Prévia do material em texto
JUSTIÇA DO TRABALHO Profª Paula Rena Beraldo AULA 3 2 TEMA 1 – SOLUÇÃO DE CONFLITOS TRABALHISTAS A vida em sociedade nos leva a enfrentar diversas situações pessoais e profissionais, que, em virtude dos vínculos formados, muitas vezes geram conflitos que precisam ser solucionados, de diversas maneiras, na esfera social. No Direito, ocorre da mesma forma. Os conflitos precisam ser resolvidos, e em especial no Direito do Trabalho, temos formas pré-estabelecidas de resolução destes conflitos, que nada mais são do que busca de solução das divergências de interesse entre as partes envolvidas. Os conflitos trabalhistas, na visão de Garcia, são conflitos sociais, posto que decorrem da vida em sociedade, podendo estes terem natureza individual e coletiva (2019, p. 88). O conflito de natureza coletiva na Justiça do Trabalho envolve um grupo de trabalhadores e empregadores, sendo que os trabalhadores de forma mais habitual são representados pelos sindicatos da categoria. Posta então a necessidade de resolução destes conflitos, temos a divisão doutrinária em três formas de solução: a) autodefesa ou autotutela; b) autocomposição; e c) heterocomposição, objetos de nosso estudo. 1.1 Autodefesa A autodefesa, também chamada de autotutela, consiste em a própria parte promover a defesa de seus interesses, impondo sua vontade à outra. Garcia destaca que atualmente essa espécie em regra não é utilizada, pois não se deve admitir que uma parte imponha a sua vontade em face da outra, contudo, cita um exemplo de autodefesa aceito, que é a legítima defesa, utilizada por aquele que está em situação de eminente risco de violação e ofensa ao seu direito de integridade, devendo ser de forma moderada e nos limites permitidos em lei (2019, p. 89). Como exemplos de autodefesa aplicados aos conflitos coletivos na Justiça do Trabalho temos a greve e o lockout. A greve, inclusive, é uma forma de autodefesa que, no Brasil, é um direito que possui previsão e proteção na Constituição Federal de 1988, no artigo 9º: “é assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender” (Brasil, 1988). 3 1.2 Autocomposição A autocomposição consiste na solução de conflitos entre as próprias partes sem a necessidade de intervenção de um terceiro, sendo a solução de forma pacífica e devidamente negociada diretamente entre as partes envolvidas para encerrar o conflito enfrentado. Garcia promove a classificação da autocomposição em unilateral e bilateral: A autocomposição unilateral ocorre quando se verifica a renúncia de uma das partes de sua pretensão, ou o reconhecimento da pretensão da parte contrária. A bilateral, por sua vez, é aquela em que se observam concessões recíprocas, com natureza de transação. (2019, p. 89) A autocomposição está muito presente no âmbito trabalhista, em especial nas resoluções dos conflitos coletivos, como os acordos coletivos de trabalho e as convenções coletivas de trabalho. O Acordo Coletivo de Trabalho, mais conhecido por ACT, consiste em um acordo entre o ente sindical representante dos empregados e a empresa, já a Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) consiste em um acordo firmado entre dois entes sindicais, um representando os empregados e outro os empregadores, sempre com o objetivo de conciliar interesses e resolver conflitos. A mediação é uma outra forma de autocomposição de conflitos, que pode ser incentivada por meio de um terceiro (mediador) com o desiderato de aproximar as partes e auxiliá-las na resolução de conflitos. A conciliação e a mediação estão muito presentes em nosso ordenamento jurídico de uma forma geral, e devem ser constantemente estimuladas pelos juízes, advogados, defensores públicos e integrantes do Ministério Público. Ambos os institutos são amparados pelos princípios da independência, imparcialidade, autonomia da vontade, confidencialidade, informalidade e decisão informada, nos termos do artigo 166 do CPC/2015, citado por Garcia em sua obra Curso de Direito Processual do Trabalho (2019, p. 91). Com relação à Justiça do Trabalho, o Conselho Superior desta determina que cada Tribunal Regional do Trabalho deve criar um Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Disputas, que devem promover programas que estimulem a conciliação. 4 Garcia ainda nos traz ensinamentos acerca do tema: As conciliações e mediações realizadas no âmbito da Justiça do Trabalho somente terão validade nas hipóteses previstas na CLT, aí incluída a homologação pelo magistrado que supervisionou a audiência e a mediação pré-processual de conflitos coletivos, sendo inaplicáveis à Justiça do Trabalho as disposições referentes às Câmaras Privadas de Conciliação, Mediação e Arbitragem e normas atinentes à conciliação e mediação extrajudicial e pré-processual previstas no CPC/2015. (2019, p. 97) Desta forma, resta claro que as conciliações no âmbito trabalhistas somente terão validade quando homologadas pelos magistrados e previstas na CLT, não sendo aplicáveis nesta Justiça especializada as formas alternativas de solução de conflitos pré-processuais, previstas no Código de Processo Civil. 1.3 Heterocomposição Diversamente da autocomposição, a heterocomposição é a solução de conflitos por um terceiro. Neste caso, não é necessária a concordância das partes, sendo a decisão do juiz de caráter obrigatório e vinculante para as partes envolvidas. Entre as formas de heterocomposição temos a arbitragem e jurisdição estatal a serem estudadas. 1.3.1 Arbitragem Para Jorge Neto: A arbitragem denota a solução do conflito mediante a decisão de um árbitro, que poderá ser um órgão ou pessoa. É uma decisão proferida por um terceiro que é aceito pelas partes como árbitro e que tem como escopo a composição de uma controvérsia. (2019, p. 115) Esta forma de heterocomposição está prevista na Constituição Federal nos parágrafos 1º e 2º do artigo 114 da Constituição Federal de 1988, a saber: Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar: § 1º Frustrada a negociação coletiva, as partes poderão eleger árbitros. § 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado às mesmas, de comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do Trabalho decidir o conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as convencionadas anteriormente. (Brasil, 1988) 5 Ainda, no artigo 3º, parágrafo 1º, do Código de Processo Civil: “Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito. § 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei” (Brasil, 2015). Previsão complementada no artigo 42 deste mesmo Código, senão vejamos: “Art. 42. As causas cíveis serão processadas e decididas pelo juiz nos limites de sua competência, ressalvado às partes o direito de instituir juízo arbitral, na forma da lei” (Brasil, 2015). Embora pareça claro que a arbitragem é uma forma de heterocomposição, há ainda na doutrina, de forma minoritária, o entendimento de que a arbitragem seria autocomposição, contudo, não se demonstra condizente o referido raciocínio, visto que a decisão é proferida por um terceiro e vincula as partes, o que evidencia sua condição de heterocomposição. Havia um entendimento na Justiça do Trabalho que a arbitragem somente poderia ser utilizada nos conflitos coletivos, contudo, atualmente temos a previsão do artigo 507-A da CLT, que prevê a aplicação dos conflitos individuais: Nos contratos individuais de trabalho cuja remuneração seja superior a duas vezes o limite máximo estabelecido para os benefícios do Regime Geral de Previdência Social, poderá ser pactuada cláusula compromissória de arbitragem, desde que por iniciativa do empregadoou mediante a sua concordância expressa, nos termos previstos na Lei no 9.307, de 23 de setembro de 1996. (Brasil, 1943) Importante o destaque do artigo de que não pode ser estipulada a cláusula de arbitragem a qualquer contrato de trabalho indiscriminadamente, devendo ser limitado aos contratos individuais cuja remuneração não seja superior a duas vezes o limite máximo estabelecido para os benefícios do Regime de Previdência Social, que a título de curiosidade em 01/2021 importava em R$ 6.433,57 (seis mil, quatrocentos e trinta e três reais e cinquenta e sete centavos)1. Esta cláusula somente pode ser inserida se por iniciativa e com a anuência do empregado, contudo, uma vez estipulada a cláusula compromissória no contrato de trabalho, resta configurado entre as partes a obrigação de se submeter a arbitragem para solucionar eventuais conflitos que venham a surgir neste contrato. Outro ponto importante é que a sentença proferida pelo árbitro nestes casos terá os mesmos efeitos de uma sentença judicial, e, em tendo cunho 1 Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/noticias/trabalho-e-previdencia/2021/01/beneficios- acima-do-minimo-tem-reajuste-de-5-45. Acesso em: 17 out. 2021. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9307.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9307.htm 6 condenatório, constitui título executivo e não se sujeita a recurso ou necessidade de homologação judicial. 1.3.2 Jurisdição estatal A jurisdição estatal é a forma mais comum de heterocomposição, vez que é uma função do Estado a pacificação de conflitos e é garantida pelo direito de ação previsto no inciso XXXV, do artigo 5º da Constituição Federal: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” (Brasil, 1988). Na Justiça do Trabalho, ela é aplicada tanto nas relações individuais, mediante ajuizamento de ação perante a Justiça do Trabalho, como nas coletivas, por meio dos dissídios coletivos de trabalho. Conforme previsão do parágrafo 2º, artigo 114, da CF/1988 já transcrito, o dissídio coletivo somente poderá ser aforado se não resolvida a questão mediante negociação coletiva ou ainda se as partes se recusarem a esta ou a arbitragem. De forma simplificada, a jurisdição estatal é a atuação propriamente dita do Estado na resolução dos conflitos trabalhistas, mediante a intervenção do Poder Judiciário. TEMA 2 – DISSÍDIO INDIVIDUAL E COLETIVO Dissídio no dicionário da língua portuguesa significa: “Substantivo masculino. Falta de concordância; divergências de pontos de vista; discórdia. Condição de disputa; em que há desavença; dissenção, oposição” (Dicio, [S.d.]). O significado da palavra é claro e nos remete diretamente à relação jurídica deste. No Direito do Trabalho, estes estão previstos no artigo 643 da CTL: Os dissídios, oriundos das relações entre empregados e empregadores bem como de trabalhadores avulsos e seus tomadores de serviços, em atividades reguladas na legislação social, serão dirimidos pela Justiça do Trabalho, de acordo com o presente Título e na forma estabelecida pelo processo judiciário do trabalho. (Brasil, 1943) Estes, por sua vez, podem ser individuais ou coletivos, a saber: 7 2.1 Dissídio individual O dissídio individual é a denominação dada à reclamação trabalhista, ajuizada pelo empregado em busca de seus direitos trabalhistas, previstos na Consolidação das Leis do Trabalho ou em Acordo ou Convenção Coletiva que tenham sido desrespeitados/descumpridos. O dissídio individual deverá ser ajuizado na forma prescrita em Lei e de acordo com os ritos processuais que estudaremos na sequência. 2.2 Dissídio coletivo O dissídio coletivo envolve um grupo de trabalhadores (coletividade) e se refere a uma ação que ajuizada por este grupo deve pertencer a uma mesma categoria, setor econômico ou empresa. Estes podem ser entre entidades sindicais de empregados em face de entidades sindicais de empregadores ou entre entidades sindicais de empregados em face de uma ou mais empresas. Os objetos dos dissídios coletivos podem ser constitutivos ou de natureza econômica, quando objetivam criar uma regulamentação coletiva ou revisar condições de trabalho já dispostas em regulamentação existente, ou declaratórios ou de natureza jurídica, quando limitam-se a interpretar uma norma coletiva vigente. Alguns doutrinadores como Garcia tratam ainda do dissídio coletivo de greve, definindo-o assim: O dissídio de greve é um processo coletivo com peculiaridades, no qual a decisão, em parte, tem natureza declaratória, no que se refere ao exercício regular ou abusivo deste direito, mas também constitutiva, pois a sentença normativa decide sobre o estabelecimento de condições de trabalho. (2019, p. 976) A iniciativa para instauração do dissídio coletivo de greve é de qualquer parte ou ainda do Ministério Público do Trabalho. A instauração dos dissídios coletivos pode ser voluntária, quando o ajuizamento ocorre pelas partes interessadas, ou ainda coactos, quando a instauração ocorre de forma “ex officio” pelo órgão jurisdicional ou pela Procuradoria da Justiça do Trabalho. A competência para o julgamento do dissídio coletivo é do TRT, conforme disposto na alínea “a” do inciso I do artigo 678 da CLT: 8 Aos Tribunais Regionais, quando divididos em Turmas, compete: I - ao Tribunal Pleno, especialmente: a) processar, conciliar e julgar originariamente os dissídios coletivos; (Brasil, 1943) Para que se possa instaurar o dissídio coletivo, é imperioso a prévia tentativa de solução do conflito por meio de negociação coletiva, ainda que em não se obtendo a solução e haja recusa das partes à arbitragem. A legitimidade para instauração dos dissídios coletivos é dos sindicatos, contudo, o parágrafo 2º do artigo 611 da CLT prevê que: As Federações e, na falta desta, as Confederações representativas de categorias econômicas ou profissionais poderão celebrar convenções coletivas de trabalho para reger as relações das categorias a elas vinculadas, inorganizadas em Sindicatos, no âmbito de suas representações. (Brasil, 1943) Desta forma, caso a categoria profissional não esteja representada por sindicato, as federações e confederações possuem esta legitimidade. A petição inicial, também chamada de representação, possui como requisitos ser escrita e direcionada ao presidente do Tribunal que possua competência, conforme disposto no artigo 856 da CLT, e as partes serão denominadas de suscitante e suscitado. Com o recebimento do pedido de instauração do dissídio, o presidente do Tribunal competente designará audiência de conciliação em no máximo 10 dias, com a determinação, se for o caso, da citação dos suscitados. Se houver acordo e for homologado, não caberá recurso. Se não for homologada alguma cláusula do acordo, caberá interposição de Recurso Ordinário. Se não houver comparecimento das partes ou em casos de não conciliação, segue-se o procedimento até o julgamento do dissídio, devendo então o Ministério Público do Trabalho apresentar seu parecer. Havendo citação, a parte ré deverá apresentar resposta, sob pena de revelia, assim como ocorre nos demais procedimentos trabalhistas. Ambas as decisões, homologatória do acordo ou final, são conhecidas como sentenças normativas e devem preencher todos os requisitos constantes do artigo 93, inciso IX da CF, como publicidade e fundamentação. A sentença normativa é impugnada mediante Recurso Ordinário. 9 TEMA 3 – RITO SUMARÍSSIMO O rito ou procedimento sumaríssimo foi introduzido na legislação trabalhista para proporcionar maior celeridade à solução de pequenos conflitos individuais trabalhistas. A regulamentação deste se encontra nos artigos 852-A ao I, da CLT. É possível ajuizar reclamação trabalhista pelo rito sumaríssimo quando o valor da causa não ultrapassar 40salários mínimos vigentes na data do ajuizamento da ação. É vetado o ajuizamento por este rito, em ações contra a Administração Pública Direta, a autárquica e a fundacional, conforme previsão do parágrafo único do artigo 852-A da CLT, além de demandas que se enquadrem como procedimento especial, como no caso do inquérito para apuração de falta grave. A ação do procedimento sumaríssimo deve ainda preencher alguns requisitos mínimos: a) o pedido deve ser certo e determinado e b) o Reclamante deverá indicar o endereço correto do Reclamado, visto que não se permite a citação por edital. Caso não preenchidos estes requisitos mínimos, será determinado o arquivamento do feito, sem julgamento do mérito, com condenação do Reclamante ao pagamento das custas processuais. A apreciação do pedido pelo Juiz deverá ocorrer no prazo máximo de 15 dias contados do ajuizamento. A audiência a ser realizada é una, ou seja, para maior celeridade, diverso dos demais ritos processuais trabalhistas, não se designa a audiência de conciliação e após a de instrução. As sentenças proferidas nestes ritos acompanham a ideia central do mesmo de celeridade, dispensando a presença do relatório. Da sentença caberá, em caso de discordância pelas partes, a interposição de Recurso Ordinário. Da decisão do Tribunal, contudo, somente caberá recurso de revista quando houver contrariedade à súmula da jurisprudência uniforme do TST e violação direta da Constituição da República, diverso dos demais ritos, nos quais é cabível recurso de revista em todas as hipóteses dispostas no artigo 896 da CLT. 10 TEMA 4 – PROCEDIMENTOS ESPECIAIS – PARTE I A Justiça do Trabalho admite, além dos procedimentos regulares, o ajuizamento de procedimentos especiais, sendo que os mais comuns serão objeto do nosso estudo nesse tópico. 4.1 Inquérito para apuração de falta grave Este procedimento especial é uma ação judicial trabalhista, que busca a extinção do contrato de trabalho de empregados que possuem estabilidade decenal ou sindical, e praticaram alguma falta grave, e está previsto nos artigos 494 e seguintes da CLT, bem como o procedimento é regulado pelos artigos 853 a 855 da CLT. Diversamente da maioria das ações trabalhistas, neste caso, a ação é ajuizada pelo empregador em face do empregado estável que praticou falta grave, possibilitando a apuração para que se rescinda o contrato de trabalho sem que se aguarde o período de estabilidade decenal ou sindical, não se aplicando a estabilidade de cipeiro (por ser esta provisória). Vejamos entendimento jurisprudencial: [...] INQUÉRITO PARA APURAÇÃO DE FALTA GRAVE - HIPÓTESES - Entende-se desnecessário o inquérito para apuração de falta grave para integrante de CIPA, obrigatório apenas para empregado portador da estabilidade decenal prevista na CLT (arts. 492 e 853), instituto este em extinção, ou para dirigente sindical (súmula 379 do c. TST), entre outras hipóteses. Pela interpretação dos arts. 165 e 492 da CLT, conclui-se que o art. 494 da CLT, que prevê inquérito para apuração de falta grave para os empregados estáveis, refere-se à estabilidade decenal ou sindical e não à estabilidade provisória do cipeiro. TRT-PR- 01594-2011-322-09-00-0-ACO-44772-2012 - 6A. TURMA. Relator: PAULO RICARDO POZZOLO. Publicado no DEJT em 28-09-2012. Tendo em vista que se trata de falta grave, é necessário o ajuizamento do feito para apuração desta e é possível ao empregador suspender o empregado estável até o julgamento do processo. O prazo para ajuizar o inquérito é de 30 dias contados da data na qual houve a suspensão do empregado estável, devendo serem pagos os salários devidos no período do afastamento até o ajuizamento. Jorge Neto nos ensina que: O inquérito de apuração de falta grave seguirá o mesmo procedimento da reclamação trabalhista: o procedimento ordinário, apenas com duas particularidades: (a) número de testemunhas: até seis para cada parte 11 (art. 821, CLT); (b) considerando a alegação, a prova da falta grave cabe ao empregador (art. 818, CLT, Lei 13.467/17; art. 373, CPC). (2019, p. 1145) Julgado o inquérito e comprovada a falta grave, caso tenha ocorrido a suspensão do empregado, a data da extinção do contrato de trabalho retroage à data da suspensão deste. Em casos nos quais não tenha ocorrido a suspensão, a data da extinção será a data do ajuizamento da ação. Não restando comprovada a falta grave do empregado, o empregador ficará obrigado a reintegrá-lo e ainda pagar os salários e demais ônus contratuais (FGTS, férias, 13º) devidos durante o período de suspensão, caso tenha ocorrido. É cediço, contudo, que há casos nos quais a reintegração não se mostra viável, tendo em vista que o dissabor dos fatos torna inadequado manter o empregado envolvido na empresa. Para estes casos, é possível que a obrigação seja convertida em indenização. Decisão esta que caberá ao Juiz, ao analisar o caso concreto. 4.2 Ação de consignação em pagamento A ação de consignação em pagamento ou ainda denominada de pagamento em consignação é uma forma de extinção da obrigação. A ação de consignação em pagamento está prevista apenas nos Códigos Civil e de Processo Civil, e é aplicada de forma subsidiária ao Processo do Trabalho. No Código Civil, nos artigos 334 e 335, e no Código de Processo Civil, dos artigos 539 a 549. De forma geral, o artigo 335 do CC/2002 dispõe acerca das hipóteses de cabimento da ação de consignação em pagamento: A consignação tem lugar: I - se o credor não puder, ou, sem justa causa, recusar receber o pagamento, ou dar quitação na devida forma; II - se o credor não for, nem mandar receber a coisa no lugar, tempo e condição devidos; III - se o credor for incapaz de receber, for desconhecido, declarado ausente, ou residir em lugar incerto ou de acesso perigoso ou difícil; IV - se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o objeto do pagamento; V - se pender litígio sobre o objeto do pagamento. (Brasil, 2002) 12 Na Justiça do Trabalho, esta ação é habitualmente utilizada pelo empregador para disponibilizar ao empregado alguma verba devida a este que não teve condições de pagar. Os casos mais comuns são de pagamento de verbas rescisórias em caso de abandono de emprego e ainda de falecimento do empregado, sendo que neste último há, na maioria das vezes, a incidência do inciso IV do artigo supratranscrito, com dúvida do empregador sobre quem deve receber o pagamento, quem seriam os herdeiros legais do empregado falecido. Nestes casos citados, a ação de consignação em pagamento serve ao empregador, para que, com o depósito das verbas rescisórias em Juízo, evite a incidência da multa prevista no artigo 477 da CLT, que é imputada quando não promovido o pagamento da verba rescisória no prazo legal. O local de ajuizamento da ação de consignação em pagamento na Justiça do Trabalho deve obedecer aos critérios de competência territorial na forma do artigo 651 da CLT, tendo como regra geral o local da prestação de serviços/contrato de trabalho. O artigo 542 do CPC/2015 disciplina como deve ser realizado o pedido inicial: Na petição inicial, o autor requererá: I - o depósito da quantia ou da coisa devida, a ser efetivado no prazo de 5 (cinco) dias contados do deferimento, ressalvada a hipótese do art. 539, § 3º; II - a citação do réu para levantar o depósito ou oferecer contestação. Parágrafo único. Não realizado o depósito no prazo do inciso I, o processo será extinto sem resolução do mérito. (Brasil, 2015) Se a dúvida ocorrer sobre a legitimidade de quem deve receber o pagamento, hipótese mais comum na Justiça do Trabalho, como citado, o Autor – consignante deverá efetuar o depósito e requerer a citação dos possíveis titulares do crédito, para que estes venham em Juízo comprovar sua condição. O artigo 544 do CPC/2015 apresenta aspossíveis alegações do consignado, senão vejamos: Na contestação, o réu poderá alegar que: I - não houve recusa ou mora em receber a quantia ou a coisa devida; II - foi justa a recusa; III - o depósito não se efetuou no prazo ou no lugar do pagamento; IV - o depósito não é integral. Parágrafo único. No caso do inciso IV, a alegação somente será admissível se o réu indicar o montante que entende devido. (Brasil, 2015) 13 Destaca-se aqui, que alegando o inciso IV, o consignado deverá então indicar qual o valor que entende devido e será concedido ao consignante o prazo de 10 dias para complementar o depósito se assim o entender. Não comparecendo o consignado ou consignados em Juízo, estes são reconhecidos como revel(s) e verificando o Juiz a procedência do pedido de consignação, julgará o feito, com sentença de extinção da obrigação e condenação do consignado ao pagamento de custas e ainda honorários advocatícios, na forma prevista no artigo 546 do CPC/2015. Havendo o trâmite regular do feito, com reconhecimento do valor depositado e recebimento pelo consignado, é proferida sentença de extinção, que logicamente atinge apenas a obrigação e valor na ação consignados, não impedindo ajuizamento de demanda trabalhista para exigência de outros direitos. 4.3 Ação revisional Algumas relações no Direito possuem efeito continuado, que se mantém com o passar do tempo, contudo, sofrem alterações. Jorge Neto nos traz de forma clara a indicação de ocorrência destas no âmbito trabalhista, a saber: Na seara do direito do trabalho, encontram-se casos de relações jurídicas continuadas, v.g., quanto à obrigação do empregador de pagar o adicional de insalubridade ao trabalhador, o qual pode variar de grau (mínimo, médio e máximo) de uma época para outra, chegando inclusive a deixar de existir caso os agentes químicos e biológicos sejam eliminados. (2019, p. 1189) Desta forma, segue o autor com a explicação. Pensemos que o trabalhador tenha direito à percepção do adicional de insalubridade que fora reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, contudo, os efeitos desta decisão podem sofrer variações com decorrer do tempo, ainda na vigência do contrato de trabalho, será necessário o ajuizamento de ação revisional para que seja possível a revisão dos efeitos da coisa julgada (Jorge Neto, 2019. p. 1190). Por este motivo, a previsão desta está na seção destinada à coisa julgada no Código de Processo Civil, artigo 505, inciso I: Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas relativas à mesma lide, salvo: I - se, tratando-se de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; (Brasil, 2015) 14 Busca-se com a ação revisional, não a desconstituição da coisa julgada, vez que esta é objetivo da ação rescisória, mas sim a adequação da coisa julgada – matéria julgada, a uma nova realidade fática. A natureza jurídica desta ação é constitutiva e possui efeitos ex nunc e o trâmite processual é o habitual de uma ação trabalhista. TEMA 5 – PROCEDIMENTOS ESPECIAIS – PARTE II Ainda como procedimento especial, temos a ação rescisória a ser estudada. 5.1 Ação rescisória A ação rescisória está prevista nos artigos 996 e seguintes do CPC/2015 e 836 da CLT. Na definição de Jorge Neto: “a ação rescisória é uma ação que tem por objeto reconhecer a nulidade da decisão que transitou em julgado (indicium rescindens) e, se for o caso, proferir novo julgamento (iudicium rescissorium)” (2019, p. 1147). Nem todas as decisões judiciais podem ser objeto de ação rescisória. Via de regra, a ação rescisória somente poderá rescindir decisão transitada em julgado, previsão da Súmula 299 do Tribunal Superior do Trabalho. O Código de Processo Civil, artigo 966, parágrafo 2º, contudo, como exceção à regra, admite a ação rescisória em dois outros casos: 1) para que impeça nova propositura da demanda; e 2) para que impeça admissibilidade do recurso correspondente, quando o tribunal, ao analisar um recurso interposto de uma sentença de mérito, não venha a conhecê-lo, como em casos de deserção e intempestividade recursais (Brasil, 2015). A Súmula 400 do TST dispõe ainda que a própria decisão de mérito da ação rescisória pode ser objeto de nova ação rescisória. As hipóteses às quais é possível a ação rescisória estão elencadas no artigo 966 do CPC e são autoexplicativas: A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: I - se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão ou corrupção do juiz; II - for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente incompetente; 15 III - resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da parte vencida ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei; IV - ofender a coisa julgada; V - violar manifestamente norma jurídica; VI - for fundada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou venha a ser demonstrada na própria ação rescisória; VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito em julgado, prova nova cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável; VIII - for fundada em erro de fato verificável do exame dos autos. (Brasil, 2015) Importante ainda indicar que o prazo para ajuizamento da ação rescisória é de dois anos, iniciado no dia seguinte ao trânsito em julgado da última decisão do processo, inteligência do artigo 975 do CPC/2015. Jorge Neto destaca que, posta a natureza desconstitutiva da ação rescisória, com prazo previsto em lei, este é de natureza decadencial, sem a possibilidade de suspensão ou interrupção (2019, p. 1161). O inciso I da Súmula 100 do TST dispõe que o prazo de decadência na ação rescisória no processo do trabalho conta-se do dia imediatamente subsequente ao trânsito em julgado da última decisão proferida na causa, seja esta de mérito ou não. A legitimidade para propositura da ação rescisória é de quem foi parte no processo, ou ainda do sucessor da parte, sendo este a título universal ou singular, de terceiro juridicamente interessado, do Ministério Público e, daquele que não fora ouvido no processo no qual era obrigada sua intervenção, conforme disposto no artigo 967 do CPC/2015. O inciso II do artigo 968 do CPC/2015 trata da necessidade de depósito de 5% sobre o valor da causa, como depósito prévio na ação rescisória, contudo, a inovação na legislação trabalhista, com a Lei n. 11495/2007 alterou esse percentual, no âmbito trabalhista, para 20% sobre o valor da causa, mantendo- se o limite de 1000 salários-mínimos, o qual não se pode ultrapassar. Por fim, temos que o procedimento da ação rescisória está integralmente disposto no Código de Processo Civil. Em complementação ao tópico dos procedimentos especiais, cabe o esclarecimento de que foram objeto do nosso estudo os principais deles, contudo, alguns doutrinadores elencam outros tipos de procedimentos especiais, os quais restam aqui indicados, caso haja interesse em maior aprofundamento 16 do estudo, a saber: ação de exigir contas, ação cominatória, ações possessórias, oposição, restauração de autos, ação monitória. 17 REFERÊNCIAS BENEFÍCIOS acima do mínimo têm reajuste de 5,45%. Governo do Brasil, 13 jan. 2021. Disponível em: . Acesso em: 17. out 2021. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. BRASIL. Decreto-lei n. 5.452, de 1 de maio de 1943. Aprova a consolidaçãodas leis do trabalho. Disponível em: . Acesso em: 9 nov. 2021. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 11 jan. 2002. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o Código de Processo Civil. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 17 mar. 2015 DISSÍDIO. In: Dicio, Dicionário Online de Português. Porto: 7Graus, 2021. Disponível em: . Acesso em: 17 out. 2021. GARCIA, G. F. B. Curso de Direito Processual do Trabalho. 8 ed. revista, atualizada e ampliada. Rio de Janeiro: Forense, 2019. JORGE NETO, F. F.; CAVALCANTE, J. de Q. P. Direito Processual do Trabalho. 8. ed. revista e atualizada. São Paulo: Atlas, 2019. JUSTIÇA DO TRABALHO (Paraná). Pesquisa Jurisprudência. Disponível em: . Acesso em: 17 out. 2021. http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%2013.105-2015?OpenDocument http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%2013.105-2015?OpenDocument