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Programa Mais Médicos para o Brasil 2ª edição EIXO 1 | PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO SUS E DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Princípios da Medicina de Família e Comunidade MÓDULO 03 EIXO 1 | PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO SUS E DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Princípios da medicina de família e comunidade MÓDULO 03 Programa Mais Médicos para o Brasil Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS) Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) 2023 2ª edição Instituições patrocinadoras: Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS) Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp) Coordenação da UNASUS/UNIFESP Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B823p Brasil. Ministério da Saúde. Princípios da medicina de família e comunidade [módulo 3] / Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul, Universidade Federal de São Paulo. - 2. ed. - Brasília : Fundação Oswaldo Cruz, 2023. Inclui referências. 45 p. : il., tabs. (Projeto Mais Médicos para o Brasil. Princípios e fundamentos do SUS e da atenção primária à saúde ; 1). ISBN: 978-65-84901-30-8 1. Atenção básica. 2. Medicina de família. 3. Sistema Único de Saúde. 4. UNA- SUS. I. Título II. Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul. III. Universidade Federal de São Paulo. IV. Série. CDU 610 Bibliotecária: Juliana Araújo Gomes de Sousa | CRB1 3349 Ficha Técnica © 2023. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. Universidade Federal de São Paulo. Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial. Referência bibliográfica MINISTÉRIO DA SAÚDE. FIOCRUZ MATO GROSSO DO SUL. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. Atenção primária à saúde e estratégia de saúde da família: bases históricas, políticas e organizacionais [módulo 2]. 2. ed. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Projeto Mais Médicos para o Brasil. Eixo 1: Princípios e fundamentos do SUS e da atenção primária à saúde. Brasília: Ministério da saúde, 2023. 80 p. Ministério da Saúde Nísia Trindade Lima | Ministra Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Nésio Fernandes de Medeiros Junior| Secretário Departamento de Saúde da Família (DESF) Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas| Diretora Coordenação Geral de Provimento Profissional (CGPROP) Wellington Mendes Carvalho | Coordenador Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mario Moreira | Presidente Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA-SUS) Alysson Feliciano Lemos | Coordenador Assessoria de Planejamento (UNA-SUS) Aline Santos Jacob Assessoria Pedagógica (UNA-SUS) Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Rodrigo Pastor Alves Pereira Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Nelson Sass | Reitor Raiane Patricia Severino Assumpção | Vice-Reitora Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) | Pró-reitoria de Extensão Taiza Stumpp Teixeira | Pró-Reitora Coordenação Geral Projeto UNA-SUS/UNIFESP Jorge Harada | Coordenador Geral Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUnifesp) Maria José da Silva Fernandes | Diretora Presidente Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS) Jislaine de Fátima Guilhermino | Diretora Coordenação Geral UNA-SUS/Fiocruz MS Débora Dupas Gonçalves do Nascimento | Coordenadora Geral Coordenação Geral de Garantia dos Atributos para APS Amanda Firme Carletto Beatriz Zocal da Silva Michelle Leite da Silva Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS) Rua Gabriel Abrão, 92 – Jardim das Nações, Campo Grande/MS CEP 79081-746 Telefone: (67) 3346-7220 E-mail: educacao.ms@fiocruz.br Site: www.matogrossodosul.fiocruz.br Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Coordenação da UNA-SUS/UNIFESP Rua Sena Madureira, 1.500 - Vila Mariana, São Paulo/SP CEP 04021-001 Telefone: (11) 3385-4126 E-mail: secretaria.unasus@unifesp.br Créditos Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Carolina Lopes de Lima Reigada Liz Ponnet Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Rodrigo Pastor Alves Pereira Designer Gráfico UNA-SUS Claudia Schirmbeck Apoio Técnico UNA-SUS Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS Fhillipe de Freitas Campos Juliana Araujo Gomes de Sousa Tainá Batista de Assis Engenheiro de Software UNA-SUS José Rodrigo Balzan Onivaldo Rosa Júnior Desenvolvedor de Moodle UNA-SUS Claudio Monteiro Jaqueline de Carvalho Queiroz Josué de Lacerda Silva Luciana Dantas Soares Alves Lino Vaz Moniz Márcio Batista da Silva Rodrigo Mady da Silva Coordenador Geral UNA-SUS/UNIFESP Jorge Harada Coordenador Adjunto UNA-SUS/UNIFESP Paulo Bandiera Paiva Coordenador Acadêmico UNA-SUS/UNIFESP Daniel Almeida Gonçalves Coordenação Pedagógica UNA-SUS/UNIFESP Ana Lucia Pereira Rita Maria de Lino Tarcia Maria Elizabete Salvador Graziosi Coordenador de Produção UNA-SUS/UNIFESP Felipe Vieira Pacheco Coordenação de Tecnologia da Informação UNA-SUS/UNIFESP Daniel Lico dos Anjos Afonso Marlene Sakumoto Akiyama Desenvolvedor UNA-SUS/UNIFESP Sidnei de Cerqueira Analista de Infraestrutura e Rede UNA-SUS/UNIFESP Rogério Alves Lourenço Analistas de Banco de dados e Infraestrutura UNA-SUS/UNIFESP Fernanda Aparecida Sobral Marcelo Augusto Leonardeli Suporte Técnico UNA-SUS/UNIFESP Yuri Campos Ratao Designer Instrucional UNA-SUS/UNIFESP Felipe Vieira Pacheco Designer Gráfico UNA-SUS/UNIFESP Aline Maruyama Webdesigner UNA-SUS/UNIFESP Lucas Andrioli Editor de Audiovisual UNA-SUS/UNIFESP Laura Videira Coordenador Geral UNA-SUS/Fiocruz MS Débora Dupas Gonçalves do Nascimento Coordenador Acadêmico UNA-SUS/Fiocruz MS Milene da Silva Dantas Silveira Coordenador de Produção Pedagógica UNA-SUS/Fiocruz MS Sílvia Helena Mendonça de Moraes Designer Instrucional Fiocruz MS Marcos Paulo dos Santos de Souza Coordenador de produção Fiocruz MS Janaína Rolan Loureiro Desenvolvedores Fiocruz MS Janaína Rolan Loureiro Leandro Koiti Oguro Regina Beretta Mazaro Conteudista Daniel Almeida Gonçalves Gabriela Alves de Oliveira Hidalgo Revisor Davi Bagnatori Tavares Sumário Apresentação 10 Objetivo geral de aprendizagem do módulo 11 Carga horária de estudo recomendada para este módulo 11 1. Princípios da medicina de família e comunidade e suas competências 12 Objetivos de aprendizagem 13 Introdução da unidade 13 1.2 - Médico de família e comunidade: especialista em gente 18 1.3 - Princípios da medicina de família e comunidade e competências nucleares 19 1.3.1 - O Médico de Família e Comunidade é um clínico qualificado 20 1.3.2 - A atuação do Médico de Família e Comunidade é influenciada pela comunidade 21 1.3.3 - O Médico de Família e Comunidade é um recurso de uma população definida 22 1.3.4 - A relação médico-pessoa é fundamental para o desempenho do Médico de Família e Comunidade 24 1.3.5 - As competências nucleares da Medicina de Família e Comunidade 25 Fechamento da unidade 29 2. A abordagem centrada na pessoa, comunicação clínica efetiva, abordagem familiar e comunitária e outras ferramentas para a prática clínica 30 Objetivos de aprendizagem 31 Introdução da unidade 31 2.1 - Método clínico centrado na pessoa 31 2.2 - Comunicação clínica efetiva 33 2.3 - Abordagem familiar e comunitária 34 2.4 - Mais ferramentas para a prática clínica 35 2.4.1 - Trabalho em equipe 35 2.4.2 - Registro clínico orientado por problemas 36 2.4.3 - Gestão da clínica 36 2.4.4- Prevenção quaternária e os níveis de prevenção 37 2.4.5 - Epidemiologia clínica e vigilância em saúde 38 Fechamento da unidade 40 Encerramento do módulo 41 Referências 42 Biografia dos conteudistas 44 Apresentação Olá, caro profissional-estudante. Seja bem-vindo ao módulo 3 - Princípios da Medicina de Família e Comunidade. Neste módulo, vamos aprofundar o conhecimento sobre a Medicina de Família e Comunidade (MFC). Você vai conhecer os princípios dessa especialidade médica e o conjunto de suas características e especificidades, o que favorecerá sua compreensão do signifi- cado de ser Médico de Família e Comunidade e auxiliará na construção da sua identidade ao longo deste curso de especialização. Você também terá a oportu- nidade de compreender que a MFC tem uma responsabilidade com a pessoa que vai além da doença. A assistência nessa especialidade abrange todo o ciclo de vida das pessoas, do pré-natal ao fim da vida e tem como premissa o cuidado clinicamente compe- tente em que o Médico de Família e Comunidade analisa as múltiplas dimensões do indivíduo, considerando a família e o contexto de vida das pessoas, com olhar sistêmico e comunitário. Neste módulo, você vai estudar, também, as competências nucleares e ferramen- tas fundamentais para uma prática abrangente e resolutiva, tendo como referên- cia os princípios que regem essa especialidade médica. Para organizar o nosso estudo, o módulo 3 foi dividido em duas unidades de ensino: 1. Princípios da medicina de família e comunidade e suas competências 2. A abordagem centrada na pessoa, comunicação efetiva, abordagem familiar e comunitária e outras ferramentas para a prática clínica Vamos caminhar juntos nesse aprendizado desejando que você realize bons estudos. OBJETIVO GERAL DE APRENDIZAGEM DO MÓDULO Reconhecer possibilidades de reorganização da sua prática profissional de maneira a aproximar seu cotidiano dos princípios de família e comunidade, compreendendo a importância das competências nucleares da MFC e de suas ferramentas, assim como a relação delas com sua rotina de trabalho. CARGA HORÁRIA DE ESTUDO RECOMENDADA PARA ESTE MÓDULO Para estudar todos os conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 15 horas para esse módulo. Princípios da medicina de família e comunidade e suas competências UNIDADE 01 13 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Entender os princípios da Medicina de Família e Comunidade; • Conhecer aspectos históricos da Medicina de Família e Comunidade no Brasil e em outros países; • Reconhecer as competências nucleares da MFC; • Demonstrar como as competências nucleares da Medicina de Família e Comunidade se relacionam com a prática profissional. INTRODUÇÃO DA UNIDADE Nesta primeira unidade, vamos contextualizar a história da Medicina de Família e Comunidade (MFC) no Brasil e no mundo, além de apresentar os princípios e as competências nucleares dessa especialidade, auxiliando-o a compreender a impor- tância e a relação desses pressupostos com seu cotidiano de trabalho. 1.1 - BREVE HISTÓRICO E ORGANIZAÇÃO DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNI- DADE NO BRASIL E EM OUTROS PAÍSES Antes de abordarmos as características e princípios da MFC, é importante que você conheça brevemente alguns fatos marcantes que a consolidaram como uma espe- cialidade médica. Para além do simples conhecimento dos fatos, procure refletir sobre o contexto ideológico em que essa história se construiu. Essa reflexão ajudará você a entender, com mais clareza, os princípios que norteiam, não só a especiali- dade, mas também nosso próprio sistema de saúde. O conhecimento de tal ideário, com suas contradições e sua diversidade de pontos de vista, auxiliará também seu entendimento das competências nucleares e da forma como as mesmas irão sustentar sua prática na atenção primária. Figura 1: Representação de Hipócrates, e a medicina geral em diversos tempos EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 14 A história desta especialidade se confunde com a própria história da medicina, pois, ainda na Grécia Antiga, Hipócrates, na escola médica de Kos, já postulava que “não existem doenças, mas sim pacientes”, aproximando-se, desde então, de uma pers- pectiva centrada na pessoa. Dando um grande salto na história, já no século XVIII e início do XIX, em meio às transformações socioculturais e tecnológicas advindas da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, apareceram os termos family doctor e médico de cabeceira, em referência ao médico generalista que provia cuidado nas casas e à beira das camas, assim como dava atenção a questões sociofamiliares. É interessante, nessa perspectiva, constatar que o século XIX foi um período de grande desenvolvimento da prática da medicina geral na Europa e na América do Norte, sendo que, até o início do século XX, muitas famílias tinham seus médicos que cuidavam de todos os seus membros no decorrer do tempo e atuavam como conselheiros, líderes e epidemiologistas locais. Esses profissionais tinham a missão de lidar com a maioria dos problemas de saúde existentes nas comunidades, fazendo frente às limitações científicas de seu tempo. O decorrer do século XX, a seguir, foi marcado por grande evolução técnico-cien- títica em geral e em especial no campo da saúde, iniciando-se, com isso, um pro- cesso de marcada subdivisão e especialização das áreas de atuação médica, dei- xando a abordagem generalista à margem desse processo. Por não atuar com órgãos e sistemas orgânicos específicos, tampouco utilizar as modernas tecnolo- gias de cuidado, como acontece hoje em dia em áreas como cardiologia e radiolo- gia, por exemplo, a medicina geral perdeu prestígio, passando a ser considerada, inadequadamente, ultrapassada ou defasada. Observe a forma como se construiu, então, uma distorção de conceitos associando a modernidade e eficiência das tecnologias à fragmentação do cuidado advinda das diferentes especializações. Durante um longo período, construiu-se, em decorrência disso, o entendimento de que, para a prática da medicina geral, os médicos recém-formados, ainda não especializados, estavam aptos, cabendo a prática nas demais áreas aos especialis- tas pós-graduados. Para reveter esse entendimento distorcido, por volta da década de 40, ocorreram movimentos nos EUA e no Reino Unido apontando para a necessidade de pós-gra- duação também para atuação na medicina geral. Esses movimentos buscaram mostrar a importância de uma abordagem holística dos indivíduos e de suas famí- lias. Em 1947, surgiu, em decorrência desses esforços, a primeira associação cien- tífica de medicina de família: a American Academy of General Practice. Em contraponto a esse viés generalista, a perspectiva de subdivisão das especiali- dades médicas seguia ganhando força e, na segunda metade do século XX, a grande maioria dos médicos buscava alguma especialização focada em sistemas ou tec- nologias, mantendo a prática generalista ainda desprestigiada. Contudo, como o foco no cuidado fragmentado distanciou a atuação médica das pessoas do ponto 15 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade de vista holístico e encareceu os sistemas de saúde, paulatinamente, se começou a questionar a ineficiência relativa desse formato de atuação médica. Como consequência desse questionamento, a prática da medicina geral passou gradativamente a ser vista não mais como um conjunto indiferenciado de conhe- cimentos, mas sim como uma área de especialização com seu próprio corpo de conhecimento. Nessa linha de entendimento, entre as décadas de 1960 e 1970 surgiu, na Europa e nos EUA, a especialidade em Medicina de Família1. Como profissional formado em pleno século XXI, certamente você tem a compre- ensão de que essa oposição entre as duas linhas de abordagem é inadequada, por ser fruto de uma falsa premissade hierarquização entre elas. No mundo contem- porâneo, com o avanço da ciência e com a miríade de conhecimentos e linhas de pesquisa na área de saúde e, principalmente com a ressignificação dos conceitos de promoção e prevenção em saúde, ambas as abordagens têm seu lugar e res- pectivos campos de atuação, por exercerem diferentes funções em uma perspec- tiva do cuidado baseada na densidade tecnológica de cada um dos níveis de atenção – primária, secundária e terciária –, que se define em uma relação poliárquica, sem que um do níveis seja hierarquicamente superior ao outro. Nesse caso o que dis- tuigue os níveis é o uso, na APS, de tecnologias leves, ligadas à relação médico/ paciente, enquanto a atenção primária faz uso de tecnologias duras, que deman- dam, por exemplo, aparelhagem sofisticada. Um bom exemplo da funcionalidade dessa relação poliárquica pode ser observado no enfrentamento à pande- mia de Covid 19. Situações como essas demonstram cla- ramente a necessidade de atuação simul- tânea das diferentes especialidades médicas, sem que qualquer delas seja mais relevante que as demais, além de demandar a ação integrada dos diferen- tes níveis de atenção. Temos, nesse con- texto, a necessidade de especialistas em infectologia, imunologia e virologia dentre outros realizando estudos por meio da utilização de sofisticadas tecno- logias e pesquisas de ponta, para sequenciar o vírus, entender sua forma de ação, traçar mapas, criar vacinas e medicamentos entre outras linhas de ação. Paralelamente, temos o trabalho 1 Em âmbito internacional, o termo Family Medicine é mais consagrado e, dessa forma foi mantida a tradução médico de família e medicina de família para tratar dessa especialidade em outros países, enquanto no Brasil a especialidade médica é chamada Medicina de Família e Comunidade. Fotos por Freepik.com EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 16 dos profissionais da atenção primária, recebendo nas UBS as pessoas infectadas ou com suspeita de infecção, para tratamento ou indicação de tratamento, con- forme a gravidade, na atenção secundária que, por sua vez, conta com outro rol de especialistas em pneumologistas, intensivistas, neurologistas, cardiologistas etc., bem como de tecnologias sofisticadas – como respiradores e tomógrafos – para diagnóstico e tratamento. Lembrando, ainda, que, com o surgimento das vacinas, a atenção primária é também a responsável pela da vacinação. Sem a sinergia entre os três níveis de atenção e a ação integrada entre médicos generalistas e especialistas, a atuação bem sucedida frente a situações como essa seria praticamente impossível. REFLEXÃO Na trajetória que você acabou de acompanhar, foi relatada oposição entre duas linhas de cuidado ao longo da história da medicina: uma baseada na visão generalista, outra em defesa da especialização. Em quais situações você pode perceber, ainda hoje, essa dicotomia? De que forma, você percebe, em nosso sistema de saúde, um caminho mais assertivo para essa discussão? O que fez você optar por atuar em uma delas e nela aprofundar seus estudos? Voltando à trajetória da abordagem generalista, destacamos o trabalho do profes- sor britânico Ian McWhinney, médico de família, que colaborou com a fundação da Medicina de Família no Canadá. Seu trabalho teve influência determinante nesse processo porque elaborou o constructo acadêmico para a área, no qual enfatizava a importância de ser diferente, chamando a atenção para o valor da prática médica generalista, que é a base da Medicina de Família e Comunidade. Convidamos você a conhecer um pouco mais o que o Prof. McWhinney enfatizava em suas palestras: a importância de ser diferente. Neste material, você conhecerá os fundamentos e as ideias que embasaram o desen- volvimento e a construção da identidade da Medicina de Família e Comunidade, con- solidadas em um dos livros de referência da área: McWHINNEY, Ian Renwick. Manual de Medicina de Família e Comunidade. Porto Alegre: ARTMED, 2010. 471 p. SAIBA MAIS 17 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Continuemos nosso percurso histórico da Medicina de Família e Comunidade, pois é importante você conhecer o desenvolvimento dessa especialidade no Brasil. Por aqui, podemos considerar que a MFC é uma especialidade com reconhecimento recente, apesar de ter suas origens na década de 1970, quando surgiram as primeiras iniciativas de estruturação de residências médicas. Não houve uma coordenação central nesse processo, portanto surgiram movimentos para o desenvolvimento de medicina comunitária em cidades diferentes. Roraima Amapá Pará Maranhão Piauí Ceará Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Rio Grande do Norte Amazonas Acre Rondônia Mato Grosso Mato Grosso do Sul Minas Gerais Espiríto Santo Rio de JaneiroSão Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Goiás Brasília Tocantins Em Porto Alegre, o Prof. Busnello desenvolveu o Centro de Saúde Escola Murialdo No Rio de Janeiro, o Prof. Ricardo Donato estruturou o serviço de Medicina Integral da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Em Pernambuco, especificamente em Vitória de Santo Antão, o Prof. Guilherme Abath desenvolveu a medicina comunitária. 1981 1990 2001 1986 1994 2002 A Comissão Nacional de Residência Médica formalizou os Programas de Medicina Geral e Comunitária (MGC), termo adotado inicialmente no Brasil. Essa sociedade se filiou à Confederação Ibero-Americana de Medicina Familiar (CIMF) e à Organização Mundial de Médicos de Família (WONCA). Ganhou espaço no SUS com a criação do Programa Saúde da Família (PSF). O nome da especialidade MGC foi alterado para Medicina de Família e Comunidade (MFC) por um rol de especialistas que pertenciam à Sociedade Científica de MGC, que se transformou na Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. O Conselho Federal de Medicina reconheceu a especialidade médica. 1980 1990 2000 2010 Em Niterói, uma iniciativa de criação de um programa de médico de família foi inspirada na medicina de Cuba auxiliou a impulsionar e valorizar a Medicina de Família e Comunidade, Figuras 2 e 3 – Desenvolvimento da Medicina de Família e Comunidade no Brasil Você pode observar, assim, que, desde suas origens na década de 1970, com ini- ciativas de estruturação de residências médicas, como a do professor Guilherme Abath, no Projeto Vitória, que envolvia ações comunitárias integradas a um EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 18 programa de residência médica, não houve uma coordenação central nesse processo, embora a MFC sempre estivesse muito próxima ao desenvolvimento e à organização de sistemas nacionais de saúde, por ser o Médico de Família e Comunidade profundo conhecedor dos atributos da Atenção Primária à Saúde (APS) e fazer parte desses sistemas. Apesar de a MGC ter surgido em 1981, durante algum tempo havia pouco mercado de trabalho para os profissionais da área. Com a reordenação da APS brasileira e valorização da equipe com médicos generalistas, a demanda por especialistas nessa área cresceu, tanto no sistema público, como no sistema privado. Atualmente, somos mais de 5.000 médicos de família e comunidade no Brasil e esse número é insuficiente para a nossa realidade, ao considerarmos as cerca de 50 mil equipes de Estratégia Saúde da Família existentes em todo o país. É em função dessa necessidade, que surgem políticas públicas para formação e provi- mento de médicos para a APS, como o atual Programa Mais Médicos para o Brasil. Diante desse panorama, você pode verificar que essa especialidade tem seu desenvolvimento ao longo dos anos, através de um percurso exitoso em vários países e com reconhecimento crescente e promissor no Brasil. Vamos agora entender como trabalha esse profissional. 1.2 - MÉDICO DE FAMÍLIA E COMUNIDADE: ESPECIALISTA EM GENTE O Médico de Família e Comunidade é, antesde tudo, um especialista para além das doenças. Muitas vezes ouvimos a pergunta: Mas afinal, o Médico de Família e Comunidade é especialista em quê? A melhor resposta a essa questão é: Ele é especialista em gente, pois sua atuação é baseada na relação médico-paciente. Como profissio- nal ele se especializou em cuidar de pessoas, independentemente de sexo, idade ou tipo de problema, oferecendo um cuidado individualizado, para além da doença em si. No vídeo “Quem é o Médico de Família e Comunidade?” (Fonte: Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade - SBMFC), disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HZuU8xbNGNA, você entenderá a origem da expressão “Especialista em gente”. O vídeo apresenta as carac- terísticas do Médico de Família e Comunidade. Após compreender o panorama histórico da MFC e entender a origem da expres- são especialista em gente para o Médico de Família e Comunidade, vamos conhecer melhor os princípios dessa especialidade, bem como as competências a ela vincu- 19 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade ladas. Você terá a oportunidade de refletir sobre a importância do seu desenvol- vimento profissional e, consequentemente, da sua contribuição para o SUS. 1.3 - PRINCÍPIOS DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE E COMPETÊNCIAS NUCLEARES Como vimos anteriormente, o desenvolvimento da MFC como especialidade médica com corpo específico de conhecimento aconteceu no final do século passado. Em 2005, a WONCA-Europa (World Organization of National Colleges, Academies and Aca- demic Associations of General Practitioners / Family Physicians) apresentou as com- petências nucleares dessa disciplina acadêmica e, em 2012, as competências nucle- ares que norteiam a prática do Médico de Família e Comunidade e serão estudadas mais a frente nesta unidade. O Médico de Família e Comunidade deve dominar as competências nucleares de modo a acumular conhecimento e prática, que o guiarão em ações pautadas por quatro princípios fundamentais. Assim, sugerimos que você estude atentamente os quatro princípios fundamen- tais da especialidade em Medicina de Família e Comunidade apresentados a seguir. Refletir sobre eles e incorporá-los à sua prática cotidiana qualificará seu trabalho. São os seguintes os princípios: O Médico de Família e Comunidade é um clínico qualificado A atuação do Médico de Família e Comunidade é influenciada pela comunidade O Médico de Família e Comunidade é um recurso de uma população definida A relação médico-pessoa é fundamental para atuação e bom desempenho do Médico de Família e Comunidade Esses princípios são importantes para a formação do Médico de Família e Comu- nidade e conhecê-los é necessário para compreender melhor o desenvolvimento das competências nucleares. A seguir, você irá estudar melhor tais princípios e a forma como eles se relacionam com as competências, além de como tais concei- tos se aplicam à prática profissional. 1.3.1 - O Médico de Família e Comunidade é um clínico qualificado EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 20 O Médico de Família e Comunidade realiza uma abordagem abrangente da saúde das pessoas: lida com quaisquer pessoas, sem restrição de sexo, gênero, idade ou tipo de problema de saúde. Assim, na sua prática clínica, cuidará de crianças, adolescentes, adultos e idosos, homens e mulheres de diferentes gêneros e orientações sexuais, e atenderá a deman- das das mais diversas naturezas. Essas demandas surgirão nas mais diver- sas fases da história natural do adoeci- mento, mas especialmente nas fases ini- ciais, mais indiferenciadas, com sintomas vagos e inespecíficos. Não apenas terá que lidar com o diagnóstico e tratamento de doenças, como também terá que propor atividades preventivas e de pro- moção da saúde. Para lidar com essa variedade de problemas, o Médico de Família e Comunidade precisa desenvolver aptidões clínicas específicas, que incluem: MÉDICO DE FAMÍLIA E COMUNIDADE a capacidade de desenvolver estratégias de aprimoramento contínuo considerando os problemas que surgiram ao longo de sua carreira o raciocínio clínico apurado o manejo adequado da incerteza a prática centrada nas melhores evidências científicas a capacidade de lidar com problemas ao longo do tempo Só a partir do domínio de tais aptidões você poderá atingir o grau de resolutividade que se espera do profissional dessa área de atuação. Esse profissional parte da premissa que cada pessoa é única e vive a sua própria experiência de doença, baseada em seus valores, sentimentos, ideias e expectati- vas, e que os problemas de saúde trazem um impacto específico na vida de cada pessoa. Também sabe que cada pessoa está em permanente relação com seus familiares, outras pessoas e com a comunidade na qual está inserida, recebendo influência de aspectos sociais, culturais e existenciais. Foto por Hush Naidoo Jade Photography | Unsplash.com 21 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Sendo a experiência com a doença tão individual, é fácil você concluir que o cuidado necessário para lidar com ela também deve ser individualizado, o que implica a necessidade de promover a autonomia e o empoderamento das pessoas para que lidem, cada vez melhor, com os próprios problemas. Dessa forma, apenas uma abordagem holística e centrada em cada pessoa permite ao Médico de Família e Comunidade prestar cuidados efetivos às pessoas sob sua responsabilidade. 1.3.2 - A atuação do Médico de Família e Comunidade é influenciada pela comunidade Com certeza você já aprendeu em seus estudos e verificou em sua prática na APS que saúde de cada indivíduo está direta- mente ligada aos determinantes sociais relacionados a essas pessoas, como as condições de habitação, saneamento, segurança, trabalho, acessibilidade, entre outros, e também a questões mais amplas, como meio ambiente e cultura, por isso o Médico de Família e Comunidade precisa estar atento a tudo que acontece em sua comunidade. Conhecer bem os problemas de saúde mais prevalentes possibilita a oferta de cuidados mais efe- tivos para um maior número de pessoas, uma vez que permite não apenas cuidar dos problemas de saúde quando eles ocorrem, mas também se antecipar a esses e desenvolver ações de promoção da saúde e pre- venção de doenças. Além disso, é preciso considerar que as comunidades dispõem de outros recursos que estão relacionados, direta ou indiretamente, à saúde, como estabelecimentos de saúde, escolas, centros comunitários, centros de assistência social, instituições religiosas, entre outros. Conhecer e se articular com esses diferentes elementos do território amplia a capacidade de o Médico de Família e Comunidade atuar sobre os determinantes sociais da saúde, aumentando sua resolutividade e o nível de saúde da população sob seus cuidados. Ao conhecer a comunidade e as condições mais prevalentes, sendo influenciado por ela, você terá melhor especificidade ao fazer uma avaliação clínica, tornando- -se um clínico melhor qualificado, como vimos no primeiro princípio da Medicina de Família e Comunidade. Outra característica importante, que está relacionada à qualificação da atuação nessa especialidade médica, é a proximidade do Médico de Família e Comunidade com as pessoas e a possibilidade de cuidar delas por anos, oferecendo uma atenção contínua e longitudinal. Ao cuidar dessa forma ou mesmo ao ter a possibilidade Foto por Zach Vessels | Unsplash.com EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 22 de solicitar retornos breves, o profissional está em uma posição favorável para lidar com a incerteza diagnóstica, bem como para conhecer o perfil de adoecimento das pessoas da comunidade em que atua, tendendo, assim, a exercer uma prática clínica qualificada. 1.3.3 - O Médico de Família e Comunidade é um recurso de uma população definida O Médico de Famíliae Comunidade é uma referência para as pessoas de sua lista de pacientes e para a comunidade em que trabalha, independentemente da presença ou ausência de doença. Já vimos que as ações desse profissional são oferecidas não apenas individual- mente, mas também coletivamente, e buscam não apenas a cura e a reabilita- ção, mas também a prevenção de doenças e a promoção da saúde. Sendo o especialista da atenção primária, ele deve contemplar os atributos essenciais da APS, que incluem ser o local de pre- ferência para o primeiro contato das pessoas com o sistema de saúde e ofe- recer cuidados abrangentes ao longo do tempo. Por isso esse especialista é um recurso humano essencial para toda a população sob seus cuidados. O acesso aos seus cuidados deve ser amplo, por- tanto não pode estar restrito a consultas agendadas, mas deve contemplar deman- das não programadas, mesmo que não sejam urgências clínicas. Cada serviço deve ser organizado para atender a essas diferentes demandas e oferecer acesso faci- litado e adequado às pessoas da comunidade com diferentes necessidades. Outro papel importante desse profissional, para a comunidade na qual atua, é o de ser o responsável pela utilização criteriosa dos recursos do sistema de saúde. Aqui temos mais um atributo essencial da APS: a coordenação do cuidado. Cabe ao médico de família e comunidade, como você, que atua em uma UBS, definir quando é necessário encaminhar pessoas para outros pontos de cuidado e, ao mesmo tempo, coordenar as ofertas de cuidado de cada serviço para ajustá-las ao contexto de cada paciente. Ao conhecer as políticas públicas e aspectos epidemio- lógicos de sua população, também deverá atuar para que estas políticas sejam vol- tadas para a saúde da população e sejam desenvolvidas por gestores públicos. Desta forma, pode atuar como um advogado ou sentinela para apoiar a comuni- dade na garantia de seus direitos enquanto cidadãos. Foto por Raquel Portugal | Acervo Fundação Oswaldo Cruz 23 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Além de se responsabilizar pelas pessoas, independentemente da presença ou ausência de doenças ou das característas dessas doenças, esse médico deve, também, lançar mão das vantagens de oferecer cuidado no decorrer de anos. Por conhecer como as pessoas e a família lidam com as adversidades, assim como as características do território, e acompanhar o desenvolvimento pessoal, o Médico de Família e Comunidade tem uma ampla visão de risco de adoecimento e de poten- cialidades, portanto pode propor ações de promoção e prevenção de saúde (pre- venção primária, secundária, terciária e quaternária). Por muito tempo, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) foram centros de vacinação, puericultura e pré-natal, além de cuidar de demandas clínicas controladas em con- sultas de rotina agendadas. No entanto, com a implantação da Estratégia Saúde da Família e implementação das ações da APS, foi identificada a necessidade do cuidado de condições agudas. Por esse motivo, o médico é um recurso para cuidado também em condições agudas, intensificando a gestão dos cuidados primários. Lidar com as demandas não programadas não é uma tarefa simples e exige de você competências específicas e conhecimento sobre as diversas formas de orga- nização de processo de trabalho para a prática clínica diária. O desafio é ainda maior quando há um número elevado de pessoas cadastradas sob a responsabi- lidade da equipe, especialmente se a área for de grande vulnerabilidade socioeco- nômica. Assim, o Médico de Família e Comunidade deve ser competente para auxi- liar e organizar seu serviço conforme demanda e perfil populacional, bem como dominar ferramentas que o auxiliem nessa prática. Entre as demandas não programadas, você deve estar atento e organizar seu pro- cesso de trabalho para também acolher necessidades de renovação de receitas de psicotrópicos e condições clínicas que aumentam de forma sazonal, como dengue, síndromes gripais, entre outras. É importante também você reservar horários para elaboração e fornecimento de relatórios previdenciários, judiciais e demais docu- mentos que envolvam aspectos burocráticos do cuidado em saúde. Por exemplo, para lidar com as situações citadas e outras, é necessário que o médico seja protagonista da organização do serviço no qual está inserido e utilize ferra- mentas específicas, como realizar diagnóstico de demanda, gerir a própria clínica, fazer registro orientado por problemas e apoiar a organização das agendas e da estrutura de atendimento da demanda espontânea. Por ser um recurso de uma população definida, o Médico de Família e Comunidade estará em posição privilegiada para reconhecer os recursos necessários e dispo- níveis para o cuidado das necessidades da população sob sua responsabilidade. É muito importante conhecer as políticas públicas vigentes e estar atento aos pro- tocolos clínicos e operacionais necessários para a integração da APS à Rede de Atenção à Saúde. Assim o Médico de Família e Comunidade assume a responsabi- lidade da coordenação do cuidado no sistema de saúde e mantém postura crítica, cuidadosa e individualizada. EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 24 Exercitar, com a equipe toda, esse olhar para as demandas de sua população pode favorecer o processo de trabalho de todos os envolvidos – médico, equipe de enfer- magem, agentes comunitários de saúde –, uma vez que enxergar e entender a demanda é o primeiro passo para criar um trabalho mais efetivo. No entanto, o Médico de Família e Comunidade nunca pode perder de foco a impor- tância da qualidade da relação médico-pessoa, que é determinante para a prática e que nos remete ao quarto princípio da MFC. 1.3.4 - A relação médico-pessoa é fun- damental para o desempenho do Médico de Família e Comunidade Vamos estudar agora o último princípio da MFC. Nessa etapa, é importante você refletir sobre a importância de estabelecer uma boa relação médico-pessoa permeia todos os princípios da MFC. O vínculo que os médicos de família e comunidade criam com seus pacientes tem potencial terapêutico e é essencial para que cada pessoa possa ser compreendida em suas singularidades. Quanto melhor a relação estabelecida com as pessoas, maior é a chance de que sejam oferecidos cuida- dos abrangentes e holísticos. O tempo dedicado a esses cuidados também costuma ser importante, e aqui vemos mais uma vez a importância da longitudinalidade. A relação médico-pessoa costuma ser, em termos de poder, uma relação assimétrica, em que o médico determina o que deve ser feito e a cada pessoa cabe seguir as orientações do profissional. O Médico de Família e Comunidade, no entanto, compreende esse desequilíbrio e sabe que deve estar atento para não abusar desse poder, pois suas próprias fraquezas poderiam afetar os cuidados oferecidos. Assim, ele busca minimizar a assimetria de poder investindo na autonomia das pessoas para gerirem seus próprios cuidados. É comum que a formação médica aconteça, em grande parte, em contexto hospitalar, no qual a autonomia do paciente em decisões relacionadas ao tratamento é mínima. A prescrição e a administração de medicamentos nem sempre vêm acompanha- das de explicações e, geralmente, não levam em consideração características espe- cíficas da pessoa. Na assistência à saúde, em um contexto ambulatorial e comunitário, essa situação é diferente. O paciente tem autonomia e liberdade para seguir ou não as orientações e os tratamentos. Sendo assim, as condutas devem ser compreendi- das e compartilhadas sempre que possível, o que é previsto em uma prática médica Foto por Gpointstudio | Freepik.com 25 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade centrada na pessoa. Por meio dessa forma de cuidar, você ajudará as pessoas, res- peitando suas expectativas e ideias, além de considerar contexto no qual elas estão inseridas. Esse método clínico e outras ferramentasde abordagem que possibilitam comu- nicação efetiva, associados a uma prática clínica competente e ao envolvimento com a comunidade, fazem parte da essência da especialidade. As responsabilida- des com o indivíduo possibilitam uma relação horizontal propositiva, na qual o vínculo entre o médico e a pessoa se torna um importante agente terapêutico. Seguindo essa conduta, você poderá intensificar e valorizar a relação médico-pes- soa tal como versa este quarto princípio da MFC. REFLEXÃO Agora que você estudou os quatro princípios da MFC, reflita um pouco sobre como você observa ou não no cotidiano de trabalho da unidade em que atua. O que considera fundamental para ser um clínico qualificado? Em quais situações você indentifica que otrabalho de sua equipe é influenciado pela comunidade? Em que medida você identifica esse trabalho como recurso de uma população definida? Que aspectos você considera importante implementar para ampliar a relação médico-pessoa em sua prática? Por conhecer as pessoas no decorrer de suas vidas em momentos de doença ou de promoção de saúde, considerando o meio ambiente, profissão e relações familiares, o Médico de Família e Comunidade está em posição privilegiada para intensificar a relação com a pessoa. Isso é determinante para o melhor cuidado de seus pacientes. 1.3.5 - As competências nucleares da Medicina de Família e Comunidade O exercício da especialidade MFC se encontra fundamentado em seus quatro prin- cípios, sendo importante que, para sua atuação conforme tais princípios, os médicos construam seis competências nucleares. Para que você compreenda, plenamente, a importância desse requisito em seu tra- balho, é preciso ter em mente que as competências definem-se como capacidade de utilizar os conhecimentos adquiridos – tanto formalmente em sua trajetória aca- dêmica quanto na prática cotidiana, desde que exercida com atitude reflexiva e crítica, EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 26 reunidos ao saber fazer e saber ser, demonstrando habilidades específicas, atitude proativa e prontidão na tomada de decisões para solução criativa e exitosa de pro- blemas. Traduz aquilo que os profissionais devem ser capazes de empreender em sua vida profissional como consequência maior de sua trajetória de aprendizagem. Habilidades, por sua vez, se traduzem pela capacidade de saber fazer, de dominar os meios para realizar uma tarefa. Esse domínio é resultado de prática e aperfei- çoamento constantes. Tendo isso em mente, as competências nucleares em MFC são, a saber: Cuidados centrados na pessoa – a partir da relação médico-pessoa, realizar uma prática centrada no paciente e no contexto, considerando a continuidade longitudinal. Aptidões específicas para resolução de problemas – incluindo na atenção e no cuidado os estágios precoces e indiferenciados. Gestão de cuidados primários – envolvendo coordenação de cuidado e advocacia com vistas a trabalhar pela melhoria de condições de saúde da comunidade adscrita. Abordagem abrangente – que compreende o atendimento não só aos casos de problemas de saúde agudos e crônicos que trazem os usuários a UBS em busca de consultas e tratamento, mas também o trabalho em prevenção e promoção de saúde e bem-estar, conforme o entendimento que a MFC tem de saúde. Orientação comunitária – assumindo a responsabilidade pela saúde da comunidade, considerando condições de vulnerabilidade sociais, econômicas, epidemiológicas, dentre outras. Abordagem holística – considerando o atendimento à saúde englobando aspectos físicos, psicológicos, sociais, culturais e existenciais e o trabalho em equipes multidisciplinares. 27 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Como você já deve ter percebido essas competências nucleares estão intima- mente relacionadas com outros conceitos já conhecidos por você, presentes nos princípios do SUS e nos atributos – essenciais e derivados – da atenção pri- mária. Esse relacionamento mostra o quanto a MFC compreende um corpo de conhecimentos, valores e linhas de ação coerente, que traduz uma concepção de saúde específica. Para melhor visualização dessa dinâmica, podemos observar a árvore de compe- tências apresentada pela Organização Mundial de Medicina de Família – WONCA na Figura 4. Figura 4 – As competências nucleares segundo a WONCA-Europa Definição Europeia de Medicina Geral e Familiar: Competências Nucleares e Características (EURACT/WONCA 2002-2005) @ 2004 Swiss College of Primary Care Medicine / U. Grueninger, Adaptação e tradução de LF Gomes, 2005 Tomada de decisão baseada na incidência e prevalência Estágios precoces e indifereciados Física, psicológica, social, cultural e existencial Prática centrada na pessoa e contexto Problemas de saúde agudos e crônicos Continuidade Longitudinalidade Responsável pela saúde da comunidade Coordenação de Cuidados Advocacia 1º Contato; Acesso aberto Todos os Problemas de Saúde Atitute Ciência Contexto Relação médico/ paciente Promoção da saúde e bem-estar Abordagem holística Cuidados centrado na pessoa Aptidões específicas para a resolução de problemas Gestão de cuidados primários Orientação comunitária Abordagem abrangente EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 28 Observe como a árvore se organiza em termos funcionais. Em suas raízes, temos, no centro, a ciência – indicando que trabalhamos com medi- cina baseada em evidências e com demais saberes científicos como conhecimen- tos em gestão, estatística, sociologia, dentre muitos. De um dos lados, a atitude – sua e de sua equipe que precisa ser receptiva e proativa no atendimento universal e integral e longitudinal. Do outro lado, o contexto – a consciência de que o traba- lho compreende a comunidade adscrita ao território em que atuam, pelo qual são responsáveis. São essas as bases que alimentam e sustentam a atuação do médico de família e comunidade, sem as quais, dificilmente, o trabalho atingirá a resoluti- vidade almejada. Os galhos compreendem as competências que ora estudamos, por meio das quais o trabalho da MFC se propõe a acolher e atender o indivíduo, as famílias e a comu- nidade, conhecendo e compreendendo suas características e demandas, e ado- tando uma determinada perspectiva do que é saúde e qual é abordagem de ser implementada. Finalmente, temos as folhas representando as habilidades por meio das quais as competências encontram sua forma de atuação, o saber fazer, na prática cotidiana de trabalho. Por outro lado, também é importante lembrar que, toda árvore que se presa, respira através de suas folhas, responsáveis pela fotossíntese. Sua vida e sua produção de frutos depende desse processo. Assim, as folhas que representam a prática das habilidades, ou seja, sua ação no dia a dia da clínica, em conjunto com sua equipe, se realizada com responsabilidade, reflexão e consciência crítica, além de materia- lizar as competências/princípios em que se embasam e apresentarem resolubili- dade no cuidado das pessoas, famílias e comunidades, retroalimentam o sistema de saúde – com informações vitais para a replicação de experiências exitosas, ela- boração de novas políticas, correção de rumos na gestão, entre outros. Podemos exempificar essa dinâmica, também, com o enfrentamento a pandemia de Covid 19. Como a APS é a porta de entrada dos pacientes no sistema, assim como é ela a responsável pelo programa de vacinação da população, os dados sobre números de infectados, de hospitalizados, de vacinados são fornecidos pela atenção primária para que os pesquisadores possam entender os caminhos da contaminação, a gestão do sistema possa traçar os rumos do combate a pande- mia e os especialistas organizar o atendimento aos pacientes . Como você já verificou em seus estudos e deve ter confirmado em sua prática, ao ser um clínico competente, com prática orientada à comunidade, tornando-serefe- rência para uma população definida, o Médico de Família e Comunidade lida com muitos tipos de problemas: agudos e crônicos, físicos e psicológicos. Com uma prática centrada na pessoa, conhece a realidade sociocultural e existencial dos indi- víduos e da comunidade, oferecendo-lhes acesso à assistência em saúde e cuida- dos no decorrer do tempo. Tem de lidar com problemas indiferenciados em está- gios precoces e com situações avançadas, para os quais pode solicitar apoio da 29 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade rede especializada, lançando mão do ótimo vínculo com as pessoas e da aptidão para lidar com problemas complexos. Para o domínio dessas competências e da prática da MFC, é muito importante que você conheça as ferramentas de trabalho que serão discutidas a seguir. FECHAMENTO DA UNIDADE Nessa unidade, você adquiriu domínio sobre os princípios da MFC, conheceu as competências nucleares da especialidade e construiu uma base importante da identidade que deve ter um Médico de Família e Comunidade. Você aprendeu que as ações são propostas com base na competência clínica indi- vidual, mas também dependem da atuação da comunidade e da população defi- nida, assim como da relação e do vínculo estabelecidos, que são fundamentais para uma assistência efetiva. Por não serem definições puramente teóricas, os princípios da MFC foram ilustrados em diferentes situações na rotina da APS. Essa compreensão servirá de auxílio para você dominar melhor as ferramentas de tra- balho do dia a dia do Médico de Família e Comunidade, uma vez que essas com- partilham os mesmos princípios em sua origem. A abordagem centrada na pessoa, comunicação clínica efetiva, abordagem familiar e comunitária e outras ferramentas para a prática clínica UNIDADE 02 31 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Conhecer os fundamentos básicos das principais ferramentas da MFC; • Identificar possibilidades de aplicação das principais ferramentas da MFC na prática profissional; • Identificar o cuidado centrado na pessoa no cotidiano profissional; • Reconhecer a comunicação efetiva como ferramenta relevante para a prática profissional; • Entender a importância da prática do Médico de Família e Comunidade para a abordagem familiar e orientação comunitária. INTRODUÇÃO DA UNIDADE Na unidade anterior, você aprendeu que os princípios da MFC e as competências nucleares possibilitam uma prática médica ampla, considerando tanto a pessoa quanto o meio sociofamiliar em que ela vive. Nesta é importante avançar no conhecimento e compreender a importância das ferramentas da MFC para a prática clínica. As ferramentas fundamentais são: • O método clínico centrado na pessoa; • A comunicação clínica efetiva; • A abordagem familiar e comunitária. 2.1 - MÉTODO CLÍNICO CENTRADO NA PESSOA É possível que você já tenha atendido alguém e, ao final da consulta, tido a impressão de que as orientações não foram entendidas ou, talvez isso só tenha ficado claro quando a pessoa voltou na consulta de retorno, sem aderir ao que foi proposto. É importante perceber que, muitas vezes, há um distanciamento entre o que o médico entende que é melhor para a pessoa e o que ela realmente espera do tratamento. Ao praticar o método clínico centrado na pessoa, você entenderá que tão impor- tante quanto considerar aspectos clínicos para o manejo da doença é abordar a experiência de adoecer, as expectativas relacionadas ao cuidado e garantir um espaço para a participação ativa do indivíduo no planejamento de condutas. Na Figura 5, temos os quatro passos dessa abordagem centrada na pessoa. EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 32 Figura 5 – Os quatro passos do método clínico centrado na pessoa Fonte: Gusso e Lopes (2019) PASSO 1 Explorando saúde, doença e a experiência da pessoa com a doença PASSO 2 Entendendo a pessoa como um todo PASSO 3 Elaborando projeto comum de manejo dos problemas Abordagem centrada na pessoa - componentes PASSO 4 Intensificando a relação médico - pessoa Ao fazer perguntas abertas no início da consulta e permitir que a pessoa expresse suas preocupações, você explora a saúde, a doença e a experiência da pessoa ao adoecer (passo 1), além de ter mais facilidade para entender a pessoa como um todo (passo 2) e pactuar com ela um plano de manejo de problemas (passo 3). A consulta que considera esses passos possibilita a intensifi- cação da relação médico-pessoa (passo 4), que vai se construindo ao longo da execução dos passos anteriores, sendo característica transversal do encontro de cuidado. Lembre-se! Vamos pensar juntos com base no seguinte exemplo: Uma pessoa traz a queixa de dor de cabeça, tem a preocupação de ser um câncer e tem a expectativa de fazer um exame comple- mentar ou de ser encaminhada ao neurolo- gista. Se o Médico de Família e Comunidade não compreender o que realmente preocupa a pessoa, pode não orientar adequadamente sobre o que precisa além do tratamento. 33 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Para entender a pessoa como um todo, conforme orientado no passo 2 da abor- dagem centrada na pessoa, você deverá desenvolver competências para abordar aspectos não apenas físicos utilizando ótima capacidade de escuta e comunicação efetiva. 2.2 - COMUNICAÇÃO CLÍNICA EFETIVA Para a prática da abordagem centrada na pessoa, é importante ter em mente que uma ótima comunicação será o alicerce da relação com seus pacientes. REFLEXÃO Analise, agora, a seguinte situação: Após uma consulta individual em que você fez todas as orientações cuidadosas que julgou ade- quadas, o paciente, antes de sair do consultório, criou coragem e fez uma série de perguntas novas. Diante dessas perguntas, você avalia que havia abordado todas as demandas do paciente? Considera, também, que deu a ele, inicialmente, oportunidade de expressar tudo o que o levou a procurar assistência na UBS? Essa é uma situação que acontece quando o médico não aborda todas as demandas e expectativas da pessoa ou quando não dá oportunidade que ele expreese todas as suas demandas, angús- tias e dúvidas. Muitas vezes, o médico não concede espaço na consulta para o paciente falar sobre a situação que o está angustiando, e, ao término do atendimento, ele declara suas preocupações. Essa situa- ção pode ser desconfortável, pois o médico, que achou ter finalizado a con- sulta, precisa retomar assuntos impor- tantes. Se você estiver atento e lançar mão de uma comunicação efetiva, evitará que situações como essa aconteçam. Também em casos de doenças crônicas, que exigem mudança comportamental e adesão ao tratamento, a ferramenta Foto por DCStudio | Freepik.com EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 34 da comunicação e a competência da empatia são fundamentais para motivar a pessoa e assim ajudá-la a promover as transformações esperadas. Essa comunicação empática é igualmente essencial quando for necessário informar ao paciente um diagnóstico de doença infecciosa, uma condição progressiva ou até potencialmente letal, sabendo que essa situação irá gerar muita angústia e neces- sidade de amparo, pois é o caminho certo para o êxito na abordagem do tema. Devemos, dessa forma compreender a comunicação como uma ferramenta ativa de cuidado. Como Médico de Família e Comunidade, ao lidar com pessoas em qual- quer fase do ciclo de vida, independentemente da presença ou não de doenças ou agravos, você precisa desenvolver atitudes empáticas, saber se expressar de maneira clara e cordial e, ainda, compreender as mais diversas demandas dos usuários do serviço de saúde para ter um bom desempenho. 2.3 - ABORDAGEM FAMILIAR E COMUNITÁRIA Um ótimo cuidado clínico individual envolve um olhar para a pessoa, sua família e contexto. Vimos que, entre as competências nucleares, há algumasque remetem à importância de uma abordagem holística, integral e abrangente. Quando o Médico de Família e Comunidade aborda a pessoa como um todo, ele atua como o recurso de uma população definida e de forma influenciada pela comunidade, lançando mão dos conhecimentos dos determinantes sociais de saúde e do olhar sistêmico sobre as pessoas e sobre as pessoas com quem elas se relacionam. Nessa perspectiva, você deve levar em consideração que muitos problemas de saúde no indivíduo sofrem influência da família, sendo o contrário também ver- dadeiro, principalmente quando a família é essencial para o apoio no cuidado do ente adoecido. Foto por Monica Amelia Medeiros da Cunha Lima | Ministério da Saúde 35 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Para você entender melhor, podemos citar o exemplo de uma família com um ou mais membros portadores de síndrome psicótica. A família exerce papel determi- nante no manejo e prevenção de surtos e, em resposta a isso, pessoas com a con- dição de saúde controlada trazem tranquilidade para o meio familiar. No que diz respeito à abordagem familiar, as visitas domiciliares também são ati- vidades que contribuem para o desenvolvimento das competências relacionadas a tal linha de atuação e para o melhor conhecimento do território de atuação, oti- mizando a orientação comunitária. Quanto mais o Médico de Família e Comunidade conhece a comunidade e é influen- ciado por ela, quanto mais ele conhece o perfil da população a que atende – os riscos aos quais ela está submetida, as queixas mais prevalentes e as característi- cas do território –, maior a chance de ele acertar o diagnóstico e o manejo de situ- ações comuns em sua rotina de trabalho. Ao incorporar à sua prática clínica a abor- dagem familiar e comunitária, você torna seu trabalho mais efetivo. 2.4 - MAIS FERRAMENTAS PARA A PRÁTICA CLÍNICA Além das discutidas anteriormente, existem diversas ferramentas práticas que podem ajudar você a executar o papel de Médico de Família e Comuni- dade de forma fiel aos princípios da especialidade. Vamos analisá-las. 2.4.1 - Trabalho em equipe O trabalho em equipe é primordial para o bom desempenho profissional, uma vez que a diversidade de visões sobre uma mesma questão enriquece qualquer processo de trabalho. Trabalhar em equipe envolve: A negociação diante de diferentes pontos de vista A expressão de ideias A valorização da opinião dos membros do grupo A habilidade de escuta Comunicação efetiva abrangendo, por sua vez Autonomia relativa de cada função Horizontalidade nas relações de trabalho Foto por Samuel Bizachi | Ministério da Saúde EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 36 Os melhores resultados alcançados com o trabalho em equipe se devem ao com- partilhamento do mesmo anseio de sucesso pelos membros da equipe. O objetivo comum é a mola propulsora que move o grupo e potencializa a soma das melho- res competências individuais, mobilizadas para essa finalidade. 2.4.2 - Registro clínico orientado por problemas Para uma comunicação clínica efetiva, o prontuário é um fator importante. A organização do registro e a condução da consulta podem ser centradas na pessoa com uso do registro clínico orientado por problemas. Essa ferra- menta foca no registro, tanto em aspec- tos subjetivos quanto em aspectos obje- tivos da consulta, seguidos da avaliação dos problemas e plano de cuidados compartilhado, direcionando ao que a pessoa considera prioridade. Esse pro- cesso de registro é breve, organizado e ideal para o seguimento longitudinal, sendo amplamente utilizado no con- texto da APS ao redor do mundo. 2.4.3 - Gestão da clínica Foto por SES Santa Catarina A gestão da clínica é uma ferramenta desenvolvida para você organizar o processo de trabalho da unidade em si, da assistência individual e do serviço à população. Foto por rawpixel.com | Freepik.com 37 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Para isso, alguns pontos são essenciais como: GESTÃO DA CLÍNICALidar com a pressão assistencial e com a gestão do tempo Estruturar a agenda de assistência sem diminuir ou limitar demandas essenciais do território Conhecer a demanda Nesse último caso, nos referimos tanto ao tempo de atendimento quanto ao uso do tempo como ferramenta de cuidado, seja pela demora permitida – uso do tempo como instrumento de cuidado para que o quadro se defina melhor em situações em que há ausência de urgência –, seja pelo watchful waiting – observação atenta ao lidar com situações clínicas em que o diagnóstico ou a linha de tratamento merecem atenção próxima para confirmação ou adesão ao tratamento, por exemplo. 2.4.4 - Prevenção quaternária e os níveis de prevenção Foto por Freepik.com Marc Jamoulle, Médico de Família e Comunidade, usou o termo prevenção quater- nária pela primeira vez em 1995, durante conferência WONCA. A prevenção quaternária é uma ferramenta que ajuda você a indicar e adotar ações curativas e preventivas de maneira proporcional às necessidades e recursos EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 38 disponíveis, evitando submeter as pessoas a riscos desnecessários por intervenções inadequadas. O Médico de Família e Comunidade, munido de informações adequa- das do estado clínico do paciente, deve buscar o melhor cuidado para a pessoa. Na Figura 6 é possível entender a diferença entre os níveis de prevenção, sendo I = prevenção primária, II = secundária, III = terciária e IV = quaternária. PONTO DE VISTA DO MÉDICO Ausência de doença I Ação desenvolvida para evitar ou eliminar a causa de um problema de saúde de um indivíduo ou de uma população antes do seu aparecimento (exemplo: imunização). II Ação levada a cabo para prevenir o desenvolvimento de um problema de saúde desde uma fase inicial em um indivíduo ou em uma população, encurtando a sua evolução e duração (exemplo: rastreio da hipertensão). IV Ação levada a cabo para identificar indivíduos ou populações em risco de tratamento excessivo, afim de os proteger de novas intervenções médicas inapropriadas e de lhes sugerir alternativas eticamente aceitáveis. III Ação desenvolvida para reduzir o efeito e/ou prevalência de problemas crônicos de saúde em indivíduos ou populações visando a minimização das alterações funcionais originadas por esse problema (exemplo: prevenção das complicações da diabetes). As definições já publicadas de prevenção I, II e III são complementadas pela prevenção IV e oferecem uma nova visão dos campos de atividade do médico de família. Doença PO N TO D E VI ST A D O P AC IE N TE Se nt e- se d oe nt e Se nt e- se b em Figura 6 – Definições de prevenção I, II, III e IV Fonte: adaptado de Jamoulle M. Gomes LF. Prevenção Quaternária e limites em medicina. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2014;9(31):186-91. Disponível em: https://doi.org/10.5712/rbmfc9(31)867 2.4.5 - Epidemiologia clínica e vigilância em saúde Informações epidemiológicas são importantes para ações do Médico de Família e Comunidade e da equipe da APS, tanto no âmbito individual como no comunitá- rio. A epidemiologia clínica é a aplicação de dados epidemiológicos e estatísticos para entender os processos diagnósticos e terapêuticos pelo médico que, como você, cuida diretamente de pessoas, auxiliando nas decisões clínicas do cuidado. 39 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Ao conhecer a prevalência das doenças e a sensibilidade dos exames diagnósticos, por exemplo, é possível ter maior certeza diagnóstica, o que é muito importante para sua decisão terapêutica. Tendo o domínio epidemiológico, o Médico de Família e Comunidade, além de desenvolver melhor o raciocínio clínico, deve lançar mão de estratégias de acom- panhamento terapêutico, de ações de rastreamento e promoção de saúde por meio da vigilância emsaúde. Há muitos problemas de saúde – condições, riscos e/ ou determinantes – que requerem atenção e acompanhamento contínuos por meio de articulação entre ações promocionais, preventivas e curativas, possibilitando, no território, ações específicas para cuidado individual ou populacional. Por ter sua prática influenciada pela comunidade em que atua, você deve se per- ceber como uma fonte de apoio e recurso das pessoas e famílias para as quais é uma referência. Dessa forma, essas duas ferramentas ajudam-no a definir um cuidado voltado à comunidade específica, de acordo com faixa etária, queixas e situações clínicas mais prevalentes, e a traçar um plano de ações em saúde condi- zente com o território. EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 40 FECHAMENTO DA UNIDADE Ao término desta Unidade, você certamente compreendeu que a prática da MFC é abrangente, fascinante e igualmente desafiadora, o que exige do profissional o domínio de ferramentas clínicas para o exercício das competências nucleares com base nos princípios da especialidade. Você se torna um médico mais efetivo ao ampliar sua visão do mundo da pessoa cuidada e considerar suas experiências, preocupações, ideias, sentimentos, fami- liares e papéis sociais, não se baseando somente nas ações determinadas pelos protocolos fixos. Você compreendeu que exercer de forma prática os princípios da MFC envolve adotar ações de cuidado individuais, familiares e comunitárias, que passam por uma comunicação clínica efetiva e prática médica instrumentalizada munida de diversas ferramentas, independentemente de a assistência ser no consultório, no domicílio ou no território. 41 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Nesse módulo, você apreendeu os quatro princípios da MFC, as competências nucleares e ferramentas para a prática profissional. Esse conhecimento é muito importante para você avançar nas habilidades e atitudes necessárias à prática pro- fissional resolutiva na grande gama de assuntos cotidianos para um Médico de Família e Comunidade. Finalmente, dada a complexidade dessa especialidade, é importante que você tenha compreendido que o Médico de Família e Comunidade, por meio dos princípios da MFC e de suas competências, e como coordenador do cuidado, é um especialista em gente cuja atuação na APS é essencial para uma boa prática médica, contri- buindo para a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS). Encerramento do módulo EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade 42 Referências BRANDT, J. A. Grupos Balint: suas especificidades e seus potenciais para uma clínica das relações do trabalho. Rev. SPAGESP, Ribeirão Preto, v. 10, n. 1, p. 40-45, jun. 2009. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S1677-29702009000100007&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 10 jun. 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância à Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes Nacionais da Vigilância em Saúde. Brasília, 2010. BURTON, J; JACKSON, N. 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Atual- mente é coordenador pedagógico do curso de Especialização em Saúde da Família/ UNASUS Unifesp, Médico Técnico Administrativo em Educação do Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP/EPM, Preceptor da residência médica de Medi- cina de Família e Comunidade da Universidade Federal de São Paulo e Coordena- dor de Educação Médica da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medi- cina – SPDM/PAIS. Também atua como médico clínico da Prefeitura Municipal de São Paulo. Tem experiência na área de Medicina, atuando principalmente nos seguintes temas: Medicina de Família, Atenção Primária e Saúde Mental. Currículo Lattes disponível em: http://lattes.cnpq.br/5392203984984554 GABRIELA ALVES DE OLIVEIRA HIDALGO Graduada em Medicina pelo Centro Universitário São Camilo, Médica de Família e Comunidade pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e 3º ano de resi- dência com área de atuação em Cuidados Paliativos. Técnica Administrativa em Educação do Departamento de Medicina Preventiva/UNIFESP, parte da Coordena- ção da Residência Medicina de Família e Comunidade (Geral e 3º ano - Área de Atuação em Cuidados Paliativos) e Preceptora no Ambulatório de Medicina Geral e Familiar (Graduação e Residência). Parte da equipe formadora PROADI-SUS Albert Einstein voltada a Cuidados Paliativos e Atenção Primária à Saúde. Gerente Médica do Grupo ASAS Health. Mestre em Educação Médica (Tema principal: Currículo Baseado em Competências para Medicina de Família e Comunidade). Currículo Lattes disponível em: http://lattes.cnpq.br/3012662780540204 Biografia dos conteudistas 45 EIXO 01 | MÓDULO 03 Princípios da medicina de família e comunidade Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO 1 | PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO SUS E DA ATENÇÃO PRIMÁRIA A SAÚDE REALIZAÇÃO Princípios da Medicina de Família e Comunidade MÓDULO 03 2ª edição Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS) Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)