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ATOS E EVANGELHOS AULA 1 Prof. Marlon Ronald Fluck 2 CONVERSA INICIAL EVANGELHOS E ATOS DOS APÓSTOLOS Nesta disciplina pesquisaremos os Evangelhos e Atos dos Apóstolos. Em uma primeira abordagem apresentaremos uma introdução aos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e as tendências interpretativas desses três evangelhos. Introdução aos Evangelhos sinóticos Na geração posterior ao apóstolo Paulo, a Igreja tratou de dar forma aos quatro evangelhos para edificar sua fé baseada na identidade entre o Cristo exaltado e o Jesus terreno e crucificado. A história das tradições, o caráter literário e o caráter teológico desempenharão então um papel relevante na constituição dos quatro evangelhos (Childs 2011, p. 269). A partir da década de 1920 surgiu o consenso de que os evangelhos não são biografias no sentido historiográfico atual da vida de Jesus. Sua intenção se adequava mais à dimensão querigmática como testemunhos de fé, formas de proclamação primitiva sobre a salvação em Cristo, construídas a partir tradição oral. (CHILDS, 2011, p. 270). A Igreja cristã reconheceu desde o início haver apenas um evangelho, mesmo que ele fosse visto a partir de quatro ângulos distintos: o evangelho segundo (e não de) Marcos, ou segundo cada um dos quatro evangelistas. Nos primeiros séculos depois de Cristo, aliás, Marcos quase não era mencionado. Ele era visto como um sintetizador de Mateus. Desde o século XIX, no entanto, a tradição sinótica geralmente tem sido estudada a partir da ótica da primazia cronológica de Marcos. Mais de 97% das palavras de Marcos encontram paralelo em Mateus; mais de 88%, em Lucas. Por isso, faz mais sentido pensar que Mateus e Lucas apropriaram-se de grande parte do material de Marcos, expandindo-o com seus próprios dados, do que imaginar que Marcos abreviou Mateus e/ou Lucas com a omissão de quantidade tão grande de material. (...) Marcos é o termo médio entre os três. (Carson; Moo; Morris, 1997, p. 37) Os estudos atuais partem dessa primazia cronológica de Marcos, enquanto nos primeiros séculos depois de Cristo este evangelho quase não era mencionado. Nos treze primeiros séculos, somente três comentários sobre 3 Marcos foram escritos. Até o século XIX, ele não era valorizado, tendo-o apenas como um resumo de Mateus. Somente no século XX isso mudou. (COOK; FOULKES, 1990, p.11). A teoria mais seguida advoga a existência de uma fonte comum, que tem sido intitulada “Q” (de “Quelle”, palavra alemã que significa “fonte”). A opinião da maioria é que Q representa uma tradição ou grupo em particular dentro da diversificada história do cristianismo palestinense da primeira geração. A relação deste grupo com o que se tornou o cristianismo tradicional não é clara. Para alguns estudiosos, Q representa o movimento original de Jesus, que continuou com o estilo de vida de Jesus e crítica social após sua morte, pelos discípulos de Jesus que não afirmaram a ressurreição e não viam significado salvífico em sua morte, e que estavam alienados do que se tornou a igreja cristã. Outros estudiosos consideram Q como uma expressão fé cristã, dentro da emergente igreja primitiva, que tinha outros documentos – kerigmáticos, e mais cristológicos e eclesiológicos – de modo que construir uma “comunidade Q” com base em um documento hipotético é uma aventura histórica. Alguns argumentam que a história e o caráter da “comunidade Q” podem ser correlacionadas com as camadas presumidas em Q, de modo que a história da comunidade que o produziu pode ser construída em pormenores. Outros estudiosos concordam que o grupo ou os grupos por trás de Q estavam provavelmente em desenvolvimento, mudando a comunidade, mas que os detalhes desta história não podem ser construídos. Assim, embora a maioria concorde que Q lança luz sobre o cristianismo palestinense/movimento de Jesus pré-70, a metodologia e os resultados são muito controversos. Teologia? Podemos falar de uma “teologia de Q”? A opinião da maioria: podemos, mas os numerosos estudos chegam a conclusões divergentes, especialmente quanto ao fato de que Q pressupunha a teologia kerigmática da morte/ressurreição de Jesus, que se torna dominante ou representa uma alternativa a essa teologia. Parece estar claro, porém, que os mestres que compilaram/compuseram Q, consideraram Jesus como o Filho do Homem, que tinha exercido a autoridade divina durante seu tempo na terra, que tinha apresentado a interpretação definitiva da vontade de Deus por sua exposição da Torá, que tinha sido elevado até o céu e que voltaria em breve para julgar o mundo, por esta norma. (Boring, 2016, p. 912-913). Os teóricos do surgimento dos evangelhos partiam da compreensão que eles não surgiram de um esboço da vida ou do ministério de Jesus, mas sim da proclamação de que Jesus era o Cristo, sendo que eles refletem ocasiões e necessidades diversas da parte dos seus leitores. As investigações em torno da fonte “Q” nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) aparecem nas discussões do final do século XIX até os anos 1930. (Childs, 2011, p. 271-273). O que se definiu, no entanto, é que Mateus e Lucas conheciam a fonte “Q”, mas Marcos não (Boring, 2016, p. 913). 4 Há, portanto, inter-relações entre os textos escritos dos evangelhos, especialmente entre Mateus, Marcos e Lucas, os chamados sinóticos. Mesmo que haja teorias do século XIX que defendam que “nenhum dos evangelistas estava ciente do trabalho dos outros”, todos eram dependentes de coleções de fontes. No entanto, há uma interdependência literária dos Evangelhos (Boring, 2016, p. 875). Agostinho já defendia que os evangelistas usaram seus predecessores. Marcos era, então, visto como abreviador de Mateus, e Lucas como utilizador dos dois. (Boring, 2016, p. 877). Eusébio, bispo de Cesareia, mencionou Papias, que havia escrito por volta do ano 110 d.C., como o primeiro a mencionar Marcos como autor do evangelho, que não tinha conhecido Jesus, mas que havia sido discípulo de Pedro. Alegou que Marcos havia ouvido de Pedro aquilo que relatou sobre Jesus. (Eusébio, 2008, p. 92) Marcos contém mais vocábulos semitas do que qualquer um dos outros três evangelhos. O autor explicou costumes e tradições judaicas, bem como usou latinismos e expressões que transcreveu ao grego koinê. A probabilidade é que o evangelho tenha sido escrito entre os anos 65 e 69 d.C., não sendo claro se foi redigido em Roma ou na região da Galileia. Ele teceu os episódios que descreve em narração contínua, apressada, um tanto entrecortada, se valendo de ganchos para amarrar as seções que compõem o texto. (Cook; Foulkes, 1990, p. 22-24). Marcos quer que seu escrito ajude a esclarecer algumas tensões existentes na realidade das comunidades cristãs, quais sejam: a contradição entre a divindade e humanidade de Jesus Cristo; a contradição entre o Jesus vitorioso e o Cristo da cruz; a contradição entre ensino ortodoxo e discipulado vivencial; a contradição entre a religiosidade centrada na igreja e a missão voltada para o mundo. Marcos apresenta o Jesus do caminho, que várias vezes se detém para trazer uma mensagem, e ele ensina mais pelos seus atos do que através de palavras, o que contrasta com a forma de escribas e fariseus agirem. As igrejas têm de entender que o caminho do discipulado passa pela cruz, pois o Jesus crucificado é que é o Senhor da Igreja. (Cook; Foulkes, 1990, p. 29-30). Hoje se tem a convicção de que Marcos está “mais próximo do estilo oral”, incluindo expressões próprias do aramaico (Boring, 2016, p. 880), a língua falada nas casas. Por outro lado, em Marcos não aparecem relatos das aparições de Jesus após sua ressurreição, enquanto em Mateus e Lucas elas aparecem. O 5 grego de Marcos também não é sofisticado. (Boring, 2016, p. 881-883). O aramaico é tido como língua corrente no tempode Jesus na Palestina, sobretudo na Judeia. As palavras de Jesus têm um pano de fundo aramaico. (Jeremias, 1977, p. 22-23). Muitos teólogos do século XIX se surpreenderam ao perceber o pequeno papel desempenhado pelo Jesus terreno na teologia de Paulo. Os quatro evangelhos vão apresentar tradições do Jesus histórico no contexto da promessa sobre o Messias apresentada no Antigo Testamento. Assim sendo, cada evangelho expõe de maneira surpreendentemente distinta a relação do Cristo exaltado com o Jesus terreno, e o faz a partir de uma perspectiva teológica diversa. Marcos acentuou o mistério que rodeava a vida terrena de Jesus, porque os seus discípulos não entendiam que o Filho do homem tivera que sofrer. Mateus sublinhou a presença do Senhor exaltado da Igreja, que cumpriu a promessa dada pela Escritura de um Messias e cujos ensinamentos seguiam vigentes para seus seguidores. Lucas descrevia um Jesus que cumpria a promessa dada no Antigo Testamento de um salvador dos pobres, e cujo espírito seguia sendo o guia para a nascente Igreja dos gentios. João testificou a unidade eterna do Filho de Deus com o Pai, que se traduz na comunhão do Filho com os que permanecem fiéis, no amor, a seus mandamentos. (Childs, 2011, p. 277). O caráter dos evangelhos tem mais a função de testemunho do que de biografias de Jesus. As tentativas de reconstrução de uma biografia histórico- crítica da vida de Jesus geraram confusão entre testemunho e fonte. Os evangelhos visam entender Jesus Cristo como o cumprimento da promessa divina feita a Israel (Childs, 2011, p. 279-282). Evangelhos sinóticos – tendências interpretativas Nesta aula você conhecerá como se desenvolveu a literatura denominada Evangelhos sinóticos. Clemente mostra como a Igreja de Roma adotou Pedro e Paulo como par apostólico. Lucas-Atos é a literatura que consolida ambas as tradições (BORING, 2016, p. 738). Paulo é que estabeleceu as cartas como forma de instrução cristã. As cartas se tornaram, assim, o meio de instrução. A escola joanina conhecia as epístolas e os evangelhos. O apocalipse reflete o sistema epistolar paulino. O corpo paulino foi a primeira literatura do Novo Testamento que surgiu. Os evangelhos ainda não existiam na sua forma escrita. Eles surgiram somente 6 cerca de 20 anos depois. Com isso, localizamos os evangelhos a partir do final dos anos 60 d.C. Clemente (escrita cerca de 96 d.C.) pressupõe uma coleção completa de escritos paulinos. Os evangelhos foram transmitidos primeiramente de forma oral. Os quatro evangelhos são o resultado da tradição oral produzida pela Igreja Primitiva. “A ligação entre Jesus e os Evangelhos é a comunidade cristã que coletou, preservou e interpretou esses materiais como expressão de uma fé vital” (Boring, 2016, p. 855). Vejamos então aspectos centrais no conteúdo dos evangelhos sinóticos e que estão presentes nos três primeiros evangelhos: TEMA 1 – REINO DE DEUS “Rei” (Basileús), no mundo grego, denomina o rei legítimo, diferindo da ideia de usurpador (Túranos). A ideia de rei redentor se vincula à fé no Messias. Todos os governantes terrenos são reis, mas não são divinos. Os filhos do reino são colocados acima dos reis terrenos, se bem que vão ser obrigados a comparecer perante eles (Mt 10.18). Cristo é rei dos judeus no Novo Testamento (Mt 3.2; Mc 15.2), o rei prometido a Israel (Mt 27.42; Mc 15.32). Entra como tal em Jerusalém (Mt 21.5). (Schmidt, 2003, p. 103) O reino de Cristo não terá fim (Lc 1.33). Deus entregou seu reino a Cristo (Lc 22.29). Os discípulos comerão e beberão no seu reino (Lc 22.30). O ladrão crucificado com Cristo pediu que esse se lembrasse dele quando entrasse no seu reino (Lc 23.42). O reino (Mt 13.43; 25.34; 26.29; Lc 12.32) não surge do esforço humano. Ele pertence aos pobres de espírito (Mt 5.3) e aos perseguidos (Mt 5.10). O reino é conectado com a retidão (Mt 6.33). O termo é usado para designar a soberania real de Deus, aparecendo 27 vezes em Mateus, 13 em Marcos e 12 em Lucas (Jeremias, 1977, p. 54). O reino de Deus não se acolhe com prepotência, mas com a simplicidade de uma criança (Marcos 10.42-45). O evangelho segundo Marcos destaca a conflitividade da mensagem de Jesus. Em todas as referências nos evangelhos sinóticos, O reino é diferente, tal como se faz presente agora mesmo de maneira avassaladora nos sinais que se dão no ministério de Jesus. Neste sentido o reino é a catástrofe cósmica da apocalíptica (Mc 13; 14.25), se bem que Jesus recusa descrever as coisas do fim, rechaça por 7 inaplicável a zombaria dos saduceus (Mc 12.25-26), e não quer dar os sinais que as pessoas pedem (Lc 17.20-21: o reino não vem com sinais espetaculares, senão que está ‘entre’ e ‘no meio’ de nós). Com o reino, Jesus não promete a glória política para Israel, senão a salvação para o mundo. Permanece ainda certo privilégio para Israel (Mt 19.29), porém os judeus não têm um direito particular (cf. Rm 2). O reino não se alcança mediante os ganhos éticos individualistas, senão mediante a participação como membro na comunidade, a qual está amparada pela promessa. Por outro lado, o acesso ao reino não vem – como seria na mentalidade grega – com o exercício espiritual, os êxtases, nem a ascese. As descrições antropomórficas lhe fazem menos violência à majestade supraterrenal de Deus, que a apresentação do reino como uma autoevolução humana. O ponto negativo que o reino é totalmente diferente do mundo é a coisa mais positiva que se pode dizer acerca dele. A realização do reinado de Deus é futura, porém este futuro determina nosso presente. Ao colocar-nos frente a Deus e seu reinado, exige a conversão. Uma resposta de fé nos põe em contato com este reino, o qual vem aparte de nós, e por isso o evangelho é para nós uma alegre notícia. (Schmidt, 2003, p. 105) TEMA 2 – BATISMO, TENTAÇÃO E VOCAÇÃO DE DISCÍPULOS A atividade de João Batista precedeu à de Jesus. Ele se sabia enviado na última hora, antes do juízo iminente. Ele veio pregar a necessidade de batismo de arrependimento. A atividade de João Batista e a proximidade de Qumran levantaram hipóteses da sua relação com os essênios. (Jeremias, 1977, p. 73). João Batista reunia, por meio do batismo de arrependimento, “os disponíveis à penitência para formar o povo escatológico de Deus, para preservá-los do juízo de condenação no Juízo final”. Jesus solicitou o batismo “para se inserir no povo escatológico de Deus”. (Jeremias, 1977, p. 75). João não queria que ninguém tirasse a conclusão de que Jesus também havia vindo ao Jordão para arrepender-se de seus pecados, de modo que imediatamente saiu deste assunto, chamando-o de Cordeiro e Redentor de todos os pecados que há no mundo (Crisóstomo). João tratou de recusar fazer aquilo que Jesus lhe havia ordenado, porque não podia entender que o batismo fosse necessário para Aquele que ele sabia que havia vindo para tirar os pecados do mundo (Cromacio). Jesus veio para acabar com a maldição prescrita pela transgressão da Lei. De modo que Ele, antes de tudo, tinha de cumprir toda a Lei, para acabar com sua maldição (Crisóstomo). Ele, que foi perfeito segundo a Lei (Teodoro de Heraclea), no batismo se identificou com todo o que corresponde à natureza humana (Anônimo). Jesus se identificou livremente com o povo; de outro modo, não teria vindo com o povo a ser batizado por João. De formas que, quando Jesus foi batizado, uma voz, junto ao Espírito, claramente proclamasse sua identidade como o Filho Unigênito (Crisóstomo). O Senhor não foi batizado por sua causa, mas pela nossa, para cumprir toda justiça (Cromacio). O batismo de João era perfeito segundo o preceito da Lei, porém imperfeito enquanto não outorga a remissão dos pecados, que está por chegar. Somente para que o povo estivesse preparado para receber o Perfeito (Teodoro de Mopsuestia). A pomba significa mansidão e reconciliação (Orígenes), afetoe firme lealdade (Teodoro de Mopsuestia). A pomba e a voz só manifestavam a identidade do filho tanto aos olhos como ao ouvido (Hilário). O ensino trinitário está 8 recolhido de forma concisa na voz do Pai referente ao Filho por meio da descida do Espírito Santo (Agostinho). (Simonetti, 2004, p. 95) O início do ministério de Jesus ocorreu com o seu batismo, se inserindo assim como membro do povo escatológico de Deus. Também os seus primeiros discípulos advinham do grupo de João Batista. (Jeremias, 1977, p. 79). No entanto, Jesus não é uma continuação do ministério de João, pois João é um asceta, ao passo que Jesus é um homem aberto ao mundo. João prega: O julgamento está às portas, convertei-vos! Jesus, porém, prega: A basileia de Deus está a irromper-se, vinde vós, que estais cansados e sobrecarregados. O Batista fica no quadro da espera, ao passo que Jesus pretende ser o portador do cumprimento. O Batista ainda se situa no campo da Lei, e com Jesus começa o Evangelho. (Jeremias, 1977, p. 81). O batismo está relacionado à descida do Espírito Santo como uma pomba, ou seja, “manso e sussurrante”. (Jeremias, 1977, p. 86). “Jesus se sabe apossado pelo Espírito por ocasião do seu batismo. Deus o toma para o seu serviço, o equipa e o plenipotência para ser seu mensageiro e o portador do tempo salvífico”. O seu batismo se fez de sua experiência de vocação. Jesus vincula sua autoridade ao batismo de João. (Jeremias, 1977, p. 91) A descida do Espírito Santo sobre Jesus não significa que ele não tivesse ou não conhecesse o Espírito Santo antes. O “Símbolo Batismal”, primeira declaração de fé da igreja primitiva, também chamado de Credo apostólico, o expressa dizendo que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo. A descida do Espírito foi confirmação da filiação divina de Jesus (Mateus 3. 16-17). Em Marcos e Lucas a voz divina declara a filiação a Jesus, enquanto em Mateus isso é dito a todos os presentes no ato batismal. À narrativa sobre o batismo de Jesus se segue, nos evangelhos sinóticos, a história das tentações. Ele é levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado. A narrativa de Marcos 1.12-13, Contém só afirmações que estão cunhadas pela linguagem simbólica bíblica. A) O Espírito “impulsiona” (ekbállei) Jesus para o deserto. O deserto é o lugar da moradia dos espíritos maus (Mt 12.43 par.), mas tem também sentido escatológico: do deserto vem o Messias (Is 40.3). Nele Jesus permanece por 40 dias. Quarenta é número simbólico corrente, que significa o tempo da angústia e da fuga. Durante este tempo Jesus é tentado por Satã. B) Jesus “estava com as feras selvagens” (ên metà tôn theríon). Com isto não se quer descrever p.ex. a agresticidade da paisagem nem o perigo em que Jesus se encontrava, mas trata-se dum tema da imagem do paraíso; em favor disto talvez já fale o eínai metá, que em Marcos significa íntima comunhão (3.14; 5.18; 14.67); também o paralelo de conteúdo 9 em Lc 10.19 vai na mesma linha. (...) o paraíso está reconstituído, o tempo da salvação está a irromper-se. Porque a tentação foi vencida e foi dominado satã, o pórtico do paraíso se reabre. C) Os anjos “lhe serviam à mesa” (diekónoun autô). Também este traço faz parte da imagem do paraíso e só se pode entender a partir dela. Assim como Adão, segundo o Midrash, vivia no paraíso de comida dos anjos, assim também os anjos servem alimento a Jesus. O serviço à mesa pelos anjos é símbolo para a comunhão reconstituída entre Deus e o homem. (Jeremias, 1977, p. 111-112) Enquanto em outras narrativas é o demônio que sai a tentar as pessoas, no caso de Jesus foi ele que foi enfrentá-lo no deserto. A tentação de Jesus serve para nossa instrução. Jesus foi tentado em todas dimensões humanas, visto que ele participou plenamente da condição humana, menos na pecaminosidade. O demônio começa com a tentação de satisfazer o estômago. Por meio deste meio procedimento ele arrojou o primeiro homem, e por esta mesma causa muitos, todavia, sucumbem (Crisóstomo). Seguidamente, o Senhor não mostra debilidade, senão paciência. Enquanto o demônio não se mostra forte, senão orgulhoso (Anônimo). No deserto, o Senhor havia humilhado aos hebreus por meio da fome e os alimentou com maná, para que chegassem a saber que não só de pão vive o homem (Orígenes). Não somente de pão, senão também por meio da Palavra, nos alimentamos para sempre de Deus (Jerônimo). Aquilo pelo que Adão foi tentado, a comida, não chegou a tentar a Cristo (Máximo de Turin). Devemos triunfar sobre o demônio, não por meio dos milagres, senão através da paciência e o sofrimento resignado. Não devemos fazer nada por mera ostentação (Teodoro de Mopsuéstia). O demônio, ao pôr Jesus sobre o pináculo do templo, buscava guiar ao Senhor do mais alto ao mais rasteiro (Hilário). As falsas flechas da própria visão distorcida que o demônio tem em torno das Escrituras se quebram pelo escudo da verdade das Escrituras (Jerônimo). Ao responder ao demônio com as Escrituras, Jesus põe de manifesto que temos de vencer a tentação do demônio por meio da paciência (Crisóstomo). Jesus enfrentou as três tentações: a gula, a vanglória e a avareza. As três recapitulavam a tentação de Adão. Assim se nos ensina a responder com as Escrituras a toda tentação (Gregório Magno). O diabo é subordinado a qualquer propósito que Deus deseja que suceda em sua disposição providencial de todas as coisas (Teodoro de Mopsuéstia). Toda promessa do demônio é intrinsicamente irracional, porque não poderia dar tudo a ninguém a menos que quitasse todas as coisas a todo o mundo, e, se ele quitasse tudo, ninguém o adoraria. O demônio não tem o poder de tentar o povo de Deus quando o deseja, senão somente quando Deus o permite (Anônimo). Quando ao demônio se ordenou que adore ao Senhor e só a Ele, estas palavras estavam em oposição ao que o demônio havia dito previamente ao Salvador: “Se te prostrares e me adorares” (Jerônimo). Assim, o Senhor levou o diabo, o Leviatã, a cair em um anzol (Cromacio). Segundo a disposição divina, nossos anjos bons podem tornar-se invisíveis diante do diabo e deixar- lhe espaço livre em suas tentações para que o homem se exercite moralmente e consiga uma virtude mais sólida (Anônimo). (Simonetti, 2004, p. 103) 10 Jesus foi tentado em todas as áreas que Adão havia sido e venceu sobre as armadilhas do diabo. TEMA 3 – O SEGREDO MESSIÂNICO E OS MILAGRES O reino de Deus é apresentado primeiramente como mistério (Marcos 4. 11 e 12). O mistério é anunciado a todos os seres humanos, mesmo que seja “compreendido somente por aqueles que creem. Todos os homens são incitados a ter fé, mas somente aqueles que respondem realmente podem entender o mistério do Reino” (Ladd, 1985, p. 90). Os milagres de Jesus se multiplicaram. Eles são apresentados como sinais da vocação messiânica de Jesus. Geralmente os milagres incluem a “descrição do sofrimento de alguém, um clamor por ajuda, a reação do operador de milagres a esta reação” (Klein; Blomberg; Hubbard JR., 2017, p. 657). No século XIX, a crença nos milagres foi rejeitada, pois Os especialistas viam as histórias de milagre como mitos, relatos fictícios criados para glorificar e exaltar Jesus e promover a sua divindade. No século XX, os críticos da forma desenvolveram a ideia da desmitologização, buscando a mensagem teológica de uma história de milagre que as pessoas ainda poderiam acreditar e aplicar em uma era científica que tinha descartado o sobrenatural. Em outras palavras, eles procuraram pelo que tinha sobrado depois de eles terem descascado o ‘mito’. Por isso, enquanto Jesus poderia não ter curado pessoas das doenças ou exorcizado demônios, mesmo assim ele capacitou as pessoas a abraçar a cura psicossomática e a rejeitar todas as manifestações do mal que ameaçavam o bem-estar pessoal delas. (Klein; Blomberg; Hubbard JR., 2017, p. 657) Os conservadores não rejeitam os milagres,mas sim tendem a limitá-los aos tempos bíblicos. Se tem reinterpretado, por exemplo, o milagre de Jesus acalmando a tempestade, dizendo que a correta interpretação é que “Jesus ‘acalma a tempestade de nossa vida’, nos capacitando a ter paz em meio às crises. Com essa interpretação o elemento distintamente sobrenatural do relato parece irrelevante!” (Klein; Blomberg; Hubbard JR., 2017, p. 658) À medida que teólogos céticos negam o poder de Cristo, deixa-se de demonstrar “a divindade e a superioridade do Filho de Deus sobre todos os outros objetos de adoração” (Klein; Blomberg; Hubbard JR., 2017, p. 660). 11 TEMA 4 – PARÁBOLAS O Evangelho como gênero literário surgiu como inovação. Evangelhos não são biografias no sentido moderno. Eles não descrevem a fisionomia de Jesus, nem o seu perfil psicológico evolutivo, nem o seu desenvolvimento cronológico. Eles não se encaixam nos padrões literários do mundo helênico. Marcos não está interessado principalmente com a apresentação de uma série de histórias em que se comunica “que tipo de pessoa” Jesus é, mas em contar a história de Jesus de uma forma que seja possível comunicar o ato salvífico de Deus. Jesus aparece em quase todas as cenas nos evangelhos. No entanto, a história não é sobre Jesus em si, mas sobre Jesus como o Cristo, o único através do qual Deus age. Há um sentido real no fato de que os evangelhos não são sobre Jesus, mas sobre Deus. O ato cultual da proclamação do evangelho no contexto do culto cristão distingue-se das bioi, que não foram compostas para esse ambiente e função. (...). Cada unidade da tradição já havia funcionado com seu próprio propósito querigmático e didático de proclamar e instruir. Antes de ser colocada no contexto literário narrativo do evangelho, cada pequena história ou dito funcionou como uma espécie de minievangelho que fez a sua própria afirmação teológica, o que muitas vezes inclui uma perspectiva sobre cristologia e o significado do discipulado. A forma evangelho é uma combinação de pequenas unidades tradicionais, de modo que o evangelho como um todo parece ser um tanto episódico, mas não meramente anedótico. Os episódios não são amarrados juntos aos poucos, mas em termos de temas abrangentes. (...). Embora compostos por autores com perspectivas teológicas e intenções didáticas específicas, não eram criações literárias, no sentido helenístico, por indivíduos que poderiam ser citados pelos nomes. (...). O fato de que os evangelhos eram uma literatura popular não significa que eles cresceram naturalmente a partir da tradição oral. Os evangelhos, começando com Marcos, foram escritos como atos intencionais criativos de autores teológicos que produziram conforme a tradição da comunidade cristã, e não por escritores interessados em vender livros ou em sua própria reputação literária. No entanto, eles não iniciaram o seu trabalho com base nas geralmente disponíveis tradições folclóricas ou na investigação dos arquivos públicos ou cartas privadas e diários, mas com a tradição kerigmática da comunidade cristã. (...). O evangelho narra um segmento de uma linha completa que se estende desde a criação até o eschaton. Isso é diferente de uma biografia. Jesus não é retratado como um “grande homem”, mas como o Cristo. O Cristo é o enviado de Deus no clímax da história para estabelecer o reino de Deus. A história é vista em perspectiva escatológica, mas com o Messias enviado como aquele que cumpre e redime a história. Uma vez que a “vida de Jesus” é retratada como o segmento definitivo da linha histórica da redenção, a história de Jesus não é relatada por completo. Dentro da história, dentro de uma vida, o significado de toda a história é revelado, uma imagem antes da vitória escatológica do reino de Deus. Isso é fundamental para a confissão “Jesus é o Cristo”. O tipo de narrativa adequada a esta confissão é o evangelho. (Boring, 2016, p. 924-925) 12 Jesus contou muitas histórias em forma de parábolas, as quais eram alegorias. Elas ensinam verdades sobre as realidades espirituais. A maioria delas proclamavam elementos do Reino de Deus. É possível traduzir as parábolas em linguagem proposicional. (...) é igualmente adequado considerar a reprodução da parábola numa roupagem moderna para recriar o efeito que possivelmente teve sobre os seus destinatários originais. (...). Para ter o impacto adequado no século XXI sobre uma típica igreja conservadora de um bairro nobre, composta por empresários e de maioria branca, o pregador pode pensar em recontar a história com o homem assaltado como um imigrante africano, o sacerdote como um destacado pastor local, o levita como um cantor gospel famoso e o samaritano como um muçulmano árabe (ou talvez uma lésbica ateia). Esses pregadores que têm uma congregação particularmente elitista e preconceituosa podem também considerar se a fidelidade à Bíblia a esse nível poderia custar o seu emprego e se eles estão preparados para pagar esse preço. (Klein; Blomberg; Hubbard JR., 2017, p. 656) TEMA 5 – CRUZ, RESSURREIÇÃO E APARIÇÕES Nos evangelhos, a mais longa narrativa é aquela que descreve a paixão de Cristo, ou seja, seu sofrimento e morte por nós, como se vê em Mc 14.26- 15.47; Mt 26.30-27.66; Lc 22.29-23.56; Jo 18.1-19.42. Provavelmente era recitado em toda prática de Santa Ceia (Eucaristia) realizada pelos cristãos na igreja primitiva em Jerusalém (Boring, 2016, p. 858). O túmulo vazio e as aparições de Cristo são considerados testemunhos da ressurreição. Não fossem as aparições, o túmulo vazio poderia gerar interpretações confusas. Os discípulos não esperavam que Jesus fosse ressuscitar. Se apenas ocorresse o túmulo vazio, sem qualquer outra ocorrência, ninguém declararia que Jesus era o Senhor e Messias. O túmulo vazio seria insuficiente para gerar a crença na ressurreição e explicar as provas subsequentes. (Wright, 2017, p. 946) Em Lucas 24.41-43 fala-se que Jesus, após sua morte, convida discípulos a comer com ele. Ele tinha, portanto, após sua ressurreição, um corpo sólido. A aparição não é nenhuma alucinação, mas sim manifestação física real. (Wright, 2017, p. 950). A combinação do túmulo vazio e as aparições do Cristo vivo “constituem um conjunto de circunstâncias que é, em si, necessário e suficiente para o surgimento da crença cristã primitiva. Sem esses fenômenos, não podemos explicar por que essa crença veio à existência” (Wright, 2017, p. 956). 13 Chegamos ao final desta aula. Aqui, você aprendeu como se deu o desenvolvimento dos Evangelhos sinóticos no que respeita à mensagem sobre o Reino de Deus; a ênfase no batismo, tentação e vocação de Jesus; o segredo e os milagres; as parábolas; e a cruz, ressurreição e aparições de Jesus Cristo. NA PRÁTICA Os evangelhos acentuam a mensagem do reino de Deus. Os evangelhos sinóticos falam do batismo como indicativo do início do ministério de Jesus, quando o Espírito Santo se manifestou dando testemunho da sua filiação divina, da tentação de Jesus e da vocação dos discípulos. O segredo messiânico foi anunciado, mas poucos creram nele, e os milagres de Jesus aparecem nos evangelhos como sinal da atuação através dele. As parábolas de Jesus ensinam verdades sobre as realidades espirituais, proclamando elementos do reino de Deus. Os evangelhos concluem apresentando a crucificação de Jesus, a ressurreição e as aparições como testemunho da ressurreição de Jesus Cristo. Assim, os evangelhos sinóticos nos apresentam a mensagem de salvação presente na fé em Jesus Cristo. FINALIZANDO Nesta aula, abordamos uma introdução aos evangelhos sinóticos. Fomos assim orientados sobre as tendências interpretativas a respeito dos três primeiros evangelhos. Mateus, Marcos e Lucas nos comunicam a mensagem do reino de Deus concretizado na pessoa de Jesus Cristo. Que este conteúdo precioso nos estimule a continuarmos no seguimento de Jesus, sendo discípulosdele. Vamos aprofundar o enfoque de cada um desses três evangelhos nas próximas aulas. 14 REFERÊNCIAS BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento: história, literatura e teologia. São Paulo: Paulus, 2016. v.2. CARSON, D. A.; MOO, D.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. CHILDS, B. S. Teología bíblica del Antiguo y del Nuevo Testamento. Salamanca: Sígueme, 2011. (Biblioteca de estúdios bíblicos, 134) COOK, G.; FOULKES, R. Comentário Bíblico Hispanoamericano: Marcos. Miami: Editorial Caribe, 1990. EUSÉBIO DE CESARÉIA. História eclesiástica. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2008. JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento: a pregação de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1977. KLEIN, W. W.; BLOMBERG, C. L.; HUBBARD JR., R. L. Introdução à interpretação bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1985. LOHSE, E. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1972. SCHMIDT, K. L. Ekklesía. In: KITTEL, G.; FRIEDRICH, G.; BROMILEY, G. W. (ed.). Compendio del Diccionario Teológico. Grand Rapids: Desafio, 2003. p. 392-396. SIMONETTI, M. Evangelio según San Mateo (1-13). Madri: Ciudad Nueva, 2004. (La Biblia comentada por los padres de la Iglesia, Nuevo Testamento, 1a). WRIGHT, N. T. A ressurreição do Filho de Deus. São Paulo: Paulus, 2017. CONVERSA INICIAL EVANGELHOS E ATOS DOS APÓSTOLOS Nesta disciplina pesquisaremos os Evangelhos e Atos dos Apóstolos. Em uma primeira abordagem apresentaremos uma introdução aos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e as tendências interpretativas desses três evangelhos. Introdução aos Evangelhos sinóticos Muitos teólogos do século XIX se surpreenderam ao perceber o pequeno papel desempenhado pelo Jesus terreno na teologia de Paulo. Os quatro evangelhos vão apresentar tradições do Jesus histórico no contexto da promessa sobre o Messias apresentada no An... cada evangelho expõe de maneira surpreendentemente distinta a relação do Cristo exaltado com o Jesus terreno, e o faz a partir de uma perspectiva teológica diversa. Marcos acentuou o mistério que rodeava a vida terrena de Jesus, porque os seus discípu... O caráter dos evangelhos tem mais a função de testemunho do que de biografias de Jesus. As tentativas de reconstrução de uma biografia histórico-crítica da vida de Jesus geraram confusão entre testemunho e fonte. Os evangelhos visam entender Jesus Cr... Evangelhos sinóticos – tendências interpretativas