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SOCIOLOGIA JURÍDICA Marx adota a explicação da evolução elaborada pela regra hegeliana que propõe tese, antítese e síntese, a fim de analisar a luta de classes. O positivismo é uma perspectiva filosófica que pretende organizar as sociedades com o mesmo rigor das ciências da natureza. A busca de leis é importante na filosofia positivista, incluindo a determinação de leis sociais. Na perspectiva de Marx, a ideologia é o conjunto de falsas representações da realidade que ocultam as dinâmicas de expropriação e exploração e, também, o fenômeno da alienação dos indivíduos em função do trabalho. O materialismo dialético de inspiração marxista postula que a única realidade é a matéria e suas forças, nas quais a evolução contínua e progressiva produz as sociedades humanas e as suas civilizações. Marx adota a explicação da evolução elaborada pela regra hegeliana que propõe tese, antítese e síntese, a fim de analisar a luta de classes. A filosofia política é uma área que se relaciona com diversos outros campos de conhecimento, como a filosofia moral, a economia, a história, entre outros. A respeito desse assunto, julgue o item subseqüente: A filosofia política marxista é fortemente baseada em uma análise histórico-econômica do desenvolvimento das sociedades, fundamentando-se em conceitos como o da mais valia ou do materialismo dialético. Um movimento social organizado formado em determinada rede social da Internet pretendia promover manifestação de rua para reivindicar a descriminalização do consumo e da posse da cannabis sativa. Para isso, fez ampla divulgação do evento nas redes sociais. Cientificado do ato, o delegado responsável pelo distrito onde a manifestação ocorreria determinou a abertura de inquérito para apurar a ocorrência do crime de apologia ao uso de drogas, indiciando os organizadores do evento e todos aqueles que haviam divulgado sua realização, bem como os indivíduos que haviam confirmado, via redes sociais, participação na manifestação. Além disso, determinou que o grupo tático de operações policiais contra o tráfico fizesse o policiamento ostensivo e impedisse a realização da manifestação. Tendo como referência essa situação hipotética, julgue o item a seguir, considerando o direito como ideologia, os fundamentos sociais da ordem jurídica, os conceitos de grupos sociais, de conflito social e jurídico, de acordo com a sociologia jurídica. No caso em apreço, a dogmática jurídica e o direito positivo mostraram-se insuficientes como formas de institucionalização do conflito social. Um movimento social organizado formado em determinada rede social da Internet pretendia promover manifestação de rua para reivindicar a descriminalização do consumo e da posse da cannabis sativa. Para isso, fez ampla divulgação do evento nas redes sociais. Cientificado do ato, o delegado responsável pelo distrito onde a manifestação ocorreria determinou a abertura de inquérito para apurar a ocorrência do crime de apologia ao uso de drogas, indiciando os organizadores do evento e todos aqueles que haviam divulgado sua realização, bem como os indivíduos que haviam confirmado, via redes sociais, participação na manifestação. Além disso, determinou que o grupo tático de operações policiais contra o tráfico fizesse o policiamento ostensivo e impedisse a realização da manifestação. Tendo como referência essa situação hipotética, julgue o item a seguir, considerando o direito como ideologia, os fundamentos sociais da ordem jurídica, os conceitos de grupos sociais, de conflito social e jurídico, de acordo com a sociologia jurídica. Do ponto de vista sociológico, a incerteza quanto à correção da decisão sobre a criminalização do uso da cannabis sativa é o que possibilita aos procedimentos jurídicos a mudança do direito vigente acerca desse tema. É correto afirmar que o símbolo do “dever ser”, como obrigação positivada na norma jurídica, é uma expectativa de comportamento estabilizada de modo contrafático. O fato de determinada regra vincular-se ao caráter universal das normas jurídicas implica que essa regra tenha eficácia própria derivada da forma simbólica do direito. Em uma ação de reintegração de posse, foi determinada a remoção de centenas de famílias, que havia anos tinham fixado moradia no local e compartilhavam a prestação de serviços mútuos. Antes da ocupação, o espaço era um terreno abandonado de propriedade da massa falida de uma empresa em débito com a fazenda pública, única credora habilitada. A comunidade, além da mobilização junto aos governos municipal e estadual com o objetivo de regularizar a ocupação, havia, por meio de sua associação, procurado o órgão da DP, que, na oportunidade, ajuizou ação de desapropriação indireta, que ainda não havia sido julgada. Quando do cumprimento da decisão de reintegração de posse, diante da resistência dos integrantes da ocupação, registrou-se o uso desproporcional de violência pela força policial, tendo a ação resultado em prisões, pessoas feridas e perda de objetos pessoais dos moradores. A respeito dessa situação hipotética e de ideias relacionadas à sociologia do direito, julgue o item a seguir: A decisão judicial em apreço — de reintegração de posse — é exemplo do efeito simbólico que a norma sobre a função social da propriedade representa no ordenamento jurídico brasileiro. Em uma ação de reintegração de posse, foi determinada a remoção de centenas de famílias, que havia anos tinham fixado moradia no local e compartilhavam a prestação de serviços mútuos. Antes da ocupação, o espaço era um terreno abandonado de propriedade da massa falida de uma empresa em débito com a fazenda pública, única credora habilitada. A comunidade, além da mobilização junto aos governos municipal e estadual com o objetivo de regularizar a ocupação, havia, por meio de sua associação, procurado o órgão da DP, que, na oportunidade, ajuizou ação de desapropriação indireta, que ainda não havia sido julgada. Quando do cumprimento da decisão de reintegração de posse, diante da resistência dos integrantes da ocupação, registrou-se o uso desproporcional de violência pela força policial, tendo a ação resultado em prisões, pessoas feridas e perda de objetos pessoais dos moradores. A respeito dessa situação hipotética e de ideias relacionadas à sociologia do direito, julgue o item a seguir:Sob a perspectiva quantitativa weberiana, o espaço de moradia é uma característica que diferencia os grupos sociais e localiza os indivíduos na estratificação social. Em uma ação de reintegração de posse, foi determinada a remoção de centenas de famílias, que havia anos tinham fixado moradia no local e compartilhavam a prestação de serviços mútuos. Antes da ocupação, o espaço era um terreno abandonado de propriedade da massa falida de uma empresa em débito com a fazenda pública, única credora habilitada. A comunidade, além da mobilização junto aos governos municipal e estadual com o objetivo de regularizar a ocupação, havia, por meio de sua associação, procurado o órgão da DP, que, na oportunidade, ajuizou ação de desapropriação indireta, que ainda não havia sido julgada. Quando do cumprimento da decisão de reintegração de posse, diante da resistência dos integrantes da ocupação, registrou-se o uso desproporcional de violência pela força policial, tendo a ação resultado em prisões, pessoas feridas e perda de objetos pessoais dos moradores. A respeito dessa situação hipotética e de ideias relacionadas à sociologia do direito, julgue o item a seguir: Embora seja possível contestar sua legitimidade, a ação policial em questão está amparada no monopólio do uso da violência legal pelo Estado. Entre os autores que aportaram contribuições significativas à sociologia jurídica, destaca-se o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que forneceu elementos teóricos para a análise do discurso jurídico como exercício do poder simbólico. Conforme Niklas Luhmann, um dos mais importantes pensadores no campo da sociologia jurídica, o sistema social é uma conexão dotada de sentido de ações que se referem“A Ética Protestante e o ‘Espírito’ do Capitalismo”, Weber descreve a evolução das sociedades ocidentais, desde as comunidades tribais às complexas sociedades capitalistas e industrializadas. Saímos de um modelo calcado na religião para um modelo secularizado, em que o ganho econômico demanda racionalização. LEGALIZAÇÃO RACIONALIZAÇÃO DO MUNDO Racionalização do capitalismo. A lei torna-se a fonte por excelência do direito, pois os costumes não oferecem marcos de segurança suficientes à acumulação de capital. Desencantamento, abandono da visão mitológica dos fenômenos. Sobre a origem do capitalismo. Ao investigar a causa e as origens do sistema capitalista e após estudar os modelos europeus e norte-americano, comparando-os com os modelos orientais (onde o capitalismo ainda não se fazia presente), Weber chegou à conclusão de que a ética religiosa protestante (valores como: a vocação para o trabalho, o trabalho enobrece, o trabalho é um fim em si mesmo, a aceitação do lucro, a aceitação da responsabilidade individual, economizar, ser moderado e temperado) havia pavimentado o caminho para o capitalismo. Todos os valores anteriormente citados fizeram com que as pessoas trabalhassem no intuito de alcançar a “salvação”. Só que, ao agir assim, as pessoas acabaram servindo ao sistema de mercado. Assim, repetindo, para Weber, o mais destacado aspecto da modernidade é a racionalização. Racionalização da vida Racionalização do capitalismo “Desencantamento” abandono da visão mitológica dos fenômenos. A lei torna-se a fonte do Direito por excelência, pois os costumes não oferecem marcos de segurança suficientes à acumulação de capital. A criação e a aplicação da lei podem ser irracionais, quando empregados meios que não podem ser racionalmente controlados. Estas leis acabam sendo determinadas por avaliações concretas e casuísticas, ao invés de produzir normas gerais aplicáveis a todos os casos. O capitalismo precisa da racionalização do Direito. Na racionalização, temos normas gerais e sistematizadas: a) Generalização: é a separação entre questões de fato e de direito, adotando-se uma fórmula de alta generalidade aplicável a uma quantidade imensurável de casos; b) Sistematização: leva ao inter-relacionamento de todas as disposições jurídicas na forma de um sistema de regras logicamente claro, internamente consistente e, preferencialmente, sem lacunas. O Direito é obra dos juristas, é um sistema racional, que busca trazer segurança ao sistema de capital. Weber admite que o sistema de capital é, de longe, o mais eficiente e que trouxe grandes benefícios ao homem. Por outro lado, Weber critica fortemente o sistema capitalista, pois este teria gerados vários retrocessos. A racionalização (do mundo) suplantou os valores tradicionais, provocando “desencanto”: o lado místico e espiritual desapareceu da vida diária das pessoas, sendo substituído pelo frio cálculo utilitarista (custo x benefício). Weber traz um conceito bastante citado, chamado “jaula de ferro”: as rígidas regras da burocracia podem se apresentar como uma armadilha ao indivíduo, uniformizando os agires a ponto de suprimir o próprio individualismo. Isso porque as estruturas burocráticas tendem a produzir hierarquias impessoais, com procedimentos padronizados que se sobrepõem de maneira impiedosa ao indivíduo. A racionalização é, pois, também, uma erva daninha. O fato é que a burocracia é tão inevitável quanto necessária na sociedade industrial moderna, que demanda eficácia e eficiência no seu mais alto grau: temos de ter procedimentos, estruturas, processos que racionalizem e agilizem o agir. Weber afirmava que a sociedade moderna e democrática criou a burocracia para o bem, mas que esta, depois, passou a crescer de forma desenfreada. E somente esta mesma sociedade (liberal) que a criou é que pode impor limites à ela, e os cidadãos devem ser capazes de dizer até aonde o controle social pode ir, até aonde a burocracia pode ir e nós aceitamos ser controlados. MICROFÍSICA DO PODER: MICHEL FOUCAULT (1926-1984) “O poder não é, ele se exerce. O poder está em todo lugar”. E justamente pelo fato de o poder não ser uma coisa, mas uma relação, não pode ser possuído, nem contido nem guardado em um cofre. O poder não é uma arma, mas saber atirar; o poder é uma capacidade de exercer. Michel Foucault foi filho de um renomado médico cirurgião; não tem formação jurídica, mas sim em psicologia e filosofia; seus livros não são lineares (não existe, necessariamente, uma lógica entre eles); para conhecer Foucault, é preciso ler praticamente todos os seus livros; abordava vários temas em diversas conferências, palestras. Sua obra é bastante complexa e algumas vezes ele mesmo nega o que foi dito anteriormente. O poder. Para Foucault, é impossível analisar o que é o poder (instrumento de controle social), ideia que pressupõe “existir o poder em algum lugar, sendo detido por alguém”. A única forma de examinar o poder é concebê-lo em movimento, jamais de modo estático. Pelo menos até 1960, sempre se trabalhou “o poder” de maneira fragmentada (o poder dos governantes, de um lado x os cidadãos, do outro). O “poder”, então, tinha sido, até então, trabalhado em nível “macro” (Estado, governo, etc). Os “micro-poderes” eram ignorados. O poder é uma questão presente em todos os níveis de relação na sociedade. Exs de micro-poderes: família, igreja, relação de trabalho. A “micro-física do poder” que dizer que o poder está espraiado, difundido na sociedade nos seus mais diversos espaços. Para Foucault, o homem jamais é aprisionado totalmente pelo poder. Sempre é possível modificar a dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa. O Estado não é absoluto; sempre é possível modificar as relações de poder. Só se pode falar em “poder” sobre algo que tenha capacidade de resistência. Quanto maior a capacidade de resistência (que acaba se submetendo), maior é o poder. O poder é justamente vencer as resistências. E a questão é justamente saber como vencer as resistências. Estas, em algum momento, pode “vencer” o poder e se rebelar, a exemplo do que aconteceu na Revolução Francesa. Foucault quebra a noção de que o poder seria a aniquilação da liberdade (ou com qualquer coisa que aparentemente seja com ele incompatível), ou seja, quando o poder funciona ele aniquilaria a liberdade. Negativo, Foucault não concorda com isso. A liberdade está fortemente relacionada ao indivíduo encontrar legitimidade para obedecer ao poder. Poder e liberdade, pois, andam juntos – o poder busca mecanismos de justificação para exercer dominação. Quando eu quero algo de uma pessoa, é preciso fazer com que ela aja como se estivesse escolhendo determinada opção. O poder pode até aniquilar a liberdade, mas faz isso de forma disfarçada, fazendo parecer que a outra parte teve direito de escolha. Para Foucault, o poder pressupõe um campo de possibilidades, escolhas, reações e comportamentos. Não há uma conjuntura de exclusão em que, uma vez exercido o poder, há o desaparecimento da liberdade. Não. O jogo é muito mais complexo. Não sem razão, o controle social, há muito tempo, não é mais exercido mediante força bruta. O controle social, pelo contrário, busca justificação, legitimação. As punições físicas, portanto, foram substituídas por métodos muito mais convincentes de controlar o comportamento; métodos racionais e, não raro, imperceptíveis. O poder se adequou à racionalidade moderna e passou a controlar os comportamentos através da racionalização. O poder é uma rede de mecanismos. O controle passa a funcionar por uma rede de mecanismos (saberes, discurso, educação/escola, mídia) que atua o mais discretamente possível, visando assegurar a obediência às suas regras de maneira pretensamente racional, através da explicação lógica e adequada. Força x Saber. Nos tempos em que o exercício do poder sufocava as resistências usando a força (especialmente no absolutismo), era mais simples a neutralização das revoluções, oposições, contrapoderes.Nas sociedades modernas, por outro lado, o poder é racional. O novo mecanismo de poder estabelece permissões e interdições, cria gramáticas/discursos comuns (minuciosas e aparentemente universais e naturais), contribui decisivamente para que os saberes sejam vistos como legítimos, em uma relação de dominação. Para Foucault, hoje, o que é considerado “público” ou “privada” (escola pública ou escola privada, por ex) não é mais relevante. O que vale são os saberes, as estratégias. Existem duas frases de Foucault interessantes: 1 – “Fazer morrer ou deixar viver” A teoria clássica da soberania tem como um dos seus atributos fundamentais o direito de morte, representando, no fundo, que o soberano pode “fazer morrer ou deixar viver”. O indivíduo podia viver (o Estado podia deixar ele viver), desde que ele respeitasse minuciosamente tudo o que era determinado; se o indivíduo fizesse algo de errado, deveria morrer. No sistema moderno capitalista, este tipo de pensamento não era mais aceito, sobretudo porque não se aceita mais a violência. 2 – “Fazer viver ou deixar morrer” Este é o lema da modernidade. O objetivo do Estado é fazer o indivíduo viver; mas, se o Estado falha, ele deixa o indivíduo morrer. Na genealogia de Foucault, o poder sobre a vida desenvolve-se de duas formas principais, não substitutivas ou excludentes, mas complementares/interligadas: a anatopolítica (disciplina) e a biopolítica. O governante assume as responsabilidades sobre a vida do cidadão. Soberania Clássica Soberania Moderna Fazer morrer ou deixar viver Fazer viver ou deixar morrer Como o Estado conseguiu chegar a este ponto de ter controle sobre a vida do indivíduo de forma tão intensa que, caso o Estado seja omisso, é bem possível que o indivíduo morra? Através da anatopolítica e biopolítica. Anatopolítica/disciplina a sociedade é uma rede de poderes (relações assimétricas), que utiliza a disciplina (ritualização comportamental) para fazer com que o indivíduo se adeque aos cânones socialmente aceitos. É um mecanismo de controle social que “adestra” o indivíduo (através da escola, religião, mídia, etc), que busca ampliar as capacidades e o saber do indivíduo, para, depois, sugar todas as forças do indivíduo. Desta forma, o indivíduo é docilizado/’domesticado” e, assim, “dominado” pelo Estado a fim de que aquele, depois de ter suas capacidades/saberes ampliados, passe a agir em conformidade com os interesses do Estado. O sistema da anatopolítica é um sistema de vigília. Quando você vai à escola ou ao posto de saúde, por ex, o Estado terá como saber mais da sua vida, como você está. Panopticon. A sociedade disciplinar é baseada no panopticon, eficiente modelo de prisão concebida por Jeremy Bentham (filósofo inglês), e baseado em controle, vigilância e correção. Quem está em alguma dessas celas não sabe se o vigia do centro está, especificamente, vigiando ele naquele momento. Esta dúvida faz com que os indivíduos presos se sintam constantemente vigiados. A sociedade moderna é um panopticon, você está sempre sendo vigiado e controlado. Você é sempre compelido a agir de forma correta, pois sente que está sendo sempre vigiado. O panopticon é a utopia de uma sociedade (e de um tipo de poder) que efetivamente se realizou (no fundo, é a sociedade que atualmente conhecemos): o poder vigia a tudo e a todos, ininterrupta e totalmente, ordena em termos do que é normal ou anormal, correto ou incorreto, do que se deve ou não fazer. Biopolítica a biopolítica formou-se um pouco mais tarde do que a disciplina, por volta da metade do século XVIII. Ela tem base no coletivo, no homem-espécie, tratando especificamente dos processos biológicos (natalidade, mortalidade, nível de saúde, longevidade, modo de vida, etc). A própria vida dos indivíduos passa a integrar o cálculo da gestão do poder, tornando a raça humana acessível ao Estado. É o que se pode chamar de assunção da vida pelo poder: uma tomada do homem enquanto ser vivo (publicização do biológico). É fundamental para o Estado controlar a saúde pública. O Poder Público passa a ter domínio total sobre a vida do cidadão, senta-se à mesa com ele, deita em sua cama, acompanha-o ao trabalho, fica com ele nos momentos de lazer, confere-lhe cultura (levando-o ao teatro), confere sua escovação de dentes... TUDO passa a fazer parte do ideário estatal, que amplia seus poderes para além de qualquer limite. Em nome da justiça social, o controle social torna-se mais amplo do que nunca. Tudo isso é feito com muita sutileza. O cidadão sequer nota que, mesmo em momentos não extremos, o Poder Público lança mão de instrumentos que lhe permitem gerir a vida dos súditos... e continua a crer, ingenuamente, que a atuação pública é um mecanismo puramente racional e neutro de organização da sociedade. Crítica: hoje, os direitos fundamentais são o cavalo de Tróia da sociedade. “Por melhor que seja qualquer princípio, norma, instituição ou decisão, se instalados em uma lógica de dominação, inevitavelmente irão operar como dispositivo desta”. Para que tudo isso aconteça, é muito importante o discurso. Se a autoridade não pode se utilizar da força e quer implementar requisitos de autoridade, ela terá que convencer as pessoas de que essa é a maneira de atuar/viver. O sistema de crenças de qualquer sociedade evolui conforme as pessoas aceitam que certos valores são fundamentais – até o ponto em que essas concepções são encravadas na alma dos cidadãos, definindo o que é bom ou mau, certo ou errado, normal ou desviado. O discurso é tanto um instrumento, quanto um efeito do poder – é dúplice: controla os pensamentos e as condutas (discurso como instrumento), que, por sua vez, moldam o sistema de crenças (discurso como efeito), que age como “regime de verdade”, forjando um corpo daquilo que é considerado conhecimento compartilhador e inegável. A partir de certo momento, é inaceitável qualquer forma de “conhecimento” que é considerada “não conhecimento” ou “senso comum”. Isso faz com que se crie um sistema de conhecimentos ortodoxos e heterodoxos/de não conhecimento – e isso é terrível para a sociedade. Teve um autor que já falou sobre isso. John Stuart Mill demonstrou a enorme importância da pluralidade das ideias, inclusive daquelas consideradas incorretas ou incomodativas (servem para reforçar e viabilizar a confirmação das corretas). Um outro autor – Solomon Asch – disse que basta uma opinião dissonante para aumentar bastante a possibilidade de haver um pensamento independente. Quando todos falam e têm a mesma opinião, o indivíduo tende a seguir a opinião dos outros (seguir a manada). O grande perigo dessas novas tecnologia de poder é que elas não possuem uma estrutura que possa ser reconhecida de imediato e combatida. Como ela atua de maneira onipresente, parece que não há sequer contra o que resistir (contra tudo?). Se existe alguma forma de resistência, ela está no discurso. Levantar-se contra os discursos, com o tempo (apesar de demorar), consegue-se desconstruir e quebrar a microfísica do poder. Este conhecimento (biopolítica) que Foucault traz é, no aspecto sociológico, contramajoritário. OPINIÃO PÚBLICA Opinião pública é a manifestação da vontade coletiva por meio da liberdade de expressão do pensamento, liberdade de associação e, sobretudo, da liberdade de imprensa. Este é um conceito mais estrito de “opinião pública”. É claro, também, que o conceito de “opinião pública” varia de acordo com o tempo e espaço. Hoje, temos a internet, por exemplo, que integra a “liberdade de imprensa” e é uma grande fonte de informações/opiniões. Para o professor, em países comunistas, em que não há liberdade de pensamento, de associação e de imprensa, não existe “opinião pública”. Opinião pública não é a soma das opiniões individuais, também não se confunde com “consenso”. Muitas vezes, a opinião púbica é contrária ao que a maioria das pessoas pensa, inclusive. Exemplo: quando criaram o Estatuto do Desarmamento, o legislador (e a mídia) entendia que a maioria da populaçãoera contrária à posse de arma. Esta era, pois, a “opinião pública”. No entanto, após a votação popular, percebeu-se que mais de 60% era favorável à posse de arma. Conceito mais amplo de “opinião pública”: opinião pública é um juízo coletivo sobre algo, exteriorizada pelos indivíduos em locais de debate. Quem diz o que é a opinião pública? Não falta quem tente ser o porta-voz dessa opinião. A mídia, por exemplo, muitas vezes tenta expressar opiniões como se fossem do povo, quando, na verdade, está apresentando justamente um pensamento contrário ao que defende a maioria da população (está vestindo o contramajoritário com a capa da opinião pública). A imprensa brasileira (e do mundo) consegue alterar a opinião pública, através do discurso de que determinado entendimento é o majoritário, quando, na verdade, não é. Está cada vez mais difícil saber qual é a opinião pública, já que não sabemos, como antes, se a opinião “da mídia” é realmente a opinião publica. É só pensar, também, em todas as outras fontes de informação (redes sociais, sites, etc) a que a população tem acesso, além da “mídia tradicional”. Dados quantitativos. Tentando seguir pela linha quantitativa de Durkheim e dar alguma objetividade ao assunto, alguns setores buscam proceder a levantamentos estatísticos (pesquisas de opinião) sobre temas de interesse da sociologia jurídica, como o nível de confiança no Judiciário, a descriminalização do aborto, a liberação da maconha, etc. Alguns sociólogos afirmam que a opinião pública só pode ser formada quando todos os indivíduos tiverem acesso à informação adequada e suficiente. O problema é o que é “adequado” e “suficiente”. Assim, fica difícil afirmar o que seria uma opinião pública “raciocinada”. Por outro lado, não é correto ignorar a opinião pública, dizendo “ah, isso não é opinião pública; isso é senso comum”. A opinião pública lida com contradições internas e externas. Contradições internas: é extremamente difícil, nas sociedades de massa da atualidade, operacionalizar um efetivo uso público da razão. Em geral, a opinião pública é formada por emoções e pelo “ouvir dizer”. Contradições externas: reconhece-se que a mídia de massa não somente expõe as opiniões extraídas de deliberações sociais, mas, em certa medida, as constrói. Opinião pública e Poder Judiciário. Vários juristas consideram que é papel do juiz, ao julgar, convencer a população de que aquela é a decisão correta. Apenas para citar dois exemplos do mais alto gabarito: Chaïm Perelman e Robert Alex, expoentes da teoria argumentativa. Mas e em relação à influência do clamor social na jurisprudência? Alguns entendem que o Judiciário não pode fechar os olhos para a opinião pública. Este parece ser o entendimento atual predominante, se formos considerar o ativismo que se exige dos juízes. Como o Judiciário é ativista (ativismo judicial), ele precisa ter o mínimo de influxo das opiniões públicas. Outros entendem exatamente o contrário, considerando que a opinião pública tem “severos déficits qualitativos”. Conquanto seja um valor sociológico a ser considerado, não deve servir para argumentar decisões judiciais. Vejamos algumas decisões do STF a respeito deste tema: · O Ministro Celso de Mello, decano da Corte, reforçou que a “função contramajoritária é inerente à própria jurisprudência constitucional”. Segundo ele, o Supremo não se deixa permear pela opinião popular em suas discussões. Comentários do prof.: é claro que o Supremos se deixa levar por opiniões públicas, inclusive opiniões políticas. · No julgamento da Ação Penal 470, o Ministro Luís Roberto Barroso sacramentou: “Nós não julgamos para a multidão, nós julgamos pessoas [...]. Eu não estou subordinado à multidão, estou subordinado à Constituição”. · O Ministro Luiz Fux, em sentido contrário, no julgamento do Recurso Ordinário 15.429, referiu que os tribunais devem ser sensíveis aos movimentos sociais na interpretação do texto constitucional, citando, para arrimar sua posição, que a Lei da Ficha Limpa originou-se de projeto de iniciativa popular que colheu cerca de 1,6 milhão de assinaturas, refletindo verdadeira demanda da sociedade civil. Agora, algumas decisões do STJ: · O Ministro Humberto Martins assentou que “o juiz deve julgar de acordo com os autos, mas com isso, não se afastar dos reclames da sociedade. Sem cidadão, não existe Justiça, e sem Justiça, não há sociedade forte. É preciso conjugar Direito e sociedade”. · O Ministro Marco Aurélio Bellizze afirmou que “há quem pense que as decisões do STF, para serem legítimas, têm de ser conforme a opinião pública. Mas o que é a opinião pública? O que chega até o Judiciário é a opinião pública ou a opinião publicada?”. COMUNICAÇÃO SOCIAL Os avanços da comunicação e na mobilidade fizeram do mundo um lugar menor. A internet (hoje, redes sociais e aplicativos), a telefonia e a aviação levaram o homem a possibilidades antes inimagináveis. Ainda que longe, estamos sempre perto. Os jornais (mídia tradicional/formal) estão perdendo espaço para os novos métodos de comunicação. Hoje, mesmo os jornais que passaram da via física para a digital estão quebrando. Ninguém tem qualquer dúvida do impacto que a mídia tem sobre as pessoas, desde a sua popularização até o séc. XX. Mas só agora encontrou um adversário que pode estar à sua altura: as redes sociais. O poder da verdade. Hannah Arendt demonstrou que os fatos históricos indesejados são, primeiro, transformados em opinião (perdendo seu status de facticidade), muitas vezes desqualificados e, depois, ainda que inicialmente conhecidos por todos, pouco a pouco, são apagados e uma nova versão da “realidade” (diferente) é construída para substituí-los. Em um futuro mais ou menos próximo, é possível negá-los sem pudor. A máquina reescrita não para nunca. Os fatos ocorrem e são registrados como história Todo fato conhecido e estabelecido pode ser NEGADO. ... reescrever a história para favorecer ou prejudicar alguém ... assegurar o efeito desejado em um momento crítico (ex: eleição ou guerra) ... garantir que os fatos só sejam revelados quando conveniente ... justificar uma ação política específica A verdade dos fatos pode ser DISTORCIDA para... A liberdade de imprensa é um valor e pressuposto fundamental para um Estado Democrático. O grande problema é quando a mídia apresenta interpretações como fatos e fatos são relegados à condição de opiniões (acabamos de ver isso no pensamento de Hannah Arendt). A mensagem veiculada acaba sendo previamente orientada. E isso é sério. Na ADI 4.451/DF, o STF disse que “o direito fundamental à liberdade de expressão NÃO se direciona somente a proteger as opiniões supostamente verdadeiras, admiráveis ou convencionais, mas também as duvidosas, exageradas, condenáveis, satíricas, humorísticas, bem como aquelas não compartilhadas pelas maiorias [...]. Não existe permissivo constitucional para limitar previamente o conteúdo do debate público em razão de conjectura sobre o efeito que alguns conteúdos possam vir a ter junto ao público. O exercício do direito à liberdade de expressão não pode ser cerceado pelo Estado ou por particular”. As fake news devem ser extirpadas pela própria imprensa, se for o caso. O problema do Brasil é quem são os donos da mídia, ou seja, quem tem o direito de formar “opiniões públicas” e controlar a comunicação social. Supostamente preocupada com interesses nacionais, a Constituição Federal estabeleceu que “a propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País” (art.222) + “compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão ou autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal” (art.223). Essa “outorga” certamente será dada apenas aos“amigos do rei”, àqueles que servirem aos interesses do Estado. Há um coronelismo eletrônico no Brasil. O resultado dessa “cautela” da Constituição é o monopólio. Uma pesquisa do ano de 2016 feita pela Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) mostra que 32 deputados federais e 8 senadores são proprietários ou sócios de canais de rádio e televisão. Em âmbito regional, este quadro ainda é muito pior. Mais recentemente, o poder dos meios formais de comunicação social vem sendo desafiado. Surge um novo fenômeno: as mídias digitais estão suplantando a imprensa. Cada vez mais pessoas estão, por exemplo, utilizando o compartilhamento de informações por comunicadores (programas de troca de mensagens, como o WhatsApp) e preferindo redes sociais (como o twitter) para se informar, em detrimento dos canais de notícias. O mundo não é mais o mesmo. QUESTÕES Q1. Ano: 2017 – Banca: CESPE – Órgão: DPU Em uma ação de reintegração de posse, foi determinada a remoção de centenas de famílias, que havia anos tinham fixado moradia no local e compartilhavam a prestação de serviços mútuos. Antes da ocupação, o espaço era um terreno abandonado de propriedade da massa falida de uma empresa em débito com a Fazenda Pública, única credora habilitada. A comunidade, além da mobilização junto aos governos municipal e estadual com objetivo de regularizar a ocupação, havia, por meio de sua associação, procurado o órgão da DPU, que, na oportunidade, ajuizou ação de desapropriação indireta, que ainda não havia sido julgada. Quando do cumprimento da decisão de reintegração de posse, diante da resistência de alguns integrantes da ocupação, registrou-se o uso desproporcional de violência pela força policial, tendo a ação resultado em prisões, pessoas feridas e perda de objetos pessoais dos moradores. A respeito dessa situação hipotética e de ideias relacionadas à sociologia do direito, julgue o item a seguir. A remoção das famílias com o emprego da força policial tipifica o controle social classificado como externo e positivo. Q2. Ano: 2018 – Banca: CESPE – Órgão: ABIN A respeito da estatística aplicada às ciências sociais, julgue o item que se segue. Apesar dos avanços nas metodologias qualitativas, há consenso nas ciências sociais quanto ao fato de que os estudos quantitativos são necessários para assegurar o caráter científico de uma pesquisa. GABARITO Q1. ERRADO Q2. ERRADO Comentário à Q1: Na sociologia, o controle social se classifica em positivo e negativo; formal e informal; e institucional e grupal (segundo Fichter). Desta última classificação, Ana Lucia Sabadell fala em controle social externo e interno. Na questão, busca-se a qualificação da ação da polícia no controle social. Sendo assim, pode-se concluir que ela foi externa (a repreensão não é do próprio indivíduo ou do seu grupo social íntimo e informal, como a família), posto que é imposta institucionalmente, de forma heterônoma. Tem-se, ainda, o Estado agindo pela polícia, controle, portanto, formal e negativo, por meio do mecanismo repressor que impõe uma restrição social. Veja: “o controle positivo é empregado para orientar o comportamento do indivíduo, levando-o a proceder de acordo com as normas e valores imperantes na sociedade: a conformidade é induzida através de mecanismos como a instrução, a sugestão, a persuasão, o exemplo, os prêmios e as recompensas; o controle negativo atua de outra maneira, levando os indivíduos a se afastarem de determinadas formas de comportamento consideradas antissociais: baseia-se em mecanismos como a proibição, os tabus, as repreensões e as punições” (Lakatos e Marconi). Em vista disso, o item está ERRADO. Comentário à Q2: Após Weber e seu método compreensivo, NÃO há mais consenso quanto à necessidade de estudos quantitativos para assegurar o caráter científico das ciências sociais. O item está ERRADO. AULA 03 ESTRUTURA SOCIAL Estrutura social é um modelo de análise constituído pelo conjunto das relações sociais e a partir da observação da realidade empírica (do comportamento dos indivíduos, grupos e instituições). Para alguns sociólogos, a estrutura social é a própria realidade social. Mas, para outros sociólogos (corrente adotada pelo professor), a estrutura social é um modelo de estudo que tem por base a observação da realidade social. A realidade é de difícil apreensão, por isso não se pode afirmar peremptoriamente que “estrutura social é a realidade”. Na verdade, a estrutura social busca entender a realidade social e ser o seu espelho. A estrutura social é formada, basicamente, pelas relações sociais, através das instituições, grupos sociais e indivíduos. As instituições sociais demonstram como a sociedade se organiza. No Brasil, a estrutura social é muito fraca, pois há uma volatilidade grande das instituições. A estrutura social é o nosso edifício; é o condomínio das relações sociais. Se queremos estudar a vida em sociedade, temos de compreender essa estrutura e seus elementos: papéis sociais, expectativas sociais, instituições sociais, cultura, classes sociais, desigualdade social e estratificação social. Instituições sociais São padrões sociais considerados fundamentais, destinados a lidar com problemas sociais e assegurar a estabilidade e a manutenção da estrutura social. Constituem maneiras tidas por corretas e adequadas para a vida em sociedade. A estrutura social necessita de uma mínima organização, que são os padrões sociais – estes padrões são as instituições sociais. Exs de instituições sociais: Universidades, propriedade, família. Agora, “Universidade X”, a “minha família”, a “minha casa” são uma organização social. Quando se fala em “instituição”, estamos falando de uma “ideia”, na proteção de uma entidade, que dará ensejo à formação de uma organização social concreta. No episódio de The Walking Dead (Guts, “Entranhas”, S01E02), há uma cena em que Andrea está em uma loja e fica a admirar um pingente de sereia, cogitando que sua irmã iria adorá-lo. Ela pede a Rick se aquilo (ficar com o pingente) seria um saque (furto em meio a um desastre). Ele responde que não, pois as regras antigas não se aplicavam mais (as instituições haviam ruído). Ou seja, as instituições sociais podem sofrer transformações, apesar de serem muito estáveis. Exemplo da vida real: a Peste Negra foi uma conjuntura que sepultou, de uma vez por todas, o feudalismo e ajudou a construir o capitalismo. Antes da peste negra, havia uma enorme quantidade de camponeses aptos a trabalhar nas propriedades rurais por um valor baixo. Com a redução drástica da população (cerca de 1/3 foi exterminada na época), houve uma redução, também, da mão-de-obra. Quem sobreviveu acabou requerendo melhores condições de trabalho. As instituições são unidades funcionais (noções) profundamente arraigadas na sociedade, tanto que consideradas padrão natural, espontâneo, ainda que, por evidente, possam se modificar (e realmente se modifiquem) no decorrer do tempo – precisam mudar para responder adequadamente aos problemas sociais de cada época. Alguns sociólogos afirmam que a “família”, hoje, em alguns países, não está mais conseguindo atender aos anseios que dela se esperam. CUIDADO! As instituições sociais NÃO se confundem com as organizações sociais. A família monogâmica é uma instituição social; a sua família e a minha família são organizações sociais. INSTITUIÇÕES SOCIAIS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS Noção abstrata, ideia, elemento, padrão social, modo comportamental. Materialização das instituições no mundo real, de forma concreta. Cultura Para Clyde Kluckhohn, a cultura pode ser entendida através de uma série de acepções, quais sejam: 1. O modo de vida global de um povo; 2. O legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; 3. Uma forma de pensar, sentir e acreditar; 4. Uma abstração do comportamento; 5. Uma teoria sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta; 6. Um celeiro de aprendizagem em comum; 7. Um conjunto de orientações padronizadas paraos problemas recorrentes; 8. Comportamento aprendido; 9. Um mecanismo para a regulamentação normativa do comportamento (conceito que se aproxima ao de “cultura jurídica”); 10. Um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; 11. Um precipitado da história Cultura é um padrão de comportamento de um sujeito de um certo povo em uma certa época (tentando simplificar o máximo possível o conceito de “cultura”). Agora, um conceito de cultura um pouco mais rebuscado. Cultura é um conjunto de padrões de comportamento, uns explícitos e outros implícitos, adquiridos pela socialização; uma vez adquirido, é, depois, transmitido. Esse conjunto de comportamentos se expressa por meio de símbolos, cujo núcleo essencial é formado por valores. Os valores são elementos primários de organização que vão dirigir o comportamento do corpo social como um todo. CUIDADO! Até o século XIX, acreditava-se que havia apenas uma grande cultura, da qual as culturas regionais fariam parte (como fases ou etapas). A partir do século XX, a percepção de que a história é descontínua (não linear, em uma linha de evolução) impacta na noção de que há uma pluralidade de culturas. Prevalece que não há uma cultura melhor do que a outra, bem como que não há uma cultura geral. Para o professor, não existe “a cultura ideal”, mas é sim possível qualificar as culturas, ou seja, dizer que a cultura X é melhor que a cultura Y. Mas este é um assunto super polêmico. Para fins de prova (sobretudo, provas objetivas), marquem como correta a alternativa que diz que não há uma cultura melhor do que a outra. Agora, em uma prova subjetiva, dá pra você defender que é possível qualificar as culturas. CUIDADO! É sempre necessário deixar claro o ponto de vista majoritário, quando você for mencionar/defender o ponto de vista minoritário. Obs: Aqueles que defendem a impossibilidade de “qualificar” as culturas fazem a seguinte crítica: não é possível afirmar que determinada cultura é pior com base no meu ponto de vista, que deriva da minha própria cultura. Dentro das culturas, é muito comum existirem “contraculturas”. As contraculturas podem ganhar corpo e se transformarem na cultura prevalente. Ex de contracultura: a cultura hippie – que perdeu força (não conseguiu se tornar a cultura prevalente e, também, foi desparecendo com o tempo). Isso não significa que ela não tenha conseguido deixar o seu legado, nem influenciar a cultura prevalente. Além da contracultura, temos também a “subcultura”: quando grupos aproveitam alguns elementos de uma cultura e reforçam tais elementos; ou são culturas que existem dentro da cultura prevalente (sem tentar modificá-la necessariamente). Ex: cultura gaúcha. Miguel Reale (autor brasileiro), ao desenvolver sua teoria tridimensional do Direito, foi claro ao posicionar o Direito no mundo da cultura e ressaltando sua dimensão valorativa: fato + valor (cultura) = norma jurídica (a norma jurídica é uma reação do valor a um fato). A cultura se relaciona de maneira estreita com as normas jurídicas, na medida em que as influencia a positivas os valores que a compõem. A classe social dominante geralmente consegue causar um enorme impacto na cultura. Quem tratou dessa questão de forma genial foi Antonio Gramsci, que demonstrou que intelectuais orgânicos podem prestar um papel decisivo na modificação da hegemonia cultural. O poder intelectual e ideológico tem a capacidade de até mesmo suplantar o poder econômico e político. TIPOS DE CULTURA Cultura popular É aquela produzida e acolhida pelo “povão”, em contraste às defendidas pelas instituições formais (como as derivas da educação). Exemplo: funk carioca x música clássica; Anitta x Bach. Cultura de massa É a cultura popular admitida, transformada e embalada para vender no mercado de massa. É o que o sertanejo universitário fez com a música caipira. Subcultura Uso seletivo de alguns elementos da cultura para reforçar a identidade de um grupo social. É o caso do pampeiros do CTG (os gaúchos piram comigo agora), que usam pilcha, mas nunca colocaram os pés no barro e tomam tererê em vez de chimarrão; ou dos cowboys de apartamento, que usam chapéu e bota em Barretos, mas só tomam leite de caixinha e tem medo de chegar perto de cavalo. Contracultura (cultura marginal) Subculturas de deslocamento, formadas por aqueles que não se conformam com o mundo que os cerca, buscando transformá-lo. Todo comunista vivendo em um país capitalista prega a contracultura, o que também ocorre com os ambientalistas mais extremados. Cultura subalterna É aquela que não possui reconhecimento amplo, podendo ser aceita com o tempo (tornar-se de massa), desaparecer ou permanecer presente em uma pequena minoria silenciosa (o que a difere da contracultura, que é barulhenta para tentar se impor). A cultura rock n’roll foi popular na década de 1980. Hoje, é subalterna. Classes sociais Os integrantes da estrutura social podem (e costumam) ser classificados em compartimentos - a partir de critérios unificadores, variáveis no tempo e no espaço e, ainda, conforme o autor – que permitem sejam identificados grupos mais ou menos homogêneos dentro da realidade social. Na antiguidade grego e romana, tínhamos os cidadãos (eupátridas) e os não cidadãos (apátridas), podendo ainda haver subdivisão em governantes, sacerdotes, camponeses, artesãos, guerreiros, escravos e estrangeiros. Na Idade Média, tínhamos a nobreza, o clero e o povo. Na modernidade, fala-se em burguesia e proletariado. Na contemporaneidade, passados a ter uma miríade de classificações possíveis. Essa miríade de classificações possíveis é considerada uma questão primária, para algumas teorias, ou uma questão secundária, para outras teorias. Então, vejamos, primeiro, para quem essa possibilidade de classificação é uma questão primária. Marx. Na teoria marxista, por exemplo, divide-se a sociedade segundo o critério (qualitativo) da POSSE dos meios de produção: de um lado, está a burguesia, os proprietários dos recursos produtivos; de outro lado, o proletariado, os trabalhadores (não proprietários). “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classes”. Max Weber. Weber, além de preferir uma divisão quantitativa, baseada na RENDA, diz que é possível diferenciar classes sociais de grupos de status. As classes são formadas pela relação com os meios de produção, a renda e a aquisição de bens; e os grupos são estratificados de acordo com o modo como consomem bens (estilos especiais de vida). Grupos de status ex: sujeito que não é dono dos meios de produção, mas possui um ótimo salário e consome bastante bens. Para outros sociólogos, a classificação é uma questão secundária. Estes sociólogos negam a existência de classes estáveis e dotadas de forte sentimento comunitário (como o que caracteriza o proletariado), embora admita que toda e qualquer sociedade possui classes, o que é mesmo uma necessidade funcional. As teorias funcionalistas afirmam que a estratificação social é a análise das posições sociais dos indivíduos. Só que não necessariamente este sistema de posição social é ruim, pois ele pode ser baseado no mérito e na recompensa individual. Assim, não necessariamente haverá um conflito entre classes. A existência de classes pode, inclusive, fazer com que as pessoas busquem a ascensão social, o que é algo positivo. Hoje, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) afirma que há 6 classes sociais, adotando como critério a RENDA familiar: 1. Miserável: até 1 salário-mínimo; 2. Baixa: de 1 a 2 salários-mínimos; 3. Média baixa: de 3 a 6 salários-mínimos; 4. Média: de 7 a 19 salários-mínimos; 5. Média alta: de 20 a 29 salários-mínimos; 6. Alta: 30 ou mais salários-mínimos. Crítica: deveria considerar a renda per capita e o nível de escolaridade. Parece inegável que pessoas que pertençam a classes sociais diferentes possuam perspectivas de vida diferentes.Há enorme debate a respeito de como diminuir a desigualdade social. Desigualdade social A estrutura social, a rigor, é construída com tijolos diferentes. Os atores sociais exercem papéis diversos, o que enseja uma desigualdade inerente. Há juízes e carpinteiros, médicos e pedreiros, cozinheiros e faxineiros. É impossível obter uma igualdade absoluta (a isonomia total é mito). Mesmo os autores que defendem a igualdade como modelo básico de organização social, admitem que haja certa desigualdade social. O problema é o tamanho dessa desigualdade. No Brasil, essa desigualdade é imensa. Nos EUA, a desigualdade é menor. Ex: nos EUA, um caminheiro ganha 90 mil dólares por ano; e um juiz ganha 200 mil dólares por ano. E se compararmos quanto ganha um caminheiro e um juiz aqui no Brasil? Com certeza essa diferença é muito maior. As desigualdades costumam derivar de 3 grandes fatores: 1. Poder: a capacidade de uma pessoa fazer valer a sua vontade em relação aos demais. Ex: patriarcado nas famílias; 2. Prestígio: certos papéis sociais possuem mais prestígios que outros. Ex: magistrados no Brasil; advogados nos EUA (possuem muito prestígio! Aqui no Brasil, advogados não são muito prestigiados, em regra, infelizmente). 3. Privilégios: benefícios que algumas pessoas recebem Ex: sujeito que recebe uma enorme herança. Para parte da doutrina, o imposto causa mortis deveria ter uma incidência mais pesada. Segundo Talcott Parsons (1902-1979), sobre a desigualdade social: “é um fenômeno muito geral que as forças sociais sejam diretamente responsáveis pelo dano ou destruição de alguns indivíduos e de alguns dos desejos ou necessidades de todos os indivíduos, e, embora isto possa ser reduzido, é altamente provável que não possa ser eliminado em condições realistas”. A grande maioria dos sociólogos afirma que, quanto maior a desigualdade social, maiores são os conflitos sociais. O problema é que quem tem privilégios tenta mantê-los; e quem não tem privilégios tenta adquiri-los. A busca por manter ou alterar as desigualdades sociais gera muitos conflitos. A Estratificação Social: identifica a existência de estruturas sociais relativa ou absolutamente fixas, formando uma hierarquia (escalonamento) de poder e de privilégios Para a maioria daqueles que nascem nos degraus mais baixos da escada social, não está nos planos ficar ali estacionados. A ideia é escalar. O problema é quando há impedimentos para tanto – degraus escorregadios, armadilhas, cerca de arama farpado (a escada mais parece um muro). Em tais casos, falamos que há estratificação social – obstáculo à mobilidade social. O termo estratificação é emprestado da geologia, que o utiliza para indicar a disposição de rochas da crosta terrestre. Uma sociedade estratificada, assim como as camadas de rochas, possui pouca ou nenhuma mobilidade. Seja por questões materiais (fáticas) ou formais (jurídicas, legais), a existência de estruturas sociais – relativa ou absolutamente fixas – impede/dificulta a mobilidade social. A estratificação social pode ser dividida em 2 grandes grupos: 1. Biológica: engloba a estratificação sexual, etária e de saúde físico-psíquica; 2. Strictu sensu (propriamente dita): abarca as castas, os estamentos e as classes sociais. Sobre as estratificações BIOLÓGICAS: Estratificação sexual: derivada do gênero ou de opção sexual. As primeiras sociedades humanas foram matriarcais, passando depois a serem patriarcais. Ex: hoje, nas eleições brasileiras, um percentual mínimo de candidatos deve ser mulheres. Estratificação etária: as sociedades primitivas era gerontocráticas, ou seja, valorizavam os mais velhos. Como tais agrupamentos era ágrafos (sem escritas), os anciãos eram verdadeiros repositórios das tradições tribais. Ex: hoje, no Brasil, o Estatuto do Idoso. Estratificação saúde físico-psíquica: ocorre a exclusão social dos doentes e deficientes. Na Alemanha nazista, houve a tentativa de extermínio dos doentes mentais (entre outros), para a formação do novo povo ariano. Ex: hoje, no Brasil, as cotas em concurso para pessoas com deficiência. Estratificação étnica: há prevalência de uma raça ou cultura, com subjugação das outras. Infelizmente, essa é uma cicatriz recente. Ex: políticas segregacionistas, apartheid. Sobre as estratificações STRICTU SENSU: Castas: categorias sociológicas que diferenciam os indivíduos por uma suposta maior ou menos proximidade com uma divindade que teria criado a sociedade. Há um elemento mágico-religioso diferenciador. Sistema que ainda vige na Índia e interior de Paquistão. Zero mobilidade social. Estamentos: diferenciação com base na origem e honra familiar (realeza ou nobreza) ou na concessão de uma benesse pelas classes mais altas (cavalaria). Os direitos sociais são acessados conforme o estamento. É a sociedade vigente na era medieval. Na Inglaterra, ainda hoje, somente os indivíduos da nobreza podem compor a Casa dos Lordes, no Parlamento. Classes sociais: não existe uma divisão formal rígida da estrutura social, mas há diferenciações fático-materiais. Há a classe dos estudados (intelectuais), das personalidades (pessoas famosas), dos ricos (quem acumulou riqueza). ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL BIOLÓGICA STRICTO SENSU Classes Sociais Estamentos Castas Étnica Saúde Físico- Psíquica Etária Sexual O Brasil é um país estratificado? No Brasil, pode-se dizer que há relativa mobilidade social, sendo as classes identificadas pelo critério econômico em alta, média e baixa. NÃO há impeditivo formal para a ascensão social, mas há dificuldades materiais que não podem ser ignoradas. A maioria das pessoas afirma que a situação do nosso país ainda é muito ruim (pouco se fez nos últimos 20 ou 30 anos), mas não se pode negar que melhorou um pouco (mas poderia ter melhorado muito mais). E que, para melhorar, é necessários mais ação por parte do Estado, mais intervenção estatal a fim de intervir e garantir os direitos dos cidadãos. Outros são contra o “Estado assistencialista”, afirmando que o dinheiro “gasto” com os pobres, na verdade, não vai para os pobres (estes ficam só com as migalhas). O dinheiro “para os pobres” é gasto com os “pobristas”, que são aqueles que vão lucrar com os pobres e, na maioria das vezes, aliados ao governo (construindo casas, fornecendo as merendas, etc). Os “pobres” acabam sendo uma eterna “subclasse dependente do governo”. Com o Estado assistencialista, praticamente não há mais mobilidade social. CUIDADO! Este posicionamento é minoritário!! QUESTÕES Q1. Ano: 2018 – Banca: CESPE – Órgão: ABIN Uma nova economia surgiu em escala mundial global nas duas últimas décadas. Chamo-a de informacional e global para identificar suas características fundamentais e diferenciadas e para enfatizar sua interligação. É informacional porque a produtividade e a competitividade dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes, estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos. Manuel Castells. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999, p.87 (com adaptações). Considerando o texto precedente e os múltiplos aspectos a ele relacionados, julgue o item que se segue. Paralelamente à tendência de homogeneização, própria da formação de uma cultura globalizada, têm ressurgido, desde o final do século XX, os discursos nacionalistas e outras formas de particularismo. Q2. Ano: 2013 – Banca: CESPE – Órgão: ANTT – Analista Administrativo – Ciência Política Acerca do assunto das instituições políticas e de seus fundamentos, julgue o item a seguir. A contestação da legitimidade do Estado se dá por meio da oposição à própria concepção originária do Estado, em relação à estrutura e aos seus fins, utilizando-se, como princípio dessa concretização, a modificação parcial dos fundamentos do Estado, o que culminana existência de uma política de cunho reformista. GABARITO Q1. CORRETO Q2. ERRADO Comentários à Q1: Efetivamente, há um ressurgimento de discursos nacionalistas e outros modelos que se vinculam ao particular, em contraposição ao todo, o que serve de obstáculo à homogeneização global. Comentários à Q2: Adivinha qual é o erro da assertiva? Cunho revolucionário, e não reformista. É isso. Não acredita? Pois pode acreditar. ESPAÇO PÚBLICO E ESPAÇO PRIVADO Das cavernas aos arranha-céus. A história é sempre a mesma: o homem vivia em pequenos grupos (hordas) e depois passou a viver em sociedades cada vez mais complexas. Une-se a seus semelhantes para maior estabilidade, segurança, vantagens na caça, proteção a ataques, especialização das tarefas, o que faz com que a sociedade consiga oferecer um mundo de possibilidade inimagináveis aos indivíduos. Uma das consequências da especialização da vida é a existência de dois espaços. Os espaços público e privado possuem, em tese, regras distintas de regulamentação e de interferência da coletividade nas condutas dentro deles realizada. Zoé e Bios Na Grécia Antiga, o público era o espaço de manifestação do cidadão, de expressão de suas ideias, âmbito dos iguais (desde que “cidadãos”), onde se exercia o poder (zoé); o privado era o campo da vida íntima (bios) e também daqueles que não eram cidadãos (mulheres, estrangeiros e escravos). Para o mundo grego e romano em suas fases iniciais, a regulamentação a respeito dos “não cidadãos” ficava a cargo do pater famílias (ao homem, chefe da família). Depois, vem a ius commune que surge com uma pretensão universal e com a preocupação de regulamentar tudo aquilo e todo aquele que estivesse no território romano, e não apenas “cidadãos”. Nos dias atuais, cada vez mais o espaço público vem “engolindo” o espaço privado. Ex: a publicização do direito civil, onde o Estado intervém para garantir aos sujeitos privados alguns direitos fundamentais. Tem-se como premissa a desigualdade do espaço privado e a necessidade de o Estado intervir para agir como mediador e garantir certos direitos. O âmbito privado é o âmbito da privacidade, da intimidade de cada pessoa, o local em que o indivíduo se oculta para ficar longe dos olhos alheios, regendo-se por seus princípios morais (consciência interna). Cabe ao Direito proteger este espaço de interferências indevidas, pois é onde o indivíduo pode se encontrar consigo mesmo. O espaço público é o espaço da coletividade, da socialização, onde se exerce a cidadania e acontecem as relações sociais, que são regidas pelas normas (jurídicas e morais). Esse espaço é o objeto principal de estudo da sociologia. O espaço público é o espaço de coerção, de conformação dos comportamentos. O Direito, como já visto, é um instrumento que atua nesse âmbito, visando disciplinar as relações sociais, influenciando o comportamento dos indivíduos e grupos, de forma preventiva e repressiva. Há, pelo menos, 3 pensadores que tratam dessa relação entre o espaço público e o espaço privado de maneira admirável e cujas teorias possuem ampla aplicação no direito: Jürgen Habermas, Hannah Arendt e Giorgio Agamben. Jürgen Habermas (1929, ainda vivo) Em uma democracia, o cidadão deve ser não só destinatário, como também autor das leis. Habermas faz parte da Escola de Frankfurt, que tem cunho neomarxista e se debruça, em seu estudo, no socialismo da União Soviética, fazendo críticas a ele. Mas fazem, sobretudo, críticas ao sistema capitalista. A Escola de Frankfurt propõe medidas adicionais ao socialismo clássico, a fim de possibilitar o desenvolvimento social. Qual a principal toada dessa Escola? A de que os seus autores precisavam ser reformistas, ou seja, eles tinham que acreditar que a sociedade poderia ser reformada via medidas efetivcas que levassem não apenas ao desenvolvimento econômico, mas também social. Habermas afirmava que, para haver socialização sem perda da liberdade, era preciso garantir que as pessoas fossem não só destinatárias, mas também autoras das leis. Ou seja, as normas precisavam ter legitimidade social. autores- destinatários norma concordância A soberania popular está diretamente associada à possibilidade de os destinatários das normas serem também os seus autores e à concordância dos autores com as normas (legitimidade da norma). Para que se obtenha tal concordância, para que os destinatários das normas sejam também seus autores, é necessário que o Direito seja legitimado em um espaço publico de debate. Se não há espaço público para discussão, não há legitimidade das normas, mas sim dominação pelas normas. Então, tanto a validade quanto a obediência fática duradoura da norma irão variar de acordo com a fé que os destinatários da norma têm com relação às normas. Ação comunicativa. Sem debate racional e equitativo que possa levar ao consenso social sobre a norma, o Direito não obterá legitimidade. A linguagem é essencial para viabilizar a democracia, na medida em que ela depende de compreensão e da conformação de interesses mútuos. Legalidade x legitimidade. NÃO há uma identificação intrínseca entre legalidade e legitimidade. A legitimidade é resultante do entrelaçamento entre os processos jurídicos e uma argumentação moral que obedece à sua própria racionalidade procedimental (diálogo e discurso). Hannah Arendt (1906-1975) Espaço público é o território no qual os homens decidem sobre os rumos da sociedade. Só há liberdade se for preservado um espaço público para discussão. O que ela dizia era muito parecido com Habermas. Se não há espaço público para exposição de ideias e estas não forem consideradas, não há que se falar em cidadania. Cidadania é a possibilidade de debater e ser ouvido; para isso, é preciso um espaço público. O homem existe como ser humano em completude quando incorporado efetivamente a algum lugar no mundo; lugar este no qual suas opiniões importem e suas atitudes tenham verdadeiro significado. Os elementos essenciais à natureza humana e à individualidade do sujeito: discurso e ação. Relegar os indivíduos ao espaço estritamente privado faz com que estas pessoas passem a “não existir” e, assim, não tenham dignidade. Obs: Hannah Arendt era judia e o seu trabalho como socióloga, obviamente, foi fortemente influenciado pelo trauma que viveram os judeus na época da Alemanha nazista. É apenas quando o indivíduo está na companhia de homens diferentes de si que ele realmente age, confirmando sua singularidade no espaço público. O indivíduo sozinho, excluído das relações sociais (do espaço de debate com voz ativa), fica despido não apenas de poder, como da própria dignidade humana, justamente porque nada do que faz ou deixa de fazer tem importância. Seus atos não atingem o resto da comunidade humana e passam como se não tivessem existido. Giorgio Agamben (1942 – ainda vivo) Pela primeira vez no curso da história, o Poder Público sentou à mesa do cidadão, deitou-se em sua cama, tomou assento em sua sala, debruçou-se em seus espaços de descanso, ingressou em seus momentos de lazer. A vida política (zoé) representa uma maneira específica de se viver, simboliza uma vida qualificada politicamente, como integrante da polis. A vida biológica (bios), por sua vez, reporta-se ao simples fato de viver (mera vida natural), experimentada de maneira semelhante por todos os seres vivos, sejam homens ou animais selvagens. Hoje, a vida biológica é, também, controlada pelo Poder Público. Há uma ampliação do espaço público. Eis que, na modernidade, ao perceber o potencial da vida biológica em multiplicar o poder das instituições, o Estado retirou-a do esquecimento da esfera privada e a trouxe para o centro da arena política. Nas aulas da faculdade, sempre aprendemos que os “cidadãos”, a sociedade passou a exigir do Estado diversos direitos fundamentais, como saúde, educação, moradia, etc. Então, é a perspectiva do indivíduo falando “Estado, me dê tal coisa”. O que Giorgio Agamben faz é girar a chave e observar que o Estado,a fim de adentrar e controlar a vida privada do indivíduo, também abraçou este discurso de que ele deve garantir diversos direitos, o que legitima a sua ampliação e serve de justificativa para as mais diversas “invasões” na vida privada. Então, vida pública e vida privada estão cada vez mais indissociáveis e o mero fato de um indivíduo nascer o insere na vida política (primeiras vacinas obrigatórias, testes de saúde, incidência de imposto sobre doação àquele que estava para nascer, etc). Mas, o que teria de mal nisso? A indistinção entre a vida natural e a vida política tem reflexos catastróficos. A vida biológica, precisamente por suas características naturais, uma vez incorporada pela (bio)política, torna-se facilmente manipulável. Fica muito simples medi-la, ordená-la, instrumentalizá-la como coisa, atribuir-lhe qualquer valor ou valor nenhum. Giorgio Agamben, ao contrário de Habermas e Hannah Arendt, preocupa-se em manter o espaço privado. EXTRA CONCEITOS DE SOCIOLOGIA JURÍDICA Organização social Sistema de relações sociais entre indivíduos e grupos (formas de organização), ligadas umas às outras e que, reunidas, constituem o todo que chamamos sociedade. Os sociólogos discordam em como esse todo é formado: se por relação orgânica, em que cada grupo e indivíduo faz parte desse todo como uma peça da engrenagem, fazendo-a funcionar e onde esse todo acaba determinando a função de cada indivíduo (sociedade indivíduo); ou se, na verdade, é o indivíduo considerado de per si que constitui e dar corpo à sociedade (indivíduo sociedade). Fatos sociais Modelos de comportamento, exteriores ao indivíduo, que orientam e determinam a vida em sociedade (caráter coercitivo), gerando a crença de que devemos atuar de certa maneira. Parte do coletivo para o indivíduo. É a base da teoria de Durkheim. Ex: uso do terno e gravata em tribunais. Os fatos sociais não necessariamente se tornam normas jurídicas (podem ser uma norma moral, ética, religiosa, etc). Um único indivíduo não é capaz, por si só, de alterar os “tipos” de fatos sociais. É preciso um grupo para tanto. É o coletivo que interfere no comportamento individual, e não o individual que interfere no coletivo. Ação social Conduta motivada e orientada a comportamentos alheios, sendo por eles também influenciada – ação que influencia e é influenciada (expectativa de reciprocidade). Parte do individual para o coletivo. É a base da teoria de Max Weber. Para Weber, a ordem social é formada por ações sociais que buscam reciprocidade. Ex: propriedade (respeito à propriedade). O homem abre mão da liberdade total a fim de ter uma liberdade mais segura (contrato social), e a propriedade é um símbolo disso. Com o passar do tempo, as ações sociais passam a não ser “conscientes” e o indivíduo age “no automático”. A repetição, ao longo do tempo, gera o “uso de determinado comportamento”, que pode gerar um costume e o costume pode levar a uma norma jurídica (quando um costume vira “lei”). Resultado: conformação dos comportamentos. Interação social Reciprocidade de influências em meio à ação social (ação e reação). Relação social Modelo em que as ações de cada indivíduo têm importância para as ações dos demais (cada pessoa é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto das ações). Estrutura social Modelo de análise construído com o conjunto das relações sociais e a partir da observação da realidade empírica (indivíduos, grupos e instituições). Padrão social Conjunto de comportamentos reiterados em determinado sentido, normalmente de maneira organizada e regida (menos espontânea), influenciando e moldando os demais comportamentos (conformação). É o que se forma a partir da consolidação dos fatos sociais ou das ações sociais. Papel social Maneira de agir de acordo com a função social exercida pelo ator. Comportamento esperado do indivíduo pela sociedade, em razão da sua função. Papel social é o conjunto de poderes e deveres, bônus e ônus, responsabilidades, obrigações e vantagens que exsurgem da função social exercida pelo ator, de acordo com certas condições (lei, modo de ser, tradições, expectativas). Ordem social Estágio da estrutura social em que as interações, relações, papéis e padrões são estáveis, de modo que as ações dos indivíduos são, a rigor, previsíveis, ordenadas, padronizadas, baseadas em normas e valores conhecidos e recíprocos. Socialização Processo pelo qual os membros da sociedade aprendem os padrões sociais de comportamento, assimilando-os à sua vida e a dos grupos que participam (como a família), transformando-os em regras gerais de conduta. Comunidade Grupo que se torna relativamente autossuficiente ou independente, atendendo às necessidades básicas (biológicas, sociais, econômicas, políticas, religiosas, culturais, educacionais) de seus integrantes. Ex: bairro com mercadinho, igreja, escola, etc. Sociedade Reunião das comunidades, grupos, díades (conjunto de duas pessoas, como casais) e das instituições (políticas, econômicas, ideológicas), estabelecendo uma inter-relação entre todos. Estratificação social Existência de estruturas sociais, relativa ou absolutamente fixas, formando uma hierarquia (escalonamento) de poder e de privilégios. image4.png image5.png image6.jpeg image7.png image8.png image9.png image10.png image11.png image12.png image13.jpg image14.jpeg image15.png image16.png image17.jpeg image18.png image19.png image20.png image21.png image22.png image23.png image24.png image25.png image26.png image1.png image2.png image3.pngumas às outras e foram delimitadas nos confrontos de um ambiente. É correto entender a lei como um manifesto que busca atender às demandas de valores sociais provenientes das inúmeras necessidades expostas pela dinâmica da sociedade. O frequente uso desproporcional da força pelos agentes de diversas forças de segurança no Brasil constitui um tema de estudo dos direitos humanos mais relevante no campo da sociologia jurídica no Brasil. Roberto DaMatta destaca a existência, no Brasil, de um universo relacional baseado na família, na vizinhança e no apadrinhamento, que reforça identidades, hierarquias e assimetrias sociais e econômicas e que pode ser resumido na seguinte máxima: “aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo”. Em oposição à perspectiva da dogmática jurídica e da cultura de respeito à lei, desenvolveu-se o que se convencionou chamar de teoria crítica do direito. Acerca dessa interpretação da sociedade e do fenômeno jurídico, julgue o item subsequente: A cultura de respeito à lei, presente em diversas formas de práticas jurídicas, invoca a aplicação da lei em qualquer caso, a qualquer custo, e fundamenta-se, como regra geral, no argumento da importância da segurança jurídica. Em oposição à perspectiva da dogmática jurídica e da cultura de respeito à lei, desenvolveu-se o que se convencionou chamar de teoria crítica do direito. Acerca dessa interpretação da sociedade e do fenômeno jurídico, julgue o item subsequente: De acordo com a literatura especializada, o uso alternativo do direito representa a busca de um instrumental teórico e prático a ser utilizado por profissionais do direito que afirmam se colocar a serviço da emancipação popular, vendo o direito como um instrumento de resistência das classes populares à dominação e à exploração. A partir do século XIX, polícia e justiça passaram a se preocupar com os limites do exercício do poder do Estado e a defender o exercício da cidadania como eixos fundamentais de sua atuação, com vistas à construção de um efetivo Estado democrático de direito. O Poder Judiciário é inerentemente passivo e o grau com que ele é invocado para servir como árbitro nos conflitos entre as forças ou instituições políticas depende, além da força dos tribunais, dos padrões da disputa política. O termo judicialização é usado para se referir a questões relevantes do ponto de vista político, social ou moral decididas, em caráter final, pelo Poder Judiciário. A respeito desse assunto, julgue o próximo item:Entende-se que a judicialização da política decorre da consolidação democrática, propiciada pela adoção de uma constituição repleta de direitos políticos e pela aceitação de que os indivíduos são titulares de direitos. O termo judicialização é usado para se referir a questões relevantes do ponto de vista político, social ou moral decididas, em caráter final, pelo Poder Judiciário. A respeito desse assunto, julgue o próximo item: A judicialização parece decorrer, sobretudo, do sistema de controle de constitucionalidade vigente no Brasil, que combina a matriz norte-americana — em que juiz e tribunal podem pronunciar a invalidade de norma no caso concreto — e a matriz europeia — em que ações diretas podem ser ajuizáveis perante a corte constitucional. A atuação expansiva do Poder Judiciário tem recebido, historicamente, críticas de natureza política e ideológica. Segundo uma dessas críticas, a judicialização funcionaria como reação das elites tradicionais à democratização, como um antídoto contra a participação popular e a política majoritária. O termo judicialização é usado para se referir a questões relevantes do ponto de vista político, social ou moral decididas, em caráter final, pelo Poder Judiciário. A respeito desse assunto, julgue o próximo item: No âmbito da chamada judicialização, a atuação do Poder Judiciário está ligada à implementação de políticas públicas que estimularam importantes reformas nas leis, sobretudo com o propósito de impedir eventuais abusos de poder das instâncias representativas. No Brasil, como em outras partes do mundo, os conflitos são tratados em função de sua natureza: alguns são considerados menores, produto de relações de proximidade (vizinhança, parentesco, afinidade, amizade), outros são classificados no campo jurídico como macrocriminalidades ou crime organizado. Acerca desse assunto, julgue o item a seguir: Como envolvem situações de convívio cotidiano entre pessoas conhecidas, que se veem, ocasionalmente, atraídas ao sistema criminal, os conflitos de proximidade não são tratados conforme a lógica da punição penal clássica. O positivismo jurídico representa o conjunto das teorias da Escola da Exegese. De acordo com essa escola, o direito só pode ser considerado como fruto do trabalho do legislador (direito estatal) e as leis devem ser interpretadas racional e logicamente. A afirmação de que, no funcionamento da sociedade, o conflito é permanente, pois a interação social é sempre conflituosa, é uma premissa sociológica. Por meio dela, considera-se que o direito não é capaz de resolver conflitos, já que estes não desaparecem do contexto social e podem, ainda, provocar novas situações conflituosas. No que se refere à ideia de direito como ciência, o formalismo jurídico, que surgiu no século XIX e serviu para constituir a ciência jurídica, teve seus fundamentos a partir da ciência empírica da realidade social, ou seja, da sociologia. O controle interno das práticas violentas por parte da polícia pode ser realizado, no Brasil, pelas ouvidorias de polícia. As pesquisas de vitimização, utilizadas pelo poder público para maior conhecimento acerca da violência e da criminalidade, são instrumentos que auxiliam no planejamento estratégico da polícia, pois trazem informações que, geralmente, não estão contidas nos registros oficiais da polícia, mas que são necessárias para a elaboração de políticas públicas. A preocupação com garantias jurídicas para os movimentos populares de resistência e o processo de formação de demandas por novos direitos integram o contexto político em que se desenvolve a NAIR. A crítica elaborada pela NAIR dizia respeito à ideia do direito como lei positivada e naturalizada, no sentido de seu conteúdo refletir a ordem natural das coisas, ou seja, a um só tempo questionava-se o positivismo e o jusnaturalismo. Há divergência na literatura acerca da origem da justiça restaurativa, mas se sabe que essa prática é constante nos documentos na Nova Zelândia, adaptada de tradições ancestrais dos povos nativos maori. O crime é uma manifestação de conflitos intersubjetivos e até mesmo uma forma de comunicação que tem múltiplos significados para as partes envolvidas. Considerado um dos autores mais importantes no âmbito da justiça restaurativa, Howard Zehr é referência constante no Brasil e no exterior. SUMÁRIO Aula 01...........................................................................................................................................................................................3 1. Sociologia: a ciência da sociedade 1.1. Física Social: Augusto Comte 1.2. Sociologia de Luta: Karl Marx 1.3. Sociedade Orgânica: Émile Durkheim Aula 02......................................................................................................................................................................................15 1. Controle Social 1.1. Sociedade Racional: Max Weber 1.2. Microfísica do Poder: Michel Foucault 1.3. Opinião Pública e Comunicação Social Aula 03......................................................................................................................................................................................26 1. Estrutura social: papel social, expectativa social, instituições sociais, cultura, classes sociais, desigualdade social, estratificação social 2. Espaço Público e Espaço Privado Extra..........................................................................................................................................................................................351. Conceitos básicos da Sociologia Jurídica (leia antes da prova) Pessoal, este material foi feito com base nas aulas do curso estratégia (Sociologia Jurídica para DPE/SC) e acrescentei também algumas imagens e tabelas do material que o estratégia disponibilizou. Como comentei nos stories do instagram, me decepcionei um pouco com o estratégia, porque ficou claro que eles misturaram aulas e materiais de outros cursos, para formar o “curso de Sociologia Jurídica para DPE/SC”, e acabou que não havia uma harmonia entre as aulas e os materiais disponibilizados. Tentei deixar o material o mais fluido possível. AULA 01 SOCIOLOGIA: A CIÊNCIA DA SOCIEDADE socio + logia = estudo da sociedade “O homem é um animal político”. (Aristóteles) Ou seja, homem é um animal que vive em sociedade. “Associar-se com os outros seres humanos é para o homem condição essencial de vida”. (Oreste Ranelletti) “A história NÃO conhece o homem isolado da vida social”. (Fernando Andrade de Oliveira) Desde os primórdios, o homem vive em grupos, a fim de facilitar a caça e a pesca, a coleta de frutos, por questões de proteção (já que é muito mais fácil proteger de outros animais ou outras tribos, se o homem estiver em grupo), etc. Mesmo aqueles que afirmam que o homem “entra” na sociedade em razão de um contrato social, em nenhum momento estes mesmos autores negam que existe um impulso natural de se agrupar. O grande problema é que a sociedade está longe de ser uma massa homogênea. Na realidade, a sociedade é um conjunto de interesse conflitantes. Assim, o grande desafio do ser humano é conviver com o diferente. Daí surge a necessidade de saber regular os conflitos e a aprender a viver em conjunto, de forma harmônica. A despeito da importância das relações sociais para a vida do homem, a sociologia (o estudo das relações humanas em sociedade) é uma ciência bastante recente. Na Grécia Antiga, as análises feitas não se voltavam especificamente à sociologia. Os gregos buscavam entender como a sociedade deveria ser governada (quais regras deveriam ser estabelecidas, qual o melhor sistema governamental, quem deveria governar, etc) – ou seja, a análise feita pelos gregos era política e filosófica. Não havia, na Grécia, a ideia de estudar a relação entre os homens e a sociedade. Desenvolvimento da Sociologia Charles Wright Mills insiste que os sociológicos devem pensar em formas de mudar a sociedade (1959). Max Weber (A ética protestante) oferece uma explicação para o surgimento das sociedades modernas (1904) Herbert Spencer (Sistema de filosofia sintética) defende que as sociedades evoluem como organismos vivos 1874 - 1885 Karl Marx (O Capital) critica a sociedade e diz como esta seria superada pela comunista (1867) Augusto Comte (Curso de Filosofia positiva) aponta a sociologia como uma ciência 1830 - 1842 Ibn Khaldun (Mugaddimah) descreve o espírito de solidariedade (coesão social) - 1377 Hoje, já caiu “na boca do povo” diversas expressões da sociologia (ex: relação social, estratificação social, ordem social, fato social, etc). Mas será que se essas expressões caíssem em prova nós saberíamos dizer o que elas realmente significam? Na aula “extra”, no final do material, temos um resumo dos principais conceitos da sociologia jurídica. Asabiyyah O filósofo e historiados árabe, Ibn Khaldun (1332-1406) era fascinado por como umas sociedades se desenvolviam e outras eram dominadas. Para explicar essas idas e vindas, ele desenvolveu o conceito de asabiyyah, a coesão social/ solidariedade (propósito comum), que liga as pessoas em uma sociedade, seja em pequenos grupos ou em um império. Segundo Ibn Khaldun, conforme a sociedade vai envelhecendo, ela vai perdendo esse propósito comum. Por outro lado, as sociedades mais novas possuem um alto grau de coesão social e, por isso, acabam dominando as sociedades mais antigas. Um novo despertar É só no séc.XVIII, com as forças da modernidade, às portas da Idade Contemporânea, que o modo tradicional de pensar a política, não podendo oferecer resposta a tantas transformações, dá espaço à ciência social voltada ao estudo dos comportamento do homem em sociedade. Neste século, tivemos o Iluminismo, que colocou a autoridade da Igreja Católica em cheque. Tivemos, também, a Revolução Francesa, a Revolução Americana. Enquanto tudo isso acontecia, tivemos a Revolução Industrial também. Assim, passamos de uma sociedade medieval para uma sociedade industrial. O poder sai das “terras” e vai para as “fábricas”. Quem tentava explicar tudo isso que estava acontecendo era a política, mas sem grande êxito. Daí o despertar da sociologia. Ciência da Sociedade A Sociologia pretende estudar, compreender, analisar e questionar a vida social do homem. A sociologia se afasta da análise da política, dos governos, da moral, da filosofia. “A função da sociologia, como a de todas as ciências, é revelar o que está escondido”. (Pierre Bourdieu) A sociologia vai estudar as organizações sociais, as instituições sociais, a estrutura social, a interação entre os homens, a interação entre o indivíduo e a coletividade, tentando entender como a sociedade molda os indivíduos e, então, os indivíduos acabam conseguindo alterar a sociedade, ou o inverso (como as sociedades conseguem alterar os indivíduos) – a depender da corrente sociológica adotada. Qual é o objeto da Sociologia? Para Durkheim, o objeto da sociologia é os fatos sociais. No entanto, os fatos sociais são também fatos históricos e, portanto, também são objeto da História. Para Weber, o objeto da sociologia é a ação social. Mas o valor da “ação social” é de inteiro interesse da política. Portanto, as Ciências Políticas também vão estudar as ações sociais. Para Gurvitch, o objeto da sociologia é os fenômenos sociais, mas estes são acompanhados atentamente e submetidos à reflexão da filosofia. Para Wiese, o objeto da sociologia é as relações sociais. O problema é que as relações sociais comumente se tornam jurídicas (via lei ou via contrato) e, portanto, é substrato da ciência do Direito. Para Hobhouse, o objeto da sociologia é a vida social do homem, mas esta já é estudada pela Antropologia. AUTOR OBJETO da Sociologia Émile Durkheim Fatos sociais Max Weber Ação social Georges Gurvitch Fenômenos sociais Leopold Von Wiese Relações sociais Leonard T. Hobhouse Totalidade da vida social do homem Quer dizer, então, que a sociologia não tem objeto de estudo? Na verdade, a sociologia não se define pelo seu objeto, mas sim pela maneira crítica como esse objeto é abordado. A sociologia tem a pretensão de compreender a sociedade de maneira nua e crua, como o “mundo do ser”; e, para alguns autores, obter-se respostas para modificação (ou fortalecimento) da sociedade e adequação para seus termos futuros. A análise da sociologia, portanto, não se dá quando ao seu objeto, mas sim quanto ao seu modelo de atuação. E a sociologia jurídica? A sociologia jurídica (como ramo da sociologia geral) foca seus estudos nas relações biunívocas que existem entre a sociedade e o direito, entre os subsistemas econômico, político e ideológico. Exemplo: até que ponto as normas jurídicas são observadas pela sociedade, por que e quais as consequências. SOCIEDADE ORDEM JURÍDICA ECONOMIA INSTITUIÇÕES POLÍTICA NORMAS IDEOLOGIA Alguns autores diferenciam “Sociologia Jurídica” de “Sociologia do Direito”. Para estes autores, a Sociologia Jurídica aborda a norma jurídica, as instituições jurídicas, como o Direito - como agente de controle social – se comporta diante do que ele impacta na sociedade e como a sociedade impacta nas instituições jurídicas. A Sociologia do Direito pergunta o que a sociedade, regulada pela norma, tem a oferecer. Sociologia JURÍDICA Sociologia DO DIREITO Aborda a norma jurídica, o direito como agente de controle social. Estuda a sociedade regulada pela norma, os fatos sociais derivados do direito. O professor não fazesta diferenciação e entender que a Sociologia Jurídica/ou do Direito (qual nome preferir) aborda ambos os fenômenos. A Sociologia Jurídica é uma via de mão dupla, ou seja, a sua atenção recai tanto na influência dos fenômenos sociais sobre o direito, quanto no impacto do direito sobre a sociedade. A Sociologia Jurídica é um sub-ramo recente da Sociologia, que veio a surgir apenas no séc.XXI, por dois motivos principais: i. A vigência do positivismo no séc.XX: se o positivismo era o principal modelo jurídico, os elementos sociológicos que já vinham sendo estudados pela Sociologia simplesmente não tinham espaço para entrar na ciência jurídica, já que a ideia do positivismo é a de que a ciência jurídica é uma ciência pura, ou seja, que não admite elementos externos ao próprio Direito. Muito embora Hans Kelsen chegue a admitir que o Direito dependa de sua eficácia (a norma precisa ser efetiva, sob pena de o Estado não conseguir se impor), ainda assim essas análises se pautavam pelo próprio Direito (não se permitia uma análise sociológica). Esta, talvez, seja a maior contradição do modelo juspositivista de Hans Kelsen. ii. Em razão da forte ligação da sociologia com posicionamento políticos de esquerda (socialistas, comunistas, comunitaristas), que fez com que diversos governos proibissem o ensino da sociologia em universidades. Mas qual foi a razão para que a Sociologia Jurídica conseguisse se firmar? Pelo fato de ela ser zetética, buscando questionar, de modo crítico, a relação entre direito e sociedade, buscando aperfeiçoar as instituições de poder. Obs: zetética metodologia investigativa, indagatória, voltada para a resolução de problemas teóricos. Por outro lado, a dogmática busca apenas a dimensão normativista do Direito, o dever-ser. A lei é uma verdade, um dogma, uma premissa inquestionável. O dogma normativo não permite discussões mais amplas. O que se valoriza é uma resposta. Se eu tenho uma pergunta, eu vou até a premissa (que é um dogma) e acho uma conclusão rapidamente. Mas, se avaliarmos o mundo jurídico apenas neste aspecto, iremos engessar o ordenamento jurídico e, consequentemente, a sociedade. A Sociologia Jurídica – que é zetética -, ao invés de se pautar nas respostas, tem um enfoque nas perguntas. Há valorização das perguntas! E, por isso, ela passa a questionar diversos dogmas, com base na eficiência do Direito (as normas estão ajudando a sociedade?). CARACTERÍSTICAS da Sociologia Jurídica Realista estuda os fenômenos em uma situação real, não em uma conjuntura ideal ou normativa (mundo do ser, não do dever-ser). Zetética pauta-se em questionar, de modo crítico, a relação entre o Direito e a sociedade buscando aperfeiçoar as instituições de poder. Tecnocrata pode oferecer elementos concretos para o aperfeiçoamento das instituições que integram as estruturas de poder social, embasando a formulação e a execução de políticas públicas. Causal utiliza a causalidade (antecedente e consequente) como forma de explicar os fenômenos (“se A, então tende a ser B”). NÃO é a mesma causalidade das ciências naturais (deterministas: “se A, então B”), pois nas ciências sociais a causalidade é probabilística ou tendencial. CUIDADO! Vários sociólogos negam que a sociologia seja causal (o que veremos mais adiante) Pluralidade metodológica possibilidade de escolha entre os diversos procedimentos para a mediatização (método = caminho do conhecimento, apropriação do objeto) entre o estudioso e a sociedade (objeto). FÍSICA SOCIAL: AUGUSTO COMTE (1798-1857) considerado, por muitos, o pai da sociologia (só se fala em “sociologia” depois de Comte) A sociedade opera com leis tanto quanto o mundo físico (estudado pelas ciências naturais). As forças sociais podiam ser explicadas por regras similares às da física e da química. É por isso que, inicialmente, Augusto Comte chamava a Sociologia de “física social”. Criou um movimento que, hoje, é conhecido como positivismo sociológico. Comte concluiu que todos os ramos do conhecimento deveriam se basear na observação (evidência empírica dos fatos). Somente seria válido o conhecimento derivado do questionamento positivo, científico. Comte tem uma frase bem famosa: “saber para prever, prever pra prover” – ou seja, é necessário ter conhecimento científico para poder prever as transformações sociais; e, podendo prever essas transformações, seria possível prover condições para que as transformações acontecessem da melhor forma possível e levassem o homem à felicidade. Para Comte, há a questão da hierarquia, uma vez que o objeto de estudo da ciência social (a sociedade) é o mais desafiador e complexo, assegurando a ela o título de “rainha das ciências”. Segundo o autor, nenhuma outra ciência seria mais necessária, nem mesmo a ética, a religião e a moral (qualquer tipo de conhecimento). Qualquer tipo de conhecimento axiológico (que dependa de valores) será provido pela sociologia. Confira a hierarquia das ciências, segundo Comte. Obs: para o autor, a ciência anterior sempre provê elementos para a posterior. Sociologia Biologia Química Física Astronomia Matemática Augusto Comte criou a Lei dos 3 Estágios, que são as fases pelas quais passou a sociedade ocidental, quais sejam: CIENTÍFICO METAFÍSICO TEOLÓGICO OGICO 1º) Estágio Teológico/Religioso: as divindades são apontadas como causa de tudo; 2º) Estágio Metafísico: a explicação dos eventos se dá por entidades abstratas (como as ideias de justiça do jusnaturalismo, em que a lei natural deriva da razão); 3º) Estágio Científico: o conhecimento é extraído dos métodos científicos. TEOLÓGICO METAFÍSICO CIENTÍFICO Sociedades primitivas, extremamente dedicadas à religião (conhecimento irracional e transcendental). Sociedades modernas espiritualizadas, mas em processo de racionalização (conhecimento filosófico transcendental). Racionalismo puro (iluminação do homem), com a ciência (conhecimento racional e objetivo) passando a governar. Críticas à Lei dos 3 Estágios: 1ª: a ideia de evolucionismo linear não existe, pois as sociedades são completamente não-lineares, uma vez que sempre há avanços e retrocessos. 2ª: Comte coloca o modelo científico (étnico-cêntrico e europeu) como “ideal”, mas, segundo outros sociólogos sociedades religiosas podem ser tão avançadas quanto as científicas. Comte viveu contemporaneamente a Marx e se contrapôs a diversas de suas ideias. Comte x Marx Concordância Discordância A sociologia pode ser instrumento de transformação social. O progresso social se dará pelas ciências naturais (Comte), não por uma revolução social (Marx). Para Marx, seria necessário destruir as instituições burguesas para se alcançar o comunismo. Neste “destruir”, ele não poupava ninguém (incluía a família, por ex). No comunismo, a família é menos importante, porque existe uma “comunidade”. Para Comte, a família é a base da sociedade (núcleo da sociedade). SOCIOLOGIA DA LUTA: KARL MARX Jean Jacques Rousseau identificou a propriedade privada como fonte de toda a desigualdade. Para o autor, as pessoas viviam bem em seu estado de natureza, de forma harmônica – diferentemente de Hobbes, que afirmava que o estado de natureza era um estado de guerra (o homem como o lobo do homem) -, até que um indivíduo decide cercar um pedaço de terra, afirmar que aquilo era a sua propriedade e as demais pessoas seriam tolas o suficiente para acreditar neste indivíduo. Imediatamente, temos uma desigualdade entre proprietários x não proprietários; e o julgamento das pessoas passa a ser “ter” ou “não ter”, e não mais quem “você é” ou “não é” (prevalência do ter sobre o ser). Assola, portanto, o instituto de egoísmo, a busca do “ter”, mesmo que para isso seja preciso passar por cima de outras pessoas. Por isso, Jean Jacques Rousseau identifica a propriedade privada como o grande mal, a partir do qual outros males surgem. Rousseau propõe, também, que o modelo político pode ser formatado para direcionar a sociedade para um futuro melhor – isso otorna um dos primeiros pensadores “reformistas” da sociedade (o poder político poderia servir à transformação social). E isso era tudo que Marx precisava ouvir para encabeçar as suas teorias e para afirmar que: 1 – a propriedade é o grande mal; 2 – a sociedade pode se transformar para um modelo melhor (comunista). A teoria de Marx é baseada no materialismo histórico-dialético. Materialismo as condições materiais nas quais as pessoas vivem determinam a organização social futura. Obs: para Marx, no capitalismo, temos as bases materiais para evoluirmos ao comunismo (onde o proletariado assume os meios de produção e se instaurará uma sociedade sem classe) - falaremos sobre isso mais à frente. Histórico as épocas históricas serão definidas pelo modo de produção. Dialético a mudança social deriva de uma síntese que resolve a tensão contraditória entre as forças opostas (tese e antítese). Marx tem como uma de suas grandes influências Georg Hegel, que também utilizava a dialética. Para Marx, há sempre classes em oposição. Então, para ele a “tese” e a “antítese” eram classes. Para Marx, a evolução histórica se deu da seguinte forma: 1º - Primórdio Comunismo primitivo (sem classes); 2º - Antiguidade Sistema antigo (elite x escravos); 3º - Feudalismo Sistema Feudal (aristocratas x vassalos); 4º - Atualmente Capitalismo (burguesia x proletariado); 5º - Futuro Comunismo (sociedade sem classes). Burguesia Sociedade sem classes Aristocratas Proletariado Elite Camponeses Escravos Sociedade SEM classe Comunismo Capitalismo Feudalismo Antiguidade Primórdios Quais são as condições materiais do capitalismo que darão ensejo ao comunismo, segundo Marx? Com o passar do tempo, a opressão da classe burguesa ao proletariado leva ao surgimento da consciência de classe (obs: este sentimento não surge nos burgueses, pois estes estão sempre brigando entre si pelo lucro). Logo, essa identidade unificadora de classes gera o enfraquecimento da classe burguesa e um fortalecimento da classe trabalhadora. Com o tempo, os trabalhadores passam a tomar para si os meios de produção e impõem a ditadura do proletariado – o que resulta no comunismo. Para Marx, então, o comunismo era inevitável. Vamos conhecer, agora, alguns aspectos sociológicos deste modelo de Marx! Para isso, primeiro, vamos entender o que é “sociedade”, para Marx. Para Marx, a sociedade é caracterizada por uma série de relações sociais que independem da vontade dos homens, entre elas, a principal é as relações de produção. O conjunto dessas relações dá forma à infraestrutura econômica, base material concreta sobre a qual se erguem as superestruturas jurídica, moral, cultural, política, etc. A sociedade capitalista, para o sociólogo, é um conjunto de relações, onde há a dominação da burguesia sobre a classe trabalhadora, e todas essas relações são conflituosas. Os trabalhadores vendem a sua mão-de-obra ao mercado, e os proprietários/burgueses possuem os meios de produção e exploram a classe trabalhadora para obter lucro. Nas fábricas, os principais subsídios que vão gerar riqueza aos proprietários são o “lucro” e a “mais-valia”. O lucro é o resultado da diferença entre o valor de venda do produto menos o custo do produto. A mais-valia é resultado do valor de venda do produto menos o valor da mão-de-obra (valor agregado pelo trabalhador ao produto). Para Marx, a mais-valia deveria ser repassado ao trabalhador – daí Marx afirmar que toda relação de trabalho é uma relação de exploração e que o trabalhador não gosta de seu trabalho (ao invés de o trabalho ser algo que enobrece o homem, ele acaba alienando o trabalhador). LUCRO MAIS-VALIA Diferença positiva entre o valor final de venda no mercado e o valor total de custo (incluindo todas as despesas). Diferença positiva entre o custo de mão-de-obra e o valor agregado ao produto especificamente pelo trabalho. Fórmula: valor de venda – custo geral de produto = lucro Fórmula: valor agregado pelo trabalho – custo da mão-de-obra = mais-valia. Qual é o problema da teoria de Marx quanto a este aspecto? É que é praticamente impossível saber qual o valor dessa mais-valia, afinal, o valor final do produto engloba tantas coisas (ex: capacidade do empresário ter a melhor mão-de-obra pelo mesmo preço, a capacidade de produzir de maneira mais eficiente, a publicidade, a confiabilidade que é gerada pelo produto). A infraestrutura está nas relações de produção, econômicas, e é ela que sustenta a superestrutura. A função da superestrutura é garantir, reproduzir, controlar, justificar, legitimar as relações de dominação; e, para tanto, se utiliza de instrumentos, como o Direito, a religião e a moral, para a dominação das classes desfavorecidas. INFRAESTRUTURA SUPERESTRUTURA Relações econômicas, de produção Direito, religião, moral, ética, etc. Serve para manter o modelo econômico prevalente. Marx divide as instituições sociais em dois tipos: Aparelhos repressivos Aparelhos ideológicos Usam a força (coerção, repressão) para impor as relações de domínio (como a polícia); Usam a persuasão, o disfarce, o engodo para promover os interesses da classe dominante (como a religião) E o Direito? O Direito é um instrumento para a manutenção do status quo (dominação), uma vez que controlado pela classe social dominante. Além disso, o Direito é um instrumento repressivo (porque usa de sanções) e ideológico. Marx afirmava que o Direito trazia uma dupla ilusão: a primeira ilusão era a “legalista”, pois fazia com que os indivíduos pensassem que a lei iria libertar e igualar os homens (quando, na verdade, a lei só quer manter o status quo e legitimar as relações de dominação); e a segunda ilusão era a “igualitária”, de que as pessoas são iguais e têm direito iguais (quando, na verdade, o Direito não tem o poder de mudar a realidade social; a igualdade e a liberdade estão só no papel). Quem também pensa desta mesma forma em relação ao Direito é o companheiro de Marx: Friedrich Engels (1820-1895). Para este autor, a ordem jurídica capitalista - e sua garantia formal de liberdade e igualdade - não pretendem libertar e igualar ninguém materialmente. As noções de “liberdade” e “igualdade” têm uma função prática para o sistema capitalista. Servem para que todas as pessoas se sintam livres para pôr à venda a sua mão-de-obra no mercado. E o Estado representativo, democrático, tratado por Rosseau (lembre que Marx foi inspirado por Rosseau)? É uma criação da burguesia, um engodo para enrolar o povo. O proletariado não tem condições de escolher representantes e os representantes não estão interessados em representar (e lutar pelos) trabalhadores. As relações de trabalho são uma relação de exploração. A separação das funções no trabalho e a separação do trabalhador do fruto do seu trabalho geram alienação. Essa alienação, no âmbito das relações de produção, também traz uma alienação política. Desta forma, os trabalhadores não conseguem eleger seus representantes e o eventual eleito, muito menos, quer lutar pelos direitos dos trabalhadores. O fato é que as condições materiais do capitalismo não trouxeram uma revolução espontânea. Pelo contrário: em todos os lugares onde houver revolução, houve também um partido de vanguarda que tomou à frente. Os trabalhadores não quiseram implantar uma revolução, mas, pelo contrário, após as melhoras das condições de trabalho, eles não se interessaram em se revoltar contra os proprietários. Passaram a surgir representantes políticos interessados em defender os direitos dos trabalhadores. E o Direito – que Marx tinha afirmado que era instrumento da burguesia - passou a demonstrar concessões. Portanto, aquilo que Marx afirmava e dizia que ia acontecer, não se demonstrou. Por isso que, mais tarde, Antonio Gramsci (1891-1937) afirmou: “não ataquem os tanques, não ataquem as tropas, não ataquem os quartéis; ataquem às universidades, as escolas, as igrejas...”. Do que Gramsci está falando? Que a infraestruturanão deve sustentar a superestrutura, ou seja, não é a infraestrutura que molda a superestrutura. É a superestrutura que permite a existência da infraestrutura. É na superestrutura onde está a maior importância. Não é possível alterar a cultura, o Direito, a família, destruindo o sistema econômico, pois não haverá uma revolução espontânea. É necessário haver intelectuais orgânicos invadindo as escolas, as universidades, Igrejas, cultura e arte e, dentro desses espaços, implantassem uma hegemonia cultural socialista. E, aí sim, começaria a haver reformas estruturais no sistema capitalista, até o ponto em que ele se transformaria em comunista. Maiores contribuições de Marx para a sociologia: a. Evidenciar a existência de conflitos em qualquer sociedade; b. Esquematizar a oposição entre os que querem manter o status quo e aqueles que querem alterá-lo; c. Expor os conflitos como motores da história; d. Delinear as forças exógenas (externa) e endógenas (internas) de mudança social. Principais críticas ao modelo de Marx: a. Há sociedades capitalistas com baixíssimo nível de conflito (mas será que foi em razão do sistema capitalista? O prof. afirma que não; foi em razão da racionalização); b. Nem as classes ou agentes sociais, muito menos os interesses, podem ser classificados em uma dualidade tão simplificada (e o dono da padaria, que emprega dois funcionários?); c. A noção de que a infraestrutura econômica suporta todo o modelo social se mostrou equivocada (tanto que foi revista pelos próprios autores marxistas, como Gramsci); d. A ideia de que a revolução comunista global seria inevitável (materialismo histórico) não se confirmou. Obs1: nos países em que o comunismo foi implantado, este sistema se mostrou um completo fracasso. Obs2: os países comunistas que obtiveram algum tipo de sucesso adotaram a economia de mercado, como a China, e sistemas de repressão (socialismo de governo, mantendo o poder na mão de uma só pessoa e formando ditaduras). SOCIEDADE ORGÂNICA: ÉMILE DURKHEIM (1858 – 1917) É um sociólogo empirista e positivista, da Escola Objetiva Francesa. O que isso significa? Que ele acreditava que o sociólogo deveria se afastar do objeto de estudo, que ele devia se manter neutro diante das questões que ele estudava, afastando-se de questões ideológicas. Perceba, portanto, que o Durkheim era totalmente diferente de Marx. A Escola Objetiva Francesa é herdeira do Augusto Comte, pois retoma a alguns conhecimentos que Comte havia desenvolvido e se afasta da ideia de que a sociologia servia para a transformação da sociedade. Mais do que propor uma ampla teoria, Durkheim afirmava que cabia à sociologia definir um método de estudo. Para Durkheim, o sociólogo tem que se afastar dos seus preconceitos e pré-noções ao abordar os fatos sociais, pautando-se pela neutralidade. E como ele fazia isso? Através de uma análise quantitativa, ao invés de uma análise valorativa. A sua obra “O Suicídio”, Durkheim fez um exame pormenorizado da influência que outros fatores tinham no suicídio, ou seja, ele pauta seu estudo nos fatos sociais e diz que os fatos sociais são “coisas” que não podem ser avaliadas de maneira separada. Assim, o suicídio tinha relação com outros fatos sociais e, conhecendo o número (análise quantitativa), era possível compreender o que estava acontecendo. A conclusão à qual chegou Durkheim nesta obra “O Suicídio” foi que: a perda de padrões e valores coletivos era uma das molas propulsoras do suicídio; os dados comprovaram que, nas comunidades católicas com crenças coletivas reforçadas), as taxas de suicídio eram bem inferiores”. Mas Durkheim não negava que, individualmente falando, cada suicídio tinha a sua peculiaridade (um se matou por doença, outro por dívidas, etc), sendo que, quando se pega os dados/números totais, as peculiaridades (razões individuais de cada caso) ficam diluídas. Durkheim Weber A sociedade deve ser avaliada do geral para o particular, do coletivo para o indivíduo, do todo para a parte. A sociedade deve ser avaliada do particular para o geral, do indivíduo para o coletivo, da parte para o todo. A sociologia deve se pautar pelo todo (a sociedade e suas instituições). A sociologia deve se pautar pelas motivações das ações individuais. Agora, vamos entender quais foram as conclusões a que chegou Durkheim, a partir da adoção desse método quantitativo, empirista e positivista. 1ª Conclusão: o todo é mais que a soma das partes. De onde vem essa ideia? Charles Darwin, quando divulgou sua obra sobre a evolução das espécies, causou frisson, especialmente na Grã-betanha, e uma reviravolta não apenas na biologia, mas também em vários outros ramos científicos, entre os quais, a sociologia. Ao mesmo tempo, reforçava-se a ideia de que – dentre as várias ciências (matemática, física, química, etc) – a ciência que mais se aproximava da sociedade era a biologia. Então o modelo mais próximo da sociologia – diferentemente do que pensava Augusto Comte – não era a física nem a química, mas sim a biologia. Herbert Spencer já havia afirmado que a sociedade é um organismo com diferentes órgãos, cada parte tendo uma função específica (daí sua proximidade com a biologia). Durkheim complementou esse pensando, afirmando que a sociedade NÃO é uma simples soma de indivíduos. A sociedade é uma realidade específica, com características próprias e diferentes dos indivíduos que a compõem. Para Durkheim, a sociedade é um empreendimento coletivo, um todo orgânico, como um corpo (o coração precisa do pulmão, e ambos precisam do cérebro, de sangue, de pernas para caminhar, mãos para modificar o mundo a nossa volta). Durkheim tem uma visão funcional da sociedade: cada parte – separadamente – tem uma característica e, unidas, formam um modelo complexo, com um propósito social (o propósito da sociedade é diferente do propósito de cada indivíduo que a compõe). Durkheim, inclusive, pergunta a si mesmo se nós, indivíduos, devemos procurar ser um ser completo/autossuficiente ou se devemos apenas procurar ser uma parte desse todo, chamado sociedade – o que seria melhor para nós? Durkheim não tem dúvida de que ser parte de um sistema orgânico é muito mais vantajoso e que, inclusive, nós nunca quisemos ser autossuficientes. Essa ideia fica clara quando pensamos em um mero café da manhã. A farinha e o leito para o pão vêm de produtores diferentes. Aí tem o café, o açúcar, o suco de laranja, algumas frutas, o copo e a xícara, a toalha da mesa, os talheres, o queijo e o presunto, o doce... tudo de produtores diferentes (dos quatro cantos do mundo). E tudo isso só chegou até você por causa do transportador, que abasteceu seu caminhão e transitou por estradas pavimentadas, parou pra almoçar, etc. É uma cadeia interligada infinita. No filme “Uma Mente Brilhante”, temos uma cena que em que o matemático John Nash tem o seguinte insight de sua teoria dos jogos, enquanto está em um bar com amigos: em sociedade, devemos considerar o que é melhor para cada um e para o grupo (por outro lado, Adam Smith dizia que os melhores resultados são obtidos quando as pessoas procuram o que é melhor para si próprio). Pergunta: a sociedade tem fins próprios/coletivos? Sim. Mas quem dita esses fins? O governo, os representantes. E se o governo ditar finalidades diferentes das que os indivíduos querem? Quem limita até onde o Estado pode adentrar na vida do indivíduo e ditar os fins a que ele deve seguir? 2ª Conclusão: fatos naturais x fatos sociais toda sociedade possui uma série de caracteres que a distingue daqueles estudados nas ciências da natureza, fatos que NÃO se confundem com os fenômenos orgânicos. Fatos orgânicos/naturais: respostas naturais do homem perante certos estímulos biológicos. Exemplos: sono, fome, necessidades fisiológicas. Ir ao banheiro é um fato social; precisar ir ao banheiro é um fato natural/orgânico. Fatos sociais: não são estímulos naturais. São maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de um poder coercitivo – normas coletivas que orientame determinam a vida em sociedade, gerando a crença (o sentimento, a consciência coletiva) de que devemos atuar de certa maneira na vida social. CARACTERÍSTICAS dos fatos sociais Exteriores não foram criados pelo indivíduo isolado (autonomamente, para si mesmo), mas sim pelo coletivo. Coercitivos sua obediência é imposta por meio de sanção, seja difusa (moral), seja institucional (jurídica). Coletivos normas e regras foram estabelecidas pelo conjunto e devem ser adotadas por TODOS os membros da sociedade, de forma geral. FENÔMENOS ORGÂNICOS FATOS SOCIAIS Resposta natural (espontânea) a um estímulo (ex: sentir fome) Modos impostos por uma força social heterônoma (ex: vestir roupas). O Direito é um fato social, mas com maior força coercitiva (capaz de impor sanções mais severas). O Direito obriga a agir corretamente. Em caso de transgressão, o agente tem de arcar com as consequências. Justamente por ter tratado do Direito de maneira tão específica, pontual, é que Durkheim é considerado o pai da Sociologia do Direito. Para Durkheim, sempre que temos uma sociedade durável no tempo, ela tende a assumir uma forma definida, a se organizar; e o Direito não é outra coisa senão essa própria organização. O Direito é o símbolo visível do que Durkheim chamava de solidariedade social. Por que? A solidariedade social é um modelo que cria vínculos de direitos e obrigações entre os sujeitos, dando “liga” para a sociedade. O Direito é o símbolo dessa solidariedade social. Durkheim Marx O Direito é indicador privilegiado dos padrões de solidariedade social, pelo qual se maximiza a integração social, compõem-se os conflitos e viabiliza-se o bem comum. O Direito é expressão última do interesse de classe, instrumento da dominação política, econômica e ideológica (impõe a moralidade dominante como universal). 3ª Conclusão: homem x animal o homem deixou de ser um “animal” e se tornou humano, ao passar pelo processo de socialização, isto é, de adequação individual aos hábitos e costumes próprios da sociedade da qual faz parte (criação de uma consciência coletiva). A consciência coletiva é o espírito social, o tipo psíquico da sociedade, sendo compartilha de norte a sul, nas grandes e pequenas cidades, nas mais diversas profissões. Thomas Luckman, junto com seu colega Peter Berger, explica que o indivíduo não nasce membro da sociedade, mas (predisposto à sociabilidade) se torna parte dela mediante processo de socialização, que é implementado em duas etapas: i. Primária: aprendemos as regras sociais; ii. Secundária: apropriamo-nos da cultura, em meio a uma alta carga emocional (interiorizamos aquilo com o que nos identificamos), aproximamo-nos dos grupos que comungam interesses e nos afastamos dos opostos. Durkheim buscava explicar as forças da modernidade, tentando encontrar qual era o critério/padrão que pudesse explicar onde a sociedade tinha mudado. Marx associava as mudanças da sociedade moderna ao modelo econômico capitalista. Para Durkheim, o modelo econômico capitalista é mais uma das decorrências do fator determinante da sociedade moderna. Para Durkheim, o fator determinante da sociedade moderna é a industrialização – mais especificamente um dos fatores da industrialização, qual seja: a divisão do trabalho. Para Durkheim, a divisão do trabalho modificou completamente a solidariedade social. Nas sociedades primitivas, a solidariedade era mecânica, pois todos fazem o mesmo trabalho e cada um é autossuficiente, ou seja, pode fazer tudo o que precisa para a própria sobrevivência. O que mantinha as sociedades primitivas unidas? Além do interesse de que essa união facilitava a defesa, a coleta de frutos, pesca e caça, havia um sentimento de propósito unificador. Todos tinham certeza de que haviam passado por experiências parecidas, tinham crenças e valores comuns. Por isso, havia uma preponderância do coletivo em relação ao individual. Quando veio a divisão das funções (divisão do trabalho), surge a solidariedade orgânica, na medida em que as sociedades se tornam maiores, mais desenvolvidas e complexas – como é o caso da sociedade moderna. As pessoas começam a explorar habilidades especializadas, o que faz ruir a independência, substituída pela interdependência. Os indivíduos não são tão facilmente substituíveis uns pelos outros. Assim, o indivíduo ganha importância e reduz um pouco a importância do coletivo. O todo passa a ser orgânico. Não posso mais punir o indivíduo por qualquer coisa que ele tenha feito, pois ele é importante e cumpre uma função social relevante para o organismo. Essas sociedades têm um caráter mais civil-patrimonialista; ao invés de punir (direito penal), prefere-se restituir as partes ao status quo, através de reparações econômicas. Solidariedade MECÂNICA Solidariedade ORGÂNICA O modelo é organizado pela semelhança das condutas e funções. O modelo pauta-se em diferenças complementares. A consciência coletiva é a base dessas sociedades. A interdependência orgânica é a base dessas sociedades. Marx Durkheim A divisão do trabalho produz alienação, soterra o prazer em trabalhar e transforma o trabalhador em uma mera engrenagem na máquina de produção capitalista. O surgimento de sociedades mais complexas depende da divisão do trabalho, que produz fraternidade, solidariedade, interdependência e valorização do papel que cada um exerce para a formação do todo orgânico. Um dos maiores problemas da sociedade moderna, onde vige a solidariedade orgânica, é a anomia, que significa a perda de padrões e valores coletivos, gerando o enfraquecimento da sociedade. A solidariedade orgânica só funciona se forem mantidas as crenças e valores compartilhados, que contribuem na coesão social por meio de um senso de propósito comum. 4ª Conclusão: a função social do crime Para Durkheim, o crime é um fenômeno normal das sociedades humanas, e não uma anomalia. Uma sociedade sem criminalidade é uma utopia inatingível. Aliás, as sociedades precisam do crime, em virtude das funções positivas da criminalidade, dentre elas: i. Reafirmação de fronteiras: quando ocorre o crime, o Direito age para reafirmar quais são os valores da sociedade (é a prevenção geral da pena, lembram?); ii. Coesão social: quando ocorre um crime muito grave, a sociedade se “une”/se revolta junto; iii. Sinal de alerta: a criminalidade é um sinal de alerta para algo que não está funcionando na sociedade; iv. Progresso Social: pessoas que desafiam normas e valores (em condutas, por vezes, definidas como criminosas) ajudam a desenvolver melhores modos de vida. O que hoje é um comportamento desviante amanhã pode ser uma inovação benéfica. Se os valores compartilhados pela sociedade NÃO forem fortes o suficiente (anomia), não haverá senso de pertencimento e a criminalidade aumentará exponencialmente. Se os valores compartilhados forem demasiadamente FORTES, não haverá crime, mas também não haverá inovação e mudança social, o que é fundamental para uma sociedade saudável. Crítica a esse pensamento utilitarista de Durkheim: uma pequena parte da sociedade irá sofrer/“pagar” para que a sociedade como um todo funcione de forma saudável. Tipo: os familiares das vítimas, as vítimas e amigos das vítimas sofrerão (pela vítima), para que a sociedade possa continuar evoluindo. Mas qual é o limite desse sacrifício? Que custo estamos dispostos a pagar por esse sacrifício? QUESTÕES Q1. Ano: 2015 – Banca: CESPE – Órgão: DPU Quanto à sociologia jurídica, julgue o item subsequente. O positivismo jurídico representa o conjunto das teorias da Escola da Exegese. De acordo com essa escola, o direito só pode ser considerado como fruto do trabalho do legislador (direito estatal) e as leis devem ser interpretadas racional e logicamente. Q2. Ano: 2017 – Banca: CESPE – Órgão: DPU Em uma ação de reintegração de posse, foi determinada a remoção de centenas de famílias, que havia anos tinham fixado moradia no local e compartilhavam a prestação de serviços mútuos. Antes da ocupação, o espaçoera um terreno abandonado de propriedade da massa falida de uma empresa em débito com a Fazenda Pública, única credora habilitada. A comunidade, além da mobilização junto aos governos municipal e estadual com objetivo de regularizar a ocupação, havia, por meio de sua associação, procurado o órgão da DPU, que, na oportunidade, ajuizou ação de desapropriação indireta, que ainda não havia sido julgada. Quando do cumprimento da decisão de reintegração de posse, diante da resistência de alguns integrantes da ocupação, registrou-se o uso desproporcional de violência pela força policial, tendo a ação resultado em prisões, pessoas feridas e perda de objetos pessoais dos moradores. A respeito dessa situação hipotética e de ideias relacionadas à sociologia do direito, julgue o item a seguir. A decisão judicial tomada, de reintegração de posse, exemplifica a ideia historicista da sociologia do direito, segundo a qual a superestrutura jurídica obedece às forças materiais da estrutura econômica. Q3. Ano: 2013 – Banca: CESPE – Órgão: ANTT Acerca do estudo das instituições políticas e de seus fundamentos, julgue o item a seguir. A contestação da legitimidade do Estado se dá por meio da oposição à própria concepção originária do Estado, em relação à estrutura e aos seus fins, utilizando-se, como princípio dessa contradição, a modificação parcial dos fundamentos do Estado, o que culmina na existência de uma política de cunho reformista. GABARITO Q1. CERTO Q2. ERRADO Q3. ERRADO Comentários à Q1: O item foi considerado CORRETO. Contudo, é sacanagem! O enunciado expõe: “Quanto à sociologia jurídica”. Depois, trata do positivismo jurídico, o qual foi bem descrito. Só que nós sabemos que o positivismo sociológico é diferente... Inicia com Augusto Comte e busca a cientificidade da sociologia mediante a utilização de métodos da química e física (ciências naturais). Positivismos jurídico e sociológico são parecidos, mas não iguais... complicado. DEVE-SE FICAR SEMPRE ATENTO. Comentários à Q2: Estrutura econômica?? Temos a infraestrutura econômica. Na superestrutura, estão as instituições sociais (como o Direito). Para mim, o tão só fato de não constar INFRAestrturua, mas estrutura não seria suficiente para tornar errada a questão. Mas, nesta prova, a questão foi considerada ERRADA. Comentários à Q3: Adivinha qual o erro da assertiva? Cunho “revolucionário”, e não “reformista” (como está na questão). É isso. Não acredita? Pois pode acreditar... eu que é soda... mas prova é prova. AULA 02 CONTROLE SOCIAL Há sempre um grupo determinado de fenômenos (direito, moral, religião, educação...), exteriores ao indivíduo e dotados de poder coercitivo, que impõem uma maneira de pensar e agir. Se o homem molda a sociedade, a sociedade também molda o homem. O controle social é um modelo que permite a conformação dos comportamentos. O homem se torna homem quando ele passa por um processo civilizatório. Ex: uma criança tem diversos comportamentos que não são considerados “corretos” do ponto de vista social. A educação dessa criança, em casa e/ou na creche, é a conformação dos seus comportamentos, para que a criança possa viver em sociedade. O controle social é um processo civilizatório de informação para que as pessoas ajam de acordo com certos parâmetros e possam em viver em sociedade. O controle social nem sempre é algo negativo, pois é fundamental que a sociedade tenha certos controles sociais a fim de viver harmonicamente. Após um certo ponto/limite, o controle social passa a ter uma função de “poder” - tratados por Focault e Marx Weber. A questão, portanto, é saber os limites desse controle. Modalidades de Controle Social Quanto ao MEIO COATIVO PERSUASIVO Opera por meio de sanções negativas, como a multa e a prisão, prevenindo e reprimindo atos indesejados. Opera por sanções premiais, incentivos, isenções, subsídios, prêmios, estimulando condutas convenientes, úteis, desejadas pela sociedade. Quanto ao MODELO FORMAL INFORMAL Realizado, especialmente, pelas autoridades do Estado (institucionalização), sendo artificialmente determinado pelas normas jurídicas, pela atuação estatal regulatória e policialesca. É difuso, móvel e espontâneo, realizando-se pela dinâmica ocorrida no âmbito de pequenos grupos sociais (ex: família, amigos, escola, religião). Normalmente, é natural e espontâneo, construído pelos costumes, pela moral, pelas tradições, pela opinião pública. Quanto ao REFORÇO POSITIVO NEGATIVO Premia e incentiva o “bom comportamento” ou persuade os indivíduos por orientações e conselhos (sanções positivas). Reprovação de determinados comportamentos com a aplicação de sanções de intensidade variável. Quanto à POSIÇÃO INTERNO EXTERNO O indivíduo é, ao mesmo tempo, objeto do controle e seu fiscalizador (autodisciplina). Ciente da norma e da eventualidade de sanção, ele opta, em geral, por conformar-se aos mandamentos sociais (aprendizado das regras e submissão a seus limites). Atuação dos outros sobre o indivíduo, objetivando restaurar a ordem. Ocorre, sobretudo, quando falha o controle interno e o indivíduo transgride as normas. É, na maior parte dos casos, repressivo: manifesta-se por meio da aplicação de sanções (pode ser também preventivo, tendo a finalidade de confirmar o valor das normas sociais e de descobrir eventuais violações). Para Thomas Bottomore, existem alguns MODOS de controle social, quais sejam: a) DIRETO: implementado pela lei, costumes, religião, moral, educação e opinião pública; b) INDIRETO: realizado por intermédio de veículos ou meios (agências), como a família, a igreja, escola, empresa e outras organizações sociais; c) IMPERATIVO: atua por normas jurídicas ou valores; d) COERCITIVO: atua por meio da força física. A lei não é o principal mecanismo de controle social? Para os pensadores positivistas, o controle social se faz pela lei. Nas palavras de Roscoe Pound, a “aplicação sistemática da força da sociedade, politicamente organizada, é o Direito”. Em regra, a força física é vedada (pelo Direito), mas a própria lei permite, em situações pontuais, o uso da força física. Hans Kelsen diz que a sociedade perfeitamente pacífica, onde não se utilize a força física, não existe. Na verdade, existe apenas em sociedades utópicas (como no anarquismo utópico). As sociedades reguladas pelo Direito, em geral, há sempre o uso mínimo da força, uma paz relativa. Obs: Existem outras “normas”, que não necessariamente “do Direito”, que também agem no controle social, como é o caso das normas ética, das normas de etiqueta, éticas morais (ser honesta com amigos), etc. O controle social em sentido amplo engloba tanto o direito - que interfere nos comportamentos, ao estabelecer leis (normas comportamentais) e aplicar sanções (punitivas ou premiais) -, como recursos adicionais materiais e simbólicos (socialização) e a eleição de valores dominantes. SOCIEDADE RACIONAL: MAX WEBER (1864-1920) Um dos autores que melhor tratou deste assunto (controle social) foi Max Weber (1864-1920). Weber dizia que não se pode explicar as ações sociais por uma relação de causa e efeito (não se trata de algo explicado como nos fenômenos da natureza, como ocorre nas ciências matemáticas e físicas, por ex), devendo-se, aliás, apelar ao sentido/justificação de cada ação para apontar outras ações e tomar a amplitude do todo. Parte-se do “individual” para chegar ao “todo” e é preciso entender a justificação de cada uma das atitudes individuais. Na época de Weber, os sociólogos tentavam atuar objetivamente para serem científicos, o que se queria era avaliar quantitativamente por meio de dados as relações sociais (método próximo das ciências naturais). Daí Weber vem e diz que, na sociologia, estamos lidando com o mundo do dever ser e com relações que fogem à regra da causalidade. Então, não é possível estudar as relações sociais através de um método objetivo. O método tem que ser, sim, quantitativo, mas também qualitativo/explicativo– que busque compreender o relacionamento causal entre os fenômenos através da noção de probabilidade, mas não de “certeza”/determinismo. O método qualitativo é explicativo, explica as ações sociais, analisam as causas e chega a alguns resultados prováveis. A lei social não é uma lei natural. Weber, então, gerou uma total inversão de paradigmas, o que, na época, fez com que ele tivesse uma imagem “não científica”. Um dos valores pregados por Weber é o individualismo: a sociedade só pode ser entendida pela compreensão de suas partes constitutivas - o indivíduo. O estudo da sociologia tem por objeto o comportamento dos indivíduos em relação às normas da sociedade. Weber não acreditava na “entidade coletiva” agindo por conta própria. Não é a sociedade que age, mas sim os indivíduos. Max Weber Durkheim As ações sociais devem ser explicadas pela identificação dos motivos nela envolvidos, pela razão que levam à sua prática. Os fatos sociais devem ser estudados em relação a outros, independentemente dos motivos individuais (diluídos no todo). A sociedade deve ser estudada do indivíduo para o coletivo (da parte para o todo). A sociedade deve ser estudada do coletivo para o indivíduo, do todo para a parte. Max Weber era bem desligado com a opinião da academia (dos demais autores, sociólogos, cientistas) sobre como ele deveria construir seus raciocínios. Em um primeiro momento, Weber foi taxado de não científico. Sendo que, quando suas ideias sobre “racionalidade”, “burocracia”, “procedimentos”, etc chegaram aos EUA, elas fizeram um enorme sucesso e tiveram um grande impacto na sociologia nos EUA. Mais tarde, Escolas como a de Frankfurt vão utilizar os modelos weberianos para compreensão da sociedade. Hoje, sem dúvidas, Weber é considerado um dos mais importantes sociólogos da história e cai bastante em provas de concurso. Método POSITIVISTA prega a neutralidade axiológica e o distanciamento do sujeito (cientista) do objeto de estudo (sociedade). Não pode haver influência das experiências do observador (valoração). Pauta-se na experimentação empírica, buscando implementar os axiomas das ciências naturais às ciências sociais (Augusto Comte e Émile Durkheim). Método DIALÉTICO privilegia a contradição (tese x antítese = síntese), estudando a sociedade pela ótica do conflito (George Hegel e Karl Marc). Método COMPREENSIVO (ou CULTURALISTA) o sociólogo deve se aproximar da sociedade para captar o real sentido do agir social, especialmente mediante a compreensão (valoração) dos motivos que levam à ação dos indivíduos (Max Weber). Cada sociedade possui uma formação histórica particular que a identifica e que deve ser considerada em sua avaliação. É por isso que o método weberiano, além de compreensivo, é chamado de culturalista. Toda a sistemática teórica de Weber pauta-se no sistema de reciprocidade, que é o sistema das ações sociais. As ações sociais não se impõem ao indivíduo. A ordem social é formada por ações que encontram reciprocidade no outro (ação e reação). Nós agimos no meio social orientando as nossas ações pelas ações dos outros, e não somente tomando como base aquilo que os outros fizeram, mas também na expectativa do que virão a fazer também. Há uma ação social que é pensada e refletida com base na reciprocidade do outro. A partir do momento em que essa reciprocidade cria um entendimento social de que aquilo é um modelo de agir, passamos a agir irrefletidamente por hábito. A partir de um certo ponto, aquele hábito se torna um costume. E, normalmente, os costumes, depois de um certo tempo, se eles são realmente fundamentais para a vida em sociedade, tornam-se normas jurídicas. Quando a ação de um indivíduo é contrária aos valores sociais e fora da reciprocidade (não encontra eco na ação do outro), há um NÃO relacionamento e, consequentemente, ocorre uma ação NÃO social. Os indivíduos acabam ficando “obrigados” a atuar conforme as leis e as expectativas sociais. O social mantém um controle sobre os indivíduos. A noção weberiana de poder é uma das mais importantes no aspecto jurídico. Para Weber, “poder” é a probabilidade de se impor a vontade em uma relação social, mesmo contra resistências. Esse elemento social se relaciona de modo indissociável com a dominação, que é a probabilidade de se encontrar obediência à ordem emanada pelo poder (sem obediência não há poder). E, para que haja dominação, a legitimidade é fundamental, pois oferece justificativa para que haja obediência espontânea, fazendo com que a força seja exceção. Uma vez estabelecidos os mecanismos de controle formal, é preciso decidir quem os dirigirá, sempre buscando fazer com que o poder (a capacidade de influir nos comportamentos da forma desejada) possa exercer efetiva dominação (aceitação da ordem emanada pelo poder), o que demanda legitimidade (admissão da dominação por se acreditar ser ela correta, justificável). Para Weber, existem alguns tipos de dominação, quais sejam: i. Dominação TRADICIONAL: certos costumes são institucionalizados como práticas e reproduzem um padrão estável de dominação ao longo do tempo (exs: patriarca e líder religioso). Essa dominação funciona, especialmente, em sociedades primitivas. É um modelo de dominação muito forte, o mais estável de todos, pois a obediência deriva do respeito à tradição. Este modelo, também, engessa a sociedade. ii. Dominação CARISMÁTICA: o líder, por meio de suas qualidades carismáticas, reivindica a legitimidade, recebendo devoção pessoal de seus seguidores (exs: heróis e demagogos). A dominação carismática é muito forte, porém instável. iii. Dominação RACIONAL/LEGAL-BUROCRÁTICA: tem com base regras impessoais e princípios universais que são inferidos por meio de um raciocínio jurídico adequado. A dominação acontece com base nos direitos e com limites definidos. Ex: primeiro-ministro no parlamentarismo. É um modelo de dominação estável, pois, as alterações das normas são mais difíceis (para retirar alguém da dominação legal-burocrática, é bem difícil). Obs: o sistema presidencialista é sim de dominação racional, mas também muito carismática (a escolha do presidente é mais irracional do que a do primeiro-ministro, que é mais técnica). Não existe um “modelo puro”, na realidade. Além do mais, o modelo de dominação varia de acordo com o espaço e tempo. Ex: em casa, os pais exercem uma dominação tradicional. Mas a relação de pais e filhos é, também, regulada por lei (ex: o ECA). Para Weber, as estruturas coletivas, ao contrário de facilitar e expandir a liberdade humana, podem atuar como obstáculos, em que cada indivíduo passa a compor uma engrenagem em uma grande máquina que se movimenta e faz com que todos girem no sentido indicado. Sim, as pessoas agem individualmente; mas, a depender da situação, elas podem ser levadas a agir de certo modo, em razão, do controle social informal (onde reside, por ex, a questão da reciprocidade). E daí os controles sociais passam a se tornar tão severos (seja ele formal ou informal), que as pessoas viram pequenas engrenagens de uma grande máquina e praticamente age sozinha. Como se dá o funcionamento das engrenagens sociais, para Weber: As visões individuais se unem em coletividade, formando os controles sociais formais e informais O INDIVÍDUO é uma simples ENGRENAGEM em um MECANISMO COLETIVO Os indivíduos agem individual e coletivamente Como indivíduo, cada um tem sua visão de mundo As estruturas sociais criadas pelo coletivo limitam os indivíduos Weber é um pensador de esquerda (concorda com a alienação da sociedade de massa pelo capitalismo). A questão é: como essa alienação ocorre? Para Weber, essa história de que a economia é o principal fator justificador das atitudes dos indivíduos é pura balela. Para Weber, o principal fator da modernidade não é o sistema capitalista, mas sim a racionalidade (quando o homem precisa passar a tomar decisões racionais de custo-benefício). Quanto mais racionalista preciso ser, mais me afasto do pensamento religioso. Em