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O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 1 O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Simone Helen Drumond Ischkanian Gladys Nogueira Cabral Giane Demo Natali Maria Serafim Thamirys Patricia Ramos da Costa Damião de Souza Santos A sobrecarga de trabalho no ensino médio refere-se ao aumento de responsabilidades e à extensão da carga horária dos professores, com reflexos tanto na qualidade do ensino quanto no bem-estar dos educadores. Este artigo examina os principais desafios enfrentados pelos professores do ensino médio, incluindo a sobrecarga de atividades administrativas e a pressão para melhorar o desempenho dos alunos em exames de avaliação nacional. O estudo também investiga as consequências dessa intensificação no equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos docentes, propondo políticas públicas e estratégias institucionais que visem valorizar o papel do professor e oferecer suporte adequado para melhorar suas condições de trabalho. Palavras-chave: Sobrecarga docente; exames nacionais; desempenho estudantil; equilíbrio vida- profissional; políticas públicas; suporte ao professor; condições de trabalho docentes. The workload overload in high school refers to the increase in responsibilities and the extension of teachers' working hours, with repercussions on both the quality of education and the well-being of educators. This article examines the main challenges faced by high school teachers, including the overload of administrative tasks and the pressure to improve student performance in national assessment exams. The study also investigates the consequences of this intensification on the balance between teachers' professional and personal lives, proposing public policies and institutional strategies aimed at valuing the role of the teacher and providing adequate support to improve their working conditions. Keywords: Teacher overload; national exams; student performance; work-life balance; public policies; teacher support; working conditions. La sobrecarga de trabajo en la educación secundaria se refiere al aumento de responsabilidades y a la extensión de la jornada laboral de los docentes, con repercusiones tanto en la calidad de la enseñanza como en el bienestar de los educadores. Este artículo examina los principales desafíos enfrentados por los profesores de educación secundaria, incluyendo la sobrecarga de tareas administrativas y la presión para mejorar el desempeño de los estudiantes en los exámenes de evaluación nacional. El estudio también investiga las consecuencias de esta intensificación en el equilibrio entre la vida profesional y personal de los docentes, proponiendo políticas públicas y estrategias institucionales que busquen valorar el rol del docente y proporcionar el apoyo adecuado para mejorar sus condiciones laborales. Palabras clave: sobrecarga docente; exámenes nacionales; desempeño estudiantil; equilibrio vida- profesional; políticas públicas; apoyo al docente; condiciones laborales docentes. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 2 1. INTRODUÇÃO A sobrecarga de trabalho docente tem se configurado como um dos principais desafios enfrentados pelos professores no ensino médio no Brasil, com reflexos significativos na qualidade de ensino e no bem-estar dos educadores. A intensificação das tarefas, somada à pressão por resultados em avaliações nacionais e à escassez de recursos e apoio institucional, compromete a atuação dos docentes e compromete sua saúde mental e física (ALVES; PINTO, 2011; ARAÚJO; PINHO; MASSON, 2019). Segundo Barbosa (2018), essa sobrecarga, frequentemente associada à precarização das condições de trabalho, tem gerado consequências negativas tanto para o educador quanto para a própria educação, revelando a necessidade urgente de políticas públicas que ofereçam suporte efetivo aos professores. O contexto atual das escolas brasileiras, de acordo com a análise de Hargreaves (1995), evidencia que a sobrecarga não se limita à carga horária de ensino, mas também inclui atividades administrativas excessivas, falta de materiais adequados e a necessidade de levar trabalho para casa, o que compromete o descanso e a vida familiar dos profissionais. A intensificação do trabalho, como aponta Garcia e Anadon (2009), tem levado muitos docentes a uma verdadeira "autointensificação", onde as jornadas se tornam cada vez mais extenuantes, sem a devida compensação salarial ou apoio institucional. Nesse sentido, políticas públicas que promovam a valorização salarial e a melhoria das condições de trabalho se tornam essenciais. A formação continuada e o acesso a tecnologias educacionais são aspectos fundamentais para o desenvolvimento profissional dos docentes, como ressaltam Tardif e Lessard (2008). O Ministério da Educação (2022) tem promovido algumas iniciativas para a implementação do novo ensino médio, mas a efetiva transformação das condições de trabalho docente no Brasil depende da implementação de políticas públicas mais robustas, que garantam o suporte necessário para os professores. A reflexão sobre a precarização do trabalho docente, abordada por Kuenzer (2021) e Piovezan e Dal Ri (2019), é crucial para entender a fundo a dinâmica que afeta a qualidade de ensino e as condições de vida desses profissionais. A sobrecarga de trabalho no ensino médio brasileiro, um fenômeno crescente que afeta tanto a qualidade do ensino quanto o bem-estar dos educadores. A intensificação das responsabilidades docentes, somada a uma carga horária excessiva e à pressão por resultados em avaliações nacionais, tem gerado um cenário de grande desgaste para os professores, afetando diretamente sua saúde mental e física. A literatura sobre o tema aponta que a acumulação de tarefas administrativas, a falta de materiais e recursos adequados e a constante exigência de que os docentes levem trabalho para casa, muitas vezes em jornadas que se estendem de segunda a O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 3 segunda, são fatores que agravam esse quadro (ALVES; PINTO, 2011; ARAÚJO; PINHO; MASSON, 2019). O contexto destaca a necessidade urgente de políticas públicas que não apenas reconheçam as dificuldades enfrentadas pelos educadores, mas que também proponham soluções efetivas para melhorar suas condições de trabalho. A valorização salarial real do professor é um dos pilares fundamentais para garantir a qualidade do ensino e o bem-estar dos educadores. Não basta uma melhoria pontual ou simbólica, mas sim uma revisão profunda da estrutura remuneratória dos docentes, que seja compatível com a importância da função educacional e com as responsabilidades que o cargo exige. A disparidade salarial entre professores de diferentes regiões e redes de ensino é um reflexo da negligência histórica com a categoria, e essa desigualdade precisa ser resolvida por meio de um reajuste real e significativo. O uso adequado dos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) é crucial para proporcionar melhores condições de trabalho e infraestrutura nas escolas. O FUNDEB é um instrumento essencial de financiamento da educação básica, mas sua aplicação muitas vezes carece de uma gestão mais eficiente, transparente e focada nas reais necessidades dos profissionais da educação. A destinação desses recursos deve ser priorizada para a melhoria das condições de ensino e aprendizado, garantindo que os professores tenham acesso a materiais didáticos adequados, infraestrutura escolar de qualidade e, principalmente, condições para o seu desenvolvimento profissional contínuo. O FUNDEBde trabalho excessiva que os professores enfrentam, associada à falta de valorização de suas funções. A sobrecarga de atividades administrativas, a pressão constante por resultados nos exames nacionais, como o ENEM, e a implementação de novas metodologias sem o suporte necessário para sua efetiva aplicação, são apenas algumas das questões que geram descontentamento entre os O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 25 educadores. Essa rotina desgastante acaba por comprometer a qualidade do ensino, pois o docente, sobrecarregado, não consegue se dedicar adequadamente ao desenvolvimento de práticas pedagógicas que atendam às necessidades de seus alunos. É importante ressaltar que os documentos e diretrizes da reforma do Ensino Médio preveem uma formação integral do sujeito, onde os aspectos curriculares e pedagógicos são abordados de forma holística. No entanto, muitos desses documentos, ao enfatizarem a importância da formação integral, falham em considerar que a implementação desses preceitos depende diretamente das condições de trabalho dos professores. A formação do sujeito de acordo com os ideais propostos pela reforma não pode ser dissociada das condições em que os educadores se encontram, pois são essas condições que determinam, em grande parte, o sucesso ou fracasso das políticas educacionais, ou seja, a viabilidade da reforma está intimamente relacionada à valorização do profissional docente e ao fornecimento de recursos adequados para o seu trabalho. Dentro do grupo de WhatsApp, os professores discutem, por exemplo, como a implementação do Novo Ensino Médio tem sido marcada pela falta de clareza em relação às mudanças curriculares, bem como pela ausência de uma formação continuada efetiva para os docentes. Em muitos casos, os educadores são chamados a se adaptar a novas exigências sem o devido preparo ou suporte, o que gera um ambiente de insegurança e frustração. A pressão para que os alunos obtenham bons resultados em exames como o ENEM contribui para a intensificação da carga de trabalho dos professores, que se veem obrigados a dedicar mais tempo ao preparo de seus alunos para os testes, em detrimento de práticas pedagógicas que favoreçam um aprendizado mais profundo e significativo. Ao participar desse grupo de profissionais, Natali Maria Serafim e outros educadores têm buscado não só expor suas dificuldades, mas também propor alternativas e soluções para as questões que afetam o Ensino Médio. A troca de experiências tem sido fundamental para que os docentes possam refletir coletivamente sobre o que está sendo feito e como as políticas públicas podem ser ajustadas para atender melhor às necessidades dos alunos e dos próprios profissionais da educação. O grupo, portanto, se configura como uma importante rede de apoio e resistência, onde as críticas à reforma ganham visibilidade e se tornam uma forma de pressionar por mudanças que considerem as condições reais de trabalho dos professores. Essa rede vai além de uma mera troca de informações ou opiniões; ela representa uma ação coletiva de professores que estão comprometidos não apenas com a sua própria carreira, mas, principalmente, com o futuro dos alunos. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 26 Os professores, ao se unirem em torno dessa causa, demonstram que estão profundamente preocupados com o impacto das reformas no cotidiano escolar e nas perspectivas de aprendizagem dos estudantes. É essencial destacar que os professores não são apenas profissionais que se preocupam com sua estabilidade ou com a manutenção de suas condições de trabalho. Ao contrário, eles são, em grande parte, vocacionados para a educação, dedicando-se cotidianamente à formação de jovens, com um olhar atento ao futuro de cada um deles. Em suas práticas diárias, os docentes não apenas transmitem conteúdos, mas também orientam, incentivam e acompanham os alunos em suas trajetórias de vida. Por isso, ao repensarem a reforma do Novo Ensino Médio, eles não estão apenas criticando um modelo que impacta diretamente sua rotina de trabalho, mas sim refletindo sobre as consequências dessas mudanças para a formação integral dos estudantes, para o desenvolvimento pessoal e social deles, e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A preocupação com o futuro dos alunos é um dos motores principais que impulsionam essas críticas. Os professores reconhecem que, sem condições adequadas de trabalho, sem formação continuada, sem valorização profissional e sem infraestrutura escolar de qualidade, não será possível garantir que os alunos tenham acesso a um ensino realmente transformador. Eles sabem que os estudantes, especialmente aqueles de escolas públicas, enfrentam múltiplos desafios em seu percurso educacional e que qualquer reforma deve ser pensada levando em conta essas realidades. Quando os docentes se mobilizam, portanto, não o fazem por um interesse pessoal ou corporativo, mas por uma dedicação inabalável ao bem-estar e ao sucesso dos alunos, buscando garantir a eles as melhores oportunidades de aprendizado e de preparação para o futuro. A rede de apoio formada pelos professores não é apenas um espaço de resistência contra as imposições da reforma do Novo Ensino Médio, mas também um ambiente de solidariedade e construção coletiva, onde são discutidas soluções para os problemas estruturais da educação. Ao promover essa união, os docentes fortalecem sua capacidade de agir de forma mais assertiva, ampliando sua voz e influenciando as políticas educacionais. É, portanto, uma rede que, além de criticar, busca ativamente transformar a realidade educacional brasileira, sempre com o foco voltado para a qualidade da educação oferecida e para a valorização do papel essencial que os professores desempenham no processo de formação dos cidadãos do futuro. A pressão por mudanças que considerem as condições reais de trabalho dos professores é uma demanda legítima e urgente, que visa garantir que os docentes possam desempenhar sua função com dignidade e eficácia. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 27 A defesa do ensino de qualidade, que considere as especificidades locais e as reais necessidades das escolas e alunos, é um compromisso constante dos profissionais da educação. Ao se unir e compartilhar suas experiências e críticas, o grupo fortalece o movimento por uma educação mais justa e equitativa, onde os professores, como agentes transformadores da sociedade, possam atuar de forma plena e eficaz. As discussões também apontam para a necessidade urgente de reavaliar os critérios de avaliação e os métodos de medição da qualidade da educação. O foco excessivo em exames como o ENEM, que acaba por ser a principal métrica de avaliação do ensino médio no país, ignora as diversas realidades das escolas públicas, onde as condições de ensino são muitas vezes precárias. A formação integral dos alunos, conforme preconizado pela reforma, exige um olhar atento sobre a realidade do ambiente escolar e sobre os desafios enfrentados pelos professores. Sem as condições adequadas de trabalho, incluindo apoio psicológico, formação continuada e redução da carga administrativa, a implementação da reforma tende a ser falha e desigual. Dessa forma, o debate gerado dentro desse grupo de WhatsApp reflete uma inquietação legítima dos profissionais da educação, que sentem que as mudanças propostas pelo Novo Ensino Médio, se não forem acompanhadas de um cuidado com as condições de trabalho dos docentes, podem acabar agravando as desigualdades educacionais já existentes. É fundamental que qualquer política pública voltada para a educação leve em consideraçãoa voz dos professores, que são os principais agentes de transformação do sistema educacional. O Novo Ensino Médio, para ser eficaz, precisa ser acompanhado de medidas que garantam a valorização do professor, a melhoria das condições de ensino e a democratização do acesso à educação de qualidade, não apenas por meio de reformas curriculares, mas também pela transformação das condições de trabalho que possibilitem a realização desse ideal. A autora Natali Maria Serafim destaca que: “A participação deste grupo de produção, que possuía representantes de diversos segmentos da educação do estado de Santa Catarina, nas discussões, leituras, produção e revisão de textos, por diversas vezes chegava-se às questões de como o que estava sendo produzido iria se materializar em sala de aula, sabendo-se das condições do trabalho docente. Juntamente com outra colega de profissão, liderei a construção de um texto intitulado „memorial‟, que foi lido ao grande grupo de produção (200 integrantes), que trazia nossas angústias como professoras atuantes em sala de aula. Concordávamos e contribuímos com tudo que estava sendo discutido, sabíamos da necessidade da formação integral, tendo como princípio formativo a diversidade. No entanto, o ideário era distante das nossas condições de trabalho, condições que muitas vezes impossibilitam a finalidade do nosso trabalho”. (SERAFIM, 2025, escritos fidedignos da autora) Os professores, ao longo da implementação do Novo Ensino Médio, frequentemente se veem como meras "peças em um jogo de tabuleiro" de uma reforma que não leva em consideração suas necessidades, desafios diários ou a realidade das escolas. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 28 O grupo de trabalho tem consciência de que um dos desafios principais é aproximar o que propõe teórica e metodologicamente das salas de aula e da gestão escolar, ou seja, dialogar diretamente com professores, coordenadores pedagógicos, especialistas e diretores, no sentido de contribuir com a reflexão sobre as atuais demandas educacionais em suas práticas pedagógicas. (SANTA CATARINA, 2014, p.21) Esse modelo de reforma, ao buscar uma suposta modernização do sistema educacional, acaba se tornando uma carga adicional para os educadores, que já enfrentam uma sobrecarga de trabalho com o planejamento de novas aulas, adaptação de conteúdos e a implementação de práticas pedagógicas ainda desconhecidas. Com componentes curriculares novos, dos quais os professores não possuem conhecimento dos conteúdos que precisam trabalhar (componente curricular eletivo), exige-se mais dedicação do professor, além de horas de estudo e planejamento. Esses profissionais não conseguem ter estabilidade em uma única escola, principalmente após a redução das aulas para as quais possuem formação. O governo tem imposto uma série de burocracias trabalhistas, sem, no entanto, proporcionar uma estrutura adequada para que os professores possam desempenhar seu papel de maneira eficaz. As exigências administrativas e a crescente quantidade de tarefas fora da sala de aula, como o preenchimento de relatórios, elaboração de documentos e participação em reuniões que muitas vezes não são produtivas, acabam sobrecarregando os docentes. Essas exigências burocráticas consomem um tempo precioso que poderia ser dedicado ao planejamento de aulas, à pesquisa e à interação direta com os alunos, que são, de fato, as atividades mais relevantes para o processo de ensino-aprendizagem. Não há um plano claro e estruturado de valorização financeira que reconheça adequadamente a função do professor, um profissional que assume um papel central na formação dos jovens e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A falta de incentivo financeiro, quando não acompanhada por condições de trabalho favoráveis, contribui para o aumento do desânimo e da insatisfação entre os docentes, levando muitos a abandonarem a profissão ou a se afastarem emocionalmente do exercício de suas funções. A remuneração, em muitos casos, não é condizente com a carga horária, as responsabilidades assumidas e os desafios enfrentados dentro e fora da sala de aula. Em adição a isso, a ausência de um programa consistente de capacitação e formação continuada para os professores é uma falha crítica no sistema educacional. A constante evolução dos métodos pedagógicos, das tecnologias educacionais e das demandas do mercado de trabalho exige que os docentes se mantenham atualizados, o que não ocorre devido à falta de investimentos governamentais nessa área. Sem um processo contínuo de formação profissional, muitos professores acabam desatualizados em relação às práticas pedagógicas mais eficazes e aos recursos disponíveis para melhorar o ensino. Isso acaba limitando a capacidade dos professores de O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 29 atender às necessidades diversificadas dos alunos, especialmente em um contexto de Reforma do Novo Ensino Médio, onde as exigências curriculares aumentaram. O desgaste físico e emocional dos profissionais da educação é um reflexo direto da pressão constante que enfrentam para suprir essas lacunas, sem o apoio adequado. Muitos professores sentem-se exaustos e desmotivados, devido à combinação de longas jornadas de trabalho, estresse constante, falta de reconhecimento e a sobrecarga de responsabilidades. Isso impacta não apenas a qualidade de vida dos educadores, mas também a qualidade do ensino oferecido aos estudantes, que são, em última instância, os mais afetados por essas condições adversas. A ausência de políticas de apoio que envolvam a saúde mental e o bem-estar dos professores contribui para esse cenário, tornando o trabalho docente cada vez mais difícil de ser sustentado. A falta de uma estrutura sólida e de políticas públicas adequadas não só prejudica o desenvolvimento profissional dos docentes, mas também compromete o futuro da educação brasileira como um todo. Para que o sistema educacional consiga realmente formar cidadãos críticos e bem preparados, é fundamental que o governo priorize investimentos em educação, com foco em uma valorização efetiva da carreira docente, em programas de capacitação contínua, e na redução das sobrecargas burocráticas que impedem o pleno exercício da profissão. Somente com essas ações será possível criar um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo para os educadores, com reflexos positivos na qualidade do ensino e no desempenho dos alunos. Pode-se compreender a reforma do Ensino Médio analisando seu contexto: No que diz respeito à Reforma do Ensino Médio, observamos que ela se deu sob a alegação de que seus indicadores de qualidade, medidos por exames de larga escala, são pífios e que o Ensino Médio não correspondia à expectativa dos jovens. Na esteira dessa discussão, uma Comissão Especial do Congresso Nacional elaborou um relatório que ensejou no Projeto de Lei (PL) Nº 6.840/2013 e apresentou a proposta inicial de reforma educacional (BRASIL, 2013). Formalmente abandonado pouco tempo depois, por ter sido parcialmente derrotado por movimentos de resistência, esse PL representava a gestação de um projeto que nasceria três anos depois. No ano de 2016, após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, [...] a quebra da institucionalidade democrática foi o estopim para que um conjunto de medidas tão ilegítimas quanto o governo que assumiu viessem à tona. (SILVA, 2018, p. 41) A ausência de investimentos significativos na formação de professores e no oferecimento de recursos materiais, como tecnologias educacionais adequadas, transforma os educadores em peças de um sistema que, embora proponha a inovação, falha em dar suporte real para essa inovação. O DESAFIO DA SOBRECARGADOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 30 Produzindo as condições políticas necessárias para a retomada da onda conservadora nas políticas educacionais, alicerçadas na ideologia neoliberal e em perspectivas antidemocráticas, excludentes e comprometidas com o fortalecimento da dualidade estrutural na formação dos jovens brasileiros. (SILVA; POSSAMAI; MARTINI, 2020, p. 3) Nas análises realizadas por diversos autores sobre a reforma do Ensino Médio, conclui-se que há uma ênfase no currículo como a solução para todos os problemas da educação brasileira, negligenciando, porém, as condições de trabalho essenciais para sua implementação eficaz. Assim, a garantia da universalização da educação acaba se tornando uma questão secundária. A referida lei coloca holofotes sobre a política curricular do Ensino Médio e retira do centro das discussões a universalização da última etapa da Educação Básica e a valorização dos profissionais, centrais na Lei nº 13.005 de 25 de junho de 2014 (BRASIL, 2014), que aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2014-2024. (COSTA; SILVA, 2022, p.1) A reforma do Ensino Médio brasileiro, promovida em 2017 pelo Ministério da Educação, tem como objetivo tornar o currículo mais flexível, de forma a melhor atender aos interesses dos alunos dessa etapa. A reforma se apoia em duas principais justificativas: a baixa qualidade do Ensino Médio ofertado no país e a necessidade de torná-lo mais atrativo aos alunos, considerando os elevados índices de abandono e reprovação. Segundo Ferretti (2018), a solução dada pela reforma aos problemas levantados, [...] é equivocada por atribuir o abandono e a reprovação basicamente à organização curricular, sem considerar os demais aspectos envolvidos: • infraestrutura inadequada das escolas (laboratórios, bibliotecas, espaços para EF e atividades culturais) carreira dos professores, incluindo salários, formas de contratação, não vinculação desses a uma única escola • ignora-se, também, que o afastamento de muitos jovens da escola e particularmente do Ensino Médio pode decorrer da necessidade de contribuir para a renda familiar, além de, premidos pelos constantes apelos da mídia e, por extensão, de integrantes dos grupos a que pertencem, buscarem recursos para satisfazer necessidades próprias à sua idade e convivência social. Em estudo para a Unicef, Volpi (2014) evidencia que os adolescentes por ele pesquisados apontaram como causas do abandono escolar, além das questões curriculares, a violência familiar, a gravidez na adolescência, a ausência de diálogo entre docentes, discentes e gestores e a violência na escola. (FERRETTI, 2018, p.27) A proposta do ensino híbrido, que também vem sendo progressivamente implantada no Brasil, agrava ainda mais esse quadro. Embora tenha sido apresentada como uma solução moderna para adaptar a educação à realidade tecnológica do século XXI, o ensino híbrido também carece de um planejamento consistente. Na prática, ele exige que os professores se adaptem a novas ferramentas e metodologias sem uma formação adequada para isso, muitas vezes precisando gerenciar tanto aulas presenciais quanto online, o que implica uma carga de trabalho ainda maior. Para muitos educadores, a integração de tecnologias no ensino é vista como uma forma de "facilitar" o processo educacional, mas, na realidade, adiciona camadas complexas de O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 31 responsabilidade sem que haja, por parte do governo, o fornecimento de equipamentos de qualidade, como computadores ou plataformas adequadas, ou mesmo de uma infraestrutura digital que suporte adequadamente o ensino remoto e híbrido. O ensino híbrido, que exige tanto dos professores quanto dos alunos, carece de um suporte efetivo, o que acaba gerando um ambiente de ensino ainda mais desorganizado e ineficiente. A interação entre as duas modalidades, presencial e online, nem sempre é harmônica e, sem a devida preparação e equipamentos, os educadores se veem desamparados. A falta de uma política pública que contemple a valorização financeira do professor e a adequação do ambiente de trabalho ao novo modelo educacional, compromete o sucesso dessa iniciativa. Os professores, que já enfrentam desafios com a falta de recursos, veem-se sobrecarregados pela necessidade de estar constantemente atualizados e preparados para lidar com um cenário educacional em constante mudança, mas sem o devido apoio financeiro e logístico. Assim, tanto o Novo Ensino Médio quanto o ensino híbrido revelam um retrocesso para a educação no Brasil, pois não há uma real valorização do professor nem o investimento necessário para a implementação de mudanças eficazes. A reforma educacional, embora apresente boas intenções em sua essência, acaba se tornando mais uma imposição que não leva em consideração as condições reais das escolas e a sobrecarga de trabalho dos educadores. Esse cenário evidencia uma falta de comprometimento do governo com a educação de qualidade e com a real valorização de seus profissionais, os quais, sem o suporte adequado, se tornam vítimas de um sistema que, ao invés de promover melhorias, exacerba suas dificuldades cotidianas. O excesso de tarefas burocráticas, como a elaboração de planos de ensino detalhados e o acompanhamento das novas exigências de avaliação, prejudica a qualidade do trabalho pedagógico. Além disso, muitos professores não se sentem adequadamente preparados para lidar com as mudanças, o que aumenta ainda mais a frustração e o distanciamento dos objetivos da reforma. Como observam Darós et al. (2023), "a falta de capacitação e de recursos adequados acaba criando um cenário de desmotivação entre os profissionais, que se sentem desvalorizados e despreparados." Essa sobrecarga de trabalho e a falta de apoio profissional têm gerado um efeito negativo não apenas nos professores, mas também nos estudantes. O modelo de ensino, ao exigir uma maior autonomia dos alunos, não tem oferecido o suporte necessário, o que resulta em um distanciamento das práticas pedagógicas que atendem às realidades do aluno brasileiro. O MEC (2022) afirma que o Novo Ensino Médio visa preparar os estudantes para um mundo de O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 32 possibilidades, mas, na prática, a realidade escolar ainda enfrenta enormes dificuldades estruturais e uma carência de recursos materiais e humanos adequados. A análise da reforma do Ensino Médio no Brasil, conforme discutido por Ferretti (2018), evidencia uma crítica à concepção de qualidade da educação proposta pela reforma e suas implicações para o sistema educacional brasileiro, especialmente para os alunos da rede pública. A proposta de reforma, que foca em uma mudança curricular e na ampliação de uma abordagem de ensino voltada para a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), tem sido questionada não apenas em relação à sua efetividade, mas também por reforçar desigualdades educacionais preexistentes, particularmente no que diz respeito ao acesso às condições adequadas de ensino e aprendizagem. Uma das principais críticas à reforma é a ênfase no currículo como solução para os problemas da educação brasileira, sem, contudo, considerar as condições de trabalho dos professores e as estruturas das escolas, que são fundamentalmente diferentes entre as redes pública e privada. As escolas públicas, em grande parte, enfrentam desafios históricos relacionados à infraestrutura, à escassez de recursos pedagógicos e à sobrecarga de trabalho dos docentes, o que limita diretamente a qualidade do ensino oferecido. Ao focar apenas na reformulação curricular e na ampliação da carga horária de disciplinas,a reforma ignora a necessidade urgente de melhorar essas condições de ensino, que são determinantes para a aprendizagem dos estudantes. A utilização do ENEM como principal parâmetro de avaliação da qualidade do Ensino Médio. O ENEM, ao se tornar uma exigência central para o ingresso nas universidades, tem levado a uma preparação intensiva por parte de alunos e escolas, especialmente com o aumento da comercialização dos "cursinhos" preparatórios. Esses cursinhos, que se multiplicam em todo o país, tornam-se uma indústria que explora a desesperada busca dos estudantes por boas notas no exame, criando uma divisão ainda mais acentuada entre os alunos da rede pública e os da rede privada. Os alunos das escolas privadas, que geralmente têm acesso a esses cursinhos preparatórios, possuem uma vantagem significativa. Enquanto isso, os alunos da rede pública, que muitas vezes não têm condições financeiras para pagar pelos cursinhos, ficam em uma posição de desvantagem. A competição desigual no ENEM reflete a profunda desigualdade social e educacional que ainda permeia o Brasil, onde o acesso à educação de qualidade está intimamente ligado à classe social e à região do país. Essa "desvantagem cruel", como pode ser chamada, é visível nas disparidades nos resultados do ENEM. Alunos de escolas públicas, especialmente das mais periféricas, têm, O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 33 historicamente, resultados muito inferiores em comparação aos alunos de escolas privadas, uma vez que a falta de acesso a recursos, como material didático de qualidade e orientação pedagógica especializada, prejudica seu desempenho. A ausência de suporte psicológico e pedagógico, somada às condições estruturais precárias das escolas públicas, coloca esses alunos em uma posição ainda mais difícil quando se comparam aos alunos das escolas privadas, que frequentemente contam com recursos e apoio adicionais. A comercialização dos cursinhos preparatórios, que muitas vezes se tornam uma alternativa única para os alunos da rede pública, contribui para a perpetuação da desigualdade educacional no Brasil. Ao invés de o sistema educacional ser reformulado para fornecer uma educação igualitária e de qualidade para todos, a sociedade acaba sendo levada a um sistema em que o sucesso educacional depende mais do acesso a recursos financeiros e ao mercado de cursinhos do que da qualidade do ensino oferecido nas escolas. A reforma do Ensino Médio, conforme abordada por Ferretti (2018), não enfrenta adequadamente as disparidades estruturais do sistema educacional brasileiro e acaba por reforçar as desigualdades existentes, especialmente no que se refere à preparação para o ENEM e à comercialização dos cursinhos preparatórios. A falta de atenção às condições de ensino nas escolas públicas e a crescente privatização do acesso à educação de qualidade perpetuam um ciclo de desigualdade que prejudica os alunos mais vulneráveis, deixando-os em uma desvantagem cruel em relação aos estudantes das escolas privadas. O Novo Ensino Médio, ao invés de ser um avanço na educação, tem mostrado, em muitos aspectos, um retrocesso. A falta de um planejamento eficaz e a implementação apressada da reforma têm prejudicado tanto os professores quanto os alunos, que não encontram no novo modelo as condições necessárias para o aprendizado efetivo e a valorização da profissão. Como destaca Darós et al. (2023), "a participação dos professores no processo de mudança e a escuta ativa de suas necessidades são fundamentais para o sucesso de qualquer reforma educacional." 3. CONCLUSÃO A sobrecarga de trabalho docente no Ensino Médio é um desafio complexo e multifacetado, que impacta diretamente tanto a qualidade do ensino quanto o bem-estar dos educadores. O aumento da carga de responsabilidades, aliado a condições de trabalho precárias e a pressão por resultados em exames nacionais, como o ENEM, tem levado os professores a uma constante sobrecarga emocional e física. Esse cenário não apenas compromete a saúde dos docentes, mas também diminui sua capacidade de oferecer um ensino de qualidade, afetando negativamente o aprendizado dos estudantes. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 34 É urgente que o Brasil adote políticas públicas que, de fato, valorizem o trabalho docente, com ênfase em salários justos e condições de trabalho adequadas. O pagamento de salários condizentes com a responsabilidade e a complexidade do trabalho de ensinar é uma medida fundamental para garantir que os profissionais da educação se sintam respeitados e motivados. A formação continuada deve ser incentivada, mas sem a imposição de tarefas adicionais que agravam a sobrecarga. Além disso, o investimento em infraestrutura escolar e recursos pedagógicos adequados, como tecnologias e materiais de apoio, é crucial para que os professores possam desempenhar seu trabalho de maneira mais eficiente e com maior qualidade. É necessário que as políticas públicas no Brasil se distanciem de medidas paliativas e busquem soluções concretas e estruturais para a valorização dos educadores. A implementação de medidas que assegurem salários justos, melhores condições de trabalho, apoio emocional e psicológico, e o fornecimento de recursos adequados são passos essenciais para combater a sobrecarga e garantir um ambiente mais saudável e produtivo para o ensino. Somente com uma valorização real da profissão docente será possível construir um sistema educacional que realmente ofereça aos alunos as condições para seu pleno desenvolvimento, ao mesmo tempo em que cuida do bem-estar daqueles que desempenham o papel fundamental de educadores. REFERÊNCIAS ALVES, Thiago; PINTO, José Marcelino de Rezende. Remuneração e características do trabalho docente no Brasil: um aporte. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 41, n. 143, p. 606-639, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0100-15742011000200014. Acesso em: 11 jan. 2025. ARAÚJO, Tânia Maria de; PINHO, Paloma de Sousa; MASSON, Maria Lucia Vaz. 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As progressões devem ir além de mudanças superficiais ou gestos políticos que busquem apenas agradar a curto prazo. É necessário que as políticas de progressão de carreira atendam às necessidades reais dos educadores, proporcionando um crescimento sustentado que valorize o compromisso, a qualificação e o impacto dos docentes no processo educacional. Chega de políticas que promovem o “professor panelinha” ou que se pautam pelas decisões de políticos do momento, sem um O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 4 planejamento de longo prazo que envolva a categoria de forma efetiva e os capacite para uma educação de qualidade. A valorização do professor não pode ser um projeto de interesses eleitoreiros, mas uma estratégia sólida e permanente para melhorar a educação pública no Brasil. É fundamental que as políticas públicas se voltem para o fortalecimento da carreira docente, não apenas com aumentos salariais, mas com o reconhecimento genuíno do trabalho do professor, com o uso adequado dos recursos disponíveis e com progressões reais que garantam condições dignas de trabalho e de desenvolvimento profissional. A educação brasileira só avançará quando os professores forem verdadeiramente valorizados, com autonomia, respeito e as condições necessárias para desempenharem suas funções com excelência. A implementação de políticas que garantam um melhor suporte material, como o fornecimento de recursos tecnológicos e a redução de tarefas administrativas, pode aliviar significativamente a sobrecarga dos docentes. Além disso, a valorização salarial e a criação de programas de formação continuada são elementos essenciais para a retenção de professores qualificados e para o aprimoramento da qualidade do ensino (GARCI; ANADON, 2009; TARDIF; LESSARD, 2008). O cenário educacional brasileiro também enfrenta desafios adicionais devido à reforma do ensino médio, que, conforme argumentam ISCHKANIAN e SERAFIM (2025), representa um retrocesso significativo em relação às políticas educacionais anteriores. A implementação do novo ensino médio, sem a devida estruturação e planejamento, pode agravar ainda mais as condições de trabalho dos professores, ao exigir um modelo de ensino que demanda mais tempo de preparação e adaptação. As mudanças no currículo, a introdução de novas metodologias e o aumento da carga de trabalho administrativa sem um correspondente aumento de recursos ou apoio institucional contribuem para a intensificação do trabalho docente e para o comprometimento do equilíbrio entre vida profissional e pessoal dos educadores. A adoção de políticas públicas eficazes é fundamental para reverter esse quadro de sobrecarga e precarização do trabalho docente. A transformação das condições de trabalho dos professores é um passo imprescindível para a melhoria da qualidade da educação no Brasil. Para isso, é necessário que o governo e as instituições educacionais compreendam a complexidade dos desafios enfrentados pelos docentes e, com base nessa compreensão, implementem estratégias que não apenas aliviem as pressões diárias, mas também proporcionem um ambiente de trabalho mais saudável e sustentável. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 5 2. DESENVOLVIMENTO Urge a necessidade de olhar para o professor não apenas como um transmissor de conteúdo, mas como o profissional fundamental que ensina e educa a todos, com o poder de transformar vidas e sociedades. O papel do professor vai muito além de simplesmente repassar informações – ele é responsável por fomentar o pensamento crítico, desenvolver habilidades socioemocionais e preparar os jovens para os desafios do futuro. Esse olhar deve se traduzir em uma valorização real e efetiva, principalmente no aspecto salarial. A remuneração do professor não deve ser tratada como um simples custo, mas como um investimento essencial na formação da cidadania e no desenvolvimento da educação de qualidade. Quando um professor é bem remunerado, ele se sente reconhecido e respeitado em sua profissão, o que impacta diretamente na sua motivação e disposição para o trabalho. Um docente bem remunerado tem mais condições de exercer sua função com dignidade, comprometimento e qualidade, sem a preocupação constante com dificuldades financeiras ou com a sobrecarga de atividades que comprometem sua saúde física e mental. Como argumentam ISCHKANIAN e SERAFIM (2025), a valorização salarial é crucial para a melhoria das condições de trabalho no contexto educacional brasileiro, pois um profissional desvalorizado financeiramente sofre não apenas em termos materiais, mas também em termos psicológicos, o que impacta sua atuação em sala de aula e a qualidade do ensino que ele é capaz de proporcionar. É importante ressaltar que a valorização salarial deve ser acompanhada de políticas que garantam condições adequadas para o desenvolvimento contínuo dos professores, como o acesso à formação continuada e a implementação de progressões salariais reais. A remuneração justa não só favorece a atração e a retenção de bons profissionais, mas também proporciona um ambiente mais saudável para o trabalho docente, contribuindo para a redução do estresse e da sobrecarga, que são questões centrais enfrentadas pelos educadores no Brasil. Em um cenário em que o sistema educacional está em constante transformação, como é o caso do Novo Ensino Médio (ISHKANIAN; SERAFIM, 2025), a melhoria das condições de trabalho dos professores se torna ainda mais urgente. O novo modelo, com suas demandas adicionais de adaptação, exige um professor preparado e motivado, o que só será possível se houver uma valorização sincera e efetiva do seu papel na educação. A valorização do professor não pode ser vista como um ato isolado, mas como parte de uma estratégia ampla de melhoria do sistema educacional. Ao garantir melhores condições salariais, materiais e de formação, o país investe no futuro de seus alunos e, consequentemente, no futuro da sociedade como um todo. A transformação que o Brasil precisa na educação começa, indiscutivelmente, com a valorização de seus professores. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 6 A remuneração adequada reflete não apenas o respeito pelo trabalho dos educadores, mas também é um dos principais fatores para a elevação dos índices de qualquer política educacional. Quando o profissional da educação é valorizado financeiramente, sua motivação e sua qualidade de vida são diretamente impactadas de forma positiva, resultando em um desempenho melhor nas suas funções. Como destacado por diversos estudiosos, como Alves e Pinto (2011), a valorização do docente é essencial para que ele possa exercer um papel ativo no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, além de ser crucial para a atração e retenção de bons profissionais na carreira docente. Professores bem remunerados têm mais condições de buscar aperfeiçoamento profissional contínuo, manter sua saúde física e mental em equilíbrio, e, consequentemente, oferecer uma educação de melhor qualidade aos estudantes. Para enfrentar o desafio da sobrecarga docente no ensino médio, é necessário que as políticaspúblicas adotem uma visão holística sobre o papel do educador. A sobrecarga de trabalho, que se reflete na intensificação de suas tarefas, na pressão por resultados em avaliações nacionais e na escassez de recursos materiais e humanos, não pode ser tratada de maneira isolada. A valorização salarial deve ser encarada como um dos pilares fundamentais para garantir que o professor tenha condições de desempenhar seu trabalho com qualidade, o que, por sua vez, impacta diretamente na qualidade do ensino e no bem-estar do educador. 2.1 IMPACTOS NA QUALIDADE DO ENSINO A sobrecarga de trabalho docente no ensino médio tem implicações diretas na qualidade do ensino oferecido aos estudantes. Quando os professores enfrentam uma carga excessiva de responsabilidades, como a preparação de aulas, a realização de atividades administrativas, a correção de provas e a necessidade de lidar com uma série de demandas externas, como exames nacionais, sua capacidade de dedicar atenção individualizada aos alunos diminui consideravelmente. Segundo Silva, Possamai e Martini (2020), a intensificação do trabalho docente não apenas sobrecarrega os educadores, mas também compromete o tempo e a qualidade do acompanhamento pedagógico, essencial para que os estudantes possam realmente compreender o conteúdo e desenvolver suas habilidades de maneira eficaz. A pressão para cumprir uma quantidade excessiva de tarefas administrativas pode levar à falta de tempo e energia para a elaboração de aulas criativas e inovadoras. Como observa Tardif e Lessard (2008), a qualidade do trabalho pedagógico depende diretamente da capacidade do professor de criar estratégias de ensino que favoreçam a interação e o engajamento dos alunos. Com o aumento da carga de trabalho, os docentes frequentemente se veem forçados a adotar O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 7 métodos pedagógicos mais tradicionais e mecânicos, o que limita as possibilidades de um ensino dinâmico e eficaz. A sobrecarga de trabalho também pode impactar negativamente a relação dos professores com seus alunos. Silva e Costa (2022) destacam que a falta de tempo para estabelecer vínculos mais estreitos com os estudantes compromete a qualidade da aprendizagem e a formação integral dos jovens. O distanciamento entre professor e aluno, que resulta da sobrecarga, afeta a capacidade de personalizar o ensino e de atender às necessidades específicas de cada estudante. Isso, por sua vez, contribui para o aumento das desigualdades educacionais e para a falta de motivação dos alunos. A avaliação do desempenho docente, como apontado por Zatti e Minhoto (2019), muitas vezes se baseia em resultados que são fortemente influenciados pela pressão por produtividade, o que pode levar à distorção da percepção sobre a eficácia real do processo de ensino. A qualidade do ensino não pode ser medida apenas pelos números ou pelas notas obtidas nos exames, mas pela capacidade do professor de transformar o aprendizado de seus alunos em uma experiência significativa. Quando os professores estão sobrecarregados, sua habilidade de inovar e personalizar suas abordagens pedagógicas é severamente limitada, prejudicando, portanto, a qualidade do ensino oferecido. A sobrecarga de trabalho dos docentes no ensino médio não só impacta diretamente a sua saúde e bem-estar, mas também compromete a qualidade do ensino. A falta de tempo para planejar aulas criativas, a impossibilidade de dedicar atenção individualizada aos alunos e a adoção de métodos pedagógicos menos eficazes são consequências diretas dessa sobrecarga, que resulta na limitação das possibilidades de aprendizagem dos estudantes. Para reverter esse quadro, é essencial que sejam implementadas políticas públicas que ofereçam suporte aos professores, garantindo melhores condições de trabalho e valorizando a função docente de maneira integral. 2.2 O INVESTIMENTO EM INFRAESTRUTURA ESCOLAR E EQUIPAMENTOS ADEQUADOS O investimento em infraestrutura escolar e em equipamentos adequados para os professores é fundamental para garantir um ambiente de ensino eficiente e de qualidade. A sobrecarga de trabalho docente muitas vezes é ampliada pela falta de recursos básicos, como computadores pessoais e ferramentas tecnológicas, essenciais para o planejamento e a execução das aulas de forma eficaz. Políticas públicas que garantam o fornecimento de tais materiais são essenciais para melhorar a produtividade dos educadores e otimizar o processo de ensino. Quando os professores têm acesso a recursos tecnológicos adequados, conseguem preparar aulas mais O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 8 dinâmicas e personalizadas, utilizando diferentes mídias e plataformas para envolver os alunos de maneira mais eficaz. De acordo com Kuenzler (2021), a precarização das condições de trabalho docente, incluindo a falta de infraestrutura e equipamentos adequados, agrava ainda mais a já sobrecarregada rotina dos professores. O autor destaca que a escassez de recursos e a falta de atualização tecnológica nas escolas não apenas dificultam a execução de um trabalho pedagógico de qualidade, mas também contribuem para o esgotamento dos docentes. Esses desafios tornam-se ainda mais evidentes quando se observa que o trabalho docente é muitas vezes visto como uma tarefa que exige não só dedicação, mas também a adaptação constante a novas exigências educacionais sem o devido suporte. Lima (2010) afirma que a carga de trabalho docente está diretamente relacionada à infraestrutura disponível, já que os professores são frequentemente exigidos a realizar múltiplas funções que exigem recursos que não são fornecidos pelas escolas. Isso faz com que os educadores levem trabalho para casa, resultando em um desequilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Sem uma infraestrutura adequada, o trabalho docente se torna mais intensivo e fragmentado, impactando negativamente o processo educacional. A falta de recursos tecnológicos e materiais pedagógicos adequados impede que os professores acompanhem as rápidas transformações do mundo digital, limitando suas possibilidades de integrar novas metodologias e abordagens pedagógicas nas aulas. Marglin (1980) discute como a divisão do trabalho e o parcelamento das tarefas no contexto educacional impactam diretamente a capacidade do educador de ser criativo e de adotar práticas pedagógicas mais inovadoras. O desenvolvimento de um trabalho docente de qualidade exige que o professor tenha acesso a tecnologias que possibilitem a personalização do ensino, atendendo de maneira mais eficaz às necessidades dos alunos. Investir na infraestrutura escolar não se limita apenas a fornecer equipamentos tecnológicos, mas envolve a criação de ambientes de aprendizagem mais acolhedores, seguros e adequados às demandas atuais. Ambientes bem equipados, com espaços adequados para a realização de atividades práticas e teóricas, também são fundamentais para promover um ensino mais eficaz. As escolas precisam ser vistas como ambientes de desenvolvimento, não apenas para os alunos, mas também para os educadores, que devem ser capacitados e ter suas condições de trabalho respeitadas. Miranda e Arancibia (2017) ressaltam a importância de repensar o vínculo entre a educação e o mundo do trabalho, destacando a necessidade de melhorar as condições de trabalho dos professores como forma de fortalecer a educação de maneira geral. O investimento em O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 9 infraestrutura escolar, aliado a políticas públicas que promovam a valorização dos educadores, é um passo essencial para garantir que os professores possam desenvolver suas funções com qualidade,criando um ciclo virtuoso de melhoria no ensino e aprendizado. A melhoria das condições de trabalho docente, através do fornecimento adequado de equipamentos e da atualização das infraestruturas escolares, é crucial para a eficácia do ensino. A adoção de políticas públicas que priorizem esses investimentos não só apoia o trabalho docente, mas também contribui para a construção de um ambiente educacional mais inclusivo, inovador e capaz de atender às necessidades dos alunos. 2.3 A MELHORIA SALARIAL E VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL A melhoria salarial e a valorização profissional dos professores são fundamentais para o fortalecimento da educação no Brasil. Embora a função docente seja essencial para o desenvolvimento da sociedade, os professores muitas vezes enfrentam condições de trabalho precárias, o que pode impactar diretamente a qualidade do ensino. Portanto, políticas públicas que visem melhorar a remuneração dos professores não apenas reconhecem a importância dessa profissão, mas também garantem que os educadores possam exercer suas funções com dignidade e dedicação. Como destaca Piovezan e Dal Ri (2019), a flexibilização e intensificação do trabalho docente têm sido uma característica crescente nos últimos anos, especialmente no Brasil e em Portugal. Muitos professores são sobrecarregados com turmas numerosas, jornadas de trabalho excessivas e a constante pressão por resultados. Em um cenário como esse, a valorização salarial se torna ainda mais crucial. Um salário justo não só melhora a qualidade de vida do educador, mas também contribui para sua motivação, incentivando-o a se dedicar mais ao ensino e a buscar aperfeiçoamento profissional. A desvalorização salarial, por outro lado, pode levar ao desânimo, à alta rotatividade de professores e à perda de profissionais qualificados, que buscam melhores oportunidades em outras áreas. O uso adequado do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) é outro fator crucial para garantir uma remuneração justa aos educadores e melhorar as condições de trabalho nas escolas. Este fundo foi criado para proporcionar recursos para a educação básica, mas sua gestão muitas vezes carece de eficiência e transparência. A destinação dos recursos do FUNDEB deve ser mais estratégica, com foco nas reais necessidades dos educadores, garantindo que as escolas tenham infraestrutura adequada e materiais didáticos de qualidade, além de investir no desenvolvimento profissional dos docentes. O fundo também deve ser usado para garantir que os professores recebam salários condizentes O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 10 com suas qualificações e tempo de serviço, sem cair na armadilha das progressões salariais meramente burocráticas, que não refletem o real reconhecimento do trabalho docente. Em relação ao financiamento, a aplicação dos recursos do FUNDEB deve garantir a implementação de políticas de valorização salarial que realmente reconheçam o esforço dos professores, promovendo progressões salariais baseadas no mérito e na experiência, além de buscar formas de corrigir distorções salariais entre os diferentes estados e municípios. Isso é especialmente importante em um contexto onde a "uberização" do trabalho docente, conforme observa Silva (2019), tem se intensificado, com muitos professores sendo contratados de forma temporária ou em regimes de trabalho precarizados, sem garantias de progressão salarial ou benefícios adequados. A progressão salarial deve ser um instrumento de valorização, refletindo não apenas a experiência, mas também o desempenho do docente e suas qualificações contínuas. No entanto, como observa Seligmann-Silva (1994), o desgaste mental do trabalho, associado ao baixo salário e à falta de apoio institucional, pode levar ao esgotamento dos professores. A precarização das condições de trabalho docente, em combinação com a falta de valorização financeira, contribui para o aumento do estresse e da insatisfação profissional, afetando diretamente a qualidade do ensino. A melhoria salarial deve estar acompanhada de uma estratégia para combater a desmotivação, criando um ambiente de trabalho mais respeitoso e profissional, no qual os educadores se sintam reconhecidos e apoiados. O investimento em capacitação e formação continuada, aliado a uma remuneração justa, são passos essenciais para garantir que os professores possam se manter atualizados e bem preparados para enfrentar os desafios do ensino moderno. A melhoria salarial e a valorização profissional não podem ser tratadas como aspectos isolados, mas como componentes essenciais de uma política pública mais ampla, que busque garantir a qualidade da educação e o bem-estar dos profissionais envolvidos. Investir na educação significa investir nos professores, proporcionando-lhes melhores condições de trabalho, recursos adequados e, principalmente, o reconhecimento da importância de sua função na sociedade. 2.4 A FORMAÇÃO CONTINUADA E REDUÇÃO DE TAREFAS EXTRA-ESCOLAR A formação continuada dos professores é uma necessidade fundamental para garantir que eles se mantenham atualizados com as novas metodologias e práticas pedagógicas. No entanto, para que essa formação seja eficaz e não sobrecarregue ainda mais os docentes, é necessário que as políticas públicas estejam focadas em criar programas de aperfeiçoamento profissional que sejam equilibrados, flexíveis e acessíveis. Os programas de formação não podem resultar em uma O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 11 carga adicional de trabalho fora do horário escolar, o que poderia prejudicar ainda mais o bem- estar dos professores e aumentar a sobrecarga que muitos já enfrentam, especialmente em relação às tarefas extra-escolares. O estudo de Ischkanian e Serafim (2025) sobre o novo ensino médio alerta para a necessidade de políticas que não sobrecarreguem ainda mais os professores, que já enfrentam desafios significativos em suas práticas pedagógicas diárias. A adoção de programas de formação contínua deve ser vista como uma oportunidade de crescimento profissional, mas sem que isso represente um fardo a mais para o docente, comprometendo seu tempo pessoal e sua saúde. É essencial que as políticas públicas também se concentrem na redução das tarefas administrativas que os professores frequentemente levam para casa. Essas atividades, muitas vezes, consomem o tempo que poderia ser destinado ao descanso, à família e ao cuidado da saúde mental e física. A sobrecarga de trabalho extra-escolar é uma das principais causas do estresse e do burnout entre os professores, o que pode afetar sua motivação e o desempenho no trabalho. Ivo e Hypólito (2015) discutem como as políticas gerenciais em educação têm imposto aos professores uma carga de trabalho excessiva, incluindo tarefas administrativas que distanciam o educador do seu principal objetivo: o ensino e o desenvolvimento dos alunos. Esse fenômeno, conhecido como a "burocratização" do trabalho docente, tem levado muitos professores a se sentirem desvalorizados e exaustos. A redução dessas tarefas fora da sala de aula é um passo importante para garantir que os professores tenham tempo para se concentrar no planejamento de aulas, no desenvolvimento de estratégias pedagógicas e, o mais importante, para o cuidado com sua saúde física e mental. A implementação de políticas que busquem diminuir a carga de tarefas extra-escolares não só melhora o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos educadores, mas também contribui para a manutenção de sua saúde mental, fundamental para que possam continuar desempenhando suas funções com qualidade. De acordo com Jacomini e Penna (2016), a valorização da carreira docente envolve, entre outras ações, a criação decondições de trabalho que proporcionem aos professores tempo e espaço para sua formação contínua, bem como para o descanso e a recuperação de suas energias. A formação continuada, ao ser inserida de forma planejada e com atenção ao tempo do professor, e a redução das tarefas administrativas são componentes essenciais de um ambiente de trabalho saudável para o docente. Essas ações são cruciais para garantir a qualidade de vida dos professores e, consequentemente, a qualidade do ensino oferecido aos alunos. As políticas públicas precisam, portanto, priorizar esses aspectos, considerando a carga de trabalho dos educadores como um fator determinante para a eficácia do processo educativo. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 12 2.6 O PAPEL DO ENSINO HIBRIDO NO ENSINO MÉDIO POR DAMIÃO DE SOUZA SANTOS, IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO A implementação do ensino híbrido no ensino médio, conforme proposto por Damião de Souza Santos, pode desempenhar um papel crucial na redução da sobrecarga dos professores, proporcionando uma maneira mais equilibrada e eficaz de organizar as atividades pedagógicas. A Educação Híbrida surge como um processo inovador de ensino, com a proposta de integrar métodos presenciais e tecnológicos para aprimorar a aprendizagem. Essa abordagem não só moderniza o ensino, mas também insere tanto estudantes quanto professores na era digital, permitindo o uso consciente das tecnologias e explorando suas potencialidades. Ao incorporar essas ferramentas de forma estratégica, o ensino se torna mais dinâmico e adaptado às necessidades da sociedade contemporânea, o que é destacado em Moran e Bacich: Híbrido significa misturado, mesclado, blended. A educação sempre foi misturada, híbrida, sempre combinou vários espaços, tempos, atividades, metodologias, públicos. Esse processo, agora, com a mobilidade e a conectividade, é muito mais perceptível, amplo e profundo: é um ecossistema mais aberto e criativo. Podemos ensinar e aprender de inúmeras formas, em todos os momentos, em múltiplos espaços. Híbrido é um conceito rico, apropriado e complicado. Tudo pode ser misturado, combinado, e podemos, com os mesmos ingredientes, preparar diversos “pratos”, com sabores muito diferentes (MORAN, 2015, p. 22) No entanto, muitas vezes, o conceito de Ensino Híbrido é reduzido a uma simples combinação de aulas presenciais e online, o que limita a compreensão de sua verdadeira proposta. A Educação Híbrida vai além dessa visão simplista, envolvendo uma transformação pedagógica mais profunda, com o uso das tecnologias como um meio de personalizar e enriquecer a aprendizagem. Nesse sentido, o modelo busca não apenas a adaptação ao ambiente digital, mas uma reestruturação do processo educativo, alinhando-o às exigências da sociedade digital e às demandas do mercado de trabalho atual. O conceito de Ensino Híbrido está fundamentado na ideia de que a aprendizagem não ocorre de uma única forma e é um processo contínuo. Essa modalidade educacional busca integrar o melhor de duas realidades distintas: o ensino online e o presencial. Em termos simples, o Ensino Híbrido estabelece uma conexão entre o ensino tradicional, em sala de aula, e o aprendizado realizado em ambientes digitais, onde as tecnologias são utilizadas como ferramentas complementares ao processo educativo. Uma dessas qualidades é a autenticidade, o que significa que o educador deve ser genuíno e real, e não apenas uma figura impessoal que transmite conteúdo de maneira mecanicista. O professor deve se apresentar como um ser humano, algo mais do que um transmissor de O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 13 conhecimento, criando uma conexão verdadeira com os alunos e indo além da simples função de "passar informações". O apreço pelo aluno também se destaca como um aspecto fundamental. O educador deve valorizar os sentimentos, as opiniões e as perspectivas dos estudantes, sendo capaz de se colocar no lugar deles, compreendendo suas realidades e, assim, criando um ambiente de aprendizagem mais empático e eficaz. Esse tema se torna ainda mais relevante no contexto educacional brasileiro, onde a implementação do Ensino Híbrido pode ser uma solução importante para reduzir a sobrecarga dos professores. Ao equilibrar atividades presenciais com interações digitais, o modelo permite que os docentes possam planejar suas aulas de maneira mais flexível, distribuindo melhor seu tempo e otimizando sua carga de trabalho. No entanto, para que essa abordagem seja eficaz, é fundamental que haja uma implementação cuidadosa, com investimentos adequados em infraestrutura e formação docente. O ensino híbrido, ao combinar métodos presenciais e online, permite que o docente aproveite a flexibilidade da tecnologia para otimizar sua carga de trabalho, ao mesmo tempo que preserva o espaço físico para interações significativas com os alunos. Essa abordagem se configura como uma solução para a sobrecarga de tarefas administrativas e pedagógicas que muitos educadores enfrentam, ao permitir uma distribuição mais equilibrada do tempo entre o ensino digital e presencial. Quando o professor é capaz de compreender as reações internas dos estudantes, ele adquire uma percepção sensível de como o processo de ensino e aprendizagem ocorre. Isso amplia as possibilidades de proporcionar uma aprendizagem mais significativa para os alunos. A convergência entre os ambientes presenciais e virtuais tem mostrado como dois espaços de aprendizagem, que historicamente se desenvolveram de forma independente, a tradicional sala de aula e os modernos ambientes virtuais, podem se complementar de maneira eficaz. O objetivo do Ensino Híbrido, portanto, é aproveitar as vantagens de ambas as modalidades, levando em consideração aspectos como custo, objetivos educacionais, contexto, adequação pedagógica e o perfil dos alunos. Essa abordagem combina atividades assíncronas, baseadas em tecnologia, com práticas síncronas e presenciais. Em outras palavras, mistura o ensino a distância, onde o aluno tem autonomia para estudar no seu próprio ritmo, usando recursos digitais, com o aprendizado presencial, no qual o estudante interage com o grupo e o professor, promovendo o diálogo e o aprendizado colaborativo. Assim, essas duas modalidades se complementam, proporcionando experiências diferentes de aprendizagem. O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 14 No modelo híbrido, a concepção é que alunos e professores ensinem e aprendam em lugares e momentos distintos. No Ensino Superior, por exemplo, isso está relacionado a uma metodologia de ensino a distância (EaD), onde o modelo presencial se combina com o ensino remoto. Em algumas situações, determinadas disciplinas são trabalhadas de forma presencial, enquanto outras são realizadas a distância. Esse conceito inicial do Ensino Híbrido evoluiu para incorporar uma gama mais ampla de estratégias pedagógicas inovadoras. A utilização de recursos digitais pode reduzir a pressão sobre os professores, permitindo que eles forneçam materiais complementares online e proponham atividades que os estudantes podem realizar fora do horário de aula. Isso cria uma divisão mais eficiente da carga de trabalho, aliviando a necessidade de dedicar longas horas extras preparando aulas presenciais e materiais didáticos. Ao mesmo tempo, as interações presenciais podem ser enriquecidas, concentrando-se em discussões, resolução de dúvidas e atividades práticas que exigem a presença do professor. Essa combinação tem o potencial de melhorar a qualidade do ensino, tornando-o mais dinâmico e acessível aos alunos, ao mesmo tempo em que proporciona ao educador uma formamais gerenciável de conduzir o processo de ensino-aprendizagem. Entretanto, para que o ensino híbrido seja realmente eficaz na redução da sobrecarga docente e na melhoria da qualidade do ensino, é essencial que haja um suporte adequado por parte das políticas públicas. Em primeiro lugar, a formação continuada dos professores é fundamental. Como o ensino híbrido exige habilidades específicas, como o manejo de plataformas digitais e a criação de conteúdos interativos online, os educadores precisam ser adequadamente treinados. Programas de formação devem ser implementados, garantindo que todos os docentes tenham acesso a capacitações que os ajudem a integrar as tecnologias de forma eficaz em suas práticas pedagógicas. HYPÓLITO (2020) destaca a importância de que a formação docente seja adaptada às mudanças nas práticas educacionais, e isso inclui o uso de novas tecnologias e abordagens pedagógicas. Conforme Horn e Staker (2015, p. 54), O ensino híbrido é um programa de educação formal no qual um estudante aprende, pelo menos em parte, por meio da aprendizagem on-line, sobre o qual tem algum tipo de controle em relação ao tempo, ao lugar, ao caminho e/ou ao ritmo e, pelo menos em parte, em um local físico, supervisionado, longe de casa. A valorização do professor é um dos pilares essenciais para que qualquer iniciativa educacional tenha sucesso, especialmente no contexto brasileiro. O ensino híbrido, ao combinar o aprendizado presencial e online, oferece um potencial significativo para modernizar e expandir a educação no país. No entanto, para que essa abordagem funcione de maneira eficaz, é fundamental que as políticas públicas invistam não apenas na infraestrutura necessária, mas também na O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 15 valorização dos docentes, garantindo que eles tenham as condições adequadas para exercer sua função. O professor, como agente central desse processo, precisa ser capacitado, reconhecido e adequadamente remunerado para lidar com as novas demandas do ensino híbrido. Isso inclui a oferta de formação continuada para que ele se sinta seguro e preparado para utilizar tecnologias de forma eficiente, além de garantir que ele tenha acesso a dispositivos tecnológicos adequados, como computadores, tablets e outros recursos essenciais para a execução de suas atividades tanto no ambiente presencial quanto no digital. Sem a valorização profissional, o uso de novas metodologias pedagógicas, como o ensino híbrido, pode se tornar uma tarefa ainda mais árdua e ineficaz. A sobrecarga de trabalho e a falta de recursos para os educadores podem minar o impacto positivo que o ensino híbrido poderia ter, comprometendo a qualidade do ensino. Por isso, é imprescindível que os investimentos em infraestrutura tecnológica para o ensino híbrido sejam acompanhados de políticas públicas que priorizem a valorização do professor, garantindo que ele tenha as condições adequadas para ensinar com excelência e contribuir para o sucesso educacional no Brasil. O uso do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) pode ser um instrumento chave para garantir esses investimentos, mas é necessário que a aplicação dos recursos seja transparente e focada na real necessidade dos docentes e estudantes, conforme defendido por HIRATA (2011), que aponta a precarização do trabalho docente como um dos desafios a ser combatido. A introdução do ensino híbrido no novo modelo do ensino médio pode, portanto, ser uma estratégia valiosa para aliviar a sobrecarga docente, melhorar a qualidade de ensino e oferecer uma experiência de aprendizado mais flexível e interativa. No entanto, para que isso aconteça de maneira efetiva, é necessário um compromisso robusto com a formação dos professores e com o fornecimento de recursos tecnológicos adequados. A implementação do ensino híbrido deve ser apoiada por políticas públicas que priorizem o desenvolvimento profissional e o bem-estar dos educadores, garantindo que eles tenham as ferramentas necessárias para integrar o digital ao ensino de forma eficaz, sem que isso sobrecarregue ainda mais sua rotina de trabalho. O ensino híbrido tem se destacado como uma das principais inovações pedagógicas do século XXI, principalmente no contexto do ensino médio. Essa modalidade combina o ensino presencial tradicional com o aprendizado online, permitindo que os alunos se beneficiem do melhor dos dois mundos: a interação direta com o professor e os colegas em sala de aula, somada à flexibilidade do aprendizado remoto. A implementação do ensino híbrido, conforme destacado O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 16 por Damião de Souza Santos, tem o potencial de promover uma transformação significativa na qualidade do ensino, oferecendo uma abordagem mais personalizada e adaptada às necessidades de cada estudante. A proposta de ensino híbrido no ensino médio visa à utilização de tecnologias para tornar o processo de aprendizagem mais dinâmico e eficiente. A integração de ambientes virtuais de aprendizagem com o ensino presencial proporciona aos alunos maior autonomia, ao mesmo tempo em que mantém a orientação constante do educador. Santos enfatiza que, ao adotar essa abordagem, os professores podem otimizar seu tempo e seu trabalho pedagógico, além de estimular o envolvimento ativo dos estudantes no processo de aprendizagem. Ao misturar momentos de aula presencial com o uso de ferramentas digitais, o ensino híbrido cria um ambiente mais colaborativo e interativo, essencial para o desenvolvimento do aprendizado no contexto contemporâneo. Simone Helen Drumond Ischkanian, em sua análise sobre a educação disruptiva, destaca que o ensino híbrido pode ser considerado uma forma de "inovação disruptiva" no sistema educacional. Essa inovação vai além de simples mudanças tecnológicas, buscando transformar a estrutura e a metodologia do ensino, alinhando-se às novas necessidades do século XXI. O conceito de blended learning (ensino misto) permite que a educação se aproxime mais das exigências do mercado de trabalho e das habilidades exigidas na sociedade digitalizada. Ischkanian argumenta que, ao proporcionar uma combinação entre métodos tradicionais e modernos, o ensino híbrido prepara os estudantes para um mundo em que a adaptação a novas tecnologias e métodos de trabalho será cada vez mais necessária. Os impactos do ensino híbrido na qualidade de ensino dependem de uma série de fatores, incluindo o investimento em infraestrutura adequada, formação contínua dos professores e um planejamento cuidadoso de como as tecnologias serão integradas ao currículo. É essencial que as escolas invistam em recursos tecnológicos e capacitação docente para garantir que o uso dessas ferramentas seja eficiente, é fundamental que os educadores recebam o suporte necessário para lidar com a transição para esse modelo e para adaptar suas práticas pedagógicas à realidade digital, garantindo que a tecnologia seja um meio para melhorar a aprendizagem e não um fim em si mesma. O ensino híbrido, ao se configurar como uma inovação disruptiva, tem o potencial de aprimorar significativamente a qualidade do ensino médio no Brasil. Ao combinar flexibilidade, personalização e tecnologia, ele cria novas oportunidades de aprendizado para os alunos e amplia as possibilidades pedagógicas para os educadores. No entanto, seu sucesso dependerá do compromisso do poder público em garantir recursos, capacitação docente e uma infraestrutura que O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 17 suporte adequadamente essa mudança, criando um ambiente educacional mais inclusivo e preparado para os desafiosdo futuro. 2.7 A PRESSÃO POR RESULTADOS EM EXAMES NACIONAIS A pressão por resultados em exames nacionais, como o ENEM, tem sido uma questão recorrente no cenário educacional brasileiro, gerando intensificação no trabalho dos professores, especialmente no ensino médio. Essas avaliações são vistas como indicadores cruciais do desempenho das escolas e da qualidade da educação, o que coloca uma grande responsabilidade sobre os educadores. O impacto dessa pressão pode ser observado em diversas áreas, incluindo a rotina dos professores, a gestão do tempo e o aumento da carga de trabalho. O ENEM e outras avaliações nacionais não apenas exigem que os alunos estejam bem preparados, mas também que os professores adaptem seus métodos de ensino para atender às exigências desses exames, muitas vezes com foco na memorização e resolução de questões objetivas. Esse cenário leva a uma intensificação das atividades pedagógicas, com os educadores sendo constantemente desafiados a melhorar os resultados dos alunos, o que agrava a sobrecarga de trabalho. Garcia e Anadon (2009) destacam que essa intensificação do trabalho docente é um reflexo da pressão por resultados, que implica na exigência de um desempenho cada vez mais elevado por parte dos educadores. A pressão por resultados, que se reflete tanto nas escolas quanto nas famílias e comunidades, acaba por criar um ambiente de trabalho cada vez mais estressante para os docentes. Além da carga de preparação de aulas, correção de atividades e participação em reuniões pedagógicas, os professores precisam dedicar tempo extra à preparação para os exames, focando principalmente em conteúdos específicos que serão cobrados nas provas. Isso resulta em um ciclo de autointensificação, onde os próprios professores se veem obrigados a aumentar ainda mais sua carga de trabalho para atender a essas demandas, muitas vezes sem o devido reconhecimento ou suporte institucional. Guerreiro et al. (2016) observam que os professores enfrentam uma sobrecarga de trabalho, com impacto direto em sua saúde física e mental, e uma crescente pressão para melhorar os resultados acadêmicos. A pressão por resultados pode afetar a saúde mental e física dos educadores, uma vez que eles são continuamente cobrados por desempenhos cada vez mais altos, enquanto enfrentam condições de trabalho frequentemente desfavoráveis, como falta de recursos, sobrecarga de alunos e jornadas extensas. Esse contexto pode levar ao desgaste do profissional e, consequentemente, ao comprometimento da qualidade do ensino, pois a pressão excessiva pode diminuir a capacidade dos docentes de inovar e de adotar práticas pedagógicas mais eficazes e criativas, como destacado O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 18 por Hargreaves (1995, 2005), que aponta a intensificação do trabalho docente como um fator que prejudica a qualidade da educação. É essencial que as políticas públicas educacionais reconheçam o impacto da pressão por resultados em exames nacionais sobre a carga de trabalho dos professores e busquem soluções para equilibrar essa demanda. A valorização do trabalho docente, o investimento em formação contínua e em melhores condições de trabalho, além de uma abordagem mais holística na avaliação da qualidade educacional, são passos fundamentais para reduzir a sobrecarga dos professores e garantir um ambiente de aprendizagem mais saudável e produtivo. 2.8 OS DESAFIOS NA GESTÃO DO TEMPO E EQUILÍBRIO VIDA PROFISSIONAL E PESSOAL DO PROFESSOR A sobrecarga de trabalho docente tem se configurado como um dos principais obstáculos para os professores conseguirem equilibrar suas responsabilidades profissionais com suas vidas pessoais e familiares. A intensificação das demandas, decorrente da pressão para alcançar melhores resultados acadêmicos, da gestão de turmas numerosas e da implementação de novas políticas educacionais, como o Novo Ensino Médio, exige que os docentes dediquem mais horas ao trabalho, frequentemente comprometendo o tempo destinado à família e ao descanso. Esse cenário de sobrecarga reflete-se diretamente na saúde e bem-estar dos educadores, uma vez que, como observam Araújo, Pinho e Masson (2019), a pressão constante para atender às múltiplas responsabilidades profissionais gera estresse, ansiedade e cansaço físico e mental. Muitos professores acabam por levar trabalho para casa, onde continuam planejando aulas, corrigindo atividades e preparando conteúdos, o que resulta na diminuição da qualidade de vida fora do ambiente escolar. Isso impacta a sua capacidade de manter um equilíbrio saudável entre o trabalho e a vida pessoal, afetando também as relações familiares e o cuidado com a saúde. A intensificação do trabalho docente, associada à escassez de recursos, como defende Barbosa (2018), pode gerar um ciclo de desgaste que prejudica não apenas o desempenho profissional, mas também a saúde mental e física dos professores. Com isso, muitos profissionais se veem forçados a sacrificar seu bem-estar pessoal e familiar para atender às demandas do sistema educacional, o que compromete sua qualidade de vida e sua capacidade de se engajar de forma plena com os alunos. A pressão por resultados, tanto no cumprimento de metas educacionais quanto nos exames nacionais, tem um impacto adicional sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. De acordo com Alves e Pinto (2011), a carga de trabalho cada vez maior e a remuneração deficiente agravam esse cenário, levando muitos docentes a se afastarem das atividades extracurriculares e do lazer para compensar a falta de tempo. Este fenômeno está intimamente O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 19 ligado à precarização das condições de trabalho, o que, conforme Boris (2014), amplia ainda mais as desigualdades entre o trabalho doméstico e o trabalho remunerado, especialmente para as professoras, que muitas vezes precisam lidar com as expectativas de desempenho no trabalho e as responsabilidades familiares simultaneamente. Para que a educação no Brasil possa avançar e proporcionar melhores resultados, é fundamental que se implementem políticas públicas que considerem as condições de trabalho dos professores, incluindo uma melhor distribuição das responsabilidades profissionais e um maior reconhecimento do valor do trabalho docente. Isso envolve, entre outras medidas, o investimento em formação contínua, o aumento da remuneração, a oferta de infraestrutura adequada e o apoio para a gestão do tempo, possibilitando que os educadores consigam conciliar suas vidas pessoais com as exigências profissionais. 2.9 POLÍTICAS PÚBLICAS EFICAZES PARA APOIAR OS PROFESSORES: QUANDO O BRASIL IMPLEMENTARÁ MUDANÇAS REAIS? As políticas públicas voltadas para a educação no Brasil têm se mostrado insuficientes para aliviar a sobrecarga de trabalho dos professores, que enfrentam uma realidade de exaustão e sobrecarga, refletindo diretamente na qualidade do ensino. A falta de apoio estrutural, de investimentos adequados e a pressão por resultados em exames nacionais, como o ENEM, exigem uma reflexão crítica sobre a necessidade de mudanças reais na gestão educacional. As políticas públicas atuais precisam não apenas garantir uma remuneração mais justa para os professores, mas também proporcionar melhores condições de trabalho, que incluam o desenvolvimento de programas de formação continuada e o fornecimento adequado de recursos tecnológicos. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE, 2012) destaca a precarização das condições de trabalho dos professores, com muitas escolas públicas carecendo de infraestrutura básica. Além disso, a sobrecarga de trabalho e a intensificação das atividades, como apontam os estudos de Dal Rosso (2010),geram um ciclo de exaustão física e mental nos docentes, impactando diretamente na sua saúde e no seu desempenho profissional. A precarização do trabalho também é observada na demissão de educadores em licença saúde, como relatado pelo CPERS-Sindicato (2019), o que agrava ainda mais o cenário de estresse e cansaço que os professores enfrentam. Para que as políticas públicas se tornem eficazes, é necessário que haja uma alocação adequada de recursos, tanto financeiros quanto materiais. O investimento em infraestrutura é crucial para garantir um ambiente de trabalho digno e funcional. Além disso, a implementação de programas de formação continuada, como sugerido por Cunha (2010), é uma estratégia O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 20 fundamental para a atualização dos docentes frente às novas metodologias de ensino e tecnologias educacionais, sem que isso acarrete uma sobrecarga adicional de trabalho. A formação dos professores deve estar em sintonia com as exigências do sistema educacional e, como defendem Ischkanian e Serafim (2025), o novo Ensino Médio precisa ser repensado para que sua implementação não seja uma carga adicional sobre os educadores. As reformas educacionais, quando mal implementadas, podem agravar ainda mais a pressão sobre os docentes, gerando mais trabalho e, consequentemente, prejudicando a qualidade do ensino. A reforma do Ensino Médio, conforme Ferretti (2018), carece de uma análise mais profunda sobre suas implicações na prática pedagógica e nas condições de trabalho dos professores. Em um cenário ideal, as políticas públicas deveriam priorizar a melhoria das condições de trabalho dos professores, garantindo que tenham tempo e recursos adequados para se dedicarem à sua profissão sem comprometer sua saúde ou sua vida pessoal. Isso inclui a revisão das estratégias de gestão do tempo, oferecendo aos professores a possibilidade de um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, como apontam os estudos de Ferreira (2019) e Dal Rosso (2006). As autoras Ischkanian e Serafim (2025), destacam que a implementação concreta de tais políticas requer a participação ativa dos educadores, que devem ser ouvidos na construção de soluções para os problemas enfrentados nas escolas. Somente com um olhar atento às necessidades reais dos professores e um comprometimento sério do poder público será possível alcançar mudanças que realmente promovam a valorização e a melhoria da educação no Brasil. 2.10 O NOVO ENSINO MÉDIO: UM RETROCESSO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA POR NATALI MARIA SERAFIM O Novo Ensino Médio, instituído pela reforma educacional no Brasil, tem sido alvo de intensos debates sobre seus impactos na qualidade da educação e nas condições de trabalho dos docentes. A proposta de flexibilização curricular, que visa atender às demandas do mercado de trabalho e proporcionar uma formação mais personalizada aos estudantes, tem gerado questionamentos quanto à sua efetividade e aos resultados para a educação pública no país. Diversos autores têm abordado as implicações dessa reforma, destacando tanto suas falhas estruturais quanto as promessas não cumpridas de melhoria no ensino médio brasileiro. A análise realizada por autores como Darós et al. (2023), Ferretti (2018) e Silva, Possamai e Martini (2020) revela que a reforma, apesar de sua intenção de modernização, pode ser considerada um retrocesso. A flexibilização do currículo, que busca oferecer itinerários formativos, acaba por ignorar a realidade das escolas públicas, muitas das quais carecem de infraestrutura e recursos adequados. As condições de trabalho dos professores também são O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 21 negligenciadas, o que resulta em sobrecarga de tarefas, sem o devido suporte pedagógico e profissional. Nesse contexto, a proposta não leva em conta as desigualdades regionais e sociais que afetam diretamente a educação, agravando ainda mais as disparidades entre escolas públicas e privadas, além de sobrecarregar os docentes, que enfrentam um cenário de precarização e falta de valorização. A importância das políticas públicas no processo de formação dos estudantes e na construção de uma educação de qualidade é, portanto, um ponto central dessa discussão. A implementação de uma reforma eficaz exige investimentos sólidos em infraestrutura escolar, valorização dos profissionais da educação e o desenvolvimento de políticas públicas que considerem as reais condições de trabalho dos professores e as necessidades das escolas. Como afirmam Silva e Costa (2022), é essencial que as políticas educacionais sejam adaptadas para promover a permanência dos alunos e o sucesso escolar, não apenas no papel, mas também na prática, por meio de um suporte institucional e governamental consistente. A análise crítica da reforma do Novo Ensino Médio e suas implicações para a educação brasileira aponta a necessidade urgente de repensar as políticas educacionais, levando em consideração as especificidades regionais e as condições estruturais do sistema educacional, para garantir uma formação mais justa e equitativa para todos os estudantes. No entanto, essa reflexão não pode se limitar apenas às mudanças curriculares ou às diretrizes pedagógicas propostas pela reforma. Um aspecto fundamental que precisa ser destacado e priorizado é a valorização do profissional da educação, um fator que, infelizmente, tem sido negligenciado em muitas das discussões sobre a reforma. O docente é, sem dúvida, o pilar central do processo educacional. São os professores que estão na linha de frente, enfrentando a realidade das escolas, lidando diretamente com os desafios diários de ensino e aprendizagem. No entanto, apesar de sua importância indiscutível, os profissionais da educação continuam sendo sistematicamente desvalorizados, seja pela precarização das condições de trabalho, pela sobrecarga de atividades, seja pela falta de reconhecimento e investimento na formação contínua. A reforma do Novo Ensino Médio, ao intensificar a carga horária, sem o devido suporte institucional e a capacitação necessária, só agrava esse cenário. Para que as políticas educacionais se tornem realmente eficazes e transformadoras, é essencial que se invista de forma significativa na valorização dos professores. Isso inclui a melhoria nas condições de trabalho, com a garantia de um ambiente adequado, o apoio pedagógico necessário e a redução das tarefas burocráticas que sobrecarregam os docentes. Além disso, é preciso assegurar que os professores tenham acesso a uma formação continuada de qualidade, que O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 22 os capacite a lidar com as novas exigências do currículo, sem perder de vista o contexto real das escolas e das necessidades dos estudantes. A valorização do professor não se resume ao aumento salarial, embora este também seja um ponto importante. Ela envolve, sobretudo, o reconhecimento do seu papel como agente transformador da sociedade e a garantia de que ele tenha os recursos e as condições necessárias para desempenhar sua função com dignidade. Quando os professores são bem apoiados e valorizados, todo o sistema educacional ganha, refletindo positivamente na qualidade do ensino e, consequentemente, no sucesso dos estudantes. Ao repensar as políticas educacionais, deve-se compreender que a valorização do docente é um componente essencial para a construção de uma educação de qualidade. Só assim será possível garantir uma formação mais justa, equitativa e, sobretudo, eficaz, que não apenas atenda às exigências do mercado de trabalho, mas que prepare os alunos de forma integral para os desafios do futuro, sem aprofundaras desigualdades educacionais já existentes. O Novo Ensino Médio, implementado com a proposta de flexibilização curricular e adaptação às necessidades do mercado de trabalho, tem gerado sérias críticas tanto entre professores quanto entre estudantes. Segundo o Ministério da Educação (MEC, 2022), o objetivo da reforma é proporcionar uma formação mais personalizada para os alunos, aumentando as possibilidades de escolha dentro de um currículo diversificado e permitindo que eles se aprofundem em áreas de seu interesse. No entanto, essa flexibilidade, sem uma base sólida de apoio e estrutura, tem gerado um efeito inverso, afetando negativamente tanto a qualidade do ensino quanto a motivação dos docentes. A reforma do Ensino Médio no Brasil, implementada com o objetivo de modernizar e tornar o ensino mais alinhado às necessidades do século XXI, tem sido alvo de críticas que destacam um possível retrocesso em diversos aspectos. A proposta do Novo Ensino Médio, que altera profundamente a estrutura curricular e propõe novas diretrizes para a formação dos estudantes, tem gerado controvérsias, especialmente entre os profissionais da educação. A principal crítica, conforme abordada por Natali Maria Serafim, é que a reforma, ao priorizar mudanças curriculares sem considerar as condições de trabalho dos professores e a realidade das escolas, acaba por agravar as desigualdades no sistema educacional brasileiro. A proposta de flexibilizar o currículo e criar itinerários formativos para os alunos pode até ser vista como uma tentativa de diversificação do ensino, mas, na prática, ela ignora o fato de que muitas escolas públicas não possuem a infraestrutura necessária para implementar essas mudanças de forma eficiente, o modelo do Novo Ensino Médio exige dos docentes uma adaptação O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 23 que, em muitos casos, não é acompanhada de formação continuada adequada e de suporte institucional. A reforma não leva em consideração que a intensificação das demandas, como a ampliação da carga horária e a necessidade de adaptação ao novo currículo, ocorre em um contexto de precarização do ensino público. Professores, frequentemente sobrecarregados com atividades administrativas e falta de apoio pedagógico, acabam tendo sua capacidade de ensinar comprometida. O foco excessivo no desempenho dos alunos em exames como o ENEM, sem o devido suporte às condições de trabalho dos docentes, contribui para o desgaste físico e emocional dos profissionais, prejudicando a qualidade do ensino oferecido. Serafim também aponta para o fato de que a reforma não resolve, de fato, os problemas estruturais do Ensino Médio brasileiro. As disparidades entre as escolas públicas e privadas se tornam ainda mais evidentes com a implementação do Novo Ensino Médio. A falta de recursos nas escolas públicas, a escassez de materiais didáticos adequados e a ausência de programas de formação contínua para os professores dificultam a realização dos objetivos propostos pela reforma. Ao mesmo tempo, as escolas privadas, que têm acesso a recursos financeiros e pedagógicos, conseguem adaptar-se mais facilmente às novas exigências curriculares, criando um abismo ainda maior entre as realidades educacionais do Brasil. A autora ressalta que o Novo Ensino Médio, ao não considerar a realidade dos docentes e dos estudantes, acaba por contribuir para a manutenção de uma educação excludente. O discurso de modernização e flexibilização do currículo, em muitos casos, esconde o fato de que o sistema educacional, especialmente o público, carece de investimentos em infraestrutura, formação de professores e valorização profissional. A proposta de flexibilização curricular e itinerários formativos, sem uma base sólida de apoio e recursos, não pode ser vista como uma verdadeira solução para os problemas enfrentados pelas escolas públicas. A crítica de Natali Maria Serafim aponta que o Novo Ensino Médio, ao invés de representar um avanço, pode ser interpretado como um retrocesso em muitos aspectos. A falta de atenção às condições de trabalho dos professores e a ausência de investimentos reais na educação pública contribuem para o agravamento das desigualdades educacionais no país. Para que a reforma seja efetiva, é necessário que se estabeleçam políticas públicas que valorizem o trabalho docente, invistam na infraestrutura das escolas e promovam a formação continuada dos educadores. Somente assim será possível garantir uma educação de qualidade para todos os estudantes, independentemente da rede de ensino em que estão inseridos. O MEC (2022) argumenta que a implementação do Novo Ensino Médio visa tornar os estudantes mais preparados para os desafios do mundo contemporâneo, com foco nas O DESAFIO DA SOBRECARGA DOCENTE NO ENSINO MÉDIO: IMPACTOS NA QUALIDADE DE ENSINO E NO BEM-ESTAR DO EDUCADOR. Página 24 competências e habilidades exigidas pelo mercado de trabalho e pela sociedade. Contudo, a crítica de muitos professores é que a carga de trabalho aumentou consideravelmente devido à exigência de novos planos de aula e à adaptação das atividades pedagógicas. Isso se soma à burocracia imposta pelas novas normas, que, ao invés de simplificar o processo educativo, acabam sobrecarregando os educadores e prejudicando o tempo dedicado ao ensino de fato. Segundo a autora Natali Maria Serafim, a materialização do trabalho docente diverge muito do que os documentos oficiais almejam para a educação do estado, a autora destaca que: “Acompanhando a materialização do trabalho docente, orientando e observando os planejamentos, observando o aprendizado dos alunos, planejando formações e nas discussões nestas formações e diariamente na escola, pude acompanhar e vivenciar de forma mais intensa as consequências da intensificação do trabalho docente, principalmente do Ensino Médio noturno. Os professores, em sua maioria, possuem também uma carga horária no período diurno, assumem aulas em diversas escolas, não conseguem ter uma estabilidade em uma única escola, as próprias equipes de professores não se conhecem, muito menos conseguem realizar um planejamento em conjunto. A equipe gestora, também defasada em pessoal, não consegue fazer essa intermediação entre os professores. A formação integral dos alunos, a superação do etapismo com um percurso formativo curricular planejado de forma coletiva, fica muito aquém do almejado pelos documentos elaborados para a educação de Santa Catarina.” (SERAFIM, 2025 escritos fidedignos da autora) Devido a uma carga intensa de trabalho acompanhada de burocracias, o professor não consegue acompanhar as discussões realizadas sobre a educação. Na implementação do Novo Ensino Médio, por exemplo, poucos acompanharam as formações e os objetivos e finalidades dos componentes curriculares, muito menos conseguiram colocar em prática em suas aulas o que está presente no Currículo Base do Território Catarinense. A análise crítica da reforma do Ensino Médio, conforme discutida por diversos autores, é ainda mais enriquecida quando consideramos a participação ativa de profissionais da educação no debate sobre suas implicações. Um exemplo disso é o envolvimento da autora, Natali Maria Serafim, que faz parte de um grupo de discussão no WhatsApp composto por cerca de 200 profissionais da educação. Nesse espaço, educadores de diferentes regiões do Brasil têm se reunido para debater as críticas ao Novo Ensino Médio e refletir sobre as condições de trabalho dos docentes, que muitas vezes são desvalorizadas em diversos aspectos. Esse grupo serve como um ponto de encontro para os profissionais expressarem suas angústias e compartilhar suas experiências sobre o impacto da reforma no cotidiano escolar. As discussões dentro deste grupo de WhatsApp frequentemente abordam a carga