Prévia do material em texto
Educação formal, informal e não formal e os campos de atuação do pedagogo 1 1 Educação formal, informal e não formal e os campos de atuação do pedagogo Licenciatura em Pedagogia 1 Educação, Sociedade e Currículo 2 Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos 1.1 Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Maria da Glória Gohn Licenciatura em Pedagogia 2 Educação? Educações: aprender com o índio GOHN, Maria da Glória. Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos. Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014. Disponível em: http://pages.ie.uminho.pt/inved/index.php/ie/article/view/4/4. Acesso em: 28 ago. 2021. Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 35 Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Maria da Glória Gohn1 Resumo: A partir de um referencial da crítica feminista, dos estudos pós-coloniais, da pedagogia freireana e dos fundamentos da investigação da ação participativa , apresenta-se a reflexão sobre a produção e transmissão de conhecimento fora dos contextos institucionais de educação. A educação não formal é aquela que se aprende "no mundo da vida", via os processos de compartilhamento de experiências, principalmente em espaços e ações coletivos cotidianas. Articulada com a educação cidadã, a educação não-formal volta-se para a formação de cidadãos(as) livres, emancipados, portadores de um leque diversificado de direitos, assim como de deveres para com o(s) outro(s). Neste texto revêem-se conceitos e procura-se estabelecer a sua raiz paradigmática. Ao mesmo tempo, procura-se compreender como práticas novas, advindas tanto da sociedade civil como da sociedade política, no campo do associativismo e das políticas pública, entroncam em processos de educação não formal. Trata-se de processos participativos em movimentos populares, ONGs e outras entidades civis (fundações, associações, cooperativas etc.), desafiados à promoção de uma educação cidadã, participativa e emancipatória. Palavras-Chave: educação não formal; movimentos sociais; cidadania; participação. Apresentação O foco principal deste texto são processos de aprendizagens construídos em processos sociais coletivos, participativos, onde a aprendizagem não é gerada em estruturas formais de ensino escolar, mas sim no campo da educação não formal. Falar sobre aprendizagem e saber, fora das escolas do sistema regular de ensino de um país, implica em participar do amplo debate epistemológico sobre a produção de conhecimento no mundo contemporâneo. Este debate, no campo dos estudos sobre os processos participativos civis, a exemplo dos movimentos sociais, traduz-se frequentemente no reconhecimento dessas ações coletivas como produtoras de conhecimento (ou seja, o reconhecimento de que os movimentos sociais, e outros atores sociais como ONGs, entidades do terceiro setor, são produtores e agenciadores de saberes). Este debate se nutre da crítica feminista, dos estudos pós-coloniais, da pedagogia freireana e de aportes da tradição ensaística latino-americana das décadas de 1960 e 1970 que avançaram na definição de uma investigação da ação participativa. Contudo, não se restringe a essas correntes e revela a aposta estratégica de muitos atores sociais pela necessidade de lutar também no plano das ideias, dos discursos e na construção de um conhecimento de acordo com suas realidades, interesses e experiências. 1 Fac. Educação/UNICAMP/Brasil- Pesquisadora CNPq Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 36 No Brasil, o citado debate data do final dos anos de 1980, crescendo ao longo de 1990, ficando conhecido como a década da crise do paradigma dominante da modernidade. Na atualidade, transformações societárias dadas pelas crises econômico-financeiras no mundo globalizado, as inovações socioculturais e as mudanças aceleradas no campo das tecnologias sociais e de comunicação, tem levado ao reconhecimento de uma transição paradigmática, e a crise do paradigma dominante já passou a ser uma agenda do passado. Uma premissa fundamental que une muitos analistas advindos de diferentes campos das ciências é a de que o conhecimento é uma ferramenta fundamental para orientar a existência e conduzir a humanidade na Historia. Para que se leve adiante a História, qualquer espécie de vida humana necessita de conhecimento, gerado pelo ato de investigação. O processo de pesquisa envolve uma atitude investigativa que gera aprendizagem e saber. E o saber é sempre resultado de uma construção histórica, realizada por sujeitos coletivos. Neste artigo, interessa-nos a construção desses saberes, advindo de sujeitos coletivos organizados na sociedade civil, com papel ativo no processo de produção de conhecimento. Para tal, breves considerações iniciais sobre o tema da participação social são necessárias. Participação Social e Aprendizagens Coletivas Pateman (1992), em seu livro Participação e teoria democrática, chama a atenção para o fato de que a participação gera atitudes de cooperação, integração e comprometimento com as decisões. Destaca o sentido educativo da participação, a qual, como prática educativa, forma cidadãos voltados para os interesses coletivos e para as questões da política. Os defensores da democracia participativa inovam com sua ênfase na ampliação dos espaços de atuação dos indivíduos para além da escolha dos governantes e inovam também ao destacar o caráter pedagógico da participação. Os teóricos da democracia participativa defendem a tese de que há uma inter- relação entre os indivíduos e as instituições, uma vez que a participação tem uma função educativa e os indivíduos são afetados psicologicamente ao participarem do processo de tomada de decisão, o que só é possível a partir do momento em que eles passam a tomar parte nos assuntos públicos e a levar em consideração o interesse público. Enfim, essa teoria assinala a importância da experiência nos processos participativos. A ideia é que a participação tende a aumentar à medida que o indivíduo participa, ela se constitui num processo de socialização e faz com que, quanto mais as pessoas participam, mais tendam a continuar neste caminho. Em outras palavras, é participando que o indivíduo se habilita à participação, no sentido pleno da palavra, que inclui o fato de tomar parte e ter parte no contexto onde estão inseridos. Ou seja: "quanto mais os indivíduos participam, melhor capacitados eles se tornam para fazê- lo" (PATEMAN, 1992:61). Na democracia participativa há, portanto, uma exigência da participação dos cidadãos no processo de tomada de decisão em uma sociedade democrática, porque ela tem um caráter pedagógico no aprendizado das relações democráticas, contribuindo para a politização dos cidadãos, o que é importante para eles exercerem um controle sobre os governantes. A democracia participativa é um Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 37 modelo de democracia que incorpora e defende a participação da sociedade civil no interior dos Estados democráticos, que busca restabelecer o vínculo entre democracia e cidadania ativa. Certamente que estas premissas têm um caráter teórico; elas poderão não se realizar ou se alterar na prática caso haja a presença de processos de controle, manipulação e regulação da participação fundados em interesses de grupos, interesses particulares, formas clientelistas etc. Ou seja, o modelo participativo não é uma ‘receita’ que se aplica e gera dados resultados previsíveis. É um processo complexo, que precisa ser construído a partir de dadas intencionalidades e condicionalidades, de dadas premissas que coloquem os interesses públicos, dos cidadãos, e as carências efetivas existentes,ao se dirigirem para os excluídos objetivam, na maior parte das vezes, apenas inseri-los no mercado de tra- balho. Entendemos a educação não - for- mal como aquela voltada para o ser hu- mano como um todo, cidadão do mundo, homens e mulheres. Em hipótese alguma ela substitui ou compete com a Educação Formal, escolar. Poderá ajudar na comple- mentação dessa última, via programações específicas, articulando escola e comuni- dade educativa localizada no território de entorno da escola. A educação não- for- mal tem alguns de seus objetivos próximos da educação formal, como a formação de um cidadão pleno, mas ela tem também a possibilidade de desenvolver alguns objeti- vos que lhes são específicos, via a forma e espaços onde se desenvolvem suas práti- cas, a exemplo de um conselho ou a parti- cipação em uma luta social, contra as dis- criminações, por exemplo, a favor das di- ferenças culturais etc. Resumidamente po- demos enumerar os objetivos da educação não-formal como sendo: a) Educação para cidadania; b) Educação para justiça social; c) Educação para direitos (humanos, sociais, políticos, culturais, etc.); d) Educação para liberdade; e) Educação para igualdade; f) Educação para democracia; Educação não formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 33 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 g) Educação contra discriminação; h) Educação pelo exercício da cultura, e para a manifestação das diferen- ças culturais. A educação não-formal em ação: conselhos e colegiados na escola: espaços de educação não-formal Observa-se que inúmeras inovações no campo democrático advêm das práticas geradas pela sociedade civil que alteram a relação estado-sociedade ao longo do tem- po e constróem novas formas políticas de agir, especialmente na esfera pública não estatal. De fato, são inúmeras as novas prá- ticas sociais expressas em novos formatos institucionais da participação, tais como os conselhos, os fóruns, as assembléias po- pulares e as parcerias. Em todas elas a educação não-formal está presente, como processo de aprendizagem de saberes aos e entre seus participantes. Ao analisarmos as possibilidades de par- ticipação da comunidade educativa em uma escola, articulando-a aos processos de apren- dizagem não-formal que os métodos de ges- tão participativa desenvolvem, não podemos deixar de tecer algumas considerações sobre as estruturas de participação que já existem no interior das escolas, a exemplo dos distin- tos e diferenciados colegiados e conselhos. Nos conselhos se entrecruzam necessidades advindas da prática da educação formal/es- colar, com a educação não-formal, princi- palmente no que se refere a participação dos pais e outros membros da comunidade edu- cativa nas suas reuniões. Observa-se que o processo brasileiro de descentralização da educação não descen- tralizou, de fato, o poder no interior das es- colas. Usualmente, esse poder continua nas mãos da diretora ou gestora, que o monopo- liza, faz a pauta das reuniões dos conselhos e colegiados escolares, não a divulga com antecedência etc. A comunidade externa e os pais não dispõem de tempo e, muitas vezes, nem avaliam a relevância de participar ou de estarem presentes nas reuniões. Além dis- so, usualmente, esses pais não estão prepa- rados para entender as questões do cotidia- no das reuniões, como as orçamentárias. Só exercem uma participação ativa nos colegia- dos aqueles pais com experiência participati- va anterior, extra-escolar, revelando a impor- tância da participação dos cidadãos (ãs) em ações coletivas na sociedade civil. O caráter educativo que essa participação adquire, quando ela ocorre em movimentos sociais comunitários, organizados em função de cau- sas públicas, prepara os indivíduos para atu- arem como representantes da sociedade civil organizada. E os colegiados escolares são uma dessas instâncias. Muitos funcionários das escolas são membros dos conselhos e dos colegiados escolares mas, usualmente, exercitam um pacto do silêncio, não participando de fato e servindo de “modelo passivo” para ou- tros setores da comunidade educativa que compõem um colegiado. Por que eles se comportam assim? Porque, na maioria dos casos, estão presentes para referendar de- mandas corporativas, ou para fortalecer diretorias centralizadoras. Como elo mais fraco do poder, eles participam para ́ com- por`, para dar número e quorum neces- sários aos colegiados, contribuindo com esse comportamento para não construir nada e nada mudar. Por que isso ocorre? Porque, embora 34 Maria da Glória Gohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 os colegiados sejam um espaço legítimo e de direito, e uma conquista para o exercí- cio da cidadania, até por serem previstos em lei, essa cidadania tem que ser qualifi- cada e construída na prática. Os projetos políticos dos representantes dos diferentes segmentos e grupos, seus valores, visões de mundo etc. interferem na dinâmica des- ses processos participativos. Para terem como meta projetos emancipatórios, eles devem ter como lastro de suas ações os princípios da igualdade e da universalida- de. Os colegiados devem construir ou de- senvolver essa sensibilidade por meio de um conjunto de valores que venham a ser refletidos em suas práticas. Sem isso, temos uma inclusão excludente: aumento do nú- mero de alunos nas escolas e estruturas descentralizadas que não ampliam de fato a intervenção da comunidade na escola. Temos setores que pretensamente estão re- presentando o interesse público, mas que na realidade defendem o interesse de gru- pos e corporações, ou a manutenção do poder tradicional, cujo papel é exercer o controle, a vigilância em razão de uma fal- sa participação ordeira e voltada para a responsabilização da comunidade ( pais, mães e outros mais ) nas ações em que o Estado se omite (SILVA, 2003). Não se deve perder de vista que, por intermédio dos Conselhos, a sociedade ci- vil exercita o direito de participar da gestão de diferentes políticas públicas, tendo a possibilidade de exercer maior controle so- bre o Estado. Os fóruns são frutos das re- des tecidas nos anos 70/80 que possibili- taram aos grupos organizados olhar para além da dimensão do local; têm abrangên- cia nacional e são fontes de referência e comparação para os próprios participan- tes. As assembléias e plenárias têm ganha- do formatos variados que vão de encon- tros regulares e periódicos entre especialis- tas, interessados e gestores públicos, como no caso da saúde, a observatórios e gru- pos semi-institucionalizados do orçamento participativo. As novas práticas constituem, assim, um novo tecido social denso e di- versificado, tencionam as velhas formas de fazer política e criam novas possibilidades concretas para o futuro, em termos de op- ções democráticas. As novas práticas de interação escola/representantes da socie- dade civil organizada devem ser examina- das à luz dos processos da educação não- formal caracterizados na primeira parte deste texto. São aprendizagens que estão geran- do saberes. Processos difíceis, tensionados mas educativos para todos, pelo que tra- zem de novo, pela resistência ou pela reite- ração obstinada do velho, que não quer ceder à pressão das novas forças. Movimentos sociais na área da educação Cumpre mencionar, no campo dos movi- mentos sociais enquanto uma área de apren- dizagem da educação não-formal, a luta pela educação. Essa luta nunca teve grande visibi- lidade como um ator independente, pois suas demandas foram, freqüentemente, incorpora- das pelos sindicatos dos professores e demais profissionais da educação, ou por articulações mais amplas, como a luta pela educação de- senvolvida, no período da Constituinte, pelo Fórum Nacional de Luta pela Escola Pública. As reformas neoliberais realizadas nas escolas públicas de ensino fundamental e médio, na década de 90, alteraram o cotidiano das es- colas e deram as bases para a mobilização de novas lutas e movimentos pelaeducação. Falta de vagas, filas para matrículas, resultados de exames nacionais, progressões continuadas Educação não formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 35 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 (passagem de ano sem exames), deslocamen- to de alunos de uma mesma família para dife- rentes escolas, atrasos nos repasses de verbas para merendas escolares, denúncias de frau- des no uso dos novos fundos de apoio à edu- cação (especialmente o FUNDEF), entre ou- tras, foram pautas da agenda do movimento na área da educação. Registre-se ainda que a crise econômica e o desemprego obrigaram centenas de famílias das camadas médias a procurar vagas nas escolas públicas. Além de aumentar a demanda, essas famílias estavam acostumadas a acompanhar mais o cotidiano das escolas de seus filhos, desenvolvendo es- sas práticas na escola pública, antes mais fe- chada à participação dos pais. Com isso, em muitos bairros, as escolas passaram a desem- penhar o papel de centros comunitários, pois a falta de verbas e a busca de solução para novos problemas como a segurança, a vio- lência entre os jovens e o universo das drogas levou-as à busca de parcerias, no bairro ou na região, com outros organismos e associa- ções organizadas. Assim, as escolas passa- ram a ser, além de espaços de formação e aprendizagem da educação formal, centros de desenvolvimento da educação não-formal, agentes de construção de territórios civilizató- rios, articuladoras de ações que retomem o sentido da civilidade humana. No entanto, essa influência não advém apenas de uma tendência da escola em direção ao bairro: no interior da escola também existem novos es- paços de participação, tais como os distintos conselhos tratados acima. Tendo em vista que um dos principais sujeitos da sociedade civil organizada são os movimentos sociais, é importante regis- trar que os movimentos pela educação têm caráter histórico, são processuais e ocor- rem, portanto, dentro e fora de escolas e em outros espaços institucionais. As lutas pela educação envolvem a luta por direitos e são parte da construção da cidadania. Movimentos sociais pela educação abran- gem questões tanto de conteúdo escolar quanto de gênero, etnia, nacionalidade, religiões, portadores de necessidades espe- ciais, meio ambiente, qualidade de vida, paz, direitos humanos, direitos culturais etc. Esses movimentos são fontes e agências de produção de saberes. O tema dos direitos é fundamental porque ele dá universalida- de às questões sociais, aos problemas eco- nômicos e às políticas públicas, atribuin- do-lhes caráter emancipatório. É a partir dos direitos que fazemos o resgate da cul- tura de um povo e de uma nação, especi- almente em tempos neoliberais que des- tróem ou massificam as culturas locais, re- gionais ou nacionais. Partir da ótica dos direitos de um povo ou agrupamento soci- al é adotar um princípio ético, moral, ba- seado nas necessidades e experiência acu- mulada historicamente dos seres humanos e não nas necessidades do mercado. A óti- ca dos direitos possibilita-nos a construção de uma agenda de investigação que gera sinergias e não compaixão, que resultam em políticas emancipadoras e não compen- satórias. Fora da ótica da universalidade dos direitos caímos nas políticas focaliza- das, meras justificativas para políticas que promovem uma modernização conservado- ra. A ótica dos direitos como ponto de par- tida poderá nos fazer entender as mudan- ças sociais em curso. Listamos, a seguir, alguns dos princi- pais eixos das demandas pela educação nos movimentos sociais envolvendo as es- colas. A cada luta corresponde um momento do processo de aprendizagem, típico da educação não-formal, a saber: • Lutas pelo acesso; 36 Maria da Glória Gohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 • Aumento de vagas; • Escola pública com qualidade; • Gestão democrática da escola; • Escola com projetos pedagógicos que respeitem as culturas locais; • Valor das mensalidades das escolas particulares; • Por políticas públicas; • Realização de experiências alternativas; • Luta no processo de implantação de novos modelos, experiências ou re- formas educacionais, envolvendo or- ganização, trajetória das experiênci- as, acompanhamento, construção de cultura política, redefinição do con- ceito de participação ; • Luta dos professores e outros profissi- onais da educação por condições salariais e de trabalho; • Lutas dos estudantes por vagas, con- dições, mensalidades, refeitórios, moradia, contra discriminações, etc. Conclusões e desafios Articular a educação, em seu sentido mais amplo, com os processos de forma- ção dos indivíduos como cidadãos, ou ar- ticular a escola com a comunidade edu- cativa de um território é um sonho, uma utopia, mas também uma urgência e uma demanda da sociedade atual. Por isso tra- balhamos com um conceito amplo de edu- cação que envolve campos diferenciados, da educação formal, informal e não-for- mal. Acreditamos que propostas se fazem com idéias e fundamentos; por isso, dedi- camos a primeira parte do texto a qualifi- cação e diferenciação de um conceito que tem centralidade no tema que estamos dis- cutido, qual seja: a importância da edu- cação não-formal. Reiteramos neste texto a perspectiva que aborda a educação como promotora de me- canismos de inclusão social. Entende-se por inclusão as formas que promovem o acesso aos direitos de cidadania, que resgatam al- guns ideais já esquecidos pela humanidade, como o de civilidade, tolerância e respeito ao outro; contestam-se concepções relativas às formas que buscam, simplesmente, integrar indivíduos atomizados e desterritorializados, em programas sociais compensatórios. A gestão compartilhada em suas diferen- tes formas de conselhos, colegiados etc. preci- sa desenvolver uma cultura participativa nova, que altere as mentalidades, os valores, a for- ma de conceber a gestão pública em nome dos direitos da maioria e não de grupos lob- bistas. Isso implica a criação de coletivos que desenvolvam saberes não apenas normativos - legislações, formatos de aplicação de verbas etc., embora esses itens também sejam impor- tantes, dado o papel dos fundos públicos no campo de disputa política em torno das ver- bas públicas. É preciso desenvolver saberes que orientem as práticas sociais, que constru- am novos valores, aqui entendidos como a participação de coletivos de pessoas diferentes com metas iguais. Isto tudo está no campo da educação não-formal. Entretanto, se não houver sentido nas for- mas de participação na área da educação, com projetos de emancipação dos cidadãos que objetivem mudanças substantivas e não instrumentais, corre-se o risco de se ter espa- ços mais autoritários do que já eram quando centralizados. Como democratizar esses es- paços? Como ressignificá-los para que as obras e serviços realizados numa escola, por exemplo, não sejam vistos como dádivas de uma diretora, ou de algum político ou admi- nistrador público, e sim como direito da po- pulação? Como resgatar o direito à educa- Educação não formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 37 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 ção enquanto política educacional ao nível das instâncias locais, sem esquecer que elas são parte de um todo que extrapola as fron- teiras nacionais? Como gerar novas políticas na gestão dos fundos públicos? São desafios e tarefas gigantescas. Não dá para contar apenas com heroísmos de al- guns gestores públicos bem intencionados ou de poucas lideranças da sociedade civil, pois construir sentido e significados novos na ges- tão da escola é uma prática que tem que se pautar por um outro olhar em relação ao pa- pel da escola num dado território. Não é mais possível permanecer no conformismo diante de espaços dominados por antigos métodos clientelistas, pela ordem tradicional. É preciso criatividade e ousadia porque as novidadessó ganham força quando passam a ter hege- monia em certos coletivos organizados mais amplos. Por isso, é preciso voltar os olhos para a organização da sociedade civil, para os pro- cessos de educação não-formal que nela se desenvolvem, e para o papel que a escola pode ter como campo de formação de um novo modelo civilizatório. Precisamos de uma nova educação que forme o cidadão para atuar nos dias de hoje, e transforme culturas políti- cas arcaicas, arraigadas, em culturas políticas transformadoras e emancipatórias. Isso não se faz apenas em aulas e cursos de formação tradicionais, formulados no gabinete de algum burocrata, e sim a partir da prática da gestão compartilhada escola/comunidade educativa, no exercício das tarefas de que a conjuntura de uma dada escola, numa determinada co- munidade territorial, necessite. Participar dos conselhos e colegiados das escolas é uma ur- gência e uma necessidade imperiosa, mas exige uma preparação contínua, um aprendizado permanente, uma atividade de ação e refle- xão. Não basta um programa, um plano, ou mais um conselho. É preciso reconhecer a exis- tência e a importância da educação não-for- mal no processo de construção de uma socie- dade sem injustiças, democrática.. Construir cidadãos éticos, ativos, parti- cipativos, com responsabilidade diante do outro e preocupados com o universal e não com particularismos, é retomar as utopias e priorizar a mobilização e a participação da comunidade educativa na construção de novas agendas. Essas agendas devem con- templar projetos emancipatórios que tenham como prioridade a mudança social, qualifi- quem seu sentido e significado, pensem al- ternativas para um novo modelo econômi- co não excludente que contemple valores de uma sociedade em que o ser humano é cen- tro das atenções e não o lucro, o mercado, o status político e social, o poder em suma. A educação não - formal é um campo vali- oso na construção daquelas agendas, e para dar sentido e significado às próprias lutas no campo da educação visando à transfor- mação da realidade social. Concluímos este texto com uma proposta de caráter sociopolítico: a de transformar as escolas em centro de referências civili- zatórias nos bairros onde se localizam. Para isso propomos a articulação dos processos de participação da sociedade civil organi- zada com as escolas. Propomos, em suma, a articulação da educação formal com a não-formal para dar vida e viabilizar mu- danças significativas na educação e na sociedade como um todo. 38 Maria da Glória Gohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 Referências BAUMAN, Z. Community. Cambridge: Polity, 2001. COLL, C. Educação, escola e comunidade: na busca de um compromisso. Pátio: revista pedagógica, Porto Alegre, ano 3, n. 10, p. 8-12, 1999. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. GOHN, M. G. Conselhos gestores e participação sociopolítica. 2. ed. São Paulo: Cor- tez, 2003. ______. Educação não-formal e cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2005. ______. Movimentos e lutas sociais na História do Brasil. São Paulo: Loyola, 1995. ______. Movimentos sociais e educação. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2003. ______. O protagonismo da sociedade civil: movimentos sociais, ONGs e redes solidá- rias. São Paulo: Cortez, 2005. ______. Teoria dos movimentos sociais. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2004. HONNETH, A. Luta por reconhecimento:a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003. PUTNAM, R. D. Bowling alone. New York: Simon & Schuster, 2000. SANTOS, B. S. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. SANTOS, B. S. (Org.). Democratizar a democracia: os caminhos da democracia partici- pativa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. SENNET, R. A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capita- lismo. Rio de Janeiro: Record, 1999. SILVA, P. Escola - família, uma relação armadilhada: interculturalidade e relações de po- der. Porto: Afrontamento, 2003. Recebido em: 27/07/2005 Aceito para publicação em: 13/02/2006 4 Educação não-formal, educador(a) social e projetos sociais de inclusão social 1.3 Educação não-formal, educador(a) social e projetos sociais de inclusão social Maria da Glória Gohn Licenciatura em Pedagogia 4 Nascem os “estudos sobre currículo": as teorias tradicionais GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal, educador(a) social e projetos sociais de inclusão social. Meta: Avaliação, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009. Disponível em: https://revistas.cesgranrio.org.br/index.php/metaavaliacao/article/view/1/5. Acesso em: 28 ago. 2021. , Educação não-formal, educador(a) social e projetos sociais de inclusão social Maria da Gloria Gohn* Resumo O presente artigo analisa a participação de segmentos da sociedade civil organizada ao redor de Projetos Sociais Educativos que objetivam a inclusão de comunidades carentes e/ou a promoção do desenvolvimento sustentável, em parceria com diferentes instituições e organizações sociais, inclusive com a rede escolar. Busca-se compreender as ações coletivas no campo da Educação Não-Formal, nos marcos de uma teoria social crítica. As práticas da educação não-formal se desenvolvem usualmente extramuros escolares, nas organizações sociais, nos movimentos, nos programas de formação sobre direitos humanos, cidadania, práticas identitárias, lutas contra desigualdades e exclusões sociais. As ações desenvolvidas são analisadas destacando-se os sujeitos que atuam como educadores nos projetos - aqui denominados como Educadores Sociais. O trabalho tem duas partes - a primeira faz uma breve caracterização do que é a educação não-formal e o papel e perfil do Educador (a) Social. A segunda apresenta projetos sociais que se inscreveram no concurso “Rumos: Educação, Arte e Cultura”, do Instituto Itaú Cultural, ano 2006 (222 projetos sociais), aqui analisados como exemplos de educação não-formal. Dentre as principais conclusões deste artigo destacam-se os méritos nos resultados obtidos pelos projetos sociais, em termos de melhoria das condições de vida das comunidades ou de um melhor desempenho na escola dos jovens participantes; a importância do resgate da memória local etc. Fica claro também as carências na formação do educador que atua nos projetos, a necessidade da sistematização das metodologias pedagógicas utilizadas, a não continuidade das ações e a dificuldade de apoio às práticas desenvolvidas. A necessidade de atuar em redes e sair do isolamento local, assim como dar visibilidade ao trabalho das mulheres que estão atuando como * Ph.D. em Sociologia pela New School for Social Research, NY; Professora Titular do Curso de Pós-Graduação da Universidade Nove de Julho/UNINOVE, SP; Avaliadora de Periódicos do SciElo Brasil. E-mail: mgohn@uol.com.br Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 29 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 educadoras sociais, foram sugestões básicas feitas pela pesquisa, apresentadas neste trabalho. Palavras-chave: Educação não-formal. Educador(a) social. Projetos sociais educativos. Non-formal education, social educator and social projects of social inclusion Abstract The paper presents a study of social participation of civil society in the Community Social Projects. The aim is analyzed the process of non-formal education in the practices of the groups of civil society organized. The paper has two parts: the first has a theoretical character and discusses the non-formal category and characterized the people that work in the community- the Social Educator. The second part presents the educators and the social projects that have participated in the selection of the Programme“Rumos: Educação, Arte e Cultura”, of the Instituto Itaú Cultural, in 2006. Keywords: Non-formal education. Social educator. Social education projects. Educación no-formale, educador sociale y proyectos sociales de inclusión Resumen El objectivo de este trabajo es realizar un estudio sobre los Proyectos Sociales qui tienen hogar em la comunidad analisando los procesos de la educación no-formale y sus roles en lo proceso de organización de la communidad. El trabajo tiene dos partes. La primera estudia la categoria non-formale e lo perfil de los educadores sociales. La segunda analisa los proyectos qui ya participado de lo Programma “Rumos: Educação, Arte e Cultura”, de lo Instituto Itaú Cultural, in 2006. Palabras clave: Educación no formal. Educador(a) social. Proyectos de educación social. Apresentação Este artigo destaca um campo específico de manifestação e desenvolvimento de Projetos Sociais Educativos junto a comunidades de baixa renda, nas cidades brasileiras, 30 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 desenvolvidos sob a bandeira da ‘inclusão social’ e que configuram uma área de práticas educativas - a da Educação Não Formal. Trata-se de um campo que, na atualidade, domina a cena do associativismo brasileiro no meio popular, cria cenários e paisagens urbanas específicas e não são vistas ou tratadas como objeto de estudo na área da educação. Há mais de dez anos que o debate teórico nas ciências humanas, especialmente as ciências sociais aplicadas, tem dado destaque à crise do paradigma dominante da modernidade, às transformações societárias decorrentes da globalização, às alterações nos padrões das relações sociais dado o avanço das novas tecnologias, e às inovações que tem levado ao reconhecimento de uma transição paradigmática. Isso tudo tem levado à rediscussão dos paradigmas explicativos da realidade, e a crítica à produção científica do último século, fundada na racionalidade da razão e na crença do progresso e crescimento econômico a partir do consumo (SANTOS, 2000; TOURAINE, 1994). O filósofo italiano Vattimo, em 1985, já afirmara que a modernidade “está concluída”; Ulrick Beck (1988), na mesma ocasião alertava para a sociedade de risco e a dissolução da sociedade industrial na modernidade da época. Alguns autores, analisando os países hoje tidos como emergentes, e na época chamados de Terceiro Mundo, falaram da crise de uma “modernidade tardia” (SZTOMPKA, 1998). O que se observa de fato é que o debate sobre a “crise da modernidade”, trouxe à tona a questão da racionalidade, o questionamento da racionalidade científica como a única legítima, mas trouxe à tona também novos campos de produção de conhecimento e áreas do saber que estavam invisíveis ou não tratadas como conhecimento ou saber educativo - recobertas de práticas pedagógicas e processos educativos. Outras dimensões da realidade social, igualmente produtoras de saber, vieram à tona, tais como as que advêm do mundo das artes, do “mundo feminino” das mulheres, do corpo das pessoas, das religiões e seitas, da cultura popular, das aprendizagens do cotidiano, via a educação não-formal. E estas outras racionalidades estão predominantemente presente nos trabalhos desenvolvidos no campo da educação não-formal, junto a centenas ou milhares de pessoas que participam de projetos sociais comunitários. Hardt e Negri (2005) chamam a atenção para a rede de singularidades que produzem a riqueza social de forma colaborativa em inúmeras ações e projetos coletivos. Ou seja, há “multidões” de pessoas participando dos processos de trabalho social que são simplesmente invisíveis nos textos e análises mais usuais da atualidade na área da educação e outras Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 31 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 afins. Neste sentido vamos iniciar este texto pela conceituação o que é educação não- formal e o trabalho do educador social neste campo. A educação não-formal e o educador social A educação não-formal é uma área que o senso comum e a mídia usualmente não vêem e não tratam como educação porque não são processos escolarizáveis. A educação não-formal designa um processo com várias dimensões tais como: a aprendi- zagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos; a capacitação dos indivíduos para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidades e/ou desenvolvi- mento de potencialidades; a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários, voltadas para a solução de problemas coletivos cotidianos; a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazerem uma leitura do mundo do ponto de vista de compreensão do que se passa ao seu redor; a educação desenvolvida na mídia e pela mídia, em especial a eletrônica, etc. São processos de auto-aprendizagem e aprendizagem coletiva adquirida a partir da experiência em ações organizadas segundo os eixos temáticos: questões étnico-raciais, gênero, geracionais e de idade, etc. As práticas da educação não-formal se desenvolvem usualmente extramuros escolares, nas organizações sociais, nos movimentos, nos programas de formação sobre direitos humanos, cidadania, práticas identitárias, lutas contra desigualdades e exclusões sociais. Elas estão no centro das atividades das ONGs nos programas de inclusão social, especialmente no campo das Artes, Educação e Cultura. A música tem sido, por suas características de ser uma linguagem universal e de atrair a atenção de todas as faixas etárias, o grande espaço de desenvolvimento da educação não-formal (GOHN, D., 2003). E as práticas não-formais desenvolvem-se também no exercício de participação, nas formas colegiadas e conselhos gestores institucionalizados de representantes da sociedade civil. A educação não-formal é uma área carente de pesquisa científica. Com raras exceções, o que predomina é o levantamento sistemático de dados para subsidiar projetos e relatórios, feitos usualmente por ONGs, visando ter acesso aos fundos públicos que as políticas de parcerias governo-sociedade civil propiciam. A reflexão 32 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 sobre esta realidade, de um ponto de vista crítico, reflexivo, ainda engatinha. Ouve-se falar muito de avaliações de programas educativos, destinados a comunidades específicas, apoiados por empresas, sob a rubrica de “Responsabilidade Social”. O que devemos atentar é que, muitas dessas avaliações buscam verificar não os resultados dos programas junto aos sujeitos que deles participam; procuram- se os resultados junto aos consumidores e acionistas em relação à imagem daquelas empresas. Segundo Gadotti (2005), a educação não-formal é mais difusa, menos hierárquica e menos burocrática. Seus programas, quando formulados, podem ter duração variável, a categoria espaço é tão importante quanto a categoria tempo, pois o tempo da aprendizagem é flexível, respeitando-se diferenças biológicas, culturais e históricas. A educação não-formal está muito associada à idéia de cultura1. A educação não-formal desenvolvida em ONGs e outras instituições é um setor em construção, mas constitui um dos poucos espaços do mercado de trabalho com vagas para os profissionais da área da Educação. Podemos localizar a grande área de demandas da educação não formal como a área de formação para a cidadania. Esta área desdobra-se nas seguintes demandas: a) Educação para justiça social. b) Educação para direitos (humanos, sociais, políticos, culturais etc.). c) Educação para liberdade. d) Educação para igualdade.e) Educação para democracia. f) Educação contra discriminação. g) Educação pelo exercício da cultura, e para a manifestação das diferenças culturais. Para concluir este item é importante destacar que: a educação não-formal não deve ser vista, em hipótese alguma como algum tipo de proposta contra ou alternativa à educação formal, escolar. Ela não deve ser definida pelo o que não é, mas sim pelo o que ela é – um espaço concreto de formação com a aprendizagem de saberes para a vida em coletivos. Esta formação envolve aprendizagens tanto de ordem subjetiva- relativa ao plano emocional e cognitivo das pessoas, como aprendizagem de habilidades 1 Para aprofundamento, ver Maria da Gloria Gohn (1999, p. 98-99). Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 33 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 corporais, técnicas, manuais etc., que os capacitam para o desenvolvimento de uma atividade de criação, resultando um produto como fruto do trabalho realizado. O educador social O Educador Social é algo mais que um animador cultural, embora ele também deva ser um animador do grupo. Para que ele exerça um papel ativo, propositivo e interativo, ele deve continuamente desafiar o grupo de participantes para a descoberta dos contextos onde estão sendo construídos os textos (escritos, falados, gestuais, gráficos, simbólicos etc). Por isto os Educadores Sociais são importantes, para dinamizarem e construírem o processo participativo com qualidade. O diálogo, tematizado – não é um simples papo ou conversa jogada fora, é sempre o fio condutor da formação. Mas há metodologias que supõem fundamentos teóricos e ações práticas- atividades, etapas, métodos, ferramentas, instrumentos etc. O espontâneo tem lugar na criação, mas ele não é o elemento dominante no trabalho do Educador Social, pois o seu trabalho deve ter: princípios, métodos e metodologias de trabalho. Seguindo a pedagogia de Paulo Freire (1983), haveria três fases bem distintas na construção do trabalho do educador social, a saber: a elaboração do diagnóstico do problema e suas necessidades, a elaboração preliminar da proposta de trabalho propriamente dita e o desenvolvimento e complementação do processo de participação de um grupo ou toda a comunidade de um dado território, na implementação da proposta. O aprendizado do Educador Social numa perspectiva Comunitária realiza-se numa mão-dupla - ele aprende e ensina. O diálogo é o meio de comunicação. Mas a sensibilidade para entender e captar a cultura local, do outro, do diferente, do nativo daquela região, é algo primordial. A escolha dos temas geradores dos trabalhos com uma comunidade não pode ser aleatória ou pré-selecionada e imposta do exterior para o grupo. Eles, temas, devem emergir de temáticas geradas no cotidiano daquele grupo, temáticas que tenham alguma ligação com a vida cotidiana, que considere a cultura local em termos de seu modo de vida, faixas etárias, grupos de gênero, nacionalidades, religiões e crenças, hábitos de consumo, práticas coletivas, divisão do trabalho no 34 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 interior das famílias, relações de parentesco, vínculos sociais e redes de solidariedade construídas no local. Ou seja, todas as capacidades e potencialidades organizativas locais devem ser consideradas, resgatadas, acionadas. O Educador Social ajuda a construir com seu trabalho, espaços de cidadania no território onde atua. Estes espaços representam uma alternativa aos meios tradicionais de informação que os indivíduos estão expostos no cotidiano, via os meios de comunicação-principalmente a TV e o rádio. Nestes territórios um trabalho com a comunidade poderá construir um tecido social novo onde novas figuras de promoção da cidadania poderão surgir e se desenvolver tais como os “tradutores sociais e culturais”. Estes tradutores são aqueles educadores que se dedicam a buscar mecanismos de diálogo entre setores sociais usualmente isolados, invisíveis, incomunicáveis, ou simplesmente excluídos de uma vida cidadã, excluídos da vivência com dignidade. Partindo do senso comum, um novo sentido poderá ser construído através dos educadores/tradutores sociais e culturais. A co-gestão democrática dos trabalhos desenvolvidos com a comunidade é um suposto e um pressuposto insubstituível. Informação, indicadores sócio-culturais e econômicos da comunidade, contextualização da mesma no conjunto das redes sociais e temáticas de um município, breves notícias sobre suas memórias e experiências históricas, são parte do acervo de instrumentos para formar um Educador Social de e em uma dada região. Todas as atividades desenvolvidas pelo Educador Social devem também buscar desenhar cenários futuros, os diagnósticos servem para localizar o presente, assim como para estimular imagens e representações sobre o futuro. O futuro como possibilidade é uma força que alavanca mentes e corações, impulsiona para a busca de mudanças. A esperança-fundamental aos seres humanos, reaviva-se quando trabalhamos com cenários do imaginário desejado, com os sonhos e os anseios de um grupo. Em síntese, o Educador Social atua em uma comunidade nos marcos de uma proposta socioeducativa, de produção de saberes a partir da tradução de culturas locais existentes, e da reconstrução e ressignificação de alguns eixos valorativos, tematizados segundo o que existe, em confronto com o novo que se incorpora. Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 35 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 Os projetos sociais no “Rumos Educação, Cultura e Arte” Apresentamos, a seguir, os resultados de uma pesquisa sobre Projetos Sociais desenvolvidos por ONGs e movimentos sociais, para exemplificar formas de educação não-formal, destacando um dos sujeitos principais que nela atua: o educador(a) social. A pesquisa tem como fonte de dados os projetos sociais inscritos no Programa Rumos Itaú Cultural: Educação, Cultura e Arte (2005-2006). Ao todo foram 222 projetos registrados em igual número de formulários-tomados como base de dados para as análises. O formulário nos oferece dois tipos de dados: quantitativos e qualitativos. Na análise, busca-se articular estas duas dimensões de forma que a primeira, quantitativa, realimente a segunda, qualitativa - alicerçada nas formulações e justificativas escritas/descritas pelos sujeitos participantes inscritos no Programa Rumos. Uma parte da dimensão quantitativa foi codificada na etapa anterior do Programa, por ocasião do processo de seleção para o prêmio. Foram sistematizados dados dos inscritos por região dos projetos, gênero, escolarização, experiência anterior, área de atuação no mundo das artes (linguagem), formação dos sujeitos e cargos desempenhados. Para a dimensão dos dados qualitativos utilizaremos para a análise das questões a análise de conteúdo buscando os temas e temáticas recorrentes nas respostas dadas às indagações do formulário, procurando captar seus sentidos e significados. Seguindo a metodologia proposta por Bauer e Gaskell (2005), as temáticas nos possibilitam construir mapas de conhecimento dos sujeitos investigados, sobre o mundo onde atuam e como o representam – enquanto um autoconhecimento. As temáticas foram agrupadas e classificadas em eixos, à luz dos sentidos atribuídos pelos sujeitos investigados. Os mapas foram aplicados ao se criar categorias para diferenciar os objetivos do trabalho do educador (seu perfil) e mapear as instituições e os trabalhos realizados por elas. O princípio geral organizador da análise foi o da identidade e as representações construídaspelos sujeitos inscritos em relação: ao papel do Educador, a instituição onde atuam, o público que atendem, a comunidade do entorno onde atuam, e os resultados que julgam estar sendo obtidos no campo da cultura e da Educação. Os sujeitos inscritos foram analisados em suas praxis cotidianas - em favelas e regiões periféricas das principais capitais brasileiras. Isto porque, os projetos inscritos se desenvolvem, em sua quase totalidade, em áreas de moradia, locais de pobreza, exclusão social, e ou área de risco de zonas urbanas. Nas grandes cidades são zonas 36 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 urbanas deterioradas – favelas, áreas periféricas ou bolsões de pobreza no interior das cidades. Alguns projetos desenvolvem-se em regiões que já são estigmatizadas como “territórios do mal”, tais como “polígono da maconha”. Em outros, os projetos convivem no mesmo território que é ocupado também por traficantes e contraventores, tendo de “competir” com estas forças para a sedução/adesão do jovem para seu programa (e continuidade nele). Outros projetos atuam na luta de combate ao trabalho infantil, tentando reconduzir as crianças e adolescentes para a escola. As áreas centrais, nestas grandes cidades, não tiveram muitos projetos inscritos. Cumpre mencionar que nestas áreas, em algumas cidades, como São Paulo, localizam-se os movimentos sociais populares urbanos mais organizados na atualidade. Eles atuam na área da habitação popular e são moradores de cortiços, prédios abandonados ou moradores que vivem nas ruas. Quanto às áreas de trabalho dos Projetos Sociais analisados, elas dividem-se em: programas sociais (de apoio a crianças, jovens/ adolescentes, idosos, mulheres etc.), prestação de serviços às comunidades (principalmente na área da saúde, educação e habitação), projetos culturais e socioeducativos, apoio econômico (programas de geração de renda), e defesa de bens e patrimônio, material ou imaterial. Encontramos poucas instituições atuando diretamente sobre a temática meio ambiente. O tema aparece de forma paralela e complementar nos trabalhos com a reciclagem de materiais de sucata, por exemplo, ou em alguns programas criados em função da defesa de algum rio, córrego ou mata, desenvolvido com alunos de escolas. “Água como fonte da vida” foi um projeto inscrito e desenvolvido em uma pequena cidade do Paraná. O tema ‘ meio ambiente’ também não teve destaque nas propostas advindas das grandes metrópoles. O tema da defesa dos animais, muito próximo também das lutas dos ambientalistas, não foi encontrado. O tema de combate às formas de violência existentes no Brasil atual está presente em três eixos: 1- o projeto como um todo atua em áreas que apresentam altos índices de violência (a grande maioria das entidades que atuam nestas zonas de risco – favelas principalmente - tem dificuldade para desenvolver seu trabalho justamente porque concorrem para capturar a atenção dos jovens com as forças organizadas do crime, contravenção, drogas etc.); 2- focalizando uma modalidade de violência, por exemplo, exploração sexual, trabalho infantil, etc; 3- focalizando o tema da paz, atuando como Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 37 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 formadora de uma cultura da paz, resgatando valores que contribuam para novas mentalidades e novas culturas sobre o cotidiano. Todos os projetos que objetivam resgatar/trabalhar em campos da cultura local, acabam tendo algum tipo de impacto no entorno, sendo o maior deles o de caráter educativo - formam um saber, desenvolvem-se a consciência de pertencimento da comunidade local (GOHN, M. G., 2006a). Observamos isto no registro de projetos que trabalham, por exemplo, com o desenho de pássaros, comidas e frutas da região, danças e manifestações artísticas em geral. A participação sócio-política e comunitária a partir de projetos construídos coletivamente, e que levam a uma intervenção social - por exemplo, numa praça pública, contribuem para a transformação da realidade do público atendido. Levam a melhorias urbanas, a geração de renda para famílias, ao desenvolvimento e formação de cooperativas de artesãos. Os projetos que fomentam a participação cidadã dos jovens contribuem para o resgate da auto-estima, mas podem ir muito além-delineando projetos e trajetórias de vida. Adolescentes que moravam em abrigos foram reintegrados às famílias. Deve-se registrar que, embora em número pequeno, teve-se inscrições de projetos com jovens na zona rural, a exemplo de um projeto sobre educomunicação – rádio rural, na zona rural de Feira de Santana/BA, ou o Projeto “Música, Direito de Todos”, em São José da Mata, zona rural do município de Campina Grande - Paraíba. Alguns projetos “vão” para a zona rural esporadicamente como o projeto da Companhia Cultural “Bola de Meia” do Vale do Paraíba, que trabalha as manifestações culturais da Folia de Reis e as visitas às casas familiares, além das tradições de Moçambique, Catira, São Gonçalo, Congada, e outras mais do Brasil rural/passado. Há inúmeros registros de apresentações de participantes dos projetos na comunidade local-escolas, salão de idosos, praças, igreja, associação comunitária e outros espaços locais, extramuros da instituição. Alguns projetos abrangem uma região – muito além das fronteiras do bairro. No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, onde habitam 170 mil habitantes, por exemplo, 16 comunidades são incluídas num projeto. Um destaque exemplar é a preocupação que existe em vários projetos com a recuperação da memória do local, a história do bairro, de seus personagens. Além de 38 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 reconstruir a identidade do local, estes projetos contribuem para desenvolver vínculos sociais, tecer redes de solidariedade entre os moradores. Os projetos que têm como proposta intervir na cena urbana, através de uma apresentação ou a elaboração de um cenário de arte, como um grafite, contribuem para a apropriação e ressignificação do espaço público. Transformar uma pichação em um muro com a criação de uma criação artística é uma tarefa árdua. Destaca-se o projeto de pintura dos muros externos da escola local com ilustrações da história do bairro (Zona Leste de S. Paulo). A presença de coordenadores, ou do presidente de uma entidade é sempre forte dentro da instituição, na determinação do tipo e modalidade de projeto desenvolvido. Poucas informações foram registradas sobre a demanda da comunidade sobre o tipo de projeto desenvolvido ou se houve alguma interação com os moradores para a definição de um projeto. A maioria dos inscritos assinala que desenvolve metodologias participativas, registram, fazem avaliações etc. Mas há poucas referências à interação inicial, preliminar, na definição do projeto. Fica-se na dúvida se ele foi “levado” para a comunidade, ou se ele foi “demandado”. Teoricamente, os resultados e as possibilidades de desenvolvimento e sustentabilidade de um projeto são bem diferentes nestes dois casos. Entre os Projetos Sociais analisados, predominam instituições localizadas na região Sudeste do país - 69,37. Nesta região, o Estado de São Paulo lidera com 104 inscrições (quase 50% do total) e neste estado, a maioria (57) está localizada na sua capital. Seguem-se Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Entretanto estes dados não nos permitem a deduzir que a maioria dos projetos sócio-culturais inscritos se localizam em territórios brasileiros mais desenvolvidos e compostos por contingentes populacionais mais aquinhoados economicamente porque, na atualidade,a pobreza, a exclusão social e as áreas de conflitos sociais localizam-se mais nas regiões urbanas das grandes metrópoles e cidades de grande porte, e não nos pequenos municípios brasileiros, ou zonas rurais. Por isto, os programas governamentais de apoio econômico, que buscam criar redes de proteção social, do tipo “Bolsa Família” têm mais impacto em localidades de menor densidade demográfica, localizadas em sua grande maioria nas regiões Norte e Nordeste do país, e eles têm pouca visibilidade nas grandes metrópoles. Se olharmos para o Nordeste-, Salvador, Recife e Fortaleza são os pólos concentradores das instituições Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 39 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 inscritas. Piauí e Alagoas não participaram. Na região Norte, os inscritos concentram-se mais no estado do Pará, basicamente na sua capital, Belém. Há vários estados que não tiveram instituições participantes como Amazonas, Acre, Roraima, Amapá. A baixa participação da região Sul causou-nos surpresa de um lado, e compreensão de outro. Surpresa porque o Sul tem tradição de associativismo, compreensão porque não são estados com grande número de populações em situação de vulnerabilidade. Entretanto, inicialmente, tínhamos um suposto de que Porto Alegre apresentaria um grande leque de projetos sócio-culturais e educacionais entre os inscritos, devido à fama que ela alcançou, até no plano internacional, com as edições do Fórum Social Mundial entre 2001-2007 (exceto 2004 que foi na Índia, 2006 na Venezuela e 2007 no Quênia, na África), e por seu longo período de gestão pública governamental com programas participativos tipo Orçamento Participativo. Mas não foi isto que os dados revelaram - registraram apenas duas inscrições: uma na capital e uma no estado do Rio Grande do Sul. Uma última, mas talvez a mais importante observação - sobre a participação das mulheres nos Projetos Sociais. Elas são a maioria, mas elas são invisíveis: enquanto mulheres e enquanto relação de gênero. Sabemos que as mulheres têm construído, nas últimas décadas, o maior movimento social que se tem notícia - o movimento de colocar a sociedade em ação. São as mulheres que compõem, majoritariamente, como participantes e sujeitos principais, os diversos tipos de movimentos sociais que conhecemos. E não apenas os movimentos sociais, também nas ONGs e projetos sócio- culturais desenvolvidos na sociedade civil - em parceria ou não com as políticas públicas, as mulheres têm sido sempre a maioria. Portanto, uma primeira conclusão - as mulheres estão em todas as formas de redes movimentalistas e não apenas nos movimentos e ações coletivas sobre temas que dizem respeito a si próprias, como saúde, reprodução, sexualidade, corpo, trabalho, discriminação e outros temas/bandeiras das lutas das mulheres, especialmente dos grupos feministas ou focados na questão de gênero. Entretanto, nos Projetos Sociais, elas atuam silenciosamente, não aparece sua presença como mulher mas sim como um ente colaborador de um processo, um tanto assexuado (TOURAINE, 2007; GOHN, M. G., 2007). 40 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 Conclusões A nova realidade produzida pela ação de parcerias ou interação da sociedade civil organizada com órgãos públicos, empresas, ONGs etc. é pouco conhecida dos brasileiros e maioria das universidades enquanto instituição, assim como tem recebido pouca atenção dos pesquisadores e intelectuais de uma forma geral. Esta faceta nova do Brasil apresenta grupos, instituições e coletivos sócio-culturais preocupados com a questão social, com crianças e adolescentes que vivem em zonas urbanas desfavoráveis, excluídas sócio-economicamente, mas plenas de vontade de mudar, atuando sempre com muita criatividade. O Brasil desenhado por estes coletivos traz para o palco atores e sujeitos desconhecidos, projetos sociais desenvolvidos nas zonas periféricas das grandes capitais, em favelas, e em cidades que nem sonhávamos que existiam. Outras, nem tão desconhecidas mas em locais longínquos, como Castanhal, no Pará, revela-nos via projetos que lá se desenvolvem, como o Projeto Chão de Barro, toda a riqueza da cerâmica artesanal local. Os projetos inscritos no concurso selecionado para este estudo apresentam também profissionais que tem escolhido outros rumos para suas carreiras e vidas, fora dos empregos estáveis, bem remunerados e bem localizados (os quais estão em extinção), atuando como educadores sociais. A maioria destes educadores tem curso superior completo, formada em áreas das ciências humanas, composta por mulheres, idade média ao redor de 30 anos, e mais de 5 anos de experiência em trabalho com projetos sociais. Muitos deles (as) nasceram em locais de pobreza econômica, até mesmo em favelas, alguns foram criados em instituições caritativas. Por meio do estudo e esforços, emanciparam-se economicamente e hoje são professores de escolas públicas, profissionais liberais, ou trabalham em projetos sociais apoiados por órgãos públicos. As marcas de suas trajetórias criaram uma identidade cultural que inclui a solidariedade e o olhar para os excluídos da atualidade. Artes plásticas, visuais e corporais predominam como linguagens mais utilizadas. Eles tiveram aprendizados de educação não-formal na trajetória de suas vidas. Por isso transitam com facilidade entre o formal e o não-formal. Certamente que nem tudo são flores e os espinhos são muitos, tratados cotidianamente. Os problemas são de diferentes ordens e natureza, localizados nas Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 41 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 áreas onde atuam, na falta de apoio e de recursos financeiros e estruturais para desenvolverem os projetos, nas próprias instituições patrocinadoras – que, na maioria das vezes, não ultrapassam os marcos assistenciais, com projetos pontuais que não têm continuidade; dificuldades para atuarem em redes solidárias, para congregarem esforços (LAVALLE; CASTELO; BICHIR, 2006) . Internamente há muitos discursos sobre a necessidade de superar diferenças e diversidades culturais. Mas há dificuldades para colocar estes princípios na prática, congregando esforços, superando divergências. E também dificuldades advindas de carências na formação do educador que atua nos projetos etc. Apesar de esforços “heróicos” de uns, que trabalham voluntariamente e gastam recursos próprios para a compra de material para o trabalho (tintas e pincéis, por ex.. ou roupas para peças), há também o não reconhecimento de membros do próprio local onde a atividade é desenvolvida, a exemplo do relato de uma Associação de Pais e Mestres (APM). Não obstante, um novo campo de ação coletiva está em ação, sob o signo de uma modalidade da educação sempre esquecida, ignorada ou desdenhada: a educação não-formal, fundamental para a formação dos indivíduos, parte integrante da constituição dos seres humanos enquanto cidadãos. Somente as metas de busca da eficácia, competência, resultados, talentos, não resolvem os desafios postos às ONGs e à sociedade. Algo mais é necessário, para que se contraponha ao modelo que está implantado no país, exige que as ações das ONGs tenham vínculos com a sociedade civil organizada, com os movimentos sociais e populares, com as associações de moradores, com todos os grupos organizados e com todos aqueles que lutam por direitos sociais no país. Entidades pertencentes ao Terceiro Setor, em sua face mais mercadológica, desenraizado do setor associativo/movimentalista, portador apenas de um discurso genérico de inclusão social, tem dificuldades para superar o desafio deincluir os excluídos em processos realmente emancipatórios porque eles não tem relação de pertencimento, as ações são frutos de ações desterritorializadas, a abordagem focal/emergencial trata e reduz os cidadãos a clientes usuários de serviços. O trabalho voluntário -individualizado- sem nenhum impacto social no desenvolvimento de uma consciência social leva somente ao estrelismo, ao glamour, merchandising e mercantilização onde o que se busca é agregar valor a uma marca, produto ou pessoa. 42 Maria Gloria Gohn Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.24-37, jan./abr. 2009 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 Concluímos este artigo retomando uma de suas premissas iniciais - a educação não formal é uma ferramenta importante no processo de formação e construção da cidadania das pessoas, em qualquer nível social ou de escolaridade. Entretanto, quando ela é acionada em processos sociais desenvolvidos junto a comunidades carentes socioeconomicamente, ela possibilita processos de inclusão social no resgate da riqueza cultural daquelas pessoas, expresso na diversidade de práticas, valores e experiências anteriores. Quando presente na fase de escolarização básica de crianças, jovens/adolescentes ou adultos, como observamos em vários dos projetos sociais analisados, ela potencializa o processo de aprendizagem, complementando-o com outras dimensões que não tem espaço nas estruturas curriculares. Ela não substitui a escola, não é mero coadjuvante para simplesmente ocupar os alunos fora do período escolar – chamada por alguns de escola integral ou educação permanente. A educação não-formal tem seu próprio espaço-forma cidadãos, em qualquer idade, classe sócio- econômica, etnia, sexo, nacionalidade, religião etc., para o mundo da vida!Ela tem condições de unir cultura e política (aqui entendidas como modus vivendi, conjunto de valores e formas de representações), dando elementos para uma nova cultura política. Referências BAUER, M. W. ; GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2005 BECK, U. La sociedad del Riesgo. Barcelona: Paidos, 1988. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. GADOTTI, M. A questão da educação formal/não-formal. Sion, Suisse: Institut International dês Droits de l´enfant-IDE, 2005. GOHN, D. Auto-aprendizagem musical: alternativas tecnológicas, São Paulo: ANNABLUME, 2003. GOHN, M. G. Associativismo em São Paulo: novas formas e participação no planejamento urbano da cidade. In: NUNES, B. F. (Org.). Sociologia de capitais brasileiras: participação e planejamento urbano. Brasília, DF: Líber Livro, 2006. _____. Educação não-formal e cultura política. São Paulo: Cortez, 1999. Educação não-formal, educador (a) social e projetos sociais de inclusão social 43 Meta: Avaliação | Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 28-43, jan./abr. 2009 ______. Mulheres: atrizes dos movimentos sociais: relações político-culturais e debate teórico no processo democrático. Revista Sociedade e Política, Florianópolis, v. 6, n. 11, p. 41-70, 2007. HARDT, M.; NEGRI, A. Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: São Paulo: Record, 2005. LAVALLE, A. A. G.; CASTELO, G.; BICHIR, R. Redes, protagonismos e alianças no seio da sociedade civil. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS, 30., 2006, Caxambu. Anais... Caxambu: MG: ANPOCS, 2006. SANTOS, B. S. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. SZTOMPKA, P. A sociologia da mudança social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. TOURAINE, A. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994. ______. O mundo das mulheres. Petrópolis, Vozes, 2007. VATTIMO, G. O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Lisboa: Presença, 1985. Recebido em: 08/03/2009 Aceito em: 04/06/2009como prioridades absolutas. Entretanto, o fio condutor deste texto são as aprendizagens construídas no campo da participação social, por nós atribuída como campo da educação não formal. Interessa-nos saber como são construídos diferentes formas de participação do ponto de vista da pesquisa, e como é gerada a produção de conhecimento sobre um tema em tela, e não os métodos de mobilizar ou organizar a população para a participação- âmbito da política e não da pesquisa. Interessa-nos refletir sobre o processo pedagógico da participação, especialmente em ações coletivas organizadas em movimentos sociais, em processos que denominamos como campo da educação não formal. Processo de aprendizagem e Formação dos Indivíduos Sabemos que existem inúmeros educadores que formularam ensinamentos e criaram várias teorias sobre a aprendizagem. É um tema antigo, que remonta a Arte de Ensinar, da Antiguidade, passando pela Idade Média, tanto no Ocidente como no Oriente2. Aquelas teorias estruturam-se dentro de paradigmas explicativos bastante 2 Como exemplos citam-se: no pensamento pedagógico oriental: Lao-Tsé e o Talamude; na Grécia antiga: Sócrates, Platão e Aristóteles; na Roma antiga: Cícero e Quintiliano; na Idade Média: Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino; no Renascimento: Montaigne e a educação humanista, Lutero e a educação protestante, e os jesuítas. O pensamento pedagógico moderno advém com Comênio- ao elaborar nove princípios para uma educação realista, e J. Locke ao afirmar: tudo se aprende, não há idéias inatas. Durante o iluminismo destacaram-se: Rousseau (que preconizava que o homem nasce bom, é a sociedade que o perverte), Pestalozzi -que ligava natureza e educação popular; Herbart, que preconizava a prática da reflexão metódica, e a própria Revolução Francesa que criou um Plano Nacional de Educação. O século XIX trouxe o pensamento pedagógico positivista de: Spencer (conhecimento e valores), Durkheim (a sociologia e os fins da educação) e Whitehead (a educação deve ser útil). No século XX teve-se o pensamento pedagógico socialista de: Marx (a crítica da educação burguesa), Lênin (a defesa de uma nova escola pública), Makarenko (a pedagogia da vida do trabalho e Gramsci (a organização da escola e da cultura); a Escola Nova – Dewey (aprender fazendo-da educação tradicional à educação nova), Montessori (métodos ativos e individualização do ensino), Claparède (educação funcional e diferenciada), e Piaget (psicopedagogia e educação para a ação); o Pensamento Pedagógico Antiautoritário : Freinet (educação pelo trabalho e pedagogia do bom senso), Rogers (a educação centrada no estudante), Snyders (uma escola não autoritária) e outros. O Pensamento pedagógico crítico foi bastante desenvolvido por Bordieu e Passeron (a escola e a reprodução social), Baudelot- Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 38 diversificados, foram sendo construídas em diferentes momentos da História da humanidade, e influenciaram escolas, pensadores, analistas e a própria sociedade e o Estado. Na atualidade o debate sobre as teorias da aprendizagem voltaram à baila dada as mudanças provocadas pela globalização e seus efeitos sobre a sociedade e as políticas governamentais. Com o desenvolvimento tecnológico, a sociedade atua em rede e novos processos de aprendizado têm sido criados, reciclados ou clamados como necessários. Cada vez mais os organismos internacionais do campo educativo preconizam que os indivíduos devem estar continuamente aprendendo, que a escola formal apenas não basta, que se deve aprender a aprender. Os conteúdos rígidos dos currículos são questionados, novos saberes são descoberto-identificados/identificados fora das instituições escolares, fundamentais para o crescimento/desenvolvimento dos indivíduos enquanto seres humanos, assim como para o desempenho destes indivíduos no processo de trabalho em face às novas exigências do mundo globalizado. Neste texto a aprendizagem é enfatizada como um dos fenômenos centrais na vida do ser humano. Não se trata de pensar apenas o ato de aprender, mecanicamente, como o fez por décadas a Pedagogia tradicional, ao se preocupar fundamentalmente com as didáticas do ensino, quando a aprendizagem era vista não como um processo, mas como um resultado, um ponto de chegada que poderia e deveria ser medido, aferido. O aprendizado "instrucionista" contido nos métodos tradicionais das escolas, ou nas estruturas mais antigas das chamadas educação por correspondência (baseada no exercício de manuais escritos) ou nas orientações da educação permanente (que preconizava a adição de conteúdos extraescolares para completar o que não se aprendia nas escolas), tem sofrido uma crítica demolidora. O debate atual sobre a aprendizagem situa-se num plano de horizontes e perspectivas, envolvendo, necessariamente, a questão da educação, da cultura e formação dos indivíduos (e não apenas preparação), das redes de compartilhamento e como se dá o próprio processo de conhecimento. Na educação não formal, foco central deste artigo, o contexto tem um papel de alta relevância porque ele é o cenário, o território de pertencimentos dos indivíduos e grupos envolvidos. Também no sistema formal, escolar, inúmeros autores contemporâneos tem destacado a importância do contexto na aprendizagem, vista de forma processual. Fredric Litto (2011) assinala que o processo de aprendizagem envolve quatro elementos fundamentais: aquele que deseja aprender (o aluno), o conhecimento em si (ideias, conceitos etc.), quem organiza o conhecimento para a aprendizagem (professor, instrutor etc.) e o contexto ou a situação na qual a aprendizagem ocorrerá Establet (a escola dividida) e Giroux (a teoria da resistência e da pedagogia radical). O Humanismo continuou presente no pensamento de vários desses autores assim como em Furtier, preocupado com a educação de nosso tempo. Existe ainda um Pensamento pedagógico latino-americano e o brasileiro onde se destacam as figuras de Fernando de Azevedo (projeto liberal para a educação), Anísio Teixeira (uma nova filosofia da educação), Paulo Freire (a Pedagogia do Oprimido), Ruben Alves (o prazer na escola), Maurício Tragtenberg (a educação libertária) e muitos outros. (Sobre a História da Educação ver, entre outros, Moacir Gadotti, 1993. História das Ideias Pedagógicas, São Paulo, Ed. Àtica). Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 39 (sala de aula ou situações flexíveis com tempo e local próprio para cada aluno, a exemplo da educação a distância) (LITTO, 2011, p. 15). Em síntese, adota-se neste texto uma perspectiva de aprendizagem como sendo um processo de formação humana, criativo e de aquisição de saberes e certas habilidades que não se limitam ao adestramento de procedimentos contidos em normas instrucionais, como em algumas abordagens simplificadoras na atualidade. Certamente que em alguns casos há a incorporação ou a necessidade de desenvolver alguma habilidade ou grau de "instrumentalidade técnica", não como principal objetivo e nem o fim último do processo. E mais do que isso: o conteúdo apreendido nunca é exatamente o mesmo do transmitido por algum ser ou meio/instrumento tecnológico porque os indivíduos reelaboram o que recebem segundo sua cultura. Thompson (1982) atenta-nos para este aspecto quando fala do processo reflexivo da aprendizagem, da reconstrução contínua da cultura no fazer humano. É fazendo que se aprende. A experiência tem papel importante. Cultura para nós é um processo vivo e dinâmico, fruto de interações onde são construídos valores, modos de percepção do mundo, normas comportamentais e de conduta social, uma moral e uma ética no agirhumano. O meio sociocultural onde se vive e a classe social a que pertence fazem parte da construção da cultura dos indivíduos. Ou seja, o que tencionamos deixar claro é que não existem conteúdos "chapados", absorvidos acriticamente, de fora para dentro. Sempre há recriação, reelaboração interna, mental, de tal forma que o que foi aprendido é retraduzido por novos códigos, de dentro para fora, e ao se expressar como linguagem ou comportamento, é um conhecimento elaborado. Há, portanto, um grau relativo de autonomia do sujeito que aprende. E o que os analistas denominam "reconstrutivismo". (Demo, 2001). Ao contrário do ensino, que se esforça por repassar certezas que são reconfirmadas na prova, a aprendizagem busca a necessária flexibilidade diante de uma realidade apenas relativamente formalizada, valorizando o contexto do erro e da dúvida. "Pois quem não erra, nem duvida, não pode aprender”. (Demo, 2001:9). A tarefa seguinte à clarificação do que entendemos por este processo reflexivo, que advém do social porque é gerado na interação e compartilhamento de processos coletivos, mas que se relaciona também com o plano das estruturas mentais dos indivíduos, no intercruzamento entre culturas existentes e culturas adquiridas, é tratarmos de nosso objetivo principal: a educação não formal. A cultura sociopolítica e cultural de um indivíduo, sua mentalidade, é construída por reelaborações contínuas, confrontações, resultando em ressignificações de conteúdos e produção de saberes, quase que num processo de autoaprendizagem. Para nós, o campo deste processo é o da educação não formal. Portanto, a educação não formal está na ordem do dia e nos auxilia na compreensão dos processos de aprendizagem. Educação Não Formal Um dos grandes desafios da educação nao-formal tem sido definí-la, caracterizando-a pelo que ela é. Usualmente ela é definida pela negatividade -pelo que ela não é. Para chegar ao conceito que construímos, vamos demarcar os sentidos e significados que lhe tem sido atribuído, e as polêmicas que têm gerado. A posição Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 40 mais usual é que a contrapõe a educação não-formal à educação formal/ educação escolar. Quando tratamos da educação não formal, a comparação com a educação formal é quase que automática. O termo não-formal também é usado por alguns investigadores como sinônimo de informal. Consideramos que é necessário distinguir e demarcar as diferenças entre estes conceitos. A princípio podemos demarcar seus campos de desenvolvimento: a educação formal é aquela desenvolvida nas escolas, com conteúdos previamente demarcados; a informal como aquela que os indivíduos aprendem durante seu processo de socialização – ocorrendo em espaços da família, bairro, rua, cidade, clube, espaços de lazer e entretenimento; nas igrejas; e até na escola entre os grupos de amigo; ou em espaços delimitados por referências de nacionalidade, localidade, idade, sexo, religião, etnia , sempre carregada de valores e culturas próprias, de pertencimento e sentimentos herdados. Poderá ter ou não intencionalidades (por exemplo, educar segundo os preceitos de uma dada religião é uma intencionalidade). A grande diferença da educação não formal para a informal é que na primeira há uma intencionalidade na ação: os indivíduos tem uma vontade, tomam uma decisão de realizá-la, e buscam os caminhos e procedimentos para tal. Poderá encontrá-los em meios coletivos ou individuais (para outras características da Educação Não-Formal ver Gohn, 2010a). A educação não formal é aquela que se aprende "no mundo da vida", via os processos de compartilhamento de experiências, principalmente em espaços e ações coletivos cotidianas. Nossa concepção de educação não formal articula-se ao campo da educação cidadã – a qual no contexto escolar pressupõe a democratização da gestão e do acesso à escola, assim como a democratização do conhecimento. Na educação não- formal, essa educação volta-se para a formação de cidadãos (as) livres, emancipados, portadores de um leque diversificado de direitos, assim como de deveres para com o(s) outro(s). Chegamos, portanto ao conceito que adotamos para educação não-formal. É um processo sociopolítico, cultural e pedagógico de formação para a cidadania, entendendo o político como a formação do indivíduo para interagir com o outro em sociedade. Ela designa um conjunto de práticas socioculturais de aprendizagem e produção de saberes, que envolve organizações/instituições, atividades, meios e formas variadas, assim como uma multiplicidade de programas e projetos sociais. A educação não-formal, não é nativa, ela é construída por escolhas ou sob certas condicionalidades, há intencionalidades no seu desenvolvimento, o aprendizado não é espontâneo, não é dado por características da natureza, não é algo naturalizado. O aprendizado gerado e compartilhado na educação não-formal não é espontâneo porque os processos que o produz têm intencionalidades e propostas. A educação não formal é uma área que o senso comum e a mídia usualmente não tratam como educação por não se referir a processos escolarizáveis ou que ocorram dentro de uma escola – representação dominante no senso comum sobre a educação. Ela designa um processo com várias dimensões tais como: a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos; a capacitação dos indivíduos para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidades e/ou desenvolvimento de potencialidades; a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários, voltadas para a solução de problemas Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 41 coletivos cotidianos; a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazerem uma leitura do mundo do ponto de vista de compreensão do que se passa ao seu redor; a educação desenvolvida na mídia e pela mídia, em especial a eletrônica etc. São processos de autoaprendizagem e aprendizagem coletiva adquirida a partir da experiência em ações coletivas, podem ser organizadas segundo eixos temáticos: questões étnico-raciais, gênero, geracionais e de idade, etc. As práticas da educação não formal se desenvolvem usualmente extramuros escolares, nas organizações sociais, nos movimentos, nos programas de formação sobre direitos humanos, cidadania, práticas identitárias, lutas contra desigualdades e exclusões sociais. Elas estão no centro das atividades das ONGs nos programas de inclusão social, especialmente no campo das artes, educação e cultura. A música tem sido, por suas características de ser uma linguagem universal, e de atrair a atenção de todas as faixas etárias, o grande espaço de desenvolvimento de programas e projetos da educação não formal (vide Daniel Gohn, 2003 e 2011). E as práticas não-formais desenvolvem-se também no exercício de participação, nas formas colegiadas e conselhos gestores institucionalizados de representantes da sociedade civil. O uso do termo educação não formal se espalhou no Brasil a partir dos anos 2000. Inúmeras ONGs, e entidades do chamado sistema S: SENAC (Serviço Nacional do Comércio), SESC (Serviço Social do Comércio), SENAI (Serviço Social da Indústria) e SENAT(Serviço Nacional dos Transportes), desenvolvem trabalhos na área social adotando a terminologia educação não formal. Ela está nas suas práticas, nos programas, bem como em programas de conglomerados financeiros como o Instituto Itaú Cultural. Algumas das análises dos projetos sociais desenvolvidos nestes espaços e instituições relatam que o público é formado por jovens e adolescentes que também estão na escola formal, mas lá não tem horário e nem condição de desenvolver uma série de projetos, como na área de informática, da música e do esporte. Assim, as entidades, por meio de convênios e parcerias, acabam desenvolvendoos projetos sociais em conjunto com as escolas. Determinadas empresas – relacionadas ao terceiro setor e que desenvolvem programação para a área social, também trabalham com educação não formal junto a comunidades variadas, especialmente em situação de vulnerabilidade social, associada à promoção da cidadania, inclusão social etc. Destaco, entretanto, que o uso da terminologia por muitas destas empresas produz um reducionismo de seu sentido e significado à medida que educação não formal passa a ser associado a programa e projeto social para comunidades carentes. Não é este o sentido que atribuímos ao termo, ainda que se reconheça estar entre estas comunidades o público maior alvo dos projetos sociais. Para nós, educação não formal não é sinônimo de programação para pobre. Para nós é formação do ser humano em geral, é conquista, é direito social de todos (as). Acho que se deve olhar para as possibilidades da educação não formal, até para resolver e potencializar a educação formal. Às vezes me perguntam “as coisas que preconizo para a educação não formal, a escola formal não deveria fornecer?”. E eu respondo. Sim, formar para a cidadania está na Lei maior da educação nacional brasileira, na LDB-Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas a educação formal tem atributos próprios e específicos, oxalá possa cuidar bem deles tais como, em Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 42 alfabetizar bem, apreender o básico sobre a arte da matemática, dar acesso aos conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade etc. Tudo isso é formar o cidadão, portanto jamais um cidadão se forma apenas com a educação não formal. Mas justamente a forma como está estruturada a educação formal, burocratizada e normatizada, com dificuldade de flexibilidade nas agendas, resulta em dificuldades no processo formativo. O profissional que vai trabalhar na escola hoje é extremamente carente de vários recursos, materiais ou na sua formação. Não adianta falar que se têm livros na biblioteca e computador na escola se o professor não sabe usá-los, ou não há manutenção técnica, ou não há tempo previsto para tal no calendário de atividades. Os programas e projetos da educação não formal devem cruzar, atuar e potencializar a educação formal, não como mera complementação mas como diretriz estruturante. Para isso, precisa que haja uma compreensão por parte dos gestores das políticas publicas, sobre a necessidade da articulação do formal com o não formal. Problemas como o da violência, buyling, e drogas, como devem ser trabalhados? Nas escolas, apenas a partir das estruturas curriculares que temos, sem trabalhar com educação não formal, eu não vejo saída. Concluímos que a educação não formal é uma ferramenta importante no processo de formação e construção da cidadania das pessoas, em qualquer nível social ou de escolaridade, destacando, entretanto, sua relevância no campo da juventude. Pelo fato de ser menos estruturada e mais flexível, consegue atingir a atenção e o imaginário dos jovens. Quando é acionada em processos sociais desenvolvidos em comunidades carentes socioeconomicamente, ela possibilita processos de inclusão social via o resgate da riqueza cultural daquelas pessoas, expressa na diversidade de práticas, valores e experiências anteriores. Quando presente na fase de escolarização básica de crianças, jovens/adolescentes ou adultos, como pode ser observado em vários movimentos e projetos sociais citados, ela potencializa o processo de aprendizagem, complementando-o com outras dimensões que não têm espaço nas estruturas curriculares. Ela não substitui a escola, não é mero coadjuvante para simplesmente ocupar os alunos fora do período escolar – chamada por alguns de escola integral. A educação não formal tem seu próprio espaço-formar cidadão, em qualquer idade, classe socioeconômica, etnia, sexo, nacionalidade, religião etc., para o mundo da vida. Ela tem condições de unir cultura e política (aqui entendidas como modus vivendis, conjunto de valores e formas de representações), dando elementos para uma nova cultura política. Isto posto, voltamos à aprendizagem nos processos não formais, característicos dos processos associativos. A maioria dos pensadores clássicos e contemporâneos da educação a situam em contraposição à escola, à educação formal. Alguns a defendem como um mecanismo complementar, onde o aluno obteria um aprofundamento ou um panorama complementar daquilo que aprendeu na escola. Outros veem a aprendizagem não formal como um processo mais eficaz que a escola e a defendem porque é o melhor caminho. A escola seria um espaço reprodutor/domesticador e" a maioria das pessoas adquire a maior parte de seus conhecimentos fora da escola" [..] A maior parte da aprendizagem ocorre casualmente e, mesmo, a maior parte da aprendizagem intencional não é resultado de uma instrução programada" (Ivan Illich, 1973, Sociedade sem escolas, apud in Gadotti, 1993:298). Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 43 Objetivamos situar a aprendizagem nos sistemas não formais como um processo sociocultural e político, inerente ao ser humano. Portanto não tencionamos vê-la em contraponto à escola ou ao sistema escolar, e nem como mera complementação de atividades no contra turno escolar. Aprendizagens Não Formais nos Movimentos, ONGs e outras redes civis associativas. No Brasil, nas duas últimas décadas ocorreu a proliferação de práticas novas, advindas tanto da sociedade civil como da sociedade política, no campo do associativismo e das políticas públicas. Trata-se de processos participativos em movimentos populares, ONGs e outras entidades civis (fundações, associações, cooperativas etc.), com objetivos diversos, criadas a partir da sociedade civil. Na sociedade política tem ocorrido à criação ou implementação de novos canais de participação social, geradores de novas formas de sociabilidade e de fazer política - são os conselhos, câmaras e fóruns que atuam na esfera pública, articulando representantes da sociedade e dos organismos estatais na gestão de bens públicos. Com isso tem ocorrido uma ampliação dos sujeitos sociopolíticos na cena pública e o estabelecimento de formas novas de relações sociais denominadas genericamente como “parcerias". Os movimentos sociais passaram a atuar em rede e em parceria com outros atores sociais, dentro dos marcos da institucionalidade existente e não mais à margem do Estado, somente no interior da sociedade civil, como no período anterior, no regime militar. A nova fase gerou práticas novas, exigiu a qualificação dos militantes; ONGs e movimentos redefiniram seus laços e relações. No urbano os movimentos com matizes político-partidárias fortes se enfraqueceram, fortaleceram-se os movimentos com perfil de demandas mais universais, mais plurais em termos de composição social- como os ecologistas e pela paz. Entretanto, a crise econômico-financeira internacional pós 2008, novas modalidades de movimentos sociais estão surgindo, como os Movimentos dos Indignados, de caráter transnacional, presentes com forte expressão na Europa, e ainda incipientes no Brasil no início desta nova década. O exercício de novas práticas associativistas trouxe também um conhecimento mais aprofundado sobre a política estatal, sobre os governos e suas máquinas. Demandas pela ética na política e uma nova concepção de esfera pública foram um dos saldos dessa aprendizagem. O associativismo alterou-se, assim como a forma dos governos relacionarem-se com os grupos e movimentos organizados. Participação e controle social passaram a ser diretrizes e normativas, regulamentadas por leis e programas sociais. Tornaram políticas públicas, em alguns casos, buscam transformarem-se em políticas de governo. Uma intrincada arquitetura foi desenhada para redirecionar ou pautar formas de tratamento às questõessociais. Estes processos estruturam-se nos gabinetes, sai para as localidades e lugares organizativos. Tem agenda e calendário de discussões. Culminam com grandes conferências nacionais, realizadas usualmente na capital federal, em lugares simbólicos. Demandam acesso às informações, poder deliberativo e formação para entender as linguagens da burocracia. Registre-se, entretanto que estamos falando de processos sociais, interações e relações sociais contínuas que geram mudanças de posições dos sujeitos Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 44 em cena, possibilidades de novas oportunidades políticas. Relembramos as observações de Pateman (1994) relativas ao caráter pedagógico da participação. A educação não formal poderá ocorrer tanto em espaços urbanos como rurais; tanto em espaços institucionalizados (no interior de um conselho gestor, por exemplo), como no interior de um movimento social, entre aqueles que lá estão participando e reivindicando, e vão aprender algo sobre um dado tema – quem são os opositores, os encaminhamentos necessários; como poderá ocorrer ainda em outros espaços sociopolíticos, como nas ONGs, nos museus, etc. Ou seja, a educação não formal é um processo de aprendizagem, não uma estrutura simbólica edificada e corporificada em um prédio ou numa instituição; ela ocorre via o diálogo tematizado. Na gestão de uma política social, em um espaço público, ao trabalhar com democracia deliberativa compartilhada, em que se juntam representantes do poder público com representantes da sociedade civil organizada, o exercício da educação não formal é uma possibilidade real. Entretanto, o caráter desta participação, se emancipatória ou integradora, vai depender da qualidade das relações e interações desenvolvidas, do projeto político dos grupos em ação. Os movimentos sociais foram pioneiros na utilização dos processos de educação não formal, anteriores aos programas e projetos sociais das ONGs, que são dos anos de 1990 para cá. Já nos anos de 1970 e parte de 1980, quando tínhamos movimentos ligados às pastorais religiosas, ou às comunidades eclesiais de base, a educação não formal estava presente, por exemplo, na aprendizagem para se fazer leituras do mundo. Reunia-se a comunidade em círculo no salão paroquial para discutir como eles recebiam os salários e como se distribuíam esses salários. O objetivo era que os participantes tivessem uma compreensão do momento histórico que viviam, do regime político vigente e do modelo econômico que regulamentava o sistema econômico. Analisava-se se a população estava sendo explorada ou não. Isso levou à formação do Movimento do Custo de Vida, que teve papel muito importante na luta contra o Regime Militar, porque com ele se recolheu milhares de assinaturas que davam respaldo a um manifesto contra a situação econômica vigente. Esta ação culminou com a elaboração de uma carta ao então presidente da República, um militar, aglutinando vários outros movimentos sociais. Ou seja, nessa trajetória havia uma intencionalidade, com objetivos, práticas. Naquela época se utilizava muito cartilhas com desenhos e ilustrações para as ações educativas, nos processos de aprendizagem e produção dos saberes, porque grande parte da população era analfabeta. A educação não formal operacionalizava-se em discussões e representações teatrais. A parte da cultura entrava via áreas das artes, tais como a dança, o teatro, a música de protesto. Tudo isso atuava como forma educativa, no campo da educação não formal. Hoje, com o desenvolvimento tecnológico, não se usa mais as cartilhas, assim como os estudantes não escrevem tanto nos muros para protestar, são os blogs e as comunicações via internet que acabam tendo esse papel de mediação e interlocução entre os movimentos sociais. Como exemplo de processo de aprendizagem via a educação não formal e os movimentos sociais, citamos o movimento das mulheres. Muita coisa foi construída e publicada a respeito do lugar da mulher na sociedade nas últimas décadas, o respeito a seus direitos e a retirada da invisibilidade em que ela sempre esteve. Foi um caminho Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 45 longo de lutas e conquistas. No Brasil, isso se reflete em leis publicadas como a Lei Maria da Penha, (de combate à violência contra as mulheres), políticas públicas e também em uma nova cultura política aonde há valores que, progressivamente, foram se consolidando na sociedade dentro de novas visões. Quando a lei Maria da Penha surgiu, ninguém sabia o que era e, depois, foi se formando um acervo de conhecimento e material a respeito. Os movimentos de mulheres passaram a trabalhar o tema da lei em cartilhas, vídeos e palestras, tanto em escala local como na escala nacional. Tudo isso é educação não formal. Cito o caso de movimentos das mulheres, mas poderia citar também outros, como o dos portadores de necessidades especiais, responsável por várias conquistas e políticas destinadas a tais pessoas, para que se tornem sujeitos e deixem de serem invisíveis, ocultos na sociedade. São todos processos sociais, construções nas quais a educação não formal é o eixo articulatório básico. Outros exemplos são as organizações não governamentais, as ONGs, grande celeiro das práticas de educação não formal na atualidade, especialmente aquelas voltadas para o desenvolvimento de projetos sociais, com grupos socioeconômicos em situação de vulnerabilidade. As câmaras, fóruns, conselhos e outras instâncias normatizadas também exercitam a educação não formal, porque promovem a interação entre a sociedade civil e a sociedade política, necessitando do exercício de praticas cidadãs para que a interação se realize. Uma escola, por exemplo, tem que ter o conselho para a alimentação, em que está presente a representação de pais, da comunidade, dos dirigentes, etc., pois, sem conselho, a escola não vai receber as verbas para o alimento. É obrigatório. Há praticas de educação não formal neste tipo de participação. Com a globalização, as fronteiras nacionais têm limites tênues. Com o desenvolvimento dos novos meios de comunicação, temos as ações e mobilizações de movimentos transnacionais, que são coisas novas deste século e que estão trazendo elementos para compreender a educação não formal. Quando se fala, por exemplo, sobre a questão dos povos indígenas. A divisão deles enquanto povo não se limita à divisão geográfica de um país. A educação não formal constrói no plano simbólico e ajuda a entender o alargamento das fronteiras ao introduzir a questão do transnacional. Além disso, os povos indígenas possuem espaços e tempos educativos diferenciados dos quais participam a pessoa, a família tribal, a comunidade e o povo ou nação indígena a que pertencem. Deste modo, uma pedagogia a ser desenvolvida, para um grupo ou junto a um movimento dos indígenas, deve considerar que a educação é assumida como responsabilidade coletiva, e não como ato de ensinar com interlocutores isolados. A educação não formal é fundamental na atualidade em vários campos e setores. Por exemplo, na questão dos afrodescendentes, ela está presente em projetos como Prouni, de inclusão social de pessoas de origem afro ou indígenas. Também na economia, a exemplo da economia solidária e a questão dos projetos educativos nas iniciativas de produção e sustentabilidade da comunidade. Essa microeconomia é vista, usualmente, como estratégia de sobrevivência e as coisas não se articulam bem porque os aspectos educativos nunca são mencionados. Acredito que eles possam dar uma ressonância maior, uma compreensão maior das relações e processos envolvidos. Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 46 No plano da sociedade, nos meios de comunicação, quando um canal de TV ou um jornal, porexemplo, apresentam projetos sociais, vemos um recorte que dá ênfase ao indivíduo isolado, como um herói que venceu na vida. O caráter educativo, do processo social implícito, fica diminuído à medida que, ao invés de contar processos, como um grupo que se articulou para implementar algo, relata-se a história de personagens individuais, caindo nessa banalização que a mídia faz hoje ao só focar os “pop stars” e suas banalidades, não se interessando pelos reais problemas do conjunto da população. A mídia podia trabalhar a questão da conscientização para a cidadania, mas não o faz. Na sociedade mais ampla, se existir a oportunidade de explicar, as pessoas concordam que educação não formal é muito importante, mas não existe uma consciência sobre o assunto, um reconhecimento, uma visão sobre como operacionaliza-la. Ela é relativamente nova, na sua dimensão educativa, para ser pensada como algo que se relaciona com a educação. Até hoje, há pessoas e escolas que têm muita resistência à educação não formal, que acham que é coisa das ONGs, e que são projetos que viriam para acabar e diminuir com o poder das escolas, da educação formal. Não tencionamos vê-la em contraponto à escola ou ao sistema escolar; tampouco vê-la como simples complemento/reforço das atividades escolares. A educação não formal tem natureza, campo e especificidade próprios. Aprendizagens e Saberes Coletivos na Contemporaneidade No mundo atual capitalista ocidental, veloz e de vivências fugazes, ávido de novidades, sempre pressionando os indivíduos a produzirem mais, em menos tempo, e com maior intensidade; centrado na busca de resultados, novidades e saberes superficiais sobre tudo, os processos de autoaprendizagem são respostas para atender necessidades e anseios. O mercado-focalizado apenas em lucros tende a estimular o "consumo" de negócios envolvendo a autoaprendizagem. Não raro assume a forma de "autoajuda". Mas há fatos novos em desenvolvimento na sociedade capitalista ocidental que estão fazendo com que novos olhares sobre a vida e as relações humanas surjam e se fortaleçam. Trata-se do sonho de um novo modelo civilizatório centrado em valores éticos e humanitários. Nesses casos, as aprendizagens não formais tem sido a estrada principal a pavimentar esta via. E o campo da cultura é o palco por excelência. Não basta aspirar algo, é preciso vivenciá-lo. E para isso precisa- se de: auto-organização, planos e estratégias de aprendizagem e autoaprendizagem. Não há escolas centradas exclusivamente nesses valores. Como o novo modelo exige mais que valores, é preciso adotar práticas ativas, construtivas. Não basta ficar lendo eternamente sobre as obras de arte, é preciso vê-las, contemplá-las. É preciso aprendizagem sociocultural para compreender esta nova experiência de vivenciamento do sonho, da vontade, do desejo. . Isso tudo leva a rediscussão do paradigma emancipatório e as reais possibilidades da participação da sociedade civil na construção de novos horizontes societários, que fujam do dilema- integração às redes clientelísticas tradicionais ou barbárie ( o medo, o terrorismo, a violência). Com isto, tendo como referência todas as pontuações que demarcamos neste texto sobre as possibilidades da educação não formal, pode-se indagar : qual o horizonte das lutas geracionais, sociais, das mulheres, dos afro-descententes, e muitas outras, sob a perspectiva do paradigma emancipatório? Qual o horizonte de movimentos como o Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 47 Fórum Social Mundial, os Indignados da Espanha, os manifestantes do Ocupe Wall Street, as Marchas contra a Corrupção no Brasil e outros territórios? Que aprendizagens estes movimentos e ações civis têm gerado? Conclusões A concepção que temos da educação não formal parte do suposto que a educação propriamente dita é um conjunto, uma somatória que inclui a articulação entre educação formal – aquela recebida na escola via matérias e disciplinas, normatizada –, a educação informal – que é aquela que os indivíduos assimilam pelo local onde nasce, pela família, religião que professam, por meio do pertencimento, região, território, classe social da família – e a não formal tem um campo próprio, embora possa se articular com as duas. A não formal são os saberes e aprendizados gerados ao longo da vida, principalmente em experiências via a participação social, cultural ou política em determinados processos de aprendizagens, tais como em projetos sociais, movimentos sociais etc. Há sempre uma intencionalidade nestes processos. A educação não formal contribui para a produção do saber na medida em que ela atua no campo que os indivíduos atuam como cidadãos. Ela aglutina ideias e saberes produzido via o compartilhamento de experiências, produz conhecimento pela reflexão, faz o cruzamento entre saberes herdado e saberes novos adquiridos. Trata-se de um processo sociocultural e histórico que ocorre de modos distintos e por meio de pedagogias e mecanismos próprios em cada cultura. A educação não-formal não tem o caráter formal dos processos escolares, normatizados por instituições superiores oficiais e certificadores de titularidades. Difere da educação formal porque essa última possui uma legislação nacional que normatiza critérios e procedimentos específicos. A educação não formal lida com outra lógica nas categorias espaço e tempo, dada pelo fato de não ter um curriculum definido a priori, quer quanto aos conteúdos, temas ou habilidades a serem trabalhadas. Para que se delineie um programa de articulação da educação não formal com a formal, sob a perspectiva emancipatória e com uma amplitude maior, ele não pode ser pontual ou experimental, só para algumas escolas; deve ter diretrizes mais gerais. Se não for assim, acaba caindo no aspecto que tratei acima, o de uma educação para suprir algumas coisas que o ensino formal não está fazendo. Quando se fica nesse parâmetro de simplesmente complementar, é um arranjo apenas. O caminho para a educação não formal se consolidar é, em primeiro lugar, ter reconhecimento, ultrapassando essa ideia de complementação, de ser um ajuste – embora, na situação atual da conjuntura brasileira, já fosse um avanço realizar bem essa complementação. A educação não formal tem um espaço próprio, a questão da formação da cidadania, de uma cultura cidadã, da emancipação, da humanização. A questão da cidadania não se restringe ao ato de votar. A educação não formal ultrapassa os processos de escolarização, tem a ver com o comportamento dos indivíduos em diferentes espaços da vida. Ainda falta muito para se atingir efetivamente seus objetivos e se transformar em programas de formação dos cidadãos (as). Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 48 A educação não formal ainda não está bem consolidada, não é um conceito, mas todas as categorias e conceitos se estabelecem em um campo de disputas pelo significado e demarcação do campo de atuação. Hoje, observamos no Brasil o discurso da “educação permanente” e da “educação integral”. Ou seja, por detrás de cada uma dessas terminologias, certamente há autores referenciais, há uma forma de ver o mundo, uma forma de conceber o processo de mudança e transformação social, e como a educação se insere nestas visões. À medida que ficam mais claras essas construções, serão mais saudáveis os debates e os embates sobre essas formulações. Infelizmente, certos autores têm concepções místicas ou ortodoxas, defendem determinada forma e não querem saber de outra. É preciso um debate mais aberto, com os pensamentos da educação não formal, as diretrizes, as possibilidades e operacionalidades. Referências AFONSO, A. J. (1989), Sociologia da educação não formal. Reactualizar um objeto ou construir uma nova problemática? In: A. J. Esteves; S. R. Stoer. A Sociologia na escola. Porto: Afrontamento.ARAÚJO, Helena Maria Marques (2006), Memória e produção de saberes em espaços educativos não formais. Usos do Passado. In: XII ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA – ANPUH, Rio de Janeiro. ARROYO, Miguel, (2009). Ofício de mestre: imagens e auto imagens. Petrópolis, Vozes. COLL, C. (1999), Educação, escola e comunidade: na busca de um compromisso. In: Comunidade e escola: a integração necessária. Pátio – Revista Pedagógica, Porto Alegre, Artes Médicas, ano 3, n.10, p. 8-12. CORTELA, Mário Sérgio (2006), Contribuições da educação não-formal para a construção da cidadania. São Paulo: Instituto Itaú Cultural. BAUMAN, Z. (2001), Community. Cambridge: Polity. DEMO, Pedro (2001), Cidadania pequena, Campinas, Edit.Autores Associados. FURTER, Pierre (1976), Educação e reflexão. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes. FREIRE, P. (1980), Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. GADOTTI, Moacir (2005), A Questão da educação formal/não-formal. Sion: Suisse Institut International des Droits de l´enfant-IDE. _______________ (1993), História das Idéias Pedagógicas, São Paulo, Ed. Àtica. GENTILI, Pablo (2011), Pedagogia de la igualdad- ensayos contra la educación excluyente. B Aires, Clacso/Siglo XXI. GOHN, Daniel (2003), Autoaprendizagem musical. São Paulo: Annablume. ___________ (2011), Educação Musical a Distância. São Paulo: Ed. Cortez. GOHN, Maria da Glória (2013a),. Educação Não Formal e o Educador Social.2ª ed. São Paulo: Cortez Ed. ______________ (2013b), Conselhos gestores e participação sociopolítica. 5. ed. São Paulo: Cortez. ___________ (2013c), História dos Movimentos e lutas sociais. A construção da cidadania dos brasileiros. 7ed. São Paulo: Loyola. __________ (2012a). Movimentos sociais e educação. 8. ed. São Paulo: Cortez. ____________ (2013b), Sociologia dos Movimentos Sociais. 1ª ed. São Paulo, Cortez. Maria da Glória Gohn Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 49 ___________ (2012c) Novas teorias dos movimentos sociais. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola. ___________ (2011a) Teorias dos movimentos sociais. Paradigmas clássicos e contemporâneos. 9ª Ed. São Paulo. Ed. Loyola. ___________ (2011b), Movimentos e lutas sociais na História do Brasil. 6a ed. São Paulo: Loyola. ___________ (2011 c), Educação não formal e cultura política. 5. ed. São Paulo: Cortez, ___________ (2010), Movimentos sociais e redes de mobilizações civis no Brasil contemporâneo. 2. ed. Petrópolis: Vozes. ___________ (2008), O Protagonismo da sociedade civil: movimentos sociais, ONGS e redes solidárias. 2ª Ed., São Paulo: Cortez. ___________ (2007), Não Fronteiras: universos da Educação não formal. São Paulo: Itau Cultural. ___________ (2006), Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Revista Ensaio – Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, Fundação Cesgranrio, v. 14, n. 50, p. 17-38, jan./mar. GOLDMANN, L. (1972), A criação cultural na sociedade moderna. SP, Difusão Européia do Livro. GROPPO, Luís A. (2006), “O princípio sócio-comunitário e a integração sistêmica na educação: algumas considerações”. Revista de Ciências da Educação, Americana, Centro Unisal, ano 08, n. 14, p. 131-149. HONNETH, A. (2003), Luta por reconhecimento. A gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo. JACOBUCCI, Daniela Franco Carvalho, (2008), Contribuições dos espaços não formais de educação para a formação da cultura científica. Revista Em extensão, Uberlândia, v. 7, p. 55 a 66. LANDIM, Leilah (org.) (1998), Ações em sociedade: militância, caridade, assistência. Rio de Janeiro: NAU. PATEMAN, Carole (1992), Participação e teoria democrática, Rio de Janeiro, Paz e Terra. POSTER, Cyril; ZIMMER, Jurgen (1995), Educação comunitária no terceiro mundo. Campinas: Papirus. SANTOS, Boaventura Sousa (2000), A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez. SANTOS, Boaventura Sousa (1995), A construção multicultural da igualdade e da diferença. In Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia, Rio de Janeiro. SIRVENT, Maria Teresa; et al. (2006), Revisión Del concepto de Educación No Formal. Cuadernos de Cátedra, B. Aires, UBA. SENNET, R. (1999), A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record. SILVA, Pedro, (2003), Escola - família, uma relação armadilhada. Interculturalidade e relações de poder. Porto: Afrontamento. STEPHANOU, Luis; MULLER, Lúcia H; CARVALHO, Isabel C. M. (2003), Guia para a elaboração de projetos sociais. São Leopoldo: Sinodal, Fundação Luterana de Diaconia. VON SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes; PARK, Margareth Brandini; FERNANDES, Renata Sieiro (2007), Educação não-formal: um conceito em movimento. In: Rumos Educação Não Formal, Aprendizagens e Saberes em Processos Participativos Investigar em Educação - II ª Série, Número 1, 2014 50 Itaú Cultural (org.). Visões singulares, conversas plurais. São Paulo: Itaú Cultural, v. 3, p. 13-42. ___________ (orgs.) (2001), Educação Não-Formal. Cenários da criação. Campinas: Ed. Unicamp, 2001. UNESCO e PICPEMCE (1988), Guia para el melhoramento de la producción de materiales para la educación formal y no formal. Santiago do Chile: Unesco/Orealc. THOMPSON, E. P. (1984), Tradición, revuelta y consciência de clase. Barcelona, Editorial Crítica. TORRES, C. A. (1992), A política da educação não formal na América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. TRILLA, Jaume (1993), La educación fuera de la escuela - Âmbitos no formales y educación social. Barcelona: Editorial Ariel. ___________ (1992), “El sistema de educación no formal: definición, conceptos básicos y âmbitos de aplicación. In: SARRAMONA, J. (org.). La educación no formal. Barcelona: CEAC, p. 9-50. ___________ (2008), “A educação não–formal”. In: GHANEM, Elie; TRILLA, Jaume; ARANTES, Valéria A. Educação formal e Não-Formal. São Paulo: Ed. Summus, p. 15-58. VIDAL, Jussara (2009), Um diálogo entre a política cultural e a educação não-formal: contribuições para o processo de constituição da cidadania das pessoas com deficiência. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. WANDERLEY, L. E. (2010), Educação popular, metamorfoses e veredas. Cortez. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 3 1.2 Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas Maria da Glória Gohn Licenciatura em Pedagogia 3 Teorias do currículo: o que é isto GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Revista Ensaio – Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, Fundação Cesgranrio, v. 14, n. 50, p. 17- 38, jan./mar. 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/s5xg9Zy7sWHxV5H54GYydfQ/?lang=pt. Acesso em: 28 ago. 2021. Resumo O trabalho apresenta um estudo so- bre a educação não-formal e seu pa- pel no processo educativo mais geral. Considera-se a educação não-formal como uma área de conhecimento ain- da em construção. Estuda-se a possi- bilidade deste processo em conselhos de escolas e o aprendizado que resul- ta da participação da so- ciedade civil nestes con- selhos. O trabalho se di- vide em duas partes: a primeira tem caráter teó- rico e discute a categoria educação não-formal em si, seu campo e atributos. Por meio da análise com- parativa, busca-se dife- renc iá- la da educação formal e da educação informal. A se- gunda investiga a categoria da edu- cação não - formal em conselhos es- colares, e em movimentos sociais que atuam na área da educação. Palavras-chave: Educação não-for- mal. Educação formal. Educação in- formal. Conselhos participativos. Par- ticipação da sociedade civil. Conse- lhos de escolas. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas Maria da GlóriaGohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 Maria da Glória Gohn Pós-Doutorado em Sociologia, New School of University, New York Professora Titular da UNINOVE e da UNICAMP Pesquisadora I do CNPq mgohn@uol.com.br Abstract Non-formal education, civil society participation and councils structures in the schools The paper presents a study about the non-formal education and its role in the wide educative process. It considers the non-formal education as an area of knowledge still in construction. It studies the possibility of this educational process in the councils of schools and the learning that results from the civil society participation in these councils. The paper has two parts: the first has a theoretical character and discusses the non-formal category, distinguishing it from the formal and informal education categories. The second one investigates the non-formal category in the councils of the schools and in the social movements acting in the educational area. 28 Maria da Glória Gohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 Keywords: Non-formal education. Formal education. Informal education. Participative councils. Civil society participation. Council school. Resumen Educación no-formal, participación de la sociedad civil y estructuras de consejos en las escuelas El objectivo de este trabajo es realizar un estudio sobre la educación no-formal y sus roles en el proceso de educación más general. La educación no-formal es un campo de conecimiento todavía en construcción. El trabajo investiga la posibilidad del proceso de educación no-formal en los consejos de las escuelas, y hace un análisis de las aprendizajes que estas experiencias generan hacia los consejeros. El trabajo fue ordenado en dos partes: la primera tiene un carácter teórico y discute la categoría educación no-formal, haciendo distinción de la educación formal y de la educación informal. La segunda investiga la categoría no-formal, en los consejos de las escuelas y en los movimientos sociales del area educacional. Palabras clave: Educación no- formal. Educación formal. Educación informal. Consejos participativos. Sociedad civile. Consejos de las escuelas. A educação não-formal designa um processo com várias dimensões tais como: a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos; a capaci- tação dos indivíduos para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidades e/ ou desenvolvimento de potencialidades; a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários, voltadas para a solução de problemas coletivos cotidia- nos; a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazerem uma leitura do mundo do ponto de vista de com- preensão do que se passa ao seu redor; a educação desenvolvida na mídia e pela mídia, em especial a eletrônica etc. Quando tratamos da educação não- formal, a comparação com a educação formal é quase que automática. O termo não-formal também é usado por alguns investigadores como sinônimo de informal. Consideramos que é necessário distinguir e demarcar as diferenças entre estes con- ceitos. A princípio podemos demarcar seus campos de desenvolvimento: a educação formal é aquela desenvolvida nas escolas, com conteúdos previamente demarcados; a informal como aquela que os indivíduos aprendem durante seu processo de sociali- zação - na família, bairro, clube, amigos etc., carregada de valores e culturas pró- prias, de pertencimento e sentimentos her- dados: e a educação não-formal é aquela que se aprende “no mundo da vida”, via os processos de compartilhamento de ex- periências, principalmente em espaços e ações coletivos cotidianas. Vamos tentar demarcar melhor essas diferenças por meio uma série de questões, que são, aparente- mente, extremamente simples, mas nem por isso simplificadoras da realidade, a saber: “Quem é o educador em cada campo Educação não formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 29 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 de educação que estamos tratando? Em cada campo, quem educa é o agente do processo de construção do saber?” Na educação formal sabemos que são os professores. Na não-formal, o grande educador é o “outro”, aquele com quem interagimos ou nos integramos. Na educa- ção informal, os agentes educadores são os pais, a família em geral, os amigos, os vizi- nhos, colegas de escola, a igreja paroquial, os meios de comunicação de massa, etc. “Onde se educa? Qual é o espaço físi- co territorial onde transcorrem os atos e os processos educativos?” Na educação formal estes espaços são os do território das escolas, são instituições regulamentadas por lei, certificadoras, or- ganizadas segundo diretrizes nacionais. Na educação não-formal, os espaços educati- vos localizam-se em territórios que acom- panham as trajetórias de vida dos grupos e indivíduos, fora das escolas, em locais in- formais, locais onde há processos interati- vos intencionais ( a questão da intenciona- lidade é um elemento importante de dife- renciação). Já a educação informal tem seus espaços educativos demarcados por refe- rências de nacionalidade, localidade, ida- de, sexo, religião, etnia etc. A casa onde se mora, a rua, o bairro, o condomínio, o clu- be que se freqüenta, a igreja ou o local de culto a que se vincula sua crença religiosa, o local onde se nasceu, etc. “Como se educa? Em que situação, em qual contexto?” A educação formal pressupõe ambien- tes normatizados, com regras e padrões com- portamentais definidos previamente. A não -formal ocorre em ambientes e situações in- terativos construídos coletivamente, segun- do diretrizes de dados grupos, usualmente a participação dos indivíduos é optativa, mas ela também poderá ocorrer por forças de certas circunstâncias da vivência histórica de cada um. Há na educação não-formal uma intencionalidade na ação, no ato de participar, de aprender e de transmitir ou tro- car saberes. A informal opera em ambientes espontâneos, onde as relações sociais se desenvolvem segundo gostos, preferências, ou pertencimentos herdados. “Qual a finalidade ou objetivos de cada um dos campos de educação assinaladas?” Na educação formal, entre outros ob- jetivos destacam-se os relativos ao ensino e aprendizagem de conteúdos historica- mente sistematizados, normatizados por leis, dentre os quais destacam-se o de formar o indivíduo como um cidadão ativo, desen- volver habilidades e competências várias, desenvolver a criatividade, percepção, motricidade etc. A educação informal soci- aliza os indivíduos, desenvolve hábitos, ati- tudes, comportamentos, modos de pensar e de se expressar no uso da linguagem, segundo valores e crenças de grupos que se freqüenta ou que pertence por herança, desde o nascimento Trata-se do processo de socialização dos indivíduos. A educa- ção não- formal capacita os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo, no mun- do. Sua finalidade é abrir janelas de co- nhecimento sobre o mundo que circunda os indivíduos e suas relações sociais. Seus objetivos não são dados a priori, eles se constróem no processo interativo, gerando um processo educativo.Um modo de edu- car surge como resultado do processo vol- tado para os interesses e as necessidades 30 Maria da Glória Gohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 que dele participa. A construção de rela- ções sociais baseadas em princípios de igualdade e justiça social, quando presen- tes num dado grupo social, fortalece o exer- cício da cidadania. A transmissão de infor- mação e formação política e sociocultural é uma meta na educação não formal. Ela prepara os cidadãos, educa o ser humano para a civilidade, em oposição à barbárie, ao egoísmo, individualismo etc.. “Quais são os principais atributos de cada uma das modalidades educativas que estamos diferenciando?” A educação formal requer tempo,local específico, pessoal especializado, organi- zação de vários tipos (inclusive a curricu- lar), sistematização seqüencial das ativida- des, disciplinamento, regulamentos e leis, órgãos superiores etc. Ela tem caráter me- tódico e , usualmente, divide-se por idade/ classe de conhecimento. A educação in- formal não é organizada, os conhecimen- tos não são sistematizados e são repassa- dos a partir das práticas e experiência an- teriores, usualmente é o passado orientan- do o presente. Ela atua no campo das emo- ções e sentimentos. É um processo perma- nente e não organizado. A educação não -formal tem outros atributos: ela não é, or- ganizada por séries/ idade/conteúdos; atua sobre aspectos subjetivos do grupo; traba- lha e forma a cultura política de um grupo. Desenvolve laços de pertencimento. Ajuda na construção da identidade coletiva do grupo (este é um dos grandes destaques da educação não-formal na atualidade); ela pode colaborar para o desenvolvimen- to da auto-estima e do empowerment do grupo, criando o que alguns analistas de- nominam, o capital social de um grupo. Fundamenta-se no critério da solidarieda- de e identificação de interesses comuns e é parte do processo de construção da cida- dania coletiva e pública do grupo. “Quais são os resultados esperados em cada campo assinalado?” Na educação formal espera-se, sobre- tudo que haja uma aprendizagem efetiva (que, infelizmente nem sempre ocorre), além da certificação e titulação que capacitam os indivíduos a seguir para graus mais avançados. Na educação informal os re- sultados não são esperados, eles simples- mente acontecem a partir do desenvolvi- mento do senso comum nos indivíduos, senso este que orienta suas formas de pen- sar e agir espontaneamente. A educação não- formal poderá desenvolver, como re- sultados, uma série de processos tais como: • consciência e organização de como agir em grupos coletivos; • A construção e reconstrução de concep- ção (ões) de mundo e sobre o mundo; • contribuição para um sentimento de iden- tidade com uma dada comunidade; • forma o indivíduo para a vida e suas adversidades (e não apenas capacita- o para entrar no mercado de trabalho); • quando presente em programas com crianças ou jovens adolescentes a edu- cação não-formal resgata o sentimen- to de valorização de si próprio (o que a mídia e os manuais de auto-ajuda denominam, simplificadamente, como a auto-estima); ou seja dá condições aos indivíduos para desenvolverem sentimentos de auto-valorização, de rejeição dos preconceitos que lhes são dirigidos, o desejo de lutarem para ser reconhecidos como iguais (en- quanto seres humanos), dentro de suas diferenças (raciais, étnicas, reli- Educação não formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 31 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 giosas, culturais, etc.); • os indivíduos adquirem conhecimen- to de sua própria prática, os indiví- duos aprendem a ler e interpretar o mundo que os cerca. Algumas características da educação não-formal: metas, lacunas e metodologias A seguir listamos algumas característi- cas que a educação não formal pode atin- gir em termos de metas, em processos pla- nejados de ações coletivas grupais: • O aprendizado da diferenças. Apren- de-se a conviver com demais. Socia- liza-se o respeito mútuo; • Adaptação do grupo a diferentes cul- turas, reconhecimento dos indivíduos e do papel do outro, trabalha o “es- tranhamento”; • Construção da identidade coletiva de um grupo; • Balizamento de regras éticas relativas às condutas aceitáveis socialmente. O que falta na educação não-formal: • Formação específica a educadores a partir da definição de seu papel e as atividades a realizar; • Definição mais clara de funções e objetivos da educação não formal; • Sistematização das metodologias uti- lizadas no trabalho cotidiano; • Construção de metodologias que pos- sibilitem o acompanhamento do tra- balho que vem sendo realizado; • Construção de instrumentos metodo- lógicos de avaliação e análise do tra- balho realizado; • Construção de metodologias que pos- sibilitem o acompanhamento do tra- balho de egressos que participaram de programas de educação não formal; • Criação de metodologias e indicado- res para estudo e análise de traba- lhos da Educação não formal em campos não sistematizados. Aprendi- zado gerado por atos de vontade do receptor tais como a aprendizagem via Internet, para aprender música, tocar um instrumento etc.; • Mapeamento das formas de educa- ção não formal na auto aprendizagem dos cidadãos (principalmente jovens). Metodologias A questão da metodologia merece um destaque porque é um dos pontos mais fra- cos na educação não-formal e a compa- ração com as outras modalidades educati- vas que utilizamos no item anterior não re- solve muito. De toda forma, na educação formal as metodologias são, usualmente, planificada previamente segundo conteú- dos prescritos nas leis. As metodologias de desenvolvimento do processo ensino/apren- dizagem são compostas por um leque gran- de de modalidades, temas e problemas e não vamos adentrar neste debate porque não é nossa área de conhecimento. A edu- cação informal tem como método básico a vivência e a reprodução do conhecido, a reprodução da experiência segundo os modos e as formas como foram apreendi- das e codificadas. Na educação não-for- mal, as metodologias operadas no proces- so de aprendizagem parte da cultura dos indivíduos e dos grupos. O método nasce a partir de problematização da vida cotidi- ana; os conteúdos emergem a partir dos temas que se colocam como necessidades, carências, desafios, obstáculos ou ações empreendedoras a serem realizadas; os 32 Maria da Glória Gohn Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006 conteúdos não são dados a priori. São cons- truídos no processo. O método passa pela sistematização dos modos de agir e de pen- sar o mundo que circunda as pessoas. Pe- netra-se portanto no campo do simbólico, das orientações e representações que con- ferem sentido e significado às ações huma- nas. Supõe a existência da motivação das pessoas que participam. Ela não se subor- dina às estruturas burocráticas. É dinâmi- ca. Visa à formação integral dos indivídu- os. Neste sentido tem um caráter humanis- ta. Ambiente não formal e mensagens vei- culadas “falam ou fazem chamamentos” às pessoas e aos coletivos, e as motivam. Mas como há intencionalidades nos processos e espaços da educação não-formal, há caminhos, percursos, metas, objetivos es- tratégicos que podem se alterar constante- mente. Há metodologias, em suma, que precisam ser desenvolvidas, codificadas, ainda que com alto grau de provisorieda- de pois o dinamismo, a mudança, o movi- mento da realidade segundo o desenrolar dos acontecimentos, são as marcas que sin- gularizam a educação não-formal. Qualquer que seja o caminho metodoló- gico construído ou reconstruído, é de suma importância atentar para o papel dos agen- tes mediadores no processo: os educadores, os mediadores, assessores, facilitadores, mo- nitores, referências, apoios ou qualquer ou- tra denominação que se dê para os indivídu- os que trabalham com grupos organizados ou não. Eles são fundamentais na marcação de referenciais no ato de aprendizagem, eles carregam visões de mundo, projetos societá- rios, ideologias, propostas, conhecimentos acumulados etc. Eles se confrontarão com os outros participantes do processo educativo, estabelecerão diálogos, conflitos, ações soli- dárias etc. Eles se destacam no conjunto e por meio deles podemos conhecer o projeto socioeducativo do grupo, a visão de mundo que estão construindo, os valores defendidos e os que são rejeitados. Qual o projeto polí- tico-cultural do grupo, em suma. Para finalizar a primeira parte deste tex- to destacamos que também diferenciamos a educação não- formal de outras propos- tas de educação, apresentadas como edu- cação social, no século XX, porque a mai- oria daquelas propostas