Prévia do material em texto
11
Questão 1
01 Quando viva, Quitéria Campo Largo gostava de ficar às vezes contemplando o céu da noite –
“garimpando estrelas”, como ela própria costumava dizer. Era uma espécie de jogo divertido
que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as
constelações – Órion, o Cão Maior, o Sagitário, o Triângulo Austral,
05 o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul, que por misteriosas artes do coração e da
memória, ela não considerava uma constelação universal, mas parte do patrimônio brasileiro.
Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas
humanas, ela procurava no céu o Escorpião e, se ele já estivesse visível, localizava a estrela
Antares, pensava no seu diâmetro mais de
10 quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronômicas com as
mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo
consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida.
VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 238-239.
Considerando o Texto, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).
01. Os verbos do Texto estão predominantemente no tempo pretérito imperfeito do indicativo,
delimitando claramente o início e o término de cada ação, em uma sequência cronológica típica dos
textos descritivos.
02. As orações “Quando viva” (linha 1) e “Quando lhe acontecia [...]” (linha 7) introduzem, no texto,
duas referências temporais que correspondem a épocas distintas da vida de Quitéria Campo Largo.
04. A “espécie de jogo divertido” (linhas 2-3) a que se refere o narrador é a “garimpagem de
estrelas”, uma distração que fazia com que Dona Quitéria esquecesse os problemas da política e se
dedicasse ao estudo da astronomia.
08. O vocábulo que, nas duas ocorrências destacadas no texto (linhas 3 e 5), está funcionando como
um pronome relativo.
16. A expressão destacada em “[...] de certo modo a aproximava mais de Deus” (linha 3) equivale
em significado a “certamente”.
32. Em “Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas
humanas, ela procurava no céu o Escorpião [...]” (linhas 7-8), os pronomes destacados se referem a
Quitéria Campo Largo.
Gabarito:
08 + 32 = 40
Resolução:
Os verbos no pretérito imperfeito do indicativo, no texto, indicam que as ações descritas não têm
início e término delimitados. As orações "Quando viva..." e "Quando lhe acontecia..." introduzem no
texto referências à mesma época da vida de Dona Quitéria (período em que era viva, em oposição à
segunda parte do livro, em que está morta). Além disso, a distração da personagem de "garimpar as
estrelas" não faz com que ela se esqueça da política (já que considera o Cruzeiro do Sul um
patrimônio brasileiro e não uma constelação universal. A expressão "de certo modo" não significa
"certamente", e sim "de alguma forma".
Questão 2
Essa mocidade de hoje...
1 Realmente não está fácil educar filhos hoje em dia. Não ouvem nossos conselhos e seguem caminhos
estranhos, geralmente perigosos. Coisas do fim de século, explicam. Meu filho mais velho, por exemplo.
Deu de cheirar. Não entendo onde pegou esse vício terrível. Acredito que foi na leitura de velhos romances
4 portugueses, ele, um apaixonado por primeiras edições.
Minha mulher o defende. Diz que não faz mal. Brigamos muito por causa disso. Um cunhado, médico,
também assegura que não prejudica a saúde. É quando muito um mal social, insiste. Pode até ser, concordo,
afinal milhares de jovens estão fazendo o mesmo em todo o mundo, mas quem aguenta uma pessoa
espirrando
8 o tempo todo? Até nas igrejas ele abre sua caixa (que não sei como chama) e aspira o rapé. Tento proibir:
– Meu filho, você vive molhando os outros, pregando sustos, irritando. Abandone esse vício
espalhafatoso, incômodo. Seria melhor fumar charuto.
Ele nem liga, sempre espirrando, em conduções, velórios, conferências, teatros, em toda parte. Não
12 consegue se livrar desse pó maldito. É um dependente. Quando vai pedir emprego, para desinibir, cheira.
– Estou me apresentando para... atchim!
– O senhor está resfriado?
– Não. – Atchim, atchim, atchim etc.
16 Sai, claro, desempregado como entrou. Espirro não é forma de comunicação, não é argumento, não vale
como currículo.
Apaixonou-se e foi pedir a mão da moça em casamento. Disseram-me que foram onze atchins
consecutivos. Uns altos, outros baixos, uns fragmentados, outros explosivos, mas tudo muito monótono. O
20 futuro sogro até que se conteve a princípio, mas quando o viu tirar automaticamente do bolso a caixa de
rapé,
perguntou:
– O senhor é viciado nisso?
– Sou – ele confessou de cabeça baixa.
24 E o sogro disse não.
Outro filho meu também está se desviando. Evita pais e parentes. Não gosta de estudar, de ler, mora no
mundo da Lua. Noite alta, salta a janela de casa e desaparece. Descobrimos isso e o forçamos a contar o que
faz na rua até madrugada. Negou-se peremptoriamente. Ameaçou até suicidar-se com gás se insistíssemos.
28 Mas não recuamos e procuramos descobrir o que leva esse insensato a sumir dessa maneira.
– Pra mim tem música nisso – suspeitou a mãe.
– Música? É, pode ser – admiti. – Ele anda tão alheio a tudo...
Tinha razão. Descobrimos. O maroto anda fazendo serenata! Meu filho, seresteiro! Comprou um violão
32 às escondidas! Agora vive fazendo barulho ao pé de janelas, nas madrugadas, despertando pessoas que
precisam acordar cedo para o trabalho. E exposto alucinado ao sereno, à garoa, ao chuvisqueiro, que tão mal
fazem aos pulmões. Muitos seresteiros, sabe-se, morrem de pneumonia, isso quando – eles que se cuidem –
não são abatidos por tiros de garrucha por pais, irmãos e namorados das moças que pretendem agradar. Ou
36 mesmo por vizinhos furiosos. As gazetas sempre trazem casos assim.
E por fim tem o menorzinho. Esse se viciou nessa tal de lanterna mágica. Conhecem, não? Chegou
recentemente da Europa e está à venda nas lojas do centro. É um aparelho óptico que amplia e projeta
imagens
iluminadas. O menino fica numa sala escura com amiguinhos o dia inteiro vendo essas imagens. Jaulas de
40 macacos, parques de diversões, trens, balões, banquetes, caras de reis e navios. Imagens coloridas que
parecem
ter dimensões e movimento. A impressão é que os garotos esquecem o lar, se afastam do mundo, rompem
com
a realidade. Podem imaginar uma coisa assim? O aparelho causa hipnose, fixação mórbida, idiotiza, e talvez
possa cegar. Li que a lanterna mágica, projetando cerca de dez imagens por minuto, acaba causando sérias
44 perturbações no cérebro dos jovens, levando inclusive ao enlouquecimento. Sim, ao enlouquecimento!
Pó que vicia, ritmos antissociais, máquinas diabólicas. Caluda!
Este fim de século ameaça destruir nossos jovens.
São Paulo de Piratininga, 1893.
REY, Marcos. Essa mocidade de hoje... In: O coração roubado e outras crônicas. São Paulo: Ática,
2003, p. 50-53. (Para Gostar de Ler, v. 19)
No segundo parágrafo, os elementos de coesão textual destacados – “o”, “disso”, “ele” – referem-se,
respectivamente, a:
o (linha 5) disso (linha 5) ele (linha 8)
a) “Meu filho mais velho” (linha
2)
“Deu de cheirar” (linha 3) “Um cunhado, médico” (linha
5)
b) “esse vício terrível” (linha 3) “Leitura de velhos romances”
(linha 3)
“Meu filho mais velho” (linha
2)
c) “Meu filho mais velho” (linha
2)
“Deu de cheirar” (linha 3) “Meu filho mais velho” (linha
2)
d) “esse vício terrível” (linha 3) “Leitura de velhos romances”
(linha 3)
“Um cunhado, médico” (linha
5)
e) “esse vício terrível” (linha 3) “Deu de cheirar” (linha 3) “Um cunhado, médico” (linha
5)
Gabarito:
C
Resolução:
No segundo parágrafo, os elementos de coesão textual destacados "o", "disso" e "ele" se referem,
respectivamente, a "Meu filho mais velho", "Deu de cheirar" e "Meu filho mais velho".
Questão 3
5
Com o Ano Internacional da Astronomia, em 2009, muita gente se perguntou: “mas o que isso
tem a ver com
minha vida no dia a dia?”
E a resposta é: mais do que pode parecer. A começar pelo Sol.ou F para as falsas.
( ) No trecho "Para humanos, inclusive" (1º parágrafo), o termo destacado acrescenta a ideia de
que o jogo Jeopardy! é tão complexo para as máquinas quanto para os humanos.
( ) No trecho "De um lado, há os que vibram (...)" (3º parágrafo), a expressão destacada sugere a
existência de um único ponto de vista sobre o confronto entre ser humano e computador.
( ) No trecho "Enquanto os defensores da inteligência artificial comemoravam (...)" (5º parágrafo), a
palavra em destaque poderia ser substituída por "ao mesmo tempo em que", sem prejuízo de sentido.
( ) No trecho "Se quisermos reduzir (...)" (6º parágrafo), o conectivo destacado sinaliza relação de
comparação; daí o verbo que o sucede aparecer no modo subjuntivo.
( ) No trecho "Falha dele? Não, dos programadores – a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA"
(7º parágrafo), o travessão poderia ser substituído por uma conjunção conclusiva, como "portanto",
sem prejuízo de sentido.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA.
A) F, V, V, F, V.
B) V, F, V, V, V.
C) V, F, F, F, V.
D) F, V, V, V, F.
E) V, F, V, F, F.
Gabarito:
E
Resolução:
A segunda afirmação é incorreta, pois a expressão "de um lado" sugere a existência de "um outro
lado", isto é, de múltiplos pontos de vista sobre o confronto entre ser humano e computador. A quarta
afirmação está incorreta, pois o conectivo "se" sinaliza relação de condição entre as orações, e o teor
condicional exige o uso do modo subjuntivo. A quinta afirmação também é falsa, pois o travessão
insere uma explicação e, portanto, deve ser substituído por uma conjunção explicativa (como "pois")
e não conclusiva (como "portanto").
Questão 20
Como será a inteligência artificial depois do computador Watson
Watson, o novo supercomputador da IBM, assombrou o mundo ao se comportar como um humano.
Mas as máquinas ainda têm um obstáculo pela frente antes de dominar o mundo: a nossa burrice
por Pedro Burgos e Alexandre Versignassi
1
"Watson derrota a humanidade." Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um
computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no
Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Pudera: Jeopardy! é um jogo
complexo. Para humanos, inclusive. São perguntas furtivas, tipo: "Isso é só um nariz sangrando!
Você não tem essa doença genética que já foi endêmica entre a realeza europeia. Qual é a
doença?"; Watson acertou: hemofilia. Acertou essa e outras dezenas de perguntas capciosas – e,
como seus concorrentes humanos, não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à
disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e
uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão
bem programado, só isso.
2
Para responder perguntas nessa linha, um computador precisa entender a linguagem falada e ter
um raciocínio capaz de fazer associações inesperadas. Até fevereiro, isso era exclusividade de
humanos. Mas e agora, que perdemos para esse ser gelado? Dá para dizer que a inteligência
artificial está se equiparando à nossa inteligência?
3
O debate está pegando fogo. De um lado, há os que vibram com Watson e similares e acreditam
que os computadores vão superar logo a inteligência humana. A outra corrente diz que, por mais
complexo e surpreendente que seja o feito de um computador, ele nunca será comparável ao de
uma pessoa. Seriam duas inteligências distintas.
4
O termo "computador" denunciaria isso, por sinal. Até a metade do século 20, "computador" era
uma profissão. Eram pessoas responsáveis por fazer cálculos longos – como pegar um monte de
dados astronômicos e calcular quando um cometa passaria de novo pela Terra. Pessoas
inteligentes, claro. Mas e hoje? Bom, hoje inteligente é quem bola o programa para que o
computador resolva as contas.
5
Toda vez que conseguimos delegar uma função para máquinas, a tarefa perde a nobreza. Isso
aconteceu até na derrota do campeão Kasparov para Deep Blue em 1997. Enquanto os
defensores da inteligência artificial comemoravam, os da humanidade saíram-se nessa linha:
"Bom, xadrez é só um jogo de análise estatística bruta. Não requer inteligência de verdade".
Com a vitória no Jeopardy!, pode acontecer a mesma coisa: "Computadores vão bem? Ah, o jogo
não é nada de mais".
6
Mas e se habilidades que consideramos pessoais e intransferíveis da nossa espécie puderem ser
executadas por máquinas sofisticadas? Como ficamos? Se quisermos reduzir as habilidades do
Homo sapiens a instruções de programação, o talento para a poesia, por exemplo, pode ser
descrito como um programa capaz de achar uma boa combinação de palavras. E daria para
definir um líder político como um sujeito com um bom software para analisar riscos e
oportunidades.
7
Não é fantasia. O próprio Watson pode servir para tarefas bem mais humanas que
responder perguntas. Programado adequadamente, ele pode fazer diagnósticos com mais
precisão que um médico – da mesma forma que uma calculadora de bolso é mais rápida que
qualquer gênio da matemática. O supercomputador tem como ouvir relatos orais de pacientes e
cruzar os sintomas com o banco de dados de toda a literatura médica em segundos. Mas isso
torna os humanos dispensáveis? Não. Por mais que uma máquina consiga feitos mirabolantes,
ela vai ser sempre uma ferramenta que depende de humanos. Um "computador médico" precisa
de médicos para ser programado. Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o
próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual
categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a
resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes
de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para
dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores – a Fórmula 1 é solenemente ignorada
nos EUA.
8
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só
alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do
martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com
supercomputadores também. A vitória de um é uma vitória da humanidade. E sempre será,
mesmo no dia em que uma máquina puder escrever um texto como este bem melhor do que a
gente.
Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2011. (Adaptado.)
Quanto ao emprego das formas verbais destacadas, analise as afirmativas a seguir:
I. No trecho "Você não tem essa doença genética", o verbo ter não é acentuado por estar na forma
negativa ("não tem").
II. No trecho "as máquinas ainda têm um obstáculo pela frente", o acento circunflexo da forma verbal
justifica-se por ela estar na 3ª pessoa do plural.
III. No trecho "a inteligência artificial está se equiparando à nossa inteligência" (2º parágrafo), a
forma verbal indica que a ação expressa está em andamento, não foi concluída.
IV. Em "daria para definir um líder político (...)" (6º parágrafo), o uso do futuro do pretérito indica que
o fato expresso não se realizou e pode ou não vir a ser realizado.
V. No trecho "Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo (...)" (7º
parágrafo), a forma de pluralização do verbo tem relação com um tempo situado em momento ainda
por acontecer.
Está CORRETO somente o que se afirma em:
A) I, II e V.
B) I, III e IV.
C) II, III e IV.
D) II, IV e V.
E) III e V.
Gabarito:
C
Resolução:
A afirmação I está incorreta, pois o verbo "tem" não está acentuado porque o sujeito ("você") está no
singular (se estivesse no plural, o acento seria obrigatório). A afirmação V também está incorreta,
pois a forma plural "perguntaram" expressa um fato que já aconteceu, no tempo passado.A energia dessa estrela é
fundamental para a
Terra. A luz solar permite que você leia este artigo, tanto pela iluminação direta quanto pela
eletricidade, a energia
solar está por trás do ciclo hidrológico que permite a “geração” de energia elétrica, por exemplo.
Na verdade, a
10
energia solar é a fonte primária em todos os alimentos, a energia que você usa para pensar, para
se mover e mesmo
para seu carro se deslocar. A vida na Terra é sustentada pela pequena fração de energia
capturada da luz solar, seja
pela biomassa viva ou fossilizada, ou pela evaporação. Apenas uma minúscula fração de energia
vem de centrais
nucleares e uma fração de fonte geotérmica. E se o Sol se apagasse a biosfera sucumbiria em, no
máximo, poucas
semanas.
15
O fato de o Sol ter uma massa, nem muito grande nem muito pequena – uma estrela do tipo G2V
no linguajar
dos astrônomos – determina que ela seja estável em longos períodos de tempo e, por isso
mesmo, acolhedora para
a vida. A posição da órbita da Terra, a uma distância de 150 milhões de km do Sol, combinada ao
período de rotação
de cerca de 24 horas são condições para um fluxo de energia adequado à vida como a
conhecemos. Mas isso de
nada adiantaria se a esteira dos continentes não estivesse em contínuo movimento, reciclando o
CO2 da atmosfera
20
e formando um gigantesco termostato. O fato de estarmos vivendo aqui e agora depende da
conjugação de inúmeros
fatores astronômicos.
A Lua parece ter um papel menos importante para a vida, afora o efeito das marés para a vida
marinha nas
bordas continentais e a iluminação noturna para migrações animais. Mas, para a cultura humana,
o fato de a Terra ter
um satélite grande e próximo é importante. O tempo diário foi organizado com base no
movimento aparente de Sol.
25
Mas, em longas escalas de tempo, o calendário foi sistematizado com base nas fases da Lua.
Ainda hoje agrupamos
7 dias para formar a semana, por causa da duração das 4 fases, e 30 dias para formar o mês para
contar o ciclo
completo das fases.
Há milênios se percebeu que o ciclo das estações durava cerca de 12 ciclos lunares. As fases da
lua foram o
primeiro “computador” natural para organizar o calendário, tanto para fins agropecuários como
rituais em diferentes
30
culturas. Há 5 mil anos foram desenvolvidos calendários solares, mas as culturas de raízes mais
antigas ainda
utilizam calendários lunares. Nosso próprio calendário civil está repleto de festividades originadas
de fatos astronômicos
como Ano Novo, Natal, Páscoa, festas juninas, finados. Mas a presença da Lua no nosso cotidiano
vai muito além.
Você mora num edifício alto, atravessa viadutos e pontes todos os dias? Para construí-los é
necessário o uso
de cálculo integral e diferencial, criado por Newton para deduzir a força de atração gravitacional
da Terra sobre a Lua.
35
Você usa computadores, ou chips? Eles foram miniaturizados na corrida espacial para conquistar
a Lua. Sua
cozinha tem diversos apetrechos e alimentos processados que foram desenvolvidos para essa
viagem à Lua. E o que
seria da vida moderna sem os satélites artificiais? Como seria a telecomunicação, a supervisão
ambiental? Essa
tecnologia depende de cálculos astronômicos e de avanços devidos à conquista, cujos 40 anos
comemoramos em
2009. Não pretendemos dizer que esses conhecimentos fossem impossíveis na inexistência da
Lua. Mas eles
40
teriam sido mais difíceis de obter e certamente teriam aparecido mais tarde. O conhecimento é
dialético e se faz
com a interlocução de móveis materiais. A Lua, por ser tão visível e variável, toca o conhecimento
humano de forma
específica.
E as estrelas? Elas estão se apagando pela poluição luminosa. Para que serve iluminar o céu
noturno, além de
desperdiçar recursos tecnológicos e eliminar um recurso natural tão importante como o céu
estrelado?
45
Aprendemos muito interpretando a luz das estrelas e temos muito mais a aprender. Sabemos que
seus corações
de energia funcionam transformando o hidrogênio gerado no Big Bang em átomos mais pesados.
Cada tipo de
estrela é especializada em um tipo de átomo. Carbono e nitrogênio, por exemplo, que compõem
os seres vivos foram
plasmados por estrelas um pouco maiores que o Sol, extintas muito antes da formação do
Sistema Solar. O ferro
emergiu de estrelas 10-20 vezes mais pesadas que o Sol, mortas pelo menos há 12 bilhões de
anos. O oxigênio,
50
ainda mais velho, foi formado por estrelas de massa ainda maior. Elas se extinguiram há cerca de
13,5 bilhões de
anos.
Pode-se dizer que o céu está na Terra e isso é ainda mais verdadeiro quando descobrimos que a
água que
bebemos diariamente foi trazida por cometas que sobraram da formação de Júpiter e Saturno.
Sabíamos que a Terra
estava no céu desde a revolução copernicana, quando nossa intimidade com os planetas foi
reconhecida. Hoje,
sabemos que o céu está na Terra, tornando-nos íntimos das estrelas.
Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2009.
Disponível em: www.sciam.com.br. Acesso em: 20 dez. 2009.
Leia com atenção os trechos a seguir.
A) A posição da órbita da Terra, a uma distância de 150 milhões de km do Sol, combinada ao período
de rotação de cerca de 24 horas são condições para um fluxo de energia adequado à vida como a
conhecemos. Mas isso de nada adiantaria se a esteira dos continentes não estivesse em contínuo
movimento, reciclando o CO2 da atmosfera e formando um gigantesco termostato. (linhas 13-16)
B) Você usa computadores, ou chips? Eles foram miniaturizados na corrida espacial para conquistar
a Lua. Sua cozinha tem diversos apetrechos e alimentos processados que foram desenvolvidos para
essa viagem à Lua. E o que seria da vida moderna sem os satélites artificiais? Como seria a
telecomunicação, a supervisão ambiental? Essa tecnologia depende de cálculos astronômicos e de
avanços devidos à conquista, cujos 40 anos comemoramos também em 2009. (linhas 31-35)
Explique o emprego dos tempos verbais em A e B.
Gabarito:
Em A, o uso do presente do indicativo no primeiro período serve para expressar verdades universais,
constatadas pela ciência. O segundo período utiliza o futuro do pretérito ("adiantaria") no sentido de
formular uma possível ocorrência (inutilidade dos eventos citados no primeiro período) no caso de
não se cumprir uma certa condição expressa pelo uso do pretérito do subjuntivo ("estivesse").
Em B, no início do trecho, usa-se o presente do indicativo associado ao pretérito perfeito do
indicativo. O primeiro serve para expressar uma ação recorrente, habitual ("usa", "tem"), já o
segundo expressa ações concluídas no passado ("foram"). Na sequência, são utilizadas duas
perguntas com verbo no futuro do pretérito ("seria") para apontar hipóteses no caso de não terem
ocorrido algumas descobertas tecnológicas. O último período do trecho usa novamente o presente do
indicativo, sendo que o primeiro uso ("depende") expressa uma verdade científica e atemporal e o
segundo uso ("comemoramos"), um fato atual.
Questão 4
A globalização nos tornou guerreiros
01 O filósofo francês Luc Ferry faz reflexões sobre o mundo competitivo das empresas e mostra quais são os
dilemas do homem contemporâneo.
[...]
Na entrevista que concedeu da França para a VOCÊ S/A, Luc Ferry comenta a competição no mundo
corporativo
05 e analisa como a desconstrução de valores humanos tradicionais deu abertura para as pessoas
exercitarem e
ampliarem a individualidade. E afirma que é possível viver bem em tempos tão conflituosos.
V S/A: As empresas incorporam conceitos militares como missão e estratégia, e muitos livros fazem
sucesso ao
associar métodos de conquistadores como “Alexandre, o Grande” a modelos de administração
empresarial. Isso
significa que as trincheiras se mudaram para os escritórios?
10 L F: A globalização nos tornou guerreiros. No século 18, a dominação científica e técnica que animava o
iluminismo
tinha um fim superior: dominar a natureza para tornar os homens mais livres e mais felizes.Hoje, num
mundo de
competição generalizada, o progresso mudou completamente de sentido. Não se progride mais para
tornar a
humanidade livre e feliz, mas simplesmente porque não se pode fazer de outra maneira. Veja, por
exemplo, um
empresário que fabrica telefones móveis. Uma coisa ele sabe com certeza: o celular que coloca no
mercado hoje
15 no ano que vem não será mais competitivo, estará morto, eliminado pela concorrência. O peso do
benchmarking
é imenso e as empresas abertas à globalização progridem não para melhorar o destino da humanidade,
mas
simplesmente para não morrer. Assim como um ciclista sabe que se não pedalar suficientemente rápido
vai cair!
Isso explica a generalização de conceitos militares.
V S/A: Como profissionais que trabalham num clima interno de grande competição podem exercitar no
cotidiano o
20 humanismo secular [o uso da razão, da ética e a ciência no lugar da fé e dos dogmas religiosos]?
L F: Sem dúvida, estamos o tempo todo mobilizados pela sociedade da competição generalizada, na qual
a globalização
nos faz voltar sempre. Mas sabemos também que há valores superiores ao dinheiro ou à conquista do
poder. O
que é surpreendente é que os próprios empresários são conscientes disso: entre a fortuna e a própria
filha, se
tiverem de escolher, optarão pela filha. E vemos pessoas como Bill Gates se perguntarem para que pode
servir
25 todo dinheiro acumulado... A questão do significado dos nossos objetivos, atitudes e da vida nunca
desaparece.
V S/A: Então sobraram alguns valores universais?
L F: Estamos vivendo uma desconstrução sem precedentes de todos os valores tradicionais desde o
século 20. Nós
desconstruímos a tonalidade na música, a figuração na pintura com Picasso. Também quebramos as
regras
clássicas do romance (a cronologia, a psicologia dos personagens etc.) e conhecemos uma erosão sem
30 precedentes dos valores religiosos e morais. Muitos se sentem perdidos e lamentam os efeitos
devastadores
dessa desconstrução, que foi obra de todos os vanguardismos do século 20. Nem sempre estão errados.
Mas
eles não vêem o que nasceu de novo no lugar do velho: a desconstrução também liberou nossa
individualidade de
maneira inédita. Nos séculos passados, morreu-se em massa pela pátria, pela revolução. Os jovens de
hoje não
querem mais morrer por essas entidades abstratas. Em contrapartida, eles se reconhecem nos
movimentos
35 humanitários e temos todos os mesmos problemas: os casamentos que não dão certo, a educação das
crianças,
o poder de compra, a falta de emprego, os pais que envelhecem e morrem etc. Por isso, sem
percebermos, a vida
privada tornou-se o lugar no qual se elaboram os grandes problemas coletivos e políticos.
V S/A: Em seu último livro, você conta a história da filosofia e como os gregos antigos usaram a razão
para encarar
a salvação e a morte em contraponto com a visão religiosa. Três milênios depois, parte do planeta quer
salvar o
40 emprego, o status social e os poderes adquiridos. Isso tudo é banal diante de questões humanísticas
maiores?
L F: É verdade. Não há tempo para filosofar sobre questões metafísicas quando temos problemas
materiais. Mas a
partir do momento em que conseguimos superá-los, que paramos de nos fechar sobre nós mesmos e
começamos
a nos abrir aos outros, a questão da morte aparece sob outra forma: não apenas a questão da
sobrevivência, mas
a preocupação com o outro, o medo de que o ser amado desapareça. A religião cristã nos promete que o
amor é
45 mais forte que a morte e que reencontramos aqueles que amamos além do fim da vida biológica. Por
outro lado,
todas as grandes filosofias, desde os gregos até hoje, prometem a salvação dos medos que aprisionam e
reduzem nossa existência por meio da razão e por esforço próprio. Sem dúvida, na vida cotidiana não
nos damos
conta disso. Mas, desde o momento em que se vive a morte de um ser querido, essas questões voltam e
ficamos
desamparados se não tivermos pensado nisso antes.
50 [...]
Entrevista retirada da revista Você S/A. ed. 110, agosto, 2007.
Considerando o seguinte trecho da entrevista com Luc Ferry, faça o que se pede.
“A religião cristã nos promete que o amor é mais forte que a morte e que reencontramos aqueles que
amamos além do fim da vida biológica. Por outro lado, todas as grandes filosofias, desde os gregos
até hoje, prometem a salvação dos medos que aprisionam e reduzem nossa existência por meio da
razão e por esforço próprio”. (linhas 44-47)
A) Qual é, nesse trecho, a função textual da expressão “por outro lado”?
B) Reescreva o trecho substituindo apenas a expressão “por outro lado” por outra expressão (ou
termo) que mantenha as mesmas relações de sentido entre o período que precede a expressão e o
que a sucede.
Gabarito:
a) No trecho, a expressão "por outro lado" tem a função de introduzir um outro ponto de vista, que se
opõe, de certa forma, ao apresentado no período antecedente.
b) Algumas formas de reescrever o período, substituindo a expressão "por outro lado" e mantendo o
sentido original seriam: "Diferentemente/ De outra forma/ Por meios diversos/ Ao revés, todas as
grandes filosofias, desde os gregos até hoje, prometem a salvação dos medos que aprisionam e
reduzem nossa existência por meio da razão e por esforço próprio”.
Questão 5
1 Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor.
2 As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabuleiros de roupa
engomada
3 saíam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se
mostravam agora
4 quase todas de fato* limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor.
5 Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem*; agora as portuguesas
tinham na
6 cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado
nos cachos
7 negros um ramalhete de dois vinténs; aquelas trançavam no ombro xales de lã vermelha, e estas
de crochê, de
8 um amarelo desbotado. [...]
9 Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e lançavam das gaiolas frases
inteiras,
10 entre gargalhadas e assobios. À porta de diversos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça
limpa e
11 camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um
declamava em voz
12 alta versos de “Os Lusíadas”, com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia neles o
prazer da
13 roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro bom de
refogados de
14 carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas últimas janelas já estavam
abertas e, pela
15 escada que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de águas servidas.
Sentia-se
16 naquela quietação de dia inútil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com que
todos
17 estavam habituados. Para além do solitário capinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o
seu sono de
18 pedra; mas, em compensação, o movimento era agora extraordinário à frente da estalagem e à
entrada da
19 venda. [...]
Aluísio Azevedo, O Cortiço.
*Glossário
“fato”: roupa.
“aniagem”: tecido grosseiro de juta, linho cru ou outra fibra vegetal.
Considere as seguintes afirmações sobre a progressão temporal presente no texto:
I - O verbo “amanhecera” (L. 1), por estar no mais-que-perfeito, indica um tempo simultâneo ao dos
demais verbos do texto.
II - O advérbio “agora” (L. 5) deve ser entendido como uma indicação de tempo relativa ao domingo
que está sendo descrito e não ao momento da enunciação.
III - As formas de gerúndio “lendo e soletrando” (L. 11) expressam uma ação em curso imediatamente
anterior à da maioria dos verbos do texto.
Tendo em vista o contexto, está correto o que se afirma apenas em
A. I.
B. II.
C. III.
D. I e II.
E. II e III.
Gabarito:
B
Resolução:
A afirmativa I está incorreta, pois o verbo "amanhecera", no mais-que-perfeito, indica um tempo
anterior aos demais verbos do texto (isto é, o amanhecer ocorreu antesdo momento focalizado no
texto). A afirmativa III também está incorreta, pois as formas de gerúndio "lendo" e "soletrando"
expressam uma ação em curso num tempo simultâneo ao da maioria dos verbos do texto.
Questão 6
1 Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor.
2 As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabuleiros de roupa
engomada
3 saíam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se
mostravam agora
4 quase todas de fato* limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor.
5 Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem*; agora as portuguesas
tinham na
6 cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado
nos cachos
7 negros um ramalhete de dois vinténs; aquelas trançavam no ombro xales de lã vermelha, e estas
de crochê, de
8 um amarelo desbotado. [...]
9 Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e lançavam das gaiolas frases
inteiras,
10 entre gargalhadas e assobios. À porta de diversos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça
limpa e
11 camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um
declamava em voz
12 alta versos de “Os Lusíadas”, com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia neles o
prazer da
13 roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro bom de
refogados de
14 carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas últimas janelas já estavam
abertas e, pela
15 escada que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de águas servidas.
Sentia-se
16 naquela quietação de dia inútil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com que
todos
17 estavam habituados. Para além do solitário capinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o
seu sono de
18 pedra; mas, em compensação, o movimento era agora extraordinário à frente da estalagem e à
entrada da
19 venda. [...]
Aluísio Azevedo, O Cortiço.
*Glossário
“fato”: roupa.
“aniagem”: tecido grosseiro de juta, linho cru ou outra fibra vegetal.
Destas afirmações sobre elementos linguísticos presentes no texto, a única que NÃO está correta é:
A. A repetição do substantivo “tabuleiros” (L. 2) é um recurso expressivo que visa à quantificação.
B. O emprego de “aquelas” (L. 7) e “estas” (L. 7), tendo em vista a posição desses pronomes na
frase, produz ambiguidade.
C. Para o bom entendimento do texto, deve-se ler o vocábulo destacado em “um declamava em voz
alta” (L. 11 e 12) como pronome indefinido e não como numeral cardinal.
D. Em “com que todos estavam habituados” (L. 17), a palavra destacada pode ser substituída por
“afeitos”, desde que também se substitua “com que” por “a que”.
E. Em “mas, em compensação” (L. 18), ocorre redundância, tendo em vista o sentido da conjunção
e o da expressão destacadas.
Gabarito:
B
Resolução:
O emprego dos pronomes "aquelas" e "estas", na linha 7, não produz ambiguidade: por sua posição
na frase, fica bem claro que "aquelas" se refere a "as portuguesas" (l. 5) e "estas" se refere a "as
brasileiras" (l. 6). Portanto, a afirmativa B é a única que não está correta.
Questão 7
Estudantes contam como é morar em república
01
Instalada no centro histórico de Ouro Preto
(MG) há 61 anos, a república PIF-PAF abriga 13
moradores: todos estudantes de Engenharia na
Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Para
05
acomodar tanta gente confortavelmente, são 11
quartos (distribuídos em três andares), dois
banheiros, sala de computador, biblioteca, sala de
TV, sala de som, área de serviço, cozinha, área
para churrasco e campinho de futebol.
10
A casa é tombada e considerada patrimônio
histórico de Ouro Preto, por isso, requer muitos
cuidados e dedicação dos moradores. “Antes de
virar uma república, essa casa era habitada por
padres da paróquia Nossa Senhora do Pilar”,
15
contou Artur Valadares Veras Siqueira Cruvinel,
26, o Custelinha.
De acordo com Custelinha, os moradores
entraram num acordo e resolveram pagar uma
mensalista, que trabalha de segunda a sábado. “A
20
Girlene está conosco há cinco anos. Ela limpa a
casa, arruma as camas, lava os banheiros, além de
fazer uns bolinhos, sucos e lanchinhos. Ela não é
paga para lavar e passar”, disse. Para lavar as
roupas, os 13 moradores compraram uma máquina
25
de lavar e cada um faz o seu serviço.
Na PIF-PAF há apenas uma televisão, que
fica na sala. “A gente prega a união entre os
moradores. Se um deles instala uma televisão no
quarto, ele se isola e não se reúne com os demais e
30
não se integra. Por isso, a regra da república é
proibir TV nos quartos”, avisou Custelinha.
Os gastos mensais gerais, que incluem luz,
água, internet, salário da mensalista e material de
limpeza, giram em torno de R$ 130,00 por
35
morador. As despesas extras são pagas com
recursos arrecadados em festas organizadas pela
república. São dois os pré-requisitos para um
calouro ser mais um morador da PIF-PAF: é
preciso ser do sexo masculino e cursar Engenharia
40
na Ufop.
“O que a gente mais preza aqui é a iniciativa
do morador e o zelo pelo patrimônio. Aqui a
organização está sempre em primeiro lugar”,
afirmou Custelinha.
45
Kurva D-Rio
Em Piracicaba, no interior de São Paulo, dez
alunos da Escola Superior de Agricultura Luiz de
Queiroz (Esalq/USP) dividem o mesmo espaço na
50
república Kurva D-Rio. Segundo o morador Fábio
Cherubin de Barros, 21, o “Kuazimudo”, a
república tem esse nome por causa do primeiro
morador e um dos fundadores da casa. “Ele
morava em Rio Claro. Além disso, na curva de rio
55
só param tranqueiras”, brincou.
A casa tem três quartos, uma suíte e um
quarto nos fundos. Não tem TV a cabo, mas tem
internet. E assim como na PIF-PAF, a TV é
comunitária e fica somente na sala para “não
60
dispersar o pessoal da casa”.
Para manter a ordem, eles pagam uma
mensalista que trabalha de segunda à sexta-feira.
Além disso, dois moradores são responsáveis
pelas refeições da semana. O gestor financeiro é
65
eleito para ficar no cargo por seis meses. Não há
uma poupança para gastos extras. “Se acontece
alguma despesa emergencial, é preciso ratear o
dinheiro na hora”, disse Kuazimudo.
“Quando você mora em república, você
70
amadurece porque aprende a respeitar as pessoas e
a aceitar outras ideias. Esses moradores, com
certeza, serão meus amigos para o resto da vida”,
disse.
75
Não conseguia estudar
Recém-formado em Medicina Veterinária,
Fábio Ouchana, 25, não conseguiu viver em
república em Descalvado, no interior de São
Paulo. Ele chegou a dividir a casa por quatro
80
meses, mas não aguentou e preferiu dar um jeito
de morar sozinho. “Não deu certo. É muita farra,
muita festa, eu não conseguia estudar”, disse.
Segundo Fábio, a gota-d’água para ele decidir
morar sozinho foi quando o companheiro da casa
85
ficou só de cuecas quando seus pais visitavam a
república. “Achei uma falta de respeito. Não
estava no ‘Big Brother’. Resolvi alugar uma casa
com ajuda dos meus pais e minhas despesas
triplicaram, mas valeu a pena”, avalia.
90
Fábio disse que aprendeu a cozinhar, lavar
roupa, além de limpar a casa. “Só não aprendi a
passar roupa, por isso pago uma pessoa para fazer
isso aos sábados. Mas posso dizer que amadureci
muito com essa experiência”, disse.
Fernanda Bassette
Do G1, em São Paulo
26 fev. 2007
(Adaptação do texto disponível em: . Acesso em: 23 ago. 2011)
A língua dispõe de recursos que permitem a retomada ou a antecipação de informações a respeito de
referentes dos textos. A respeito disso, assinale o que for correto no texto.
01) Em “todos estudantes de Engenharia” (linha 3), o pronome em negrito retoma “13 moradores”
(linhas 2-3).
02) Em “resolveram pagar uma mensalista” (linhas18-19), o substantivo em negrito apresenta uma
categoria à qual se enquadra o nome próprio que será introduzido no período seguinte.
04) Em “Ela limpa a casa, arruma as camas, lava os banheiros” (linhas 20-21), a retomada do
referente “Girlene” (linha 20) é feita inicialmente por pronome e depois por elipse.
08) Em “Quando você mora em república, você amadurece” (linhas 69-70), a forma em negrito
remete ao leitor do texto.
16) Em “Instalada no centro histórico de Ouro Preto (MG) há 61 anos, a república PIF-PAF abriga”
(linhas 1-2), a oração reduzida de particípio apresenta informações que permitem que o leitor situe,
temporal e espacialmente, a república PIF-PAF mesmo antes da introdução desse referente no texto.
Gabarito:
01 + 02 + 04 + 16 = 23
Resolução:
Todas as afirmações estão corretas, exceto a 08, já que o pronome “você”, na frase citada, tem valor
genérico, podendo referir-se a qualquer pessoa que more ou já tenha morado em república.
Questão 8
Uma geração descobre o prazer de ler
Uma geração descobre o prazer de ler
Ler obras juvenis ou best-sellers é apenas o começo de uma longa e produtiva convivência com os
livros. Essa é a lição que anima os jovens a se aventurarem na boa literatura atual e nos clássicos.
Bruno Méier
1
Em janeiro, a universitária Iris Figueiredo, de 18 anos, anunciou em seu blog a intenção de
organizar encontros para discutir clássicos da literatura. A ideia era reunir jovens que estavam
cansados de ler as séries de ficção que lideram as vendas nas livrarias e passar a ler obras de
grandes autores. Trinta respostas chegaram rapidamente. No mês seguinte, o evento notável de
Iris começou: vinte adolescentes procuraram uma sombra no Museu de Arte Contemporânea de
Niterói – cada um com seu exemplar de Orgulho e preconceito, da inglesa Jane Austen, debaixo
do braço – e sentaram-se para conversar. Durante duas horas, leram os trechos de sua
preferência, analisaram a influência da autora sobre escritores contemporâneos (descobriram,
por exemplo, que certas frases do romance foram emuladas em diálogos da série O diário de
Bridget Jones, de Helen Fielding) e destrincharam os dilemas pelos quais passaram a vivaz
Elizabeth Bennett e o arrogante Mr. Darcy, os protagonistas do romance.
2
Iris se entusiasma ao falar do sucesso de suas reuniões – que já abordaram títulos como O
retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, 1984, de George Orwell, e Feliz ano novo, de Rubem
Fonseca. Desde pequena, ela é boa leitora. Mas foi só ao descobrir a série Harry Potter que se
apaixonou pela leitura e a transformou em parte central de seu dia a dia. Quando a saga do
bruxinho virou mania entre as crianças e os adolescentes, uma década atrás, vários céticos
apressaram-se em decretar que esse seria um fenômeno de resultados nulos. Com o eminente
crítico americano Harold Bloom à frente, argumentavam que Harry Potter só formaria mais
leitores de Harry Potter – os livros da inglesa J. K. Rowling seriam incapazes de conduzir a outras
leituras e propiciar a evolução desses iniciantes. Jovens como Iris desmentem essa tese de forma
cabal. Ler é prazer. E, uma vez que se prova desse deleite, ele é mais e mais desejado. Basta um
pequeno empurrãozinho – como o que a universitária ofereceu por meio do convite em seu blog
– para que o leitor potencial deslanche e, guiado por sua curiosidade, se aventure pelos
caminhos infinitos que, em 3 000 anos de criação literária, incontáveis autores foram abrindo
para seus pares.
MÉIER, Bruno. Uma geração descobre o prazer de ler. Veja, São Paulo, edição 2217, p. 98-108, 18
maio 2011. (Adaptado.)
Ao longo do texto, são utilizadas palavras e expressões que ajudam a promover a coesão e a
construir os efeitos de sentido pretendidos. Em relação ao uso desses recursos, assinale a afirmação
CORRETA.
A) Nos trechos "a universitária (...) anunciou em seu blog a intenção de organizar encontros para
discutir clássicos da literatura" (1º parágrafo), a expressão destacada indica "finalidade" e pode ser
substituída pelo conectivo "com o intuito de", sem prejuízo sintático-semântico.
B) No fragmento "leram os trechos de sua preferência" (1º parágrafo), o pronome possessivo retoma
a inglesa Jane Austen, autora do livro Orgulho e Preconceito.
C) No fragmento "destrincharam os dilemas pelos quais passaram a vivaz Elizabeth Bennett e o
arrogante Mr. Darcy" (1º parágrafo), a expressão destacada, embora esteja no plural, pode ser
substituída pelo pronome relativo "que", sem prejuízos à norma padrão escrita.
D) No fragmento "Iris se entusiasma ao falar do sucesso de suas reuniões – que já abordaram títulos
como [...]” (2º parágrafo), o relativo destacado pode ser substituído por "o qual", concordando com o
núcleo "sucesso".
E) No trecho "Desde pequena, ela é boa leitora. Mas foi só ao descobrir a série Harry Potter que se
apaixonou pela leitura" (2º parágrafo), a conjunção destacada indica "oposição" e pode ser
substituída, sem necessidade de alteração morfossintática no enunciado, pelo conectivo "Embora".
Gabarito:
A
Resolução:
No trecho citado em B, o pronome possessivo retoma "vinte adolescentes". A expressão destacada no
trecho transcrito em C não pode ser substituída por "que", pois o verbo "passaram" exige o uso da
preposição "por". No trecho transcrito em D, o pronome relativo não pode ser substituído por "o qual",
e sim por "as quais", para concordar com seu referente, "reuniões". No trecho transcrito em E, a
substituição de "mas" por "embora" manteria a ideia de oposição, mas demandaria alterações
morfossintáticas: "Embora tenha se apaixonado pela leitura só ao descobrir a série "Harry Potter".
Questão 9
Natal
Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...
5
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.
Sobre a palha, risonho, e iluminado
10
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Deus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.
Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
15
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.
No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vêm cobrir de perfumes e de flores
20
O chão daquela pobre estrebaria.
Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!
25
Natal! Natal! Em toda Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,
Nascido numa pobre estrebaria!
OLAVO BILAC
In: BUENO, Alexei (org.). Olavo Bilac: obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
Vede o Menino-Deus, que está cercado (v. 11)
As formas verbais deste verso modificam a representação do fato relatado, já que nas duas primeiras
estrofes predomina o tempo passado dos verbos.
Explicite o efeito estilístico causado pelo emprego de cada uma dessas formas verbais: uma no modo
imperativo e outra no presente do indicativo.
Gabarito:
(Resolução oficial)
Com o modo imperativo, o enunciador interrompe o relato para dirigir-se aos homens, convocando-os
a olhar o Menino-Deus.
Com o presente do indicativo, o enunciador torna a cena atual e viva, como se ela acontecesse diante
das pessoas.
Questão 10
Ode1 para o futuro
Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto2. Sutis sorrisos.
5
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida3, melancólica,
sobre ela sonhareis.
10
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio4, confusão odienta5,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,15
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de ouro.
E, em segredo, saudosos, enlevados6,
falareis de nós – de nós! – como de um sonho.
JORGE DE SENA
www.letras.ufrj.br
1 ode: tipo de poema
2 arguto: capaz de perceber as coisas mais sutis
3 delida: apagada
4 escárnio: desdém, menosprezo
5 odienta: que inspira aversão, ódio
6 enlevados: maravilhados, extasiados
No poema, observa-se uma tentativa de interlocução entre o eu poético e as pessoas do futuro.
Identifique a marca linguística que revela essa tentativa de interlocução. Em seguida, indique a quem
o eu poético se refere com o emprego do pronome “nós”.
Gabarito:
(Resolução oficial)
Marca linguística: falareis/sonhareis.
O pronome “nós” se refere às pessoas do presente.
Questão 11
01. Sendo a palavra escrita um produto da cultura,
02. nisto, como em tudo mais, o indivíduo tem o
03. direito de adoptar a que quiser – a que lhe parecer
04. melhor ou mais conveniente. Isso quer dizer que,
05. tecnicamente, .......... haver tantas ortografias quantos
06. há escritores. Terá isso o inconveniente de, se um
07. escritor optar por uma ortografia antipática ao
08. público, o público o não ler? Seja: o inconveniente
09. é para ele, não para o público. Praticou um acto:
10. sofreu-lhe ele mesmo, só ele, as consequências
11. intelectuais e morais.
12. .......... cuidadosamente entre o dever cultural e
13. o dever social. O meu dever cultural é pensar por
14. mim, sem obediência a outrem; o meu dever
15. cultural é registrar pela palavra escrita, grafando
16. como entendo que devo, o que pensei. Assim se
17. cria a cultura e portanto a civilização. Cessa aqui,
18. porém, o que é puramente o meu dever cultural.
19. Com a publicação do meu escrito, estou já,
20. simultaneamente, em duas esferas – a cultural e a
21. social: na cultural, pelo conteúdo do meu escrito;
22. na social, pela acção, actual ou possível, sobre o
23. ambiente. O meu escrito contém elementos
24. prejudiciais à sociedade? Se legitimamente e por
25. mim o pensei, continuo cumprindo meu dever
26. cultural; meu dever social é que, consciente ou
27. inconscientemente, não cumpri. São fenómenos
28. distintos, dependentes, um, da minha
29. contingência; outro, da minha consciência moral,
30. se a tiver.
31. Ora, a ortografia é um fenómeno puramente
32. cultural: não tem aspecto social algum, porque não
33. tem aspecto social o que não contém um elemento
34. moral (ou imoral). O único efeito presumidamente
35. prejudicial que estas divergências ortográficas
36. podem ter é o de estabelecer confusão no público.
37. Isso, porém, é da essência da cultura, que consiste
38. precisamente em "estabelecer confusão"
39. intelectual – em obrigar a pensar por meio do
40. conflito de doutrinas religiosas, filosóficas,
41. políticas, literárias e outras. Onde essas
42. divergências ortográficas produziriam já um efeito
43. prejudicial, e portanto imoral, é se o Estado
44. admitisse essa divergência em seus documentos e
45. publicações, e, derivadamente, a consentisse nas
46. escolas.
Adaptado de: PESSOA, Fernando. O problema ortográfico. In:_. A língua portuguesa. São
Paulo: Cia. das Letras, 1999. p. 23-25.
No texto, é estabelecido um contraste entre dois planos: o cultural e o social.
Verifique a que plano dizem respeito as seguintes expressões usadas no texto, identificando-as com o
número 1 (plano cultural) ou com o número 2 (plano social).
( ) consequências intelectuais (l. 10-11)
( ) sem obediência a outrem (l. 14)
( ) elementos prejudiciais (l. 23-24)
( ) consciência moral (l. 29)
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
(A) 1 – 2 – 1 – 2.
(B) 2 – 1 – 2 – 1.
(C) 2 – 1 – 2 – 2.
(D) 1 – 2 – 1 – 1.
(E) 1 – 1 – 2 – 2.
Gabarito:
E
Resolução:
(Resolução oficial)
O plano cultural aparece no texto como o plano da civilização, das ideias e da atuação livre da
consciência criativa do homem. Nesse caso, o compromisso do escritor é consigo mesmo e com suas
próprias ideias, não com o outro ou com uma coletividade. Assim, o segmento "consequências
intelectuais", por estar relacionado ao plano das ideias, e o segmento "sem obediência a outrem", por
enfatizar a concepção de liberdade, pertencem a esse plano. Já "elementos prejudiciais", por referir-
se a possíveis prejuízos à sociedade, e "consciência moral", por referir-se a um fenômeno localizado
explicitamente no texto como social (nas linhas 32 a 34, lê-se que o que não contém elemento moral
não está afeto ao social), são expressões que remetem ao plano social.
Questão 12
01. Sendo a palavra escrita um produto da cultura,
02. nisto, como em tudo mais, o indivíduo tem o
03. direito de adoptar a que quiser – a que lhe parecer
04. melhor ou mais conveniente. Isso quer dizer que,
05. tecnicamente, .......... haver tantas ortografias quantos
06. há escritores. Terá isso o inconveniente de, se um
07. escritor optar por uma ortografia antipática ao
08. público, o público o não ler? Seja: o inconveniente
09. é para ele, não para o público. Praticou um acto:
10. sofreu-lhe ele mesmo, só ele, as consequências
11. intelectuais e morais.
12. .......... cuidadosamente entre o dever cultural e
13. o dever social. O meu dever cultural é pensar por
14. mim, sem obediência a outrem; o meu dever
15. cultural é registrar pela palavra escrita, grafando
16. como entendo que devo, o que pensei. Assim se
17. cria a cultura e portanto a civilização. Cessa aqui,
18. porém, o que é puramente o meu dever cultural.
19. Com a publicação do meu escrito, estou já,
20. simultaneamente, em duas esferas – a cultural e a
21. social: na cultural, pelo conteúdo do meu escrito;
22. na social, pela acção, actual ou possível, sobre o
23. ambiente. O meu escrito contém elementos
24. prejudiciais à sociedade? Se legitimamente e por
25. mim o pensei, continuo cumprindo meu dever
26. cultural; meu dever social é que, consciente ou
27. inconscientemente, não cumpri. São fenómenos
28. distintos, dependentes, um, da minha
29. contingência; outro, da minha consciência moral,
30. se a tiver.
31. Ora, a ortografia é um fenómeno puramente
32. cultural: não tem aspecto social algum, porque não
33. tem aspecto social o que não contém um elemento
34. moral (ou imoral). O único efeito presumidamente
35. prejudicial que estas divergências ortográficas
36. podem ter é o de estabelecer confusão no público.
37. Isso, porém, é da essência da cultura, que consiste
38. precisamente em "estabelecer confusão"
39. intelectual – em obrigar a pensar por meio do
40. conflito de doutrinas religiosas, filosóficas,
41. políticas, literárias e outras. Onde essas
42. divergências ortográficas produziriam já um efeito
43. prejudicial, e portanto imoral, é se o Estado
44. admitisse essa divergência em seus documentos e
45. publicações, e, derivadamente, a consentisse nas
46. escolas.
Adaptado de: PESSOA, Fernando. O problema ortográfico. In:_. A língua portuguesa. São
Paulo: Cia. das Letras, 1999. p. 23-25.
Considere as seguintes afirmações sobre o uso da forma pronominal lhe no texto.
I – O pronome lhe (l. 03) poderia ser substituído pelo segmento a ele, sem prejuízo da correção da
frase.
II – O pronome lhe (l. 10) poderia ser substituído pelo possessivo suas, a ser inserido antes da
palavra consequências (l. 10), sem prejuízo do sentido e da correção da frase.
III – A forma pronominal lhe (l. 10) seria substituída pela forma direta o, se a forma verbal sofreu (l.
10) fosse substituída por suportou.
Quais estão corretas?
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e II.
(E) I, II e III.
Gabarito:
D
Resolução:
(Resolução oficial)
Estão corretas as afirmações I e II. Na afirmação I, propõe-se a substituição de "lhe" por "a ele" em
contexto no qual ambas as formas podem ocorrer, cumprindo a mesma função sintática decomplemento indireto do verbo, marcada no segundo caso pela preposição. Na afirmação II, é
explorada a função genitiva do pronome "lhe", note-se que "acto" (l. 09) é retomado pelo pronome
"lhe", que corresponde a um possessivo, no caso, "suas" ("suas consequências intelectuais e
morais"). Essa função não pode ser desempenhada pelo pronome "o". Daí a impropriedade da
afirmação III.
Questão 13
01. Sendo a palavra escrita um produto da cultura,
02. nisto, como em tudo mais, o indivíduo tem o
03. direito de adoptar a que quiser – a que lhe parecer
04. melhor ou mais conveniente. Isso quer dizer que,
05. tecnicamente, .......... haver tantas ortografias quantos
06. há escritores. Terá isso o inconveniente de, se um
07. escritor optar por uma ortografia antipática ao
08. público, o público o não ler? Seja: o inconveniente
09. é para ele, não para o público. Praticou um acto:
10. sofreu-lhe ele mesmo, só ele, as consequências
11. intelectuais e morais.
12. .......... cuidadosamente entre o dever cultural e
13. o dever social. O meu dever cultural é pensar por
14. mim, sem obediência a outrem; o meu dever
15. cultural é registrar pela palavra escrita, grafando
16. como entendo que devo, o que pensei. Assim se
17. cria a cultura e portanto a civilização. Cessa aqui,
18. porém, o que é puramente o meu dever cultural.
19. Com a publicação do meu escrito, estou já,
20. simultaneamente, em duas esferas – a cultural e a
21. social: na cultural, pelo conteúdo do meu escrito;
22. na social, pela acção, actual ou possível, sobre o
23. ambiente. O meu escrito contém elementos
24. prejudiciais à sociedade? Se legitimamente e por
25. mim o pensei, continuo cumprindo meu dever
26. cultural; meu dever social é que, consciente ou
27. inconscientemente, não cumpri. São fenómenos
28. distintos, dependentes, um, da minha
29. contingência; outro, da minha consciência moral,
30. se a tiver.
31. Ora, a ortografia é um fenómeno puramente
32. cultural: não tem aspecto social algum, porque não
33. tem aspecto social o que não contém um elemento
34. moral (ou imoral). O único efeito presumidamente
35. prejudicial que estas divergências ortográficas
36. podem ter é o de estabelecer confusão no público.
37. Isso, porém, é da essência da cultura, que consiste
38. precisamente em "estabelecer confusão"
39. intelectual – em obrigar a pensar por meio do
40. conflito de doutrinas religiosas, filosóficas,
41. políticas, literárias e outras. Onde essas
42. divergências ortográficas produziriam já um efeito
43. prejudicial, e portanto imoral, é se o Estado
44. admitisse essa divergência em seus documentos e
45. publicações, e, derivadamente, a consentisse nas
46. escolas.
Adaptado de: PESSOA, Fernando. O problema ortográfico. In:_. A língua portuguesa. São
Paulo: Cia. das Letras, 1999. p. 23-25.
Considere as seguintes afirmações acerca da exigência do emprego de preposições no texto.
I – A combinação pela (l. 15) poderia ser substituída pela expressão por meio da, sem prejuízo da
relação de sentido ali estabelecida.
II – Caso se substituísse a forma verbal estou (l. 19) por defronto-me, seria mantido o emprego da
preposição em neste período.
III – Se o adjetivo prejudiciais (l. 24) fosse substituído por estranhos, o emprego da crase seria
desnecessário nesta oração.
Quais estão corretas?
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e III.
(E) I, II e III.
Gabarito:
A
Resolução:
(Resolução oficial)
A única afirmação correta é a I, na qual a preposição "por" é considerada equivalente à expressão
"por meio de", o que as torna intercambiáveis, considerando-se o sentido contextual implicado.
Questão 14
01. Sendo a palavra escrita um produto da cultura,
02. nisto, como em tudo mais, o indivíduo tem o
03. direito de adoptar a que quiser – a que lhe parecer
04. melhor ou mais conveniente. Isso quer dizer que,
05. tecnicamente, .......... haver tantas ortografias quantos
06. há escritores. Terá isso o inconveniente de, se um
07. escritor optar por uma ortografia antipática ao
08. público, o público o não ler? Seja: o inconveniente
09. é para ele, não para o público. Praticou um acto:
10. sofreu-lhe ele mesmo, só ele, as consequências
11. intelectuais e morais.
12. .......... cuidadosamente entre o dever cultural e
13. o dever social. O meu dever cultural é pensar por
14. mim, sem obediência a outrem; o meu dever
15. cultural é registrar pela palavra escrita, grafando
16. como entendo que devo, o que pensei. Assim se
17. cria a cultura e portanto a civilização. Cessa aqui,
18. porém, o que é puramente o meu dever cultural.
19. Com a publicação do meu escrito, estou já,
20. simultaneamente, em duas esferas – a cultural e a
21. social: na cultural, pelo conteúdo do meu escrito;
22. na social, pela acção, actual ou possível, sobre o
23. ambiente. O meu escrito contém elementos
24. prejudiciais à sociedade? Se legitimamente e por
25. mim o pensei, continuo cumprindo meu dever
26. cultural; meu dever social é que, consciente ou
27. inconscientemente, não cumpri. São fenómenos
28. distintos, dependentes, um, da minha
29. contingência; outro, da minha consciência moral,
30. se a tiver.
31. Ora, a ortografia é um fenómeno puramente
32. cultural: não tem aspecto social algum, porque não
33. tem aspecto social o que não contém um elemento
34. moral (ou imoral). O único efeito presumidamente
35. prejudicial que estas divergências ortográficas
36. podem ter é o de estabelecer confusão no público.
37. Isso, porém, é da essência da cultura, que consiste
38. precisamente em "estabelecer confusão"
39. intelectual – em obrigar a pensar por meio do
40. conflito de doutrinas religiosas, filosóficas,
41. políticas, literárias e outras. Onde essas
42. divergências ortográficas produziriam já um efeito
43. prejudicial, e portanto imoral, é se o Estado
44. admitisse essa divergência em seus documentos e
45. publicações, e, derivadamente, a consentisse nas
46. escolas.
Adaptado de: PESSOA, Fernando. O problema ortográfico. In:_. A língua portuguesa. São
Paulo: Cia. das Letras, 1999. p. 23-25.
Assinale a alternativa que apresenta uma afirmação correta acerca do emprego, no texto, de
advérbios formados pelo sufixo -mente.
(A) Assim como cuidadosamente (l. 12) significa 'com cuidado', também puramente (l. 18) significa
'com pureza'.
(B) O advérbio legitimamente (l. 24) poderia ser substituído por realmente, mantidos o sentido e a
correção da frase.
(C) Embora o sufixo -mente apareça apenas na palavra inconscientemente (l. 27), ele poderia
também ser acrescentado à palavra consciente (l. 26), sem alteração do sentido contextual.
(D) O advérbio presumidamente (l. 34) poderia ser substituído pelo segmento que presumo ser,
mantida a correção e o sentido da frase.
(E) O advérbio precisamente (l. 38) poderia ser deslocado para o início do período, sem alteração do
sentido contextual.
Gabarito:
C
Resolução:
(Resolução oficial)
Embora o sufixo só apareça em "inconscientemente", no segmento "consciente ou
inconscientemente" estão coordenados dois advérbios, significando "conscientemente ou
inconscientemente". O uso eventual de -mente em ambos os advérbios poderia ser interpretado como
um desejo do autor de enfatizar cada um deles.
Questão 15
Esta entrevista ocorreu em julho de 1966, em conversa que mantive com Borges em seu escritório na
Biblioteca Nacional, da qual ele era diretor. O ambiente, que evoca uma Buenos Aires mais antiga,
não era realmente o de um escritório, mas uma ampla e ornamentada sala, de pé-direito alto, na
biblioteca recém-renovada. Nas paredes – mas altos demais para serem lidos com facilidade, como se
pendurados com timidez – estavam vários certificados acadêmicos e menções literárias. Havia
também diversas águas-fortes de Piranesi, recordando a fantástica ruína piranesiana no conto de
Borges "O imortal". Acima da lareira havia um grande retrato. Quando perguntei à secretáriade
Borges, sra. Susana Quinteros, a respeito do retrato, ela respondeu num eco adequado, ainda que
não intencional, de um tema borgiano: "No importa. É uma reprodução de outra pintura".
(CHRIST, R. Os escritores: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras,
1988. p.197.)
Os vocábulos "piranesiana" e "borgiano" resultam em
a) concordância entre autor e obra.
b) exaltação da arte.
c) caracterização do termo antecedente.
d) retomada do termo antecedente.
e) referências narrativas.
Gabarito:
C
Resolução:
O adjetivo "piranesiana" caracteriza o termo que lhe é antecedente, "ruína" (isto é, uma ruína de
Piranesi, gravurista e arquiteto italiano do século XVIII); bem como o adjetivo "borgiano", que
caracteriza o termo "tema" (isto é, um tema que Borges, escritor argentino, utilizou frequentemente
em sua obra).
Questão 16
Leia o texto a seguir e responda à questão.
O telejornalismo é um dos principais produtos televisivos. Sejam as notícias boas ou ruins, ele precisa
garantir uma experiência esteticamente agradável para o espectador. Em suma, ser um
“infotenimento”, para atrair prestígio, anunciante e rentabilidade. Porém, a atmosfera pesada do
início do ano baixou nos telejornais: Brumadinho, jovens atletas mortos no incêndio do CT do
Flamengo, notícias
diárias de feminicídios, de valentões armados matando em brigas de trânsito e supermercados.
Conjunções adversativas e adjuntos adverbiais já não dão mais conta de neutralizar o tsunami de
tragédias e violência, e de amenizar as más notícias para garantir o “infotenimento”. No jornal, é
apresentada matéria sobre uma mulher brutalmente espancada, internada com diversas fraturas no
rosto. Em frente ao hospital, uma repórter fala: “mas a boa notícia é que ela saiu da UTI e não
precisará mais de cirurgia reparadora na face...”. Agora, repórteres repetem a expressão “a boa
notícia é que...”, buscando alguma brecha de esperança no “outro lado” das más notícias.
Wilson R. V. Ferreira, Globo adota “a boa notícia é que...” para tentar se salvar do baixo astral
nacional. Disponível em: . Acesso em: 1º mar. 2019. Adaptado.
Considerando a matéria apresentada no jornal, o uso da conjunção adversativa seguido da expressão
“a boa notícia é que” permite ao jornalista
a) apontar a gravidade da notícia e compensá-la.
b) expor a neutralidade da notícia e reforçá-la.
c) minimizar a relevância da notícia e acentuá-la.
d) revelar a importância da notícia e enfatizá-la.
Gabarito:
A
Resolução:
Considerando a matéria apresentada no jornal, de acordo com a qual uma mulher teria sido
espancada e internada com diversas fraturas no rosto, o uso da conjunção adversativa "mas" seguido
da expressão “a boa notícia é que” permite ao jornalista apontar a gravidade da notícia que antecede
à ressalva (a qual seria uma "má notícia" em oposição à "boa notícia" e compensá-la com o fato de
que houve alguma boa evolução no caso com a saída da paciente da UTI.
Questão 17
leia o texto a seguir e responda à questão.
O telejornalismo é um dos principais produtos televisivos. Sejam as notícias boas ou ruins, ele precisa
garantir uma experiência esteticamente agradável para o espectador. Em suma, ser um
“infotenimento”, para atrair prestígio, anunciante e rentabilidade. Porém, a atmosfera pesada do
início do ano baixou nos telejornais: Brumadinho, jovens atletas mortos no incêndio do CT do
Flamengo, notícias
diárias de feminicídios, de valentões armados matando em brigas de trânsito e supermercados.
Conjunções adversativas e adjuntos adverbiais já não dão mais conta de neutralizar o tsunami de
tragédias e violência, e de amenizar as más notícias para garantir o “infotenimento”. No jornal, é
apresentada matéria sobre uma mulher brutalmente espancada, internada com diversas fraturas no
rosto. Em frente ao hospital, uma repórter fala: “mas a boa notícia é que ela saiu da UTI e não
precisará mais de cirurgia reparadora na face...”. Agora, repórteres repetem a expressão “a boa
notícia é que...”, buscando alguma brecha de esperança no “outro lado” das más notícias.
Wilson R. V. Ferreira, Globo adota “a boa notícia é que...” para tentar se salvar do baixo astral
nacional. Disponível em: . Acesso em: 1º mar. 2019. Adaptado.
Para se referir a matérias jornalísticas televisivas que informam e, ao mesmo tempo, entretêm os
espectadores, o autor cria um neologismo por meio de
a) derivação prefixal.
b) composição por justaposição.
c) composição por aglutinação.
d) derivação imprópria.
Gabarito:
C
Resolução:
Para se referir a matérias jornalísticas televisivas que informam e, ao mesmo tempo, entretêm os
espectadores, o autor cria o neologismo "infotenimento", por meio de composição por aglutinação de
"informação" e "entretenimento", do qual deriva um novo termo em que os significados de partida
perdem parte de sua integridade sonora.
Questão 18
Como será a inteligência artificial depois do computador Watson
Watson, o novo supercomputador da IBM, assombrou o mundo ao se comportar como um humano.
Mas as máquinas ainda têm um obstáculo pela frente antes de dominar o mundo: a nossa burrice
por Pedro Burgos e Alexandre Versignassi
1
"Watson derrota a humanidade." Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um
computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no
Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Pudera: Jeopardy! é um jogo
complexo. Para humanos, inclusive. São perguntas furtivas, tipo: "Isso é só um nariz sangrando!
Você não tem essa doença genética que já foi endêmica entre a realeza europeia. Qual é a
doença?"; Watson acertou: hemofilia. Acertou essa e outras dezenas de perguntas capciosas – e,
como seus concorrentes humanos, não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à
disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e
uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão
bem programado, só isso.
2
Para responder perguntas nessa linha, um computador precisa entender a linguagem falada e ter
um raciocínio capaz de fazer associações inesperadas. Até fevereiro, isso era exclusividade de
humanos. Mas e agora, que perdemos para esse ser gelado? Dá para dizer que a inteligência
artificial está se equiparando à nossa inteligência?
3
O debate está pegando fogo. De um lado, há os que vibram com Watson e similares e acreditam
que os computadores vão superar logo a inteligência humana. A outra corrente diz que, por mais
complexo e surpreendente que seja o feito de um computador, ele nunca será comparável ao de
uma pessoa. Seriam duas inteligências distintas.
4
O termo "computador" denunciaria isso, por sinal. Até a metade do século 20, "computador" era
uma profissão. Eram pessoas responsáveis por fazer cálculos longos – como pegar um monte de
dados astronômicos e calcular quando um cometa passaria de novo pela Terra. Pessoas
inteligentes, claro. Mas e hoje? Bom, hoje inteligente é quem bola o programa para que o
computador resolva as contas.
5
Toda vez que conseguimos delegar uma função para máquinas, a tarefa perde a nobreza. Isso
aconteceu até na derrota do campeão Kasparov para Deep Blue em 1997. Enquanto os
defensores da inteligência artificial comemoravam, os da humanidade saíram-se nessa linha:
"Bom, xadrez é só um jogo de análise estatística bruta. Não requer inteligência de verdade".
Com a vitória no Jeopardy!, pode acontecer a mesma coisa: "Computadores vão bem? Ah, o jogo
não é nada de mais".
6
Mas e se habilidades que consideramos pessoais e intransferíveis da nossa espécie puderem ser
executadas por máquinas sofisticadas? Como ficamos? Se quisermos reduzir as habilidades do
Homo sapiens a instruções de programação, o talento para a poesia, por exemplo, pode ser
descrito como um programacapaz de achar uma boa combinação de palavras. E daria para
definir um líder político como um sujeito com um bom software para analisar riscos e
oportunidades.
7
Não é fantasia. O próprio Watson pode servir para tarefas bem mais humanas que
responder perguntas. Programado adequadamente, ele pode fazer diagnósticos com mais
precisão que um médico – da mesma forma que uma calculadora de bolso é mais rápida que
qualquer gênio da matemática. O supercomputador tem como ouvir relatos orais de pacientes e
cruzar os sintomas com o banco de dados de toda a literatura médica em segundos. Mas isso
torna os humanos dispensáveis? Não. Por mais que uma máquina consiga feitos mirabolantes,
ela vai ser sempre uma ferramenta que depende de humanos. Um "computador médico" precisa
de médicos para ser programado. Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o
próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual
categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a
resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes
de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para
dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores – a Fórmula 1 é solenemente ignorada
nos EUA.
8
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só
alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do
martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com
supercomputadores também. A vitória de um é uma vitória da humanidade. E sempre será,
mesmo no dia em que uma máquina puder escrever um texto como este bem melhor do que a
gente.
Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2011. (Adaptado.)
Ao citar várias vezes o computador que venceu o jogo, os autores mantêm o foco no assunto, mesmo
que, para isso, utilizem modos diferentes de nomear esse computador. Identifique a alternativa em
que as duas nomeações referem-se ao computador que é assunto do texto.
A) Computadorzão e ser gelado.
B) Watson e Deep Blue.
C) Jeopardy! e inteligência artificial.
D) Supercomputador e Kasparov.
E) Homo sapiens e as máquinas.
Gabarito:
A
Resolução:
Segundo o texto, Deep Blue é o nome dado a outro computador, que venceu um campeão de xadrez,
Kasparov, em 1997. Jeopardy! é o nome do jogo vencido por Watson, o computador de que se fala no
texto. Homo sapiens é o nome científico da espécie humana. A única alternativa que só apresenta
termos que se referem ao computador Watson é a A ("computadorzão" e "ser gelado").
Questão 19
Como será a inteligência artificial depois do computador Watson
Watson, o novo supercomputador da IBM, assombrou o mundo ao se comportar como um humano.
Mas as máquinas ainda têm um obstáculo pela frente antes de dominar o mundo: a nossa burrice
por Pedro Burgos e Alexandre Versignassi
1
"Watson derrota a humanidade." Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um
computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no
Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Pudera: Jeopardy! é um jogo
complexo. Para humanos, inclusive. São perguntas furtivas, tipo: "Isso é só um nariz sangrando!
Você não tem essa doença genética que já foi endêmica entre a realeza europeia. Qual é a
doença?"; Watson acertou: hemofilia. Acertou essa e outras dezenas de perguntas capciosas – e,
como seus concorrentes humanos, não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à
disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e
uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão
bem programado, só isso.
2
Para responder perguntas nessa linha, um computador precisa entender a linguagem falada e ter
um raciocínio capaz de fazer associações inesperadas. Até fevereiro, isso era exclusividade de
humanos. Mas e agora, que perdemos para esse ser gelado? Dá para dizer que a inteligência
artificial está se equiparando à nossa inteligência?
3
O debate está pegando fogo. De um lado, há os que vibram com Watson e similares e acreditam
que os computadores vão superar logo a inteligência humana. A outra corrente diz que, por mais
complexo e surpreendente que seja o feito de um computador, ele nunca será comparável ao de
uma pessoa. Seriam duas inteligências distintas.
4
O termo "computador" denunciaria isso, por sinal. Até a metade do século 20, "computador" era
uma profissão. Eram pessoas responsáveis por fazer cálculos longos – como pegar um monte de
dados astronômicos e calcular quando um cometa passaria de novo pela Terra. Pessoas
inteligentes, claro. Mas e hoje? Bom, hoje inteligente é quem bola o programa para que o
computador resolva as contas.
5
Toda vez que conseguimos delegar uma função para máquinas, a tarefa perde a nobreza. Isso
aconteceu até na derrota do campeão Kasparov para Deep Blue em 1997. Enquanto os
defensores da inteligência artificial comemoravam, os da humanidade saíram-se nessa linha:
"Bom, xadrez é só um jogo de análise estatística bruta. Não requer inteligência de verdade".
Com a vitória no Jeopardy!, pode acontecer a mesma coisa: "Computadores vão bem? Ah, o jogo
não é nada de mais".
6
Mas e se habilidades que consideramos pessoais e intransferíveis da nossa espécie puderem ser
executadas por máquinas sofisticadas? Como ficamos? Se quisermos reduzir as habilidades do
Homo sapiens a instruções de programação, o talento para a poesia, por exemplo, pode ser
descrito como um programa capaz de achar uma boa combinação de palavras. E daria para
definir um líder político como um sujeito com um bom software para analisar riscos e
oportunidades.
7
Não é fantasia. O próprio Watson pode servir para tarefas bem mais humanas que
responder perguntas. Programado adequadamente, ele pode fazer diagnósticos com mais
precisão que um médico – da mesma forma que uma calculadora de bolso é mais rápida que
qualquer gênio da matemática. O supercomputador tem como ouvir relatos orais de pacientes e
cruzar os sintomas com o banco de dados de toda a literatura médica em segundos. Mas isso
torna os humanos dispensáveis? Não. Por mais que uma máquina consiga feitos mirabolantes,
ela vai ser sempre uma ferramenta que depende de humanos. Um "computador médico" precisa
de médicos para ser programado. Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o
próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual
categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a
resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes
de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para
dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores – a Fórmula 1 é solenemente ignorada
nos EUA.
8
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só
alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do
martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com
supercomputadores também. A vitória de um é uma vitória da humanidade. E sempre será,
mesmo no dia em que uma máquina puder escrever um texto como este bem melhor do que a
gente.
Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2011. (Adaptado.)
Ao longo do texto, são utilizadas palavras e expressões que conectam diferentes partes dele,
ajudando a promover a sua coesão e a construir os efeitos de sentido pretendidos. Em relação ao uso
desses conectivos, analise as afirmações a seguir e marque V para as verdadeiras