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Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade Apresentação A criança, quando chega na escola, já passou pelo processo de aquisição da língua e já domina os mecanismos da gramática internalizada, pois é capaz de utilizá-la nos diferentes contextos do seu cotidiano. Apesar disso, a escola precisa trabalhar a oralidade, pois o aluno aprenderá coisas diferentes daquelas que aprende em casa ou na comunidade. A escola não tem a função de ensinar a língua oral, mas tem por tarefa o ensino dos seus usos, tanto os orais quanto os escritos. De que maneira se pode melhorar o desempenho dos alunos na modalidade oral da língua? Por que valorizar as variações linguísticas é tão importante? Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá a importância do trabalho com a oralidade no ensino fundamental e médio, o porquê de valorizar a variação linguística e as relações da oralidade com a escrita. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Relacionar a modalidade oral com a escrita da língua.• Reconhecer a importância das variações linguísticas e refletir sobre os estigmas linguísticos.• Analisar as práticas de oralidade para o ensino fundamental e o ensino médio.• Desafio As práticas de oralidade têm como função melhorar o desempenho oral do aluno e exigem sistemática e preparação para que sejam eficazes e bem-sucedidas. Você é professor de língua portuguesa em um escola de ensino fundamental que foi selecionada para participar de uma olimpíada entre escolas. Nesse torneio, os alunos deveriam fazer apresentações orais para os alunos de outras instituições, que incluíam, entre outras atividades, declamações de poemas e um torneio de rap. Você costuma trabalhar leitura em voz alta com os alunos e acreditava que as atividades em que convidava cada aluno para ler um trecho do texto eram suficientes para desenvolver a sua oralidade. Porém, durante as atividades do torneio você se deu conta de que seu objetivo não havia sido atingido quando os alunos que participaram foram avaliados de forma negativa, ou seja, o desempenho foi ineficiente. Diante disso, os alunos voltaram chateados e dispostos a melhorar para participar do torneio no ano seguinte. Você, então, resolveu repensar as suas práticas de oralidade com o objetivo de impulsionar e melhorar a oralidade dos seus alunos. Que tipo de metodologia e de atividades você utilizaria para trabalhar melhor a oralidade em sala de aula? Infográfico Neste infográfico, você vai conhecer as seis principais características da oralidade. Confira! Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Conteúdo do livro Você já parou para refletir sobre de que forma e com que intensidade as modalidades oral e escrita da língua portuguesa se fazem presentes no contexto da sala de aula da Educação Básica no Brasil? E, mais, você considera que existe relação entre as duas modalidades e que, de alguma forma, elas podem ser entendidas como complementares para o entendimento do funcionamento de uma língua e, também, são respectivamente importantes para o aprendizado dessa língua? Há de se refletir sobre a necessidade de uma maior valorização da língua oral no contexto formal da Educação Básica; questão, inclusive, relatada e defendida nos documentos oficiais voltados para a educação. Mas, qual a relação entre as duas modalidades e de forma trabalhar com práticas de oralidade? Para buscar o entendimento destas questões que estão sendo postas e para ampliar o seu conhecimento sobre abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade, acesse o capítulo a seguir e amplie a sua leitura sobre estas temáticas. Boa reflexão! METODOLOGIA DO ENSINO DE LIGUAGEM Nadia Studzinski Estima de Castro Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Relacionar a modalidade oral com a escrita da língua. Reconhecer a importância das variações linguísticas e refletir sobre os estigmas linguísticos. Analisar as práticas de oralidade para os ensinos fundamental e médio. Introdução Neste capítulo, você vai refletir sobre as aproximações entre textos orais e escritos a partir do reconhecimento das características de cada uma dessas modalidades. Essa reflexão é importante para que a prática em sala de aula, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, esteja centrada na formação de sujeitos leitores que, a partir do domínio da língua oral e escrita, ocupem de forma cidadã os seus espaços na sociedade. Ou seja, está em jogo a formação de sujeitos capazes de agir a partir da leitura dos diferentes textos que lhes são apresentados nos contextos sociais, culturais e econômicos. Ao longo do capítulo, você vai ver como a modalidade oral se rela- ciona com a modalidade escrita da língua. Você também vai verificar a importância das variações linguísticas e refletir sobre os estigmas linguís- ticos. Além disso, vai conhecer algumas práticas de oralidade voltadas para os ensinos fundamental e médio. 1 As modalidades oral e escrita da língua Os seres humanos são seres sociais e, por isso, utilizam recursos e estratégias para interagir de forma a sobreviver no meio em que estão inseridos. Um desses recursos é a linguagem: por meio dela, é possível organizar o pensamento e exteriorizar as ideias formuladas na mente. Nesse contexto, a língua oral e a língua escrita são formas de expressão; elas variam de acordo com as exigências impostas pelas mais diversas situações. Por exemplo, em uma prova dissertativa, você é solicitado a expressar a organização do seu pensamento por meio da escrita, respondendo a perguntas sobre determinado conhecimento. Nesse caso, você lê, interpreta, sintetiza as suas ideias e as transcreve para o papel por meio da língua escrita. Agora, em sala de aula, por exemplo, é possível realizar apresentações de seminá- rios e diálogos de aprendizagem. Nessas situações, a língua oral é o recurso acionado para compartilhar pensamentos, opiniões, interpretações e crenças sobre determinada temática. As línguas falada e escrita apresentam singularidades; ou seja, têm características que as diferenciam. Mesmo fazendo uso do mesmo sistema linguístico de determinado idioma, elas devem ser entendidas a partir das suas diferentes características, mas sem necessariamente serem encaradas como dois grupos completamente distintos e mutuamente exclusivos. É importante frisar que o estudo da modalidade oral da língua é im- prescindível para entender o funcionamento da escrita (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007). A modalidade oral da língua não é apenas um instrumento de comunicação. Ela é “[...] uma prática social que produz e organiza as formas de vida, as formas de ação e as formas de conhecimento” (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 14). Assim, a língua oral é mais do que um comportamento dos indivíduos; ela é atividade conjunta e trabalho coletivo. Além disso, “[...] contribui de forma decisiva para a formação de identidades sociais e individuais” (MAR- CUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 14). Isso tudo aponta para a importância de a língua oral estar presente na sala de aula. O trabalho com a língua em sala de aula é marcadamente mais enfático na modalidade escrita, mas “[...] é como língua oral que se dá seu uso mais comum no dia a dia” (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 14). Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade2 Para Marcuschi e Dionisio (2007, p. 15), é importante considerar o seguinte: [...] a criança, o jovem ou o adulto já sabe falar com propriedade e eficiência comunicativa sua língua materna quando entra na escola, e sua fala influen- cia a escrita, sobretudo no período inicial da alfabetização, já que a fala tem modos próprios de organizar, desenvolver e manter as atividades discursivas. Esse aspecto é importante e permite entender um pouco mais as relações sistemáticas entre oralidade e escrita esuas inegáveis influências mútuas. Como você pode notar, as duas modalidades não são excludentes. É pre- ciso valorizar as duas formas de expressão, sobretudo para o entendimento do funcionamento de ambas. Nesse contexto, tornar-se proficiente na língua escrita pressupõe a passagem pela língua oral; logo, não há como contestar as influências mútuas. Então, tenha em mente que “[...] a fala pode ser interpretada como uma forma de produção textual-discursiva com fins de comunicação na modali- dade denominada de oral” (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 25). Logo, a fala está situada no plano da oralidade e não necessita de outras ferramentas que não as disponíveis para o próprio ser humano para que seja realizada. Caracteriza-se, portanto, pelo sistema de sons de determinada língua, que são sistematicamente organizados, articulados e se tornam significativos para um grupo de indivíduos. Na modalidade da língua oral ainda estão incluídos aspectos prosódicos e outros recursos utilizados para expressividade, tais como: olhares, gestos, expressões, movimentos corporais, etc. A modalidade escrita da língua é, conforme Marcuschi (2010, p. 27), “[...] um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais e se caracteriza por sua constituição gráfica”. De acordo com o autor, a escrita pode se manifestar, “[...] do ponto de vista da sua tecnologia, por unidades alfabéticas (escrita alfabética), ideogramas (escrita ideográfica) ou unidades iconográficas” (MARCUSCHI, 2010, p. 27). Portanto, a escrita é uma modalidade que complementa a fala. Você sabe o que é a prosódia? Ela engloba a entonação, a acentuação, a qualidade da voz, o ritmo, a taxa de elocução e a pausa, entre outros aspectos da fala. Tais elementos têm correlatos acústicos, perceptivos e fisiológicos (PENHA, 2015). 3Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade 2 Variações linguísticas Como você viu, existe uma relação íntima entre língua e fala. Ambas se in- fl uenciam de forma mútua. Tendo isso em vista, é necessário barrar, quando possível, a superioridade da língua escrita em relação à língua falada no contexto da escola. Não há razão para um prestígio mais evidente da língua escrita em detrimento da língua falada. Ambas se complementam e se enri- quecem em um movimento contínuo. Logo: [...] ambas têm um papel importante a cumprir e não competem. Cada uma tem sua arena preferencial, nem sempre fácil de distinguir, pois são atividades discursivas complementares. Em suma, oralidade e escrita não estão em com- petição. Cada uma tem sua história e seu papel na sociedade (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 27). Nesse panorama, outra questão surge: a necessidade de entender a variação linguística. Existem diferentes formas de expressão na modalidade oral, e “[...] não é aconselhável louvar a oralidade diante da escrita nem aconselhar um ou outro tipo de oralidade como o melhor” (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 27). É imprescindível que a variedade linguística seja discutida na sala de aula para que os estudantes entendam que não há superioridade de uma forma em detrimento de outra. O que existe são usos diferenciados para cada modalidade, mas sem valoração. O contexto exige do falante a capacidade de entender as exigências impostas, por exemplo. Mas isso não significa que uma forma seja certa ou errada, e sim que é mais adequada para a necessidade de dado contexto. Por exemplo, em um encontro informal de um grupo de indivíduos, em um local descontraído, há uma maior marca de informalidade nas trocas que fazem uso da modalidade da língua falada. Agora considere, por exemplo, a apresentação de um artigo em um congresso internacional de educação; a formalidade na apresentação vai ser exigida pelo contexto avaliativo. No entanto, existe muito preconceito linguístico no Brasil. Mesmo que todos “[...] os falares estejam em ordem”, sejam compreensíveis e façam uso do mesmo código da língua; “[...] nem todos eles têm a mesma reputação social” (MARCUSCHI; DIONISIO, 2007, p. 27). Trabalhar com a variação linguística possibilita a redução do preconceito linguístico, que, de acordo com Bagno (2003), reflete preconceito social, pois representa uma forma de discriminação das diferenças. Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade4 A variação linguística é um movimento natural e comum a todas as línguas. Por exemplo, considere um falante de português brasileiro que habita o extremo sul do País e outro indivíduo que habita o extremo norte: a língua portuguesa é comum aos dois, mas há variação no uso dela, com recursos expressivos, palavras diferenciadas, estruturas diversas, recursos prosódicos característicos de cada região, etc. Isso significa que uma das versões é “mais correta” do que a outra? Não, absolutamente. O que existe é variação; considerar uma variante “mais correta” do que a outra consiste em preconceito linguístico e social. A variação acontece em todas as línguas: inglês na Inglaterra e inglês nos Estados Unidos, francês na França e francês no Canadá, etc. Assim, valorizar as diferentes formas de expressão da língua representa enriquecimento para o ensino, amplitude da criatividade no uso do idioma em sua modalidade oral, além, evidentemente, de respeito pelas diferenças. Quer saber mais sobre preconceito linguístico? Assista ao vídeo disponível no link a seguir, em que o professor Marcos Bagno explica esse conceito. https://qrgo.page.link/hwh78 A variação presente na modalidade oral da língua é mais intensa do que a presente na escrita, pois nesta última há mais normas explícitas e padrões ditados por gramáticas e manuais. A língua escrita apresenta normas orto- gráficas rígidas, além de algumas regras de textualização que a diferenciam da fala. Contudo, isso não quer dizer que não há variação na língua escrita. Nesse contexto, considere o que afirma Marcuschi e Dionisio (2007, p. 16): [...] a variação tem um limite que não pode ser ignorado. Mesmo quando tomada como um conjunto de práticas discursivas, a língua constitui-se de um sistema de regras que lhe subjaz e deve ser obedecido. Do contrário, as pessoas não se entenderiam. Se cada um pudesse fazer o que quisesse e construísse os textos a seu bel-prazer, isso não daria certo porque não propiciaria a interação entre os interlocutores. Existem, portanto, regras a serem observadas tanto na fala como na escrita, mas essas regras são bastante elásticas e não impedem a criatividade e a liberdade na ação linguística das pessoas. 5Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade Mesmo na variação, é preciso atentar à produção significativa na língua, seja ela escrita ou falada, para que o objetivo da comunicação seja alcançado em todos os contextos e na interação entre as pessoas. Por isso, o domínio do maior número possível de variações é importante para os sujeitos. Dessa forma, se estabelece o domínio das possibilidades de uso das variações de acordo com as exigências de cada contexto. Ou seja, a pessoa amplia a sua atuação cidadã a partir da interpretação das diferentes situações comunicati- vas e, consequentemente, da sua capacidade e da sua habilidade de produzir comunicação efetiva. 3 Práticas de oralidade para os ensinos fundamental e médio Agora, você deve estar se perguntando: de que forma trabalhar a oralidade no ensino fundamental e no ensino médio? De acordo com Marcuschi (2010, p. 16), “[...] uma vez adotada a posição de que lidamos com práticas de letra- mento e oralidade, será fundamental considerar que as línguas se fundam em usos e não o contrário”. Isso quer dizer que não serão “[...] primeiramente as regras da língua nem a morfologia os merecedores de nossa atenção, mas os usos da língua, pois o que determina a variação da linguística em todas as suas manifestações são os usos que fazemos da língua” (MARCUSCHI, 2010, p. 16). Nessa perspectiva, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) voltadospara o ensino fundamental propõem a seguinte reflexão (BRASIL, 1997, documento on-line): Apesar de apresentadas como dois sub-blocos, é necessário que se compreenda que leitura e escrita são práticas complementares, fortemente relacionadas, que se modificam mutuamente no processo de letramento — a escrita trans- forma a fala (a constituição da “fala letrada”) e a fala influencia a escrita (o aparecimento de “traços da oralidade” nos textos escritos). São práticas que permitem ao aluno construir seu conhecimento sobre os diferentes gêneros, sobre os procedimentos mais adequados para lê-los e escrevê-los e sobre as circunstâncias de uso da escrita. No contexto do ensino fundamental, é possível propor que os alunos pro- duzam e gravem textos orais para que, posteriormente, sejam desenvolvidas atividades de reconhecimento de tópicos relacionados com entonação, pontu- ação na fala, velocidade da fala, recursos expressivos, etc. Da mesma forma, Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade6 o professor pode aproveitar o trabalho com as produções orais para refletir sobre a transposição do texto oral para o texto escrito, tratando, por exemplo, da produção de parágrafos em cada uma das modalidades. Fávero et al. (2000) sugerem outra estratégia de trabalho: a identificação das marcas de oralidade em gêneros textuais diversos, como no texto jornalístico e na poesia. Outra atividade dinâmica em sala de aula compreende a leitura de um mesmo texto por pessoas diferentes. A atividade pode ser estruturada da seguinte forma: o professor seleciona um texto e divide a turma em dois grupos; cada grupo estuda o texto e debate a forma de apresentá-lo oralmente; em seguida, os grupos apresentam os textos; por fim, o professor conduz um diálogo sobre as diferenças e semelhanças na leitura oral do mesmo texto. Tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, é possível trabalhar com diferentes atividades para a construção do conhecimento sobre variação linguística, modalidade escrita e modalidade oral da língua. Um cuidado importante é variar a seleção de textos de acordo com a faixa etária de cada etapa de formação. Considerando o contexto do ensino médio e a temática da oralidade, os PCN apresentam a seguinte reflexão (BRASIL, 2000, documento on-line): Nas práticas sociais, o homem cria a linguagem verbal, a fala. Na e com a linguagem, o homem produz e transforma espaços produtivos. A linguagem verbal é um sementeiro infinito de possibilidades de seleção e confrontos entre agentes sociais coletivos. A linguagem verbal é um dos meios que o homem possui para representar, organizar e transmitir de forma específica o pensamento. O ato da fala pressupõe uma competência social de utilizar a língua de acordo com as expectativas em jogo. No ato interlocutivo, o contexto verbal relaciona- -se com o extraverbal e vice-versa. O trabalho no contexto do ensino médio, no sentido de uma prática que possibilite a continuidade do que se realizou no ensino fundamental, deve estar centrado nos diferentes textos e no trabalho oral com eles. Por exemplo, o professor de língua portuguesa pode selecionar um livro (em conjunto com o professor de literatura) para trabalhar escrita e oralidade. Uma excelente obra literária para trabalhar com variação linguística, estrangeirismos, neologismos, sinônimos, oralidade e escrita é Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. O desafio da leitura na íntegra do original pode ser solicitado à turma, para que depois o professor organize um clube do livro, por exemplo, em que os alunos se reúnem para dialogar sobre as temáticas apontadas. Além disso, o professor pode aproveitar essas trocas para refletir, em conjunto com os alunos, sobre preconceito linguístico e preconceito social. 7Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade Em relação às normativas vigentes, também é importante destacar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Nesse documento, consta o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens consideradas essenciais para serem desenvolvidas ao longo das etapas da educação básica. Na BNCC, a oralidade é tratada de forma enfática. A primeira referência ao termo “oralidade” apresenta as seguintes orientações (BRASIL, 2017, documento on-line): Ampliam-se também as experiências para o desenvolvimento da oralida- de e dos processos de percepção, compreensão e representação, elementos importantes para a apropriação do sistema de escrita alfabética e de outros sistemas de representação, como os signos matemáticos, os registros artísticos, midiáticos e científicos e as formas de representação do tempo e do espaço. Os alunos se deparam com uma variedade de situações que envolvem conceitos e fazeres científicos, desenvolvendo observações, análises, argumentações e potencializando descobertas. O texto do documento defende que as experiências das crianças devem ser valorizadas de acordo com contextos familiares, sociais e culturais. Isso pode ser feito a partir do trabalho com as memórias dos sujeitos, da noção de pertencimento a um grupo e da interação com as mais diversas tecnologias de informação e comunicação, que estimulam a curiosidade e a formulação de perguntas (BRASIL, 2017). Dessa forma, a modalidade da língua oral, em parceria com a língua escrita, deve ter como objetivo: O estímulo ao pensamento criativo, lógico e crítico, por meio da cons- trução e do fortalecimento da capacidade de fazer perguntas e de avaliar respostas, de argumentar, de interagir com diversas produções culturais, de fazer uso de tecnologias de informação e comunicação (BRASIL, 2017, documento on-line). Por meio dessa abordagem, os alunos ampliam “[...] a compreensão de si mesmos, do mundo natural e social, das relações dos seres humanos entre si e com a natureza” (BRASIL, 2017, p. 58). De acordo com a BNCC, o componente de língua portuguesa deve: [...] proporcionar aos estudantes experiências que contribuam para a ampliação dos letramentos, de forma a possibilitar a participação significativa e crítica nas diversas práticas sociais permeadas/constituídas pela oralidade, pela escrita e por outras linguagens (BRASIL, 2017, documento on-line). Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade8 Portanto, para a BNCC (BRASIL, 2017), as escolas devem trabalhar com eixos de integração, os quais são correspondentes às práticas de linguagem. São eles: oralidade; leitura/escuta; produção (escrita e multissemiótica); análise linguística/semiótica (envolve conhecimentos linguísticos — sobre o sistema de escrita, o sistema da língua e a norma-padrão —, textuais, discursivos e sobre os modos de organização e os elementos de outras semioses). Dessa forma, o documento está alinhado com as propostas de valorização das experiências e de integração entre língua oral e escrita, o que funciona como estratégia para o desenvolvimento do trabalho com a língua portu- guesa. Nesse contexto, o documento indica que o trabalho com a língua oral compreende: As práticas de linguagem que ocorrem em situação oral com ou sem contato face a face, como aula dialogada, webconferência, mensagem gravada, spot de campanha, jingle, seminário, debate, programa de rádio, entrevista, decla- mação de poemas (com ou sem efeitos sonoros), peça teatral, apresentação de cantigas e canções, playlist comentada de músicas, vlog de game, contação de histórias, diferentes tipos de podcasts e vídeos, dentre outras. Envolve também a oralização de textos em situações socialmente significativas e interações e discussões envolvendo temáticas e outras dimensões linguísticas do trabalho nos diferentes campos de atuação (BRASIL, 2017, documento on-line). Assim, é importante considerar as condições de produção dos textos orais, a compreensão de textos nessa modalidade e os efeitos de sentido provocados pelos usos dos recursos linguísticos. Por fim, considere que essas são apenas algumas sugestões para que você reflitasobre o trabalho com a oralidade em sala de aula. É importante que você, como futuro professor, aproprie-se desses conceitos e construa uma prática voltada para o incentivo à leitura e para a formação de leitores proficientes. Atividades como as listadas não exigem recursos tecnológicos, pois eles não estão disponíveis em todos os espaços, mas possibilitam a participação ativa dos alunos e a construção individual e coletiva de conhecimento por meio de textos escritos e orais. 9Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade Quer ampliar os seus conhecimentos sobre fala e escrita? Acesse o link a seguir e assista a um vídeo em que o professor Luiz Antônio Marcuschi trata desse tema. https://qrgo.page.link/GxUjG BAGNO, M. A norma culta: língua & poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola, 2003. BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 06 fev. 2020. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília: SEF, 2000. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf. Acesso em: 06 fev. 2020. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Brasília: SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf. Acesso em: 06 fev. 2020. FÁVERO, L. L. et al. Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Cortez, 2000. MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cor- tez, 2010. MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO, A. P. (org.). Fala e escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. PENHA, L. A importância da prosódia na avaliação de qualidade e na compreensão e compreensibilidade da fala interpretada simultaneamente. 2015. 150 f. Dissertação (Mes- trado) – PUCSP, São Paulo, 2015. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/ handle/13755/1/Layla%20Penha.pdf. Acesso em: 06 fev. 2020. Leituras recomendadas FALA e escrita - parte 01. [S. l.: s. n.], 2011. 1 vídeo (10 min). Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=XOzoVHyiDew. Acesso em: 06 fev. 2020. MARCOS Bagno - PNAIC UFSCAR Entrevistas. [S. l.: s. n.], 2016. 1 vídeo (28 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UbdSNWv9XDQ. Acesso em: 06 fev. 2020. Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade10 Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 11Abordagens didático-metodológicas nas práticas da oralidade Dica do professor O vídeo apresenta sugestões de como trabalhar a oralidade em sala de aula. Confira! Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/f9ac9bb58d8a319f93d3368973e3995a Exercícios 1) Assinale a alternativa CORRETA sobre a relação entre a oralidade e a escrita: A) A língua é composta pelas modalidades oral e escrita, e cada uma delas apresenta características próprias e particularidades, que não, necessariamente, são as mesmas. B) As características da oralidade podem ser transportadas para a escrita. C) O nível de monitorização é o mesmo nas duas modalidades, que obedecem às regras da norma culta. D) A fala e a escrita têm as mesmas funções, papéis e relevância dentro da sociedade. E) A fala tem por objetivo a comunicação, e a escrita está ligada à função social do sujeito. 2) Sobre a valorização das variedades linguísticas no trabalho em sala de aula, podemos afirmar que: A) Os usos e as funções da língua são comandados pelas regras da norma culta, que devem ser obedecidas em todos os contextos de fala. B) A língua é uma manifestação essencialmente social e se constitui em uma ferramenta de identificação dos indivíduos. C) É papel da escola dar primazia à língua escrita culta, pois as manifestações falada popular são consideradas secundárias. D) O preconceito linguístico acontece com as pessoas que não se atentam às regras da norma culta ao falar. E) A escola tem a função de ensinar as variações mais prestigiadas da língua e de coibir o uso das variações menores. Observe as afirmativas: I - Os diferentes sotaques, as diferenças de vocabulário, a entonação de voz e outras características podem ser exploradas por meio do uso de músicas de artistas de várias regiões e do rádio em sala de aula. II - Atividades de leitura em voz alta são indicadas para o desenvolvimento da oralidade. 3) III - Transposições para a escrita de textos orais produzidos pelos alunos podem ser usadas para que os mesmos percebam que as características da oralidade vão desaparecendo à medida que se torna mais monitorada na escrita. Assinale a alternativa CORRETA: A) Todas as afirmativas estão corretas. B) Estão corretas I e II. C) Estão corretas I e III. D) Todas as afirmativas estão incorretas. E) Estão corretas II e III. 4) Sobre as atividades de sala de aula indicadas para o desenvolvimento da oralidade, assinale a alternativa CORRETA: A) A leitura em voz alta constitui uma atividade de oralidade, assim como as discussões em grupo e as correções de exercícios em voz alta. B) O ensino da oralidade deve ser centrado nos conteúdos conceituais da gramática normativa. C) É por meio das atividades de transcrição que o aluno poderá verificar que tanto a oralidade quanto a escrita obedecem às mesmas regras. D) As atividades de escuta têm vários objetivos, como a compreensão do texto oral, sua análise, envolvendo questões linguísticas, prosódicas, gestuais e extratextuais, a compreensão das formas de comportamento nas interações orais, a obtenção de modelos de gêneros orais para futuras produções, a tomada de notas, a retextualização e a análise da relação oral-escrito a partir de transcrição. E) O ensino da oralidade na escola vem ficando em segundo plano, pois os alunos a aprendem na família e na comunidade e, quando chegam na escola, não encontram muitas novidades. 5) Observe a afirmação: "As práticas de ensino de língua portuguesa, durante muito tempo, foram direcionadas pela ______________, o que resultava em um ensino onde predominava a _____________ como um fim em si mesma e que não levava em conta os conhecimentos do aluno em relação à ______________." Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas: A) Ortografia - metalínguística - Gramática Implícita. B) Gramática Normativa - metalinguística - ortografia. C) Gramática Implícita - ortografia - metalinguística. D) Gramática Implícita - metalinguística - Gramática Normativa. E) Gramática Normativa - metalinguística - Gramática Implícita. Na prática Você é professor de língua portuguesa em uma escola de ensino médio. A escola resolveu promover um evento musical em que os alunos teriam a oportunidade de mostrar os seus talentos, cantando ou tocando algum instrumento, em que toda a comunidade seria convidada. Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Oralidade e letramento: diálogos na escola. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Fala e Escrita - Parte 03. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/c_8pQ0534tY?ecver=1 https://www.youtube.com/embed/UqSfGyR1ERA?ecver=1