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Acidente Vascular Cerebral Anatomia do encéfalo O encéfalo junto com a medula constituem o sistema nervoso central. Ele é constituído pelo cérebro, cerebelo e tronco encefálico. O diencéfalo e o telencéfalo formam o cérebro, que corresponde a porção mais desenvolvida do encéfalo. O diencéfalo será composto pelo: 1. Tálamo: são duas massas volumosas de substância cinzenta, de formato ovoide, dispostas uma de cada lado na porção laterodorsal do diencéfalo, unidas pela aderência intertalâmica e que delimitam a parte posterior do terceiro ventrículo. É um dos mais importantes centros de integração de impulsos nervosos. Através de suas inúmeras interligações, é possível que esse centro se relacione também com o controle da vigília e do sono. 2. Hipotálamo: situado abaixo do tálamo. As estruturas que formam o hipotálamo e que estão localizadas nas paredes laterais e no assoalho do III ventrículo são: quiasma óptico, infundíbulo, túber cinéreo e corpos mamilares (de sentido anterior para posterior). Possui importantes funções, relacionadas sobretudo com o controle da atividade visceral, regula o sistema nervoso autônomo, as glândulas endócrinas, controla o equilíbrio de líquidos e eletrólitos, sendo o principal responsável pela homeostase. 3. Epitálamo: localiza-se mais posteriormente ao III ventrículo, abaixo do tálamo. A glândula pineal é a sua estrutura mais evidente, sendo uma glândula endócrina que repousa sobre o teto do mesencéfalo; ela produz o hormônio melatonina, que diminui com a idade e influi sobre o ritmo sazonal e circadiano, sobre o ciclo sono- vigília e sobre a reprodução. 4. Subtálamo: zona de transição entre o diencéfalo e o tegmento do mesencéfalo. Relaciona-se com funções motoras, pertecendo ao sistema extrapiramidal. É considerado a menor formação diencéfalica, e sua principal formação é o núcleo subtalâmico, relacionado com o controle do movimento somático. Telencéfalo vai ser constituído por dois hemisférios cerebrais e a lâmina terminal situada na porção anterior do III ventrículo. Os dois hemisférios, afastados pela fissura longitudinal, são unidos por uma larga faixa de fibras comissurais, o corpo caloso. - A superfície do cérebro, córtex cerebral, apresenta depressões denominadas sulcos, que delimitam os giros cerebrais. - Os sulcos mais importantes dos hemisférios cerebrais são o sulco lateral (de Sylvius) e o sulco central (de Rolando). Os sulcos ajudam a delimitar os lobos cerebrais, que recebem o nome de acordo com a sua localização em relação aos ossos do crânio: frontal, temporal, parietal e occipital. Vascularização do encéfalo O encéfalo é irrigado por quatro grandes artérias originadas dos troncos supra-aórticos. As artérias carótidas comuns direita e esquerda bifurcam-se na região cervical em artéria carótida interna e carótida externa. Das artérias subclávias direita e esquerda partem as artérias vertebrais. Os quatro grandes vasos que irrigam o encéfalo constituem os sistemas anterior e posterior. O sistema anterior é formado pelas artérias carótidas internas direita e esquerda, e seus ramos. Ele irriga dois terços anteriores dos hemisférios cerebrais. O sistema posterior é proveniente das artérias vertebrais direita e esquerda, que se unem dentro do crânio e formam a artéria basilar (sistema vertebrobasilar). Esse sistema é responsável pela irrigação do terço posterior dos hemisférios cerebrais, além do tronco encefálico e cerebelo. As artérias encontra-se na base do cérebro circundando o quiasma óptico e o túber cinéreo, relacionando-se, nessa região, com a fossa interpeduncular. Com relação ao processo de anastomose dos vasos do círculo arterial, tem-se a comunicação entre as artérias carótidas internas com as artérias cerebrais posteriores, por intermédio das artérias comunicantes posteriores. Enquanto isso, a comunicação das artérias carótidas internas com as artérias cerebrais anteriores se dá de forma direta – sendo essas últimas unidas pela artéria comunicante anterior. As artérias comunicantes anterior e posteriores, além de serem essenciais no círculo arterial, compensam a vascularização de outras artérias importantes no caso de oclusão, como exemplo a artéria carótida interna. Porém, esse mecanismo compensatório é parcial e a estenose de um dos vasos que formam o polígono pode, mesmo assim, causar um AVC isquêmico. A artéria carótida comum bifurca-se em carótida interna e externa na região cervical. A carótida externa emitirá ramos no pescoço, ao passo que a interna só terá ramos intracranianos. A carótida externa não irriga o encéfalo, portanto, não causa AVC. A carótida interna possui um trajeto cervical, cuja porção inicial chama-se bulbo carotídeo. Esse é o local mais susceptível à formação de placas de ateroma. É por esse motivo que se indica a neuroimagem vascular cervical e intracraniana para elucidação da etiologia dos AVCs isquêmicos. Os sopros carotídeos podem ser auscultados na região cervical, como resultado de estenoses proximais superiores a 70%. O trajeto intracraniano da carótida interna passa pelo seio cavernoso, local onde pode ocorrer a chamada fístula carotidocavernosa. Na sua porção intracraniana, a carótida interna forma uma letra “S”, conhecida por sifão carotídeo, também sede de aterosclerose. Na parte terminal de cada carótida interna, já no polígono de Willis, ocorre uma bifurcação em artérias cerebral média e cerebral anterior; além disso, nesse ponto é onde desemboca a artéria comunicante posterior, que pode levar sangue da carótida interna para o sistema posterior ou trazer sangue proveniente desse sistema. As artérias vertebrais recebem essa denominação porque passam pelos forames transversos das vértebras cervicais C6- C2. No interior do crânio, elas dão origem às artérias cerebelares posteroinferiores (PICA) direita e esquerda, e continuam até que se anastomosam, formando a artéria basilar. Da porção inicial da artéria basilar origina-se a artéria cerebelar ântero inferior (AICA) que, na sua região terminal, acaba bifurcando-se em artérias cerebrais posteriores direita e esquerda, após emitir as artérias cerebelares superiores (SUCA) direita e esquerda. A irrigação do diencéfalo (tálamo e correlacionados), do cerebelo e do tronco encefálico geralmente (com algumas exceções) é realizada da seguinte forma: • Tálamos: ramos da artéria cerebral posterior; • Mesencéfalo: ramos da artéria cerebral posterior; • Ponte: ramos da artéria basilar; • Bulbo: ramos das artérias vertebrais; • Cerebelo: porção superior pela SUCA e porção inferior pela AICA e PICA. Acidente Vascular Cerebral ( AVC) AVC, também conhecido como “derrame”, é uma emergência médica, caracterizando-se como uma síndrome neurológica, que resulta da interrupção do fluxo sanguíneo cerebral, de início súbito, podendo ser classificado como AVC isquêmico (AVCi) ou AVC hemorrágico (AVCh). Seus sinais e sintomas clínicos podem se desenvolver a partir de distúrbios neurológicos focais ou globais, que duram 24 horas ou mais, causando alterações cognitivas e sensório-motoras que vão depender da extensão e área da lesão. Os principais fatores de risco do AVC podem ser categorizados em grupos de risco modificáveis (hipertensão arterial sistêmica (HAS), tabagismo, diabete melito (DM)), os não modificáveis (idade, gênero, raça) e o de risco potencial (sedentarismo, obesidade, alcoolismo). AVC Isquêmico A interrupção do fluxo sanguíneo, gerando falta de oxigênio e nutrientes, com consequente diminuição das reservas de energia do tecido nervoso. Gerando uma privação de oxigênio para cérebro priva neurónios, glia e células vasculares do substrato glicose e do oxigênio. A menos que o fluxo sanguíneo seja restaurado prontamente, isso leva à morte isquêmica do tecido cerebral (infarto) dentro do núcleo isquêmico, em que o fluxo normalmente é inferior a 20% do normal. O padrão de morte celular depende da gravidadeda isquemia: • Isquemia leve, como na parada cardíaca com reperfusão, a vulnerabilidade seletiva de certas populações neuronais resulta em sua perda cerferencial. • Isquemia mais grave produz necrose neuronal seletiva, na qual todos os neurônios da glia morrem, mas as células gliais e vasculares são preservadas. • Isquemia completa e permanente, como ocorre no AVC, causa uma pan-necrose. Afetando todos os tipos celulares. Se o paciente sobreviver, esta necrose leva, finalmente, a lesões cerebrais cavitárias crônicas. • Em locais em que a isquemia é incompleta (20 a 40% do normal), como na região fronteiriça ou na zona de penumbra isquêmica que circunda o núcleo de uma região cerebral isquêmica, a lesão celular é potencialmente reversível, e a sobrevivência celular pode ser prolongada. No entanto, a menos que o fluxo sanguíneo seja restaurado (por recanalização do vaso ocluído ou circulação colateral a partir de outros vasos), as células que apresentam lesão reversível também começam a morrer, e o infarto se expande. A morte do tecido penumbral está associada com um resultado clínico ruim. Edema cerebral é outro fator determinante do resultado de um AVC. A isquemia leva ao edema vasogênico, quando o liquido do compartimento intravascular vaza para o parênquima cerebral. O edema costuma ser máximo em cerca de 2 a 3 dias após o AVC. Podendo ser suficientemente grave para causar herniação cerebral e óbito. Dois mecanismos patogênicos podem produzir AVC isquêmico: Trombose: produz AVC por oclusão de grandes artérias cerebrais (em especial carótida interna, cerebral média ou basilar), de pequenas artérias penetrantes (como no AVC lacunar), de veias cerebrais ou de seios venosos. Os sintomas geralmente evoluem durante minutos a horas. AVCs trombóticos com frequência são precedidos de AITs, que tendem a produzir sintomas semelhantes, pois afetam o mesmo território de modo recorrente. Embolia: produz AVC quando artérias cerebrais são ocluídas pela passagem distal de um trombo do coração, do arco aórtico ou das grandes artérias cerebrais. Êmbolos na circulação cerebral anterior ocluem, mais frequentemente, a artéria cerebral média ou seus ramos, pois cerca de 85% do sangue periférico são transportados por esse vaso. Êmbolos na circulação cerebral posterior geralmente se alojam no ápice da artéria basilar ou nas artérias cerebrais posteriores. AVCs embólicos produzem caracteristicamente déficits neurológicos que são máximos no início do quadro. Quando os AITs precedem os AVCs embólicos, especialmente aqueles que se originam de uma fonte cardíaca, os sintomas normalmente variam entre os ataques, pois territórios vasculares diferentes estão afetados. Fator de risco Reconhecer o fator de risco é importante tanto para a prevenção primária quanto para secundária. • Fatores de risco não modificáveis: idade, etnia, sexo, genética e história familiar de AVCi ou AIT. • Fatores de risco modificáveis incluem: hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes melito (DM), dislipidemia, fibrilação atrial, tabagismo, etilismo, estenose de carótida, síndrome da apneia do sono, obesidade e sedentarismo. Etiologia O AVCi pode ocorrer por diferentes mecanismos, ou até mesmo estar associado a algum mecanismo. Saber qual a etiologia do infarto é importante para que não haja recorrência e para que sua causa possa ser tratado. A classificação de TOAST (Trial of Org in Acute Stroke Treatment) é utilizada e subdivide o AVCi, de acordo com o mecanismo fisiopatológico: aterosclerose de grandes artérias, cardioembólico, oclusão de pequenas artérias (lacunas), indeterminado e outras causas. Outras classificações existem, como o SSS-TOAST, que divide cada etiologia em evidente, provável ou possível com base na clínica do paciente, critérios de imagem e investigação etiológica. • Aterosclerose de grandes artérias: a isquemia pode ser decorrente da ruptura e embolização da placa aterosclerótica, hemorragia da placa levando à estenose progressiva ou isquemia distal decorrente do estreitamento do vaso. Os locais mais comuns de aterosclerose são a bifurcação carotídea, a aorta e as artérias vertebrais. A aterosclerose intracraniana pode levar à isquemia pelos mecanismos citados, sendo uma das etiologias com maior risco de recorrência de AVCi e apresentando diagnóstico diferencial amplo com doenças autoimunes e/ou reumatológicas. Em pacientes jovens com dor em região cervical seguida de um déficit neurológico agudo e sem fatores de risco importantes, deve-se pensar em dissecção de vasos cervicais. • Cardioembólica: pode-se classificar as fontes emboligênicas em-> de alto risco, como presença de trombo intracardíaco, fibrilação atrial, doença valvar reumática mitral ou aórtica; e de baixo risco, como forame oval patente, acinesia apical e segmento hipocinético no ventrículo esquerdo. No caso do AVCi, deve-se pensar em doença de Chagas, principalmente quando o paciente tiver epidemiológica sugestiva. Os exames de imagem podem mostrar acometimento de múltiplos territórios vasculares encefálicos em um mesmo momento. • Embolia paradoxal é causada por um trombo da circulação venosa que passa para a circulação arterial usualmente por um defeito da parede cardíaca ou shunt intrapulmonar, sendo o defeito intracardíaco mais comum o forame oval patente, que está presente em cerca de 25% da população e representa um risco mais importante quando associado a anomalias anatômicas ou trombofilias. • O infarto lacunar compreende lesões com diâmetro de 3 a 20 mm, decorrentes da oclusão de pequenas artérias originadas das artérias cerebrais médias, vertebrais, basilar ou demais vasos do polígono de Willis. HAS) e DM são os principais fatores de risco. A etiologia do AVCi pode ser classificada como indeterminada quando for realizada uma investigação extensa e não for evidenciada nenhuma causa. Já a classificação de outras causas engloba um grupo heterogêneo de doenças infecciosas, inflamatórias ou hematológicas. Apresentação Clínica O AVC geralmente se manifesta como sintoma neurológico focal de início súbito que varia conforme o território arterial acometido. A presença de um menor nível de consciência sugere lesões supratentoriais extensas ou acometimento do tronco encefálico. Um exemplo clássico seria a instalação repentina de hemiparesia associada à alteração da fala. O sistema arterial carotídeo (circulação anterior) é acometido em 70% dos casos, e o território vertebrobasilar (circulação posterior) em 30%. Outro exemplo é quando o paciente apresenta afasia, que é um distúrbio de linguagem avaliado sob 4 aspectos: nomeação, repetição, fluência verbal e compreensão. No hemisfério esquerdo, com a área motora, há a região responsável pela linguagem. Dessa forma, a afasia ocorre pelo AVC de artéria cerebral média esquerda, a qual irriga o território citado. Diagnóstico O diagnóstico do AVC se baseia na associação de dados clínicos e radiológicos (tomografia e/ou ressonância de crânio), não sendo possível determinar clinicamente se um evento se deve à isquemia ou hemorragia. As alterações radiológicas decorrentes de isquemia cerebral no exame de tomografia computadorizada pode não ser imediatas e levar algumas horas para se instalar, particularmente em eventos pequenos ou do tronco encefálico. O exame neurológico pode ser realizado conforme a escala do NIHSS (National Institute Of Health Stroke Scale), que varia de 0 a 42 pontos e tem relação direta com a área de isquemia. Tem como intenção deixar o exame de AVC objetivo. A partir do momento em que o paciente é diagnosticado com AVC, ele tem preferência na emergência. Monitorização de sinais vitais, acessos venosos periféricos, história de abuso de drogas, medicamentos, convulsões, enxaqueca, hipoglicemia e trauma, mandar para sala de suporte da emergência, encaminhamento imediato para a realização de neuroimagem (tomografia de crânio é o exame mais disponível e rápido de início).Importante buscar sinais que possam indicar arritmia cardíaca ou dissecção de aorta, além de sinais cutâneos de coagulopatia, mordedura de língua (comum em crises convulsivas) e trauma. O tempo é crucial para a tomada de decisões na conduta do AVC. Para a realização da trombólise endovenosa, são necessárias apenas glicemia capilar e tomografia de crânio como exames complementares na absoluta maioria dos casos. É importante lembrar que a tomografia de crânio pode ser normal nas primeiras horas do início dos sintomas de um AVC isquêmico e pode evidenciar apenas sinais indiretos de isquemia em até 24 horas. A tomografia inicial destina-se, portanto, a descartar um AVC hemorrágico. Paciente com sinal neurológico focal relevante de instalação súbita e tomografia de crânio normal ou com hipodensidade em território arterial compatível, o diagnóstico operacional é AVC isquêmico até que se prove o contrário. Caso a tomografia apresente imagem de hiperdensidade compatível com hemorragia, o diagnóstico é AVCh. Técnicas avançadas de neuroimagem, como ressonância difusão-perfusão, têm sido utilizadas em centros avançados fim de selecionar pacientes para tratamento reperfusão em janelas de tempo mais tardias após AVC isquêmico (6 a 24h). Diagnóstico de Imagem Tomografia de crânio sem contraste Método para excluir hemorragia intracraniana e ajuda a descartar causas não vasculares dos sintomas neurológicos, como tumores. É pouco sensível para pequenos infartos, principalmente os que ocorrerem na fossa posterior. A TC de crânio pode não mostrar alterações nas primeiras horas após o início dos sintomas. Devem ser valorizados alguns sinais precoces de isquemia, como a perda de diferenciação entre a substância branca e cinzenta dos núcleos lentiformes e o apagamento de sulcos. O achado de sinais difusos de isquemia e o acometimento de mais de 1/3 do território da ACM correlacionam-se com maior risco de transformação hemorrágica após trombólise. Ressonância magnética Na fase aguda do AVCi, há determinadas sequências na RM de crânio que podem ser realizadas em 15 a 20 minutos, a fim de evitar atraso na conduta terapêutica, como difusão, perfusão, gradiente eco e fluid attenuated inversion recovery (Flair). A sequência de difusão permite visualizar a região com isquemia em poucos minutos do início dos sintomas. Tem maior sensibilidade do que a TC de crânio para detectar isquemia em fossa posterior (cerebelo e tronco encefálico) e permite maior acurácia para determinar o tamanho da região isquêmica. A sequência Flair só se altera em média 4 horas após o ictus do AVC. Dessa forma, em pacientes que acordaram com o déficit, é possível comparar a sequência de difusão com a sequência Flair. Pacientes com sequência de difusão alterada sequência Flair normal possivelmente iniciaram o déficit há menos de 4 horas e podem ser trombolisados, com resultados positivos em ensaio clínico. Perfusão Diferencia uma área central necrótica, denominada núcleo (ou core) isquêmico, de uma região potencialmente salvável com terapias de reperfusão, chamada de penumbra. A diferença entre essas áreas é o mismatch. Se ainda existe uma grande área de penumbra, com mismatch importante, significa que mesmo que o paciente já tenha extrapolado a janela de tempo inicial, uma terapia de reperfusão pode trazer benefícios. Exames complementares • Hemograma completo; • Glicemia capilar; (o único indispensável para dar o início ao tratamento) • Coagulograma; • Eletrólitos básicos; • Enzimas cardíacas; • Função renal; • Radiografia de tórax; • ECG; • Função hepática; • Exame toxicológico; • LCR (Líquido cefalorraquidiano). Tratamento A abordagem inicial deve ser realizada com cuidados imediatos e intensivos. De início, deve-se realizar estabilização do paciente conforme a sequência ABC, com manutenção das vias aéreas, ventilação adequada e manutenção da circulação. Na fase aguda do AVC isquêmico, não se deve realizar o controle de hipertensão arterial de forma agressiva, sob risco de comprometimento da área de penumbra isquêmica. O controle pressórico deve ser realizado apenas se PA > 220x120 mmHg em paciente não candidato à trombólise ou PA > 185x110 mmHg se o paciente for candidato à trombólise endovenosa. Caso haja uma hipotensão, deve haver uma investigação para sepse, IAM, insuficiência cardíaca ou hipovolemia. Se for necessário, esse controle deve ser realizado de forma rígida e com drogas endovenosas, como nitroprussiato de sódio. A decisão terapêutica inicial mais importante em pacientes com AVC isquêmico é definir se o paciente é candidato à trombólise endovenosa com alteplase e/ou trombectomia mecânica por meio de radiologia intervencionista (hemodinâmica). O início da antiagregação plaquetária com ácido acetilsalicílico de 100 a 325 mg nas primeiras 48 horas após o AVC isquêmico mostrou redução de decorrência na fase aguda e de morbimortalidade (não deve ser feito antes da trombólise). A profilaxia de tromboembolismo venoso com heparina de baixo peso molecular ou heparina fracionada deve ser iniciada virtualmente para todos esses pacientes, em função de imobilidade e risco de trombose venosa profunda. A anticoagulação plena não tem benefício na fase aguda, com maior risco de hemorragia intraparenquimatosa. Terapia trombolítica A alteplase (rtPA) é a única droga endovenosa aprovada para terapia de reperfusão visando à restauração do fluxo sanguíneo cerebral quando administrado em até 4,5 horas do início dos sintomas; sendo que, quanto menor o tempo, maior o benefício da medicação. A dose de rtPA utilizada é de 0,9 mg/kg, sendo 10% em bolus e o restante em 60 minutos em bomba de infusão, com dose máxima de 90 mg. A terapia de reperfusão endovenosa deverá ser realizada observando-se rigorosamente os critérios de inclusão e exclusão. Sempre que houver indicação de tratamento trombolítico endovenoso, o paciente deve ser admitido em unidade de AVC ou unidade de terapia intensiva neurológica. O exame neurológico deve ser realizado a cada 15 minutos durante a infusão, a cada 30 minutos nas 6 horas subsequentes e, então, de hora em hora até completar 24 horas do tratamento. O controle pressórico tem grande importância, visando reduzir a taxa de complicações hemorrágicas. Quando a PAS > 185 mmHg e PAD > 110mmHg, preconiza-se redução com drogas endovenosas (metoprolol, nitroprussiato de sódio) antes do início da terapia trombolítica e deve-se manter níveis tensionais com PASchegar a 145 por 100.000 em pacientes com mais de 75 anos. Quando comparada aos AVC isquêmicos (AVCi), está associada a uma maior morbidade e mortalidade. Fisiopatologia HIC é resultado de inúmeros processos fisiopatológicos que levam à ruptura de vasos sanguíneos resultando em hematoma dentro do parênquima cerebral e consequente compressão de estruturas encefálicas. Artérias perfurantes em ponte, mesencéfalo, tálamo, núcleos da base e cerebelo, cronicamente danificadas pela hipertensão, são suscetíveis à ruptura, sendo estas as localizações mais frequentes da hemorragia hipertensiva. Cerca de 50 a 70% dos pacientes com HIC são hipertensos. A ação crônica da hipertensão sobre a parede das artérias cerebrais promove progressiva hiperplasia das células musculares lisas, posteriormente substituídas por colágeno, levando a enfraquecimento da parede das artérias e maior propensão à ruptura vascular. Esse fenômeno, conhecido como lipo- hialinose, ocorre principalmente em pequenos vasos profundos. O uso de anticoagulantes orais aumenta o risco de hemorragias entre 8 e 11 vezes, notadamente em pacientes com idade avançada, diabéticos, hipertensos, com antecedentes de AVC isquêmico ou traumatismo craniano. Diferentemente da HIC de causa hipertensiva, a progressão desses sangramentos pode ser mais lenta, em cerca de 48 a 72 horas, e costumam evoluir com grandes volumes de hematomas, característica clínica que interfere no prognóstico desses pacientes. Outras etiologias de HIC incluem ruptura de aneurismas intracranianos (usualmente se apresentando como hemorragia malformações subarcnóidea), arteriovenosas (MAV) (HIC é manifestação de MAV em 60% dos casos), trombose venosa cerebral com infartos venosos, tumores intracranianos, drogas de abuso e vasculopatias não ateroscleróticas. A HIC vai ser dividida, principalmente, entre Hemorragia intraparenquimatosa (HIP) e Hemorragia Subaracnoide (HSA). Hemorragia Intra-parenquimatosa (HIP) Pode ocorrer por diversos mecanismos, podendo ocorrer espontaneamente ou decorrer de trauma ou cirurgia. É habitualmente causada pela hipertensão arterial sistêmica não controlada, que leva à lipo-hialinose da parede das pequenas artérias perfurantes. A necrose da parede desses vasos promove a formação de pequenos aneurismas (Aneurismas de Charcot-Bouchard), que podem se romper e sangrar. A doença pode ser dividida em dois tipos, a primária e a secundária. A primária é a que ocorre na maioria dos casos, ela vai acontecer pela ruptura de pequenos vasos, que ocorre devido à hipertensão arterial sistêmica (vasculopatia hipertensiva) ou à angiopatia amiloide. Já na secundária, as principais causas vão ser tumor cerebral, trombose venosa cerebral e, menos comumente, aneurisma cerebral ou malformações arteriovenosas. A HIP ainda pode ser dividida em: • Lobares: ocorrem em regiões mais superficiais do encéfalo e são frequentemente causadas pela angiopatia amiloide, condição de pacientes idosos. Nessa doença, há a deposição de peptídeo beta-amiloide na parede dos vasos, causando fragilidade e sangramento. • Não lobares: vai ocorrer principalmente em núcleos da base, tálamo, cerebelo e ponte. Fatores de risco Quadro clínico Paciente irá apresentar um déficit focal de início súbito (hemiparesia ou afasia), com progressão em algumas horas, de acordo com a expansão do hematoma. O déficit depende do local em que o sangramento ocorreu. Pode haver sinais de Hipertensão Intracraniana (HIC), como cefaleia, vômitos e rebaixamento do nível de consciência. Hematomas volumosos, baixa pontuação na Escala De Coma de Glasgow e presença de hemorragia intraventricular na tomografia de crânio estão relacionados à má evolução clínica. Classificação para Escala de risco Vai ser feita ser feita conforme a escala ICH score; quanto maior a pontuação, maior a mortalidade em 30 dias. A mortalidade chega a 97% em pacientes com ICH ≥ 5. Diagnóstico Tomografia: essencial para confirmar o diagnóstico, avaliar a extensão do sangramento e a presença de complicações, como sangue no sistema ventricular e presença de hidrocefalia. Os exames devem ser realizados na admissão de urgência e repetida sob qualquer piora neurológica. Também é importante para a determinação da etiologia da HIP, de acordo com a topografia. Em indivíduo com HAS de longa data, com localização de hematoma em núcleos da base, ponte ou cerebelo, geralmente não são necessários exames adicionais. Para casos que não preenchem esses critérios, exames adicionais são necessários. Ressonância Magnética: não ajuda muito em casos de localização típica de AVCH hipertensivo. No entanto, em casos atípicos, como hemorragias lobares ou sangramentos em adultos jovens sem história de hipertensão, pode detectar causas secundárias, como angiopatia amiloide em idosos ou tumores cerebrais. Angiotomografia: também pode ser chamada de angiorressonância pode ser considerada principalmente quando há suspeita de etiologia secundária, como trombose venosa cerebral, malformações arteriovenosas e aneurismas. Tratamento O tratamento vão ser abordado de quatro formas gerais: cuidados gerais, controle da pressão arterial, correção de discrasias sanguíneas, se presentes, e tratamento da Hipertensão Intracraniana (HIC). De início, o paciente precisa de suporte clínico, com proteção de vias aéreas, garantia da ventilação e estabilização hemodinâmica. Em pacientes sem evidência de hipertensão intra-craniana e PAS 150-220 mmHg, é seguro deixar a PAS em torno de 140 mmHg, o que parece melhorar o desfecho funcional. Em caso de sinais de hiper-tensão intracraniana, deve-se monitorizá-la a fim de manter pressão de perfusão cerebral em torno de 60 mmHg (lembrando que PPF = PAM – PIC). Em caso de AVC hemorrágico induzido por uso de anticoagulantes, deve-se reverter a anticoagulação. O controle de temperatura e de glicemia deve ser realizado de forma rigorosa, evitando-se hipertermia e mantendo-se a glicemia entre 140 e 180 mg/dL. Não está indicada profilaxia primária de crises convulsivas com drogas antiepilépticas, por não haver evidência de redução de mortalidade, melhora do desfecho funcional ou incidência de novas crises. Em caso de grandes hematomas com efeito de massa e provável HIC, podem ser aplicadas medidas clínicas de emergência até a realização de avaliação neurocirúrgica. Elevação de cabeceira, sedação endovenosa contínua (propofol), manitol (0,25 a 1 g/kg em infusão rápida a cada 4 horas) e hiperventilação (PaCO2 entre 30 e 35 mmHg) podem ser utilizados em casos de sinais de hipertensão intracraniana com deterioração neurológica e risco iminente de herniação. Nesses casos mais graves, deve haver uma pronto avaliação neurocirurgica, Hemorragia Subaracnoide (HSA) Pode ser classificada em dois tipos mais frequentes: traumática e espontânea (que compreende cerca de 10% dos casos de todos os AVCs. Seu principal fator etiológico, que ocorre em cerca de 80% dos casos, é a ruptura de aneurisma intracraniano, o que consiste em emergência neurológica com alta morbidade de mortalidade. Epidemiologia A hemorragia inicial pode ser devastadora, sendo que até 25% dos pacientes morrem antes do atendimento médico, 40% morrem em 1 semana e 50% em 6 meses. A idade média dos pacientes com HSA decorrente de ruptura de aneurisma oscila entre 50 e 55 anos. As mulheres são mais acometidas que os homens (1,6:1), e pacientes negros têm maior risco que brancos. Etiologia Fatores de risco • Tabagismo (principal) • Hipertensão arterial sistêmica; • Etilismo; • História familiar de HSA; • Gravidez e parto; • Associações com doenças do tecido conjuntivo, rins policísticos e malformações arteriovenosas. Quadro clínico Apresenta cefaleia súbita, de forte intensidade, nova ou que mudou o padrão, relatada como a “pior dor da vida”, e que vai do início ao pico máximo de dor em menos de 1 minuto. Esse quadro às vezes é chamado de thunderclap headache,em inglês, ou cefaleia em trovoada. É comum ainda, a presença de náuseas, vômitos, foto e fonofobia e rebaixamento do nível de consciência Ao exame físico, pode-se observar meningismo em até 70% dos casos, hemorragias retinianas e, eventualmente, sinais neurológicos focais. Entre os déficits neurológicos focais, os mais comuns são paralisia do nervo oculomotor (midríase e desvio do olho para fora) nos aneurismas de artéria comunicante posterior e paralisia do nervo abducente (desvio do olho para dentro) na síndrome de hipertensão intracraniana. Sintomas cardiológicos: desconforto torácico e alterações eletrocardiográficas sugestivas de isquemia miocárdica, também podem ocorrer, sendo atribuídos à descarga simpática na fase mais aguda da hemorragia. Achados no exame físico são utilizados para categorizar os pacientes em diversas escalas que apresentam correlação com desfechos clínicos. As escalas mais comumente utilizadas são a de Hunt-Hess e a da World Federation of Neurological Surgeons. Diagnóstico Após a estabilização do paciente, ele deve ser encaminhado para realizar uma tomografia de crânio sem contraste. O Polígono de Willis se localiza à frente do mesencéfalo, na cisterna da base, onde corre o líquido cefalorraquidiano, no espaço subaracnoide. A rotura de um vaso inunda de sangue a cisterna da base e o espaço subaracnoide adjacente, resultando no aspecto característico de raias de sangue nos exames de neuroimagem. A sensibilidade da TC sem contraste nas primeiras 24 horas é de cerca de 95%, sendo importante para excluir associação com hidrocefalia, hemoventrículo e hemorragia intraparenquimatosa. No entanto, a sensibilidade vai caindo devido ao rápido clareamento do sangue no espaço subaracnoide, e chega a 50% na primeira semana. Em todo paciente com TC de crânio com resultado duvidoso ou normal e grande suspeita de HSA pelo quadro clínico, deve ser feita a análise do líquor por punção lombar. A coleta deverá ser realizada idealmente em 3 frascos, com comparação da coloração e contagem de hemácias do primeiro ao terceiro frasco. Caso haja clareamento do sangue ou redução na contagem de hemácias entre os frascos, é mais provável se tratar de acidente de punção. Se os 3 frascos mostrarem coloração semelhante, podendo ser hemático ou, mais frequentemente, xantocrômico (amarelado), com contagem de hemácias semelhantes, é mais provável se tratar de HSA. Com o objetivo de aumentar a sensibilidade, o exame deve ser feito de 6 a 12 horas após o ictus. Se confirmada a presença de sangramento no espaço subaracnoideo, o paciente é encaminhado para realização de angiografia cerebral convencional, que é o padrão-ouro, ou angiotomografia, que é menos invasiva, para identificação de possível aneurisma ou outra fonte de sangramento. Efeitos sistêmicos • Sinais de isquemia miocárdica; • Complicações pulmonares; • Hiponatremia; • Crise convulsiva; • Febre de origem infecciosa ou não infecciosa; • Hiperglicemia; • Anemia. Tratamento Medidas profiláticas: Nimodipina 60 mg a cada 4 horas deve ser adminstrada por via oral ou sonda nasoenteral a todos os pacientes com HSA, idealmente iniciada nos primeiros 4 dias após o ictus.