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AULA 2 FILOSOFIA DA ARTE Profª Renata Tavares 02 CONVERSA INICIAL A busca de uma definição para a arte não parece ser algo assim tão relevante. Em geral, as questões mais práticas nos interessam: como fazer ou compreender a arte, quais são as novidades em termos de artes, como julgar a arte como boa ou ruim, e por aí vai. E seria um grande preciosismo se colocássemos como necessária uma definição clara de arte para embasar as respostas às perguntas acima. Por outro lado, sempre corremos o risco de um excesso de subjetivismo quando o tema é arte. Isto é, corremos o risco de nos reduzir demais ao próprio gosto pessoal, não nos abrindo para compreender formas de arte que a princípio não cabem neste gosto. Por isso, o exercício desta aula consistirá em avaliar uma série de definições de arte dadas em pequenos trechos de textos de alguns dos principais filósofos da história da estética. Estes serão agrupados por épocas em quatro pares: Platão e Aristóteles, Kant e Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger, e Deleuze e Derrida. Cada um desses pares traz um contexto histórico e questões específicas, portanto, não estão o tempo todo falando exatamente das mesmas coisas. Porém, todos eles procuram ressaltar algo que podemos entender como primordial para a ideia de arte. Antes de entrarmos nas definições, contudo, analisaremos um pouco a palavra grega techné, que quer dizer arte. Ela tem uma série de nuances que devem ser levadas em conta se não quisermos uma tradução que reduza o seu significado. Ao final desta trajetória, você poderá dizer se o conceito de arte poderia ser a soma de todos os fatores apontados pelos pensadores escolhidos. CONTEXTUALIZANDO Você está em uma festa de aniversário de um amigo e a playlist é muito variada. Todos curtem e dançam gêneros musicais que vão do sertanejo ao pop, à beira da piscina, enquanto saboreiam um delicioso churrasco. Em certo momento, começa a tocar funk e de um pequeno grupo emerge uma discussão. “Funk não é música”, alguém diz, de modo a provocar. “É claro que é, e você é elitista por não perceber a importância dessa manifestação cultural”, responde o amigo, chateado com a colocação preconceituosa. “Não briguem, pois gosto não se discute”, tenta intervir um terceiro. Mas muitas perguntas ficaram no ar. 03 A primeira: por que algumas pessoas se arrogam dizer que algo não é uma arte válida, simplesmente porque não gostam dela ou a desmerecem? A segunda: é possível definir o que cabe e o que não cabe dentro dos limites da arte? Quem define esses limites e com que parâmetros? A terceira: é verdade que a arte é uma questão de gosto? E, nesse caso, trata-se de algo tão pessoal que não se possa discutir? Esse exemplo procura mostrar que a busca por uma definição de arte não é uma pergunta desligada de nosso cotidiano. Em muitos momentos de nossas vidas, caracterizamos as manifestações artísticas como melhores ou piores de acordo com um conceito internalizado que já temos de arte. É comum ouvir, diante de obras de arte contemporâneas, reações do tipo “eu paguei para ver isto?” O isto assombroso às vezes é um quadro branco com formas geométricas em um dos cantos, ou um bailarino que improvisa movimentos aparentemente sem sentido, ou ainda um performer que apenas olha nos olhos das pessoas que visitam uma sala de museu. Há uma definição de arte que dê sentido a tudo isto? Tentaremos investigar o assunto a partir de alguns filósofos que foram importantes na história da estética filosófica. TEMA 1 – A IDEIA DE ARTE NA GRÉCIA CLÁSSICA A arte é algo que acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Assim atestam as representações feitas em cavernas datadas de até trinta mil anos atrás. Representar algo de maneira pictórica significa reapresentar algo em uma forma diferente, e esse é um ato que nos define, porquanto nasce somente de uma capacidade de pensamento que nos diferencia do resto da natureza. Pensamento e criação são congêneres, portanto, e devemos perceber que a arte é algo muito mais intrínseco à nossa realidade do que nos damos conta no dia a dia. As primeiras apropriações teóricas a respeito da arte foram realizadas pelos filósofos gregos. Até então, não era comum nenhum tipo de questionamento acerca da atividade, já praticada em todas as culturas. Na cultura grega, a própria acepção de arte demonstra que não havia uma separação entre a arte e outras esferas da vida. A arte precisava ser entendida dentro de um contexto de uso amplo da linguagem, muito diferente de uma ideia de arte como disciplina autônoma e técnica específica, que é a que temos hoje. 04 Em grego, arte se diz techné. Essa palavra tem raiz em uma diferenciação que diz respeito à origem das coisas, se são naturais ou não. Isto é, a natureza surge a partir de si mesma. Tudo na natureza se dá sem que haja uma força humana incidindo sobre ela. A arte é, ao contrário, tudo aquilo que é produzido pelo ser humano. Neste sentido, arte não diz respeito somente a escultura, pintura, dança, teatro, literatura – que eram artes plenamente estabelecidas naquele tempo – mas também a tudo o que o homem faz a partir de seu pensamento. Assim se dizia a arte da medicina, a arte da navegação, e assim por diante. É importante notar, então, em primeiro lugar, que a palavra techné dá relevo à atitude criadora do homem, mais que à ideia de produção de beleza ou prazer, que costuma ser a primeira coisa que pensamos quando se diz a palavra arte. Embora techné quisesse dizer arte, hoje entendemos técnica de uma forma bastante estreita, como se ela fosse somente um conjunto de instruções e realizações práticas, isentas do caráter de criação. Outra coisa que é importante pensar a partir dos gregos é o lugar que a arte ocupava em sua cultura. A arte estava plenamente vinculada ao domínio do sagrado, e a sua influência penetrava em todos os âmbitos da vida cultural. Em outras palavras, a arte era central na vida dos gregos; não havia outro modo de fala que não o poético. E, quando a filosofia surge, isto é, quando surge um novo modo de apropriação da linguagem, isso faz parte de todo um processo que o comentador francês Marcel Detienne chamou de “laicização da palavra”. Ou seja, na Grécia arcaica, a própria linguagem era sagrada, e ela estava na boca dos sacerdotes, dos poetas e dos adivinhos. A linguagem que advinha dessas autoridades, era a presentificação da verdade, sem mais. O processo de laicização envolve desde o aparecimento de outras formas de linguagem, como a militar, a retórica e a filosófica, até a própria construção da democracia grega. Em resumo, é preciso perceber que a poesia (ou a arte) nos tempos de Platão, que é quando se começa a falar do tema, encarna uma série de conflitos daquele tempo. Convivem entre si formas diferentes de se pensar o que significa falar, dizer, e desse conflito nascerá uma série de questões com as quais nos debatemos até hoje. Mas basta, para ilustrar o entendimento da arte entre os gregos, lembrar que eles viam cada uma das formas de arte como dom das musas, e que cada uma das nove musas era filha de Mnemosyne, a memória. O poeta era o 05 portador da verdade, porque era inspirado pelas musas. E, como afirma Maria Cristina Franco Ferraz, em Platão, as artimanhas do fingimento, os gregos tinham um sentido de memória bastante diferente do nosso: Cabe lembrar que a Memória divinizada dos gregos não tinha de modo algum os mesmos fins que a nossa: ela não visava uma reconstrução humana do passado segundo uma perspectiva temporal. Equivalia, antes, a uma potência sagrada atemporal que conferia ao verbo poético seu estatuto de palavra mágico-religiosa. (1999, p. 37) A arte era, portanto, manifestação de toda a memória cultural do povo grego,e até o momento em que a palavra foi laicizada, ou que passa a se dar uma nova forma de uso da linguagem, não havia nada para os gregos que não coubesse sob a designação de poesia. Trazemos este tema para que você perceba que a construção da ideia de arte como algo à parte ou secundário é nossa, isto é, foi construída pela civilização ocidental. TEMA 2 – PLATÃO E ARISTÓTELES Partimos da concepção geral de que, para os gregos antigos, a noção de arte está associada diretamente à ideia de imitação. Mesmo admitindo que a complexidade do termo e de sua tradução mais frequente, a saber, de mímesis por imitação, são suficientes para dedicarmos uma longa explicação, vamos partir para descrever a noção no que ela pode ter de mais acessível num primeiro momento. E faremos isso, ainda, partindo da diferença que dois dos mais importantes filósofos da antiguidade grega, Platão e Aristóteles, atribuíram ao termo. É de comum acordo entre os estudiosos que Platão entende a imitação como um processo impreciso, e que essa característica o faz desconfiar da condição pedagógica da imitação quando pensa sobre a formação dos jovens atenienses. Isto implica a clássica crítica que o filósofo faz aos poetas e músicos, especialmente em A república, sugerindo a censura ao exercício dessas artes na cidade, sob o argumento de que a sua pouca precisão poderia formar inadequadamente os jovens cidadãos. Diante disso, podemos extrair duas observações importantes: primeiro, para Platão, a noção de arte e de seus usos possíveis na polis está subordinada à ética e à política, pois sua censura se justifica na medida em que a arte pode ser algo nocivo do ponto de vista político e pedagógico para a cidade. Segundo, que essa censura está justificada pela interpretação pejorativa que o filósofo faz 06 da mímesis enquanto atividade humana, pois o fato de ser uma imitação é o que o preocupa fundamentalmente. A imitação está condenada a ser distante o suficiente das ideias a ponto de jamais poder alcançar a verdade; e, com isso, ficaria renegada a uma importância subalterna e meramente ilustrativa, tanto nos diálogos platônicos quanto no seu uso corrente na vida cotidiana ateniense. Aristóteles, foi aluno de Platão em Atenas por cerca de duas décadas. Depois da morte do mestre, defende da condenação platônica a arte mimética. Na sua obra dedicada às tragédias e comédias gregas, intitulada A poética, Aristóteles defende que a imitação por si só não deve ser considerada uma atividade de menor prestígio. Segundo ele, a imitação é tão presente na vida humana que aprendemos as primeiras ações a partir da imitação dos mais velhos, quando somos crianças, e nos divertimos quando alguém se propõe a imitar os gestos e maneiras de outra pessoa. Além disso, o filósofo ainda credita especialmente às tragédias a possibilidade de conduzir o homem ao conhecimento verdadeiro de algumas coisas, contrariando veementemente seu antigo mestre. Ele afirma que a tragédia grega, por imitar situações que poderiam acontecer, é uma atividade que abre espaço para que o homem pense a partir de condições de possibilidade, isto é, abstraindo e refletindo acerca de condições ideais e fazendo projeções. Isso só é possível porque, nas tragédias, dois elementos sustentam esse caráter filosófico e reflexivo da trama: a necessidade e a verossimilhança. Ao imitar a natureza, a tragédia apresenta a sucessão das ações humanas a partir de relações de necessidade, isto é, como se cada ação parte da trama ocorresse não por acaso, mas por absoluta necessidade de acontecer, assim como ocorre com os fenômenos naturais, por exemplo. Isso faria a tragédia parecer seguir regras próprias, independentes, que pela sequência em que ocorrem implicam as ações seguintes. Além disso, as ações humanas apresentadas nas tragédias não são, na verdade, coisas que efetivamente aconteceram, assim como ocorre na literatura e hoje assimilamos mais facilmente, pois não nos questionamos sobre a existência de Sancho Pança, parceiro de Dom Quixote, por exemplo. As ações nas tragédias são imitações de ações que poderiam acontecer, caso a sucessão dos fatos promovesse sua ocorrência daquela maneira. Esse aspecto 07 condicional dá à tragédia, na perspectiva do filósofo, um caráter especulativo e, portanto, filosófico. Essa afirmação apresenta uma teoria radicalmente oposta à de Platão e credencia a arte a exercer uma função ética e formadora fundamentalmente mais relevante para Aristóteles. Ao divergir de seu mestre quanto ao estatuto da arte mimética, Aristóteles não apenas faz uma apologia da tragédia, como também valoriza uma das suas principais características, que, para ele, é sua finalidade e razão de ser: a catarse. A possibilidade de nos identificarmos com a dor e o sofrimento do personagem é forte o suficiente para repensarmos e melhor conduzirmos as nossas ações, tendo em vista evitar sofrimento e dores semelhantes, e, em última instância, fazendo valer a arte mimética enquanto intervenção pedagógica por excelência. TEMA 3 – KANT E SCHOPENHAUER O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) é muito importante na história da estética porque foi o primeiro a mencionar com clareza a necessidade de se reconhecer a noção de autonomia da obra de arte. Essa autonomia emerge de uma análise a respeito de que tipo de juízo é o juízo do gosto, isto é, aquele que menciona a beleza ou o prazer advindo da relação com um objeto. Sabemos que Kant escreveu três grandes obras na busca de realizar um projeto crítico. Partindo da constatação de que nem o empirismo nem o racionalismo eram suficientes para configurar um método adequado de busca da verdade, Kant se debruçou a questionar quais eram e quais não eram as coisas que a razão podia conhecer. Quais eram os limites e, consequentemente, usos “corretos” da razão. Para fazer isso, Kant analisa os juízos. Os juízos referentes ao conhecimento são objeto da primeira crítica, a Crítica da razão pura. Os juízos morais, da segunda, a Crítica da razão prática. Mas há juízos que não são nem de conhecimento, nem de moralidade e que têm características muito específicas. Estes são justamente os juízos que incidem sobre a arte e a teleologia da vida humana, e são tratados na mais difícil das três críticas, que é denominada simplesmente Crítica do juízo. De maneira muito resumida, o que Kant aponta nessa obra é que o juízo estético é subjetivo, porém desinteressado. Quando dizemos que “a obra é bela” não estamos dizendo que ela simplesmente nos agrada, como diríamos no juízo 08 “este perfume é agradável”, ou “esta comida é boa”. Embora sejam juízos parecidos entre si, o estético se distingue por não depender de que o objeto que provoca a sensação exista de fato (como o perfume ou a comida nos outros dois exemplos). O juízo do belo será algo parecido à percepção de um “prazer universal”, e Kant argumenta ainda que nisso concebemos um “sentimento conforme a finalidade da vida humana”, que, por sua vez, está ligada à ideia de homem como o único ente da realidade que tem um fim em si mesmo. Como você pode notar, essas são ideias que precisam de mais tempo para ser aprofundadas, mas as deixaremos para outro momento. O importante a perceber agora é que, desta noção de juízo estético, nasce a ideia de autonomia da obra, que consiste justamente em um respeito ao tipo de juízo que pode ser feito sobre a arte, que não nos permite impor a ela nem os desígnios do conhecimento nem os da moral. Os princípios que aparecem no juízo estético são independentes destas outras duas esferas e apontam para a realidade do próprio ser humano, como capaz também de outras formas de pensamento, a saber, também aquelas que se dão no livre jogo da imaginação, e não são por isso menos válidas que as da ciência e as da moralidade. O também alemão Arthur Schopenhauer(1788-1860) viveu em um período iluminista e romântico, mas foi, por sua filosofia, crítico de ambos os movimentos, por mais solitária que fosse sua voz naquele momento. Embora tenha sido em grande medida seguidor de Kant, foi o primeiro filósofo a querer entender o mundo não somente de uma perspectiva racional, mas dando igual valor ao ímpeto que se manifesta tanto no ser humano quanto na natureza, aquilo que ele chamou de vontade. Uma das ideias mais repetidas quando se fala em Schopenhauer é a da vida como um pêndulo entre o tédio e o sofrimento, que o filósofo proclama no parágrafo 57 de O mundo como vontade e representação. Diante disso, não é de se estranhar que ele tenha a fama de ser um filósofo negativista. Reconhecendo que vontade e representação são duas faces do mesmo mundo, Schopenhauer propõe duas coisas. De um ponto de vista ético, sua resposta consiste em uma ascética de negação da vontade, inspirada na ideia oriental de nirvana, que entende que só a negação da vontade poderia nos acalmar o sofrimento gerado pelo desejo. Porém, do ponto de vista estético, Schopenhauer entende que a arte é capaz de nos dar como que lampejos de verdade, mas não a verdade da representação, e sim de algo oculto que se esconde na vontade, para além das 09 formas puras e condicionantes da racionalidade. Este tipo de conhecimento não havia sido pensado por nenhum filósofo até então. E ele significaria certo alívio de nosso sofrimento, como uma contemplação de certas essências que só ocorreria por meio da arte. Na arte aconteceria, para Schopenhauer, uma contemplação de ideias eternas, e justifica esta sua crença em uma metafísica de artista em sua noção de gênio. O gênio, que é o artista, é o espelho do mundo, porque na arte é capaz de ultrapassar-se como indivíduo, como sujeito, no momento em que contempla e traz para sua obra uma ideia. Assim coloca em Metafísica do belo: A arte, ao contrário, encontra em toda parte seu fim. Pois ela retira o objeto de sua contemplação da torrente do curso do mundo e o isola diante de si; e esse particular, que era na torrente fugidia uma parte ínfima a desaparecer, torna-se um representante do todo, um equivalente no espaço e no tempo do muito infinito. A arte se detém neste particular, a roda do tempo para; as relações desaparecem para ela. Apenas o essencial, a Ideia, é o seu objeto. (Schopenhauer, 2003, p.59) O gênio nos permite esse lampejo de eternidade, e somente o faz por uma grande capacidade de intuição. E cada tipo de arte seria capaz de plasmar uma ideia diferente. De todas elas, Schopenhauer vê a música como aquela capaz de ver mais diretamente a vontade mesma, por isso, diz que a música é uma linguagem universal, que entendemos sem compreender racionalmente. Em todas as artes, e talvez na música com mais veemência, acontece o que Schopenhauer chama de gozo estético, e isso representa um prazer capaz de acalmar um pouco aquele sofrimento causado pelo desejo, que o filósofo sublinha em toda a sua obra. Embora aparentemente estranha, essa visão abre caminho, na filosofia, a uma série de importantes reflexões que dão à arte um lugar muito mais elevado do que de costume, como veremos a seguir. TEMA 4 – NIETZSCHE E HEIDEGGER Friedrich Nietzsche é, como todos sabemos, um filósofo explosivo. Em sua proposta de fazer filosofia a marteladas, está compreendida a necessidade de criticar a fundo toda a tradição do pensamento ocidental filosófico que teria criado uma série de idealizações mentirosas e muito perniciosas. Sob a pretensa neutralidade da verdade e da ciência descansa, para Nietzsche, um pano de fundo de uma moral altamente prejudicial ao homem, por propor a negação de sua vontade de viver. 010 Nietzsche passaria toda a sua vida questionando o discurso que se tornou hegemônico que é o da filosofia e da ciência, em que enxerga uma verdadeira continuidade com a moral, e embora de formas diferentes em diferentes épocas e obras, sempre entendendo a arte como um espaço em que isso é questionado e superado. Não temos tempo para nos aprofundar em cada uma das obras, mas basta como exemplo o que Nietzsche escreve em sua primeira obra, O nascimento da tragédia, que procura mostrar que a tragédia grega não tinha como traços principais o brilho e a racionalidade da aparência (características que atribui ao deus Apolo), mas sim havia nascido da irracionalidade e da força de fusão com a natureza (que o deus Dioniso representava). A tragédia une, portanto, os dois princípios. Ambos existem na mesma medida na arte trágica, e isso representa para Nietzsche mais que apenas uma forma de arte. A tragédia fala de um modo de vida dos gregos, que antes de ter sua cultura transformada por aquilo que Nietzsche chama de socratismo, eram capazes de pensar as ambiguidades da realidade como concretas e insolúveis, caracterizando de uma forma mais honesta a vida humana. Para entender, basta recorrer a uma tragédia como Édipo rei, de Sófocles, e tentar dar uma resposta final à pergunta: de quem é a culpa pelo destino trágico de Édipo? Afinal, o homem de pés inchados foi aquele que com mais veemência repudiou o seu destino e, justamente por fugir dele, o encontrou. Tentamos, diante do rei de Tebas, compreender palavras como “certo e errado”, “bom e mau”, e o sentido delas se torna escorregadio. Nietzsche aponta isso como, mais propriamente, uma condição do homem, a impossibilidade de ser definido em certezas tão estreitas. A arte é o território onde tal constatação se dá, e isso não acontece nem na ciência, nem na filosofia, nem na moral (que, para Nietzsche, são, na verdade, três formas de dizer a mesma coisa). Assim como Nietzsche, Martin Heidegger (1889-1976) propõe um pensamento bastante ousado com relação ao que seja arte. Para ele, a arte, ao contrário de se afastar da verdade como pensaria Platão, é o que mais nos aproxima dela, é a atividade que é capaz de mostrar a verdade ao homem com maios plenitude do que o próprio pensamento racional. E, nesse sentido, é também o que, de alguma forma, nos denuncia os limites do pensamento racional, mostrando que talvez devamos pensar o termo verdade de uma nova maneira. 011 É fato que Heidegger está sempre em uma atitude de crítica em relação ao pensamento da tradição filosófica, entendendo que essa tradição se pautou em uma construção metafísica que não faz sentido, e que é fruto de uma má interpretação do pensamento grego. E um dos conceitos mais problemáticos para Heidegger é a ideia de verdade como adequação da palavra à coisa, isto é, a famosa fórmula latina “adaequatio intellectus et res”. Essa adequação, fruto de uma racionalidade que para Heidegger é restrita, procura captar em conceitos estáticos uma realidade que não se deixa apanhar assim. De modo que Heidegger está sempre ressaltando a importância de se entender verdade num sentido mais próximo à antiga palavra grega aletheia, isto é, desvelamento. A verdade do real é o seu próprio acontecimento, é o seu próprio mostrar-se. Não está no seu conceito e sim na própria coisa acontecendo. O grande problema criado por nossa tradição filosófica conceitual é uma atitude que dá mais ênfase ao conceito do que à realidade, deixando de perceber a temporalidade e o caráter de existência mesmo desta realidade, que deveria ser o mais importante. Para Heidegger, a arte é onde o desvelamento se dá com mais propriedade. A realidade pode mostrar-se, justamente porque não tem o compromisso de caber dentro de conceitos preestabelecidos. Pois, na arte, a linguagem se dá simplesmente no aberto da liberdade, e desvela aspectos da realidade que no pensamento racional não encontramos. Por isso Heidegger afirma que a arte é o pôr-se em obra da verdade, é o lugar, por assim dizer, onde esse desvelamento pode acontecer. Em outro momento, poderemos nos aprofundarnessa concepção tão polêmica que Heidegger propõe. O próprio filósofo parece destacar o fato de que não tem a pretensão de resolver o problema filosófico do que seja a arte, porque a considera de antemão uma impossibilidade. Para ele, a arte é mais bem um enigma. Nesse sentido, afirma em A origem da obra de arte: “As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que é a própria arte. Está longe a pretensão de resolver o enigma. Resta a tarefa de ver o enigma” (Heidegger, 2010, p. 201). Deixaremos a ideia em aberto para podermos retomá- la mais tarde. 012 TEMA 5 – DELEUZE E DERRIDA Para finalizar nossa trajetória entre os conceitos de arte de nossos filósofos, elencamos dois exemplos de pensadores mais contemporâneos, a fim de ficar um pouco mais próximos das formas como a arte se manifesta hoje. Gilles Deleuze (1925-1995) foi um pensador de extrema importância no século XX, e um dos que mais dialogaram com a arte. Ao longo de toda a sua trajetória filosófica, Deleuze se debruçou sobre o tema, ora abordando a literatura, ora o cinema, ora o teatro, ora a própria relação entre filosofia e arte. Deleuze é um filósofo que se orientou desde o início pela filosofia de Nietzsche. Dentro dessa perspectiva, trazer a arte para dentro de suas análises filosóficas significa já por si procurar um caminho para ultrapassar as velhas formas de se fazer filosofia. Mas, para além disso, Deleuze também é responsável por equiparar a filosofia, a arte e a ciência enquanto diferentes formas de criação e dar relevo ao fato de que nenhuma dessas perspectivas tem a prerrogativa de atingir verdades mais valiosas do que as outras. Todas, afinal, são criações de verdades. Trata-se, nos três casos, de criações diferentes: a filosofia cria conceitos, a arte cria afetos e perceptos, e a ciência cria funções. De forma platônica, imaginou-se que a filosofia descobria conceitos, assim como a ciência descobria suas funções, e poderíamos dizer que a arte intuía verdades de algum outro tipo mais etéreo. Na visão de Deleuze não há, em nenhuma dessas perspectivas, nada além de criações. Até mesmo quando fala em história da filosofia, não deixa de ressaltar esta condição: A história da filosofia não é uma disciplina particularmente reflexiva. É antes como a arte do retrato em pintura. São retratos mentais, conceituais. Como em pintura, é preciso fazer semelhante, mas por meios que não sejam semelhantes, por meios diferentes: a semelhança deve ser produzida, e não ser um meio para reproduzir. (Deleuze, 2010, 173) E o filósofo aproxima, a partir desta ideia, os conceitos e os afetos, ou melhor, demonstra em suas obras que as duas instâncias de criação humana não são efetivamente tão separadas quanto gostaria a tradição metafísica. Não há a necessidade de que o afeto – resultado da sensação – esteja se subjugado à representação, como sempre se pensou. Ao contrário, Deleuze entende que a própria sensação é capaz de criar uma lógica e guiar nosso pensamento. 013 Um dos filósofos influenciados por Deleuze foi o franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004) e a palavra que nos leva a chamá-lo para esta conversa é, como se poderia esperar, desconstrução. Sua perspectiva, difícil de ser compreendida num primeiro momento, fala de uma impossibilidade radical de definição das coisas por meio da linguagem. Como se toda definição fosse uma tentativa frustrada de dizer o que não se pode dizer, pois, em última instância, “a realidade sempre nos escapa”. O próprio uso da linguagem precisa ser compreendido a partir de problemáticas como o nosso lugar de fala, os limites de nossa fala, os rastros de nossa linguagem e a noção crucial de que o que se faz sempre, afinal, é tomar posição e nada mais. Uma leitura muito importante a se fazer nesta perspectiva é a do texto A farmácia de Platão, onde Derrida liga a linguagem à ideia de phármakon. Isto significa que a linguagem, ao mesmo tempo em que pode ser um remédio, um antídoto, algo que cura, também pode ser um veneno, algo que mata, e ela oscila entre as duas perspectivas na medida em que a utilizamos, ainda que não tenhamos consciência disso. Essa ideia de linguagem nos faz refletir sobre a impossibilidade de alcançar qualquer tipo de segurança ou certeza, e reconhece em uma grande parte de nossas discussões filosóficas um debate estéril. Um grande exemplo é o que Derrida coloca no texto Restituições, aludindo a uma famosa discussão entre o filósofo Martin Heidegger e o historiador da arte Meyer Schapiro, provocada pela análise que Heidegger faz do quadro de Van Gogh Um par de sapatos. Enquanto Heidegger procura mostrar que as interpretações tradicionais da arte não conseguem dizer tudo o que está em jogo em um quadro como este, Schapiro o acusa de projetar sobre o quadro uma série de coisas que não se sustentam por ele mesmo. Por exemplo, o fato de atribuir os sapatos a uma camponesa, desconhecendo coisas bastante básicas da vida de Van Gogh que atestariam que aqueles sapatos seriam de um homem urbano de sua época, provavelmente do próprio pintor, visto, inclusive, que ele pintou diversos quadros com o mesmo tema. Derrida se ressente da pobreza dessa discussão e recorre em última instância à ideia de abandono. Na pintura, os sapatos estão verdadeiramente abandonados a si mesmos. E cada um dos combatentes na discussão se arroga o direito de restituir os sapatos à sua própria verdade. Mas o que estão fazendo se motiva simplesmente por uma vontade de apropriação. Uma apropriação que é indevida pela sua própria natureza, isto é, porque nem a obra, nem a linguagem, nem a própria vida se deixam apropriar, se 014 deixam tomar à força em nome de nenhuma verdade. Isso é mais uma manifestação da vontade de domínio que o homem sempre exerce sobre a realidade, e que cria a tradição falologocêntrica de pensamento ocidental. A arte, a exemplo do que acontece em Nietzsche, Heidegger e Deleuze, é o espaço que expõe de forma clara os limites dessa tradição. FINALIZANDO Nesta aula, realizamos um passeio entre conceitos de arte que nos são oferecidos por filósofos de diferentes épocas. Procuramos escolhê-los a partir da ideia de que cada um poderia aportar um aspecto diferente e importante para se pensar a resposta ao que é arte. Começamos analisando o conceito grego de arte, resumido na palavra techné e chamamos à atenção que a proximidade entre os sentidos de técnica e arte nesta palavra ilustra que não havia uma separação entre aquilo que produz a beleza e aquilo que produz coisas úteis. Era arte tudo aquilo que tem sua origem não na natureza em si mesma, mas no ser humano. Arte é aquilo que nós somos capazes de pensar e produzir. O mais importante, portanto, é ressaltar a ideia de criação. A partir de então, sublinhamos alguns aspectos importantes para se pensar a arte, lendo trechos de textos dos filósofos emblemáticos de cada uma das épocas importantes da estética, a grega, a moderna e a contemporânea. De Platão a Derrida, pudemos pensar um pouco na relação entre arte e conhecimento, no sentido formativo da arte, na autonomia da obra de arte e na relação do homem com a vida por meio da arte. Isso não nos leva a uma definição de dicionário que possa ser aceita por todos, mas cada um dos pontos levantados nos faz compreender melhor isto que já foi caracterizado, não sem motivo, como enigma. 015 REFERÊNCIAS ABREU, O. A arte na filosofia de Deleuze. In: HADDOCK-LOBO, R. (Org.). Os filósofos e a arte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. p. 289-314. ARISTÓTELES. Poética. Tradução, introdução e notas de Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015. DETIENNE, M. Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. DELEUZE, G. Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 2010. DUQUE-ESTRADA,P. C. Derrida: o pensamento da desconstrução diante da obra de arte. In: HADDOCK-LOBO, R. (Org.) Os filósofos e a arte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. p. 333-344. FERRAZ, M. C. F. Platão: as artimanhas do fingimento. São Paulo: Relume Dumará, 1999. HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte. Tradução Idalina Azevedo e Manuel Antônio de Castro. 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