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Curso Didática do Pensamento Crítico _____________________________________ 44 © 2010 Laênio Loche www.livrepensamento.com.br DESCREVER INTRODUÇÃO Os praticantes de birdwatching, atividade na qual se observa e aprecia as aves vivas, em seus habitats naturais, ao invés de caçá-las, constatam que as penas fazem parte das propriedades essenciais das aves, pois todas têm o corpo coberto de penas, salvo alguma eventualidade. Conclui- se que para um animal ser considerado uma ave é necessário, dentre outros critérios, possuir penas. Por outro lado, as cores das penas são modificáveis, pois na natureza encontram-se aves com penas azuis, vermelhas, verdes, cinzas, brancas e demais cores. Mesmo variando a cor das penas, uma ave não deixa de ser ave. Da mesma forma que as aves, toda coisa a ser estudada é detentora de um conjunto de atributos ou elementos constituintes. Tais atributos podem ser divididos em 2 grandes grupos. O primeiro refere-se às características que não se modificam, se apresentam sempre da mesma forma. Devido à constância da manifestação são distintivas, isto é, permitem distinguir o objeto de outros. A esse agrupamento dá-se o nome de essência. As penas das aves pertencem a esse grupo. O segundo grupo refere-se às características variáveis – aquelas que, em contextos diversos, podem manifestar-se de diferentes maneiras. Esse agrupamento é chamado de acidentais. A cor das penas faz parte dos atributos acidentais das aves. Para apreender algo em maior profundidade é fundamental conhecer as propriedades tanto essenciais quanto acidentais. Como fazer isso? Através da operação mental de descrever. Definição. Descrever é a habilidade cognitiva de apresentar as características ou atributos de um objeto, ideia ou fato. BENEFÍCIOS 1. Maior compreensão. O desenvolvimento da capacidade de descrever, seja qual for a área ou o tema de interesse, aumenta a compreensão do estudante sobre objeto estudado, pois ao se conhecer cada atributo de algo, tem-se maior conhecimento do conjunto. 2. Representação. A descrição permite a representação, correspondente à realidade, de algo, no seu todo ou detalhadamente. 3. Narrativa. A descrição permite a narração de acontecimentos reais ou imaginários, isto é, a exposição de série de acontecimentos mais ou menos encadeados. EXEMPLOS A título de ilustração da descrição, eis alguns exemplos da descrição de objetos: 01. Ambiente. A descrição do ambiente onde se encontra o organismo com objetivo de avaliar a influência sobre os eventuais comportamentos. 02. Diagrama. Na observação científica, a técnica do diagrama, caracterizada pela repre- sentação por imagem do ambiente no qual o objeto observado está inserido. 03. Fluxograma. O relato da sequência de ações referente a um trabalho ou evento com objetivo final comum. 04. Literatura. O estilo narrativo do romancista francês do século XIX Honoré de Balzac, caracterizado pela descrição minuciosa de personagens e ambientes. 05. Manual. A descrição passo a passo de um processo de montagem de equipamento. 06. Mapa. A representação simplificada da superfície terrestre ou de certa região geo- gráfica. 07. Pintura. A reprodução realística na tela de determinada paisagem, objeto ou pessoa através das pinceladas. 08. Produto. A descrição detalhada do produto em site de comércio eletrônico. Curso Didática do Pensamento Crítico _____________________________________ 45 © 2010 Laênio Loche www.livrepensamento.com.br 09. Registro. Na observação científica, o registro contínuo cursivo, compreendido como a técnica na qual, dentro de um intervalo temporal ininterrupto, registram-se os acontecimentos de acordo com a sequência temporal de ocorrência. 10. Retrato falado. A descrição, através da memória evocativa, feita pela vítima ou teste- munha sobre o algoz ou infrator. TIPOS (CLASSIFICAÇÃO) Conforme o objeto de descrição, a habilidade cognitiva de descrever recebe diferentes classificações, como por exemplo: 1. Descrição de objeto. 2. Descrição de paisagem. 3. Descrição de pessoa. Conforme a presença ou não da impressão causada pelo objeto no observador, a habili- dade cognitiva de descrever pode ser: 4. Descrição objetiva. 5. Descrição subjetiva. APROFUNDAMENTO Conforme a natureza do objeto a descrição poderá ser de dois tipos: estática ou dinâmica. Estática. A descrição estática refere-se à apresentação ou registro de características de coisas, seres ou ideias, na forma como se manifestam em determinado momento, por meio de pa- lavras ou imagens. Analogamente corresponde à fotografia do objeto. De acordo com o tipo de objeto, determinadas características serão destacadas como, por exemplo: Objeto propriamente dito: forma, cor, dimensões, peso, tamanho, volume, textura, ma- terial, utilidade. Paisagem: rural ou urbana, habitações, solo, vegetação, clima, localização geográfica, sensação térmica (calor, frio), animais, pessoas, luminosidade. Pessoa: características físicas (gênero, idade, altura, peso, formato do corpo, tipo e cor de pele, tipo e cor de cabelo, expressão corporal, modo de andar, vestimentas, modo de falar, sotaque, gestos, expressões faciais, olhar, tom de voz), características psicológicas (a partir da inferência através de padrões de comportamento os traços de personalidade, estado emocional, motivações, atributos mentais). Diferença. Em primeiro momento o ato de descrever pode parecer idêntico à análise, mas não é. As duas operações são bem aproximadas, na verdade a análise é uma das etapas da des- crição, contudo são distintas. A análise refere-se às partes do objeto. A descrição aos atributos tanto das partes quanto do todo. Por exemplo, um dos atributos de uma pessoa pode ser alta. Este atributo não é identificado pela análise das partes somente, mas através da comparação com outras pessoas. Tal pessoa só é alta devido a sua estatura ser maior do que a média das outras pessoas. Assim, a descrição aponta atributos além dos da análise, indica propriedades decorrentes de re- lações do objeto com outras coisas. Outro exemplo é a estética. O atributo beleza depende de um padrão de referência estético. Dinâmica. A descrição dinâmica refere-se à apresentação ou registro de fatos, aconte- cimentos ou eventos mais ou menos encadeados, em determinado intervalo de tempo, de acordo com certa sequência. Analogamente a descrição dinâmica tem paralelo com um filme do objeto. Evento. Os eventos são as mudanças, alterações ou transformações ocorridas no ambiente externo ou interno ao objeto. Podem ser, dentre outros, de natureza: Física. Transformações físicas ocorridas no ambiente como, por exemplo, a ventania repentina no estabelecimento. Curso Didática do Pensamento Crítico _____________________________________ 46 © 2010 Laênio Loche www.livrepensamento.com.br Orgânica. Alterações físicas ocorridas no ambiente interno do objeto como a contração muscular involuntária Social. Mudanças de comportamento de pessoas ou animais em torno do organismo observado. Comportamental. Qualquer ação ou comportamento emitido pelo sujeito observado, como o vôo repentino do pássaro observado. PROCEDIMENTOS Para executar o ato mental de descrever é proposta a seguinte técnica: 1. Analise o objeto ou acontecimento. 1.1. No caso da descrição estática, o primeiro passo é separar o objeto em seus elementos básicos ou partes componentes (V. Analisar). 1.2. No caso da descrição dinâmica, identifique as variações ou mudanças ocorridas dentro do intervalo de tempo. 2. Selecione os aspectos a serem descritos. Um objeto ou acontecimento podem apresentar muitas características ou informações, contudonem todas são relevantes de acordo com os objetivos de quem o estuda. É necessário selecionar quais atributos ou informações serão descritos. Para tanto, o principal critério seletivo é o objetivo do estudo empreendido. 2.1. Determine o critério de seleção das informações. 2.2. Selecione as informações conforme o critério. 3. Escreva ou fale os aspectos selecionados. A última etapa refere-se à comunicação propriamente dita dos atributos ou das ocorrên- cias. A partir de registros e relatos bem elaborados, em relação ao conhecimento outras pessoas podem aplicá-lo, refutá-lo e até mesmo ampliá-lo. Para tanto, o mais adequado é comunicação por meio da linguagem científica com características específicas, como apontam Danna e Matos (1999): 1. Objetividade. A descrição se atém aos fatos. Quando faz menção às impressões pes- soais ou interpretações sobre os fatos, deixa explícita a diferença com fatos. 2. Clareza e precisão. Segue critérios da estrutura gramatical do idioma, usa termos cujo significado não é ambíguo e apresenta referenciais concretos (peso, cor, distância, dentre outros) para apontar as características do objeto. Para as autoras deve-se evitar: Termos amplos. Palavras cujo significado abarca um conjunto extenso de objetos. Por exemplo, na observação científica das ações de uma criança, o pesquisador ao registrar o com- portamento como brincar com a bola, pode significar jogar a bola, fazer embaixadinha, chutar a bola, quicar a bola no chão, dentre outras coisas. Termos indefinidos ou vagos. Conceitos cujos atributos não são identificáveis ou par- cialmente identificáveis. Falta de referenciais de identificação. No registro da observação científica se referir ao tempo entre uma ação e outra do sujeito estudado, com a expressão algum tempo de- pois. O correto é apontar algum referencial, como em torno de 10 minutos. Ambiguidades. Pode ser uma coisa ou outra. Ocorre a polissemia: um mesmo termo com vários significados. Por exemplo, numa das acepções a palavra vontade é sinônimo de desejo, contudo as duas não são a mesma coisa. Considera-se a seguinte afirmação: Fulano, ex-tabagista, está com vontade de fumar. A vontade é a faculdade psíquica de realizar ou não certa ação, a partir da decisão pessoal, consi- derando motivos racionais e emocionais. O desejo é aspiração por obter algo que exige satisfação. Um ex-tabagista pode sentir o desejo de fumar, mas através da vontade evita tragar qual- quer cigarro. A afirmação correta seria: Fulano, ex-tabagista está com desejo de fumar. Se não for adequadamente explicitado o leitor pode ficar em dúvida sobre qual acepção o autor se baseou. Curso Didática do Pensamento Crítico _____________________________________ 47 © 2010 Laênio Loche www.livrepensamento.com.br Sequência Operatória. Em resumo, a sequência operatória de descrever é: DESCREVER DEMONSTRAÇÃO A título de ilustração da técnica, será feita resumidamente a descrição da pessoa represen- tada na figura 1. 1. Analise o objeto ou acontecimento. O objeto é uma pessoa. A análise considerou partes externas do corpo, como por exemplo, o tipo de pele, forma do cabelo, formato de braços, pernas, rostos, dentre outros. 2. Selecione os aspectos a serem descritos. Como critério optou-se apenas pela descrição física, deixando de lado aspectos psicoló- gicos. 3. Escreva ou fale os aspectos selecionados. A descrição ficou da seguinte forma: 01. gênero: feminino. 02. altura: alta. 03. peso: magra. 04. cor da pele: morena. 05. idade: jovem adulto. 06. cabelos: negros, longos, desgrenhados. 07. rosto: largo, com pele lisa. 08. orelhas: pequenas. 09. olhos: castanhos, grandes, levemente puxados. 10. sobrancelhas: finas. 11. nariz: aquilino. 12. boca: pequena, lábios carnudos e dentes brancos. 13. queixo: achatado. 14. voz: rouca. 15. pescoço: comprido. 16. ombros: largos. 17. seios: médios. 18. cintura: fina. 19. braços: finos 20. mãos: finas. 21. dedos: curtos 22. unhas: pintadas de vermelho. 23. pernas: longas. 24. pés: pequenos. Analise o objeto ou acontecimento. Selecione os aspectos a serem descritos. Escreva ou fale os aspectos selecionados. Curso Didática do Pensamento Crítico _____________________________________ 48 © 2010 Laênio Loche www.livrepensamento.com.br BIBLIOGRAFIA 01. Danna, Marilda Fernandes.; & Matos, Maria Amélia; Ensinando Observação: uma Introdução; 144 p.; 4ª ed.; EDICON; São Paulo: 1999. 02. Raths, Louis E.; et al; Ensinar a Pensar: Teoria e Aplicação; trad. Dante Moreira Leite; Heder; & Editora Universidade de São Paulo; São Paulo: 1972.