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GEOGRAFIA DA SAÚDE 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Thiago Kich Fogaça 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
A perspectiva Histórica: os lugares e a saúde 
Iniciaremos nossa aula com reflexões importantes para o seu 
desenvolvimento. Quanto mais longínquo no tempo e espaço, mais difícil se 
torna a abstração da informação e a consolidação do conhecimento. Este fato 
foi ressaltado devido à quantidade de datas e autores que estarão presentes 
neste texto, assim, é sempre importante tentar se imaginar naquele cenário. 
Como as sociedades são resultantes de seu passado, enquanto período 
que se foi, mas também como aprendizado, conhecer aspectos históricos da 
saúde e doença das populações fortalecerá nosso conhecimento sobre a saúde 
na atualidade. 
Assim, nossa aula foi dividida para contemplar recortes temporais 
específicos iniciando-se pela Antiguidade até o início da Idade Média, período 
muito distante da nossa realidade atual e que se apresenta com riqueza de 
construções do conhecimento em saúde. Vale ressaltar que você poderá utilizar 
as tecnologias atuais para conhecer melhor esse período, mediante 
documentários e filmes. 
Na sequência, iremos discutir sobre o período da Idade Média no qual a 
Igreja Católica passou a determinar aspectos do trato das doenças e definir a 
culpabilidade ao trato espiritual, sendo um período de estagnação para a ciência. 
 Em continuidade, passaremos a identificar aspectos das doenças no 
período do Renascimento até a Idade Moderna, quando o processo histórico e 
de questionamento dos dogmas religiosos enfraqueceu o poder da igreja, dando 
luz aos conhecimentos científicos. 
 Encerrando a análise histórica dos fatos, passaremos a discutir sobre os 
processos de saúde e doença do século XIX aos dias atuais, para podermos 
estabelecer um perfil cronológico e refletir sobre os ensinamentos que a história 
das doenças pode representar. 
TEMA 1 – AS DOENÇAS NAS CIVILIZAÇÕES CLÁSSICAS 
Traçar uma linha histórica sobre as doenças e seus impactos é importante 
para termos consciência do percurso da ciência, geral e, também, mais 
especificamente, na sua distribuição geográfica, levando em consideração as 
 
 
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tecnologias disponíveis para os povos. Se tentarmos imaginar como seria viver 
na Antiguidade, momento em que o conhecimento sobre as doenças ainda se 
apresentava inicial (mas era o disponível naquele período), podemos 
compreender que o modo de vida se apresentava, muitas vezes, como 
deflagrador de cenários de risco. Precisamos ter em mente que os fatos que 
serão apresentados nesta aula ocorreram mediante o contexto que se 
apresentava na Antiguidade. 
A primeira informação importante consiste na crença das pessoas, pois 
aquelas sociedades eram movidas pelo conhecimento do seu povo. Há variados 
registros que apresentam a questão sobrenatural envolvida nas dinâmicas 
cotidianas. Para compreendermos melhor, vamos supor que uma pessoa que se 
sentia doente, mas que não havia sofrido acidente (queda, lesão na prática da 
caça etc.), automaticamente seria tratado como algo sobrenatural, que deveria 
ser tratado como questão espiritual, por exemplo, com a presença de espíritos 
malignos ou demônios na Terra (Gutierrez; Oberdiek, 2001; Batistella, 2007). 
Nesse sentido, é possível identificarmos uma preocupação com espíritos, 
com mistérios envolvendo os elementos da natureza, como fogo, ar e água, por 
exemplo, que impactavam na vida daquelas sociedades. Sevalho (1993) 
argumenta que as doenças nos povos primitivos, aqueles sem a escrita, eram 
tratadas como algo externo ao corpo, o sobrenatural, e que, desta maneira, não 
poderiam serem resolvidas pela “mão” do homem. 
Mediante o contexto apresentado, já evidenciamos a presença de 
doenças na Antiguidade e que estas eram tratadas dependendo do contexto, no 
entanto, mais associadas ao sobrenatural. Então, precisamos questionar: quem 
eram os “médicos” daquele período? Os xamãs, sacerdotes, benzedeiras e 
curandeiros executavam o tratamento das pessoas doentes. As práticas 
variavam entre rituais religiosos, uso de elementos da natureza (fogo, terra e 
plantas, por exemplo). Segundo Batistella (2007, p. 29), os curandeiros 
realizavam: 
[...] cânticos, danças, instrumentos musicais, infusões, emplastros 
(técnica que envolve aquecer a superfície de determinada região do 
corpo), plantas psicoativas, jejum, restrições dietéticas, reclusão, 
tabaco, calor, defumação, massagens, fricção, escarificações (técnica 
que produzia cicatrizes no corpo por meio de objetos cortantes), 
extração da doença pela provocação do vômito, entre outros recursos 
terapêuticos. 
 
 
4 
Por fim, além dos elementos apresentados, ainda ocorreu o uso da 
trepanação, que consistia em fazer buracos no crânio do doente ou morto para 
que pudessem expulsar os espíritos malignos. 
Agora que introduzimos nossa discussão, passaremos a evidenciar 
alguns processos em determinados locais. Primeiro, temos o antigo Egito, onde 
ocorria predominância dos rituais de oração, mas também com preparação de 
medicações e magias, relacionadas ao sobrenatural; este fato ocorria porque no 
antigo Egito acreditava-se que as doenças seriam resultantes do desequilíbrio 
da existência humana com fatores espirituais. Os autores também nos trazem 
que foi no antigo Egito (4 mil anos atrás) que se iniciou a preocupação com a 
higiene pessoal e dos ambientes, como parte do tratamento das doenças 
(Johnson; Johnson; Morrow, 2014; Straub, 2005). 
 Nos deslocando um pouco do Egito antigo encontramos a região que 
era conhecida como antiga Mesopotâmia (a partir de 5.000 a.C.) que, também, 
nos traz indícios de preocupação com a saúde das populações. Com base nos 
escritos antigos é possível afirmar que aqueles povos se preocupavam com a 
higiene. Um exemplo consiste na fabricação do sabão para cuidados de higiene 
pessoal e a construção de sistemas para tratamento de esgoto, como ocorreu 
na região que hoje pertence ao Iraque (Stone et al., 1979, citado por Straub, 
2005). No entanto, essas constatações também ocorreram em outras 
sociedades daquela região, tendo, por exemplo, os hebreus, assírios e 
babilônios preocupados com a higiene das populações; além disso, algo 
bastante importante para o momento histórico consiste na compreensão inicial 
das relações entre as doenças transmissíveis e o modo de vida, estabelecidos 
pelo padrão de alimentação, vestuário e “saneamento” (Johnson; Johnson; 
Morrow, 2014). 
Verificamos que existia a preocupação com a saúde das populações da 
antiga Mesopotâmia. Agora, podemos nos questionar sobre como eram tratados 
os doentes naquela região. Sobre isso, Biggs (2005) nos trouxe informações 
sobre o tratamento dos doentes, sendo, em sua maioria, na administração de 
remédios caseiros, preparados por curandeiros com ervas comuns. Além desses 
curandeiros que administravam medicação, ainda havia aqueles que 
acreditavam nas doenças de cunho espiritual, ou seja, pessoas com doenças 
graves deveriam passar por rituais de purificação, baseadas em exorcismos, 
para eliminar possíveis demônios. 
 
 
5 
Nos deslocando novamente, passaremos a falar sobre a Grécia Antiga e 
parte dos registros históricos sobre as doenças e seus tratamentos. Foi na 
Grécia Antiga que surgiu a medicina científica, fato importante para nossos 
estudos, e ela era dividida no tratamento dos doentes e nos estudos sobre a 
transmissão das doenças; porém, a segunda ainda esteve muito atrelada ao 
misticismo, fato que só fui superado com as teorias de Hipócrates. 
Falaremos sobre Hipócrates, mas antes, precisamos refletir sobre o 
momento histórico e as tecnologias disponíveis para estudar e teorizar sobre as 
doenças. Nesse sentido, Hipócrates se tornou referência a partir de sua obra 
Dos ares, das águas e dos lugares, de 480 a.C., ao conseguir estabelecer 
relações racionais para explicar a transmissão de doenças, o quese tornou 
grande feito para o momento histórico. Assim, o modo de vida, relacionado aos 
elementos da natureza (clima, solo e água potável, por exemplo) e qualidade da 
alimentação seriam levados em consideração para entender a transmissão das 
doenças; além disso, a doença foi considerada como um desequilíbrio, baseado 
em aspectos físicos e racionais (Scliar, 2007; Johnson; Johnson; Morrow, 2014; 
Straub, 2005). 
Os escritos antigos ainda trazem a importância de Hipócrates para a 
expansão colonial da Grécia. Mas podemos nos questionar: de que forma? Ao 
relacionar as condições do meio ambiente e modo de vida na transmissão das 
doenças, Hipócrates ressaltou a importância do planejamento e do 
conhecimento das condições sanitárias, por exemplo, na organização das 
sociedades. Esses conhecimentos deram suporte na busca de novos locais 
(Johnson; Johnson; Morrow, 2014). 
Nossa última parada pela antiguidade será com a Roma antiga. Assim 
como na Grécia, evidenciaremos o papel de um autor, Sexto Júlio Frontino (40-
104 a.C.), que publicou o texto: De Aquis Urbis Romae (Os aquedutos da cidade 
de Roma). Em seu texto foi abordada a importância da qualidade da água, cuja 
obtenção seria por rios, priorizando as necessidades humanas, mas levando em 
consideração processos de saúde (Rosen, 1994, citado por Batistella, 2007). 
Outro destaque daquele povoado foi a utilização do banho diário, bastante 
explorado pelos filmes de época; o banho era utilizado para fins de higiene e/ou 
terapias. Por fim, destacou-se na Roma antiga a construção de um sistema de 
encanamentos para esgoto, que em sua concepção, é similar ao que possuímos 
atualmente, sendo conectado sob as ruas da cidade. 
 
 
6 
Neste tópico evidenciamos alguns exemplos sobre a antiguidade, tendo 
em vista que os registros históricos são baseados, em sua grande maioria, em 
relatos dos médicos, no entanto, essenciais para pensarmos a concepção de 
saúde e doença daqueles povos (Batistella, 2007). 
Na sequência, passaremos a evidenciar aspectos das doenças na Idade 
Média. 
TEMA 2 – IDADE MÉDIA: UM PERÍODO CONFLITANTE 
O título do segundo tema de nossa aula já serve para chamar a atenção 
em relação ao período que falaremos. De fato, a Idade Média é também 
conhecida como a Idade das Trevas para o desenvolvimento científico, sendo 
dominada pela Igreja Católica. Porém, para que ocorra o fortalecimento da Igreja, 
deveria ocorrer o enfraquecimento dos outros poderes. Registros históricos nos 
relatam que esse processo ocorreu quando conflitos políticos começaram a 
descentralizar o poder do Império Romano, até que este fosse desintegrado. 
Este fato culminou em vários problemas de ordem socioambiental, afetando 
diretamente aos serviços de saúde, por exemplo (Johnson; Johnson; Morrow, 
2014). 
Agora, precisamos refletir sobre a estrutura das sociedades e sua 
dependência de um “poder” (fio condutor) para administrar as atividades em 
coletividade. Com o declínio do Império Romano, foi a Igreja Católica que passou 
a assumir a “autoridade” sobre a Europa, influenciando a dinâmica das cidades. 
Logo, as questões de saúde também seriam afetadas. Segundo os 
registros históricos, é possível encontrar duas vertentes no trato da saúde da 
população; a primeira seria a ligação entre a saúde e o pecado, sendo o segundo 
o responsável pelo surgimento das doenças na população; a segunda vertente, 
de característica processual, consistia no exorcismo, substituindo os médicos 
pelos religiosos e o tratamento medicinal pelas orações e penitências, por 
exemplo (Gutierrez; Oberdiek, 2001). 
Do ponto de vista prático e da organização das cidades, por exemplo, 
quais impactos podemos imaginar da influência da Igreja Católica e o 
sobrenatural na vida das pessoas? A resposta não é simples, mas como já 
discutimos anteriormente sobre as relações entre o modo de vida (alimentação, 
recursos naturais, qualidade da água, saneamento) e a disseminação de 
doenças, já podemos imaginar que o cenário foi complicado. Os registros 
 
 
7 
indicam que a Igreja Católica afastou qualquer resposta racional para as 
questões de saúde daquelas populações e, ainda mais grave, acusava os 
cientistas de produzirem blasfêmias, o que representou ataque ao conhecimento 
científico. Estes fatos ajudam a demonstrar o porquê de a Idade Média também 
ser considerada a Idade das Trevas para a ciência (Batistella, 2007). 
Fazendo um parêntese em nossa discussão, devemos atentar para 
algumas características ainda presentes em nossas sociedades. A relação entre 
as doenças e a fé permanece em algumas religiões, nas quais o castigo divino 
ainda pode ser encontrado como justificava para as doenças (Sevalho, 1993); 
este fato representa a pluralidade cultural atual e não faremos juízo de valor. 
Retornando ao período da Idade Média, aquelas sociedades sofreram 
muitos impactos de epidemias de doenças infecciosas, dentre elas a lepra, 
varíola, tuberculose, sarampo, difteria. Porém, um exemplo expressivo foi o da 
peste bubônica em 1348, devastando a Europa medieval. 
Os registros apresentam que a doença matou em torno de 25% da 
população naquele período, demonstrando a gravidade imposta por ela. Além 
disso, devido às suas características, passou a ser conhecida como “morte 
negra”. A doença é resultante da transmissão de bactérias pelas pulgas 
presentes nos ratos infectados. Quando identificada a doença, o indivíduo 
passou a ser isolado da população, para evitar maior contágio; esse fato pode 
estar associado ao uso da quarentena atual (como no caso de doenças 
transmissíveis) (Batistella, 2007; Johnson; Johnson; Morrow, 2014). 
 Outro fato importante associado à Igreja Católica foi a construção dos 
primeiros hospitais localizados nos monastérios para o tratamento dos doentes, 
sobretudo os mais pobres. Segundo Batistella (2007), no final da Idade Média 
surgiram as primeiras universidades, como resultado do acúmulo de informações 
científicas sobre saúde e higiene dentro dos monastérios. 
Para finalizarmos, ressaltamos a importância da análise das doenças 
nesse período para nos ajudar a compreendê-las nos anos seguintes, 
conhecidos como Idade Moderna. 
TEMA 3 – A SAÚDE PÓS-RENASCIMENTO: ASPECTOS DA IDADE MODERNA 
Neste tópico vamos abordar aspectos da ciência e do tratamento das 
doenças no período pós-Idade Média. Porém, é importante frisarmos que o 
 
 
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processo ocorreu por vários anos, com aumento gradativo da ciência em 
decorrência do enfraquecimento do poder da Igreja Católica. 
Durante nossa discussão falaremos de alguns autores importantes para o 
período. O primeiro que selecionamos foi Girolamo Fracastoro, cuja obra 
intitulada “De Contagione” (1530) abordou a problemática da transmissão da 
sífilis por via sexual. Porém, um ponto forte de sua obra consistiu em analisar os 
condicionantes das doenças, afirmando que estes são diferenciados, o que 
destacou o autor/pesquisador (Batistella, 2007). 
O próximo autor que merece destaque foi o filósofo René Descartes 
(1596-1650), que apresentou aspectos da saúde do homem em duas 
perspectivas. A primeira foi apresentar o corpo humano como máquina, 
utilizando modelos mecânicos para reproduzir a funcionalidade das partes. A 
segunda foi por abordar a questão da relação entre a mente e o corpo físico, 
pois, para ele, constituem-se em processos separados e resultantes de 
diferentes influências dos locais onde as pessoas vivem (Straub, 2005). 
 Antes de apresentarmos nosso último autor, precisamos refletir sobre 
o contexto histórico do período pós-Idade Média até a entrada na Modernidade. 
Segundo os registros históricos, foi no pós-Idade Média que surgiram as 
primeiras diferenciações de classes, com o surgimento da burguesia, que 
possuía bens e recursos (capitais), assim, dominando o comércio e a produção 
de mercadorias em detrimento de uma classe mais pobre, de trabalhadores. As 
relaçõescomerciais suscitaram a “necessidade” da expansão das atividades 
econômicas, favorecendo, assim, o descobrimento de novas terras do Oriente e, 
consequentemente, contato com outros tipos de doenças (Batistella, 2007). 
Com a expansão comercial temos o desenvolvimento de saberes 
técnicos, com a necessidade de conhecimentos sobre a natureza e seus 
elementos, fortalecendo a necessidade da ciência. Assim, surge o racionalismo 
científico, tendo no homem o manipulador da natureza (Sevalho, 1993). 
Outro ponto importante é o surgimento da própria medicina moderna. Com 
o processo de expansionismo europeu foi necessário estudar e diagnosticar 
novas doenças, as tropicais, por exemplo (Morais, 2007). Este fato suscitou mais 
avanços para a medicina. 
Passando para os séculos XVIII e XIX, temos importantes fatos históricos 
que foram responsáveis por mudanças nas sociedades, sendo: o Iluminismo, 
cujo principal enfoque é na racionalidade humana pelo desenvolvimento da 
 
 
9 
ciência; a Revolução Americana com conflitos em suas colônias; A Revolução 
Francesa com ideais que representaram os direitos sociais e as liberdades 
individuais; a Revolução Industrial com o grande desenvolvimento tecnológico; 
o avanço do sistema capitalista e a dissidência socialista (Mazetto, 2008). 
 Ainda no século XVIII, os matemáticos franceses foram os pioneiros na 
divisão das cidades por estratos com a finalidade de análise de problemas 
sociais e de saúde, coletando informações que foram utilizadas na elaboração 
de bancos de dados de saúde. Este fato é importante devido às possibilidades 
de manuseio dos dados por diferentes atores. 
Chegamos ao nosso último autor de destaque nesse tópico, o Finke 
(1792), que publicou a obra Versuch einer allgemeinen medicinish-praktischen 
Geographie (Ensaio de uma Geografia Geral Médico-Prática) propondo uma 
divisão da Geografia Médica em três perspectivas, sendo: Geografia das 
doenças, Geografia da Nutrição e Geografia da atenção médica. Fink propôs a 
elaboração de informações cartográficas sobre as doenças e seus tratamentos 
(Mazetto, 2008). 
Para finalizarmos este tópico falaremos do surgimento da medicina social, 
no final do século XVIII, iniciada na Europa e passando a evidenciar aspectos 
culturais e socioeconômicos como indicadores de saúde. No entanto, aspectos 
pontuais podem ser elencados em determinados países. O primeiro é a 
Alemanha, com um sistema de gestão administrativa central para a atuação dos 
médicos; na França, temos o planejamento urbano, priorizando a limpeza das 
cidades; na Inglaterra, surgiu a “lei dos pobres”, direcionada aos trabalhadores 
a partir da vacinação e, assim, ocorrer a manutenção do trabalho (Batistella, 
2007). 
Com base nos fatos que apresentamos ficou evidente a influência do 
mercado e do capital no desenvolvimento da ciência e, também, em problemas 
relacionados à qualidade de vida e saúde das pessoas. 
TEMA 4 – AS TEORIAS SOBRE AS DOENÇAS: DO SÉCULO XIX AOS DIAS 
ATUAIS – PARTE 1 
Nos aproximando dos últimos tópicos desta aula poderemos encontrar 
mais informações sobre avanços no tratamento das doenças e sua relação com 
o fortalecimento da Geografia Médica. Para tanto, passaremos a evidenciar fatos 
históricos a partir do século XIX. 
 
 
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Assim como apresentamos nos tópicos anteriores, a exploração de novas 
terras sempre foi um “incentivo” para o desenvolvimento de novas ciências, 
sobretudo aquelas relacionadas à saúde. Este fato se acentua com o 
expansionismo colonial europeu sobre as terras da Ásia e África entre os séculos 
XIX e XX. Neste momento já temos o desenvolvimento de teorias sobre a 
localização das doenças e maior incentivo para a Geografia Médica, devido à 
necessidade do conhecimento das doenças tropicais, das novas terras. 
A exploração de novas terras esteve atrelada às guerras com conflitos por 
várias décadas. Sobre isso, Mazetto (2008) ressalta que os serviços de saúde 
daquele período eram, prioritariamente, destinados aos feridos de guerra, devido 
sua importância para a expansão europeia. 
Ainda no século XIX, devemos ressaltar o uso do microscópio, 
apresentando-se essencial para o estudo das doenças, possibilitando a 
identificação de microrganismos e iniciando a fase conhecida por Era 
Bacteriológica, pelas mãos de dois importantes autores: Louis Pasteur e Robert 
Koch (Batistella, 2007; Johnson; Johnson; Morrow, 2014). 
Iniciaremos pelo Pasteur (1822-1895). Este pesquisador ficou conhecido 
por seus estudos sobre os germes e a proliferação de doenças, levando em 
consideração a ação de micróbios no meio ambiente e, diretamente, no 
organismo humano. Sua teoria mais conhecida foi sobre a geração da vida; 
devemos refletir que no século XIX ainda existiam muitas questões a serem 
respondidas, mesmo que já se aceitasse (havia consenso) que os organismos 
vivos poderiam ser formados a partir de matérias não vivas (teoria da geração 
espontânea). Pasteur contradizia a geração espontânea, afirmando que a vida 
só poderia existir a partir de outra vida. 
É interessante utilizarmos Pasteur como exemplo para reforçar a 
necessidade de comprovação das teorias a partir do teste, com rigor científico, 
já demonstrado naquele período. Straub (2005, p. 7) nos relata como foi o 
experimento dele: 
Para testar a hipótese de que a vida não pode ser formada a partir da 
não-vida, Pasteur encheu dois frascos com um líquido semelhante a 
mingau, aquecendo ambos até o ponto de ebulição para matar 
qualquer organismo presente. Um dos frascos tinha a boca larga, por 
onde o ar poderia fluir com facilidade. O outro frasco também ficava 
aberto, mas tinha um pescoço curvo, impedindo que as bactérias 
presentes no ar caíssem no líquido. Para surpresa dos céticos, nenhum 
crescimento ocorreu no frasco curvo. Entretanto, no frasco com o bico 
comum, microrganismos contaminaram o líquido e multiplicaram-se 
com rapidez. Mostrando que uma solução genuinamente esterilizada 
 
 
11 
permaneceria sem vida, Pasteur abriu caminho para o 
desenvolvimento posterior de procedimentos cirúrgicos assépticos 
(livre de germes). 
Assim, Pasteur contribuiu para o entendimento da geração da vida e 
reforçou o método científico na exploração de novas teorias. 
Prosseguindo, temos o próximo personagem essencial para falarmos da 
Era Bacteriológica: o Koch. Novamente falaremos de experimentos científicos, 
mas desta vez com ratos. Koch utilizou ratos para demonstrar como ocorria a 
transmissão do antraz, em experimento com duração de três dias, tornando-se 
assim, um pesquisador reconhecido. Além desta doença, o autor foi responsável 
pela descoberta de bactérias para outras doenças importantes, como a 
tuberculose e a cólera e, assim, suscitando a discussão e planejamento de ações 
para conter os vetores e a disseminação das doenças (Johnson; Johnson; 
Morrow, 2014). 
A Bacteriologia, a partir dos outros autores apresentados, foi responsável 
por fortalecer a necessidade de planejamento das cidades, investindo em 
saneamento básico e evitando a transmissão de doenças, por exemplo, devido 
a um melhor conhecimento sobre a proliferação das bactérias. Além disso, a 
Bacteriologia também foi responsável pelo surgimento do conceito de 
unicausalidade na disseminação de doenças. 
A unicausalidade significa dizer que apenas um agente ou fator é 
responsável pela doença e deverá ser combatido. Aparentemente nos parece 
estranho esse tipo de afirmação, no entanto, a partir desta teoria ocorreram 
avanços no tratamento das doenças, muitas vezes possibilitando que estas 
fossem previstas e tratadas (Scliar, 2007). 
Ainda no século XIX, precisamos dar destaque para a medicina tropical, 
que foi institucionalizada enquanto disciplina na medicina. Com isso, iniciou-se 
processo de entender relações entre o clima e as doenças, por exemplo, além 
de evidenciar a presença de outros agentes, como os micróbios. Clima e saúde 
é uma dasáreas de estudo dos geógrafos da saúde e bastante promissora. 
Por fim, devemos ressaltar a publicação de Boudin, 1843, intitulada “Essai 
de géographie médicale”, que apresenta o contexto anterior, no qual o clima se 
tornou variável importante para entender a proliferação de doenças; o autor 
ainda elaborou um tipo de carta com a classificação das doenças por 
determinados locais, o que seria útil ao pensarmos sobre o uso e ocupação do 
solo (Mazetto, 2008). 
 
 
12 
Este tópico é extenso e daremos continuidade ao estudo das doenças a 
partir do século XIX no próximo item. 
TEMA 5 – AS TEORIAS SOBRE AS DOENÇAS: DO SÉCULO XIX AOS DIAS 
ATUAIS – CONTINUAÇÃO 
Neste tópico continuaremos a apresentar importantes contribuições para 
os cuidados de saúde e que se relacionam com nossos estudos em Geografia 
da Saúde a partir do século XIX. 
Nosso primeiro destaque consiste no médico John Snow (1813-1858), 
que foi personagem importante na cartografia das doenças. John atuava em 
Londres em 1854, quando ocorria um surto de cólera e já teria ocasionado a 
morte de muitas pessoas. Ao estudar o contexto daquele surto, com o local onde 
mais pessoas estariam doentes, por exemplo, John estabeleceu relação com 
uma bomba de água na Broad Street. Quando a fecharam, automaticamente 
reduziu-se o número de casos da doença, o que fez com que John provasse a 
relação entre a cólera e água contaminada (Scliar, 2007; McLeod, 2000). 
É importante destacarmos também os avanços da microbiologia, com 
estudos que priorizaram o corpo humano, ou seja, ambiente externo. Este fato 
foi considerado o responsável pelo declínio da Geografia Médica, cujo objeto de 
estudo consiste no ambiente externo. Mas, segundo Mazetto (2008), com o 
movimento sanitarista do século XX foi possível retornar aos estudos 
geográficos, pois começaram a se preocupar com o transporte dos 
microrganismos pelos ambientes. 
Foi no início do século XX que se iniciou o processo de elaboração de 
vacinas, devido aos estudos da microbiologia. Este feito foi possível devido aos 
avanços na compreensão da transmissão das doenças e na possibilidade de 
manipular agentes para gerar imunidade ao homem. Várias vacinas foram 
criadas como as da febre amarela, tétano, tuberculose, por exemplo (Batistella, 
2007). 
Avançando um pouco em nossa discussão chegamos aos anos de 1930, 
data importante devido à teoria da Tríade Ecológica, que discutimos 
anteriormente, mas que significa pensarmos a disseminação das doenças 
levando em consideração um sistema formado pelos agentes (vírus ou 
bactérias), o hospedeiro (os vetores que carregarão a doença) e o ambiente; a 
doença significa desequilíbrio neste sistema. Natal (2004) afirma que foi com a 
 
 
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tríade ecológica que a Geografia Médica conseguiu ganhar o destaque que havia 
perdido no período pós-Teoria Bacteriana. 
No ano de 1950, o médico Jacques May se destacou ao apresentar 
resultados de seus estudos em países menos desenvolvidos, onde buscava 
estudar as doenças e as classes sociais, com ênfase nos pobres, que foram 
alvos da exploração colonial. Além disso, May classificava a Geografia Médica 
entre fatores patológicos e geográficos; o primeiro consiste nos agentes, 
hospedeiros e o homem, já o segundo, em aspectos físicos, sociais, biológicos 
e humanos. Segundo Mazetto (2008), as contribuições de May foram 
importantes para a geografia da saúde, pela inclusão das variáveis sociais e 
culturais para analisar a disseminação de doenças, incluindo relações de 
trabalho, hábitos alimentares e religião em suas análises. 
 Prosseguindo, temos o importante autor Josué de Castro, cujas 
publicações são destacadas até a atualidade por trabalhar a questão geográfica 
da fome. A primeira obra que destacaremos foi do ano de 1946 com o título 
“Geografia da fome”. Nesta obra, o autor discutiu temas relacionados ao modelo 
de produção do capital com base nos temas reforma agrária, latifúndios no 
campo e sua exploração do trabalhador, entre outros temas que se relacionam 
com as minorias e a pobreza, que gera fome. Em 1951, o autor publicou a obra 
“Geopolítica da fome”, que se destacou nos estudos das ciências humanas, por 
estabelecer relações entre conflitos socioeconômicos e o surgimento de grandes 
epidemias mundiais. 
Avançando mais em nossa cronologia, chegamos ao ano de 1976, com 
os pesquisadores Levell e Clark, responsáveis pela criação do conceito de 
história natural das doenças. Os autores fizeram críticas ao que se propunha a 
teoria da unicausalidade, afirmando que mais condicionantes devem ser levados 
em consideração no processo de saúde/doença, propondo, assim, a teoria da 
multicausalidade. A multicausalidade nos assuntos de saúde representa levar 
em consideração um conjunto de processos de ordem física, química, biológica 
e socioculturais, por exemplo, que perpassam pelo cotidiano do homem em suas 
relações com si e o meio ambiente (Augusto, 2003). 
Precisamos comentar sobre o ano de 1984, com as contribuições de 
Sorre, mediante sua teoria do Complexo Patogênico. O objeto de estudo de 
Sorre foram as doenças, mas para compreendê-las estudou os tipos de clima e 
a relação entre as atividades humanas (Mazetto, 2008). Para Sorre, as 
 
 
14 
atividades humanas deverão ser divididas entre fatores físicos, biológicos e 
sociais com diferentes elementos que se tornam condicionantes para as 
doenças; o que justifica chamar de “complexo”. Se pensarmos na disseminação 
do vírus da gripe, precisamos levar em consideração as condições climáticas, a 
predisposição humana (biologia) e o modo de vida, ao analisar os locais onde 
ocorrem maiores registros, levando em consideração variáveis 
espaço/temporais. 
Ao inserir variáveis de ordem social, Sorre proporcionou a inclusão delas 
nos estudos de Geografia Médica e, também, foi importante na transição para a 
Geografia da Saúde. Assim, começaram a surgir publicações que envolvem 
aspectos culturais na disseminação das doenças, como o texto de Gesler (1991), 
intitulado The Geography Cultural of Health Care. Nesta obra foi destacada a 
importância da organização social a partir de sistemas simbólicos (culturais) e 
sua relação com as doenças e a cura delas, mediante as “paisagens 
terapêuticas”, termo apresentado por Gesler (Rosenberg; Kathleen, 2005). 
Com os exemplos apresentados até o momento será possível que você 
conseguida estabelecer relações entre o meio e a distribuição das doenças. Nas 
últimas décadas os geógrafos da saúde têm contribuído sobre diversos temas 
que podem ser acessados. 
Por fim, em 2019, iniciou-se a pandemia da Covid-19, trazendo elementos 
geográficos e importantes para compreender a doença e seu impacto. Reflita 
sobre isso! 
NA PRÁTICA 
Considerando a evolução histórica no trato das doenças, pesquise por 
uma doença que era considerada resultante do pecado e explique qual era o 
tratamento executado na Idade Média. 
FINALIZANDO 
No decorrer desta aula foi possível visualizarmos a evolução no trato das 
doenças e sua relação com aspectos geográficos. Iniciamos pela Antiguidade, 
quando as civilizações clássicas deram início ao conhecimento técnico sobre as 
doenças e, mesmo com todas as dificuldades da época, contribuíram para a 
compreensão das doenças e seu impacto nas sociedades. 
 
 
15 
Em seguida, passamos a evidenciar aspectos do tratamento das doenças 
na Idade Média e todo o complexo sistema de crenças que fizeram com que o 
período fosse considerado a Idade das Trevas para a ciência. No entanto, é 
importante termos em mente que a fé consiste em variável importante e bastante 
presente na atualidade para auxiliar processos de cura, além disso, geógrafos 
da saúde têm se dedicado a estudá-la pelo mundo, por ser um fator cultural de 
impacto social. 
Com o terceiro tópico estudamos o período pós-Idade Média, com autores 
que representaram aspectos da saúde das populações naIdade Moderna. Com 
o enfraquecimento dos dogmas da igreja, a ciência ganhou fôlego e possibilitou 
o desenvolvimento de tratamentos e diagnósticos de doenças. 
Os dois últimos tópicos apresentaram o contexto do tratamento das 
doenças e aspectos da Geografia Médica e da Saúde após o século XIX. 
Diferentes teorias e tecnologias foram criadas para avançar na compreensão da 
disseminação de importantes epidemias e, posteriormente, criação de 
medicamentos e vacinas para tratá-las. Além disso, autores daquele período são 
referenciados nos estudos geográficos até a atualidade, devido à sua 
importância para a evolução da ciência. 
Por fim, devemos destacar o século XXI e sua rede de informações on-
line e infinitas possibilidades de obtenção de dados para análises geográficas, 
que geógrafos têm utilizado para elaborar atlas, folders e textos acadêmicos com 
ênfase na Geografia da Saúde. Esperamos que tenha sido possível ilustrar 
alguns fatos sobre a evolução do trato das doenças, mas reforçamos que é 
possível encontrar muitos exemplos de doenças pela história das sociedades 
para seus estudos futuros. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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	A perspectiva Histórica: os lugares e a saúde

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