Prévia do material em texto
SOCIOLOGIA GERAL SOCIOLOGIA GERAL ALESSANDRO EZIQUIEL DA PAIXÃO Você sabe como nossa sociedade se organiza? Qual é nossa estrutura política, como se dão as relações de trabalho em que estamos ou poderemos estar inseridos? As respostas a essas perguntas podem, certamente, ser dadas pelo senso comum. Contudo, essas respostas não serão consi deradas explicações sociológicas. Afinal, os problemas levan tados pela sociologia não são necessariamente sociais. As questões trazidas por eles são teóricas, construídas com base na análise de aspectos históricos, econômicos, culturais e sociais presentes no nosso cotidiano. Dessa forma, o maior desafio da análise sociológica é com preender a maneira pela qual os vários níveis de experiência humana, processos econômicos, culturais, políticos e tecnológi cos contribuem para a conformação de uma estrutura social. Nesse sentido, você encontrará neste livro as principais noções de Sociologia Geral, explicadas com precisão, clareza e simplicidade. Por ser uma obra prática, acessível e completa, é leitura ideal para ampliar o universo conceitual do aluno e do professor, preparandoos para assumir ativamente sua cida dania na sociedade em que vivemos. Sociologia geral ALESSANDRO EZIQUIEL DA PAIXÃO Série Fundamentos da Sociologia Sociologia geral [Alessandro Eziquiel da Paixão][Alessandro Eziquiel da Paixão] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Série Fundamentos da Sociologia Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Sociologia geral Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1ª edição, 2012 Foi feito o depósito legal. Informamos que é de inteira responsabilidade do autor a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser re pro duzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Ibpex. A violação dos direitos autorais é crime estabe le cido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal. Av. Vicente Machado, 317 – 14º andar Centro – CEP 80420-010 – Curitiba – PR – Brasil Fone: (41) 2103-7306 www.editoraibpex.com.br editora@editoraibpex.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Paixão, Alessandro Eziquiel da Sociologia geral [livro eletrônico] / Alessandro Eziquiel da Paixão. – Curitiba: Ibpex, 2012. – (Série Fundamentos da Sociologia) 2 MB ; PDF Bibliografia. ISBN 978-85-7838-972-7 1. Sociologia 2. Sociologia – Estudo e ensino I. Título. II. Série. 12-14349 CDD-301.7 Índices para catálogo sistemático: 1. Sociologia : Estudo e ensino 301.7 [Conselho editorial] Dr. Ivo José Both (presidente) Dra. Elena Godoy Dr. Nelson Luís Dias Dr. Ulf Gregor Baranow [Editor-chefe] Lindsay Azambuja [Editor-assistente] Ariadne Nunes Wenger [Editor de arte] Raphael Bernadelli [Análise de informação] Adriane Beirauti [Revisão de texto] Filippo Mandarino [Capa] Raphael Bernadelli; Regiane Rosa [Projeto gráfico] Bruno de Oliveira [Iconografia] Danielle Scholtz [Ilustrações] Marcelo Lopes Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Sumário [...][...] Apresentação, 9 Introdução, 11 [[11]] Contexto histórico do aparecimento da sociologia, 15 [[22]] A institucionalização da sociologia: Comte e Durkheim, 41 [[33]] A sociologia de Karl Marx, 79 [[44]] Max Weber e a racionalidade, 113 [[55]] Indivíduo e sociedade, 145 [[66]] A sociologia e a sociedade contemporânea, 173 Considerações finais, 201 Referências, 205 Bibliografia comentada, 211 Gabarito, 213 Nota sobre o autor, 221 Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. “Espera-se do sociólogo que, à medida do profeta, dê respostas últi- mas e (aparentemente) sistemáticas às questões de vida ou de morte que se colocam dia a dia na existência social. E é-lhe recusada a função, que ele tem direito de reivindicar, como qualquer cientista, de dar respostas precisas e verificáveis apenas às questões que está em condições de colocar cientificamente: quer dizer, rompendo com as perguntas postas pelo senso comum e pelo jornalismo.” Pierre Bourdieu (1994, p. 36-37) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta belec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Apresentação [...][...] Este livro traz uma introdução geral ao estudo da sociologia, tanto no que se refere aos conceitos básicos de autores clássi- cos quanto em relação à aplicação desse referencial teórico na interpretação da realidade social. Assim, não é um livro essen- cialmente “teórico”, mas procura dar conta da aplicação dos conceitos vistos. A obra está organizada em seis capítulos. Os quatro primei- ros são mais teóricos. Os outros dois procuram uma leitura sociológica da realidade, sem, no entanto, deixar de levantar conceitos teóricos importantes. O capítulo 1 aborda o surgimento da sociologia no âmbito do contexto histórico da sociedade capitalista e do advento da ciência como forma de explicação do mundo. O capítulo 2 apresenta a institucionalização da sociologia como ciência, analisando o seu caráter positivista. Também são abordadas nesse capítulo as obras de Auguste Comte e Émile Durkheim. Especialmente em relação a este último, são anali- sados alguns dos seus principais conceitos e contribuições para a sociologia. O capítulo 3 traz a obra do alemão Karl Marx e sua aná- lise do capitalismo. Nesse capítulo, é trabalhada a concepção Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1010 materialista da história, o que possibilita compreender a aná- lise que Marx faz do capitalismo e buscar os elementos para entender o seu conceito de ideologia. No quarto capítulo é abordada a obra de Max Weber, partin- do de seu conceito de ação social para se chegar à sua concep- ção metodológica: a sociologia compreensiva e a construção de tipologias. Aqui também é vista a análise que Weber faz da sociedade capitalista. O capítulo 5 apresenta alguns conceitos básicos em socio- logia: socialização, cultura, instituições sociais e identidade. Apesar de parecer um capítulo estritamente teórico, os concei- tos apresentados são problematizados e analisados à luz da ex- periência cotidiana. O capítulo 6 proporciona uma análise sociológica da socie- dade contemporânea, com base na categoria trabalho. Podemos afirmar que esse capítulo constitui um “exercício sociológico”, pois recupera vários pontos vistos anteriormente. O “exercício sociológico” realizado no último capítulo apresenta a mesma lógica das atividades apresentadas no final de cada capítulo, principalmente as atividades de reflexão e as atividades aplicadas. Nessas atividades é importante o compar- tilhamento das experiências, mesmo com aqueles que não são colegas de estudo. Um debate com uma pessoa sobre determi- nada atividade proposta pode apresentar outras problematiza- ções e mesmo esclarecimentos de pontos de vista. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Introdução [...][...] Este livro não almeja fazer de seu leitor ou leitora um sociólogo ou socióloga. Sua pretensão é, sim, a de iniciá-lo(la) no estudo da sociologia. Esta aparece, muitas vezes, como uma “ciência” dominada por todos. Afinal de contas, quem não sabe como a família se organiza na nossa sociedade, qual é nossa estrutura política, como se dão as relações de trabalho em que estamos ou poderemos estar inseridos? Essas respostas podem, sim, ser dadas pelo senso comum. Contudo, não serão consideradas explicações sociológicas. Isso porque os problemas levantados Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1212 pela sociologia não são necessariamente sociais. As questões trazidas por ela são problemas teóricos, construídos com base na análise de aspectos históricos, econômicos, culturais e so- ciais, presentes no nosso cotidiano. E as respostas dadas tam- bém levam em conta esses mesmos aspectos considerados nas problematizações. Dessa forma, o maior desafio da análise sociológica é com- preender a maneira pela qual os vários níveis de experiência humana, processos econômicos, culturais, políticos e tecnoló- gicos contribuem para a conformação de uma estrutura social específica. Os temas abordados nas próximas páginas não se consti- tuem em respostas “últimas e sistemáticas” sobre a estrutura social. Longe dessa pretensão, o que intentamos é levar o leitor ao desenvolvimento de uma perspectiva sociológica, ao mesmo tempo que procuramos apresentar conceitos e problematiza- ções básicas da análise e explicação sociológicas. Alguns aspectos também merecem ser destacados em rela- ção ao histórico da disciplina de sociologia no sistema educa- cional brasileiro. No Brasil, o ensino de sociologia passa por várias fases. O primeiro momento que é possível identificar ocorre no início da República, quando o ensino de sociologia era vinculado à disciplina de moral. Nos anos 1930, a criação dos cursos superiores de Ciências Sociais na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo e a fundação da Universidade de São Paulo dão maior fôlego à disciplina. Ocorre o desenvol- vimento de pesquisas e a preocupação de formação de quadros intelectuais para o desenvolvimento do país. Também passa a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1313 existir uma preocupação com a formação de professores secun- dários (principalmente para a escola normal). Nesse período, o que dá força à sociologia é a sua presença na escola normal como disciplina que poderia retirar a educação de um estado pré-científico. A Reforma Capanema (1942), no governo Vargas, retira a obrigatoriedade da disciplina, e ela desaparece dos currículos das escolas secundárias, permanecendo nos cursos superiores. Nas décadas de 1950 e 1960, com a democratização, a sociolo- gia volta a fazer parte dos currículos, para novamente ser reti- rada no período da ditadura militar. Com a abertura política nos anos 1980, a sociologia volta timidamente a aparecer como disciplina escolar. Entre 1997 e 2001, tramitou uma proposta de inclusão da sociologia como disciplina obrigatória no ensino médio. Contudo, o então presidente Fernando HenriqueCardoso vetou a aprovação da lei, usando como argumentos a falta de profissionais da área, o aumento dos gastos públicos que a in- clusão da disciplina acarretaria e o fato de que os conteúdos em questão já estavam contemplados de alguma maneira em outras disciplinas. O capítulo mais recente desse histórico é a inclusão da so- ciologia, assim como da filosofia, entre as disciplinas obrigató- rias em todas as séries do ensino médio, o que abrirá um amplo mercado de trabalho para a atuação docente na sociologia. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Contexto histórico do aparecimento da sociologia [Capítulo 1][Capítulo 1] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1616 A sociologia pode ser definida, de forma simples, como a ciên- cia que estuda as sociedades. Ela é produto da tentativa de com- preensão da realidade social com base na ciência e na razão. Contudo, os homens sempre formularam explicações sobre a sua realidade, que nem sempre eram baseadas na ciência. Neste capítulo estudaremos como foi construída a tentativa de visão científica da realidade social. Mas, além de ser produto dessa tentativa científica de compreensão da realidade, a sociologia é também produto de transformações históricas. E esse será o segundo ponto abordado no capítulo. Com base nesses dois pontos – a abordagem científica da reali- dade e as transformações históricas –, construiremos ao longo do caminho um conceito de sociologia. [1.1] [1.1] A construção de uma abordagem A construção de uma abordagem científica da realidadecientífica da realidade A sociologia é uma ciência relativamente recente. Comparada com outras ciências, podemos dizer que é uma das mais novas que existem. A tentativa de compreender cientificamente a realidade social começa a se desenvolver a partir de fins do século XVIII, na Europa. É nesse tempo que surgem os pri- meiros trabalhos que começam a apresentar uma perspectiva sociológica, como resultado de uma sociedade que passava a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1717 sofrer profundas transformações. Mas, antes de falarmos delas, é necessário entender o que significa “compreender cientifica- mente a realidade social”. O que parece óbvio, mas é importante como condição para o surgimento da sociologia, é o uso da ciência para explicar a realidade. É claro que utilizar a ciência para explicar o mundo não é condição apenas para o surgimento da sociologia, mas para todas as ciências. Na nossa sociedade, é muito comum nos valermos dos co- nhecimentos científicos para explicar e compreender a reali- dade que nos cerca. Por exemplo, vemos todos os dias que o Sol nasce de um lado do horizonte, atravessa o céu e se põe do outro lado. O que nossa percepção nos diz é que a Terra fica parada enquanto o Sol se move. Contudo, sabemos que não é o Sol que se move ao redor da Terra, mas a Terra que gira em torno de si mesma e, em última instância, do Sol. Essa resposta ou explicação é a ciência que nos dá, apesar de os nossos sen- tidos nos dizerem o contrário. Ela, em certa medida, contradiz o que percebemos e vemos, mas sabemos que a resposta dada pela ciência é a correta. Quando ficamos doentes, nossa reação pode ser procu- rar um médico, porque é ele o profissional que detém os co- nhecimentos necessários para nos livrar da doença. Contudo, podemos também nos valer de outros procedimentos, como procurar uma benzedeira, fazer uma “simpatia” ou tomar um remédio caseiro. Nesse caso, para enfrentar o problema (do- ença), podemos adotar uma conduta baseada na ciência (ir ao médico), mágica ou religiosa (ir a uma benzedeira ou fazer uma “simpatia”) ou tradicional (tomar um remédio caseiro). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 1818 Assim, nem sempre recorremos à ciência para orientar nos- so comportamento. Muitas vezes usamos outras formas de ex- plicação para compreender os fenômenos que nos cercam. Há algum tempo, era comum ver em algumas casas garrafas cheias de água sobre o medidor de energia elétrica. Acreditava- se que tal expediente diminuía o consumo de energia elétrica. Será que isso era mesmo verdade? Outro exemplo foi a história do “chupa-cabra”. Vários jornais, noticiários de rádio e progra- mas de televisão divulgaram matérias sobre a aparição de um animal desconhecido, que atacava rebanhos na zona rural, chu- pando-lhes o sangue até a morte. Muitas pessoas diziam ter vis- to o “chupa-cabra”, mas sua existência nunca foi comprovada. Apesar dos exemplos de utilização de elementos não cien- tíficos e não racionais para entender o mundo, na nossa socie- dade a forma de explicação científica é a dominante, ou, dito de outra maneira, é a forma legítima, aceita como verdadeira. Agora, imagine como os fenômenos eram interpretados quan- do a ciência ainda não era a forma predominante e legítima de explicar a realidade. Para entender como se davam essas expli- cações não científicas e como os homens passaram a interpretar a realidade de outro modo, investiguemos um pouco a Idade Média europeia. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 184 do C ód igo P en al. 1919 [1.2 ][1.2 ] A Idade Média e o predomínio da féA Idade Média e o predomínio da fé Durante a Idade Média europeia, que durou aproximadamente mil anos (do século V ao século XV), os homens utilizavam principalmente a religião e a tradição para explicar e organi- zar seu mundo. Tanto é que esse período é também conheci- do como Idade das Trevas. O filme O nome da rosa demonstra como se davam essas explicações. A história do filme se passa no final da Idade Média, na Europa. O personagem principal é um monge franciscano chamado William de Baskerville, que pretende explicar as coisas de modo científico e racional. William é chamado até um mosteiro onde estão acontecendo algumas mortes misteriosas: todos os internos que leem um li- vro tido como proibido acabam morrendo. Os monges do mos- teiro constroem uma explicação para as mortes baseada na reli- gião e na fé: acreditavam que todos os que liam o livro morriam porque estavam cometendo um pecado. Uma vez proibido pela Igreja, aqueles que liam o livro acabavam morrendo em virtude do pecado cometido. A morte era então uma consequência do pecado, que despertava a fúria divina. Investigando as mortes, William descobre que elas não eram um castigo divino, mas que o livro era envenenado. Os monges morriam porque tomavam contato com o veneno contido em suas páginas. Entretanto, não aceitam a explicação racional de William e continuam acredi- tando na explicação baseada na fé e na religião. Em O nome da rosa encontramos a essência das explicações durante a Idade Média. Não só no caso de mortes como as ocorridas no filme, mas em relação a toda a vida cultural e social, o predomínio Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2020 da fé impedia visões mais científicas sobre a sociedade. Nesse tempo, o poder da Igreja era muito forte, e ela dominava tanto a política como as ideias. Todo questionamento ou conduta que fosse contra as regras estabelecidas por ela era considerado um pecado e, por isso, deveria ser evitado e combatido. As explicações baseadas na fé perduraram durante quase todo o período. Mas aos poucos os homens foram procurando outras formas de explicação. Nessa procura, dois movimentos ocorridos na Europa são essenciais para o desenvolvimento de uma perspectiva científica e racional: o Renascimento e o Iluminismo. [1.3][1.3] O Renascimento e o IluminismoO Renascimento e o Iluminismo O predomínio da fé e da religião como formas de explicação e organização da vida social dura até meados do século XV, quando começa a perder força. A partir do século XVI, princi- pia na Europa, um movimento chamado Renascimento se cons- tituiu em uma tendência cultural laica (isto é, não religiosa), racional e científica (Falcon, 1994). Era inspirado na cultura greco-romana e não aceitava os valores e as concepções da Idade Média. Ou seja, os renascentistas rejeitavam as explica- ções baseadas na fé, no misticismo, na tradição e passaram a buscar outras explicações para as coisas que aconteciam. Esse movimento influenciou as artes, a ciência, a literatura e a filo- sofia. Um exemplo da perspectiva renascentista sobre a socie- dade está na obra de Nicolau Maquiavel (1469-1527), intitula- da O príncipe, em que procura investigar a realidade de forma Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2121 realista, mais especificamente as relações de poder. A obra de Maquiavel (1973) é uma espécie de manual para o governante, em que o autor separa a moral cristã de uma moral política. Ou seja, afirma que, para o governante conquistar e manter o poder, precisa ter uma conduta racional tendo em vista o fim que pretende, mesmo que para isso tenha de usar métodos não aceitos pela Igreja, como a violência e a crueldade. Vamos acompanhar uma passagem de O príncipe, em que Maquiavel afirma que na esfera política a crueldade pode ser uma virtude, enquanto a piedade pode se tornar prejudicial ao governante: Cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: apesar disso, deve cuidar de empregar convenientemente esta pie- dade. César Bórgia era considerado cruel, e, contudo, sua cruelda- de havia reerguido a Romanha e conseguido uni-la e conduzi-la à paz e à fé [...]. Não deve, portanto, importar ao príncipe a qualifi- cação de cruel para manter os seus súditos unidos e com fé, porque, com raras exceções, ele é mais piedoso do que aqueles que por mui- ta clemência deixam acontecer desordens, das quais podem nascer assassínios ou rapinagem. É que estas consequências prejudicam todo um povo, e as exceções que provêm do príncipe ofendem ape- nas um indivíduo. E, entre todos os príncipes, os novos são os que menos podem fugir à fama de cruéis, pois os Estados novos são cheios de perigo. (Maquiavel, 1973, p. 75) Dessa maneira, é possível notar como os ensinamentos e os dogmas da Igreja são contestados pelas reflexões feitas por Maquiavel. E essa contestação vai adquirir uma dimensão cada vez maior. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2222 A partir da segunda metade do século XVIII, a Europa pre- sencia outro movimento intelectual que procura enfatizar a ra- zão e a ciência para explicar o universo. Esse movimento ficou conhecido como Iluminismo, o que rendeu ao século XVIII a denominação de Século das Luzes, pois pretendia lançar “luzes” sobre os aspectos da realidade que estavam encobertos. Com o Iluminismo, o homem e a razão são colocados no centro do universo, e a abordagem científica ganha novo impulso. Como a ciência “ganha força”, a sociedade também passa a ser vista de outra maneira. As “luzes” lançadas na sociedade deixam à mos- tra novos elementos (Falcon, 1994). Com o Iluminismo, vários estudiosos deram sua contribuição à reflexão científica e siste- mática da realidade social, como o pensador francês Voltaire (1694-1778), que defendia a razão e combatia o fanatismo reli- gioso. Outro pensador francês que realizou importantes refle- xões sobre a sociedade foi Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que estudou as causas da desigualdade social e defendeu a de- mocracia como forma de governo. Na área de organização po- lítica, Montesquieu (1689-1755) defendia a criação de poderes separados (legislativo, executivo e judiciário), da mesma ma- neira como temos hoje, indo contra o chamado direito divino dos reis absolutistas (Falcon, 1994). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca ção p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2323 Quadro 1.1 − Formas de explicação da realidadeQuadro 1.1 − Formas de explicação da realidade Religião, fé e tradiçãoReligião, fé e tradição Abordagem científicaAbordagem científica Predominam até meados do século XV. Utilizam elementos não científicos. A partir do século XVI, com o Renascimento, e do século XVIII, com o Iluminismo. Baseada na observação da realidade. Todas essas contribuições indicam que a observação siste- mática estava predominando sobre elementos religiosos e a tra- dição como meio de explicar a realidade, aproximando-se de uma abordagem científica. [1.4 ][1.4 ] Começando a definir sociologiaComeçando a definir sociologia Mas o que garrafas de água em cima do medidor de ener- gia, “chupa-cabras”, monges morrendo em mosteiros da Idade Média, o Renascimento e o Iluminismo têm a ver com a so- ciologia? É o uso da razão e da ciência para explicar o mundo. Com o advento da ciência, as explicações baseadas na fé e na tradição foram, pouco a pouco, sendo substituídas por formas racionais e científicas de conhecimento. E a maneira como os homens viviam em sociedade, as relações que estabeleciam, os distúrbios e os problemas ocorridos em suas vidas passaram também a ser alvo de uma abordagem científica. Nessa altura, já podemos começar a construir uma definição para sociologia. Sociologia é a ciência que estuda a interação do Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2424 indivíduo com a sociedade, as relações que ele mantém, a sua inserção na coletividade. É o estudo da vida social, dos grupos e das sociedades. Assim, ela nos ajuda a compreender melhor as questões relativas à nossa organização social e à forma como vivemos coletivamente. Ela nos ajuda a responder questões que aparecem no nosso cotidiano, bem como a formular novas questões. Por exemplo: Por que existe tanto desemprego? Será que as mudanças na forma de produzir têm relação com o au- mento ou a diminuição do número de ofertas de emprego? A violência urbana é um problema que se resolve apenas com o aumento do número de policiais nas ruas? Existe relação entre pobreza e violência? Por que o Brasil é um país tão rico com tantos pobres? Será que nossas respostas a essas perguntas são baseadas na observação de como esses fatos se construíram ou responde- mos com base naquilo que achamos que seja a resposta correta? Isso não significa que a sociologia vai nos dar a resposta certa para tudo. O que é importante é utilizá-la para ter outra visão dos fatos que ocorrem. Dessa forma, mais do que uma ciência, a sociologia deve ser utilizada para conceber novas visões da sociedade e das nossas relações. Isso quer dizer que deve servir para construirmos uma perspectiva sociológica. Estudar sociologia não deve ser apenas adquirir conhecimentos ou decorar teorias. É necessário pen- sar sociologicamente, ou seja, ver os fatos que acontecem em nossa vida sob outra perspectiva, fugindo das visões rotineiras, usuais e preconceituosas. Vamos utilizar aqui o exemplo do de- semprego. Será que o fato de um indivíduo estar empregado Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2525 depende somente de sua força de vontade e dedicação? O desem- prego pode ser causado pela introdução de novas tecnologias na empresa em que ele trabalhava, que substituem trabalhadores por máquinas, ou pela economia da região, que passa por um período de recessão. Ou ainda pode se dar pela competição no mercado de trabalho, que exige mais qualificação. Sociologia é o estudo das sociedades e da organização da vida social. Com a sociologia é possível abordar cientificamente a rea- lidade social, as interações entre os indivíduos, as relações que mantêm entre si e com outros grupos. O conhecimento científico possibilitado por esse estudo permite o desenvolvimento de uma perspectiva sociológica. Até aqui vimos como a mudança nas formas de interpreta- ção do mundo foi essencial para o surgimento da sociologia e refletimos sobre transformações nas formas de olhar o mundo e na mentalidade dos homens. Mas as mudanças não ocorreram apenas no campo das ideias. Outras transformações na socieda- de também foram importantes para o surgimento da sociologia. Entre elas, duas foram essenciais para essa ciência. Trata-se das “duas grandes revoluções” dos séculos XVIII e XIX na Europa: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, as quais impuse- ram novos problemas para os pensadores da época. Nenhu ma pa rte de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2626 [1.5][1.5] As “duas grandes revoluções”As “duas grandes revoluções” e a consolidação do capitalismoe a consolidação do capitalismo A Revolução Francesa, em 1789, significou o fim do feu- dalismo na Europa, promovendo profundas transformações na economia, na vida política e nas formas culturais. O objetivo era transformar a maneira como a sociedade daquela época se organizava. A revolução significava, sobretudo, a ascensão de uma nova classe ao poder: a burguesia. A França de então era uma sociedade feudal marcada pelos privilégios da nobreza e do clero, enquanto o chamado terceiro Estado (formado pela burguesia e por outros grupos sem privilégios) sustentava a sociedade por meio de impostos e tributos feudais. A nobreza, constituída por aproximadamente 500 mil pessoas numa po- pulação de cerca de 23 milhões, constituía uma camada privi- legiada, que recolhia impostos mas era isenta de pagá-los e que participava das decisões políticas do chamado Estado absoluto ou Antigo Regime (Hobsbawn, 1981). O Estado absoluto se fundamentava na concentração de to- dos os poderes nas mãos do rei. A palavra do rei era a lei e as razões do Estado deveriam prevalecer sobre tudo. Apesar de já apresentar uma “razão de Estado”, como vimos no exemplo de Maquiavel, o Absolutismo se apoiava também no direito divino dos reis: eles eram os representantes de Deus na terra, tendo assim o direito de governar como quisessem, já que sua palavra era sagrada. Dessa forma, o rei governava sem nenhum impe- dimentoà sua autoridade, uma vez que concentrava todos os poderes. E é claro que governava sempre a favor dos interesses da nobreza, já que ele também era um nobre. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2727 A ascensão econômica da burguesia era prejudicada por esse tipo de regime. Além dos impostos que pagava à nobreza, a bur- guesia se deparava com uma série de taxas, restrições e proibi- ções impostas pelo Estado absoluto. A Revolução Francesa sig- nificou o fim dos privilégios da nobreza, a destruição do Antigo Regime e a ascensão da burguesia ao poder. Estava estabeleci- da, assim, uma nova ordem social, sob o lema da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. A Revolução também afetou o poder eclesiástico, confiscando terras e transferindo para o Estado as funções tradicionalmente controladas pela Igreja, como a edu- cação e a organização da cultura. Com as modificações promo- vidas pela revolução, estava aberto o caminho para a burguesia estabelecer uma nova ordem social (Bluche; Rials; Tulard, 1989; Hobsbawn, 1981). A Revolução Industrial se iniciou na Inglaterra no final do século XVIII e se disseminou por toda a Europa durante o sé- culo XIX. Assim como a Revolução Francesa, a Industrial oca- sionou um grande número de transformações econômicas e sociais, intimamente ligadas às inovações tecnológicas – como novas fontes de energia e a mecanização dos processos de pro- dução – e a novas formas de organizar o trabalho. Ao transfor- mar o processo de produção, o modo de vida das pessoas tam- bém foi afetado (Hobsbawn, 1981; Arruda, 1994). A Revolução Industrial não foi, portanto, apenas a introdução e a criação de novas tecnologias. Com ela se iniciou o processo de industria- lização, e os artesãos, que antes produziam em suas casas com suas ferramentas, passaram a trabalhar sob as ordens do em- presário capitalista e se sujeitaram a novas formas de conduta Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2828 e relações de trabalho. A produção, antes feita de forma arte- sanal pelos mestres artesãos, passou a se dar num ritmo fabril, com o emprego das inovações tecnológicas. A máquina de fiar, uma das principais invenções do período, era capaz de produ- zir 80 quilos de fio de uma só vez sob os cuidados de um único trabalhador. O que antes demorava dias para ser feito poderia agora ser produzido em algumas horas. Os artesãos saíram de suas oficinas e foram trabalhar nas primeiras fábricas (Arruda, 1994; Huberman, 1986). O lar como unidade de produção foi substituído pela fábrica. Nas oficinas eles tinham o controle da produção e do tempo de trabalho; nas fábricas passaram a ser submetidos à imposição de longas jornadas sob as ordens de um patrão, mudando radicalmente a forma de vida habitual. Além da questão do horário, a produção na fábrica era mais organizada. Com a divisão das funções, o artesão, que antes fazia o produto todo, passou a ser responsável por apenas uma parte da elaboração desse produto. Os trabalhadores perderam, assim, o saber sobre seu trabalho, pois passaram a apenas exe- cutar ordens estabelecidas. Se antes o artesão era um mestre no seu ofício, pois dominava totalmente a produção de um obje- to, com a utilização das máquinas e a divisão das funções na fábrica ele se transformou em alguém que apenas operava as máquinas (Marx, 1968). Este trecho, do historiador Leo Huberman, ilustra como os trabalhadores passaram a experimentar outro tipo de relação com o trabalho após a Revolução Industrial: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2929 Mas os dias longos, apenas, não teriam sido tão maus. Os trabalha- dores estavam acostumados a isso. Em suas casas, no sistema do- méstico, trabalhavam durante muito tempo. A dificuldade foi adap- tar-se à disciplina da fábrica. Começar numa hora determinada, para, noutra, começar novamente, manter o ritmo dos movimentos da máquina – sempre sob as ordens e a supervisão rigorosa de um capataz – isso era novo. E difícil. (Huberman, 1986, p. 177-178) A industrialização é acompanhada pela urbanização da so- ciedade. Em pouco tempo, entre 1780 e 1860, a Inglaterra pas- sou de país com pequenas cidades e de população predominan- temente rural para um país com grandes cidades e indústrias. Um elevado número de camponeses deixava suas propriedades pressionados pela privatização das áreas comuns dos feudos. A perda das propriedades, aliada à mecanização da agricultura, provocou um êxodo rural que contribuiu ainda mais para o inchaço das cidades (Arruda, 1994). As cidades que se formavam não tinham uma estrutura de moradias, de serviços sanitários e de saúde para suportar o gran- de número de pessoas que emigrava do campo. Imagine inú- meras pessoas chegando a uma cidade onde não existem casas para morar, nem médicos, nem escolas suficientes; e, apesar das indústrias, não existia emprego para todo mundo. Novos problemas apareceram, como o aumento da prostituição, do alcoolismo, do suicídio e da criminalidade, e surgiram surtos epidêmicos de tifo e cólera. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3030 Com essas transformações – industrialização, crescimento das cidades, êxodo rural – começou a surgir uma nova classe social, urbana e intimamente ligada à industrialização: o prole- tariado. Essa classe era constituída por aquele enorme número de trabalhadores assalariados das novas indústrias nas cidades. É claro que, com todos os problemas que surgiram nas novas cidades com o processo de urbanização – violência, alcoolis- mo, criminalidade, falta de moradia, de saúde, de saneamento básico –, as condições de vida do proletariado eram muito pre- cárias (Huberman, 1986). Naquele tempo não existia nenhu- ma lei que protegesse os trabalhadores e que garantisse direitos importantes, como salário mínimo, jornada máxima de traba- lho por dia e por semana, férias e todos os demais benefícios que hoje existem. Quem precisasse trabalhar para sobreviver era obrigado a aceitar as condições impostas pelos patrões. Ostrabalhadores se sujeitavam, então, às mais precárias condições de trabalho que podiam existir: longas jornadas, salários bai- xos, más condições de higiene, falta de segurança, entre outras (Marx, 1968). E não pense que eram apenas os homens adultos que tra- balhavam. A indústria empregava um grande número de mu- lheres e crianças, que recebiam salários menores, e assim o lu- cro do patrão era maior. Muitas crianças com idade inferior a 8 anos trabalhavam em troca de apenas alojamento e comida (Arruda, 1994). As péssimas condições de vida e de trabalho dadas à clas- se trabalhadora não foram aceitas passivamente e levaram a várias reações dos trabalhadores, desde manifestações mais Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3131 descontroladas, como destruição de máquinas, sabotagem no trabalho, roubos e explosão de algumas oficinas, até iniciati- vas mais organizadas, como o movimento cartista* e as trade unions**. Estas últimas foram se organizando cada vez mais e mudando seu teor, culminado na criação dos sindicatos. No campo das ideias também surgiram críticas ao capitalismo e ao desenvolvimento industrial, que propunham reformas sociais e a construção de uma sociedade mais justa (Arruda, 1994). Assim como a burguesia da Revolução Francesa quis aca- bar com os privilégios da nobreza, os trabalhadores também queriam enfrentar os proprietários das indústrias – isto é, os burgueses –, que lucravam com seu trabalho enquanto eles empobreciam cada dia mais. Mas quem eram os burgueses e qual a relação que tinham com os trabalhadores? Já vimos que na Revolução Francesa eram eles que queriam (e conseguiram) acabar com os privilégios da nobreza. Mas, e agora, o que eles queriam? Ora, o surgimento das fábricas, associado com as inovações, como o tear mecânico e a máquina a vapor de James Watt***, * Movimento cartistaMovimento cartista: movimento organizado pela Associação dos Operários da Inglaterra, entre os anos de 1837 e 1848, que exigia me- lhores condições de trabalho, tais como: limitação da jornada de tra- balho e do trabalho feminino, extinção do trabalho infantil, salário mínimo. Recebeu essa denominação porque suas reivindicações eram feitas em forma de cartas às autoridades. ** Trade unionsTrade unions: organizações dos operários das fábricas inglesas duran- te a segunda metade do século XIX, que mais tarde evoluíram para os sindicatos. *** Em 1769, James Watt desenvolve na Inglaterra um equipamento mo- vido a vapor de água que seria como um motor para impulsionar má- quinas. Começa aqui a substituição da força humana pela energia me- cânica. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3232 fez a produção aumentar enormemente. Com isso aumenta- ram o lucro do dono da fábrica e o acúmulo de capital, isto é, de dinheiro. Começou, dessa forma, a se consolidar o sistema capitalista, que desintegrou os costumes e as tradições até en- tão existentes. O sistema capitalista é baseado na propriedade privada e na busca do lucro. Nesse caso, o primeiro objetivo da produção de mercadorias não é necessariamente a satisfação das necessidades, mas a obtenção do lucro. E tudo passa a ser organizado com vistas a esse objetivo*. O capitalista, ou bur- guês, é aquele que tem a propriedade dos meios de produção, ou seja, das fábricas, das máquinas, das ferramentas, das ter- ras. A classe trabalhadora, ou proletariado, são aqueles que não possuem meios de produção e necessitam vender a sua força de trabalho ao capitalista. Configura-se, assim, uma sociedade de classes: de um lado, a classe dos proprietários e, de outro, a classe dos não proprietários. * Nos próximos capítulos, falaremos mais sobre o capitalismo e veremos as diferentes interpretações que os teóricos da sociologia deram a esse sistema econômico. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3333 Quadro 1.2 − Desdobramentos das “duas grandes revoluções”Quadro 1.2 − Desdobramentos das “duas grandes revoluções” Revolução Francesa Revolução Francesa (1789)(1789) Revolução IndustrialRevolução Industrial (final do século XVIII)(final do século XVIII) Fim do feudalismo e do Antigo Regime. Ascensão da burguesia ao poder. Fim dos privilégios da nobreza. Abalo no poder da Igreja. Novas tecnologias e mudan- ças nas formas de organizar o trabalho. Industrialização. Êxodo rural e urbanização. Surgimento do proletariado. Condições precárias de vida dos trabalhadores. É importante lembrar que os desdobramentos da Revolução Francesa e da Revolução Industrial não ficaram limitados à França e à Inglaterra. Esses países foram apenas o berço das transformações, pois os efeitos das duas “grandes revoluções” se espalharam por vários países da Europa e pelos Estados Unidos. [1.6 ][1.6 ] As revoluções e a sociologiaAs revoluções e a sociologia Poderíamos então nos perguntar novamente: O que tudo isso tem a ver com a sociologia? Acontece que toda essa nova situa- ção da realidade social, cheia de problemas e contradições, com novas classes surgindo e novos interesses em jogo, desafiou os pensadores da época a formular explicações e a encontrar so- luções. E as explicações e as soluções a serem encontradas não eram mais as baseadas na religião ou na tradição. Já vimos que a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3434 sociedade exigia outras respostas, ou seja, respostas científicas e racionais. Toda essa nova realidade, que englobava a urbani- zação, a industrialização, a consolidação do sistema capitalista, o surgimento da nova classe de trabalhadores que empobrecia enquanto a burguesia enriquecia, e todos os problemas resul- tantes dessa situação apareciam aos homens da época como um “caos social”. A sociedade parecia desorganizada, sem leis ou normas para seguir. Como a tradição e a religião não con- seguiam mais dar conta das questões e desafios colocados pela nova ordem, começou a ser pensada uma ciência que conse- guisse dar respostas e saídas para essa situação: asociologia. Acompanhe um trecho que sistematiza a relação entre a so- ciologia, os efeitos da Revolução Industrial e o surgimento do capitalismo: A sociologia constitui em certa medida uma resposta intelectual às novas situações colocadas pela Revolução Industrial. Boa parte de seus temas de análise e de reflexão foi retirada das novas situações, como, por exemplo, a situação da classe trabalhadora, o surgimento da cidade industrial, as transformações tecnológicas, a organização do trabalho na fábrica, etc. É a formação de uma estrutura social muito específica – a sociedade capitalista – que impulsiona uma reflexão sobre a sociedade, sobre suas transformações, suas crises, seus antagonismos de classe. Não é por mero acaso que a sociologia, enquanto instrumento de análise, inexistia nas relativamente está- veis sociedades pré-capitalistas, uma vez que o ritmo e o nível das mudanças que aí se verificam não chegavam a colocar a sociedade como um “problema” a ser investigado. (Martins, 2006, p. 16) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3535 SínteseSíntese Vimos como o estudo científico da relação indivíduo-sociedade é um desenvolvimento relativamente recente, datado de fins do século XVIII. Um desenvolvimento-chave foi o uso da ciência para compreender o mundo – a ascensão de uma abordagem científica ocasionou uma mudança radical na forma de inter- pretação e explicação do mundo. Assim, as explicações basea- das na religião e na tradição foram dando espaço para tentati- vas de conhecimento racionais e científicas. O cenário que deu origem à sociologia abarcou uma série de mudanças introduzidas pelas “duas grandes” revoluções dos séculos XVIII e XIX: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. Ambas acarretaram um grande número de mudan- ças na sociedade e nas ideias, surgindo daí a necessidade de no- vas respostas para os problemas à medida que iam aparecendo. Dessa forma, a sociologia se constrói como uma aborda- gem da relação indivíduo-sociedade, promovendo, ainda hoje, a possibilidade de um “outro olhar” sobre a realidade social. Indicação culturalIndicação cultural O NOME da rosa. Direção: Jean-Jacques Annaud. Produção: Bernd Eichinger. Itália/Alemanha/França: 20th Century Fox Film Corporation, 1986. 130 min. Durante a Idade Média, um monge franciscano chega a um mosteiro europeu para investigar uma série de mortes misteriosas. Neste filme é possível perceber um momento em que explica- ções baseadas na fé e na religião cedem lugar para as explicações científicas e racionais. Porém, como é um momento de transição, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3636 ainda não existe o predomínio de uma das formas, que passam a travar um jogo de forças. Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1) Durante a Idade Média europeia a Igreja dominava tanto o campo das ideias como das relações sociais. Nesse contexto, as formas de explicação dos fenômenos e a organização da vida social que predominavam eram: a) obtidas mediante a observação dos fatos e fenômenos que ocorriam. b) baseadas numa tentativa de explicação científica, já que a Igreja dominava e por isso detinha os conhecimentos científicos da época. c) marcadas pela influência da fé e da religião, que eram consequências do domínio da Igreja sobre a sociedade. d) racionais e científicas, uma vez que a sociedade já não aceitava outro tipo de explicação. 2) A Revolução Francesa é um dos acontecimentos importan- tes para o surgimento da sociologia. Essa importância se deve ao fato de: a) transformar a sociedade, quebrando os privilégios feu- dais e colocando uma nova classe em evidência: a bur- guesia. b) reafirmar o poder da Igreja e da nobreza, uma vez que eram esses grupos que promoveriam o desenvolvimento da sociedade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3737 c) fortalecer o Estado Absolutista, o que favorecia a bur- guesia e o desenvolvimento do capitalismo. d) reafirmar o “direito divino dos reis”, pois daria a ele a condição de fazer as transformações necessárias para pôr fim aos privilégios dos nobres. 3) Sobre a Revolução Industrial e a sua importância para a for- mação da sociologia, é correto afirmar que: a) as inovações tecnológicas desse período ficaram res- tritas apenas ao âmbito da produção, não acarretando maiores implicações sociais. b) possibilitou a melhora das condições de vida dos tra- balhadores, já que a produção de mercadorias cresceu muito. c) ocasionou um grande número de transformações eco- nômicas e sociais, intimamente ligadas às inovações tec- nológicas. d) significou apenas a introdução e a criação de novas tecno- logias, sem maiores consequências para a ordem social. 4) Analise as seguintes afirmações sobre a importância das “duas grandes revoluções” para o surgimento da sociologia: I. As duas revoluções provocam um período de estabili- dade social, o que permitiu à sociologia se desenvolver tranquilamente. II. As transformações provocadas por essas duas revoluções, tanto no campo das ideias como na sociedade, desafia- ram os pensadores a formular uma explicação científica da realidade social. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3838 III. As revoluções ajudaram a sociologia a se aproximar da religião e, assim, a produzirem, juntas, uma nova expli- cação da realidade. IV. Não tiveram tanta importância para o surgimento da so- ciologia, já que essa ciência tem suas origens dentro do meio religioso e místico. V. Elas desorganizaram a sociedade, o que foi crucial para o surgimento de uma ciência que pudesse resolver os novos problemas que surgiram decorrentes dessas revo- luções. São verdadeiras as seguintes afirmações: a) I e II. b) II e V. c) III e IV. d) I, II e III. 5) Considere as seguintes afirmações sobre o conceito de so- ciologia: I. A sociologia limita-se a uma coleção de conhecimentos sobre a realidade social. II. O seu estudo deve servir também para construiruma nova visão da realidade social. III. Aborda a relação do indivíduo com a coletividade, pro- curando perceber a maneira como se dão as interações na vida coletiva. IV. Podemos afirmar que é, de origem, uma ciência urbana, capitalista e tem seu berço na Europa. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 3939 V. Já é uma ciência pronta, isto é, já tem todo o seu referen- cial teórico desenvolvido e não existem divergências na interpretação dos dados sociais. São verdadeiras as seguintes afirmações: a) I, II e III. b) II, III e IV. c) II e III. d) I, IV e V. Atividades de aprendizagem Atividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) Com base nas reflexões contidas neste capítulo, discuta, em grupo, quais foram as consequências para a sociedade da mudança de local de trabalho da casa para a fábrica, provo- cada pela Revolução Industrial. Após a discussão, faça uma síntese das conclusões formuladas. 2) A sociologia pode ser considerada uma “ciência da crise”. Retome a citação de Martins (2006, p. 16), reproduzida na p. 34 deste livro, e relacione a instabilidade da sociedade capitalista que se formava com o surgimento da sociologia. Atividade aplicada: práticaAtividade aplicada: prática Como foi visto, a sociologia não deve ser apenas uma co- leção de conhecimentos e teorias sobre a realidade social. Ela deve servir para que formemos uma “visão sociológica” do mundo. Com base nesse princípio, exercite essa “visão’ Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4040 por meio de uma pesquisa. Converse com o trabalhador ou trabalhadora de uma indústria (pode ser pai, irmão/irmã, vizinho/vizinha) e procure obter dele ou dela as seguintes informações: a) Qual o produto fabricado na indústria em que trabalha. b) Qual parte do produto ele ou ela fabrica. c) Que tipo de conhecimento está envolvido na tarefa que realiza. d) Indague da pessoa se ela seria capaz de, sozinha, fabricar o produto inteiro. Após obter essas informações, faça uma pequena relação das respostas obtidas com o que aconteceu com os primeiros trabalhadores das fábricas na época da Revolução Industrial. Guarde uma cópia dessa conclusão para retomá-la no final do curso. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. A institucionalização da sociologia: Comte e Durkheim [Capítulo 2][Capítulo 2] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4242 Como vimos no capítulo anterior, a sociologia surgiu na Europa como uma resposta intelectual e prática para as transformações na ordem social que as duas “grandes revoluções” provocaram. Era uma resposta intelectual, pois as transformações desafia- vam os pensadores a formularem novas explicações para uma nova ordem, sob um olhar científico e racional. Mas era tam- bém uma resposta prática, uma vez que as transformações tra- ziam novos problemas concretos à sociedade e era preciso en- contrar saídas para tais problemas. Veja como Florestan Fernandes, um dos grandes sociólogos brasileiros, reflete sobre o surgimento e o desenvolvimento da sociologia: Ela nasce e se desenvolve como um dos florescimentos intelectuais mais complicados das situações de existência das modernas socie- dades industriais e de classes. E seu progresso, lento mas contínuo, no sentido do saber científico-positivo, também se faz sob a pressão das exigências dessas situações de existência, que impuseram, tanto ao pensamento prático quanto ao pensamento teórico, tarefas de- masiado complexas para as formas pré-científicas de conhecimento. (Fernandes, 1977, p. 11) Como demonstra o trecho acima, à medida que novos pro- blemas iam aparecendo, novas respostas foram sendo necessá- rias. Isso significa que as primeiras interpretações e formulações Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4343 sobre a vida social não eram definitivas, assim como ainda não o são. Respostas mais simples foram substituídas por respostas mais complexas, que foram se aprimorando cada vez mais. Em outras palavras, a sociologia foi construindo um corpo de in- terpretações. Ao longo deste capítulo, acompanharemos a instituciona- lização da sociologia como ciência, numa discussão que passa pela definição de seu objeto e pela diferenciação da sociologia das outras ciências. Veremos concomitantemente as aborda- gens sociológicas construídas por dois fundadores da sociolo- gia: Auguste Comte e Émile Durkheim. [2.1] [2.1] A institucionalização da sociologia: A institucionalização da sociologia: seu campo de atuaçãoseu campo de atuação Como a nova ordem social se mostrava com vários problemas, as respostas dadas pela ciência que começava a se formar apre- sentavam um caráter conservador. Os primeiros pensadores viam as mudanças ocorridas na sociedade apenas pelo lado da desorganização e dos problemas que causavam. Eles chega- vam mesmo a desejar uma volta à sociedade feudal, com sua estabilidade, hierarquia e valores tradicionais. Miséria, pobreza, desemprego, crimes, violência eram vistos como fruto das mu- danças e do progresso ocorridos (Martins, 2006). A Revolução Industrial, por outro lado, trouxe a eficácia do novo saber inaugurado pela ciência moderna, com múltiplas inovações e realizações. A física, a química e a biologia mostra- ram o poder de transformação da ciência (Arruda, 1994). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au toriza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4444 Os pensadores das ciências humanas ficaram como que fas- cinados com os resultados e os avanços dessas ciências natu- rais. Como não tinham ainda um método próprio para abordar seu objeto, resolveram adotar o método das ciências naturais. Usando esse método e acreditando no poder transformador da ciência, os primeiros pensadores da realidade social tiveram o seguinte raciocínio: já que a ciência pode transformar a pro- dução de mercadorias, criar novos produtos e novas fontes de energia, ela pode também restabelecer a ordem na sociedade (Martins, 2006; Minayo, 2000). Antes de prosseguirmos, entretanto, é importante refletir sobre alguns termos essenciais para compreender o que foi dito até agora. Vamos começar com a questão do método. Método significa o caminho que fazemos para atingir um ob- jetivo, uma meta. Da mesma forma que, quando viajamos, esta- belecemos um roteiro − planejando as paradas a fazer, onde des- cansar, a rota a seguir, se iremos durante o dia ou durante a noite –, a ciência também desenvolve “caminhos” para atingir seus ob- jetivos. No método científico são definidos os procedimentos, as técnicas, a maneira como será abordado o objeto de estudo, os critérios que serão empregados, as condições de abordagem, como serão medidos os resultados. O método científico garante a legitimidade do conhecimento científico, ou seja, garante que ele seja aceito como verdadeiro (Minayo, 2000). Vamos pensar no seguinte exemplo: Qual método seria mais adequado para medirmos a espessura de uma folha de papel? Poderíamos usar um paquímetro ou poderíamos usar a técni- ca de pegar várias folhas, medir a espessura de todas juntas e Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4545 dividir pelo número de folhas. Isso é uma questão de método, ou seja, o que usaremos para atingir nossa meta. Se usássemos uma régua para atingir o objetivo desejado (medir a espessura da folha de papel), o resultado poderia não ser tão “verdadei- ro” ou mesmo ser diferente do método de medir várias folhas juntas. O método científico se refere aos procedimentos, às técnicas, à maneira como será abordado o objeto de estudo. A definição desses elementos – procedimentos, técnica, abordagem – garan- te a legitimidade do conhecimento científico. Outra questão importante é a distinção entre ciências hu- manas e ciências naturais. As ciências humanasciências humanas (ou ainda ciências sociaisciências sociais) são aquelas que têm o ser humano e as suas relações como objeto de estudo. Fazem parte das ciências hu- manas a psicologia, a sociologia, a geografia humana, a história, a linguística. As ciências naturaisciências naturais são aquelas que têm como objeto de estudo a natureza. Entre elas temos a física, a química, a biologia. Ainda poderíamos considerar uma terceira classifi- cação, a denominada ciências formais, que abrangeria a mate- mática e a lógica (Minayo, 2000; Santos, 1995). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4646 Quadro 2.1 − Diferença entre ciências humanas e ciências naturaisQuadro 2.1 − Diferença entre ciências humanas e ciências naturais Ciências humanasCiências humanas Ciências naturaisCiências naturais Têm o ser humano e suas rela- ções como objeto de estudo. Não existe a possibilidade de separação clara entre o objeto de estudo e o pesquisador. Sociologia, psicologia, geo- grafia humana, história, linguística. O objeto de estudo é a natureza. Existe a possibilidade da sepa- ração entre objeto de estudo e pesquisador. Física, química, biologia, ana- tomia, fisiologia. Enquanto as ciências naturais possuem como objeto algo que se encontra fora do pesquisador, nas ciências humanas o próprio pesquisador faz parte daquilo que estuda. Não existe uma separação clara entre o objeto e o sujeito que quer conhe- cer. Nenhum sociólogo pode ignorar o fato de que faz parte daquilo que estuda: a sociedade e as relações sociais. Mesmo que o sociólogo estude uma sociedade diferente da sua, estará sempre inserido numa rede de relações como aquela que irá estudar (Santos, 1995). A complexidade do objeto aparece como uma peculiaridade das ciências humanas em relação às ciências naturais. Um quí- mico que pretenda estudar as reações químicas pode manipular o seu objeto de estudo no laboratório, tentando simplificá-lo e, percebendo o que é constante, pode repetir as reações inúme- ras vezes, podendo controlar as condições de realização da ex- perimentação. Nas ciências humanas, esses procedimentos não Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4747 são possíveis. As pessoas não se comportam sempre da mesma maneira, ainda que a situação seja a mesma, isto é, o comporta- mento humano é inconstante, resulta de particularidades, he- ranças sociais, e é motivado por desejos, paixões, ódio e uma série de fatores que não podem ser facilmente isolados e sim- plificados. Todas essas peculiaridades e complexidade das ciên- cias humanas ocorrem porque seu objeto é também sujeito do conhecimento (Giddens, 2005; Minayo, 2000; Santos, 1995). Agora que já vimos um pouco sobre o método e sobre a dis- tinção entre ciências humanas e ciências naturais, vamos voltar à sociologia e conhecer um pouco da obra de Auguste Comte. [2.2] [2.2] A obra de Auguste Comte e o positivismoA obra de Auguste Comte e o positivismo O francês Auguste Comte (1791-1857) aparece como um dos pioneiros na elaboração tanto da sociologia quanto das respos- tas que ela poderia dar aos desafios que lhe eram colocados. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4848 Auguste ComteAuguste Comte nasceu em Montpellier, na França, em uma família católica e monarquista. Como nasceu logo após a RevoluçãoFrancesa, presenciou os desdobramentos da nova sociedade que surgia. Com formação em matemática e filo- sofia, chegou a estudar medicina e fisiologia. Foi o fundador do positivismo. Durante toda a sua vida sofreu com crises melancólicas e depressivas. Morreu em Paris, no dia 5 de setembro de 1857. Suas principais obras são: Curso de filo- sofia positiva, dividida em seis tomos (1830-1842); Discurso sobre o espírito positivo (1844); Sistema de política positiva, dividida em quatro tomos (1851-1854); Síntese subjetiva (1856) (Comte, 1983b; Aron, 2003; Giddens, 2005). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 4949 Comte é o criador do termo sociologia para designar o estudo sistemático da sociedade. Esse termo aparece pela primeira vez no quarto tomo de sua obra Curso de filosofia positiva, de 1839. A primeira denominação que a sociologia recebeu foi a de física social, que está proximamente relacionada com a manei- ra como os primeiros sociólogos pensavam e viam a sociedade. Eles achavam que a sociedade e os objetos das outras ciências deveriam ser abordados da mesma forma. Defendiam então um mesmo método tanto para as ciências naturais quanto para as ciências humanas. Assim, foi inaugurada uma maneira de con- ceber as ciências humanas que recebeu o nome de positivismo (Comte, 1983b). A concepção positivista propôs o estabelecimento de critérios rígidos para a ciência, exigindo que ela se fundasse na observa- ção dos fatos. Por meio dessa observação seria possível descobrir as leis gerais que permitiriam compreender o funcionamento das sociedades e, assim, prever o seu estado futuro. Da mesma forma que o químico poderia prever como se dariam as reações entre elementos químicos depois de descobrir as leis de funcionamen- to dessas reações, o sociólogo seria capaz também de identifi- car leis invariáveis de funcionamento da coletividade e prever os acontecimentos com base no entendimento dessas leis. A metodologia da sociologia deveria comportar a observa- ção, a comparação e a classificação de modo semelhante ao que faziam as ciências naturais e ainda apresentar uma linha evo- lutiva – filiação histórica – que permitisse conhecer o passado e conduzir ao futuro. Comte via a sociedade e os indivíduos marcados pela limitação dentro das leis naturais da sociedade, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5050 as quais deveriam ser conhecidas para se avançar na linha evo- lutiva (Comte, 1983b). Além disso, de acordo com a concepção positivista, deve haver a separação entre o objeto e o sujeito pesquisador, bem como a neutralidade da ciência. Pense um pouco sobre essa concepção: seria possível estudarmos a sociedade sem levar em conta aquilo em que acreditamos ou a maneira como a vemos? Pois bem, a concepção positivista acreditava que sim. Assim como o químico estudava as fórmulas e os elementos sem que suas concepções influenciassem no resultado da pesqui- sa, os pesquisadores sociais também deveriam ter essa postura. Vamos ver mais sobre a maneira como Comte compreendia a sociedade e a sociologia e poderemos entender melhor a sua postura positivista. PositivismoPositivismo Postula que a ciência deve se fundar na observação, na compara- ção e na classificação. A ciência deve procurar leis gerais de validade universal. Postula a separação rígida entre pesquisador e objeto de estudo. Defende a possibilidade de previsão de estados futuros. Busca a normatização e a ordenação daquilo que estuda. Tudo aquilo que foge das “leis gerais” pode ser considerado patológico. N en hu ma pa rte de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5151 O pensamento de Comte refletia os momentos turbulentos de seu tempo. A Revolução Francesa introduzira mudanças significativas na sociedade, e o crescimento da industrialização estava alterando a vida tradicional da população francesa. Na concepção positivista de Comte os fenômenos sociais estavam submetidos a leis invariáveis, da mesma maneira que os fenô- menos físicos, químicos e biológicos (Comte, 1978b, 1978c). Além dessa visão dos fenômenos sociais, Comte tinha uma vi- são evolucionista da sociedade, pela qual o ápice do desenvolvi- mento consistia no padrão apresentado pela Europa civilizada. Perceba que esse é um modelo “copiado” da biologia, mais es- pecificamente da teoria evolucionista de Charles Darwin (Aron, 2003; Cohn, 1977). À sociologia cabia descobrir as leis que regiam essa socie- dade e, a partir daí, reorganizá-la, conduzindo-a ao seu pleno desenvolvimento. Uma vez alcançada a ordem, a sociedade po- deria progredir. Um exemplo da maneira como a concepção positivista foi aplicada na sociedade está no nosso próprio país. Na proclamação da República brasileira, as ideias positivistas foram muito marcantes, influenciando vários republicanos e contribuindo para o amadurecimento de suas ideias. Essa in- fluência ficou marcada no lema de nossa bandeira: “Ordem e progresso”. Da mesma forma como as sociedades progrediam por meio da ordem, para Comte (1978b, 1978c) as ciências também evo- luíam dentro de uma escala, em que a sociologia só se poderia constituir como ciência a partir do momento em que seu objeto Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5252 – o sistema social – houvesse chegado à sua última fase de de- senvolvimento. Note como as ideias de evolução e ordem são características do pensamento positivista. O surgimento da sociologia é situado por Comte (1978b) num contexto em que a sociedade apresentava dois movimen- tos: de desorganização e de organização. Para o autor, a socie- dade passava por um momento de profunda desorganização, de anarquia e de instabilidade, cabendo à sociologia – como ciência positiva – restabelecer a ordem, colocando a sociedade novamente no seu caminho “natural” de desenvolvimento, ten- do sempre como padrão, é claro, a sociedade europeia. Nesse aspecto fica evidente a concepção positivista da sociologia de Comte: a produção de um conhecimento sobre a sociedade fundamentado em evidênciasempíricas, formuladas com base na observação, na comparação e na experimentação; com isso poderiam ser formuladas leis universais que permitissem pre- dizer e controlar os acontecimentos. Isso significava que, uma vez descobrindo as leis gerais que regiam o funcionamento da sociedade, seria possível dizer em que sentido ela iria se desen- volver, e mesmo, direcionar esse desenvolvimento. Vamos acompanhar uma citação de Comte, em que ele ain- da denomina a sociologia de física social e demonstra o caráter evolutivo do pensamento positivista: Entendo por física social a ciência que tem por objeto próprio o estudo dos fenômenos sociais, considerados com o mesmo espírito que os fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos, isto é, como submetidos a leis naturais e invariáveis, cuja descoberta é o objetivo especial de suas pesquisas. Propõe-se, assim, a explicar Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5353 diretamente, com a maior precisão possível, o grande fenômeno do desenvolvimento da espécie humana, considerado em todas as suas partes essenciais; isto é, a descobrir o encadeamento necessário das transformações sucessivas pelo qual o gênero humano, partindo de um estado apenas superior ao das sociedades dos grandes macacos, foi conduzido gradualmente ao ponto em que se encontra hoje na Europa civilizada. O espírito dessa ciência consiste sobretudo em ver, no estudo aprofundado do passado, a verdadeira explicação do presente e a manifestação geral do futuro. (Comte, 1983b, p. 53) Na sua obra Curso de filosofia positiva, Comte (1978b) for- mulou a teoria dos três estágios pelos quais passaria o conheci- mento humano até o seu pleno desenvolvimento: o teleológico, o metafísico e o positivo ou empírico. No primeiro estágio, os pensamentos seriam guiados pela fé e pelas crenças, e a socieda- de aparece como resultado da vontade divina. No estágio meta- físico, a vontade divina como fundamento da sociedade é subs- tituída pelas causas naturais. A causa sobrenatural cede espaço às causas naturais como explicação dos fenômenos. No estágio positivo – último estágio do desenvolvimento do conhecimento humano – a ciência seria a forma de explicação do mundo e da natureza e uma ferramenta de reforma para a sociedade. Nesse sentido, o homem precisaria passar por uma refor- ma intelectual, para que a sua maneira de pensar fosse alterada. Uma vez modificada essa forma de pensar, a sociedade e suas instituições seriam também reformadas. Haveria, assim, a pro- dução de um consenso moral, conseguido mediante a razão e a ciência. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5454 No fim de sua carreira, Comte (1978a) propõe o estabeleci- mento de uma religião da humanidade, pela qual os dogmas e os preceitos da fé seriam substituídos pelos fundamentos científicos. Essa intenção de Comte fica evidente no ensaio que escreve inti- tulado Catecismo positivista, obra publicada em 1852. Note que Comte não propõe o fim da religião, pois acreditava que ela era uma necessidade do homem e da sociedade. O que ele propõe é uma “religião científica”, e a sociologia estaria no centro dessa reli- gião, pois é ela que pode compreender e reorganizar a sociedade. Hoje podemos perceber que as concepções e as previsões de Comte em relação ao uso da sociologia para a restauração da sociedade não se realizaram. A sociologia não é uma ciência que pode “prever” os acontecimentos sociais ou mesmo tem a capacidade de, sozinha, reformar a sociedade. Entretanto, mes- mo sendo uma obra considerada superada como fundamento teórico-explicativo, é preciso levar em conta a importância de Comte para o surgimento da sociologia e considerar – como afirma o próprio Comte – que “a época das conquistas não pode ser a dos limites precisos” (Comte, 1983b, p. 67). Aqui é importante atentar para uma distinção realizada por Cohn (1977) entre os clássicos e os fundadores da sociologia. Nessa discussão, os clássicos são aqueles pensadores cujas re- flexões continuam levantando problemas e propondo respostas a eles. Aí se incluem Marx, Durkheim e Weber. Os fundadores, como Comte, são aqueles cujas obras foram importantes para o estabelecimento e a afirmação da ciência, mesmo que elas não tenham mais fôlego explicativo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5555 Para ComteComte (1978a, 1978b, 1983a, 1983b), a sociologiasociologia deveria descobrir as leis gerais que regiam a sociedade. Assim, com o co- nhecimento dessas leis seria possível conduzir a sociedade ao seu pleno desenvolvimento e mesmo prever como estaria no futuro. As ideias de evolução e ordem são recorrentes no pensamento po- sitivista de Comte. Ele buscava um conhecimento baseado em evi- dências empíricas, formuladas com base na observação, na com- paração e na experimentação. Propunha também para as ciências sociais um método semelhante ao método das ciências naturais. Agora, veremos outro pensador da sociologia influen- ciado pelo positivismo de Comte: o também francês Émile Durkheim. [2.3] [2.3] Durkheim e os fatos sociaisDurkheim e os fatos sociais Durkheim propôs uma metodologia científica para a sociologia que permitisse o estudo de leis “concretas”, e não generalida- des abstratas. Buscou construir conceitos que possibilitassem a abordagem da realidade social. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5656 Émile DurkheimÉmile Durkheim nasceu em Épinal, França, em 15 de abril de 1858, numa família judia. Estudou na École Normale Supérieure de Paris, onde se doutorou em Filosofia. Em 1877 assumiu a primeira cadeira de sociologia da Universidade de Bordeaux. Perdeu seu único filho em 1915, durante a Segunda Guerra Mundial. É considerado o fundador da sociologia moderna, estudando profundamente os fenôme- nos sociais de sua época. Faleceu em Paris, no dia 15 de no- vembro de 1917. Suas principais obras são: A divisão do tra- balho social (1893); As regras do método sociológico (1894); O suicídio(1897), As formas elementares da vida religiosa (1912) (Aron, 2003; Cohn, 1977; Giddens, 2005). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5757 Comecemos o estudo sobre Durkheim com um exercício. Vamos pensar em como definir sociedade. Poderíamos dizer, de maneira rápida, que a sociedade é formada pelos indivíduos. Pois bem, para Durkheim, não é a sociedade que é formada pelos indivíduos, e sim o contrário: é a sociedade que forma os indivíduos (Aron, 2003). Isso porque Durkheim considerava que a sociedade prevalece sobre os indivíduos e é ela que os molda. Ao longo do estudo, analisaremos melhor essa noção da superioridade da sociedade sobre o indivíduo em Durkheim. Uma de suas preocupações centrais está em delimitar o cam- po da sociologia de maneira clara: o que essa ciência irá estudar? A tarefa começa pela definição de seu objeto – o fato social. Os fatos sociais são maneiras de agir, de pensar, de sentir que se impõem aos indivíduos (Durkheim, 1960, 1983a). São dados pela coletividade, pela sociedade. Tais fatos são diferen- tes dos fatos estudados em outras ciências por terem origem na sociedade, e não na natureza (como nas ciências naturais) ou no indivíduo (como na psicologia). A sociedade aparece como um conjunto de leis, normas, ações, pensamentos e sentimen- tos que tem a sua existência determinada não pelas consciên- cias individuais, mas fora delas, no meio social. Ou seja, a so- ciedade é um meio exterior e independente dos indivíduos, e é nesse meio que se encontram os fatos sociais. Daí a importância de sua definição de fato social e das características que estes apresentam, pois somente entendendo suas características po- deremos reconhecê-lo e entendê-lo, compreendendo, assim, a sociedade em que vivemos. Vamos então às características dos fatos sociais. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5858 Durkheim (1960) afirma que os fatos sociais têm três carac- terísticas básicas que permitem sua identificação na realidade: a exterioridade, a coercitividade e a generalidade/coletividade. Os fatos sociais são exterioresexteriores, pois existem fora das cons- ciências individuais. As normas, as regras de conduta não são criadas pelos indivíduos isolados, mas pela coletividade, e os indivíduos já as encontram prontas quando nascem. Os fatos sociais são coercitivoscoercitivos porque as regras e as condu- tas sociais se impõem aos indivíduos. Ninguém é obrigado a fa- lar o português culto, mas ignorar essa regra em determinados ambientes é inviável, não existe uma lei que obrigue as pessoas a falar o português correto, mas, se as pessoas vão contra esse “fato”, a coercitividade se revela e faz sentir a sua força (Abel, 1972). Assim, muitas vezes, essa característica só se manifesta quando o indivíduo vai contra o fato social. Quanto à generalidade/coletividade, Durkheim afirma que os fatos sociais são geraisgerais porque são coletivoscoletivos, e não o contrá- rio. Ou seja, aparecem nas partes (indivíduo) porque estão no todo (sociedade). Por exemplo, a maioria dos habitantes de um país é de religião católica porque a coletividade assim determi- na; a explicação está na coletividade. Não se poderia entender esse fenômeno – a maioria dos habitantes de um país ser católi- ca – a partir dos indivíduos, mas somente a partir do coletivo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 5959 Fatos sociaisFatos sociais são o objeto de estudo da sociologia. São maneiras de agir, de sentir, de pensar, de compreender, de interpretar, im- postas aos indivíduos pela sociedade. A educação é um bom exemplo para aplicarmos e entender- mos a definição de fato social. Quando nascemos, ainda não sabemos a maneira de nos comportarmos e de agirmos em so- ciedade. Com o passar do tempo, vamos aprendendo os gostos, os hábitos e as maneiras de agir, de sentir e de ser do grupo social ao qual pertencermos. Assim, toda organização social precisa “repassar” estas “informações” – maneiras de ser, de sentir, de agir, os gostos, os hábitos – aos seus membros, para que sejam possíveis a perpetuação e o funcionamento da socie- dade (Rodrigues, 2004). É esse “repasse” de informações que Durkheim define como educação e que perpetua a existência do grupo apesar da morte dos indivíduos: A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as ge- rações que não se encontram ainda preparadas para a vida social; tem objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de es- tados mentais, físicos, intelectuais e morais, reclamados pela socie- dade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine. (Durkheim, 1962, p. 27) Assim, quando nascemos, já encontramos algo pronto, que nos é transmitido por outras pessoas e que exerce uma força sobre nós. A educação aqui considerada não se refere apenas à educação que recebemos na escola, mas inclui também aquela Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6060 que recebemos em casa, na rua, no bairro, na igreja, na tele- visão. Esse processo de educação também recebe o nome de socialização, que nada mais é do que o processo de aprender a ser membro de uma sociedade (Berger; Berger, 1977b). Outro conceito importante de Durkheim (1960, 1983a) é o de consciência coletiva. Esta constitui um sistema de represen- tações coletivas independente dos indivíduos. Ela é formada pelo conjunto de normas, leis, gostos, hábitos, modos de agir, de pensar e de sentir, que são coletivos. É importante entender- mos que o fundamento, a origem deste conjunto de elementos, é o meio social (Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2002). É no coletivo que esses elementos se originam e daí vão para os in- divíduos. Assim, a consciência coletiva não se refere apenas à reunião das consciências individuais num todo. A consciência é coletiva pois tem como substrato o social, o coletivo, e não o indivíduo. É como se a consciência coletiva pairasse sobre a sociedade como uma “nuvem” que fornecesse aos indivíduosos modos de pensar, de agir e de sentir, os hábitos e as maneiras de fazer, de entender e de falar. Dessa forma, os fatos sociais – educação, moral, direito, re- ligião – determinam uma consciência coletiva e um dado meio moral da sociedade. Assim, a consciência coletiva, formada por vários modos e maneiras de pensar, de sentir, de agir – ou seja, formada por vários fatos sociais –, determinará o que pode e é aceitável em sociedade, as condutas que se devem adotar, o que é permitido, o que é proibido e o que é tido como estranho ou Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6161 imoral. É por isso que se diz que a consciência coletiva é de- terminada por um dado meio moral, e este, por sua vez, deter- mina as consciências individuais. Assim, percebe-se mais uma vez, como na leitura de Durkheim, a sociedade prevalece sobre o indivíduo. Com base nessa leitura, a própria noção de individualidade que temos hoje é propiciada pelo meio social. Um cidadão só será flamenguista, de esquerda, alfabetizado, gostará de lasa- nha, porque o meio social lhe dá – ou impõe – essas alternati- vas para construir sua individualidade. Dentro de sua orientação metodológica, Durkheim propõe tratar os fatos sociais como “coisas”. E tratá-los como “coisas” significa tratá-los como objetos do conhecimento que a percep- ção humana não penetra de modo imediato, necessitando do auxílio da ciência (Aron, 2003; Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2002; Abel, 1972). Abordar os fatos sociais dessa maneira sig- nifica ter com eles um procedimento de análise diferente do senso comum. Com isso, Durkheim enfatiza a posição de neu- tralidade e objetividade que o pesquisador deve ter em relação à sociedade: ele deve descrever a realidade social sem deixar que suas ideias e opiniões interfiram na observação dos fatos sociais. É possível perceber, então, uma influência positivista nas reflexões de Durkheim. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6262 [2.4] [2.4] O olhar de Durkheim sobre a sociedadeO olhar de Durkheim sobre a sociedade Assim como Comte, Durkheim vê a sociedade em um estado de desorganização (Aron, 2003). E aqui podemos perceber melhor a influência positivista em sua obra. Na sociologia durkheimia- na, a coesão da sociedade é um dos elementos que merecem uma preocupação teórica. Durkheim (1983a) faz uma distinção entre sociedades tra- dicionais e sociedades modernas. As sociedades tradicionais apresentam pouca diferenciação entre os indivíduos e pouca divisão do trabalho. Ou seja, os indivíduos são muito parecidos uns com os outros. Por exemplo, numa tribo indígena, todos os homens sabem caçar, pescar e cultivar a terra. Da mesma maneira, todas as mulheres sabem cuidar dos filhos, têm a ca- pacidade de realizar trabalhos em argila e preparar os alimen- tos. Não existe alguém que seja especialista em uma só função, pois a divisão do trabalho é pouca. Já as sociedades modernas apresentam uma grande divisão do trabalho e muita diferen- ciação entre os indivíduos. Repare a nossa sociedade: quantas profissões e especializações existem? Inúmeras, e os indivíduos são muito diferenciados. Segundo Durkheim (1983a), nas sociedades mais simples o sentimento de pertença ao grupo é muito maior, pois a cons- ciência coletiva é mais forte. Ou seja, os imperativos sociais – normas, leis, modos de agir, de pensar e de sentir do grupo – se impõem com muito mais força ao indivíduo, sobrando pouco espaço para interpretações individuais. Nas sociedades Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6363 modernas e industrializadas existe uma margem maior para interpretação individual dos imperativos sociais e um enfra- quecimento da consciência coletiva. Mas como explicar essa diferenciação entre as sociedades sem apelar para a diferença entre os indivíduos? Como explicar essa diferença com base no social? Pois bem, para o autor, o meio social é produzido pela coo- peração entre os indivíduos, por meio de um processo de in- teração que chamou de divisão do trabalho social (Durkheim, 1960, 1983a). Conforme o tipo de divisão do trabalho que pre- domina numa sociedade em determinada época, temos um tipo de cooperação entre os indivíduos. Nas sociedades simples, em que existe pouca divisão do trabalho, prevalece a solidarieda- de mecânica, baseada na semelhança entre os indivíduos; por isso existe pouca divisão do trabalho. Nesse tipo de sociedade, a consciência coletiva é forte porque os indivíduos são pouco diferenciados entre si, e podemos dizer que a sociedade é mais coesa. Nas sociedades em que existe uma grande divisão do trabalho, prevalece a solidariedade orgânica, baseada na dife- renciação entre os indivíduos. A coesão da sociedade é dada pela dependência que cada indivíduo tem dos outros (Abel, 1972). Nesse caso, a consciência coletiva é mais fraca, deixando uma margem maior para a interpretação grupal ou individual dos im- perativos sociais. Assim, paradoxalmente, a mesma divisão do trabalho que serve para manter a sociedade coesa ao fazer com que cada indivíduo dependa dos outros, também faz com que a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6464 ordem social seja ameaçada pelo individualismo que produz. Quadro 2.2 − Diferença entre sociedades tradicionais Quadro 2.2 − Diferença entre sociedades tradicionais e sociedades modernase sociedades modernas Sociedades tradicionaisSociedades tradicionais Sociedades modernasSociedades modernas Solidariedade mecânica Solidariedade orgânica Pouca divisão do trabalho. Pouca especialização. A consciência coletiva é forte. Baixa densidade populacional. Indivíduos são muito “semelhantes”. Muita divisão do trabalho. Muita especialização. A consciência coletiva é mais fraca. Alta densidade populacional. Os indivíduos são mais diferenciados. É importante observar que, para Durkheim (1983a), as sociedades em que cada um se assemelha a todos vêm, histo- ricamente, antes das sociedades diferenciadas. Ou seja, a soli-dariedade mecânica precede a orgânica. Assim, descarta-se a possibilidade de explicar os fenômenos da diferenciação social e da solidariedade orgânica por meio da afirmativa de que os homens teriam “tomado consciência” de suas condutas indi- viduais, atibuindo, assim, ocupações específicas e rateando tarefas − talvez pela descoberta de que a divisão do trabalho aumenta a produção da coletividade. Tal assertiva presume que os indivíduos são diferentes uns dos outros e têm consciência de tal fato. Ora, a consciência da individualidade não podia Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6565 existir antes da solidariedade orgânica e da divisão de trabalho (Aron, 2003). É a divisão do trabalho como uma estrutura da sociedade que determina se os indivíduos serão ou não diferenciados. Com esse raciocínio, Durkheim confirma seu postulado da prioridade do todo sobre as partes. Os fenômenos individuais são explicados pelo estado da coletividade, e não o contrário. Percebe-se também que a causa de um fenômeno social só pode ser uma causa social, e nunca individual. Por isso, Durkheim aborda a sociedade como um fato irredutível a outros. A causa de um fato social só pode ser outro fato social. Apesar de propor o tratamento dos fatos sociais como “coisas”, à maneira das coisas concretas, Durkheim sabia que eles não eram concretos como os fatos físicos. Ao abordá-los como “coisas”, chama a atenção para a necessidade de tratá-los de ma- neira científica e exterior, isto é, encontrando o meio pelo qual os estados de consciência coletiva não perceptíveis diretamente podem ser encontrados e compreendidos. Afasta-se assim do senso comum, dos preconceitos e das prenoções e passa a tratar o objeto da sociologia de maneira científica. No caso da divisão do trabalho, que desemboca nas duas formas de solidariedade, o meio pelo qual ela pode ser com- preendida são as formas jurídicas. De forma simplista, os dois tipos de solidariedade correspondem a dois tipos de formas jurídicas. À solidariedade mecânica corresponde o direito re- pressivo, que pune as faltas ou crimes. À solidariedade orgânica corresponde o direito restitutivo ou cooperativo, que repõe a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6666 ordem quando uma falta foi cometida e organiza a cooperação entre os indivíduos (Durkheim, 1983a). No direito repressivo, ou seja, nas sociedades de solidarie- dade mecânica, os fatos considerados crime são aqueles que fe- rem a consciência coletiva, que violam um imperativo social. A finalidade do castigo, em uma interpretação sociológica, não é prevenir ou dissuadir alguém de cometer o crime, mas reparar a consciência coletiva, ferida pelo ato criminoso. O direito re- pressivo pode ser exemplificado pelo pecado. O pecado é uma falta individual, mas, sobretudo, é uma falta contra as regras estabelecidas pelo todo, que é a Igreja. Ao pedir o perdão do pecado, o que é reparado é a falta contra a regra que foi bur- lada. Ou seja, é uma questão de reparar a consciência coletiva, retomar as regras estabelecidas que mantêm as pessoas unidas e pertencentes à religião. A punição é aplicada por causa da regra ferida, e não necessariamente por causa do indivíduo (Durkheim, 1983a; Aron, 2003). No direito restitutivo, ou seja, nas sociedades de solidarieda- de orgânica, não se trata de punição e de reparação à consciên- cia coletiva, mas de restabelecer a ordem das coisas e constituir uma forma de organização da coexistência regular e ordenada de indivíduos já diferenciados. Nesse caso, a lei e a punição agi- rão no sentido de manter os indivíduos em consenso. O que exige reparação não é necessariamente a consciência coletiva: mas sim o acordo entre indivíduos diferentes para que a ordem seja restabelecida (Durkheim, 1983a; Aron, 2003). Assim, nas sociedades de solidariedade mecânica, o que mantém o grupo coeso é o compartilhamento de experiências e Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6767 crenças comuns, cuja “violação” é punida pelo coletivo. Há, en- tão, pouco espaço para divergências individuais. Nas socieda- des de solidariedade orgânica, a divisão do trabalho se expande e as pessoas se tornam mais diferenciadas, e por isso mais de- pendentes umas das outras. As relações de reciprocidade eco- nômica e de dependência mútua substituem as crenças comuns ao criarem o consenso social. Como outros fundadores da sociologia, Durkheim (1960, 1983a, 1988) estava preocupado com as mudanças que trans- formavam a sociedade em sua época. A industrialização, a ur- banização e a divisão técnica do trabalho de então produziam um meio social muito diferenciado. Com a consciência coletiva mais fraca, ocorre a emergência do individualismo. As pessoas passam a pensar mais com a sua cabeça e menos como o grupo quer que ela pense. O individualismo surge então como uma ameaça à ordem social, uma vez que o indivíduo não se sente mais pertencente ao grupo. Como vimos, à medida que os indi- víduos se diferenciam, a margem para interpretação individual ou grupal é maior. Dessa forma, os imperativos sociais – regras comuns que mantêm a sociedade coesa – desintegram-se, e a sociedade pode entrar em um estado de anomia, ou seja, de au- sência de regras. É como se não existisse apenas uma regra para todos, mas várias regras para vários indivíduos diferenciados. Com essa interpretação da realidade, Durkheim demons- tra que não pode haver sociedade sem disciplina, sem normas comuns que organizem a vida social e limitem os desejos dos indivíduos. E esse é um dos aspectos centrais abordados em O suicídio, uma obra de 1897. Segundo Durkheim (1983b), a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6868 sociedade moderna atingiu um determinado estado de crise, caracterizado pela desintegração social e pela debilidade dos laços que prendem o indivíduo ao grupo. Como o grupo não consegue mais manter o indivíduo, pois a consciência coletiva e o sentimento de pertencimento ao grupo são fracos, ele sedesliga do social pela morte voluntária. Durkheim preocupava-se com essa falta de laços que pren- dam o indivíduo à sociedade. Como já foi dito, ele chamava isso de anomia, que levaria, segundo sua concepção, à desintegra- ção da sociedade. Ele entendia que faltava à coletividade uma ordem moral que permitisse à sociedade sobreviver e conservar os laços que mantêm os indivíduos unidos em um coletivo. AnomiaAnomia: designa um estado de ausência de regras e normas na sociedade, o que a leva a um estado de desordem e falta de coesão social. Nesse estado, os laços que prendem o indivíduo ao gru- po estão enfraquecidos, e o indivíduo passa a pensar de maneira mais particular, sem levar em conta as regras, normas e imperati- vos dados pela coletividade (Durkheim, 1983b; Johnson, 1997). Como, porém, restaurar a ordem na sociedade, fortalecendo os laços de pertencimento ao grupo? Para Durkheim (1962), a forma possível de restaurar a integração do indivíduo ao grupo é por meio da educação. Nesse sentido, a educação está inves- tida de um sentido de educação moral, pois assume a condição de elemento fundamental na preservação da coesão social. Para Durkheim, educação é sinônimo de socialização, definida como Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 6969 o processo de aprender com as gerações adultas a ser membro da sociedade. Pela educação os indivíduos aprendem as regras e, assim, passam a fazer parte do grupo (Rodrigues, 2004). A sociedade moderna, entretanto, é muito diferenciada por causa da alta divisão do trabalho. Existem várias formas de pensar, várias profissões, inúmeros interesses de grupos e pessoas diferentes. Ora, se ela é muito diferenciada, existem vá- rios meios morais e várias “maneiras de ser” que os indivíduos precisam “aprender”. Assim, não é possível um único tipo de educação para todas as pessoas. Cada grupo deve ter uma edu- cação adequada ao seu meio moral. Meio moral refere-se àque- le conjunto de regras, normas, modos e maneiras de agir, de ser, de pensar que indentificam um grupo dentro da sociedade. Dessa forma, o indivíduo vai aprender a pertencer ao seu grupo, à sua classe, à sua profissão. Para Durkheim (1962), aprender a ser médico ou professor, ou qualquer outra profissão, não é somente aprender uma técnica ou uma teoria, mas aprender a agir como a sociedade espera que essas pessoas ajam. Podemos perceber, dessa forma, várias “maneiras de ser”, pois existem vários meios morais. Note que as pessoas necessi- tam dessa diferenciação. Só assim cada uma poderá cumprir o seu papel na sociedade. Apesar dessa diferenciação, todos pre- cisam ter certos valores e crenças em comum. O indivíduo apre- senta, então, “maneiras de ser” comuns a todos, e “maneiras de ser” específicas suas ou do seu grupo social. Por isso, Durkheim (1962) afirma que a educação é ao mesmo tempo homoge- neizadora e diferenciadora. É homogeneizadora porque deve perpetuar certos valores comuns à sociedade e diferenciadora Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7070 porque deve preparar as pessoas para os vários meios morais aos quais elas se destinam. Não seria possível existir socieda- de moderna sem a homogeneidade, muito menos sem a dife- renciação. As pessoas precisam ter certas concepções, valores e ideias em comum, mas também outros que sejam específicos de seus grupos. Vamos entender melhor essa questão pensando na maneira como nós, brasileiros, falamos. Tanto os que nasceram na região Norte do Brasil como os que são originários do Sul, do Sudeste ou do Nordeste falam o idioma português. O português é co- mum a todos. Contudo, cada região, e mesmo cada estado, tem uma maneira específica de falar. É o sotaque que cada região apresenta. Podemos perceber que todos falamos uma única lín- gua – o que possibilita a uma pessoa que mora no Sul do país se entender com um morador do Amazonas, por exemplo – e to- dos temos um sotaque de uma região específica – o que permite identificar o grupo específico do qual fazemos parte. Assim, a sociedade aparece para Durkheim como um gran- de organismo, composto por várias partes distintas que fazem o todo funcionar, como o corpo humano e os seus órgãos. Se um órgão não funciona direito, é preciso restabelecê-lo, pois cada um tem sua função a cumprir. E essa função, como pudemos ver, é aprendida por meio da educação. Podemos perceber que na concepção que Durkheim tem da relação entre sociedade e educação está presente uma preo- cupação com a conservação da sociedade. Aprender a ser seu membro nada mais é do que conhecer o lugar que irá ocupar nela e aprender sobre ele (Rodrigues, 2004). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7171 SínteseSíntese Por seu surgimento e desenvolvimento, a sociologia pode ser considerada uma ciência tipicamente capitalista. É na socie- dade capitalista que a sociologia encontra ambiente para se constituir como ciência. O surgimento dessa sociedade junta- mente com a industrialização coloca a necessidade de pensar as consequências da transformação e do desenvolvimento. É na sociedade capitalista europeia que a sociologia surge como a ciência que “resolveria” os problemas que a industrialização, a urbanização e a proletarização iriam colocar. Assim, apresenta um caráter marcadamente positivista. E é com Auguste Comte que a sociologia ganha o caráter de ciência positiva. A socieda- de francesa de então apresentava-se para Comte como um caos, levando-o a propor para a sociologia um grau de positividade semelhante ao das ciências naturais. A metodologia da sociolo- gia deveria comportar observação, comparação e classificação, à semelhança do que fazem as ciências naturais, e ainda apre- sentar uma linha evolutiva – filiação histórica – que permitisse conhecer o passado e conduzir ao futuro. Comte vê a socie- dade e os indivíduos marcados pela limitação dentro das leis naturais da sociedade, as quais devem ser conhecidas para se avançar na linha evolutiva. A tradição sociológica na França começa com Comte, mas é com Durkheim que a disciplina adquire sua cientificidade. Durkheim desenvolve conceitos e concepções importantes, como o fato social e suas características (exterioridade, coerci- tividade e generalidade/coletividade), a distinção entre normal e patológico, os conceitos de anomia social e de solidariedade Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po rq ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7272 mecânica e orgânica. A preocupação de Durkheim está em deli- mitar de maneira clara o campo da sociologia, tarefa que come- ça pela definição de seu objeto – o fato social. Ao mesmo tempo que faz essa delimitação, Durkheim procura afastar o domínio da sociologia da influência do senso comum. A ciência – não só a sociologia, mas todas as ciências – deve ultrapassar as noções e as concepções do senso comum. Preocupado com a moral e com ordem social, já que a França passava por um período de lutas sociais, miséria e desemprego, Durkheim dedica seus es- forços à questão educacional, pois acreditava que esta poderia restabelecer os níveis de ordem e moral necessários. Indicação culturalIndicação cultural SEIXAS, R. Ouro de tolo. Raul Seixas. In: Krig-Ha, Bandolo!Krig-Ha, Bandolo! Brasil: Philips, 1973. Faixa 11. Nessa música é possível perceber como as realizações que a sociedade considera importantes não aparecem dessa forma para um indivíduo. Comprar um carro, ter um bom emprego, ser al- guém conhecido e famoso podem ser realizações importante ou podem ser uma “grande piada e um tanto quanto perigosa”. É possível interpretar os versos cantados por Raul Seixas, por meio da análise feita por Durkheim acerca da sociedade moderna, como uma referência à debilidade dos laços que ligam o indiví- duo ao grupo e à consequente desintegração da sociedade. Nenhu ma pa rte de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7373 Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1) Indique se as afirmativas a seguir são falsas (F) ou verdadei- ras (V) no que se refere à concepção positivista: ( ) Propõe uma metodologia para as ciências humanas di- ferente daquela das ciências naturais, uma vez que seus objetos são distintos. ( ) Considera a ordem social regida por leis invariáveis e passíveis de serem descobertas, abrindo, assim, a possi- bilidade de prever o futuro estado das coisas. ( ) A separação entre sujeito e objeto – pesquisador e aquilo que pesquisa – é impossível, pois os seus valores e cren- ças sempre influenciariam nos resultados da pesquisa. Ou seja, não existe ciência neutra e isenta de valores. ( ) As transformações da sociedade – assim como da na- tureza – obedecem a uma ordem evolutiva: do menos desenvolvido ao mais desenvolvido. ( ) O progresso é um traço importante no positivismo. Esse traço pode ser identificado no lema “Ordem e pro- gresso” que lemos na Bandeira Nacional, o que reme- te à in fluência positivista na época da proclamação da República brasileira. Está correta a alternativa: a) F, V, V, F. b) V, F, V, V. c) F, F, V, F. d) F, F, V, V. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7474 2) Quanto à obra de Auguste Comte, indique se as afirmativas a seguir são falsas (F) ou verdadeiras (V): ( ) Comte entendia que a sociedade que surgia da Revolução Francesa estava passando por um momento de desor- ganização e instabilidade. Essa sociedade só poderia ser reformada com a volta ao passado e aos valores tradicio- nais do feudalismo. ( ) Comte afirmava que a sociologia seria a última ciência a se desenvolver, uma vez que o seu objeto de estudo foi o último a alcançar seu pleno desenvolvimento: a socieda- de europeia. ( ) A sociologia, como ciência positiva, poderia restaurar a ordem social a partir do momento que conseguisse des- cobrir as leis que regiam o desenvolvimento das relações sociais. ( ) A obra de Comte e as reflexões que realizou sobre a so- ciedade e a ciência positivista continuam levantando questões e subsidiando as respostas a serem elaboradas. A sociologia comtiana continua, então, com fôlego ex- plicativo para abordar as questões do presente. ( ) Outra questão apontada por Comte diz respeito à reli- gião. Como a sociedade estava desorganizada, era preci- so uma religião forte, pois a fé traria novamente a orga- nização e a estabilidade sociais. Está correta a alternativa: a) F, V, V, F, V. b) V, F, V, V, F. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7575 c) F, V, V, F, F. d) F, F, V, V, V. 3) A respeito da obra de Durkheim é correto afirmar: I. Afirma a predominância do todo sobre as partes, ou seja, o coletivo é maior e mais forte do que o indivíduo. Assim, existem fatos que encontram a sua origem na es- fera coletiva, e não no indivíduo. II. A sociologia de Durkheim rompe totalmente com qual- quer influência de Comte. III. A explicação para os fenômenos sociais só pode ser en- contrada no indivíduo, pois é nele que os estados sociais se manifestam. IV. As gerações adultas não exercem influências diretas sobre as gerações mais jovens. Estas procuram sempre construir algo novo, sem vinculação com o que já estava pronto. V. Para Dukheim, o indivíduo só pode ter suas particula- ridades porque o meio social lhe fornece essas alternati- vas. São verdadeiras as seguintes afirmações: a) I e III. b) I e IV. c) I e V. d) II, III e V. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7676 4) Marque com “1” as características das sociedades em que prevalece a solidariedade mecânica e com “2” as caracterís- ticas das sociedades de solidariedade orgânica: ( ) Indivíduos diferenciados com um alto grau de indivi- dualismo; ( ) Pouca divisão do trabalho, com tarefas definidas basica- mente pelo sexo dos indivíduos; ( ) Os indivíduos são muito semelhantes entre si. A maioria domina quase a totalidade das atividades do grupo; ( ) Os indivíduos são muito dependentes uns dos outros, pois a divisão do trabalho é acentuada; ( ) A consciência coletiva é forte, sendo os imperativos so- ciais muito presentes na vida coletiva; ( ) A consciência coletiva é fraca, abrindomargem para in- terpretações individuais dos imperativos sociais; ( ) Alto grau de especialização no trabalho e nas atividades, sendo impossível para um indivíduo dominar todas as funções e atividades do grupo. Está correta a alternativa: a) 2, 1, 1, 2, 1, 2, 2. b) 1, 1, 2, 2, 1, 2, 1. c) 2, 1, 1, 2, 2, 1, 2. d) 2, 1, 2, 2, 1, 2, 1. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7777 5) Relacione os conceitos referentes à obra de Durkheim lista- dos a seguir com as definições apresentadas na sequência: 1. Consciência coletiva 2. Anomia 3. Educação 4. Coesão social ( ) Processo de aprendizagem das normas sociais do grupo; sinônimo de socialização. ( ) Estado da sociedade marcado pela ausência de regras. ( ) Definida pela dependência que cada indivíduo tem em relação aos outros nas interações da vida social. ( ) Imperativos sociais, como normas, leis, costumes, mo- dos de agir e pensar, que se encontram no meio social e se impõem aos indivíduos. A alternativa que apresenta a associação correta é: a) 1, 3, 4, 2. b) 3, 2, 4, 1. c) 3, 2, 1, 4. d) 4, 2, 1, 3. Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1. Por que podemos afirmar que, para Durkheim, a socieda- de não é formada pelos indivíduos, e sim os indivíduos é que são formados pela sociedade? Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 7878 2. Durkheim define o fato social como o objeto da sociolo- gia e propõe tratá-lo como “coisa”. Explique essa pers- pectiva. Atividade aplicada: práticaAtividade aplicada: prática Vivemos claramente numa sociedade de solidariedade orgânica, com indivíduos muito diferenciados e uma grande divisão do trabalho. Apesar de sermos muito diferenciados, temos alguns aspectos em comum. Um exemplo é a linguagem. Apesar dos vários regionalis- mos e gírias de grupos específicos, todos falam o por- tuguês. Isso demonstra que sempre existirão elementos específicos e elementos comuns a todos, como afirma Durkheim. Para perceber melhor esse aspecto, realize uma pesquisa sobre regionalismos ou gírias de grupos sociais e os seus significados. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. A sociologia de Karl Marx [Capítulo 3][Capítulo 3] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8080 Conhecendo um pouco mais a obra de dois sociólogos – Comte e Durkheim –, já é possível perceber que a análise da sociedade não se apresenta como uma verdade única. Não há uma úni- ca nem definitiva resposta, pois os olhares que os pensadores lançam sobre a realidade são diferentes. Isso não significa que nunca teremos uma resposta correta sobre como a realidade social se organiza, mas sim que essa realidade é tão complexa que admite várias explicações e problematizações. Neste capítulo, abordaremos um pensador polêmico, pois, além de analisar a sociedade de seu tempo, Marx deseja “im- plodi-la”. Em sua análise, ele afirma que o capitalismo é um sis- tema contraditório e que a sociedade pode ser explicada com base em suas contradições. Mas, quando diz que o capitalismo é contraditório, Marx não está querendo simplesmente fazer uma crítica destrutiva. Essa é sua concepção metodológica. E, partindo dessa concepção, Marx procede à sua análise toman- do como base o trabalho, pois, segundo ele, o trabalho é um elemento essencial para compreender a maneira como os ho- mens vivem. Veremos, neste capítulo, como Marx formula seu olhar so- bre o capitalismo tendo como base a contradição presente nes- se sistema e a maneira como os homens constroem a sociedade pelo trabalho. Esta última questão se desdobra na concepção materialista da história e na relação entre estrutura econômica e superestrutura da sociedade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8181 Começaremos então com a questão da contradição, que vai nos ajudar a diferenciar Marx dos dois outros autores vistos anteriormente. [3.1] [3.1] A sociologia de Karl MarxA sociologia de Karl Marx O filósofo, economista e sociólogo alemão Karl Marx (1818- 1883) também presenciou os desdobramentos da Revolução Industrial, como Comte e Durkheim (Aron, 2003). Ele con- sidera a dinâmica social como portadora de uma ordem evo- lutiva, como faz Comte (1978a, 1978b, 1978c, 1978d, 1983a, 1983b). Ou seja, as sociedades evoluiriam seguindo uma linha (Sztompka, 2005). Assim, Marx (1968; 1978) entende que o ho- mem e a sociedade que analisa são produtos de um homem e de uma sociedade anteriores. Mas as semelhanças entre Comte e Durkheim param por aí. Existem muitos pontos de distinção entre os autores. Comte e Durkheim (1960; 1983a, 1983b) entendem a so- ciedade como um organismo, em que cada parte cumpre uma função específica para o funcionamento do todo. Se uma dessas partes não está funcionando bem, é preciso “reformá-la”, pois o seu mau funcionamento afeta toda a sociedade. Existe então a ênfase no consenso. Ou seja, esses autores focalizam em suas análises os aspectos associativos da sociedade. Buscam sempre, influenciados pelo positivismo, perceber quais são os aspectos da ordem social que precisam ser mudados para que a socieda- de se estabilize. Por isso, podemos dizer que Comte e Durkheim focalizam o consenso da ordem social, na tentativa de reformar Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o dos di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8282 a sociedade (Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2002). Por outro lado, Marx (1968, 1978) concentra seus esforços na contradição que a realidade apresenta, isto é, ele vê a contra- dição como um elemento essencial da realidade. Mas como a contradição pode ser essencial? Temos a ideia de que as coisas contraditórias não funcionam, não dão certo, e Marx vem dizer o contrário? Pois é isso mesmo! Segundo Marx, a contradição, a união de elementos opostos, é a condição para a realidade se concretizar. Pensemos no processo educativo para ilustrar essa questão. Podemos dizer que a educação está baseada na contradição. Alunos e professores são diferentes, pois têm em si elementos opostos. O professor possui algo que o aluno não tem, e o aluno deseja alcançar aquilo que ele ainda não é. Mas, para que a educação e a transmissão de saberes aconteça que, esses dois sujeitos que apresentam elementos contrários – alu- no e professor – entram em relação e produzem uma nova re- alidade, que não existiria se eles não se relacionassem. É, então, dessa maneira que Marx vê a contradição como um elemento essencial da realidade social e do capitalismo. Em sua obra, Marx procura fazer uma análise do capitalis- mo, mas seu objetivo não é apenas proceder a essa análise para saber como funciona; com isso ele quer poder transformar a sociedade, ou seja, produzir uma nova realidade a partir das contradições do capitalismo (Kammer, 1998). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8383 Mas transformar em que sentido? E como Marx faz a análi- se do capitalismo? Para entendermos melhor como essas ques- tões foram formuladas e respondidas, vamos estudar um pouco mais sobre a obra de Marx. [3.2][3.2] Marx e a análise do capitalismoMarx e a análise do capitalismo Como dissemos, um dos objetivos de Marx era fazer uma análi- se da sociedade de seu tempo. Se prestarmos atenção nas datas das obras dos autores – Comte, Durkheim e Marx –, notaremos que Marx é contemporâneo tanto de Comte como de Durkheim. Então, a sociedade que Marx analisa é a mesma sociedade euro- peia resultante da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. Mas seu olhar é um pouco diferente dos olhares dos autores que já vimos até este ponto. Se eles veem os problemas da sociedade capitalista que surgia como algo a ser “remediado”, para Marx, toda a miséria, as desigualdades e principalmente a pobreza da classe trabalhadora são próprias do capitalismo, ou seja, são ele- mentos estruturais desse sistema. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8484 Karl Heinrich MarxKarl Heinrich Marx nasceu em Trier, na Alemanha, no dia 5 de maio de 1818. Pertencia a uma família de classe média alta. Seu pai era advogado. Estudou Filosofia na Universidade de Berlim. Em 1843, transferiu-se para Paris, onde conheceu o também alemão Friedrich Engels (1820-1895). Juntamente com Engels, Marx produziu sua obra e idealizou o socialis- mo e o comunismo, tendo sempre em vista a organização do proletariado. As principais obras de Marx são: Miséria da filosofia (1847), O dezoito brumário de Luis Bonaparte (1852) e O capital (1867-1894). Destacam-se também as obras que escreveu com Friedrich Engels: A sagrada família (1844), A ideologia alemã (1845) e Manifesto comunista (1847) (Aron, 2003; Giddens, 2005; Seel, 2002). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8585 Como vimos, Marx focaliza as contradições e afirma que o capitalismo é contraditório por excelência. Segundo o autor, as duas principais contradições da sociedade moderna e capita- lista se dão, em primeiro lugar, entre as forças produtivas, que não cessam de crescer, e as relações de produção (relações de propriedade e distribuição de renda), que não se transformam no mesmo ritmo; e, em segundo lugar, entre o crescimento da riqueza e o aumento da miséria (Marx, 1978; Aron, 2003). Quadro 3.1 − Contradições básicas do capitalismoQuadro 3.1 − Contradições básicas do capitalismo Desenvolvimento das forças produtivas X Relações de produção (relações de propriedade e de distribuição de renda) Crescimento da riqueza X Aumento da miséria Vamos tentar entender o que significa a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivasforças produtivas são formadas pelos meios de produção e pelo trabalho humano. É assim tudo aquilo que a sociedade utiliza para produzir os bens necessários à sobrevivência das pessoas. Por exemplo, durante a escravidão no Brasil, a forma de energia utilizada era a energia animal, e a mão de obra era es- crava. Durante a Revolução Industrial, na Europa, era utilizada a energia a vapor e a mão de obra era assalariada. Atualmente, as formas de energia utilizadas são várias – elétrica, nuclear – e Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8686 a mão de obra também é assalariada em sua maioria. Temos ainda as tecnologias, como a microeletrônica, a tecnologia di- gital, os melhoramentos genéticos. Enfim, as forças produtivas constituem todas aquelas forças, meios, técnicas e formas que a sociedade utiliza para produzir aquilo de que necessita. Forças produtivasForças produtivas são todas as forças, meios, técnicas e formas de organizar o trabalho que a sociedade utiliza para produzir aquilo de que necessita. Inclui as tecnologias, as fontes de energia, o tipo de trabalho utilizado − trabalho escravo, livre, assalariado, servidão (Marx, 1978; Kammer, 1998; Bottomore, 2001). Já as relações de produção, constituídas pelas relações de propriedade e de distribuição, referem-se às formas de distri- buição das propriedades e dos bens na sociedade (Marx, 1968). Como exemplo, vamos voltar novamente ao período da escra- vidão. Lá, as relações de propriedade estavam organizadas de tal maneira queos escravos não possuíam nada, e tudo aquilo que produziam pertencia ao senhor. Na sociedade capitalista analisada por Marx (1968, 1978), os trabalhadores são pro- prietários da sua força de trabalho, enquanto os burgueses são proprietários dos meios de produção. Para sobreviver, os traba- lhadores – ou proletários – alugam a sua força de trabalho aos burgueses – ou capitalistas –, recebendo em troca um salário. Nenhu ma pa rte de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8787 Relações de produçãoRelações de produção são formadas pelas relações de proprieda- de e de distribuição, ou seja, referem-se aos tipos de propriedade que existem e como são distribuídos os bens produzidos, de acor- do com os tipos de propriedade (Sell, 2002; Bottomore, 2001). Vamos voltar então às contradições apresentadas anterior- mente. Marx (1968, 1978) percebe que as forças produtivas se desenvolviam muito. Novas fontes de energia apareciam, novos materiais, novas técnicas e máquinas. Com isso, produzia-se cada vez mais e melhor. Por outro lado, as relações de proprie- dade e de distribuição não se desenvolviam. Os trabalhadores continuavam proprietários apenas da sua força de trabalho e continuavam sendo assalariados dependentes do trabalho para sobreviver. Paralelamente a isso, a riqueza aumentava – reflexo do desenvolvimento das forças produtivas –, mas aumentavam também a pobreza e a miséria – como consequência do não desenvolvimento das relações de propriedade e de distribuição. Assim, seria necessário superar essas duas contradições, quer pelo desenvolvimento natural do capitalismo, quer pela revolu- ção socialista, que aceleraria esse desenvolvimento (Sell, 2002). É importante termos em mente que a obra de Marx não se encaixa facilmente no arcabouço teórico de uma única ciência (Lefebvre, 1979). De certa forma, esse pensador não buscou fazer sociologia, economia política, filosofia ou história; apesar de sua obra conter todas essas ciências, o que Marx pretendeu foi com- preender a gênese do homem social por meio do materialismo Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8888 histórico. Ou seja, ele queria compreender como o homem se forma em sociedade com base na análise da maneira como essa sociedade produz os bens necessários à sua sobrevivência. Vamos pensar em um produto qualquer para entendermos um pouco melhor essa concepção. Por exemplo, como foi pro- duzida a cadeira que você utiliza em sua casa ou no escritório? Por um trabalho voluntário, por um trabalho assalariado ou por um trabalho escravo? O material empregado para produzi-la pertencia a quem? Era de propriedade particular, foi retirado diretamente da natureza durante um ritual religioso ou foi pro- duzida com um novo material, fruto das inovações tecnológicas? Perceba que todas essas questões remetem ao nível de desen- volvimento das forças produtivas e às relações de propriedade e de distribuição. Assim, as formas como os homens produzem a materialidade de que necessitam condicionam a forma como vivem (Marx, 1978). Veremos isso em mais detalhes quando estudarmos a relação entre a estrutura e a superestrutura. Marx (1968, 1978) visava ao conhecimento de uma totali- dade – a sociedade capitalista –, e o cerne da busca por essa to- talidade está na relação entre o homem e suas obras. Em certo sentido, a pretensão de Marx se assemelha à de Durkheim, ou seja, descobrir as leis gerais que movem a sociedade. Para che- gar ao entendimento da sociedade capitalista, Marx empreende a busca por essa “lei geral” que rege a sociedade. E julga tê-la encontrado. Para ele, o que move a história é a luta de classes. Para entender a concepção materialista da história e de como a luta de classes é o motor da história, é preciso entender a concepção de trabalho em Marx. É o que veremos a seguir. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 8989 [3.3][3.3] A concepção de trabalho em MarxA concepção de trabalho em Marx e a estrutura econômica da sociedadee a estrutura econômica da sociedade O trabalho é a interação do homem com a natureza para prover sua sobrevivência. É mediante o trabalho que o homem trans- forma a natureza e produz a materialidade, isto é, todos os obje- tos de que necessita, como alimentos, ferramentas, casas, mesas, carros, computadores. Ao produzir materialmente a sua sobre- vivência transformando a natureza, o homem transforma-se a si próprio e a totalidade da qual faz parte (Marx, 1978). Assim, os homens, por meio do trabalho, entram em contato uns com os outros e passam a transformar a realidade que os cerca. O trabalho promove, então, o intercâmbio com a natureza e com outros homens. Combinando força física e reflexão intelectual, o homem foi aumentando cada vez mais sua capacidade de transformar a natureza (Lessa, 2002). Desenvolveu-se, assim, o que Marx (1968) chamou de forças produtivas. Como podemos perceber, o trabalho não se dá de maneira individual e isolada na luta do homem com a natureza, mas dentro de determinadas relações, “necessárias, independentes de sua vontade”, com outros homens (Marx, 1978). Em outras palavras, para viver, o homem precisa inicialmente transformar a natureza e nessa transformação estabelece um conjunto de relações sociais, organizando de modo específico o trabalho e a propriedade. Intituem-se, assim, formas de propriedade, de distribuição de divisão do trabalho, que são as relações sociais de produção. O conjunto destas constitui a estrutura econômica Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9090 da sociedade e é a base real que condiciona todo o conjunto da sociedade. Sobre essa estrutura econômica se estabelece uma superestrutura jurídica e política, a que correspondem deter- minadas formas de consciência, pelas quais os homens tomam conhecimento de toda a sociedade. Assim, o modo de produ- ção da vida material condiciona o processo da vida social, polí- tica e intelectual em geral. Dessa forma, não é possível entender a política ou a cultura de determinada época sem entender a relaçãobásica (econômica) que condiciona todo o conjunto da sociedade (Marx, 1968, 1978). Figura 3.1 − Superestrutura e estrutura da sociedadeFigura 3.1 − Superestrutura e estrutura da sociedade SUPERESTRUTURA JURÍDICA E POLÍTICA Formas de consciência D E T E R M I N A ESTRUTURA ECONÔMICA DA SOCIEDADE Conjunto das relações sociais de produção (relações de propriedade, divisão do trabalho, nível de desenvolvimento das forças produtivas) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9191 Ao se transformarem, os modos de produzir transformam toda a sociedade. Assim, a história da humanidade é a histó- ria dos modos de produção. Segundo Marx, podemos pensar basicamente em três modos de produção vigentes ao longo da história: o modo de produção escravista antigo, o modo de pro- dução feudal e o modo de produção capitalista (Sell, 2002). E é claro que cada um desses modos de produção tem níveis próprios de desenvolvimento das forças produtivas e diferen- tes formas de organização da propriedade e de distribuição. As forças produtivas e as relações de propriedade e de distribui- ção respondem às perguntas: Como produzem? O que utilizam para produzir? Quem possui o quê? Como a produção é distri- buída? No modo de produção escravista antigo, as proprieda- des são dos senhores, e os escravos produzem as mercadorias necessárias. É importante ressaltar que os escravos também são de propriedade do senhor. E é isso que caracteriza os escravos: não ter a propriedade nem do seu corpo. Assim, no modo de produção feudal, existem senhores e servos. Diferentemente dos escravos, os servos não são de pro- priedade dos senhores. Apenas o meio de produção é de pro- priedade do senhor, que no caso do feudalismo é basicamente a terra. O servo pertence à terra e serve ao senhor, por meio de uma trama de fidelidades e obrigações entre os dois. Existe uma relação de servidão, e não de escravidão. No modo de produção capitalista, os meios de produção pertencem ao capitalista, os trabalhadores possuem a força de trabalho, e o trabalho é as- salariado. O capitalista compra a parte da força de trabalho de que necessita (Aron, 2003). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9292 Podemos perceber que nos diferentes modos de produção existem diferentes grupos inseridos nas relações sociais de pro- dução: senhor e escravo, servo e senhor, trabalhador e capitalis- ta. Esses grupos constituem as classes sociais (Lefebvre, 1979). A classe socialclasse social define-se a partir da inserção dos indivíduos na produção da vida material, ou seja, o que os indivíduos são no momento do trabalho, se são escravos ou senhores, trabalhado- res ou patrões. Com base nessas inserções, tere mos uma deter- minada posição em relação às formas de propriedade. O escravo não tem propriedade alguma e o senhor tem a propriedade dos meios de produção e dos escravos. Os trabalhadores têm como propriedade a sua força de trabalho e o patrão tem a propriedade dos meios de produção (Lefebvre, 1979; Bottomore, 2001). As classes sociais estão em constante conflito, sempre numa relação de oposição e complementaridade. Entretanto, a análise de Marx mostra que em determinado momento os conflitos já não podem mais ser resolvidos. Ocorre uma contradição muito grande entre o desenvolvimento das forças produtivas e as rela- ções de produção e de distribuição. Existe, então, a necessidade de mudança, de se estabelecerem novas relações de proprieda- de e de distribuição. Os modos de produção se transformam mediante a oposição entre os dois principais grupos (ou classes sociais) que compõem a sociedade. Assim, o modo de produ- ção escravista se transforma e dá origem ao modo de produção feudal. Este, por sua vez, se transforma e dá origem ao modo de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9393 produção capitalista, que também irá se transformar e originar outro modo de produção. Quando a base econômica se transforma, passa a ocorrer uma mudança em toda a superestrutura social, com suas for- mas jurídicas, intelectuais e culturais (Aron, 2003; Sell, 2002). É dessa forma que Marx (1968, 1978) afirma que a luta de classes é o motor da história, pois é ela que faz a história se desenvolver ao transformar o modo de produção. Podemos perceber como a maneira pela qual os homens produzem a sua materialidade condiciona toda a vida social. É isso que Marx chama de mate- rialismo histórico ou concepção materialista da história. Pelo materialismo históricomaterialismo histórico, a maneira como os homens produ- zem a materialidade do mundo condiciona a vida social. As gran- des transformações são as transformações na forma de produzir – estrutura econômica –, que, por sua vez, transformam toda a so- ciedade (Rodrigues, 2004; Sell, 2002; Bottomore, 2001). Vamos acompanhar um trecho escrito por Marx em 1859, em que ele desenvolve a concepção de como a produção da materialidade determina a estrutura social e a consciência dos homens sobre essa estrutura: Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a uma etapa determinada de desen- volvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade des- tas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9494 a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência. (Marx, 1978, p. 129) Para Marx (1978), o capitalismo é um modo de produção que contrasta com os demais modos de produção da história. Sua especificidade está em produzir mercadorias visando à acumulação e à reproduçãoda riqueza social, assegurando os meios para a apropriação privada da riqueza por aqueles que são proprietários dos meios de produção. Na sociedade capitalista as relações de produção definem dois grandes grupos: de um lado, os capitalistas, donos dos meios de produção (máquinas, ferramentas, terras, capital) necessários para transformar a natureza e produzir mercado- rias; do outro, os trabalhadores, ou proletariado, que possuem como propriedade apenas a sua força de trabalho (Aron, 2003; Lefebvre, 1979; Sell, 2002). Os capitalistas formam a classe do- minante, e o proletariado, a classe dominada. A produção na sociedade capitalista se dá porque capitalistas e trabalhadores entram em uma relação de complementaridade e contradição. Na relação de complementaridade, o capitalista só consegue pôr em funcionamento os seus meios de produção mediante a força de trabalho dos trabalhadores. O trabalhador, por sua vez, só consegue sua sobrevivência – reproduzir-se como força de trabalho – se alugar a sua força ao capitalista. Nesse sentido, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9595 como dependem um do outro, capitalista e trabalhador são complementares. Trabalhadores e capitalistas, porém, também se encontram em oposição. Como exemplo, podemos pensar sobre o salá- rio. Este é definido como o valor pago ao trabalhador pelo seu trabalho. Mas nas condições do capitalismo, quanto mais alto for o salário, mais baixo será o lucro do capitalista. Podemos afirmar que existem então interesses contraditórios na rela- ção capitalistas/trabalhadores: capitalistas querem lucrar cada vez mais pagando salários cada vez menores e trabalhadores querem receber salários cada vez maiores. Nesse sentido, tra- balhador e capitalista estão em oposição, pois seus interesses são contrários. Até agora vimos como a estrutura econômica determina a vida social e um pouco do caráter contraditório que o capitalis- mo apresenta. O próximo ponto de nossa análise será relativo à maneira como os homens tomam consciência de suas condi- ções de vida. [3.4] [3.4] A consciência dos homensA consciência dos homens e a estrutura econômica da sociedadee a estrutura econômica da sociedade A concepção materialista da história explica como a socieda- de se estrutura a partir de sua base econômica e do trabalho. A análise de Marx mostra como a realidade concreta se apre- senta, como as relações concretas do homem constroem uma estrutura social – a estrutura social do capitalismo. Contudo, a maneira como os homens tomam consciência dessa estrutura Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9696 é diversa da maneira como realmente ela se apresenta (Aron, 2003; Sell, 2002). Ou seja, a maneira como as coisas acontecem concretamente é diferente da maneira como os homens perce- bem esses acontecimentos. Vamos tomar emprestado um exemplo da ótica para enten- dermos melhor essa ideia. Observe a figura a seguir. As retas A e B na realidade têm o mesmo tamanho. No entanto, o que percebemos é que a reta A é menor do que a reta B. Pegue uma régua, meça as duas retas e você verá que elas têm o mesmo tamanho. Ou seja, o que percebemos não corresponde à reali- dade tal qual ela é. Figura 3.2 − Exemplo ótico de divergência da percepçãoFigura 3.2 − Exemplo ótico de divergência da percepção A B Fonte: SISTEMA..., 2010. É mais ou menos isso que Marx (1978) quer dizer quando afirma que a consciência que os homens têm não correspon- de às reais condições que se apresentam na vida social. Diz ele Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9797 ser necessário distinguir as transformações materiais das con- dições econômicas de produção das formas pelas quais os ho- mens tomam consciência da realidade. Contudo, A consciência que os homens têm dessas relações, segundo Marx, não condiz com as relações materiais que de fato vivem. As ideias, as concepções sobre como funciona o mundo são representações que os homens fazem a respeito de suas vidas, do modo como as re- lações aparecem na sua experiência cotidiana. Essas representações são, portanto, aparência. Para Marx essas representações implicam, num primeiro momento, uma falsa consciência, uma consciência invertida, pois se prendem à aparência e não são capazes de captar a essência das relações às quais os homens estão de fato submetidos. (Rodrigues, 2004, p. 41-42). Ou seja, os homens têm uma visão distorcida da realidade, como no caso do desenho das retas colocado anteriormente. Aqui entra em cena o conceito de ideologia de Marx (1978). A ideologia designa um conjunto de representações caracterís- ticas de uma época e de uma sociedade. Essas representações são produzidas pela prática social em estruturas sociais e mo- dos de produção determinados (Mészaros, 2006). Porém, essa prática social produz representações que são aparências da rea- lidade. A ideologia seria, então, uma falsa representação da rea- lidade, uma representação errônea da história. A consciência que o homem como ser consciente possui reflete uma forma que ele não é. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9898 IdeologiaIdeologia é o conjunto de representações características de uma época e de uma sociedade, produzidas pela prática social. Contudo, segundo Marx, essas representações não correspon- dem à realidade tal qual ela é; elas são, sim, uma aparência da realidade. A ideologia é como uma “cortina de fumaça” que dis- torce a visão que os homens têm da realidade (Aron, 2003; Sell, 2002; Bottomore, 2001). Embotados pela ideologia do sistema capitalista, os traba- lhadores veem como normal o fato de não serem donos dos meios de produção nem do fruto do trabalho, recebendo pelo trabalho executado um salário no final do mês. Não percebem que foram separados pelo capitalismo do controle autônomo que exerciam sobre o seu trabalho e também do fruto desse trabalho (Mészaros, 2006). Para entendermos um pouco melhor as ideias de Marx, va- mos analisarcomo era o trabalho no sistema de corporações durante o feudalismo, na Idade Média europeia, tema de que já tratamos um pouco no primeiro capítulo. Durante o perío- do, a produção se dava basicamente nas oficinas dos mestres artesãos, os quais detinham todo o conhecimento sobre o pro- cesso produtivo. Planejavam como iriam fazer o produto, que materiais iriam utilizar e como venderiam. Eles eram proprie- tários das ferramentas, do seu tempo e do produto final. Com o surgimento do sistema de fábricas, os mestres saíram das suas oficinas e foram trabalhar nas fábricas. Lá, já não eram mais donos das suas ferramentas, não tinham mais autonomia sobre Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 9999 o seu tempo de trabalho e aquilo que produziam já não lhes pertencia mais. Eles ainda detinham o saber sobre o trabalho, mas, quando as tarefas foram divididas e cada um passou a exe- cutar apenas um pedaço do antigo ofício, os mestres artesãos perderam também o saber sobre o trabalho. O mestre artesão, que antes executava todo o trabalho de confecção de um pro- duto, transformou-se no trabalhador que sabia realizar apenas uma etapa da fabricação. Como ele perdeu esse saber, ficou dependente do capitalista, pois não conseguia mais fabricar o produto sozinho (Marx, 1968). O mestre artesão, que na sua oficina dominava todo o pro- cesso de fabricação do produto, foi, pouco a pouco, no siste- ma de fábricas, perdendo o domínio do processo de trabalho. Antes, o trabalho era executado do começo ao fim por um só artesão, e na fábrica ficou dividido. Vários trabalhadores pas- saram a executar parcelas de um mesmo processo de trabalho. O trabalhador transformou-se no que Marx (1968) chama de trabalhador parcial. Na divisão do trabalho que ocorre na fábrica, as várias ope- rações que formam o processo de trabalho são separadas umas das outras e atribuídas a trabalhadores diferentes. Assim, quando o capitalista divide o processo de trabalho em etapas, retira esse processo do controle do trabalhador e o reconstitui sob seu poder. Assim, o capitalismo é a história da expropriação* do traba- lhador, que, com isso, fica dependente do capitalista. O traba- lhador atual, segundo Marx (1968, 1978), não percebe que foi * ExpropriaçãoExpropriação: desapropriação, ação de retirar algo da posse de alguém. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 100100 expropriado do seu saber, pois essa relação se dá de forma en- coberta pela ideologia. O trabalhador vê como normal o fato de trabalhar, receber um salário no final do mês e não ser dono daquilo que produz nem dos meios que utiliza para produzir, enquanto o capitalista fica com o lucro da produção. O traba- lhador é separado do saber do seu trabalho e também do re- sultado dele, mas não percebe sua condição. Marx chama esse trabalho de alienado. Como consequência dessa forma de trabalho, os homens adquirem uma falsa consciência da realidade em que estão in- seridos. Eles veem a dominação a que estão submetidos como um fato natural, como se sempre fora assim. Essa falsa consciên- cia é fornecida pela superestrutura jurídica e política e obriga os homens a se comportarem de determinada maneira, como se fosse a sua própria vontade. E essa é outra característica do capitalismo: o dominado pensar com a cabeça daquele que o domina, pois o trabalhador acha justo que o capitalista se apro- prie do fruto do trabalho enquanto ele recebe apenas o salário (Rodrigues, 2004). Ora, o sistema de ideias e de concepções ordenadas que pre- dominam na sociedade faz com que os homens se comportem da maneira que a classe dominante deseja. Assim, essa classe pode continuar se apropriando do fruto do trabalho e, enquanto a ri- queza de alguns cresce, a pobreza dos trabalhadores aumenta. Podemos perceber que, para Marx, a questão primordial para os trabalhadores não é apenas o aumento de salários. A injustiça maior, ou a grande contradição do capitalismo, é o fato de os trabalhadores não serem proprietários da riqueza Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 101101 que produzem (Mészaros, 2002). O salário representa apenas uma parte da riqueza que o trabalhador produz; o resto da ri- queza é apropriada pelo capitalista na forma daquilo que Marx (1968) chama de mais-valia. Vejamos o que Marx quer nos mostrar com esse conceito. Com seu trabalho, o homem confere valor às coisas. Voltemos ao exemplo da cadeira do início do capítulo. Se for uma cadeira de madeira, um dia ela já foi uma árvore. O homem a retirou da natureza e a transformou em um objeto novo. Deu àquela árvo- re, então, um valor que antes não possuía. E isso só foi possível por meio do trabalho que realizou. A árvore transformada em cadeira passou a ser utilizada de outra forma, não mais como árvore. Adquiriu um valor de uso, pois agora não é mais um simples pedaço de madeira, mas sim um objeto passível de uso. Na sociedade capitalista, entretanto, mais do que esse valor de uso, os objetos têm também um valor de troca, que se refere à quantidade de dinheiro que eles valem no contexto das relações comerciais do capitalismo. Mas a quantidade de dinheiro que a cadeira vale não é entregue toda ao trabalhador que a produziu. Ele só recebe, em forma de salário, uma parte desse valor de troca que produziu. Tal parte destina-se para a sua reprodução, para ele sobreviver e ter filhos que continuem trabalhando e gerando ri- queza. Segundo a análise de Marx, por mais que o salário seja alto, ele sempre vai se constituir apenas em uma parte da riqueza que o trabalhador produz. A maior parte é apropriada pelo capitalista na forma de mais-valia. De forma simples, podemos então definir mais-valia como a parte da riqueza gerada pelo trabalhador que não é entregue a ele, mas sim apropriada pelo capitalista. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 102102 No sistema capitalista, o trabalhador é, dessa maneira, al- guém que confere valor, ou o que Marx (1968) chama de força de trabalho. Ele é assim denominadoporque não planeja mais o que vai produzir, não tem mais o saber sobre o trabalho, não possui os meios de produção nem é dono daquilo que produz. Apenas confere valor aos produtos ao utilizar os meios de pro- dução do capitalista. O homem trabalhador se esvazia de sua humanidade e passa a ser apenas força de trabalho. Por outro lado, as mercadorias que produz como que “adquirem vida”. Mas como isso é possível? Da seguinte maneira: Marx diz que as relações que se estabe- lecem nas trocas dos valores de uso não se dão entre aqueles que produzem e aqueles que necessitam de um produto qualquer. Isso porque o produto não pertence àquele que o produziu; logo, a relação não se dá entre os produtores das mercadorias, mas entre as mercadorias. No sistema de corporações, era o próprio mestre artesão que vendia seu produto a outra pessoa. No capi- talismo, a mercadoria é vendida no mercado e já não tem mais nenhuma relação com quem a produziu. Uma cadeira passa a ser igual a um valor em uma determinada moeda. A isso Marx chama de fetichismo da mercadoria e reificação do homem. Ou seja, as mercadorias criam vida, e o homem se torna uma “coisa”, um objeto, a força de trabalho que confere valor à mercadoria. A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir característi- cas sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 103103 individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como re- lação social existente, à margem deles, entre os produtores do seu próprio trabalho [...]. Uma relação social definida estabelecida en- tre os homens assume a forma fantasmagórica de uma relação en- tre coisa [...]. Chamo a isto de fetichismo, que está sempre grudado aos produtos do trabalho, quando são gerados como mercadorias. (Marx, 1968, p. 81) Como foi dito no começo deste estudo, o objetivo de Marx não era apenas compreender o capitalismo, ele queria também transformá-lo (Aron, 2003). Segundo Marx, assim como acon- teceu com os modos de produção anteriores ao capitalista, este também iria transformar-se por causa das suas contradições. Mas, se os homens tomassem consciência da real condição em que as relações se davam na sociedade capitalista, essa trans- formação seria acelerada. Com a tomada de consciência pelos trabalhadores, eles poderiam transformar o modo de produ- ção. Surgiria, então, uma nova sociedade: a sociedade socialista e, depois, a sociedade comunista. No socialismo, os meios de produção e a riqueza não pertenceriam mais ao capitalista. Os meios de produção seriam de propriedade estatal. Após essa fase, os meios de produção seriam de propriedade coletiva, ou seja, seriam de todos ao mesmo tempo. É claro que ainda não chegamos a essa fase da história. Algumas experiências socialistas podem demonstrar como a teo ria de Marx estava errada nesse ponto. Como exemplo, temos a ex-União Soviética (URSS), país formado pela união de várias repúblicas socialistas após a Revolução Russa de 1917. Contudo, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 104104 quando Marx (1968, 1978) afirmou o fim do capitalismo e a sua substituição pelo socialismo e depois pelo comunismo, ele estava pensando em um país onde as forças produtivas já esti- vessem plenamente desenvolvidas. A URSS era um país que fez a sua revolução socialista quase imediatamente após ter saído do feudalismo. Assim, não havia ainda desenvolvido plenamen- te as suas forças produtivas para entrar em contradição com as relações sociais de produção. Isso não significa dizer que a aná- lise de Marx não tem validade, uma vez que as suas “previsões” ainda não se concretizaram (Kammer, 1998). A grande contri- buição de Marx não são as suas “previsões”, mas o arcabouço teórico que permite levantar questões pertinentes à nossa forma de organização social. Um bom exercício talvez seja pesquisar nos livros de história sobre a Revolução Russa de 1917, o que o ajudará a entender melhor a análise marxista da sociedade. SínteseSíntese A obra de Marx se constitui numa análise do capitalismo com base na estrutura econômica que apresenta. Marx nos mostra como a produção da vida material condiciona toda a socieda- de. Para isso, parte de um elemento central: o trabalho. A forma como os homens se inserem no trabalho define a sua posição na sociedade. Partindo dessa análise, Marx nos apresenta a sua compreensão materialista da história, mostrando como as trans- formações da história são as transformações de formas de pro- duzir e das relações que os homens estabelecem nessa produção. Na análise que Marx faz do capitalismo aparecem categorias importantes para pensarmos nossa sociedade, como ideologia, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 105105 classes sociais, mais-valia. Com base nesses conceitos, é possível ver a sociedade capitalista portadora de uma grande contradição. Outro ponto importante da análise marxista da sociedade se refere à relação entre estrutura econômica e superestrutura da sociedade e a maneira como os homens tomam consciência das suas reais condições de existência. Podemos perceber que, se as “previsões” de Marx quanto ao futuro do capitalismo estavam erradas, suas categorias explica- tivas ainda têm muita vitalidade para problematizar e analisar nossa sociedade. Indicações culturaisIndicações culturais SARAMAGO, J. Coisas. In: _____. Objeto quase: contos. São Paulo: Cia das Letras, 1994. Nesse conto, todos os objetos fabricados pelo homem criam vida e se comportam de maneira estranha, revoltando-se contra aqueles que são seus donos. Adquirindo vida, os objetos começam a sumir e a matar as pessoas, o que torna a vida impossível. Nesse texto é possível perceber o fetichismo da mercadoria do qual nos fala Marx. O que aconteceria se as mercadorias se revoltassem contra aqueles que as utilizam? MORAES, V. de. Operário em construção. In: _____. Antologia poética. São Paulo: Cia das Letras, 1992. Esse poema mostra a tomada de consciência de um trabalha- dor, ao refletir sobre o seu trabalho e a relação com ele. No poema, o operário vislumbra todo o processo de apropriação de riqueza que acontecia de forma velada no seu processo de trabalho. De Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s erre pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 106106 um trabalhador alienado ele passa a ser alguém que consegue atravessar a “cortina de fumaça” da ideologia e enxergar as reais condições sob as quais se dão seu trabalho e sua vida. Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1) A respeito da obra de Marx, indique se as afirmativas a se- guir são falsas (F) ou verdadeiras (V): ( ) Marx é, sobretudo, um sociólogo, pois sua obra se limita a analisar apenas os aspectos sociais da realidade, não se preocupando com a maneira como a história se desen- volve. ( ) Na obra de Marx, a contradição não representa um ele- mento que indica a impossibilidade de estabelecer uma relação social. Pelo contrário, Marx afirma que a contra- dição é um elemento básico da realidade. ( ) Da mesma forma como Comte e Durkheim, Marx pro- cura sempre privilegiar em sua análise os aspectos asso- ciativos e consensuais da realidade que observa. ( ) Um aspecto essencial para entender a obra de Marx é compreender a maneira como a produção da vida mate- rial condiciona a realidade social. ( ) O trabalho é um elemento central da análise de Marx, pois com ele estabelecem-se relações de formas de pro- priedade, de distribuição de divisão do trabalho, que são as relações sociais de produção. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 107107 Está correta a alternativa: a) V, V, F, V, V. b) F, V, F, V, V. c) V, F, V, F, F. d) F, V, F, F. V. 2) Analise as seguintes proposições a respeito da visão de Marx sobre o capitalismo: I. O capitalismo pode ser entendido como a história da expropriação dos trabalhadores, em que eles vão grada- tivamente perdendo a propriedade dos meios de produ- ção e dos produtos, além do seu saber sobre o trabalho. II. A ideologia faz com que os homens percebam a sua si- tuação como normal e natural, impedindo-os de perce- berem a realidade como realmente se apresenta. III. Os modos de produção se transformam ao longo da his- tória, mas não exercem muita influência na organização total da sociedade. IV. Ao contrário de Durkheim, Marx não consegue estabe- lecer em sua obra uma “lei geral” que explique como a sociedade se organiza e se desenvolve. V. Uma das principais contradições do capitalismo ocorre entre o desenvolvimento das forças produtivas e as rela- ções sociais de produção. São verdadeiras as seguintes proposições: a) I e V. b) II, III e IV. c) I, II, III e IV. d) I, II e V. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 108108 3) Relacione os conceitos formulados por Marx que estão enume- rados a seguir com as definições apresentadas na sequência: 1. Estrutura econômica da sociedade. 2. Ideologia. 3. Reificação*. 4. Classes sociais. ( ) É o conjunto de representações características de uma época, produzidas pela prática social em estruturas so- ciais e modos de produção determinados. ( ) Define-se com a inserção dos indivíduos nas relações sociais de produção e das formas de propriedade que apresentam. ( ) É o conjunto das relações sociais de produção, formado pelas relações de propriedade, pela divisão do trabalho e pelo nível de desenvolvimento das forças produtivas. ( ) É o processo pelo qual o homem se esvazia de sua hu- manidade, tornando-se apenas força de trabalho, que confere valor à mercadoria. A alternativa que apresenta a associação correta é: a) 1, 3, 4, 2. b) 3, 4, 1, 2. c) 2, 4, 1, 3. d) 2, 1, 4, 3. * ReificaçãoReificação: ação de transformar em coisa, em objeto material; trans- formar o homem em coisa, retirando dele a sua subjetividade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 109109 4) Analise o seguinte trecho referente aos modos de produ- ção definidos por Marx e assinale a alternativa que melhor preenche as lacunas: No modo de produção _______________ aqueles que produ- zem são de propriedade do senhor, enquanto no modo de produção _______________ apenas os meios de produção são de propriedade do senhor, pois existe uma relação de ser- vidão. Já no modo de produção _______________ aqueles que produzem são livres. a) escravista antigo – capitalista – feudal b) feudal – escravista antigo – capitalista c) socialista – feudal – capitalista d) escravista antigo – feudal – capitalista 5) Associe os autores estudados até aqui com as afirmativas que representam suas respectivas reflexões: 1. Comte 2. Durkheim 3. Marx ( ) Entende a contradição como uma condição para a inte- ração social. A contradição não é impossibilidade, mas possibilidade de a realidade se concretizar. ( ) Entende a sociologia como uma ferramenta que possibi- litaria a reforma da sociedade por meio da produção de um consenso moral conseguido com base na ciência e na razão. ( ) Preocupa-se com a definição de um campo específico para a sociologia, definindo seu objeto e método. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 110110 ( ) Para esse pensador, tanto as ciências como as socieda- des progridem e evoluem através de uma determinada ordem. ( ) É considerado o fundador da sociologia moderna, estu- dando fenômenos sociais importantes, como o suicídio e a educação. ( ) Poderíamos chamá-lo de “estudioso do capitalismo”. Mas ele não quer remediar as mazelas desse sistema; quer en- tendê-lo para realizar a sua “implosão”. A alternativa que apresenta a associação correta é: a) 3, 1, 2, 1, 2, 3. b) 2, 1, 3, 1, 2, 3. c) 3, 1, 2, 3, 2, 1. d) 2, 1, 3, 3, 2, 1. Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) Acompanhe o seguinte trecho sobre o sistema capitalista: Em todas as outras formas de dominação históricaanteriores, o dominado sabia que era dominado e sabia quem era seu domina- dor. O escravo sabia que o seu senhor o mantinha em cativeiro e o obrigava a trabalhar para si à força, o servo sabia que o dono do feudo lhe arrancava a maior parte do que plantava e colhia. No ca- pitalismo, ao contrário, o trabalhador acha que é justo que ele seja separado do fruto de seu trabalho mediante o pagamento do salário. O máximo de injustiça contra a qual o trabalhador normalmente Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 111111 se revolta diz respeito aos salários baixos e às condições ruins de trabalho (jornadas longas demais, insalubridade, etc.). (Rodrigues, 2004, p. 47) Agora escreva um pequeno comentário sobre esse trecho com base no conceito de ideologia de Marx. Depois, compare seu comentário com os produzidos pelos seus colegas. 2) Procure definir com seus colegas quais são as principais características do capitalismo, segundo Marx. Anote os re- sultados a que chegaram e guardem essas anotações para desenvolver uma atividade no próximo capítulo. Atividade aplicada: práticaAtividade aplicada: prática Retome a pesquisa realizada no capítulo 1, na seção “Atividade aplicada: prática”, e procure considerá-la sob a ótica da análise do trabalhador parcial desenvolvida por Marx. Escreva um comentário sobre as conclusões a que chegou. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Max Weber e a racionalidade [Capítulo 4][Capítulo 4] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 114114 Pelo estudo sobre Durkheim e Marx, percebemos que esses pensadores partem do pressuposto de que é possível entender a relação entre os homens compreendendo a sociedade que os abriga. Ou seja, uma vez que entendamos como a sociedade se organiza, poderemos compreender como as pessoas pensam, o porquê de agirem de determinada maneira, quais são as regras que seguem. Entendendo o todo – a sociedade –, seria possível entender as partes – as pessoas, as instituições, a educação, a organização familiar. É no todo que Durkheim e Marx concen- tram seus esforços de compreensão, tentando descobrir as “leis gerais” que regem o seu funcionamento. Tal perspectiva fica evidente em Durkheim (1960) quando desenvolve o seu conceito de fato social, com suas três carac- terísticas básicas: a coercitividade, a exterioridade e a coletivi- dade/generalidade. Em Marx (1968, 1978), a ideia da luta de classes como aquilo que move e desenvolve a história dos ho- mens, juntamente com sua análise da estrutura econômica da sociedade, demonstra o peso e a força das estruturas sociais sobre o indivíduo. Neste capítulo, estudaremos um pouco da obra do pensador alemão Max Weber (1864-1920), que apresenta uma análise um pouco diferente das anteriores. Weber não parte da análise do todo para entender as partes; ele faz o caminho inverso: parte do indivíduo para entender a sociedade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Iniciaremos o capítulo abordando um dos principais con- ceitos da sociologia weberiana, o conceito de ação social, com base no qual poderemos compreender a sua “sociologia com- preensiva”. Outro ponto importante a perceber no nosso estudo será em relação à análise do capitalismo de Weber, que se dis- tingue daquela realizada por Marx. [4.1][4.1] A sociologia compreensiva de Max WeberA sociologia compreensiva de Max Weber Da mesma forma que Marx, Weber não se limitou a estudar sociologia. Além dessa ciência, ele estudou e pesquisou sobre economia, direito, história e filosofia. Escreveu tratados sobre política, ciência e sobre as formas de dominação. Aprofundou- se no estudo das religiões, traçando uma relação com o desen- volvimento do capitalismo e o protestantismo, principalmente em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, publi- cado em duas partes, em 1904 e 1905. Em Economia e sociedade (obra publicada postumamente em 1922), desenvolve um trata- do de sociologia geral, abordando aspectos econômicos, políti- cos, religiosos e jurídicos da organização social (Aron, 2003). O ponto central da sociologia de Max Weber é o conceito de ação social. A sociologia weberiana procura compreender como o ator dá sentido à sua conduta, à sua ação social, que pode ser racionalmente orientada. Para esse autor, o indivíduo é sempre portador de uma intencionalidade (Weber, 1994). Examinando-se o indivíduo e a sua intencionalidade, é possí- vel compreender as instituições, os grupos, os comportamentos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 116116 Karl Emil Maximillian WeberKarl Emil Maximillian Weber – Max WeberMax Weber – nasceu no dia 21 de abril de 1864, em Erfurt, na Turíngia. De família protes- tante, seu pai era um influente político liberal de direita. Teve um ambiente intelectual muito estimulante em casa, tornan- do-se precoce intelectualmente. Aos 17 anos cursava Direito, que precisou abandonar aos 19 anos para prestar o serviço militar. Um ano depois retomou os estudos. Em 1894 foi no- meado professor de Economia Políticana Universidade de Friburgo, na Alemanha, transferindo-se para a Universidade de Heidelberg em 1896. Em 1907 recebeu uma herança, o que lhe permitiu se aposentar. No entanto, não abandonou os estudos. Durante boa parte de sua vida adulta, Weber so- freu com crises nervosas, o que o forçou a parar os estudos e o trabalho por muitas vezes. Foi casado com Marianne Schnitger, historiadora e socióloga. Faleceu em Munique, no dia 14 de junho de 1920. Além das duas obras já menciona- das, publicou também vários ensaios sobre temas diversos. (Giddens, 2005; Aron, 2003; Abel, 1972) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 117117 Mas, cuidado! Apesar do fundamento da sociologia webe- riana ser o indivíduo, isso não indica um desprezo pela esfera social. Weber (1994, 1977) parte do pressuposto de que somen- te o indivíduo é dotado de um grau de intencionalidade capaz de ser apreendido nas situações estudadas. As instituições se- riam, dessa forma, modos de agir consolidados em sociedade. Para tanto, Weber (1977) desenvolve seu conceito de ação ação socialsocial, que constitui o cerne da sociologia weberiana. Vamos ver como o próprio Weber define ação social: A ação social (incluindo tolerância ou omissão) orienta-se pelas ações de outros, que podem ser passadas, presentes ou esperadas como futuras [...]. Os “outros” podem ser individualizados e conhe- cidos ou então uma pluralidade de indivíduos indeterminados e completamente desconhecidos (o “dinheiro”, por exemplo, significa um bem – de troca – que o agente admite no comércio porque sua ação está orientada pela expectativa de que outros muitos, embora indeterminados e desconhecidos, estarão dispostos também a acei- tá-lo, por sua vez, numa troca futura). (Weber, 1977, p. 139, grifo do original) Nem toda ação é social e nem todo contato entre os ho- mens é necessariamente social, só merecendo a denominação de social quando está orientada pela ação dos outros. Ou seja, somente é social quando a ação apresenta um sentido orienta- do pelos outros. Guarde bem este termo − sentido −, pois ele é fundamental para entendermos a explicação de Weber sobre a sociedade. Vamos tentar exemplificar o que Weber quis dizer com seu conceito de ação social. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 118118 Quando estamos andando na rua e abrimos o guarda-chuva porque começa a chover e todas as outras pessoas fazem isso ao mesmo tempo, não ocorre uma ação social, porque a atitude de abrir o guarda-chuva é tomada com relação à chuva e não com relação aos outros. Agora, vamos supor que um indivíduo este- ja parado em um semáforo e todos começam a andar, mesmo com o sinal ainda vermelho. O indivíduo avança porque todo mundo já está andando. Isso é uma ação social, porque é uma atitude tomada em relação aos outros. A atitude de avançar o sinal é tomada porque o indivíduo é influenciado pelos outros. É, então, um comportamento que tem um sentido orientado pela ação dos outros. A ação social, entretanto, não é apenas uma imitação. Se um indivíduo simplesmente imita a “massa”, isso não significa que seja uma ação social apenas porque leva em consideração a ação dos outros. A ação social só ocorre quando há uma atribuição atribuição de sentidode sentido, quando existe uma relação significativa entre a con- duta do indivíduo e o comportamento dos outros, que ele leva em consideração no seu ato. O indivíduo que avança o sinal porque os outros avançam toma uma atitude dotada de sentidosentido. Ele pode pensar “Vou avançar o sinal porque nesta rua já é um costume avançar o sinal” ou então “Vou avançar o sinal porque, se eles não respeitam as regras, por que eu devo respeitá-las?”. No primeiro caso, o sentido que o indivíduo atribui a seu ato está ligado a um costume. É o costume que todos têm que dá sentido ao ato do indivíduo. No segundo caso, o indivíduo age com base em um valor. Já que todos avançam o sinal vermelho, ele também pode avançar, pois é igual a todo mundo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 119119 Pelo exemplo dado, podemos perceber, primeiro, que o sen- tido que o indivíduo atribui à sua ação pode ser muito variado e, segundo, que o indivíduo é um ponto-chave na sociologia weberiana. Em Weber (1977, 1994), a possibilidade de entender a sociedade e suas instituições passa pela análise do comporta- mento dos indivíduos. Ou seja, a tarefa da sociologia consiste em determinar qual o sentido ou o significado da ação social. Com base nessa perspectiva, contudo, a realidade social apa- rece como infinita: já que os sentidos que os agentes podem dar à ação social também são infinitos, como pode o sociólogo moni- torar e compreender todos os motivos do comportamento social? Segundo Weber, isso não é possível. O pesquisador social nunca poderá captar toda a realidade, mas apenas uma parte dela. Além disso, na seleção dos fragmentos dessa realidade a serem investi- gados estarão presentes os valores do investigador (Aron, 2003). Trata-se de um processo subjetivo, que, no entanto, não compro- mete a objetividade do conhecimento, desde que o investigador leve em conta, na interpretação das ações e das relações, os valores que ele atribui ao próprio ator social, isto é, àquele que pratica a ação, e não os seus próprios valores (do investigador). Ação socialAção social é aquela ação orientada pela ação dos outros. Os “ou- tros” podem ser um indivíduo ou uma coletividade. Pode ser des- conhecido ou conhecido. Nem toda ação entre os homens é de caráter social. Somente o é quando tem um sentido dirigido pela ou para a ação dos outros. Dessa forma, a simples imitação não poder ser uma ação social, ela somente será social quando houver um sentido, um significado atribuído à conduta (Weber, 1977). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 120120 Para Weber (2002; 1994), a sociedade não é superior ao in- divíduo, como em Durkheim, ou uma estrutura que se impõe, como em Marx. A realidade social aparece comouma “teia”*, for- mada pelas relações entre os indivíduos. Não é possível descobrir as “leis gerais” que orientam as interações sociais, simplesmente porque essas leis não existem. O que o sociólogo pode descobrir e estudar é o sentido que o indivíduo confere à ação que empre- ende (Aron, 2003; Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2002). Assim, podemos afirmar que, para Weber, a sociedade é uma “teia”*, que se forma pela interação de vários indivíduos (Rodrigues, 2004). É claro que Weber não se contenta em afirmar que os sen- tidos da ação podem ser infinitos e que a realidade social é im- possível de ser apreendida como um todo. Já vimos que, em sua opinião, o cientista social só pode apreender um aspecto da realidade, um recorte. Mas como ele resolve a questão dos sentidos da ação que podem ser infinitos? Para resolver esse problema, ele constrói uma tipologia das ações sociais. É isso o que veremos na próxima seção. [4.2][4.2] A tipologia da ação socialA tipologia da ação social Na sua tentativa de compreender os fenômenos sociais, Weber estabelece uma tipologia das ações sociais. A construção de uma tipologia faz parte de sua metodologia (Aron, 2003). As várias tipologias constituem um recurso que Weber chamou de * O termo teia foi empregado no sentido encontrado em Rodrigues (2004, p. 61). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 121121 tipo ideal. Como o próprio nome já diz, o tipo ideal não existe em estado puro na realidade, apenas teoricamente. É uma idea- lização, uma construção mental feita pelo investigador com base nos vários aspectos históricos e sociais dos elementos que deseja estudar (Weber, 1994; Sell, 2002). Após a construção desse tipo ideal, o investigador observa o aspecto da realidade que pretende estudar e procura ver o quanto essa realidade se distancia ou se aproxima do tipo ideal constru- ído teoricamente. Essa é a metodologia de Weber. Perceba, mais uma vez, que Weber não deseja descobrir “leis gerais”, mas sim “compreender” os fenômenos sociais. Por isso a sociologia webe- riana é uma sociologia compreensiva; ela pretende compreender os sentidos da ação social (Aron, 2003; Sell, 2002). O tipo idealtipo ideal é uma construção teórica elaborada pelo pesquisa- dor com base em vários aspectos históricos. É utilizado como ins- trumento de pesquisa, possibilitando verificar se a realidade a ser estudada se aproxima ou se distancia do tipo ideal construído. O tipo ideal nunca será encontrado tal e qual na realidade, sendo apenas uma construção teórica. É um recurso metodológico (Sell, 2002; Johnson, 1997). Vejamos como Weber constrói a sua tipologia das ações so- ciais. Segundo o autor, as ações sociais podem ser de quatro tipos: 1) racional com relação a fins; 2) racional com relação a valores; 3) afetiva; 4) tradicional (Weber, 1977, 1994). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 122122 Na ação racional com relação a finsação racional com relação a fins, o indivíduo – ou agente, ou ator – age tendo em vista os meios mais adequados para os fins desejados. Na ação racional com relação a valoresação racional com relação a valores, o ator procura o fim desejado agindo racionalmente de acordo com um valor, que pode ser moral, estético ou religioso. O terceiro tipo de ação social, a ação afetivaação afetiva, é determinado por estados afetivos ou emocionais; em última instância, é “irracional”. E a ação tradicionalação tradicional é determinada por um costume, uma tradição que é passada ao longo do tempo. Quadro 4.1 − Tipologia das ações sociaisQuadro 4.1 − Tipologia das ações sociais Racional com Racional com relação a finsrelação a fins Racional Racional com relaçãocom relação a valoresa valores AfetivaAfetiva TradicionalTradicional O ator age racionalmente, selecionando e utilizando os meios mais adequados para alcançar o fim desejado. O ator age racionalmente, com base em um valor, para alcançar o fim desejado. O valor pode ser estético, moral ou religioso. O ator age emotiva e emocional- mente para alcançar o fim deseja- do. Pode ser considerada “irracional”. O ator age com base na tradição e nos costumes para alcan- çar o fim pretendido. Para esclarecer melhor esses conceitos, vamos seguir os mesmos passos metodológicos de Weber (1977, 1994) e olhar a realidade com base nesses tipos ideais de ação social. Tomemos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 123123 os tipos de ação descritos anteriormente e comparemos com a realidade. É claro que a nossa “realidade” aqui vai ser um exem- plo hipotético, mas poderá nos ajudar a compreender melhor essa tipologia e de que maneira ela funciona. Vamos supor que uma garota queira comprar uma calça nova. O fim desejado por ela é comprar a calça. Se ela agir ra- cionalmente com relação a fins, terá de escolher o melhor meio para conseguir a calça. Poderá economizar dinheiro e de posse dele fazer uma pesquisa para efetuar a compra no lugar mais barato. Isso é uma ação social com relação a fins. Por outro lado, se ela se guiar por um valor estético, poderá não comprar a calça mais barata, mas sim a mais barata entre as que mais lhe agradarem, segundo o valor estético que utiliza. Essa é uma ação racional com relação a valores. Ela também poderá agir de maneira emotiva e deixar-se levar pelo impulso, adquirindo a calça na primeira loja que vir e praticando uma ação afetiva. Se a jovem comprar a calça em uma loja em que sua família sem- pre faz compras, ela estará seguindo um costume, uma tradição. Nesse caso sua ação será tradicional. Para Weber, o indivíduo é sempre portador de racionalida- de, em menor ou maior grau, pois ele atribui sentido à sua ação. A ação é dotada de intencionalidade. Contudo, é errado pensar que Weber quer apenas estudar o indivíduo, esquecendo-se das instituições sociais, como a família, o Estado, a Igreja (Aron, 2003). Para ele, quando o indivíduo age, leva em consideração não só o comportamento dos outros, mas também as normas sociais institucionalizadas e consolidadas na sociedade. Todos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola ção d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 124124 agem influenciados pelas normas estabelecidas (Sell, 2002). Note que tais normas não são somente leis escritas, mas cos- tumes e convenções. Porém, ao mesmo tempo que as normas influenciam a maneira de o indivíduo agir, são resultado das ações dos indivíduos. É o mesmo que dizer que os indivíduos fazem as normas e também são feitos por elas. Preste atenção em mais este termo − maneira de agir. Ele é importante para entendermos como o indivíduo faz as normas e, ao mesmo tempo, é produto delas. Weber (1994) distingue duas maneirasmaneiras ou modos de agirmodos de agir. O primeiro ele chama de agir em comunidade, e o segundo, de agir em sociedade. O agir em comunidadeagir em comunidade está baseado em expectativas e na probabilidade. O indivíduo baseia a sua ação na expectativa em relação ao comportamento dos outros, ou seja, ele age espe- rando que o outro se comporte de determinada maneira. Por exemplo, você caminha pela rua e avista seu professor vindo em sua direção. Você o cumprimenta e ele responde ao seu cumprimento. Você agiu assim porque esperava que o seu pro- fessor também o cumprimentasse. Não existe nenhuma lei que diga que “todo aluno é obrigado a cumprimentar seu professor na rua”. É como se você pensasse: “Provavelmente meu profes- sor responderá ao meu cumprimento”. Essa é uma maneira de agir baseada na pessoalidade e na afetividade. Já o agir em sociedadeagir em sociedade é baseado em regulamentos e em normas sociais vigentes, ou, em outras palavras, em leis. Aqui o indivíduo age baseado nesses regulamentos sociais em uso, pois Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 125125 espera que os outros indivíduos também se baseiem neles para agir. Na escola temos a regra de que a aula começa em deter- minado horário. Todos agem e se comportam com base nessa regra. Perceba que isso não significa que todos sempre cumpri- rão a lei ou regra, mas sim que agirão baseados nela. Roubar é, obviamente, proibido por lei. Contudo, existem pessoas que in- fringem essa regra, por um motivo ou por outro. Mas mesmo a maneira de agir dessas pessoas que infringem a lei é baseada na regra. Aquela pessoa que roubar vai procurar se esconder, fugir, despistar ou disfarçar, pois sabe que infringiu uma regra. Então, o seu agir é baseado na regra que infringiu. Podemos dizer que essa é uma maneira de agir baseada na impessoalidade. Quadro 4.2 − Diferença entre o agir em comunidade e o agir Quadro 4.2 − Diferença entre o agir em comunidade e o agir em sociedadeem sociedade Agir em comunidadeAgir em comunidade Agir em sociedadeAgir em sociedade Tem por base expectativas e probabilidades. O ator baseia o seu agir esperando que o outro se comporte de determinada maneira. Tem por base regulamentos e normas sociais vigentes. O ator baseia o seu agir nas regras estabelecidas. Você deve ter percebido que Weber fala muito em raciona- lidade e em regras. Ele fala sobre a ação social racional, o agir segundo as regras, os regulamentos sociais vigentes. Pois bem, segundo Weber (1994, 1999), a racionalidaderacionalidade é um dos prin- cipais elementos da ordem social. Entendia ele que a sociedade Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 126126 moderna está passando por um crescente processo de racio- nalização. As pessoas estariam utilizando-se cada vez mais de elementos racionais para guiar e organizar sua vida. Elas esta- riam escolhendo os meios mais adequados, avaliando as conse- quências futuras, tendo como base o conhecimento técnico e o desenvolvimento da ciência. Assim, a tradição, as concepções mágicas e religiosas estariam perdendo lugar para o conheci- mento técnico na organização da vida das pessoas. A sociedade estaria passando, então, por um processo que Weber chama de racionalização. Há algum tempo era muito comum as pessoas recorrerem às chamadas benzedeiras. Elas eram procuradas por quem tinha problemas de saúde, por exemplo, e realizavam benzimentos que curavam os males daqueles que as procuravam. Assim, quando alguém ficava doente, poderia ir até uma benzedeira para que ela fizesse um benzimento e ele ficasse bom. Hoje, essas pessoas perderam o seu espaço, pois a maioria procura os médicos quan- do fica doente. Isso porque a crença no “poder” das benzedeiras de curar enfraqueceu. Por outro lado, a “crença” no conheci- mento científico aumentou. A concepção mágica ou religiosa não é mais considerada legítima. “Acredita-se” muito mais em um médico do que em uma benzedeira. Note que não estamos contestando a eficiência da benzedeira ou de outras formas de conseguir o bem-estar fora da medicina tradicional. Essas for- mas também têm a sua eficácia. O que é importante perceber é o triunfo da ciência e da técnica sobre outras formas de organi- zação da vida. Weber (1994) chama o processo de abandono de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 127127 concepções mágicas e religiosas em favor da técnica e da ciência de desencantamento do mundo, ou ainda de secularização*. Segundo Weber, o processo de racionalizaçãoprocesso de racionalização é o abandono das concepções mágicas e tradicionais como formas de explicação e orientação da vida social, em favor de formas cada vez mais pre- cisas, organizadas e burocratizadas. É uma adaptação cada vez maior entre meios racionais para se conseguirem os fins desejados (Weber, 1994). A racionalização da sociedade não significa, entretanto, ape- nas o triunfo do conhecimento científico e técnico sobre as for- mas tradicionais, mágicas e religiosas. Ela vai criando também cada vez mais e mais regras e normas que, como vimos, são levadas em conta na hora de os indivíduos agirem e tomarem suas decisões (Aron, 2003; Weber, 1994). Você percebe como o agir em comunidade vai se transformando cada vez mais no agir em sociedade? Pois é. Segundo Weber, é isso mesmo que acontece. E, nesse processo, as normas e as leis criadas têm um lado positivo, pois tornam o mundo mais inteligível às pessoas. Imagine você no seu primeiro dia de trabalho sem conhecer nenhuma lei ou regra que organiza a rotina diária da empresa na qual trabalha. Quando você passa a conhecer essas regras, as coisas ficam bem mais fáceis. Você fica sabendoqual é a hierar- quia, quais são os horários e as tarefas que precisa cumprir; o mundo fica mais organizado. * SecularizaçãoSecularização: processo de declínio da influência da religião. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 128128 Mas por que as pessoas obedecem às leis e às normas criadas pela racionalização da sociedade? Por causa da legitimidade: as pessoas obedecem às regras ou guiam o seu comportamento pela existência delas não apenas porque temem a punição que elas impõem, mas porque estão convencidas de que elas são verdadeiras, porque há um consenso em torno da necessidade de obedecer, mesmo que não se obedeça. Aceitar uma lei ou regra como legítima é, então, acatá-la como verdadeira. Aqui surge, porém, outra indagação: como e por quem são feitas as regras? Elas são feitas por aqueles indivíduos que con- seguem impor a sua vontade. Para entendermos melhor essa questão, vejamos como Weber (1994) desenvolve sua tipologia tipologia da dominaçãoda dominação. As pessoas que conseguem impor sua vontade são aquelas que exercem a dominação, definida por Weber como a proba- bilidade de contar com a obediência daqueles que teoricamente devem obedecer. A obediência está ligada ao reconhecimento, por parte daqueles que obedecem, de que as ordens que lhes são dadas são legítimas, ou seja, são aceitas como verdadeiras. Então, aqueles que dominam têm o poder de impor a sua von- tade e ditar as regras. Assim, poder é diferente de dominação: poderpoder é a capacidade de impor a vontade, e dominaçãodominação é a pro- babilidade de encontrar obediência. Além disso, a maneira de impor a vontade e ditar as regras numa relação social pode va- riar. Por isso, Weber distingue três tipos básicos de dominação: a dominação carismática, a dominação tradicional e a domina- ção racional-legal. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 129129 A dominação carismáticadominação carismática tem sua legitimidade apoiada na crença de que a pessoa ou pessoas que mandam têm um poder mágico, sobrenatural ou religioso e também um caráter heroi- co. É o caso de Jesus Cristo, que pode ser considerado um líder carismático porque seu poder está ligado a dons mágicos e reli- giosos. A dominação tradicionaldominação tradicional está apoiada na crença em um poder sagrado herdado das tradições. Esse tipo de dominação se refere àquele poder passado de geração em geração dentro de uma tradição, como é o caso dos reis, por exemplo. A dominadomina-- ção racional-legalção racional-legal tem seu fundamento na legalidade da lei e na legitimidade do poder daqueles que fazem essas leis e normas. É o caso da nossa legislação. Aceitamos essas leis porque as pes- soas que a fazem são consideradas legitimadas em suas funções. Os vereadores, os deputados, os senadores e o presidente da República são legitimados pela eleição, que é considerado o meio mais “racional” para escolher os representantes e os legisladores. Em outras palavras, na dominação racional-legal as pessoas obe- decem porque o líder ou aquele que manda ocupa determinada posição na estrutura burocrática. Ainda no que se refere à dominação racional-legal, o exercício da autoridade depende de uma estrutura composta de um qua- dro administrativo de funcionários hierarquizado e profissional. O presidente da República não pode governar um país sozinho, assim como o presidente de uma empresa não pode administrá-la sozinho. Eles dependem de profissionais treinados que conheçam as normas e as regras e “operem” os meios que lhes permitam exer- cer o seu poder. Surge, então, a burocracia, que aparece na sociolo- gia weberiana como o modo moderno de extrair a obediência das Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 130130 pessoas. A própria etimologia da palavra revela essa dimensão res- saltada por Weber (bureau: escritório; kratos: poder). Dessa forma, o processo de racionalização da sociedade é acompanhado tam- bém por um processo de burocratização (Weber, 2002, 1994, 1999; Aron, 2003; Sell, 2002; Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2002). Quadro 4.3 − Quadro 4.3 − Tipologia da dominaçãoTipologia da dominação Carismática Carismática TradicionalTradicional Racional-legalRacional-legal Baseia-se em um poder mágico, religioso. O líder carismático encar- na um herói, um salvador. Baseia-se em um poder herdado na tradição. O líder tradicional governa por uma “herança”. Baseia-se na legi- timidade das leis e na posição que os indivíduos ocu- pam na estrutura burocrática. Como vimos, a racionalização pode ser positiva, na medi- da em que torna o mundo mais organizado e inteligível para as pessoas. Por outro lado, Weber tem uma visão pessimista da racionalização: ela acaba provocando uma perda de senti- do, pois transforma o homem em um “cumpridor de regras”, aprisionando-o numa “jaula de ferro” (Aron, 2003). Com o aparecimento de cada vez mais regras e normas a serem cumpridas, o homem moderno perderia sua individuali- dade e autonomia, estando cada vez mais subordinado à autori- dade das leis. Elas inibiriam toda a criatividade e inventividade dos indivíduos, pois tudo estaria previsto pelas regras. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 131131 Perceba que as leis, as regras e as normas são criadas com o objetivo de facilitar a vida do homem, tornar a vida mais orga- nizada e o mundo, inteligível. Mas elas acabam produzindo um “efeito colateral”. Weber (1994) afirma que as sociedades moder- nas são cada vez mais complexas, e os objetivos dos indivíduos passam a ser cada vez mais conflituosos. As regras surgem tam- bém como maneira de organizar conflitos. Já imaginou se todos fizessem o que quisessem, sem nada para guiar suas condutas? Então as regras e os regulamentos são meiosmeios para se alcan- çar um fimfim, seja ele qual for. Acontece que esses meios acabam se transformando em fins em si mesmos (Weber, 1994), ou seja, os homens não cumprem mais as regras para alcançar um fim desejado, massim com o único propósito de cumpri-las. É aí que ocorre a perda de sentido na sociedade moderna, pois não é mais o fim que guia as ações; os próprios meios se transfor- mam em fins. Um exemplo pode nos ajudar a compreender melhor essa questão da perda de sentido. Vamos pensar na chamada que é feita em todas as escolas para verificar quais alunos estão pre- sentes na aula. A lista ou o livro de chamada é um procedimen- to criado com o pressuposto de que todo aluno deve chegar no horário e de que todo aluno deve assistir um número mínimo de aulas para garantir seu aprendizado. Isso é uma norma, uma regra burocrática, que orienta o comportamento dos indiví- duos em busca de um fim, que é a aquisição de conhecimentos ou a capacitação. Entretanto, essa norma pode se transformar em um fim em si mesma quando os alunos ou o professor vão à aula unicamente tendo em vista a presença no livro de chamada. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 132132 Nesse caso, o fim se perde, e o que era apenas um meio se trans- forma em fim. Não se comparece à aula pelos conteúdos a se- rem aprendidos ou ministrados, mas pela presença que todos devem ter segundo o que a lei orienta ou estabelece. Assim, a racionalização e a burocratização acabam trans- formando o homem moderno em um “cumpridor de regras”, o que faz com que esses processos levem à perda de sentido e de liberdade (Weber, 1994). E o que tudo isso tem a ver com o capitalismo? É o que veremos na próxima seção ao estudarmos um pouco uma das principais obras de Weber. [4.3][4.3] “A ética protestante e o espírito“A ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weberdo capitalismo”, de Max Weber Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber (1999) procura relacionar aspectos da religião com o comportamen- to humano, com o objetivo de compreender o capitalismo. Estabelecer essa relação não é nenhuma inovação metodológi- ca, pois muitos pensadores já haviam feito o mesmo. O aspecto inovador da obra de Weber está na particularidade de relacio- nar seitas protestantes e uma conduta capitalista que considera particular do Ocidente (Aron, 2003; Sell, 2002). A relação mais específica é entre uma ética – uma conduta pregada pela reli- gião – e uma conduta requerida pelo sistema capitalista. Mas, no âmbito do protestantismo e do capitalismo, Weber tam- bém limita os elementos que entrarão em sua análise. Assim, ele demonstra que existe uma “afinidade eletiva” entre a ética Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 133133 protestante e a atividade capitalista moderna, ou o que chama de espírito do capitalismo. De maneira resumida, Weber entende por espírito do capi- talismo uma conduta que busca legalmente o lucro por meio de uma adequação racional e planejada entre meios e fins, asso- ciada a uma atitude rígida em relação aos prazeres e ao gozo desse lucro, tendo o trabalho como resultado e expressão de uma virtude (Aron, 2003). O trabalho aparece, no contexto da ética puritana, como a atividade do homem na terra. É a essa atividade que o homem deve dedicar a sua vida; é essa atividade a vocação do protestante. E a vocação do homem protestante implica determinada condu- ta profissional que se identifica com a conduta do capitalismo; não aquele capitalismo que se expressa na busca incontrolável pelo lucro, mas o capitalismo ocidental, que associa a ideia de uma economia livre a uma racionalidade. E essa vocação se ex- pressa no trabalho, que não é mais um castigo de Deus lançado sobre a humanidade ao expulsar Adão e Eva do paraíso, mas que se torna uma virtude e um chamamento divino (Chaui, 1999). Analisando trabalhos de outros autores sobre a ética e a conduta puritana, Weber destaca a ênfase que essa ética e essa conduta dedicam à riqueza e à aquisição desta na vida do ho- mem religioso. Em certo sentido, o princípio da ética puritana – a ascese* – parece ser contrário à aquisição de riqueza. Porém, tal aversão à riqueza refere-se mais às consequências que ela * AsceseAscese: doutrina que prega a renúncia ao prazer, o triunfo do espírito sobre os instintos e as paixões. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 134134 pode trazer, ou seja, ao ócio, à vida desregrada, do que à sua propriedade propriamente dita. O que está em jogo não é somente a riqueza, mas o trabalho, que é o meio de consegui-la. Nos estudos analisados sobre a éti- ca puritana no capítulo V de sua obra, Weber mostra que há, na ética puritana, uma pregação quase apaixonada pelo trabalho – tanto físico como intelectual – duro e constante. A riqueza só se torna um “inconveniente” dentro dessa ética na medida em que dispensa a realização do trabalho. Este se torna a finalidade da própria vida. E o homem rico, assim como o homem pobre, não deve se furtar ao trabalho. A riqueza não exime o homem do trabalho, pois é um meio de glorificar a Deus. Nem o rico pode comer sem trabalhar, pois mesmo que não precise disto para o seu sustento, ainda assim prevalece o mandamento de Deus, que deve ser obedecido por ele, tanto quanto pelo pobre. Isto porque todos, sem exceção, recebem uma vocação da Providência Divina, vocação que deve ser por todos reconhecida e exercida. Essa vocação não é, como no luteranismo, um destino ao qual cada um se deva submeter, mas um mandamento de Deus a todos, para que trabalhem na sua glorificação. (Weber, 1999, p. 211) O ato de trabalhar constitui um estado de graça do homem na terra, a maneira de glorificar a Deus. E deixar de glorificar a Deus – ou seja, não trabalhar – para se dedicar a outras ativida- des é fugir de sua vocação religiosa: A perda de tempo, portanto, é o primeiro e o principal de todos os pecados. A duração da vida é curta demais, e difícil demais, para es- tabelecer a escolha do indivíduo. A perda de tempo através da vida Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 135135 social, conversas ociosas, do luxo, e mesmo do sono além do necessá- rio para a saúde – seis,no máximo oito, horas por dia – é absoluta- mente indispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do “Time is Money” [tempo é dinheiro] de Franklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual: ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de tra- balho para a glorificação de Deus. (Weber, 1999, p. 112) A vida deve ser regrada, sem desperdícios de tempo. Perder tempo, segundo a ética puritana, é deixar de agradar a Deus. E como agradar a Deus? A resposta dada pela ética puritana é a seguinte: trabalhando de maneira racional e ordenada. Outro ponto importante a que Weber chama a atenção no capitalismo ocidental refere-se à separação do local de trabalho da esfera doméstica. Essa separação entre a casa e o local de trabalho é fator de grande importância no processo de raciona- lização do trabalho, pois dá a ele certa “independência” das ou- tras atividades; deixa de ser um elemento da vida doméstica e passa a ser submetido a uma outra lógica, uma lógica racional. Com a passagem para uma sociedade industrial, houve uma severa reestruturação dos hábitos de trabalho, que antes era condicionado por um ritmo natural. Antes dessa passagem para uma sociedade industrial, havia pouca demarcação en- tre o local de trabalho e a casa. A casa era o local de trabalho, e os familiares eram os colegas de ofício. Além da falta dessa diferenciação, o uso do tempo era irregular. A irregularidade marcava os dias e as semanas de trabalho. O trabalho e a vida doméstica não se diferenciavam; o trabalho não tinha um lugar específico nem um tempo determinado (Thompson, 1991). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 136136 A fábrica ou empresa capitalista como local de trabalho diferenciado da vida doméstica é mais do que a concentração dos trabalhadores e dos meios de produção em um único local. Significa também, e sobretudo, a organização do trabalho em novos moldes: uma organização capitalista orientada racional- mente para o lucro (Decca, 1993). Como já foi dito, não é ape- nas a procura do lucro que caracteriza uma conduta capitalista moderna. O que é importante é a procura racional do lucro, a adequação entre meios e fins. A separação entre a casa e o local do trabalho – que marca o surgimento da fábrica – permite a racionalização e o disciplinamento do trabalho, o que, junta- mente com os princípios de uma ética protestante, influencia na configuração do capitalismo. Assim, com o estudo realizado nessa obra, Weber mostra como a ética protestante fornece ao homem determinada ma- neira de ser que irá encontrar correspondência no capitalismo. É uma conduta racional fornecida pela religião que favorece o surgimento do capitalismo. Weber não afirma que essa ética é a única causa do capitalismo, mas sim um elemento que colabora com seu surgimento. Se Marx vê como especificidade do capitalismo o fato de esse regime acumular e produzir riqueza social, garantindo os meios para a apropriação privada dessa riqueza, Weber vê no capitalismo a manifestação de uma racionalidade ainda não en- contrada em outros tempos e locais. Para ele, o ponto central do capitalismo é a racionalização da conduta humana. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 137137 SínteseSíntese As reflexões de Max Weber sobre a sociedade não visam à descoberta de “leis gerais”, como aquelas empreendidas por Durkheim e Marx. O ponto de partida da sociologia weberiana se encontra no indivíduo, pois é a partir dele que se abre a possi- bilidade de entendimento da ordem social e das instituições. A sociologia weberiana é uma sociologia compreensiva, uma vez que pretende compreender a ação social em seu curso e seus efeitos. Assim, a ação social se configura no conceito nuclear de Weber. Com essa perspectiva metodológica, Weber constrói suas tipologias, utilizando-se dos tipos ideais. Em relação à sociedade moderna, Weber distingue o agir em comunidade do agir em sociedade e mostra como a socie- dade moderna se caracteriza por um crescente processo de ra- cionalização e burocratização da vida, em que as concepções mágicas, religiosas e tradicionais vão pouco a pouco sendo substituídas pela crença na eficácia da ciência. Esse processo de racionalização tem um lado positivo, pois torna o mundo mais desenvolvido e mais organizado, mas tam- bém tem seu lado negativo. Segundo Weber, a racionalização da vida acaba ocasionando a perda de sentido e a perda da li- berdade ao transformar o homem em um “cumpridor de re- gras”. As regras e as normas, criadas como meios para alcançar os objetivos pretendidos, acabam se transformando em fins em si mesmas. A vida tende a se tornar vazia e sem sentido, e o homem fica condenado a viver aprisionado pelas regras criadas por ele mesmo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 138138 Indicação culturalIndicação cultural ORWELL, G. 1984. São Paulo: Nacional, 2008. George Orwell relata nessa obra a realidade de uma socie- dade altamente racionalizada e burocratizada. Escrito em 1948, o livro mostra a perda de sentido de uma suposta sociedade do futuro, em que a vida e a conduta das pessoas perdem totalmente o caráter pessoal, orientado-se para a obediência a um Estado autoritário e ditador. Além de apontar a questão da racionalização e da perda de sentido, para a qual Weber nos chama a atenção, o livro é inte- ressante, pois é dele que é retirada a ideia dos reality shows (por exemplo, o Big Brother Brasil). Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1) A respeito da obra de Weber, é correto afirmar: I. Procura o estabelecimento de “leis gerais”, pois entende que, ao compreender como a sociedade funciona (o todo), entenderá também a maneira como as pessoas se compor- tam e o funcionamento das instituições sociais (as partes). II. Sua sociologia compreensiva tem como ponto de par- tida o indivíduo. Ele é considerado um ser dotado de intencionalidade, e a explicação da sociedade passa pri- meiramente pelo entendimento do sentido de sua ação. III. Weber afirma que os tipos ideais existem na realidade. Segundo o autor, todo tipo ideal ocorre primeiro na rea- lidade para somente depois servir como método de pes- quisa. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza ção d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 139139 IV. Para Weber, a sociedade não é algo possível de captar na sua totalidade. O que o sociólogo pode compreender são recortes dessa realidade, uma vez que a realidade so- cial é como uma “teia” que se forma pela interação dos indivíduos. VII. Weber considera que a sociedade moderna está passan- do por um intenso processo de racionalização, com o abandono das concepções mágicas e tradicionais. São verdadeiras as seguintes afirmações: a) I, II e III. b) II, III e IV. c) II, III e IV. d) II, IV e V. 2) Classifique as situações especificadas a seguir como agir em agir em sociedadesociedade (1) ou agir em comunidadeagir em comunidade (2), segundo a defi- nição de Weber: ( ) Pedir a segunda chamada de uma avaliação na escola ou na faculdade. ( ) Emprestar um livro numa biblioteca. ( ) Emprestar um livro de um conhecido. ( ) Presentear um colega de trabalho no seu aniversário. ( ) Cumprimentar seu professor ou seu chefe na rua. ( ) O soldado que cumprimenta seu superior na rua. ( ) A emissão de um cheque pré-datado. ( ) A renegociação de uma dívida em um banco. ( ) Declarar o Imposto de Renda ou fazer a Declaração de Isento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 140140 ( ) Dirigir um veículo no trânsito. ( ) Presentear a mãe no dia das mães. Agora, assinale a alternativa correta: a) 1, 1, 2, 1, 2, 2, 1, 1, 2, 2, 1. b) 2, 1, 1, 2, 2, 1, 2, 1, 1, 1, 2. c) 1, 1, 2, 2, 2, 1, 2, 1, 1, 1, 2. d) 1, 1, 2, 2, 2, 1, 1, 1, 1, 1, 2. 3) De acordo com a problematização de Weber sobre o processo de racionalização, assinale V para verdadeiro e F para falso: ( ) Pode significar ao mesmo tempo liberdade e aprisiona- mento para os homens. ( ) É típico das sociedades mais tradicionais, em que a vida é inteiramente controlada. ( ) Nas sociedades modernas, é acompanhada pelo pro- cesso de burocratização. ( ) Weber tem uma visão pessimista da racionalização, pois esta provocaria a perda de sentido e de liberdade. ( ) A racionalização é o triunfo das explicações mágicas e tradicionais sobre a ciência e a técnica. ( ) O capitalismo é um período que apresenta uma raciona- lização não encontrada em outros tempos da história da humanidade. Agora, assinale a alternativa correta: a) V, F, V, F, F, V. b) F, F, V, V, F, F. c) V, F, V, V, F, V. d) V, F, V, F, F, V. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 141141 4) Acompanhe os trechos da obra de Weber a seguir: O “impulso para o ganho”, a “ânsia do lucro” de lucro monetário o mais alto possível, não tem nada a ver em si com o capitalismo. Esse impulso existiu e existe entre garçons, médicos, cocheiros, artis- tas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados, ladrões, cruzados, jogadores e mendigos – ou seja, em toda espécie e condições de pes- soas, em todas as épocas de todos os países da Terra, onde quer que, de alguma forma, se apresentou ou se apresenta, uma possibilidade objetiva para isso.[...] Agora, contudo, o Ocidente desenvolveu uma gama de significados do capitalismo e o que lhe dá consistência – tipos, formas e direções – que nunca antes existiram em parte alguma [...]. O Ocidente, todavia [...] veio conhecer, na era moderna, um tipo completamente diverso e nunca antes encontrado de capitalismo: a organização capitalística racional assentada no trabalho livre (for- malmente pelo menos). (Weber, 1999, p. 4-7) De acordo com o que você estudou sobre a obra de Weber e o trecho citado acima, marque a alternativa correta: a) Weber realiza uma crítica ao capitalismo pela forma como leva as pessoas a buscarem o lucro acima de tudo. b) Weber destaca o caráter inédito do capitalismo, em que existe a busca do lucro associada a uma racionalidade não encontrada anteriormente. c) A análise do capitalismo mostra o caráter contraditório que esse sistema apresenta. d) O trecho revela como a análise weberiana do capitalismo Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 142142 e da ética puritana apresentam o trabalho como um cas- tigo divino, daí o desenvolvimento da racionalidade moderna. 5) A respeito da metodologia de Weber, é correto afirmar: a) Desenvolve uma tipologia das ações sociais que aparece como uma construção teórica para abordar aspectos da realidade. b) A sociologia compreensiva busca apenas o estabeleci- mento das tipologias, os chamados tipos ideais. c) O indivíduo tem pouca importância na metodologia weberiana, já que o objetivo é desenvolver uma sociolo- gia que explique o todo e não as partes. d) Os sentidos atribuídos à ação, segundo Weber, (1977, 1994, 1999, 2002), são infinitos e, por isso, impossíveis de serem estudados. Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1. Procure fazer uma comparação entre as análises que Marx e Weber fazem do capitalismo. Faça a comparação elencando tópicos referentes aos dois autores. 2. Um comandante nazista acusado pela morte de milhares de judeus durante o Holocausto defendeu-se no tribu- nal com a seguinte frase: “Eu estava apenas cumprindo ordens”. Com base nesse fato, discuta em grupo o posi- cionamento do acusado à luz do que Weber fala sobre o processo de burocratização da sociedade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 143143 Atividade aplicada: práticaAtividade aplicada: prática Enfocando um dos assuntos analisados por Weber, vamos fazer um exercício para percebermos o processo de raciona- lização da sociedade. Segundo a tradição católica, o primeiro papa foi o apóstolo Pedro. O trecho do Evangelho de São Mateus, no capítulo 16, versículos 13 a 19, é considerado o momento em que Jesus nomeia Pedro como o primeiro papa. Recentemente, tivemos a nomeaçãodo papa Bento XVI. Para perceber o processo de racionalização da sociedade, leia o trecho indi- cado desse Evangelho e depois pesquise como foi nomeado o último papa. Em seguida, escreva um pequeno comentá- rio comparando os dois momentos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Indivíduo e sociedade [Capítulo 5][Capítulo 5] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 146146 Neste capítulo, diferentemente dos anteriores, não abordare- mos a obra de nenhum autor específico. Apresentaremos al- guns conceitos básicos de sociologia que, apesar de parecerem de fácil domínio, são essenciais para que você possa realizar leituras e estudos posteriores. Assim, abordaremos os conceitos de socialização, cultura e instituições sociais. Contudo, antes da leitura do capítulo, é importante termos em mente que tais conceitos são também processos que ocorrem na sociedade, guardando, assim, um di- namismo. Outro ponto importante é que os conceitos não são fechados em si mesmos; eles apresentam uma grande relação entre si. Logo, não é possível pensar a socialização separada- mente da cultura ou das instituições sociais, embora, para tra- tarmos de suas definições, assim apareçam aqui. [5.1][5.1] O processo de socializaçãoO processo de socialização Todos temos particularidades e individualidades que nos diferen- ciam dos outros. Contudo, vimos no segundo capítulo, ao estudar- mos a obra de Durkheim, que muito daquilo que achamos que é originalmente nosso nos é fornecido pela sociedade. Hábitos, jei- tos, manias, gostos e costumes diferenciados nos conferem uma individualidade, mas, com base nas ideias de Durkheim, podemos nos perguntar o quanto dos outros existe em nós. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 147147 Por outro lado, muitos outros elementos nos parecem na- turais. Comer, andar e falar são atividades que fazemos com regularidade e naturalidade, pois não precisamos ficar pensan- do como andar, como nos dirigirmos aos nossos conhecidos ou como falar nossa língua nativa, na maioria das situações. Entretanto, também muitos desses elementos que julgamos naturais no nosso dia a dia nos são fornecidos pela sociedade. Dizendo de outra maneira, é como se a coletividade fizesse a imposição de padrões sociais às condutas individuais. A socie- dade impõe a nós – à semelhança do fato social de Durkheim – as regras, os padrões e as normas que ela possui. Mesmo nas nossas funções fisiológicas existe “a mão da sociedade”, regu- lando e colocando regras. Essa imposição dos padrões sociais, das regras, das normas e dos valores da sociedade e sua assimilação pelo indivíduo recebem o nome de processo de socialização (Berger; Berger, 1977b). O termo imposição, da maneira como ilustrado acima, pode ter um tom muito forte, o que nos faz pensar que a sociedade age como se não tivéssemos outra escolha. Pressupõe que a so- ciedade nos sufoca e realiza a sua imposição como uma pena, um castigo, que impossibilita nosso livre-arbítrio e desenvolvi- mento. A imposição aparece como algo maléfico, negativo. Mas somente por meio dela é que podemos viver, conviver e desen- volver nosso potencial (Berger; Berger, 1977b). Vejamos um exemplo da imposição dos padrões sociais nas funções fisiológicas entre os membros de uma sociedade e, ao mesmo tempo, relativizemos essa noção. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 148148 O uso do banheiro é um exemplo de como as funções fi- siológicas são submetidas aos padrões de conduta social. Na nossa sociedade existe a preocupação em ensinar as crianças a usar o banheiro. Ele é o local específico para realizar as ne- cessidades fisiológicas. O aprendizado para seu uso acontece quando ainda somos crianças. Se nos distanciarmos um pouco daquilo que consideramos “natural” – o uso do banheiro –, po- deremos perceber como esse aprendizado é um tanto rígido. A criança aprende a ir ao banheiro forçada pela mãe ou pelo pai e pode ser alvo de medidas punitivas se não realizar a tarefa com sucesso. Imagine o que aconteceria a uma criança de 6 anos de idade que começasse a frequentar a escola e ainda não sou- besse usar o banheiro. Provavelmente seria discriminada ou pelo menos se tornaria alvo de brincadeiras dos colegas. Nesse caso, poderíamos dizer que a socialização é um processo extre- mamente rígido, mas necessário. Por outro lado, quanto à alimentação, por exemplo, a socia- lização não configura um processo de aprendizado tão rígido. Vamos recorrer a outro contexto social, apresentado por Berger e Berger (1977b) a respeito desses dois elementos: o uso do banheiro e a alimentação. No exemplo a seguir, serão apresenta- das as práticas de um grupo étnico do Quênia, os gusii. Vejamos primeiro as práticas alimentares da criança nessa sociedade: Os gusii não conhecem qualquer horário de alimentação. A mãe amamenta a criança toda vez que esta chora. De noite, dorme nua sob uma coberta, com a criança nos braços. Na medida do possível a criança tem acesso ininterrupto e imediato ao seio materno [...]. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 doC ód igo P en al. 149149 Mas existem outros aspectos das práticas alimentares dos gusii que nos impressionam por um ângulo totalmente diverso. Poucos dias após o nascimento, a criança passa a receber um mingau como complemento alimentar ao leite materno. Segundo indicam os da- dos de que dispomos, a criança não demonstra muito entusiasmo por esse mingau. Mas isso não lhe adianta nada, pois é alimentada à força. E a alimentação à força é realizada duma maneira bas- tante desagradável: a mãe segura o nariz da criança. Quando esta abre a boca para respirar, o mingau é empurrado dentro da mesma. (Berger; Berger, 1977b, p. 202) Nesse exemplo, o processo de socialização mostra uma su- posta faceta de imposição e mesmo desumanidade. Mas isso aos nossos olhos, pois para os gusii é algo normal, um costume passado de geração em geração. Um membro de nossa socie- dade poderia ficar horrorizado ao presenciar essa forma de ali- mentar a criança. Por várias vezes, certamente, já presenciamos mães tentando entreter as crianças com brincadeiras e ence- nações para fazê-las comer, mas nunca empurrando a comida pela boca da criança; ou, se isso ocorre, não se constitui em uma atitude que receberia aprovação. A seguir, vamos acompanhar a socialização das crianças gusii em relação às necessidades fisiológicas: Entre os gusii, o treinamento para o uso do banheiro resume-se na tarefa relativamente simples de fazer a criança defecar fora de casa. Em média, essa tarefa é iniciada aproximadamente com a idade de vinte e cinco meses, e concluída mais ou menos dentro de um mês. Uma vez que as crianças não usam vestes na parte inferior Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 150150 do corpo, não existe o problema de molhar a roupa. Ensina-se-lhes que devem proceder com discrição no desempenho da função eli- minatória, mas ao que tudo indica, elas o aprendem por meio dum simples processo de imitação, independente de ameaças ou sanções. (Berger; Berger, 1977b, p. 203) Aqui, tendo como base os nossos padrões culturais e de so- cialização, a suposta “desumanidade” das práticas alimentares dá lugar a um “desleixo”. Outro ponto que os exemplos mostram é a importância do processo de imposição dos padrões sociais ao qual nos subme- temos. Revelam também que a imposição não é algo “perverso” ou “desumanizante”. Pelo contrário, ela nos permite desenvol- ver nossas potencialidades individuais. O que aconteceria se não houvesse a imposição dos padrões sociais à nossa conduta individual? Simplesmente não seríamos humanos, pois é a sociedade que nos faz humanos. Não apren- deríamos a usar o banheiro como nossos pares, não saberíamos comer, falar nem mesmo andar. O trecho a seguir, que apresenta um caso acontecido na Índia em 1920, demonstra como é a convivência em sociedade que nos humaniza: Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente nu- merosos, descobriram-se, em 1920, duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àquele de seus irmãos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 151151 lobos. Elas caminhavam de quatro patas apoiando-se sobre os joe- lhos e cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos. Eram incapazes de permanecer de pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre, comiam e be- biam como os animais, lançando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra; eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir e uivando como os lobos. Nunca choraram ou riram. Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha um vocabulário de cinquenta palavras. Atitudes afetivas foram apa- recendo aos poucos. Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela e às outras crianças com as quais conviveu. A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se com outros por gestos, inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples. (Aranha; Martins, 1993, p. 2) O caso das meninas Amala e Kamala demonstra a impor- tância da socialização. Todos nós passamos por essa imposi- ção da sociedade ou, poderíamos dizer, por esse processo de educação, que nos permite desenvolver nossas potencialidades. Por meio dele passamos a ser membros de uma coletividade e é ele que propicia o desenvolvimento de nossa individualidade e personalidade. O processo de socialização não se interrompe; ele é con- tínuo. Começa no dia em que nascemos e só termina no dia em que morremos. Não é também aceito passivamente pelos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 152152 indivíduos e pelos grupos. Estes estão sempre reelaborando a herança que recebem das gerações mais velhas. Se assim não fosse, a sociedade não mudaria nunca, já que as pessoas apren- deriam sempre os mesmos gestos, hábitos e gostos e os passa- riam igualmente para seus descendentes. O processo de socialização é acompanhado do processo de interiorização. Eles são indissociáveis; sem a interiorização não existe socialização. A interiorização ocorre quando os signifi- cados, os valores e as normas do mundo social são interioriza- dos na consciência dos indivíduos; aquilo que anteriormente era experimentado fora da consciência passa a fazer parte dela. Com a interiorização o indivíduo começa a se identificar com as normas sociais e as toma como suas. A criança que sempre ouve sua mãe dizendo para não se sujar, cresce e se torna um adulto que não mais necessita de uma voz externa que o lembre dessa regra, pois ela passa a fazer parte dele. SocializaçãoSocialização é o processo de aprender a ser membro de uma sociedade, adquirindo seus costumes, hábitos, gostos, técni- cas, sentimentos, normas, valores e maneiras. É um processo contínuo, que nos permite desenvolver nossas potencialida- des. Podemos ainda dizer que é a imposição de padrões so- ciais às condutas individuais (Berger; Berger, 1977b). É por esse processo de socializaçãoe interiorização que passamos a pertencer a um grupo social específico, que pode ser amplo ou restrito, aprendendo e adquirindo os costumes, os gostos, os hábitos, as tradições, as técnicas, as normas, os Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 153153 valores, as maneiras e os modos de fazer característicos desse grupo. Retome o exemplo dos diferentes sotaques, presente no capítulo 2, para perceber que a maneira como nos socializamos nos confere uma distinção, que permite nossa identificação com determinado grupo social. A socialização também nos confere uma identidade. Em sociologia, a identidade se refere à forma e aos elementos que possibilitam uma compreensão sobre o que os indivíduos são e sobre o que é significativo para eles (Giddens, 2005). Essa compreensão e essa significação são formadas com a exclusão de outras compreensões e significações. Assim, os indivíduos se identificam com determinados atributos, que dizem ao mes- mo tempo sobre o que eles são e sobre o que eles não são. Um brasileiro é brasileiro porque se identifica com os atributos de sua cultura e não com a cultura argentina ou americana. Uma variação dessa identidade é a identidade social, que é atribuída aos indivíduos pelos outros. O político honesto ou corrupto precisa ser reconhecido e identificado como tal pelos outros, não basta apenas ele querer ser uma coisa ou outra. Podemos perceber que, ao mesmo tempo que a identidade social indica aos outros o que o indivíduo é, também define quem ele é. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 154154 A identidadeidentidade refere-se à forma e aos elementos que possibili- tam uma compreensão sobre o que o indivíduo é e sobre o que é significativo para ele. É dada por essas formas de compreensão e significação e é formada com a exclusão de outras formas de compreensão e significação. Assim, a identidade diz ao mesmo tempo sobre o que o indivíduo é e sobre o que ele não é (Giddens, 2005). É comum em sociologia considerar a socialização em duas etapas. A socialização primáriasocialização primária é aquela que ocorre na infân- cia, quando as crianças aprendem a língua, os padrões básicos de comportamento, as posturas corporais (o uso do banhei- ro, por exemplo). Nessa fase, a família é o principal agente de socialização. Este se refere aos grupos e ao contexto em que ocorre o aprendizado cultural, o processo de socialização (Berger; Berger, 1977b). A socialização secundáriasocialização secundária ocorre na infância, quando ou- tros agentes de socialização passam a atuar: a escola, o grupo de iguais, o trabalho, a televisão, a mídia. Quando o indivíduo aprende uma profissão, por exemplo, passa por um processo de socialização (Berger; Berger, 1977b). Lembremos Durkheim (1962), que afirma não bastar a um indivíduo aprender os co- nhecimentos técnicos para ser médico, é preciso agir como tal. E esse “agir” é dado pela socialização secundária. Quando al- guém muda de posição social, adapta-se às sequelas de uma doença ou mesmo muda de emprego ou escola, podemos dizer que está passando por um processo de socialização. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 155155 Quadro 5.1 − Diferença entre socialização primária e socializaQuadro 5.1 − Diferença entre socialização primária e socializa-- ção secundáriação secundária Socialização primáriaSocialização primária Socialização secundáriaSocialização secundária Ocorre na infância, quando a criança aprende a língua, os padrões básicos de comporta- mento, as posturas corporais. O principal agente de socializa- ção é a família. Ocorre a partir da infância, com o contato com outros agentes de socialização, como a escola, o trabalho, o grupo de iguais, a mídia. A socialização é, então, o processo de aprender a ser mem- bro da sociedade, adquirindo todos os elementos menciona- dos anteriormente; nada mais é então do que adquirir cultura (Berger; Berger, 1977b). A antropologia é o ramo das ciências sociais especializado no estudo da cultura. Na próxima seção, analisaremos algumas contribuições da antropologia e da so- ciologia para o estudo da cultura, para melhor entendimento da socialização. [5.2][5.2] A culturaA cultura Associamos cultura às manifestações artísticas, como o teatro, o artesanato, a música, o folclore. Também podemos associar cultura ao conhecimento. Nesses termos, uma pessoa que tem “cultura” seria “culta” porque estudou muito. Contudo, na so- ciologia, o conceito de cultura é um pouco diferente: inclui a primeira concepção, mas a aprimora, e considera falsa a segun- da, que a trata apenas como conhecimento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 156156 Na sociologia, cultura se refere a um sistema de símbolos e significados, compartilhados por membros de uma sociedade, que torna possível a vida em comum. Compreende todos aque- les elementos que fazem parte do processo de socialização: os gostos, os gestos, os sentimentos, os hábitos, as tradições, as maneiras. A cultura compreende tanto aspectos materiais – ob- jetos, símbolos, tecnologia – quanto aspectos imateriais – cren- ças, hábitos, ideias e valores (Giddens, 2005; Johnson, 1997). Assim, muito daquilo que sentimos, pensamos e fazemos nos é fornecido pela cultura. Quando afirmamos isso, não es- tamos considerando um ato de forma isolada, sem nenhum significado. Uma pessoa que faz uma oração na sua casa o faz porque aquilo tem um sentido para ela e para outras pessoas. Desse modo, no conceito de cultura, é importante ressaltar o aspecto do compartilhamento. Cultura sempre se refere a as- pectos, significados, valores e símbolos compartilhados. Além de compartilhados, esses elementos também são aprendidos, isto é, não são transmitidos geneticamente (Laraia, 1993). O pai que gosta de futebol não transmite esse gosto ao fi- lho pela genética, mas por processos culturais. O gosto é trans- mitido culturalmente. Podemos considerar que a cultura funciona mais ou menos comoum “programa de computador”, em que nós somos as máquinas. Quando nasce, toda pessoa tem plenas condições de se desenvolver e compartilhar a cultura de qualquer povo ou grupo social, assim como um computador pode receber um ou outro programa. Uma criança nascida no Japão e trazida imediatamente para o Brasil será socializada aqui e por isso Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 157157 compartilhará a cultura brasileira, ou seja, os símbolos, os gos- tos, as maneiras, os valores e as normas dos brasileiros. Os grupos sociais se identificam como tais e se definem pe- los valores, crenças e significados que compartilham; em suma, pela cultura que têm em comum. Um brasileiro, ao enxergar uma camiseta amarela com o número 10 impresso nas costas, logo se lembrará da Seleção Brasileira de Futebol, ou de um jo- gador famoso. Um canadense ou russo talvez não tenha a mes- ma concepção. Isso porque a camiseta amarela e o futebol são símbolos compartilhados pelos brasileiros, são elementos de nossa cultura que apresentam um significado compartilhado. Ao longo da história, as sociedades elaboram suas culturas, com seus significados e símbolos, recebendo influências de ou- tras culturas (Laraia, 1993). A cultura de um país, de um grupo ou de um povo é, então, como se fosse uma colcha de retalhos, em que cada pedacinho é um elemento próprio ou emprestado de outra cultura. Um exemplo da influência de outras culturas na elaboração de uma cultura específica é a introdução do fu- tebol no Brasil. O futebol chegou ao Brasil trazido da Inglaterra, em 1894, por Charles Miller. Nesse país, o futebol era um esporte prati- cado pelas elites. Até 1904, no Brasil, era proibido aos jogado- res o uso de calções acima dos joelhos, e as camisas deveriam ter mangas compridas e colarinho, com uma gravata! A torcida era composta de senhoras da elite, com vestidos de festa, que le- vavam sombrinhas para se proteger do sol. Tudo isso era copia- do da Inglaterra. Entretanto, com o passar do tempo, o futebol perdeu o seu caráter elitista e se transformou em um esporte Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 158158 popular e de massa. Mais do que isso, o futebol no Brasil adqui- riu outro significado – de esporte de elite a esporte de massas –, que é compartilhado por muitos brasileiros. O exemplo do futebol também nos mostra que as culturas são dinâmicas. Os símbolos, os significados e os valores são cons- tantemente reelaborados pelos indivíduos que compartilham a cultura. O conflito entre gerações muitas vezes é resultado de diferentes interpretações dos valores e das práticas sociais. Há alguns anos, a prática de “ficar”, típica do comportamen- to dos jovens nos dias de hoje, seria impensável. Nos anos 1950, a maneira como os jovens se comportavam era outra. As rela- ções pessoais se davam pelo compartilhamento de outras prá- ticas e convenções. Acompanhe o trecho a seguir para termos uma ideia de como era esse comportamento: Basta que o jovem leitor converse com seus pais e compare a nossa vida cotidiana com a dos anos 50, por exemplo. Ele poderá, en- tão, imaginar estar em plena noite, postado diante de um espelho, ajeitando o nó triangular da sua gravata, bem no centro de seu colarinho, mantido reto pela ação de hastes de barbatana. Poderá também imaginar o sentimento de vaidade ao reparar quão bem passado está o seu terno de casimira azul. Enfim, estava pronto para brilhar em mais um baile. Antes, porém, de entrar no salão, não dispensará o reforço de uma dose de bebida, seguida do masti- gar de um chiclete capaz de disfarçar o forte cheiro de aguardente. Com esta dose adicional de coragem, o jovem estaria apto para au- daciosamente atravessar o salão e, numa discreta mesura diante da escolhida, perguntar: “A senhorita me dá o prazer desta dança?” Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 159159 Tudo estaria bem com a resposta afirmativa da moça. Mas, se esta, rompendo os limites da etiqueta, não aceitasse o convite, o mundo abria aos pés do jovem, que voltava murcho e cabisbaixo para o seu lugar, lamentando a “bruta tábua que levara”. (Laraia, 1993, p. 102) Essa forma de comportamento está superada na nossa so- ciedade, porque os jovens têm outras práticas em relação ao comportamento. Compreender essa dinâmica da cultura é importante para aceitar as várias diferenças entre as gerações, as diferenças entre os grupos dentro da mesma cultura e entre as diferentes culturas. Esse ponto é importante, pois o homem tende a ver o mundo pela sua ótica cultural. Tudo aquilo que se afasta do que sua cul- tura apresenta como “normal” é visto de forma depreciativa. Podemos definir culturacultura como um sistema de símbolos e significa- dos compartilhados por determinado grupo social. Ela compreen- de aspectos materiais – como os objetos, os símbolos e a tecnologia – e aspectos imateriais – como as crenças, os hábitos, as ideias, as normas, os valores, as maneiras. A cultura é aprendida e compar- tilhada pelos membros de um grupo social. É dinâmica e está em constante transformação e ressignificação (Laraia, 1993; Johnson, 1997). Os padrões de comportamento de uma cultura são sempre estranhos às pessoas que dela não compartilham. Essa dis- posição exacerbada pode desembocar no etnocentrismo. O Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 160160 etnocentrismo é a tendência em julgar as outras culturas pelo próprio padrão cultural, comparando-as, ou ainda a tendência em considerar determinada cultura a mais correta ou a melhor (Laraia, 1993). Um caso extremo de etnocentrismo foi o mas- sacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial, quando os ale- mães se consideravam uma raça superior e os judeus, uma raça inferior, impura. O etnocentrismo abre caminho para a intole- rância com as diferenças, para o racismo e as várias formas de preconceito. Outro ponto problemático em relação às formas de ver as diferentes culturas se refere ao evolucionismo.O antropólogo britânico Eduard Burnett Tylor (1832-1917) tinha uma concep- ção evolucionista a respeito da cultura, considerando que exis- tiria uma linha de evolução que explicaria o desenvolvimento da humanidade. Segundo essa concepção, todas as culturas pas- sariam pelos mesmos estágios, até atingir o ápice da sua evolu- ção. Isso possibilitaria hierarquizar as culturas, colocando-as numa escala que iria da menos evoluída até a mais evoluída. O problema dessa concepção é que não podemos julgar o aparato cultural de uma sociedade ou grupo, pois sempre estaremos julgando pelos nossos padrões culturais. O evolucionismo con- siderava a cultura europeia a mais desenvolvida, e isso abriu ca- minho para a exploração de outros povos considerados menos desenvolvidos, bem como para a imposição de padrões cultu- rais europeus, que seriam os mais corretos (Laraia, 1993). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 161161 Quadro 5.2 − Diferença entre etnocentrismo e evolucionismoQuadro 5.2 − Diferença entre etnocentrismo e evolucionismo EtnocentrismoEtnocentrismo EvolucionismoEvolucionismo É a tendência em julgar a própria cultura como a mais correta ou a melhor e julgar as outras por um parâmetro estabelecido a partir da sua. É a concepção segundo a qual existe uma linha evolutiva entre as culturas, o que permite traçar uma escala da cultura menos evoluída para a mais evoluída. Todas as sociedades, desde as mais simples até as mais com- plexas, têm sua cultura. Não existe sociedade humana sem cul- tura. Por isso não podemos dizer, dentro da sociologia, que um indivíduo “não tem cultura”. Isso só seria possível em um caso como o das meninas-lobo Amala e Kamala. Também não po- demos dizer que determinado povo ou país não tem cultura. Isso é impossível. Na próxima seção, abordaremos outro traço essencial de toda sociedade humana e de toda cultura: as instituições sociais. [5.3][5.3] As instituições sociaisAs instituições sociais Além de socialização e cultura, outro conceito importante den- tro da sociologia é o de instituição social, o qual também sofre algumas “distorções” do senso comum. Muitas pessoas acham que as instituições sociais são apenas organizações que abran- gem pessoas, como a escola, a prisão, as empresas, ou ainda que as instituições sociais são entidades que pairam sobre a Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 162162 sociedade, como o Estado, a economia, a religião. Essas con- cepções tendem sempre a associar as instituições sociais àque- les espaços ou entidades reguladas por determinadas leis for- mais. Em termos, essas definições não estão totalmente erradas sociologicamente. Contudo, o conceito de instituição social é um pouco mais específico e detalhado. Para a sociologia, as instituições sociais são formas de or- ganização estáveis, baseadas em regras e regulamentos padro- nizados, que não precisam ser escritos em forma de leis, mas que são socialmente reconhecidos e aceitos. Têm a função de manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos. Além disso, servem como elementos de regulação e controle das atividades dos membros da coletividade (Berger; Berger, 1977a). O conceito de instituição social se aproxima muito do con- ceito de fato social de Durkheim. Podemos mesmo afirmar que as instituições sociais são fatos sociais cristalizados. Berger e Berger (1977a) definem cinco características fundamentais das instituições sociais. São elas: a exterioridade, a objetividade, a coercitividade, a autoridade moral e a historicidade. Analisar cada uma das cinco características das instituições sociais nos ajudará a retomar o que já foi dito sobre os fatos sociais no capítulo 2. As instituições sociais são exteriores porque possuem uma realidade exterior, encontram-se fora dos indivíduos. Sua exis- tência é independente da existência dos indivíduos. Tal caracte- rística se assemelha à de um objeto físico. Entretanto, temos de ter cuidado com as generalizações. As instituições sociais não Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 163163 são necessariamente físicas, como uma empresa ou uma prisão. A segunda característica das instituições sociais – a objetiobjeti-- vidadevidade – é uma reafirmação da primeira. As instituições sociais existem de fato na realidade e de determinada maneira. Por exemplo, o casamento monogâmico é uma instituição social. Todos sabem que existe e como deve ser. Ou seja, existe uma maneira “correta” de casar, que é aceita pelos membros de uma sociedade. Da mesma forma que os fatos sociais, as instituições sociais são dotadas de coercitividadecoercitividade, ou seja, exercem um poder de coerção sobre os indivíduos, que muitas vezes só se manifesta quando eles vão contra as regras e as normas estabelecidas pela instituição. A quarta característica das instituições sociais é a autoridaautorida-- de moralde moral. Sua legitimidade lhes reserva o direito de repreender os indivíduos que infringirem suas normas. O grau de repreen- são varia de instituição para instituição. O Estado, por exemplo, pode punir quem infrinja as regras estabelecidas por ele. A última característica das instituições sociais é sua historihistori-- cidadecidade. Todas elas possuem uma história. Ao longo do tempo, consolidam suas regras, regulamentos e valores, que permane- cem mesmo depois de os indivíduos que colaboraram na sua elaboração desaparecerem. Outro ponto importante da histo- ricidade das instituições e que as torna semelhantes aos fatos sociais refere-se ao fato de que os indivíduos, ao nascerem, já encontram prontas as instituições e que elas continuam a exis- tir depois da morte destes. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 164164 Instituições sociaisInstituições sociais são formas de organização estáveis, baseadas em regras e regulamentos padronizados, socialmente reconhe- cidos e aceitos. Mantêm a organização do grupo, satisfazem as necessidades dos indivíduos e regulame controlam as ativida- des deles. Apresentam cinco características fundamentais: a ex- terioridade, a objetividade, a coercitividade, a autoridade moral e a historicidade (Berger; Berger, 1977a, Johnson, 1997; Giddens, 2005). Vejamos alguns exemplos de instituições sociais que apre- sentam as características estabelecidas anteriormente. O Estado, as escolas e as prisões são instituições sociais, pois são exte- riores, objetivas, exercem um poder sobre o indivíduo, punem aqueles que vão contra as suas normas e possuem uma duração ao longo do tempo. Contudo, esses exemplos recaem naquilo que foi dito no início desta seção: a tendência em considerar como instituições sociais somente aquelas que têm leis escritas. Outro exemplo pode ajudar a entender melhor o conceito de instituição social: a língua falada por um povo. É importante ressaltar que não estamos falando de gramática, mas de lingua- gem. O fato de não conhecer a gramática de uma língua não significa que o indivíduo não consiga dominá-la como falante. Assim, a língua é uma forma estável baseada em regras e re- gulamentos e apresenta uma historicidade. Foi construída ao longo do tempo e já se encontra pronta quando os indivíduos nascem, permanecendo quando eles morrem. Apesar de ser pos- sível considerar que o indivíduo de um país possui sua língua, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 165165 ela tem uma existência fora dele. Isso se percebe pelo fato de que ela foi aprendida por meio da socialização e por isso é também objetiva. A língua exerce ainda um poder de coerção sobre o indivíduo: aquele que não se expressa de acordo com a língua exigida por seu grupo social pode sofrer sanções, que vão de simples recriminações a medidas punitivas. Por exemplo, o imi- grante que continua a usar a língua do grupo social ao qual per- tencia pode sofrer discriminação pela forma como fala. Isso não significa que esteja cometendo um erro, mas que a língua reco- nhecida como legítima é outra. Assim, pode sofrer a punição da discriminação, o que revela a autoridade moral de uma língua. Outros exemplos de instituições sociais são a família, a Igreja, o casamento monogâmico, pois todas elas apresentam as características básicas que as definem como tal. Como exercício mental, escolha uma dessas instituições e procure perceber de que forma elas apresentam essas caracte- rísticas. SínteseSíntese Na socialização aprendemos a ser membros da sociedade, ad- quirindo os costumes, os gostos, os hábitos, os modos, as ma- neiras, os valores e os significados do nosso grupo social. É um processo ininterrupto e está intimamente ligado à aquisição da cultura. A cultura aparece como um sistema de símbolos e significa- dos compartilhados por um grupo social. Mediante a sociali- zação e a aquisição da cultura, podemos construir uma identi- dade, o que nos permite o sentimento de pertencimento a uma Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 166166 coletividade, bem como o desenvolvimento de nossa individua- lidade e personalidade. Dentro dessa realidade social em que nos inserimos, exis- tem formas de organização social estáveis, com regras padro- nizadas e aceitas socialmente. Essas formas de organização são chamadas de instituições sociais, que possuem cinco caracterís- ticas fundamentais: a exterioridade, a objetividade, a coercitivi- dade, a autoridade moral e a historicidade. Com base nesse conceito, a realidade social pode ser ana- lisada de maneira mais organizada, com base em conceitos construídos teoricamente, o que é importante para leituras e estudos mais aprofundados em sociologia. Indicação culturalIndicação cultural HUXLEY, A. Admirável mundo novo. Rio de Janeiro: Globo, 1994. O livro apresenta uma sociedade cujo sistema de socializa- ção é altamente hierarquizado e burocratizado, tanto em termos culturais quanto biológicos. No enredo, os indivíduos passam por um processo de socialização mesmo antes de sua concepção, vi- sando fixar os indivíduos nos lugares determinados pela ordem social, tanto psicológica quanto fisicamente. Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1) Analise as seguintes proposições sobre o processo de socia- lização: I. É contínuo, começando no dia em que nascemos e termi- nando apenas no dia em que morremos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 167167 II. Esse processo limita-se aos aspectos simbólicos e de per- sonalidade, não tendo nenhuma influência sobre os pro- cessos físicos dos indivíduos. III. Pode ser considerado uma imposição da sociedade, o que impede o indivíduo de se desenvolver livre e plena- mente. IV. Pode ser visto como uma imposição, mas é ele que per- mite ao indivíduo desenvolver sua individualidade e po- tencialidades. V. A maneira como comemos, por exemplo, pode ser con- siderada um elemento adquirido por meio do processo de socialização. São corretas as seguintes afirmações: a) I, II e V. b) II, III e IV. c) I, III e IV. d) I, III e V. 2) Assinale F para falso e V para verdadeiro: ( ) O processo de interiorização independe do processo de socialização. ( ) A identidade social se refere à maneira como os outros nos enxergam. É o reconhecimento da coletividade so- bre o indivíduo. ( ) As instituições sociais compreendem apenas aquelas que possuem um conjunto de leis escritas, como o Estado e as prisões. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 168168 ( ) A tendência em julgar a própria cultura como a mais de- senvolvida e a mais correta é chamada de etnocentrismo. ( ) A cultura compreende símbolos, técnicas, valores, as- pectos materiais e imateriais compartilhados por uma coletividade. ( ) O evolucionismo se constitui em um referencial teórico adequado para abordar as diferentes culturas. Agora, assinale a alternativa correta: a) V, V, F, V, V, F. b) F, V, F, F, V, F. c) V, F, V, V, F, V. d) F, V, F, V, V, F. 3) A respeito do conceito de cultura, marque a alternativa inin-- corretacorreta: a) A culturaé sempre compartilhada. Seus símbolos, ma- neiras e valores apresentam um significado para os membros que a compartilham. b) A cultura é sempre uma criação própria. Cada povo ela- bora a sua cultura sem contribuição ou contato com ou- tras culturas. c) A cultura é sempre dinâmica, pois está em constante reelaboração dos significados. d) Compreende aspectos materiais, como o artesanato, e aspectos imateriais, como as crenças e os medos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 169169 4) Relacione as características das instituições sociais com as suas respectivas definições, reproduzidas na sequência: 1. Exterioridade 2. Coercitividade 3. Objetividade 4. Autoridade moral 5. Historicidade ( ) As instituições sociais exercem um poder sobre os indi- víduos que pode manifestar-se apenas quando estes vão contra suas regras e normas. ( ) As instituições sociais permanecem para além da exis- tência dos indivíduos, mesmo daqueles que colabora- ram na sua constituição. ( ) As instituições sociais possuem uma existência exterior, independente dos indivíduos. ( ) Essa característica refere-se à legitimidade que as insti- tuições sociais têm para aplicar sanções aos indivíduos que vão contra suas normas. ( ) As instituições sociais existem de fato na realidade e de determinada maneira, o que informa a maneira “correta” de proceder, segundo a instituição. Agora, assinale a alternativa correta: a) 2, 5, 1, 4, 3. b) 5, 1, 2, 4, 3. c) 2, 5, 4, 1, 3. d) 3, 4, 1, 5, 2. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 170170 5) Analise as seguintes proposições: I. Podemos dizer, segundo a sociologia, que as pessoas que estudaram possuem mais cultura do que aquelas que nunca frequentaram escolas. II. O processo de socialização pode ser definido como o aprendizado para viver em sociedade, adquirindo-se cultura. III. O etnocentrismo pode ser definido também como uma visão depreciativa de outras culturas. IV. Os aspectos culturais referem-se a tudo aquilo que é aprendido; os aspectos naturais de nossa personalidade são aqueles com os quais já nascemos. V A cultura de cada povo ou região recebe contribuições de muitos povos e até mesmo de outros países. São corretas as seguintes proposições: a) I, II, III e V. b) II, III e V. c) II, III, IV e V. d) I, III, IV e V. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 171171 Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questão para reflexãoQuestão para reflexão Na ficção dos filmes e dos quadrinhos, o personagem Tarzan foi criado por uma família de chimpanzés. Contudo, ele fala uma língua (inglês ou português), construiu uma casa na floresta, anda de forma ereta e minimamente vestido. Com base na história de Amala e Kamala e no que foi visto a res- peito dos conceitos de socialização e cultura, uma situação como a de Tarzan seria possível? Discuta essa questão com seus colegas e anote as conclusões a que chegaram. Atividade aplicada: práticaAtividade aplicada: prática A identidade cultural faz com que o indivíduo se sinta per- tencendo a determinado grupo. Um traço dessa identidade é o sotaque. Procure recolher palavras ou expressões carac- terísticas de sua região e enviar para um colega de outra região. Realizem essa troca e tentem perceber como o pro- cesso de socialização confere uma individualidade e uma identidade social aos indivíduos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. A sociologia e a sociedade contemporânea [Capítulo 6 ][Capítulo 6 ] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 174174 O objetivo do presente capítulo é exercitar um pouco nossa perspectiva sociológica, tentando entender alguns aspectos da sociedade moderna. Procederemos a essa análise com base na ótica das transformações no mundo do trabalho. Poderíamos escolher qualquer outro elemento da vida social para fazer essa análise, mas a opção pelo tema “trabalho” se deve ao fato de já termos estudado um pouco sobre ele nos capítulos anteriores e, assim, já termos algum conhecimento a respeito do assunto. No capítulo 1, que tratava do surgimento da sociologia, foi possível perceber como as mudanças no mundo do trabalho, provocadas pela Revolução Industrial de fins do século XVIII, deram uma nova dinâmica à sociedade. No capítulo 3, com o estudo da obra de Karl Marx, tomamos contato com uma aná- lise que privilegia o trabalho na organização da sociedade. De certa forma, neste capítulo, retomaremos e aprofundaremos um pouco mais a discussão. Esse aprofundamento permitirá que você entenda melhor nossa sociedade sob a ótica da sociologia. A discussão a res- peito das mudanças no trabalho também dará início a uma abordagem relativa à globalização, tão presente em nossa vida cotidiana. Iniciemos então o capítulo retomando alguns elementos re- ferentes à discussão sobre o surgimento das fábricas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em apr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 175175 [6.1][6.1] O trabalho na fábricaO trabalho na fábrica O surgimento do sistema de fábricas trouxe toda uma nova organização do trabalho e, consequentemente, da vida social (Thompson, 1991; Decca, 1993). Como vimos, os artesãos saí- ram das suas oficinas, perderam sua autonomia, não eram mais donos do que produziam, foram expropriados de seus saberes e de suas ferramentas (Marx, 1968). Do controle que tinham sobre o trabalho e sobre o que produziam, passaram a ser con- trolados no trabalho. A criação do sistema de fábricas retirou o mestre e seus ajudantes da oficina artesanal, retirou as pessoas da pequena indústria doméstica, colocando-as em um local de trabalho es- pecífico e informou-lhes que teriam de trabalhar durante um tempo específico, (Huberman, 1986; Gorz, 2003). O conhecimento e a habilidade do mestre artesão no cha- mado sistema de corporações exprimiam, além do domínio das técnicas de produção, o controle sobre o processo de trabalho. O ofício do ferreiro, do carpinteiro, do cuteleiro*, era antes de tudo uma inteligência manual impossível de ser formalizada e por isso não podia ser executado ou transmitido por quem não detivesse esse conhecimento (Lessa, 2002). No sistema de cor- porações de ofício, e mesmo em determinadas formas de traba- lho modernas em que o trabalhador, e não a empresa, detém o saber sobre o trabalho, a produtividade depende de qualidades e características não formalizáveis dos trabalhadores e por isso não mensuráveis e não controláveis. * CuteleiroCuteleiro: aquele que fabrica ou vende instrumentos cortantes. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 176176 Com o surgimento do capitalismo, que tem por objetivo a acumulação, a produção não poderia repousar sobre motiva- ções de indivíduos que detinham o saber-fazer de determina- das atividades e que poderiam produzir mais ou menos rápido ou mais ou menos bem de acordo com a sua vontade. Era ne- cessário controlar a produção para alcançar o objetivo (Gorz, 2003). Dessa forma, o sistema de fábricas foi concebido mais por necessidades organizativas do que técnicas, inaugurando para o trabalhador toda uma nova ordem de disciplina durante o transcorrer do processo de trabalho (Decca, 1993). O primeiro momento do sistema de fábricas impôs ao tra- balhador uma disciplina que até então não existia. Na sua ofi- cina, no sistema de corporações, ele era o seu próprio patrão, não recebia ordens de ninguém. Um exemplo dessa disciplina, ainda no início do sistema de fábricas na Europa, é trazido pelo historiador Huberman (1986, p. 178), que mostra como alguns tipos de conduta e comportamento eram penalizados com o pagamento de multas pelos trabalhadores: Por deixar a janela aberta 1s. 0d.* Por estar sujo 1s. 0d. Por se lavar no trabalho 1s. 0d. Por consertar o tambor com o gás aceso 2s. 0d. Por deixar o gás aceso além do tempo 2s. 0d. Por assobiar 1s. 0d. * Os símbolos “s.” e “d.” representam unidades monetárias usadas na Inglaterra durante a Idade Média. O “s.” representava um solidus, e o “d.” representava um penny (Costa, 2010). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 177177 Tal “regulamento” na oficina do artesão era inconcebível, mas na fábrica era assim que as coisas funcionavam. Sair de sua casa e de sua oficina e trabalhar quatorze, dezesseis horas numa fábrica sob as ordens e a disciplina fabris representou um novo quadro para o trabalhador. A imposição de horas regulares de trabalho contrastou com o ritmo autoimposto das situações an- teriores, quando a atividade produtiva era marcada por inter- rupções, meio-expediente, feriados e dias santos. A fábrica passou a ser o novo local de trabalho. A separação entre a casa e o local de trabalho foi fator de grande importân- cia no processo de racionalização do trabalho, pois deu a este certa independência das outras atividades (Weber, 1999). Além de figurar como local onde o trabalho se dava com outro ritmo, a fábrica constituiu-se em um universo – imaginário e real – em que se produziam novas relações sociais e onde se dava uma particular e decisiva apropriação do saber do trabalhador. A fá- brica tornou-se, além de um espaço de acumulação do capi- tal, um local de apropriação do saber e de dominação social. O mestre artesão, que na sua oficina dominava todo o processo de fabricação do produto, foi, pouco a pouco, no sistema de fábri- cas, perdendo o domínio do processo de trabalho. O trabalho, que antes era executado do começo ao fim por um só artesão, foi dividido na fábrica. Vários trabalhadores pas- saram a executar parcelas de um mesmo processo de trabalho. O trabalhador transformou-se no que Marx (1968) chama de trabalhador parcial. É como se a divisão do trabalho passasse também a dividir o trabalhador. Antes do sistema de fábricas, os trabalhadores eram mestres. Eram os mestres carpinteiros, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 178178 cuteleiros, ourives, sapateiros. Na fábrica eles deixaram de ser mestres e passaram a ser trabalhadores assalariados, executan- do apenas uma parcela do trabalho. Por isso, Marx (1968) afir- ma que o trabalhador se transforma em trabalhador parcial. Passou a ocorrer, então, uma divisão manufatureira do tra- balho. É esse o assunto da próxima seção. [6.2][6.2] A divisão manufatureira do trabalhoA divisão manufatureira do trabalho A divisão manufatureira do trabalho refere-se ao fracionamento do ofício, dividindo-o em várias etapas executadas por traba- lhadores diferentes. Vamos pensar, por exemplo, no ofício do sapateiro. Com a divisão manufatureira, as várias etapas da pro- dução de um sapato são divididas e executadas separadamente. Um trabalhador irá cortar o couro, outro irá costurar, outro irá pregar a sola etc. Isso é a divisão manufatureira do trabalho. Tal divisão é distinta daquela que se dá na sociedade, chama- da divisão social do trabalho, em que os homens se encontram em ofícios, ocupações ou profissões (Marx, 1968; Braverman, 1987). Nos ofícios ou profissões os homens ainda podiam exer- cer e construir sua individualidade, criatividade e humanidade no ato de trabalho. Mas, quandoo trabalho passou a ser dividido na fábrica, o ofício ou profissão foi substituído como elemento central da organização do trabalho pelas parcelas desse ofício ou profissão. As várias operações que formavam o processo de trabalho foram separadas umas das outras e atribuídas a traba- lhadores diferentes. Assim, quando o capitalista dividiu o pro- cesso de trabalho em etapas, retirou esse processo do controle do Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 179179 trabalhador e o reconstituiu sob seu poder. A divisão manufatu- reira do trabalho abriu caminho, então, à desespecialização* do trabalhador. Isso fez com que, além de obter ganhos de tempo na execução do conjunto das tarefas, ocorresse o aumento da pro- dutividade. Outro ponto importante é que o dono da fábrica não preci- sava mais contratar um mestre para fazer o trabalho. Precisava apenas de um trabalhador que cortasse o couro, outro que o cos- turasse, um terceiro que pregasse a sola. A A divisão manufatureira do trabalhodivisão manufatureira do trabalho é a divisão de um ofício em várias etapas, executadas por trabalhadores diferentes. O trabalhador não executa o processo inteiro de fabricação de um bem ou produto, mas apenas uma parte desse processo. Ela é dis- tinta da divisão social do trabalho, que se refere à divisão entre os ofícios e as profissões dentro da sociedade (Braverman, 1987; Bottomore, 2001). Nesse novo contexto – o da fábrica e da acumulação capi- talista – o trabalho não é mais um elemento da vida doméstica que se “mistura” com outras atividades, em que o homem que trabalha impõe um ritmo às suas tarefas (Thompson, 1991). O trabalho passa a ser submetido a outra lógica, uma lógica racional. Quando analisa o “espírito do capitalismo” moder- no, Weber (1999, p. 7-8) também chama a atenção para essa * DesespecializaçãoDesespecialização: perda da qualificação, de uma especialidade em uma função ou profissão. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 180180 separação entre o local de trabalho e a esfera doméstica e a re- lação com a racionalidade econômica: A organização industrial racional, orientada para um mercado real, e não para oportunidades políticas ou especulativas de lucro, não é, entretanto, a única criação particular do capitalismo ocidental. A moderna organização racional da empresa capitalista não teria sido viável sem a presença de dois importantes fatores de seu desen- volvimento: a separação da empresa da economia doméstica, que hodiernamente domina por completo a vida econômica, e, associa- do de perto a este, a criação de uma contabilidade racional. Até aqui podemos vislumbrar o seguinte quadro: os traba- lhadores reunidos na fábrica, tendo seus trabalhos divididos pela divisão manufatureira e submetidos a uma racionalidade que até então não conheciam. Entretanto, mesmo nesse novo quadro, o controle ainda é aplicado somente ao trabalhador. Ainda não existe o controle sobre o trabalho. Esse aspecto só será observado com a gerência científica. É o que veremos no próximo tópico. [6.3][6.3] A gerência científica: A gerência científica: o taylorismo e o fordismoo taylorismo e o fordismo Quando Taylor propôs e sistematizou seus princípios de or- ganização do trabalho, ele partiu de uma série de elementos que já tinham espaço no interior da fábrica e cujo objetivo era controlar o trabalhador durante sua permanência na oficina (Braverman, 1987). A reunião de trabalhadores dentro de uma Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 181181 fábrica, a fixação de uma jornada de trabalho, a supervisão in- cidindo sobre os trabalhadores, as normas de conduta rígidas no local de trabalho eram alguns elementos que se voltavam, sobretudo, ao trabalhador. É essa espécie de disciplina fabril que Taylor já encontrou pre- sente e atuante no local de trabalho. O trabalhador com o qual Taylor se deparou já estava submetido a um controle gerencial, que incide sobre o que se poderia chamar de conduta do trabalhador. Estar sujo, assobiar, fumar e conversar no local de trabalho, como vimos no exemplo trazido por Huberman (1986) na seção 6.1, são elementos que dizem respeito ao comportamento do trabalhador. A disciplina e a gerência científica tayloristas passaram a atuar não apenas na conduta do trabalhador, mas também no processo de trabalho em si. É o controle sobre o trabalho e não somente sobre o trabalhador (Braverman, 1987). Taylor elevou o conceito de controle quando apresentou a ne- cessidade de a gerência impor ao trabalhador a maneira pela qual o trabalho deve ser executado. Para Taylor, o controle não deveria ser feito apenas sobre disciplinas e normas gerais do trabalhador; seus processos de trabalho também deveriam ser controlados. E o controle do trabalho se dá pelo controle das decisões tomadas no curso do processo de produção pela gerência (Braverman, 1987). Por estudos de tempo e movimentos, Taylor define uma maneira ótima de trabalhar, ou melhor, uma maneira ótima de executar cada movimento da tarefa. Esse movimento é defi- nido não pelo trabalhador, mas pela gerência científica (Rago; Moreira, 1984). Taylor estabelece as bases do taylorismo em sua obra de 1911, Os princípios de administração científica. O Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 182182 primeiro princípio refere-se à separação entre quem planeja o trabalho ou a tarefa e aquele que a executa. Quem deve plane- jar o trabalho é a gerência científica, o trabalhador deve ape- nas cumprir as ordens estabelecidas. O segundo princípio diz respeito à seleção dos trabalhadores mais adequados para as tarefas especificadas. O termo adequados aqui remete também àqueles trabalhadores que não questionam as regras estabele- cidas (Gounet, 1999). Taylor fala mesmo em um trabalhador do tipo “bovino” para certas tarefas, ou seja, um trabalhador forte, dócil e com pouca inteligência. O terceiro princípio do taylorismo é o controle sobre o tempo e os movimentos dos trabalhadores.Tudo deve estar calculado pela gerência e o tra- balhador deve executar aquilo que está determinado nos proce- dimentos e nos manuais (Rago; Moreira, 1984). O sistema taylorista procurou racionalizar a produção, por meio do estudo dos tempos de execução dos processos, com o intuito de suprimir gestos desnecessários, estabelecendo a me- lhor forma de execução das atividades. Com isso, aperfeiçoou a divisão do trabalho introduzida pelo sistema de fábricas, assegu- rando o controle do tempo de trabalho (Rago; Moreira, 1984). Assim, sobra pouco espaço para a criatividade e individua- lidade do trabalhador. Ele não é mais autônomo, mas alguém que obedece a ordens. A situação é bem diferente do mestre artesão nas corporações de ofício. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 183183 TaylorismoTaylorismo é um método de administração da produção ba- seado nos estudos de tempos e movimentos dos trabalhadores. Apresenta três princípios básicos: separação entre planejamento e execução das tarefas; seleção dos trabalhadores mais adequados à função específica; controle sobre o tempo e os movimentos exe- cutados pelos trabalhadores (Braverman, 1987; Rago; Moreira, 1984). Outra forma de organizar a produção que revolucionou o mundo do trabalho foi o fordismofordismo (Gounet, 1999; Harvey, 1998). Esse modelo, idealizado por Henry Ford (1863-1947), foi aplicado primeiramente nas suas fábricas de automóveis. Com o fordismo, os métodos tayloristas foram aperfeiçoados, e configura-se não apenas um princípio organizador da pro- dução, mas um regime de acumulação*, expresso no pacto social fordista. Ford aperfeiçoou e transformou os princípios tayloristas, pois entendeu que produção em massa significava consumo em massa e, ainda, que, ao fazer o trabalho chegar ao trabalhador pela esteira fordista, seria possível obter notáveis ganhos de produtividade. * Para que exista um regime de acumulação, deve haver uma materiali- zação sob a forma de normas, hábitos, leis e redes de regulamentação, “que garantam a unidade do processo, isto é, a consistência apropriada entre comportamentos individuais e o esquema de reprodução. Esse corpo de regras e processos interiorizados tem o nome de modo de regulamentação” (Lipietz, 1988, p. 19). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 184184 Segundo Gounet (1999, p. 45), o fordismo a fundamentou em cinco transformações essenciais a partir do taylorismo: 1) produzir em massa significava racionalizar as operações dos operários e combater os desperdícios, principalmente de tempo; 2) com o parcelamen- to das tarefas na tradição taylorista, o trabalhador não precisa mais ser um especialista; 3) criação da esteira fordista, controlável pela direção da empresa; 4) padronização das peças, que implicava a integração vertical; 5) automatização das fábricas. Essas cinco características mostram, de certa forma, como os princípios utilizados por Ford já se encontravam bem esta- belecidos pela organização científica da produção disseminada pelo taylorismo (Gounet, 1999). O processo de desespecializa- ção do trabalhador, no sentido de não dominar mais o processo produtivo como um todo, já havia se iniciado com a criação do sistema de fábrica (Decca, 1993; Braverman, 1987). A tecnolo- gia também não apresentava, num primeiro momento, inova- ções mais significativas além da esteira rolante. A padronização das peças aparece como uma consequência da produção em massa e, em certa medida, da padronização dos procedimentos realizada já no sistema taylorista. Se padrões organizacionais e tecnológicos da produção já estavam dados, qual foi a inovação de Ford em relação à forma anterior de organizar a produção? A sua grande inovação foi pensar a produção além do ato de apertar o último parafuso do carro no último posto da linha de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 185185 montagem. Ou seja, o produto final precisa ser consumido por alguém; consumido em massa, pois é produzido em massa. O que havia de especial em Ford (e que, em última análise, distin- gue o fordismo do taylorismo) era a sua visão, seu reconhecimento explícito de que produção de massa significava consumo de massa, um novo sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova po- lítica de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista. (Harvey, 1998, p. 121) O tempo para produzir um carro, no taylorismo, era de cin- co horas e trinta minutos. Ford, em suas fábricas transforma- das, conseguia produzir em uma hora e trinta minutos (Gounet, 1999). Contudo, essa redução do tempo de produção significa- va uma grande intensificação e disciplinamento do trabalho, o que não era bem aceito pelos operários, que preferiam o méto- do artesanal de produção. Ford, então, passou a oferecer um sa- lário de cinco dólares por uma jornada de oito horas de traba- lho, como forma de atrair e cooptar trabalhadores. Percebemos que essa nova organização do trabalho implica a adesão dos trabalhadores, pelo menos até o sistema se generalizar; por isso Ford os pagava dessa forma. O sucesso do fordismo fez com que esse sistema emigrasse para outras fábricas e países. Com a linha de produção fordista generalizada, produzir em menos tempo passou a significar aumento da produtividade e da lu- cratividade, do rendimento do trabalhador e do seu consumo (Harvey, 1998). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 186186 FordismoFordismo é uma forma de organizar baseada na produção em massa de produtos padronizados, com cada operário executan- do uma função específica ao longo da esteira fordista. Além da produção em massa e padronizada, o fordismo prevê também o consumo em massa. Assim como o taylorismo, no fordismo existe a separação entre o planejamento e a execução das tarefas, o controle sobre o tempo e os movimentos, além de o trabalhador acompanhar o ritmo da máquina(Gounet, 1999; Harvey, 1998). O modelo de produção fordista vigorou até o final da década de 1960 e início da década de 1970 na Europa, quando passou a apresentar um quadro de crise, provocando muitas modificações no mundo do trabalho (Harvey, 1998). Iniciou-se então o chama- do processo de reestruturação produtiva, que deu origem ao pós- fordismo ou acumulação flexível, assunto da próxima seção. [6.4][6.4] O pós-fordismo e a globalizaçãoO pós-fordismo e a globalização A crise dos princípios fordistas inaugurou uma conjuntura de alterações e rearranjos capitalistas – e não apenas de um siste- ma organizador da produção –, desencadeando um processo de reorganização por parte do capital, com o intuito de recuperar seus níveis de acumulação. A forma de organizar a produção foi mudada. Assim se constituiu o processo de reestruturação produtiva (Antunes, 2002; Harvey, 1998). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 187187 A crise do fordismo se deveu a alguns fatores, como a satura- ção do mercado europeu e a crescente competição do mercado asiático, a crise do petróleo a partir dos anos 1960 e o aumento dos custos com a produção. Em outras palavras, era necessá- rio mudar a forma de produzir. A grande fábrica de Ford, com um batalhão de trabalhadores produzindo em massa, já não era mais tão lucrativa (Harvey, 1998). A grande fábrica integrada e verticalizada de Ford cedeu es- paço para a fábrica enxuta* e flexível da reestruturação produ- tiva. A empresa reestruturada externaliza e terceiriza as várias fases do seu processo produtivo, criando uma complexa cadeia de fornecimento de peças e serviços. Com as novas tecnologias da comunicação, a conectividade entre as empresas é otimizada, facilitando as relações da cadeia produtiva e entre as filiais e as várias matrizes localizadas em países diferentes. O fluxo de pro- dução também é sintonizado mais facilmente com a demanda, cada vez mais variável, do mercado globalizado (Castells, 1999). Com a externalização e a terceirização de serviços – limpeza, vigilância, transporte de funcionários e de materiais, alimenta- ção, contratação –, a empresa-mãe reduz os quadros de funcio- nários, diminuindo o custo de produção. Combinando novas formas organizacionais e inovação tecnológica, as novas empre- sas produzem mais com cada vez menos trabalhadores (Castells, 1999; Harvey, 1998; Comin, 1998). * Fábrica enxutaFábrica enxuta: a fábrica pós-fordista que terceiriza determinadas etapas de sua produção e serviços. A fábrica enxuta não executa mais serviços de limpeza, manutenção, alimentação, entre outros, mas con- trata empresas responsáveis por essas atividades. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 188188 Para termos uma ideia de como as novas fábricas produzem mais com menos trabalhadores, vamos comparar alguns núme- ros da indústria automobilística brasileira. Na Tabela 6.1, temos a produção e o número de empregos entre os anos de 1957 e 1987. Perceba que, à medida que a produção aumenta, o número de trabalhadores necessários (coluna do emprego) também aumen- ta. Quanto mais se produz, mais trabalhadores são necessários. Tabela 6.1 − Indústria automobilística brasileira – produção e Tabela 6.1 − Indústria automobilística brasileira – produção e emprego no período de 1957 a 1987emprego no período de 1957 a 1987 AnoAno ProduçãoProdução EmpregoEmprego 1957 30.542 9.773 1962 191.194 48.523 1967 225.487 46.396 1972 622.171 80.430 1977 921.193 111.514 1980 1.165.174 133.683 1982 859.270 107.137 1987 920.071 113.474 Fonte: Baseado em Anfavea, 2004. A Tabela 6.2 demonstra que, a partir da década de 1990, o au- mento da produção não é mais acompanhado do mesmo ritmo de crescimento pelo número de empregos. A partir de 1998, é possí- vel perceber claramente que as empresas produzem cada vez mais veículos com menos trabalhadores contratados diretamente. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 189189 Tabela 6.2 − Indústria automobilística brasileira – produção e Tabela 6.2 − Indústria automobilística brasileira – produção e emprego no período de 1990 a 2003emprego no período de 1990 a 2003 AnoAno ProduçãoProdução EmpregoEmprego 1990 914.466 117.396 1991 960.219 109.428 1992 1.073.861 105.664 1993 1.391.435 106.738 1994 1.581.389 107.134 1995 1.629.008 104.614 1996 1.804.328 101.857 1997 2.069.703 104.941 1998 1.586.291 83.049 1999 1.356.714 85.100 2000 1.691.240 89.134 2001 1.812.119 84.834 2002 1.791.530 81.737 2003 1.827.038 79.153 Nota: A partir de 1997, consideram-se apenas empregos diretos, excluindo os decorrentes das terceirizações das empresas. Fonte: Baseado em Anfavea, 2004. Na análise das tabelas com base nas características do pós- fordismo, é importante ter em mente que as tendências dessa forma de organizar o trabalho só chegaram ao Brasil a partir da década de 1990. Elas se consolidaram na Europa e nos Estados Unidos nos anos 1970 e 1980 e, assim como o fordismo, se dis- seminaram em nível mundial. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 190190 Agora imagine que essa queda no número de empregos di- retos aconteça com muitos outros setores da indústria e em vá- rias empresas. Quais são as consequências? Primeiramente, o desemprego, mas também a disseminação de formas de traba- lho precárias e informais. A palavra de ordem passa a ser flexibilização: dos processos de trabalho com o uso da tecnologia, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos processos. A flexibilização dos processos de trabalho se dá principal- mente pelo uso de novas tecnologias para produzir. As empre- sas não precisam mais de tantas pessoas para produzir, pois os robôs e a automação são os responsáveis por parte do trabalho. Um trabalhador pode controlar várias máquinas por meio de um computador. Da mesma forma, os mercados de trabalho também são flexibilizados. Passam a existir novos tipos de con- trato de trabalho: o trabalho temporário, o trabalho autônomo, a prestaçãode serviços, a terceirização de alguns segmentos das empresas. As mudanças na legislação trabalhista permitem que a mão de obra apresente uma alta rotatividade, pois se torna mais fácil contratar um novo trabalhador e também dispensá-lo. Os produtos e o consumo também acompanham essa flexi- bilização. Quando Ford criou suas fábricas para produzir em massa, produzia apenas um tipo de veículo, o Ford T, da cor preta. Hoje existe uma enorme variedade de modelos e cores de carros que o consumidor pode escolher. E isso não só em relação aos automóveis, mas também com celulares, eletrodo- mésticos, roupas e a maioria dos produtos industrializados. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 191191 Tudo isso acontece mundialmente, sob a influência de um fenômeno do qual você já deve ter ouvido falar: a globalização. Conforme Giddens (1997), a globalização significa que o mun- do está se tornando um “mundo único”, em que as pessoas, os países e os grupos se tornam cada vez mais interdependentes, ou, poderíamos dizer, cada vez mais conectados. Exercendo a flexibilidade, as empresas buscam novos mercados consumido- res e de trabalho, procurando o lugar mais lucrativo para pro- duzir e vender. Note que o melhor lugar para produzir não é necessariamente o melhor lugar para vender. Assim, você pode encontrar facilmente produtos de vários países no mercado lo- cal. Faça este teste: procure no seu celular, no seu tênis ou na sua roupa a indicação do local onde foram produzidos. O consumo passa a ser de espécie mundial. Você pode comer no McDonald’s o mesmo sanduíche que é servido na França, na Índia ou no Japão. Isso porque, como vimos, as em- presas buscam novos mercados produtores e consumidores. O mesmo que acontece com os sanduíches acontece com os car- ros, os computadores e até com os programas de televisão. A globalização não é, contudo, apenas um fenômeno eco- nômico. Embora possamos dizer que o fator econômico tem papel decisivo na configuração da globalização, ela é mais do que apenas uma questão econômica. Envolve também fatores políticos, culturais e sociais. O consumo globalizado influencia de várias maneiras a vida das pessoas; novos hábitos, gostos e costumes são criados em detrimento dos antigos. Outro fator de grande importância para a globalização é o desenvolvimento das telecomunicações. Através dos meios de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 192192 comunicação o mundo fica cada vez mais integrado. Podemos entrar numa sala de bate-papo e conversar em tempo real com alguém do outro lado do mundo; podemos enviar em segun- dos um texto via correio eletrônico para o Japão. O que é fei- to quase instantaneamente podia demorar dias e até semanas. Podemos comprar um serviço de tevê a cabo e assistir ao vivo ao campeonato de futebol inglês ou espanhol. Tudo isso altera os padrões culturais e sociais das pessoas e dos grupos. Alguns estudiosos consideram que a globalização produz uma espécie de homogeneidade cultural. Com o poder dos grandes meios de comunicação global, as tradições e as cultu- ras locais seriam absorvidas por uma “cultura global”. A glo- balização exerceria uma forma de “imperialismo cultural”, que difundiria uma visão de mundo única, nos moldes das culturas dos países mais ricos. Há aqueles que interpretam a globaliza- ção de outra forma. Acreditam que ela se caracteriza por uma enorme diversidade de padrões culturais. Com o contato com várias formas culturais, a tradição não teria mais o poder de organizar a vida das populações. Assim, as pessoas estariam em contato com uma grande diversidade de elementos culturais e poderiam construir suas identidades com base nesses elemen- tos. Desse modo, um indivíduo não precisa mais seguir a tra- dição dos seus pais ou dos seus avós para construir sua indi- vidualidade, seus gostos e hábitos, já que ele tem à disposição várias outras formas de individualidade, de gostos e hábitos do mundo inteiro. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 193193 SínteseSíntese Como vimos em Weber, no capítulo 4, a sociologia não pode abranger a totalidade da explicação dos fenômenos sociais. Neste capítulo, valendo-nos da categoria do trabalho, foi pos- sível abordar alguns aspectos da realidade social sob uma ótica sociológica. As transformações no mundo do trabalho geram mudan- ças e consequências que se refletem por toda a ordem social. Analisando essas transformações – mais especificamente na forma de organizar a produção –, é possível entender algumas das tendências que organizam nossa sociedade. Elementos que parecem muitas vezes “cair do céu” são re- flexos de transformações que ocorreram séculos atrás e que seguem uma lógica de transformação até nossos dias. Da cria- ção do sistema de fábricas, passando pelo taylorismo, pelo for- dismo e chegando a uma nova maneira de produzir, podemos entender um pouco melhor a globalização como um processo construído historicamente por determinados fatores e que in- fluencia nossa visão de mundo ao alterar nossos padrões cultu- rais, de consumo e de comportamento. Indicação culturalIndicação cultural ADEUS, Lenin. Direção: Wolfganger Becker. Produção: Stefan Arndt. Alemanha: Sony Pictures Classics, 1993. 118 min. Esse filme relata a história de uma família que entra em um novo mundo após a queda do Muro de Berlim e o avanço do capitalismo na antiga Alemanha Oriental. As questões do consumo, do trabalho e de novos padrões culturais surgidas ao Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 194194 longo do filme mostram de maneira engraçada os efeitos da globalização na vida de uma mulher que julgava ainda viver numa sociedade livre da influência do capitalismo. Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1) Analise as seguintes proposições sobre a criação do sistema de fábricas: I. Foi concebido sobretudo por necessidades técnicas, uma vez que a produção já estava organizada nos moldes da acumulação capitalista. II. Representou não apenas umamudança no local de tra- balho, mas toda uma nova ordem para os trabalhadores, transformando suas vidas. III. O trabalhador, que antes era um mestre artesão, passou a ser alvo de uma disciplina que não conhecia. IV. O ofício do mestre artesão foi dividido. Surgiu a divisão manufatureira do trabalho, o que contribuiu para a de- sespecialização do mestre artesão. V. A criação do sistema de fábricas não representou gran- des mudanças para a ordem social. São verdadeiras as seguintes proposições: a) I e II. b) II e III. c) I, III e IV. d) II, III e IV. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 195195 2) Assinale V para verdadeiro e F para falso: ( ) O taylorismo está mais ligado a uma nova forma de or- ganizar a produção do que a inovações tecnológicas. ( ) O taylorismo se distingue do fordismo porque o primei- ro prevê a separação entre o planejamento do trabalho e sua execução. Já no fordismo, o próprio trabalhador é o planejador e o executor do trabalho. ( ) O taylorismo aperfeiçoa e aprofunda a divisão manufa- tureira do trabalho iniciada com o sistema de fábricas. ( ) A divisão manufatureira do trabalho praticamente não existe no sistema taylorista. Isso porque neste o traba- lhador é um trabalhador completo, não tem seu traba- lho dividido. ( ) Podemos considerar como características que distin- guem o fordismo do taylorismo a criação da esteira for- dista e a automatização das fábricas. Agora, assinale a alternativa correta: a) V, F, V, F, V. b) V, F, F, V, V. c) F, V, F, V, F. d) F, F, V, F, V. 3) Analise as seguintes afirmações a respeito do pós-fordis- mo: I. Um dos principais fatores que explicam o pós-fordismo é a necessidade de alterar a forma de produzir, com o ob- jetivo de recuperar os níveis de acumulação de capital. II. Uma das características do pós-fordismo ou da acumu- lação flexível é o fato de as empresas precisarem de cada Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 196196 vez mais trabalhadores para aumentar a produção. III. Tanto o fordismo como o pós-fordismo se consolidam na Europa e nos Estados Unidos, ficando restritos a es- sas regiões do mundo. IV. O pós-fordismo está intimamente ligado à flexibilidade, que se faz presente nos processos de produção, nos pro- dutos, no consumo, nos mercados de trabalho. V. Com a inovação tecnológica e as novas formas de or- ganizar a produção, pautadas na flexibilidade, as fábri- cas enxutas da acumulação flexível conseguem produzir mais com menos trabalhadores. São verdadeiras as seguintes afirmações: a) I, II e III. b) I, IV e V. c) IV e V. d) II e III. 4) No fim do século XX e graças aos avanços da ciência, pro- duziu-se um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação, que passaram a exercer um papel de elo entre as demais, unido-as e assegurando ao novo sistema técnico uma presença planetária. Só que a globalização não é apenas a existência desse novo sistema de técnica. Ela é também a emergência de um mercado dito global, responsável pelo es- sencial dos processos políticos atualmente eficazes. (Santos, 2008, p. 23-24) Com base na citação de Milton Santos e nos conhecimentos sobre a globalização, analise as seguintes afirmações: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 197197 I. A emergência de um mercado global, como chama a atenção Milton Santos, é uma das manifestações mais aparentes do mundo globalizado, o que se reflete nas formas de consumo e produção. II. A globalização pode ser vista como um processo essen- cialmente econômico, uma vez que o mercado global está diretamente ligado a fatores econômicos mundiais. III. A maneira como as pessoas consomem e as empresas produzem no mercado global influencia o modo de vida, os aspectos culturais e sociais dos países. IV. Alguns analistas veem a globalização como uma forma de imperialismo cultural, que aniquilaria as diversida- des culturais. Outros afirmam que a globalização traz uma nova forma de diversidade cultural. V. O desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação é um dos principais fatores que contribuem para a globalização. Marque a alternativa correta: a) Apenas a afirmação I é correta. b) Apenas a afirmação II é incorreta. c) São corretas apenas as afirmações I, III e IV. d) As afirmações II e V são incorretas. 5) Assinale a alternativa que apresenta as características no mundo do trabalho globalizado: a) Grande fábrica integrada e verticalizada; inovações tec- nológicas; produção variável. b) Terceirização nas empresas; fábrica enxuta; produção variável. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 198198 c) Rigidez; inovações tecnológicas; fábrica com cada vez mais trabalhadores. d) Fábrica enxuta; produção variável; sem inovações tec- nológicas. Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) Vimos no capítulo que Taylor procurava um trabalhador adequado para cada tarefa. Acompanhe o diálogo relatado pelo próprio Taylor com um trabalhador, no qual lhe per- guntou se era um operário classificado e se, como tal, con- seguiria carregar, em vez das 12 toneladas normais, 47 tone- ladas de barras de ferro em um dia de trabalho, ganhando por isso U$ 1,85 ao dia. Após obter a resposta afirmativa do trabalhador, Taylor assim encerra a conversa: Bem, se você é um operário classificado deve fazer exatamente o que este homem lhe mandar, de manhã à noite. Quando ele disser para levantar a barra e andar, você levanta e anda, e quando ele mandar você sentar, você senta e descansa. Você procederá assim durante o dia todo. E, mais ainda, sem reclamações. Um operário classifica- do faz justamente o que se lhe manda e não reclama. Entendeu? Quando este homem mandar você andar, você anda; quando disser que se sente, você deverá sentar-se e não fazer qualquer observação. Finalmente, você vem trabalhar aqui e amanhã saberá, antes do anoitecer, se é um operário classificado ou não. (Codo, 1995) Nenh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 199199 Comente a essência desse diálogo à luz do tipo de trabalha- dor procurado e do controle sobre o trabalho que aparecem no taylorismo. 2) Dê um exemplo de algum produto que se transformou para continuar sendo consumido e que demonstre a passagem do fordismo para o pós-fordismo. Atividade aplicada: práticaAtividade aplicada: prática Realize o exercício proposto no capítulo. Escolha alguns produtos industrializados e verifique onde eles foram pro- duzidos. Depois, procure saber a nacionalidade da empresa que os fabricou. Com este exercício, você poderá perceber a flexibilidade típica da globalização e do pós-fordismo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Considerações finais [...][...] O primeiro item abordado no livro foi o aspecto histórico do aparecimento da sociologia. Vimos como o estudo objeti- vo e sistemático da relação indivíduo-sociedade é um desen- volvimento relativamente recente, cujos primórdios datam do fim do século XVIII. Um desenvolvimento-chave foi o uso da ciência para compreender o mundo – a ascensão da abordagem científica ocasionou uma mudança radical na perspectiva e na sua compreensão. Podemos perceber como, uma após outra, as explicações tradicionais e baseadas na religião foram suplanta- das por tentativas de conhecimento racionais e críticas. O cenário que dá origem à sociologia foi a série de mudan- ças radicais introduzidas pelas “duas grandes revoluções” da Europa dos séculos XVIII e XIX. A Revolução Francesa de 1789 marcou o triunfo das ideias e dos valores seculares, como liber- dade e igualdade, sobre a ordem social tradicional. A segunda grande mudança foi a Revolução Industrial, que começou na Inglaterra no final do século XVIII. Esse evento histórico oca- sionou um grande espectro de transformações econômicas e sociais que cercaram o desenvolvimento de inovações tecno- lógicas, como a energia e a máquina a vapor. O surgimento da indústria levou a uma enorme migração de camponeses para Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 202202 as fábricas e para o trabalho industrial, causando uma rápida expansão das áreas urbanas e introduzindo novas formas de relações sociais. A ruptura dos modos de vida tradicionais desafiou os pen- sadores a desenvolverem uma nova compreensão, tanto do mundo social como do natural. É, então, tendo como pano de fundo uma sociedade capitalista, urbana e individualista, que a sociologia começou a sistematizar seu objeto de estudo e a forma de abordá-lo. Com base nessas reflexões, analisamos a obra de Auguste Comte, que propôs à sociologia um grau de positividade seme- lhante ao das ciências naturais. Segundo Comte, a metodolo- gia da sociologia deveria comportar observação, comparação e classificação à semelhança do que fazem as ciências naturais e ainda apresentar uma linha evolutiva – filiação histórica – que permitisse conhecer o passado e que conduzisse ao futuro. Comte vê a sociedade e os indivíduos marcados pela limitação dentro das leis naturais da sociedade, que devem ser conheci- das para se avançar na linha evolutiva. Seguindo o rastro positivista de Comte, introduzimos o es- tudo de um marco da sociologia: Émile Durkheim, para quem a sociologia apresenta objeto e métodos próprios – o fato so- cial e o método comparativo. Durkheim desenvolve conceitos e concepções importantes, como o fato social e suas característi- cas (exterioridade, coercitividade e generalidade/coletividade), a distinção entre normal e patológico, os conceitos de anomia social e de solidariedade mecânica e orgânica. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 203203 Vimos como Karl Marx também considera a dinâmica so- cial portadora de uma ordem evolutiva. Para ele, o homem e a sociedade são produtos de um homem e uma sociedade ante- riores. Marx concentra seus esforços na contradição que o ca- pitalismo apresenta. As duas principais contradições da socie- dade moderna e capitalista são, primeiramente, entre as forças produtivas, que não param de crescer, e as relações de produ- ção (relações de propriedade e distribuição de renda), que não se transformam no mesmo ritmo; em segundo lugar, entre o crescimento da riqueza e o aumento da miséria. Assim, é ne- cessário superar essas duas contradições, quer pelo desenvol- vimento natural do capitalismo, quer pela revolução socialista, que acelera esse desenvolvimento. Outro autor clássico que estudamos foi Max Weber. O pon- to central da sociologia de Weber é o conceito de ação social. Esse autor compreende como o ator dá sentido à sua conduta, à sua ação social, orientada racionalmente. Na sociedade moder- na – marcada por um crescente processo de racionalização –, o tipo ideal é o recurso que permite a aproximação e a com- preensão da realidade. Apesar de ver a sociedade marcada por uma racionalização, Weber considera que existem dimensões em que a ação social não é racional. Abordamos também os conceitos de cultura, socialização, instituições sociais e de identidade. De posse de tais conceitos, é possível construir outro olhar (sociológico) sobre a socieda- de e as relações sociais, relativizando as diferenças. Esse “outro olhar” sobre a sociedade foi o exercício que fizemos ao abordar a relação entre trabalho, globalização e consumo no último ca- pítulo do livro. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio oufo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. ABEL, T. Os fundamentos da teoria sociológicaOs fundamentos da teoria sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. ANFAVEA − Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. Anuário Estatístico da Indústria Automobilística BrasileiraAnuário Estatístico da Indústria Automobilística Brasileira. São Paulo: Anfavea, 2004. ANTUNES, R. Os sentidos do trabalhoOs sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a nega- ção do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2002. ARANHA, M. L.; MARTINS, M. H. P. FilosofandoFilosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1993. ARON, R. As etapas do pensamento sociológicoAs etapas do pensamento sociológico. São Paulo: M. Fontes, 2003. (Coleção Tópicos). ARRUDA, J. J. A. A revolução industrialA revolução industrial. 3. ed. São Paulo: Ática, 1994. BERGER, B.; BERGER, P. L. O que é uma instituição social? In: FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. (Org.). Sociologia e sociedadeSociologia e sociedade: leituras de intro- dução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977a. p. 193-199. _______. Socialização: como ser um membro da sociedade. In: FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. (Org.). Sociologia e sociedadeSociologia e sociedade: leituras de intro- dução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977b. p. 200-214. BLUCHE, F.; RIALS, S.; TULARD, J. A revolução francesaA revolução francesa. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1989. BOTTOMORE, T. Dicionário do pensamento marxistaDicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2001. Referências [...][...] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 206206 BOURDIEU, P. Medalha de ouro do CNRS 1993Medalha de ouro do CNRS 1993. Educação, Sociedade & Cultura: Revista da Associação de Antropologia e Sociologia da Educação, Porto, n. 2 p. 31-38, 1994. BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolistaTrabalho e capital monopolista: a degradação do traba- lho no século XX. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. CASTELLS, M. A sociedade em redeA sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. (Série A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, v. 1). CASTRO, A. M.; DIAS, E. F. Introdução ao pensamento sociológicoIntrodução ao pensamento sociológico: Durkheim, Weber, Marx, Parsons. 4. ed. Rio de Janeiro: Eldorado, 1976. CHAUI, M. Introdução. In: LAFARGUE, P. O direito à preguiçaO direito à preguiça. São Paulo: Hucitec; Ed. da Unesp, 1999. p. 1-10. CODO, W. Qualidade, participação e saúde mental: muitos impasses e algumas saídas para o trabalho no final do século. In: DAVEL, E.; VASCONCELLOS, J. (Org.). “Recursos” humanos e subjetividadeRecursos” humanos e subjetividade. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 23-36. COHN, G. SociologiaSociologia: para ler os clássicos. Rio de Janeiro: LTC, 1977. COMIN, A. De volta para o futuroDe volta para o futuro: política e reestruturação industrial do complexo automobilístico nos anos 90. São Paulo: Annablume; Fapesp, 1998. COMTE. A. Catecismo positivista. In: GIANNOTTI, J. A. (Org.). ComteComte. São Paulo: Abril Cultural, 1978a. p. 117-318. (Coleção Os Pensadores). _____. Curso de filosofia positiva. In: GIANNOTTI, J. A. (Org.). ComteComte. São Paulo: Abril Cultural, 1978b. p. 3-39. (Coleção Os Pensadores). _____. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. In: GIANNOTTI, J. A. (Org.). ComteComte. São Paulo: Abril Cultural, 1978c. p. 95-115. (Coleção Os Pensadores). _____. Discurso sobre o espírito positivista. In: GIANNOTTI, J. A. (Org.). ComteComte. São Paulo: Abril Cultural, 1978d. p. 41-94. (Coleção Os Pensadores). _____. Metodologia das ciências sociais. In: MORAES FILHO, E. (Org.); FERNANDES, F. (Coord.). Auguste ComteAuguste Comte: sociologia. São Paulo: Ática, 1983a. p. 73-94. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, v. 7). _____. Sociologia: conceitos gerais e surgimento. In: MORAES FILHO, E. (Org.); FERNANDES, F. (Coord.). Auguste ComteAuguste Comte: sociologia. São Paulo: Ática, 1983b. p. 53-72. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, v. 7). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 207207 COSTA, A. L. M. C. da. O valor do dinheiro no Reino UnidoO valor do dinheiro no Reino Unido: a história da libra esterlina de Alfredo, o Grande, a Tony Blair. Disponível em: <http://antonioluizcosta.sites.uol.com.br/moeda_ru.htm>. Acesso em: 12 jan. 2010. DECCA, E. O nascimento das fábricasO nascimento das fábricas. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. (Coleção Tudo é História, v. 51). DURKHEIM, É. As regras do método sociológicoAs regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1960. _____. Da divisão do trabalho social. In: FERNANDES, F. (Org.). DurkheimDurkheim. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983a. p. 3-70. (Coleção Os Pensadores). _____. Educação e sociologiaEducação e sociologia. 3. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1962. _____. Método para determinar a função da divisão do trabalho. In: RODRIGUES, J. A. (Org.); FERNANDES, F. (Coord.). Émile DurkheimÉmile Durkheim: sociologia. São Paulo: Ática, 1988. p. 63-70. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, v. 1). _____. O suicídio. In: FERNANDES, F. (Org.). DurkheimDurkheim. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983b. p. 163-202. (Coleção Os Pensadores). FALCON, F. J. C. IluminismoIluminismo. 4. ed. São Paulo: Ática, 1994. FERNANDES, F. A herança intelectual da sociologia. In: FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. Sociologia e sociedadeSociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977. p. 11-20. GIDDENS, A. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: BECK, U.; GIDDENS, A.; LASH, S. Modernização reflexivaModernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Ed. da Unesp, 1997. p. 85-131. _____. SociologiaSociologia. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. GORZ, A. Metamorfoses do trabalhoMetamorfoses do trabalho: crítica à racionalidade econômica. São Paulo: Annablume, 2003. GOUNET, T. Fordismo e toyotismo na civilização do automóvelFordismo e toyotismo na civilização do automóvel. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999. HARVEY, D. Condição pós-modernaCondição pós-moderna. 7. ed. São Paulo: Loyola, 1998. HOBSBAWN,E. J. A era das revoluçõesA era das revoluções: Europa 1789-1848. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 208208 HUBERMAN, L. História da riqueza do homemHistória da riqueza do homem. 21. ed. Tradução de W. Dutra. Rio de Janeiro: LTC, 1986. JOHNSON, A. G. Dicionário de sociologiaDicionário de sociologia: guia prático da linguagem so- ciológica. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1997. KAMMER, M. A dinâmica do trabalho abstrato na sociedade modernaA dinâmica do trabalho abstrato na sociedade moderna: uma leitura a partir das barbas de Marx. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. LARAIA, R. B. CulturaCultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1993. LEFEBVRE, H. A sociologia de MarxA sociologia de Marx. Rio de Janeiro: Forense- Universitária, 1979. LESSA, S. Mundo dos homensMundo dos homens: trabalho e ser social. São Paulo: Boitempo, 2002. LIPIETZ, A. Miragens e milagresMiragens e milagres: problemas da industrialização no Terceiro Mundo. São Paulo: Nobel, 1988. MAQUIAVEL, N. O príncipeO príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1973. MARTINS, C. B. O que é sociologiaO que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2006. (Coleção Primeiros Passos, v. 57). MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidosManuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. _____. O capitalO capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. v. 1. MÉSZAROS, I. A teoria da alienação em MarxA teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006. _____. Para além do capitalPara além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2002. MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimentoO desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Abrasco, 2000. PAIXÃO, A. E. A subjetividade no tempo de trabalhoA subjetividade no tempo de trabalho: um estudo sobre a flexibilidade. 2005. 178 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2005. QUINTANEIRO, T.; BARBOSA, M. L. de O.; OLIVEIRA, M. G. M. Um toque de clássicosUm toque de clássicos: Marx, Durkheim e Weber. 2. ed. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2002. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 209209 RAGO, L. M.; MOREIRA. E. F. P. O que é taylorismoO que é taylorismo. São Paulo: Brasiliense, 1984. RODRIGUES, A. T. Sociologia da educaçãoSociologia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. (Coleção O que você precisa saber sobre...) SANTOS, B. S. Um discurso sobre as ciênciasUm discurso sobre as ciências. 7. ed. Porto: Afrontamento, 1995. (Coleção Histórias e Ideias). SANTOS, M. Por uma outra globalizaçãoPor uma outra globalização: do pensamento único à cons- ciência universal. São Paulo: Record, 2008. SELL, C. E. Sociologia clássicaSociologia clássica: Durkheim, Marx e Weber. 3. ed. Itajaí: Ed. Univali, 2002. SISTEMA visual. Disponível em: <http://www.icb.ufmg.br/fib/neurofib/ Engenharia/IBNETO>. Acesso em: 12 jan. 2010. SZTOMPKA, P. A sociologia da mudança socialA sociologia da mudança social. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. THOMPSON, E. P. O tempo, a disciplina do trabalho e o capitalismo indus- trial. In: SILVA, T. T. (Org.). Trabalho, educação e prática socialTrabalho, educação e prática social: por uma teoria da formação humana. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. p. 54-93. WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismoA ética protestante e o espírito do capitalismo. 14. ed. São Paulo: Pioneira, 1999. _____. Ação social e relação social. In: FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. (Org.). Sociologia e sociedadeSociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977. p. 139-144. _____. Burocracia. In: GERTH, H., MILLS, C. W. (Org.). Ensaios de socioloEnsaios de sociolo-- giagia. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002. p. 138-170. _____. Economia e sociedadeEconomia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 3. ed. Brasília: Ed. da UnB, 1994. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. ARON, R. As etapas do pensamento sociológicoAs etapas do pensamento sociológico. São Paulo: M. Fontes, 2003. (Coleção Tópicos). É uma obra clássica da sociologia, em que o autor estuda a fundo as principais obras do pensamento sociológico. Além da análise, traz o contexto histórico de sua construção e a biografia dos autores. FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. (Org.). Sociologia e sociedadeSociologia e sociedade: leitu- ras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977. A obra traz uma coletânea de textos de autores clássicos da so- ciologia, abordando temas importantes da disciplina, e não fica restrita a apenas uma linha explicativa. GIDDENS, A. SociologiaSociologia. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. Trata-se de uma obra enciclopédica. Apesar de ficar restrita ao meio social e cultural europeu nos exemplos e nas problema- tizações, é uma obra abrangente e ao mesmo tempo específica. Apresenta temas básicos, autores clássicos e abordagens de gênero, sexualidade, família, vida urbana, mídia e comunicação de mas- sa, entre outras. Bibliografia comentada [...][...] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 212212 MARTINS, C. B. O que é sociologiaO que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2006. (Coleção Primeiros Passos, v. 57). Apresenta o contexto histórico do surgimento da sociologia e também as contribuições de alguns dos principais autores parao referencial teórico da disciplina. É um livro de introdução, com um bom panorama geral para iniciantes. LARAIA, R. B. CulturaCultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1993. O livro apresenta um tema bem específico: a cultura. Faz uma abordagem antropológica do conceito de cultura, apresentando o desenvolvimento teórico e prático desse conceito. Apesar de tratar apenas de um único tema, sua leitura é prazerosa e instigante. QUINTANEIRO, T.; BARBOSA, M. L. de O.; OLIVEIRA, M. G. M. Um Um toque de clássicostoque de clássicos: Marx, Durkheim e Weber. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2002. O livro apresenta uma leitura dos três clássicos da sociologia – Durkheim, Marx e Weber –, abordando conceitos centrais das obras dos autores. MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidosManuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. RODRIGUES, J. A. (Org.); FERNANDES, F. (Coord.). Émile DurkheimÉmile Durkheim: sociologia. São Paulo: Ática, 1988. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, v. 1). WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismoA ética protestante e o espírito do capitalismo. 14. ed. São Paulo, Pioneira, 1999. São três obras clássicas da sociologia, de leitura imprescindí- vel para aqueles que almejam um conhecimento mais profundo da disciplina e um contato mais aproximado com as leituras clás- sicas da sociologia. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Capítulo 1Capítulo 1 Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1. c 2. a 3. c 4. b 5. b Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) As modificações no trabalho retiram o mestre artesão de sua oficina e o trabalho passa a ser feito na fábrica, onde obedece a uma outra lógica. Nesse processo, o trabalhador perde o controle sobre o seu trabalho, sofrendo uma des- qualificação. Ele, que dominava todo o processo de pro- dução, torna-se, na fábrica, alguém que opera apenas uma parte do processo produtivo. Também é submetido a uma disciplina à qual não estava acostumado. Respostas [...][...] Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 214214 2) A sociologia está ligada aos problemas provocados pela mu- dança da ordem social oriundos da emergência do capita- lismo. Esses problemas desafiam os pensadores a formular uma resposta com base científica e racional. Surge, então, a necessidade de uma ciência que possa dar conta dos proble- mas da sociedade. A sociologia é, portanto, uma ciência que surge num momento de crise na sociedade, com o objetivo de dar possíveis respostas. Capítulo 2Capítulo 2 Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1. d 2. c 3. c 4. a 5. b Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) Para Durkheim, a sociedade prevalece sobre os indivíduos. É ela que os forma e os molda, fornecendo-lhe as alternativas para que construa suas particularidades. Nesse sentido, é a sociedade que forma o indivíduo, e não o indivíduo que for- ma a sociedade. 2) Tratá-lo como “coisa” quer dizer tratá-lo como algo que o conhecimento humano não penetra de modo imediato, ne- cessitando do auxílio da inteligência para compreendê-lo. Com essa perspectiva, Durkheim procura também afastar Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 215215 as noções do senso comum no tratamento do objeto da so- ciologia. Capítulo 3Capítulo 3 Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1. b 2. d 3. c 4. d 5. a Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) Segundo Marx, a ideologia apresenta aos homens uma fal- sa representação da realidade, fazendo com que eles não percebam claramente a realidade. O conjunto de ideias e noções produzidas pela ideologia é inculcado nos traba- lhadores e eles passam a interpretar a realidade com base nessas ideias. Passam então a se comportar como a classe dominante quer que se comportem e, por conseguinte, não percebem que são explorados pelo sistema capitalista, em que a maior parte do salário é apropriada pela classe domi- nante. Interpretam como natural o fato de receberem um salário, depois de produzirem toda a riqueza da sociedade. 2) Algumas das principais características do sistema capitalista, segundo Marx, são: (1) a primeira contradição básica entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção; (2) a contradição entre o crescimento da riqueza Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 216216 e o aumento da miséria; (3) a relação de complementaridade entre a classe capitalista e a classe trabalhadora; (4) a produ- ção de mercadorias visando à acumulação; (5) a apropria- ção privada da riqueza por aqueles que são proprietários dos meios de produção; (6) a produção de uma ideologia que confere uma falsa consciência aos homens, no sentido como colocado na questão 1; (7) considera o capitalismo como a história da expropriação do trabalhador. Capítulo 4Capítulo 4 Atividades de autoavaliaçãoAtividades de autoavaliação 1. d 2. c 3. c 4. b 5. a Atividades de aprendizagemAtividades de aprendizagem Questões para reflexãoQuestões para reflexão 1) Alguns do principais pontos da análise de Weber sobre o capitalismo são: (1) considera o capitalismo o “reino” da ra- cionalidade; (2) entende que a sociedade capitalista passa do “agir em comunidade” para o “agir em sociedade”; (3) na sua análise do capitalismo, o trabalho aparece como um elemento condicionado pela ética puritana; (4) a riqueza é interpretada à luz da ética puritana e do espírito do capita- lismo; (5) intenso processo de burocratização. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a