Prévia do material em texto
GEOGRAFIA DA SAÚDE AULA 2 Prof. Thiago Kich Fogaça 2 CONVERSA INICIAL A perspectiva Histórica: os lugares e a saúde Iniciaremos nossa aula com reflexões importantes para o seu desenvolvimento. Quanto mais longínquo no tempo e espaço, mais difícil se torna a abstração da informação e a consolidação do conhecimento. Este fato foi ressaltado devido à quantidade de datas e autores que estarão presentes neste texto, assim, é sempre importante tentar se imaginar naquele cenário. Como as sociedades são resultantes de seu passado, enquanto período que se foi, mas também como aprendizado, conhecer aspectos históricos da saúde e doença das populações fortalecerá nosso conhecimento sobre a saúde na atualidade. Assim, nossa aula foi dividida para contemplar recortes temporais específicos iniciando-se pela Antiguidade até o início da Idade Média, período muito distante da nossa realidade atual e que se apresenta com riqueza de construções do conhecimento em saúde. Vale ressaltar que você poderá utilizar as tecnologias atuais para conhecer melhor esse período, mediante documentários e filmes. Na sequência, iremos discutir sobre o período da Idade Média no qual a Igreja Católica passou a determinar aspectos do trato das doenças e definir a culpabilidade ao trato espiritual, sendo um período de estagnação para a ciência. Em continuidade, passaremos a identificar aspectos das doenças no período do Renascimento até a Idade Moderna, quando o processo histórico e de questionamento dos dogmas religiosos enfraqueceu o poder da igreja, dando luz aos conhecimentos científicos. Encerrando a análise histórica dos fatos, passaremos a discutir sobre os processos de saúde e doença do século XIX aos dias atuais, para podermos estabelecer um perfil cronológico e refletir sobre os ensinamentos que a história das doenças pode representar. TEMA 1 – AS DOENÇAS NAS CIVILIZAÇÕES CLÁSSICAS Traçar uma linha histórica sobre as doenças e seus impactos é importante para termos consciência do percurso da ciência, geral e, também, mais especificamente, na sua distribuição geográfica, levando em consideração as 3 tecnologias disponíveis para os povos. Se tentarmos imaginar como seria viver na Antiguidade, momento em que o conhecimento sobre as doenças ainda se apresentava inicial (mas era o disponível naquele período), podemos compreender que o modo de vida se apresentava, muitas vezes, como deflagrador de cenários de risco. Precisamos ter em mente que os fatos que serão apresentados nesta aula ocorreram mediante o contexto que se apresentava na Antiguidade. A primeira informação importante consiste na crença das pessoas, pois aquelas sociedades eram movidas pelo conhecimento do seu povo. Há variados registros que apresentam a questão sobrenatural envolvida nas dinâmicas cotidianas. Para compreendermos melhor, vamos supor que uma pessoa que se sentia doente, mas que não havia sofrido acidente (queda, lesão na prática da caça etc.), automaticamente seria tratado como algo sobrenatural, que deveria ser tratado como questão espiritual, por exemplo, com a presença de espíritos malignos ou demônios na Terra (Gutierrez; Oberdiek, 2001; Batistella, 2007). Nesse sentido, é possível identificarmos uma preocupação com espíritos, com mistérios envolvendo os elementos da natureza, como fogo, ar e água, por exemplo, que impactavam na vida daquelas sociedades. Sevalho (1993) argumenta que as doenças nos povos primitivos, aqueles sem a escrita, eram tratadas como algo externo ao corpo, o sobrenatural, e que, desta maneira, não poderiam serem resolvidas pela “mão” do homem. Mediante o contexto apresentado, já evidenciamos a presença de doenças na Antiguidade e que estas eram tratadas dependendo do contexto, no entanto, mais associadas ao sobrenatural. Então, precisamos questionar: quem eram os “médicos” daquele período? Os xamãs, sacerdotes, benzedeiras e curandeiros executavam o tratamento das pessoas doentes. As práticas variavam entre rituais religiosos, uso de elementos da natureza (fogo, terra e plantas, por exemplo). Segundo Batistella (2007, p. 29), os curandeiros realizavam: [...] cânticos, danças, instrumentos musicais, infusões, emplastros (técnica que envolve aquecer a superfície de determinada região do corpo), plantas psicoativas, jejum, restrições dietéticas, reclusão, tabaco, calor, defumação, massagens, fricção, escarificações (técnica que produzia cicatrizes no corpo por meio de objetos cortantes), extração da doença pela provocação do vômito, entre outros recursos terapêuticos. 4 Por fim, além dos elementos apresentados, ainda ocorreu o uso da trepanação, que consistia em fazer buracos no crânio do doente ou morto para que pudessem expulsar os espíritos malignos. Agora que introduzimos nossa discussão, passaremos a evidenciar alguns processos em determinados locais. Primeiro, temos o antigo Egito, onde ocorria predominância dos rituais de oração, mas também com preparação de medicações e magias, relacionadas ao sobrenatural; este fato ocorria porque no antigo Egito acreditava-se que as doenças seriam resultantes do desequilíbrio da existência humana com fatores espirituais. Os autores também nos trazem que foi no antigo Egito (4 mil anos atrás) que se iniciou a preocupação com a higiene pessoal e dos ambientes, como parte do tratamento das doenças (Johnson; Johnson; Morrow, 2014; Straub, 2005). Nos deslocando um pouco do Egito antigo encontramos a região que era conhecida como antiga Mesopotâmia (a partir de 5.000 a.C.) que, também, nos traz indícios de preocupação com a saúde das populações. Com base nos escritos antigos é possível afirmar que aqueles povos se preocupavam com a higiene. Um exemplo consiste na fabricação do sabão para cuidados de higiene pessoal e a construção de sistemas para tratamento de esgoto, como ocorreu na região que hoje pertence ao Iraque (Stone et al., 1979, citado por Straub, 2005). No entanto, essas constatações também ocorreram em outras sociedades daquela região, tendo, por exemplo, os hebreus, assírios e babilônios preocupados com a higiene das populações; além disso, algo bastante importante para o momento histórico consiste na compreensão inicial das relações entre as doenças transmissíveis e o modo de vida, estabelecidos pelo padrão de alimentação, vestuário e “saneamento” (Johnson; Johnson; Morrow, 2014). Verificamos que existia a preocupação com a saúde das populações da antiga Mesopotâmia. Agora, podemos nos questionar sobre como eram tratados os doentes naquela região. Sobre isso, Biggs (2005) nos trouxe informações sobre o tratamento dos doentes, sendo, em sua maioria, na administração de remédios caseiros, preparados por curandeiros com ervas comuns. Além desses curandeiros que administravam medicação, ainda havia aqueles que acreditavam nas doenças de cunho espiritual, ou seja, pessoas com doenças graves deveriam passar por rituais de purificação, baseadas em exorcismos, para eliminar possíveis demônios. 5 Nos deslocando novamente, passaremos a falar sobre a Grécia Antiga e parte dos registros históricos sobre as doenças e seus tratamentos. Foi na Grécia Antiga que surgiu a medicina científica, fato importante para nossos estudos, e ela era dividida no tratamento dos doentes e nos estudos sobre a transmissão das doenças; porém, a segunda ainda esteve muito atrelada ao misticismo, fato que só fui superado com as teorias de Hipócrates. Falaremos sobre Hipócrates, mas antes, precisamos refletir sobre o momento histórico e as tecnologias disponíveis para estudar e teorizar sobre as doenças. Nesse sentido, Hipócrates se tornou referência a partir de sua obra Dos ares, das águas e dos lugares, de 480 a.C., ao conseguir estabelecer relações racionais para explicar a transmissão de doenças, o quese tornou grande feito para o momento histórico. Assim, o modo de vida, relacionado aos elementos da natureza (clima, solo e água potável, por exemplo) e qualidade da alimentação seriam levados em consideração para entender a transmissão das doenças; além disso, a doença foi considerada como um desequilíbrio, baseado em aspectos físicos e racionais (Scliar, 2007; Johnson; Johnson; Morrow, 2014; Straub, 2005). Os escritos antigos ainda trazem a importância de Hipócrates para a expansão colonial da Grécia. Mas podemos nos questionar: de que forma? Ao relacionar as condições do meio ambiente e modo de vida na transmissão das doenças, Hipócrates ressaltou a importância do planejamento e do conhecimento das condições sanitárias, por exemplo, na organização das sociedades. Esses conhecimentos deram suporte na busca de novos locais (Johnson; Johnson; Morrow, 2014). Nossa última parada pela antiguidade será com a Roma antiga. Assim como na Grécia, evidenciaremos o papel de um autor, Sexto Júlio Frontino (40- 104 a.C.), que publicou o texto: De Aquis Urbis Romae (Os aquedutos da cidade de Roma). Em seu texto foi abordada a importância da qualidade da água, cuja obtenção seria por rios, priorizando as necessidades humanas, mas levando em consideração processos de saúde (Rosen, 1994, citado por Batistella, 2007). Outro destaque daquele povoado foi a utilização do banho diário, bastante explorado pelos filmes de época; o banho era utilizado para fins de higiene e/ou terapias. Por fim, destacou-se na Roma antiga a construção de um sistema de encanamentos para esgoto, que em sua concepção, é similar ao que possuímos atualmente, sendo conectado sob as ruas da cidade. 6 Neste tópico evidenciamos alguns exemplos sobre a antiguidade, tendo em vista que os registros históricos são baseados, em sua grande maioria, em relatos dos médicos, no entanto, essenciais para pensarmos a concepção de saúde e doença daqueles povos (Batistella, 2007). Na sequência, passaremos a evidenciar aspectos das doenças na Idade Média. TEMA 2 – IDADE MÉDIA: UM PERÍODO CONFLITANTE O título do segundo tema de nossa aula já serve para chamar a atenção em relação ao período que falaremos. De fato, a Idade Média é também conhecida como a Idade das Trevas para o desenvolvimento científico, sendo dominada pela Igreja Católica. Porém, para que ocorra o fortalecimento da Igreja, deveria ocorrer o enfraquecimento dos outros poderes. Registros históricos nos relatam que esse processo ocorreu quando conflitos políticos começaram a descentralizar o poder do Império Romano, até que este fosse desintegrado. Este fato culminou em vários problemas de ordem socioambiental, afetando diretamente aos serviços de saúde, por exemplo (Johnson; Johnson; Morrow, 2014). Agora, precisamos refletir sobre a estrutura das sociedades e sua dependência de um “poder” (fio condutor) para administrar as atividades em coletividade. Com o declínio do Império Romano, foi a Igreja Católica que passou a assumir a “autoridade” sobre a Europa, influenciando a dinâmica das cidades. Logo, as questões de saúde também seriam afetadas. Segundo os registros históricos, é possível encontrar duas vertentes no trato da saúde da população; a primeira seria a ligação entre a saúde e o pecado, sendo o segundo o responsável pelo surgimento das doenças na população; a segunda vertente, de característica processual, consistia no exorcismo, substituindo os médicos pelos religiosos e o tratamento medicinal pelas orações e penitências, por exemplo (Gutierrez; Oberdiek, 2001). Do ponto de vista prático e da organização das cidades, por exemplo, quais impactos podemos imaginar da influência da Igreja Católica e o sobrenatural na vida das pessoas? A resposta não é simples, mas como já discutimos anteriormente sobre as relações entre o modo de vida (alimentação, recursos naturais, qualidade da água, saneamento) e a disseminação de doenças, já podemos imaginar que o cenário foi complicado. Os registros 7 indicam que a Igreja Católica afastou qualquer resposta racional para as questões de saúde daquelas populações e, ainda mais grave, acusava os cientistas de produzirem blasfêmias, o que representou ataque ao conhecimento científico. Estes fatos ajudam a demonstrar o porquê de a Idade Média também ser considerada a Idade das Trevas para a ciência (Batistella, 2007). Fazendo um parêntese em nossa discussão, devemos atentar para algumas características ainda presentes em nossas sociedades. A relação entre as doenças e a fé permanece em algumas religiões, nas quais o castigo divino ainda pode ser encontrado como justificava para as doenças (Sevalho, 1993); este fato representa a pluralidade cultural atual e não faremos juízo de valor. Retornando ao período da Idade Média, aquelas sociedades sofreram muitos impactos de epidemias de doenças infecciosas, dentre elas a lepra, varíola, tuberculose, sarampo, difteria. Porém, um exemplo expressivo foi o da peste bubônica em 1348, devastando a Europa medieval. Os registros apresentam que a doença matou em torno de 25% da população naquele período, demonstrando a gravidade imposta por ela. Além disso, devido às suas características, passou a ser conhecida como “morte negra”. A doença é resultante da transmissão de bactérias pelas pulgas presentes nos ratos infectados. Quando identificada a doença, o indivíduo passou a ser isolado da população, para evitar maior contágio; esse fato pode estar associado ao uso da quarentena atual (como no caso de doenças transmissíveis) (Batistella, 2007; Johnson; Johnson; Morrow, 2014). Outro fato importante associado à Igreja Católica foi a construção dos primeiros hospitais localizados nos monastérios para o tratamento dos doentes, sobretudo os mais pobres. Segundo Batistella (2007), no final da Idade Média surgiram as primeiras universidades, como resultado do acúmulo de informações científicas sobre saúde e higiene dentro dos monastérios. Para finalizarmos, ressaltamos a importância da análise das doenças nesse período para nos ajudar a compreendê-las nos anos seguintes, conhecidos como Idade Moderna. TEMA 3 – A SAÚDE PÓS-RENASCIMENTO: ASPECTOS DA IDADE MODERNA Neste tópico vamos abordar aspectos da ciência e do tratamento das doenças no período pós-Idade Média. Porém, é importante frisarmos que o 8 processo ocorreu por vários anos, com aumento gradativo da ciência em decorrência do enfraquecimento do poder da Igreja Católica. Durante nossa discussão falaremos de alguns autores importantes para o período. O primeiro que selecionamos foi Girolamo Fracastoro, cuja obra intitulada “De Contagione” (1530) abordou a problemática da transmissão da sífilis por via sexual. Porém, um ponto forte de sua obra consistiu em analisar os condicionantes das doenças, afirmando que estes são diferenciados, o que destacou o autor/pesquisador (Batistella, 2007). O próximo autor que merece destaque foi o filósofo René Descartes (1596-1650), que apresentou aspectos da saúde do homem em duas perspectivas. A primeira foi apresentar o corpo humano como máquina, utilizando modelos mecânicos para reproduzir a funcionalidade das partes. A segunda foi por abordar a questão da relação entre a mente e o corpo físico, pois, para ele, constituem-se em processos separados e resultantes de diferentes influências dos locais onde as pessoas vivem (Straub, 2005). Antes de apresentarmos nosso último autor, precisamos refletir sobre o contexto histórico do período pós-Idade Média até a entrada na Modernidade. Segundo os registros históricos, foi no pós-Idade Média que surgiram as primeiras diferenciações de classes, com o surgimento da burguesia, que possuía bens e recursos (capitais), assim, dominando o comércio e a produção de mercadorias em detrimento de uma classe mais pobre, de trabalhadores. As relaçõescomerciais suscitaram a “necessidade” da expansão das atividades econômicas, favorecendo, assim, o descobrimento de novas terras do Oriente e, consequentemente, contato com outros tipos de doenças (Batistella, 2007). Com a expansão comercial temos o desenvolvimento de saberes técnicos, com a necessidade de conhecimentos sobre a natureza e seus elementos, fortalecendo a necessidade da ciência. Assim, surge o racionalismo científico, tendo no homem o manipulador da natureza (Sevalho, 1993). Outro ponto importante é o surgimento da própria medicina moderna. Com o processo de expansionismo europeu foi necessário estudar e diagnosticar novas doenças, as tropicais, por exemplo (Morais, 2007). Este fato suscitou mais avanços para a medicina. Passando para os séculos XVIII e XIX, temos importantes fatos históricos que foram responsáveis por mudanças nas sociedades, sendo: o Iluminismo, cujo principal enfoque é na racionalidade humana pelo desenvolvimento da 9 ciência; a Revolução Americana com conflitos em suas colônias; A Revolução Francesa com ideais que representaram os direitos sociais e as liberdades individuais; a Revolução Industrial com o grande desenvolvimento tecnológico; o avanço do sistema capitalista e a dissidência socialista (Mazetto, 2008). Ainda no século XVIII, os matemáticos franceses foram os pioneiros na divisão das cidades por estratos com a finalidade de análise de problemas sociais e de saúde, coletando informações que foram utilizadas na elaboração de bancos de dados de saúde. Este fato é importante devido às possibilidades de manuseio dos dados por diferentes atores. Chegamos ao nosso último autor de destaque nesse tópico, o Finke (1792), que publicou a obra Versuch einer allgemeinen medicinish-praktischen Geographie (Ensaio de uma Geografia Geral Médico-Prática) propondo uma divisão da Geografia Médica em três perspectivas, sendo: Geografia das doenças, Geografia da Nutrição e Geografia da atenção médica. Fink propôs a elaboração de informações cartográficas sobre as doenças e seus tratamentos (Mazetto, 2008). Para finalizarmos este tópico falaremos do surgimento da medicina social, no final do século XVIII, iniciada na Europa e passando a evidenciar aspectos culturais e socioeconômicos como indicadores de saúde. No entanto, aspectos pontuais podem ser elencados em determinados países. O primeiro é a Alemanha, com um sistema de gestão administrativa central para a atuação dos médicos; na França, temos o planejamento urbano, priorizando a limpeza das cidades; na Inglaterra, surgiu a “lei dos pobres”, direcionada aos trabalhadores a partir da vacinação e, assim, ocorrer a manutenção do trabalho (Batistella, 2007). Com base nos fatos que apresentamos ficou evidente a influência do mercado e do capital no desenvolvimento da ciência e, também, em problemas relacionados à qualidade de vida e saúde das pessoas. TEMA 4 – AS TEORIAS SOBRE AS DOENÇAS: DO SÉCULO XIX AOS DIAS ATUAIS – PARTE 1 Nos aproximando dos últimos tópicos desta aula poderemos encontrar mais informações sobre avanços no tratamento das doenças e sua relação com o fortalecimento da Geografia Médica. Para tanto, passaremos a evidenciar fatos históricos a partir do século XIX. 10 Assim como apresentamos nos tópicos anteriores, a exploração de novas terras sempre foi um “incentivo” para o desenvolvimento de novas ciências, sobretudo aquelas relacionadas à saúde. Este fato se acentua com o expansionismo colonial europeu sobre as terras da Ásia e África entre os séculos XIX e XX. Neste momento já temos o desenvolvimento de teorias sobre a localização das doenças e maior incentivo para a Geografia Médica, devido à necessidade do conhecimento das doenças tropicais, das novas terras. A exploração de novas terras esteve atrelada às guerras com conflitos por várias décadas. Sobre isso, Mazetto (2008) ressalta que os serviços de saúde daquele período eram, prioritariamente, destinados aos feridos de guerra, devido sua importância para a expansão europeia. Ainda no século XIX, devemos ressaltar o uso do microscópio, apresentando-se essencial para o estudo das doenças, possibilitando a identificação de microrganismos e iniciando a fase conhecida por Era Bacteriológica, pelas mãos de dois importantes autores: Louis Pasteur e Robert Koch (Batistella, 2007; Johnson; Johnson; Morrow, 2014). Iniciaremos pelo Pasteur (1822-1895). Este pesquisador ficou conhecido por seus estudos sobre os germes e a proliferação de doenças, levando em consideração a ação de micróbios no meio ambiente e, diretamente, no organismo humano. Sua teoria mais conhecida foi sobre a geração da vida; devemos refletir que no século XIX ainda existiam muitas questões a serem respondidas, mesmo que já se aceitasse (havia consenso) que os organismos vivos poderiam ser formados a partir de matérias não vivas (teoria da geração espontânea). Pasteur contradizia a geração espontânea, afirmando que a vida só poderia existir a partir de outra vida. É interessante utilizarmos Pasteur como exemplo para reforçar a necessidade de comprovação das teorias a partir do teste, com rigor científico, já demonstrado naquele período. Straub (2005, p. 7) nos relata como foi o experimento dele: Para testar a hipótese de que a vida não pode ser formada a partir da não-vida, Pasteur encheu dois frascos com um líquido semelhante a mingau, aquecendo ambos até o ponto de ebulição para matar qualquer organismo presente. Um dos frascos tinha a boca larga, por onde o ar poderia fluir com facilidade. O outro frasco também ficava aberto, mas tinha um pescoço curvo, impedindo que as bactérias presentes no ar caíssem no líquido. Para surpresa dos céticos, nenhum crescimento ocorreu no frasco curvo. Entretanto, no frasco com o bico comum, microrganismos contaminaram o líquido e multiplicaram-se com rapidez. Mostrando que uma solução genuinamente esterilizada 11 permaneceria sem vida, Pasteur abriu caminho para o desenvolvimento posterior de procedimentos cirúrgicos assépticos (livre de germes). Assim, Pasteur contribuiu para o entendimento da geração da vida e reforçou o método científico na exploração de novas teorias. Prosseguindo, temos o próximo personagem essencial para falarmos da Era Bacteriológica: o Koch. Novamente falaremos de experimentos científicos, mas desta vez com ratos. Koch utilizou ratos para demonstrar como ocorria a transmissão do antraz, em experimento com duração de três dias, tornando-se assim, um pesquisador reconhecido. Além desta doença, o autor foi responsável pela descoberta de bactérias para outras doenças importantes, como a tuberculose e a cólera e, assim, suscitando a discussão e planejamento de ações para conter os vetores e a disseminação das doenças (Johnson; Johnson; Morrow, 2014). A Bacteriologia, a partir dos outros autores apresentados, foi responsável por fortalecer a necessidade de planejamento das cidades, investindo em saneamento básico e evitando a transmissão de doenças, por exemplo, devido a um melhor conhecimento sobre a proliferação das bactérias. Além disso, a Bacteriologia também foi responsável pelo surgimento do conceito de unicausalidade na disseminação de doenças. A unicausalidade significa dizer que apenas um agente ou fator é responsável pela doença e deverá ser combatido. Aparentemente nos parece estranho esse tipo de afirmação, no entanto, a partir desta teoria ocorreram avanços no tratamento das doenças, muitas vezes possibilitando que estas fossem previstas e tratadas (Scliar, 2007). Ainda no século XIX, precisamos dar destaque para a medicina tropical, que foi institucionalizada enquanto disciplina na medicina. Com isso, iniciou-se processo de entender relações entre o clima e as doenças, por exemplo, além de evidenciar a presença de outros agentes, como os micróbios. Clima e saúde é uma dasáreas de estudo dos geógrafos da saúde e bastante promissora. Por fim, devemos ressaltar a publicação de Boudin, 1843, intitulada “Essai de géographie médicale”, que apresenta o contexto anterior, no qual o clima se tornou variável importante para entender a proliferação de doenças; o autor ainda elaborou um tipo de carta com a classificação das doenças por determinados locais, o que seria útil ao pensarmos sobre o uso e ocupação do solo (Mazetto, 2008). 12 Este tópico é extenso e daremos continuidade ao estudo das doenças a partir do século XIX no próximo item. TEMA 5 – AS TEORIAS SOBRE AS DOENÇAS: DO SÉCULO XIX AOS DIAS ATUAIS – CONTINUAÇÃO Neste tópico continuaremos a apresentar importantes contribuições para os cuidados de saúde e que se relacionam com nossos estudos em Geografia da Saúde a partir do século XIX. Nosso primeiro destaque consiste no médico John Snow (1813-1858), que foi personagem importante na cartografia das doenças. John atuava em Londres em 1854, quando ocorria um surto de cólera e já teria ocasionado a morte de muitas pessoas. Ao estudar o contexto daquele surto, com o local onde mais pessoas estariam doentes, por exemplo, John estabeleceu relação com uma bomba de água na Broad Street. Quando a fecharam, automaticamente reduziu-se o número de casos da doença, o que fez com que John provasse a relação entre a cólera e água contaminada (Scliar, 2007; McLeod, 2000). É importante destacarmos também os avanços da microbiologia, com estudos que priorizaram o corpo humano, ou seja, ambiente externo. Este fato foi considerado o responsável pelo declínio da Geografia Médica, cujo objeto de estudo consiste no ambiente externo. Mas, segundo Mazetto (2008), com o movimento sanitarista do século XX foi possível retornar aos estudos geográficos, pois começaram a se preocupar com o transporte dos microrganismos pelos ambientes. Foi no início do século XX que se iniciou o processo de elaboração de vacinas, devido aos estudos da microbiologia. Este feito foi possível devido aos avanços na compreensão da transmissão das doenças e na possibilidade de manipular agentes para gerar imunidade ao homem. Várias vacinas foram criadas como as da febre amarela, tétano, tuberculose, por exemplo (Batistella, 2007). Avançando um pouco em nossa discussão chegamos aos anos de 1930, data importante devido à teoria da Tríade Ecológica, que discutimos anteriormente, mas que significa pensarmos a disseminação das doenças levando em consideração um sistema formado pelos agentes (vírus ou bactérias), o hospedeiro (os vetores que carregarão a doença) e o ambiente; a doença significa desequilíbrio neste sistema. Natal (2004) afirma que foi com a 13 tríade ecológica que a Geografia Médica conseguiu ganhar o destaque que havia perdido no período pós-Teoria Bacteriana. No ano de 1950, o médico Jacques May se destacou ao apresentar resultados de seus estudos em países menos desenvolvidos, onde buscava estudar as doenças e as classes sociais, com ênfase nos pobres, que foram alvos da exploração colonial. Além disso, May classificava a Geografia Médica entre fatores patológicos e geográficos; o primeiro consiste nos agentes, hospedeiros e o homem, já o segundo, em aspectos físicos, sociais, biológicos e humanos. Segundo Mazetto (2008), as contribuições de May foram importantes para a geografia da saúde, pela inclusão das variáveis sociais e culturais para analisar a disseminação de doenças, incluindo relações de trabalho, hábitos alimentares e religião em suas análises. Prosseguindo, temos o importante autor Josué de Castro, cujas publicações são destacadas até a atualidade por trabalhar a questão geográfica da fome. A primeira obra que destacaremos foi do ano de 1946 com o título “Geografia da fome”. Nesta obra, o autor discutiu temas relacionados ao modelo de produção do capital com base nos temas reforma agrária, latifúndios no campo e sua exploração do trabalhador, entre outros temas que se relacionam com as minorias e a pobreza, que gera fome. Em 1951, o autor publicou a obra “Geopolítica da fome”, que se destacou nos estudos das ciências humanas, por estabelecer relações entre conflitos socioeconômicos e o surgimento de grandes epidemias mundiais. Avançando mais em nossa cronologia, chegamos ao ano de 1976, com os pesquisadores Levell e Clark, responsáveis pela criação do conceito de história natural das doenças. Os autores fizeram críticas ao que se propunha a teoria da unicausalidade, afirmando que mais condicionantes devem ser levados em consideração no processo de saúde/doença, propondo, assim, a teoria da multicausalidade. A multicausalidade nos assuntos de saúde representa levar em consideração um conjunto de processos de ordem física, química, biológica e socioculturais, por exemplo, que perpassam pelo cotidiano do homem em suas relações com si e o meio ambiente (Augusto, 2003). Precisamos comentar sobre o ano de 1984, com as contribuições de Sorre, mediante sua teoria do Complexo Patogênico. O objeto de estudo de Sorre foram as doenças, mas para compreendê-las estudou os tipos de clima e a relação entre as atividades humanas (Mazetto, 2008). Para Sorre, as 14 atividades humanas deverão ser divididas entre fatores físicos, biológicos e sociais com diferentes elementos que se tornam condicionantes para as doenças; o que justifica chamar de “complexo”. Se pensarmos na disseminação do vírus da gripe, precisamos levar em consideração as condições climáticas, a predisposição humana (biologia) e o modo de vida, ao analisar os locais onde ocorrem maiores registros, levando em consideração variáveis espaço/temporais. Ao inserir variáveis de ordem social, Sorre proporcionou a inclusão delas nos estudos de Geografia Médica e, também, foi importante na transição para a Geografia da Saúde. Assim, começaram a surgir publicações que envolvem aspectos culturais na disseminação das doenças, como o texto de Gesler (1991), intitulado The Geography Cultural of Health Care. Nesta obra foi destacada a importância da organização social a partir de sistemas simbólicos (culturais) e sua relação com as doenças e a cura delas, mediante as “paisagens terapêuticas”, termo apresentado por Gesler (Rosenberg; Kathleen, 2005). Com os exemplos apresentados até o momento será possível que você conseguida estabelecer relações entre o meio e a distribuição das doenças. Nas últimas décadas os geógrafos da saúde têm contribuído sobre diversos temas que podem ser acessados. Por fim, em 2019, iniciou-se a pandemia da Covid-19, trazendo elementos geográficos e importantes para compreender a doença e seu impacto. Reflita sobre isso! NA PRÁTICA Considerando a evolução histórica no trato das doenças, pesquise por uma doença que era considerada resultante do pecado e explique qual era o tratamento executado na Idade Média. FINALIZANDO No decorrer desta aula foi possível visualizarmos a evolução no trato das doenças e sua relação com aspectos geográficos. Iniciamos pela Antiguidade, quando as civilizações clássicas deram início ao conhecimento técnico sobre as doenças e, mesmo com todas as dificuldades da época, contribuíram para a compreensão das doenças e seu impacto nas sociedades. 15 Em seguida, passamos a evidenciar aspectos do tratamento das doenças na Idade Média e todo o complexo sistema de crenças que fizeram com que o período fosse considerado a Idade das Trevas para a ciência. No entanto, é importante termos em mente que a fé consiste em variável importante e bastante presente na atualidade para auxiliar processos de cura, além disso, geógrafos da saúde têm se dedicado a estudá-la pelo mundo, por ser um fator cultural de impacto social. Com o terceiro tópico estudamos o período pós-Idade Média, com autores que representaram aspectos da saúde das populações naIdade Moderna. Com o enfraquecimento dos dogmas da igreja, a ciência ganhou fôlego e possibilitou o desenvolvimento de tratamentos e diagnósticos de doenças. Os dois últimos tópicos apresentaram o contexto do tratamento das doenças e aspectos da Geografia Médica e da Saúde após o século XIX. Diferentes teorias e tecnologias foram criadas para avançar na compreensão da disseminação de importantes epidemias e, posteriormente, criação de medicamentos e vacinas para tratá-las. Além disso, autores daquele período são referenciados nos estudos geográficos até a atualidade, devido à sua importância para a evolução da ciência. Por fim, devemos destacar o século XXI e sua rede de informações on- line e infinitas possibilidades de obtenção de dados para análises geográficas, que geógrafos têm utilizado para elaborar atlas, folders e textos acadêmicos com ênfase na Geografia da Saúde. Esperamos que tenha sido possível ilustrar alguns fatos sobre a evolução do trato das doenças, mas reforçamos que é possível encontrar muitos exemplos de doenças pela história das sociedades para seus estudos futuros. 16 REFERÊNCIAS AUGUSTO, L. G. S. Saúde e vigilância ambiental: um tema em construção. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, DF, v. 12, n. 4, p. 177– 187, 2003. BATISTELLA, C. Saúde, doença e cuidado: complexidade teórica e necessidade histórica. In: FONSECA, A. F.; CORBO, A. M. D'A. (Orgs.). O território e o processo saúde-doença. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz, 2007, p. 25-50. BIGGS, R. D. Medicine, surgery, and public health in ancient Mesopotamia. Journal of Assyrian Academic Studies, v. 19, n. 1, 2005. GUTIERREZ, P. R.; OBERDIEK, H. I. Concepções sobre a saúde e a doença. In: ANDRADE, S. M. de; SOARES, D. A.; CORDONI JUNIOR, L. Bases da Saúde Coletiva. Londrina: UEL, 2001. JOHNSON, J. A.; JOHNSON III, J. A.; MORROW, C. B. Historical Developments in Public Health and the 21st Century. In: SHI, L.; JOHNSON, J. Novick & Morrow's Public Health Administration, 3 rd. Jones & Bartlett Learning, LLC, 2014, p. 11-31. MAZETTO, F. A. P. Pioneiros da Geografia da Saúde: séculos XVIII, XIX e XX. In: Barcellos, C. (Org.). A Geografia e o contexto dos problemas de saúde. Rio de Janeiro: Abrasco: ICICT: EPSJV (Saúde em Movimento; n. 6), 2008, 384 p. MCLEOD, K. S. Our sense of Snow: the myth of John Snow in medical geography. Social Science & Medicine, n. 50, 2000, p. 923-935. MORAIS, R. H. S. G. A geografia médica e as expedições francesas para o Brasil: uma descrição da estação naval do Brasil e da Prata (1868-1870). História, Ciências, Saúde, Manguinhos, v. 14, n. 1, p. 39-62, 2007. NATAL, D. Fundamentos de Saúde Pública. In: PHILLIPI JÚNIOR, A. et al. Curso de Gestão Ambiental. 1. ed. Barueri/SP: Manole, 2004, p. 332–402. ROSENBERG, M. W; KATHLEEN, W. Remaking Medical Geography. Territoris: Universitat de les Illes Balears, n. 5, 2005, p. 17-32. 17 SEVALHO, G. Uma abordagem histórica das representações sociais de saúde e doença. In: Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 9(3): jul./set. 1993, p. 349-363. SCLIAR, M. História do conceito de saúde. Revista Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, 2007, p. 29-41. SORRE, M. A adaptação ao meio climático e biossocial - geografia psicológica. In: MEGALE, J. F (Org.). In: Max Sorre. Coleção Grandes Cientistas Sociais, n. 46. São Paulo: Ática, 1984. STRAUB, R. Introdução à psicologia da saúde. In: STRAUB, R. Psicologia da saúde. Porto Alegre: Artmed, 2005, p. 21-51. VALENTIM, L. S. O. Sobre a produção de bens e males nas cidades: estrutura urbana e cenários de risco à saúde em áreas contaminadas da Região Metropolitana de São Paulo. Tese (Doutorado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010, 266 p. A perspectiva Histórica: os lugares e a saúde