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31UNIDADE I História e Cultura Africana WEB Apresentação do link: Canal Revisão. Tráfico Negreiro. Apresentação de Pirula. Tópicos abordados: Os africanos na formação do Brasil, para além da escravidão; História do tráfico de pessoas escravizadas na África, e da África para a América; O predomínio português e brasileiro no mercado atlântico de escravos; O processo de escravização da perspectiva de um africano (Mahommah Gardo Baquaqua); As experiências e as estraté- gias para a conquista da liberdade. Link do site: https://www.youtube.com/watch?v=TjcQTVLQDF0 Apresentação do link: Canal Nerdologia. A Origem da Escravidão no Brasil. Apre- sentação e Roteiro de Felipe Figueiredo. Tópicos abordados: A origem da escravidão nas sociedades agricultoras; As primeiras sociedades escravagistas na antiguidade; A escravi- dão como prática durante a Idade Média; A escravidão árabe e europeia; A escravidão no continente africano; A escravidão moderna no Oceano Atlântico e seu caráter econômico e racial; A escravidão do Atlântico como fenômeno novo e incomparável aos demais tipos de escravidão. Link do site: https://www.youtube.com/watch?v=qXBmkswwRfw https://www.youtube.com/watch?v=TjcQTVLQDF0 https://www.youtube.com/watch?v=TjcQTVLQDF0 https://www.youtube.com/watch?v=qXBmkswwRfw https://www.youtube.com/watch?v=qXBmkswwRfw 32UNIDADE I História e Cultura Africana [1] Vide link na referência bibliográfica. [2] Idem 1. [3] ALENCASTRO: 2000. [4] BRANDI: 2000. [5] Importante destacar que árabes e muçulmanos não são a mesma coisa. Árabe se refere a um povo que surgiu na península arábica, onde hoje está a Arábia Saudita e muçulmano é o seguidor da religião islâmica. [6] Palavra inglesa referente a escravo. [7] Bula papal redigida no dia 18 de Junho de 1492 pelo Papa Nicolau V. [8] Assunção: 2004. [9] LARA: 1988. [10] Idem 9. [11] LARA: 1988. [12] Esse acontecimento inspirou o cineasta Steven Spielberg a produzir o filme Amistad. [13] Entenda-se aqui cristianismo como catolicismo, uma vez que o cristianismo protestante não era permitido no Brasil até o início do século XIX, mesmo assim, após a permissão de culto protestante no Brasil, o mesmo não poderia ser realizado em locais públicos estando limitados a celebrações domésticas. [14] GOMES, Flávio dos Santos; REIS, João José. Liberdade por um fio. São Paulo. Companhia das Letras. 1996. [15] Designação genérica para grupos étnicos nômades guerreiros da África de origem ainda incerta. [16] Fantasma ou espectro no idioma quimbundo. 33 Plano de Estudo: 1. OS AGENTES DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL 2. O MAIOR LEGADO DA ESCRAVIDÃO: O RACISMO Objetivos de Aprendizagem: ● Compreender o processo de abolição no Brasil e evidenciar o movimento abolicionista para destacar que foram os negros que lideraram esse processo e não uma princesa branca ou grupos brancos como se está no imaginário popular. ● Contextualizar o racismo no Brasil como um fenômeno que surge com a escravidão e não acaba com o fim da mesma, pois vários mecanismos de desprezo a população negra no Brasil ocorre durante a nossa história pós fim da escravatura. ● Compreender os dois tipos de preconceitos categorizados por Oracy Nogueira, o de marca e o de origem para que o aluno possa compreender que o racismo se apresenta de diversas formas em diversos locais do mundo ● Estabelecer a importância de entendermos que o Brasil é um país racista e que esse racismo é camuflado, escondido e que se torna evidente em momentos de conflito de forma cruel. UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado Professor Especialista Paulino Augusto Peres 34UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado Olá, caros estudantes. Iniciamos no módulo anterior nossa viagem ao passado para compreendermos como foi a escravidão no Brasil. Neste módulo essa viagem continua. A iniciamos com a abolição da escravatura no nosso país. Em uma de nossas paradas perceberemos que a abolição da escravidão no Bra- sil pouco tem a ver com movimentos brancos. O abolicionismo foi liderado por negros. A princesa Isabel, abolicionista, era apenas uma personagem na abolição, os principais protagonistas eram negros. Em nossa última parada você terá contato com uma comparação realizada pelo sociólogo Oracy Nogueira sobre o preconceito nos Estados Unidos e Brasil, sendo a versão americana nomeada preconceito de origem e no Brasil, preconceito de marca. Espero que você compreenda o racismo como legado da escravidão negra no Brasil durante mais de 300 anos. INTRODUÇÃO 35UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado 1. OS AGENTES DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/05/carta-lei-aurea.jpg Em 2018 tivemos o aniversário de 130 anos da assinatura da lei áurea que encer- rou escravidão de pessoas negras no Brasil. Costumamos ver essa lei nas escolas como se tivesse acontecido de repente com uma assinatura e fim. A Lei Imperial nº 3.353, nome https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/05/carta-lei-aurea.jpg 36UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado oficial da Lei Áurea, foi apresentada à Câmara Geral, atual Câmara dos Deputados, pelo então ministro da agricultura no dia 8 de maio de 1888. Foi aprovada e levada ao Senado que também a aprovou no dia 13 de maio e após foi assinada pela princesa Isabel como regente do Brasil. A luta pela abolição, entretanto, tinha começado bem antes. Os primeiros movimen- tos abolicionistas no Brasil foram sociedades religiosas como os jesuítas que protestavam contra a escravidão de indígenas ainda no século XVII. O modelo de escravidão indígena já estava em declínio, substituído pela escravidão negra africana, mais lucrativa e geralmente aceita. Oficialmente a escravidão indígena foi proibida em 1757 por meio de um decreto do Marquês de Pombal, então Secretário de Estado do Reino de Portugal. Alguns anos depois em 1761 o mesmo Marquês de Pombal decretou o fim da escravidão negra, porém, isso foi implementado apenas na metrópole europeia, territórios na Índia e depois à ilha de madeira. Para a Coroa abolir a escravidão negra na América seria um grande impacto eco- nômico tanto na queda de produção nos territórios quanto no fim do tráfico de pessoas. Em 1822 o Brasil quase foi fundado como um país sem escravidão e teria sido o primeiro país da América do Sul, mas foi a do Chile que aboliu toda forma de escravidão em 1823 logo após a sua independência. Nessa época o abolicionismo já era discutido mundialmente por movimentos abolicionistas ingleses e estados que já haviam abolido a escravidão nos Estados Unidos. Uma das principais figuras da independência e da institucionalização do Brasil foi José Bonifácio que classificava a escravidão como um câncer que destruiu as bases de uma sociedade. Seu desejo, entretanto, não se tornou realidade com as oligarquias defendendo seus interesses de manutenção do regime escravista. No fim das contas o Brasil foi o último país de todo o continente americano a abolir a escravidão. No período regencial o Brasil sofreu pressões do Reino Unido para abolir o tráfico de pessoas. Nesse período surge a expressão “para inglês ver” quando algo é prometido sem intenção de ser cumprido, no caso, “para inglês ver” foram as primeiras leis brasileiras contra o comércio de africanos, como as leis do Sexagenário e Ventre-livre. Na verdade, o efeito foi contrário, os fazendeiros brasileiros passaram a investir cada vez mais nesse comércio e ocorreu um aumento de preços pois temiam que o tráfico poderia acabar a qualquer momento. O comércio atlântico de pessoas negras é progressivamente combatido com forte pressão britânica, incluindo o uso da força contra navios e chega ao fim em 1856. Ele foi 37UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado substituído, porém, pelo comércio interno entre diferentes regiões do Brasil que transforma o comércio de pessoas em um fenômenonacional. A isso soma-se a Guerra do Paraguai, quando milhares de soldados negros retornaram vitoriosos corriam o risco de voltar à condi- ção de escravidão. O movimento abolicionista brasileiro vai ter grande impulso com a soma desses dois contextos. A professora Ângela Alonso no livro flores votos e balas, o movimento abolicionista foi essencial para exercer pressão para exigir pressão e exigir o fim da escravidão no Brasil. A coroa não podia se indispor com as principais oligarquias promovendo a escravidão. Essas por sua vez, tinham interesse na manutenção do escravismo e dominavam políticos marcada pelo voto censitário. Já a revolta contra a escravidão levava repressão com o uso da força, com pouca simpatia popular. Desta forma, o movimento abolicionista, sabendo da falta de popularidade das repressões aumentava sua pressão ao Governo. Algumas figuras abolicionistas são bem conhecidas, como o poeta Castro Alves, a maestrina Chiquinha Gonzaga e o diplomata Joaquim Nabuco, dentre outros. De grande importância para a época foram os abolicionistas negros, que eram usados de exemplo na prática de como as políticas do país não os beneficiavam. Um abolicionista negro famoso foi Luiz Gama, filho de uma negra livre e pai branco. Mesmo tendo nascido livre foi escravizado aos 10 anos de idade, situação que durou até os seus 17. Após ter passado pela escravidão, Luiz Gama conseguiu se alfabetizar e se tornou advogado, defendendo outros negros gratuitamente. Outro exemplo foi José do Patrocínio, filho de um clérigo branco com uma negra escravizada. Patrocínio cresceu como liberto, protegido pelo pai e formou-se em farmácia. Outro abolicionista negro foi André Rebouças, engenheiro que hoje é homenageado com o nome de locais em diversas cidades brasilei- ras. Em comum os três atuaram como jornalistas, escrevendo panfletos e sátiras e criando jornais abolicionistas para colocar a sociedade brasileira contra a escravidão. O fim da escravidão no Brasil foi um processo demorado que sofreu resistência e foi consequência de pressão popular com diversos movimentos organizados e manifestações culturais e sociais contra o escravismo. Os Estados Unidos têm uma história particular em que a escravidão era legalizada no sul do país e ao norte fora abolida logo após a independência ou era pouco presente e abolida na primeira metade do século XIX. Isso permite compararmos hoje, mais de 150 anos depois do fim da escravidão nos Estados Unidos os contrastes entre as regiões livres e as com escra- vidão. O IDH (índice de desenvolvimento humano) é uma medida comparativa para classificar diferentes regiões pelos critérios de expectativa de vida, escolaridade e renda por pessoa. O IDH nos fornece um parâmetro objetivo sobre o desenvolvimento de cada sociedade. 38UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado No primeiro mapa dos Estados Unidos quanto mais clara a cor do mapa menor o IDH. No segundo mapa vemos onde era e não era legal a escravidão nos Estados Unidos em 1861. Perceba que os antigos estados escravistas são hoje os estados com menor IDH. Também esses estados são os que possuem o menor índice de mobilidade social, onde a chance de alguém melhorar sua condição de vida por seus próprios esforços é menor. Estes estados também estão entre os com maior índice de pobreza nos Estados Unidos. Esse exemplo americano é para percebermos que a escravidão gerou o seu legado na sociedade contemporânea, não só nos EUA, mas também em todos os países que tiveram a escravidão como instrumento de mão-de-obra em seu território, entre ele o Brasil. Esse legado da escravidão e seus modelos de sociedade autoritária e de economia pouco liberal dura até hoje, inclusive no Brasil. 39UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado 2. O MAIOR LEGADO DA ESCRAVIDÃO: O RACISMO “Não é de bom tom puxar o assunto da cor”, pois, afinal de contas, “em casa de enforcado não se fala em corda”. Oracy Nogueira A desigualdade social é um fenômeno mundial na sociedade contemporânea e é reflexo da má distribuição de renda. Não é novidade para ninguém que o Brasil é um país onde muitos têm muito pouco e poucos têm muito. Hoje estamos entre os dez países entre os mais desiguais do mundo. Metade da população é negra, mas mesmo assim, o negro tem cinco vezes mais chances de ser analfabeto que um branco. Oracy Nogueira, em sua obra “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem” analisa o racismo através de um olhar sociológico e se orienta no sentido de desvendar o estado das relações entre os componentes brancos e negros da população brasileira[1]. O autor faz uma análise entre o racismo no Brasil e nos Estados Unidos da América a partir de análises sociológicas e antropológicas e utiliza como método os tipos ideias de Weber. Ele apresenta em seus estudos que Estados Unidos e Brasil representam dois tipos de situações raciais, o de origem e o de marca. Analisando as obras brasileiras sobre o assunto, percebe-se que muitos tentaram negar ou subestimar o preconceito racial existente no nosso país. Até mesmo hoje em dia é possível ver essa ideia. Nas redes sociais existe uma enxurrada de argumentos racistas, 40UNIDADE II O Negro no Brasil: Abolição e seu Legado mas, também é possível ver a negação do racismo em livros como é o caso do livro “Não somos racistas” de Ali Kamel, atual diretor geral de jornalismo da Rede Globo. Essa ideia de Kamel não é novidade na intelectualidade brasileira. Voltando a Nogueira, sua obra aponta também para a intensidade do racismo, onde nos Estados Unidos o racismo era explícito havendo, inclusive, diversas leis que separa- vam brancos e negros na sociedade, já no Brasil, leis racistas também existiram, em menor quantidade e o racismo se apresentou de forma implícita. Desta forma, Nogueira chamou o racismo explícito norte-americano de racismo de origem, e sua versão brasileira, mais implícita de racismo de marca. Entende-se racismo de marca como preconceito de cor, uma vez que está associa- do ao fenótipo[2] do indivíduo, já o de origem está relacionado a um preconceito ligado à genealogia do indivíduo. Primeiro é necessário compreender o preconceito racial como uma disposi- ção (ou atitude) desfavorável, culturalmente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. (NOGUEIRA: 1998). Sendo o racismo uma disposição desfavorável a alguém ou pela aparência ou pela etnia, ou pela cultura, explicaremos esse racismo de duas formas, já anunciadas aqui: 01) quando o preconceito de raça se apresenta em relação à aparência da pessoa, quando toma os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque, é nomeado como racismo de marca, mas; 02) quando apenas a suposição de que este indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito, denomina-se, racismo de origem. A atuação entre essas duas formas de racismo é diferente. O preconceito de marca se apresenta com o desprezo direcionado àquele que sofre o preconceito, enquanto que o de origem é marcado pela exclusão total dos membros do grupo atingido, no caso aqui especificado, dos negros. Isto é, no Brasil, cujo preconceito é o de marca, conforme Oracy Nogueira, um negro teria dificuldades em participar de certo grupo, como por exemplo, um clube recreativo. Os representantes do clube, normalmente de classe média, brancos se manifestam contrários à sua admissão, entretanto, se esse indivíduo de pele negra contrabalançar a suposta desvantagem da cor da pele apresentando vantagens inegáveis como superioridade intelectual, diploma de curso superior, boa profissão e boa condição econômica, além de outras qualidades, pode ser aceito mais facilmente, abrindo-lhe uma exceção.