.4 FORMAÇÃO DOCENTE: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA..............................................................79
DICIONÁRIO ILUSTRADO DE PALAVRAS.....................................................................94
REFERÊNCIAS.....................................................................................................................157
POSFÁCIO..........................................................................................................................164 
10
PREFÁCIO
Esta obra configura-se como um marco na luta em prol da valorização da 
cultura indígena Xukuru de Ororubá em Pesqueira, especialmente, das 
palavras da língua desse povo. A pesquisa que resultou neste E-book 
nasceu no contexto de um canto circular, que flui de inquietações de 
uma mulher professora/pesquisadora que, ao longo de sua produção, 
entendeu as suas raízes e a potência de se autodeclarar Xukuru de Oro-
rubá. A movência da Rosani Maciel Calado a faz assumir um papel social 
que soma esforços em busca do protagonismo de um povo, a partir da 
valorização de palavras da língua Xukuru do Ororubá, que ao longo 
dos séculos sofreu uma tentativa de apagamento, mas que resistiu pela 
ousadia do seu povo de guardar palavras para interagir no seu grupo de 
pertencimento. Rosani soma-se a essa luta em um movimento iniciado 
pela sua área de atuação, a educação. A pesquisadora aproxima docentes 
do município de Pesqueira, escuta-os/as, faz intervenções e a eles/a oferta 
um produto, o Dicionário Ilustrado, que opera didaticamente com um 
instrumento pedagógico realçador do potencial de uma pesquisa no 
âmbito do Mestrado Profissional em Educação. Nessa trilha de escuta 
que leva à ação, a docente Xukuru se firma, se fortalece e fortalece a cul-
tura do seu povo que permanece de pé ecoando o grito que se espalha 
por todos os cantos:
AVANTE!
Profa. Dra. Débora Amorim Gomes da Costa-Maciel 
Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação 
Universidade de Pernambuco.
Agosto de 2023
11
APRESENTAÇÃO
Nos povos indígenas é bastante significativo o valor da palavra. 
Por meio da oralidade, parte fundante das expressões socioculturais, as 
narrativas são afirmações identitárias e também de direitos. Os portugue-
ses nos (des)encontros coloniais, perceberam a importância das línguas 
indígenas, quando em 1757 com o chamado Diretório Pombalino, no 
artigo 6º da referida legislação o uso da língua indígena foi considerada 
um “abuso”, proibida e substituída pela língua Portuguesa:
Para desterrar esse perniciosíssimo abuso, será um dos 
principais cuidados dos Diretores, estabelecer nas suas 
respectivas Povoações o uso da Língua Portuguesa, 
não consentindo por modo algum, que os Meninos, 
e as Meninas, que pertencerem às Escolas, e todos 
aqueles Índios, que forem capazes de instrução nesta 
matéria, usem da língua própria das suas Nações, ou 
da chamada geral; mas unicamente da Portuguesa, 
na forma, que Sua Majestade tem recomendado em 
repetidas ordens, que até agora se não observaram 
com total ruína Espiritual, e Temporal do Estado.
“Civilizar” os indígenas para torna-los súditos do Rei de Por-
tugal, foi o objetivo do Diretório. Lembrando que “civilização” é uma 
palavra/ideia, ainda na atualidade repetida por tantas pessoas bem inten-
cionadas, carregada de etnocentrismo, eurocentrismo e evolucionismo. 
Acompanhando “civilizar” as expressões cristianizar, catequisar, educar, 
proibir, reprimir. Como lido no artigo seguinte do citado documento:
E como esta determinação é a base fundamental da 
Civilidade, que se pretende, haverá em todas as Povoa-
ções duas Escolas públicas, uma para os Meninos, na 
qual se lhes ensine a Doutrina Cristã, a ler, escrever, 
e contar na forma, que se pratica em todas as Escolas 
12
das Nações civilizadas; e outra para as Meninas, na 
qual, além de serem instruídas na Doutrina Cristã, se 
lhes ensinará a ler, escrever, fiar, fazer renda, costura, 
e todos os mais ministérios próprios daquele sexo.
Mesmo diante dos impactos da colonização para as expressões 
socioculturais indígenas, esses foram protagonistas elaborando diversas 
estratégias de resistência, por meio das ressignificações, apropriações, 
reelaborações. Ainda que com as proibições, interdições, perseguições os 
nativos aprenderam a linguagem do colonizador para denunciar arbítrios 
e exigir direitos, sobretudo as terras invadidas e esbulhadas.
Embora silenciada a língua nativa pela repressão colonial, séculos 
depois os Xukuru do Ororubá expressam várias palavras afirmando uma 
memória linguística e identitária, que como aponta a Sociolinguística 
remete aos contextos e processos históricos vivenciados pelos indígenas.
Ressaltando o ineditismo, o rigor e a grande importância da pes-
quisa e da Dissertação Léxico da Língua Xukuru de Ororubá em Pesquei-
ra-PE: mapeando demandas e promovendo formação docente, apresentada 
por Rosani Maciel Calado, no Programa de Pós-Graduação em Educação/
Mestrado Profissional em Educação na UPE- Campus Nazaré da Mata. Uma 
contribuição significativa para afirmação identitária Xukuru do Ororubá.
E também destacando as dimensões informativa/formativa, 
pedagógicas salientando a dimensão política da pesquisa realizada, 
sobre a temática indígena no âmbito do citado Programa de Pós-Gra-
duação, para formação docente observando o que determina a Lei nº 
11.645/2008 sobre o ensino da temática indígena na Educação Básica 
e o Parecer CNE/CEB nº 14/2015 com as “Diretrizes Operacionais 
para a implementação da história e das culturas dos povos indígena na 
Educação Básica, em decorrência da Lei nº 11.645/2008”.
Edson Silva 
Professor Titular de História da UFPE
Glória de Goitá/PE 
Agosto de 2023
13
CAPÍTULO I
APROXIMAÇÕES COM AS MEMÓRIAS DE
 FORMAÇÃO E A PESQUISA
Ninguém deixa seu mundo, adentrando por suas raí-
zes, com o corpo vazio ou seco. Carregamos conosco a 
memória de muitas tramas, o corpo molhado de nossa 
história, de nossa cultura (FREIRE,2021 p, 45).
Sou feita de gentes diferentes, lembranças, memórias e lugares, 
amizades e respeito. Assim sou eu, feita do passado de minha ancestralidade 
Xukuru da Serra do Ororubá em Pesqueira /PE e do que vivo no presente 
com os ensinamentos da história da cultura do meu povo. Sei que não estive 
e não estarei sozinha porque trago a força da minha gente no que vivo.
Vivi grande parte da infância e adolescência em Brejinho e Cim-
bres, atualmente reconhecidas como aldeias no território Xukuru do 
Ororubá. Por ser filha de uma indígena que nasceu e cresceu no território 
indígena, sou fruto desta história com meus pais, meus irmãos e meus avós 
maternos nascidos e vivendo no citado território. Então, “o primeiro tes-
temunho a que podemos recorrer será sempre o nosso” (HALBWACHS, 
2003, p. 29). Sou pesquisadora e parte da pesquisa ao mesmo tempo. Sou 
pesquisadora no sentido de indagar-me, pois procuro saber mais sobre as 
lembranças do passado, fazendo parte de mim, e participante ao ouvir-me. 
Sou instrumento para socializar informações e, ao mesmo tempo, receber 
as lembranças das memórias de alguém, uma vez que sou, eu mesma, 
uma indígena Xukuru do Ororubá, que dei meus primeiros passos no 
chão do Brejinho, uma das aldeias na Serra do Ororubá e em Cimbres, 
onde convivi com meus pais e irmãos. Sendo assim, sou parte integral 
dos meus ancestrais narrando (eu) e me valho neste momento presente 
paraOrorubá, através da apresen-
tação de palavras, da leitura e pronúncias na língua indígena por todos/as 
nós, para que pudéssemos ouvir o som das palavras na Língua Xukuru do 
Ororubá, na compreensão de que, para os originários, “um nome é uma 
alma provida de um acento, diz-se na língua ayvu” (JACUPÉ, 1998, p. 18).
88
Como as palavras e os nomes têm som, e esse som é espírito, fizemos 
a pronúncia de cada uma delas e verificamos que esses momentos foram 
significativos para a valorização das expressões socioculturais indígenas, 
no contexto educacional dos anos iniciais, a partir da Lei nº 11.645/2008.
Ao terminarmos esse primeiro momento de leitura das pala-
vras em Xukuru, demos início às apresentações, como foi exposto na 
proposta no primeiro encontro, para que os/as professores/as tivessem 
tempo de pensar em palavras para composição do Dicionário Ilustrado 
da Língua Xukuru do Ororubá. Vejamos o relato de cada docente.
A professora Ubá relatou sobre uma atividade, realizada junto 
ao seu grupo-sala, uma turma do 3º ano dos anos iniciais, com as pala-
vras da Língua Xukuru do Ororubá. Ela nos cedeu fotos do trabalho 
pedagógico, a partir das quais foi possível verificar a escrita de palavras 
da Língua Xukuru do Ororubá, como, por exemplo: Côbá (banana), 
Xuar (água) e Creamum (jerimum).
Imagem 1: Língua Macuxi e Xukuru do Ororubá
Fonte: Professora Ubá (2022).
89
Imagem 2: Língua Macuxi e Xukuru do Ororubá
Fonte: Professora Ubá (2022).
Observamos que as palavras da Língua Xukuru do Ororubá 
foram escritas no quadro. De acordo com a professora Ubá, foi realizada 
a leitura dessas palavras de maneira contextualizada, embora, no quadro 
da sala de aula retratado na imagem acima, só seja possível perceber a 
escrita: “palavras Macuxi”.
A docente Ubá relatou ter realizado roda de conversa sobre o 
povo Xukuru do Ororubá e reflexões sobre o porquê dos povos origi-
nários falarem a Língua Portuguesa. A professora afirmou ter explicado 
aos/às discentes que, no passado, os indígenas falavam a língua originária. 
Mas, com o passar do tempo, a língua foi apagada por falta do uso da 
“língua em sua modalidade oral [...]” (COSTA-MACIEL, 2011, p. 19) 
entre os indígenas, devido à imposição da língua majoritária, o Português.
Como pesquisadora que conhece a Língua Xukuru do Ororubá, 
não tive dificuldades para identificar essas palavras. Mas um/a leitor/a, não 
conhecedor/a da língua indígena Xukuru, terá dificuldades de reconheci-
mento, sendo necessário pesquisar o conjunto de palavras dos Xukuru 
do Ororubá, habitantes de Pesqueira e Poção/PE.
A escrita na lousa de palavras Macuxi ocorreu porque, na oca-
sião da formação, contamos com a presença da pesquisadora Sineide, 
mestranda do PPGE-UPE, que falou sobre o vocabulário Macuxi. 
90
Na foto do quadro da professora Ubá, existem sete palavras: quatro 
palavras escritas na língua Macuxi e apenas três da língua Xukuru do 
Ororubá, ambas com escrita em Português.
Todavia, observamos que, mesmo a docente residindo na cidade 
de Pesqueira, fazendo parte do quadro docente do Município, conhe-
cendo os Xukuru do Ororubá, suas mobilizações indígenas por direitos, 
um pouco da história indígena e que tenha feito o curso de formação, 
escreve no quadro branco somente: “palavras Macuxi”. Então, pensamos: 
por que não foram escritas na lousa - palavras da Língua Xukuru do 
Ororubá e Macuxi? Não temos condições de responder essa pergunta, 
mas expressamos inquietações para outras pesquisas.
A professora Macambira-de-flecha, docente do 1º ano dos anos 
iniciais da Escola Municipal Irmã Zélia de Nicácio, cidade Pesqueira/PE, 
acessou a sala do Google Meet, mas a conexão da internet não estava boa 
e, por isso, ausentou-se várias vezes da sala. Então, ficou impossibilitada 
de apresentar o trabalho do Dicionário Ilustrado. Embora não tenhamos 
visualizado no Google sala de aula a postagem do seu trabalho final, esta 
docente explicou por mensagem o problema com a internet, no entanto, 
não mencionou sobre o Dicionário Ilustrado.
O mesmo ocorreu com a professora Mandacaru, que acessou 
o Google meet e, em seguida, saiu. A situação de entrar e sair da sala foi 
repetida algumas vezes. Logo, enviou mensagem e explicou que a cone-
xão com a internet também não estava boa. Portanto, saiu da sala e não 
teve a oportunidade de relatar sua experiência. Sendo assim, não pode 
contribuir com a criação do Dicionário Ilustrado.
A professora Mandacaru fazia parte do grupo de professores/as 
da EMIZN, mas não estava lecionando nesta instituição e sim em outra 
escola. No período de divulgação das formações docentes, ainda fazia 
parte do grupo de professores/as da EMIZN e, por isso, fez a inscrição 
no curso de formação docente, destinada apenas para os/as professores/
as dessa intuição escolar da cidade de Pesqueira/PE.
O professor Mulungu, docente do Componente Curricular 
de Educação Física dos anos iniciais na EMIZN também se queixou de 
91
problemas de conexão com a internet durante o acesso à sala do Google meet. 
Logo que entrou, a conexão caiu. Sendo assim, não teve tempo de discorrer 
sobre a elaboração ou não do Dicionário Ilustrado com os discentes.
Os/as professores/as Ubá, Macambira-de-flecha, Mandacaru e 
Mulungu sabiam da nossa proposta de construção de dicionários visuais 
colaborativos, uma vez que as formações docentes culminariam, em 
parte, com as apresentações. Dos/as quatro professores/as, apenas a pro-
fessora Ubá teve condições de conectividade para pensarmos juntas sobre 
a criação do produto desta obra.
Tentei acessar os/as professores/as em outros momentos por 
meio de ligações telefônicas e, ao conversarmos sobre a falta das apre-
sentações dos seus trabalhos no encontro de formação docente final, 
relataram não ter realizado por conta de demanda pedagógica em outras 
cidades circunvizinhas de Pesqueira.
A docente Macambira-de-flecha relatou a demanda de proje-
tos da Secretaria de Educação para serem vivenciados nos anos iniciais. 
Segundo ela, realizar alividades pedagógicas sobre a Língua Xukuru do 
Ororubá necessitaria de tempo. O que não foi possível no momento, 
porque as escolas estavam voltando a funcionar, depois de dois anos de 
paralisação por conta da COVID-19. Naquele contexto, não tinha como 
parar o projeto que estava sendo desenvolvido em sala de aula.
Acreditamos que nossa perspectiva de criar estratégias para 
ampliar os conhecimentos docentes sobre o conjunto de palavras do 
povo originário Xukuru do Ororubá foram alcançadas, pois, mesmo 
com problemas de internet, tivemos professores/as assíduos/as nas for-
mações docentes, com expectativas e vontade de promover mudanças, 
por meio das atividades desenvolvidas a partir da Lei nº 11.645/2008.
Portanto, a determinação legal de 2008, imbuída no conjunto 
de outras regras, inicia-se pela Constituição Federal de 1988. Trata-se da 
última atualização da Lei número 9394, a Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação de 1996 (LDB), no que diz respeito à formação sociocultural 
dos sujeitos. As leis complementares nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 
alteraram a LDB e enunciam a temática africana para ser vivenciada 
92
no ensino e aprendizagem. A segunda inclui a temática indígena e 
determina as escolas públicas e privadas reflexões sobre as culturas afri-
canas e indígenas na Educação Básica.
Enfim, o nosso relato se encerra nesse texto, mas abre muitas 
possibilidades de outras ações de pesquisa e extensão, que oportunizem 
as reflexões socioculturais e a língua (palavras de uma língua) indígena 
Xukuru do Ororubá. A baixa frequência e envolvimento com todas as 
etapas da pesquisa são evidências de que o desafio prossegue e a resistência 
às discussões ainda existe, talvez até sem a plena consciência docente. Esse 
cenário é revelador da necessidade URGENTE de criar estratégias que 
despertem nos/as docentes a importância da formação continuada e de 
vivências sistemáticas em suas práticas acerca dessa temática.
Enfim, no movimento de escuta docente e deação, elaboramos 
o Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru com um conjunto de palavras 
que compõem o léxico do povo indígena Xukuru do Ororubá, que, 
longe de ser observado como um documento, que apenas guarda 
palavras “remanescentes”, compromete-se as com as mobilizações pela 
manutenção da identidade desse povo. Nessa direção, estamos em sin-
tonia com a Lei nº 11.645/2008, assegurando o direito ao ensino da 
cultura indígena em sala de aula.
O Dicionário Ilustrado é um recurso didático para os/as pro-
fessores/as utilizarem em sua prática pedagógica, em busca de garantir 
a presença, no ambiente escolar, da Língua indígena Xukuru do Oro-
rubá, uma vez que os livros didáticos disponíveis nas escolas públicas 
não dedicam atenção sobre o conjunto de palavras da Língua Xukuru 
do Ororubá, e, na maioria das vezes, reproduzem estereótipos. Ele estará 
disponível nesta obra, que será divulgada nas redes sociais e, posterior-
mente, em versão impressa, para que possa chegar fisicamente as escolas 
do município de Pesqueira -PE.
O referido produto, apesentado ao final desta obra, está em sin-
tonia com a Lei nº 11.645, de 10 março do ano de 2008, que instituiu 
a obrigatoriedade da inclusão da história e culturas indígenas e africana 
no currículo da Educação Básica. Desejamos que esse suporte didático 
93
contribua com a valorização da identidade do povo Xukuru do Ororubá, 
e que seja usado para expandir a riqueza lexical entre as crianças, ado-
lescentes, pessoas jovens, adultas e idosas. Esperamos que ele se espalhe 
para todo o mundo e mantenha acesa a luta pela garantia dos direitos 
dos povos originários.
DICIONÁRIO ILUSTRADO DE 
PALAVRAS XUKURU DO 
ORORUBÁ
Nazaré da Mata 
2023
95
APRESENTAÇÃO
O Dicionário Ilustrado de palavras do léxico Xukuru do Ororubá de 
Pesqueira e Poção/PE resultou da Dissertação de Mestrado “Da escuta 
à ação”: mapeando demandas e promovendo formação continuada 
para docentes a respeito do uso do léxico da língua do povo Xukuru de 
Pesqueira-Pernambuco”, realizada no Programa de Pós-Graduação em 
Educação da Universidade de Pernambuco/Campus Nazaré da Mata. 
A pesquisa ouviu docentes nas redes públicas e particulares de ensino 
em Pesqueira, traçou e realizou formação continuada, para incentivar o 
trato com palavras do léxico da língua Xukuru do Ororubá nas práticas 
escolares. O Dicionário apresenta-se como ferramenta didática que reúne 
um conjunto de palavras do léxico Xukuru de Ororubá, organizada a 
partir dos temas natureza; alimento; objetos, sociedade; corpo humano e 
espiritualidade. As palavras foram coletadas de fontes variadas, tais como: 
do livro “Xukuru Filhos da Mãe Natureza: uma história de resistência e 
luta”, elaborado por docentes indígenas Xukuru do Ororubá, em 1997; 
de arquivo pessoal de fotografias tiradas no território indígena na Serra 
do Ororubá, bem como de arquivos digitais gratuito. Para facilitar a cor-
respondência entre palavras e algumas imagens, inserimos um círculo 
com numeração correspondente a palavra da língua Xukuru. Visamos 
dar maior autonomia ao/à leitor/a no manuseio do documento. Além 
disso, escrevemos todas as palavras em letra maiúscula e organizamos, ao 
final, todas as palavras em ordem alfabética, de modo que possam ser 
utilizadas por estudantes em fase de alfabetização. O Dicionário ilustrado 
é destinado a docentes e discentes das escolas da rede pública e particula-
res de Pesqueira e demais interessados/as que busquem se aproximar de 
palavras Xukurus que resistiram a tentativa de apagamento ao longo dos 
séculos. Ele está em sintonia com a Lei nº 11.645, de 10 março do ano 
de 2008, que instituiu a obrigatoriedade da inclusão da história e culturas 
indígenas e africana no currículo da Educação Básica. Desejamos que este 
suporte didático contribua com a valorização da identidade do povo 
96
Xukuru do Ororubá, e que seja usado para expandir a riqueza lexical 
entre as crianças, adolescentes, pessoas jovens, adultas e idosas. Enfim, 
que se espalhe para todo o mundo e mantenha acesa a luta do meu povo 
pela garantia de seus direitos.
Rosani Maciel Calado. 
Mestra em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em 
Educação da Universidade de Pernambuco (UPE)
97
“Meu nome é Zenilda, sou Xukuru do Ororubá, tenho 73 anos. Con-
sidero que o “Dicionário” Ilustrado da nossa língua Xukuru vai ser um 
importante trabalho [...], porque nossos antepassados não tiveram esse 
direito de falar a língua, eram proibidos. Hoje este trabalho se apresenta 
como uma ‘reavivação’ da memória dos nossos antepassados. Eu parti-
lhei a ideia desse “Dicionário” com o Conselho de Educação. Ele disse: 
‘vai ser uma oportunidade muito boa’. ‘Foi um momento muito feliz 
pra nós’. Os Encantados encaminham tudo na hora certa. O encontro 
com o povo da Educação e o assunto do “Dicionário”, que tem o foco 
na Educação, ninguém apaga a mente dos sábios. Nossos sábios, que já 
se foram, deixaram essas sementes germinando. E vai continuar germi-
nando a cada dia que passa. Sigamos ‘unindo as forças do Ororubá do 
nosso povo indígena’” ...
Zenilda Xukuru do Ororubá (Liderança do povo Xukuru do Ororubá)
Fragmento retextualizado
 Pesqueira – Pernambuco,
Janeiro de 2023
98
NATUREZA
99
01 ARUANO – CAVALO
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
02 MARUANO - BURRO
Fonte: Arquivo pessoal.
100
03 MARIM - BOI; GADO
Fonte: Arquivo pessoal.
04 CHABATANA - ONÇA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
101
05 TIPÓ – RAPOSA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
06 CURUMEN - CARNEIRO
Fonte: Acesso em: 20 mai. 2023.
102
07 GIRIMATA IA - COBRA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
08 LEBO - CO ELHO
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
103
09 SANZARÁ - CABRA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
10 MEMENGO - BODE
Fonte: Arquivo pessoal.
104
11 PINGOMAR – OVELHA
Fonte: Arquivo pessoal.
12 NANTU - TATU
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
105
13 PIPIU - RATO
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
14 SACOLEJO - PREÁ
Fonte: Nino Pintor.
106
15 PUCRERON - ABELH A
16 SOIAN (URUÇU) - ABELHA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
17 PUJÚ - PORCO
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
107
18 SACÁ - PERU
Fonte: Arquivo pessoal.
19 TAPUCA - GALINHA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
108
20 TOTONGO - GATO
D isponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
21 XICUDO - CACHORRO
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
109
22 CLARISMOM - SOL
Di sponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
23 CLARIN - DIA
Disponível em: 
 Acesso em: 20 mai. 2023.
23
110
24 CREAMUM - NOITE
 25 KRICRU - ESCURIDÃO
Fonte: João Xukuru.
26 C LARICI - LUA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
27 CLARIMEN - ESTRELA
Disponível em:WWSjJz4iTHnCoQ/edit> Acesso em: 20 mai. 2023.
28 CREXER - LENHA
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
28
112
29 TOÊ - FOGO
 Disponível em: 
 Acesso em: 20 mai. 2023.
30 KURÓ - BRASA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
30
113
 31 XIMINEU - FUMAÇA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
32 QUIÁ DO LIMO LAIGO - MATAS
Fonte: Arquivo pessoal.
31
114
33 XACRE - RIACHO
Fonte: Arquivo pessoal.
34 XUAR - ÁGUA
Fonte: Arquivo pessoal.
33
34
115
35 XURUMIN - CHUVA
Fonte: Arquivo pessoal.
36 XIAM - FRIO
Fonte: Arquivo pessoal.
36
116
37 LIMOLAIGO - TERRA
Fonte: João Xukuru.
38 CURECO - PEDRA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
37
117
39 K EIJÁ - MADEIRA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
40 XE NER - FLOR
Fonte: Arquivo pessoal.
118
ALIMENTOS - KRINGÓ
119
41 BATESACAR - FEIJÃO
Fonte: Arquivo pessoal.
42 CURIAXAR; XATA - FAVA
Fonte: João Xukuru.
120
43 CREAMUN - ABÓBORA
Fonte: Arquivo pessoal.
44 XIQUIN - MILHO
Fonte: Arquivo pessoal.
121
45 CÔBA - BANANA
Fonte: Arquivo pessoal.
46 MANCHA - MANGA
Fonte: Arquivo pessoal.
122
47 XACOBA - MANDIOCA
Fonte: Arquivo pessoal.
48 LAMUM - FARINHA
Fonte: Arquivo pessoal.
48
123
49 XOXÓGO – BEIJU
Fonte: Arquivo pessoal.
50 XURUMER; XACOBA - MASSA
Fonte: Arquivo pessoal.
50
124
51 TINKIN - SAL
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
52 CARUIO - DOCE
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
51
52
125
53 CARUXAR - RAPADURA
Fonte: Arquivo pessoal.
54 F ONFON - CAFÉ
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
54
126
55 GOXE - TRIPA
Fonte: Arquivo pessoal.
56 I NXA - CARNE
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
56
127
OBJETOS
128
57 BARRETINA - CAPACETE DE PALHA
Fonte: Valdeir Xukuru.
58 C RIACUGOKRECÁ - CHAPÉU
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
129
59 TA CÓ - ROUPA
Fonte: Arquivo pessoal.
60 TAC Ó – SAIA/SAIOTE
Fonte: Arquivo pessoal.
130
61 TAZA PA - ALPERCATA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
62 XABÁ - SAPATO
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
131
63 COER - BOLSO
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
64 XANDURÉ - CACHIMBO
Fonte: Arquivo pessoal.
63
132
65 JUPAGO - CACETE
Fonte: Arquivo pessoal.
66 MARACÁ - INTRUMENTO MUSICAL
Fonte: Arquivo pessoal.
133
67 MEM BY - GAITA
Fonte: Thiago Xukuru.
68 OKOR - BANCO
Disponível em: 
67
134
Acesso em: 20 mai. 2023.
69 Q UIBUNGE - PANELAS
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
70 TI LOÉ - FACA
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
135
71 XURUCREBA - FACÃO
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
72 SUACAR - ARAPUCA
Fonte: Arquivo pessoal.
136
73 INTAI A - DINHEIRO
Disponível em: 
Acesso em: 20 mai. 2023.
74 PITING O - CARRO
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
137
SOCIEDADE
138
75 TOIPA - MÃE
76 JETUIN – MENINA
Fonte: Arquivo pessoal.
77 JETUM - MENINO
Fonte: Arquivo pessoal.
75 76
139
78 LIOPIPOM - BISAVÓ
79 TOIOPE - AVÓ
Fonte: Arquivo pessoal.
80 TOIAM - AVÔ
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
140
81 SACAREMA - MULHER
Fonte: Arquivo pessoal.
82 ENUPRE - INDÍGENA
Fonte: Wesley Xukuru.
141
83 XIURIJAR - IRMÃO
Fonte: Arquivo pessoal.
142
CORPO HUMANO
143
84 KRECAR – CABEÇA
85 XICRIN - NARIZ
86 AMBROA R - BARRIGA
87 JOJÉ - CINTURA
88 JAJÉ - JOELHO
89 POIÁ - PÉ
Fonte: Valdeir Xukuru.
84
85
86 87
88
89
144
90 JUCREDE - DENTE
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
91 JUCRICRECAR - CABELO
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
90
145
92 LONJI - OLHOS
Fonte: Arquivo pessoal.
146
ESPIRITUALIDADE
147
93 PAJURU - CACIQUE
Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023.
94 TORÉ - DANÇA SAGRADA
Fonte: Arquivo pessoal.
148
SUMÁRIO
A
Ambroar Barriga 161
Aruano Cavalo 78
B
Barretina Capacete de Palha 134
Batesacar Feijão 117
 C
Caruio Doce 128
Caruxar Rapadura 129
Chabatana Onça 81
Clarici Lua 101
Clarimen Estrela 102
Clarin Dia 99
Clarismom Sol 98
Côba Banana 121
Coer Bolso 140
Creamum Noite 100
Creamun Abóbora 119
Crexer Lenha 103
Criacugokrecá Chapéu 135
149
Cureco Pedra 113
Curiaxar; Xata Fava 118
Curumen Carneiro 83
F
Fonfon Café 130
G
Girimataia Cobra 84
Goxe Tripa 131
I 
Intaia Dinheiro 150
Inxa Carne 132
J
Jajé Joelho 161
Jetuin Menina 153
Jetum Menino 154
Jojé Cintura 161
Jucrede Dente 162
Jucricrecar Cabelo 163
Jupago Cacete 142
150
K
Keijá Madeira 114
Krecar Cabeça 161
Kricru Escuridão 100
Kuró Brasa 105
L
Lamum Farinha 124
Lebo Coelho 85
Limolaigo Terra 112
Liopipom Bisavó 155
Lonji Olhos 164
M
Mancha Manga 122
Marim Boi; Gado 80
Maracá Instrumento Musical 143
Maruano Burro 79
Memby Gaita 144
Memengo Bode 87
N
Nantu Tatu 89
151
O
Okor Banco 145
P
Pajuru Cacique 166
Pingomar Ovelha 88
Pipiu Rato 90
Pitingo Carro 151
Poiá Pé 161
Pucreron Abelha 92
Pujú Porco 93
Q
Quiá do Limo Laigo Matas 107
Quibunge Panelas 146
S
Sacá Peru 94
Sacarema Mulher 157
Sacolejo Preá 91
Sanzará Cabra 86
Soian Uruçu (Abelha) 92
Suacar Arapuca 149
152
T
Tacó Roupa 136
Tacó Saia ou Saiote 137 
Tapuca Galinha 95
Tazapa Alpercata 138
Tiloé Faca 147
Tinkin Sal 127
Tipó Raposa 82
Toê Fogo 104
Toiam Avô 156
Toiope Avó 155
Toipa Mãe 153
Toré Dança Sagrada 167
Totongo Gato 96
X
Xabá Sapato 139
Xacoba Mandioca 123
Xacre Riacho 108
Xata Fava 118
Xanduré Cachimbo 141
Xener Flor 115
Xenupre Indígena 158
153
Xiam Frio 111
Xicrin Nariz 161
Xicudo Cachorro 97
Ximineu Fumaça 106
Xiquin Milho 120
Xiurijar Irmão 159
Xoxógo Beiju 125
Xuar Água 109
Xurucreba Facão 148
Xurumer; Xacoba Massa 126
Xurumin Chuva 110
154
Sobre o povo Xukuru de Ororubá
O povo Xukuru de Ororubá habita a maioria no município de Pesqueira, 
mas também no vizinho município de Poção, no Semiárido pernambu-
cano, Região Nordeste do Brasil. Narrativas indicam que as origens de 
Pesqueira estariam vinculadas às pescarias dos indígenas que, no passado, 
desciam a Serra do Ororubá para pescar nas águas da cidade. No municí-
pio de Pesqueira, de acordo com o censo do IBGE/2010, foi contabilizada 
uma população de 67.735 habitantes e mais de 4.000 (quatro mil) indí-
genas Xukuru do Ororubá com residência fixa na cidade, a maioria no 
Bairro “Xucurus”. O território Xukuru do Ororubá, apósmuitas mobi-
lizações, foi oficialmente demarcado em 2001 e organizado em 24 (vinte 
e quatro) aldeias indígenas. A terra foi dividida pelos indígenas em três 
regiões geográficas: o Agreste, espaço mais seco; a Serra, local mais úmido 
e com maior concentração de indígenas; e a Ribeira do Ipojuca, cortada 
pelo rio temporário do mesmo nome. No período colonial, os indígenas 
foram aldeados, em 1661, pelos padres portugueses da Congregação do 
Oratório de São Felipe Neri, também conhecidos como Oratorianos. As 
missões religiosas contribuíram para o desaparecimento de muitas línguas 
originárias, como a língua Xukuru do Ororubá, sobretudo, porque a 
língua dos colonizadores portugueses era imposta aos povos colonizados. 
Essa imposição foi assegurada pelo Diretório Pombalino, uma legislação 
instituída em 1757, proibindo aos indígenas no Brasil falarem suas lín-
guas originárias. Quem desobedecia, a exemplo dos indígenas na Serra 
do Ororubá, enfrentava várias punições, castigos e violências físicas. Para 
continuar com a língua nativa, os ancestrais dos Xukuru do Ororubá 
vivenciaram essas situações de apagamento da língua originária, restando 
ao povo algumas palavras do léxico, que reunimos neste Dicionário Ilus-
trado. Nas mobilizações por direitos, além dos rituais sagrados, como 
o Toré, a cosmologia, as expressões socioculturais, como o chamado 
artesanato, o grafismo e a renascença (também confeccionada por indí-
genas originárias), o povo assume os protagonismos em áreas distintas, 
155
ocupando espaço em setores públicos e privados, em contexto local, 
regional e nacional. Muitas mulheres e homens indígenas acessaram à 
educação formal, em cursos técnicos e universitários, como: Pedagogia, 
Letras, Matemática, História, Filosofia, Física, Direito, Design de Modas, 
Enfermagem, Técnicos de Enfermagem, Gestão Ambiental, Agrono-
mia. Alguns nativos/as Xukuru do Ororubá prosseguiram a formação 
acadêmica e são mestres/as e doutores/as. O ensino sobre a história e as 
culturas dos povos originários nas escolas da rede pública e particular é 
um direito assegurado pela Constituição Federal do Brasil de 1988, assim 
como pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação ou Lei nº 9.394/1996 e 
a Lei nº 11645/2008. E ainda por tratados, acordos e leis internacionais 
assinadas pelo Brasil. Em sintonia com essas leis, o “Dicionário” Ilustrado 
possibilita ao/à professor/a na Educação Básica, atuando na modalidade 
de educação de pessoas jovens, adultas e idosas, refletir sobre palavras da 
língua do povo Xukuru de Ororubá, resistindo a tentativa de apagamento 
da língua indígena, preservada nas palavras do léxico da língua nativa, 
que são a prova da resistência e das conquistas desse povo originário.
ROSANI MACIEL CALADO. Indígena Xukuru do Ororubá. Mestra 
em Educação pela Universidade de Pernambuco/UPE (Campus Nazaré 
da Mata). Com Licenciatura em Letras-Espanhol pelo Instituto Supe-
rior de Educação de Pesqueira e Pedagogia pela UFRPE Atualmente é 
professora nos anos iniciais do Ensino Fundamental na rede pública de 
ensino em Pesqueira e também na rede pública de ensino em Arcoverde.
DÉBORA AMORIM GOMES DA COSTA-MACIEL. Doutora em 
Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Leciona 
no Curso de Pedagogia e é professora no Programa de Pós-Graduação 
em Educação (PPGE) na UPE, Campus Mata Norte (Nazaré da Mata). 
Realiza pesquisas na área de Educação, com ênfase na didática do ensino 
da Língua Portuguesa, no contexto da Educação Básica.
156
EDSON SILVA. Professor Titular de História da UFPE. Doutor em 
História pela UNICAMP (Campinas/SP). Leciona no Centro de Educa-
ção/Col. de Aplicação/UFPE. Professor no PROFHISTORIA/UFPE 
e no Programa de Pós-Graduação em História na UFRPE. Realiza pes-
quisas sobre os indígenas na História no Semiárido nordestino, especi-
ficamente o povo Xukuru do Ororubá.
157
REFERÊNCIAS
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Francisco Alves Editora S/A, 1975. (Série Educação em Questão).
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de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro 
de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para 
incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática 
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164
POSFÁCIO
A Importância da Língua Xukuru para Formação do Espírito 
Humano
O livro “Léxico da língua Xukuru de Ororubá em Pesqueira-PE: 
mapeando demandas e promovendo formação docente” gera um resul-
tado de epifania para os/as leitores/as porque trata-se de um livro que 
transcende o ato de pesquisar, tornando-se uma arte produzida com 
as palavras, ou seja, uma literatura a ser lida atemporal. Rosani Maciel 
Calado enriquece a cultura do seu povo autoafirmando a sua identidade 
indígena Xukuru. Neste livro, a autora, de forma singular e única, tra-
duz em seus mosaicos enunciativos que não há culturas melhores que 
as outras. Por essa razão, Calado mostra que culturas são fortalecidas 
pelo contato com outras pessoas, gerando, então, a interculturalidade. 
As lembranças, memórias e lugares descritos por Calado neste livro, 
provocam-nos uma releitura de nós mesmos, sobretudo, levando-nos 
absorver os conhecimentos, as experiências e os valores que são demar-
cados para os possíveis sentidos que é realizado pela leitura do livro. É 
vital repensarmos as dinâmicas sociais e culturais para desconstruirmos 
o raciocínio de que um grupo cultural exerce hegemonia sobre este ou 
aquele outro grupo. Neste livro, essa desconstrução hegemônica é natu-
ralmente revelada, enfatizando, uma valorização igualitária nas relações 
entre culturas. Por este motivo, como resultado final, Calado propôs um 
Dicionário Ilustrado da língua Xukuru de Ororubá, fruto de seu exercí-
cio de pesquisa no âmbito do Programa de Pós-graduação em Educação 
(PPGE), da Universidade de Pernambuco, Campus Mata Norte (UPE). 
Esse produto social, portanto, promove a aprendizagem de outra língua 
e com ela, de outra cultura. Muito Obrigado, Rosani Maciel Calado, por 
essa iniciativa de nos ensinar lexicalmente a língua Xukuru de Ororubá.
165
Prof. Dr. Jonathas de Paula Chaguri
Professor do Programa de Pós-graduação em Educação
 Universidade de Pernambuco, Campus Mata Nortepartilhar minhas lembranças vivas em mim e continuadas no tempo.
Sou Rosani, afirmo minha identidade indígena Xukuru do 
Ororubá, como também desejo “consolidar a identidade de um grupo 
14
e promover a autoestima de seus membros e, por outro, o propósito de 
desenvolver solidariedade entre os diferentes” (MOREIRA; MACEDO, 
2002, p. 21) da minha família indígena Xukuru na Serra do Ororubá 
em Pesqueira-PE, uma vez que somos muitos/as espalhados/as em dife-
rentes lugares. Mas, sobretudo, somos da mesma família étnica.
Somos pedaços de cores compositoras de cada vida que passa 
pela minha e que costura a minha alma. E, ao pensar desta maneira sobre 
as questões a seguir em relação a minha vida, irei procurar registrar lem-
branças positivas da minha existência, pois gosto de estar sempre com 
o espírito leve. Essa é a maneira que gosto de me sentir, de ver as pessoas 
da minha família em volta: firmes, entusiasmados/as de estarem vivos/
as, alegres, e tendo esperança sempre, porque esta “nasce do coração” 
(FREIRE, 2021, p. 11).
Os momentos tristes de minhas memórias procuro deixar adorme-
cidos, se bem que estes servem de aprendizados para nós mesmos e, a partir 
deles, podemos tirar ensinamentos para nosso crescimento como pessoa, 
mas, mesmo assim, costumo deixá- los arquivados. “Relembrar momentos, 
necessariamente, não importa o tempo em que se deram” (FREIRE, 2021, 
p. 27). Sendo assim, apresentarei fragmentos de minhas vivências imbuídas 
na minha vida escolar, desde os primeiros anos de escolarização, graduação, 
especialização até a etapa de classificação no Mestrado em Educação na 
Universidade de Pernambuco (UPE) – Campus Mata Norte.
Minha história na educação iniciou quando minha mãe Maria do 
Socorro Alves Maciel e meu pai Rinaldo Cavalcanti Maciel, moradores 
do então Sítio Brejinho, pensando nos estudos dos filhos/as, decidiram 
ir morar no então povoado de Cimbres, onde existia a escola Monsenhor 
Olímpio Torres. Essa instituição é, atualmente, uma escola pública estadual 
que ainda continua no mesmo local em um prédio reformado, sendo tam-
bém nomeada pelos Xukuru do Ororubá como Escola Indígena Milson 
e Nilson, em homenagem a dois jovens indígenas, assassinados no início 
do conflito que provocou uma cisão interna e a expulsão de famílias auto-
proclamadas “Xukuru de Cimbres” (SILVA, 2018). Essas famílias eram 
reconhecidas como povos indígenas e, atualmente, habitam a área urbana 
15
de Pesqueira e um território que compreende parte dos municípios vizi-
nhos pernambucanos de Alagoinha, Venturosa e Pedra (SILVA, 2018).
Os meus primeiros anos de escolarização foram na referida escola, 
assim como os dos meus irmãos, Ednaldo Alves Maciel, Elisabeth Alves 
Maciel e Reginaldo Alves Maciel. Apenas a minha irmã caçula Rosa 
Maria Alves Maciel, que iniciou os primeiros anos de aquisições da ora-
lidade, leitura, escrita e cálculo matemático na escola Municipal João 
XXIII, na cidade de Pesqueira, bairro “Xucurus”. Atualmente, é cha-
mada de Escola Municipal Paulo Melo e não funciona no mesmo local, 
mas continua ao sopé da Serra do Ororubá.
Para o historiador francês Jacques Le Goff (2013, p. 435),
A memória é um elemento essencial do que se cos-
tuma chamar identidade, individual ou coletiva, 
cuja busca é uma das atividades fundamentais dos 
indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na 
angústia. Mas a memória coletiva é não somente 
uma conquista é também um instrumento e um 
objeto de poder. São as sociedades cuja memó-
ria social é, sobretudo, oral ou que estão em vias 
de constituir uma memória coletiva escrita que 
melhor permitem compreender esta luta pela 
dominação da recordação e da tradição, esta mani-
festação da memória (GOFF, 2013, p. 435).
Nesse sentido, em minhas memórias, recordo também que estudei 
na escola na qual minha irmã caçula também estudou, pois ficávamos na 
casa da minha avó paterna, Júlia Vieira Maciel, residindo durante anos no 
Bairro “Xucurus”, e isso facilitou meus estudos na época, assim como para 
minha irmã Elisabeth Alves Maciel. O bairro está localizado no sopé da 
Serra do Ororubá, o mesmo nome do povo indígena que habita a região.
Quando não passava o ano com minha avó na cidade, ocorriam idas 
e vindas entre o então povoado de Cimbres e Pesqueira para estudar, ou seja, 
viajava todos os dias de ônibus de Monte Alegre para Pesqueira. O motorista 
16
do veículo passava no povoado às 05:45 da manhã para ir apanhando os/
as estudantes matriculados/as nas escolas da cidade e, ao terminar a aula, 
voltava no mesmo transporte, retornando à tarde por volta das 13h.
As viagens duravam em torno de 50 minutos até 1 hora, depen-
dendo das paradas que o motorista fazia ao longo do percurso, pois não 
somente transportava estudantes, mas também passageiros/as para a 
cidade, que vinham fazer compras, receber os salários das aposentadorias 
e realizar pagamentos nos bancos, como as contas de energia e água. 
Lembro que o ônibus, até chegar à zona urbana, cortava todo o território 
indígena com uma bela paisagem verde na época do inverno. No verão, 
a cor cinzenta das juremas era o belo cartão postal do percurso.
Acredito que sempre fui resistente nas viagens enquanto criança, 
pois enfrentei o frio, o calor e, até mesmo, a fome. Tínhamos alimentos 
em casa, mas passei muitas vezes da hora da alimentação e nem por isso 
desisti. Muito pelo contrário, resisti como as juremas resistem ao fogo, 
seca, perdem as folhagens na época das estiagens para voltar com o verde 
viçoso e a força dos encantos no inverno. Tenho aparência frágil, mas 
com a resistência da jurema e dos meus antepassados originários, em espe-
cífico da minha mãe, Maria do Socorro Alves Maciel, nascida e vivendo 
no território indígena, filha e neta do povo originário que habita a região. 
Assim também sou eu, trazendo “o fortalecimento da identidade étnica, 
pautada pelas memórias de uma ancestralidade de pertencimento àquele 
lugar, àquele grupo social e àquela cultura” (SILVA, 2018, p. 83), da 
minha família Xukuru do Ororubá de Pesqueira.
Cimbres está distante 18 km da cidade de Pesqueira e, ao chegar 
à zona urbana, o motorista tinha como ponto de parada na época a Praça 
Jurandir de Brito, localizada no Centro da cidade. Ao chegar, descia do 
ônibus e caminhava para escola Estadual Cacilda Almeida, a uns 2 km de 
distância da Praça, pois o motorista do ônibus não nos deixava nas escolas.
Os primeiros anos da minha trajetória escolar, como já men-
cionado, foram na Escola Municipal Monsenhor Olímpio Torres em 
Cimbres, também chamada pelos indígenas Xukuru do Ororubá por 
Escola Indígena Milson e Nilson; depois frequentei a Escola João XXIII, 
17
a Escola Estadual Cacilda Almeida Maciel e a Escola Estadual Moacir de 
Albuquerque, em Cavaleiro, Recife, onde morei com tios(as)-padrinhos/
as e primos/as. A última escola foi o Centro de Educação Rural José de 
Almeida Maciel – CERU, na cidade de Pesqueira, atualmente a Escola 
de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel - EREMJAM, 
funcionando de maneira integral.
Os anos iniciais de aprendizagem educacional ocorreram com 
algumas mudanças de escolas e espaços geográficos, pois foram períodos 
de ajustes na vida da minha família e acomodações. Mas, as mudanças 
não provocaram prejuízos, uma vez que continuava sempre estudando. 
Embora estranhasse um pouco, logo me acostumava e, na atualidade, 
penso que “Deus sabe como” (FREIRE, 2021, p. 23) e me conduziu 
pelos melhores caminhos na educação, pois, mesmo com as mudanças 
ocorridas, não demorava a me adaptar, visto que estas foram bem direcio-
nadas, e lembro com saudades de cada uma delas e dos/as professores/as.
Nas férias, mesmo com as mudanças de escolas, costumava ir 
para casa dos meus avós maternos no Sítio Brejinho, localizado na Serra 
do Ororubá, território indígena. Gostava de ficar com eles/as e com os 
bisavós: João Evaristo Alves e Olindina Maria Alves, que muitas histórias 
contavam. Hoje, entendo o porquê aspirava estar com eles nasférias esco-
lares e ouvir as histórias, estavam presentes relatos das vivências, como 
“colchas de retalhos” do meu povo Xukuru da Serra do Ororubá, pois
Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada 
vida que passa pela minha e que vou costurando 
na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, 
mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. 
Em cada encontro, em cada contato, vou ficando 
maior... Em cada retalho, uma vida, uma lição, 
um carinho, uma saudade… Que me tornam mais 
pessoa, mais humana, mais completa. E penso que 
é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de 
outras gentes que vão se tornando parte da gente 
18
também. E a melhor parte é que nunca estaremos 
prontos, finalizados... Haverá sempre um retalho 
novo para adicionar a alma. Portanto, obrigada a 
cada um de vocês, que fazem parte da minha vida 
e que me permitem engrandecer minha história 
com os retalhos deixados em mim. Que eu também 
possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos 
e que eles possam ser parte das suas histórias. E 
que assim, de retalho em retalho, possamos nos 
tornar, um dia, um imenso bordado de “nós” (PIZ-
ZIMENTI, 2013, n.p).
Na vida, ainda que aparentemente sozinha, não estive, pois 
somos muitos/as em uma pessoa com vários pedacinhos de retalhos dos 
nossos familiares, que permanecerão em cada um/uma, porque somos 
feitos de muitas gentes. Sendo assim, continuaremos em outras vidas com 
pedacinhos de retalhos coloridos.
Os anos finais da Educação Básica ocorreram no Centro de Edu-
cação Rural José de Almeida Maciel/CERU ou José de Almeida Maciel, 
como foi chamado durante muitos anos. Passei os quatro anos finais no 
CERU e trago comigo boas recordações dos professores/as que me pro-
vocaram a percorrer os caminhos do antigo Magistério, na atualidade, 
conhecido como Normal Médio.
A Escola de Referência está localizada no centro e recebe estu-
dantes indígenas e não indígenas. Ela está entre duas escolas: uma da rede 
particular, Colégio Santa Dorotéia, e uma da rede Pública, Escola Muni-
cipal Irmã Zélia de Nicácio, da qual faço parte do quadro do docente.
Na escola Estadual Cristo Rei, na cidade de Pesqueira, foi onde 
iniciei o Magistério e guardo boas lembranças de todos/as os/as docen-
tes, em específico a professora do componente curricular de Didática, 
que me provocou com o livro de Paulo Freire, intitulado Pedagogia da 
Autonomia: saberes necessários à prática educativa, de 1996. Foi quando 
percebi que queria ser professora, continuar no caminho percorrido, 
pesquisar, constatar e conhecer o ainda não conhecido na Educação, 
19
para anunciar a outros sujeitos o conhecimento através da docência 
(FREIRE, 1996), porque
A curiosidade como inquietação indagadora, 
como inclinação ao desvelamento de algo, como 
pergunta verbalizada ou não, como procura de 
esclarecimento, como sinal de atenção que sugere 
alerta faz parte integrante do fenômeno vital. Não 
haveria criatividade sem a curiosidade que nos 
move e que nos põe pacientemente impacientes 
diante do mundo que não fizemos, acrescentando 
a ele algo que fizemos (FREIRE, 1996, p. 35).
Com a curiosidade me impulsionando na educação, prestei ves-
tibular na minha cidade e, ao começar os estudos, recebi bolsa integral 
no Curso de Letras. Conclui o Ensino Superior e, um ano depois, fui 
aprovada no concurso para professora nos anos iniciais da Educação 
Básica, na cidade de Arcoverde, onde trabalho até a atualidade. Também 
fui aprovada no concurso para professora nos anos iniciais na cidade de 
Pesqueira, no qual agradeço a Deus pela “coragem” que me move, por-
que está “acima do medo” de pensar e às vezes ser limitada, como falou 
o “Cacique Xicão”, Francisco de Assis Araújo, liderança indígena do 
povo Xukuru de Pesqueira assassinado no dia 20 de maio de 1998, por 
volta das 9:00 da manhã. Foi plantado no “Cemitério da Aldeia de Pedra 
D’Água” e entrou em processo de encantamento, metamorfoseou-se 
no “Cacique Encantado Mandaru”, e continua a habitar e lutar pelos 
direitos e pelo bem viver do seu povo (MELO, 2019, p. 162).
Cursei Especialização na Autarquia Educacional de Belo Jardim 
(Autarquia Educacional do Belo Jardim/Faculdade de Belo Jardim - 
AEB/FBJ). Atualmente, sou mestra pela Universidade de Pernambuco 
(UPE) - Campus Mata Norte, uma vez que não quero parar, mas con-
tinuar minha formação como pesquisadora no âmbito dos estudos da 
pós-graduação stricto sensu. Acredito que a “educação é permanente”, 
como bem escreveu Paulo Freire:
20
A educação é permanente não porque certa linha 
ideológica ou certa posição política ou certo inte-
resse econômico o exijam. A educação é perma-
nente na razão, de um lado, da finitude do ser 
humano, de outro, da consciência que ele tem de 
finitude. Mas ainda, pelo fato de, ao longo da his-
tória, ter incorporado à sua natureza não apenas 
saber que vivia, mas saber que sabia e, assim, saber 
que podia saber mais. A educação e a formação 
permanente se fundam aí (FREIRE, 1997, p. 20).
Após finalizar a minha primeira graduação, cursei uma segunda 
graduação em Pedagogia pela Universidade Federal Rural de Pernambu-
co-UFRPE. Ao mesmo tempo em que cursava a graduação em Pedago-
gia, iniciei a Especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica 
no Instituto Superior de Educação de Pesqueira - ISEP. Em 2021, cursei 
outra Especialização, desta vez em Neuropedagogia Institucional e Clí-
nica pela Faculdade Frassinetti do Recife – FAFIRE, com ajuda de custo 
da Secretaria de Educação de Pesqueira.
Em toda essa jornada educacional, desde os anos iniciais aos anos 
finais, passando pelo Magistério e as duas graduações, não recordo de 
ter presenciado estudos sobre as palavras da Língua Xukuru ou qualquer 
outro tipo de pesquisa sobre os povos originários, tanto na graduação 
como na especialização, mesmo havendo muitos discentes do território 
indígena. Mesmo em minha atuação como docente no município de 
Pesqueira, o silêncio em relação à língua dos nativos e às palavras dessa 
língua é grande. Nesse sentido, pretendemos dar visibilidade ao conjunto 
de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, porque faz parte da cultura 
local da cidade de Pesqueira e Poção/PE.
Quando morei em Cimbres, juntamente com a minha família, 
ainda criança, conheci o senhor Romão, que morava duas casas depois 
da minha. Em uma entrevista, eu o ouvi e vi falando sobre as palavras 
da Língua Xukuru. Minha avó materna, Rosa Alves de Freitas, com 93 
21
anos, quando está em momentos lúcidos, relata que os avós se comu-
nicavam na Língua Xukuru, e que ainda chegaram a ensiná-la algumas 
palavras e frases as quais, infelizmente, por conta da idade, não recorda. 
Mas, na atualidade, existe um conjunto de palavras da língua indígena 
confirmando que no passado ela foi viva entre os Xukuru do Ororubá.
São conhecidas diversas expressões socioculturais dos Xukuru do 
Ororubá, como o Toré, a arte, a cosmologia, a história do Cacique “Xicão” 
e, especificamente, a Língua Xukuru, que foi apagada a partir da coloni-
zação e, de acordo com leituras, foi uma língua isolada entre os indígenas.
O Xukuru deveria ter sido uma língua de relação 
pura. A ordem das palavras podia servir para expri-
mir conceitos. Essa relação era regressiva, como no 
Tupi e no Iatê, e diferia da do Cariri em que é pro-
gressista (...) o remanescente linguístico Xukuru 
são palavras conceituais, sem determinação ou 
categoria. São nomes (...) ou verbos são de forma 
nominal (LAPENDA, 1962, p. 17).
As palavras Xukuru do Ororubá representam um legado socio-
cultural para ser reconhecidas, valorizadas e enaltecidas. Essa compreen-
são está apoiada na perspectiva de que “as versões emancipatórias do mul-
ticulturalismo baseiam-se no reconhecimento da diferença e do direito à 
diferença e da coexistência ou construção de uma vida em comum, além 
de diferenças de vários tipos” (SANTOS, 2003, p. 33).
Por ter raízes fortes em uma ancestralidade originária, faço parte 
dessa história. Sou neta de Abílio Evaristo Alves e RosaAlves de Freitas, 
nascidos, vivendo, casando e constituindo a prole no então Sítio Breji-
nho, atualmente reconhecido território indígena Xukuru do Ororubá. 
Sendo assim, “não se apaga dos avós rica memória veia ancestral” (POTI-
GUARA, 2020, n.p). Portanto, “é como se estivéssemos diante de 
muitos testemunhos” (HALBWACHS, 2003, p. 30), pois sou parte dessa 
história com meus irmãos, meus pais e meus avós maternos e paternos 
22
junto dos parentes Xukuru não consanguíneos da Serra do Ororubá. 
Nossa identidade a partir da ancestralidade e da afirmação.
Como escreveu Jacques Le Goff (2013, p. 437), “a memória, a 
qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado 
para servir ao presente e ao futuro”. Essas afirmações são significativas 
nesta fase da minha trajetória como mestranda, quando jamais imaginei 
poder narrar fragmentos da minha vida. Mas o Mestrado Profissional 
na UPE/Mata Norte possibilitou a oportunidade de ser voz através desse 
simples relato, como pesquisadora e profissional da educação compro-
metida com uma causa da valorização da identidade e de palavras da 
língua do meu povo Xukuru do Ororubá.
Nesse relato, busquei expressar minha história na educação e, 
ao mesmo tempo, expus minhas origens. Acredito que, por ter saído 
do Sítio Brejinho e de Cimbres “para saber mais”, isso não tira de mim 
quem sou, ou seja, sou uma indígena brasileira e, se precisar sair do país, 
não deixarei de ser indígena no Brasil com as minhas origens. Sou bra-
sileira. Conforme a Constituição Federal, no Art. 115, “são brasileiros 
os nascidos no Brasil, ainda que de pai estrangeiro [...]”, assim como “os 
filhos de brasileiros ou brasileiras, nascidos em país estrangeiro, [...] se, 
atingida a maioridade, optarem pela nacionalidade brasileira”. Decla-
ro-me como descendente de povos originários e, como prova disso, me 
assumo originária da Serra do Ororubá. Sou Rosani Maciel Calado e 
essa é minha construção identitária, “pautada pelas memórias de uma 
ancestralidade de pertencimento àquele lugar,” (SILVA, 2018, p. 83) 
onde morei, cresci e convivi durante alguns anos com meus pais, avôs, 
avós paternos e maternos no Território Indígena Xukuru do Ororubá e 
as histórias do meu povo, juntamente com as da Língua Xukuru do Oro-
rubá, contribuíram para meu reconhecimento como indígena Xukuru.
Na atualidade, temos familiares e parentes originários 
morando no território indígena, uma vez que, viram minha mãe nas-
cer e crescer, meus avós e bisavós, tios e primos. Isso faz parte das nossas 
vivências, das nossas histórias, das nossas lembranças e vem afirmar nossas 
identidades muitas vezes invisibilizadas no âmbito social e cultural. 
23
É nessa ponte entre a minha história pessoal e profissional 
que esta obra surge. Ela deriva de uma pesquisa que realizei no Mes-
trado Profissional em Educação da Universidade de Pernambuco, em 
que, em contexto pandêmico, no ano de 2021, apliquei um questionário 
exploratório, contendo 20 (vinte) questões estruturadas e endereçadas a 
docentes atuantes na Educação no município de Pesqueira - PE. Essa fer-
ramenta recebeu a devolutiva de 35 docentes, os/as quais, neste trabalho, 
atribuímos codinomes de plantas com flores conhecidas em Pernambuco, 
mais precisamente, na Caatinga. Suas respostas foram organizadas nas 
categorias “Conhecimento, pelos/as docentes, da cultura Xukuru do 
Ororubá”, ao “Reconhecimento/pertencimento das origens e das línguas 
indígenas” e a “Prática docente”.
O objetivo do documento foi o de sondar as demandas formati-
vas e intervir com formação continuada junto a professores/as atuantes 
nas redes públicas e particulares de ensino em Pesqueira-PE. Focamos, 
especificamente, em compreender as demandas formativas para o trato 
com o léxico da Língua Xukuru do Ororubá no contexto escolar; bem 
como, promover formação continuada para docentes, voltada ao trato 
com palavras do léxico da Língua Xukuru do Ororubá. O produto final 
resultante deste momento de escuta docente gerou na organização cola-
borativa de um Dicionário Ilustrado, utilizando palavras do repertório 
lexical desse povo originário, cujo propósito seguir na valorização do povo 
Xukuru de Ororubá e servir de apoio para o ensino e a aprendizagem de 
crianças, adolescentes, pessoas jovens, adultas e idosas.
O Dicionário da Ilustrado da Língua Xucuru de Ororubá, dis-
ponível na seção final deste E-book, foi organizado colaborativamente, 
a partir dos temas NATUREZA; ALIMENTO; OBJETOS, SOCIE-
DADE; CORPO HUMANO e ESPIRITUALIDADE. Esta ferra-
menta didática reúne um conjunto de palavras do léxico Xukuru de 
Ororubá, além de apresentar imagens a elas vinculadas. As palavras foram 
coletadas de fontes variadas, tais como: do livro “Xukuru Filhos da Mãe 
Natureza: uma história de resistência e luta”, elaborado por professoras e 
professores indígenas Xukuru do Ororubá, em 1997; de arquivo pessoal 
24
de fotografias tiradas no território indígena na Serra do Ororubá, bem 
como de arquivos digitais gratuitos, como o Canva e o Pixabey.
A mirada nos objetivos desta obra nasce, em linhas gerais, da com-
preensão de que as palavras da língua Xukuru do Ororubá não têm espaço 
no cotidiano dos planejamentos docentes, tampouco é conteúdo de for-
mação para discussões sobre a identidade de parte da população originá-
ria habitante na Serra do Ororubá na cidade de Pesqueira. Esse cenário 
realça a necessidade de ações que se coadunem com a Lei nº 11.645, de 
10 março do ano de 2008, que instituiu a inclusão da história e culturas 
indígenas no currículo da Educação Básica, assim como com as orienta-
ções presentes nos Reorganizadores Curriculares do Município (2021), 
tanto nos anos iniciais como os finais, como meios de contribuir para a 
valorização das expressões socioculturais indígenas.
Mesmo com regulamentação acima indicada, várias línguas indí-
genas no Nordeste já desapareceram. No cenário sociolinguístico entre os 
Xukuru do Ororubá, ocorreu, ao longo da história, uma insistente busca 
de apagamento da língua originária deste povo, que no passado era ensinada 
através da oralidade no meio familiar. Desse processo, um conjunto apro-
ximado de 300 (trezentas) palavras resistiu a essa tentativa de apagamento.
No contexto histórico, a catequização dos indígenas no aldea-
mento de Cimbres ou Monte Alegre ocorreu com os padres da Congre-
gação do Oratório de São Felipe Neri, também conhecidos como missio-
nários ou os Oratorianos, com a fundação da missão/aldeamento em 
1661 (SILVA, 2017). Após dois séculos, no ano em 1879, o aldeamento 
foi extinto pelo Governo Imperial. A língua dos Xukuru do Ororubá 
foi esquecida, devido ao contexto da colonização portuguesa e com o 
Diretório Pombalino, que proibiu as línguas indígenas em 1757 (SILVA, 
2017). Assim, as terras do antigo aldeamento foram invadidas por fazen-
deiros e os indígenas se tornaram trabalhadores dos latifundiários.
Saviani (2013, p. 29) afirma que “[...] a posse e exploração da 
terra subjugando os seus habitantes; a educação enquanto [...] inculcação 
nos colonizados das práticas, técnicas, símbolos e valores próprios dos 
colonizadores; e a catequese”, difusora da religião dos colonizadores 
25
buscava apagar as expressões socioculturais dos povos colonizados e 
escravizados. Para esse autor, “A palavra colonização deriva diretamente 
do verbo latino colo [...]. Significa igualmente tomar conta de; cuidar; 
querer bem” (SAVIANI, 2013, p. 26). Mas, não foi exatamente isso o 
ocorrido com o povo Xukuru do Ororubá. Contudo, à medida que o 
tempo ia passando, os padres Oratorianos tinham como “ofício” imposto 
aos indígenas ensiná-los a ler e escrever na língua do dominador, ou seja, 
a imposição do ensino e aprendizagem representava a Educação.
O Governador Geral do Brasil, Tomé de Sousa (1503-1579), 
trouxe de Portugal os primeiros Jesuítas para “catequizar” os povos ori-
ginários no território brasileiro e, para que isto ocorresse, era necessário 
ser introduzido o idiomalusitano, substituindo as línguas originárias. 
Sendo assim, as missões da catequese foram espalhando-se por décadas 
e séculos em várias regiões no território brasileiro (SAVIANI, 2013, p. 
26). Em 1661, os Xukuru do Ororubá, habitam as terras da Ribeira do 
Rio Ipojuca, Serra do Ororubá e região do Agreste, como os indígenas 
atualmente nomeiam o território, que corresponde a 27.555 hectares, 
onde estão distribuídas as aldeias do povo Xukuru (SILVA, 2017).
Dois séculos após o início da atuação dos padres entre os Xukuru 
do Ororubá na missão de Monte Alegre, posteriormente Vila de Cimbres, 
ocorreu a extinção oficial do aldeamento. Com isso, a língua originária 
ficou cada vez mais distante, pois o medo de serem castigados/as fazia parte 
do cotidiano indígena. Desse cenário de opressão, ficaram apenas palavras 
guardadas nas memórias e tradições orais. O povo Xukuru do Ororubá 
busca preservar as palavras da língua originária como forma de resistência e 
afirmação identitária. Nesse movimento, consideramos que a escola pública 
tem um papel importante para contribuir com essa afirmação indígena.
Nosso compromisso com a formação dos/as professores/as, que 
atuam na rede pública e particular de ensino em Pesqueira, configu-
ra-se como justificativa das mobilizações para as mudanças na Educa-
ção, uma vez que “na formação permanente dos/as professores/as, o 
momento fundamental é o da reflexão crítica [...]” (FREIRE, 1996, p. 
39). Com esse propósito, ecoamos o nosso reconhecimento, valorização 
26
e enaltecimento das palavras da Língua Xukuru do Ororubá. Esta língua 
originária do povo Xukuru do Ororubá, silenciada na missão pelos ora-
torianos cujas violências físicas e simbólicas parecem tentar apagar, mas 
que, com a força desse povo, resiste e existe.
Unimo-nos ao movimento para o conhecimento histórico da 
língua do povo originário Xukuru do Ororubá com o compromisso de 
contribuir para que cada docente no município de Pesqueira (re)conheça 
e valorize as palavras da Língua Xukuru do Ororubá, já que estas com-
põem a identidade do povo e fazem parte dos conhecimentos indígenas. 
Portanto, é um conhecimento significativo para a aprendizagem.
Após a apresentação dos traçados que me centraram enquanto 
mulher indígena, docente da educação básica e pesquisadora, e da con-
tribuição deste trabalho para a valorização do meu povo, sigo para o 
campo teórico que sustenta este estudo e que nos dá base para dialogar 
com o objeto desta obra.
27
CAPÍTULO II
BRASIL, POVOS ORIGINÁRIOS E SUAS LÍNGUAS: 
PANORAMA GERAL
Os portugueses invadiram o Brasil em 1500, mas as tentativas 
do processo de colonização não ocorreram de maneira amigável nos 
grupos étnicos nas primeiras décadas do século XVI. Houve diversos 
“reveses” (SAVIANI, 2013, p. 25) e enfrentamento de resistência dos 
povos indígenas para afirmar suas expressões socioculturais narrativas. 
Para a dominação colonial sobre as “gentes” que habitavam essas terras, a 
Coroa Portuguesa buscou “educá-los” a partir da catequese e do ensino do 
idioma português aos povos indígenas, como meio para desapropriá-los/
as das terras, sem tantos conflitos entre os homens brancos “civilizados” e 
os originários. No início do século XVI e mais precisamente nos anos de 
1549 período de colonização, os europeus invadiram o território brasi-
leiro e juto com os invasores chegaram os primeiros padres Jesuítas, com 
missões atribuídas pelo rei de tentar mudar a cultura do povo indígena 
habitando as terras brasileiras e donos/as do Brasil.
Para atender a esse mandato, os Jesuítas criaram 
escolas e instituíram colégios e seminários que foram 
espalhando-se pelas diversas regiões do território. 
Por essa razão considera-se que a história da educa-
ção brasileira se inicia em 1549 com a chegada desse 
primeiro grupo de jesuítas (SAVIANI, 2013, p. 25).
O grupo dos Jesuítas passou a viver no Brasil e, paulatinamente, 
desenvolveram amizade com os povos indígenas, com o objetivo de tentar 
catequizá-los/as sem conflitos. Contudo, a partir de 1549, foram cons-
truídas escolas por todo território brasileiro, dando início a história da 
educação no Brasil no século XVI (SAVIANI, 2013, p. 25). Com isso, 
podemos perceber os interesses dos colonizadores em permanecer no 
território brasileiro nas tentativas de catequização.
28
Os ensinamentos dos missionários Jesuítas ocorreram nas várias 
regiões do Brasil. Ao introduzir o idioma do Rei de Portugal, buscavam 
superar a resistência dos indígenas. Esse foi um dos meios mais efica-
zes de empoderamento e dominação, que provocou, com o passar dos 
séculos, o apagamento de muitas línguas dos povos originários, como a 
língua dos Xukuru do Ororubá. Uma vez que as missões de catequizar 
espalharam-se por todo território.
Uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘vale’ na 
sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo 
do poder e da autoridade que eles têm nas relações 
econômicas e sociais. Esta afirmação é válida, em 
termos internos, quando confrontados varieda-
des de uma mesma língua, e em termos ‘externos’ 
pelo prestígio das línguas no plano internacional 
(GNERRE, 1991, p. 7).
Nesse sentido, a Língua Portuguesa, considerada de “prestígio” 
nos processos de colonização do Brasil, foi estabelecida como relação de 
poder sobre os povos originários, sendo imposta para aquisição, pois 
considerava-se a língua lusitana de valor por ser da elite dominante. Os 
colonizadores, diante da variedade de línguas indígenas existentes no 
território brasileiro, ficaram impressionados. Contudo, mesmo diante 
da admiração com as línguas, não procuraram preservá-las e, por isso, o 
Brasil teve perdas irreparáveis. 
De acordo com o censo do IBGE de 2010 mais de 270 (duzentos e 
setenta) línguas indígenas são faladas no Brasil. Nesse sentido, acreditamos 
que, no período das tentativas de colonização os povos originários, verdadei-
ros donos do Brasil foram aloglotas, pois falavam diversas línguas no terri-
tório brasileiro em meio a convivência com os invasores europeus da época.
A partir da convivência com os indígenas, os portugueses, através 
do contato com homens, mulheres, jovens e crianças nativas, aprenderam 
a língua Tupi e tornaram-se bilíngues. Outras línguas estavam vinculadas 
à imponência do Tupi e formavam diversas famílias linguísticas, conforme 
29
os vários grupos étnicos existentes. Com isso, os portugueses passaram a 
se comunicar por meio do Tupi e passaram a incomodar outras nacionali-
dades que invadiam os territórios indígenas como os espanhóis, franceses, 
italianos, entre outros povos. Segundo Rodrigues (1986).
a língua indígena tradicionalmente mais conhecida 
dos brasileiros conquanto esse conhecimento se limite 
em regra só a um de seus nomes, Tupi - [...]. Esta foi a 
língua predominante nos contatos entre portugueses 
e índios nos séculos XVI e XVII [...]. Seu uso pela 
população luso-brasileira, tanto no norte quanto no 
sul da colônia, era tão geral no século XVIII, que o 
governo português chegou a baixar decretos proi-
bindo esse uso (RODRIGUES, 1986, p. 21).
Com o Diretório Pombalino, os aldeamentos passaram a ter à con-
dição de povoados como aconteceu com o aldeamento dos Xukuru de Cim-
bres. A lei Pombalina apresentava diretrizes para o povo indígena, como por 
exemplo: a união dos originários/as com europeus, filhos/as nascidos/as da 
união teriam sobrenomes dos pais estrangeiros e exigia-se obrigatoriedade 
dos indígenas na prestação de trabalhos à colonização em suas próprias terras.
Aparentemente, com a criação da Lei Pombalina, os originá-
rios tinham a impressão de que estavam livres, porém eram impedidos 
de seguir seu próprio modo de viver em comunidade. Contudo, a lei 
“determinava uma série de atribuições” (OLIVEIRA; MESQUITA, 
2019, p. 5) aos povos indígenas.
Essa lei privou os indígenas de suas terras por uma política de 
utilidade econômica atenta às necessidades da colonização e, ao mesmo 
tempo, de negação das tradições culturais nativas e da “ liberdadea todos” 
(PINHEIRO, 2011, p. 143) os originários como o próprio território; 
uma vez que a terra é fundamental para afirmar o pertencimento, a lín-
gua, o artesanato, os rituais, as danças o culto aos ancestrais, as memórias 
e as histórias herdadas, passadas de pais para filhos/as através da oralidade, 
nas rodas de conversa no meio familiar.
30
Com a criação da Lei Pombalina, as Missões da administração 
eclesiástica, formada por padres de várias congregações, dentre eles, os 
Padres Oratorianos no século XVII (que ocupavam a região do atual 
município de Pesqueira desde o ano 1661), foram extintas e os originários 
emanciparam-se da guarda dos missionários. Mas, a legislação também 
incentivou a vinda de portugueses para as terras das antigas missões. 
Com isso, as terras foram invadidas e muitos indígenas deixaram de viver 
de modo coletivo em suas próprias terras.
A aplicação da Lei aos indígenas foi inserida no contexto sócio-
-histórico de reformas da coroa portuguesa na segunda metade do século 
XVIII e se constituiu como tentativa do Estado Português para organizar 
a mão-de-obra originária para exploração e benefícios da elite dominante. 
A Coroa Portuguesa tinha a preocupação de controlar a ação dos mis-
sionários sobre os indígenas. Compreendemos a ação dos missionários 
também como envolvimento nas transações comerciais que escapavam do 
alcance da Coroa, assim como o trabalho de evangelização nas missões, que 
segregava os indígenas do convívio social com colonizadores SILVA, 2017).
Algumas etnias não conseguiram adaptar-se às novas situações. 
Assim, muitas desapareceram e outras resistiram, vivenciando as transforma-
ções e os protagonismos ao longo da história, como os Xukuru do Ororubá,
O Diretório Pombalino determinava uma série de 
atribuições aos chamados “diretores” dos aldeamen-
tos; responsáveis por estabelecer os termos dos con-
tratos de trabalho, eles também deveriam estipular 
e receber o salário a ser pago sob a alegação de prote-
ger os índios da usura dos colonos. Os objetivos do 
Diretório eram claros: a dilatação da fé, a extinção 
do gentilismo, a propagação do evangelho, a civi-
lidade dos índios, o bem comum dos vassalos, o 
aumento da agricultura, a introdução do comércio 
e o estabelecimento, a opulência e a total felicidade 
do Estado (OLIVEIRA; MESQUITA, 2019, p. 5).
31
Os povos indígenas vivenciaram uma violência “simbólica”, 
porque compreendemos que “todo poder de violência [...] que chega a 
impor significações e a impô-las como legítima, dissimulando as relações 
de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto 
é, propriamente simbólica” (BOURDIEU; PASSERON, 1975, p. 19), 
exercida através do corpo, mas sem coação física e ferimentos visíveis, con-
tudo os danos foram morais e psicológicos aos indígenas.
Podemos dizer que os povos originários passaram por diferentes 
tipos de medos, como: perder os/as filhos/as, os/as companheiros/as, 
a família e outras perturbações psicológicas, que, consequentemente, 
acarretaram danos ao sono, à alimentação e ao modo de viver em comu-
nidade pelos processos de colonização. “Contudo, qualquer um poderá se 
convencer disso.” (BOURDIEU, 2001, p. 09). Essa violência simbólica 
ocorreu por imposição determinada no meio econômico, social, cultural 
e religioso em todo território brasileiro. O discurso dominante induziu 
muitos originários a se posicionarem no contexto social de obediência 
para gerar riquezas à Coroa Portuguesa.
O significado da palavra colonização, de acordo com alguns 
dicionários, é um conjunto de medidas adotadas por um governo em 
relação a uma determinada região ou população com objetivos de prote-
ger. Porém, sabemos dos conflitos dos portugueses com o povo nativo.
A palavra ‘colonização’ deriva diretamente do 
verbo latino colo. Os dicionários registram os 
seguintes significados para o verbo colo, colui, cul-
tum, colore: 1. cultivar: 2. morar; 3. cuidar; 
4. querer bem a, proteger; 5. realizar; 6. honrar, 
venerar (TORRINHA, 1945, p. 163).
Conforme o autor, a palavra “colonização” tem um importante 
significado, mas os povos indígenas não foram cuidados e não tiveram 
os territórios protegidos. Eles perderam as terras, as línguas ancestrais e, 
por décadas, foram privados/as dos rituais e expressões socioculturais, 
32
ou seja, foram oprimidos segundo os interesses da Coroa Portuguesa de 
exploração de recursos e de habitação.
Mas, segundo o jornal português Expresso, com publicações 
semanais desde 1973, há mais de 5 (cinco) décadas, Pedro Adão e Silva, 
ministro de Portugal, vai tentar se preparar para devolver às ex-colônias 
tesouros adquiridos por meio de todos os tipos de violência simbólica 
cometidas no passado contra os povos indígenas, como no Brasil.
Portugal [...] está se preparando para devolver os 
tesouros tomados de suas ex-colônias. A notícia foi 
revelada na última sexta-feira (25) em publicação 
no semanário Expresso, onde Pedro Adão e Silva, 
o ministro da Cultura de Portugal, anunciou que 
o país pretende preparar uma lista com todos os 
tesouros sob seu poder para que possam ser devol-
vidos às suas respectivas nações. Entre os séculos 
XV e XIX, os portugueses exploraram terras lon-
gínquas e acumularam diversas colônias na África, 
na Ásia e na América do Sul, incluindo o Brasil. 
Nos séculos XV e XVI, Portugal era uma verda-
deira potência e, [...] suas frotas colonizadoras ren-
daram ao país o título de primeiro império global. 
(Disponível em: 
Acesso em: 08 dez. 2021, online).
A afirmação do ministro português em devolver às ex-colônias 
os tesouros dos quais tem posse, devido à colonização, será um tempo 
para celebrar, pois entendemos ser um gesto de humildade e, ao mesmo 
tempo, um pedido de desculpa ao Brasil e aos povos originários, assim 
como a outros povos e nações. Mas, jamais apagará da memória dos povos 
originários as violências físicas e psicológicas, pois foram e serão histórias 
jamais superadas pelas ex-colônias.
33
A nota publicada no periódico Expresso explica 
que os tesouros “são obras de arte, bens culturais, 
objetos de culto e até restos mortais ou ossadas reti-
radas das suas comunidades originais”. O inven-
tário com as riquezas tomadas de outros países 
séculos atrás devem ser efetuado com o auxílio de 
acadêmicos e diretores de museus. (Disponível 
em: Acesso em: 
08 dez. 2021, on line).
As obras de arte, os bens culturais e os objetos religiosos, usur-
pados dos povos no Brasil, serão bem-vindos/as, porque os artistas, e em 
especial os das obras de artes do passado, irão evidenciar ideias e expressões 
da época ao projetar nos sujeitos suas intenções quando forem contem-
pladas em exposições nacionais e internacionais. Se bem que, ao observar 
uma obra de arte, não vamos compreender totalmente o pensamento do 
artista. Todavia, as interpretações são nossas a partir do contexto histórico.
Compreendemos que os tesouros poderão corresponder a uma 
coleção antiga de objetos preciosos/as, como: joias, pedras, ouro, cédulas 
em dinheiro, moedas e outros itens, cujos donos não tenham memória 
brasileira. Mas, sabemos que pertencem ao Brasil e, por isso, devem voltar 
ao país de origem.
Esperamos que, a partir da parceria entre as autoridades do Brasil 
e Pedro Adão e Silva, Portugal não somente devolva os tesouros acima 
citados às ex-colônias, mas também documentos da época que tratam 
das histórias dos povos originários. Acreditamos na existência de registros 
da época que serão importantes para compreender ainda mais sobre as 
histórias e as línguas indígenas.
Esta notícia do jornal português Expresso provoca expectativas, 
pois o momento de entrega dos tesouros ao Brasil será respectivamente 
aguardado. Esperamos que a notícia nãofique somente no papel, mas que 
34
venha a acontecer de fato. Ao esperar, e já com indagações, gostaríamos de 
saber, se, além dos tesouros, existem registros sobre as línguas originárias 
do Brasil. Uma vez havendo, também desejamos a devolução ao Brasil.
Segundo a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, Art. 
1.266, aquele/a que encontrar tesouros tem o devido direito de ficar 
com metade e cabe a outra parte ao proprietário. Mas, no caso do Brasil, os 
tesouros foram usurpados e levados para Portugal durante séculos. Sendo 
assim, os tesouros e as obras de artes não serão divididos com aquele país.
O ministro Pedro Adão e Silva, ao devolver as obras de arte e os 
objetos de culto retirados dos povos originários do Brasil, irá colaborar 
com o país nos contextos social, religioso, político, econômico, cultural 
e, em especial, o educacional. Pois, pesquisas poderão surgir sobre os 
bens socioculturais, com base na ciência, para ajudar na compreensão 
sobre o porquê dos tesouros e das obras de artes permaneceram por tanto 
tempo em Portugal. Reconhecemos na iniciativa de Pedro Adão e Silva 
de devolver os bens ao Brasil uma maneira de fazer história, porque trarão 
para a nação brasileira novos olhares para o passado, presente e o futuro, 
uma vez que os tesouros são atemporais para a realização de pesquisas.
De acordo com o jornal português Expresso, “Portugal [...] se pre-
parando para devolver os tesouros tomados de suas ex-colônias” e ao existi-
rem documentos do Brasil sobre as línguas dos povos originários em meio 
aos tesouros, desejamos que regressem junto com os bens culturais do país.
Como apontou o citado jornal, Portugal conserva os tesouros 
de algumas ex- colônias, inclusive do Brasil. Dessa forma, acreditamos 
na possibilidade de haver registros de povos originários, como: livros, 
revistas, jornais, entre outros documentos sobre as línguas indígenas. 
Nesse sentido, ao existir, desejamos o retorno para o Brasil. Acreditando 
que estarão disponíveis para pesquisas, inclusive através da internet.
Por isso, desejamos a volta de todos os bens socioculturais ao Brasil, 
uma vez que não substituirão as perdas linguísticas do país, porque infe-
lizmente muitas línguas foram apagadas e não há como recuperar. Então, 
diante da situação do desaparecimento de centenas e milhares de línguas 
indígenas, Portugal, juntamente com o Brasil, poderiam ser parceiros na 
35
elaboração de políticas públicas para capacitar professores/as para atuar 
no campo de formações docentes sobre as línguas originárias ameaçadas 
de desaparecerem, a partir da Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008.
Portanto, entendemos o passado dos povos originários no Brasil 
como um assunto delicado que requer reflexão. Sobretudo, porque a 
devolução ou não dos chamados tesouros por Portugal não apagará da 
história toda violência simbólica e física vivenciadas pelos povos indí-
genas no território brasileiro, em específico, a perda de línguas nativas 
como a língua do povo Xukuru do Ororubá de Pesqueira, temática que 
discutiremos neste estudo.
2.1 ALDEAMENTO DE CIMBRES
No período colonial, mais precisamente na segunda metade do 
século XVII, os originários Xukuru do Ororubá foram submetidos a 
um aldeamento na Missão do Ororubá, posteriormente nomeada Aldea-
mento de Cimbres, atualmente distante 18 km da atual cidade de Pes-
queira. A missão foi fundada por padres da Congregação do Oratório 
de São Felipe Neri, também chamados Oratorianos, para catequizar, 
ensinar a ler e escrever as crianças, jovens e adultos. Todavia, possivel-
mente como ocorreu em outras regiões do Brasil, os “poucos índios, 
entretanto, devem ter aprendido a escrever [...] com os missionários, 
mas com o tempo devem ter-se alfabetizado” (RODRIGUES, 1986, p. 
35), com a Língua Portuguesa.
No caso da educação instaurada no âmbito do 
processo de colonização, trata-se evidentemente, 
de aculturação, já que as tradições e os costumes 
que se busca inculcar decorrem de um dinamismo 
externo, isto é, que vai do meio cultural do colo-
nizador para a situação objeto de colonização 
(SAVIANI, 2013, p. 27).
36
Mesmo diante de um cenário de opressão, vivenciado pelos ante-
passados dos indígenas Xukuru do Ororubá que aos poucos foram dei-
xando de falar a língua nativa no cotidiano, cujas terras foram invadidas e 
negadas, as expressões socioculturais e a cosmologia continuaram sendo 
socializadas através da oralidade. Todavia, os indígenas permaneceram afir-
mando os direitos, uma vez que o território indígena Xukuru nativo sempre 
será “seu chão, o cheiro de seu chão, sua gente” (FREIRE, 2021, p. 46).
Após quase dois séculos da missão fundada na Serra do Oro-
rubá, surgiu a cidade de Pesqueira na segunda metade do século XIX e 
o aldeamento foi oficialmente extinto, com uma nova reconfiguração da 
identidade dos originários. Com as determinações do chamado Diretório 
Pombalino em 1757, as terras indígenas foram invadidas por fazendeiros. 
Os indígenas passaram a trabalhar nas suas próprias terras invadidas 
para produzir alimentos nas lavouras para a sobrevivência. As circuns-
tâncias de desfavorecimentos do povo indígena coadunaram-se para 
o enriquecimento dos latifundiários. Assim, mesmo após a extinção 
do Aldeamento de Cimbres, os indígenas Xukuru continuavam sendo 
oprimidos (SILVA, 2011).
Os originários que não aceitavam as determinações legais eram 
considerados selvagens e muitos foram castigados pela resistência, muitos 
fugiram por querer defender os direitos, como as terras, a língua originária 
e as expressões socioculturais. Os atuais originários Xukuru do Ororubá 
têm o Português falado como a primeira língua nas 24 aldeias do terri-
tório indígena. E, em situações específicas, algumas palavras da Língua 
Xukurusão evidenciadas no território indígena, como nas assembleias 
que ocorrem anualmente. Mesmo diante desse cenário, muitos/as pro-
fessores/as das escolas públicas e privadas na cidade de Pesqueira não (re)
conhecem o porquê da língua do povo indígena Xukuru do Ororubá ter 
sido apagada e de restar hoje apenas um conjunto de palavras.
Portanto, a opressão a esses indígenas vem ocorrendo há mais de 
quatro séculos em meio às mobilizações dos atuais Xukuru do Ororubá 
que não falam a língua nativa. O que ressalta a necessidade das pala-
vras indígenas serem valorizadas e (re)conhecidas a partir de formações 
37
continuadas, para não sejam apagadas, como ocorreu com a Língua 
Xukuru do Ororubá, segundo apontam documentos nacionais e de 
âmbito internacional. 
Como pesquisadora, me reconhecendo indígena Xukuru do 
Ororubá e cidadã de Pesqueira, falar do povo originário é ter o olhar 
socioantropológico, que consiste no estudo das sociedades humanas, assim 
como o respeito pelas diferenças sociais existentes. Sendo assim, “o que 
distingue a antropologia das outras ciências sociais é o ela incluir no seu 
campo, para estudá-las cuidadosamente, sociedades que não são a nossa 
sociedade” (BENEDICT, 2017, p. 13). O trabalho de formação docente 
para vivência da identidade étnica do povo Xukuru do Ororubá, no coti-
diano escolar nas escolas públicas e particulares da cidade de Pesqueira, 
vai contribuir para o reconhecimento e a valorização da etnia Xukuru do 
Ororubá, intrinsecamente vinculada à história da cidade de Pesqueira.
A pertinência [...] em trazer algumas considerações 
da sociologia da cultura e da Antropologia para 
melhor situar o grupo indígena Xukuru no âmbito 
nacional, o que não impede de introduzir algumas 
reflexões sobre a língua como um dos principais 
elementos (mas não o único) representativos de 
uma cultura no processo de análise do habitus que 
distingue os agentes “na luta de classes”, em suas 
disputas simbólicas, ainda uma questão pontual na 
contemporaneidade (CARVALHO, 2018, p. 69).
Nesse sentido, tentaremos situar os Xukuru do Ororubá na 
história, no território, nas expressões socioculturais e nas mobilizações 
pela garantia de direitos à etnicidade, a partir da Constituição Federalde 
1988. Durante a elaboração deste documento, Francisco de Assis Araújo, 
o Cacique Xicão Xukuru, esteve presente nas mobilizações que ocorre-
ram na Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988), para garantir os 
direitos dos indígenas Xukuru do Ororubá não somente em Pesqueira, 
mas também no Nordeste e no país.
38
O povo indígena Xukuru do Ororubá habita nos municípios de 
Pesqueira e Poção, território indígena com vinte e quatro aldeias, corres-
pondendo a 27.555 hectares. Essas aldeias estão divididas em três espaços 
geograficamente denominados pelos indígenas como: Agreste, Serra e 
Ribeira. Segundo Carvalho (2018, p. 84), essa nominação ocorreu para 
facilitar a organização das aldeias.
Agreste (Cimbres, Mascarenha, Cajueiro, Sucu-
pira, Guarda); Ribeira (Jatobá, Curral Velho, 
Passagem, Caldeirão, Pão de Açúcar, Pé de Serra 
dos Nogueira, Pé de Serra de São Sebastião (Oiti), 
Capim de Planta); Serra (Couro Dantas, São Cae-
tano, Caípe, Brejinho, Lagoa, Santana, Cana Brava, 
Afetos, Gitó) (CARVALHO, 2018, p. 84).
Em cada aldeia, há um representante que se preocupa com o bem-
-estar de todos os seus parentes. Quando surgem problemas, tentam resol-
ver e, quando não conseguem, esperam o momento oportuno de reunião 
com os outros representantes, realizada com a presença de Marcos Luidson 
de Araújo, Cacique do povo Xukuru do Ororubá e também eleito prefeito 
da cidade de Pesqueira1. Os representantes de cada aldeia expõem as situa-
ções e juntos buscam soluções para os problemas dos parentes Xukuru.
Os Xukuru têm as lideranças que representam as 
aldeias, pessoas que formam a equipe de conselhei-
ros do Cacique e lhe repassam a situação das respec-
tivas aldeias. Quaisquer que sejam os problemas 
(Justiça, Terra, Saúde, Educação) são repassados 
para o cacique que dará andamento em busca de 
solução, em um processo de luta incessante pelos 
direitos (CARVALHO, 2018, p. 87).
1 O indígena foi impedido de tomar posse em função de uma situação que o enqua-
dra como “ficha suja”, embora ele não tenha participado do crime patrimonial que 
lhe foi imputado. 
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A exposição dos problemas nas reuniões é para que todos possam 
chegar a acordos de como serão resolvidas as questões em discussão. As 
reuniões acontecem em Língua Portuguesa e os debates sobre as situações 
não pretendem expor os parentes, mas contribuir para que todos possam 
colaborar e ajudar uns aos outros em espírito de coletividade no território 
indígena Xukuru do Ororubá.
Para que os originários pudessem estar reunidos, atualmente, 
tratando de assuntos pertinentes à Educação e à Saúde, foram necessá-
rios posicionamentos e reivindicações das lideranças indígenas para o 
reconhecimento do direito ao território indígena. O que ocorreu após 
muitos conflitos violentos entre o povo Xukuru e os latifundiários 
invasores das terras indígenas. Nos dias atuais, os Xukuru da Serra do 
Ororubá podem marcar reuniões no próprio território com os paren-
tes das aldeias para resolver assuntos do interesse da etnia. Outrora, os 
indígenas trabalhavam em suas próprias terras invadidas por fazendeiros. 
As terras indígenas foram legalmente herdadas do período da missão 
religiosa, todavia, no passado, ocorreu a expulsão dos originários por 
fazendeiros moradores da cidade de Pesqueira.
“Considerando a experiência pessoal do etnógrafo em sua rela-
ção observador– informante” (CARVALHO, 2018, p. 68), recordo, 
quando morei em Cimbres, uma das aldeias no atual território Xukuru, 
ter visto muitas vezes originários passarem do trabalho exploratório nas 
terras dos fazendeiros. Os indígenas seguiam para o trabalho por volta 
das 4:00 horas da manhã e retornavam para suas casas às 17:00 horas da 
tarde. Não esqueci dessas lembranças, porque “a perda de memória é, 
portanto, uma perda de identidade” (CANDAU, 2018, p. 59).
Recordo de rostos com aparência cansada, fatigados, homens e 
mulheres magros/as ao passarem do lado da casa onde morei. Muitas 
vezes, brinquei com meus parentes, filhos/as dos/as originários/as, que 
deixavam seus/suas filhos/as para ir ao trabalho escravizado em locais 
chamados de Rebeiras, Pau Ferro 1, Pau Ferro 2, Pau Ferro 3, Tiogó, 
Passagem, entre outros locais.
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[...] Seja um trabalhador, seja ele um operário, um 
burocrata ou um pianista, não pode se conduzir, 
improvisar ou criar livremente. Ele é sujeito da 
estrutura estruturada do campo [...]. Mas, den-
tro de limites, de restrições inculcadas e aceitas, a 
sua conduta, a improvisação e criação são livres: 
conformam a estrutura estruturante do habitus 
(BOURDIEU, 2004, p. 217).
O trabalho realizado pelos originários Xukuru do Ororubá em 
suas próprias terras, invadidas pelos fazendeiros de maneira ilegal, eram 
a plantação de feijão, milho e mandioca para a preparação de farinha. A 
mínima parte de alimentos produzidos na agricultura que cabia aos indí-
genas Xukuru eram vendidos por um preço bastante inferior aos donos de 
supermercados na cidade de Pesqueira. A maior parte desses alimentos 
era destinada aos fazendeiros invasores nas terras indígenas. Os originá-
rios ficavam com uma parte mínima para alimentar sua família, assim 
como recebiam um insignificante pagamento para a próxima plantação. 
Assim, os originários, por um longo período, viveram dentro de limites e 
restrições. Mas, continuaram firmes e mobilizados por reconhecimento 
dos direitos sobre as terras invadidas. Atualmente, os etnólogos “estão 
convencidos de que as sociedades diferentes da nossa são sociedades 
humanas tanto quanto a nossa [...] e não “primitivos” autômatos (em 
todos os sentidos do termo)” (LAPLATINE, 2007, p. 81). Nesse sen-
tido, os Xukuru do Ororubá, assim como outras etnias, conquistaram 
o respeito pelas diferenças étnicas e socioculturais.
Recordo de meus pais terem alimentado muitos/as parentes no 
contexto social onde vivi junto a meus irmãos. Recordo de minha mãe, 
depois de ter ficado viúva e com a responsabilidade do sustento dos/as 
filhos/as, se desdobrar com idas e vindas para Pesqueira para fazer com-
pras para nossa venda, como era chamada na época, para comercializar 
com nossos parentes na mercearia. Lembro-me do que compravam para 
passarem o mês com sua família: feijão, farinha, fubá, café, açúcar, ovos, 
carne de charque, sabão de pedra e a conhecida bolacha seca ou doce. 
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As compras eram poucas para todo o mês. Nossos parentes pagavam a 
compra anterior e faziam outra.
Relembro de parentes terem solicitado socorro altas horas da 
noite e, com boa vontade e ligeireza, vi meu pai, algumas vezes, vestir a 
roupa e ir pegar o carro na garagem atrás de casa para socorrer e levar ao 
hospital em Pesqueira.
Nessa perspectiva, penso ser importante refletir o que escreveu 
um antropólogo:
A antropologia nunca existe em estado puro. Seria 
ingênuo, sobretudo da parte de um antropólogo, 
isolá-la de seu próprio contexto. Seria paradoxal, 
sobretudo para uma prática da qual um dos objeti-
vos é situar os comportamentos dos que ela estuda 
em uma cultura, classe social, Estado, nação, ou 
momento da história deixar de aplicar a si próprio o 
mesmo tratamento (LAPLATINE, 2004, p. 165).
Ouvi, parentes relatarem ter passado mal por conta do trabalho 
cotidiano, do dia fora de casa e da alimentação que não supria as necessi-
dades de horas, semanas e meses de labuta debaixo do sol forte, do frio, 
do cansaço e da sede. Os relatos prescritos não estão isolados do contexto 
social e histórico do qual vivi. Narro esses fragmentos porque faz parte do 
que presenciei de parentes não consanguíneos. Alguns parentes cansados 
dos trabalhos escravizados/as deixavam famílias para residirem em outros 
estados, como São Paulo, Recife. Alguns retornavam e passavam a morar 
na cidade de Pesqueira, precisamente no Bairro da Caixa D’água e Xucu-
rus, buscavam trabalhos nas fabricas de doce, como a Peixe, omitindo a 
identidade originária.
Parentes bem próximos, nascidos na atual Aldeia do Brejinho, 
trabalharam na fazenda de Joaquim Mota e depois do Sr.

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