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LÉXICO DA LÍNGUA XUKURU DE ORORUBÁ EM PESQUEIRA-PE Rosani Maciel Calado Mapeando demandas e promovendo formação docente UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – UPE Reitora: Profa. Dra. Maria do Socorro de Mendonça Cavalcanti Vice-Reitor: Prof. José Roberto de Souza Cavalcanti Conselho Editorial da Editora Universidade de Pernambuco – EDUPE Membros Internos Prof. Dr. Ademir Macedo do Nascimento Prof. Dr. André Luis da Mota Vilela Prof. Dr. Belmiro Cavalcanti do Egito Vasconcelos Prof. Dr. Carlos André Silva de Moura Profa. Dra. Danielle Christine Moura dos Santos Profa. Dra. Emilia Rahnemay Kohlman Rabbani Prof. Dr. José Jacinto dos Santos Filho Profa. Dra. Márcia Rejane Oliveira Barros Carvalho Macedo Profa. Dra. Maria Luciana de Almeida Membros Externos Profa. Dra. Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento - Universidade Tiradentes (Brasil) Profa. Dra. Gabriela Alejandra Vasquez Leyton - Universidad Andres Bello (Chile) Prof. Dr. Geovanni Gomes Cabral - Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Brasil) Profa. Dr. Gustavo Cunha de Araújo - Universidade Federal do Norte do Tocantins (Brasil) Prof. Dr. José Zanca - Investigaciones Socio Históricas Regionales (Argentina) Profa. Dra. Letícia Virginia Leidens - Universidade Federal Fluminense (Brasil) Prof. Dr. Luciano Carlos Mendes de Freitas Filho - Instituto Federal da Bahia (Brasil) Prof. Dr. Pedro Gil Frade Morouço - Instituto Politécnico de Leiria (Portugal) Prof. Dr. Rosuel Lima-Pereira - Universidade da Guiana - França Ultramarina (Guiana Francesa) Profa. Dra. Verónica Emilia Roldán - Università Niccolò Cusano (Itália) Prof. Dr. Sérgio Filipe Ribeiro Pinto - Universidade Católica Portuguesa (Portugal) Diretor Científi co e Coordenador: Prof. Dr. Carlos André Silva de Moura Secretário Executivo: Felipe Ramos da Paixão Pereira Rocha Assistente Administrativo: Renan Cortez da Costa Diagramador e designer: Eni Vieira Imagem da capa: Freepik.com.br Este livro foi submetido à avaliação do Conselho Editorial da Universidade de Pernambuco. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução deste livro, ou de seus capítulos, para fi ns comerciais. A referência às ideias e trechos deste livro deverá ser necessariamente feita com atribuição de créditos aos autores e à EDUPE. Esta obra ou os seus artigos expressam o ponto de vista dos autores e não a posição ofi cial da Editora da Universidade de Pernambuco – EDUPE Catalogação na Fonte (CIP) Núcleo de Gestão de Bibliotecas e Documentação - NBID Universidade de Pernambuco Elaborado por Claudia Henriques CRB 4/1600 Prof. Dr. Mário Ribeiro dos Santos Prof. Dr. Rodrigo Cappato de Araújo Profa. Dra. Rosangela Estevão Alves Falcão Profa. Dra. Sandra Simone Moraes de Araújo Profa. Dra. Silvânia Núbia Chagas Profa. Dra. Sinara Mônica Vitalino de Almeida Profa. Dra. Virgínia Pereira da Silva de Ávila Prof. Dr. Waldemar Brandão Neto Calado, Rosani Maciel Léxico da Língua Xukuru de Ororubá em Pesqueira-PE: mapeando demandas e promovendo formação docente / Rosani Maciel Calado. -- Recife : EDUPE, 2023. 166 p. ISBN: 978-65-85651-28-8 1. Léxico. 2. Indígenas. 3. Língua. 4. Formação de professores. I. Título. CDD: Ed. 23 -- 413.028 C1411 AGRADECIMENTOS Quero iniciar minhas primeiras palavras de gratidão a Deus que é fonte inesgotável de sabedoria e minha ancestralidade encantados/as Xukuru da Serra do Ororubá, porque essa obra foi produzida em um contexto de pandemia mundial do COVID-19, onde as emoções psicológicas e a vida estavam ameaçadas no período de um governo negacionista. Quando vi pessoas conhecidas tendo suas vidas ceifadas, sofri junto aos familiares, também vivi e senti medo da morte, mas as leituras me transportavam para a escrita deste trabalho. Agradeço aos queridos/as professores/as à minha orientadora Profa. Dra. Débora Amorim Gomes da Costa-Maciel e aos professores Dr. Jonathas de Paula Chaguri (UPE), Prof. Dr. Edson Hely Silva (UFPE), que aceitaram mergulhar no conteúdo desta obra, ainda na fase de dissertação de mestrado. Agora ganhou o formato de E-book, esses docentes voltam a colaborar nas tessituras de prefácio e apresentação deste livro. Esse trabalho é a resposta do envolvimento e da escuta de professores/as da educação básica na cidade de Pesqueira e de histórias ouvidas de meus/minhas parentes consanguíneos/as e não consanguíneos Xukuru do Ororubá. Ele é também a inquietação de uma professora que “pisa” diariamente no chão da escola e por almejar que as histórias da língua Xukuru do Ororubá façam parte do cotidiano de escolas públicas e particulares na cidade de Pesqueira/PE a partir da Lei nº 11.645/08 de 10 de março. Na capa deste E-book , embora tenha meu nome, existe uma coletividade que faz com que ele pertença, também, a minha orientadora de Mestrado Profa. Dra. Débora Amorim Gomes da Costa-Maciel, porque com a parceria dela este trabalho foi possível. Aos meus avós maternos e pais Xukuru do Ororubá, discentes e amigos/ as que me rodeiam, direta e indiretamente e ao meu povo Xukuru do Ororubá, em nome da Dona Zenilda Xukuru, que contribuiu para vali- dação do Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru, produto social que apresentaremos nesta obra, além dos parentes que cederam a sua imagem para compor o documento. Este coletivo colaborou para que eu pudesse realizar este grande sonho em minha vida acadêmica. Agradecer é um ato de humildade que nos instiga a olhar cada vez mais para nossa “incon- clusão”. Por isso, “um ser ininterruptamente em busca, naturalmente em processo.” (FREIRE, 2005, p. 84), que parafraseando Freire, quero sempre está em “processo” de construção na educação... Sou grata! Dedico esta obra a cada parente criança, adolescente, pessoa jovem, adulta, idosa e encantados/as do meu povo Xukuru da Serra do Ororubá de Pesqueira/PE, que resistiu, resiste e existe com bravura para que a sua cultura seja respeitada. LISTA DE IMAGENS Imagem 1: As Línguas Macuxi e Xukuru do Ororubá 88 Imagem 2: As Línguas Macuxi e Xukuru 89 LISTA DE QUADROS Quadro 1: Famílias do Tronco Tupi 46 Quadro 2: Línguas Tupi-Guarani 48 Quadro 3: Tronco Macro-Jê 50 Quadro 4: Palavras indígenas Xukuru do Ororubá 56 Quadro 5: Habilidades de Língua Portuguesa 57 Quadro 6: Habilidades Prioritárias da Língua Portuguesa 58 Quadro 7: Língua Xukuru do Ororubá 61 Quadro 8: Identificação docente 66 Quadro 9: Encontros virtuais – Temáticas 79 Quadro 10: Conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá 84 SUMÁRIO PREFÁCIO.............................................................................................................................10 APRESENTAÇÃO.................................................................................................................11 CAPÍTULO I APROXIMAÇÕES COM AS MEMÓRIAS DE FORMAÇÃO E A PESQUISA...................13 CAPÍTULO II BRASIL, POVOS ORIGINÁRIOS E SUAS LÍNGUAS: PANORAMA GERAL...............27 2.1 ALDEAMENTO DE CIMBRES............................................................................................................................35 CAPÍTULO III LÍNGUAS TUPI, TUPI- GUARANI, TRONCO MACRO-JÊ E AS LÍNGUAS ISOLADAS .................................................................................................................................................44 3.1 PALAVRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ..................................................................................52Pira na planta- ção de alimentos, como já mencionado neste capítulo. Com o tempo, os fazendeiros começaram a deixar de plantar alimentos nas terras e começa- ram a plantar capim para alimentação do gado, uma maneira de expulsar 42 os originários de suas terras para viverem em outros lugares. De acordo com o indígena Emanuel Alves de Freitas, No tempo dos meus pais que eram jovens e o meus avôs aí tinha as fazendas do Joaquim Mota e passou para seu Pira, genro dele que eu acho que todo mundo conheceu ele í em Pesqueira. Meus tios trabalhavam no roçado plantando milho, feijão e aí o que acontecia naquela época? Tinha traba- lho, tinha muita terra, o pessoal trabalhava, mas aí os fazendeiros começaram a plantar capim nas roças, aonde se plantava feijão, milho, fava, feijão de corda. Eles foram plantando capim e foi afas- tando o pessoal de colocar roçado, eles não deixa- vam mais. Então acabou com o futuro dos jovens. Que na época era eu, meus primos, os nossos vizi- nhos, nossos conhecidos. O que aconteceu? Todo mundo veio embora porque não tinha um futuro. Nós solteiros jovens como que a gente ia poder se casar sem ter um futuro que não podia mais trabalhar nas terras que era indígena, que era dos fazendeiros, mas antigamente era tudo indígena. E aí veio às dificuldades, a seca também, as terras todas cheia de capim e transformou em pasto pro gado e o os nossos pais ficaram velhos e nós tivemos que sair (FREITAS, 2002, n.p). Jovens como Emanuel Alves de Freitas e outros foram morar com familiares na região Sudeste do país para trabalhar em outras ati- vidades profissionais. Mas, a falta de formação os obrigava a ir parar em metalúrgicas para vender sua força de trabalho, como relatou Emanuel Alves de Freitas (2002, n.p): “Sai pra procurar um futuro como aqui em São Paulo, no Recife, outros em Belo Horizonte e assim por diante. Por isso, que lá ficou esvaziado, meio esquecido, mas sempre continuou lá a área indígena.” 43 Na contemporaneidade, os indígenas com ancestralidade estão destinados a encontros pela espiritualidade, no presente e no futuro, que os envolvem, uma vez que o homem é um ser biopsicosocioafetivo e não é alheio ao mundo que o cerca num contexto social e cultural, desse modo “[...] a verdadeira riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente da riqueza de suas relações reais” (MARX, 2004, p. 40). Muitas famílias permaneceram firmes, mobilizadas pelo territó- rio indígena Xukuru do Ororubá, de modo que as memórias, as histó- rias, a língua, o reconhecimento dos Xukuru, o sentimento de pertença, a afirmação e o direito às terras provocou conflitos com os latifundiários. Mas, mesmo diante do protagonismo do povo Xukuru do Ororubá, mui- tos familiares, parentes e conhecidos migraram para outras regiões do Brasil para preservar suas vidas e suas famílias. E da Língua Xukuru do Ororubá ficaram “palavras, em sua maioria, são as que nomeiam partes do corpo humano, animais, alimentação, objetos e situações do cotidiano” (SILVA, 2018, p. 69-70). Após situar com brevidade historicamente a realidade brasileira e, nesse contexto, o povo Xukuru do Ororubá, seguimos para discutir teoricamente a questão de algumas línguas indígenas, que se materializam como tronco para formação da Língua Xukuru do Ororubá, bem como as especificidades desta. 44 CAPÍTULO III LÍNGUAS TUPI, TUPI- GUARANI, TRONCO MACRO-JÊ E AS LÍNGUAS ISOLADAS No século XVI, pressupõe-se que existiam em torno de 1.200 a 1.500 línguas indígenas no Brasil. Devido aos ensinamentos dos padres jesuítas por todas as regiões do país, a partir da segunda metade do século, esse número foi diminuindo ao longo do tempo. Apesar disso, o Censo/ IBGE de 2010 contabilizou 274 línguas faladas no Brasil, as quais devem ser consideradas patrimônio, sejam estas faladas no cotidiano ou reco- nhecidas através de palavras para enaltecer eventos e identificar um grupo étnico. As 274 línguas originárias registradas pelo Censo IBGE/2010 correm o risco de desaparecerem se nada for feito. Então, diante dessa situação, o que podemos fazer? Acredita-se que um dos caminhos pos- síveis para se combater a perda linguística, assim como de palavras ainda existentes e não (re)conhecidas, como a do povo Xukuru, é a construção de materiais didáticos que contribuam com a propagação das línguas, como almejamos fazer com as palavras da Língua Xukuru do Ororubá, através da confecção do Dicionário Ilustrado de palavras. As línguas dos povos indígenas no Brasil estão agrupadas, formando conjuntos como: Tupi, Tupi-Guarani, Tronco Macro Jê e as “línguas iso- ladas ainda faladas no Brasil se encontre ameaçada de desaparecimento” (RODRIGUES, 1985, p. 94), não possuem parentesco com nenhuma outra língua. Todas enriquecem as expressões socioculturais do país e, na falta de uma delas, como, por exemplo, a Língua Xukuru do Ororubá, o município, o estado e o país se tornam mais pobres na cultura das línguas. As línguas do Tronco Tupi estão com distribuição geograficamente “ao sul do rio Amazonas no Brasil” (RODRIGUES, 1985, p. 42), uma vez que, nesse Tronco linguístico existem várias línguas, ou seja, compreende-se como uma família linguística através da oralidade entre os povos indígenas. Todos os momentos são registrados no meio familiar pelo afeto, não somente enquanto história de uma etnia, mas também nas vivências pessoais. 45 Uma família linguística é um grupo de línguas para as quais se formula a hipótese de que tem uma ori- gem comum, no sentido de que todas as línguas da família são manifestações, alteradas no correr do tempo, de uma só língua anterior. As línguas românicas - Português, Espanhol, Francês, Italiano constituem uma família, cujos membros derivam de uma língua ancestral bem conhecida historicamente - o Latim (RODRIGUES, 1985, p. 29). Como as chamadas línguas românicas têm origens no Latim, o mesmo ocorre com a família das línguas do tronco Tupi, próximas umas das outras e que, sobretudo, adequam-se ao contexto de comu- nicação. Sendo assim, o Tupi não é necessariamente uma língua e sim um conjunto de línguas. Como todas as demais, as línguas dos povos indí- genas do Brasil são inteiramente adequadas à plena expressão individual e social no meio físico em que tradicionalmente tem vivido esses povos. Embora diferentes, elas compartilham do que todas as quase seis mil línguas do mundo têm em comum: são manifestações da mesma capacidade de comuni- car-se pela linguagem (RODRIGUES, 1985, p. 17). O Tupi é uma coleção de línguas, por isso é importante o seu resguardo. Dependendo da situação de proteção e de investimento com políticas públicas, outros novos falantes da língua poderão surgir com a preservação das línguas originárias, mas são necessário investimentos para pesquisadores/as desenvolver pesquisas sobre as línguas originárias nos estados do Nordeste, do Brasil e do mundo. As famílias do Tupi ou tronco Tupi, como também são conheci- das, estão situadas nos limites do Brasil, visto que estão todas localizadas 46 ao Sul do rio Amazonas e ao Norte (RODRIGUES, 1985, p. 42) como observado abaixo. Quadro 1: Famílias do Tronco Tupi Línguas Nº no mapa do Cimi Estado Falantes Família Arikém Karitiána 167 RO 109 Família Jurúna 52 MT 126 Juruna (Yurúna) Família Mondé Aruá 173ª RO ? Cinta -Larga 186 MT, RO 953 Gavião (Ikõrõ, Digut) 189 RO 220 Mekém 179 RO 40 Mondé 185 RO ? Suruí (Paitér) 187 RO 340 Zoró 188 MT, RO 175 Família Mundurukú Kuruáya 61 PA 52 Mundurukú 62 PA, AM 1.460 Família Ramráma Arára (Urukú, Karo) 190 RO 92 Itogapúk (Ntogapid) 165 RO 95 Família Tuparí Makuráp 170 RO 215 Túpari 176 RO 56 Wayoró 180 RO ? Outras línguas Awetí 202 MT 36 47 Puruborá — RO ? Mawé (Sateré) 65 PA 3.000 Fonte: Rodrigues (1985, p. 46). Compreendemos no Tronco Tupi que algumas línguas são isola- das e, provavelmente, surgiram a partir de migrações territoriais de povos originários por diversas situações da época da colonização. “Nessecaso estão às línguas Aweti, no alto Xingu, e Mawé, entre o baixo Tapajós, o baixo Madeira e o Amazonas. Uma terceira língua isolada ao nível de família é o Puruborá, em Rondônia, do qual talvez ainda haja alguns falantes.” (RODRIGUES, 1985, p. 42). As línguas isoladas são um mistério e não sabemos ao certo como se configuraram ao longo da história no Brasil, uma vez que não têm parentesco com as famílias linguísticas do tronco Tupi, o que vem insti- gar ainda mais o/a pesquisador/a sobre o tema desse estudo. A “família Tupi-Guarani destaca-se entre outras famílias linguísticas da América do Sul pela notável extensão territorial sobre a qual estão distribuídas suas línguas” (RODRIGUES, 1985, p. 32), em específico, no Brasil. As línguas correspondentes ao Tupi-Guarani foram usadas no centro do continente e acreditamos em um número pequeno de fala- das “em alguns países que constituem a América do Sul, como a Argen- tina, Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa e no Brasil” (RODRIGUES, 1985, p,32), mais especificamente nos Estados de Ron- dônia, cuja capital é Porto Velho, e Mato Grosso do Sul, com a capital Campo Grande. Nesse contexto, acredita-se na adequação da linguagem no cotidiano, “porque só existe língua se houver seres humanos que a falem” (BAGNO, 1999, p. 9) e, quando isso não ocorre com as línguas indígenas, entra em processo de apagamento pela falta da oralidade, como a Língua Xukuru do Ororubá. No quadro a seguir, é possível analisar as línguas que ainda são faladas, quais os Estados e o número de falantes. 48 Quadro 2: Línguas Tupi-Guarani Línguas Nº no mapa do Cimi Estado Falantes Akwáwa Asurini do Tocantins (A. do Trocará, Akwáwa) 50 PA 131 Suruí do Tocantins (mudjetíre) 44 PA 101 Parakanã 51 PA 297 Amanayé 79 PA ? Anambé (Turiwára?) 66 PA 61 Apiaká 64 MT (65) 2 Araweté 49 PA 136 Asuriní do ‘Xingu (A. do Coatinema, Awaeté) 50b PA 53 Avá (Canoeiro) 220 GO 101 Guajá 46 MA 240 Guaraní 5 MS 7.000 Kaiwá (koyová) Mbiá (Mbua, Mbyá, Guaraní) 1 RS, SC, PR, SP, RJ, ES 2.248 Nhandéva (Txiripá, Guaraní) 4 PR, SP, MS 4.900 Kamayurá 208 MT 207 Kayabi 63 MT 620 Kokáma 123 AM (411) ? 49 Língua Geral Amazô- nica (Nheengatú, Tupí Moderno) ------ AM 3.000 Omágua (Kambéba) 126 AM (240) ? Parintintín Diahói 152 AM 13 Júma 154 AM 9 Parinrinrín (Kagwahív) 159 AM 118 Tenharín 161 AM 256 Tapirapé 271 MT 202 Tenetehára Guajajára 36 MA 6.776 Tembé 48 MA, PA 410 Uruewauwáu 169 RO 215 Urubú (Urubú-Kaapór) 47 MA 494 Wayampí (Oyampí) 45 AP 291 Xetá ----- PR 5 Fonte: Rodrigues (1985, p. 39). Existem poucos falantes das línguas originárias e, se essas línguas não forem reconhecidas a partir das leis e políticas públicas, entrarão em processo de apagamento, como a língua do povo Xukuru do Ororubá, pois ocorrerá a perda na cultura das línguas indígenas. Uma vez que as leis garantem a valorização das línguas indígenas no Brasil, o que falta são olhares sensíveis a causa, porque leis nacionais e internacionais existem. As línguas do Tronco Macro-Jê no Brasil são faladas nas regiões secas, entre os campos e cerrados. As línguas que constituem o Tronco Macro-Jê estão localizadas nos estados do Maranhão, na Região do Nor- deste, e avançam para o Estado do Pará, entre outros estados do Brasil. No 50 quadro abaixo, podem ser verificados os Estados e o número de falantes das línguas que correspondem o Tronco Macro Jê. Quadro 3: Tronco Macro-Jê Línguas Nº no mapa do Cimi Estado Falantes Família Boróro Boróro (Boróro Oriental, Orari) 199 MT 752 Umutína (Barbados) 198 MT 160 Família Botocudo Krenák, Nakrehé 12 MG, SP 70 (15?) Família Jê Akwén (Akwê) Xakriabá (Xikriabá) 16 MG (3.500)? Xavánte (A’wé) 200 MT 4.413 Xerénte (Akwé) 42 GO 850 Apinayé 40 GO 508 Kaingáng (Coroado) 2 RS, SC, PR, SP 10.426 Kayapó Gorotíra 57 PA 1.030 Kararaô 55 PA 26 Kokraimôro 56 PA 120 Kubenkrangnotí 59 PA ? Kubrenkrankêgn 58 PA 361 Menkrangnotí 60 PA ? Tapayúna (?) 213 MT 26 Xakléng (Aweikoma) 3 SC 634 51 Família Karajá Javaé 219 GO 383 Karajá 218 GO, MT 1.194 Xambioá 43 GO 102 Família Maxakalí Maxakalí 13 MG 500 Pataxó 14 BA (1.762)? Pataxó Hãhãhãe 15 BA (1.270)? Outras línguas Guató 10 MS 220 Ofayé (Ofayé-Xavánte) 7 MS 23 Rikbaktsá (Erikbaktsá, Arikpaktsá) 193 MT 466 Yatê (Fulniô, Karnijó) 26 PE 4.000 Fonte: Rodrigues (1985, p. 56). Os Fulni-ôs, habitantes de Águas Belas-PE, são a única etnia dos 14 povos indígenas de Pernambuco conhecidos em 2022, falan- tes do Yatê, a língua ancestral do Tronco Macro-Jê. Os demais povos, como: Pankará, Atikum, Kambiwá, Kapinawá, Pankararu, Pipipã, Truká, Tuxá e os Xukuru do Ororubá, os Xukuru de Cimbres tiveram as línguas apagadas, devido aos aldeamentos realizados pelas missões religiosas no período da colonização. Entretanto, embora os indígenas Fulni-ô também tenham sido aldeados, continuaram falantes da língua Yatê e “viviam separados e conservavam sua língua originária” (SILVA, 2017, p. 86), apresentando mais de três mil palavras. As línguas são importantes para a construção da identidade de um povo, mas é necessário políticas públicas de formações docentes continua- das para avançar na cultura das línguas originárias. Para Rodrigues (1985, p. 5), “as línguas indígenas constituem [...] um dos pontos para os quais os linguistas brasileiros deverão voltar a sua atenção” (RODRIGUES, 1985, p. 52 5). Por isso, pensamos na Formação Continuada junto aos/às professores/as sobre as palavras Xukuru para valorização, reconhecimento e enaltecimento a partir da revisitação da História da língua do povo Xukuru do Ororubá, que habitam na Serra do Ororubá, de acordo com a Lei nº 11.645/2008. Com os quadros 4 (quatro) e 5 (cinco), procuramos apresentar informações do estudioso Aryon Dall Igna Rodrigues sobre as línguas ori- ginárias nos anos de 1980. Mas, de acordo com o Censo do IBGE de 2010 existem mais de 274 línguas indígenas no Território brasileiro, ou seja, quase 100 (cem) línguas indígenas aumentaram em 30 (trinta) anos no Brasil. Dos anos de 1980 até 2010, passaram-se 30 (trinta) anos. O Censo do IBGE de 2010 não apontou tipos de recursos e nem inves- timentos para o estudo das línguas indígenas brasileiras. Nesse sentido, como houve o aumento das línguas indígenas faladas no Brasil? Não temos como responder no momento a essa pergunta. 3.1 PALAVRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ Com a pesquisa, foi necessário revisitar a história das palavras da Língua Xukuru do Ororubá a fim de ressaltá-las por meio da “formação de professores [...] um campo de grande complexidade, no plano [...] profis- sional” (NÓVOA, 2017, p. 12), que ocorreu de maneira “envolvente” em busca de possibilitar as mudanças no “modo de pensar, agir e interagir”, através de diálogos interativos no ensinar-aprender. A “vida é dialógica” e, por isso, é necessário reconhecer para valorizar a língua do povo originário Xukuru do Ororubá. Muitas lín- guas indígenas desapareceram e continuarão sumindo de maneira pro- gressiva se nada for feito para serem preservadas, pois acredita-se que “é a intenção comunicativa que funda o uso da língua [...]” (MARCUSCHI, 2001, p. 9) e, quando isso não ocorre com os grupos étnicos, a língua fica cada vez mais longínqua, como aconteceu com a Língua Xukuru do Oro- rubá. Nesse contexto, para que o conjunto de palavras não desapareça, busca-se explorar estratégias para o reconhecimento nas escolas públi- cas e privadas em Pesqueira. Dessa forma, a formação de professores 53 possibilitará um momento de reflexão sobre a Língua Xukuru do Oro- rubá. Sobretudo, para que seja (re)conhecida e valorizada. Está explícito na Lei nº 9.394 -LDB: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional “a educação abrange os processos formativos [...]” sobre as expressões socioculturais no Brasil. Por isso, o léxico sobrevi- vente das tentativas de apagamento da língua Xukuru do Ororubá deve fazer parte de processos formativos de professores/as em Pesqueira/PE. As inquietaçõesa partir do estudo proposto existem há algum tempo e trarão respaldo através da Formação Continuada. Daremos continuidade a esse trabalho, visto que muitos/as professores/as, atuantes na Educação Básica da rede pública e privada em Pesqueira, ainda não conhecem a língua do povo originário Xukuru do Ororubá de Pesqueira. Como a formação docente deve ser um processo contínuo, pretendemos promover mais momentos de reflexões, para formação pessoal, profissio- nal e político- pessoal dos/as docentes na Educação Básica. A formação é uma viagem aberta, uma viagem que não pode estar antecipada, é uma viagem interior, uma viagem na qual alguém se deixa influenciar a si próprio, se deixa seduzir e solicitar por quem vai ao seu encontro, e na qual a questão é esse próprio alguém, a constituição desse próprio alguém, e a prova e desestabilização e eventual transformação desse próprio alguém (LARROSA, 2017, p. 67). Com essa viagem aberta na História da Língua Xukuru do Oro- rubá, buscamos, com a Formação Continuada com os/as professores/ as, instigá-los/as a construir meios para contribuir com a propagação das palavras dessa língua indígena no cotidiano escolar, pois a Formação Continuada é uma maneira de intervir na realidade existencial (FREIRE, 1996) da história da Língua Xukuru do Ororubá. A formação de professores/as na cidade de Pesqueira será uma viagem longa, na qual teremos docentes que se reconhecerão como ori- ginários/as Xukuru do Ororubá, não pela emoção do momento e nem 54 por se deixar influenciar, mas por ser uma reflexão interior e também sobre a história originária local. Pois, de acordo com o questionário proposto aos docentes, não há relatos de ações realizadas na formação inicial e continuada acerca dessa temática. Segundo Bagno (2007, p. 12), “cada uso da língua, cada uma de suas variações e, até mesmo, cada ato individual da fala é, nesse sen- tido, um acontecimento, exatamente como aqueles outros que, por sua importância cultural, viram notícias e se tornam marcos históricos” e o conjunto de palavras da língua originária faz parte da história e das memórias do povo indígena habitante da Serra do Ororubá. As palavras da Língua Xukuru do Ororubá, pensando a formação docente, foram um diferencial apresentado aos/às professore/as como um “marco histórico”, uma vez que serão disseminadas para o (re)conheci- mento da beleza que até então estava apagada no tempo por falta de refle- xão, mas serão “notícia” no meio educacional, porque “conhecer a história da língua [...] é precioso e deve ser cultivado” (BAGNO, 2007, p. 160 – grifo do autor) no ensinar-aprender da Educação Básica em Pesqueira. As palavras fazem parte da identidade do povo Xukuru do Ororubá e existe da parte da pesquisadora “esperança de produzir o objeto [que] é tão fundamental” para dar visibilidade (FREIRE, 2021 p, 45), para o reconheci- mento e valorização da língua dos indígenas do povo da Serra do Ororubá. cada língua indígena brasileira, não só reflete, assim aspectos importantes da visão de mundo desen- volvida pelo povo que a fala, mas constitui, além disso, a única porta de acesso ao conhecimento pleno dessa visão de mundo que só nela é expressa. As múltiplas visões de mundo dos povos indígenas brasileiros - com todo o complexo cultural, social e emocional a elas associado - tem importância crí- tica para o conhecimento humano por se terem desenvolvido, durante alguns milhares de anos com total independência histórica em relação às tradições culturais (RODRIGUES, 1985, p, 27). 55 O conjunto de palavras da língua indígena Xukuru do Ororubá “reflete” “aspectos” “importantes” dos povos originários que, no passado, foram faladas. E a Formação Continuada é uma porta aberta para combater o desconhecimento da língua, associado ao ensinar-aprender. Assim, é promover mais momentos de formações de professorasses/as, para a cons- trução de um olhar reflexivo sobre as línguas indígena, porque refletem aspectos importantes das histórias, memórias e tradições culturais no Brasil. Podemos dizer que as palavras da Língua Xukuru do Ororubá serão (re)conhecidas no contexto social e educacional e, assim, não serão esquecidas, porque “hoje tanto quanto ontem, contudo possivelmente mais fundamentado hoje do que ontem, estou convencido da importância da formação permanente de [...] educadores e educadoras” (FREIRE, 2021, p. 32), bem como de todos/as aqueles/as que estão no “chão da escola”, ou seja, do porteiro ao diretor/a da instituição como: “ vigias, merendeiras, zeladoras” (FREIRE, 2021, p. 32), entre outros funcio- nários da escola, para valorização das palavras da Língua Xukuru do Ororubá no cotidiano escolar. Ainda é necessário que haja atenção à ausência de políticas públicas de formação continuada para uma educação das relações étnico raciais, que possibilitem a participação de especialistas no assunto, sobretudo convidando líderes indígenas para as escolas, como palestrantes e protagonistas das narrativas históricas sobre seu povo; orientações às professoras sobre as possibilidades de acesso a referenciais teórico- meto- dológicos coerentes com as produções acadêmicas atualizadas sobre a temática indígena; planejamento institucional vislumbrando incluir a abordagem da temática indígena como conteúdo curricular siste- mático e contínuo; subsídios didáticos adequados ao contexto local; por fim, visitas pedagógicas ao território indígena, previamente articuladas com suas lideranças (SILVA, 2018, p. 99). 56 As palavras da Língua Xukuru possivelmente são reconhecidas por muitos discentes originários das aldeias do território indígena. Sobretudo, porque existem discentes indígenas matriculados/as nas escolas na zona urbana de Pesqueira, como a escola Municipal Irmã Zélia de Nicácio, com 25 (vinte e cinco) discentes indígenas provenientes de diferentes aldeias; assim como professores/as efetivos/as e funcionários/as contratados/as originários na rede pública educacional. Por isso, faz-se necessário que todos/as que fazem parte da escola (re)conheçam, valorizem e enalteçam o conjunto de palavras Xukuru do Ororubá, como as citadas no quadro abaixo, para superação do preconceito cultural contra a língua indígena. Quadro 4: Palavras indígenas Xukuru do Ororubá Conjunto de palavras da língua Xukuru Casar Xacon Chegar Teregon Dormir Morixar Comer Ucrin Correr Ombrêra Despedir Gutimem Falar Noiem Ouvir Pingomar Viajar Ombrera motogue Fonte: Livro Xukuru filhos da Mãe Natureza (2006, p. 66). Por isso, é tão necessária a Formação Continuada, materializada como inserção social desta pesquisa, quando “supomos que essa realidade possa ser compreendida por nós como fruto de uma formação inicial e continuada [...] em um processo reflexivo” (COSTA-MACIEL, 2011, p. 18). A visão sobre os povos originários no território Xukuru do Oro- rubá poderá ser outra e, a partir da Formação Continuada, poderemos 57 estimular o reconhecimento das palavras Xukuru, pois muitos/as pro- fessores/as não(re)conhecem a história dessa língua. Mas, acreditamos que, ao revisitarem a História da Língua Xukuru, serão motivados a ações pedagógicas no ensinar-aprender com o grupo-sala. Inúmeros docentes atuantes na Educação Básica nasceram e/ou residem na cidade, trabalham em diferentes escolas e nos distritos do município de Pesqueira. Porém, desconhecem as palavras da Língua Xukuru do Ororubá. Para valorizá-las, é necessário (re)conhecê-las, por isso, a formação continuada possibilitará a formação pessoal e profissio- nal a partir da Lei nº 11.645/2008 (BRASIL, 2008), uma vez que os/as docentes serão instigados/as nas formações a construírem meios para propagar as palavras da Língua Xukuru do Ororubá na educação. A formação continuada proposta por nossa pesquisa está funda- mentada nos “Reorganizadores Curriculares” do Município de Pesqueira (PESQUEIRA, 2022) para os anos iniciais, no qual encontra-se a valorização linguística de “palavras” da LínguaXukuru do Ororubá no processo forma- tivo, visto que elas fazem parte da língua dos originários e nunca estarão fora de contexto socioeducacional e histórico, como podemos verificar abaixo. Quadro 5: Habilidades de Língua Portuguesa Fonte: Referencial Curricular de Pesqueira (2022, n.p) 58 As palavras da Língua Xukuru do Ororubá não constam em dicionários. Mas, com as formações continuadas, haverá oportunidade de conhecê-las, para que, a partir das vivências, os/as professores/as explo- rem estratégias de valorização no contexto escolar em Pesqueira. Nos Reorganizadores Curriculares (PESQUEIRA, 2022) para os anos finais, encontra-se a valorização das expressões socioculturais local, colaborando, inclusive, para consolidação das habilidades apregoadas pelo documento: Quadro 6: Habilidades Prioritárias de Língua Portuguesa Fonte: Referencial Curricular de Pesqueira (2022, n.p). De acordo com os Reorganizadores Curriculares (2022), as pala- vras da Língua Xukuru do Ororubá serão revisitadas e vivenciadas no cotidiano da educação pública através da Formação Continuada para serem (re)conhecidas, valorizadas e enaltecidas, “diminuindo, assim, os riscos de perdas linguísticas e garantindo a manutenção da rica diver- sidade linguística do país” (BRASIL, 1998, p. 121). 59 Segundo a LDB, no Art. 26-A, nos “estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história (...) indígena”, e a língua indígena Xukuru faz parte do contexto histórico em Pesqueira. Destaca-se que, por meio dos momentos formativos com os docentes, haverá a valorização. Se considerarmos a quantidade de línguas, podemos dizer que ela representa 95% das existentes no Atlas linguístico mundial. Por issoquando se reivindicam os direitos linguísticos, eles se referem a uma mino- ria de falantes, mas à maioria das línguas existentes no mundo. Trata-se assim da luta pela manutenção da diversidade linguística (FREIRE, 2017, p. 44). Nesse sentido, espera-se que, no futuro, as palavras da Língua Xukuru sejam reconhecidas e enaltecidas de maneira local e mundial, através do estudo que se pretende dar continuidade na educação pública. Acreditamos que esse movimento servirá para o surgimento de Políticas Linguísticas Públicas, a partir da Formação Continuada, uma vez que brotarão novos rizomas. Como a gente sabe que o pensamento se acumula rizomaticamente, eu acho que a gente sabe que vai cair uma chuva e uma hora os rizomas vão brotar, como vai ser isso? Eu não sei, a gente não tem con- dições humanas de prever o futuro e também não sei se eu quero [...] mas é a certeza de que coisas vão sendo feitas (GARCIA, 2012, p. 32). Que rizomas positivos para o enaltecimento das palavras Xukuru do Ororubá venham a brotar na perspectiva da formação dos/as pro- fessores/as, visto que o momento será de grande importância para as reflexões entre os/as docentes empenhados/as e participantes no presente momento (FREIRE, 1996, p. 39) na Educação em Pesqueira. 60 Com a Formação Continuada iniciada com o nosso estudo e estimulado a continuidade, esperamos que. Ultrapassaremos a esfera espontânea de apreensão da realidade, para chegarmos a uma esfera crítica na qual a realidade se dá como objeto cognoscível e no qual o homem assume uma posição epistemológica. A conscientização é neste sentido, um teste de reali- dade. Quanto mais conscientização, mais se desvela a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-la. Por esta mesma razão, a conscientização não consiste em estar frente à realidade assumindo uma posição falsamente intelectual. Esta unidade dialética constitui, de maneira permanente, o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza os homens. Por isso mesmo, a conscientização é um compromisso histórico. É também consciência his- tórica: é inserção crítica na história, implica que os homens assumam o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo (FREIRE, 1989, p. 15). A partir das formações continuadas, os/as professores/as poderão ultrapassar uma situação naturalizada para uma posição reflexiva no (re) conhecimento das palavras da Língua Xukuru do Ororubá, assim como discutí-las, promovê-las e divulgá-las na escola, através da “consciência his- tórica”, assumindo a cidadania e refletindo sobre o papel deles/as enquanto indivíduos ativos para refazer um novo “mundo” do reconhecimento e valorização das palavras Xukuru do Ororubá no cotidiano escolar. A formação não se constrói por acumulação de cursos, de conhecimento ou de técnicas, mas assim através de um trabalho de reflexibilidade crítica [...] e de (re) construção permanente de uma identi- dade pessoal. A formação vai e vem, avança e recua, 61 construindo-se num processo de relações ao saber e ao conhecimento (NÓVOA, 1992, p. 13). Com o conhecimento a ser vivenciado, os/as professores/as fomen- tarão outros por meio das relações sociais que ocorrerão entre as interações de experiências sobre as palavras da Língua Xukuru do Ororubá, na qual os sujeitos aprendem uns com os outros em processos contínuos por vivên- cias, flexibilização, reconstrução e aquisição com a formação continuada. Entre o dito e o não dito, a conclusão é óbvia: a formação de professores será sempre importante para qualquer mudança educacional, sobretudo para a melhoria da qualidade do ensino. E pensar a qualidade da educação no contexto da formação de professores significa colocar-se a disposição da cons- trução de um projeto de educação cidadã que propi- cia condições para a formação de sujeitos históricos capazes de, conscientemente, produzir e transformar sua existência (CARVALHO, 2007, p. 6). Alguns estudos já foram realizados sobre o povo Xukuru do Ororubá, como dissertações, teses, artigos, entre outros, porém não temos conhecimento sobre a confecção de Dicionário Ilustrado das palavras da língua dos povos originários da Serra do Ororubá. Por isso, aspiramos ao momento de reconhecimento das palavras que fazem parte da Língua Xukuru do Ororubá, através da continuidade de Formação Continuada e do dicionário nas escolas. Pois, “será importante para qual- quer mudança” de valorização sociocultural no cotidiano escolar. Quadro 7: Língua Xukuru do Ororubá Conjunto de palavras Xukuru Bom dia Bremen Boa tarde Elareném 62 Boa noite Tataramém De manha Imbemer De noite Tataramen Fonte: Livro Xukuru filhos da Mãe Natureza (2006). Nas Formações Continuadas, os/as professores/as tiveram a oportunidade de vivenciar uma situação até então desconhecida e muitos serão provocados/as a “inquietação, um conjunto de perguntas, indagações ou silêncios” (FREIRE, 2013, p. 359-360) sobre a História das palavras da Língua Xukuru do povo da Serra do Ororubá. A imagem abaixo corresponde a XVII Assembleia do povo Xukuru do Ororubá, realizada em 2017, no espaço Mandaru no ter- ritório indígena. Chamamos a atenção para as duas palavras da língua originária utilizadas na faixa de pano: limolaigo e toipe, as quais enri- quecem as expressões socioculturais da etnia habitante na Serra do Oro- rubá e que, por isso, devem ser reconhecidas no contexto educacional do município de Pesqueira, através de formação continuada, já que no passado foi à língua da etnia Xukuru do Ororubá. A XVII Assembleia do povo originário Xukuru do Ororubá, em 2017, teve o tema “limolaigo toipe: nenhum direito a menos: a nossa luta não para” e, como o próprio título chamou a atenção dos direitos a serem garantidos, um deles deve ser o reconhecimento do conjunto de pala- vras da Língua Xukuru, mesmo que esta tenha sido apagada. De acordo com a Lei nº 11.645, de 10 março de 2008, que alterou a Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases, são garantidos os direitos de (re)conhecimento e valorização através da revisitação da história da língua do povo Xukuru do Ororubá, não somente a “História e Cultura Afro-Brasileira”,mas também as culturas dos povos Indígena, como a Língua Xukuru do Ororubá, através da Formação Continuada e de novas reflexões no contexto socioeducacional em Pesqueira pelos professores(as). Sendo assim, com esse estudo, aspiramos enaltecer o tema dessa pesquisa através de encontros com professores/as da educação pública, 63 porque “nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo.” (FREIRE, 1996, p. 31) para mudar a situação até então desconhecida da Língua Xukuru do Ororubá, fazendo com que todos/as venham (re) conhecer a língua na educação pública e particular em Pesqueira. Nesse sentido, acreditamos que a formação continuada a ser promovida na cidade de Pesqueira possibilitará o (re)conhecimento das palavras da Língua Xukuru do Ororubá, uma vez que ela faz parte da identidade do povo originário, habitantes na Serra do Ororubá. Devendo ser valorizada e enaltecida no contexto educacional de Pesqueira e quem sabe do Estado, do Brasil e até mesmo a nível mundial, para “consolidar a identidade de um grupo e promover a autoestima de seus membros e, por outro, o propósito de desenvolver solidariedade entre os diferentes” (MOREIRA; MACEDO, 2002, p. 21), através da Formação Continuada na Educação Básica. Essa pesquisa, versando sobre palavras da Língua Xukuru do Ororubá, convida cada um(a) a (re)conhecer a língua originária do povo indígena que habita nos municípios de Pesqueira e Poção e também na região circunvizinha, a partir da Formação Continuada na Educação Básica, porque “acredito que a presente proposta oferece bastante con- sistência do ponto de vista da linguística histórica e que poderá revelar- -se útil como um modelo de desmembramento histórico das línguas” (RODRIGUES, 1985, p. 33) e de maneira especial a história da língua dos Xukuru do Ororubá de Pesqueira e Poção/PE. O estudo que realizamos com a formação docente para vivência da identidade étnica do povo Xukuru do Ororubá no cotidiano escolar trará enriquecimentos para os/as professores/as da educação pública e particular da cidade de Pesqueira, pois “pesquiso para constatar, consta- tando, intervenho, intervindo educo [...]. Pesquiso para [...] comunicar e anunciar a novidade.” (FREIRE, 1996, p. 32), uma vez que a ciência se fundamenta em pesquisas para dar resultados satisfatórios à sociedade, como o (re)conhecimento e valorização do tema desta pesquisa na cidade de Pesqueira através da formação continuada. 64 Olhando para a fundamentação teórica, base que alimentou a aná- lise dos nossos dados, seguimos para a seção em que triangulamos - teoria, dados, olhar de pesquisadora- com vistas a cumprir os objetivos desta obra. 65 CAPÍTULO IV “DA ESCUTA À AÇÃO” OLHARES SOBRE O QUE DIZEM OS/AS DOCENTES Vejamos a seguir a análise dos dados e o relato da aplicação da experiência da inserção social da pesquisa, que foi orientada pelos obje- tivos deste trabalho, que se comprometeu em sondar as demandas for- mativas e intervir com formação continuada (FC) junto a professores/ as atuantes nas redes públicas e privadas de ensino em Pesqueira- PE, de maneira geral. E de forma específica, pesquisar as demandas formativas para o trato com o léxico da Língua Xukuru do Ororubá no contexto escolar; bem como, promover formação continuada para docentes de escolas públicas e privadas, voltada ao trato com palavras do léxico da Lín- gua Xukuru do Ororubá. Este é um movimento que se compromete em aproximar, cada vez mais, os/as docentes às dimensões da identidade do povo Xukuru, a partir de reflexões sobre palavras em uso pela população indígena, que habita os municípios pernambucanos de Pesqueira e Poção. 4.1 CONHECIMENTO, PELOS/AS DOCENTES, DAS EXPRESSÕES SOCIOCULTURAIS XUKURU DO ORORUBÁ Observamos que 33 (trinta e três) dos/as 34 (trinta e quatro) pro- fessores/as que responderam a questionário registraram no questionário que não tiveram contato direto com as temáticas relacionadas às expressões socioculturais Xukuru do Ororubá, ao longo da Educação Básica, ou seja, no Ensino Fundamental e Médio. Apenas 5 (cinco) docentes indicaram que tiveram acesso a informações no Ensino Superior, no contexto da formação para docência (Magistério/Normal Médio/Faculdade). O desconhecimento por parte dos/as 33 (trinta e três) docentes em relação à cultura do povo Xukuru do Ororubá nos moveu a pes- quisar os municípios de origem e residência desses/as docentes, o que poderia justificar, por exemplo, a falta de contato com as dimensões 66 das expressões socioculturais do citado povo indígena, por não terem residência no município de Pesqueira. Quadro 8: Identificação docente Cidade/Naturalidade Quantidade de participantes Residência Pesqueira/PE 07 Pesqueira Belo Jardim/PE 01 Pesqueira Sanharó/PE 07 Pesqueira Pesqueira/PE 13 Pesqueira São Paulo/SP 01 Pesqueira Pesqueira/PE 04 Pesqueira Fonte: A autora (2022). Ao observar o quadro, verificamos, a partir das respostas dos/as 34 (trinta e quatro) participantes, que alguns/as professores/as são naturais de Pesqueira e/ou cidades próximas, como: Belo Jardim e Sanharó, mas residindo em Pesqueira. Em sua maior parte, residem há mais de 30 (trinta) anos em Pesqueira. Evidenciando, dentre outras questões, a dívida das políticas públicas para a formação, desde a Educação Básica, de cidadãos e cidadãs que reconheçam e valorizem as expressões socioculturais locais. A cidade de Pesqueira contabilizava, em 2010, a 8ª maior popula- ção indígena em números absolutos em área urbana do Brasil, correspon- dendo a 4.048 indígenas (IBGE, 2010). Saber da existência de docentes que habitam há mais de três décadas na região e que afirmam não terem tido acesso, na formação (inicial ou continuada) para o serviço docente, à informações sobre os indígenas é revelador da opressão e da tentativa de apagamento da história do povo Xukuru do Ororubá na cidade onde os/as professores/as e indígenas residem. O “desconhecimento” revelado com os dados contribui para que percebamos, dentre outras questões, que os estereótipos sobre as expressões socioculturais Xukuru do Ororubá poderiam ser evitados ao 67 longo das gerações e, quem sabe, já superados na sociedade do tempo presente. Ao contrário, vemos, há mais de quatro séculos, as tentativas de apagamento dos elementos dessa cultura, como fizeram com a língua do povo na atualidade, que hoje usam alguns léxicos do repertório da língua originária, que resistiram as inúmeras tentativas de extinção. Devemos lembrar que a formação dos/as professores/as partici- pantes dessa etapa de nossa pesquisa foi anterior a Lei nº 11.645/2008, modificando o artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, em que normatiza o necessário ensino de his- tória da cultura do povo indígena na Educação Básica. Acreditamos que a legislação não seja garantia do ensino da temática em sala de aula, se não vier acompanhada de outras políticas públicas que viabilizem a consolidação de práticas que não ecoem um discurso limitador diante das expressões socioculturais que foram pormenorizadas ao longo dos anos. A Lei, portanto, assegura um direito, mas exige ações como as que nos propomos nesta obra. Na direção da garantia de direitos, a pesquisa que ora apresen- tamos, ao tratar dos léxicos da Língua Xukuru do Ororubá, alcança os costumes, as histórias, as memórias e as transformações vivenciadas pelos indígenas, e se apresenta como um espaço de resgate da língua. Esse movi- mento está em sintonia com a afirmação de Bonin (2010, p. 04), para quem “quando identificamos [...] estamos nos ocupando de nossa própria identidade e confirmando as certezas que construímos”. A citada autora, porém, alerta para os aspectos que maquiam a “pedagogia da diversidade”. Sob esse prisma, ao serem incluídos como temática escolar, os povos indígenas são transportados para dentro de práticas pedagógicas, de currículos, de calendários,de datas comemorati- vas, de políticas de ações afirmativas. Contudo, essa inserção é carregada de “uma série de mecanismos utilizados para ordenar, conformar, estabe- lecer quais posições estes outros deverão ocupar” (BONIN, 2010, p. 04). O discurso da autora se firma no que Skliar (2003, p. 198) denuncia, a respeito dessa inclusão excludente 68 São autorizados, respeitados, aceitos e tolerados apenas uns poucos fragmentos da alma... o outro desse projeto educativo é peça no jogo do mesmo. “(...) É a pedagogia das supostas diferenças, em meio a nossa indiferença, a produção de uma diversidade que nota apenas a si mesma, entende apenas si, sente apenas a partir de si mesma (SKLIAR, 2003, p. 198). Bonin (2010) e Skliar (2003) ergueram falas denunciadoras de uma situação que precisa ser superada e foi nessa perspectiva que movemos nossos esforços em busca de contribuir através desta obra. O cenário reafirma a relevância de nossa pesquisa, que se comprome- teu, a partir de um olhar extensionista, a ofertar formação continuada para os/as docentes, a fim de contribuir com a superação das lacunas existentes e se prestar, enquanto pesquisa realizada na pós-graduação brasileira, como parte do papel da Universidade Pública, cujo compro- misso, dentre tantas outras dimensões, está na valorização dos saberes dos diferentes povos e expressões socioculturais. Além de questionarmos aos/as participantes desta pesquisa se eles/elas haviam recebido formação para o trato com as expressões socioculturais Xukuru do Ororubá, buscamos compreender se esses/ as docentes se reconheciam enquanto indígenas ou não- indígenas e se reconheciam a língua desse povo, uma vez que a ausência na formação poderia ser, de alguma forma, “superada” pelo reconhecimento docente a respeito das origens e das línguas indígenas. Nessa direção, discutiremos, a seguir, uma segunda categoria. 4.2 RECONHECIMENTO/PERTENCIMENTO DAS ORIGENS E DA LÍNGUA INDÍGENA Vejamos como se comportaram os/as docentes frente ao seguinte questionamento: “Os povos indígenas Xukuru do Ororubá habitam nos municípios de Pesqueira e Poção. Você enquanto morador/a da região se identifica como: indígena ou não indígena? 69 Das 34 (trinta e quatro) respostas ao questionário, 22 (vinte e duas) não se identificaram como Xukuru do Ororubá, 12 (doze) assu- miram essa origem. Pesqueira é um município, com aproximadamente 67.735 (sessenta e sete mil setecentos e trinta e cinco) habitantes, segundo o Censo IBGE/2010, e existem muitos parentescos entre as pessoas da cidade. Mas, como vimos, a maioria dos/as docentes não se identifica como Xukuru do Ororubá. Portanto, não há um sentimento de perten- cimento a essa cultura indígena. No bojo destas respostas, existem professores/as do território que residem na zona urbana de Pesqueira, há décadas, que conhecem os Xukuru do Ororubá, que sobem a Serra do Ororubá para participar do Toré e das assembleias anuais, mas que, mesmo assim, não se iden- tificam como indígenas. Seguimos com os questionamentos e buscamos saber se os/as professores/as identificavam a língua dos originários na Serra do Oro- rubá. Nessa direção, perguntamos: “Você identifica a língua dos povos indígenas Xukuru do Ororubá de Pesqueira/PE como Língua Tupi, Yatê, Xavante, Xukuru do Ororubá? Dentre as respostas, 3 (três) dos/as 34 (trinta e quatro) docentes identificam a língua do povo Xukuru do Ororubá como sendo Tupi; 01 (um) como Xavante e 29 (vinte e nove) como Língua Xukuru do Oro- rubá. Embora a maioria reconheça de forma correta a língua do povo em questão, observar docentes residindo na cidade há mais de 30 (trinta) anos sem saber identificar, parece revelador de demandas. Algumas inquieta- ções podem ser feitas: afinal, esses docentes não lecionavam a alunos/as indígenas? No calendário escolar, quando a escola, de forma equivocada, faz alusão ao “dia do índio”, qual povo e língua são retratados? São ques- tões que não são temas de nossa pesquisa, mas que podem ser respondidas, possibilitando novos estudos. Cabe destacar aqui que o “Dia 19 de abril” foi criado para dis- cussões sobre os direitos dos povos indígenas e que surgido a partir da rea- lização do Congresso Indigenista no México em 1940, quando estiveram presentes etnias de vários países, sendo instituído no Brasil por meio do 70 Decreto nº 5.540, de 2 de junho de 1943, pelo presidente Getúlio Vargas. A referida data, durante décadas, foi remetida a um passado distante dos originários da contemporaneidade. Ela representou os indígenas em uma moldura e os que nela não se encaixavam não eram indígenas. Muitos livros didáticos adotados em algumas escolas emolduraram os povos indígenas ao período da colonização. Durante décadas, não foram provocadas reflexões nas escolas públicas e privadas que efetivamente valorizassem a cultura dos povos indígenas. A folclorização foi a tônica do processo. Porém, após muita luta, a Lei nº 14.402, de 8 de julho de 2022, foi apresentada pela indígena Joenia Wapichana, primeira mulher na história da política brasileira eleita como deputada federal do país no estado de Roraima em 2018. É “importante frisar que a contribuição é ofertada pela coletividade e não pelo indivíduo isolado como remete a ideia do termo ‘índio’”. Segundo ela, a inten- ção ao renomear a data é ressaltar, de forma simbó- lica, não o valor do indivíduo estigmatizado “índio”, mas o valor dos povos indígenas para a sociedade brasileira. “O propósito é reconhecer o direito desses povos de, mantendo e fortalecendo suas identidades, línguas.[…]” (WAPICHANA, 2021). Acesso em: 08 jan. 2021, on line). Na proposta de lei, recentemente aprovada pela Comissão de Cons- tituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, a referida data passou a ser instituída como o “Dia dos Povos Indígenas”, que representa, dentre outras questões, um olhar plural sobre a diversidade de povos indígenas no Brasil e promove a “[...] liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura [...]. A favor da luta contra qualquer forma de discriminação” (FREIRE, 1996, p. 115). 71 Com o retorno do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vencedor das eleições de 2022, acreditamos que o projeto de lei será sancionado, para se pensar em políticas públicas em nível nacional e, até mesmo, internacional. Esperamos que esse processo de afirmação e consolidação atinja as formações docentes e a presença nas escolas, para garantir a preservação das línguas indígenas, de modo que elas não desapareçam, mas sejam conhecidas pelas gerações futuras. A promoção de formações docentes sobre a Língua Xukuru do Ororubá não pode ser mais retardada, e nos colocamos na defesa das demais línguas dos povos indígenas em Pernambuco, na região Nordeste, no Brasil e também a nível internacional, como foi instituída a Lei nº 11.645/2008. Desejamos, a partir desta obra, dar as mãos aos nossos parentes e juntos, através da coletividade, realizar ações para efetivar a referida legislação e o “Dia dos Povos Indígenas.” Na busca de aprofundar o conhecimento dos/as docentes sobre a língua do povo Xukuru do Ororubá, perguntamos se eles/as conhe- ciam alguns léxicos (chamamos de palavras para ser mais acessível aos/ às professores/as) da língua ou alguém que as falasse. Das 34 (trinta e quatro) pessoas que participaram da pesquisa, 29 (vinte e nove) afirmaram não conhecer palavras da Língua Xukuru do Ororubá e 05 (cinco) afirmaram que conheciam. Em comparação a questão anterior, vemos que reconhecer a língua de pertencimento de um povo, não implica em conhecê-la, embora se viva em um contexto de presença desse povo como população nativa. 20 (vinte) desses/as participantes afirmaram conhecer alguém que fala palavras da Língua Xukuru do Ororubá, no entando, os/as demais não conhecem. Diantedesse cenário, uma questão nos incomoda: certamente ao longo dos anos, os/as professores/as participantes lecionaram para estudantes Xukuru, mas indicam que não conhecem pessoas que falem o vocabulário da língua originária. Afinal, mantém-se o apagamento da língua? Os/as discentes não se identificam ou não sabem falar alguma palavra? São questões que não podem ser respondidas pela nossa pes- quisa, mas abre portas para outros estudos. 72 Em síntese, as informações possibilitaram compreender que o conjunto lexical da Língua Xukuru do Ororubá não faz parte do con- texto das escolas públicas e privadas de Pesqueira, sobretudo, as palavras que se inserem no dia a dia das escolas, pois são parte das expressões socioculturais do citado povo indígena. O léxico do povo originário Xukuru representa a identidade da etnia e por ser parte da cultura indígena em uso pela comunidade nos eventos do território, podemos dizer que a língua Xukuru do Ororubá faz parte da herança linguística e cultural sendo percebido por meio de escritas em bannes e cards. O vocabulário da Língua Xukuru do Ororubá representa a nossa herança linguística. Ela carrega a história e a cultura dos ancestrais indí- genas que habitam em Xukuru de Pesqueira. Então, por fazer parte da história, está acobertada pela Lei 11.645/2008, que normatiza a valoriza- ção dos povos originários. O Brasil é signatário de alguns documentos, tais como a “assinatura de acordos, decretos e convenções internacionais.” (SILVA; SILVA, 2021, p. 5) para que as expressões socioculturais dos povos indígenas, a exemplo dos Xukuru do Ororubá, também sejam vivenciadas no cotidiano das escolas. Dentre o conjunto de documentos internacionais, acordos que o Brasil assinou com outros países, está a Declaração da Organização das Nações Unidas – ONU, que em seu artigo 15, aprovou no ano 2007 os Direitos dos Povos Indígenas: 1. Os povos indígenas têm direito a que a dignidade e a diversidade de suas culturas, tradições, histórias e aspirações sejam devidamente refletidas na educação pública e nos meios de informação públicos. 2. Os estados adotarão medidas eficazes, em consulta e cooperação com os povos indígenas interessados, para combater o preconceito e eliminar a discrimi- nação, e para promover a tolerância, a compreensão e as boas relações entre os povos indígenas e todos os demais setores da sociedade (ONU, 2007, p. 10-11). 73 A União, os Estados e os Municípios brasileiros, portanto, são promotores da boa convivência, a partir da tolerância e da compreensão entre não indígenas e povos originários, sobretudo, com a colaboração e participação destes últimos na construção de políticas que lhes dizem respeito para valorização da história e cultura indígena dos Xukuru, entre outros povos, na educação. Não podemos esquecer que essa falta de conhecimento de pala- vras originárias da língua indígena representa a manutenção dos efeitos da Lei Pombalina, que no século XVIII proibiu a oralidade dos povos originários. Essa lei provocou, dentre outras ações persecutórias, perse- guições por parte de fazendeiros aos indígenas, que para fugir de violên- cias e até mesmo da morte, silenciaram a língua como os Xukuru do Ororubá. Contudo, algumas palavras resistem. Na atualidade, podemos encontrar “alguns itens lexicais na abertura de eventos e em seus rituais.” (CARVALHO, 2018, p. 133) e nas assembleias na Serra do Ororubá, por exemplo. Para Carvalho (2018, p. 118), Os Xukuru, assim como a larga maioria dos gru- pos indígenas que imemorialmente viviam na costa leste e faixa paralela ao litoral, perderam sua língua ancestral por meio de trocas linguísticas interét- nicas, em que a Língua Portuguesa não somente passara a ser a língua de prestígio como também a língua imposta (CARVALHO, 2018, p. 118). Mas, nunca é tarde para revitalizar uma língua a partir de buscas pujantes de documentos. A revitalização da Língua Xukuru do Oro- rubá será possível, no entanto, exigirá investimento por parte do poder público, no sentido de financiar pesquisadores/as e pesquisas para esse resgate lexical e linguístico. Movimento que, de forma muito preliminar, foi iniciado por nossa pesquisa. Além disso, é necessário que as escolas possam ter acesso a esses estudos. Para tanto, recursos didáticos devem ser pensados no sentido de tornar acessíveis aos/às docentes e professores/as. 74 É nessa direção que apresentaremos, nas próximas seções de nosso trabalho, o Dicionário Ilustrado, que retoma, de forma lúdica, um conjunto de palavras do léxico da Língua Xukuru do Ororubá, que estará disponibi- lizado para todas as escolas públicas e privadas do município de Pesqueira, de forma física, e para todo o mundo, pelas redes virtuais de computadores. Para finalizar a escuta das vozes docentes, seguimos para a última categoria, que buscou discutir a prática docente. 4.3 PRÁTICA DOCENTE E DEMANDAS PARA ENSINO DE PALA- VRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ Com vistas a entender se havia ocorrido algumas demandas na prática docente para o ensino da língua Xukuru, em face de Pesqueira ser uma cidade habitada por um percentual considerável de indígenas do povo Xukuru do Ororubá, perguntamos aos/às participantes se, em algum momento de sua ação como professor/a, ele/a sentiu necessidade de realizar atividades com a Língua do povo indígena Xukuru do Ororubá? Entre as respostas, 15 (quinze) dos/as 34 (trinta e quatro) partici- pantes sinalizaram que discutiram com seus/suas alunos/as questões rela- cionadas ao conjunto de palavras da língua do povo Xukuru do Ororubá. Os demais, 18 (dezoito) docentes, afirmaram que nunca havia tratado dessa questão. Não sabemos dizer, pelas limitações do instrumento de pesquisa, se a ausência do trabalho docente está atrelada especificamente a língua indígena, conforme pergunta a questão, ou a outras dimensões das expressões socioculturais do povo indígena. Acreditamos que, quando falamos da língua originária, estamos nos referindo às histórias, às memórias, à organização, à arte e à cosmo- logia. Entendemos a diversidade linguística e sociocultural como uma riqueza que precisa ser conhecida, documentada, preservada e valorizada, a partir da revisitação da história da língua do povo indígena Xukuru do Ororubá. Quando perdemos uma língua originária, com a mesma se vai os conhecimentos incorporados a uma tradição, inclusive os aspectos socioculturais socializados de uma geração para outra de maneira oral. 75 Precisamos (re)conhecer que para qualquer povo indígena, seja os Xukuru da Serra do Ororubá, assim como os numerosos povos ori- ginários no Brasil, as línguas representam um elemento vital. A morte de uma língua indígena é uma perda irrecuperável, porque com o apaga- mento perde-se muito das expressões socioculturais indígenas. Por isso, é necessária a valorização e a preservação do conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá como um direito, não apenas do povo indígena Xukuru, mas da população que convive com essa cultura. Portanto, defendemos nesta obra o reconhecimento, a defesa e a introdução de palavras dessa língua, assim como os demais aspectos das expressões socioculturais, no cotidiano das escolas públicas e privadas da Educação Básica, a partir da prática pedagógica dos/as docentes, em parceria com o povo originário que habita a região de Pesqueira. Acreditamos que os/as 18 (dezoito) professores/as que não sentiram necessidade de realizar atividades sobre a Língua Xukuru do Ororubá, com seu grupo sala, têm motivações de diversas ordens, dentre as quais a falta de formação. Provavelmente, no processo formativo lhes faltou reflexão sistemática e compromissada com as expressões sociocul- turais indígenas local, do estado e do país. Essa formação, por exemplo, deve ocorrer como afirma Libâneo (2002), com a [...] necessidade da reflexão sobre a prática a partir da apropriação de teorias como marco para as melhorias das práticas de ensino em que o professor é ajudadoa compreender o seu próprio pensamento e a refletir de modo crítico sobre sua prática e, também, a aprimo- rar seu modo de agir, seu saber-fazer, internalizando também novos instrumentos. A [...] consideração dos contextos sociais, políticos e institucionais na configu- ração das práticas escolares (LIBÂNEO, 2002, p. 70). Acreditamos que as limitações dos documentos orientadores do currículo vigente, tais como a Base Nacional Comum Curricular (2018), 76 não proporcionam aos/às professores/as condições para uma atuação de criticidade na busca de reflexões sobre a história dos povos originários, a exemplo do povo Xukuru do Ororubá. A carência de pesquisas sobre a temática indígena por desdobramento, contribui para o certo silencia- mento do poder público para investir na formação docente. Não se pode refutar que o problema está na forma- ção inicial, mas não somente e, tão pouco no sen- tido que é dado. A fragilidade da educação perpassa dimensões históricas, sociais e culturais. Para avançar neste debate, se faz necessário considerar, primei- ramente, o projeto de formação de professores no Brasil, além claro, das condições materiais do traba- lho docente. Nessa direção, destaca-se a relevância deste estudo para (re)pensar o processo formativo docente, especialmente, as políticas de formação de professores que norteiam os cursos de formação ini- cial e continuada (OLIVEIRA, 2021, p. 15). A ausência de demandas para tratar da Língua Xukuru do Oro- rubá em sala de aula, registrada pelos/as participantes de nossa pesquisa, realça a importância da formação docente sobre a temática indígena a partir da Lei nº 11.645/2008, com vistas a superação de dificuldades advindas da formação inicial e do aprimoramento dessa prática. Além disso, ressalta a importância da elaboração de propostas de atividades baseadas na perspectiva da práxis criadora e não mimética, na Educa- ção Básica da rede pública e privada. Uma vez que a prática docente “[...] requer o questionamento permanente, [...] quer da ação prática, [...] quer do conhecimento declarativo previamente adquirido, quer da experiência anterior” (ROLDÃO, 2007, p. 101). Não podemos desprezar o número de docentes que se dedicaram a realizar atividades sobre a língua do povo indígena Xukuru do Ororubá, evidenciando, possivelmente, o desejo de contribuir com o ensino e a apren- dizagem, através da criticidade com vistas a entender o passado com olhares 77 para o presente sobre o protagonismo dos Xukuru do Ororubá. Contudo, devido à limitação do instrumento de coleta, questionário online, não pode- mos esmiuçar essas práticas nem afirmar que elas estão em sintonia com atividades que contribuem com a história e a memória do povo indígena citado, já que não sabemos se não se limitam as datas oficiais do calendário escolar, reforçando os preconceitos e a discriminação da população retratada. Destacamos a necessidade de, em outras pesquisas, conhecer qua- litativamente a prática docente. Se, por exemplo, as discussões dos/as pro- fessores/as sobre a língua/ expressões socioculturais originárias envolveu a população indígena que domina o conjunto de palavras da língua nativa. Não podemos esquecer que o exercício da docência ocorre com interações humanas, ou seja, a profissão não acontece de maneira isolada, fria, despre- tensiosa sobre e com outrem. A interação é característica do relacionamento humano entre docentes e discentes e de acordo com Tardif (2014, p. 49-50) A atividade docente não é exercida sobre um objeto, sobre um fenômeno a ser conhecido ou uma obra a ser produzida. Ela é realizada concre- tamente numa rede de interações com outras pes- soas, num contexto onde o elemento humano é determinante e dominante e onde estão presentes símbolos, valores, sentimentos, atitudes, que são passíveis de interpretação e decisão, interpretação e decisão, que possuem, geralmente, um caráter de urgência (TARDIF, 2014, p. 49- 50). A interação docente com a população indígena Xukuru do Ororubá, a partir do trabalho em sala de aula, pode contribuir com a atuação dos/as professores/as como agentes propagadores/as de valores das expressões socioculturais do povo indígena que habita a maioria da Serra do Ororubá. Uma ação comprometida com os pilares da educação: “aprender a aprender; aprender a fazer; aprender a conviver e aprender a ser” (TROQUEZ; SILVA; MILITÃO, 2022, p. 18) e com a construção do conhecimento, da identidade, do sentimento de pertencimento e de 78 valorização da cultura das mais de 4.000 (quatro mil) famílias indígenas que habitam na cidade de Pesqueira. Mas, para isso, é necessário estabelecer como política pública as formações docentes sobre a temática indígena na Educação Básica, “de forma que os docentes reconheçam que podem promover mudanças” (GIROUX, 1997, p. 163) ao compreender que teoria e prática se relacio- nam no ensino e aprendizagem, ou seja, “o que fazer é teoria e prática. É reflexão e ação.” (FREIRE, 2003, p. 121). O avanço de políticas que propiciam a formação do professor [...] do magistério [...] com base nessa premissa emergem os seguintes questionamentos: Que projetos de formação temos hoje no Brasil? Pensando na diversidade de oferta de cursos de formação inicial, em que condições formativas os sujeitos se constituem professores? (TROQUEZ; SILVA; MILITÃO, 2022, p. 13). Em tempos recentes, quando tivemos a atuação de um governo fascista, de extrema direita, não contamos com políticas nacionais para formação de professores/as. Contudo, existem esperanças após as elei- ções do novo governo. E este estará disponível, para contribuir na pro- posição de políticas públicas de formação docente de maneira macro, não somente na cidade em Pesqueira, mas em todo país nas discussões referentes aos povos indígenas. Como contribuição para a formação docente, realizamos uma ação de formação continuada, detalhada abaixo como um relato de expe- riência, vivenciado junto a docentes da Educação Básica que atuam na cidade de Pesqueira e a professores/as da cidade de Carpina também participaram na ocasião. Após essa seção inicial de análise que orientou as ações para for- mação continuada, vejamos, a seguir, o relato de nossa experiência inicial, que não se esgota no contexto deste e-book, mas que anuncia a necessidade de prosseguirmos em busca da garantia do direito dos povos originários. 79 4.4 FORMAÇÃO DOCENTE: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA O presente relato trata de uma das ações atreladas a pesquisa que ora apresentamos e foi realizada no âmbito do mestrado Profissional em Educação PPGE-UPE, Campus Mata Norte. A ação teve como objetivo promover formação continuada, junto a docentes que atuam nas redes de ensino de Pesqueira, para interagir com palavras do léxico indígena Xukuru do Ororubá. A proposta se aportou na Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da temática dos povos indígenas na Educação Básica. A lei 10.639 de 2003 incluiu nos currículos a temá- tica africana, em que modificou a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para auxiliar no trabalho pedagógico da educação, embasada na valorização da cultura indígena. Além disso, buscamos criar estratégias para ampliar os conhe- cimentos docentes sobre palavras do povo originário Xukuru do Oro- rubá e, por fim, elaboramos e divulgamos um Dicionário Ilustrado de palavras do léxico da Língua do citado povo, para o trabalho pedagógico da Educação Básica. Somando, assim, esforços em busca de ocupar espaço no cotidiano escolar, a partir do currículo vivido e prescrito, com vistas a superar estereótipos e preconceitos em relação aos povos indígenas. Os encontros virtuais, via Google Meet, foram organizados em 3 (três) encontros: Quadro 9 - Encontros virtuais - Temáticas Encontros Temática 1º Reflexões sobre a Lei nº 11.645/2008 2º Vocabulário da língua Xucuru do Ororubá na escola: estratégias possíveis 3º Culminância (apresentação de trabalhos) Fonte: Autora (2023). A vivênciajunto aos/às professores/as envolveu: a escolha do card de divulgação, confeccionado de forma gratuita no aplicativo Canva; 80 geração de link para inscrição; envio do card em grupos de WhatsApp de docentes; leitura de textos; debate; relato de experiência; produção textual com contribuições para a construção do Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru do Ororubá. O primeiro passo foi a elaboração de um texto no Google Forms, direcionado aos/às professores/as atuantes nos anos iniciais da escola Irmã Zélia de Nicácio, na cidade de Pesqueira, para realização de inscrição no curso de formação docente, com data para início e término de inscrição. No dia 01 de abril de 2022, foi postado nos grupos de WhatsApp de professores/as já existentes na escola: Anos Iniciais da Irmã Zélia, Pro- fessoras dos 1º Anos, o card para inscrição dos/as interessados/as no curso de formação docente sobre a Língua Xukuru do Ororubá, na cidade de Pesqueira. No dia 30 (trinta) de abril, foram encerradas as inscrições e quatro professores/as estavam inscritos/as para as formações que ocor- reram no mês de maio do mesmo ano. Com as inscrições realizadas, abrimos o Google sala de aula e logo enviamos os convites para os/as professores/as por e-mail para entrarem na sala. O Google sala de aula foi um espaço para postar o material apresentado nos encontros, como slides, tirar dúvidas de professores/as, caso eles/as viessem a surgir, e para postar a atividade final, que foi a contribuição de palavras para a construção para o Dicionário Ilustrado. Nas formações docentes, participaram 04 (quatro) professores/ as dos anos iniciais. Esse quantitativo evidencia de alguma forma, a resis- tência de docentes da cidade de Pesqueira para participar de formação. Neste estudo, as chamaremos: Ubá; Macambira-de-flecha; Mandacaru; Mulungu. A escolha desses codinomes, feita por nós, estava vinculada a nomes de plantas com flores conhecidas em Pernambuco, mais precisa- mente, na Caatinga. Nesse sentido, ao encaminhar com as apresentações, os/as professores/as foram representados/as através de flores, em diálogo com um pensamento da Clarice Lispector, em que ressalta: “sejamos como a primavera que renasce cada dia mais bela […]. Exatamente por- que nunca são as mesmas flores”, na compreensão de que os/as profes- sores/as “não eram as mesmas rosas” depois das formações docentes. 81 A professora Ubá com formação em História e Especialização em Assistência Social, Gestão Pública e Neuropedagogia Clínica e Institucio- nal, estava em sala de aula no período da manhã, tarde e noite na cidade de Pesqueira. Macambira-de-flecha, no momento da pesquisa, atuava com uma turma do 1º Ano dos anos iniciais, tem formação em Pedagogia e faz Especialização em Psicopedagogia e Gestão Escolar. Mandacaru esteve como docente contratada pela Secretaria de Educação de Pesqueira/PE, na modalidade da Educação Básica, por mais de 12 (dez) anos e tem forma- ção em Pedagogia e Psicopedagogia. Por último, o professor Mulungu tem licenciatura em Educação Física e Especialização em Educação Infantil e faz parte do quadro de professores/as contratado/as pela Secretaria de Educação. Mesmo com a baixa adesão, acreditamos que o curso contribuiu com a formação dos/as docentes e possibilitou pensar a respeito da ressig- nificação de suas práticas no cotidiano escolar, porque “[...] a formação vai e vem, avança e recua, construindo-se num processo de relações ao saber e ao conhecimento” (NÓVOA, 1992, p. 13). Vejamos a seguir o passo a passo da vivência formativa. 1º Encontro: Reflexões sobre a Lei nº 11.645/2008 O primeiro encontro ocorreu em 5 de maio de 2022, às 20h, pelo Google Meet com exposição de slides com base na Lei nº 11.645/2008. Esse encontro com os/as professores/as visou contribuir tanto para a superação do olhar pejorativo sobre os vocabulários da Língua Xukuru do Ororubá, quanto para incentivar a aplicabilidade dessa língua no cotidiano da escola nas discussões sobre as expressões socioculturais indígenas e, com isso, ampliar as aquisições na comunidade em que a escola está inserida. Nossa proposta se estruturou nas mobilizações dos povos indíge- nas pelo reconhecimento de direitos na história socializada de pais e mães para filhos/as, nas línguas, no protagonismo, nos rituais, na cosmologia e na participação na afirmação da identidade étnica brasileira, com os fundamentos legais para a temática indígena respaldada na Lei nº 11. 645/2008 e na Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas. 82 Os povos indígenas têm o direito de reviver e prati- car sua identidade e tradições culturais, incluindo o direito de manter, desenvolver e proteger as mani- festações de suas culturas, passadas, presentes e futu- ras, tais como os sítios e estruturas arqueológicas e históricas, objetos, desenhos, cerimônias, tecnologia e obras de arte, assim com o direito à restituição da propriedade cultural, religiosa e espiritual retiradas deles sem seu livre e informado consentimento ou em violação às suas próprias leis (2007, Parte 2, Item 7). Reforçamos o debate de que na construção de uma proposta cur- ricular devem ser considerados os aspectos sociais e culturais. Pois, caso contrário, os/as discentes podem deixar de se apropriar da história local, de vivenciar e explorar outras realidades que fazem parte do contexto social não vivenciado e não conhecido. A partir das discussões, nesse primeiro encontro, ressaltamos o papel dos livros e de todo material didático utili- zado em sala de aula, que devem realçar as expressões socioculturais indíge- nas locais. Contudo, ressaltamos que a escola precisa ter sensibilidade para essa questão e estabelecer objetivos, de acordo com a realidade sociocultural dos estudantes, especificamente, pensando os Xukuru do Ororubá, entre outros povos indígenas que habitam em Pernambuco e no país. Nessa perspectiva, enfatizamos que a Lei nº 11.645/2008 é um instrumento jurídico, direcionado para o ensino e a aprendizagem na Edu- cação Básica, que busca promover o respeito e o reconhecimento à plura- lidade sociocultural. Mas, mesmo com a presença dos documentos legais, o trabalho com a cultura indígena, como, por exemplo, a Língua Xukuru do Ororubá, entre outras línguas indígenas, ainda precisa de maior espaço no trabalho pedagógico das escolas. O trato com os povos indígenas se con- centra, no dia 19 de abril (e quando são lembrados!). Configura-se como um trabalho realizado de maneira superficial, de modo estereotipado: são lembranças de uma figura caricata dos povos originários do passado, como se não ocorressem mudanças vivenciadas pelos indígenas. A Lei nº 11.645/2008 possibilita ultrapassar a visão predominantemente balizada 83 nos efeitos colonizadores, exigindo mudanças nas práticas docentes, con- forme evidenciou nossa discussão sobre o estado da arte. Ainda nesse primeiro encontro de formação docente, discuti- mos o 09 (nove) de agosto, dia internacional dos povos indígenas. Essa data é passada de maneira despercebida no contexto educacional. Ela foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para garantir condi- ções de existência aos originários de maneira global, como as expressões socioculturais e os direitos humanos, pois, de acordo com o artigo III: “os povos indígenas têm direito à autodeterminação. Em virtude desse direito determinam livremente sua condição política e buscam livre- mente seu desenvolvimento econômico, social e cultural.” (Organização das Nações Unidas - ONU artigo III) Para finalizar o primeiro encontro, destacamos a necessidade de afirmar o compromisso com a Lei nº 11.645/2008 e de dar continuidade a formação na semana seguinte. Nessa direção, avançamos. 2º Encontro de formação docente: línguas indígenas No segundo encontro de Pesqueira, refletimos sobre a perda das línguas indígenas, desde a invasão dos portugueses no Brasil. Sobretudo, porque a colonização contribuiu para a perda de “quase 1.300 línguas diferentes,houve mais de 1.100 extintas desde então, restando hoje no Bra- sil, apenas 180 línguas, faladas por uma população de 350.000 pessoas” (SECAD, 2006, p. 229). Porém, é lamentável a perda linguística dentre os povos indígenas existentes, como a perda da Língua Xukuru do Ororubá. No Brasil os nomes das línguas são, na maioria dos casos, os mesmos nomes atribuídos aos respectivos povos: por exemplo, o povo “Xavánte” fala a língua “Xavante”. São raros os casos em que se fixou na lite- ratura especializada ou no uso geral um nome distinto para a língua. Aqui temos o caso do povo “Fulniô”, cuja língua é “Yatê” (RODRIGUES, 2013, p. 10). 84 Discutimos com os/as docentes que o nome Língua Xukuru do Ororubá, como explica Xikão Xukuru foi dado devido ao conhecimento do próprio povo originário e do território. Segundo o cacique Xikão, líder indígena assassinado em Pesqueira/PE no dia 20 de maio de 1998, Ororubá é uma junção das palavras Ubá (uma planta) e Uru (uma ave da mata), que juntas formam Xukuru do Ororubá. A junção de palavras representam os cuidados dos originários com a Natureza, ou seja, com a preservação do território (Disponível em: Acesso em: 20 jun. 2018). Diante das discussões desde o primeiro encontro, apresentamos um conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, com suas res- pectivas pronúncias, assim como a pronúncia na Língua Portuguesa. As palavras apresentadas foram substantivos e verbos. Escolhemos as duas classes gramaticais para facilitar o trabalho docente no grupo-sala. O conjunto de palavras apresentado nesse encontro fez parte dos substantivos e verbos. Explicitamos que “para o indígena”, toda palavra tem espírito. “Um nome é uma alma [...], diz-se na língua ayvu. É uma vida entonada em uma forma. Vida é o espírito em movimento. Espírito, para o indígena, são silêncio e som.” (JACUPE, 1998 p.18) Como todas as palavras indígenas são vidas em canção, segue o agrupamento que fez parte das discussões na formação docente nesse segundo encontro. Quadro 10: Conjunto de palavras da língua Xukuru do Ororubá Substantivos Substantivos Verbos Abóbora – Creamun Alpercata – Tazapa Assoviar – Xeium Água – Xuar Arapuca – Suacar Casar – Xacon Banana – Côba Avó – Toiop Chegar – Teregon Beiju – Xoxógo Avô – Toiam Comer – Ucrin Café – Fonfon Barriga – Ambroar Correr – Ombrêra 85 Carne – Inxa Bisavó – Liopipom Falar – Noiem Cachaça – Urinca Fonte: Professores Xukuru (2006, p. 66-76). As palavras citadas acima foram vivenciadas no encontro de for- mação com base no livro Xukuru Filhos da Mãe Natureza, de autoria de Professores Xukuru. Contudo, essas palavras revelam uma história de mobilizações por direitos, transformações e protagonismos, que foi vivenciada de maneira sincrônica pelos Xukuru que viveram e vivem em Pesqueira e, de forma diacrônica, pelos originários da Serra do Ororubá, que ficaram sem a língua ao longo do tempo. As palavras originárias do povo, em sua maioria habitantes da Serra do Ororubá, foram vivenciadas na formação docente a partir da história. Embora, aparentemente, estejam soltas, não foram refletidas de maneira isolada, mas a partir de memórias indígenas, que provocarão nos/as professores/as tomadas de decisões importantes no ensinar-apren- der de modo interdisciplinar. Ao apresentar esse conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, os/as professores/as demonstraram interesse sobre a temática e curiosidades em saber mais sobre o porquê do desaparecimento das línguas indígenas no Brasil, como a Língua Xukuru do Ororubá. Porém, como tínhamos 1h para discussão, elencamos e discutimos alguns pon- tos, como: a imposição da Língua Portuguesa como língua majoritária no Brasil, a partir da chegada dos colonizadores portugueses; os aldea- mentos; mortes dos povos originários; e ausência de políticas públicas. Ressaltamos que os portugueses, por terem invadido (descon- truindo assim a visão de “descoberta”) o Brasil e imposto as expressões socioculturais coloniais, contribuíram decisivamente para que línguas indígenas fossem apagadas, em função da proposta de catequização dos povos indígenas. Com isso, as migrações indígenas aconteciam com mais frequência por sofrerem todo tipo de violência física e simbólica. Os aldeamentos contribuíram para que a Língua Xukuru do Ororubá, entre outras dos povos indígenas, fossem apagadas, uma vez 86 que os indígenas eram desagregados da família e das terras, como ocor- reu com o citado povo indígena. Nos aldeamentos outrora, os indígenas foram submetidos a uma rígida disciplina de trabalho. Os originários que não aceitavam eram tidos como rebeldes, selvagens e perseguidos. Os jesuítas, para manter os originários nos aldeamentos, utiliza- vam a premissa de que eles/as estariam protegidos/as e livres da violência de colonos, assim como do frio e da fome. Porém, tinham interesse de catequizá-los com os ensinamentos da fé cristã, o que fortemente favore- ceu a perda de línguas originárias, como a Língua Xukuru do Ororubá. Os indígenas que não aceitavam ficar nos aldeamentos e resistiam aos ensinamentos foram perseguidos. Muitos foram mortos no enfreta- mento à colonização. Por isso, as vozes, as histórias socializada entre pais e filhos e a língua de povos indígenas foram silenciadas, porque não foi assegurado o direito de se fazerem ser ouvidas, como a Língua Xukuru do Ororubá. Em outros termos, um exemplo claro é o que acontece com os povos indígenas do Nordeste que, por falarem apenas o português, como resultado de cinco séculos de opressão e repressão cultural, têm sofrido forte discriminação e preconceito por parte do Estado, da sociedade em geral e até mesmo de outros povos indígenas. É comum ouvir a seu respeito: “Eles não se parecem com índios e nem falam a gíria indí- gena” (SECAD, 2006, p. 122-123). Outra situação que contribuiu com o desaparecimento línguas indígenas no Brasil foi o fato dos originários terem contraído enfermi- dades, como a gripe, a qual os povos indígenas não tinham proteção de anticorpos. A gripe, por infectar os povos indígenas em poucos dias, semanas e meses, exterminava aldeias inteiras. Então, ela também foi uma das causas do apagamento de línguas indígenas. Um outro ponto discutido na formação tratou sobre alguns livros didáticos, que apresentam os povos indígenas de maneira 87 folclorizada e com e visão preconceituosa, como indígenas selvagens, de cabelos lisos, olhos puxados, arcos e flechas, nus e pintados. Esse é um pensamento colonialista, presente em alguns livros didáticos presentes no contexto escolar e, principalmente, nos anos iniciais da Educação Básica. Línguas, como formas de vida, recortam o mundo, produzem e comunicam valores e constroem pers- pectivas e sociedades. Elas expressam e organizam cosmologias, racionalidades, temporalidades, valo- res, espiritualidades. Uma língua funda e organiza o mundo, pois é material constituído de culturas, de sujeitos culturais, políticos e humanos (SECAD, 2006, p. 122). Os saberes dos povos indígenas eram transmitidos de geração em geração no ambiente familiar, entre pais e filhos, por meio de histórias narradas oralmente. Além da arte de contar histórias, os povos originá- rios tinham e têm habilidades de produzir artesanatos, como colares, brincos, anéis e pinturas nos corpos. Sem a valorização das expressões socioculturais indígenas, o Brasil perde a riqueza da sociodiversidade. Para finalizar o segundo encontro com os/as professores/as nesse momento histórico e para conclusão do curso de formação docente, solicitamos que contribuíssem com a junção de palavras para construção do Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru do Ororubá. Nessa direção, seguimos para o encontro final. 3º Encontro de formação docente (apresentação de trabalhos) Ao caminharmos para nosso último encontro de formação docente, ainda refletimos sobre a Língua Xukuru doCAPÍTULO IV “DA ESCUTA À AÇÃO” OLHARES SOBRE O QUE DIZEM OS/AS DOCENTES.............65 4.1 CONHECIMENTO, PELOS/AS DOCENTES, DAS EXPRESSÕES SOCIOCULTURAIS XUKURU DO ORORUBÁ.............................................................................................................................................65 4.2 RECONHECIMENTO/PERTENCIMENTO DAS ORIGENS E DA LÍNGUA INDÍGENA.....68 4.3 PRÁTICA DOCENTE E DEMANDAS PARA ENSINO DE PALAVRAS DA LÍNGUA XUKURU DO ORORUBÁ..................................................................................................................................................74 4.4 FORMAÇÃO DOCENTE: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA..............................................................79 DICIONÁRIO ILUSTRADO DE PALAVRAS.....................................................................94 REFERÊNCIAS.....................................................................................................................157 POSFÁCIO..........................................................................................................................164 10 PREFÁCIO Esta obra configura-se como um marco na luta em prol da valorização da cultura indígena Xukuru de Ororubá em Pesqueira, especialmente, das palavras da língua desse povo. A pesquisa que resultou neste E-book nasceu no contexto de um canto circular, que flui de inquietações de uma mulher professora/pesquisadora que, ao longo de sua produção, entendeu as suas raízes e a potência de se autodeclarar Xukuru de Oro- rubá. A movência da Rosani Maciel Calado a faz assumir um papel social que soma esforços em busca do protagonismo de um povo, a partir da valorização de palavras da língua Xukuru do Ororubá, que ao longo dos séculos sofreu uma tentativa de apagamento, mas que resistiu pela ousadia do seu povo de guardar palavras para interagir no seu grupo de pertencimento. Rosani soma-se a essa luta em um movimento iniciado pela sua área de atuação, a educação. A pesquisadora aproxima docentes do município de Pesqueira, escuta-os/as, faz intervenções e a eles/a oferta um produto, o Dicionário Ilustrado, que opera didaticamente com um instrumento pedagógico realçador do potencial de uma pesquisa no âmbito do Mestrado Profissional em Educação. Nessa trilha de escuta que leva à ação, a docente Xukuru se firma, se fortalece e fortalece a cul- tura do seu povo que permanece de pé ecoando o grito que se espalha por todos os cantos: AVANTE! Profa. Dra. Débora Amorim Gomes da Costa-Maciel Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Universidade de Pernambuco. Agosto de 2023 11 APRESENTAÇÃO Nos povos indígenas é bastante significativo o valor da palavra. Por meio da oralidade, parte fundante das expressões socioculturais, as narrativas são afirmações identitárias e também de direitos. Os portugue- ses nos (des)encontros coloniais, perceberam a importância das línguas indígenas, quando em 1757 com o chamado Diretório Pombalino, no artigo 6º da referida legislação o uso da língua indígena foi considerada um “abuso”, proibida e substituída pela língua Portuguesa: Para desterrar esse perniciosíssimo abuso, será um dos principais cuidados dos Diretores, estabelecer nas suas respectivas Povoações o uso da Língua Portuguesa, não consentindo por modo algum, que os Meninos, e as Meninas, que pertencerem às Escolas, e todos aqueles Índios, que forem capazes de instrução nesta matéria, usem da língua própria das suas Nações, ou da chamada geral; mas unicamente da Portuguesa, na forma, que Sua Majestade tem recomendado em repetidas ordens, que até agora se não observaram com total ruína Espiritual, e Temporal do Estado. “Civilizar” os indígenas para torna-los súditos do Rei de Por- tugal, foi o objetivo do Diretório. Lembrando que “civilização” é uma palavra/ideia, ainda na atualidade repetida por tantas pessoas bem inten- cionadas, carregada de etnocentrismo, eurocentrismo e evolucionismo. Acompanhando “civilizar” as expressões cristianizar, catequisar, educar, proibir, reprimir. Como lido no artigo seguinte do citado documento: E como esta determinação é a base fundamental da Civilidade, que se pretende, haverá em todas as Povoa- ções duas Escolas públicas, uma para os Meninos, na qual se lhes ensine a Doutrina Cristã, a ler, escrever, e contar na forma, que se pratica em todas as Escolas 12 das Nações civilizadas; e outra para as Meninas, na qual, além de serem instruídas na Doutrina Cristã, se lhes ensinará a ler, escrever, fiar, fazer renda, costura, e todos os mais ministérios próprios daquele sexo. Mesmo diante dos impactos da colonização para as expressões socioculturais indígenas, esses foram protagonistas elaborando diversas estratégias de resistência, por meio das ressignificações, apropriações, reelaborações. Ainda que com as proibições, interdições, perseguições os nativos aprenderam a linguagem do colonizador para denunciar arbítrios e exigir direitos, sobretudo as terras invadidas e esbulhadas. Embora silenciada a língua nativa pela repressão colonial, séculos depois os Xukuru do Ororubá expressam várias palavras afirmando uma memória linguística e identitária, que como aponta a Sociolinguística remete aos contextos e processos históricos vivenciados pelos indígenas. Ressaltando o ineditismo, o rigor e a grande importância da pes- quisa e da Dissertação Léxico da Língua Xukuru de Ororubá em Pesquei- ra-PE: mapeando demandas e promovendo formação docente, apresentada por Rosani Maciel Calado, no Programa de Pós-Graduação em Educação/ Mestrado Profissional em Educação na UPE- Campus Nazaré da Mata. Uma contribuição significativa para afirmação identitária Xukuru do Ororubá. E também destacando as dimensões informativa/formativa, pedagógicas salientando a dimensão política da pesquisa realizada, sobre a temática indígena no âmbito do citado Programa de Pós-Gra- duação, para formação docente observando o que determina a Lei nº 11.645/2008 sobre o ensino da temática indígena na Educação Básica e o Parecer CNE/CEB nº 14/2015 com as “Diretrizes Operacionais para a implementação da história e das culturas dos povos indígena na Educação Básica, em decorrência da Lei nº 11.645/2008”. Edson Silva Professor Titular de História da UFPE Glória de Goitá/PE Agosto de 2023 13 CAPÍTULO I APROXIMAÇÕES COM AS MEMÓRIAS DE FORMAÇÃO E A PESQUISA Ninguém deixa seu mundo, adentrando por suas raí- zes, com o corpo vazio ou seco. Carregamos conosco a memória de muitas tramas, o corpo molhado de nossa história, de nossa cultura (FREIRE,2021 p, 45). Sou feita de gentes diferentes, lembranças, memórias e lugares, amizades e respeito. Assim sou eu, feita do passado de minha ancestralidade Xukuru da Serra do Ororubá em Pesqueira /PE e do que vivo no presente com os ensinamentos da história da cultura do meu povo. Sei que não estive e não estarei sozinha porque trago a força da minha gente no que vivo. Vivi grande parte da infância e adolescência em Brejinho e Cim- bres, atualmente reconhecidas como aldeias no território Xukuru do Ororubá. Por ser filha de uma indígena que nasceu e cresceu no território indígena, sou fruto desta história com meus pais, meus irmãos e meus avós maternos nascidos e vivendo no citado território. Então, “o primeiro tes- temunho a que podemos recorrer será sempre o nosso” (HALBWACHS, 2003, p. 29). Sou pesquisadora e parte da pesquisa ao mesmo tempo. Sou pesquisadora no sentido de indagar-me, pois procuro saber mais sobre as lembranças do passado, fazendo parte de mim, e participante ao ouvir-me. Sou instrumento para socializar informações e, ao mesmo tempo, receber as lembranças das memórias de alguém, uma vez que sou, eu mesma, uma indígena Xukuru do Ororubá, que dei meus primeiros passos no chão do Brejinho, uma das aldeias na Serra do Ororubá e em Cimbres, onde convivi com meus pais e irmãos. Sendo assim, sou parte integral dos meus ancestrais narrando (eu) e me valho neste momento presente paraOrorubá, através da apresen- tação de palavras, da leitura e pronúncias na língua indígena por todos/as nós, para que pudéssemos ouvir o som das palavras na Língua Xukuru do Ororubá, na compreensão de que, para os originários, “um nome é uma alma provida de um acento, diz-se na língua ayvu” (JACUPÉ, 1998, p. 18). 88 Como as palavras e os nomes têm som, e esse som é espírito, fizemos a pronúncia de cada uma delas e verificamos que esses momentos foram significativos para a valorização das expressões socioculturais indígenas, no contexto educacional dos anos iniciais, a partir da Lei nº 11.645/2008. Ao terminarmos esse primeiro momento de leitura das pala- vras em Xukuru, demos início às apresentações, como foi exposto na proposta no primeiro encontro, para que os/as professores/as tivessem tempo de pensar em palavras para composição do Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru do Ororubá. Vejamos o relato de cada docente. A professora Ubá relatou sobre uma atividade, realizada junto ao seu grupo-sala, uma turma do 3º ano dos anos iniciais, com as pala- vras da Língua Xukuru do Ororubá. Ela nos cedeu fotos do trabalho pedagógico, a partir das quais foi possível verificar a escrita de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, como, por exemplo: Côbá (banana), Xuar (água) e Creamum (jerimum). Imagem 1: Língua Macuxi e Xukuru do Ororubá Fonte: Professora Ubá (2022). 89 Imagem 2: Língua Macuxi e Xukuru do Ororubá Fonte: Professora Ubá (2022). Observamos que as palavras da Língua Xukuru do Ororubá foram escritas no quadro. De acordo com a professora Ubá, foi realizada a leitura dessas palavras de maneira contextualizada, embora, no quadro da sala de aula retratado na imagem acima, só seja possível perceber a escrita: “palavras Macuxi”. A docente Ubá relatou ter realizado roda de conversa sobre o povo Xukuru do Ororubá e reflexões sobre o porquê dos povos origi- nários falarem a Língua Portuguesa. A professora afirmou ter explicado aos/às discentes que, no passado, os indígenas falavam a língua originária. Mas, com o passar do tempo, a língua foi apagada por falta do uso da “língua em sua modalidade oral [...]” (COSTA-MACIEL, 2011, p. 19) entre os indígenas, devido à imposição da língua majoritária, o Português. Como pesquisadora que conhece a Língua Xukuru do Ororubá, não tive dificuldades para identificar essas palavras. Mas um/a leitor/a, não conhecedor/a da língua indígena Xukuru, terá dificuldades de reconheci- mento, sendo necessário pesquisar o conjunto de palavras dos Xukuru do Ororubá, habitantes de Pesqueira e Poção/PE. A escrita na lousa de palavras Macuxi ocorreu porque, na oca- sião da formação, contamos com a presença da pesquisadora Sineide, mestranda do PPGE-UPE, que falou sobre o vocabulário Macuxi. 90 Na foto do quadro da professora Ubá, existem sete palavras: quatro palavras escritas na língua Macuxi e apenas três da língua Xukuru do Ororubá, ambas com escrita em Português. Todavia, observamos que, mesmo a docente residindo na cidade de Pesqueira, fazendo parte do quadro docente do Município, conhe- cendo os Xukuru do Ororubá, suas mobilizações indígenas por direitos, um pouco da história indígena e que tenha feito o curso de formação, escreve no quadro branco somente: “palavras Macuxi”. Então, pensamos: por que não foram escritas na lousa - palavras da Língua Xukuru do Ororubá e Macuxi? Não temos condições de responder essa pergunta, mas expressamos inquietações para outras pesquisas. A professora Macambira-de-flecha, docente do 1º ano dos anos iniciais da Escola Municipal Irmã Zélia de Nicácio, cidade Pesqueira/PE, acessou a sala do Google Meet, mas a conexão da internet não estava boa e, por isso, ausentou-se várias vezes da sala. Então, ficou impossibilitada de apresentar o trabalho do Dicionário Ilustrado. Embora não tenhamos visualizado no Google sala de aula a postagem do seu trabalho final, esta docente explicou por mensagem o problema com a internet, no entanto, não mencionou sobre o Dicionário Ilustrado. O mesmo ocorreu com a professora Mandacaru, que acessou o Google meet e, em seguida, saiu. A situação de entrar e sair da sala foi repetida algumas vezes. Logo, enviou mensagem e explicou que a cone- xão com a internet também não estava boa. Portanto, saiu da sala e não teve a oportunidade de relatar sua experiência. Sendo assim, não pode contribuir com a criação do Dicionário Ilustrado. A professora Mandacaru fazia parte do grupo de professores/as da EMIZN, mas não estava lecionando nesta instituição e sim em outra escola. No período de divulgação das formações docentes, ainda fazia parte do grupo de professores/as da EMIZN e, por isso, fez a inscrição no curso de formação docente, destinada apenas para os/as professores/ as dessa intuição escolar da cidade de Pesqueira/PE. O professor Mulungu, docente do Componente Curricular de Educação Física dos anos iniciais na EMIZN também se queixou de 91 problemas de conexão com a internet durante o acesso à sala do Google meet. Logo que entrou, a conexão caiu. Sendo assim, não teve tempo de discorrer sobre a elaboração ou não do Dicionário Ilustrado com os discentes. Os/as professores/as Ubá, Macambira-de-flecha, Mandacaru e Mulungu sabiam da nossa proposta de construção de dicionários visuais colaborativos, uma vez que as formações docentes culminariam, em parte, com as apresentações. Dos/as quatro professores/as, apenas a pro- fessora Ubá teve condições de conectividade para pensarmos juntas sobre a criação do produto desta obra. Tentei acessar os/as professores/as em outros momentos por meio de ligações telefônicas e, ao conversarmos sobre a falta das apre- sentações dos seus trabalhos no encontro de formação docente final, relataram não ter realizado por conta de demanda pedagógica em outras cidades circunvizinhas de Pesqueira. A docente Macambira-de-flecha relatou a demanda de proje- tos da Secretaria de Educação para serem vivenciados nos anos iniciais. Segundo ela, realizar alividades pedagógicas sobre a Língua Xukuru do Ororubá necessitaria de tempo. O que não foi possível no momento, porque as escolas estavam voltando a funcionar, depois de dois anos de paralisação por conta da COVID-19. Naquele contexto, não tinha como parar o projeto que estava sendo desenvolvido em sala de aula. Acreditamos que nossa perspectiva de criar estratégias para ampliar os conhecimentos docentes sobre o conjunto de palavras do povo originário Xukuru do Ororubá foram alcançadas, pois, mesmo com problemas de internet, tivemos professores/as assíduos/as nas for- mações docentes, com expectativas e vontade de promover mudanças, por meio das atividades desenvolvidas a partir da Lei nº 11.645/2008. Portanto, a determinação legal de 2008, imbuída no conjunto de outras regras, inicia-se pela Constituição Federal de 1988. Trata-se da última atualização da Lei número 9394, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 (LDB), no que diz respeito à formação sociocultural dos sujeitos. As leis complementares nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 alteraram a LDB e enunciam a temática africana para ser vivenciada 92 no ensino e aprendizagem. A segunda inclui a temática indígena e determina as escolas públicas e privadas reflexões sobre as culturas afri- canas e indígenas na Educação Básica. Enfim, o nosso relato se encerra nesse texto, mas abre muitas possibilidades de outras ações de pesquisa e extensão, que oportunizem as reflexões socioculturais e a língua (palavras de uma língua) indígena Xukuru do Ororubá. A baixa frequência e envolvimento com todas as etapas da pesquisa são evidências de que o desafio prossegue e a resistência às discussões ainda existe, talvez até sem a plena consciência docente. Esse cenário é revelador da necessidade URGENTE de criar estratégias que despertem nos/as docentes a importância da formação continuada e de vivências sistemáticas em suas práticas acerca dessa temática. Enfim, no movimento de escuta docente e deação, elaboramos o Dicionário Ilustrado da Língua Xukuru com um conjunto de palavras que compõem o léxico do povo indígena Xukuru do Ororubá, que, longe de ser observado como um documento, que apenas guarda palavras “remanescentes”, compromete-se as com as mobilizações pela manutenção da identidade desse povo. Nessa direção, estamos em sin- tonia com a Lei nº 11.645/2008, assegurando o direito ao ensino da cultura indígena em sala de aula. O Dicionário Ilustrado é um recurso didático para os/as pro- fessores/as utilizarem em sua prática pedagógica, em busca de garantir a presença, no ambiente escolar, da Língua indígena Xukuru do Oro- rubá, uma vez que os livros didáticos disponíveis nas escolas públicas não dedicam atenção sobre o conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, e, na maioria das vezes, reproduzem estereótipos. Ele estará disponível nesta obra, que será divulgada nas redes sociais e, posterior- mente, em versão impressa, para que possa chegar fisicamente as escolas do município de Pesqueira -PE. O referido produto, apesentado ao final desta obra, está em sin- tonia com a Lei nº 11.645, de 10 março do ano de 2008, que instituiu a obrigatoriedade da inclusão da história e culturas indígenas e africana no currículo da Educação Básica. Desejamos que esse suporte didático 93 contribua com a valorização da identidade do povo Xukuru do Ororubá, e que seja usado para expandir a riqueza lexical entre as crianças, ado- lescentes, pessoas jovens, adultas e idosas. Esperamos que ele se espalhe para todo o mundo e mantenha acesa a luta pela garantia dos direitos dos povos originários. DICIONÁRIO ILUSTRADO DE PALAVRAS XUKURU DO ORORUBÁ Nazaré da Mata 2023 95 APRESENTAÇÃO O Dicionário Ilustrado de palavras do léxico Xukuru do Ororubá de Pesqueira e Poção/PE resultou da Dissertação de Mestrado “Da escuta à ação”: mapeando demandas e promovendo formação continuada para docentes a respeito do uso do léxico da língua do povo Xukuru de Pesqueira-Pernambuco”, realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Pernambuco/Campus Nazaré da Mata. A pesquisa ouviu docentes nas redes públicas e particulares de ensino em Pesqueira, traçou e realizou formação continuada, para incentivar o trato com palavras do léxico da língua Xukuru do Ororubá nas práticas escolares. O Dicionário apresenta-se como ferramenta didática que reúne um conjunto de palavras do léxico Xukuru de Ororubá, organizada a partir dos temas natureza; alimento; objetos, sociedade; corpo humano e espiritualidade. As palavras foram coletadas de fontes variadas, tais como: do livro “Xukuru Filhos da Mãe Natureza: uma história de resistência e luta”, elaborado por docentes indígenas Xukuru do Ororubá, em 1997; de arquivo pessoal de fotografias tiradas no território indígena na Serra do Ororubá, bem como de arquivos digitais gratuito. Para facilitar a cor- respondência entre palavras e algumas imagens, inserimos um círculo com numeração correspondente a palavra da língua Xukuru. Visamos dar maior autonomia ao/à leitor/a no manuseio do documento. Além disso, escrevemos todas as palavras em letra maiúscula e organizamos, ao final, todas as palavras em ordem alfabética, de modo que possam ser utilizadas por estudantes em fase de alfabetização. O Dicionário ilustrado é destinado a docentes e discentes das escolas da rede pública e particula- res de Pesqueira e demais interessados/as que busquem se aproximar de palavras Xukurus que resistiram a tentativa de apagamento ao longo dos séculos. Ele está em sintonia com a Lei nº 11.645, de 10 março do ano de 2008, que instituiu a obrigatoriedade da inclusão da história e culturas indígenas e africana no currículo da Educação Básica. Desejamos que este suporte didático contribua com a valorização da identidade do povo 96 Xukuru do Ororubá, e que seja usado para expandir a riqueza lexical entre as crianças, adolescentes, pessoas jovens, adultas e idosas. Enfim, que se espalhe para todo o mundo e mantenha acesa a luta do meu povo pela garantia de seus direitos. Rosani Maciel Calado. Mestra em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Pernambuco (UPE) 97 “Meu nome é Zenilda, sou Xukuru do Ororubá, tenho 73 anos. Con- sidero que o “Dicionário” Ilustrado da nossa língua Xukuru vai ser um importante trabalho [...], porque nossos antepassados não tiveram esse direito de falar a língua, eram proibidos. Hoje este trabalho se apresenta como uma ‘reavivação’ da memória dos nossos antepassados. Eu parti- lhei a ideia desse “Dicionário” com o Conselho de Educação. Ele disse: ‘vai ser uma oportunidade muito boa’. ‘Foi um momento muito feliz pra nós’. Os Encantados encaminham tudo na hora certa. O encontro com o povo da Educação e o assunto do “Dicionário”, que tem o foco na Educação, ninguém apaga a mente dos sábios. Nossos sábios, que já se foram, deixaram essas sementes germinando. E vai continuar germi- nando a cada dia que passa. Sigamos ‘unindo as forças do Ororubá do nosso povo indígena’” ... Zenilda Xukuru do Ororubá (Liderança do povo Xukuru do Ororubá) Fragmento retextualizado Pesqueira – Pernambuco, Janeiro de 2023 98 NATUREZA 99 01 ARUANO – CAVALO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 02 MARUANO - BURRO Fonte: Arquivo pessoal. 100 03 MARIM - BOI; GADO Fonte: Arquivo pessoal. 04 CHABATANA - ONÇA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 101 05 TIPÓ – RAPOSA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 06 CURUMEN - CARNEIRO Fonte: Acesso em: 20 mai. 2023. 102 07 GIRIMATA IA - COBRA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 08 LEBO - CO ELHO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 103 09 SANZARÁ - CABRA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 10 MEMENGO - BODE Fonte: Arquivo pessoal. 104 11 PINGOMAR – OVELHA Fonte: Arquivo pessoal. 12 NANTU - TATU Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 105 13 PIPIU - RATO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 14 SACOLEJO - PREÁ Fonte: Nino Pintor. 106 15 PUCRERON - ABELH A 16 SOIAN (URUÇU) - ABELHA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 17 PUJÚ - PORCO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 107 18 SACÁ - PERU Fonte: Arquivo pessoal. 19 TAPUCA - GALINHA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 108 20 TOTONGO - GATO D isponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 21 XICUDO - CACHORRO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 109 22 CLARISMOM - SOL Di sponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 23 CLARIN - DIA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 23 110 24 CREAMUM - NOITE 25 KRICRU - ESCURIDÃO Fonte: João Xukuru. 26 C LARICI - LUA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 27 CLARIMEN - ESTRELA Disponível em:WWSjJz4iTHnCoQ/edit> Acesso em: 20 mai. 2023. 28 CREXER - LENHA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 28 112 29 TOÊ - FOGO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 30 KURÓ - BRASA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 30 113 31 XIMINEU - FUMAÇA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 32 QUIÁ DO LIMO LAIGO - MATAS Fonte: Arquivo pessoal. 31 114 33 XACRE - RIACHO Fonte: Arquivo pessoal. 34 XUAR - ÁGUA Fonte: Arquivo pessoal. 33 34 115 35 XURUMIN - CHUVA Fonte: Arquivo pessoal. 36 XIAM - FRIO Fonte: Arquivo pessoal. 36 116 37 LIMOLAIGO - TERRA Fonte: João Xukuru. 38 CURECO - PEDRA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 37 117 39 K EIJÁ - MADEIRA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 40 XE NER - FLOR Fonte: Arquivo pessoal. 118 ALIMENTOS - KRINGÓ 119 41 BATESACAR - FEIJÃO Fonte: Arquivo pessoal. 42 CURIAXAR; XATA - FAVA Fonte: João Xukuru. 120 43 CREAMUN - ABÓBORA Fonte: Arquivo pessoal. 44 XIQUIN - MILHO Fonte: Arquivo pessoal. 121 45 CÔBA - BANANA Fonte: Arquivo pessoal. 46 MANCHA - MANGA Fonte: Arquivo pessoal. 122 47 XACOBA - MANDIOCA Fonte: Arquivo pessoal. 48 LAMUM - FARINHA Fonte: Arquivo pessoal. 48 123 49 XOXÓGO – BEIJU Fonte: Arquivo pessoal. 50 XURUMER; XACOBA - MASSA Fonte: Arquivo pessoal. 50 124 51 TINKIN - SAL Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 52 CARUIO - DOCE Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 51 52 125 53 CARUXAR - RAPADURA Fonte: Arquivo pessoal. 54 F ONFON - CAFÉ Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 54 126 55 GOXE - TRIPA Fonte: Arquivo pessoal. 56 I NXA - CARNE Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 56 127 OBJETOS 128 57 BARRETINA - CAPACETE DE PALHA Fonte: Valdeir Xukuru. 58 C RIACUGOKRECÁ - CHAPÉU Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 129 59 TA CÓ - ROUPA Fonte: Arquivo pessoal. 60 TAC Ó – SAIA/SAIOTE Fonte: Arquivo pessoal. 130 61 TAZA PA - ALPERCATA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 62 XABÁ - SAPATO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 131 63 COER - BOLSO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 64 XANDURÉ - CACHIMBO Fonte: Arquivo pessoal. 63 132 65 JUPAGO - CACETE Fonte: Arquivo pessoal. 66 MARACÁ - INTRUMENTO MUSICAL Fonte: Arquivo pessoal. 133 67 MEM BY - GAITA Fonte: Thiago Xukuru. 68 OKOR - BANCO Disponível em: 67 134 Acesso em: 20 mai. 2023. 69 Q UIBUNGE - PANELAS Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 70 TI LOÉ - FACA Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 135 71 XURUCREBA - FACÃO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 72 SUACAR - ARAPUCA Fonte: Arquivo pessoal. 136 73 INTAI A - DINHEIRO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 74 PITING O - CARRO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 137 SOCIEDADE 138 75 TOIPA - MÃE 76 JETUIN – MENINA Fonte: Arquivo pessoal. 77 JETUM - MENINO Fonte: Arquivo pessoal. 75 76 139 78 LIOPIPOM - BISAVÓ 79 TOIOPE - AVÓ Fonte: Arquivo pessoal. 80 TOIAM - AVÔ Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 140 81 SACAREMA - MULHER Fonte: Arquivo pessoal. 82 ENUPRE - INDÍGENA Fonte: Wesley Xukuru. 141 83 XIURIJAR - IRMÃO Fonte: Arquivo pessoal. 142 CORPO HUMANO 143 84 KRECAR – CABEÇA 85 XICRIN - NARIZ 86 AMBROA R - BARRIGA 87 JOJÉ - CINTURA 88 JAJÉ - JOELHO 89 POIÁ - PÉ Fonte: Valdeir Xukuru. 84 85 86 87 88 89 144 90 JUCREDE - DENTE Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 91 JUCRICRECAR - CABELO Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 90 145 92 LONJI - OLHOS Fonte: Arquivo pessoal. 146 ESPIRITUALIDADE 147 93 PAJURU - CACIQUE Disponível em: Acesso em: 20 mai. 2023. 94 TORÉ - DANÇA SAGRADA Fonte: Arquivo pessoal. 148 SUMÁRIO A Ambroar Barriga 161 Aruano Cavalo 78 B Barretina Capacete de Palha 134 Batesacar Feijão 117 C Caruio Doce 128 Caruxar Rapadura 129 Chabatana Onça 81 Clarici Lua 101 Clarimen Estrela 102 Clarin Dia 99 Clarismom Sol 98 Côba Banana 121 Coer Bolso 140 Creamum Noite 100 Creamun Abóbora 119 Crexer Lenha 103 Criacugokrecá Chapéu 135 149 Cureco Pedra 113 Curiaxar; Xata Fava 118 Curumen Carneiro 83 F Fonfon Café 130 G Girimataia Cobra 84 Goxe Tripa 131 I Intaia Dinheiro 150 Inxa Carne 132 J Jajé Joelho 161 Jetuin Menina 153 Jetum Menino 154 Jojé Cintura 161 Jucrede Dente 162 Jucricrecar Cabelo 163 Jupago Cacete 142 150 K Keijá Madeira 114 Krecar Cabeça 161 Kricru Escuridão 100 Kuró Brasa 105 L Lamum Farinha 124 Lebo Coelho 85 Limolaigo Terra 112 Liopipom Bisavó 155 Lonji Olhos 164 M Mancha Manga 122 Marim Boi; Gado 80 Maracá Instrumento Musical 143 Maruano Burro 79 Memby Gaita 144 Memengo Bode 87 N Nantu Tatu 89 151 O Okor Banco 145 P Pajuru Cacique 166 Pingomar Ovelha 88 Pipiu Rato 90 Pitingo Carro 151 Poiá Pé 161 Pucreron Abelha 92 Pujú Porco 93 Q Quiá do Limo Laigo Matas 107 Quibunge Panelas 146 S Sacá Peru 94 Sacarema Mulher 157 Sacolejo Preá 91 Sanzará Cabra 86 Soian Uruçu (Abelha) 92 Suacar Arapuca 149 152 T Tacó Roupa 136 Tacó Saia ou Saiote 137 Tapuca Galinha 95 Tazapa Alpercata 138 Tiloé Faca 147 Tinkin Sal 127 Tipó Raposa 82 Toê Fogo 104 Toiam Avô 156 Toiope Avó 155 Toipa Mãe 153 Toré Dança Sagrada 167 Totongo Gato 96 X Xabá Sapato 139 Xacoba Mandioca 123 Xacre Riacho 108 Xata Fava 118 Xanduré Cachimbo 141 Xener Flor 115 Xenupre Indígena 158 153 Xiam Frio 111 Xicrin Nariz 161 Xicudo Cachorro 97 Ximineu Fumaça 106 Xiquin Milho 120 Xiurijar Irmão 159 Xoxógo Beiju 125 Xuar Água 109 Xurucreba Facão 148 Xurumer; Xacoba Massa 126 Xurumin Chuva 110 154 Sobre o povo Xukuru de Ororubá O povo Xukuru de Ororubá habita a maioria no município de Pesqueira, mas também no vizinho município de Poção, no Semiárido pernambu- cano, Região Nordeste do Brasil. Narrativas indicam que as origens de Pesqueira estariam vinculadas às pescarias dos indígenas que, no passado, desciam a Serra do Ororubá para pescar nas águas da cidade. No municí- pio de Pesqueira, de acordo com o censo do IBGE/2010, foi contabilizada uma população de 67.735 habitantes e mais de 4.000 (quatro mil) indí- genas Xukuru do Ororubá com residência fixa na cidade, a maioria no Bairro “Xucurus”. O território Xukuru do Ororubá, apósmuitas mobi- lizações, foi oficialmente demarcado em 2001 e organizado em 24 (vinte e quatro) aldeias indígenas. A terra foi dividida pelos indígenas em três regiões geográficas: o Agreste, espaço mais seco; a Serra, local mais úmido e com maior concentração de indígenas; e a Ribeira do Ipojuca, cortada pelo rio temporário do mesmo nome. No período colonial, os indígenas foram aldeados, em 1661, pelos padres portugueses da Congregação do Oratório de São Felipe Neri, também conhecidos como Oratorianos. As missões religiosas contribuíram para o desaparecimento de muitas línguas originárias, como a língua Xukuru do Ororubá, sobretudo, porque a língua dos colonizadores portugueses era imposta aos povos colonizados. Essa imposição foi assegurada pelo Diretório Pombalino, uma legislação instituída em 1757, proibindo aos indígenas no Brasil falarem suas lín- guas originárias. Quem desobedecia, a exemplo dos indígenas na Serra do Ororubá, enfrentava várias punições, castigos e violências físicas. Para continuar com a língua nativa, os ancestrais dos Xukuru do Ororubá vivenciaram essas situações de apagamento da língua originária, restando ao povo algumas palavras do léxico, que reunimos neste Dicionário Ilus- trado. Nas mobilizações por direitos, além dos rituais sagrados, como o Toré, a cosmologia, as expressões socioculturais, como o chamado artesanato, o grafismo e a renascença (também confeccionada por indí- genas originárias), o povo assume os protagonismos em áreas distintas, 155 ocupando espaço em setores públicos e privados, em contexto local, regional e nacional. Muitas mulheres e homens indígenas acessaram à educação formal, em cursos técnicos e universitários, como: Pedagogia, Letras, Matemática, História, Filosofia, Física, Direito, Design de Modas, Enfermagem, Técnicos de Enfermagem, Gestão Ambiental, Agrono- mia. Alguns nativos/as Xukuru do Ororubá prosseguiram a formação acadêmica e são mestres/as e doutores/as. O ensino sobre a história e as culturas dos povos originários nas escolas da rede pública e particular é um direito assegurado pela Constituição Federal do Brasil de 1988, assim como pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação ou Lei nº 9.394/1996 e a Lei nº 11645/2008. E ainda por tratados, acordos e leis internacionais assinadas pelo Brasil. Em sintonia com essas leis, o “Dicionário” Ilustrado possibilita ao/à professor/a na Educação Básica, atuando na modalidade de educação de pessoas jovens, adultas e idosas, refletir sobre palavras da língua do povo Xukuru de Ororubá, resistindo a tentativa de apagamento da língua indígena, preservada nas palavras do léxico da língua nativa, que são a prova da resistência e das conquistas desse povo originário. ROSANI MACIEL CALADO. Indígena Xukuru do Ororubá. Mestra em Educação pela Universidade de Pernambuco/UPE (Campus Nazaré da Mata). Com Licenciatura em Letras-Espanhol pelo Instituto Supe- rior de Educação de Pesqueira e Pedagogia pela UFRPE Atualmente é professora nos anos iniciais do Ensino Fundamental na rede pública de ensino em Pesqueira e também na rede pública de ensino em Arcoverde. DÉBORA AMORIM GOMES DA COSTA-MACIEL. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Leciona no Curso de Pedagogia e é professora no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) na UPE, Campus Mata Norte (Nazaré da Mata). Realiza pesquisas na área de Educação, com ênfase na didática do ensino da Língua Portuguesa, no contexto da Educação Básica. 156 EDSON SILVA. Professor Titular de História da UFPE. Doutor em História pela UNICAMP (Campinas/SP). Leciona no Centro de Educa- ção/Col. de Aplicação/UFPE. Professor no PROFHISTORIA/UFPE e no Programa de Pós-Graduação em História na UFRPE. Realiza pes- quisas sobre os indígenas na História no Semiárido nordestino, especi- ficamente o povo Xukuru do Ororubá. 157 REFERÊNCIAS BAGNO, M. Preconceitos linguísticos o que é, como se faz. 21. ed. São Paulo: Edições Loyola 1999. BAGNO, M. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007. BENEDICT, R. Padrões de Cultura. Lisboa: Edição “Livros do Bra- sil”, s/d. (1a parte: p. 13-70; 3a parte: p. 247-304) (Apenas 1a parte. 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Rosani Maciel Calado enriquece a cultura do seu povo autoafirmando a sua identidade indígena Xukuru. Neste livro, a autora, de forma singular e única, tra- duz em seus mosaicos enunciativos que não há culturas melhores que as outras. Por essa razão, Calado mostra que culturas são fortalecidas pelo contato com outras pessoas, gerando, então, a interculturalidade. As lembranças, memórias e lugares descritos por Calado neste livro, provocam-nos uma releitura de nós mesmos, sobretudo, levando-nos absorver os conhecimentos, as experiências e os valores que são demar- cados para os possíveis sentidos que é realizado pela leitura do livro. É vital repensarmos as dinâmicas sociais e culturais para desconstruirmos o raciocínio de que um grupo cultural exerce hegemonia sobre este ou aquele outro grupo. Neste livro, essa desconstrução hegemônica é natu- ralmente revelada, enfatizando, uma valorização igualitária nas relações entre culturas. Por este motivo, como resultado final, Calado propôs um Dicionário Ilustrado da língua Xukuru de Ororubá, fruto de seu exercí- cio de pesquisa no âmbito do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE), da Universidade de Pernambuco, Campus Mata Norte (UPE). Esse produto social, portanto, promove a aprendizagem de outra língua e com ela, de outra cultura. Muito Obrigado, Rosani Maciel Calado, por essa iniciativa de nos ensinar lexicalmente a língua Xukuru de Ororubá. 165 Prof. Dr. Jonathas de Paula Chaguri Professor do Programa de Pós-graduação em Educação Universidade de Pernambuco, Campus Mata Nortepartilhar minhas lembranças vivas em mim e continuadas no tempo. Sou Rosani, afirmo minha identidade indígena Xukuru do Ororubá, como também desejo “consolidar a identidade de um grupo 14 e promover a autoestima de seus membros e, por outro, o propósito de desenvolver solidariedade entre os diferentes” (MOREIRA; MACEDO, 2002, p. 21) da minha família indígena Xukuru na Serra do Ororubá em Pesqueira-PE, uma vez que somos muitos/as espalhados/as em dife- rentes lugares. Mas, sobretudo, somos da mesma família étnica. Somos pedaços de cores compositoras de cada vida que passa pela minha e que costura a minha alma. E, ao pensar desta maneira sobre as questões a seguir em relação a minha vida, irei procurar registrar lem- branças positivas da minha existência, pois gosto de estar sempre com o espírito leve. Essa é a maneira que gosto de me sentir, de ver as pessoas da minha família em volta: firmes, entusiasmados/as de estarem vivos/ as, alegres, e tendo esperança sempre, porque esta “nasce do coração” (FREIRE, 2021, p. 11). Os momentos tristes de minhas memórias procuro deixar adorme- cidos, se bem que estes servem de aprendizados para nós mesmos e, a partir deles, podemos tirar ensinamentos para nosso crescimento como pessoa, mas, mesmo assim, costumo deixá- los arquivados. “Relembrar momentos, necessariamente, não importa o tempo em que se deram” (FREIRE, 2021, p. 27). Sendo assim, apresentarei fragmentos de minhas vivências imbuídas na minha vida escolar, desde os primeiros anos de escolarização, graduação, especialização até a etapa de classificação no Mestrado em Educação na Universidade de Pernambuco (UPE) – Campus Mata Norte. Minha história na educação iniciou quando minha mãe Maria do Socorro Alves Maciel e meu pai Rinaldo Cavalcanti Maciel, moradores do então Sítio Brejinho, pensando nos estudos dos filhos/as, decidiram ir morar no então povoado de Cimbres, onde existia a escola Monsenhor Olímpio Torres. Essa instituição é, atualmente, uma escola pública estadual que ainda continua no mesmo local em um prédio reformado, sendo tam- bém nomeada pelos Xukuru do Ororubá como Escola Indígena Milson e Nilson, em homenagem a dois jovens indígenas, assassinados no início do conflito que provocou uma cisão interna e a expulsão de famílias auto- proclamadas “Xukuru de Cimbres” (SILVA, 2018). Essas famílias eram reconhecidas como povos indígenas e, atualmente, habitam a área urbana 15 de Pesqueira e um território que compreende parte dos municípios vizi- nhos pernambucanos de Alagoinha, Venturosa e Pedra (SILVA, 2018). Os meus primeiros anos de escolarização foram na referida escola, assim como os dos meus irmãos, Ednaldo Alves Maciel, Elisabeth Alves Maciel e Reginaldo Alves Maciel. Apenas a minha irmã caçula Rosa Maria Alves Maciel, que iniciou os primeiros anos de aquisições da ora- lidade, leitura, escrita e cálculo matemático na escola Municipal João XXIII, na cidade de Pesqueira, bairro “Xucurus”. Atualmente, é cha- mada de Escola Municipal Paulo Melo e não funciona no mesmo local, mas continua ao sopé da Serra do Ororubá. Para o historiador francês Jacques Le Goff (2013, p. 435), A memória é um elemento essencial do que se cos- tuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória coletiva é não somente uma conquista é também um instrumento e um objeto de poder. São as sociedades cuja memó- ria social é, sobretudo, oral ou que estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta mani- festação da memória (GOFF, 2013, p. 435). Nesse sentido, em minhas memórias, recordo também que estudei na escola na qual minha irmã caçula também estudou, pois ficávamos na casa da minha avó paterna, Júlia Vieira Maciel, residindo durante anos no Bairro “Xucurus”, e isso facilitou meus estudos na época, assim como para minha irmã Elisabeth Alves Maciel. O bairro está localizado no sopé da Serra do Ororubá, o mesmo nome do povo indígena que habita a região. Quando não passava o ano com minha avó na cidade, ocorriam idas e vindas entre o então povoado de Cimbres e Pesqueira para estudar, ou seja, viajava todos os dias de ônibus de Monte Alegre para Pesqueira. O motorista 16 do veículo passava no povoado às 05:45 da manhã para ir apanhando os/ as estudantes matriculados/as nas escolas da cidade e, ao terminar a aula, voltava no mesmo transporte, retornando à tarde por volta das 13h. As viagens duravam em torno de 50 minutos até 1 hora, depen- dendo das paradas que o motorista fazia ao longo do percurso, pois não somente transportava estudantes, mas também passageiros/as para a cidade, que vinham fazer compras, receber os salários das aposentadorias e realizar pagamentos nos bancos, como as contas de energia e água. Lembro que o ônibus, até chegar à zona urbana, cortava todo o território indígena com uma bela paisagem verde na época do inverno. No verão, a cor cinzenta das juremas era o belo cartão postal do percurso. Acredito que sempre fui resistente nas viagens enquanto criança, pois enfrentei o frio, o calor e, até mesmo, a fome. Tínhamos alimentos em casa, mas passei muitas vezes da hora da alimentação e nem por isso desisti. Muito pelo contrário, resisti como as juremas resistem ao fogo, seca, perdem as folhagens na época das estiagens para voltar com o verde viçoso e a força dos encantos no inverno. Tenho aparência frágil, mas com a resistência da jurema e dos meus antepassados originários, em espe- cífico da minha mãe, Maria do Socorro Alves Maciel, nascida e vivendo no território indígena, filha e neta do povo originário que habita a região. Assim também sou eu, trazendo “o fortalecimento da identidade étnica, pautada pelas memórias de uma ancestralidade de pertencimento àquele lugar, àquele grupo social e àquela cultura” (SILVA, 2018, p. 83), da minha família Xukuru do Ororubá de Pesqueira. Cimbres está distante 18 km da cidade de Pesqueira e, ao chegar à zona urbana, o motorista tinha como ponto de parada na época a Praça Jurandir de Brito, localizada no Centro da cidade. Ao chegar, descia do ônibus e caminhava para escola Estadual Cacilda Almeida, a uns 2 km de distância da Praça, pois o motorista do ônibus não nos deixava nas escolas. Os primeiros anos da minha trajetória escolar, como já men- cionado, foram na Escola Municipal Monsenhor Olímpio Torres em Cimbres, também chamada pelos indígenas Xukuru do Ororubá por Escola Indígena Milson e Nilson; depois frequentei a Escola João XXIII, 17 a Escola Estadual Cacilda Almeida Maciel e a Escola Estadual Moacir de Albuquerque, em Cavaleiro, Recife, onde morei com tios(as)-padrinhos/ as e primos/as. A última escola foi o Centro de Educação Rural José de Almeida Maciel – CERU, na cidade de Pesqueira, atualmente a Escola de Referência em Ensino Médio José de Almeida Maciel - EREMJAM, funcionando de maneira integral. Os anos iniciais de aprendizagem educacional ocorreram com algumas mudanças de escolas e espaços geográficos, pois foram períodos de ajustes na vida da minha família e acomodações. Mas, as mudanças não provocaram prejuízos, uma vez que continuava sempre estudando. Embora estranhasse um pouco, logo me acostumava e, na atualidade, penso que “Deus sabe como” (FREIRE, 2021, p. 23) e me conduziu pelos melhores caminhos na educação, pois, mesmo com as mudanças ocorridas, não demorava a me adaptar, visto que estas foram bem direcio- nadas, e lembro com saudades de cada uma delas e dos/as professores/as. Nas férias, mesmo com as mudanças de escolas, costumava ir para casa dos meus avós maternos no Sítio Brejinho, localizado na Serra do Ororubá, território indígena. Gostava de ficar com eles/as e com os bisavós: João Evaristo Alves e Olindina Maria Alves, que muitas histórias contavam. Hoje, entendo o porquê aspirava estar com eles nasférias esco- lares e ouvir as histórias, estavam presentes relatos das vivências, como “colchas de retalhos” do meu povo Xukuru da Serra do Ororubá, pois Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior... Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade… Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa. E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente 18 também. E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados... Haverá sempre um retalho novo para adicionar a alma. Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer minha história com os retalhos deixados em mim. Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias. E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de “nós” (PIZ- ZIMENTI, 2013, n.p). Na vida, ainda que aparentemente sozinha, não estive, pois somos muitos/as em uma pessoa com vários pedacinhos de retalhos dos nossos familiares, que permanecerão em cada um/uma, porque somos feitos de muitas gentes. Sendo assim, continuaremos em outras vidas com pedacinhos de retalhos coloridos. Os anos finais da Educação Básica ocorreram no Centro de Edu- cação Rural José de Almeida Maciel/CERU ou José de Almeida Maciel, como foi chamado durante muitos anos. Passei os quatro anos finais no CERU e trago comigo boas recordações dos professores/as que me pro- vocaram a percorrer os caminhos do antigo Magistério, na atualidade, conhecido como Normal Médio. A Escola de Referência está localizada no centro e recebe estu- dantes indígenas e não indígenas. Ela está entre duas escolas: uma da rede particular, Colégio Santa Dorotéia, e uma da rede Pública, Escola Muni- cipal Irmã Zélia de Nicácio, da qual faço parte do quadro do docente. Na escola Estadual Cristo Rei, na cidade de Pesqueira, foi onde iniciei o Magistério e guardo boas lembranças de todos/as os/as docen- tes, em específico a professora do componente curricular de Didática, que me provocou com o livro de Paulo Freire, intitulado Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, de 1996. Foi quando percebi que queria ser professora, continuar no caminho percorrido, pesquisar, constatar e conhecer o ainda não conhecido na Educação, 19 para anunciar a outros sujeitos o conhecimento através da docência (FREIRE, 1996), porque A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta faz parte integrante do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fizemos (FREIRE, 1996, p. 35). Com a curiosidade me impulsionando na educação, prestei ves- tibular na minha cidade e, ao começar os estudos, recebi bolsa integral no Curso de Letras. Conclui o Ensino Superior e, um ano depois, fui aprovada no concurso para professora nos anos iniciais da Educação Básica, na cidade de Arcoverde, onde trabalho até a atualidade. Também fui aprovada no concurso para professora nos anos iniciais na cidade de Pesqueira, no qual agradeço a Deus pela “coragem” que me move, por- que está “acima do medo” de pensar e às vezes ser limitada, como falou o “Cacique Xicão”, Francisco de Assis Araújo, liderança indígena do povo Xukuru de Pesqueira assassinado no dia 20 de maio de 1998, por volta das 9:00 da manhã. Foi plantado no “Cemitério da Aldeia de Pedra D’Água” e entrou em processo de encantamento, metamorfoseou-se no “Cacique Encantado Mandaru”, e continua a habitar e lutar pelos direitos e pelo bem viver do seu povo (MELO, 2019, p. 162). Cursei Especialização na Autarquia Educacional de Belo Jardim (Autarquia Educacional do Belo Jardim/Faculdade de Belo Jardim - AEB/FBJ). Atualmente, sou mestra pela Universidade de Pernambuco (UPE) - Campus Mata Norte, uma vez que não quero parar, mas con- tinuar minha formação como pesquisadora no âmbito dos estudos da pós-graduação stricto sensu. Acredito que a “educação é permanente”, como bem escreveu Paulo Freire: 20 A educação é permanente não porque certa linha ideológica ou certa posição política ou certo inte- resse econômico o exijam. A educação é perma- nente na razão, de um lado, da finitude do ser humano, de outro, da consciência que ele tem de finitude. Mas ainda, pelo fato de, ao longo da his- tória, ter incorporado à sua natureza não apenas saber que vivia, mas saber que sabia e, assim, saber que podia saber mais. A educação e a formação permanente se fundam aí (FREIRE, 1997, p. 20). Após finalizar a minha primeira graduação, cursei uma segunda graduação em Pedagogia pela Universidade Federal Rural de Pernambu- co-UFRPE. Ao mesmo tempo em que cursava a graduação em Pedago- gia, iniciei a Especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica no Instituto Superior de Educação de Pesqueira - ISEP. Em 2021, cursei outra Especialização, desta vez em Neuropedagogia Institucional e Clí- nica pela Faculdade Frassinetti do Recife – FAFIRE, com ajuda de custo da Secretaria de Educação de Pesqueira. Em toda essa jornada educacional, desde os anos iniciais aos anos finais, passando pelo Magistério e as duas graduações, não recordo de ter presenciado estudos sobre as palavras da Língua Xukuru ou qualquer outro tipo de pesquisa sobre os povos originários, tanto na graduação como na especialização, mesmo havendo muitos discentes do território indígena. Mesmo em minha atuação como docente no município de Pesqueira, o silêncio em relação à língua dos nativos e às palavras dessa língua é grande. Nesse sentido, pretendemos dar visibilidade ao conjunto de palavras da Língua Xukuru do Ororubá, porque faz parte da cultura local da cidade de Pesqueira e Poção/PE. Quando morei em Cimbres, juntamente com a minha família, ainda criança, conheci o senhor Romão, que morava duas casas depois da minha. Em uma entrevista, eu o ouvi e vi falando sobre as palavras da Língua Xukuru. Minha avó materna, Rosa Alves de Freitas, com 93 21 anos, quando está em momentos lúcidos, relata que os avós se comu- nicavam na Língua Xukuru, e que ainda chegaram a ensiná-la algumas palavras e frases as quais, infelizmente, por conta da idade, não recorda. Mas, na atualidade, existe um conjunto de palavras da língua indígena confirmando que no passado ela foi viva entre os Xukuru do Ororubá. São conhecidas diversas expressões socioculturais dos Xukuru do Ororubá, como o Toré, a arte, a cosmologia, a história do Cacique “Xicão” e, especificamente, a Língua Xukuru, que foi apagada a partir da coloni- zação e, de acordo com leituras, foi uma língua isolada entre os indígenas. O Xukuru deveria ter sido uma língua de relação pura. A ordem das palavras podia servir para expri- mir conceitos. Essa relação era regressiva, como no Tupi e no Iatê, e diferia da do Cariri em que é pro- gressista (...) o remanescente linguístico Xukuru são palavras conceituais, sem determinação ou categoria. São nomes (...) ou verbos são de forma nominal (LAPENDA, 1962, p. 17). As palavras Xukuru do Ororubá representam um legado socio- cultural para ser reconhecidas, valorizadas e enaltecidas. Essa compreen- são está apoiada na perspectiva de que “as versões emancipatórias do mul- ticulturalismo baseiam-se no reconhecimento da diferença e do direito à diferença e da coexistência ou construção de uma vida em comum, além de diferenças de vários tipos” (SANTOS, 2003, p. 33). Por ter raízes fortes em uma ancestralidade originária, faço parte dessa história. Sou neta de Abílio Evaristo Alves e RosaAlves de Freitas, nascidos, vivendo, casando e constituindo a prole no então Sítio Breji- nho, atualmente reconhecido território indígena Xukuru do Ororubá. Sendo assim, “não se apaga dos avós rica memória veia ancestral” (POTI- GUARA, 2020, n.p). Portanto, “é como se estivéssemos diante de muitos testemunhos” (HALBWACHS, 2003, p. 30), pois sou parte dessa história com meus irmãos, meus pais e meus avós maternos e paternos 22 junto dos parentes Xukuru não consanguíneos da Serra do Ororubá. Nossa identidade a partir da ancestralidade e da afirmação. Como escreveu Jacques Le Goff (2013, p. 437), “a memória, a qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”. Essas afirmações são significativas nesta fase da minha trajetória como mestranda, quando jamais imaginei poder narrar fragmentos da minha vida. Mas o Mestrado Profissional na UPE/Mata Norte possibilitou a oportunidade de ser voz através desse simples relato, como pesquisadora e profissional da educação compro- metida com uma causa da valorização da identidade e de palavras da língua do meu povo Xukuru do Ororubá. Nesse relato, busquei expressar minha história na educação e, ao mesmo tempo, expus minhas origens. Acredito que, por ter saído do Sítio Brejinho e de Cimbres “para saber mais”, isso não tira de mim quem sou, ou seja, sou uma indígena brasileira e, se precisar sair do país, não deixarei de ser indígena no Brasil com as minhas origens. Sou bra- sileira. Conforme a Constituição Federal, no Art. 115, “são brasileiros os nascidos no Brasil, ainda que de pai estrangeiro [...]”, assim como “os filhos de brasileiros ou brasileiras, nascidos em país estrangeiro, [...] se, atingida a maioridade, optarem pela nacionalidade brasileira”. Decla- ro-me como descendente de povos originários e, como prova disso, me assumo originária da Serra do Ororubá. Sou Rosani Maciel Calado e essa é minha construção identitária, “pautada pelas memórias de uma ancestralidade de pertencimento àquele lugar,” (SILVA, 2018, p. 83) onde morei, cresci e convivi durante alguns anos com meus pais, avôs, avós paternos e maternos no Território Indígena Xukuru do Ororubá e as histórias do meu povo, juntamente com as da Língua Xukuru do Oro- rubá, contribuíram para meu reconhecimento como indígena Xukuru. Na atualidade, temos familiares e parentes originários morando no território indígena, uma vez que, viram minha mãe nas- cer e crescer, meus avós e bisavós, tios e primos. Isso faz parte das nossas vivências, das nossas histórias, das nossas lembranças e vem afirmar nossas identidades muitas vezes invisibilizadas no âmbito social e cultural. 23 É nessa ponte entre a minha história pessoal e profissional que esta obra surge. Ela deriva de uma pesquisa que realizei no Mes- trado Profissional em Educação da Universidade de Pernambuco, em que, em contexto pandêmico, no ano de 2021, apliquei um questionário exploratório, contendo 20 (vinte) questões estruturadas e endereçadas a docentes atuantes na Educação no município de Pesqueira - PE. Essa fer- ramenta recebeu a devolutiva de 35 docentes, os/as quais, neste trabalho, atribuímos codinomes de plantas com flores conhecidas em Pernambuco, mais precisamente, na Caatinga. Suas respostas foram organizadas nas categorias “Conhecimento, pelos/as docentes, da cultura Xukuru do Ororubá”, ao “Reconhecimento/pertencimento das origens e das línguas indígenas” e a “Prática docente”. O objetivo do documento foi o de sondar as demandas formati- vas e intervir com formação continuada junto a professores/as atuantes nas redes públicas e particulares de ensino em Pesqueira-PE. Focamos, especificamente, em compreender as demandas formativas para o trato com o léxico da Língua Xukuru do Ororubá no contexto escolar; bem como, promover formação continuada para docentes, voltada ao trato com palavras do léxico da Língua Xukuru do Ororubá. O produto final resultante deste momento de escuta docente gerou na organização cola- borativa de um Dicionário Ilustrado, utilizando palavras do repertório lexical desse povo originário, cujo propósito seguir na valorização do povo Xukuru de Ororubá e servir de apoio para o ensino e a aprendizagem de crianças, adolescentes, pessoas jovens, adultas e idosas. O Dicionário da Ilustrado da Língua Xucuru de Ororubá, dis- ponível na seção final deste E-book, foi organizado colaborativamente, a partir dos temas NATUREZA; ALIMENTO; OBJETOS, SOCIE- DADE; CORPO HUMANO e ESPIRITUALIDADE. Esta ferra- menta didática reúne um conjunto de palavras do léxico Xukuru de Ororubá, além de apresentar imagens a elas vinculadas. As palavras foram coletadas de fontes variadas, tais como: do livro “Xukuru Filhos da Mãe Natureza: uma história de resistência e luta”, elaborado por professoras e professores indígenas Xukuru do Ororubá, em 1997; de arquivo pessoal 24 de fotografias tiradas no território indígena na Serra do Ororubá, bem como de arquivos digitais gratuitos, como o Canva e o Pixabey. A mirada nos objetivos desta obra nasce, em linhas gerais, da com- preensão de que as palavras da língua Xukuru do Ororubá não têm espaço no cotidiano dos planejamentos docentes, tampouco é conteúdo de for- mação para discussões sobre a identidade de parte da população originá- ria habitante na Serra do Ororubá na cidade de Pesqueira. Esse cenário realça a necessidade de ações que se coadunem com a Lei nº 11.645, de 10 março do ano de 2008, que instituiu a inclusão da história e culturas indígenas no currículo da Educação Básica, assim como com as orienta- ções presentes nos Reorganizadores Curriculares do Município (2021), tanto nos anos iniciais como os finais, como meios de contribuir para a valorização das expressões socioculturais indígenas. Mesmo com regulamentação acima indicada, várias línguas indí- genas no Nordeste já desapareceram. No cenário sociolinguístico entre os Xukuru do Ororubá, ocorreu, ao longo da história, uma insistente busca de apagamento da língua originária deste povo, que no passado era ensinada através da oralidade no meio familiar. Desse processo, um conjunto apro- ximado de 300 (trezentas) palavras resistiu a essa tentativa de apagamento. No contexto histórico, a catequização dos indígenas no aldea- mento de Cimbres ou Monte Alegre ocorreu com os padres da Congre- gação do Oratório de São Felipe Neri, também conhecidos como missio- nários ou os Oratorianos, com a fundação da missão/aldeamento em 1661 (SILVA, 2017). Após dois séculos, no ano em 1879, o aldeamento foi extinto pelo Governo Imperial. A língua dos Xukuru do Ororubá foi esquecida, devido ao contexto da colonização portuguesa e com o Diretório Pombalino, que proibiu as línguas indígenas em 1757 (SILVA, 2017). Assim, as terras do antigo aldeamento foram invadidas por fazen- deiros e os indígenas se tornaram trabalhadores dos latifundiários. Saviani (2013, p. 29) afirma que “[...] a posse e exploração da terra subjugando os seus habitantes; a educação enquanto [...] inculcação nos colonizados das práticas, técnicas, símbolos e valores próprios dos colonizadores; e a catequese”, difusora da religião dos colonizadores 25 buscava apagar as expressões socioculturais dos povos colonizados e escravizados. Para esse autor, “A palavra colonização deriva diretamente do verbo latino colo [...]. Significa igualmente tomar conta de; cuidar; querer bem” (SAVIANI, 2013, p. 26). Mas, não foi exatamente isso o ocorrido com o povo Xukuru do Ororubá. Contudo, à medida que o tempo ia passando, os padres Oratorianos tinham como “ofício” imposto aos indígenas ensiná-los a ler e escrever na língua do dominador, ou seja, a imposição do ensino e aprendizagem representava a Educação. O Governador Geral do Brasil, Tomé de Sousa (1503-1579), trouxe de Portugal os primeiros Jesuítas para “catequizar” os povos ori- ginários no território brasileiro e, para que isto ocorresse, era necessário ser introduzido o idiomalusitano, substituindo as línguas originárias. Sendo assim, as missões da catequese foram espalhando-se por décadas e séculos em várias regiões no território brasileiro (SAVIANI, 2013, p. 26). Em 1661, os Xukuru do Ororubá, habitam as terras da Ribeira do Rio Ipojuca, Serra do Ororubá e região do Agreste, como os indígenas atualmente nomeiam o território, que corresponde a 27.555 hectares, onde estão distribuídas as aldeias do povo Xukuru (SILVA, 2017). Dois séculos após o início da atuação dos padres entre os Xukuru do Ororubá na missão de Monte Alegre, posteriormente Vila de Cimbres, ocorreu a extinção oficial do aldeamento. Com isso, a língua originária ficou cada vez mais distante, pois o medo de serem castigados/as fazia parte do cotidiano indígena. Desse cenário de opressão, ficaram apenas palavras guardadas nas memórias e tradições orais. O povo Xukuru do Ororubá busca preservar as palavras da língua originária como forma de resistência e afirmação identitária. Nesse movimento, consideramos que a escola pública tem um papel importante para contribuir com essa afirmação indígena. Nosso compromisso com a formação dos/as professores/as, que atuam na rede pública e particular de ensino em Pesqueira, configu- ra-se como justificativa das mobilizações para as mudanças na Educa- ção, uma vez que “na formação permanente dos/as professores/as, o momento fundamental é o da reflexão crítica [...]” (FREIRE, 1996, p. 39). Com esse propósito, ecoamos o nosso reconhecimento, valorização 26 e enaltecimento das palavras da Língua Xukuru do Ororubá. Esta língua originária do povo Xukuru do Ororubá, silenciada na missão pelos ora- torianos cujas violências físicas e simbólicas parecem tentar apagar, mas que, com a força desse povo, resiste e existe. Unimo-nos ao movimento para o conhecimento histórico da língua do povo originário Xukuru do Ororubá com o compromisso de contribuir para que cada docente no município de Pesqueira (re)conheça e valorize as palavras da Língua Xukuru do Ororubá, já que estas com- põem a identidade do povo e fazem parte dos conhecimentos indígenas. Portanto, é um conhecimento significativo para a aprendizagem. Após a apresentação dos traçados que me centraram enquanto mulher indígena, docente da educação básica e pesquisadora, e da con- tribuição deste trabalho para a valorização do meu povo, sigo para o campo teórico que sustenta este estudo e que nos dá base para dialogar com o objeto desta obra. 27 CAPÍTULO II BRASIL, POVOS ORIGINÁRIOS E SUAS LÍNGUAS: PANORAMA GERAL Os portugueses invadiram o Brasil em 1500, mas as tentativas do processo de colonização não ocorreram de maneira amigável nos grupos étnicos nas primeiras décadas do século XVI. Houve diversos “reveses” (SAVIANI, 2013, p. 25) e enfrentamento de resistência dos povos indígenas para afirmar suas expressões socioculturais narrativas. Para a dominação colonial sobre as “gentes” que habitavam essas terras, a Coroa Portuguesa buscou “educá-los” a partir da catequese e do ensino do idioma português aos povos indígenas, como meio para desapropriá-los/ as das terras, sem tantos conflitos entre os homens brancos “civilizados” e os originários. No início do século XVI e mais precisamente nos anos de 1549 período de colonização, os europeus invadiram o território brasi- leiro e juto com os invasores chegaram os primeiros padres Jesuítas, com missões atribuídas pelo rei de tentar mudar a cultura do povo indígena habitando as terras brasileiras e donos/as do Brasil. Para atender a esse mandato, os Jesuítas criaram escolas e instituíram colégios e seminários que foram espalhando-se pelas diversas regiões do território. Por essa razão considera-se que a história da educa- ção brasileira se inicia em 1549 com a chegada desse primeiro grupo de jesuítas (SAVIANI, 2013, p. 25). O grupo dos Jesuítas passou a viver no Brasil e, paulatinamente, desenvolveram amizade com os povos indígenas, com o objetivo de tentar catequizá-los/as sem conflitos. Contudo, a partir de 1549, foram cons- truídas escolas por todo território brasileiro, dando início a história da educação no Brasil no século XVI (SAVIANI, 2013, p. 25). Com isso, podemos perceber os interesses dos colonizadores em permanecer no território brasileiro nas tentativas de catequização. 28 Os ensinamentos dos missionários Jesuítas ocorreram nas várias regiões do Brasil. Ao introduzir o idioma do Rei de Portugal, buscavam superar a resistência dos indígenas. Esse foi um dos meios mais efica- zes de empoderamento e dominação, que provocou, com o passar dos séculos, o apagamento de muitas línguas dos povos originários, como a língua dos Xukuru do Ororubá. Uma vez que as missões de catequizar espalharam-se por todo território. Uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘vale’ na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais. Esta afirmação é válida, em termos internos, quando confrontados varieda- des de uma mesma língua, e em termos ‘externos’ pelo prestígio das línguas no plano internacional (GNERRE, 1991, p. 7). Nesse sentido, a Língua Portuguesa, considerada de “prestígio” nos processos de colonização do Brasil, foi estabelecida como relação de poder sobre os povos originários, sendo imposta para aquisição, pois considerava-se a língua lusitana de valor por ser da elite dominante. Os colonizadores, diante da variedade de línguas indígenas existentes no território brasileiro, ficaram impressionados. Contudo, mesmo diante da admiração com as línguas, não procuraram preservá-las e, por isso, o Brasil teve perdas irreparáveis. De acordo com o censo do IBGE de 2010 mais de 270 (duzentos e setenta) línguas indígenas são faladas no Brasil. Nesse sentido, acreditamos que, no período das tentativas de colonização os povos originários, verdadei- ros donos do Brasil foram aloglotas, pois falavam diversas línguas no terri- tório brasileiro em meio a convivência com os invasores europeus da época. A partir da convivência com os indígenas, os portugueses, através do contato com homens, mulheres, jovens e crianças nativas, aprenderam a língua Tupi e tornaram-se bilíngues. Outras línguas estavam vinculadas à imponência do Tupi e formavam diversas famílias linguísticas, conforme 29 os vários grupos étnicos existentes. Com isso, os portugueses passaram a se comunicar por meio do Tupi e passaram a incomodar outras nacionali- dades que invadiam os territórios indígenas como os espanhóis, franceses, italianos, entre outros povos. Segundo Rodrigues (1986). a língua indígena tradicionalmente mais conhecida dos brasileiros conquanto esse conhecimento se limite em regra só a um de seus nomes, Tupi - [...]. Esta foi a língua predominante nos contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII [...]. Seu uso pela população luso-brasileira, tanto no norte quanto no sul da colônia, era tão geral no século XVIII, que o governo português chegou a baixar decretos proi- bindo esse uso (RODRIGUES, 1986, p. 21). Com o Diretório Pombalino, os aldeamentos passaram a ter à con- dição de povoados como aconteceu com o aldeamento dos Xukuru de Cim- bres. A lei Pombalina apresentava diretrizes para o povo indígena, como por exemplo: a união dos originários/as com europeus, filhos/as nascidos/as da união teriam sobrenomes dos pais estrangeiros e exigia-se obrigatoriedade dos indígenas na prestação de trabalhos à colonização em suas próprias terras. Aparentemente, com a criação da Lei Pombalina, os originá- rios tinham a impressão de que estavam livres, porém eram impedidos de seguir seu próprio modo de viver em comunidade. Contudo, a lei “determinava uma série de atribuições” (OLIVEIRA; MESQUITA, 2019, p. 5) aos povos indígenas. Essa lei privou os indígenas de suas terras por uma política de utilidade econômica atenta às necessidades da colonização e, ao mesmo tempo, de negação das tradições culturais nativas e da “ liberdadea todos” (PINHEIRO, 2011, p. 143) os originários como o próprio território; uma vez que a terra é fundamental para afirmar o pertencimento, a lín- gua, o artesanato, os rituais, as danças o culto aos ancestrais, as memórias e as histórias herdadas, passadas de pais para filhos/as através da oralidade, nas rodas de conversa no meio familiar. 30 Com a criação da Lei Pombalina, as Missões da administração eclesiástica, formada por padres de várias congregações, dentre eles, os Padres Oratorianos no século XVII (que ocupavam a região do atual município de Pesqueira desde o ano 1661), foram extintas e os originários emanciparam-se da guarda dos missionários. Mas, a legislação também incentivou a vinda de portugueses para as terras das antigas missões. Com isso, as terras foram invadidas e muitos indígenas deixaram de viver de modo coletivo em suas próprias terras. A aplicação da Lei aos indígenas foi inserida no contexto sócio- -histórico de reformas da coroa portuguesa na segunda metade do século XVIII e se constituiu como tentativa do Estado Português para organizar a mão-de-obra originária para exploração e benefícios da elite dominante. A Coroa Portuguesa tinha a preocupação de controlar a ação dos mis- sionários sobre os indígenas. Compreendemos a ação dos missionários também como envolvimento nas transações comerciais que escapavam do alcance da Coroa, assim como o trabalho de evangelização nas missões, que segregava os indígenas do convívio social com colonizadores SILVA, 2017). Algumas etnias não conseguiram adaptar-se às novas situações. Assim, muitas desapareceram e outras resistiram, vivenciando as transforma- ções e os protagonismos ao longo da história, como os Xukuru do Ororubá, O Diretório Pombalino determinava uma série de atribuições aos chamados “diretores” dos aldeamen- tos; responsáveis por estabelecer os termos dos con- tratos de trabalho, eles também deveriam estipular e receber o salário a ser pago sob a alegação de prote- ger os índios da usura dos colonos. Os objetivos do Diretório eram claros: a dilatação da fé, a extinção do gentilismo, a propagação do evangelho, a civi- lidade dos índios, o bem comum dos vassalos, o aumento da agricultura, a introdução do comércio e o estabelecimento, a opulência e a total felicidade do Estado (OLIVEIRA; MESQUITA, 2019, p. 5). 31 Os povos indígenas vivenciaram uma violência “simbólica”, porque compreendemos que “todo poder de violência [...] que chega a impor significações e a impô-las como legítima, dissimulando as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto é, propriamente simbólica” (BOURDIEU; PASSERON, 1975, p. 19), exercida através do corpo, mas sem coação física e ferimentos visíveis, con- tudo os danos foram morais e psicológicos aos indígenas. Podemos dizer que os povos originários passaram por diferentes tipos de medos, como: perder os/as filhos/as, os/as companheiros/as, a família e outras perturbações psicológicas, que, consequentemente, acarretaram danos ao sono, à alimentação e ao modo de viver em comu- nidade pelos processos de colonização. “Contudo, qualquer um poderá se convencer disso.” (BOURDIEU, 2001, p. 09). Essa violência simbólica ocorreu por imposição determinada no meio econômico, social, cultural e religioso em todo território brasileiro. O discurso dominante induziu muitos originários a se posicionarem no contexto social de obediência para gerar riquezas à Coroa Portuguesa. O significado da palavra colonização, de acordo com alguns dicionários, é um conjunto de medidas adotadas por um governo em relação a uma determinada região ou população com objetivos de prote- ger. Porém, sabemos dos conflitos dos portugueses com o povo nativo. A palavra ‘colonização’ deriva diretamente do verbo latino colo. Os dicionários registram os seguintes significados para o verbo colo, colui, cul- tum, colore: 1. cultivar: 2. morar; 3. cuidar; 4. querer bem a, proteger; 5. realizar; 6. honrar, venerar (TORRINHA, 1945, p. 163). Conforme o autor, a palavra “colonização” tem um importante significado, mas os povos indígenas não foram cuidados e não tiveram os territórios protegidos. Eles perderam as terras, as línguas ancestrais e, por décadas, foram privados/as dos rituais e expressões socioculturais, 32 ou seja, foram oprimidos segundo os interesses da Coroa Portuguesa de exploração de recursos e de habitação. Mas, segundo o jornal português Expresso, com publicações semanais desde 1973, há mais de 5 (cinco) décadas, Pedro Adão e Silva, ministro de Portugal, vai tentar se preparar para devolver às ex-colônias tesouros adquiridos por meio de todos os tipos de violência simbólica cometidas no passado contra os povos indígenas, como no Brasil. Portugal [...] está se preparando para devolver os tesouros tomados de suas ex-colônias. A notícia foi revelada na última sexta-feira (25) em publicação no semanário Expresso, onde Pedro Adão e Silva, o ministro da Cultura de Portugal, anunciou que o país pretende preparar uma lista com todos os tesouros sob seu poder para que possam ser devol- vidos às suas respectivas nações. Entre os séculos XV e XIX, os portugueses exploraram terras lon- gínquas e acumularam diversas colônias na África, na Ásia e na América do Sul, incluindo o Brasil. Nos séculos XV e XVI, Portugal era uma verda- deira potência e, [...] suas frotas colonizadoras ren- daram ao país o título de primeiro império global. (Disponível em: Acesso em: 08 dez. 2021, online). A afirmação do ministro português em devolver às ex-colônias os tesouros dos quais tem posse, devido à colonização, será um tempo para celebrar, pois entendemos ser um gesto de humildade e, ao mesmo tempo, um pedido de desculpa ao Brasil e aos povos originários, assim como a outros povos e nações. Mas, jamais apagará da memória dos povos originários as violências físicas e psicológicas, pois foram e serão histórias jamais superadas pelas ex-colônias. 33 A nota publicada no periódico Expresso explica que os tesouros “são obras de arte, bens culturais, objetos de culto e até restos mortais ou ossadas reti- radas das suas comunidades originais”. O inven- tário com as riquezas tomadas de outros países séculos atrás devem ser efetuado com o auxílio de acadêmicos e diretores de museus. (Disponível em: Acesso em: 08 dez. 2021, on line). As obras de arte, os bens culturais e os objetos religiosos, usur- pados dos povos no Brasil, serão bem-vindos/as, porque os artistas, e em especial os das obras de artes do passado, irão evidenciar ideias e expressões da época ao projetar nos sujeitos suas intenções quando forem contem- pladas em exposições nacionais e internacionais. Se bem que, ao observar uma obra de arte, não vamos compreender totalmente o pensamento do artista. Todavia, as interpretações são nossas a partir do contexto histórico. Compreendemos que os tesouros poderão corresponder a uma coleção antiga de objetos preciosos/as, como: joias, pedras, ouro, cédulas em dinheiro, moedas e outros itens, cujos donos não tenham memória brasileira. Mas, sabemos que pertencem ao Brasil e, por isso, devem voltar ao país de origem. Esperamos que, a partir da parceria entre as autoridades do Brasil e Pedro Adão e Silva, Portugal não somente devolva os tesouros acima citados às ex-colônias, mas também documentos da época que tratam das histórias dos povos originários. Acreditamos na existência de registros da época que serão importantes para compreender ainda mais sobre as histórias e as línguas indígenas. Esta notícia do jornal português Expresso provoca expectativas, pois o momento de entrega dos tesouros ao Brasil será respectivamente aguardado. Esperamos que a notícia nãofique somente no papel, mas que 34 venha a acontecer de fato. Ao esperar, e já com indagações, gostaríamos de saber, se, além dos tesouros, existem registros sobre as línguas originárias do Brasil. Uma vez havendo, também desejamos a devolução ao Brasil. Segundo a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, Art. 1.266, aquele/a que encontrar tesouros tem o devido direito de ficar com metade e cabe a outra parte ao proprietário. Mas, no caso do Brasil, os tesouros foram usurpados e levados para Portugal durante séculos. Sendo assim, os tesouros e as obras de artes não serão divididos com aquele país. O ministro Pedro Adão e Silva, ao devolver as obras de arte e os objetos de culto retirados dos povos originários do Brasil, irá colaborar com o país nos contextos social, religioso, político, econômico, cultural e, em especial, o educacional. Pois, pesquisas poderão surgir sobre os bens socioculturais, com base na ciência, para ajudar na compreensão sobre o porquê dos tesouros e das obras de artes permaneceram por tanto tempo em Portugal. Reconhecemos na iniciativa de Pedro Adão e Silva de devolver os bens ao Brasil uma maneira de fazer história, porque trarão para a nação brasileira novos olhares para o passado, presente e o futuro, uma vez que os tesouros são atemporais para a realização de pesquisas. De acordo com o jornal português Expresso, “Portugal [...] se pre- parando para devolver os tesouros tomados de suas ex-colônias” e ao existi- rem documentos do Brasil sobre as línguas dos povos originários em meio aos tesouros, desejamos que regressem junto com os bens culturais do país. Como apontou o citado jornal, Portugal conserva os tesouros de algumas ex- colônias, inclusive do Brasil. Dessa forma, acreditamos na possibilidade de haver registros de povos originários, como: livros, revistas, jornais, entre outros documentos sobre as línguas indígenas. Nesse sentido, ao existir, desejamos o retorno para o Brasil. Acreditando que estarão disponíveis para pesquisas, inclusive através da internet. Por isso, desejamos a volta de todos os bens socioculturais ao Brasil, uma vez que não substituirão as perdas linguísticas do país, porque infe- lizmente muitas línguas foram apagadas e não há como recuperar. Então, diante da situação do desaparecimento de centenas e milhares de línguas indígenas, Portugal, juntamente com o Brasil, poderiam ser parceiros na 35 elaboração de políticas públicas para capacitar professores/as para atuar no campo de formações docentes sobre as línguas originárias ameaçadas de desaparecerem, a partir da Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Portanto, entendemos o passado dos povos originários no Brasil como um assunto delicado que requer reflexão. Sobretudo, porque a devolução ou não dos chamados tesouros por Portugal não apagará da história toda violência simbólica e física vivenciadas pelos povos indí- genas no território brasileiro, em específico, a perda de línguas nativas como a língua do povo Xukuru do Ororubá de Pesqueira, temática que discutiremos neste estudo. 2.1 ALDEAMENTO DE CIMBRES No período colonial, mais precisamente na segunda metade do século XVII, os originários Xukuru do Ororubá foram submetidos a um aldeamento na Missão do Ororubá, posteriormente nomeada Aldea- mento de Cimbres, atualmente distante 18 km da atual cidade de Pes- queira. A missão foi fundada por padres da Congregação do Oratório de São Felipe Neri, também chamados Oratorianos, para catequizar, ensinar a ler e escrever as crianças, jovens e adultos. Todavia, possivel- mente como ocorreu em outras regiões do Brasil, os “poucos índios, entretanto, devem ter aprendido a escrever [...] com os missionários, mas com o tempo devem ter-se alfabetizado” (RODRIGUES, 1986, p. 35), com a Língua Portuguesa. No caso da educação instaurada no âmbito do processo de colonização, trata-se evidentemente, de aculturação, já que as tradições e os costumes que se busca inculcar decorrem de um dinamismo externo, isto é, que vai do meio cultural do colo- nizador para a situação objeto de colonização (SAVIANI, 2013, p. 27). 36 Mesmo diante de um cenário de opressão, vivenciado pelos ante- passados dos indígenas Xukuru do Ororubá que aos poucos foram dei- xando de falar a língua nativa no cotidiano, cujas terras foram invadidas e negadas, as expressões socioculturais e a cosmologia continuaram sendo socializadas através da oralidade. Todavia, os indígenas permaneceram afir- mando os direitos, uma vez que o território indígena Xukuru nativo sempre será “seu chão, o cheiro de seu chão, sua gente” (FREIRE, 2021, p. 46). Após quase dois séculos da missão fundada na Serra do Oro- rubá, surgiu a cidade de Pesqueira na segunda metade do século XIX e o aldeamento foi oficialmente extinto, com uma nova reconfiguração da identidade dos originários. Com as determinações do chamado Diretório Pombalino em 1757, as terras indígenas foram invadidas por fazendeiros. Os indígenas passaram a trabalhar nas suas próprias terras invadidas para produzir alimentos nas lavouras para a sobrevivência. As circuns- tâncias de desfavorecimentos do povo indígena coadunaram-se para o enriquecimento dos latifundiários. Assim, mesmo após a extinção do Aldeamento de Cimbres, os indígenas Xukuru continuavam sendo oprimidos (SILVA, 2011). Os originários que não aceitavam as determinações legais eram considerados selvagens e muitos foram castigados pela resistência, muitos fugiram por querer defender os direitos, como as terras, a língua originária e as expressões socioculturais. Os atuais originários Xukuru do Ororubá têm o Português falado como a primeira língua nas 24 aldeias do terri- tório indígena. E, em situações específicas, algumas palavras da Língua Xukurusão evidenciadas no território indígena, como nas assembleias que ocorrem anualmente. Mesmo diante desse cenário, muitos/as pro- fessores/as das escolas públicas e privadas na cidade de Pesqueira não (re) conhecem o porquê da língua do povo indígena Xukuru do Ororubá ter sido apagada e de restar hoje apenas um conjunto de palavras. Portanto, a opressão a esses indígenas vem ocorrendo há mais de quatro séculos em meio às mobilizações dos atuais Xukuru do Ororubá que não falam a língua nativa. O que ressalta a necessidade das pala- vras indígenas serem valorizadas e (re)conhecidas a partir de formações 37 continuadas, para não sejam apagadas, como ocorreu com a Língua Xukuru do Ororubá, segundo apontam documentos nacionais e de âmbito internacional. Como pesquisadora, me reconhecendo indígena Xukuru do Ororubá e cidadã de Pesqueira, falar do povo originário é ter o olhar socioantropológico, que consiste no estudo das sociedades humanas, assim como o respeito pelas diferenças sociais existentes. Sendo assim, “o que distingue a antropologia das outras ciências sociais é o ela incluir no seu campo, para estudá-las cuidadosamente, sociedades que não são a nossa sociedade” (BENEDICT, 2017, p. 13). O trabalho de formação docente para vivência da identidade étnica do povo Xukuru do Ororubá, no coti- diano escolar nas escolas públicas e particulares da cidade de Pesqueira, vai contribuir para o reconhecimento e a valorização da etnia Xukuru do Ororubá, intrinsecamente vinculada à história da cidade de Pesqueira. A pertinência [...] em trazer algumas considerações da sociologia da cultura e da Antropologia para melhor situar o grupo indígena Xukuru no âmbito nacional, o que não impede de introduzir algumas reflexões sobre a língua como um dos principais elementos (mas não o único) representativos de uma cultura no processo de análise do habitus que distingue os agentes “na luta de classes”, em suas disputas simbólicas, ainda uma questão pontual na contemporaneidade (CARVALHO, 2018, p. 69). Nesse sentido, tentaremos situar os Xukuru do Ororubá na história, no território, nas expressões socioculturais e nas mobilizações pela garantia de direitos à etnicidade, a partir da Constituição Federalde 1988. Durante a elaboração deste documento, Francisco de Assis Araújo, o Cacique Xicão Xukuru, esteve presente nas mobilizações que ocorre- ram na Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988), para garantir os direitos dos indígenas Xukuru do Ororubá não somente em Pesqueira, mas também no Nordeste e no país. 38 O povo indígena Xukuru do Ororubá habita nos municípios de Pesqueira e Poção, território indígena com vinte e quatro aldeias, corres- pondendo a 27.555 hectares. Essas aldeias estão divididas em três espaços geograficamente denominados pelos indígenas como: Agreste, Serra e Ribeira. Segundo Carvalho (2018, p. 84), essa nominação ocorreu para facilitar a organização das aldeias. Agreste (Cimbres, Mascarenha, Cajueiro, Sucu- pira, Guarda); Ribeira (Jatobá, Curral Velho, Passagem, Caldeirão, Pão de Açúcar, Pé de Serra dos Nogueira, Pé de Serra de São Sebastião (Oiti), Capim de Planta); Serra (Couro Dantas, São Cae- tano, Caípe, Brejinho, Lagoa, Santana, Cana Brava, Afetos, Gitó) (CARVALHO, 2018, p. 84). Em cada aldeia, há um representante que se preocupa com o bem- -estar de todos os seus parentes. Quando surgem problemas, tentam resol- ver e, quando não conseguem, esperam o momento oportuno de reunião com os outros representantes, realizada com a presença de Marcos Luidson de Araújo, Cacique do povo Xukuru do Ororubá e também eleito prefeito da cidade de Pesqueira1. Os representantes de cada aldeia expõem as situa- ções e juntos buscam soluções para os problemas dos parentes Xukuru. Os Xukuru têm as lideranças que representam as aldeias, pessoas que formam a equipe de conselhei- ros do Cacique e lhe repassam a situação das respec- tivas aldeias. Quaisquer que sejam os problemas (Justiça, Terra, Saúde, Educação) são repassados para o cacique que dará andamento em busca de solução, em um processo de luta incessante pelos direitos (CARVALHO, 2018, p. 87). 1 O indígena foi impedido de tomar posse em função de uma situação que o enqua- dra como “ficha suja”, embora ele não tenha participado do crime patrimonial que lhe foi imputado. 39 A exposição dos problemas nas reuniões é para que todos possam chegar a acordos de como serão resolvidas as questões em discussão. As reuniões acontecem em Língua Portuguesa e os debates sobre as situações não pretendem expor os parentes, mas contribuir para que todos possam colaborar e ajudar uns aos outros em espírito de coletividade no território indígena Xukuru do Ororubá. Para que os originários pudessem estar reunidos, atualmente, tratando de assuntos pertinentes à Educação e à Saúde, foram necessá- rios posicionamentos e reivindicações das lideranças indígenas para o reconhecimento do direito ao território indígena. O que ocorreu após muitos conflitos violentos entre o povo Xukuru e os latifundiários invasores das terras indígenas. Nos dias atuais, os Xukuru da Serra do Ororubá podem marcar reuniões no próprio território com os paren- tes das aldeias para resolver assuntos do interesse da etnia. Outrora, os indígenas trabalhavam em suas próprias terras invadidas por fazendeiros. As terras indígenas foram legalmente herdadas do período da missão religiosa, todavia, no passado, ocorreu a expulsão dos originários por fazendeiros moradores da cidade de Pesqueira. “Considerando a experiência pessoal do etnógrafo em sua rela- ção observador– informante” (CARVALHO, 2018, p. 68), recordo, quando morei em Cimbres, uma das aldeias no atual território Xukuru, ter visto muitas vezes originários passarem do trabalho exploratório nas terras dos fazendeiros. Os indígenas seguiam para o trabalho por volta das 4:00 horas da manhã e retornavam para suas casas às 17:00 horas da tarde. Não esqueci dessas lembranças, porque “a perda de memória é, portanto, uma perda de identidade” (CANDAU, 2018, p. 59). Recordo de rostos com aparência cansada, fatigados, homens e mulheres magros/as ao passarem do lado da casa onde morei. Muitas vezes, brinquei com meus parentes, filhos/as dos/as originários/as, que deixavam seus/suas filhos/as para ir ao trabalho escravizado em locais chamados de Rebeiras, Pau Ferro 1, Pau Ferro 2, Pau Ferro 3, Tiogó, Passagem, entre outros locais. 40 [...] Seja um trabalhador, seja ele um operário, um burocrata ou um pianista, não pode se conduzir, improvisar ou criar livremente. Ele é sujeito da estrutura estruturada do campo [...]. Mas, den- tro de limites, de restrições inculcadas e aceitas, a sua conduta, a improvisação e criação são livres: conformam a estrutura estruturante do habitus (BOURDIEU, 2004, p. 217). O trabalho realizado pelos originários Xukuru do Ororubá em suas próprias terras, invadidas pelos fazendeiros de maneira ilegal, eram a plantação de feijão, milho e mandioca para a preparação de farinha. A mínima parte de alimentos produzidos na agricultura que cabia aos indí- genas Xukuru eram vendidos por um preço bastante inferior aos donos de supermercados na cidade de Pesqueira. A maior parte desses alimentos era destinada aos fazendeiros invasores nas terras indígenas. Os originá- rios ficavam com uma parte mínima para alimentar sua família, assim como recebiam um insignificante pagamento para a próxima plantação. Assim, os originários, por um longo período, viveram dentro de limites e restrições. Mas, continuaram firmes e mobilizados por reconhecimento dos direitos sobre as terras invadidas. Atualmente, os etnólogos “estão convencidos de que as sociedades diferentes da nossa são sociedades humanas tanto quanto a nossa [...] e não “primitivos” autômatos (em todos os sentidos do termo)” (LAPLATINE, 2007, p. 81). Nesse sen- tido, os Xukuru do Ororubá, assim como outras etnias, conquistaram o respeito pelas diferenças étnicas e socioculturais. Recordo de meus pais terem alimentado muitos/as parentes no contexto social onde vivi junto a meus irmãos. Recordo de minha mãe, depois de ter ficado viúva e com a responsabilidade do sustento dos/as filhos/as, se desdobrar com idas e vindas para Pesqueira para fazer com- pras para nossa venda, como era chamada na época, para comercializar com nossos parentes na mercearia. Lembro-me do que compravam para passarem o mês com sua família: feijão, farinha, fubá, café, açúcar, ovos, carne de charque, sabão de pedra e a conhecida bolacha seca ou doce. 41 As compras eram poucas para todo o mês. Nossos parentes pagavam a compra anterior e faziam outra. Relembro de parentes terem solicitado socorro altas horas da noite e, com boa vontade e ligeireza, vi meu pai, algumas vezes, vestir a roupa e ir pegar o carro na garagem atrás de casa para socorrer e levar ao hospital em Pesqueira. Nessa perspectiva, penso ser importante refletir o que escreveu um antropólogo: A antropologia nunca existe em estado puro. Seria ingênuo, sobretudo da parte de um antropólogo, isolá-la de seu próprio contexto. Seria paradoxal, sobretudo para uma prática da qual um dos objeti- vos é situar os comportamentos dos que ela estuda em uma cultura, classe social, Estado, nação, ou momento da história deixar de aplicar a si próprio o mesmo tratamento (LAPLATINE, 2004, p. 165). Ouvi, parentes relatarem ter passado mal por conta do trabalho cotidiano, do dia fora de casa e da alimentação que não supria as necessi- dades de horas, semanas e meses de labuta debaixo do sol forte, do frio, do cansaço e da sede. Os relatos prescritos não estão isolados do contexto social e histórico do qual vivi. Narro esses fragmentos porque faz parte do que presenciei de parentes não consanguíneos. Alguns parentes cansados dos trabalhos escravizados/as deixavam famílias para residirem em outros estados, como São Paulo, Recife. Alguns retornavam e passavam a morar na cidade de Pesqueira, precisamente no Bairro da Caixa D’água e Xucu- rus, buscavam trabalhos nas fabricas de doce, como a Peixe, omitindo a identidade originária. Parentes bem próximos, nascidos na atual Aldeia do Brejinho, trabalharam na fazenda de Joaquim Mota e depois do Sr.