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Programa Mais Médicos para o Brasil
2ª edição
EIXO 1 | PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO SUS E DA 
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Princípios da 
Medicina de Família 
e Comunidade
MÓDULO 03
EIXO 1 | PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO SUS E DA 
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Princípios da 
medicina de família 
e comunidade 
MÓDULO 03
Programa Mais Médicos para o Brasil
Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS)
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
2023
2ª edição
Instituições patrocinadoras:
Ministério da Saúde
Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS)
Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS)
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS)
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp)
Coordenação da UNASUS/UNIFESP
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
B823p
Brasil. Ministério da Saúde.
Princípios da medicina de família e comunidade [módulo 3] / Ministério da 
Saúde, Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul, Universidade Federal 
de São Paulo. - 2. ed. - Brasília : Fundação Oswaldo Cruz, 2023.
Inclui referências.
45 p. : il., tabs. (Projeto Mais Médicos para o Brasil. Princípios e fundamentos 
do SUS e da atenção primária à saúde ; 1).
ISBN: 978-65-84901-30-8
1. Atenção básica. 2. Medicina de família. 3. Sistema Único de Saúde. 4. UNA-
SUS. I. Título II. Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul. III. Universidade 
Federal de São Paulo. IV. Série.
CDU 610
Bibliotecária: Juliana Araújo Gomes de Sousa | CRB1 3349
Ficha Técnica
© 2023. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. 
Universidade Federal de São Paulo.
Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, 
em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos 
Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial.
Referência bibliográfica
MINISTÉRIO DA SAÚDE. FIOCRUZ MATO GROSSO DO SUL. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO 
PAULO. Atenção primária à saúde e estratégia de saúde da família: bases históricas, políticas e 
organizacionais [módulo 2]. 2. ed. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Projeto Mais Médicos para o Brasil. 
Eixo 1: Princípios e fundamentos do SUS e da atenção primária à saúde. Brasília: Ministério da 
saúde, 2023. 80 p.
Ministério da Saúde
Nísia Trindade Lima | Ministra
Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS)
Nésio Fernandes de Medeiros Junior| Secretário
Departamento de Saúde da Família (DESF)
Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas| Diretora
Coordenação Geral de Provimento Profissional (CGPROP)
Wellington Mendes Carvalho | Coordenador
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Mario Moreira | Presidente
Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS)
Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva
Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA-SUS)
Alysson Feliciano Lemos | Coordenador
Assessoria de Planejamento (UNA-SUS)
Aline Santos Jacob 
Assessoria Pedagógica (UNA-SUS)
Márcia Regina Luz
Sara Shirley Belo Lança
Revisor Técnico-Científico UNA-SUS
Paula Zeni Miessa Lawall 
Rodrigo Luciano Bandeira de Lima
Rodrigo Pastor Alves Pereira
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Nelson Sass | Reitor
Raiane Patricia Severino Assumpção | Vice-Reitora
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) | Pró-reitoria de Extensão
Taiza Stumpp Teixeira | Pró-Reitora
Coordenação Geral Projeto UNA-SUS/UNIFESP
Jorge Harada | Coordenador Geral
Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp)
Maria José da Silva Fernandes | Diretora Presidente
Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS)
Jislaine de Fátima Guilhermino | Diretora
Coordenação Geral UNA-SUS/Fiocruz MS
Débora Dupas Gonçalves do Nascimento | Coordenadora Geral
Coordenação Geral de Garantia dos Atributos para APS
Amanda Firme Carletto
Beatriz Zocal da Silva
Michelle Leite da Silva
Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS)
Rua Gabriel Abrão, 92 – Jardim das Nações, Campo Grande/MS
CEP 79081-746
Telefone: (67) 3346-7220
E-mail: educacao.ms@fiocruz.br
Site: www.matogrossodosul.fiocruz.br
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Coordenação da UNA-SUS/UNIFESP
Rua Sena Madureira, 1.500 - Vila Mariana, São Paulo/SP
CEP 04021-001
Telefone: (11) 3385-4126
E-mail: secretaria.unasus@unifesp.br
Créditos
Revisor Técnico-Científico UNA-SUS
Carolina Lopes de Lima Reigada
Liz Ponnet
Paula Zeni Miessa Lawall 
Rodrigo Luciano Bandeira de Lima
Rodrigo Pastor Alves Pereira
 
Designer Gráfico UNA-SUS
Claudia Schirmbeck
 
Apoio Técnico UNA-SUS
Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS
Fhillipe de Freitas Campos
Juliana Araujo Gomes de Sousa
Tainá Batista de Assis
 
Engenheiro de Software UNA-SUS
José Rodrigo Balzan
Onivaldo Rosa Júnior
 
Desenvolvedor de Moodle UNA-SUS
Claudio Monteiro
Jaqueline de Carvalho Queiroz
Josué de Lacerda Silva
Luciana Dantas Soares Alves
Lino Vaz Moniz
Márcio Batista da Silva
Rodrigo Mady da Silva
 
Coordenador Geral UNA-SUS/UNIFESP
Jorge Harada
 
Coordenador Adjunto UNA-SUS/UNIFESP
Paulo Bandiera Paiva
 
Coordenador Acadêmico UNA-SUS/UNIFESP
Daniel Almeida Gonçalves
Coordenação Pedagógica UNA-SUS/UNIFESP
Ana Lucia Pereira
Rita Maria de Lino Tarcia
Maria Elizabete Salvador Graziosi
Coordenador de Produção UNA-SUS/UNIFESP
Felipe Vieira Pacheco
Coordenação de Tecnologia da Informação UNA-SUS/UNIFESP
Daniel Lico dos Anjos Afonso
Marlene Sakumoto Akiyama
 
Desenvolvedor UNA-SUS/UNIFESP
Sidnei de Cerqueira 
Analista de Infraestrutura e Rede UNA-SUS/UNIFESP
Rogério Alves Lourenço
Analistas de Banco de dados e Infraestrutura UNA-SUS/UNIFESP
Fernanda Aparecida Sobral
Marcelo Augusto Leonardeli
Suporte Técnico UNA-SUS/UNIFESP
Yuri Campos Ratao 
Designer Instrucional UNA-SUS/UNIFESP
Felipe Vieira Pacheco
Designer Gráfico UNA-SUS/UNIFESP
Aline Maruyama
Webdesigner UNA-SUS/UNIFESP
Lucas Andrioli 
Editor de Audiovisual UNA-SUS/UNIFESP
Laura Videira
Coordenador Geral UNA-SUS/Fiocruz MS
Débora Dupas Gonçalves do Nascimento
 
Coordenador Acadêmico UNA-SUS/Fiocruz MS
Milene da Silva Dantas Silveira
Coordenador de Produção Pedagógica UNA-SUS/Fiocruz MS
Sílvia Helena Mendonça de Moraes
Designer Instrucional Fiocruz MS
Marcos Paulo dos Santos de Souza 
Coordenador de produção Fiocruz MS
Janaína Rolan Loureiro 
Desenvolvedores Fiocruz MS
Janaína Rolan Loureiro 
Leandro Koiti Oguro
Regina Beretta Mazaro
Conteudista
Daniel Almeida Gonçalves 
Gabriela Alves de Oliveira Hidalgo
Revisor
Davi Bagnatori Tavares
Sumário
Apresentação 10
Objetivo geral de aprendizagem do módulo 11
Carga horária de estudo recomendada para este módulo 11
1. Princípios da medicina de família e comunidade e suas 
competências 12
Objetivos de aprendizagem 13
Introdução da unidade 13
1.2 - Médico de família e comunidade: especialista em gente 18
1.3 - Princípios da medicina de família e comunidade e 
competências nucleares 19
1.3.1 - O Médico de Família e Comunidade é um 
clínico qualificado 20
1.3.2 - A atuação do Médico de Família e Comunidade 
é influenciada pela comunidade 21
1.3.3 - O Médico de Família e Comunidade é um recurso 
de uma população definida 22
1.3.4 - A relação médico-pessoa é fundamental para o 
desempenho do Médico de Família e Comunidade 24
1.3.5 - As competências nucleares da Medicina de Família 
e Comunidade 25
Fechamento da unidade 29
2. A abordagem centrada na pessoa, comunicação clínica efetiva, 
abordagem familiar e comunitária e outras ferramentas para a 
prática clínica 30
Objetivos de aprendizagem 31
Introdução da unidade 31
2.1 - Método clínico centrado na pessoa 31
2.2 - Comunicação clínica efetiva 33
2.3 - Abordagem familiar e comunitária 34
2.4 - Mais ferramentas para a prática clínica 35
2.4.1 - Trabalho em equipe 35
2.4.2 - Registro clínico orientado por problemas 36
2.4.3 - Gestão da clínica 36
2.4.4- Prevenção quaternária e os níveis de prevenção 37
2.4.5 - Epidemiologia clínica e vigilância em saúde 38
Fechamento da unidade 40
Encerramento do módulo 41
Referências 42
Biografia dos conteudistas 44
Apresentação
Olá, caro profissional-estudante.
Seja bem-vindo ao módulo 3 - Princípios da Medicina de Família e Comunidade.
Neste módulo, vamos aprofundar o conhecimento sobre a Medicina de Família e 
Comunidade (MFC).
Você vai conhecer os princípios dessa especialidade médica e o conjunto de suas 
características e especificidades, o que favorecerá sua compreensão do signifi-
cado de ser Médico de Família e Comunidade e auxiliará na construção da sua 
identidade ao longo deste curso de especialização. Você também terá a oportu-
nidade de compreender que a MFC tem uma responsabilidade com a pessoa que 
vai além da doença. 
A assistência nessa especialidade abrange todo o ciclo de vida das pessoas, do 
pré-natal ao fim da vida e tem como premissa o cuidado clinicamente compe-
tente em que o Médico de Família e Comunidade analisa as múltiplas dimensões 
do indivíduo, considerando a família e o contexto de vida das pessoas, com olhar 
sistêmico e comunitário.
Neste módulo, você vai estudar, também, as competências nucleares e ferramen-
tas fundamentais para uma prática abrangente e resolutiva, tendo como referên-
cia os princípios que regem essa especialidade médica.
Para organizar o nosso estudo, o módulo 3 foi dividido em duas unidades de ensino:
1. Princípios da medicina de família e comunidade e suas competências
2. A abordagem centrada na pessoa, comunicação efetiva, abordagem 
familiar e comunitária e outras ferramentas para a prática clínica
Vamos caminhar juntos nesse aprendizado desejando que você realize bons estudos.
OBJETIVO GERAL DE APRENDIZAGEM DO MÓDULO 
Reconhecer possibilidades de reorganização da sua prática profissional de maneira 
a aproximar seu cotidiano dos princípios de família e comunidade, compreendendo 
a importância das competências nucleares da MFC e de suas ferramentas, assim 
como a relação delas com sua rotina de trabalho.
CARGA HORÁRIA DE ESTUDO RECOMENDADA PARA ESTE MÓDULO
Para estudar todos os conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo 
ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 15 horas para 
esse módulo.
Princípios da 
medicina de família 
e comunidade e 
suas competências
UNIDADE 01
13
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
• Entender os princípios da Medicina de Família e Comunidade;
• Conhecer aspectos históricos da Medicina de Família e Comunidade no 
Brasil e em outros países;
• Reconhecer as competências nucleares da MFC;
• Demonstrar como as competências nucleares da Medicina de Família e 
Comunidade se relacionam com a prática profissional.
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
Nesta primeira unidade, vamos contextualizar a história da Medicina de Família e 
Comunidade (MFC) no Brasil e no mundo, além de apresentar os princípios e as 
competências nucleares dessa especialidade, auxiliando-o a compreender a impor-
tância e a relação desses pressupostos com seu cotidiano de trabalho. 
1.1 - BREVE HISTÓRICO E ORGANIZAÇÃO DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNI-
DADE NO BRASIL E EM OUTROS PAÍSES
Antes de abordarmos as características e princípios da MFC, é importante que você 
conheça brevemente alguns fatos marcantes que a consolidaram como uma espe-
cialidade médica. Para além do simples conhecimento dos fatos, procure refletir 
sobre o contexto ideológico em que essa história se construiu. Essa reflexão ajudará 
você a entender, com mais clareza, os princípios que norteiam, não só a especiali-
dade, mas também nosso próprio sistema de saúde.
O conhecimento de tal ideário, com suas contradições e sua diversidade de pontos 
de vista, auxiliará também seu entendimento das competências nucleares e da 
forma como as mesmas irão sustentar sua prática na atenção primária. 
Figura 1: Representação de Hipócrates, e a medicina geral em diversos tempos
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
14
A história desta especialidade se confunde com a própria história da medicina, pois, 
ainda na Grécia Antiga, Hipócrates, na escola médica de Kos, já postulava que “não 
existem doenças, mas sim pacientes”, aproximando-se, desde então, de uma pers-
pectiva centrada na pessoa. 
Dando um grande salto na história, já no século XVIII e início do XIX, em meio às 
transformações socioculturais e tecnológicas advindas da Revolução Francesa e 
da Revolução Industrial, apareceram os termos family doctor e médico de cabeceira, 
em referência ao médico generalista que provia cuidado nas casas e à beira das 
camas, assim como dava atenção a questões sociofamiliares. 
É interessante, nessa perspectiva, constatar que o século XIX foi um período de 
grande desenvolvimento da prática da medicina geral na Europa e na América do 
Norte, sendo que, até o início do século XX, muitas famílias tinham seus médicos 
que cuidavam de todos os seus membros no decorrer do tempo e atuavam como 
conselheiros, líderes e epidemiologistas locais. Esses profissionais tinham a missão 
de lidar com a maioria dos problemas de saúde existentes nas comunidades, fazendo 
frente às limitações científicas de seu tempo. 
O decorrer do século XX, a seguir, foi marcado por grande evolução técnico-cien-
títica em geral e em especial no campo da saúde, iniciando-se, com isso, um pro-
cesso de marcada subdivisão e especialização das áreas de atuação médica, dei-
xando a abordagem generalista à margem desse processo. Por não atuar com 
órgãos e sistemas orgânicos específicos, tampouco utilizar as modernas tecnolo-
gias de cuidado, como acontece hoje em dia em áreas como cardiologia e radiolo-
gia, por exemplo, a medicina geral perdeu prestígio, passando a ser considerada, 
inadequadamente, ultrapassada ou defasada. 
Observe a forma como se construiu, então, uma distorção de conceitos associando 
a modernidade e eficiência das tecnologias à fragmentação do cuidado advinda 
das diferentes especializações.
Durante um longo período, construiu-se, em decorrência disso, o entendimento 
de que, para a prática da medicina geral, os médicos recém-formados, ainda não 
especializados, estavam aptos, cabendo a prática nas demais áreas aos especialis-
tas pós-graduados. 
Para reveter esse entendimento distorcido, por volta da década de 40, ocorreram 
movimentos nos EUA e no Reino Unido apontando para a necessidade de pós-gra-
duação também para atuação na medicina geral. Esses movimentos buscaram 
mostrar a importância de uma abordagem holística dos indivíduos e de suas famí-
lias. Em 1947, surgiu, em decorrência desses esforços, a primeira associação cien-
tífica de medicina de família: a American Academy of General Practice. 
Em contraponto a esse viés generalista, a perspectiva de subdivisão das especiali-
dades médicas seguia ganhando força e, na segunda metade do século XX, a grande 
maioria dos médicos buscava alguma especialização focada em sistemas ou tec-
nologias, mantendo a prática generalista ainda desprestigiada. Contudo, como o 
foco no cuidado fragmentado distanciou a atuação médica das pessoas do ponto 
15
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
de vista holístico e encareceu os sistemas de saúde, paulatinamente, se começou 
a questionar a ineficiência relativa desse formato de atuação médica. 
Como consequência desse questionamento, a prática da medicina geral passou 
gradativamente a ser vista não mais como um conjunto indiferenciado de conhe-
cimentos, mas sim como uma área de especialização com seu próprio corpo de 
conhecimento. Nessa linha de entendimento, entre as décadas de 1960 e 1970 
surgiu, na Europa e nos EUA, a especialidade em Medicina de Família1. 
Como profissional formado em pleno século XXI, certamente você tem a compre-
ensão de que essa oposição entre as duas linhas de abordagem é inadequada, por 
ser fruto de uma falsa premissade hierarquização entre elas. No mundo contem-
porâneo, com o avanço da ciência e com a miríade de conhecimentos e linhas de 
pesquisa na área de saúde e, principalmente com a ressignificação dos conceitos 
de promoção e prevenção em saúde, ambas as abordagens têm seu lugar e res-
pectivos campos de atuação, por exercerem diferentes funções em uma perspec-
tiva do cuidado baseada na densidade tecnológica de cada um dos níveis de atenção 
– primária, secundária e terciária –, que se define em uma relação poliárquica, sem 
que um do níveis seja hierarquicamente superior ao outro. Nesse caso o que dis-
tuigue os níveis é o uso, na APS, de tecnologias leves, ligadas à relação médico/
paciente, enquanto a atenção primária faz uso de tecnologias duras, que deman-
dam, por exemplo, aparelhagem sofisticada. 
Um bom exemplo da funcionalidade 
dessa relação poliárquica pode ser 
observado no enfrentamento à pande-
mia de Covid 19. 
Situações como essas demonstram cla-
ramente a necessidade de atuação simul-
tânea das diferentes especialidades 
médicas, sem que qualquer delas seja 
mais relevante que as demais, além de 
demandar a ação integrada dos diferen-
tes níveis de atenção. Temos, nesse con-
texto, a necessidade de especialistas em 
infectologia, imunologia e virologia 
dentre outros realizando estudos por 
meio da utilização de sofisticadas tecno-
logias e pesquisas de ponta, para 
sequenciar o vírus, entender sua forma 
de ação, traçar mapas, criar vacinas e 
medicamentos entre outras linhas de 
ação. Paralelamente, temos o trabalho 
1 Em âmbito internacional, o termo Family Medicine é mais consagrado e, dessa forma foi mantida a tradução médico de 
família e medicina de família para tratar dessa especialidade em outros países, enquanto no Brasil a especialidade médica 
é chamada Medicina de Família e Comunidade.
Fotos por Freepik.com
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
16
dos profissionais da atenção primária, recebendo nas UBS as pessoas infectadas 
ou com suspeita de infecção, para tratamento ou indicação de tratamento, con-
forme a gravidade, na atenção secundária que, por sua vez, conta com outro rol 
de especialistas em pneumologistas, intensivistas, neurologistas, cardiologistas etc., 
bem como de tecnologias sofisticadas – como respiradores e tomógrafos – para 
diagnóstico e tratamento. Lembrando, ainda, que, com o surgimento das vacinas, 
a atenção primária é também a responsável pela da vacinação.
Sem a sinergia entre os três níveis de atenção e a ação integrada entre médicos 
generalistas e especialistas, a atuação bem sucedida frente a situações como essa 
seria praticamente impossível. 
REFLEXÃO
Na trajetória que você acabou de acompanhar, foi relatada oposição 
entre duas linhas de cuidado ao longo da história da medicina: uma 
baseada na visão generalista, outra em defesa da especialização. 
Em quais situações você pode perceber, ainda hoje, essa dicotomia?
De que forma, você percebe, em nosso sistema de saúde, um caminho 
mais assertivo para essa discussão?
O que fez você optar por atuar em uma delas e nela aprofundar seus 
estudos?
Voltando à trajetória da abordagem generalista, destacamos o trabalho do profes-
sor britânico Ian McWhinney, médico de família, que colaborou com a fundação da 
Medicina de Família no Canadá. Seu trabalho teve influência determinante nesse 
processo porque elaborou o constructo acadêmico para a área, no qual enfatizava 
a importância de ser diferente, chamando a atenção para o valor da prática médica 
generalista, que é a base da Medicina de Família e Comunidade.
Convidamos você a conhecer um pouco mais o que o Prof. McWhinney enfatizava 
em suas palestras: a importância de ser diferente.
Neste material, você conhecerá os fundamentos e as ideias que embasaram o desen-
volvimento e a construção da identidade da Medicina de Família e Comunidade, con-
solidadas em um dos livros de referência da área: McWHINNEY, Ian Renwick. Manual 
de Medicina de Família e Comunidade. Porto Alegre: ARTMED, 2010. 471 p.
SAIBA MAIS
17
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Continuemos nosso percurso histórico da Medicina de Família e Comunidade, pois 
é importante você conhecer o desenvolvimento dessa especialidade no Brasil.
Por aqui, podemos considerar que a MFC 
é uma especialidade com reconhecimento 
recente, apesar de ter suas origens na 
década de 1970, quando surgiram as 
primeiras iniciativas de estruturação de 
residências médicas. Não houve uma 
coordenação central nesse processo, 
portanto surgiram movimentos para o 
desenvolvimento de medicina 
comunitária em cidades diferentes. 
Roraima
Amapá
Pará Maranhão
Piauí
Ceará
Paraíba
Pernambuco
Alagoas
Sergipe
Bahia
Rio Grande 
do Norte
Amazonas
Acre
Rondônia
Mato Grosso
Mato Grosso 
do Sul
Minas Gerais
Espiríto Santo
Rio de JaneiroSão Paulo
Paraná
Santa Catarina
Rio Grande do Sul
Goiás
Brasília
Tocantins
Em Porto Alegre, o Prof. Busnello 
desenvolveu o Centro de Saúde 
Escola Murialdo
No Rio de Janeiro, o Prof. Ricardo Donato 
estruturou o serviço de Medicina Integral da 
Universidade Estadual do Rio de Janeiro
Em Pernambuco, especificamente em Vitória 
de Santo Antão, o Prof. Guilherme Abath 
desenvolveu a medicina comunitária. 
 1981 1990 2001
 1986 1994 2002
A Comissão Nacional de 
Residência Médica formalizou os 
Programas de Medicina Geral e 
Comunitária (MGC), termo 
adotado inicialmente no Brasil. 
Essa sociedade se filiou à Confederação 
Ibero-Americana de Medicina Familiar 
(CIMF) e à Organização Mundial de 
Médicos de Família (WONCA).
Ganhou espaço no SUS com a 
criação do Programa Saúde da 
Família (PSF). 
O nome da especialidade MGC foi alterado para 
Medicina de Família e Comunidade (MFC) por 
um rol de especialistas que pertenciam à 
Sociedade Científica de MGC, que se 
transformou na Sociedade Brasileira de 
Medicina de Família e Comunidade. 
O Conselho Federal de 
Medicina reconheceu a 
especialidade médica. 
1980
1990
2000
2010
Em Niterói, uma iniciativa de criação de um 
programa de médico de família foi inspirada 
na medicina de Cuba auxiliou a impulsionar e 
valorizar a Medicina de Família e Comunidade, 
Figuras 2 e 3 – Desenvolvimento da Medicina de Família e Comunidade no Brasil
Você pode observar, assim, que, desde suas origens na década de 1970, com ini-
ciativas de estruturação de residências médicas, como a do professor Guilherme 
Abath, no Projeto Vitória, que envolvia ações comunitárias integradas a um 
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
18
programa de residência médica, não houve uma coordenação central nesse 
processo, embora a MFC sempre estivesse muito próxima ao desenvolvimento e 
à organização de sistemas nacionais de saúde, por ser o Médico de Família e 
Comunidade profundo conhecedor dos atributos da Atenção Primária à Saúde 
(APS) e fazer parte desses sistemas. 
Apesar de a MGC ter surgido em 1981, durante algum tempo havia pouco mercado 
de trabalho para os profissionais da área. Com a reordenação da APS brasileira 
e valorização da equipe com médicos generalistas, a demanda por especialistas 
nessa área cresceu, tanto no sistema público, como no sistema privado. 
Atualmente, somos mais de 5.000 médicos de família e comunidade no Brasil e 
esse número é insuficiente para a nossa realidade, ao considerarmos as cerca de 
50 mil equipes de Estratégia Saúde da Família existentes em todo o país. É em 
função dessa necessidade, que surgem políticas públicas para formação e provi-
mento de médicos para a APS, como o atual Programa Mais Médicos para o Brasil.
Diante desse panorama, você pode verificar que essa especialidade tem seu 
desenvolvimento ao longo dos anos, através de um percurso exitoso em vários 
países e com reconhecimento crescente e promissor no Brasil. Vamos agora 
entender como trabalha esse profissional.
1.2 - MÉDICO DE FAMÍLIA E COMUNIDADE: ESPECIALISTA EM GENTE
O Médico de Família e Comunidade é, antesde tudo, um especialista para além 
das doenças. 
Muitas vezes ouvimos a pergunta: Mas afinal, o Médico de Família e Comunidade 
é especialista em quê? A melhor resposta a essa questão é: Ele é especialista em 
gente, pois sua atuação é baseada na relação médico-paciente. Como profissio-
nal ele se especializou em cuidar de pessoas, independentemente de sexo, idade 
ou tipo de problema, oferecendo um cuidado individualizado, para além da 
doença em si.
No vídeo “Quem é o Médico de Família e Comunidade?” (Fonte: Sociedade 
Brasileira de Medicina de Família e Comunidade - SBMFC), disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=HZuU8xbNGNA, você entenderá a 
origem da expressão “Especialista em gente”. O vídeo apresenta as carac-
terísticas do Médico de Família e Comunidade.
Após compreender o panorama histórico da MFC e entender a origem da expres-
são especialista em gente para o Médico de Família e Comunidade, vamos conhecer 
melhor os princípios dessa especialidade, bem como as competências a ela vincu-
19
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
ladas. Você terá a oportunidade de refletir sobre a importância do seu desenvol-
vimento profissional e, consequentemente, da sua contribuição para o SUS.
1.3 - PRINCÍPIOS DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE E COMPETÊNCIAS 
NUCLEARES
Como vimos anteriormente, o desenvolvimento da MFC como especialidade médica 
com corpo específico de conhecimento aconteceu no final do século passado. Em 
2005, a WONCA-Europa (World Organization of National Colleges, Academies and Aca-
demic Associations of General Practitioners / Family Physicians) apresentou as com-
petências nucleares dessa disciplina acadêmica e, em 2012, as competências nucle-
ares que norteiam a prática do Médico de Família e Comunidade e serão estudadas 
mais a frente nesta unidade. 
O Médico de Família e Comunidade deve dominar as competências nucleares de 
modo a acumular conhecimento e prática, que o guiarão em ações pautadas por 
quatro princípios fundamentais. 
Assim, sugerimos que você estude atentamente os quatro princípios fundamen-
tais da especialidade em Medicina de Família e Comunidade apresentados a seguir. 
Refletir sobre eles e incorporá-los à sua prática cotidiana qualificará seu trabalho.
São os seguintes os princípios:
O Médico de 
Família e 
Comunidade é um 
clínico qualificado
A atuação do 
Médico de Família 
e Comunidade é 
influenciada pela 
comunidade
O Médico de 
Família e 
Comunidade é um 
recurso de uma 
população definida
A relação 
médico-pessoa é 
fundamental para 
atuação e bom 
desempenho do 
Médico de Família e 
Comunidade
Esses princípios são importantes para a formação do Médico de Família e Comu-
nidade e conhecê-los é necessário para compreender melhor o desenvolvimento 
das competências nucleares. A seguir, você irá estudar melhor tais princípios e a 
forma como eles se relacionam com as competências, além de como tais concei-
tos se aplicam à prática profissional. 
1.3.1 - O Médico de Família e Comunidade é um clínico qualificado
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
20
O Médico de Família e Comunidade realiza uma abordagem abrangente da saúde 
das pessoas: lida com quaisquer pessoas, sem restrição de sexo, gênero, idade ou 
tipo de problema de saúde. Assim, na 
sua prática clínica, cuidará de crianças, 
adolescentes, adultos e idosos, homens 
e mulheres de diferentes gêneros e 
orientações sexuais, e atenderá a deman-
das das mais diversas naturezas. 
Essas demandas surgirão nas mais diver-
sas fases da história natural do adoeci-
mento, mas especialmente nas fases ini-
ciais, mais indiferenciadas, com sintomas 
vagos e inespecíficos. Não apenas terá 
que lidar com o diagnóstico e tratamento 
de doenças, como também terá que 
propor atividades preventivas e de pro-
moção da saúde. 
Para lidar com essa variedade de problemas, o Médico de Família e Comunidade 
precisa desenvolver aptidões clínicas específicas, que incluem:
MÉDICO DE 
FAMÍLIA E 
COMUNIDADE
a capacidade de desenvolver 
estratégias de aprimoramento 
contínuo considerando os 
problemas que surgiram ao 
longo de sua carreira
o raciocínio clínico 
apurado
o manejo adequado 
da incerteza
a prática centrada nas 
melhores evidências 
científicas
a capacidade de lidar 
com problemas ao 
longo do tempo
Só a partir do domínio de tais aptidões você poderá atingir o grau de resolutividade 
que se espera do profissional dessa área de atuação.
Esse profissional parte da premissa que cada pessoa é única e vive a sua própria 
experiência de doença, baseada em seus valores, sentimentos, ideias e expectati-
vas, e que os problemas de saúde trazem um impacto específico na vida de cada 
pessoa. Também sabe que cada pessoa está em permanente relação com seus 
familiares, outras pessoas e com a comunidade na qual está inserida, recebendo 
influência de aspectos sociais, culturais e existenciais. 
Foto por Hush Naidoo Jade Photography | 
Unsplash.com
21
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Sendo a experiência com a doença tão individual, é fácil você concluir que o cuidado 
necessário para lidar com ela também deve ser individualizado, o que implica a 
necessidade de promover a autonomia e o empoderamento das pessoas para que 
lidem, cada vez melhor, com os próprios problemas. Dessa forma, apenas uma 
abordagem holística e centrada em cada pessoa permite ao Médico de Família e 
Comunidade prestar cuidados efetivos às pessoas sob sua responsabilidade.
1.3.2 - A atuação do Médico de Família e Comunidade é influenciada pela 
comunidade
Com certeza você já aprendeu em seus 
estudos e verificou em sua prática na APS 
que saúde de cada indivíduo está direta-
mente ligada aos determinantes sociais 
relacionados a essas pessoas, como as 
condições de habitação, saneamento, 
segurança, trabalho, acessibilidade, entre 
outros, e também a questões mais amplas, 
como meio ambiente e cultura, por isso 
o Médico de Família e Comunidade 
precisa estar atento a tudo que acontece 
em sua comunidade. Conhecer bem os 
problemas de saúde mais prevalentes 
possibilita a oferta de cuidados mais efe-
tivos para um maior número de pessoas, 
uma vez que permite não apenas cuidar dos problemas de saúde quando eles ocorrem, 
mas também se antecipar a esses e desenvolver ações de promoção da saúde e pre-
venção de doenças. 
Além disso, é preciso considerar que as comunidades dispõem de outros recursos 
que estão relacionados, direta ou indiretamente, à saúde, como estabelecimentos 
de saúde, escolas, centros comunitários, centros de assistência social, instituições 
religiosas, entre outros. Conhecer e se articular com esses diferentes elementos 
do território amplia a capacidade de o Médico de Família e Comunidade atuar sobre 
os determinantes sociais da saúde, aumentando sua resolutividade e o nível de 
saúde da população sob seus cuidados.
Ao conhecer a comunidade e as condições mais prevalentes, sendo influenciado 
por ela, você terá melhor especificidade ao fazer uma avaliação clínica, tornando-
-se um clínico melhor qualificado, como vimos no primeiro princípio da Medicina 
de Família e Comunidade.
Outra característica importante, que está relacionada à qualificação da atuação 
nessa especialidade médica, é a proximidade do Médico de Família e Comunidade 
com as pessoas e a possibilidade de cuidar delas por anos, oferecendo uma atenção 
contínua e longitudinal. Ao cuidar dessa forma ou mesmo ao ter a possibilidade 
Foto por Zach Vessels | Unsplash.com 
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
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de solicitar retornos breves, o profissional está em uma posição favorável para lidar 
com a incerteza diagnóstica, bem como para conhecer o perfil de adoecimento das 
pessoas da comunidade em que atua, tendendo, assim, a exercer uma prática 
clínica qualificada. 
1.3.3 - O Médico de Família e Comunidade é um recurso de uma população 
definida
O Médico de Famíliae Comunidade é 
uma referência para as pessoas de sua 
lista de pacientes e para a comunidade 
em que trabalha, independentemente 
da presença ou ausência de doença. 
Já vimos que as ações desse profissional 
são oferecidas não apenas individual-
mente, mas também coletivamente, e 
buscam não apenas a cura e a reabilita-
ção, mas também a prevenção de 
doenças e a promoção da saúde. Sendo 
o especialista da atenção primária, ele 
deve contemplar os atributos essenciais 
da APS, que incluem ser o local de pre-
ferência para o primeiro contato das 
pessoas com o sistema de saúde e ofe-
recer cuidados abrangentes ao longo do 
tempo. Por isso esse especialista é um 
recurso humano essencial para toda a 
população sob seus cuidados. O acesso aos seus cuidados deve ser amplo, por-
tanto não pode estar restrito a consultas agendadas, mas deve contemplar deman-
das não programadas, mesmo que não sejam urgências clínicas. Cada serviço deve 
ser organizado para atender a essas diferentes demandas e oferecer acesso faci-
litado e adequado às pessoas da comunidade com diferentes necessidades.
Outro papel importante desse profissional, para a comunidade na qual atua, é o 
de ser o responsável pela utilização criteriosa dos recursos do sistema de saúde. 
Aqui temos mais um atributo essencial da APS: a coordenação do cuidado. Cabe 
ao médico de família e comunidade, como você, que atua em uma UBS, definir 
quando é necessário encaminhar pessoas para outros pontos de cuidado e, ao 
mesmo tempo, coordenar as ofertas de cuidado de cada serviço para ajustá-las ao 
contexto de cada paciente. Ao conhecer as políticas públicas e aspectos epidemio-
lógicos de sua população, também deverá atuar para que estas políticas sejam vol-
tadas para a saúde da população e sejam desenvolvidas por gestores públicos. 
Desta forma, pode atuar como um advogado ou sentinela para apoiar a comuni-
dade na garantia de seus direitos enquanto cidadãos.
Foto por Raquel Portugal | Acervo Fundação 
Oswaldo Cruz
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EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Além de se responsabilizar pelas pessoas, independentemente da presença ou 
ausência de doenças ou das característas dessas doenças, esse médico deve, 
também, lançar mão das vantagens de oferecer cuidado no decorrer de anos. Por 
conhecer como as pessoas e a família lidam com as adversidades, assim como as 
características do território, e acompanhar o desenvolvimento pessoal, o Médico 
de Família e Comunidade tem uma ampla visão de risco de adoecimento e de poten-
cialidades, portanto pode propor ações de promoção e prevenção de saúde (pre-
venção primária, secundária, terciária e quaternária).
Por muito tempo, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) foram centros de vacinação, 
puericultura e pré-natal, além de cuidar de demandas clínicas controladas em con-
sultas de rotina agendadas. No entanto, com a implantação da Estratégia Saúde 
da Família e implementação das ações da APS, foi identificada a necessidade do 
cuidado de condições agudas. Por esse motivo, o médico é um recurso para cuidado 
também em condições agudas, intensificando a gestão dos cuidados primários. 
Lidar com as demandas não programadas não é uma tarefa simples e exige de 
você competências específicas e conhecimento sobre as diversas formas de orga-
nização de processo de trabalho para a prática clínica diária. O desafio é ainda 
maior quando há um número elevado de pessoas cadastradas sob a responsabi-
lidade da equipe, especialmente se a área for de grande vulnerabilidade socioeco-
nômica. Assim, o Médico de Família e Comunidade deve ser competente para auxi-
liar e organizar seu serviço conforme demanda e perfil populacional, bem como 
dominar ferramentas que o auxiliem nessa prática.
Entre as demandas não programadas, você deve estar atento e organizar seu pro-
cesso de trabalho para também acolher necessidades de renovação de receitas de 
psicotrópicos e condições clínicas que aumentam de forma sazonal, como dengue, 
síndromes gripais, entre outras. É importante também você reservar horários para 
elaboração e fornecimento de relatórios previdenciários, judiciais e demais docu-
mentos que envolvam aspectos burocráticos do cuidado em saúde.
Por exemplo, para lidar com as situações citadas e outras, é necessário que o médico 
seja protagonista da organização do serviço no qual está inserido e utilize ferra-
mentas específicas, como realizar diagnóstico de demanda, gerir a própria clínica, 
fazer registro orientado por problemas e apoiar a organização das agendas e da 
estrutura de atendimento da demanda espontânea.
Por ser um recurso de uma população definida, o Médico de Família e Comunidade 
estará em posição privilegiada para reconhecer os recursos necessários e dispo-
níveis para o cuidado das necessidades da população sob sua responsabilidade. 
É muito importante conhecer as políticas públicas vigentes e estar atento aos pro-
tocolos clínicos e operacionais necessários para a integração da APS à Rede de 
Atenção à Saúde. Assim o Médico de Família e Comunidade assume a responsabi-
lidade da coordenação do cuidado no sistema de saúde e mantém postura crítica, 
cuidadosa e individualizada. 
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
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Exercitar, com a equipe toda, esse olhar para as demandas de sua população pode 
favorecer o processo de trabalho de todos os envolvidos – médico, equipe de enfer-
magem, agentes comunitários de saúde –, uma vez que enxergar e entender a 
demanda é o primeiro passo para criar um trabalho mais efetivo.
No entanto, o Médico de Família e Comunidade nunca pode perder de foco a impor-
tância da qualidade da relação médico-pessoa, que é determinante para a prática 
e que nos remete ao quarto princípio da MFC.
1.3.4 - A relação médico-pessoa é fun-
damental para o desempenho do 
Médico de Família e Comunidade
Vamos estudar agora o último princípio 
da MFC. 
Nessa etapa, é importante você refletir 
sobre a importância de estabelecer uma 
boa relação médico-pessoa permeia 
todos os princípios da MFC. O vínculo 
que os médicos de família e comunidade 
criam com seus pacientes tem potencial 
terapêutico e é essencial para que cada 
pessoa possa ser compreendida em suas 
singularidades. Quanto melhor a relação 
estabelecida com as pessoas, maior é a 
chance de que sejam oferecidos cuida-
dos abrangentes e holísticos. 
O tempo dedicado a esses cuidados também costuma ser importante, e aqui vemos 
mais uma vez a importância da longitudinalidade. A relação médico-pessoa costuma 
ser, em termos de poder, uma relação assimétrica, em que o médico determina o 
que deve ser feito e a cada pessoa cabe seguir as orientações do profissional. O 
Médico de Família e Comunidade, no entanto, compreende esse desequilíbrio e sabe 
que deve estar atento para não abusar desse poder, pois suas próprias fraquezas 
poderiam afetar os cuidados oferecidos. Assim, ele busca minimizar a assimetria de 
poder investindo na autonomia das pessoas para gerirem seus próprios cuidados.
É comum que a formação médica aconteça, em grande parte, em contexto hospitalar, 
no qual a autonomia do paciente em decisões relacionadas ao tratamento é mínima. 
A prescrição e a administração de medicamentos nem sempre vêm acompanha-
das de explicações e, geralmente, não levam em consideração características espe-
cíficas da pessoa.
Na assistência à saúde, em um contexto ambulatorial e comunitário, essa situação 
é diferente. O paciente tem autonomia e liberdade para seguir ou não as 
orientações e os tratamentos. Sendo assim, as condutas devem ser compreendi-
das e compartilhadas sempre que possível, o que é previsto em uma prática médica 
Foto por Gpointstudio | Freepik.com
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EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
centrada na pessoa. Por meio dessa forma de cuidar, você ajudará as pessoas, res-
peitando suas expectativas e ideias, além de considerar contexto no qual elas 
estão inseridas. 
Esse método clínico e outras ferramentasde abordagem que possibilitam comu-
nicação efetiva, associados a uma prática clínica competente e ao envolvimento 
com a comunidade, fazem parte da essência da especialidade. As responsabilida-
des com o indivíduo possibilitam uma relação horizontal propositiva, na qual o 
vínculo entre o médico e a pessoa se torna um importante agente terapêutico. 
Seguindo essa conduta, você poderá intensificar e valorizar a relação médico-pes-
soa tal como versa este quarto princípio da MFC.
REFLEXÃO
Agora que você estudou os quatro princípios da MFC, reflita um 
pouco sobre como você observa ou não no cotidiano de trabalho 
da unidade em que atua.
O que considera fundamental para ser um clínico qualificado?
Em quais situações você indentifica que otrabalho de sua equipe 
é influenciado pela comunidade?
Em que medida você identifica esse trabalho como recurso de uma 
população definida?
Que aspectos você considera importante implementar para ampliar 
a relação médico-pessoa em sua prática?
Por conhecer as pessoas no decorrer de suas vidas em momentos 
de doença ou de promoção de saúde, considerando o meio ambiente, 
profissão e relações familiares, o Médico de Família e Comunidade 
está em posição privilegiada para intensificar a relação com a pessoa. 
Isso é determinante para o melhor cuidado de seus pacientes. 
1.3.5 - As competências nucleares da Medicina de Família e Comunidade
O exercício da especialidade MFC se encontra fundamentado em seus quatro prin-
cípios, sendo importante que, para sua atuação conforme tais princípios, os médicos 
construam seis competências nucleares.
Para que você compreenda, plenamente, a importância desse requisito em seu tra-
balho, é preciso ter em mente que as competências definem-se como capacidade 
de utilizar os conhecimentos adquiridos – tanto formalmente em sua trajetória aca-
dêmica quanto na prática cotidiana, desde que exercida com atitude reflexiva e crítica, 
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
26
reunidos ao saber fazer e saber ser, demonstrando habilidades específicas, atitude 
proativa e prontidão na tomada de decisões para solução criativa e exitosa de pro-
blemas. Traduz aquilo que os profissionais devem ser capazes de empreender em 
sua vida profissional como consequência maior de sua trajetória de aprendizagem.
Habilidades, por sua vez, se traduzem pela capacidade de saber fazer, de dominar 
os meios para realizar uma tarefa. Esse domínio é resultado de prática e aperfei-
çoamento constantes. 
Tendo isso em mente, as competências nucleares em MFC são, a saber:
Cuidados centrados na pessoa – a partir da relação médico-pessoa, 
realizar uma prática centrada no paciente e no contexto, considerando a 
continuidade longitudinal.
Aptidões específicas para resolução de problemas – incluindo na 
atenção e no cuidado os estágios precoces e indiferenciados.
Gestão de cuidados primários – envolvendo coordenação de cuidado e 
advocacia com vistas a trabalhar pela melhoria de condições de saúde da 
comunidade adscrita.
Abordagem abrangente – que compreende o atendimento não só aos casos de 
problemas de saúde agudos e crônicos que trazem os usuários a UBS em busca 
de consultas e tratamento, mas também o trabalho em prevenção e promoção 
de saúde e bem-estar, conforme o entendimento que a MFC tem de saúde.
Orientação comunitária – assumindo a responsabilidade pela saúde da 
comunidade, considerando condições de vulnerabilidade sociais, 
econômicas, epidemiológicas, dentre outras.
Abordagem holística – considerando o atendimento à saúde 
englobando aspectos físicos, psicológicos, sociais, culturais e existenciais 
e o trabalho em equipes multidisciplinares.
27
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Como você já deve ter percebido essas competências nucleares estão intima-
mente relacionadas com outros conceitos já conhecidos por você, presentes 
nos princípios do SUS e nos atributos – essenciais e derivados – da atenção pri-
mária. Esse relacionamento mostra o quanto a MFC compreende um corpo de 
conhecimentos, valores e linhas de ação coerente, que traduz uma concepção de 
saúde específica. 
Para melhor visualização dessa dinâmica, podemos observar a árvore de compe-
tências apresentada pela Organização Mundial de Medicina de Família – WONCA 
na Figura 4.
Figura 4 – As competências nucleares segundo a WONCA-Europa
Definição Europeia de Medicina Geral e Familiar: Competências Nucleares e 
Características (EURACT/WONCA 2002-2005) 
@ 2004 Swiss College of Primary Care Medicine / U. Grueninger, Adaptação e 
tradução de LF Gomes, 2005
Tomada de 
decisão baseada 
na incidência e 
prevalência
Estágios 
precoces e 
indifereciados
Física, psicológica, 
social, cultural e 
existencial
Prática 
centrada na 
pessoa e 
contexto 
Problemas de 
saúde agudos e 
crônicos
Continuidade
Longitudinalidade
Responsável 
pela saúde da 
comunidade
Coordenação 
de Cuidados
Advocacia
1º Contato; 
Acesso aberto
Todos os Problemas 
de Saúde
Atitute
Ciência
Contexto
Relação 
médico/
paciente
Promoção da 
saúde e 
bem-estar
Abordagem 
holística
Cuidados 
centrado na 
pessoa
Aptidões 
específicas para 
a resolução de 
problemas
Gestão de 
cuidados 
primários
Orientação 
comunitária
Abordagem 
abrangente
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
28
Observe como a árvore se organiza em termos funcionais. 
Em suas raízes, temos, no centro, a ciência – indicando que trabalhamos com medi-
cina baseada em evidências e com demais saberes científicos como conhecimen-
tos em gestão, estatística, sociologia, dentre muitos. De um dos lados, a atitude – 
sua e de sua equipe que precisa ser receptiva e proativa no atendimento universal 
e integral e longitudinal. Do outro lado, o contexto – a consciência de que o traba-
lho compreende a comunidade adscrita ao território em que atuam, pelo qual são 
responsáveis. São essas as bases que alimentam e sustentam a atuação do médico 
de família e comunidade, sem as quais, dificilmente, o trabalho atingirá a resoluti-
vidade almejada.
Os galhos compreendem as competências que ora estudamos, por meio das quais 
o trabalho da MFC se propõe a acolher e atender o indivíduo, as famílias e a comu-
nidade, conhecendo e compreendendo suas características e demandas, e ado-
tando uma determinada perspectiva do que é saúde e qual é abordagem de ser 
implementada.
Finalmente, temos as folhas representando as habilidades por meio das quais as 
competências encontram sua forma de atuação, o saber fazer, na prática cotidiana 
de trabalho.
Por outro lado, também é importante lembrar que, toda árvore que se presa, respira 
através de suas folhas, responsáveis pela fotossíntese. Sua vida e sua produção de 
frutos depende desse processo. Assim, as folhas que representam a prática das 
habilidades, ou seja, sua ação no dia a dia da clínica, em conjunto com sua equipe, 
se realizada com responsabilidade, reflexão e consciência crítica, além de materia-
lizar as competências/princípios em que se embasam e apresentarem resolubili-
dade no cuidado das pessoas, famílias e comunidades, retroalimentam o sistema 
de saúde – com informações vitais para a replicação de experiências exitosas, ela-
boração de novas políticas, correção de rumos na gestão, entre outros.
Podemos exempificar essa dinâmica, também, com o enfrentamento a pandemia 
de Covid 19. Como a APS é a porta de entrada dos pacientes no sistema, assim 
como é ela a responsável pelo programa de vacinação da população, os dados 
sobre números de infectados, de hospitalizados, de vacinados são fornecidos pela 
atenção primária para que os pesquisadores possam entender os caminhos da 
contaminação, a gestão do sistema possa traçar os rumos do combate a pande-
mia e os especialistas organizar o atendimento aos pacientes . 
Como você já verificou em seus estudos e deve ter confirmado em sua prática, ao 
ser um clínico competente, com prática orientada à comunidade, tornando-serefe-
rência para uma população definida, o Médico de Família e Comunidade lida com 
muitos tipos de problemas: agudos e crônicos, físicos e psicológicos. Com uma 
prática centrada na pessoa, conhece a realidade sociocultural e existencial dos indi-
víduos e da comunidade, oferecendo-lhes acesso à assistência em saúde e cuida-
dos no decorrer do tempo. Tem de lidar com problemas indiferenciados em está-
gios precoces e com situações avançadas, para os quais pode solicitar apoio da 
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EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
rede especializada, lançando mão do ótimo vínculo com as pessoas e da aptidão 
para lidar com problemas complexos. 
Para o domínio dessas competências e da prática da MFC, é muito importante que 
você conheça as ferramentas de trabalho que serão discutidas a seguir. 
FECHAMENTO DA UNIDADE
Nessa unidade, você adquiriu domínio sobre os princípios da MFC, conheceu as 
competências nucleares da especialidade e construiu uma base importante da 
identidade que deve ter um Médico de Família e Comunidade.
Você aprendeu que as ações são propostas com base na competência clínica indi-
vidual, mas também dependem da atuação da comunidade e da população defi-
nida, assim como da relação e do vínculo estabelecidos, que são fundamentais 
para uma assistência efetiva. Por não serem definições puramente teóricas, os 
princípios da MFC foram ilustrados em diferentes situações na rotina da APS. Essa 
compreensão servirá de auxílio para você dominar melhor as ferramentas de tra-
balho do dia a dia do Médico de Família e Comunidade, uma vez que essas com-
partilham os mesmos princípios em sua origem.
A abordagem 
centrada na pessoa, 
comunicação 
clínica efetiva, 
abordagem familiar 
e comunitária e 
outras ferramentas 
para a prática clínica
UNIDADE 02
31
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM 
• Conhecer os fundamentos básicos das principais ferramentas da MFC;
• Identificar possibilidades de aplicação das principais ferramentas da MFC 
na prática profissional;
• Identificar o cuidado centrado na pessoa no cotidiano profissional;
• Reconhecer a comunicação efetiva como ferramenta relevante para a 
prática profissional;
• Entender a importância da prática do Médico de Família e Comunidade 
para a abordagem familiar e orientação comunitária.
INTRODUÇÃO DA UNIDADE
Na unidade anterior, você aprendeu que os princípios da MFC e as competências 
nucleares possibilitam uma prática médica ampla, considerando tanto a pessoa 
quanto o meio sociofamiliar em que ela vive. 
Nesta é importante avançar no conhecimento e compreender a importância das 
ferramentas da MFC para a prática clínica. As ferramentas fundamentais são: 
• O método clínico centrado na pessoa;
• A comunicação clínica efetiva;
• A abordagem familiar e comunitária.
2.1 - MÉTODO CLÍNICO CENTRADO NA PESSOA
É possível que você já tenha atendido alguém e, ao final da consulta, tido a 
impressão de que as orientações não foram entendidas ou, talvez isso só tenha 
ficado claro quando a pessoa voltou na consulta de retorno, sem aderir ao que 
foi proposto. É importante perceber que, muitas vezes, há um distanciamento 
entre o que o médico entende que é melhor para a pessoa e o que ela realmente 
espera do tratamento.
Ao praticar o método clínico centrado na pessoa, você entenderá que tão impor-
tante quanto considerar aspectos clínicos para o manejo da doença é abordar a 
experiência de adoecer, as expectativas relacionadas ao cuidado e garantir um 
espaço para a participação ativa do indivíduo no planejamento de condutas. Na 
Figura 5, temos os quatro passos dessa abordagem centrada na pessoa.
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
32
Figura 5 – Os quatro passos do método clínico centrado na pessoa
Fonte: Gusso e Lopes (2019)
PASSO 1
Explorando saúde, 
doença e a experiência 
da pessoa com a doença
PASSO 2
Entendendo a pessoa 
como um todo
PASSO 3
Elaborando projeto 
comum de manejo 
dos problemas
Abordagem centrada na 
pessoa - componentes
PASSO 4
Intensificando a relação médico - pessoa
Ao fazer perguntas abertas no início da consulta e permitir que a 
pessoa expresse suas preocupações, você explora a saúde, a 
doença e a experiência da pessoa ao adoecer (passo 1), além de 
ter mais facilidade para entender a pessoa como um todo (passo 
2) e pactuar com ela um plano de manejo de problemas (passo 
3). A consulta que considera esses passos possibilita a intensifi-
cação da relação médico-pessoa (passo 4), que vai se construindo 
ao longo da execução dos passos anteriores, sendo característica 
transversal do encontro de cuidado.
Lembre-se!
Vamos pensar juntos com base no seguinte exemplo: 
Uma pessoa traz a queixa de dor de cabeça, 
tem a preocupação de ser um câncer e tem 
a expectativa de fazer um exame comple-
mentar ou de ser encaminhada ao neurolo-
gista. Se o Médico de Família e Comunidade 
não compreender o que realmente preocupa 
a pessoa, pode não orientar adequadamente 
sobre o que precisa além do tratamento.
33
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Para entender a pessoa como um todo, conforme orientado no passo 2 da abor-
dagem centrada na pessoa, você deverá desenvolver competências para abordar 
aspectos não apenas físicos utilizando ótima capacidade de escuta e comunicação 
efetiva.
2.2 - COMUNICAÇÃO CLÍNICA EFETIVA
Para a prática da abordagem centrada na pessoa, é importante ter em mente que 
uma ótima comunicação será o alicerce da relação com seus pacientes. 
REFLEXÃO
Analise, agora, a seguinte situação: Após uma consulta individual 
em que você fez todas as orientações cuidadosas que julgou ade-
quadas, o paciente, antes de sair do consultório, criou coragem e 
fez uma série de perguntas novas. 
Diante dessas perguntas, você avalia que havia abordado todas as 
demandas do paciente? 
Considera, também, que deu a ele, inicialmente, oportunidade de 
expressar tudo o que o levou a procurar assistência na UBS?
Essa é uma situação que acontece quando o médico não aborda 
todas as demandas e expectativas da pessoa ou quando não dá 
oportunidade que ele expreese todas as suas demandas, angús-
tias e dúvidas.
Muitas vezes, o médico não concede 
espaço na consulta para o paciente falar 
sobre a situação que o está angustiando, 
e, ao término do atendimento, ele 
declara suas preocupações. Essa situa-
ção pode ser desconfortável, pois o 
médico, que achou ter finalizado a con-
sulta, precisa retomar assuntos impor-
tantes. Se você estiver atento e lançar 
mão de uma comunicação efetiva, evitará 
que situações como essa aconteçam.
Também em casos de doenças crônicas, 
que exigem mudança comportamental 
e adesão ao tratamento, a ferramenta Foto por DCStudio | Freepik.com 
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
34
da comunicação e a competência da empatia são fundamentais para motivar a 
pessoa e assim ajudá-la a promover as transformações esperadas. 
Essa comunicação empática é igualmente essencial quando for necessário informar 
ao paciente um diagnóstico de doença infecciosa, uma condição progressiva ou até 
potencialmente letal, sabendo que essa situação irá gerar muita angústia e neces-
sidade de amparo, pois é o caminho certo para o êxito na abordagem do tema.
Devemos, dessa forma compreender a comunicação como uma ferramenta ativa 
de cuidado. Como Médico de Família e Comunidade, ao lidar com pessoas em qual-
quer fase do ciclo de vida, independentemente da presença ou não de doenças ou 
agravos, você precisa desenvolver atitudes empáticas, saber se expressar de maneira 
clara e cordial e, ainda, compreender as mais diversas demandas dos usuários do 
serviço de saúde para ter um bom desempenho. 
2.3 - ABORDAGEM FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Um ótimo cuidado clínico individual envolve um olhar para a pessoa, sua família e 
contexto. Vimos que, entre as competências nucleares, há algumasque remetem 
à importância de uma abordagem holística, integral e abrangente.
Quando o Médico de Família e Comunidade aborda a pessoa como um todo, ele 
atua como o recurso de uma população definida e de forma influenciada pela 
comunidade, lançando mão dos conhecimentos dos determinantes sociais de 
saúde e do olhar sistêmico sobre as pessoas e sobre as pessoas com quem elas 
se relacionam.
Nessa perspectiva, você deve levar em consideração que muitos problemas de 
saúde no indivíduo sofrem influência da família, sendo o contrário também ver-
dadeiro, principalmente quando a família é essencial para o apoio no cuidado do 
ente adoecido. 
Foto por Monica Amelia Medeiros da Cunha Lima | Ministério da Saúde
35
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Para você entender melhor, podemos citar o exemplo de uma família com um ou 
mais membros portadores de síndrome psicótica. A família exerce papel determi-
nante no manejo e prevenção de surtos e, em resposta a isso, pessoas com a con-
dição de saúde controlada trazem tranquilidade para o meio familiar.
No que diz respeito à abordagem familiar, as visitas domiciliares também são ati-
vidades que contribuem para o desenvolvimento das competências relacionadas 
a tal linha de atuação e para o melhor conhecimento do território de atuação, oti-
mizando a orientação comunitária. 
Quanto mais o Médico de Família e Comunidade conhece a comunidade e é influen-
ciado por ela, quanto mais ele conhece o perfil da população a que atende – os 
riscos aos quais ela está submetida, as queixas mais prevalentes e as característi-
cas do território –, maior a chance de ele acertar o diagnóstico e o manejo de situ-
ações comuns em sua rotina de trabalho. Ao incorporar à sua prática clínica a abor-
dagem familiar e comunitária, você torna seu trabalho mais efetivo. 
2.4 - MAIS FERRAMENTAS PARA A 
PRÁTICA CLÍNICA
Além das discutidas anteriormente, 
existem diversas ferramentas práticas 
que podem ajudar você a executar o 
papel de Médico de Família e Comuni-
dade de forma fiel aos princípios da 
especialidade. Vamos analisá-las.
2.4.1 - Trabalho em equipe
O trabalho em equipe é primordial para 
o bom desempenho profissional, uma 
vez que a diversidade de visões sobre 
uma mesma questão enriquece qualquer 
processo de trabalho. Trabalhar em 
equipe envolve:
A negociação diante 
de diferentes pontos 
de vista
A expressão 
de ideias
A valorização da 
opinião dos 
membros do grupo
A habilidade 
de escuta
Comunicação 
efetiva abrangendo, 
por sua vez
Autonomia 
relativa de cada 
função
Horizontalidade 
nas relações de 
trabalho
Foto por Samuel Bizachi | Ministério da Saúde
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
36
Os melhores resultados alcançados com o trabalho em equipe se devem ao com-
partilhamento do mesmo anseio de sucesso pelos membros da equipe. O objetivo 
comum é a mola propulsora que move o grupo e potencializa a soma das melho-
res competências individuais, mobilizadas para essa finalidade. 
2.4.2 - Registro clínico orientado por problemas
Para uma comunicação clínica efetiva, 
o prontuário é um fator importante. A 
organização do registro e a condução 
da consulta podem ser centradas na 
pessoa com uso do registro clínico 
orientado por problemas. Essa ferra-
menta foca no registro, tanto em aspec-
tos subjetivos quanto em aspectos obje-
tivos da consulta, seguidos da avaliação 
dos problemas e plano de cuidados 
compartilhado, direcionando ao que a 
pessoa considera prioridade. Esse pro-
cesso de registro é breve, organizado e 
ideal para o seguimento longitudinal, 
sendo amplamente utilizado no con-
texto da APS ao redor do mundo.
2.4.3 - Gestão da clínica
Foto por SES Santa Catarina
A gestão da clínica é uma ferramenta desenvolvida para você organizar o processo 
de trabalho da unidade em si, da assistência individual e do serviço à população. 
Foto por rawpixel.com | Freepik.com
37
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Para isso, alguns pontos são essenciais como:
GESTÃO 
DA CLÍNICALidar com a pressão 
assistencial e com a 
gestão do tempo
Estruturar a agenda de 
assistência sem diminuir 
ou limitar demandas 
essenciais do território
Conhecer a demanda
Nesse último caso, nos referimos tanto ao tempo de atendimento quanto ao uso 
do tempo como ferramenta de cuidado, seja pela demora permitida – uso do tempo 
como instrumento de cuidado para que o quadro se defina melhor em situações 
em que há ausência de urgência –, seja pelo watchful waiting – observação atenta 
ao lidar com situações clínicas em que o diagnóstico ou a linha de tratamento 
merecem atenção próxima para confirmação ou adesão ao tratamento, por exemplo.
2.4.4 - Prevenção quaternária e os níveis de prevenção
Foto por Freepik.com 
Marc Jamoulle, Médico de Família e Comunidade, usou o termo prevenção quater-
nária pela primeira vez em 1995, durante conferência WONCA.
A prevenção quaternária é uma ferramenta que ajuda você a indicar e adotar ações 
curativas e preventivas de maneira proporcional às necessidades e recursos 
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
38
disponíveis, evitando submeter as pessoas a riscos desnecessários por intervenções 
inadequadas. O Médico de Família e Comunidade, munido de informações adequa-
das do estado clínico do paciente, deve buscar o melhor cuidado para a pessoa.
Na Figura 6 é possível entender a diferença entre os níveis de prevenção, sendo 
I = prevenção primária, II = secundária, III = terciária e IV = quaternária. 
PONTO DE VISTA DO MÉDICO
Ausência de doença
I
Ação desenvolvida para 
evitar ou eliminar a causa 
de um problema de saúde 
de um indivíduo ou de uma 
população antes do seu 
aparecimento 
(exemplo: imunização).
II
Ação levada a cabo para 
prevenir o desenvolvimento de 
um problema de saúde desde 
uma fase inicial em um 
indivíduo ou em uma 
população, encurtando a sua 
evolução e duração (exemplo: 
rastreio da hipertensão).
IV
Ação levada a cabo para 
identificar indivíduos ou 
populações em risco de 
tratamento excessivo, afim 
de os proteger de novas 
intervenções médicas 
inapropriadas e de lhes 
sugerir alternativas 
eticamente aceitáveis.
III
Ação desenvolvida para reduzir 
o efeito e/ou prevalência de 
problemas crônicos de saúde 
em indivíduos ou populações 
visando a minimização das 
alterações funcionais 
originadas por esse problema 
(exemplo: prevenção das 
complicações da diabetes).
As definições já publicadas de prevenção I, II e III são complementadas pela prevenção IV e 
oferecem uma nova visão dos campos de atividade do médico de família.
Doença
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em
Figura 6 – Definições de prevenção I, II, III e IV
Fonte: adaptado de Jamoulle M. Gomes LF. Prevenção Quaternária e 
limites em medicina. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2014;9(31):186-91. 
Disponível em: https://doi.org/10.5712/rbmfc9(31)867
2.4.5 - Epidemiologia clínica e vigilância em saúde
Informações epidemiológicas são importantes para ações do Médico de Família e 
Comunidade e da equipe da APS, tanto no âmbito individual como no comunitá-
rio. A epidemiologia clínica é a aplicação de dados epidemiológicos e estatísticos 
para entender os processos diagnósticos e terapêuticos pelo médico que, como 
você, cuida diretamente de pessoas, auxiliando nas decisões clínicas do cuidado. 
39
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Ao conhecer a prevalência das doenças e a sensibilidade dos exames diagnósticos, 
por exemplo, é possível ter maior certeza diagnóstica, o que é muito importante 
para sua decisão terapêutica. 
Tendo o domínio epidemiológico, o Médico de Família e Comunidade, além de 
desenvolver melhor o raciocínio clínico, deve lançar mão de estratégias de acom-
panhamento terapêutico, de ações de rastreamento e promoção de saúde por 
meio da vigilância emsaúde. Há muitos problemas de saúde – condições, riscos e/
ou determinantes – que requerem atenção e acompanhamento contínuos por meio 
de articulação entre ações promocionais, preventivas e curativas, possibilitando, 
no território, ações específicas para cuidado individual ou populacional. 
Por ter sua prática influenciada pela comunidade em que atua, você deve se per-
ceber como uma fonte de apoio e recurso das pessoas e famílias para as quais é 
uma referência. Dessa forma, essas duas ferramentas ajudam-no a definir um 
cuidado voltado à comunidade específica, de acordo com faixa etária, queixas e 
situações clínicas mais prevalentes, e a traçar um plano de ações em saúde condi-
zente com o território.
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
40
FECHAMENTO DA UNIDADE
Ao término desta Unidade, você certamente compreendeu que a prática da MFC é 
abrangente, fascinante e igualmente desafiadora, o que exige do profissional o 
domínio de ferramentas clínicas para o exercício das competências nucleares com 
base nos princípios da especialidade.
Você se torna um médico mais efetivo ao ampliar sua visão do mundo da pessoa 
cuidada e considerar suas experiências, preocupações, ideias, sentimentos, fami-
liares e papéis sociais, não se baseando somente nas ações determinadas pelos 
protocolos fixos.
Você compreendeu que exercer de forma prática os princípios da MFC envolve 
adotar ações de cuidado individuais, familiares e comunitárias, que passam por 
uma comunicação clínica efetiva e prática médica instrumentalizada munida de 
diversas ferramentas, independentemente de a assistência ser no consultório, no 
domicílio ou no território.
41
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Nesse módulo, você apreendeu os quatro princípios da MFC, as competências 
nucleares e ferramentas para a prática profissional. Esse conhecimento é muito 
importante para você avançar nas habilidades e atitudes necessárias à prática pro-
fissional resolutiva na grande gama de assuntos cotidianos para um Médico de 
Família e Comunidade. 
Finalmente, dada a complexidade dessa especialidade, é importante que você tenha 
compreendido que o Médico de Família e Comunidade, por meio dos princípios da 
MFC e de suas competências, e como coordenador do cuidado, é um especialista 
em gente cuja atuação na APS é essencial para uma boa prática médica, contri-
buindo para a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS).
Encerramento do 
módulo
EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
42
Referências
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EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
44
DANIEL ALMEIDA GONÇALVES 
Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Pau-
lista de Medicina (1999), Mestrado em Psiquiatria e Psicologia Médica (2009) e Dou-
torado em Saúde Coletiva (2012) pela Universidade Federal de São Paulo. Atual-
mente é coordenador pedagógico do curso de Especialização em Saúde da Família/
UNASUS Unifesp, Médico Técnico Administrativo em Educação do Departamento 
de Medicina Preventiva da UNIFESP/EPM, Preceptor da residência médica de Medi-
cina de Família e Comunidade da Universidade Federal de São Paulo e Coordena-
dor de Educação Médica da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medi-
cina – SPDM/PAIS. Também atua como médico clínico da Prefeitura Municipal de 
São Paulo. Tem experiência na área de Medicina, atuando principalmente nos 
seguintes temas: Medicina de Família, Atenção Primária e Saúde Mental.
Currículo Lattes disponível em: http://lattes.cnpq.br/5392203984984554
GABRIELA ALVES DE OLIVEIRA HIDALGO
Graduada em Medicina pelo Centro Universitário São Camilo, Médica de Família e 
Comunidade pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e 3º ano de resi-
dência com área de atuação em Cuidados Paliativos. Técnica Administrativa em 
Educação do Departamento de Medicina Preventiva/UNIFESP, parte da Coordena-
ção da Residência Medicina de Família e Comunidade (Geral e 3º ano - Área de 
Atuação em Cuidados Paliativos) e Preceptora no Ambulatório de Medicina Geral 
e Familiar (Graduação e Residência). Parte da equipe formadora PROADI-SUS Albert 
Einstein voltada a Cuidados Paliativos e Atenção Primária à Saúde. Gerente Médica 
do Grupo ASAS Health. Mestre em Educação Médica (Tema principal: Currículo 
Baseado em Competências para Medicina de Família e Comunidade).
Currículo Lattes disponível em: http://lattes.cnpq.br/3012662780540204
Biografia dos 
conteudistas
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EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 
Programa Mais Médicos para o Brasil
EIXO 1 | PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO SUS E DA 
ATENÇÃO PRIMÁRIA A SAÚDE
REALIZAÇÃO
Princípios da Medicina de Família e 
Comunidade
MÓDULO 03
2ª edição
Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS)
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

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