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Alimentação na Pré-História e na Antiguidade Neste tópico vamos apresentar os principais conceitos que envolvem a alimentação nos primórdios da humanidade. Abordaremos os ingredientes e seus formatos de cultivo, o consumo dos alimentos nesta época e também os aspectos geográficos e culturais que influenciam o desenvolvimento da alimentação. Segundo Flandrin e Montanari (2015), seria difícil saber a partir de quando determinados ingredientes passaram a fazer parte da alimentação humana. O que se pode dizer é que os homens sempre foram onívoros, inclinados a consumir derivados vegetais e animais. Durante milhares de anos os vegetais, as frutas e os grãos provenientes da natureza foram as principais fontes de nutrientes para o homem pré-histórico. Reconhecemos essas evidências através do desgaste dos dentes, presentes em fósseis de esqueletos dos humanos neste período. É difícil encontrar estudos que falem da alimentação do homem na pré-história, e os que normalmente encontramos são muito focados na caça, na pesca e no consumo de vegetais provenientes da natureza. Podemos entender que foram nas últimas décadas que os estudos acerca deste tema começaram a amadurecer com a evolução tecnológica, que ajudou muitos dos métodos de estudo se tornarem mais efetivos, como os químicos e isotópicos que, por exemplo, ajudam a detectar a quantidade de vegetais e de proteínas presentes na alimentação dos hominídeos, dos ‘Homo habilis’ e por fim dos ‘Homo erectus’. Estes estudos nos fornecem a dimensão do consumo de caça diversificada, incluindo animais de grande porte como rinocerontes e até elefantes. Também promovem a discussão sobre o homem pré-histórico ser efetivamente um caçador ou apenas um ladrão de carcaças. 1- A descoberta do fogo O momento em que o homem passou a cozinhar os seus alimentos foi o que o começou a diferenciar dos outros animais, pois ele descobriu desta forma que poderia deixar a carne da caça mais digerível, e também que neste processo o frio e o calor interferem no sabor e no frescor do alimento, ou seja, que a cocção retardava a decomposição dos alimentos e desta forma prolongaria o tempo de seu consumo. Ou seja, a partir daí o homem passou a identificar a cocção como uma técnica de conservação dos alimentos. Estudiosos acreditam que o homem, antes mesmo de descobrir o fogo, já aquecia os alimentos no calor das fontes termais e gêiseres que brotavam espontaneamente do solo. O homem pré-histórico associava o calor proveniente dessas fontes, ao calor das suas presas e até mesmo de si, portanto há evidências da existência da cocção dos alimentos antes do surgimento do fogo. A descoberta do fogo representaria para os grupos humanos um grande salto cultural, pois foi a partir deste evento que o homem passou a atribuir um valor ritualístico ao momento da refeição. De acordo com Fladrin e Montanari, 2015 pg 30: ‘Costuma-se dizer que o gosto pela carne cozida é comum a praticamente todos os carnívoros e que ela é procurada depois de incêndios naturais. Sugere-se, assim, que os próprios animais carnívoros preferem o cozido ao cru e que comeriam assados todos os dias se soubessem cozinhar. Assim, logo que o homem conseguiu dominar o fogo, mudou seu regime.’ Alguns estudos associam a transformação da textura dos alimentos através da ação do calor, com um menor desenvolvimento dos músculos faciais, e consequentemente com o aumento o crescimento da cavidade craniana que levou a um aumento do cérebro, tudo em decorrência do menor esforço de mastigação. Neste contexto encontramos a criação dos primeiros utensílios de pedra ou barro, e com eles surgiram diferentes processos de cozimento e uma variação na dieta do homem pré-histórico. Graças ao fogo e a caça o homem resistiu às épocas glaciais. A caça não só o possibilitou deixar de ser um simples coletor de vegetais, como também lhe conferiu a possibilidade do vestuário com as peles dos animais e assim se proteger do frio. Desta forma concluímos que para saciar suas necessidades, a humanidade ao longo da história tem-se beneficiado da caça, da colheita e do fogo como forma de tornar mais efetiva a sua sobrevivência na natureza. 2- O cultivo da terra O homem ampliou a sua atividade de caçador quando passou a cultivar a terra há cerca de dez mil anos. Desta forma passou a ser um criador de animais e produtor de alimentos. Como consequência deste cultivo, surgiu então a necessidade da criação de objetos e da fabricação de ferramentas e utensílios que marca o período Neolítico como um marco no desenvolvimento humano. Segundo FRANCO, 2006 pg 19: ‘O cultivo da terra, assim como a fabricação de utensílios de cerâmica e de fornos, implicava o estabelecimento de um núcleo habitacional fixo de uma comunidade. Em torno dos campos de cereais, apareceriam as primeiras aldeias. O aumento gradual da produtividade agrícola permitia que se armazenasse uma parte das colheitas e que um número crescente de pessoas pudesse dedicar-se a outras atividades.’ Com o armazenamento dos alimentos, o homem passou a ter tempo livre para desenvolver outras tecnologias e outros aspectos da construção da cultura, diferentes daqueles restritos a apenas saciar a fome e sobreviver. Armazenar os alimentos possibilitou a criação de comunidades e deixou de forçar o homem a migrar de região em região atrás da sobrevivência. Com as organizações comunitárias encontramos assim as primeiras formas de comensalidade e de produção de alimentos. Junto com a agricultura nasce uma nova maneira de organização social, e também os rituais e costumes de observação da natureza, seus períodos, mudanças climáticas e contagem de dias. Compreendemos assim que, a alimentação passou a ter uma função social, que talvez seja a maior distinção de comportamento alimentar do homem com os demais animais. Fladrin e Montanari, 2015 pg 33 ilustram: ‘A partir do início do terceiro milênio na Suméria ou, no mais tardar, no segundo milênio em outras regiões da Mesopotâmia e da Síria, inúmeros textos comprovam a existência de banquetes com ritos precisos. Embora eles descrevam principalmente os banquetes dos deuses ou dos príncipes, referem-se também às festas das pessoas comuns.’ No crescente fértil, território que atualmente compreende Irã, Iraque, Turquia, Síria, Líbano, Israel e Jordânia, teriam sido domesticadas as primeiras espécies de grãos de trigo e cevada. Estima-se que há mais de 15 mil anos, a Terra tinha aproximadamente 5 milhões de habitantes que se nutriam especialmente dos alimentos provenientes da coleta de grãos e da caça. Entendemos que a domesticação das sementes favoreceu a produção agrícola no mundo antigo e o surgimento das primeiras organizações sociais, aldeias e vilas. Toda a transformação dos alimentos ao longo do desenvolvimento da humanidade está intimamente ligada à procura destes alimentos, aos costumes de cultivo, conservação, consumo e principalmente ao prazer de comer. Esse prazer satisfaz uma necessidade comum que temos com todo o reino animal que é a fome, ou seja, o instinto que mais cedo desperta e constitui a base da vida. Alguns gêneros alimentícios eram indispensáveis nos banquetes da antiguidade. Em primeiro a carne presente em diversos registros de diferentes épocas e regiões, assim como os produtos alimentícios fermentados como os pães e as bebidas como a cerveja e o vinho. Na antiguidade também detectamos a presença do sal partilhado nas refeições como elo de amizade entre os convivas, além do azeite como principal tempero dos pratos. Em toda a sua trajetória, os banquetes sempre materializaram a realização de refeições que simbolizavam a comunhão, a partilha do alimento e da bebida. As refeições tem o poder de unir os participantes. Flandrin e Montanari, 2015 pg 57 evidenciam: ‘A refeição em comum introduz uma grande solidariedade: mesmo a partilha do pão cozido sob as cinzas e da água dos cantis estabelece uma camaradagem guerreira. Alguns textos valorizam-na pelos seus aspectos viris, mas, também, pela comunhão que ela cria: ela se opõe, então, à refeição individualista daquelesque ficam na cidade e que partilham a comida só com as mulheres e filhos.’ Os diferentes banquetes então surgiram como consequência das refeições que passaram a existir quando o homem deixou de consumir apenas raízes e frutas. Com o cultivo agrícola, surgiu a necessidade de armazenamento destes produtos e consequentemente sua conservação e transformação. 3- A alimentação na antiguidade No antigo Egito a elaboração do alimento - principalmente dos pães - foi a atividade representada com maior frequência nos túmulos egípcios. A riqueza de detalhes das pictografias são uma importante fonte que nos mostra conjuntos de etapas de produção dos alimentos e, mais precisamente, das técnicas de fermentação que deram origem aos seus primeiros derivados como os pães, por exemplo. Com o cultivo agrícola, surgiu a necessidade de armazenamento destes produtos e consequentemente sua conservação e transformação. O pão fermentado já era consumido pelos egípcios por volta de 4000 anos a.C. Esse pão pagava os salários de camponeses, que ganhavam três pães e dois cântaros de cerveja por dia de trabalho. O sistema de fabricação dos egípcios era muito simples: pedras moíam o trigo que, adicionado à água, formava uma massa mole, que era assada. Foram os egípcios que inventaram o forno fechado, o que conferiu à produção dos pães um importante significado. A pasta de grãos deixada exposta durante um período de tempo atrai as leveduras que produzem o dióxido de carbono e, desta forma, começam a fermentar. Embora durante um longo período da antiguidade a fermentação tenha sido um processo quase acidental, é neste contexto que podemos detectar a fermentação das primeiras massas. A alimentação egípcia era muito diversa. Além dos pães e cervejas, estava presente também o consumo de frutas e vegetais provenientes das hortas, pomares e vinhas. ‘Nas terras bem irrigadas pelo Nilo, já haviam melancias, pepinos e melões. As leguminosas também faziam parte da alimentação cotidiana dos antigos egípcios.’ (Flandrin e Montanari, 2015). A civilização egípcia também consumia o mel proveniente da apicultura, muito popular na região do delta do rio Nilo. Para dar sabor aos alimentos, além do mel, os egípcios também utilizavam o sal proveniente da região ao norte do Nilo e plantas aromáticas como o zimbro, o anis e o coentro. Nos estudos da civilização egípcia detectamos pelo menos três refeições diárias feitas com as mãos e ausência de talheres. Todavia, neste período foram evidenciados avanços relacionados aos modos de comportamento à mesa e nos diversos banquetes. Os utensílios para estas ocasiões muitas vezes eram travessas, taças de cerâmica, de ouro ou prata, dependendo do nível social dos comensais. No período clássico que compreende as civilizações grega e romana, o aspecto mais evidente que define a cultura alimentar desta época é a distinção dos bons modos à mesa como fator que determinava uma divisão do mundo dos bárbaros com o mundo clássico. O banquete passa a ter um status de identidade que define o padrão comportamental de grupos distintos, uma vez que entre os bárbaros não era evidenciado este costume de comunhão em torno de uma mesa. Todo o desenvolvimento tecnológico em torno dos cardápios, da própria organização da cozinha e das técnicas culinárias de maneira geral, no leva a imaginar que nesta época foram aprimorados diversos hábitos de consumo de alguns alimentos, assim como a forma de servi-los. No período romano por exemplo, a massa levedada se tornou muito popular, graças a sua produção sistematizada através da utilização dos moedores circulares, que favoreciam a aceleração da fabricação dos pães de forma tão eficiente que foi mantida como base de moagem até a Revolução Industrial do séc. XIX. Neste cenário portanto, o banquete era configurado como um espaço de excelência onde se expressavam as identidades, as características sociais que representavam as hierarquias e suas relações de poder, materializadas através da oferta e qualidade dos alimentos. Segundo Flandrin e Montanari, 2015 pg 109: ‘A mesa funciona não apenas como agente de agregação e de unidade, mas também, de separação e de marginalização. O fato de ser aceito na mesa comum ou de ser excluído dela, tem um forte significado, quer se trate do baquete oligárquico, que é uma forma de representação da identidade política da cidade governada por poucos, ou do banquete democrático, do qual todos, em última instância, participam, por meio de representantes.’ Além dos rituais existentes em torno dos banquetes, o próprio consumo da carne era um importante fator que distinguia os grupos de comensais e inclusive o grupo daqueles compreendidos como bárbaros. A agricultura somada a domesticação de animais para seu abate e consumo evidencia o homem civilizado do mundo clássico. O homem das civilizações grega e romana é aquele que se dedica ao cultivo de grãos, ao aprimoramento das técnicas culinárias, como a fermentação para a fabricação dos pães, das cervejas e dos vinhos. Caçar e aproveitar o que se obtém na natureza, neste período ganhou uma conotação selvagem, que direciona este hábito alimentar como pertencente ao grupo dos homens bárbaros. Na antiguidade grega e romana, domesticar a caça se tornou um hábito comum, assim como a sistematização da fabricação dos pães, das cervejas e dos vinhos. Cereais e leguminosas possuíam uma importância considerável na alimentação, apesar de aparecem pouco nos registros da época. O pão, o vinho e o azeite são os três elementos mais simbólicos que marcam esta época como uma fase de grande transformação na dieta da humanidade.