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O papel da religião nas diferentes sociedades Apresentação Não existe esfera social, cultural, econômica e política que possa se restringir a si. Todas as esferas estão correlacionadas, cofundamentadas e possibilitam o surgimento de um tecido social. É nesse espaço que a religião é inserida e se transforma juntamente com a sociedade e, por sua vez, com o sujeito. A história da religião atravessa a história da humanidade. Afinal, a sociedade atual começou pelas sociedades antigas, deu lugar à sociedade medieval em seus mais amplos contextos, passou pela cisão razão x fé na Idade Moderna e chegou à sociedade tecnológica e digitalizada que se conhece hoje, em que tudo o que existe tem seu duplo virtual, inclusive, a religião. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá as sociedades antigas e as suas religiões politeístas, compreenderá como o espaço geográfico está relacionado ao surgimento das religiões monoteístas e, por fim, entenderá os desafios da religião frente à virtualização das relações. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o papel do politeísmo no desenvolvimento das culturas egípcia, grega e romana.• Contextualizar o surgimento do monoteísmo e a sua relação com o determinismo geográfico.• Caracterizar as novas dinâmicas de expressão religiosa em tempos de conectividade e virtualidade. • Desafio As dificuldades em trabalhar o islamismo no Ocidente têm se intensificado, principalmente, desde 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas americanas foram alvo de ataques terroristas. Desde então, a religião é quase sempre associada ao Estado Islâmico, que é, originalmente, uma organização criada após 2003. Ou seja, o Estado Islâmico surge como resposta aos EUA após a invasão e a guerra do Iraque. Outrossim, vale ressaltar que o conflito tem ligações ainda com as missões americanas no Afeganistão durante a Guerra Fria (1947-1991), que terminou com a dissolução da União Soviética. Tais conflitos entre esses países, entre eles culturais, geraram uma série de conflitos sociais também ao redor do mundo. Políticas xenofóbicas se intensificaram; de outro lado, as reivindicações contrárias às posições imperialistas também se intensificaram, e políticas de tolerância religiosa e cultural também tiveram que ser criadas. Agora, você é um teólogo que presta serviços de aconselhamento para uma empresa editorial que segue valores cristãos e que publica materiais cristãos. Ao necessitarem de um tradutor de árabe, contrataram uma pessoa que pertence à religião islâmica. Você passou a perceber posições xenofóbicas dos outros funcionários que, inclusive, buscam respaldar suas opiniões em argumentos cristãos. Discorra criticamente acerca dessa situação e proponha formas de elucidar os funcionários sobre a intolerância religiosa. Infográfico No mundo existiram diversas crenças e práticas religiosas, profanas, mágicas, sagradas, etc. Independentemente da categorização, ainda hoje a humanidade anseia por um sentido além do real e da objetividade da razão científica. Nesse contexto, pode-se observar tanto a existência de múltiplas religiões quanto o surgimento de novas doutrinas. Neste Infográfico, você verá a diversidade religiosa em relação à quantidade de religiões e de fiéis ao redor do mundo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/299aecfe-eaeb-471b-aefe-185c5cc40808/450118f9-a954-4451-ae7b-254c4074723f.png Conteúdo do Livro A necessidade de uma separação entre religião e Estado se deu efetivamente no Ocidente e também a partir da instauração dos ideais modernos, do projeto de sociedade e de indivíduo da modernidade. Contudo, os diversos registros existentes de sociedades anteriores à formação cultural ocidental comprovam que a religião sempre teve um papel fundamental na organização social, e não somente em relação à explicação da realidade e ao sentido divino da vida. Assim, posteriormente, percebe-se o desenvolvimento religioso de distintas formas: o politeísmo greco- romano e egípcio; o judaísmo e, dessa matriz, o desenvolvimento do cristianismo e do islamismo. Esse desenrolar histórico e cultural, até na atualidade, exerce os seus efeitos. Porém, agora, as religiões enfrentam outros desafios, a virtualização de todas as esferas da vida, inclusive da religião. No capítulo, O papel da religião nas diferentes sociedades, da obra História das religiões, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você compreenderá qual é o papel do politeísmo no desenvolvimento das mais antigas civilizações ocidentais e orientais, verá a correlação entre judaísmo, cristianismo e islamismo no desenvolvimento do monoteísmo e, por fim, entenderá a relação entre corpo religioso e relações digitais. Boa leitura. HISTÓRIA DAS RELIGIÕES Mayara Joice Dionizio O papel das religiões nas diferentes sociedades Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o papel do politeísmo no desenvolvimento das culturas egípcia, grega e romana. Contextualizar o surgimento do monoteísmo e sua relação com o determinismo geográfico. Caracterizar as novas dinâmicas de expressão religiosa em tempos de conectividade e virtualidade. Introdução Desde o surgimento das mais remotas civilizações, a religião é parte da vida de todas as sociedades. Se seguirmos o percurso histórico da religiosidade ocidental, veremos que o desenvolvimento das religiões está relacionado à localização geográfica, ao fenômeno do sincretismo e aos avanços sociais, políticos, econômicos e intelectivos da humanidade. Por exemplo, na Grécia Antiga, a prática religiosa hegemônica era o politeísmo e estava ligada a diversas esferas sociais que influenciaram o desenvolvimento histórico da religião. O mesmo se dá com o judaísmo, que influenciou o cristianismo e também o islamismo. De fato, a história da religião nos possibilita entender os processos de desenvolvimento que determinaram a realidade religiosa contemporânea. Neste capítulo, você vai conferir como as sociedades mais antigas se organizavam em torno de suas crenças e práticas politeístas. Além disso, vai ver como se deu o surgimento das religiões monoteístas e como esses cultos se relacionavam geograficamente. Por fim, vai conhecer a religião no âmbito da expansão virtual das relações. 1 O papel do politeísmo no desenvolvimento das culturas egípcia, grega e romana A religião, nas sociedades egípcias, grega e romana, tinha o politeísmo, a crença em várias divindades, como elemento em comum. A religião, nessas sociedades, fazia parte da vida comum, representando verdadeiras cosmogonias. Assim, estava integrada e interlaçada de forma profunda à cultura comum desses povos. Nas religiões politeístas em geral, é comum que os deuses tenham funções e responsabilidades distintas na narrativa religiosa, de forma que cada qual desempenha seu papel dentro de uma organização de mundo. As religiões politeístas da Antiguidade têm em comum a criação de mitos que explicam a criação e o funcionamento do mundo. Outro ponto importante que toda religião acaba desempenhando é o estabelecimento de padrões de comportamento, de padrões éticos e de costumes que dão forma a uma co- letividade, colaborando com a criação e o desenvolvimento de sua cultura. As religiões, nesse sentido, são capazes de criar a identidade de povos. Na Antiguidade, isso era particularmente relevante: as diferentes crenças e deuses davam unidade aos povos antigos. Além disso, as religiões politeístas cria- vam e/ou fundamentavam a divisão da sociedade em classes ou estamentos, configurando, assim, a justificação para a consolidação de poderes políticos e estruturas de organização social. Outro aspecto comum aos politeísmos egípcio, grego e romano é a inexistência de obras que os sistematizem,organizem e unifiquem, diferentemente do que observamos nos livros sagrados das maiores religiões monoteístas da atualidade. O que conhecemos daquelas religiões se baseia em fontes históricas diversas, havendo variações nos mitos, que não derivam de um só texto unificador. Sobre os politeísmos da Antiguidade, é interessante notar que cada um desenvolveu seus sistemas complexos de mitos, com papéis e responsabili- dades distintos atribuídos a cada um dos deuses. Esses sistemas permitem, inclusive, que se identifique deuses equivalentes em cada uma das narrativas mitológicas. Por exemplo, guardadas as particularidades de cada cultura e mitologia, é possível identificar os deuses Zeus (grego), Júpiter (romano) e Rá (egípcio) como equivalentes, já que são considerados os deuses supremos, líderes dentre os demais. A mesma analogia pode ser feita entre os deuses Hades (grego), Plutão (romano) e Osíris (egípcio), identificados como deuses relacionados à morte e responsáveis pelo mundo “inferior”, ou seja, o mundo dos mortos ou da “vida” pós-morte. O papel das religiões nas diferentes sociedades2 O politeísmo egípcio possui diversas fontes, dentre as quais as principais são os escritos nas paredes de edifícios religiosos, que incluem os templos, as pirâmides e as tumbas funerárias. Outra fonte importante é o chamado Livro dos Mortos, que configura textos escritos em papiros que eram colocados nos túmulos funerários. No Egito, cada cidade ou sede de poder “[...] criava a sua própria cos- mogonia, com o deus local no topo da hierarquia” (ELIADE; COULIANO, 1993, p. 120). A religião perpassava todo o estamento social, ou seja, era impossível separar o religioso/sagrado do civil: os comportamentos e as produções culturais faziam parte de um simbolismo que estava ligado tanto à religião quanto às organizações e aos papéis sociais (BARBOSA, 2013). Assim, o simbolismo e os costumes faziam parte da vida cotidiana, tanto é que os escritos religiosos são encontrados em monumentos, em templos e em tumbas funerárias. Assim, a própria arquitetura dos edifícios possuía uma característica de linguagem simbólica relacionada à religião (BARBOSA, 2013). Dado o arraigamento da religião na cultura, não é possível separar o sagrado do profano quando falamos sobre a civilização egípcia: tudo era sagrado (BARBOSA, 2013). O modo de vida das pessoas, assim como sua morte, fazia sempre parte do sagrado. Tudo estava conectado às divindades. Nesse contexto, as Grandes Pirâmides do Egito, por exemplo, expressam a ligação entre as práticas arquitetônicas e as crenças religiosas, afinal, sua função era religiosa, na medida em que serviam para depositar o corpo mumificado do Faraó, além de outras riquezas e objetos pessoais. As pirâmides eram a morada definitiva do corpo faraônico e de sua vida após a morte. O politeísmo grego, por outro lado, é, provavelmente, a fonte mitológica mais estudada e conhecida no mundo ocidental. A religião politeísta romana teve como principal influência a religião grega, dando nomes latinos aos deuses dessa tradição. O politeísmo romano era também marcado por uma assimilação de crenças de outros povos, como, por exemplo, da civilização etrusca, que vivia ao norte Península Itálica. Do mesmo modo, elementos simbólicos de povos orientais também eram incorporados — as religiões grega e romana antigas admitiam, até mesmo, o culto a deuses outras fés. O principal exemplo desse fenômeno é o culto à deusa egípcia Ísis, adorada tanto na Grécia como em Roma, onde foram construídos, em sua homenagem, templos em diferentes localidades. 3O papel das religiões nas diferentes sociedades Tal qual a religião egípcia da Antiguidade, a religião greco-romana não possui uma única fonte. O principal modelo de representação divina foi dado pelos textos de Homero, poeta da Grécia antiga e autor de Ilíada. A religião apresentada por Homero é chamada de religião pública, em distinção à religião dos mistérios (REALE; ANTISERI, 1990, p. 17). As religiões dos misté- rios se desenvolveram inseridas no quadro geral do politeísmo grego, mas configuram sistemas próprios de crenças. Tratam-se de diversos grupos ou correntes, com maiores ou menores composições, que buscavam um contato mais direto com os deuses, o que fez surgir alguns fenômenos religiosos ao longo da história grega. Segundo a religião pública, a mais conhecida, tudo é divino, de modo que tudo o que ocorre na natureza decorre da intervenção dos deuses (REALE; ANTISERI, 1990). Os raios e relâmpagos, por exemplo, são arremessados por Zeus do Olimpo. Não apenas os fenômenos naturais, mas toda sorte de fatos que acontecem na vida social, como guerras ou secas, são imaginados como decorrentes da atuação dos deuses. A característica mais marcante dos deuses greco-romanos é o fato de serem figuras antropomórficas, isto é, são personificados, possuindo traços e formas humanas. Eles são considerados “[...] forças naturais personificadas em formas humanas idealizadas ou, então, são forças e aspectos do homem sublimados, hipostenizados e aprofundados em esplêndidas semelhanças antropomórficas” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 17). Em resumo, os deuses representam valores. Zeus, por exemplo, representa a justiça; Apolo, a perfeição das formas; Atena, a inteligência e a sabedoria. São “[...] homens amplificados e idealizados, sendo assim diferentes só por quantidade e não por qualidade” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 17). Isso significa que os deuses são, obviamente, poderosos. Entretanto, por possuírem todas as características do ser humano, podem ser benevolentes ou não. Agem tanto por sentimentos nobres quanto por caprichos, sendo capazes de enganar e trair tanto os humanos quanto uns aos outros. Além disso, fazem alianças e favorecerem quem desejam. É importante destacar que não há uma classe de deuses benevolentes e outra de deuses severos. Na realidade, todos os deuses possuem características humanas e agem de modo ambivalente, ora prejudicando pessoas ou povos, ora favorecendo-os. Exemplo disso é a Guerra de Tróia, que, segundo a mitologia, teve origem em uma discórdia entre as deusas Hera, Atenas e Afrodite, o que dividiu o apoio de deuses e deusas entre os dois lados da batalha: alguns buscavam favorecer os gregos; outros, os troianos. O papel das religiões nas diferentes sociedades4 A religião grega da Antiguidade é apontada como um dos elementos que favoreceram o surgimento da filosofia. Essa religião não possuía dogmas e doutrinas sistematizadas, tampouco um grupo religioso responsável por sua preservação. Por isso, havia um grande espaço para o livre pensamento e para a possibilidade de criação de outras formas de explicação do mundo, que encontrariam resistências onde houvesse dogmas ou custódia de dogmas (REALE; ANTISERI, 1990). Os primeiros filósofos, chamados de filósofos da natureza ou pré-socráticos, nada mais fizeram do que buscar a explicação do funcionamento do mundo sem recorrer a concepções míticas. Desse modo, conceberam a organização e o funcionamento do mundo com base em princípios e ideias racionais. Certamente, esse modo de explicação do mundo despertaria grandes resistências caso a sociedade grega admitisse como dogmáticas as explicações sobre a origem e o funcionamento do mundo baseadas nas manifestações e ações das divindades. Os gregos e romanos antigos eram povos cujas visões de mundo estavam atreladas à ação dos deuses, de modo que o misticismo era generalizado em suas sociedades. Assim: Se é cabível falar, quanto à Grécia arcaica e clássica, de ‘religião cívica’, é porque ali o religioso está incluído no social e, reciprocamente, o social, em todos os seus níveis e na diversidade dos seus aspectos, é penetrado de ponta a ponta pelo religioso (VERNANT, 2006, p. 7-8). Nas sociedades gregas e romanas da Antiguidade, havia sacerdotes e sacerdotisas. Entretanto, essas figuras não desempenhavam a função de conservação de dogmas e imposição de exclusividaderitualística e religiosa. Existiam diversos rituais que marcavam casamentos, nascimentos e mor- tes, muitos deles praticados em ambiente doméstico, sem a necessidade de qualquer intervenção sacerdotal. Na Grécia antiga, podiam ser observados diversos rituais em ambiente doméstico. Já em Roma, o culto doméstico era uma prática comum e envolvia diversos outros rituais ligados a casamentos, o que era importante para a demarcação dos clãs e para a união das famílias. Realizavam-se, ainda, sacrifícios de animais e oferendas a deuses protetores das famílias e clãs — de fato, o culto doméstico era central nos lares romanos (ELIADE; COULIANO, 1993). No período imperial, houve um aumento do fervor religioso, particularmente pelo fato de os imperadores acumularem as funções de imperador e chefe religioso: alguns chegaram, até mesmo, a ser divinizados após a morte (ELIADE; COULIANO, 1993). 5O papel das religiões nas diferentes sociedades O sistema religioso greco-romano da Antiguidade, tal qual o da religião egípcia, não produziu livros sacros. Dito de outro modo, tratava-se da reunião de escritos e ensinamentos, mas sem a qualidade de uma escrita ou livro produzido por inspiração ou revelação divina. As riquezas culturais repre- sentadas pelas religiões greco-romanas se expressam de diversos modos. O primeiro são as produções de poemas que narram as histórias das divindades. É possível destacar, também, o surgimento do teatro grego, que se desenvolveu como produto de celebrações religiosas. Essas religiões inspiraram, ainda, a construção de diversos templos, entre os quais é possível citar o Partenon, em Atenas, e o Panteão de Roma. As religiões politeístas dos egípcios, gregos e romanos eram parte da vida comum desses povose e estiveram intrinseca- mente ligadas às culturas dessas civilizações, gerando diversos resultados e produções humanas atrelados a elas. 2 O surgimento do monoteísmo e o determinismo geográfico As duas maiores religiões do mundo são o cristianismo e o islamismo. São religiões monoteístas, isto é, pregam a existência de um só deus. Essas religiões, assim como judaísmo, são chamadas de abraâmicas, pois Abraão é considerado o patriarca a quem Deus teria se revelado. A origem histórica do monoteísmo é difícil de ser reconstituída. O culto a Aton, pregado e imposto pelo faraó egípcio Aquenáton, em, aproximadamente, 1330 a.C., é tido como uma das primeiras experiências monoteístas da história. Entretanto, constituiu, no seio da sociedade egípcia, um fato histórico isolado, pois todo o período que antecedeu o reinado de Aquenáton, bem como o período posterior, foi marcado pelo politeísmo. Ao longo da história, surgiram outras religiões monoteístas que deixaram de ser praticadas ou que são praticadas, contemporaneamente, por minorias religiosas. Exemplo disso é o zoroastrismo, praticado hoje em dia por pequenos grupos do Irã, da Índia e do Paquistão. Dentre as religiões abraâmicas, o judaísmo é a religião monoteísta mais antiga ainda praticada. O islamismo e o cristianismo têm suas origens relacionas ao judaísmo, primeira religião a identificar a figura de Abraão como patriarca. Assim, compreender as origens e a história do judaísmo auxilia no entendimento do surgimento das outras duas religiões monoteístas — as três religiões surgiram na mesma região geográfica: o Oriente Médio. Por determinismo geográfico, entende-se a crença ou concepção de que os seres humanos são influenciados ou determinados a um padrão cultural pelo O papel das religiões nas diferentes sociedades6 local onde nascem e se desenvolvem. Assim, por essa concepção, seria possível afirmar que as religiões monoteístas surgiram com base em um determinismo ou uma influência histórica regional, na medida em que as três (judaísmo, islamismo e cristianismo) surgiram em regiões geográficas muito próximas umas das outras. Para melhor estabelecer uma conexão entre as religiões abraâmicas, é importante analisar o surgimento histórico de cada uma delas. O surgimento do povo judeu remonta ao ano de 2000 a.C. Tal período coincide com os tempos de Abraão, que teria vivido por volta do ano de 1800 a.C., e cujos descentes teriam formado as 12 tribos de Israel. Em aproxima- damente 1000 a.C., Saul introduz a monarquia, e, durante o reinado de Davi, as doze tribos são unificadas. Após, aproximadamente, 300 anos, o reino foi dividido em dois: ao norte, o reino de Israel; ao Sul, o reino de Judá. Ambos os reinos acabaram devastados ou conquistados, respectivamente em 722 a.C. e em 587 a.C. (ELIADE; COULIANO, 1993). Os hebreus, habitantes do reino de Judá, foram exilados na Babilônia e, quando foram autorizados a retornar a sua terra natal, em 539 a.C., passaram a ser chamados de judeus, termo que remonta a suas origens na Judéia. Foi após esse período que o judaísmo, tal como é hoje conhecido, começou a se desenvolver em torno das sinagogas, locais de culto para orar e ler as escrituras sagradas. A crença em um deus único perpassou a história do judaísmo e, como vemos, está na origem da crença monoteísta mais antiga ainda praticada. Historicamente, o cristianismo surge como uma religião intimamente ligada ao judaísmo. Jesus, a principal figura cristã, era, ele próprio, judeu. Desse modo, as doutrinas cristãs têm como base o monoteísmo judaico, de modo que os cinco primeiros livros da Bíblia são aqueles que compõem a Torá, um dos livros sagrados do judaísmo. A formação do cristianismo como religião não foi um processo imediato ou pronto e finalizado com a morte de Jesus, ocorrida por volta do ano 30 d.C. No início, o cristianismo era considerado uma seita judaica separada do judaísmo. O princípio do monoteísmo foi, assim, desde o início, preservado. O apóstolo Paulo tem grande importância para o início da fé cristã, na medida em que fez várias viagens ao mundo greco-romano com o objetivo de espalhar a mensagem de Cristo. Ele também estabeleceu os principais fundamentos do cristianismo, com as suas epístolas. A fé cristã expande-se, primeiramente, entre as populações mais pobres de Roma. Diversos ensinamentos cristãos possuem um potencial político diametralmente oposto à cultura e aos costumes romanos, o que, invaria- velmente, provocou uma intensa perseguição contra os cristãos. Pregava-se, por exemplo, a resignação e o controle sobre as impulsos e desejos pessoais em prol dos ensinamentos religiosos, a igualdade entre todos perante Deus, 7O papel das religiões nas diferentes sociedades a providência divina em favor dos cristãos, a inverdade de todas as religiões praticadas em prol da existência de um único deus. A religiosidade no Império Romano sempre admitiu o politeísmo, absorvendo, inclusive, deuses de outras culturas. A doutrina cristã, ao contrário, prega a incompatibilidade com as demais crenças. A propagação do cristianismo ocorre no seio do Império Romano e, após vários séculos de perseguições, a nova doutrina estabelece-se como religião predominante. Esse fato teve sua máxima expressão com a conversão ao cristianismo do imperador Constantino I em 312 d.C. De fato, além de permitir o culto ao cristianismo, Constantino I passou a adotá-lo como religião oficial do Império. Durante aproximadamente três séculos após a morte de Jesus, a mensagem cristã propagou-se de uma forma que se convencionou chamar de cristianismo primitivo. Nesse período, começa a se construir o que será o Novo Testamento, bem como as principais doutrinas da fé cristã. A era do cristianismo primitivo encerra-se com o Primeiro Concílio de Niceia, uma reunião de bispos cristãos que ocorreu em 325. Pela primeira vez, de modo organizado, reuniram-se au- toridades e decidiu-se sobre os principais dogmas e doutrinas do cristianismo. Apesar dessa organização, até hoje a fé cristã não é um manual de doutrinas únicas. Mesmo dentro da Igreja Católica Apostólica Romana há diversas congregações, e essas diferenças aumentam ainda mais se compararmos o catolicismoà Igreja Ortodoxa ou às atuais formas de protestantismo. Dentre as maiores religiões monoteístas, o Islã é a mais recente. Compreen- der o surgimento do islamismo implica também em compreender a biografia de seu principal profeta: Maomé. Segundo a tradição muçulmana, Maomé nasceu por volta de 570 d. C., em Meca, e trabalhou com um de seus tios, que o criou após o profeta ter ficado órfão. Maomé trabalhou na área comercial, fazendo diversas incursões próximas a Meca, que era, à época, um importante centro comercial e religioso. Já se encontrava, nessa localidade, a pedra negra, que recebia peregrinações anteriores à época de Maomé. Antes do Islã, o mundo árabe era um território tribal marcado pelo poli- teísmo, além do judaísmo arabizado e do cristianismo bizantino (ELIADE; COULIANO, 1993). O islamismo certamente sofreu grande influência do judaísmo e do cristianismo, religiões já existentes. Em toda a Arábia, havia judeus residentes que adotaram os costumes árabes, incorporando-os a sua forma de vida. Também é certo que o cristianismo se expandiu por toda a região, inclusive por meio da conversão de tribos árabes. Foi nesse cenário complexo, de diversas crenças e trocas culturais, que viveu Maomé. Como não poderia deixar de ser, o profeta sofreu diversas influências judaicas e O papel das religiões nas diferentes sociedades8 cristãs. Alguns conceitos islâmicos são bastante similares aos das religiões judaico-cristãs: dentre outros, podemos citar o monoteísmo, a ideia de um deus criador justo e benevolente, a noção da existência de um juízo final e o fato de os seres humanos terem a possibilidade de seguir ou não os mandamentos de Deus. O Corão representa o livro sagrado dos muçulmanos, considerado como a palavra de Deus transmitida pelo arcanjo Gabriel diretamente ao profeta Maomé. O Corão reúne as revelações e mensagens divinas passadas ao profeta. Foi escrito após a morte de Maomé, a partir da reunião de diversos escritos e testemunhos acerca do que ele professara. Assim, “O advento do Alcorão realizava a sua intenção original, que era de abrir aos árabes o acesso à comu- nidade dos ‘povos do livro’, como os judeus e os cristãos, que tinham recebido o Torá e os Evangelhos” (ELIADE; COULIANO, 1993, p. 165). Após as revelações, Maomé passou a pregar em Meca, encontrando grandes resistências políticas por parte das lideranças locais. Contudo, após algum tempo, conseguiu firmar-se como líder religioso e político, conquistando Meca por meio de guerras e acordos diplomáticos — Maomé unificou as diversas tribos e os poderes locais em torno do islamismo. É necessário ressaltar que, apesar das notórias influências judaico-cristãs sobre o islamismo, o cristianismo e o judaísmo são rejeitados pelo Islã como práticas religiosas. De maneira análoga às outras grandes religiões monoteístas, o islamismo prega ser a revelação da palavra divina e a única via legítima de acesso a Deus. A própria descrição histórica do surgimento dessas três religiões revela caracteres comuns a todas elas. O judaísmo tem suas origens nas regiões onde, hoje, localizam-se os Estados de Israel e da Jordânia. Jesus também viveu nessa região, e seus principais discípulos, que o conheceram em vida e foram responsáveis pela primeira grande expansão da doutrina, são provenientes dessa mesma localidade. A influência do judaísmo sobre o cristianismo é evidente, de modo que o cristianismo decorre das crenças principais do judaísmo, sendo inicialmente considerado uma seita judaica. De modo semelhante, o islamismo desenvolveu-se influenciado por várias doutrinas do judaísmo e do cristianismo. É certo, também, que em Meca, localizada na atual Arábia Saudita, onde nasceu e viveu Maomé, havia, à época, grande influência dessas religiões. A doutrina do monoteísmo, da benevolência divina, do juízo final e da incompatibilidade das divindades com a de outras crenças são características comuns às três religiões e decorrem da influência de culturas e doutrinas que já estavam arraigadas naquela região geográfica. 9O papel das religiões nas diferentes sociedades 3 Novas dinâmicas de expressão religiosa em tempos de conectividade e virtualidade Um dos grandes desafi os da atualidade é compreender, dinamizar e utilizar a tecnologia de forma produtiva. Diversas esferas sociais, culturais e econômicas são afetadas pelas facilidades e difi culdades provenientes das novas formas de comunicação e interação. No período considerado pré-tecnológico ou analógico, a comunicação dava- -se de forma presencial. Nesse contexto, as pessoas depositavam seus desejos de realização na convivência, na presença. Hoje em dia, seja no trabalho, em comunidades ou no processo de formação educacional, podemos dizer que a comunicação se dá em outro registro. Para efetivar sonhos, ter convívio social, ter uma formação educacional adequada e, até mesmo, participar de uma comu- nidade religiosa, temos de lidar com a comunicação digital. Por exemplo, com o avanço da crise sanitária que se disseminou pelo mundo a partir do segundo semestre de 2019, com a chamada covid-19, vemos que a virtualidade alterou, ainda mais drasticamente, a forma de nos relacionarmos uma vez estabelecido o distanciamento social como forma de prevenção ao contágio. Vale ressaltar que, a despeito dos aspectos negativos constantemente atribu- ídos ao uso da tecnologia, podemos afirmar que a sociedade atual fundamenta suas práticas e ações por intermédio dela. Outrossim, filósofos como Heidegger, Sloterdijk e Byun-Chul Han, cada um a seu tempo, destacam o desenvolvimento da técnica, que, na atualidade, torna-se tecnologia e estabelece um novo pathos social. Em A questão da técnica (1997), Heidegger argumenta que a técnica foi desenvolvida como forma de “correção”. Tratava-se de se buscar conhecer o mundo por meio de sua redutibilidade. Nesse sentido, a técnica moderna se fundamenta na capacidade humana de criar formas de autoilusão em relação ao domínio sobre o mundo e sobre o sentido do ser. Para Sloterdijk, por outro lado, a modernidade técnica impõe uma série de treinamentos constantes: uma antropotécnica responsável pelo desenvolvimento de habilidades morais, culturais e mentais com vistas a manter a conduta individual, tanto em nível psíquico quanto econômico. Já Han (2017) assume o caráter duplo da técnica em relação às redes digitais: a política se torna um fenômeno de rede, um enxame que não cria corpo; as academias simbolizam a submissão do sujeito ao seu desejo de trabalhar o próprio corpo a serviço das redes e do capital. Segundo estse filósofo, não é necessária a imposição disciplinar do Estado, já que o próprio sujeito quer ser explorado: torna-se criador de conteúdo e oferece suas informações ao sistema. Essas atividades configuram, na realidade, formas de se fazer parte da rede. O papel das religiões nas diferentes sociedades10 Todas essas leituras apontam para os perigos, desafios e benesses da socie- dade tecnológica. No que diz respeito ao fenômeno religioso, não é diferente. Porém, como em outras instituições, há a premissa da inclusão. No âmbito educacional, veem-se diversos programas de promoção e algumas políticas públicas que buscam garantir que os alunos tenham a disponibilidade e a possibilidade de ter acesso aos materiais publicados na internet. Além disso, é preciso que se considere a interação digital entre alunos e professores, já que algumas aulas ocorrem por meio de plataformas digitais. O olhar inclusivo deve sempre acompanhar essas inovações, na medida em que existem realidades sociais, físicas, culturais, biológicas, financeiras e de gênero que estão entrelaçadas a essas tessituras e que, por sua vez, iteram outras construções digital-sociais. Em relação à prática religiosa, existem esses e outros desafios. Uma vez que a religião, em sua dimensão de fé, lida com uma relação entre o espaço social e o subjetivo, ou entre o espaço público e o privado, sua virtualizaçãose estende das comunidades digitais às preces individuais (um exemplo disso são as velas virtuais). O que se observa, a partir da globalização e da democratização do ambiente virtual, é que as práticas religiosas sofreram uma série de alterações. Os diversos espaços simbólicos da rede geram certa autonomia, mas também o enfraquecimento da instituição religiosa tradicional. Muitos fiéis, por exemplo, abandonaram o hábito de ir a um local determinado para exercer sua fé, dei- xando de praticar sua religião por meio da observância de rituais específicos de vinculação ao sagrado. Muito disso deve-se à transposição da igreja às casas. Outro aspecto relevante é que muitas missas, cultos, ritos e outras formas de exercício e manifestação religiosa estão disponíveis através da web. Com isso, chegamos ao campo religioso virtual, que, como diversas instituições análogas, traz uma série de ambiguidades. A primeira característica a ser destacada possui caráter negativo: trata-se da transformação do discurso, dos símbolos reli- giosos e da dimensão sobrenatural milagrosa em materiais de consumo. Podemos traçar um paralelo entre esse fenômeno com práticas de outros períodos da história da religião. Por exemplo, a criação desse mercado virtual guarda certo parentesco com a venda de indulgências durante a Idade Média, o que demonstra que o mercado religioso sempre existiu. Porém, é importante que estejamos atentos às caracterís- ticas próprias desse novo mercado: a facilidade de se comercializar símbolos de fé (imagens de santos, camisetas com temas religiosos, etc.), o acesso a ritos em que há comercialização ou, ainda, a cobrança de dízimos para a manutenção da instituição religiosa física. Contudo, nesse contexto, também ocorrem os golpes, uma vez que a promessa de uma ligação com o sagrado, um acesso milagroso, é anunciada e comercializada, assim como também pode haver a cobrança de dízimos exacerbados. 11O papel das religiões nas diferentes sociedades Partindo de vertentes interpretativas filiadas à obra de Gilles Deleuze, muitos teóricos pensam o fenômeno religioso virtual com base nos conceitos de territo- rialização, desterritorialização e corpo sem órgãos. Cabe ressaltar que, ao passo que os processos de territorialização e desterritorialização se referem à transpo- sição espacial do real para o virtual, o conceito de corpo sem órgãos exige maior atenção em sua mobilização como ferramenta analítica para a compreensão da realidade contemporânea. Quando essa noção é invocada em referência às discus- sões teológicas virtuais, trata-se de considerar, como demonstra Lemos (2002), o ciberespaço como um imenso corpo sem órgãos, um corpo-rede. Esse corpo-rede Cybiôntico, diferentemente da grande rede da televisão, é plural, rizomático, aberto e não centralizado. Isto é, a internet, enquanto espaço de acontecimento, não se segmenta, apesar de se setorizar: tudo acontece ao mesmo tempo e dentro do mesmo campo, de forma plural e aberta. Trata-se de um corpo comunicativo e total, não de um corpo com órgãos, em que cada um órgão tem uma função. É um corpo não dividido, não repartido em órgãos. Nesse contexto, uma das maiores contribuições para se pensar o campo religioso contemporâneo é a obra de Pierry Levy, Cibercultura (1999), em que o autor argumenta que não há comunicação que não seja digitalizada. Para ele, isso é a grande marca de nosso século, de nosso tempo, o que fundamenta uma alteração na concepção clássica de tempo e espaço. Trata-se, portanto, de uma desmaterialização espacial e de um tempo existente na instantaneidade. Esse fenômeno faz com que um entendimento do cenário contemporâneo demande, do ponto de vista etnográfico-antropológico, uma netnografia: uma análise de dados culturais, éticos, comerciais, publicitários e comunicativos que são coletados da rede. De forma mais específica, são necessários estudos sobre a transmutação dos rituais religiosos para o espaço da internet, bem como sobre as alterações decorrentes desse processo. Podemos dizer que o ciberespaço configura uma metáfora do sagrado: é onipresente, é onisciente e demonstra capacidades similares à onipotência. De acordo com Miklos (2012), pode-se falar em uma “midiofagia”, ou seja, uma divinização pelos meios digitais. Nesse sentido, uma das mais impor- tantes características dessa divinização é o fato de se apresentar de forma correlacional: a cibercultura possibilita não apenas a escuta de um líder espiritual e religioso, mas dá voz ao fiel. Aquele que busca a religião por meio das mídias também produz conteúdo simbólico-religioso, o que nos permite dizer que se implica em uma ação, ainda que distante, sem fisicali- dade. A interatividade das instituições, das comunidades e, até mesmo, da O papel das religiões nas diferentes sociedades12 menor partícula social, o indivíduo, alimentam a estrutura do ciberespaço: o homem alimenta e cultiva o próprio homem. Em uma alteração hierárquica dessa monta, a instituição religiosa deixa de ser a única fonte da fé; ela se torna apenas uma dentre as fontes. Em suma, a religiosidade, com a ascensão dos meios de comunicação, impôs uma desterritorialização do espaço físico religioso e uma territo- rialização do espaço virtual. Com isso, os desafios para se manter uma comunidade ou uma instituição religiosa se tornaram distintos. Se, antes, as instituições religiosas encontravam dificuldades em manter os fiéis por motivos existentes desde os primórdios da religião, em distintos contextos, na atualidade, com a digitalização da vida, a dificuldade consiste em disputar o lugar que sempre foi garantido à fé, ou seja, o espaço de acontecimento do sagrado. Ao mesmo tempo, as instituições religiosas nunca tiveram uma expansão tão facilitada do acesso dos indivíduos às suas doutrinas e sacra- mentos. Isto é, as religiões precisam, cada dia mais, lidar com a autonomia e também com a alienação que ocorre nas redes. BARBOSA, M. K. F. O sagrado no Egito antigo. Diversidade Religiosa, v. 3 n. 1, 2013. Dis- ponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/dr/article/view/15376. Acesso em: 24 jul. 2020. ELIADE, M.; COULIANO, I. P. Dicionário das religiões. Lisboa: Dom Quixote, 1993. HAN, B. Sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017. HEIDEGGER, M. A questão da técnica. São Paulo: USP, 1997. (Cadernos de Tradução, 2). LEMOS, A. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002. LEVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. MIKLOS, J. Ciber-religião: a construção de vínculos religiosos no ciberespaço. São Paulo: Ideias & Letras, 2012. REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: PAULUS, 1990. VERNANT, J. Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006. 13O papel das religiões nas diferentes sociedades Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Leituras recomendadas DOBERSTEIN, A. W. O Egito antigo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. LOPES, A. O. D. Natureza dos deuses e divindade da natureza: reflexões sobre a re- cepção antiga e moderna do antropomorfismo divino grego. Kriterion, v. 51, n. 122, p. 377–397, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/kr/v51n122/03.pdf. Acesso em: 24 jul. 2020. PESSANHA, J. G. Peter Sloterdijk: virada imunológica e analítica do lugar. 2016. Tese (Dou- torado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. O papel das religiões nas diferentes sociedades14 Dica do Professor O psicanalista Sigmund Freud dedicou uma parte de sua obra apensar a relação entre religião e psique. Nesse contexto, Freud defende que a partir de nosso contexto patriarcal, moral e político, a religião surge como a representação de um trauma. Assim, o ser humano transfere anseios e frustrações familiares para a sua relação com a natureza, com a sociedade e com os seus atos. Trata-se, nesse sentido, de uma autodefesa, de um paternalismo em detrimento a uma posição responsável. Nesta Dica do Professor, você compreenderá a teoria freudiana acerca da genealogia religiosa e entenderá também como esse trauma se dá e se fixa como sentido social e psíquico. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/a95f025bfec2875d23ed3242d6a88fbd Exercícios 1) As religiões estão ligadas às culturas dos povos, são capazes de definir e/ou influenciar costumes, estabelecer normas de conduta, definir a organização social, entre outros reflexos sociais. Tal fato pode ser observado entre os povos egípcio, grego e romano. Sobre as religiões desses povos e a sua relação cultural, assinale a alternativa que contenha a afirmação correta: A) Egípcios, gregos e romanos eram majoritariamente monoteístas, isto é, os seus sistemas de crenças admitiam a existência de apenas um deus. B) Na sociedade egípcia, o Estado era religioso. Ao contrário das sociedades greco-romanas, o Estado era o que chamaríamos hoje de laico. C) As religiões da antiguidade tinham em comum a separação entre os atos da vida civil e as práticas religiosas. D) As religiões greco-romanas admitiam a adoração de outros deuses que não eram tradicionalmente de suas religiões, a exemplo da deusa egípcia Ísis. E) A principal fonte histórica das religiões da antiguidade são os seus livros sacros. 2) A religião da Grécia antiga é, talvez, o sistema mitológico mais estudado no Ocidente. Esse sistema de crenças influenciou profundamente o sistema de crença romano, que assimilou os seus deuses, dando a eles um nome latino. Sobre as características dos deuses gregos, analise as afirmações a seguir: A. Uma característica importante dos deuses gregos era a de que eram figuras antropomórficas. Isto é, B. Os deuses gregos, além de serem personificações de traços humanos, tinham características, pensamentos e ações humanas. Os deuses podiam agir de modo ambivalente, favorecendo ou desfavorecendo os seres humanos. Sobre as afirmações apresentadas e sobre a conjunção explicativa "isto é", assinale a alternativa correta: A) Ambas as afirmações estão corretas, e a segunda exprime uma explicação da primeira. B) Ambas as afirmações são verdadeiras, mas não estabelecem relação entre si. C) A primeira é uma afirmativa verdadeira e a segunda é falsa, por isso não estabelecem relação entre si. D) A primeira é uma afirmativa falsa e a segunda é verdadeira, por isso não estabelecem relação entre si. E) Ambas as afirmações estão incorretas, por isso não estabelecem relação entre si. 3) O judaísmo, o cristianismo e o islamismo são três importantes religiões monoteístas que exerceram e exercem grande influência nas sociedades do passado e na atualidade. Sobre essas religiões, analise as afirmações a seguir: A) Essas religiões surgiram historicamente em momentos distintos, podendo ser estabelecida a seguinte ordem de surgimento, da mais antiga para a mais recente: islamismo, judaísmo e cristianismo. B) As três religiões surgiram em regiões geográficas distintas, o que explica a predominância geográfica distinta de cada uma delas na atualidade. C) O judaísmo, o cristianismo e o islamismo têm em comum, entre outras características, o fato de terem surgido na mesma região geográfica e as doutrinas do monoteísmo e do juízo final. D) Além do judaísmo, cristianismo e islamismo, não há outras religiões monoteístas que ainda são praticadas no mundo. E) O judaísmo e o cristianismo são chamados de religiões abraâmicas, pois têm Abraão como o seu patriarca, a quem Deus teria se revelado como único, figura análoga a Maomé para o islamismo. 4) A digitalização da vida apresenta desafios para as mais distintas esferas. De escolas a empresas, de relações familiares a relações comunitárias, a Internet passou a ocupar um espaço que antes podia ser problematizado a partir da presença. Nesse sentido, Pierre Levy defende que o espaço virtual é: A) Para Levy, o ciberespaço é centralizador. B) Para Levy, o ciberespaço é desfragmentário. C) Para Levy, o ciberespaço é ineficaz. D) Para Levy, o ciberespaço é outro tempo. E) Para Levy, o ciberespaço é um espaço vazio. 5) A sociologia, em seu surgimento, ocupou-se da religião para entender o fenômeno religioso a partir de uma possibilidade epistemológica. Desses estudos surgiu a antropologia, que se ocupa, em grande parte, de pensar a cultura. Nesse sentido, a antropologia se depara com um novo contexto, o da era digital. Assinale a alternativa correta: A) O grande desafio da antropologia é compreender a religião de modo universal. B) O grande desafio da antropologia é problematizar a cultura religiosa individual. C) O grande desafio da antropologia é compreender as religiões da atualidade. D) O grande desafio da antropologia é traçar uma atualização etnográfica da religião. E) O grande desafio da antropologia é compreender os fenômenos tecnológicos. Na prática A fé é um dos alicerces de muitas pessoas em situações difíceis. Desde 2019, as pessoas vêm enfrentando um grande desafio emocional, social, econômico, político, cultural e sanitário: a pandemia da Covid-19. Nesse contexto, as Igrejas, tais como outros estabelecimentos que promovem a aglomeração de pessoas, foram fechadas temporariamente para evitar o contágio da doença. Assim, as instituições têm, incontornavelmente, que lidar com a expansão on-line e as dificuldades de acesso. Na Prática, você acompanhará o trabalho de Rafael, um teólogo que trabalha na paróquia de sua cidade e que enfrenta os desafios de promover a palavra de Deus em meio à pandemia. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/5c6d7a44-466f-4053-b916-c78461e8f48b/022d5b06-1dd0-4c94-b033-28369a205f48.png Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Uma análise da sociedade do cansaço Byung-Chul Han tem trazido importantes reflexões sobre o modo de vida contemporâneo digital. Nesse contexto, pensar a sociedade é pensar as relações digitais em seus três aspectos: positivo, diferencial e negativo. Conheça um pouco mais sobre o argumento do filósofo coreano acerca da virtualidade das relações. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Pensando sobre tradição, religião e política no Egito contemporâneo Quando se fala do Egito no Ocidente, dedutivamente este é associado à sua religião antiga, a politeísta. Porém, o cenário egípcio contemporâneo é pouco conhecido ocidentalmente. Entenda um pouco mais sobre as relações entre política, tradição e religião na contemporaneidade egípcia. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O homem Moisés e a religião monoteísta Assim como foi trabalhado nesta Unidade de Aprendizagem, Freud teceu importantes contribuições acerca da religião enquanto fenômeno psíquico. Nesse contexto, aprofunde um pouco mais acerca da teoria freudiana sobre a figura de Moisés e o surgimento do monoteísmo. https://www.youtube.com/embed/v2u0cUzagJ4 https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/view/2175-7984.2017v16n36p347/35108 Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.acheronta.org/acheronta3/moises.htm