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UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA 
CURSO DE BACHARELADO EM MEDICINA VETERINÁRIA
GIRLENE DA SILVA FERREIRA E PAULA
RELATO DE CASO: ABORDAGEM CLÍNICA DA CISTITE IDIOPÁTICA FELINA
GOIÂNIA - GO
 
 
 2024
GIRLENE DA SILVA FERREIRA E PAULA
RELATO DE CASO: ABORDAGEM CLÍNICA DA CISTITE IDIOPÁTICA FELINA
Trabalho de conclusão de estágio, apresentado como parte dos requisitos para conclusão do Curso de Bacharel em Medicina Veterinária.
Orientadora: Dra. Leila Maria Leal Parente
GOIÂNIA - GO
 2024
RESUMO
O presente trabalho apresenta um relato de caso clínico sobre a abordagem de um felino diagnosticado com cistite idiopática felina (CIF), realizado durante o estágio supervisionado em um hospital veterinário. A CIF é uma condição multifatorial de alta prevalência em gatos, caracterizada por inflamação da bexiga sem causa identificável, frequentemente associada ao estresse. O estágio supervisionado representou uma etapa crucial na formação acadêmica, proporcionando ao estagiário o desenvolvimento de habilidades práticas, a consolidação dos conhecimentos teóricos e uma compreensão dos desafios éticos e técnicos da medicina veterinária.
Palavras-chave: cistite idiopática felina, estágio supervisionado, medicina veterinária, relato de caso.
ABSTRACT
This study presents a clinical case report on the management of a feline diagnosed with feline idiopathic cystitis (FIC), conducted during a supervised internship at a veterinary hospital. FIC is a multifactorial condition with a high prevalence in cats, characterized by bladder inflammation of unknown origin, often associated with stress. The supervised internship was a crucial step in academic training, providing the intern with practical skills development, consolidation of theoretical knowledge, and an understanding of the ethical and technical challenges of veterinary medicine.
Keywords: feline idiopathic cystitis, supervised internship, veterinary medicine, case report.
LISTA DE ABREVIAÇÕES
AINES - Anti-inflamatórios Não Esteroidais
CEP - Código de Endereçamento Postal
CIF - Cistite Idiopática Felina
DML - Depósito de Material de Limpeza
DTUIF - Doenças do Trato Urinário Inferior Felino
FeLV - Vírus da Leucemia Felina
FIV - Vírus da Imunodeficiência Felina
GAGs - Glicosaminoglicanos
GO - Goiás
HPA - Eixo Hipotalâmico-Hipofisário-Adrenal
PIF - Peritonite Infecciosa Felina
SRD - Sem Raça Definida
LISTA DE FIGURAS
· Figura 1 – Print do Google Maps (distância da residência até o local do estágio).
· Figura 2 – Fachada da Clínica Saúde Animal.
· Figura 3 – Recepção da Clínica Saúde Animal.
· Figura 4 – Elevador da clínica.
· Figura 5 – Consultório A.
· Figura 6 – Consultório B.
· Figura 7 – Consultório C.
· Figura 8 – Consultório D.
· Figura 9 – Sala de vacinas.
· Figura 10 – Sala de internação para cães sem doenças infectocontagiosas.
· Figura 11 – Sala de internação para cães e gatos em quarentena.
· Figura 12 – Sala do Raio-X.
· Figura 13 – Sala de ultrassonografia.
· Figura 14 – Sala de expurgo.
· Figura 15 – Sala de esterilização.
· Figura 16 – Centro cirúrgico 1.
· Figura 17 – Canil de isolamento.
· Figura 18 – Gatil de isolamento.
· Figura 19 – Depósito de Materiais de Limpeza (DML).
· Figura 20 – Copa da clínica.
· Figura 21 – Garagem com freezer para armazenamento de corpos.
· Figura 22 – Gráfico referente aos animais atendidos.
· Figura 23 – Gráfico referente aos exames de imagem realizados.
· Figura 24 – Gráfico referente às internações e desfechos.
· Figura 25 – Ultrassonografia da vesícula urinária repleta.
SUMÁRIO
1. Descrição do Ambiente de Estágio .............................................................. 8
2. Descrição das Atividades Desenvolvidas ................................................. 19
2.1 Experiências Adquiridas .......................................................................... 21
3. Relato de Caso ............................................................................................. 23
3.1 Introdução ................................................................................................ 23
3.2 Relato de Caso ........................................................................................ 25
3.3 Discussão ................................................................................................ 31
4. Conclusão .................................................................................................... 34
Referências Bibliográficas .................................................................................... 36
1. Descrição do ambiente de Estágio
O estágio curricular obrigatório, realizado na Clínica Saúde Animal, localizada na rua Montes Claros, Qd. 5, Lt. 10, CEP: 74325-110, Setor: Parque Amazônia, Goiânia-GO.(Figura 1) 
Figura 1 - Print do Google Maps. (distância da residência até o local do estágio)
Fonte: Google Maps
A Clínica Saúde Animal oferece atendimento veterinário 24 horas por dia, 7 dias por semana, com foco em cães e gatos. A equipe é composta por clínicos gerais, cirurgiões e veterinários especializados em diversas áreas. Serviços especializados, como cardiologia, anestesiologia, neurologia, oftalmologia, oncologia e dermatologia, são realizados tanto pela equipe interna quanto por parceiros qualificados. Sob a direção do Dr. Rafael Antônio Ramos e Silva, a clínica conta com uma equipe de 7 profissionais de plantão diariamente, prontos para atender emergências. Os serviços incluem consultas, cirurgias, internações, raio-x, ultrassonografia e vacinação. Durante o dia, estagiários auxiliam no atendimento, enquanto à noite há apoio de auxiliares e veterinários fixos, como a Dra. Sabrina Almeida, o Dr. Ithalo Oliveira, a Dra. Cíntia Chaibub e a Dra. Lorena Capela (Figura 2).
Figura 2 – Fachada da Clínica Saúde Animal
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
A recepção da Clínica Saúde Animal é equipada para proporcionar conforto aos tutores, com um balcão de atendimento, computador, ar-condicionado, televisão, balança, lixeira e uma bandeja de café à disposição. Há 7 cadeiras disponíveis para espera confortável. (Figura 3)
Figura 3 – Recepção da Clínica Saúde Animal
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
O prédio conta com um elevador(figura 4) que dá acesso a todos os andares da clínica. No primeiro andar, após sair da recepção, estão localizados os consultórios A, B, C e D, prontos para receber os pets em consultas e exames. (Figura 4)
Figura 4 – Elevador da Clínica Saúde Animal
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Em todos os consultórios médicos tem-se uma mesa com computador e impressora, cadeira para o plantonista e duas outras para tutores e acompanhantes. Armários com algodão, gazes, seringas, água oxigenada, álcool, cateter, agulhas, fios de suturas, caixa descarpack e outros insumos destinados ao pronto atendimento, duas lixeiras com os infectantes e outra não. Sala climatizada com ar-condicionado. Uma pia e uma bancada de inox. (Figura 5, 6, 7 e 8)
Figura 5 – Consultório A
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 6 – Consultório B
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 7 – Consultório C
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 8 – Consultório D
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Conta também com sala de vacinas, consultórios para animais igidos onde é passada todas as orientações de protocolos vacinais e vermifugais. Orientação aos tutores de gato sobre exames obrigatórios antes da vacinação. (Figura 9)
Figura 9 – sala de vacinas
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
O veterinário plantonista e o auxiliar veterinário realizam turnos de 12 horas. O veterinário começa às 20:00h e o auxiliar às 19:00h, encerrando seus plantões no dia seguinte, às 8:00h e às 7:00h, respectivamente.
No primeiro andar, a clínica conta com 4 áreas de internação. Uma é dedicada a cães sem doenças infectocontagiosas, com 15 baias para animais de pequeno e médio porte, além de outras 3 baias paraanimais de grande porte. Há também uma ala específica para cães e gatos em quarentena, com 8 baias de tamanhos padronizados, garantindo um ambiente adequado para a recuperação dos pets. (Figura 10 e 11)
Figura 10 – Sala de internação para cães sem doenças infectocontagiosas
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 11 - Sala de internação de cães e gatos em quarentena
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Os exames de raio-x e ultrassonografia são realizados e laudados até as 20:00h pela Dra. Sabrina Almeida, veterinária técnica em radiologia. (Figura 12 e 13)
Figura 12 - Sala do Raio-X
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 13 - Sala de Ultrassonografia
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
No segundo andar, de acesso restrito, estão localizados os centros cirúrgicos 1 e 2, a sala de paramentação, a sala de preparo para cirurgiões, anestesistas e auxiliares, e uma sala de recuperação pós-anestésica. Também há 2 áreas de internação para animais com doenças infectocontagiosas, sendo um canil com 8 baias e um gatil com 6 baias. O andar conta ainda com o dormitório do veterinário plantonista, que possui banheiro próprio, além de setores como a sala de expurgo (Figura 14) e a sala de esterilização (Figura 15).
Figura 14 - Sala de Expurgo
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 15 - Sala de Esterilização
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Antes de acessar o centro cirúrgico (figura 16), há um vestiário equipado com armários contendo luvas, máscaras, propés e uma pia para desinfecção das mãos. Nos centros cirúrgicos 1 e 2, há ar-condicionado, uma bancada com monitores, uma mesa automatizada, uma mesa destinada aos materiais estéreis, além de quatro lixeiras: uma para lixo comum, uma para compressas, uma para resíduos infectantes e outra para resíduos biológicos.
Figura 16 - Centro cirúrgico 1
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
A clínica conta com uma sala de isolamento para cães com doenças como parvovirose, cinomose e outras condições contagiosas (Figura 17). Há também uma sala de isolamento exclusiva para gatos com casos de FIV, FeLV, calicivírus, rinotraqueíte e PIF (Figura 18). Nessas áreas, os animais permanecem isolados durante o tratamento, evitando a propagação de doenças para outros pacientes.
Figura 17 - Canil de Isolamento
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 18 - Gatil de Isolamento
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
A sala de expurgo é equipada com uma pia, bucha, escova e outros materiais adequados para a limpeza dos instrumentos cirúrgicos, que são posteriormente encaminhados à sala de esterilização. Nesta sala, estão a autoclave e a seladora, além de armários com várias gavetas, onde são armazenados todos os materiais esterilizados necessários para a realização de cirurgias eletivas ou de emergência, devidamente organizados.
A clínica também possui depósitos de material de limpeza (DML) em todos os três andares (Figura 19), banheiros femininos e masculinos, além de uma copa ampla, equipada com geladeira, sanduicheira, cafeteira, mesas com cadeiras, armários e uma pia com bancada (Figura 20). No subsolo, há uma garagem e um freezer destinado ao armazenamento dos corpos dos animais que vieram a óbito (Figura 21).
Figura 19 - Depósito de Materiais de Limpeza
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 20 - Copa
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Figura 21- Garagem com Freezer
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
A Clínica Saúde Animal oferece uma estrutura completa e organizada, atendendo às necessidades dos estagiários no aprendizado prático da medicina veterinária. Desde o atendimento emergencial até procedimentos cirúrgicos e internações, o ambiente possibilita o contato com diversas áreas da prática clínica, em um espaço devidamente equipado e preparado para lidar com casos variados. As rotinas e protocolos estabelecidos, juntamente com o suporte de uma equipe qualificada, proporcionam aos estagiários uma vivência ampla e fundamentada, essencial para o desenvolvimento das habilidades exigidas na profissão.
2. DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS
Durante o estágio supervisionado, o estagiário desempenhou um papel ativo em diferentes áreas da prática clínica, abrangendo consultas, internações, diagnósticos por imagem e procedimentos cirúrgicos. Essas atividades proporcionaram uma visão completa da rotina veterinária, envolvendo desde o atendimento inicial dos pacientes até a realização de terapias e cuidados pós-operatórios. A participação direta em casos clínicos complexos permitiu ao estagiário desenvolver habilidades práticas, entender os desafios da profissão e consolidar conhecimentos teóricos aplicados à realidade da medicina veterinária.
No período de estágio, foram atendidos 290 cães e 64 gatos, o que reflete a predominância do atendimento a cães na rotina clínica. Os casos incluíram consultas de rotina, emergências e situações específicas relacionadas a doenças crônicas e agudas, com ampla diversidade de diagnósticos (Figura 22).
Figura 22 - Gráfico referente aos animais atendidos
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Os exames de imagem foram uma parte essencial da rotina, auxiliando no diagnóstico de diversas condições. Durante o estágio, foram realizadas 89 ultrassonografias e 48 radiografias, totalizando 137 exames. Esses procedimentos foram fundamentais para avaliar alterações internas, monitorar doenças crônicas e orientar tratamentos. A ultrassonografia foi amplamente utilizada para identificar alterações em órgãos abdominais, enquanto as radiografias foram aplicadas principalmente em casos de fraturas, avaliação torácica e detecção de corpos estranhos (Figura 23).
Figura 23 - Gráfico referente aos exames de imagens realizados
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
O setor de internações desempenhou um papel crítico no manejo de casos mais graves e na recuperação pós-operatória dos pacientes. Foram acompanhados 354 animais internados, com uma média de permanência variando de 24 a 72 horas, dependendo da gravidade dos casos. Entre os animais internados, 10 evoluíram para óbito devido à gravidade das condições, enquanto 16 foram submetidos à eutanásia, com base em critérios éticos e clínicos para minimizar o sofrimento dos pacientes. As internações incluíram monitoramento constante, administração de fluidos, medicações, nebulizações e curativos diários (Figura 24).
Figura 24 - Gráfico referente às internações e desfechos
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
Na área de procedimentos cirúrgicos, o estagiário participou de 43 cirurgias, com destaque para amputações de membros, mastectomias, exéreses tumorais e cirurgias reparadoras de fraturas. Essas intervenções exigiram um trabalho colaborativo, incluindo o preparo anestésico, a monitorização intraoperatória e o acompanhamento pós-operatório. Além disso, o estagiário esteve presente em 90 consultas clínicas, que abordaram diagnósticos e tratamentos diversos, e em 30 atendimentos ambulatoriais, que incluíram procedimentos rápidos como aplicações de medicação, troca de curativos e orientações aos tutores (Figura 25).
Figura 24 - Gráfico referente aos procedimentos realizados
Fonte: Arquivo pessoal Girlene de Paula, 2024
2.1 Experiências adquiridas 
O estágio supervisionado permitiu a participação em atividades práticas essenciais para o exercício da medicina veterinária. Entre as principais atividades, destacaram-se o manejo de animais, contenção para exames, administração de medicamentos por vias oral, subcutânea, intramuscular e endovenosa, bem como o monitoramento de sinais vitais, incluindo temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória e tempo de preenchimento capilar.
O estagiário esteve diretamente envolvido em procedimentos terapêuticos, como reposição de fluidos, aplicação de curativos, nebulizações e assistência em casos clínicos críticos. A prática diária inclui ainda a organização e limpeza de ambientes hospitalares,controle de internações e registro detalhado da evolução clínica dos pacientes internados.
Houve participação direta em rotinas cirúrgicas, desde o preparo do paciente, passando pela indução anestésica, até o acompanhamento pós-operatório. Durante o estágio, foram realizados 43 procedimentos cirúrgicos, incluindo amputações, mastectomias, exéreses tumorais e reparações de fraturas. Além disso, o estagiário participou de exames laboratoriais e de imagem, auxiliando na coleta, análise e interpretação de resultados.
Nas consultas clínicas e atendimentos ambulatoriais, foram realizadas atividades como o preenchimento de fichas clínicas, triagem de pacientes e assistência na execução de diagnósticos e tratamentos. A experiência contribuiu para o desenvolvimento de habilidades em diagnósticos diferenciais e aplicação de protocolos terapêuticos.
As atividades realizadas no estágio proporcionaram uma visão objetiva e técnica das demandas da profissão, enfatizando a importância de habilidades práticas e a necessidade de precisão nos processos diagnósticos e terapêuticos. O estágio reforçou o aprendizado de práticas que integram manejo clínico, procedimentos de rotina e soluções para casos complexos, consolidando uma base sólida para a atuação futura do estagiário.
3. RELATO DE CASO
3.1 Introdução
A Cistite Idiopática Felina (CIF), também conhecida como cistite intersticial, é uma condição crônica do trato urinário inferior dos gatos, caracterizada pela inflamação estéril da bexiga. Esta inflamação não tem uma causa conhecida e, por isso, é considerada idiopática. A palavra "idiopática" deriva do grego idios, que significa "de si próprio", e pathos, que se refere a "sofrimento" (Nunes, 2015). A CIF é uma das doenças mais prevalentes entre as Doenças do Trato Urinário Inferior Felino (DTUIF), responsável por até 65% dos casos registrados de problemas urinários em gatos domésticos (Scherk, 2015; Oliveira et al., 2017).
Essa doença é caracterizada por um processo inflamatório de origem multifatorial, que envolve complexas interações entre o sistema nervoso, endócrino e fatores ambientais. O processo patológico é amplamente mediado por estresse crônico, que ativa o eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal (HPA). Isso resulta em um aumento na produção de cortisol e catecolaminas, desencadeando uma série de alterações sistêmicas que comprometem a integridade da parede da bexiga. Especificamente, há uma redução na camada de glicosaminoglicanos (GAGs), substância protetora que reveste a mucosa da bexiga, tornando-a mais suscetível à irritação por substâncias presentes na urina, como potássio e cálcio. Isso leva a inflamação, dor e micção frequente (Tabar Rodríguez e Planellas Bachs, 2012; Buffington, 2011). Segundo Buffington (2011), "gatos com cistite idiopática têm uma relação estreita entre estresse ambiental e manifestação clínica, com alterações no eixo HPA e no sistema nervoso simpático".
Além disso, a CIF pode ser categorizada em dois tipos principais: não obstrutiva e obstrutiva. A forma obstrutiva ocorre quando a inflamação é severa o suficiente para causar bloqueios na uretra, o que é particularmente comum em gatos machos castrados. Essa condição pode se tornar uma emergência médica, já que a obstrução completa da uretra impede a eliminação de urina, levando a insuficiência renal e até à morte se não tratada a tempo (Oliveira et al., 2017). Por outro lado, a forma não obstrutiva geralmente se manifesta com sintomas mais brandos, como a presença de sangue na urina (hematúria), aumento da frequência urinária (polaciúria) e dor durante a micção (disúria) (Scherk, 2015).
A ocorrência da CIF é mais comum em gatos jovens e de meia-idade, com picos de prevalência entre 2 e 7 anos. Não há predisposição racial para a doença, mas gatos machos castrados apresentam uma maior tendência a desenvolver a forma obstrutiva da doença, devido à anatomia da uretra. Outros fatores de risco incluem obesidade, sedentarismo, uma dieta composta majoritariamente por ração seca e viver em ambientes com múltiplos gatos, onde o estresse pode ser mais frequente (Buffington, 2011). Estudos demonstram que até 73% dos gatos que apresentam sinais de DTUIF podem ser diagnosticados com CIF, o que destaca a alta prevalência dessa condição (Crivellenti, 2015).
O diagnóstico da CIF é feito por exclusão, uma vez que não existe um teste específico para detectar a doença. O veterinário deve descartar outras causas de doenças do trato urinário inferior, como cálculos urinários, infecções bacterianas e neoplasias, por meio de exames complementares como urinálise, exames de imagem (radiografias e ultrassonografias), bem como hemograma e bioquímica sérica (Reche e Camozzi, 2015). A urinálise pode revelar sinais de hematúria, proteinúria e cristalúria, mas esses achados não são exclusivos da CIF (Buffington, 2017). Em alguns casos, pode ser necessária a realização de uma cistoscopia para verificar a integridade da mucosa da bexiga e descartar outras causas mecânicas de obstrução (Oliveira et al., 2017).
O tratamento da CIF exige uma abordagem multimodal, centrada na modificação do ambiente do gato e no manejo do estresse, uma vez que essa é uma das principais causas da doença. Mudanças no ambiente incluem o enriquecimento ambiental com mais brinquedos, locais de descanso e caixas de areia em número adequado, além da introdução de fontes de água para estimular a ingestão hídrica (Buffington, 2011). Do ponto de vista medicamentoso, o tratamento costuma incluir o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINES) para reduzir a inflamação, analgésicos opioides para controlar a dor e antiespasmódicos para aliviar os espasmos da bexiga (Reche e Camozzi, 2023). Em casos crônicos ou com recorrências frequentes, antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, são prescritos para diminuir os níveis de estresse e aliviar a dor neuropática (Scherk, 2015).
Além do tratamento convencional, terapias complementares, como acupuntura, musicoterapia e fitoterapia, também têm sido exploradas para auxiliar no manejo dos sintomas da CIF. A acupuntura, por exemplo, tem demonstrado ser eficaz na redução da dor e na melhora do bem-estar geral dos gatos acometidos, enquanto a fitoterapia pode atuar como coadjuvante para reduzir a inflamação (Buffington, 2011; Johnson, 2018).
Portanto, a CIF é uma doença multifatorial e desafiadora, que demanda um manejo clínico cuidadoso e uma abordagem comportamental sensível, com foco na redução do estresse e na melhoria do ambiente do animal. A combinação de terapias convencionais e complementares tem mostrado resultados promissores no controle da doença e na melhoria da qualidade de vida dos gatos acometidos, embora o caráter crônico e recidivante da CIF faça com que o acompanhamento contínuo seja essencial para minimizar suas consequências.
Este trabalho será um relato de caso realizado na Clínica Saúde Animal, que atua 24 horas no atendimento especializado de cães e gatos. O objetivo deste estudo é detalhar a abordagem clínica adotada para o manejo da Cistite Idiopática Felina.
3.2 Relato De Caso
No dia 16 de agosto de 2024, um felino macho, sem raça definida (SRD), de aproximadamente 6 anos e 1 mês, com peso de 3,9 kg, foi levado à emergência do Hospital Veterinário Saúde Animal, unidade Parque Amazônia, em Goiânia, apresentando sinais de desconforto urinário. O histórico clínico indicava que o animal estava em tratamento para cistite obstrutiva e havia passado por uma desobstrução urinária uma semana antes da consulta emergencial. Durante a anamnese, o tutor informou que o gato estava recebendo amoxicilina com clavulanato, meloxicam, prazosina e cistimicim. Além disso, relatou que o protocolo de vacinação do animal não estava completo e que os testes para o Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) e para o Vírus da Leucemia Felina (FeLV) haviam dado negativo.
No exame físico inicial, o paciente apresentava sinais de dor severa, com uma pontuação de 9 em 10 na Escala Facial Felina (também conhecida como Escala Grimace), indicando desconfortosignificativo. Foram observadas uma frequência cardíaca de 170 bpm, frequência respiratória de 46 rpm, pressão arterial sistólica de 110 mmHg e temperatura corpórea de 34,9ºC, valores que refletem tanto a dor quanto o possível estresse do animal devido ao quadro. Diante desses achados, foi realizada uma ultrassonografia abdominal, que revelou repleção significativa da vesícula urinária, com paredes finas e conteúdo anecogênico caracterizado por sedimento urinário em suspensão (Figura 25). Procedeu-se então à cistocentese de alívio, seguida da desobstrução urinária emergencial com o auxílio de cateter apropriado para felinos.
Figura 25 – Ultrassonografia da vesícula urinária repleta.
Fonte: Documentação de registro do paciente no Hospital Veterinário Saúde Animal (2024).
Além do procedimento inicial, amostras de sangue e urina foram coletadas para exames laboratoriais detalhados. O hemograma revelou anemia leve com anisocitose e policromasia, leucocitose significativa e presença de neutrófilos com granulação tóxica, indicando um processo inflamatório possivelmente relacionado à infecção urinária ou resposta ao estresse prolongado (Quadro 1).
Quadro 1 – Valores dos parâmetros hematológicos do paciente e valores de referência para felinos adultos.
No perfil bioquímico, os níveis de creatinina (7,64 mg/dL) e ureia (325,0 mg/dL) estavam bastante elevados, sugerindo comprometimento renal agudo, que pode ter sido exacerbado pela retenção urinária prolongada e potencial toxicidade secundária ao acúmulo de resíduos metabólicos (Quadro 2).
Quadro 2 – Valores dos parâmetros bioquímicos séricos do paciente e valores de referência para felinos adultos.
A urinálise revelou urina avermelhada com densidade de 1,023, leucocitúria, hematúria, proteinúria e a presença de cristais de fosfato amorfo, sugerindo inflamação e possível irritação da mucosa vesical (Quadro 3).
Quadro 3 – Valores dos parâmetros da urinálise (EAS) do paciente e valores de referência para felinos adultos.
A cultura urinária foi realizada para determinar a presença de microrganismos e o perfil de sensibilidade antimicrobiana. Os resultados indicaram resistência a diversos antibióticos usuais, com sensibilidade apenas a antimicrobianos específicos, o que levou à troca do antibiótico inicial para marbofloxacina, conforme orientação baseada no teste de sensibilidade (Quadro 4).
Quadro 4 – Resultados da cultura e antibiograma, com teste de sensibilidade aos antimicrobianos.
O paciente foi internado apresentando sinais de desidratação em grau moderado a severo (cerca de 10%), sendo administrada reposição hídrica com solução de Ringer com lactato a uma taxa de 11 ml/h. Foi ofertada alimentação pastosa e seca, além de suporte alimentar por seringa a cada 4 horas, com o objetivo de garantir ingestão calórica adequada. Para controle da dor e suporte ao sistema urinário, foram administrados tramadol, dipirona, prednisolona e prazosina, enquanto a mirtazapina foi utilizada como estimulante do apetite. A sonda urinária permaneceu inserida durante três dias para monitoramento do débito urinário, observação da coloração da urina e verificação do conteúdo anecogênico identificado na ultrassonografia.
Apesar das intervenções, o quadro clínico do paciente evoluiu com anemia progressiva, provavelmente devido ao processo inflamatório e possíveis micro-hemorragias. Uma transfusão sanguínea foi realizada para estabilizar os níveis hematológicos e melhorar a oxigenação tecidual, diante da queda expressiva nos índices de eritrograma(Quadro 5).
Quadro 5 – Valores dos parâmetros hematológicos após a transfusão e valores de referência para felinos adultos.
Após a realização da transfusão sanguínea, o paciente foi acompanhado intensamente pelas próximas 48 horas e, em seguida, submetido a um novo hemograma para monitorar a evolução de seu quadro clínico. Os resultados do exame mostraram uma leve melhora no eritrograma, com discreto aumento nos níveis de eritrócitos e hematócrito em relação ao exame anterior, sinalizando uma resposta positiva inicial ao tratamento de suporte (Quadro 6).
Quadro 6 – Valores dos parâmetros hematológicos do paciente após 48 horas da transfusão e valores de referência para felinos adultos.
Após essa melhora inicial, o paciente recebeu alta assistida, com orientação para um manejo ambiental cuidadoso em casa a fim de reduzir o estresse, fator diretamente associado à cistite idiopática felina. As recomendações incluíram o fornecimento de alimentação úmida de alta palatabilidade, uso de difusores de Feliway para proporcionar um ambiente confortável, aumento na oferta de vasilhas de água pela casa e adição de caixas de areia em locais estratégicos e limpos.
Entretanto, três dias após a alta, o paciente apresentou uma nova obstrução urinária que levou à ruptura da vesícula urinária. Em caráter de emergência, o animal foi encaminhado ao centro cirúrgico, onde foram observados pontos de necrose na bexiga. Realizou-se uma cistorrafia para estabilizar o quadro, porém, a recuperação foi complicada por peritonite devido à falha na cicatrização da bexiga. Com a piora do quadro e visando evitar o sofrimento prolongado do animal, optou-se pela eutanásia assistida.
3.3 Discussão
O caso clínico apresentado destaca a complexidade da Cistite Idiopática Felina (CIF), enfatizando sua natureza multifatorial e o impacto significativo do estresse na manifestação da doença. Durante o acompanhamento, a correlação entre os sinais clínicos do paciente e os fatores predisponentes frequentemente descritos na literatura tornou-se evidente através de manifestações como a recorrência de obstruções urinárias, associadas à falta de manejo ambiental adequado, e os achados de urinálise que indicavam irritação vesical, possivelmente agravada pelo estresse ambiental e nutricional relatado pelo tutor (Buffington, 2011; Scherk, 2015).
A abordagem inicial, com a realização da cistocentese de alívio e desobstrução urinária emergencial, foi essencial para estabilizar o quadro crítico. Estes procedimentos, além de reduzir o desconforto imediato do paciente, preveniram complicações como a ruptura vesical naquele momento. No entanto, a evolução do caso, com o retorno da obstrução urinária e a consequente ruptura da bexiga, demonstrou os desafios no controle dos fatores predisponentes. A dificuldade em implementar mudanças ambientais rápidas e eficazes, associada à gravidade do quadro clínico, evidenciou a natureza progressiva da CIF em casos graves, mesmo com intervenções terapêuticas adequadas.
Os achados laboratoriais, como leucocitose, hematúria e níveis elevados de ureia e creatinina, reforçam a importância do diagnóstico diferencial na CIF, uma vez que indicaram o comprometimento sistêmico e a inflamação vesical associados à retenção urinária prolongada. A urinálise, em particular, revelou sinais claros de irritação da mucosa vesical, com presença de cristais de fosfato amorfo, sugerindo um ambiente urinário desfavorável que exacerbou o quadro clínico do paciente. Esses resultados são consistentes com estudos que apontam a ativação do eixo HPA como um dos principais mecanismos subjacentes ao desenvolvimento e agravamento da CIF (Buffington, 2011; Oliveira et al., 2017).
Outro aspecto significativo foi a resposta inicial positiva à transfusão sanguínea, que estabilizou os índices hematológicos do paciente. Contudo, a evolução para peritonite, decorrente da falha na cicatrização vesical, reforça a complexidade dos casos avançados de CIF. Esse desfecho destaca a importância de intervenções precoces e agressivas em pacientes com sinais severos, especialmente em contextos onde fatores como o estresse crônico e a descompensação sistêmica já estão presentes.
Apesar dos esforços terapêuticos, a recorrência do quadro obstrutivo e a deterioração clínica subsequente culminaram na necessidade de eutanásia assistida. Essa decisão, ainda que difícil, foi respaldada pela ética veterinária e orientada pelo princípio de minimizar o sofrimento do paciente, em conformidade com o Códigode Ética do Médico Veterinário. Segundo Rollin (2006), a eutanásia é considerada uma intervenção ética e compassiva quando a qualidade de vida do animal está irremediavelmente comprometida, servindo como um último recurso para aliviar o sofrimento.
No caso em questão, a ruptura vesical, acompanhada de peritonite e falhas na cicatrização, agravou drasticamente o estado clínico do paciente, tornando inviáveis as opções terapêuticas convencionais. Estudos de Mathews et al. (2015) ressaltam que, em casos de dor crônica ou doenças terminais em pequenos animais, o manejo da dor e a decisão pela eutanásia devem ser embasados em critérios clínicos claros, incluindo a avaliação da resposta às intervenções e a presença de condições irreversíveis. Nesse contexto, a falha na recuperação após a cistorrafia, associada à persistência de complicações inflamatórias severas, reforçou a indicação da eutanásia como a melhor escolha para evitar sofrimento prolongado.
Além disso, a decisão foi fundamentada em uma abordagem centrada no bem-estar animal, com uma comunicação clara e empática com o tutor, alinhando expectativas realistas ao prognóstico do paciente.
Este caso ilustra a necessidade de estratégias preventivas robustas, como o enriquecimento ambiental e o manejo nutricional adequado, para reduzir a frequência e a gravidade dos episódios de CIF. Além disso, evidencia a relevância de um acompanhamento contínuo e individualizado, dado o caráter crônico e recidivante da doença. Como destacado na literatura, a combinação de terapias tradicionais e complementares, aliada a uma abordagem centrada na redução do estresse, pode melhorar significativamente o prognóstico e a qualidade de vida dos gatos acometidos (Crivellenti, 2015; Scherk, 2015).
4. CONCLUSÃO
O estágio curricular obrigatório realizado na Clínica Saúde Animal representou uma etapa crucial na formação acadêmica, permitindo a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos ao longo do curso de Medicina Veterinária. Durante o período de estágio, foi possível vivenciar uma rotina diversificada e desafiadora, que incluiu desde o atendimento clínico básico até situações de alta complexidade, como o manejo de emergências e casos envolvendo doenças multifatoriais, como a Cistite Idiopática Felina, tema central do relato de caso deste trabalho.
A experiência prática evidenciou a importância de uma abordagem integrada no diagnóstico e tratamento de patologias, especialmente em condições crônicas e recorrentes. O estudo do caso relatado reforçou o papel fundamental de estratégias que combinem intervenções clínicas com o manejo ambiental e comportamental, considerando a saúde global do paciente e não apenas os sintomas imediatos. Além disso, os desafios enfrentados, como a recorrência do quadro clínico e a necessidade de eutanásia, trouxeram reflexões sobre a ética no cuidado veterinário e a importância de uma comunicação clara e empática com os tutores, promovendo um alinhamento entre expectativas e possibilidades terapêuticas.
Outro aspecto relevante foi o contato com a dinâmica do trabalho em equipe em um ambiente veterinário, onde a colaboração entre médicos veterinários, auxiliares e estagiários foi essencial para garantir a eficiência e a qualidade do atendimento. Essa vivência não só proporcionou o aprimoramento técnico, mas também desenvolveu habilidades interpessoais e de gestão, fundamentais para a prática profissional.
A infraestrutura da Clínica Saúde Animal, aliada ao suporte de profissionais experientes, permitiu explorar diferentes áreas da medicina veterinária, como diagnóstico por imagem, cirurgia, internação e cuidados paliativos. Essa diversidade contribuiu para uma formação mais completa, evidenciando a importância de um aprendizado prático abrangente para a consolidação de habilidades clínicas e a tomada de decisões em situações reais.
Além disso, o desenvolvimento deste Trabalho de Conclusão de Estágio foi uma oportunidade valiosa para aprofundar os conhecimentos teóricos, buscar referências atualizadas na literatura científica e refletir sobre a prática clínica. A realização do relato de caso permitiu contribuir para a disseminação de informações relevantes sobre a CIF, uma condição de alta prevalência em felinos e que representa um desafio constante para os profissionais da área.
Por fim, este trabalho reafirma a relevância do estágio curricular como uma etapa indispensável na formação de um médico veterinário capacitado, ético e comprometido com o bem-estar animal. A experiência adquirida não apenas fortaleceu os aspectos técnicos e científicos, mas também consolidou valores essenciais, como a empatia, a responsabilidade e a busca contínua por atualização e excelência na prática veterinária.
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