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EXAMES BIOQUÍMICOS PARA AVALIAÇÃO DE DOENÇAS CARDÍACAS Elaboração Cássia Ferreira Braz Caurio Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................................................................................................... 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ................................................................................................. 5 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................................................. 7 UNIDADE I TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS .................................................................................................................................................................................. 9 CAPÍTULO 1 MIOCARDIOPATIAS E INSUFICIÊNCIA CARDÍACA ................................................................................................................................. 9 CAPÍTULO 2 SÍNDROME CORONARIANA AGUDA ........................................................................................................................................................... 48 CAPÍTULO 3 CARDIOPATIA CONGÊNITA ............................................................................................................................................................................. 68 UNIDADE II EXAMES LABORATORIAIS ............................................................................................................................................................................................. 82 CAPÍTULO 1 MARCADORES DE LESÃO DO MIOCÁRDIO .............................................................................................................................................. 82 CAPÍTULO 2 MARCADORES DE RISCO CORONARIANO .............................................................................................................................................. 92 CAPÍTULO 3 MARCADORES DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA CONGESTIVA ........................................................................................................ 96 UNIDADE III CASOS CLÍNICOS................................................................................................................................................................................................................ 99 CAPÍTULO 1 CASO 1 ...................................................................................................................................................................................................................... 99 CAPÍTULO 2 CASO 2 .................................................................................................................................................................................................................... 101 CAPÍTULO 3 CASO 3 ................................................................................................................................................................................................................... 103 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................................................................... 105 4 APRESENTAÇÃO Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico- tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 6 ORGANIzAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESqUISA Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/ conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 INTRODUÇÃO Durante o século XX, as doenças cardíacas se tornaram a principal causa de morbidade e mortalidade nas nações desenvolvidas. Nesse contexto, o diagnóstico e o tratamento de doenças cardíacas dependem fortemente de tecnologia avançada, incluindo modalidades de eletrofisiologia, imagem, cateterização, cirurgias e laboratórios. Esta apostila tem por objetivo apresentar as principais doenças cardíacas, bem como ensinar as metodologias utilizadas para diagnosticá-las. Por fim, demonstraremos as principais aplicações clínicas e laboratoriais na área de doenças cardíacas. Objetivos » Apresentar as principais doenças cardíacas. » Ensinar as metodologias utilizadas para diagnosticar as doenças cardíacas. » Demonstrar as principais aplicações clínicas e laboratoriais na área de doenças cardíacas. 9 UNIDADE ITIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS CAPÍTULO 1 Miocardiopatias e insuficiência cardíaca Insuficiência cardíaca: fisiopatologia e diagnóstico Apesar das repetidas tentativas de desenvolver uma definição mecanicista que englobe a heterogeneidade e a complexidade da insuficiência cardíaca (IC), nenhum paradigma conceitual único resistiu ao teste do tempo. As diretrizes atuais da American College of Cardiology Foundation (ACCF)/American Heart Association (AHA) definem a IC como uma síndrome clínica complexa que resulta do comprometimento estrutural ou funcional do enchimento ventricular ou ejeção de sangue, que, por sua vez, provocam sintomas clínicos cardinais de dispneia e fadiga e sinais de IC, nomeadamente edema e estertores. Como muitos pacientes apresentamOs efeitos cardiotóxicos de outras terapias anti-HER2 recentemente introduzidas (por exemplo, pertuzumabe) são semelhantes aos causados pelo trastuzumabe. A cardiotoxicidade com ciclofosfamida e ifosfamida geralmente ocorre de forma aguda e com doses muito altas. 5-fluorouracil, cisplatina e alguns outros agentes alquilantes podem causar espasmo coronário recorrente que, ocasionalmente, leva à redução da contratilidade. A administração aguda de interferon-α pode causar hipotensão e arritmias. Nesse contexto, a insuficiência cardíaca clínica que ocorre durante a administração crônica repetida geralmente desaparece após a descontinuação. Muitos inibidores de tirosina quinase de moléculas pequenas que afetam o VEGF estão sendo usados para diferentes doenças malignas. Embora esses agentes sejam “direcionados” a receptores ou vias de tumor específicos, a conservação biológica das vias de sinalização pode fazer com que esses inibidores tenham efeitos “fora do alvo”, os quais incluem o sistema cardiovascular e, como um grupo, estão associados a um aumento de 2,7 vezes o risco de insuficiência cardíaca. É complicado o reconhecimento da cardiotoxicidade durante a terapia com esses agentes porque eles ocasionalmente provocam o acúmulo de fluido periférico (edema do tornozelo, edema periorbital, derrame pleural) devido a fatores locais, em vez de pressões venosas centrais elevadas. As abordagens terapêuticas incluem a retirada do inibidor da tirosina quinase (quando possível), a substituição por um congênere (quando disponível) e o tratamento convencional para a insuficiência cardíaca. Os inibidores de proteassoma usados para tratar mieloma múltiplo estão associados a um risco aumentado de insuficiência cardíaca. Nesse contexto, o agente mais potente, carfilzomibe, parece mais cardiotóxico que o bortezomibe. 34 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Os inibidores do ponto de verificação imunológico, como ipilimumabe e nivolumabe, estão associados a toxicidades inflamatórias autoimunes multissistêmicas (por exemplo, tireoidite, hipofisite, pancreatite e pneumonite), e raramente miocardite. No entanto, a terapia combinada com dois inibidores de checkpoint pode causar miocardite fulminante com disfunção sistólica associada, bloqueio AV e taquicardia ventricular semanas após a quimioterapia inicial. Essa apresentação foi acompanhada por miosite esquelética aguda e rápida progressão para óbito. Outras drogas terapêuticas que podem causar cardiotoxicidade durante o uso crônico incluem hidroxicloroquina, cloroquina, emetina e terapias antirretrovirais. Exposições tóxicas podem causar arritmias ou lesões respiratórias agudas durante acidentes. Ademais, as exposições crônicas implicadas na cardiotoxicidade incluem hidrocarbonetos, fluorocarbonos, arsênicos, chumbo e mercúrio. Causas metabólicas de miocardiopatia As doenças endócrinas afetam vários sistemas orgânicos, incluindo o coração. O hipertireoidismo e o hipotireoidismo não costumam causar insuficiência cardíaca clínica em um coração normal, mas comumente exacerbam a insuficiência cardíaca. Os sinais clínicos de doenças da tireoide podem ser mascarados, portanto os testes de função da tireoide fazem parte da avaliação de rotina da miocardiopatia. O hipertireoidismo deve sempre ser considerado com fibrilação atrial de início recente ou taquicardia ventricular ou fibrilação atrial, em que a resposta ventricular rápida é difícil de controlar. O motivo atual mais comum para anormalidades da tireoide na população cardíaca é o tratamento de taquiarritmias com amiodarona, um medicamento com conteúdo substancial de iodo. O hipotireoidismo deve ser tratado com aumento muito lento de suplementos de tireoide para evitar taquiarritmias exacerbadas e insuficiência cardíaca. Hipertireoidismo e insuficiência cardíaca criam uma combinação perigosa que merece supervisão muito próxima, geralmente hospitalização, durante a titulação de medicamentos antitireoidianos. Nessa fase, a descompensação da insuficiência cardíaca pode ocorrer de forma precipitada e fatal. Feocromocitoma é raro, mas deve ser considerado quando um paciente tem insuficiência cardíaca e pressão arterial e frequência cardíaca muito instáveis, às vezes com palpitações episódicas. Pacientes com feocromocitoma geralmente apresentam hipotensão postural. Além dos antagonistas dos receptores α-adrenérgicos, a terapia definitiva requer extirpação cirúrgica. Estados de renina muito alta, como aqueles causados por estenose da artéria renal, podem levar à depressão modesta na fração de ejeção com pouca ou 35 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I nenhuma dilatação ventricular e sintomas marcadamente lábeis com edema pulmonar instantâneo, relacionado a mudanças repentinas no tônus vascular e no volume intravascular. Ainda há controvérsias se diabetes e obesidade são suficientes para causar miocardiopatia. A maior parte da insuficiência cardíaca no diabetes resulta de doença coronariana epicárdica, com aumento adicional no risco da artéria coronária devido à hipertensão e disfunção renal que a acompanham. A miocardiopatia pode resultar em parte da resistência à insulina e ao aumento dos produtos de glicosilação avançada, que prejudicam as funções sistólica e diastólica. No entanto, grande parte da disfunção pode ser atribuída à isquemia focal dispersa resultante do estreitamento da artéria coronária distal e da perfusão microvascular limitada, mesmo sem estenoses focais proximais. O diabetes é um fator típico de insuficiência cardíaca com fração de ejeção “preservada”, juntamente com hipertensão, idade avançada e sexo feminino. Desse modo, a existência de miocardiopatia decorrente da obesidade é geralmente aceita. Além do envolvimento cardíaco por diabetes, hipertensão e inflamação vascular associada à síndrome metabólica, a obesidade por si só está associada à excreção prejudicada de carga de volume em excesso, que, com o tempo, pode levar ao aumento do estresse da parede e das respostas neuro-humorais adaptativas secundárias. A retenção de líquidos pode ser agravada pela grande ingestão de líquidos e pela rápida eliminação dos peptídeos natriuréticos pelo tecido adiposo. Na ausência de outra causa óbvia de miocardiopatia em um paciente obeso com disfunção sistólica sem dilatação ventricular acentuada, a redução de peso efetiva costuma estar associada a uma grande melhora na fração de ejeção e na função clínica. A melhora da função cardíaca foi descrita após a cirurgia bariátrica bem-sucedida, embora todas as principais terapias cirúrgicas apresentem risco aumentado para pacientes com insuficiência cardíaca. Má absorção pós-operatória e deficiências nutricionais, como deficiência de cálcio e fosfato, podem ser particularmente deletérias para pacientes com miocardiopatia. As deficiências nutricionais podem ocasionalmente causar MCD, mas não são comumente implicadas em países ocidentais desenvolvidos. A doença cardíaca de beribéri, devido à deficiência de tiamina, pode resultar de má nutrição em populações subnutridas e em pacientes que obtêm grande parte de suas calorias do álcool. Ademais, foi relatada em adolescentes que subsistem apenas de alimentos altamente processados. Essa doença é inicialmente um estado vasodilatador com insuficiência cardíaca de alto débito que pode, posteriormente, progredir para um estado de baixo débito; mas a reposição de tiamina pode levar à recuperação imediata da função cardiovascular. 36 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Anormalidades no metabolismo da carnitina podem causar miocardiopatias dilatadas ou restritivas, geralmente em crianças. Ainda, a deficiência de oligoelementos, como selênio, pode causar miocardiopatia (doença de Keshan). O cálcio é essencial para o acoplamento excitação-contração. Deficiências crônicas de cálcio, como podem ocorrer com hipoparatireoidismo (especialmente pós-cirúrgico) ou disfunção intestinal (de síndromes diarreicas e após extensaressecção), podem causar insuficiência cardíaca crônica grave, que responde em dias ou semanas à reposição vigorosa de cálcio. O fosfato é um componente de compostos de alta energia necessários para a transferência eficiente de energia e várias vias de sinalização. A hipofosfatemia pode se desenvolver durante a fome e realimentação precoce após um jejum prolongado e, ocasionalmente, durante a hiperalimentação. O magnésio é um cofator para as reações dependentes de tiamina e para a adenosina trifosfatase sódio-potássio (ATPase), mas a hipomagnesemia raramente se torna suficientemente profunda para causar miocardiopatia clínica. A hemocromatose é variavelmente classificada como uma doença metabólica ou de armazenamento. Está incluída entre as causas de miocardiopatia restritiva, mas a apresentação clínica costuma ser a de um MCD. A forma autossômica recessiva está relacionada ao gene HFE. Com até 10% da população heterozigótica para uma mutação, a prevalência clínica pode ser tão alta quanto 1 em 500. As taxas mais baixas observadas destacam a penetrância limitada da doença, sugerindo o papel de fatores genéticos e ambientais adicionais, como o alcoolismo, que afetam a expressão clínica. A hemocromatose também pode ser adquirida por sobrecarga de ferro devido à anemia hemolítica e transfusões. O excesso de ferro é depositado no compartimento perinuclear dos cardiomiócitos, resultando na interrupção da arquitetura intracelular e da função mitocondrial. O diagnóstico é facilmente feito por meio da medição do ferro sérico e da saturação da transferrina, com um limite de > 60% para homens e > 45-50% para mulheres. A ressonância magnética pode ajudar a quantificar os estoques de ferro no fígado e no coração, e o tecido da biópsia endomiocárdica pode ser corado para ferro, o que é particularmente importante se o paciente tiver outra causa para miocardiopatia. Se diagnosticada precocemente, a hemocromatose pode frequentemente ser tratada por repetidas flebotomias para remover o ferro. Para sobrecarga de ferro mais grave, a terapia quelante de ferro com desferroxamina ou deferasirox pode ajudar a melhorar a função cardíaca se a perda de miócitos e a fibrose de reposição não forem muito graves. Os distúrbios inatos do metabolismo ocasionalmente se apresentam com MCD, embora sejam mais frequentemente associados à miocardiopatia restritiva. 37 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I MCD familiar A base genética da miocardiopatia é discutida na seção “Etiologias genéticas da miocardiopatia” e a frequência reconhecida de envolvimento familiar em MCD aumentou para mais de 30%. Mutações em TTN, que codificam a proteína sarcomérica gigante titina, são a causa mais comum de MCD, sendo responsável por até 25% das doenças familiares. Em média, os homens com mutações TTN desenvolvem miocardiopatia uma década antes das mulheres, sem características clínicas distintas. Mutações em genes de filamentos grossos e finos são responsáveis por ~ 8% do MCD e podem se manifestar na primeira infância. As síndromes de miocardiopatia familiar mais reconhecíveis com manifestações extracardíacas são as distrofias musculares. As distrofias de Duchenne e de Becker, mais brandas, resultam de anormalidades no gene da distrofina ligada ao X da membrana sarcolemal. A miopatia esquelética está presente em várias outras miocardiopatias genéticas, algumas das quais estão associadas a elevações da creatina quinase. Pacientes e famílias com história de arritmias e/ou doenças do sistema de condução que precedem ou substituem a miocardiopatia podem ter anormalidades nas proteínas da lâmina da membrana nuclear. Embora todas as miocardiopatias dilatadas apresentem risco de morte súbita, uma história familiar de miocardiopatia com morte súbita levanta a suspeita de uma mutação particularmente arritmogênica; os membros da família afetados podem ser considerados para desfibriladores implantáveis mesmo antes de atingir o limite de fração de ejeção reduzida para prevenção primária de morte súbita. Uma história familiar proeminente de morte súbita ou taquicardia ventricular antes da miocardiopatia clínica sugere defeitos genéticos nas proteínas desmossomais. Originalmente, acreditava-se que esse distúrbio afetava o ventrículo direito (miocardiopatia arritmogênica do ventrículo direito), mas pode afetar um ou ambos os ventrículos. Os pacientes geralmente se apresentam primeiro com taquicardia ventricular e, além disso, defeitos genéticos em proteínas do complexo desmossomal rompem as junções e aderências dos miócitos, levando à substituição do miocárdio por depósitos de gordura. As paredes ventriculares finas podem ser reconhecidas na ecocardiografia, mas são mais bem visualizadas na RNM. Como os desmossomos também são importantes para a elasticidade do cabelo e da pele, algumas das proteínas desmossômicas defeituosas estão associadas a “cabelos lanosos” e pele espessada nas palmas das mãos e plantas dos pés. Desfibriladores implantáveis geralmente são indicados para prevenir morte súbita. Há progressão variável apenas para a direita ou para esquerda, sendo possível falência biventricular. 38 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS A não compactação do ventrículo esquerdo é uma condição de prevalência desconhecida que se revela cada vez mais com o aprimoramento das técnicas de imagem. Desse modo, os critérios diagnósticos incluem a presença de múltiplas trabeculações no ventrículo esquerdo distal aos músculos papilares, criando uma aparência “esponjosa” do ápice, mas são cada vez mais reconhecidas como achados inespecíficos em outras doenças cardíacas. A não compactação foi associada a múltiplas variantes genéticas no sarcômero e em outros genes, como TAZ (codificando tafazzin). O diagnóstico pode ser feito acidentalmente ou em pacientes previamente diagnosticados com miocardiopatia, nos quais os critérios de não compactação podem aparecer e ser resolvidos com a alteração do tamanho e da função do ventrículo esquerdo. As três características clínicas cardinais de arritmias ventriculares, eventos embólicos e insuficiência cardíaca são amplamente restritas a pacientes com disfunção sistólica concomitante. Geralmente, o tratamento inclui anticoagulação e consideração precoce de um desfibrilador implantável, além de antagonistas neuro-hormonais, conforme indicado pelo estágio da doença. Algumas famílias herdam uma suscetibilidade à miocardite induzida por vírus e essa propensão pode estar relacionada a anormalidades em receptores de superfície celular, como o receptor de adenovírus coxsackie, que se liga a proteínas virais. Alguns podem ter homologia parcial com proteínas virais, de modo que uma resposta autoimune é disparada contra o miocárdio. O prognóstico e a terapia da MCD familiar são ditados principalmente pelo estágio da doença clínica e pelo risco de morte súbita. Em alguns casos, a etiologia familiar facilita as decisões prognósticas, particularmente em relação à probabilidade de recuperação após um novo diagnóstico, o que é improvável para doença familiar. A taxa de progressão da doença é, até certo ponto, hereditária, embora uma variação marcante possa ser observada. No entanto, houve casos de remissão clínica notável após apresentação aguda, provavelmente após um insulto adicional reversível, como taquicardia prolongada ou miocardite infecciosa. Miocardiopatia de takotsubo A síndrome do balonamento apical, ou miocardiopatia induzida por estresse, ocorre tipicamente em mulheres mais velhas após estresse físico ou emocional intenso repentino. O ventrículo mostra dilatação ventricular global com contração basal, gerando a forma de jarro de gargalo estreito (takotsubo) usado no Japão para capturar polvos. Descrito originalmente no Japão, é cada vez mais reconhecido em outros lugares durante o cateterismo cardíaco de emergência e admissões à unidade de terapia intensiva 39 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I por doenças não cardíacas. Asapresentações incluem edema pulmonar, hipotensão e dor torácica com alterações no ECG que simulam um infarto agudo. A disfunção ventricular esquerda se estende além de uma distribuição específica da artéria coronária e geralmente se resolve em dias a semanas. Modelos animais e biópsias ventriculares sugerem que essa miocardiopatia aguda pode resultar de intensa ativação simpática com heterogeneidade de inervação autonômica miocárdica, espasmo microvascular difuso e/ou toxicidade direta por catecolaminas. Nesse contexto, a angiografia coronária pode ser necessária para descartar oclusão coronária aguda. Nenhuma terapia foi comprovada como benéfica, mas as estratégias razoáveis incluem nitratos para edema pulmonar, bomba de balão intra-aórtico, se necessário para baixo débito, bloqueadores alfa e beta combinados em vez de bloqueio beta seletivo se hemodinamicamente estável e magnésio para arritmias relacionadas ao prolongamento QT. A anticoagulação é geralmente suspensa devido à ocorrência ocasional de ruptura ventricular. Embora o prognóstico seja geralmente bom, as recorrências foram descritas em até 10% dos pacientes. MCD idiopática A MCD idiopática é um diagnóstico de exclusão quando todos os outros fatores conhecidos foram descartados. Aproximadamente dois terços das miocardiopatias dilatadas ainda são rotulados como idiopáticas; entretanto, uma proporção substancial destes pode refletir doenças genéticas não reconhecidas. A reconsideração contínua da etiologia durante o tratamento da insuficiência cardíaca crônica geralmente revela causas específicas posteriormente no curso do paciente. Sobreposição de tipos de miocardiopatia As limitações de nossa classificação fenotípica são reveladas pelas múltiplas sobreposições entre as etiologias e apresentações dos três tipos. A miocardiopatia com função sistólica reduzida, mas sem dilatação grave, pode representar MCD precoce, “miocardiopatia minimamente dilatada” ou doenças restritivas sem aumentos marcantes na espessura da parede ventricular. Por exemplo, sarcoidose e hemocromatose podem se apresentar como doença dilatada ou restritiva. Nesse contexto, os estágios iniciais da amiloidose são frequentemente confundidos com miocardiopatia hipertrófica. Ademais, a progressão da miocardiopatia hipertrófica para uma fase de “esgotamento” ocorre, ocasionalmente, com a diminuição da contratilidade e dilatação ventricular modesta. As sobreposições são particularmente comuns em distúrbios metabólicos hereditários, que podem se apresentar como qualquer um dos três principais fenótipos. 40 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Desordens das vias metabólicas Múltiplos distúrbios genéticos das vias metabólicas podem causar doença miocárdica, devido à infiltração de produtos anormais ou células que os contêm entre os miócitos; e doença de armazenamento, devido ao seu acúmulo dentro das células. A miocardiopatia hipertrófica pode ser mimetizada pelo miocárdio engrossado com esses produtos anormais e causar “pseudo-hipertrofia”, geralmente com um intervalo PR anormalmente curto. O fenótipo pseudo-hipertrófico é o mais comum, mas pode ocorrer restrição e MCD. A maioria dessas doenças é diagnosticada durante a infância. A doença de Fabry resulta de uma deficiência da enzima lisossomal alfa-galactosidase, causada por uma de mais de 160 mutações no GLA. Esse distúrbio do metabolismo dos glicoesfingolipídeos é um distúrbio ligado ao X que também pode causar doença clínica em portadoras do sexo feminino. O acúmulo de glicolipídeos pode ser limitado aos tecidos cardíacos, mas geralmente também envolve a pele, os nervos periféricos e os rins. A microscopia eletrônica do tecido de biópsia endomiocárdica mostra vesículas diagnósticas com figuras lamelares concêntricas e o seu diagnóstico pode ser feito por meio da avaliação da atividade enzimática e/ou sequenciamento do GLA. É crucial porque a reposição enzimática pode reduzir os depósitos anormais e melhorar a função cardíaca e clínica. A magnitude do impacto clínico não foi bem estabelecida para essa terapia, que requer infusões frequentes da enzima a um custo além de R$ 600.000,00 por ano. A reposição enzimática também pode melhorar o curso da doença de Gaucher, na qual células ricas em cerebrosídeo se acumulam em vários órgãos devido a uma deficiência de betaglicosidase. As células ricas em cerebrosídeo se infiltram no coração, o que também pode causar derrame pericárdico hemorrágico e doença valvar. Doenças de armazenamento de glicogênio levam ao acúmulo de produtos de armazenamento lisossomal e acúmulo de glicogênio intracelular, particularmente com doença de armazenamento de glicogênio tipo III, devido a uma enzima de desramificação defeituosa. Existem mais de 10 tipos de mucopolissacaridoses, nas quais deficiências autossômicas recessivas ou ligadas ao X de enzimas lisossomais levam ao acúmulo de glicosaminoglicanos no esqueleto, sistema nervoso e, ocasionalmente, coração. Com fácies característica, baixa estatura e comprometimento cognitivo frequente, a maioria dos indivíduos é diagnosticada na infância e morre antes da idade adulta. A carnitina é um cofator essencial no metabolismo dos ácidos graxos de cadeia longa. Descrevem-se múltiplos defeitos como as causas da deficiência de carnitina, o que gera inclusões lipídicas intracelulares e restritivas ou MCD, frequentemente presentes em 41 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I crianças. A oxidação de ácidos graxos requer muitas etapas metabólicas com enzimas específicas que podem ser deficientes, com interações complexas com carnitina. Dependendo do defeito, a miopatia cardíaca e esquelética pode ser melhorada com a reposição de intermediários de ácidos graxos e carnitina. Duas miocardiopatias metabólicas monogênicas causam aumento acentuado da espessura da parede ventricular sem um aumento das subunidades musculares ou um aumento na contratilidade. Mutações na subunidade regulatória gama-2 da proteína quinase ativada por monofosfato de adenosina (AMP), importante para o metabolismo da glicose (PRKAG2), foram associadas a uma alta prevalência de anormalidades de condução, como bloqueio AV e pré-excitação ventricular. Vários defeitos foram relatados em uma proteína de membrana associada ao lisossomo ligada ao X (LAMP2) e esse defeito pode ser transmitido pela mãe ou esporádico e ocasionalmente tem sido isolado no coração, embora muitas vezes leve à síndrome de miopatia esquelética, ao retardo mental e à disfunção hepática conhecida como doença de Danon. A hipertrofia ventricular esquerda extrema aparece cedo, geralmente na infância, e pode progredir rapidamente para insuficiência cardíaca em estágio terminal com baixa fração de ejeção. A microscopia eletrônica desses distúrbios metabólicos mostra que os miócitos estão aumentados por vários vacúolos intracelulares de subprodutos metabólicos. Miocardiopatia restritiva A miocardiopatia restritiva é dominada por função diastólica anormal, frequentemente com contratilidade e fração de ejeção levemente diminuídas (geralmente > 30-50%). Ambos os átrios estão aumentados, às vezes maciçamente. Dilatação modesta do ventrículo esquerdo pode estar presente, geralmente com dimensão diastólica final As pressões venosas jugulares frequentemente mostram descidas rápidas em Y e podem aumentar durante a inspiração (sinal de Kussmaul positivo). 42 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS As miocardiopatias mais restritivas são devidas à infiltração de substâncias anormais entre os miócitos, ao armazenamento de produtos metabólicos anormais dentro dos miócitos ou à lesão fibrótica. O diagnóstico diferencial deve incluir doença pericárdica constritiva, que também pode ser dominada por insuficiência cardíaca direita. Doença infiltrativa A amiloidose é a principal causa de miocardiopatia restritiva. Diversas proteínas podem se automontar para formar as folhas beta das proteínas amiloides, que se depositam com consequências diferentes dependendo do tipo de proteína. Além da infiltração cardíaca, o envolvimento neurológico ocorre comumente com amiloidose primária (cadeias leves de imunoglobulina) e com amiloidose familiar (anormalidades genéticas da transtirretina). Existem > 100 mutações identificadas na transtirretina no cromossomo 13, entre as quais a mutação V122I da transtirretina foi identificada em ~ 4% dos afro-americanos, nos quais está associada a um risco 50% aumentado de insuficiência cardíaca. No entanto, a penetrância da mutação V122I é incompleta, com a maioria dos portadores da mutação livres de insuficiência cardíaca aos 70 anos de idade. A disfunção orgânica na amiloidose já foi atribuída apenas à interrupção física das fibrilas amiloides infiltrantes, mas informações mais recentes sugerem toxicidade direta adicional da cadeia leve da imunoglobulina e os próprios agregados de proteína transtirretina anormais. Na amiloidose senil, há acúmulo anormal de transtirretina normal ou dobramento de peptídeo natriurético, detectado em 10% das pessoas com idade > 80 anos e metade das pessoas com idade > 90 anos, mas frequentemente sem doença clínica aparente. Os homens apresentam maior carga de deposição de amiloide e probabilidade vinte vezes maior de doença clínica com amiloidose senil. Nesse contexto, o envelhecimento da população logo tornará a amiloidose senil a mais comum das amiloidoses. A amiloidose cardíaca é classicamente suspeita de paredes ventriculares espessadas com um ECG que mostra baixa voltagem. No entanto, a baixa voltagem nem sempre está presente e é menos comum na amiloidose familiar ou senil do que na amiloidose primária. Um brilho refrátil característico no septo, na ecocardiografia, sugere o diagnóstico, mas não é sensível nem específico. Ambos os átrios estão dilatados, frequentemente de forma dramática, e a disfunção diastólica pode ser mais óbvia do que na hipertrofia ventricular esquerda por outras causas. A infiltração amiloide também pode ser detectada mediante realce com gadolínio na RM. A imagem de 43 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I pirofosfato de tecnécio é sensível e específica para amiloidose TTR em oposição à amiloidose AL. O diagnóstico de amiloidose primária ou familiar às vezes pode ser feito por meio de biópsias de uma almofada de gordura abdominal ou do reto, mas a amiloidose cardíaca é mais confiavelmente identificada mediante biópsia do coração, na qual fibrilas amiloides infiltram-se difusamente no miocárdio, particularmente ao redor do sistema de condução e vasos coronários. O diagnóstico do tipo de proteína amiloide requer imuno-histoquímica do tecido biopsiado, em vez de eletroforese de soro ou urina, o que pode levar a uma classificação incorreta. A terapia para todos os tipos de amiloide é predominantemente para os sintomas de retenção de líquidos, que geralmente requerem altas doses de diuréticos de alça. A digoxina ligada às fibrilas amiloides pode atingir níveis tóxicos e, portanto, deve ser usada apenas em doses muito baixas. Não há evidências sobre o uso de antagonistas neuro-hormonais na doença cardíaca amiloide, em que o possível benefício teórico deve ser balanceado com a possibilidade de agravar a hipotensão postural e diminuir a reserva crucial da frequência cardíaca. O risco de trombos intracardíacos pode justificar a anticoagulação crônica. O prognóstico é pior para a amiloidose primária, com uma sobrevida média de 6 a 12 meses após a apresentação, mas que melhorou substancialmente por causa do uso do inibidor de proteassoma bortezomibe. Se presente, o mieloma múltiplo é tratado com quimioterapia, cuja extensão é frequentemente limitada pelo potencial de agravamento da disfunção cardíaca. A amiloidose associada à imunoglobulina foi ocasionalmente tratada com transplante de coração sequencial e transplante retardado de medula óssea, com recorrência frequente de amiloidose no coração transplantado. A amiloidose cardíaca anormal associada à transtirretina tem um prognóstico um pouco melhor e pode ser tratada em pacientes selecionados com transplante de coração e fígado. Ademais, a amiloidose cardíaca senil tem a progressão mais lenta e o melhor prognóstico geral. Nesse sentido, novas terapias, incluindo interferência de RNA e pequenas moléculas, estão sendo estudadas na amiloidose TTR. Miocardiopatia fibrótica restritiva A fibrose progressiva pode causar doença miocárdica restritiva sem dilatação ventricular e a radiação torácica, comum para câncer de mama e pulmão ou linfoma mediastinal, pode produzir miocardiopatia restritiva precoce ou tardia. Pacientes com miocardiopatia por radiação podem apresentar um possível diagnóstico de pericardite constritiva, já que as duas condições costumam coexistir. A avaliação hemodinâmica cuidadosa e, 44 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS frequentemente, a biópsia endomiocárdica devem ser realizadas se a cirurgia de remoção do pericárdio for considerada, a qual, provavelmente, não terá sucesso na presença de miocardiopatia restritiva subjacente. A esclerodermia causa espasmo de pequenos vasos e isquemia, o que pode levar a um coração pequeno e rígido com fração de ejeção reduzida sem dilatação. A hipertensão pulmonar associada à esclerodermia pode causar mais insuficiência cardíaca direita clínica devido à doença fibrótica concomitante do ventrículo direito. Doença endomiocárdica O quadro fisiológico de pressões de enchimento elevadas com aumento atrial e contratilidade ventricular preservada com volumes ventriculares normais ou reduzidos pode ser decorrente de extensa fibrose do endocárdio, sem doença miocárdica transmural. Para pacientes que não viveram nas regiões equatoriais, esse quadro é raro e, quando visto, costuma estar associado a uma história de síndrome hipereosinofílica crônica (endocardite de Löffler), que é mais comum em homens do que em mulheres. Nessa doença, a hipereosinofilia persistente de > 1500 eos / μL durante, pelo menos, seis meses pode causar uma fase aguda de lesão eosinofílica no endocárdio (ver discussão anterior sobre miocardite eosinofílica), com doença sistêmica e lesão de outros órgãos. Geralmente, não há uma causa óbvia, mas a hipereosinofilia pode ocasionalmente ser explicada por doença alérgica, parasitária ou maligna. Postula-se que seja seguido por um período em que a inflamação cardíaca é substituída por evidências de fibrose com trombose sobreposta. Na doença grave, a densa camada fibrótica pode obliterar os ápices ventriculares e se estender para engrossar e prender os folhetos da válvula AV. A doença clínica pode se manifestar com insuficiência cardíaca, eventos embólicos e arritmias atriais. Embora plausível, a sequência de transição da miocardite eosinofílica ou endocardite de Löffler para a fibrose endomiocárdica não foi claramente demonstrada. Em países tropicais, até um quarto da insuficiência cardíaca pode ser devido à fibrose endomiocárdica, afetando um ou ambos os ventrículos. Essa condição compartilha com a condição anterior a obliteração parcial do ápice ventricular, com fibrose, estendendo-se para o trato de entrada valvar e folhetos; no entanto, não está claro se as etiologias são as mesmas para todos os casos. Derrames pericárdicosfrequentemente acompanham a fibrose endomiocárdica, mas não são comuns na endocardite de Löffler. Para endomiocardiofibrose, não há diferença de gênero, mas uma maior prevalência em populações afro-americanas. Embora a endomiocardiofibrose tropical possa representar o estágio final de doença hipereosinofílica prévia desencadeada por parasitas endêmicos, 45 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I nem infecção parasitária prévia nem hipereosinofilia são geralmente documentadas. Também tem sido propostas como etiologia as deficiências nutricionais geográficas. O tratamento médico concentra-se em glicocorticoides e quimioterapia para suprimir a hipereosinofilia quando presente. A retenção de líquidos pode se tornar cada vez mais resistente à terapia diurética e a anticoagulação é recomendada. A fibrilação atrial está associada a piores sintomas e prognóstico, sendo difícil suprimi-la. A ressecção cirúrgica dos ápices e a substituição das válvulas fibróticas podem melhorar os sintomas, mas as taxas de morbimortalidade cirúrgica e de recorrência posterior são altas. A serotonina secretada por tumores carcinoides pode produzir placas fibrosas no endocárdio e nas válvulas cardíacas do lado direito, ocasionalmente afetando também as válvulas do lado esquerdo. Lesões valvares podem ser estenóticas ou regurgitantes e os sintomas sistêmicos incluem rubor e diarreia. A doença hepática por metástases hepáticas pode desempenhar um papel, limitar a função hepática e, assim, permitir que mais serotonina alcance a circulação venosa. Miocardiopatia hipertrófica A miocardiopatia hipertrófica é definida como hipertrofia ventricular esquerda que se desenvolve na ausência de fatores hemodinâmicos causais, como hipertensão, doença da válvula aórtica ou doenças infiltrativas ou de armazenamento. Foi anteriormente denominada miocardiopatia hipertrófica obstrutiva, hipertrofia septal assimétrica e estenose subaórtica hipertrófica idiopática. No entanto, a terminologia aceita agora é miocardiopatia hipertrófica com ou sem obstrução. A prevalência na América do Norte, África e Ásia é de cerca de 1: 500, sendo a principal causa de morte súbita em jovens e importante causa de insuficiência cardíaca. Embora a apresentação pediátrica esteja associada ao aumento da morbimortalidade precoce, o prognóstico para pacientes diagnosticados como adultos é geralmente favorável. O agrupamento de miocardiopatia hipertrófica dentro das famílias tem sido apreciado desde o reconhecimento da doença, há cerca de 55 anos. A triagem ecocardiográfica de famílias revelou um padrão de herança autossômico dominante e estudos genéticos iniciais por meio da análise de ligação em famílias grandes identificaram mutações causadoras de doenças em genes sarcômeros. Uma mutação do sarcômero está presente em ~ 60% dos pacientes com miocardiopatia hipertrófica e é mais comum naqueles com doença familiar e hipertrofia septal assimétrica característica. Mais de nove genes de sarcômero diferentes com > 1400 mutações foram implicados, embora ~ 80% dos pacientes tenham uma mutação em MYH7 ou MYBPC3. 46 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS A miocardiopatia hipertrófica é caracterizada por penetrância dependente da idade e incompleta. O fenótipo definidor de hipertrofia ventricular esquerda raramente está presente no nascimento e geralmente se desenvolve mais tarde na vida. Consequentemente, a triagem de membros da família deve começar na adolescência e se estender até a idade adulta. Em portadores da mutação MYBPC3, a idade média de desenvolvimento da doença é de 40 anos, enquanto 30% permanecem livres de hipertrofia após 70 anos. Indivíduos aparentados com a mesma mutação podem ter extensão e padrão diferente de hipertrofia (por exemplo, assimétrica versus concêntrica), ocorrência de obstrução do trato de saída e desfechos clínicos associados (por exemplo, morte súbita e fibrilação atrial). No nível do sarcômero, as mutações da miocardiopatia hipertrófica levam ao aumento da sensibilidade ao cálcio, à geração de força máxima e à atividade ATPase. O manuseio do cálcio é afetado pela modificação das proteínas regulatórias e as mutações do sarcômero levam à energia anormal e ao relaxamento prejudicado, tanto diretamente quanto como resultado da hipertrofia. A miocardiopatia hipertrófica é caracterizada por desalinhamento e desordem das miofibrilas e miócitos aumentados, o que também pode ocorrer em menor extensão em outras doenças cardíacas. Embora a hipertrofia seja a característica definidora da miocardiopatia hipertrófica, fibrose e doença microvascular também estão presentes. A fibrose intersticial é detectável antes do desenvolvimento de hipertrofia evidente e provavelmente resulta da ativação precoce das vias pró-fibróticas. Na maioria dos pacientes com miocardiopatia evidente, áreas focais de fibrose de substituição podem ser prontamente detectadas com ressonância magnética, de modo que essas áreas de “cicatriz” podem representar substrato para o desenvolvimento de arritmias ventriculares. O aumento da espessura e a diminuição da área luminal dos vasos intramurais em miocárdio hipertrofiado contribuem para a isquemia microvascular e angina. Microinfarto do miocárdio hipertrofiado é um mecanismo hipotético para a formação de cicatriz de substituição. Macroscopicamente, a hipertrofia geralmente se manifesta como espessamento ventricular não uniforme e o septo interventricular é o local típico de hipertrofia máxima, embora outros padrões de remodelação hipertrófica incluam concêntrico e médio ventricular. A hipertrofia confinada ao ápice ventricular (miocardiopatia hipertrófica apical) é menos frequentemente familiar e tem um substrato genético diferente, com mutações no sarcômero presentes em apenas ~ 15%. A obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo representa o foco mais comum de diagnóstico e intervenção, embora disfunção diastólica, fibrose miocárdica e isquemia microvascular também contribuam para disfunção contrátil e elevação das pressões intracardíacas. 47 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I A obstrução está presente em aproximadamente 30% dos pacientes em repouso e pode ser provocada pelo exercício em aproximadamente 30%. A obstrução sistólica é iniciada por forças de arrasto, que empurram um folheto mitral anterior deslocado e alargado em contato com o septo ventricular hipertrofiado. Pode ocorrer coaptação do folheto mitral, que provoca a regurgitação mitral direcionada posteriormente. A fim de manter o volume sistólico ao longo da obstrução do trato de saída, o ventrículo gera pressões mais altas, maior estresse da parede e maior demanda de oxigênio do miocárdio. O menor tamanho da câmara e o aumento da contratilidade exacerbam a gravidade da obstrução e condições de baixa pré-carga, como desidratação, e baixa pós-carga, como vasodilatação arterial, podem causar hipotensão transitória e quase síncope. O sopro de ejeção sistólica da obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo é forte e com pico tardio, de modo que pode ser intensificado por manobras à beira do leito, as quais diminuem o volume ventricular e pioram temporariamente a obstrução, como levantar de uma posição agachada ou a manobra de Valsalva. Diagnóstico A variabilidade substancial da patologia da miocardiopatia hipertrófica se reflete na diversidade de apresentações clínicas. Os pacientes podem ser diagnosticados após serem submetidos a avaliações desencadeadas por achados físicos anormais (sopro) ou sintomas de dispneia aos esforços, angina ou síncope. Alternativamente, o diagnóstico pode seguir as avaliações solicitadas pela detecção da doença em membros da família. A imagem cardíaca é fundamental para o diagnóstico devido à insensibilidade do exame e do ECG e por causa da necessidade de excluir outras causas de hipertrofia. A identificação de uma mutação causadora de doença em um probando pode enfocar as avaliações da família nos portadores da mutação, mas essaestratégia requer muita certeza de que a mutação é verdadeiramente patogênica e não uma variante benigna do DNA. A biópsia não é necessária para diagnosticar miocardiopatia hipertrófica, mas pode ser usada para excluir doenças infiltrativas e metabólicas. O treinamento atlético rigoroso (coração do atleta) pode causar graus intermediários de hipertrofia fisiológica, difíceis de diferenciar da miocardiopatia hipertrófica leve. Ao contrário da miocardiopatia hipertrófica, a hipertrofia no coração do atleta regride com a interrupção do treinamento e é acompanhada por capacidade de exercício supernormal (VO2máx> 50 mL / kg por min), dilatação ventricular leve e função diastólica normal. Segue abaixo um resumo sobre insuficiência cardíaca: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wnwEtAo6R7Q. Acesso em: 14 jan. 2021. 48 CAPÍTULO 2 Síndrome coronariana aguda Doença arterial coronariana A doença arterial coronariana (DAC) é uma condição na qual há um suprimento inadequado de sangue e oxigênio para uma parte do miocárdio; normalmente ocorre quando há um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio do miocárdio. A causa mais comum de isquemia miocárdica é a doença aterosclerótica de uma artéria coronária epicárdica (ou artérias) suficiente para causar uma redução regional no fluxo sanguíneo miocárdico e perfusão inadequada do miocárdio fornecido pela artéria coronária envolvida. Epidemiologia e tendências globais DAC causa mais mortes e incapacidades e incorre em maiores custos econômicos do que qualquer outra doença no mundo desenvolvido. DAC é a doença mais comum, séria, crônica e com risco de vida nos EUA, onde 15,5 milhões de pessoas têm DAC e 3,4 milhões de pessoas com idade ≥40 anos têm angina de peito. Embora haja variação regional, cerca de 4% da população sofreu infarto do miocárdio. Fatores genéticos, dieta rica em gordura e energia, tabagismo e estilo de vida sedentário estão associados ao surgimento de DAC. Nesse contexto, nos EUA e na Europa Ocidental, a DAC está crescendo entre os grupos de baixa renda, mas a prevenção primária atrasou a doença para uma fase posterior da vida em todos os grupos socioeconômicos. Apesar dessas estatísticas preocupantes, é importante notar que os dados epidemiológicos mostram um declínio na taxa de mortes devido a DAC, cerca de metade das quais é atribuível a tratamentos e a outra metade, à prevenção por modificação de fator de risco. Obesidade, resistência à insulina e diabetes mellitus tipo 2 estão aumentando e são fatores de risco poderosos para DAC. Essas tendências estão ocorrendo no contexto geral de crescimento populacional e como resultado do aumento da idade média da população mundial. Com a urbanização em países com economias emergentes e uma classe média em crescimento, elementos da dieta ocidental rica em energia estão sendo adotados e, como resultado, a prevalência de fatores de risco para DAC e a própria prevalência de DAC estão aumentando rapidamente, de modo que, nas análises da carga global de doenças, há uma mudança de doenças transmissíveis para não transmissíveis. Os subgrupos populacionais que parecem ser particularmente afetados são os homens dos países do sul da Ásia, especialmente a Índia e o Oriente Médio. 49 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I Fisiopatologia O conceito de oferta e demanda miocárdica é fundamental para a compreensão da fisiopatologia da isquemia miocárdica e, em condições normais, para qualquer nível de demanda de oxigênio, o miocárdio controlará o suprimento de sangue rico em oxigênio para prevenir a subperfusão dos miócitos e o subsequente desenvolvimento de isquemia e infarto. Os principais determinantes da demanda miocárdica de oxigênio (MVO2) são frequência cardíaca, contratilidade miocárdica e tensão da parede miocárdica (estresse). Um suprimento adequado de oxigênio para o miocárdio requer um nível satisfatório de capacidade de transporte de oxigênio do sangue (determinado pelo nível inspirado de oxigênio, função pulmonar e concentração e função de hemoglobina) e um nível adequado de fluxo sanguíneo coronário. O sangue flui pelas artérias coronárias de maneira fásica e a maioria ocorre durante a diástole. Cerca de 75% da resistência coronária total ao fluxo ocorre em três conjuntos de artérias, quais sejam grandes artérias epicárdicas (Resistência 1 = R1); vasos pré-arteriolares (R2); e vasos capilares arteriolares e intramiocárdicos (R3). Na ausência de obstruções ateroscleróticas limitantes de fluxo significativas, R1 é trivial; o principal determinante da resistência coronária é encontrado em R2 e R3. A circulação coronária normal é dominada e controlada pelas necessidades de oxigênio do coração e essa necessidade é atendida pela capacidade do leito vascular coronário para variar sua resistência (e, portanto, o fluxo sanguíneo) consideravelmente, enquanto o miocárdio extrai uma porcentagem elevada e relativamente fixa de oxigênio. Normalmente, os vasos de resistência intramiocárdica demonstram grande capacidade de dilatação (diminuição de R2 e R3). Por exemplo, as mudanças nas necessidades de oxigênio do coração com o exercício e o estresse emocional afetam a resistência vascular coronariana e, dessa forma, regulam o suprimento de oxigênio e substrato para o miocárdio (regulação metabólica). Os vasos de resistência coronariana também se adaptam às alterações fisiológicas da pressão arterial para manter o fluxo sanguíneo coronário em níveis adequados às necessidades miocárdicas (autorregulação). Ao reduzir o lúmen das artérias coronárias, a aterosclerose limita aumentos apropriados na perfusão quando a demanda por fluxo é aumentada, como ocorre durante o esforço ou a excitação. Quando a redução luminal é severa, a perfusão miocárdica no estado basal é reduzida. O fluxo sanguíneo coronário também pode ser limitado por espasmo, trombos arteriais e, raramente, êmbolos coronários, bem como por estreitamento ostial devido à aortite. Anormalidades congênitas, como a origem da artéria coronária descendente anterior esquerda da artéria pulmonar, podem causar isquemia miocárdica e infarto na infância, mas essa causa é muito rara em adultos. 50 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS A isquemia miocárdica também pode ocorrer se as demandas miocárdicas de oxigênio forem acentuadamente aumentadas e, particularmente, quando o fluxo sanguíneo coronário pode ser limitado, como ocorre na hipertrofia ventricular esquerda (HVE) grave por causa de estenose aórtica. Este último pode se apresentar com angina indistinguível daquela causada pela aterosclerose coronariana, em grande parte devido à isquemia subendocárdica. Uma redução na capacidade de transporte de oxigênio do sangue, como na anemia extremamente grave ou na presença de carboxihemoglobina, raramente causa isquemia miocárdica por si só, mas pode diminuir o limiar de isquemia em pacientes com obstrução coronária moderada. Não raro, duas ou mais causas de isquemia coexistem em um paciente, como aumento da demanda de oxigênio por HVE secundária à hipertensão e redução do suprimento de oxigênio secundária à aterosclerose coronariana e anemia. Constrição anormal ou falha na dilatação normal dos vasos de resistência coronária também podem causar isquemia. Quando causa angina, essa condição é chamada de angina microvascular. Aterosclerose coronária As artérias coronárias epicárdicas são os principais locais de doença aterosclerótica. Nesse sentido, os principais fatores de risco para aterosclerose (altos níveis de lipoproteína de baixa densidade plasmática [LDL], lipoproteína de baixa densidade plasmática [HDL]), tabagismo, hipertensão e diabetes mellitus variam em seu impacto relativo ao perturbar as funções normais do sistema vascular endotélio. Essas funções incluem controle local do tônus vascular, manutenção de uma superfície antitrombótica e controle da adesão de células inflamatórias e diapedese. A perda dessas defesas leva a constriçãoinadequada, formação de trombo luminal e interações anormais entre células sanguíneas, especialmente monócitos e plaquetas e o endotélio vascular ativado. As alterações funcionais no meio vascular resultam em coleções subintimais de gordura, células musculares lisas, fibroblastos e matriz intercelular, que definem a placa aterosclerótica. Em vez de ver a aterosclerose estritamente como um problema vascular, é útil considerá-lo no contexto de alterações na natureza do sangue circulante (hiperglicemia, concentrações aumentadas de colesterol LDL, fator de tecido, fibrinogênio, fator de von Willebrand, fator de coagulação VII e micropartículas de plaquetas). A combinação de um “vaso vulnerável” em um paciente com “sangue vulnerável” promove um estado de hipercoagulabilidade e hipofibrinólise, o que é especialmente verdadeiro em pacientes com diabetes mellitus. 51 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I A aterosclerose se desenvolve em taxas irregulares em diferentes segmentos da árvore coronária epicárdica e leva, eventualmente, a reduções segmentares na área da seção transversal, ou seja, formação de placa. Há também uma predileção pelo desenvolvimento de placas ateroscleróticas em locais de aumento da turbulência no fluxo coronariano, como em pontos de ramificação nas artérias epicárdicas. Quando uma estenose reduz o diâmetro de uma artéria epicárdica em 50%, há uma limitação da capacidade de aumentar o fluxo para atender ao aumento da demanda miocárdica. Contudo, quando o diâmetro é reduzido em ~ 80%, o fluxo sanguíneo em repouso pode ser reduzido e diminuições menores adicionais na área do orifício estenótico podem reduzir o fluxo coronário dramaticamente para causar isquemia miocárdica em repouso ou com estresse mínimo. O estreitamento aterosclerótico segmentar das artérias coronárias epicárdicas é causado mais comumente pela formação de uma placa, que está sujeita à ruptura ou erosão da capa que separa a placa da corrente sanguínea. Após a exposição do conteúdo da placa ao sangue, dois processos importantes e inter-relacionados são colocados em movimento, quais sejam, as plaquetas são ativadas e agregadas, e a cascata de coagulação é ativada, levando à deposição de filamentos de fibrina. Um trombo composto por agregados de plaquetas e filamentos de fibrina aprisiona os glóbulos vermelhos e pode reduzir o fluxo sanguíneo coronário, o que provoca manifestações clínicas de isquemia miocárdica. A localização da obstrução influencia a quantidade de miocárdio tornado isquêmico e determina a gravidade das manifestações clínicas. Assim, obstruções críticas em vasos, como o tronco da coronária esquerda e a artéria coronária descendente anterior esquerda proximal, são particularmente perigosas. Estreitamento coronário grave crônico e isquemia miocárdica frequentemente são acompanhados pelo desenvolvimento de vasos colaterais, especialmente quando o estreitamento se desenvolve gradualmente. Quando bem desenvolvidos, esses vasos podem, por si próprios, fornecer fluxo sanguíneo suficiente para sustentar a viabilidade do miocárdio em repouso, mas não durante condições de demanda aumentada. Com o agravamento progressivo de uma estenose em uma artéria epicárdica proximal, os vasos de resistência distal (quando funcionam normalmente) se dilatam para reduzir a resistência vascular e manter o fluxo sanguíneo coronário. Desse modo, um gradiente de pressão se desenvolve ao longo da estenose proximal e a pressão pós-estenótica cai. Então, quando os vasos de resistência estão dilatados ao máximo, o fluxo sanguíneo miocárdico torna-se dependente da pressão na artéria coronária distal à obstrução. Nessas circunstâncias, a isquemia, manifestada clinicamente por 52 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS angina ou eletrocardiograficamente por desvio do segmento ST, pode ser precipitada por aumentos na demanda miocárdica de oxigênio causada por atividade física, estresse emocional e/ou taquicardia. Mudanças no calibre da artéria coronária estenosada resultantes da vasomoção fisiológica, perda do controle endotelial da dilatação (como ocorre na aterosclerose), espasmo patológico (angina de Prinzmetal) ou pequenos plugues ricos em plaquetas também podem perturbar o equilíbrio crítico entre o suprimento de oxigênio e demanda e, assim, precipitar a isquemia miocárdica. Efeitos da isquemia Durante episódios de perfusão inadequada causados por aterosclerose coronariana, a tensão de oxigênio do tecido miocárdico cai e pode causar distúrbios transitórios das funções mecânicas, bioquímicas e elétricas do miocárdio. A aterosclerose coronariana é um processo focal que geralmente causa isquemia não uniforme. Desse modo, durante a isquemia, os distúrbios regionais da contratilidade ventricular causam hipocinesia segmentar, acinesia ou, em casos graves, abaulamento (discinesia), que pode reduzir a função de bomba miocárdica. O desenvolvimento abrupto de isquemia grave, como ocorre com a oclusão coronariana total ou subtotal, está associado à falha quase instantânea do relaxamento muscular normal e, em seguida, da contração. A perfusão relativamente pobre do subendocárdio causa isquemia mais intensa dessa porção da parede (em comparação com a região subepicárdica). Então, a isquemia de grandes porções do ventrículo causa insuficiência ventricular esquerda (VE) transitória e, se o aparelho do músculo papilar estiver envolvido, pode ocorrer regurgitação mitral. Quando a isquemia é transitória, pode estar associada à angina pectoris; quando prolongada, pode levar à necrose miocárdica e formação de cicatriz com ou sem quadro clínico de infarto agudo do miocárdio. Uma ampla gama de anormalidades no metabolismo, na função e na estrutura celular está subjacente a esses distúrbios mecânicos durante a isquemia. O miocárdio normal metaboliza ácidos graxos e glicose em dióxido de carbono e água. Com a privação severa de oxigênio, os ácidos graxos não podem ser oxidados e a glicose é convertida em lactato; o pH intracelular é reduzido, assim como os estoques miocárdicos de fosfatos de alta energia, ou seja, ATP e fosfato de creatina. A função prejudicada da membrana celular leva ao vazamento de potássio e à captação de sódio pelos miócitos, bem como ao aumento do cálcio citosólico. A gravidade e a duração do desequilíbrio entre o suprimento e a demanda de oxigênio do miocárdio determinam se o dano é 53 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I reversível (≤ 20 min para oclusão total na ausência de colaterais) ou permanente, com subsequente necrose miocárdica (> 20 min). A isquemia também causa alterações características no eletrocardiograma (ECG), como anormalidades de repolarização, evidenciadas pela inversão das ondas T e, quando mais graves, pelo deslocamento dos segmentos ST. A inversão transitória da onda T provavelmente reflete isquemia intramiocárdica não transmural; a depressão transitória do segmento ST frequentemente reflete isquemia subendocárdica irregular; e acredita-se que a elevação do segmento ST seja causada por isquemia transmural mais grave. Outra consequência importante da isquemia miocárdica é a instabilidade elétrica, que pode levar a batimentos ventriculares prematuros isolados ou mesmo à taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular. A maioria das mortes repentinas de pacientes com DAC é resultado de taquiarritmias ventriculares induzidas por isquemia. DAC assintomática versus sintomática Embora a prevalência esteja diminuindo, estudos pós-morte de vítimas de acidentes e militares em países ocidentais mostram que a aterosclerose coronariana pode começar antes dos 20 anos e está presente mesmo entre adultos que foram assintomáticos durante a vida. Testes de esforço físico em pessoas assintomáticas podem mostrar evidências de isquemia miocárdica silenciosa, ou seja, alterações de ECG induzidas por exercício não acompanhadas de angina de peito; estudos angiográficos coronários de tais pessoas podem revelar placasnas artérias coronárias e obstruções previamente não reconhecidas. Calcificações da artéria coronária (CAC) podem ser vistas em imagens de TC do coração, ser quantificadas em um escore CAC e ser usadas como informações auxiliares para apoiar um diagnóstico de DAC. No entanto, não devem ser usados como a modalidade de triagem primária ou como base isolada para formular decisões terapêuticas. O exame pós-morte de pacientes com tais obstruções sem história de manifestações clínicas de isquemia miocárdica frequentemente mostra cicatrizes macroscópicas secundárias a infarto do miocárdio em regiões supridas por artérias coronárias doentes, com ou sem circulação colateral. De acordo com estudos populacionais, 25% dos pacientes que sobrevivem ao infarto agudo do miocárdio podem não vir ao atendimento médico, e esses pacientes têm o mesmo prognóstico adverso que aqueles que apresentam o quadro clínico clássico de infarto agudo do miocárdio. A morte súbita pode não ser anunciada e é uma manifestação de apresentação comum de DAC. Pacientes com DAC também podem apresentar cardiomegalia e insuficiência cardíaca secundária a dano isquêmico do miocárdio do VE, que pode não ter causado sintomas 54 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS antes do desenvolvimento de insuficiência cardíaca; essa condição é conhecida como miocardiopatia isquêmica. Em contraste com a fase assintomática da DAC, a fase sintomática é caracterizada por desconforto no peito devido à angina de peito ou ao infarto agudo do miocárdio. Tendo entrado na fase sintomática, o paciente pode apresentar um curso estável ou progressivo, voltar ao estágio assintomático ou morrer repentinamente. Angina pectoris estável Essa síndrome clínica episódica ocorre em razão de isquemia miocárdica transitória. Homens constituem 70% de todos os pacientes com angina de peito e uma proporção ainda maior daqueles com idade 50 anos ou uma mulher > 60 anos de idade que se queixam de episódios de desconforto no peito, geralmente descritos como peso, pressão, aperto, sufocamento ou asfixia e apenas raramente como dor franca. Quando o paciente é solicitado a localizar a sensação, normalmente coloca a mão sobre o esterno, às vezes com o punho cerrado, para indicar um desconforto subesternal central e apertado (sinal de Levine). A angina é, geralmente, de natureza crescendo- decrescendo, com duração de 2 a 5 minutos e pode irradiar-se para os ombros e os braços (especialmente as superfícies ulnares do antebraço e da mão). Também pode surgir ou irradiar-se para as costas, a região interescapular, a raiz do pescoço, a mandíbula, os dentes e o epigástrio. Destaca-se que a angina raramente está localizada abaixo do umbigo ou acima da mandíbula. Um achado útil na avaliação de um paciente com desconforto torácico é o fato de que o desconforto isquêmico do miocárdio não se irradia para os músculos trapézios; esse padrão de radiação é mais típico de pericardite. Embora os episódios de angina sejam normalmente causados por esforço (por exemplo, exercício, pressa ou atividade sexual) ou emoção (por exemplo, estresse, raiva, medo ou frustração) e sejam aliviados pelo repouso, também podem ocorrer em repouso e enquanto o paciente está deitado (decúbito da angina). Nesse contexto, o paciente pode ser acordado à noite por desconforto torácico típico e dispneia. A angina noturna pode ser decorrente de taquicardia episódica, diminuição da oxigenação conforme o padrão respiratório muda durante o sono ou expansão do volume sanguíneo intratorácico que ocorre com o decúbito; o último causa aumento no tamanho cardíaco (volume 55 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I diastólico final), tensão na parede e demanda miocárdica de oxigênio, que pode levar à isquemia e insuficiência transitória do VE. O limiar para o desenvolvimento de angina de peito pode variar de acordo com a hora do dia e o estado emocional. Muitos pacientes relatam um limiar fixo para angina, que ocorre previsivelmente em um determinado nível de atividade, como subir dois lances de escada em um ritmo normal. Nesses pacientes, a estenose coronariana e o suprimento de oxigênio ao miocárdio são fixos, de modo que a isquemia é precipitada por um aumento na demanda de oxigênio do miocárdio; eles têm angina de esforço estável. Em outros pacientes, o limiar para angina pode variar consideravelmente em qualquer dia particular e de um dia para o outro. Nesses pacientes, variações no suprimento de oxigênio ao miocárdio, provavelmente devido a alterações no tônus vasomotor coronariano, podem desempenhar um papel importante na definição do padrão de angina. Um paciente pode relatar sintomas após pequenos esforços pela manhã (uma curta caminhada ou fazer a barba), mas, ao meio-dia, pode ser capaz de realizar um esforço muito maior sem sintomas. A angina também pode ser precipitada por tarefas não familiares, refeição pesada, exposição ao frio ou a combinação desses fatores. A angina de esforço geralmente é aliviada em 1-5 min com a redução ou interrupção das atividades e, ainda mais rapidamente, com repouso e nitroglicerina sublingual. Na verdade, o diagnóstico de angina deve ser suspeito se não responder à combinação dessas medidas. A gravidade da angina pode ser resumida de forma conveniente pela classificação funcional da Canadian Cardiac Society e seu impacto na capacidade funcional do paciente pode ser descrito por meio da classificação funcional da New York Heart Association. Dor torácica aguda e passageira ou dor prolongada e incômoda localizada na área submamária esquerda raramente é causada por isquemia miocárdica. No entanto, especialmente em mulheres e pacientes diabéticos, a angina de peito pode ter localização atípica e não estar estritamente relacionada a fatores desencadeantes. Além disso, esse sintoma pode exacerbar e desaparecer ao longo de dias, semanas ou meses. Sua ocorrência pode ser sazonal, com maior frequência no inverno e em climas temperados. “Equivalentes” anginosos são sintomas de isquemia miocárdica, exceto angina, e incluem dispneia, náuseas, fadiga e desmaios, sendo mais comuns em idosos e em pacientes diabéticos. O questionamento sistemático de um paciente com suspeita de DAC é importante para descobrir as características de uma síndrome instável associada a risco aumentado, 56 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS como angina que ocorre com menos esforço do que no passado, em repouso ou quando o paciente desperta do sono. Visto que a aterosclerose coronária frequentemente é acompanhada por lesões semelhantes em outras artérias, um paciente com angina deve ser questionado e examinado para doença arterial periférica (claudicação intermitente), acidente vascular cerebral ou ataques isquêmicos transitórios. Também é importante descobrir uma história familiar de DAC prematura (intracoronária, acetilcolina e nitroglicerina) e nocicepção cardíaca anormal. O tratamento da doença coronariana microvascular deve se concentrar nos esforços para melhorar a função endotelial, incluindo nitratos, betabloqueadores, antagonistas do cálcio, estatinas e inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA). A nocicepção cardíaca anormal é mais difícil de controlar e pode ser melhorada em alguns casos por meio de imipramina. Exame de laboratório Embora o diagnóstico de DAC possa ser feito com alto grau de confiança por meio da história e do exame físico, vários testes laboratoriais simples podem ser úteis. A urina deve ser examinada em busca de evidências de diabetes mellitus e doença renal (incluindo microalbuminúria), uma vez que essas condições aceleram a aterosclerose. Da mesma forma, o exame de sangue deve incluir medições de lipídios (colesterol – total, LDL, HDL – e triglicerídeos), glicose (hemoglobina A1C), creatinina, hematócrito e, se indicado com base no exame físico, função da tireoide. Uma radiografia de tórax é importante, pois pode mostrar as consequências da DAC, ou seja, aumento cardíaco, aneurisma ventricular ou sinais de insuficiência cardíaca. Esses sinais podem apoiar o diagnóstico de DAC e são importantes na avaliação do grau de dano cardíaco. Existem 57 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I evidências de que um nível elevado de proteína C reativa de alta sensibilidade (PCR) (especificamente, entre 0 e 3 mg / dL) é um fator de risco independente para DAC e pode ser útil para a tomada de decisão terapêutica sobre o início do tratamento hipolipemiante. O principal benefício da PCR de alta sensibilidade é reclassificar o risco de DAC em pacientes na categoria de risco “intermediário” com base nos fatores de risco tradicionais. Síndrome coronariana aguda sem elevação do segmento ST (infarto do miocárdio sem elevação do segmento ST e angina instável) Pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) comumente são classificados em dois grupos para facilitar a avaliação e o manejo, ou seja, pacientes com infarto agudo do miocárdio, com elevação do segmento ST (IAMSST) em seu eletrocardiograma (ECG) de apresentação; e aqueles com síndrome coronariana aguda sem elevação de ST (SCASEST). Estes últimos incluem pacientes com infarto do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST (IAMSSST), que, por definição, têm evidências de necrose do miócito e aqueles com angina instável (AI), que não têm. A incidência relativa de IAMSSST está aumentando devido ao aumento da carga de diabetes e doença renal crônica em uma população envelhecida, enquanto IAMSST está diminuindo devido ao maior uso de aspirina, estatinas e menos tabagismo. Entre os pacientes com SCASEST, a proporção com IAMSSST está aumentando enquanto a de AI está diminuindo por causa do uso mais amplo de ensaios da troponina com maior sensibilidade para detectar necrose miocitária, reclassificando AI como IAMSSST. Fisiopatologia SCASEST é causado por um desequilíbrio entre o suprimento e a demanda de oxigênio do miocárdio resultante de um ou mais dos quatro processos a seguir que levam à formação de trombo: rompimento de uma placa coronária instável devido à ruptura da placa, erosão ou nódulo calcificado de protrusão, que provoca a formação de trombo intracoronário e uma resposta inflamatória; vasoconstrição arterial coronariana; estreitamento intraluminal gradual; e aumento da demanda miocárdica de oxigênio produzida por condições como febre, taquicardia e tireotoxicose na presença de obstrução coronária epicárdica fixa. Embora a ruptura da placa permaneça a etiologia mais comum de trombose coronária, a erosão de uma placa intracoronária está aumentando em frequência, talvez relacionada às mudanças mencionadas acima nos fatores de risco subjacentes para SCA. 58 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Entre os pacientes com SCASEST estudados na angiografia, cerca de 10% têm estenose do tronco da coronária esquerda, 35% têm DAC de três vasos, 20% têm doença de dois vasos, 20% têm doença de um único vaso e 15% têm doença sem estenose da artéria coronária epicárdica crítica aparente; alguns destes últimos podem ter obstrução da microcirculação coronária e/ou espasmo dos vasos epicárdicos. As chamadas “placas vulneráveis” responsáveis pela isquemia podem mostrar uma estenose excêntrica com bordas recortadas ou salientes e um pescoço estreito na angiografia coronária. As placas vulneráveis são compostas por um núcleo rico em lipídios com uma capa fibrosa fina. Pacientes com SCASEST frequentemente apresentam várias dessas placas que estão em risco de ruptura. História e exame físico Normalmente, o desconforto no peito é grave e tem pelo menos uma de três características: ocorrência em repouso (ou com esforço mínimo), com duração > 10 minutos; de início relativamente recente (ou seja, nas 2 semanas anteriores); e/ou um padrão crescente, ou seja, distintamente mais severo, prolongado ou frequente do que os episódios anteriores. O diagnóstico de IAMSSST é estabelecido se um paciente com qualquer uma dessas características (sem elevações do segmento ST eletrocardiográficas) desenvolver evidências de necrose miocárdica, refletida em níveis anormalmente elevados de biomarcadores. O desconforto torácico é tipicamente localizado na região subesternal e irradia para o braço esquerdo, ombro esquerdo e/ou superiormente para o pescoço e a mandíbula. Equivalentes anginosos, como dispneia, desconforto epigástrico, náusea ou fraqueza, podem ocorrer em vez de desconforto no peito e parecem ser mais frequentes em mulheres, idosos e pacientes com diabetes mellitus. O exame físico se assemelha ao de pacientes com angina estável e pode ser normal. No entanto, se o paciente tiver uma grande área de isquemia miocárdica ou um grande IAMSSST, os achados físicos podem incluir diaforese; pele pálida e fria; taquicardia sinusal; uma terceira e/ou quarta bulhas cardíacas; estertores basilares; e, às vezes, hipotensão. Biomarcadores cardíacos Pacientes com IAMSSST apresentam biomarcadores elevados de necrose, como a troponina cardíaca I ou T, que são específicos, sensíveis e os marcadores preferenciais de necrose miocárdica. A isoforma MB da creatina quinase (CK-MB) é uma alternativa menos sensível. Os níveis elevados de qualquer um desses marcadores distinguem os pacientes com IAMSSST daqueles com AI. Há uma ascensão e queda temporais 59 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I características com pico de 12 a 24h após o início dos sintomas da concentração plasmática desses marcadores e uma relação direta entre o grau de elevação e mortalidade. No entanto, em pacientes sem uma história clínica clara de isquemia miocárdica, pequenas elevações de troponina foram relatadas e podem ser causadas por insuficiência cardíaca, miocardite ou embolia pulmonar, ou com ensaios de alta sensibilidade podem ser observados em indivíduos aparentemente normais. Assim, em pacientes com uma história obscura, pequenas elevações da troponina, especialmente se forem persistentes, podem não ser diagnósticas de SCA. Nesses casos, as causas cardíacas e não cardíacas de uma troponina elevada devem ser consideradas. Avaliação diagnóstica Além do exame clínico, três principais ferramentas não invasivas são usadas na avaliação do IAMSSST: o ECG, os biomarcadores cardíacos e o teste de estresse. Em casos ambíguos, a angiografia coronária por tomografia computadorizada (ATC) pode ser útil para melhorar a precisão e a velocidade da avaliação diagnóstica. Os objetivos são reconhecer ou excluir infarto do miocárdio (IAM) usando biomarcadores cardíacos, preferencialmente troponina; detectar isquemia em repouso (usando ECGs seriados ou contínuos); e detectar obstrução coronária significativa em repouso com ATC e/ ou isquemia miocárdica por meio de teste de esforço. Pacientes com baixa probabilidade de isquemia são geralmente tratados em um departamento de emergência ouuma “unidade de dor torácica” dedicada, seguindo um caminho crítico. A avaliação de tais pacientes inclui monitoramento clínico para desconforto isquêmico recorrente, monitoramento contínuo de ECGs e marcadores cardíacos, normalmente obtidos no início do estudo e em 4 a 12h após a apresentação. Se novas elevações nos marcadores cardíacos ou alterações da onda ST no ECG forem observadas, o paciente deve ser internado no hospital. Os pacientes que permanecem sem dor com marcadores negativos podem prosseguir para o teste de estresse, para determinar a presença de isquemia, ou CCTA, para detectar obstrução luminal coronariana. Os ensaios troponina ultrassensível permitem uma determinação mais rápida (1 a 3h) de exclusão de IM e foram adotados pelas diretrizes europeias, de 2015, para o gerenciamento de SCASEST. Estratificação de risco Pacientes com SCASEST documentada exibem um amplo espectro de risco de morte precoce (30 dias), que varia de 1 a 10%, e uma taxa de SCA recorrente de 5 a 15% durante 60 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS o primeiro ano. A avaliação do risco pode ser realizada por sistemas de pontuação de risco clínico, como o desenvolvido a partir dos ensaios de Thrombolysis in Myocardial Infarction (TIMI), que inclui sete fatores de risco independentes (idade ≥ 65 anos, 3 ou mais dos fatores de risco tradicionais para doença cardíaca coronária, história conhecida de doença arterial coronariana ou estenose coronária de pelo menos 50%, uso diário de aspirina na semana anterior, mais de um episódio de angina nas últimas 24 horas, desvio do segmento ST de pelo menos 0,5 mm e um biomarcador cardíaco específico elevado acima do limite superior do normal). Fatores de risco adicionais incluem diabetes mellitus, disfunção ventricular esquerda, disfunção renal e níveis elevados de peptídeos natriuréticos do tipo B. Estratégias de multibiomarcadores estão agora ganhando preferência, tanto para definir mais completamente os mecanismos fisiopatológicos subjacentes à apresentação de um determinado paciente quanto para estratificar ainda mais o risco do paciente. Pacientes com SCA sem níveis elevados de troponina (raramente encontrados com os novos ensaios de troponina sensível) são considerados portadores de AI e têm um prognóstico mais favorável do que aqueles com elevações de troponina (IAMSSST). A avaliação de risco precoce é útil na identificação de pacientes que obteriam o maior benefício de uma estratégia invasiva precoce. Por exemplo, no ensaio TACTICS- TIMI 18, uma estratégia invasiva precoce conferiu uma redução de 40% nos eventos cardíacos recorrentes em pacientes com um nível elevado de troponina, enquanto nenhum benefício foi observado naqueles sem troponina detectável. Considerações globais A doença arterial coronariana (DAC) e sua manifestação mais perigosa, a SCA, continua sendo a causa mais frequente de morte e invalidez em todo o mundo. Em meados do século XX, essas condições eram mais comuns em países de alta renda. A elucidação dos fatores de risco que levam à DAC e ao desenvolvimento de terapias para reduzir as consequências deletérias da SCA foram responsáveis por reduções dramáticas nesses eventos e na mortalidade cardiovascular e por todas as causas. Embora essas conquistas tenham sido mais proeminentes na América do Norte, na Europa Ocidental e no Japão, elas não afetaram todos os grupos populacionais igualmente. Na Europa, permanece um gradiente de nordeste a sudoeste, com maior prevalência no norte da Rússia e nas nações bálticas, e prevalência consideravelmente menor na França, Itália e Espanha. Simultaneamente a esses avanços importantes nos países de alta renda, os países de baixa e média renda seguiram na direção oposta. As melhorias em agricultura, nutrição, 61 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I saneamento, prevenção e tratamento de infecções, gestão de distúrbios maternos na primeira infância, bem como urbanização e redução do trabalho físico, acarretaram aumentos marcantes nos fatores de risco coronariano, como hipertensão, tabagismo, obesidade, diabetes mellitus e elevações do colesterol circulante de lipoproteína de baixa densidade. Estes, por sua vez, têm sido responsáveis por aumentos acentuados nos eventos de SCA e na mortalidade prematura. As regiões em que essas mudanças foram mais proeminentes são Ásia Central, Índia e Paquistão, bem como as regiões mais desenvolvidas da África Subsaariana. No entanto, embora haja muitas semelhanças, há grandes diferenças entre o aumento de DAC que ocorreu nos países de alta renda em meados do século XX e o que está ocorrendo agora em países de baixa e média renda. Quando o primeiro ocorreu, os fatores de risco coronariano ainda não haviam sido claramente definidos e os tratamentos da SCA eram primitivos pelos padrões atuais. A aplicação bem-sucedida da prevenção de DAC e terapia de SCA em países de alta renda foi responsável pelas melhorias acima mencionadas. O desafio atual é aplicar o que foi aprendido nos países de alta renda às vastas populações dos países de baixa e média renda, que agora estão sob alto risco, o que exigirá grandes esforços educacionais direcionados tanto às populações quanto a seus cuidadores. Um desafio adicional será fornecer pessoal treinado e especializado, instalações, medicamentos e dispositivos para lidar com essas ameaças. A implementação bem-sucedida de medidas para reduzir as ameaças no mundo em desenvolvimento é agora, principalmente, uma questão social, política e econômica. Um fator atenuante é que muitos dos medicamentos essenciais para prevenir e tratar esses distúrbios, como estatinas, inibidores da enzima de conversão da angiotensina, diuréticos, betabloqueadores e antagonistas do cálcio, não estão patenteados e agora são baratos. Infarto do miocárdio com elevação do segmento ST O infarto agudo do miocárdio (IAM) é o diagnóstico mais comum em pacientes hospitalizados em países industrializados. Nos EUA, aproximadamente 660.000 pacientes apresentam um novo IAM e 305.000 apresentam um IAM recorrente a cada ano. Cerca de metade das mortes relacionadas com IAM ocorrem antes de o indivíduo atingido chegar ao hospital. Digno de nota, a taxa de mortalidade intra-hospitalar após a admissão por IAM caiu de 10 para cerca de 5% na última década; a taxa de mortalidade de 1 ano após IAM é de cerca de 15%; e a mortalidade é aproximadamente quatro vezes maior em pacientes idosos (> 75 anos) em comparação com pacientes mais jovens. 62 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Quando os pacientes com desconforto isquêmico prolongado em repouso são vistos pela primeira vez, o diagnóstico clínico de trabalho é síndrome coronariana aguda. O eletrocardiograma de 12 derivações (ECG) é uma ferramenta essencial para diagnóstico e triagem, porque está no centro da via de decisão para o manejo e permite a distinção entre os pacientes que apresentam supradesnivelamento do segmento ST e aqueles que se apresentam sem supradesnivelamento do segmento ST. Os biomarcadores cardíacos séricos são obtidos para distinguir a angina instável (AI) do infarto do miocárdio sem elevação do segmento ST (IAMSSST) e para avaliar a magnitude de um infarto do miocárdio com elevação do segmento ST (IAMCSST). Estudos epidemiológicos indicam que há uma mudança no padrão de IAM nos últimos 15 anos, em que há mais pacientes com IAMSSST do que IAMCSST. Fisiopatologia: papel da ruptura aguda da placa IAMCSST geralmente ocorre quando o fluxo sanguíneo coronário diminui abruptamente após uma oclusão trombótica de uma artéria coronária previamente afetada por aterosclerose. As estenoses da artéria coronária de alto grau de desenvolvimento lento geralmente não precipitam o IAMCSST devido ao desenvolvimento de uma rica rede colateral ao longo do tempo. Em vez disso, o IAMCSST ocorre quando um trombo da artéria coronária se desenvolve rapidamente em um local de lesão vascular. Essa lesão é produzida ou facilitada porsinais ou sintomas de sobrecarga de volume, o termo “insuficiência cardíaca” é preferido em vez do termo mais antigo, “insuficiência cardíaca congestiva”. Epidemiologia A IC é um problema crescente em todo o mundo, com mais de 20 milhões afetados. Desse modo, a prevalência geral na população adulta, em países desenvolvidos, é de 2%. Nesse sentido, a prevalência de IC segue um padrão exponencial, pois aumenta com a idade e afeta de 6 a 10% das pessoas maiores de 65 anos. Embora a incidência relativa de IC seja menor em mulheres do que em homens, as mulheres constituem, pelo menos, metade dos casos de IC devido à maior expectativa de vida. Na América do Norte e na Europa, o risco de desenvolver IC ao longo da vida é de aproximadamente um em cinco para uma pessoa de 40 anos. Acredita-se que a prevalência geral de IC esteja aumentando, em parte porque as terapias atuais para distúrbios cardíacos, como infarto do miocárdio (IAM), doença cardíaca valvar e arritmias, estão permitindo que os pacientes sobrevivam mais. A prevalência de IC em países emergentes é incerta devido à falta de estudos de 10 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS base populacional. Antigamente, pensava-se que a IC surgia principalmente no contexto de uma fração de ejeção (FE) do ventrículo esquerdo (VE) deprimida; entretanto, estudos epidemiológicos demonstraram que aproximadamente metade dos pacientes que desenvolvem IC tem FE normal ou preservada (FE ≥50%). Consequentemente, os termos históricos de IC “sistólica” e “diastólica” foram abandonados, e os pacientes com IC agora são amplamente classificados em IC com FE reduzida (ICFr; anteriormente, insuficiência sistólica) ou IC com FE preservada (ICFp; anteriormente insuficiência diastólica). Considera-se que pacientes com FE do VE, entre 40 e 50%, tenham FE limítrofe ou média. Etiologia Uma condição que conduz a uma alteração na estrutura ou função do VE pode predispor o paciente a desenvolver IC. Embora a etiologia da IC, em pacientes com FE preservada, seja diferente daquela de pacientes com FE deprimida, há considerável sobreposição entre as etiologias dessas duas condições. Nos países industrializados, a doença arterial coronariana (DAC) tornou-se causa predominante em homens e mulheres, sendo responsável por 60-75% dos casos de IC. A hipertensão contribui para o desenvolvimento de IC em 75% dos pacientes, incluindo a maioria dos pacientes com DAC. Tanto a DAC quanto a hipertensão interagem para aumentar o risco de IC, assim como o diabetes mellitus. Em 20-30% dos casos de IC com FE deprimida, a base etiológica exata não é conhecida. Esses pacientes são considerados portadores de miocardiopatia não isquêmica, dilatada ou idiopática se a causa for desconhecida. Infecção viral anterior ou exposição a toxina (por exemplo, alcoólica ou quimioterápica) também podem causar miocardiopatia. Além disso, torna-se cada vez mais claro que um grande número de casos de miocardiopatia é secundário a defeitos genéticos específicos, mais notavelmente aqueles no citoesqueleto. A maioria das formas de miocardiopatia familiar é herdada de forma autossômica dominante. Mutações de genes que codificam proteínas do citoesqueleto (desmina, miosina cardíaca, vinculina) e proteínas de membrana nuclear (laminina) foram identificadas até agora. A miocardiopatia também está associada às distrofias musculares de Duchenne, Becker e cintura-membro. Condições que levam a um alto débito cardíaco (por exemplo, fístula arteriovenosa, anemia) raramente são responsáveis pelo desenvolvimento de IC em um coração normal; entretanto, na presença de doença cardíaca estrutural subjacente, essas condições podem causar IC evidente. 11 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I Considerações globais A doença cardíaca reumática continua a ser uma das principais causas de IC na África e na Ásia, especialmente em jovens. A hipertensão é uma causa importante de IC nas populações africana e afro-americana. Ademais, a doença de Chagas ainda é uma das principais causas de IC na América do Sul. Não surpreendentemente, a anemia é um fator concomitante e frequente, na IC, em muitos países em desenvolvimento. À medida que as nações em desenvolvimento passam por um desenvolvimento socioeconômico, a epidemiologia da IC está se tornando semelhante à da Europa Ocidental e da América do Norte, com a DAC emergindo como a causa mais comum de IC. Embora a contribuição do diabetes mellitus para a IC não seja bem compreendida, o diabetes acelera a aterosclerose e frequentemente está associado à hipertensão. Patogênese A IC é um distúrbio progressivo que é iniciado após um evento de índice danificar o músculo cardíaco, com a perda resultante de miócitos cardíacos funcionais, ou, alternativamente, interromper a capacidade do miocárdio para gerar força, evitando assim que o coração se contraia normalmente. Esse evento de índice pode ter um início abrupto, como no caso de um IAM; pode ter início gradual ou insidioso, como no caso de sobrecarga de pressão ou volume; e pode ser hereditário, como no caso de muitas miocardiopatias genéticas. Independentemente da natureza do evento de estimulação, a característica comum a cada um desses eventos de índice é que todos eles, de alguma maneira, produzem o declínio da capacidade de bombeamento do coração (débito cardíaco). Na maioria dos casos, os pacientes permanecem assintomáticos ou minimamente sintomáticos após o declínio inicial da capacidade de bombeamento do coração ou desenvolvem sintomas somente após a disfunção estar presente por algum tempo. Embora não sejam certas as razões precisas pelas quais os pacientes com disfunção ventrículo esquerdo (VE) possam permanecer assintomáticos, a explicação potencial é que uma série de mecanismos compensatórios são ativados na presença de lesão cardíaca e/ou disfunção VE, permitindo que os pacientes sustentem e modulem a função VE por um período de meses a anos. Os mecanismos compensatórios que foram descritos até agora incluem ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAAS) e do sistema nervoso adrenérgico, que são responsáveis, respectivamente, por manter o débito cardíaco mediante o aumento da retenção de sal e água e o aumento da contratilidade miocárdica. Além disso, uma família de moléculas vasodilatadoras 12 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS de compensação é ativada, incluindo os peptídeos natriuréticos atriais e cerebrais (ANP e BNP), bradicinina, prostaglandinas (PGE2 e PGI2) e óxido nítrico (NO), que compensam a vasoconstrição vascular periférica excessiva. Muitos desses peptídeos vasodilatadores, incluindo a bradicinina e os peptídeos natriuréticos, são degradados por uma neprilisina, peptidase ligada à membrana. Esses mecanismos compensatórios são capazes de modular a função do VE dentro de uma faixa fisiológica/homeostática de modo que a capacidade funcional do paciente seja preservada ou minimamente deprimida. Assim, os pacientes podem permanecer assintomáticos ou minimamente sintomáticos por um período de anos; entretanto, em algum ponto, os pacientes tornam-se abertamente sintomáticos, com um aumento impressionante que resulta nas taxas de morbidade e mortalidade. Embora os mecanismos exatos responsáveis por essa transição não sejam conhecidos, como será discutido a seguir, a transição para a IC sintomática é acompanhada pelo aumento da ativação dos sistemas neuro- hormonal, adrenérgico e de citocinas, que causam uma série de mudanças adaptativas no miocárdio coletivamente referido como remodelação do VE. Em contraste com a nossa compreensão da patogênese da IC com FE deprimida, a compreensão dos mecanismos que contribuem para o desenvolvimento da IC com FE preservada ainda está em evolução. Desse modo, embora a disfunção diastólica fosse considerada o único mecanismo responsável pelo desenvolvimento de IC com FE preservada, estudos baseados na comunidade sugerem que mecanismos extra cardíacos adicionais podemfatores como tabagismo, hipertensão e acúmulo de lipídios. Na maioria dos casos, o IAMCSST ocorre quando a superfície de uma placa aterosclerótica se rompe (expondo seu conteúdo ao sangue) e as condições (locais ou sistêmicas) favorecem a trombogênese. Um trombo mural se forma no local da ruptura da placa e a artéria coronária envolvida fica obstruída. Estudos histológicos indicam que as placas coronárias sujeitas à ruptura são aquelas com um núcleo rico em lipídios e uma capa fibrosa fina. Depois que uma monocamada de plaquetas inicial se forma no local da placa rompida, vários agonistas (colágeno, ADP, epinefrina, serotonina) promovem a ativação plaquetária. Após a estimulação agonista das plaquetas, o tromboxano A2 (um potente vasoconstritor local) é liberado, ocorre mais ativação plaquetária e o desenvolvimento de resistência potencial à fibrinólise. Além da geração do tromboxano A2, a ativação das plaquetas pelos agonistas promove uma alteração conformacional no receptor da glicoproteína IIb / IIIa. Uma vez convertido ao seu estado funcional, esse receptor desenvolve uma alta afinidade para proteínas adesivas solúveis, isto é, integrinas, como o fibrinogênio. Como o fibrinogênio é uma molécula multivalente, pode se ligar a duas plaquetas diferentes simultaneamente, resultando em reticulação e agregação plaquetária. 63 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I A cascata de coagulação é ativada na exposição de fator de tecido em células endoteliais danificadas no local da placa rompida. Desse modo, os fatores VII e X são ativados, o que carreta a conversão da protrombina em trombina, que, então, converte o fibrinogênio em fibrina. A trombina em fase fluida e ligada ao coágulo participam de uma reação de autoamplificação que leva a uma ativação posterior da cascata de coagulação. Desse modo, a artéria coronária culpada acaba sendo obstruída por um trombo com agregados de plaquetas e filamentos de fibrina. Em casos raros, o IAMCSST pode ser devido à oclusão da artéria coronária causada por êmbolos coronários, anormalidades congênitas, espasmo coronário e uma ampla variedade de doenças sistêmicas, particularmente inflamatórias. A quantidade de dano miocárdico causado pela oclusão coronariana depende do território fornecido pelo vaso afetado; se o vaso fica totalmente ocluído ou não; a duração da oclusão coronariana; a quantidade de sangue fornecido por vasos colaterais ao tecido afetado; a demanda de oxigênio do miocárdio cujo suprimento de sangue foi repentinamente limitado; os fatores endógenos que podem produzir lise espontânea precoce do trombo oclusivo; e a adequação de perfusão miocárdica na zona de infarto quando o fluxo é restaurado na artéria coronária epicárdica ocluída. Os pacientes que podem desenvolver IAMCSST incluem aqueles com múltiplos fatores de risco coronariano e aqueles com AI. Condições médicas subjacentes menos comuns que predispõem os pacientes a IAMCSST incluem hipercoagulabilidade, doença vascular do colágeno, abuso de cocaína e trombos intracardíacos ou massas que podem produzir êmbolos coronários. Houve grandes avanços no manejo do IAMCSST com o reconhecimento de que a “cadeia de sobrevivência” envolve um sistema altamente integrado, começando com o atendimento pré-hospitalar e estendendo-se ao manejo hospitalar precoce, de modo a fornecer implementação rápida de uma estratégia de reperfusão. Apresentação clínica Em até metade dos casos, um fator precipitante parece estar presente antes do IAMCSST, como exercício físico vigoroso, estresse emocional ou uma doença médica ou cirúrgica. Embora o IAMCSST possa começar a qualquer hora do dia ou da noite, variações circadianas foram relatadas, de modo que os agrupamentos são vistos pela manhã, poucas horas após o despertar. 64 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS A dor é a queixa de apresentação mais comum em pacientes com IAMCSST, a qual é descrita como profunda e visceral. Os adjetivos comumente usados para descrevê-la são pesados, como “opressora” e “esmagadora”, embora, ocasionalmente, seja descrita como “facada” ou “queimação”. É semelhante, em caráter, ao desconforto da angina de peito, mas geralmente ocorre em repouso, de modo que é mais grave e dura mais tempo. Normalmente, a dor envolve a parte central do tórax e/ou epigástrio e, ocasionalmente, irradia para os braços. Os locais menos comuns de radiação incluem abdome, costas, mandíbula e pescoço. A localização frequente da dor abaixo do xifoide e do epigástrio e a negação dos pacientes de que podem estar sofrendo um ataque cardíaco são os principais responsáveis pela impressão equivocada comum de indigestão. A dor do IAMCSST pode irradiar até a área occipital, mas não abaixo do umbigo. Geralmente é acompanhada por fraqueza, suor, náusea, vômito, ansiedade e uma sensação de morte iminente. A dor pode começar quando o paciente está em repouso, mas quando começa durante um período de esforço, geralmente não cede com a cessação da atividade, ao contrário da angina de peito. A dor do IAMCSST pode simular a dor de pericardite aguda, embolia pulmonar, dissecção aórtica aguda, costocondrite e distúrbios gastrointestinais, portanto essas condições devem ser consideradas no diagnóstico diferencial. A radiação de desconforto para o trapézio não é observada em pacientes com IAMCSST e pode ser uma característica útil, a qual sugere que a pericardite é o diagnóstico correto. No entanto, a dor não está uniformemente presente em pacientes com IAMCSST, de modo que a proporção de IAMCSSTs indolores é maior em pacientes com diabetes mellitus e aumenta com a idade. Em idosos, o IAMCSST pode se apresentar como falta de ar de início súbito, que pode progredir para edema pulmonar. Outras apresentações menos comuns, com ou sem dor, incluem perda súbita de consciência, estado confusional, sensação de fraqueza profunda, aparecimento de arritmia, evidência de embolia periférica ou apenas queda inexplicada da pressão arterial. Achados físicos A maioria dos pacientes fica ansiosa e inquieta, tentando, sem sucesso, aliviar a dor e, por isso, movem-se na cama, alteram a posição e alongam-se. Ademais, palidez associada à transpiração e frio nas extremidades ocorre comumente. A combinação de dor torácica subesternal que persiste por > 30 min e diaforese sugerem fortemente IAMCSST. Embora muitos pacientes tenham uma taxa de pulso e pressão arterial normais na primeira hora de IAMCSST, cerca de um quarto dos pacientes com 65 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I infarto anterior têm manifestações de hiperatividade do sistema nervoso simpático (taquicardia e/ou hipertensão) e até a metade inferior com infarto mostram evidências de hiperatividade parassimpática (bradicardia e/ou hipotensão). O precórdio geralmente está quieto e o impulso apical pode ser difícil de palpar. Em pacientes com infarto da parede anterior, uma pulsação sistólica anormal causada pelo abaulamento discinético do miocárdio infartado pode se desenvolver na área periapical, nos primeiros dias da doença, e, então, remitir. Outros sinais físicos de disfunção ventricular incluem quarta e terceira bulhas cardíacas, diminuição da intensidade da primeira bulha e desdobramento paradoxal da segunda bulha. Sopro sistólico apical, sistólico médio ou sistólico tardio transitório devido à disfunção do aparelho valvar mitral pode estar presente. Ademais, atrito pericárdico pode ser ouvido em pacientes com IAMCSST transmural em algum momento do curso da doença, se eles forem examinados com frequência. O pulso carotídeo frequentemente diminui em volume, refletindo a redução do volume sistólico. Elevações de temperatura de até 38° C podem ser observadas durante a primeira semana após o IAMCSST e a pressão arterial é variável; na maioria dos pacientes com infarto transmural, a pressão sistólica diminui em ~ 10-15 mmHg a partir do estado pré-infarto. Achados de laboratório IAMCSST progride por meio dos seguintes estágios temporais:agudo (primeiras horas – 7 dias), cura (7-28 dias) e curado (≥ 29 dias). Ao avaliar os resultados dos testes diagnósticos para IAMCSST, a fase temporal do infarto deve ser considerada. Os testes laboratoriais de valor na confirmação do diagnóstico podem ser divididos em quatro grupos: ECG, biomarcadores cardíacos séricos, imagens cardíacas e índices inespecíficos de necrose e inflamação do tecido. Biomarcadores de sérios cardíacos Certas proteínas, conhecidas como biomarcadores cardíacos séricos, são liberadas do músculo cardíaco necrótico após IAMCSST. A taxa de liberação de proteínas específicas difere dependendo de localização intracelular, peso molecular e fluxo sanguíneo e linfático local. Os biomarcadores cardíacos tornam-se detectáveis no sangue periférico assim que a capacidade dos vasos linfáticos cardíacos para limpar o interstício da zona de infarto é excedida e ocorre o transbordamento para a circulação venosa. O padrão temporal de liberação de proteínas é de importância diagnóstica e os critérios para IAM requerem aumento e/ou queda nos valores dos biomarcadores cardíacos com, 66 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS pelo menos, um valor acima do 99º percentil do limite superior de referência para indivíduos normais. A troponina T cardíaca específica (troponina T) e a troponina I cardíaca específica (troponina I) têm sequências de aminoácidos diferentes daquelas das formas musculares esqueléticas dessas proteínas. Tais diferenças permitiram o desenvolvimento de ensaios quantitativos para troponina T e troponina I com anticorpos monoclonais altamente específicos. Nesse sentido, troponina T e troponina I podem aumentar após IAMCSST para níveis muitas vezes maiores do que o limite de referência superior (o valor mais alto visto em 99% de uma população de referência que não sofre de MI), a medição de troponina T ou troponina I é de utilidade diagnóstica considerável e eles são os marcadores bioquímicos preferidos para MI. Com as melhorias nos ensaios das troponinas cardíacas específicas, agora é possível detectar concentraçõesregulares para vigilância das sequelas anatômicas, hemodinâmicas e eletrofisiológicas que possam estar presentes. Além disso, podem surgir situações específicas nas quais é prudente revisar o atendimento em consulta com um especialista em ACHD, várias das quais são descritas abaixo. Cirurgia não cardíaca Quase todos os adultos com CHD podem ser classificados com estágio A ou graus maiores de insuficiência cardíaca. Dessa forma, adultos com CHD podem demonstrar reserva hemodinâmica limitada à perfusão miocárdica alterada ou às condições de carga e podem ter disfunção orgânica subclínica que não é reconhecida pela avaliação laboratorial padrão. A avaliação abrangente e multidisciplinar e a revisão da estratégia de tratamento são recomendadas antes de procedimentos invasivos ou operatórios para adultos com CHD. O manejo anestésico requer conhecimento particular da anatomia, consequência fisiológica dos defeitos subjacentes, desempenho miocárdico e vascular, presença e natureza de procedimentos paliativos anteriores e shunts residuais, alteração das vias venosas ou arteriais na circulação e o estado da fisiologia do órgão. Gravidez Mulheres com CHD devem receber aconselhamento sobre os riscos maternos e fetais antes de conceber uma gravidez e devem ser atendidas em instituições com experiência no tratamento de CHD durante a gravidez. A avaliação pré-natal inclui histórico médico detalhado, com foco na capacidade funcional da mulher, que está intimamente ligada aos resultados maternos e fetais. As gestantes devem ser fortemente aconselhadas sobre os riscos significativos de morbidade e mortalidade durante a gravidez e o período pós-parto. As alterações hemodinâmicas fisiológicas normais da gravidez são significativas, ocorrem durante um período relativamente condensado e podem ser agravadas em adultos com CHD. Mulheres com certas formas de CHD, particularmente aquelas complicadas por pressões elevadas da artéria pulmonar (AP), função ventricular diminuída ou lesões obstrutivas do lado esquerdo sintomáticas, podem não tolerar essas mudanças dramáticas. Os medicamentos pré-gravidez devem ser revisados para garantir a segurança durante a gravidez. Então, devem ser consideradas alternativas aos inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA), os bloqueadores do receptor da angiotensina e 70 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS bloqueadores do receptor da endotelina, uma vez que esses agentes são teratogênicos e contraindicados durante a gravidez, de modo que devem ser descontinuados. Tradicionalmente, o FDA utilizou um sistema de classificação de cinco categorias (A, B, C, D, X) para indicar o potencial teratogênico de um medicamento; em dezembro de 2014, o FDA promulgou a Regra de Rotulagem de Gravidez e Lactação, em que exige a remoção dessas categorias de todos os medicamentos prescritos para humanos e produtos biológicos, e a substituição por três subseções abrangentes que fornecem detalhes sobre o uso do medicamento na gravidez e lactação em mulheres e homens com potencial reprodutivo. Essas subseções de gravidez incluem riscos potenciais para o feto em desenvolvimento, alterações de dosagem conhecidas na gravidez, efeitos do momento e duração da exposição durante a gravidez, reações maternas adversas, efeitos do medicamento no trabalho de parto e no parto e informações sobre o registro de exposição à gravidez para o medicamento, se existe. As mulheres que necessitam de anticoagulação devem ser alertadas sobre os desafios do manejo da anticoagulação durante a gravidez e estratégias individualizadas devem ser desenvolvidas. Um ecocardiograma fetal entre 18 e 22 semanas de gestação é recomendado para pais com CHD e, além disso, tanto homens quanto mulheres com CHD devem ser aconselhados sobre o risco de CHD em seus filhos. Terminologia congênita, desenvolvimento e genética Nomenclatura congênita Um dos desafios em cuidar de adultos com CHD é a terminologia inconsistente usada para descrever as lesões cardíacas congênitas. Vários sistemas de classificação foram propostos, desde as descrições iniciais por Maude Abbott, Maurice Lev e Jesse Edwards, até as extensas caracterizações por Stella e Richard Van Praagh e Robert Anderson. Neste capítulo, adotamos uma abordagem segmental e, nesse sentido, o coração é composto por vários segmentos que são analisados separadamente antes de formular um diagnóstico abrangente. Os segmentos principais são os átrios, os ventrículos e as grandes artérias, que são unidos pelo canal atrioventricular e o cone (infundíbulo). No coração normal, o ventrículo direito (VD) é do lado direito e é organizado de entrada para saída da direita para a esquerda, enquanto o ventrículo esquerdo (VE) é do lado esquerdo e é organizado de entrada para saída da esquerda para a direita. É importante determinar os alinhamentos segmentais, isto é, o que drena para o quê. Por exemplo, no coração normal, o átrio direito (AR) está alinhado com o VD e o VE com a aorta. Finalmente, são descritas as conexões segmentais, a maneira como os 71 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I segmentos adjacentes estão fisicamente ligados uns aos outros. Por exemplo, no coração normal, a AP está conectada ao VD por um cone muscular completo (infundíbulo), enquanto a aorta está conectada ao VE por uma continuidade fibrosa aórtico-mitral (sem um cone completo). Alinhamento e conexão são conceitos diferentes e ambos são importantes, especialmente em defeitos complexos. Desenvolvimento cardíaco O coração começa a se formar na terceira semana de gestação e está quase totalmente formado por volta das 8 semanas de gestação. As células pré-cardíacas mesodérmicas migram para formar os crescentes cardíacos (campos primários do coração) no mesoderma da placa lateral anterior, que são então reunidos para formar um tubo cardíaco linear primário pelo fechamento ventral do embrião. As células do segundo campo cardíaco continuam a proliferar fora do coração e são adicionadas ao tubo cardíaco ao longo da embriogênese, contribuindo para os átrios, o VD e o trato de saída. Além disso, as células da crista neural cardíaca migram para o coração em desenvolvimento na 5ª-6ª semanas e são essenciais para a septação do fluxo, formação das válvulas semilunares e padronização dos arcos aórticos. Uma vez formado, o tubo cardíaco cresce e se alonga pela adição de células do segundo campo cardíaco. As extremidades do tubo cardíaco são relativamente fixadas pelo saco pericárdico, de modo que, à medida que se alonga, ele deve fazer uma alça (dobrar) e, na grande maioria dos corações, a alça cai para a direita (alça D). O alongamento adicional empurra a porção média do tubo (ventrículos futuros) para baixo ou caudal ao influxo, resultando na relação normal entre os átrios e os ventrículos. O crescimento adicional empurra o fluxo de saída medialmente e está associado à rotação do fluxo de saída, ambos processos essenciais para o alinhamento normal do fluxo de saída. Finalmente, a parte proximal do fluxo de saída é incorporada ao VD, encurtando o fluxo em associação com mais rotação. Enquanto essa remodelação está ocorrendo, o fluxo de saída sofre septação sob a influência das células da crista neural cardíaca. Então, a septação prossegue de distal para proximal, culminando na formação e muscularização do septo de saída infundibular ou muscular, que se insere no coxim endocárdico superior, na borda direita do forame de saída, e veda a aorta para o VE, por meio do forame de saída, e AP diretamente no VD. Considerações genéticas CHD é o defeito de nascença mais comum; contribuintes etiológicos são cada vez mais reconhecidos, embora muitas vezes se especule que sejam multifatoriais. Crianças nascidas com Trissomia 21 têm 50% de chance de ter CHD, mais comumente 72 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS defeitos no canal atrioventicular. Nesse sentido, os defeitos conotruncais estão associados a várias anormalidades cromossômicas,mais notavelmente uma deleção no cromossomo 22q11 (síndrome de DiGeorge). Pistas ecocardiográficas para essa associação em pacientes com defeito conotruncal incluem um arco aórtico direito associado ou artéria subclávia aberrante. Muitos adultos que vivem atualmente com defeitos conotruncais podem não ter se submetido ao teste para a síndrome de DiGeorge, portanto é importante reconhecer essa condição, pois uma variedade de transtornos psiquiátricos e deficiências na função cognitiva podem estar presentes e não serem tratadas. Pacientes com síndrome de Noonan comumente apresentam válvula pulmonar displásica e apresentam anormalidades faciais e linfáticas. Vários defeitos em genes específicos foram associados à síndrome de Noonan, principalmente PTPN11. Adultos com síndrome de Williams (deleção 7q11.23) comumente apresentam estenose aórtica supravalvar e arteriopatia difusa, com personalidade “tipo coquetel” e hipercalcemia. Há uma importância crescente das análises de todo o genoma em indivíduos com CHD. Lesões específicas de CHD Coração direito dilatado Existem muitas etiologias congênitas para a dilatação do coração direito, as quais incluem anomalias valvares congênitas (como anomalia de Ebstein ou regurgitação pulmonar), anomalias miocárdicas intrínsecas do VD (displasia arritromogênica do VD, anomalia de Uhl) ou lesões de derivação que ocorrem proximalmente à válvula tricúspide. A imagem cardíaca é crítica para determinar a etiologia da dilatação do coração direito e o conhecimento da anatomia e fisiologia de várias lesões de shunt é essencial. Defeito do septo atrial Uma das etiologias mais comuns de dilatação do coração direito é a presença de defeito do septo atrial (comunicação interatrial – CIA). Orifícios intracardíacos permitem a transmissão de sangue entre câmaras ou espaços com base na resistência relativa, propulsão e padrões de fluxo. Pacientes com grandes CIAs frequentemente se apresentam na infância; no entanto, muitos CIAs não são descobertos até a vida adulta. A fisiologia de uma CIA é predominantemente a de um shunt “da esquerda para a direita” (fluxo de sangue venoso pulmonar ou oxigenado em direção à veia sistêmica, ou desoxigenado, 73 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I câmaras ou vasos). O grau de desvio da esquerda para a direita determina a quantidade de carga de volume do coração direito e é ditado pelo tamanho do defeito, bem como pelas propriedades diastólicas do coração. Conforme os pacientes envelhecem, vários fatores, como diabetes mellitus, hipertensão sistêmica e aterosclerose, podem contribuir para a diminuição da complacência das câmaras cardíacas do lado esquerdo e para o aumento do shunt e da sintomatologia da esquerda para a direita. O achado clássico do exame físico é um desdobramento amplo e fixo da segunda bulha cardíaca, que se deve à ejeção prolongada do VD e ao aumento da capacitância da AP, que, por sua vez, atrasam o fechamento da válvula pulmonar. O eletrocardiograma de superfície (ECG) geralmente exibe um bloqueio de ramo direito incompleto e os sintomas, quando ocorrem, mais comumente incluem intolerância a exercícios, arritmia e dispneia aos esforços. Não é incomum que adultos tenham notado CIA assintomático incidentalmente durante a avaliação de outras questões comórbidas. A dilatação do coração direito, sem etiologia adicional para tal, no contexto de CIA não reparado, é considerada um risco de progressão para insuficiência cardíaca direita sintomática, arritmias atriais e potencial desenvolvimento de hipertensão arterial pulmonar (se já não estiver presente). Portanto, a um paciente com CIA e dilatação do coração direito, particularmente com sintomas atribuíveis a tal, deve ser oferecido o fechamento do CIA. A doença vascular pulmonar que leva à hipertensão pulmonar se desenvolve em até 10% dos pacientes com CIA não reparado, e a síndrome de Eisenmenger (ES) é uma complicação rara (ver abaixo). O tratamento de pacientes com CIA concomitante e hipertensão pulmonar deve ser coordenado com especialistas em ACHD e hipertensão pulmonar. O tipo mais comum de CIA é o CIA ostium secundum, que é um defeito, ou deficiência verdadeira no septo atrial, na região da fossa oval. Deve ser diferenciado de forame oval patente (FOP), que é a persistência da patência do retalho da válvula da fossa oval (não associada à dilatação cardíaca direita) e persiste em até 25% dos adultos. Os CIAs ostium secundum podem frequentemente ser fechados com dispositivos de oclusão colocados por via percutânea. No entanto, certos determinantes anatômicos tornam o fechamento percutâneo menos favorável, incluindo grandes defeitos, bordas de tecido inadequadas ao redor do defeito e concomitância de veias pulmonares de drenagem anômala. Um CIA ostium primum é uma deficiência da porção do canal AV do septo atrial; o qual está sempre associado ao desenvolvimento anormal das válvulas AV, mais comumente resultando em uma fenda na válvula mitral. Um defeito do seio coronário é raro e envolve uma abertura entre o seio coronário e o átrio esquerdo. Um defeito do seio venoso não é um defeito no septo atrial, mas, sim, um defeito entre a junção 74 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS da veia cava superior direita-atrial e as veias pulmonares superiores direitas ou, menos comumente, a junção da veia cava inferior com o átrio e as veias pulmonares inferiores direitas. O fechamento cirúrgico é necessário para CIAs ostium primum, defeitos do seio venoso e defeitos do septo do seio coronário. Retorno venoso pulmonar anômalo parcial O retorno venoso pulmonar anômalo parcial é ocasionalmente descoberto em adultos com dilatação do coração direito, ou incidentalmente em imagens transversais. Existem várias conexões anômalas possíveis, com a mais comum sendo uma veia pulmonar superior esquerda para uma veia vertical ascendente na veia inominada, ou a veia pulmonar superior direita que drena para a veia cava superior. Nesse último caso, deve-se prestar muita atenção para garantir que não haja um defeito do seio venoso associado. Pode ocorrer hipertensão pulmonar concomitante, mas é incomum. Ademais, a sintomatologia pode estar ausente e a decisão de reparar a lesão isolada deve levar em consideração a variação na anatomia, ventilação e perfusão pulmonar, resposta hemodinâmica ao shunt, sintomas e experiência cirúrgica. Anomalia de Ebstein A anomalia de Ebstein é o resultado de falha embriológica de delaminação, ou “descamação”, dos folhetos da válvula tricúspide do miocárdio ventricular, resultando na aderência dos folhetos da válvula ao miocárdio subjacente. Isso resulta em uma ampla variedade de anormalidades, incluindo deslocamento apical e posterior do anel da válvula tricúspide dilatado, dilatação da porção “atrializada” do VD e fenestrações, redundância e amarração tipicamente do folheto anterior da válvula tricúspide. A válvula tricúspide malformada geralmente é regurgitante, mas, às vezes, pode ser estenótica. A apresentação clínica da anomalia de Ebstein no adulto depende de vários fatores, incluindo a extensão da distorção do folheto da válvula tricúspide, o grau de regurgitação tricúspide (RT), a pressão atrial direita e a presença de um shunt ao nível atrial. O exame físico de um paciente com anomalia de Ebstein pode variar dependendo da gravidade da doença. Em casos mais graves, a primeira bulha cardíaca pode ser dividida e o segundo componente da primeira bulha cardíaca pode ter uma qualidade de encaixe distinta (conhecida como o sinal da vela, devido à redundância do folheto da válvula tricúspide anterior). Pacientes com RT significativa podem ter ondas “v” proeminentes das pulsações venosas jugulares; no entanto, esse achado costuma estar ausente por causa da complacência atrial direita anormal. O ECG costuma ser anormal, com aumento do átrio direito e ventrículo direito. Nesse contexto, até 20% dos pacientes 75 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I apresentamevidência de pré-excitação ventricular (padrão Wolff-Parkinson-White), de modo que o tratamento cirúrgico inclui reparo ou substituição da válvula tricúspide, fechamento de qualquer defeito do nível atrial e procedimentos ablativos de arritmia. Lesões de shunt que causam dilatação do coração esquerdo Os shunts intracardíacos ou passagens intravasculares que ocorrem abaixo do nível da válvula tricúspide resultam na dilatação do coração esquerdo. Desse modo, os dois principais tipos de shunts congênitos que resultam em dilatação do coração esquerdo são comunicações interventriculares (CIV) e persistência do canal arterial (PCA). Comunicações interventriculares As CIV são as anomalias congênitas mais comumente reconhecidas ao nascimento, porém respondem por apenas cerca de 10% das CHD no adulto, devido à alta taxa de fechamento espontâneo de pequenas CIVs durante os primeiros anos de vida. As grandes CIVs geralmente causam sintomas de insuficiência cardíaca e crescimento somático deficiente e, na maioria das vezes, fecham-se antes da idade adulta. Existem vários sistemas de classificação para CIVs. Ademais, a localização mais comum é no septo membranoso (também conhecido como perimembranoso ou defeitos de saída). Os defeitos musculares que persistem na vida adulta são frequentemente restringidos por pressão e fluxo, resultando em nenhuma consequência hemodinâmica significativa. Os defeitos do canal atrioventricular, também chamados de defeitos de entrada, estão localizados no centro do coração e estão associados a anormalidades dos folhetos da válvula atrioventricular. Defeitos subpulmonares, também conhecidos como defeitos septais, são comumente associados com prolapso da válvula coronariana direita e insuficiência aórtica. Por fim, o prognóstico para adultos com pequenas CIVs sem evidência de dilatação ventricular ou hipertensão pulmonar é geralmente excelente. Persistência do canal arterial Um PCA percorre entre o istmo aórtico e a origem de uma das artérias pulmonares ramificadas. PCAs pequenos geralmente são silenciosos à ausculta e não causam alterações hemodinâmicas. O sopro clássico é melhor identificado logo abaixo da clavícula esquerda e normalmente se estende da sístole após a segunda bulha cardíaca até a diástole, refletindo a turbulência do fluxo e o gradiente entre a aorta e as artérias pulmonares (resultando em shunt da esquerda para a direita). PCAs grandes acarretarão 76 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS a dilatação do coração esquerdo e podem causar a resistência vascular pulmonar cronicamente elevada, incluindo o potencial para ES. CHD moderado e complexo Tetralogia de Fallot A tetralogia de Fallot (T4F) é a forma mais comum de CHD cianótica e ocorre em 5 a cada 10000 nascidos vivos. Envolve o que pode ser um desvio singular do septo conal anterior, resultando em obstrução da via de saída do ventrículo direito (VSVD), uma CIV, hipertrofia ventricular direita e uma aorta em relevo. Há um amplo espectro de gravidade da doença na T4F, desde pacientes que apresentam apenas estenose pulmonar leve até aqueles com atresia pulmonar completa (T4F / AP). As estratégias cirúrgicas atuais envolvem o reparo primário na infância; entretanto, muitos adultos podem ter sido submetidos a procedimentos paliativos (shunts de Blalock-Taussig, Potts, Waterston) antes de um reparo completo. O objetivo do reparo cirúrgico é aliviar a estenose pulmonar e fechar a CIV. Até 7% dos pacientes com T4F têm uma artéria coronária anômala, mais comumente, uma artéria coronária descendente anterior esquerda anômala a partir da cúspide coronária direita. Pacientes com uma coronária anômala, bem como aqueles com T4F / AP, podem precisar de um conduto VD-para-AP (shunt de Sano). Adultos com T4F reparada geralmente apresentam sequelas hemodinâmicas que podem exigir uma nova intervenção na idade adulta. A regurgitação pulmonar é comum após o reparo da T4F e geralmente está associada à dilatação do VD. A quantificação precisa do tamanho, da função e da massa do VD é particularmente importante em adultos após o reparo, pois a dilatação, disfunção e hipertrofia do VD estão associadas a resultados adversos nesses pacientes. Os pacientes também podem ter obstrução residual da VSVD, que pode ocorrer abaixo da válvula pulmonar, no nível da válvula, acima da válvula ou nos ramos das artérias pulmonares. A ressonância magnética cardíaca é rotineiramente utilizada na vigilância desses pacientes. A disfunção ventricular esquerda está presente em, pelo menos, 20% dos adultos com T4F reparado, particularmente aqueles que foram reparados mais tarde na vida, tiveram shunts paliativos anteriores ou têm disfunção VD concomitante. À medida que os pacientes envelhecem com a T4F reparada, as arritmias atriais e ventriculares ocorrem com frequência crescente. A duração do QRS em um ECG de repouso de 180ms ou mais foi associada ao aumento do risco de taquicardia ventricular 77 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I e morte súbita nessa população de pacientes. Em um estudo de acompanhamento prospectivo de 144 adultos com T4F reparado, houve uma sobrevida de 72% em 40 anos, mas apenas uma sobrevida livre de eventos cumulativa de 25%. Esses eventos incluem necessidade de reintervenção (mais comumente substituição da válvula pulmonar), arritmias sintomáticas e insuficiência cardíaca. A reintervenção mais comum em um paciente com T4F reparado é uma substituição da válvula pulmonar, no entanto o momento ideal de substituição da válvula pulmonar nesses pacientes permanece obscuro. Embora a substituição da válvula pulmonar tenha diminuído os volumes do ventrículo direito e melhorado subjetivamente os sintomas, não foi comprovado que ela resulta em uma fração de ejeção melhorada ou em menos resultados adversos, como arritmias ventriculares ou morte. Tradicionalmente, a substituição da válvula pulmonar é realizada com um procedimento cirúrgico, entretanto o implante percutâneo de válvulas pulmonares está se tornando cada vez mais utilizado na prática clínica. Pacientes com T4F reparado também podem ser submetidos a intervenções, incluindo fechamento de CIVs residuais, dilatação e/ou implante de stent da VSVD ou artérias pulmonares ramificadas e reparo da válvula tricúspide. Ademais, pacientes com arritmias clinicamente significativas podem se beneficiar da ablação por cateter. Transposição das grandes artérias A transposição das grandes artérias (TGA) é definida pelas grandes artérias que se originam do lado oposto do septo ventricular que o normal; como tal, a aorta origina-se do VD e a AP, do VE. A forma mais comum de TGA, conhecida como TGA D-loop, envolve a concordância atrioventricular e a discordância ventricular-arterial, resultando em uma fisiologia que permite que dois circuitos estejam em paralelo, em vez de em série e cianose intensa logo após o nascimento. Essa fisiologia não é compatível com sobrevivência em longo prazo sem intervenção cirúrgica e pacientes com TGA podem nascer com defeitos congênitos adicionais (mais comumente um CIV). Os reparos cirúrgicos para TGA D-loop evoluíram ao longo do tempo. No final dos anos 1950 até os anos 1970, foi realizado o procedimento de troca atrial (procedimentos de Mustard, Senning). Esses procedimentos aliviaram a cianose, mas deixaram o paciente com um VD sistêmico. Apesar da sobrevida de prazo moderado ao longo de décadas, existem várias sequelas de longo prazo que podem se manifestar após o procedimento de troca atrial. A complicação mais preocupante é a disfunção sistêmica do ventrículo direito. A prevalência de disfunção ventricular direita nessa população 78 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS não está bem definida devido às dificuldades em quantificar a função sistêmica do VD. Estudo limitado não conseguiu revelar terapias médicas eficazes para disfunção ventricular direita sistêmica. Um subconjunto de pacientes com TGA D-loop, CIV e PS pode ter sido submetido aum procedimento de Rastelli, intervenção esta que envolve a colocação de um conduto VD-para-AP e o direcionamento do VE, para a aorta, através do CIV. Isso resulta no alívio da cianose e no benefício de um VE sistêmico. Na década de 1980, a cirurgia de Jatene ou switch arterial tornou-se o procedimento cirúrgico de escolha para a TGA D-loop. Esse procedimento envolve a secção das grandes artérias acima dos seios coronários e o posicionamento das artérias pulmonares anteriormente, para que se alinhem com o VD, resultando no envolvimento dos ramos das artérias pulmonares sobre a aorta ascendente. Desse modo, é realizada uma translocação da artéria coronária. Ademais, a operação de troca arterial resultou em sobrevivência substancial em longo prazo. A forma menos comum de TGA, conhecida como L-loop TGA (TGA corrigido fisiologicamente), pode não requerer intervenção cirúrgica, mas é apresentada aqui em relação a outras formas de TGA. L-loop TGA envolve tanto a discordância atrioventricular (AR permite a passagem do retorno venoso sistêmico desoxigenado para o VE e, inversamente, o átrio esquerdo conduz sangue venoso pulmonar oxigenado para o VD) quanto a discordância ventrículo-arterial (conexões de VE para PA e de VD para aorta). Isso resulta em saturação de oxigênio arterial normal, mas um VD associado à aorta. Pacientes com TGA L-loop comumente apresentam anomalias congênitas associadas, incluindo dextrocardia, CIAs, válvula tricúspide displásica e estenose pulmonar. Os distúrbios de condução são comuns e o bloqueio cardíaco completo ocorre em até 30% dos pacientes. Os pacientes sem defeitos associados podem não apresentar até mais tarde na vida, mais comumente com insuficiência cardíaca, regurgitação tricúspide ou doença de condução recém-reconhecida. Coarctação da Aorta Os adultos com coarctação da aorta geralmente apresentam uma obstrução semelhante a uma prateleira no nível da aorta descendente que passa imediatamente posterior à junção do AP principal e esquerdo; a obstrução envolve menos comumente o arco transverso da aorta. No exame físico, a pressão sanguínea e os pulsos dos membros inferiores são menores (e com atraso no tempo, em contraste com) que os valores dos membros superiores, a menos que colaterais aórticos significativos tenham se 79 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I desenvolvido. Um sopro contínuo sobre a escápula pode estar presente em razão do fluxo sanguíneo colateral. A coarctação significativa aumenta a pós-carga para todas as estruturas proximais no trajeto do sangue oxigenado, do VE e artérias coronárias, à aorta ascendente e transversal, aos vasos cerebrais e do braço e à aorta descendente proximal. A válvula aórtica bicúspide (geralmente com fusão comissural direita- esquerda) é uma associação comum. Em mulheres com baixa estatura, pescoço alado, linfedema e amenorreia primária, um diagnóstico concomitante de síndrome de Turner deve ser considerado, cuja presença indica maior grau e riscos de sequelas de anatomia e fisiologia aparentemente semelhantes. Pacientes submetidos à correção cirúrgica em geral apresentam bom prognóstico, no entanto eles permanecem em risco de hipertensão sistêmica, aterosclerose prematura, insuficiência VE, bem como aneurisma aórtico, dissecção e coarctação recorrente. Fisiologia do ventrículo único O termo “doença cardíaca de ventrículo único” é impreciso, mas útil em algumas configurações, pois se refere a doenças cardíacas congênitas nas quais um ventrículo ou suas válvulas impedem a criação cirúrgica de uma circulação biventricular. Os diagnósticos congênitos comuns nessa categoria incluem atresia tricúspide, dupla entrada de VE e síndrome do coração esquerdo hipoplásico. A maioria dos pacientes com fisiologia de ventrículo único é submetida a uma série de cirurgias que culminam em um procedimento de Fontan. Desde seu uso inicial para atresia da valva tricúspide em 1971, múltiplas modificações desse procedimento ocorreram, com características comuns de separação quase completa das circulações pulmonar e sistêmica. O procedimento de Fontan utiliza o ventrículo único para bombear sangue venoso pulmonar (oxigenado) através da aorta para o corpo e permite o fluxo “passivo” do retorno venoso sistêmico do sangue desoxigenado por meio de conexões criadas cirurgicamente para os pulmões. Pacientes submetidos a um procedimento de Fontan apresentam risco de múltiplas comorbidades na idade adulta, incluindo arritmias atriais, insuficiência cardíaca, disfunção renal e hepática, trombose venosa e arterial, e embolia. CHD cianótico não reparado Síndrome de Eisenmenger A ES é considerada a consequência de um volume alto de longa data ou shunt pressurizado da esquerda para a direita em que o fluxo sanguíneo excessivo para a vasculatura pulmonar leva a um aumento severo da resistência vascular pulmonar que eventualmente 80 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS resulta na reversão do shunt e cria bidirecional ou fluxo da direita para a esquerda. ES é uma condição de múltiplos órgãos e pode ocorrer com qualquer CHD com um shunt inicial da esquerda para a direita. A história natural da ES é variável e, embora haja morbidade significativa, em geral, os adultos com ES parecem sobreviver mais do que aqueles com outras formas de hipertensão arterial pulmonar. As recomendações de cuidados médicos incluem hidratação adequada e tratamento da anemia, incluindo suplementação de ferro quando apropriado e anticoagulação (embora isso permaneça controverso devido à predisposição ao sangramento e à ocorrência de hemoptise clínica, que tem sido frequentemente associada à trombose vascular pulmonar). A elevação do hematócrito acima do que é considerado adequado para o grau de cianose pode ser tratada em pacientes sintomáticos apenas por hidratação ou, ocasionalmente, pela realização de flebotomia com reposição isovolumétrica. Nesse contexto, a flebotomia de rotina em adultos assintomáticos com ES é contraindicada. Foi demonstrado que a otimização apropriada dos estoques de ferro melhora a qualidade de vida e o desempenho funcional em adultos com deficiência de ferro com ES. A contracepção para mulheres com ES em idade fértil é fortemente recomendada, desde que se evite o uso de estrogênio, que pode ser trombogênico. A gravidez é contraindicada para essas mulheres por causa do alto risco de mortalidade materna. Evidências recentes sugerem que o uso de vasodilatadores pulmonares seletivos, como bosentana ou sildenafil, pode ser eficaz na ES. Pacientes selecionados podem ser candidatos ao transplante combinado de coração e pulmão ou, de preferência, ao transplante de pulmão com reparo concomitante do defeito intracardíaco, se possível. Considerações globais À medida que os padrões de sobrevivência melhoram para todos os pacientes clinicamente complexos, o internista e o clínico geral se deparam com desafios e dilemas específicos; acima de tudo, o acúmulo de conhecimento e competência suficientes para ser capaz tanto de se envolver na prestação de cuidados ao paciente quanto de buscar maior expertise, orientação e apoio, quando apropriado. Em todo o mundo, o cuidado ao longo da vida para adultos com CHD exemplifica essa demanda crescente. Nesse contexto, o atendimento a adultos com CHD em centros de atendimento médico, os quais contêm um programa de atendimento especializado em ACHD, foi associado à melhora da sobrevida geral. No entanto, as análises atuais sugerem que a maioria dos adultos com CHD procura e recebe cuidados médicos fora de tais centros de especialidades ACHD e nas mãos do clínico geral, internista e cardiologista. Sob uma superfície de adaptabilidade e determinação, adultos com CHD apresentam um amplo espectro de 81 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I desempenho cognitivo e funcional, múltiplas comorbidades de sistemas de órgãos, anormalidades da vasculatura sistêmica e pulmonar e uma presença quase universal de insuficiência cardíaca emum estágio ou outro, em todo um tempo de vida. Parece que cabe ao especialista em ACHD e aos centros de cuidados especializados em ACHD servir como um centro para profissionais em parceria, encorajar o engajamento ao nível das competências mais altas e fornecer educação, supervisão e apoio, de modo a alcançar resultados ideais. Segue abaixo duas aulas sobre fisiopatologia de cardiopatias congênitas: » Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RCwjIpOy1w8. Acesso em: 14 jan. 2021. » Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cJsweqkcTLk. Acesso em: 14 jan. 2021. 82 UNIDADE IIEXAMES LABORATORIAIS CAPÍTULO 1 Marcadores de lesão do miocárdio Marcadores de danos miocárdicos Os marcadores bioquímicos de dano miocárdico foram descobertos no início dos anos 1950, quando LaDue e seus colegas estavam investigando as enzimas transaminases, então conhecidas como transaminase glutâmica oxalacética e transaminase glutâmica pirúvica; agora alanina aminotransferase e aspartato aminotransferase. Durante o levantamento de vários pacientes de hospitais, os pesquisadores notaram que os níveis de transaminases séricas aumentaram drasticamente após um IAM e, portanto, nasceu a era das “enzimas cardíacas”. O princípio básico simples, como acontece com outros marcadores de órgãos, é que a morte celular causará a liberação de proteínas celulares na circulação. As transaminases não resistiram como marcadores cardíacos devido à sua abundância no fígado, no músculo esquelético e em outros tecidos. Eles foram logo substituídos no diagnóstico cardíaco por duas outras enzimas, lactato desidrogenase (LD) e creatinofosfoquinase (CK). LD é uma enzima que contém zinco, a qual faz parte da via glicolítica e é encontrada em praticamente todas as células do corpo. Ele utiliza nicotinamida adenina dinucleotídeo (NADH) reduzido para catalisar a redução de piruvato a lactato e nicotinamida adenina dinucleotídeo em catalisar a reação reversa, tornando simples o ensaio dessa enzima, porque o aparecimento ou desaparecimento de NADH pode ser facilmente monitorado a 340 nm. A CK transfere fosfato de alta energia entre a creatina e o difosfato de adenosina, principalmente nas células musculares, mas é encontrada em todos os tipos de músculo, no cérebro e outros tecidos. Com ambas as enzimas, a especificidade cardíaca melhorada foi alcançada por meio da separação das isoenzimas. LD é um tetrâmero de duas subunidades ativas, H (para coração) e M (para músculo), com peso molecular de 134 kDa. As combinações de subunidades produzem cinco isoenzimas que variam de LD1 (HHHH) a LD5 (MMMM); as isoenzimas intermediárias contêm combinações diferentes de subunidades H e M (LD2, HHHM; 83 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II LD3, HHMM; LD4, HMMM). Como os nomes das subunidades indicam, o LD1 é relativamente abundante no músculo cardíaco, enquanto o LD5 é mais abundante no músculo esquelético. Os pacientes com IM exibem um padrão característico de LD “invertido”, em que o achado normal LD2 > LD1 é revertido. A CK é encontrada predominantemente como um dímero de subunidades catalíticas, cada uma com um peso molecular de cerca de 40 kDa; as duas subunidades são denominadas M (para músculo) e B (para cérebro). As três isoenzimas resultantes são CK1 (BB), CK2 (MB) e CK3 (MM). Nesse contexto, a CK é encontrada em pequenas quantidades por todo o corpo, mas em altas concentrações apenas no músculo e no cérebro, embora a CK do cérebro virtualmente nunca cruze a barreira hematoencefálica para alcançar o plasma. No músculo esquelético, a fração de creatinofosfoquinase MB (CK-MB) é responsável por 0% a 1% da CK total nas fibras do tipo 1, e 2% a 6% da CK nas fibras do tipo 2. Durante a regeneração do músculo esquelético, quantidades aumentadas de CK-MB são produzidas em relação à CK-MM, semelhante ao padrão observado no músculo fetal. No coração normal, uma média de 15% a 20% da CK é CK-MB; sua distribuição não é uniforme, com o percentual de CK-MB maior no lado direito do coração do que no esquerdo. A CK-BB é a isoenzima dominante da CK encontrada no cérebro, intestino e músculo liso. No passado, os laboratórios clínicos normalmente analisariam as isoenzimas CK e LD para melhorar o desempenho diagnóstico geral, especialmente porque as duas enzimas exibem cinéticas diferentes, com alterações no LD observáveis por um tempo muito mais longo do que as alterações na CK. As análises de isoenzimas foram relativamente demoradas e tediosas, geralmente envolvendo separação eletroforética, seguida pelo desenvolvimento de cor ou fluorescência por meio de substratos adequados e varredura densitométrica. Consequentemente, esses testes só podiam ser realizados uma vez por dia. Essa situação era aceitável em um momento no qual os pacientes de “descarte de infarto do miocárdio” geralmente eram internados no hospital por, pelo menos, um período de vários dias de observação. Um grande avanço foi o desenvolvimento de ensaios imunométricos sensíveis para proteínas por meio de tecnologia de anticorpos monoclonais. Com essa tecnologia, foi possível desenvolver um “ensaio de massa” de CK-MB que não dependia da atividade enzimática da proteína. Mais importante, proporcionou a oportunidade de desenvolver marcadores de órgãos que não eram enzimas tradicionais, levando ao advento dos testes de troponina. A eletroforese de alta resolução de CK sérica revela que as isoenzimas MM e MB são heterogêneas, com MB tendo duas sub-bandas e MM três sub-bandas. Essas espécies, 84 UNIDADE II | EXAMES LABORATORIAIS conhecidas como isoformas, surgem mediante a ação da carboxipeptidase no soro, clivando a lisina terminal da subunidade M. Assim, a isoenzima MB pode ser não modificada (MB0) ou pode ter uma lisina clivada (MB1), enquanto a isoenzima MM pode ser não modificada (MM0) ou pode ter uma (MM1) ou duas (MM2) lisinas clivadas. Como a clivagem enzimática ocorre durante um período de horas após a liberação da enzima não modificada no sangue, uma fração relativamente alta da isoforma não modificada pode servir como um indicador de dano tecidual recente, como em um IM agudo. Esse teste oferece sensibilidade precoce aprimorada para detecção de IM agudo em relação ao ensaio de massa CK-MB, mas requer uma estação de trabalho de eletroforese dedicada e, por esse motivo, tinha uso um tanto limitado, mesmo antes da era da troponina. Troponina cardíaca A troponina (Tn) é um complexo regulador de três proteínas que reside em intervalos regulares no fino filamento do músculo estriado. As três proteínas individuais são a subunidade de ligação à tropomiosina (TnT, 37 kDa), a subunidade inibitória (TnI, 24 kDa) e a subunidade de ligação ao cálcio (TnC, 18 kDa). O gatilho Ca++ para a contração muscular é transmitido por intermédio do complexo Tn, que causa uma mudança conformacional em outro componente de filamento fino, a tropomiosina, permitindo que a interação entre a actina e a miosina prossiga. Em contraste com quase todas as outras proteínas musculares, as formas de Tn encontradas nos músculos esquelético e cardíaco diferem. Para TnC, as formas encontradas nas fibras do tipo 2 e no músculo cardíaco são idênticas, impossibilitando seu uso como marcador diferencial. A TnI tem uma forma cardioespecífica (troponina I), bem como formas distintas nas fibras musculares esqueléticas dos tipos 1 e 2, cada uma codificada por um gene separado. A presença da forma cardioespecífica em outro tecido que não o músculo cardíaco nunca foi documentada. A TnT também tem formas distintas no miocárdio (troponina T) e no músculo esquelético de contração rápida e lenta, mas a situação é mais complicada, porque a troponina T foi detectada no músculo esquelético fetal e no músculo esquelético doente. No entanto, as modificações pós-translacionais causam diferenças detectáveis entre a troponina T produzida no miocárdio e a troponina T produzida no músculo esquelético doente. Portanto, um teste imunoquímicopara troponina T com anticorpos cuidadosamente escolhidos, como a geração atual (mas não gerações anteriores) de ensaios comerciais de troponina T, deve ter especificidade miocárdica próxima de 100%. No entanto, pequenos aumentos na troponina T circulante, mesmo com ensaios mais recentes, foram relatados em pacientes com distrofia muscular e insuficiência 85 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II renal sem outras evidências de doença cardíaca. Nos miócitos cardíacos, a troponina T e a troponina I ligam-se predominantemente às fibras musculares, e essa forma ligada é liberada lentamente ao longo de 1 a 2 semanas após o infarto do miocárdio. Assim, embora troponina I e troponina T sejam proteínas relativamente pequenas, que são eliminadas rapidamente, seus níveis plasmáticos caem lentamente após a lesão cardíaca. Uma pequena fração da troponina na célula miocárdica está livre dentro do citoplasma; isto é, em média 6% para troponina T e ligeiramente inferior (2%-5%) para troponina I. A fração livre permite o vazamento precoce das células miocárdicas lesadas e a detecção em um período semelhante ao da CK-MB, com a troponina que atinge um pico cerca de 24 horas após o IAM. Por causa da liberação lenta da troponina ligada à fibra, o rápido declínio na troponina circulante, logo após seu pico, é tipicamente seguido por um platô ou mesmo um pequeno aumento secundário. É importante que esse aumento não seja interpretado como evidência de reinfarto. A troponina circulante diminui para os níveis basais em cerca de 5 a 10 dias, dependendo do tamanho do infarto. Em contraste com outros marcadores cardíacos, troponina T e troponina I estão quase ausentes no soro normal. Com os melhores testes amplamente utilizados atualmente, que têm limites de detecção em torno de 0,01 ng/mL, muitos indivíduos saudáveis apresentam níveis indetectáveis, portanto a faixa normal não está bem definida. O 99º percentil da população saudável é de cerca de 0,04 ng/mL, dependendo do ensaio. Níveis acima desse limite são quase certamente indicativos de dano ao miócito, mas possivelmente revelam uma quantidade muito menor de dano do que era detectável com marcadores cardíacos anteriores, como CK-MB. Com o advento do teste de troponina, tornou-se claro que o dano aos miócitos pode ocorrer em muitas circunstâncias além da obstrução da artéria coronária, de modo que são observadas elevações de troponina na pericardite, miocardite, embolia pulmonar, insuficiência renal, sepse e outras doenças críticas. Exercícios intensos prolongados, como correr uma maratona, podem causar pequenas elevações. Ademais, descobriu-se que recém-nascidos saudáveis apresentam níveis de até 3,0 ng/mL. Por fim, pequenas elevações medidas em troponina também podem ser artefatos analíticos. Outros marcadores Mioglobina A mioglobina é uma proteína com heme que liga o oxigênio ao músculo cardíaco e esquelético; apenas uma única forma é comum a ambos os tipos de músculos. Tendo 86 UNIDADE II | EXAMES LABORATORIAIS um peso molecular de apenas 18 kDa, a mioglobina aparentemente vaza das células danificadas mais rapidamente do que outras proteínas. Após o IM, a mioglobina elevada pode ser detectada no plasma antes da CK-MB ou troponina. No entanto, com os ensaios de troponina mais recentes e mais sensíveis, não está claro com que frequência isso pode ocorrer. Normalmente, a mioglobina atinge seu pico cerca de 6 horas após o IAM e retorna à linha de base após 24 horas. Embora a mioglobina possa oferecer alguma vantagem na detecção precoce de dano miocárdico, seu valor é limitado por falta de especificidade. Anidrase carbônica III A anidrase carbônica III (CA III) é uma enzima presente no músculo esquelético, mas não no músculo cardíaco e, portanto, pode servir como uma espécie de marcador cardíaco “negativo”. É liberado do músculo danificado, em uma proporção razoavelmente fixa, em relação à mioglobina. Assim, a mioglobina é um indicador mais específico de dano miocárdico quando sua proporção para CA III também é elevada. Glicogênio fosforilase A glicogênio fosforilase (GP) é uma enzima amplamente distribuída que catalisa a primeira etapa da glicogenólise. Dímero de subunidades idênticas, possui três isoenzimas caracterizadas, nomeadas pelo tecido em que são mais expressas; GPLL (fígado), GPMM (músculo) e GPBB (cérebro). O GPBB também é expresso no miocárdio, assim como em outros tecidos, mas não é encontrado no músculo esquelético, que contém apenas GPMM. A utilidade potencial do GPBB é que ele parece ser liberado mais cedo do que outros marcadores e pode, de fato, ser liberado sob condições de isquemia reversível que não dão origem a elevações comparáveis em outros marcadores. No entanto, as comparações com os modernos ensaios de troponina foram limitadas. Proteína de ligação ao ácido graxo do coração A proteína de ligação aos ácidos graxos do coração (H-FABP) é uma proteína de baixo peso molecular (15 kDa) e um marcador relativamente precoce de dano miocárdico, com cinética semelhante à da mioglobina. Não é específico do coração e, portanto, não parece oferecer vantagens sobre a mioglobina. No entanto, a proporção de mioglobina para H-FABP é muito menor no coração do que no músculo esquelético e pode ter aplicabilidade diagnóstica. 87 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II Miosina A miosina constitui o filamento espesso do aparelho contrátil do músculo e é composta por um par de cadeias pesadas (200 kDa) e um par de cadeias leves do tipo I e do tipo II (20–26 kDa). Vários desses componentes foram examinados como marcadores cardíacos, mas não foi possível atingir a especificidade cardíaca completa com miosina, bem como não está claro se isso ofereceria quaisquer vantagens importantes. Albumina modificada por isquemia A albumina modificada com isquemia (AMI) é um tipo único de marcador cardíaco (aprovado pela FDA em 2003) que não é uma proteína liberada por miócitos danificados. Em vez disso, o teste detecta uma forma variante de albumina com uma afinidade reduzida para íons de metal perto do terminal N. A variante é medida por uma determinação espectrofotométrica da ligação de Co++. É postulado que surge da interação da albumina com os radicais livres em locais de isquemia tecidual. A vantagem teórica do teste é que ele detecta a isquemia antes que ocorra dano celular irreversível. A mudança na albumina parece ocorrer minutos após a isquemia e dura cerca de 6 horas. O teste claramente não é específico para isquemia cardíaca, mas parece ter uma sensibilidade clínica de 80%-90% para SCA no momento da apresentação – maior do que a do ECG. A especificidade clínica, no contexto do diagnóstico de emergência da SCA, pode rondar os 50%. Qualquer um com AMI elevado, ECG positivo ou troponina elevada como resultado positivo apresenta teste para SCA com valor preditivo negativo muito alto, mas baixo valor preditivo positivo. Mais dados prospectivos serão necessários para estabelecer o papel clínico desse teste incomum. Procedimentos de ensaio A medição de marcadores cardíacos evoluiu da medição da atividade enzimática total para separações de isoenzimas eletroforéticas ou cromatográficas, até a era atual de tecnologia de imunoensaio sofisticada. Troponina e outros marcadores de proteína são universalmente medidos por ensaios imunométricos sensíveis que empregam anticorpos monoclonais. Eles podem ser automatizados para alto volume e disponibilidade 24 horas por dia ou, alternativamente, adaptados para testes laboratoriais remotos. Em contraste, o teste AMI é um ensaio colorimétrico que está disponível comercialmente em analisadores químicos padrão de alto rendimento. Apesar da sensibilidade e especificidade impressionantemente altas dos modernos ensaios imunométricos, estes têm limitações intrínsecas que devem ser bem reconhecidas no caso da troponina. Todas as proteínas, devido às modificações pós-traducionais, são 88 UNIDADE II | EXAMES LABORATORIAIS analitosheterogêneos, mas a cTn, que se origina em um complexo de proteínas que se degrada à medida que é liberada na circulação, é especialmente assim.. As formas circulantes que foram identificadas incluem um complexo ternário troponina T -IC, troponina I- C binário, troponina T livre (mas não troponina I livre), formas oxidadas (troponina I, mas não troponina T que contém resíduos de cisteína, os quais podem ser oxidados para formar uma ligação dissulfeto intramolecular), formas fosforiladas e formas degradadas. Evidentemente, certos epítopos são bloqueados ou modificados em algumas dessas formas, porque diferenças maiores que 20 vezes foram observadas em sua reatividade com diferentes ensaios comerciais para troponina I. O problema não surge da mesma forma para a troponina T, porque os ensaios são atualmente comercializados por apenas um fabricante. Um material de referência certificado para troponina foi preparado, mas demonstrou comutabilidade apenas com amostras de plasma troponina para metade dos ensaios comerciais. Os resultados da troponina I sempre demonstrarão alguma inconsistência entre os métodos, a menos que os fabricantes adotem o uso de anticorpos muito semelhantes. Outro problema é que, como o nível normal de troponina plasmático é muito baixo, mesmo um grau minúsculo de interferência do ensaio pode elevar um resultado para a faixa anormal, sugerindo uma forte possibilidade de doença isquêmica. Isso pode levar a procedimentos invasivos desnecessários, como a angiografia coronária. Vários ensaios de troponina I foram de fato considerados suscetíveis a interferências de anticorpos heterofílicos, fibrina e outras substâncias. Também foi relatada interferência negativa devido a autoanticorpos. Intervalos de referência e pontos de decisão têm causado alguma confusão, mas de acordo com as diretrizes recentes, há uma tendência geral de uso do percentil 99 da população saudável como o ponto de corte para troponina elevada. É desejável que a precisão do ensaio esteja dentro de um coeficiente de variação de 10% nesse ponto de corte, e isso é possível por causa dos ensaios mais recentes. À medida que a precisão inferior dos ensaios troponina melhora, fica cada vez mais aparente que o 99º percentil pode variar, dependendo da população de referência escolhida, e que os níveis abaixo do 99º percentil podem ter significado clínico. Protocolos clínicos Diagnóstico de SCA O diagnóstico de IM evoluiu de um processo um tanto vagaroso que abrange vários dias de internação hospitalar para uma tarefa urgente realizada, em grande parte, no 89 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II departamento de emergência e, às vezes, em um centro especializado em dor torácica. Embora o diagnóstico frequentemente seja direto, o desafio é atingir um nível muito alto de precisão. O diagnóstico falhado de SCA, que pode ocorrer em cerca de 2% dos casos, acarreta risco aumentado de mortalidade. Por outro lado, a prática conservadora de internação hospitalar para a maioria dos pacientes com suspeita de SCA gasta bilhões de dólares desnecessariamente, pois dois terços desses pacientes acabam não tendo SCA. Os marcadores bioquímicos desempenham um papel secundário no manejo inicial de pacientes com suspeita de SCA. Nesse sentido, a tomada de decisão mais precoce, que idealmente deve ocorrer dentro de 10 minutos da chegada do paciente ao pronto- socorro, é baseada na história, no exame físico e no ECG de 12 derivações. O ECG pode estabelecer o diagnóstico de IAMCSST, momento em que o paciente é candidato à intervenção imediata para restaurar o fluxo sanguíneo coronário. Os resultados dos marcadores bioquímicos não são necessários antes que essas intervenções sejam fornecidas e, de fato, provavelmente serão negativos nesse momento inicial. Se o ECG inicial for negativo para IAMCSST, os marcadores bioquímicos assumem uma importância crescente. A escolha de marcadores e pontos de tempo para o teste variou entre as instituições, mas agora é geralmente aceito que troponina é o marcador preferido, com pouca escolha entre I e T. A troponina não aumenta até várias horas após o início da necrose de miócitos, então uma amostra obtida no momento da apresentação provavelmente será negativa, e uma ou duas amostras adicionais devem ser colhidas em intervalos de 6 a 9 horas. O diagnóstico de IAMSSST é estabelecido por resultados de biomarcadores positivos com mudanças apropriadas ao longo do tempo. Resultados de biomarcadores negativos com alterações isquêmicas de ECG (depressão de ST ou inversões da onda T) ou outras evidências podem estabelecer o diagnóstico de AI. Esses dois diagnósticos são tratados de forma semelhante, possivelmente com terapia de abertura arterial invasiva. Se, após várias horas, os sintomas do paciente tiverem remitido e os achados do ECG e bioquímicos forem consistentemente negativos, então uma SCA foi efetivamente descartada. Para maior segurança, antes de o paciente receber alta, um teste provocativo para DAC é comumente realizado, como um teste simples de ECG de esforço, imagem nuclear mais elaborada ou um teste de esforço ecocardiográfico. Esses testes devem estar rápida e continuamente disponíveis para que o PS atinja a alta hospitalar desejada dos pacientes de baixo risco. Eles têm as desvantagens de despesas e números significativos de resultados falso-positivos e falso-negativos, dependendo da modalidade de teste escolhida. 90 UNIDADE II | EXAMES LABORATORIAIS Considerando que tanto o atendimento clínico quanto o fluxo do paciente no pronto-socorro exigem avaliação rápida de risco, os resultados dos testes de marcadores cardíacos devem estar disponíveis rapidamente. É comumente defendido que o teste laboratorial remoto seja considerado quando o laboratório central não puder fornecer resultados confiáveis em cerca de 1 hora. Nesse contexto, os testes qualitativos e quantitativos para marcadores cardíacos que são adequados para testes laboratoriais remotos estão agora disponíveis e têm demonstrado eficácia. Outras aplicações Além de descartar o diagnóstico de IAM, o teste de troponina pode ser útil para determinar o prognóstico e ajustar o tratamento. Níveis mais elevados de troponina indicam um maior volume de músculo infartado e um pior prognóstico. Uma única amostra obtida entre 72 a 96 horas após o evento parece ser mais útil para avaliação do tamanho do infarto. Embora mais experiência tenha sido adquirida no teste de reinfarto por meio de CK-MB, que diminui mais rapidamente após um infarto do miocárdio não complicado do que a troponina, parece que a última pode ser igualmente eficaz no diagnóstico de reinfarto. Quando houver suspeita clínica de reinfarto, uma amostra de sangue deve ser colhida imediatamente e após 3-6 horas. Um aumento da troponina > 20%, com valor absoluto que excede o percentil 99, confirma o diagnóstico. As medições de troponina podem sugerir resultados adversos após procedimentos como intervenção coronária percutânea (ICP) e cirurgia cardíaca. Como esses procedimentos podem estar intrinsecamente associados a algum grau de dano ao miócito, é difícil justificar diretrizes firmes para definir IM periprocedimento. As recomendações gerais apresentadas incluem o seguinte: o aumento de mais de três vezes o percentil 99 indica IM relacionado a ICP; e o aumento de mais de cinco vezes o percentil 99 durante as primeiras 72 horas após uma cirurgia de revascularização do miocárdio, quando associado a outras evidências clínicas, indica IM periprocedimento. Ademais, a cardioversão, seja externa ou interna, causa elevação mínima ou nenhuma elevação na troponina. As transaminases, LD e isoenzimas LD não são mais recomendadas como marcadores cardíacos. Por fim, o teste de CK-MB persistiu até certo ponto na era da troponina, mas como há poucas ou nenhuma situação em que ele fornece informações adicionais, geralmente não é considerado um acréscimo de custo-benefício ao teste de troponina. Disponívelem: https://www.youtube.com/watch?v=V6rDSCE7YpE. Acesso em: 14 jan. 2021. 91 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uXT7kngDtuA. Acesso em: 14 jan. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=d9o9-uFqPcE. Acesso em: 14 jan. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GdKR622rots. Acesso em: 14 jan. 2021. 92 CAPÍTULO 2 Marcadores de risco coronariano Marcadores de risco coronário A DAC é uma doença crônica do envelhecimento e, obviamente, a abordagem mais desejável para o tratamento é prevenir ou minimizar seu desenvolvimento. Nosso entendimento da causa da DAC ainda é incompleto, portanto medidas preventivas definitivas não são previsíveis nesse momento. No entanto, muitas linhas de evidência, sendo as mais importantes os grandes estudos epidemiológicos, identificaram vários fatores de risco associados à DAC. A maioria desses fatores de risco diz respeito não apenas ao coração, mas também aos processos gerais de aterosclerose e/ou trombose. Portanto, eles têm implicações importantes para o AVC e para a doença vascular periférica. Dos fatores de risco que podem ser identificados pelo laboratório clínico, o primeiro identificado, e ainda um dos mais importantes, é o colesterol sérico. Na verdade, é a fração LDL do colesterol, que geralmente contém cerca de 70% do colesterol total circulante, que está diretamente associada ao risco; a fração de lipoproteína de alta densidade é, realmente, um fator de risco negativo. A outra classe lipídica importante comumente medida no plasma, os triglicerídeos, tem sido um assunto controverso, mas agora é geralmente aceita como um fator de risco significativo. Além dos lipídios, uma ampla gama de constituintes do plasma tem sido relacionada ao risco de DAC. Isso inclui vários nutrientes, hormônios, fatores de coagulação, drogas, toxinas, oxidantes, antioxidantes e marcadores de inflamação ou infecção. Neste capítulo, apenas dois marcadores que parecem ser relativamente importantes serão discutidos: PCR e Hcy. Proteína C reativa Isolada pela primeira vez, em 1930, do plasma de pacientes com pneumonia pneumocócica, a PCR recebeu esse nome porque se liga ao polissacarídeo C do pneumococo. Posteriormente, foi descoberto que a proteína apareceu no plasma durante muitas condições infecciosas ou inflamatórias, e a PCR foi o reagente de fase aguda original. A PCR foi caracterizada como um membro da família de proteínas da pentraxina, composto por cinco protômeros, cada um com 206 aminoácidos e peso molecular 23 kDa, dispostos em simetria cíclica. Com a participação de íons Ca ++, 93 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II liga-se a várias proteínas e fosfolipídios, principalmente à fosfocolina. Ele opsoniza partículas e ativa o complemento por meio da via clássica, mas sua função biológica real é desconhecida. No plasma de indivíduos normais, a concentração mediana de PCR é de, aproximadamente, 1 mg/L e o percentil 99, de 10 mg/L. Em indivíduos com doença aguda, as citocinas, principalmente a interleucina-6, estimulam a produção hepática de PCR e os níveis plasmáticos aumentam para 300 mg/L ou mais. A PCR plasmática está aumentada em uma variedade de distúrbios, incluindo a maioria das infecções bacterianas (mas geralmente não virais). O IAM está entre as doenças agudas associadas à elevação da PCR plasmática. Nesse contexto, estudos epidemiológicos estabeleceram que indivíduos com níveis basais mais elevados de PCR plasmática apresentam risco aumentado de DAC e AVC. A elevação da PCR plasmática que confere risco coronariano excessivo é mínima em comparação com os aumentos de cem a mil vezes que ocorrem com doenças inflamatórias ou infecciosas evidentes. Por esse motivo, o teste de PCR relacionado ao risco cardíaco recebeu o nome um tanto enganoso de PCR de alta sensibilidade. Na verdade, mesmo em concentrações em torno de 1 mg/L ou menos, a PCR é uma proteína plasmática relativamente abundante, que não requer as técnicas mais sensíveis (ou caras) para uma medição precisa. Métodos como a nefelometria, que havia sido estabelecida para medir a PCR como um marcador inflamatório, foram prontamente adaptados para os testes de PCR ultrassensível; as principais diferenças envolvem o grau de diluição e calibração. Ensaios comerciais de PCR ultrassensível têm precisão adequada e a estabilidade em longo prazo de PCR ultrassensível em pacientes individuais parece ser comparável com o de outros fatores de risco, tais como pressão sanguínea e colesterol. Embora diversas evidências apontem para um papel da inflamação na doença coronariana, um mecanismo preciso para a relação entre a PCR plasmática e o risco de doença coronariana ainda não existe. Uma questão-chave ainda não resolvida é se a elevação da PCR é causa ou consequência da doença (ou possivelmente ambas). A resposta inflamatória associada a lesões ateromatosas pode desencadear a suficiente produção de citocinas para estar associada a um aumento mensurável na PCR plasmática. A PCR pode, por sua vez, por meio de seus efeitos pró-inflamatórios, aumentar a vulnerabilidade da placa ou ter outros efeitos que agravam a DAC. Outra possibilidade intrigante é que o risco associado à PCR esteja relacionado à produção de citocinas pelos adipócitos e que a PCR seja essencialmente um marcador bioquímico da síndrome metabólica recentemente reconhecida. 94 UNIDADE II | EXAMES LABORATORIAIS Dadas as variações nas estimativas de risco quantitativas, o papel claro de PCR na patogênese da doença vascular e a falta de tratamento específico em alta PCR, tem sido controversa a utilidade do teste de PCR ultrassensível em pacientes. Uma comissão conjunta dos Centers for Disease Control and Prevention e da American Heart Association emitiu recomendações em 2003. Na sequência de um estudo recente em que os benefícios da terapia com estatinas foram demonstrados em indivíduos com colesterol LDL relativamente baixo, mas alta PCR, sugere-se que os homens assintomáticos com mais de 50 anos e mulheres assintomáticas com mais de 60 anos devam ser rastreados por PCR quando LDL não é elevado. Homocisteína Homocisteína (Hcy) é um aminoácido com enxofre que não é incorporado à proteína, mas é um intermediário metabólico; pode ser metilado para formar metionina ou pode ser convertido, através da via de transulfuração, em cistationina e, depois, em cisteína. A Hcy pode existir no plasma como a espécie com um grupo sulfidrila livre, como dissulfeto (homocistina) ou dissulfeto misto, ligado a uma proteína plasmática por meio de um de seus resíduos de cisteína. É a soma destes que pode ser referida como “homocisteína total” ou simplesmente “homocisteína”, que geralmente é medida. Níveis excessivos de Hcy circulante geralmente refletem a atividade diminuída de uma das enzimas envolvidas em seu metabolismo. A síndrome clássica de homocistinúria, descrita pela primeira vez em 1962, é causada por um defeito homozigoto na enzima cistationina-β- sintase (CBS). Isso resulta em níveis circulantes muito elevados das várias formas de Hcy e metionina. As manifestações clínicas incluem deslocamento da lente óptica, osteoporose com anormalidades esqueléticas associadas, retardo mental, distúrbio psiquiátrico e doença tromboembólica, como DAC. A base dos efeitos prejudiciais da Hcy é incerta. Em um nível bioquímico, o estresse oxidativo e a inibição das reações de transmetilação são possibilidades prováveis. Os efeitos celulares que foram documentados em sistemas experimentais incluem lesão endotelial, alteração do metabolismo do óxido nítrico, ativação plaquetária e proliferação do músculo liso. Parte da toxicidade da Hcy pode ser derivada de sua conversão enzimática em tiolactona Hcy, que pode modificar o LDL e aumentar sua absorção pelos macrófagos. O desenvolvimento de Hcy, como um marcador de risco de DAC em alguns aspectos, é paralelo ao do colesterol: a ocorrência regular de aterosclerose emser importantes, como aumento da rigidez vascular e insuficiência renal. Mecanismos básicos de IC IC com fração de ejeção reduzida: a remodelação do VE se desenvolve em resposta a uma série de eventos complexos que ocorrem nos níveis celular e molecular. Essas alterações incluem hipertrofia dos miócitos; alterações nas propriedades contráteis do miócito; perda progressiva de miócitos por necrose, apoptose e morte celular autofágica; dessensibilização β-adrenérgica; energia e metabolismo miocárdico anormais; e reorganização da matriz extracelular com dissolução do tecido de colágeno estrutural organizado em torno dos miócitos e subsequente substituição por uma matriz de colágeno intersticial que não fornece suporte estrutural aos miócitos. Os estímulos biológicos para essas mudanças profundas incluem alongamento mecânico do miócito, neuro-hormônios circulantes (por exemplo, norepinefrina, angiotensina II), citocinas inflamatórias (por exemplo, fator de necrose tumoral [TNF]), outros 13 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I peptídeos e fatores de crescimento (por exemplo, endotelina), e espécies reativas de oxigênio (por exemplo, superóxido). A superexpressão sustentada dessas moléculas biologicamente ativas contribui para a progressão da IC em virtude dos efeitos deletérios que exercem sobre o coração e a circulação. O raciocínio clínico baseia-se na utilização de agentes farmacológicos que antagonizam esses sistemas (por exemplo, inibidores da ECA) no tratamento a pacientes com IC. Para entender como as mudanças que ocorrem na insuficiência do miócito cardíaco contribuem para a função sistólica do VE deprimida na IC, é instrutivo primeiro revisar a biologia da célula do músculo cardíaco. A ativação neuro-hormonal sustentada e a sobrecarga mecânica resultam em alterações transcricionais e pós-transcricionais nos genes e nas proteínas que regulam o acoplamento excitação-contração e a interação de ponte cruzada. As alterações que regulam a contração da excitação incluem a diminuição da função do retículo sarcoplasmático (RS) Ca2 + adenosina trifosfatase (SERCA2A), resultando na diminuição da captação de cálcio no RS e hiperfosforilação do receptor de rianodina, o que provoca o vazamento de cálcio do RS. As mudanças que ocorrem nas pontes cruzadas incluem expressão diminuída da cadeia pesada de α-miosina e expressão aumentada da cadeia pesada de β-miosina, miocitólise e ruptura das ligações citoesqueléticas entre os sarcômeros e a matriz extracelular. Coletivamente, essas alterações prejudicam a capacidade do miócito de se contrair e, portanto, contribuem para a função sistólica do VE deprimida observada em pacientes com IC. O relaxamento miocárdico é um processo dependente de adenosina trifosfato (ATP) que é regulado pela captação de cálcio citoplasmático para o RS, por SERCA2A e extrusão de cálcio, mediante bombas sarcolemais. Consequentemente, reduções na concentração de ATP, como ocorre na isquemia, podem interferir nesses processos e levar ao relaxamento miocárdico mais lento. Alternativamente, se o enchimento do VE for atrasado porque a complacência do VE é reduzida (por exemplo, por hipertrofia ou fibrose), as pressões de enchimento do VE também permanecerão elevadas no final da diástole. Um aumento na frequência cardíaca reduz de maneira desproporcional o tempo para o enchimento diastólico, o que pode levar a pressões de enchimento do VE elevadas, particularmente em ventrículos não complacentes. As pressões de enchimento diastólico aumentadas do VE resultam em aumentos nas pressões capilares pulmonares, o que pode contribuir para a dispneia dos pacientes com disfunção diastólica. Além do relaxamento miocárdico prejudicado, o aumento da rigidez miocárdica secundária à hipertrofia cardíaca e o aumento do conteúdo de colágeno miocárdico podem contribuir para a insuficiência diastólica. É importante 14 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS ressaltar que a disfunção diastólica pode ocorrer sozinha ou em combinação com a disfunção sistólica em pacientes com IC. Remodelação do ventrículo esquerdo A remodelação ventricular refere-se às mudanças na massa, no volume, na forma do VE e na composição do coração, as quais ocorrem após lesão cardíaca e/ou condições anormais de carga hemodinâmica. A remodelação do VE contribui para a progressão da IC em virtude das cargas mecânicas que são engendradas pelas alterações na geometria do VE remodelado. Além do aumento do volume diastólico final do VE, ocorre estreitamento da parede do VE quando o ventrículo esquerdo começa a dilatar. O adelgaçamento da parede, junto com o aumento da pós-carga criado pela dilatação do VE, leva a uma incompatibilidade de pós-carga funcional que pode contribuir ainda mais para a diminuição do volume sistólico. Além disso, pode-se esperar que o alto estresse da parede diastólica final cause a hipoperfusão do subendocárdio, com piora resultante da função do VE; aumento do estresse oxidativo, com a ativação resultante de famílias de genes que são sensíveis à geração de radicais livres (por exemplo, TNF e interleucina 1β); e expressão sustentada de ativação por estiramento de vias de sinalização hipertróficas. O aumento da dilatação do VE também resulta em ancoramento dos músculos papilares, incompetência do aparelho valvar mitral e regurgitação mitral funcional, que, por sua vez, ocasiona sobrecarga hemodinâmica adicional do ventrículo. Em conjunto, as cargas mecânicas engendradas pela remodelação do VE contribuem para a progressão da IC. Estudos recentes demonstraram que a remodelação do VE pode ser revertida após terapia médica e com dispositivo, e que a remodelação reversa do VE está associada a melhores resultados clínicos em pacientes com ICFr. De fato, um dos objetivos da terapia para IC é prevenir e/ou reverter a remodelação do VE. Manifestações clínicas Sintomas Os principais sintomas da IC são fadiga e falta de ar. Embora a fadiga tenha sido tradicionalmente atribuída ao baixo débito cardíaco na IC, é provável que as anormalidades do músculo esquelético e outras comorbidades não cardíacas (por exemplo, anemia) também contribuam para esse sintoma. Nos estágios iniciais da IC, a dispneia é observada apenas durante os esforços; no entanto, conforme a doença progride, a dispneia ocorre com atividades menos extenuantes e, em última análise, pode 15 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I ocorrer mesmo em repouso. A origem da dispneia na IC é provavelmente multifatorial. Nesse sentido, o mecanismo mais importante é a congestão pulmonar com acúmulo de líquido intersticial ou intra-alveolar, que ativa os receptores J justacapilares, os quais estimulam a respiração rápida e superficial, característica da dispneia cardíaca. Outros fatores que contribuem para a dispneia aos esforços incluem redução da complacência pulmonar, aumento da resistência das vias aéreas, fadiga dos músculos respiratórios e/ou diafragma e anemia. A dispneia pode se tornar menos frequente com o início de insuficiência ventricular direita (VD) e regurgitação tricúspide. Ortopneia A ortopneia, definida como dispneia, que ocorre em decúbito dorsal, é geralmente uma manifestação posterior à IC quando comparada à dispneia de esforço. Resulta da redistribuição de fluido da circulação esplâncnica e extremidades inferiores para a circulação central durante a decúbito dorsal, com um aumento resultante na pressão capilar pulmonar. A tosse noturna é uma manifestação comum desse processo e um sintoma de IC frequentemente esquecido. A ortopneia geralmente é aliviada quando o indivíduo senta-se ereto ou dorme com travesseiros adicionais. Embora a ortopneia seja um sintoma relativamente específico da IC, pode ocorrer em pacientes com obesidade abdominal ou ascite e em pacientes com doença pulmonar cuja mecânica pulmonar favorece a postura ereta. Dispneia paroxística noturna (DPN) Esse termo se refere a episódios agudos de falta de ar e tosse graves que geralmentepessoas com elevação maciça, devido a um erro inato do metabolismo, levou à hipótese de aumento 95 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II do risco em indivíduos com elevações mais moderadas. Em humanos, elevações leves a moderadas de Hcy podem ter várias causas, como as genéticas, que incluem um defeito heterozigoto no CBS, um defeito na metionina sintetase (raro) ou um defeito na 5,10-metilenotetrahidrofolato redutase (geralmente raro, exceto para uma forma sensível à temperatura, que é relativamente comum). As causas nutricionais incluem uma deficiência de qualquer um dos cofatores de vitaminas envolvidos no metabolismo da Hcy: folato, B12 ou piridoxina (B6). Muitos dos estudos epidemiológicos anteriores pareciam confirmar uma correlação entre níveis moderados de Hcy e DAC. Por exemplo, no Physicians Health Study, foi inicialmente relatado que ter um nível de Hcy nos 5% superiores da população conferia um risco 3 a 4 vezes maior. No entanto, outros estudos, incluindo o acompanhamento de longo prazo no Physicians Health Study e muitos dos estudos maiores e mais recentes, mostraram pouca ou nenhuma associação entre elevações moderadas de Hcy e risco de DAC. Uma metanálise recente apoiou associação moderada entre Hcy e risco de DAC. A ampla suplementação alimentar de folato provavelmente tende a diminuir a Hcy circulante média na população dos EUA, e dados esparsos apoiam os efeitos cardioprotetores da terapia de redução de Hcy. Por essas razões, nenhum conselho geral sobre o rastreamento generalizado de Hcy está disponível. No entanto, a medição da Hcy pode ser garantida em indivíduos que desenvolvem CHD, apesar de apresentarem risco relativamente baixo de acordo com os fatores de risco tradicionais. Hcy tem sido tradicionalmente medida por técnicas cromatográficas. Um método por meio de adenosilação enzimática seguida de imunoensaio foi automatizado no analisador Abbott IMx e métodos puramente enzimáticos adequados para automação também foram introduzidos. Deve-se prestar atenção à coleta e ao armazenamento adequados da amostra para evitar um aumento artefatual na Hcy medida. Disponível em: https://cardiopapers.com.br/proteina-c-reativa-em-cardiologia- qual-a-finalidade-quando-pedir-como-interpretar/. Acesso em: 21 jan. 2021. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/homocisteina-um-alerta- cardiaco-2/. Acesso em: 21 jan. 2021. 96 CAPÍTULO 3 Marcadores de insuficiência cardíaca congestiva Peptídeos natriuréticos cardíacos Em 1981, extratos de átrios de coração de rato foram associados a um efeito natriurético e, em 1984, um peptídeo denominado peptídeo natriurético atrial (ANP) foi isolado do coração humano. Pouco tempo depois, um peptídeo semelhante, denominado peptídeo natriurético cerebral (BNP), foi isolado de cérebro de porco. Acontece que, em humanos, o BNP é produzido principalmente no ventrículo cardíaco, então o hormônio agora é comumente referido como peptídeo natriurético tipo B. A característica comum da família do peptídeo natriurético é uma estrutura em anel 17 amino ácido, fechada por uma ponte de cistina, com homologia substancial entre a membros da família. O peptídeo natriurético tipo C (CNP), descrito em 1990, é produzido não no coração, mas nas células endoteliais. O peptídeo natriurético tipo D (DNP) foi isolado, em 1992, da cobra mamba verde, Dendroaspis angusticeps. A DNP foi posteriormente relatada no plasma humano, mas esse peptídeo não foi definitivamente demonstrado em humanos. Finalmente, a urodilatina é uma forma de ANP com quatro aminoácidos adicionais no N-terminal; é provavelmente produzido no rim por splicing alternativo do mesmo produto genético. A ANP e o BNP foram investigados em relação aos testes para IC; o último provou ser mais útil, de modo que a discussão posterior ficará restrita ao sistema BNP. O BNP circulante deriva de um pró-hormônio de 108 aminoácidos, proBNP, que é clivado dentro do miócito cardíaco pela endoprotease furina em um fragmento C-terminal de 32 aminoácidos, o BNP ativo e um fragmento N-terminal inativo, N-BNP ou NT - proBNP. A secreção de ambos os fragmentos é aumentada pelo estiramento da parede ventricular e sobrecarga de volume, como ocorre na IC. O BNP é removido da circulação pela ligação a um receptor de depuração e pela ação de endopeptidases; sua meia-vida circulante é de aproximadamente 22 minutos. A meia-vida de circulação do N-BNP é consideravelmente mais longa (60-120 min) e seu mecanismo de depuração não é bem compreendido. O BNP e os outros peptídeos natriuréticos exercem seus efeitos por meio de dois tipos de receptores acoplados à proteína G, resultando na liberação do segundo mensageiro monofosfato de guanosina cíclico. Eles regulam negativamente o sistema renina-angiotensina-aldosterona, diminuem a atividade nervosa simpática no coração 97 EXAMES LABORATORIAIS | UNIDADE II e nos rins, aumentam o fluxo sanguíneo renal e a excreção de sódio por meio de um efeito direto no ducto coletor renal. Os níveis plasmáticos de BNP são inferiores a 100 pg/mL na maioria dos indivíduos saudáveis e os intervalos de referência dependem da idade e do sexo. A aplicação mais bem estabelecida da medição do BNP é para diagnosticar pacientes com doença aguda que se apresentam ao serviço de emergência com falta de ar. Distinguir IC de doença pulmonar nesses pacientes, como enfisema, é ocasionalmente difícil e, até agora, nenhum teste laboratorial foi especificamente aplicável. O estudo multinacional Breathing Not Properly inscreveu pacientes que se apresentaram a centros de emergência com dispneia e usaram um método de teste laboratorial remoto para medição de BNP. No ponto de decisão de 100 pg/mL, o teste de BNP apresentou as seguintes características para o diagnóstico de IC: sensibilidade 90%, especificidade 76%, valor preditivo positivo 79% e valor preditivo negativo 89%. Entre os pacientes com história de disfunção ventricular, o BNP foi maior naqueles cujos sintomas atuais foram considerados causados por IC; também foi maior em pacientes com falha mais grave. Os níveis de BNP diminuem quando uma terapia eficaz para IC é instituída e, portanto, o teste pode ser usado para monitorar o curso do tratamento. Outras aplicações propostas incluem estratificação de risco de pacientes com SCA; monitoramento da gravidade da doença em pacientes com DAC estável; triagem para disfunção ventricular em populações selecionadas; e teste de cardiotoxicidade de drogas. No entanto, o teste é relativamente caro, portanto a aplicação de rotina que leva a um grande volume de testes deve ser considerada com cuidado. Alguns centros médicos introduziram restrições para limitar o uso do BNP e monitorar pacientes internados. Uma das principais limitações do BNP é que uma ampla faixa de valores é observada em pacientes com e sem IC, e todos os determinantes do nível circulante de BNP ainda não foram bem estabelecidos. O BNP está aumentado em condições de desequilíbrio de fluidos diferentes da IC, particularmente na insuficiência renal, que comumente coexiste com a IC. Em indivíduos sem IC, níveis mais elevados estão associados ao sexo feminino, à idade avançada e ao menor índice de massa corporal. Além disso, pacientes com IC sintomática, principalmente quando é crônica e estável, podem ter níveis “normais”. A variabilidade intraindividual é relativamente alta; em um grupo de pacientes com IC crônica estável, a variabilidade semanal para BNP e N-BNP foi de 30% a 40%. Neste momento, parece que o uso mais apropriado do teste BNP é como adjuvante para descartar IC no quadro agudo, porém não deve ser usado como único 98 UNIDADE II | EXAMES LABORATORIAIS critério para estabelecer o diagnóstico de IC. Em outros contextos, deve ser usado criteriosamente à medida que mais informações se tornam disponíveis. O primeiro ensaio para o BNP disponível comercialmente nos EUA foi um imunoensaio que apresentava instrumento mais adequado para medição nolocal de atendimento. Recentemente, o teste tornou-se disponível em grandes plataformas de imunoensaio automatizado e ensaios para BNP e N-BNP estão disponíveis. Ademais, destaca-se que uma vantagem clara de um biomarcador sobre outro, para qualquer aplicação particular, não foi estabelecida. Além de ser um biomarcador para IC, o BNP tem efeitos natriuréticos, vasodilatadores e outros que são benéficos para a síndrome e, de fato, está disponível como o medicamento nesiritide (Natrecor) para o tratamento da IC. Devido à meia-vida curta do BNP, os níveis medidos várias horas após sua administração refletem a secreção endógena. No entanto, a utilidade da medição do BNP, no contexto de sua administração terapêutica, não foi estabelecida até o momento. Disponível em: https://www.biomerieux.pt/recursos/informacao-sobre-os- cuidados-de-saude/sindromes-coronarios-agudos. Acesso em: 14 jan. 2021. 99 UNIDADE IIICASOS CLÍNICOS CAPÍTULO 1 Caso 1 Recém-nascido de FBJ, 1 hora de vida, 2.300g, 38 semanas e 3 dias. A mãe, com 41 anos, chega ao centro obstétrico com carteira de pré-natal em que constam duas consultas, sorologia na entrada reagente para sífilis e negativa para HIV. Sem sorologias registradas em carteira de pré-natal, iniciado com 30 semanas sem exames ecográficos registrados em carteira de pré-natal. O bebê nasce bem, apgar 8 no primeiro minuto, mas ao final do quinto minuto apresenta cianose de extremidades, bradicardia e saturação de oxigênio de 60%. É iniciada, imediatamente, ventilação com pressão positiva e massagem cardíaca externa. Em trinta segundos, o paciente melhora e as compressões são interrompidas. Apresenta normocardia, mas mantém SatO2 de 75%. À ausculta cardíaca atenta pelo neonatologista, percebe-se um sopro sistólico irradiado para borda esternal direita inferior, característico de comunicação interventricular. Ao exame mais cuidadoso, nota-se fácies de síndrome de Down (Figura 1). Aventada a hipótese de tetralogia de Fallot, uma das cardiopatias mais comuns nos pacientes portadores dessa síndrome. O perfil laboratorial inicial mostra: » Gasometria arterial com lactato elevado, 2mmol/L, pH 7,05, pO2 40mmHg, pCO2 60mmHg, SpO2 75%. Uma ecocardiografia posterior mostra os achados característicos da tetralogia, um septo infundibular espessado com hipertrofia de ventrículo direito, cavalgamento da aorta sobre o septo, comunicação interventricular e estenose da via de saída do ventrículo direito, em especial da valva pulmonar. 100 UNIDADE III | CASOS CLÍNICOS Figura 1. Fácies de síndrome de Down. Ponte nasal plana Orelha displásica e dobrada Boca antreaberta Anomalias dentárias Pescoço curto Orelha com implantação baixa Mancha de Brushfields Perfil facial plano Fonte: https://www.portalped.com.br/outras-especialidades/genetica/sindrome-de-down-o-que-voce-nao-sabe/. Segue abaixo material complementar sobre tetralogia de Fallot: » Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/pediatria/ anomalias-cardiovasculares-cong%C3%AAnitas/tetralogia-de-fallot. Acesso em: 14 jan. 2021. 101 CAPÍTULO 2 Caso 2 JSS, 67 anos, homem, branco. Chega à emergência por causa de dor precordial com cerca de 3h de duração. É um dia frio de julho. Refere ter acabado de sair de um rodízio de pizzas, no qual comeu muito. Relata também que se sentiu muito cansado ao subir as escadas para sair do restaurante. Informa que a dor irradia para o braço esquerdo e para a mandíbula. Foi passado às pressas para atendimento porque vomitou na porta do hospital, deixando as enfermeiras em alvoroço. Informa que se tratar com cardiologista, em uso atualmente de Enalapril 20mg 1x ao dia, pois tem “pressão alta”. Em anamnese mais esmiuçada, o paciente refere sentir essas dores no peito há mais tempo, usando um tal de “Isordil” (Dinitrato de Isossorbida) recomendado pelo vizinho, com importante alívio da dor, mas destaca que isso vem piorando em duração e intensidade ao longo dos dias. Em uma breve busca na internet, o plantonista observou que o medicamento em questão é utilizado para profilaxia da dor isquêmica cardíaca e insuficiência cardíaca congestiva aguda e crônica. O plantonista, recém-formado, faz um eletrocardiograma, mas, para sua surpresa, está normal e sem alteração alguma. Acaba-se por solicitar troponina, creatinofosfoquinase-MB e creatinofosfoquinase, que, sem surpresa alguma, estão alteradas na primeira colheita! » Troponina 3,5 ng/mL. » CK-MB 9 ng/mL. » CPK 36 UI/L, dentro da referência. Abaixo, apresentamos alguns textos sobre a importância dos marcadores bioquímicos de lesões cardíacas: » Disponível em: https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/ marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca. Acesso em: 14 jan. 2021. Fica clara a hipótese de síndrome coronariana aguda sem supradesnivelamento de segmento ST. Então, o plantonista encaminha o paciente a um serviço de referência em cardiologia, no qual será realizado o cateterismo primário em até 24h. A artéria coronária do paciente será desobstruída, de modo que se evite a forma mais grave de infarto agudo do miocárdio. Existem quatro possibilidades nos resultados alterados de ECG: » ECG com supra de S-T. 102 UNIDADE III | CASOS CLÍNICOS » ECG sem supra de S-T. » Angina instável. » IAM sem supra ST. Observe na imagem abaixo quais são os segmentos do ECG: Figura 2. Segmentos do ECG. Complexo QRS Segmento ST Segmento PR Intervalo PR Intervalo QT Fonte: https://www.portaldoconhecimentosus.com.br/rau/images/migrado/2017/09/UCC_TEMA-5.pdf. Segue abaixo um material complementar sobre síndromes coronarianas agudas: » Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Protocolos/pcdt-sindromes- coronarianas-agudas.pdf. Acesso em: 14 jan. 2021. 103 CAPÍTULO 3 Caso 3 SFN, 80 anos, homem, 98kg, 1,75m, busca a emergência do hospital em razão de falta de ar por causa de mínimos esforços, dor em epigástrio e tosse seca. Refere que, há aproximadamente seis meses, piorou da falta de ar. Inicialmente, percebeu esse fato ao subir escadas; após, ao tomar banho; e, ultimamente, mal conseguia se levantar do sofá, sem cansar, para trocar o canal da televisão. Em tratamento de hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus tipo 2 e dislipidemia. Refere também ter passado por um infarto agudo do miocárdio há cerca de dez anos, com lesão trivascular, quando foi necessária cirurgia de revascularização do miocárdio. Atualmente, usa AAS 100mg 1x ao dia, varfarina, furosemida e sinvastatina. Apresenta edema mais pronunciado em membros inferiores, hepatomegalia, jugulares túrgidas. À ausculta cardíaca, o paciente apresentava bulhas abafadas e atrito pericárdico, com crepitantes à ausculta pulmonar. Realizados os exames laboratoriais, que retornaram dentro da normalidade, foram verificadas: » Leve alteração da função renal. » Gasometria pH 7,11; pO2 65, pCO2 20. » Pró-BNP 874, confirmando a hipótese de insuficiência cardíaca congestiva. O paciente então foi internado para manejo clínico da insuficiência cardíaca, com restrição hídrica e de sódio, diuréticos, hipotensores e digoxina (inotrópico positivo). Após 20 dias em internação, os sintomas foram compensados e o paciente recebeu alta hospitalar. A insuficiência cardíaca é a fase terminal das cardiopatias e possui altos índices de mortalidade e morbidade. O diagnóstico para essa condição ocorre baseado na clínica do paciente, entretanto, com os avanços no âmbito laboratorial, os médicos, hoje, podem contar com dois exames complementares, quais sejam, a dosagem plasmática do peptídeo natriurético tipo B (BNP) e a do fragmento N-terminal do peptídeo natriurético tipo B (Pró-BNP). Esses exames apresentam resultados semelhantes, de modo que são equivalentes do ponto de vista laboratorial para detecção e acompanhamento da insuficiência 104 UNIDADE III | CASOS CLÍNICOS cardíaca. Como visto anteriormente, a principal diferença é o tempo de meia-vida,sendo o pró-BNP o exame de escolha devido à sua maior elevação na circulação. Outro ponto que deve ser enfatizado é que o aumento dos níveis de ambos os testes apresentam relação direta com o grau de insuficiência cardíaca, uma vez que o BNP é o hormônio ativo e o pró-BNP, o hormônio inativo. Eles são liberados na circulação em resposta à expansão do volume ventricular e à sobrecarga de pressão nos ventrículos. 105 REFERÊNCIAS ARBUSTINI, E.; NARULA, N.; DEC, G. W.; REDDY, K. S.; GREENBERG, B.; KUSHWAHA, S.; NARULA, J. The MOGE(S) Classification for a Phenotype–Genotype Nomenclature of Cardiomyopathy. Journal of the American College of Cardiology, v. 62, n. 22, pp. 2046-2072, doi:10.1016/j.jacc.2013.08.1644, 2013. BAFFA, J. M. (2018). Tetralogia de Fallot. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/ profissional/pediatria/anomalias-cardiovasculares-congênitas/tetralogia-de-fallot. Acesso em: 14 jan. 2021. 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DPN pode se manifestar como tosse ou sibilância, possivelmente devido ao aumento da pressão nas artérias brônquicas, e provoca a compressão das vias aéreas, juntamente com edema pulmonar intersticial, que leva ao aumento da resistência das vias aéreas. Enquanto a ortopneia pode ser aliviada quando o indivíduo senta-se ereto ao lado da cama, com as pernas em uma posição dependente, os pacientes com DPN costumam apresentar tosse e chiado persistentes, mesmo depois de assumirem a posição ereta. A asma cardíaca está intimamente relacionada à DPN, sendo caracterizada por sibilância secundária ao broncoespasmo e deve ser diferenciada da asma primária e das causas pulmonares da sibilância. Respiração Cheyne-Stokes Também conhecida como respiração periódica ou respiração cíclica, a respiração de Cheyne-Stokes está presente em 40% dos pacientes com IC avançada e geralmente está 16 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS associada a um baixo débito cardíaco. A respiração de Cheyne-Stokes é causada pelo aumento da sensibilidade do centro respiratório à pCO2 arterial e um longo tempo circulatório. Há uma fase apneica durante a qual a pO2 arterial cai e a pCO2 arterial aumenta. Essas alterações no conteúdo gasoso do sangue arterial estimulam o centro respiratório, resultando em hiperventilação e hipocapnia, seguidas de recorrência da apneia. Outros sintomas Pacientes com IC também podem apresentar sintomas gastrointestinais. Anorexia, náusea e saciedade precoce associadas à dor abdominal e plenitude são queixas comuns e podem estar relacionadas a edema da parede intestinal e/ou fígado congestionado. A congestão do fígado e o estiramento de sua cápsula podem causar dor no quadrante superior direito do abdome. Sintomas cerebrais como confusão, desorientação e distúrbios do sono e do humor podem ser observados em pacientes com IC grave, principalmente em pacientes idosos com arteriosclerose cerebral e redução da perfusão cerebral. A noctúria é comum na IC e pode contribuir para a insônia. Diagnóstico O diagnóstico de IC é relativamente simples quando o paciente apresenta sinais e sintomas clássicos de IC; no entanto, os sinais e sintomas da IC não são específicos nem sensíveis. Portanto, a chave para fazer o diagnóstico é ter um alto índice de suspeita, principalmente para pacientes de alto risco. Quando esses pacientes apresentam sinais ou sintomas de IC, testes laboratoriais adicionais devem ser realizados. Teste de rotina de laboratório Pacientes com IC de início recente e aqueles com IC crônica e descompensação aguda devem ter hemograma completo, painel de eletrólitos, ureia no sangue, creatinina sérica, enzimas hepáticas e urinálise. Os pacientes selecionados devem ser avaliados para diabetes mellitus (glicose sérica em jejum ou teste de tolerância à glicose oral), dislipidemia (painel lipídico em jejum) e anormalidades da tireoide (nível de hormônio estimulador da tireoide). Biomarcadores Os níveis circulantes de peptídeos natriuréticos são ferramentas auxiliares úteis e importantes para o diagnóstico de pacientes com IC. Tanto o peptídeo natriurético tipo 17 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I B (BNP) quanto o pró-BNP N-terminal, que são liberados do coração insuficiente, são marcadores relativamente sensíveis para a presença de IC com FE deprimida; também estão elevados em pacientes que apresentam IC com FE preservada, embora em menor grau. Em pacientes ambulatoriais com dispneia, a dosagem de BNP ou pró-BNP é útil para apoiar a tomada de decisão clínica em relação ao diagnóstico de IC, especialmente em um cenário de incerteza clínica. Além disso, a medição de BNP ou pró-BNP é útil para estabelecer o prognóstico ou a gravidade da doença na IC crônica, de modo que pode ser útil para obter a dosagem ideal de terapia médica em pacientes euvolêmicos selecionados. No entanto, é importante reconhecer que os níveis de peptídeo natriurético aumentam com a idade e o comprometimento renal, bem como são mais elevados nas mulheres e podem estar elevados na IC direita por qualquer causa. Os níveis de BNP podem aumentar em pacientes que tomam ARNIs e podem ser falsamente baixos em pacientes obesos. Outros biomarcadores, como ST-2 solúvel e galectina-3, são biomarcadores mais novos que podem ser usados para determinar o prognóstico de pacientes com IC. Diagnóstico diferencial A IC se assemelha, mas deve ser diferenciada de condições em que há congestão circulatória secundária à retenção anormal de sal e água, nas quais não há distúrbio da estrutura ou função cardíaca (por exemplo, insuficiência renal) e causas não cardíacas de edema pulmonar (por exemplo, síndrome da dificuldade respiratória aguda). Na maioria dos pacientes que apresentam sinais e sintomas clássicos de IC, o diagnóstico é relativamente simples. No entanto, mesmo médicos experientes têm dificuldade em diferenciar a dispneia que surge de causas cardíacas e pulmonares. Nesse sentido, imagens cardíacas não invasivas, biomarcadores, testes de função pulmonar e radiografia de tórax podem ser úteis. Um BNP ou Pró-BNP muito baixo pode ser útil para excluir uma causa cardíaca de dispneia nesse cenário. O edema do tornozelo pode surgir secundário a veias varicosas, obesidade, doença renal ou efeitos gravitacionais. Quando a IC se desenvolve em pacientes com FE preservada, pode ser difícil determinar a contribuição relativa da IC para a dispneia que ocorre na doença pulmonar crônica e/ou obesidade. Miocardiopatia e miocardite Definição e classificação A miocardiopatia é uma doença do músculo cardíaco e estima-se que seja responsável por 5 a 10% da insuficiência cardíaca nos 5 a 6 milhões de pacientes com esse diagnóstico 18 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS nos Estados Unidos da América (EUA). Esse termo tem o objetivo de excluir a disfunção cardíaca resultante de outra doença cardíaca estrutural, como doença arterial coronariana, doença valvar primária ou hipertensão grave; entretanto, no uso geral, a frase miocardiopatia isquêmica é, algumas vezes, aplicada para descrever disfunção difusa atribuída à doença arterial coronariana multiarterial, e miocardiopatia não isquêmica para descrever miocardiopatia de outras causas. Desde 2013, as miocardiopatias são definidas, segundo Arbustini, como “distúrbios caracterizados por miocárdio anormal morfológica e funcionalmente na ausência de qualquer outra doença que seja suficiente, por si só, para causar o fenótipo observado”. Foi ainda especificado que muitas miocardiopatias serão atribuídas a doenças genéticas. A classificação tradicional das miocardiopatias em uma tríade de dilatada, restritiva e hipertrófica baseou-se inicialmente em espécimes de autópsia e, posteriormente, em achados ecocardiográficos. As miocardiopatias dilatadas e hipertróficas podem ser distinguidas com base na espessura da parede do ventrículo esquerdo e dimensão da cavidade; no entanto, a miocardiopatia restritiva pode ter espessura de parede e dimensões da câmara variavelmente aumentadas, as que oscilam de reduzida a ligeiramente aumentada, com aumento atrial proeminente. A miocardiopatia restritiva agora é definida mais com base na função diastólica anormal, que também está presente, mas inicialmente menos proeminente na miocardiopatia dilatada e hipertrófica. A miocardiopatia restritiva pode se sobrepor à apresentação, morfologia macroscópica e etiologia com miocardiopatias hipertróficas e dilatadas. A expansão das informações torna essa tríade de classificação baseada no fenótipo cada vez mais inadequada para definir a doença ou terapia. A identificação de mais determinantes genéticos da miocardiopatia sugeriu um esquema de classificação de quatro vias da etiologia como primária (afeta principalmente o coração) e secundária a outras doenças sistêmicas. As causas primárias são, então, divididas em genéticas,genéticas mistas e adquiridas. Na prática, entretanto, a informação genética raramente está disponível na apresentação inicial e, nesse sentido, a expressão fenotípica de uma determinada mutação varia amplamente e a predisposição genética também influencia as miocardiopatias adquiridas. Embora a classificação genética proposta ainda não oriente muitas estratégias clínicas atuais, ela será cada vez mais relevante à medida que a classificação da doença vai além da patologia de órgão individual para abordagens de sistemas mais integrados. Apresentação geral Para todas as miocardiopatias, os primeiros sintomas geralmente estão relacionados à intolerância ao esforço, com falta de ar ou fadiga. Em geral, isso ocorre devido à 19 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I reserva cardíaca inadequada durante o exercício. Esses sintomas podem, inicialmente, passar despercebidos ou atribuídos a outras causas, como doença pulmonar ou “envelhecimento”. Ademais, como a retenção de líquidos leva à elevação das pressões de enchimento em repouso, pode ocorrer falta de ar durante as atividades diárias de rotina, como se vestir, e pode se manifestar como dispneia ou tosse quando o indivíduo se deita à noite. Embora muitas vezes seja considerada a marca registrada da congestão, o edema periférico pode estar ausente, apesar da retenção grave de líquidos, particularmente em pacientes mais jovens nos quais a ascite e o desconforto abdominal podem dominar. O termo inespecífico insuficiência cardíaca congestiva descreve apenas a síndrome resultante de retenção de líquidos, que é comum a todos os três tipos de miocardiopatia e também a doenças estruturais cardíacas associadas a pressões de enchimento elevadas. Todos os três tipos de miocardiopatia podem estar associados a regurgitação da válvula atrioventricular (AV), dor torácica típica e atípica, taquiarritmias atriais e ventriculares e eventos embólicos. A avaliação inicial começa com uma história clínica e exame físico detalhados, em busca de indícios de doenças cardíacas, extracardíacas e familiares. Causas genéticas de miocardiopatia As estimativas para a prevalência da etiologia genética da miocardiopatia continuam a aumentar por causa do aumento da disponibilidade de testes genéticos e da atenção ao histórico familiar. Bem reconhecida na miocardiopatia hipertrófica, a herdabilidade também está presente em pelo menos 30% das miocardiopatias dilatadas (MCD) sem outra etiologia clara. Uma história familiar cuidadosa deve suscitar não apenas miocardiopatia e insuficiência cardíaca conhecidas, mas também membros da família que tiveram morte súbita, muitas vezes incorretamente atribuída a “um ataque cardíaco maciço”, os quais tiveram fibrilação atrial, implante de marca-passo na meia-idade ou distrofia. A maioria das miocardiopatias familiares é herdada em um padrão autossômico dominante, com herança autossômica recessiva ocasional e ligada ao X. Mutações missense com substituições de aminoácidos são as mais comuns na miocardiopatia. As proteínas mutantes expressas podem interferir na função do alelo normal por meio de um mecanismo negativo dominante. Mutações que introduzem um códon de parada prematuro (sem sentido) ou mudança no quadro de leitura (frameshift) podem criar uma proteína truncada ou instável, cuja falta causa miocardiopatia (haploinsuficiência). Deleções ou duplicações de um exon ou gene inteiro são causas incomuns de miocardiopatia, exceto para as distrofinopatias. 20 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Muitos genes diferentes foram implicados na miocardiopatia humana (heterogeneidade do locus), e muitas mutações dentro desses genes foram associadas à doença (heterogeneidade alélica). Embora a maioria das mutações identificadas seja “privada” para famílias individuais, várias mutações específicas são encontradas repetidamente, seja devido a um efeito fundador ou mutações recorrentes em um resíduo comum. A miocardiopatia genética é caracterizada por dependência da idade e penetrância incompleta. O fenótipo definidor de miocardiopatia raramente está presente ao nascimento e, em alguns indivíduos, pode nunca se manifestar. Indivíduos aparentados que carregam a mesma mutação podem diferir na gravidade e taxa de progressão da disfunção cardíaca e dos distúrbios de ritmo associados, indicando o importante papel de outros modificadores genéticos, epigenéticos e ambientais na expressão da doença. O sexo parece desempenhar um papel, pois a penetrância e a gravidade clínica podem ser maiores em homens para a maioria das miocardiopatias. A expressão clínica da doença é geralmente mais grave em 3-5% dos indivíduos que apresentam duas ou mais mutações ligadas à miocardiopatia. No entanto, o curso clínico de um paciente geralmente não pode ser previsto com base em qual mutação está presente; portanto, a terapia atual é baseada no fenótipo e não no defeito genético. Atualmente, a maior utilidade dos testes genéticos para miocardiopatia é informar sobre as avaliações familiares. No entanto, o teste genético ocasionalmente permite a detecção de uma doença para a qual uma terapia específica seja indicada, como a substituição de enzimas metabólicas defeituosas na doença de Fabry e na doença de Gaucher. Genes e vias na miocardiopatia Mutações em genes sarcoméricos, que codificam as proteínas do miofilamento espesso e fino, são as mais bem caracterizadas. Embora a maioria esteja associada à miocardiopatia hipertrófica, um número crescente de mutações sarcômeras já foi implicado na MCD e algumas na não compactação do ventrículo esquerdo. As causas genéticas mais comumente reconhecidas de MCD são mutações truncadas da proteína gigante titina, codificada por TTN, que mantém a estrutura do sarcômero e atua como uma molécula de sinalização-chave. Como as proteínas do citoesqueleto desempenham papéis cruciais na estrutura, conexão e estabilidade do miócito, vários defeitos nessas proteínas podem levar à miocardiopatia, geralmente com um fenótipo dilatado. Por exemplo, a desmina forma filamentos intermediários que conectam as membranas nuclear e plasmática, as linhas Z e os discos intercalados entre as células musculares. As mutações da desmina prejudicam a 21 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I transmissão de força e sinalização para os músculos cardíacos e esqueléticos e podem causar miopatia cardíaca e esquelética combinada. Defeitos nas proteínas da membrana sarcolemal estão associados à MCD. A mais conhecida é a distrofina, codificada pelo gene DMD do cromossomo X, cujas anormalidades causam a distrofia muscular de Duchenne e Becker. Curiosamente, a distrofina anormal pode ser adquirida quando o vírus coxsackie cliva a distrofina durante a miocardite viral. Essa proteína fornece uma rede que suporta o sarcolema e se conecta ao sarcômero. O defeito funcional progressivo tanto no músculo cardíaco quanto no esquelético reflete a vulnerabilidade ao estresse mecânico. A distrofina está associada à membrana em um complexo de outras proteínas, como a metavinculina, cujas anormalidades também causam MCD. Defeitos nas proteínas do canal sarcolemal (canalopatias) geralmente estão associados a arritmias primárias, mas mutações em SCN5A, distintas daquelas que causam a síndrome de Brugada ou QT longo, foram implicadas em MCD com doença de condução. Os defeitos das proteínas da membrana nuclear no músculo cardíaco e esquelético ocorrem em padrões autossômicos (lâmina A / C) ou ligados ao X (emerina). Esses defeitos estão associados a uma alta prevalência de arritmias atriais e doenças do sistema de condução, que podem ocorrer em alguns membros da família sem ou antes de miocardiopatia detectável. Os discos intercalados contribuem para as conexões intracelulares, permitindo o acoplamento mecânico e elétrico entre as células e conexões com os filamentos de desmina dentro da célula. Mutações em proteínas do complexo desmossomal comprometem a fixação dos miócitos, que podemse desconectar e morrer, sendo substituídos por tecido adiposo e fibroso. Essas áreas são altamente arritmogênicas e podem se dilatar para formar aneurismas. Embora mais frequentemente observada no ventrículo direito (miocardiopatia arritmogênica do ventrículo direito), essa condição pode afetar ambos os ventrículos e foi denominada “miocardiopatia arritmogênica”. Como muitas vias de sinalização são conservadas em vários sistemas, antecipamos a descoberta de manifestações extracardíacas de proteínas anormais inicialmente consideradas restritas ao coração. Em contraste, os distúrbios monogênicos do metabolismo que afetam o coração já são claramente reconhecidos por afetar vários sistemas orgânicos. Atualmente, é mais importante diagnosticar enzimas defeituosas para as quais a terapia de reposição enzimática específica pode, agora, melhorar o curso 22 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS da doença, como a deficiência de alfa-galactosidase A (doença de Fabry). Anormalidades do DNA mitocondrial (transmitido pela mãe) prejudicam a produção de energia com várias manifestações clínicas, incluindo função cognitiva prejudicada e miopatia esquelética. Nesse contexto, a expressão fenotípica é altamente variável dependendo da distribuição das mitocôndrias maternas durante o desenvolvimento embrionário. Doenças sistêmicas hereditárias, como amiloidose familiar e hemocromatose, podem afetar o coração sem mutação de genes expressos nesse órgão. Para qualquer paciente com doença genética suspeita ou comprovada, os familiares devem ser considerados e avaliados de forma longitudinal. A triagem inclui uma ecocardiografia e eletrocardiograma (ECG). As indicações e implicações para testes genéticos específicos confirmatórios variam dependendo da mutação específica e as profundas questões levantadas pelas famílias sobre doenças compartilhadas e transmitidas merecem uma discussão séria e sensível, idealmente fornecida por um conselheiro genético treinado. Miocardiopatia dilatada Um ventrículo esquerdo aumentado com função sistólica reduzida medida pela fração de ejeção do ventrículo esquerdo caracteriza a MCD. A insuficiência sistólica é mais proeminente do que a disfunção diastólica, embora a síndrome de MCD tenha muitas etiologias díspares, muitas das quais convergem para vias comuns de resposta secundária e progressão da doença. Quando a lesão miocárdica é adquirida, alguns miócitos podem morrer inicialmente, enquanto outros sobrevivem apenas para ter morte celular programada posteriormente (apoptose) e hipertrofia dos miócitos remanescentes em resposta ao aumento do estresse da parede. Fatores locais e circulantes estimulam respostas secundárias deletérias que contribuem para a progressão da doença. A remodelação dinâmica da estrutura intersticial afeta a função diastólica e a quantidade de dilatação ventricular, de modo que a regurgitação mitral comumente se desenvolve quando o aparelho valvar é distorcido e geralmente é substancial quando a insuficiência cardíaca é grave. Muitos casos que se apresentam de forma “aguda” progrediram silenciosamente por esses estágios ao longo de meses a anos. A dilatação e a diminuição da função do ventrículo direito podem resultar diretamente da lesão inicial, mas, mais frequentemente, desenvolve- se mais tarde em resposta à pós-carga elevada apresentada pela hipertensão pulmonar secundária e em relação a interações mecânicas com o ventrículo esquerdo falho. Independentemente da natureza e do grau de lesão celular direta, o comprometimento funcional resultante geralmente reflete a contribuição de respostas secundárias que podem 23 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I ser modificáveis ou reversíveis. Quase metade de todos os pacientes com miocardiopatia de início recente demonstram recuperação espontânea substancial. Mesmo com doença de longa duração, alguns pacientes apresentam melhora dramática para frações de ejeção quase normais durante a terapia farmacológica, particularmente notável com os antagonistas β-adrenérgicos associados à inibição do sistema renina-angiotensina. Para pacientes nos quais o bloqueio do ramo esquerdo precede à insuficiência cardíaca clínica em muitos anos, a estimulação de ressincronização cardíaca pode melhorar a fração de ejeção e diminuir o tamanho ventricular. O interesse no potencial de recuperação da miocardiopatia foi ainda estimulado pela “recuperação” ocasional da função ventricular esquerda após suporte circulatório mecânico prolongado. A avaliação e terapia atuais para MCD são geralmente ditadas pelo estágio da insuficiência cardíaca, com aspectos específicos discutidos para etiologias relevantes abaixo. Miocardite A miocardite (inflamação do coração) pode resultar de múltiplas causas, mas é mais comumente atribuída a agentes infecciosos que podem lesar o miocárdio por meio de invasão direta, produção de substâncias cardiotóxicas ou inflamação crônica com ou sem infecção persistente. A miocardite não pode ser presumida com base em uma apresentação de função sistólica diminuída no cenário de uma infecção aguda, pois qualquer infecção grave que cause liberação de citocina sistêmica pode deprimir a função cardíaca temporariamente. Desse modo, miocardite infecciosa foi relatada com quase todos os tipos de agentes infecciosos, mas é mais comumente associada a vírus e ao protozoário Trypanosoma cruzi. Miocardite infecciosa A patogênese da miocardite viral foi amplamente estudada em modelos roedores. Depois que os vírus conseguem entrar pelo trato respiratório ou gastrointestinal, eles podem infectar órgãos que possuem receptores específicos, como o receptor do adenovírus coxsackie no coração. Infecção viral e replicação podem causar lesão miocárdica e lise celular, por exemplo, a protease enteroviral 2A facilita a replicação viral e a infecção por meio da degradação da proteína distrofina do miócito, que é crucial para a sua estabilidade. A ativação de proteínas receptoras virais também pode ativar as tirosinas quinases do hospedeiro, que modificam o citoesqueleto para facilitar a entrada viral posterior. A primeira resposta do hospedeiro à infecção é a resposta imune inata inespecífica, fortemente dependente de receptores Toll-like que reconhecem padrões antigênicos 24 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS comuns. A liberação de citocinas é rápida, seguida pela ativação e expansão desencadeadas de populações de células T e B específicas. Essa resposta inicial parece ser crucial, pois a imunossupressão precoce em modelos animais pode aumentar a replicação viral e piorar a lesão cardíaca, no entanto a recuperação bem-sucedida da infecção viral depende não apenas da eficácia da resposta imune para limitar a infecção viral, mas também da regulação negativa oportuna para prevenir a lesão autoimune contínua ao hospedeiro. A resposta imune adquirida secundária é dirigida especificamente contra as proteínas virais e pode incluir infiltração de células T e anticorpos para proteínas virais. Se desmarcada, a resposta imune adquirida pode perpetuar o dano cardíaco secundário. Nesse cenário, a liberação contínua de citocinas ativa as metaloproteinases da matriz, as quais podem romper a estrutura de colágeno e elastina do coração e potencializar a dilatação ventricular. A estimulação de fatores pró-fibróticos leva à fibrose intersticial patológica e alguns dos anticorpos desencadeados por coestimulação ou mimetismo molecular também reconhecem alvos dentro do miócito hospedeiro, como o receptor β-adrenérgico, troponina e Na + / K + ATPase; mas ainda não está claro se esses anticorpos contribuem ativamente para a disfunção cardíaca em humanos ou simplesmente servem como marcadores de lesão cardíaca. Não se sabe por quanto tempo os vírus persistem no coração humano, se a persistência tardia do genoma viral continua a ser deletéria ou com que frequência um vírus inativo pode novamente se tornar patogênico. Os genomas de vírus comuns têm sidofrequentemente detectados em pacientes com diagnóstico clínico de miocardite ou MCD, mas há pouca informação sobre a frequência com que eles estão presentes em pacientes sem doença cardíaca. Mais informações são necessárias para entender o tempo relativo e a contribuição da infecção, as respostas imunes e as adaptações secundárias na progressão da insuficiência cardíaca após miocardite viral. Apresentação clínica de miocardite viral A miocardite viral aguda geralmente se apresenta com sintomas e sinais de insuficiência cardíaca aguda. Desse modo, alguns pacientes apresentam dor torácica sugestiva de pericardite ou infarto agudo do miocárdio. Ocasionalmente, a apresentação é dominada por taquiarritmias atriais ou ventriculares ou por êmbolos pulmonares ou sistêmicos de trombos intracardíacos. Anormalidades eletrocardiográficas ou ecocardiográficas também podem ser detectadas incidentalmente durante a avaliação para outros diagnósticos. Nesse sentido, o paciente típico com miocardite viral presumida é um 25 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I adulto jovem ou de meia-idade que desenvolve dispneia progressiva e fraqueza dentro de alguns dias a semanas após uma síndrome viral que tenha sido acompanhada por febre e mialgias. Um pequeno número de pacientes apresenta miocardite fulminante, com rápida progressão em horas de uma síndrome respiratória febril grave para choque cardiogênico que pode envolver vários sistemas de órgãos, levando à insuficiência renal, insuficiência hepática e coagulopatia. Esses pacientes são tipicamente adultos jovens que foram recentemente dispensados de serviços de atendimento de urgência com antibióticos para bronquite ou oseltamivir para síndromes virais, apenas para retornar dentro de alguns dias em choque cardiogênico rapidamente progressivo. A triagem imediata é vital para fornecer suporte agressivo com terapia de catecolaminas intravenosas em altas doses e, às vezes, suporte circulatório mecânico temporário. O reconhecimento de pacientes com essa apresentação fulminante pode salvar vidas, pois mais da metade pode sobreviver, com melhora acentuada perceptível nas primeiras semanas. A função da fração de ejeção desses pacientes frequentemente se recupera quase ao normal, embora a disfunção diastólica residual possa limitar o exercício vigoroso para alguns sobreviventes. A miocardite viral crônica é frequentemente invocada, mas raramente comprovada, como um diagnóstico quando nenhuma outra causa de MCD pode ser identificada. No entanto, muitos casos presumidos como resultado de miocardite “silenciosa” serão posteriormente reconhecidos como o resultado de causas genéticas, consumo de álcool em excesso ou drogas estimulantes ilícitas. A proporção de MCD crônica devido à infecção viral permanece um assunto de controvérsia. Avaliação laboratorial para miocardite A avaliação inicial para suspeita de miocardite inclui um ECG, um ecocardiograma e níveis séricos de frações de troponina e creatinofosfoquinase. A ressonância magnética é cada vez mais usada para o diagnóstico de miocardite, o que é apoiado, mas não comprovado, por evidências de edema tecidual aumentado e realce de gadolínio, particularmente na parede média (diferente dos territórios das artérias coronárias usuais). A biópsia endomiocárdica geralmente não é indicada para a avaliação inicial de suspeita de miocardite viral, a menos que taquiarritmias ventriculares sugiram possíveis etiologias de sarcoidose ou miocardite de células gigantes. As indicações, o rendimento e o benefício da biópsia endomiocárdica para avaliação de miocardite ou miocardiopatia de início recente não estão bem estabelecidos. Quando a biópsia é realizada, os critérios 26 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS de Dallas para miocardite incluem infiltrado linfocítico com evidência de necrose do miócito e são negativos em 80-90% dos pacientes com miocardite clínica. Os critérios de Dallas negativos podem refletir erro de amostragem ou resolução precoce de infiltrados linfocíticos, mas também a insensibilidade do teste quando a inflamação resulta de citocinas e lesão mediada por anticorpos. O exame histológico de rotina da biópsia endomiocárdica raramente revela uma etiologia infecciosa específica, como toxoplasmose ou citomegalovírus. A imuno-histoquímica de amostras de biópsia miocárdica é comumente usada para identificar subtipos de linfócitos ativos e também pode detectar a suprarregulação de antígenos HLA e a presença de componentes do complemento atribuídos à inflamação, mas a especificidade e o significado desses achados são incertos. Um aumento nos títulos virais circulantes entre as amostras de sangue agudo e convalescente apoia o diagnóstico de miocardite viral aguda com potencial melhora espontânea. Não há um papel estabelecido para medir os anticorpos anticardíacos circulantes, os quais podem ser o resultado, e não a causa, de lesão miocárdica e que foram encontrados em pacientes com doença arterial coronariana e miocardiopatia genética. Pacientes com síndromes virais recentes ou em andamento foram classificados em três níveis de diagnóstico de miocardite. A possível miocardite aguda subclínica é diagnosticada quando uma síndrome viral típica ocorre sem sintomas cardíacos, mas com biomarcadores elevados de lesão cardíaca, ECG sugestivo de lesão aguda, fração de ejeção ventricular esquerda reduzida ou anormalidade de movimento regional da parede. A provável miocardite aguda é diagnosticada quando os critérios acima são atendidos e acompanhada por sintomas cardíacos, como falta de ar ou dor no peito, que pode resultar de pericardite ou miocardite. Quando os achados clínicos de pericardite são acompanhados por troponina elevada, CK-MB ou movimento anormal da parede cardíaca, os termos perimiocardite ou miopericardite são usados algumas vezes. A miocardite definitiva é diagnosticada quando há evidência histológica ou imuno-histológica de inflamação na biópsia endomiocárdica e não requer nenhum outro critério laboratorial ou clínico. Estes não foram revisados para incluir achados de ressonância magnética. Vírus específicos implicados na miocardite Em humanos, os vírus são frequentemente suspeitos, mas raramente se prova que são as causas diretas da miocardite clínica. O primeiro implicado foi a família de picornavírus de vírus RNA, principalmente os enterovírus, vírus coxsackie, ecovírus e poliovírus. 27 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I A influenza, outro vírus de RNA, está envolvida com frequência variável a cada inverno e primavera, conforme os epítopos mudam. Dos vírus de DNA, adenovírus, vaccinia (vacina contra varíola) e herpesvírus (varicela-zoster, citomegalovírus, vírus de Epstein-Barr e herpesvírus humano 6 [HHV6]) são bem conhecidos por causar miocardite, mas também ocorrem comumente na população saudável. A reação em cadeia da polimerase (PCR) detecta genomas virais na maioria dos pacientes com MCD, mas também em corações normais de “controle”. Os mais frequentemente detectados são o parvovírus B19 e o HHV6, que podem afetar o sistema cardiovascular, em parte, por infecção de células endoteliais vasculares. No entanto, sua contribuição para a miocardiopatia crônica é incerta, pois a evidência sorológica de exposição está presente em muitas crianças e na maioria dos adultos. O vírus da imunodeficiência humana (HIV) foi associado à incidência de MCD de 1–2%; no entanto, com o advento da terapia antirretroviral altamente ativa (TARV), o HIV foi associado a uma incidência significativamente menor de doença cardíaca. A miocardiopatia no HIV pode resultar do envolvimento cardíaco com outros vírus associados, como citomegalovírus e hepatite C, bem como pelo envolvimento direto com o HIV. Os medicamentos antivirais para tratar o HIV crônico podem causar miocardiopatia tanto diretamente quanto por hipersensibilidade a medicamentos. Ademais, o quadro clínico pode ser complicado por derrames pericárdicos e hipertensãopulmonar. Há uma alta frequência de miocardite linfocítica encontrada na autópsia, e partículas virais foram demonstradas no miocárdio em alguns casos, consistentes com a causa direta. A hepatite C tem sido repetidamente implicada na miocardiopatia, particularmente na Alemanha e na Ásia, porém a disfunção cardíaca pode melhorar após a terapia com interferon. Como essa citocina em si, muitas vezes, deprime a função cardíaca temporariamente, uma coordenação cuidadosa da administração e avaliação clínica contínua são essenciais. O efeito de novos tratamentos para hepatite C na função cardíaca ainda não foi bem estudado e o envolvimento do coração com hepatite B é incomum, mas pode ser observado quando associado à vasculite sistêmica (poliarterite nodosa). Vírus adicionais implicados especificamente na miocardite incluem caxumba, vírus sincicial respiratório, arbovírus (dengue e febre amarela) e arenavírus (febre de Lassa). No entanto, para qualquer infecção grave, a resposta inflamatória sistêmica pode causar depressão inespecífica da função cardíaca, que geralmente é reversível se o paciente sobreviver. 28 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS Miocardite não infecciosa A inflamação miocárdica pode ocorrer sem infecção precedente aparente. Ainda, o paradigma da miocardite inflamatória não infecciosa é a rejeição do transplante cardíaco, por meio do qual aprendemos que a depressão miocárdica pode se desenvolver e ser revertida rapidamente; os mediadores não celulares, como anticorpos e citocinas, desempenham um papel importante além dos linfócitos; e os antígenos do miocárdio são expostos sem lesão física e infecção viral. A inflamação não infecciosa mais comumente diagnosticada é a miocardite granulomatosa, incluindo sarcoidose e miocardite de células gigantes. A sarcoidose é uma doença multissistêmica que afeta mais comumente os pulmões. Embora, classicamente, seja apresentada com maior prevalência em homens jovens afro-americanos, a epidemiologia parece estar mudando com o reconhecimento crescente de sarcoidose em pacientes caucasianos em áreas não urbanas. Pacientes com sarcoidose pulmonar apresentam alto risco de envolvimento cardíaco, mas a sarcoidose cardíaca também ocorre sem doença pulmonar clínica. Desse modo, o agrupamento regional da doença apoia a suspeita de que a reação granulomatosa é desencadeada por um alérgeno infeccioso ou ambiental ainda não identificado. Os locais e a densidade dos granulomas cardíacos, o curso do tempo e o grau de envolvimento extracardíaco são extremamente variáveis. Os pacientes podem apresentar insuficiência cardíaca de início rápido e taquiarritmias ventriculares, bloqueio de condução, síndromes de dor torácica ou achados cardíacos menores no contexto de envolvimento ocular, erupção cutânea infiltrativa ou doença febril inespecífica. Eles também podem se manifestar de forma menos aguda após meses ou anos de sintomas cardíacos flutuantes. Ademais, quando a taquicardia ventricular ou bloqueio de condução domina a apresentação inicial de insuficiência cardíaca sem doença arterial coronariana, deve-se suspeitar muito dessas miocardites granulomatosas. Dependendo do curso do tempo, os ventrículos podem parecer restritivos ou dilatados. Frequentemente, há predominância do ventrículo direito tanto de dilatação quanto de arritmias ventriculares, às vezes atribuídas inicialmente à miocardiopatia arritmogênica do ventrículo direito. Aneurismas ventriculares pequenos são comuns e a tomografia computadorizada de tórax frequentemente revela linfadenopatia pulmonar, mesmo na ausência de doença pulmonar clínica. Imagens metabólicas (tomografia por emissão de pósitrons [PET]) de todo o tórax podem destacar lesões sarcoides ativas que são ávidas por glicose. Ainda, a ressonância magnética (RNM) do coração pode identificar áreas com probabilidade de inflamação. Para descartar infecções crônicas, por exemplo, 29 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I tuberculose ou histoplasmose, como causa da adenopatia, o diagnóstico geralmente requer confirmação patológica. A biópsia de nódulos mediastinais aumentados pode fornecer o maior rendimento. Os granulomas dispersos da sarcoidose podem ser facilmente perdidos na biópsia cardíaca. O tratamento imunossupressor para sarcoidose é iniciado com glicocorticoides em altas doses, que geralmente são mais eficazes para arritmias do que para insuficiência cardíaca. Pacientes com lesões sarcoides que persistem ou recorrem durante a redução gradual dos corticosteroides são considerados candidatos a outras terapias imunossupressoras, frequentemente com agentes também usados para transplante cardíaco. Marca-passos e desfibriladores implantáveis são geralmente indicados para prevenir bloqueio cardíaco com risco de vida ou taquicardia ventricular, respectivamente. Como a inflamação geralmente se transforma em fibrose extensa que prejudica a função cardíaca e fornece vias para arritmias de reentrada, o prognóstico de melhora é melhor quando os granulomas não são extensos e a fração de ejeção não é severamente reduzida. A miocardite de células gigantes é menos comum que a sarcoidose, mas é responsável por 10-20% dos casos de miocardite com biópsia positiva. A miocardite de células gigantes geralmente se apresenta com insuficiência cardíaca e taquiarritmias rapidamente progressivas. Lesões granulomatosas difusas são circundadas por extenso infiltrado inflamatório que não pode passar despercebido na biópsia endomiocárdica, frequentemente com infiltração eosinofílica e as condições associadas são timomas, tireoidite, anemia perniciosa, outras doenças autoimunes e, ocasionalmente, infecções recentes. A terapia com glicocorticoides é menos eficaz do que para a sarcoidose e, às vezes, é combinada com outros agentes imunossupressores. O curso costuma ser de rápida deterioração, exigindo suporte mecânico urgente ou transplante. Embora a gravidade da apresentação e a histologia miocárdica sejam mais fulminantes do que a sarcoidose, o achado ocasional de miocardite de células gigantes após a sarcoidose sugere que elas podem, em alguns casos, representar diferentes estágios do mesmo espectro da doença. A miocardite eosinofílica pode ser uma importante manifestação da síndrome hipereosinofílica, a qual, nos países ocidentais, costuma ser considerada idiopática, embora esteja associada à infecção antecedente nos países mediterrâneos e africanos. Também pode ser observada com síndromes eosinofílicas sistêmicas, como síndrome de Churg-Strauss ou malignidades. A miocardite de hipersensibilidade costuma ser um diagnóstico inesperado, feito quando a biópsia revela infiltração com linfócitos e células mononucleares com alta proporção de eosinófilos. Mais comumente, a 30 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS reação é atribuída a antibióticos, particularmente aqueles tomados cronicamente, mas tiazidas, anticonvulsivantes, indometacina e metildopa também foram implicados. Ademais, relataram-se associações ocasionais com a vacina contra varíola. Embora a contagem de eosinófilos circulantes possa estar ligeiramente elevada na miocardite de hipersensibilidade, ela não atinge os níveis elevados da síndrome hipereosinofílica. Glicocorticoides em altas doses e a descontinuação do agente desencadeador podem ser curativos para miocardite de hipersensibilidade. Dessa forma, uma miocardite linfocítica grave foi observada com a combinação de inibidores do ponto de controle imunológico (veja miocardiopatia tóxica abaixo). A miocardite costuma estar associada a doenças inflamatórias sistêmicas, como polimiosite e dermatomiosite, que afetam os músculos esquelético e cardíaco. Embora a miocardite inflamatória não infecciosa às vezes seja incluída no diagnóstico diferencial de achados cardíacos em pacientes com doença do tecido conjuntivo, como lúpus eritematoso sistêmico, a pericardite, vasculite, hipertensão pulmonar e doença arterial coronariana acelerada são manifestaçõescardíacas mais comuns da doença do tecido conjuntivo. Miocardiopatia do periparto A miocardiopatia periparto (MCPP) se desenvolve durante o último trimestre ou nos primeiros 6 meses após a gravidez e afeta entre 1: 2000 a 1: 4000 partos nos EUA. Os fatores de risco são idade materna aumentada, paridade aumentada, gravidez gemelar, desnutrição, uso de terapia tocolítica para trabalho de parto prematuro e pré-eclâmpsia ou toxemia da gravidez. Vários desses fatores de risco contribuem para a sinalização antiangiogênica por meio de inibidores do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), como o FLT1 solúvel (sFLT1). Estudos recentes em animais e humanos confirmaram o papel da diminuição da reserva angiogênica na patogênese da MCPP, que pode ser resgatada mediante a correção do desequilíbrio angiogênico. Outro mecanismo proposto recentemente invoca um fragmento de clivagem anormal da prolactina, que é induzido pelo estresse oxidativo e afeta a angiogênese; essa observação levou à investigação preliminar da bromocriptina como possível terapia. No entanto, outros processos também contribuem para a MCPP. A insuficiência cardíaca, logo após o parto, era comum na Nigéria, quando o costume das novas mães incluía a ingestão de sal enquanto se reclinava em uma cama quente, o que provavelmente prejudicava a mobilização do excesso de volume circulante após o parto. No mundo ocidental, a miocardite linfocítica algumas vezes foi encontrada 31 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I na biópsia do miocárdio. Foi hipotetizado que essa inflamação reflete o aumento da suscetibilidade à miocardite viral ou uma miocardite autoimune devido à reatividade cruzada de anticorpos antiuterinos contra o músculo cardíaco. Como o aumento da demanda circulatória da gravidez pode agravar outras doenças cardíacas que não foram clinicamente reconhecidas, é crucial para o diagnóstico de MCPP que não haja evidências de um distúrbio cardíaco preexistente. Em contraste, a insuficiência cardíaca que se apresenta no início da gravidez foi denominada miocardiopatia associada à gravidez (MCAG). Tanto MCPP quanto MCAG foram encontrados em algumas famílias com outras apresentações de MCD. Na MCD familiar e esporádica, as mutações truncadas no TTN estão presentes em 15% dos pacientes com MCPP e estão associadas à disfunção sistólica que persiste. A gravidez pode, portanto, representar um gatilho ambiental para a expressão fenotípica acelerada de miocardiopatias genéticas e outras. Miocardiopatia tóxica A cardiotoxicidade foi relatada com vários agentes ambientais e farmacológicos. Frequentemente, essas associações são vistas apenas com níveis muito altos de exposição ou sobre dosagens agudas, nas quais as anormalidades eletrocardiográficas e hemodinâmicas agudas podem refletir tanto o efeito direto do medicamento quanto a toxicidade sistêmica. O álcool é a toxina mais comum implicada na MCD crônica e o consumo excessivo pode contribuir para mais de 10% dos casos de insuficiência cardíaca, incluindo exacerbação de casos com outras etiologias primárias, como doença valvar ou infarto prévio. A toxicidade é atribuída ao álcool e ao seu metabólito primário, o acetaldeído. Polimorfismos dos genes que codificam a álcool desidrogenase e a enzima de conversão da angiotensina podem influenciar a probabilidade de miocardiopatia alcoólica em um indivíduo com consumo excessivo. Deficiências de vitaminas superpostas e aditivos alcoólicos tóxicos raramente estão implicados atualmente. O consumo de álcool necessário para produzir miocardiopatia em um coração normal foi estimado em cinco a seis doses (cerca de 70g de etanol puro) por dia, durante 5 a 10 anos, mas o consumo excessivo de álcool também pode ser suficiente. Muitos pacientes com miocardiopatia alcoólica são totalmente funcionais em suas vidas diárias, sem estigmas aparentes de alcoolismo. O comprometimento cardíaco na miocardiopatia alcoólica grave é a soma dos danos permanentes e de um componente substancial que é reversível após a cessação do consumo de álcool. A fibrilação atrial ocorre comumente tanto 32 UNIDADE I | TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS no início da doença (“coração de férias”) quanto em estágios avançados. A terapia médica inclui antagonistas neuro-hormonais e diuréticos conforme necessário para o controle de fluidos. A retirada deve ser supervisionada para evitar exacerbações de insuficiência cardíaca ou arritmias e deve-se providenciar suporte contínuo. Mesmo com doença grave, melhora acentuada pode ocorrer dentro de 3-6 meses de abstinência. Os desfibriladores implantáveis são geralmente adiados até um período adequado de abstinência, após o qual podem ser dispensados se a fração de ejeção tiver melhorado. Com o consumo contínuo, o prognóstico é sombrio. Cocaína, anfetaminas e estimulantes catecolaminérgicos relacionados podem produzir miocardiopatia crônica, bem como isquemia aguda e taquiarritmias. A patologia revela microinfartos consistentes com isquemia de pequenos vasos, semelhantes aos observados com feocromocitoma. Os agentes quimioterápicos são os medicamentos mais comumente implicados na miocardiopatia tóxica. Nesse sentido, o uso criterioso dessas drogas requer um equilíbrio entre os riscos de malignidade e os riscos de cardiotoxicidade, uma vez que muitos cânceres têm curso crônico com melhor prognóstico do que a insuficiência cardíaca. Antraciclinas (exemplo, Doxorrubicina) causam alterações histológicas características de degeneração vacuolar e perda miofibrilar. A geração de espécies reativas de oxigênio envolvendo compostos heme é atualmente a explicação preferida para lesão de miócitos e fibrose. O risco de cardiotoxicidade aumenta com doses mais altas, doença cardíaca preexistente, idades extremas, quimioterapia concomitante ou irradiação torácica e em mulheres. Embora a miocardiopatia seja frequentemente considerada tardia após a exposição, um estudo recente mostra que a disfunção sistólica é geralmente evidente, dentro de um ano após a exposição à antraciclina, entre pacientes adultos que desenvolvem miocardiopatia. A cardiotoxicidade da doxorrubicina geralmente resulta em dilatação ventricular mínima, talvez devido à fibrose associada. Assim, o volume sistólico pode ser severamente reduzido com uma fração de ejeção de 30-40%, em contraste com a compensação hemodinâmica possível em um ventrículo dilatado típico de outra insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. A terapia inclui inibidores da enzima de conversão da angiotensina e agentes bloqueadores β-adrenérgicos, com supressão cuidadosa da taquicardia sinusal “inadequada” e atenção à hipotensão postural que pode ocorrer nesses pacientes. Uma vez que se pensava ter um curso descendente inexorável, muitos pacientes com cardiotoxicidade da doxorrubicina melhoram com o manejo cuidadoso para função clínica quase normal, particularmente se insultos adicionais, como hipertensão ou taquicardias supraventriculares, podem 33 TIPOS DE DOENÇAS CARDÍACAS | UNIDADE I ser evitados. O curso é diferente para os pacientes que recebem esses medicamentos antes da puberdade, nos quais o crescimento inadequado do coração pode levar a uma insuficiência cardíaca inevitável quando o paciente chega aos 20 anos. O trastuzumabe (Herceptin) é um anticorpo monoclonal que interfere no receptor de crescimento epidérmico humano 2 (HER2) crucial para o crescimento de alguns tumores e para a adaptação cardíaca. A incidência de cardiotoxicidade é menor do que para as antraciclinas, mas é aumentada pela coadministração com essas antraciclinas. Embora seja considerada mais frequentemente reversível, a cardiotoxicidade do trastuzumabe nem sempre remite, e alguns pacientes evoluem para insuficiência cardíaca clínica e morte. Tal como acontece com a cardiotoxicidade da antraciclina, a terapia é a usual para insuficiência cardíaca, mas não está claro se a taxa espontânea de melhora é aumentada por antagonistas neuro-hormonais.