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EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO reflexões e perspectivas VOLUME 2 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Mariana Brandão Silva - Bibliotecária - CRB -1/3150 Educação em transformação : reflexões e perspectivas - Volume 2 / organização Diego Andrade de Jesus Lelis. – São Paulo : Editora Dialética, 2024. 196 p. = (v. II) E24t Bibliografia. ISBN 978-65-270-1526-0 1. Educação. 2. Ensino. 3. Ciências sociais. I. Lelis, Diego Andrade de Jesus (org.). II. Título. www.editoradialetica.com Copyright © 2024 by Editora Dialética Ltda. Copyright © 2024 by Diego Andrade de Jesus Lelis (Org.) Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. @editoradialetica /editoradialetica EQUIPE EDITORIAL Editores Profa. Dra. Milena de Cássia de Rocha Prof. Dr. Rafael Alem Mello Ferreira Prof. Dr. Tiago Aroeira Prof. Dr. Vitor Amaral Medrado Gerente Editorial Daniela Malacco Produtora Editorial Larissa Teixeira Controle de Qualidade Maria Laura Rosa Capa Mirela Martins Diagramação Mirela Martins CDD-370 Preparação de Texto Nathália Sôster Revisão Responsabilidade do autor Auxiliar de Bibliotecária Laís Silva Cordeiro Assistentes Editoriais Jean Farias Rafael Andrade Ludmila Azevedo Pena Thaynara Rezende Estagiários Giovana Teixeira Pereira Maria Cristiny Ruiz APRESENTAÇÃO Iniciamos a apresentação desta coletânea a partir da questão cer- ne que a constitui: educação em transformação. Ao concebermos essa ideia, assumimos que a educação é uma grande espiral que se transfor- ma à medida que transforma as vidas que são tocadas por ela. Uma re- troalimentação de tocar, transformar, ser tocada e transformada, sendo, portanto, algo vivo e carregado de possibilidades, como é a vida de cada pessoa humana. Eis a compreensão de educação que temos e que as pes- quisas que fazem parte desta obra trazem. O capítulo inicial nos insere na problemática da volta às aulas presenciais no período da pandemia da COVID-19. Trata-se de uma pes- quisa de cunho teórico sob o viés de assinalar que organismos e inte- resses externos às escolas pressionaram o retorno às aulas presenciais. A pesquisadora destaca a presença de uma ideia necrófila de condução dos processos, sobretudo no tocante ao desrespeito às vidas e aos corpos que constituem o universo escolar. O segundo capítulo discute sobre os benefícios de inserção das tecnologias digitais de informação e comunicação na aprendizagem de jovens. Trata-se também de uma pesquisa qualitativa de cunho biblio- gráfico. Destaca-se o potencial pedagógico dessas ferramentas, sobretudo em decorrência de presentificação do universo simbólico digital no qual os estudantes estão imersos e dos desafios para a sua utilização nos mais diversos contextos da sala de aula. O terceiro capítulo discute sobre o ensino da língua portuguesa na Guiné-Bissau diante da necessidade de ensino de gêneros textuais. A pesquisa baseia-se na revisão de literatura e na realização de entrevistas com 5 estudantes guineenses da Unilab matriculados entre o 3º e 6º se- mestre. Os resultados apontam para a ausência de espaços para o ensino dos gêneros textuais nas escolas da Guiné-Bissau. O quarto capítulo aborda a atuação docente como estratégia para fortalecimento das competências digitais nas escolas públicas brasileiras. A pesquisa é uma discussão teórica sobre a temática em tela e perpassa a área da formação de professores e as possibilidades de atuação destes profissionais para a utilização das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs). O quinto capítulo apresenta um estudo sobre a participação das crianças na 10ª Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, promovida pelo Município de Belo Horizonte, por meio do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. O pesqui- sador estabelece para a metodologia da pesquisa as características de uma investigação etnográfica e assinala sobre o ser criança em um universo permeado de adultez, que cobra desses seres o comportamento e a com- preensão do mundo pelo viés de um adulto, negando, muitas vezes, a eles o seu lugar de ser criança. O sexto capítulo nos convida a lançar o nosso olhar sobre a edu- cação infantil e a ludicidade, por meio das contribuições da brincadeira ‘amarelinha’ no desenvolvimento cognitivo da criança. Trata-se de uma pesquisa qualitativa na qual a pesquisadora se utilizou das técnicas de ob- servação e entrevistas com os professores que atuam na Educação Infantil em Boa Esperança – Presidente Kennedy-ES. Os resultados da pesquisa assinalam que o envolvimento em atividades pedagógicas que incorpo- rem jogos, brinquedos e outros elementos lúdicos é essencial para o de- senvolvimento cognitivo das crianças na Educação Infantil. O sétimo capítulo traz para a reflexão a temática do ambiente virtual de aprendizagem como ferramenta de auxílio ao professor tutor na modalidade de educação a distância. Trata-se de uma pesquisa quali- tativa de cunho bibliográfico, na qual o pesquisador se guia pelas ques- tões sobre a importância do professor tutor no ensino na modalidade de educação a distância e as tecnologias aliadas ao processo educacional. O oitavo capítulo apresenta a reflexão sobre o protagonismo e empreendedorismo para adolescentes privados de liberdade. Compreen- de-se que essa é uma área carente de discussões, tendo em vista que ela aparece como um espaço invisibilizado. A pesquisa é desenvolvida tendo como fonte de dados as entrevistas com principais gestores dos órgãos responsáveis pela implementação e execução das políticas públicas nessa área. Dentre os principais resultados, constata-se que ainda existe uma grande distorção no reconhecimento do adolescente como sujeito em de- senvolvimento, sujeito de direitos e prioridade absoluta. O nono capítulo desta obra lança luzes sobre a temática do sur- gimento do bloco baiano Olodum e sobre as interfaces em relação à Lélia Gonzales nesse processo. A pesquisadora alicerça a pesquisa por meio de buscas de informações sobre essa temática nos mais diversos espa- ços, sobretudo no que encontra disponível nos sites. Conclui-se que Lélia Gonzales não contribuiu diretamente com a fundação do referido bloco, contudo, pode ter servido de inspiração intelectual em virtude de sua representativa e contributo com o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial. O décimo capítulo discute sobre a interface entre brincar e apren- der na educação infantil no que se refere à questão de gênero. A autora desenvolve a temática a partir de uma pesquisa qualitativa de cunho bi- bliográfico com embasamento em autores que discutem a aprendizagem infantil e a brincadeira como elemento mimético de reprodução das rela- ções estabelecidas no mundo. O último capítulo desta obra traz à baila de discussão a problemáti- ca da violência nas escolas na perspectiva de que essa realidade no ambien- te escolar é reflexo da situação social externa aos muros da escola. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico sobre a temática em pauta. A pesquisadora evidencia a necessidade de fazer do ambiente esco- lar um espaço de acolhida e cuidado com o intuito de fazer desse ambiente um lugar de vida, além de romper com o ciclo de exclusão e violência. Como assinalado no princípio desta apresentação, a educação é um espaço vivo e de vida. As pesquisas que constituem essa obra nos fala disto. A pluralidade de temáticas e os diversos vieses nas quais elas se apresentam nos mostram que a educação está em constante transforma- ção, assim como tudo que é vivo neste nosso planeta. Faço votos de que estas pesquisas inspirem outros pesquisado- res a olharem cientificamente para sua realidade e a partilharem com outros pesquisadores que fazem da educação umde que: A gramática como algo estanque cujo ensino justificava-se por si só (ensino baseado na forma) passou a conviver com outras visões de ensino, nas quais saber a forma (sintaxe, morfologia, fonologia) não era suficiente, mas que tal conhecimento deveria ser acompanhado de compreensão relativa ao significado das formas aprendidas (se- mântica) e ao uso dessas formas em contextos comunicativos (prag- mática) (GONZALEZ; QUEVEDO-CAMARGO, 2017, p. 214). Entendemos que esta perspectiva de ensino deve ser levada em consideração na Guiné-Bissau para que possa haver o resultado esperado por parte de estudantes. Para esse cumprimento, acreditamos que é pre- ciso usar os gêneros textuais para ensinar diferentes assuntos, envolvendo até assuntos gramaticais. Não é a nossa intenção abolir a gramática nor- mativa no ensino de LP na Guiné-Bissau, mas entendemos que já é hora 43 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? de considerar essas três dimensões (forma, significado e uso), frisadas pe- las autoras, no ensino de LP na GB e dar um espaço significante ao ensino de gêneros textuais para que os alunos possam perceber o funcionamento de LP de forma mais próxima às suas realidades, a partir de escolha de textos que retratem da realidade local. Dito isto porque, muitas vezes, as gramáticas escolares que são usadas em salas de aulas da Guiné-Bissau são produzidas no exterior e por internacionais, principalmente por por- tugueses e brasileiros que vivem em seus respectivos países sem basear no contexto guineense. Não é que não devem ser usados, em salas de aulas, as gramáticas e outros materiais didáticos produzidos por internacionais no exterior. A questão é que, em maioria dos casos, essas gramáticas e outros materiais didáticos não refletem a realidade do país. Na seção seguinte, demonstramos o caminho que percorremos para coletar os dados, e assim como demostramos quem são os partici- pantes da pesquisa. METODOLOGIAS DE PESQUISA Este texto é recorte da nossa dissertação de mestrado aprovada e publicada em 2022. Epistemologicamente, a pesquisa situa-se na área de Linguística Aplicada, trazendo teorias que debruçam sobre gêneros tex- tuais, considerando que a redação de artigo de opinião é uma das principais provas de admissão da UNILAB. Metodologicamente, a pesquisa caracte- rizou-se como um estudo de caso numa abordagem qualitativa. Para coleta de dados, aplicamos a entrevista semiestruturada onde procuramos saber sobre as dificuldades que os participantes passaram ao longo do processo seletivo, considerando suas formações no ensino secundário. Para análise, embasamos em teoria de análise temática defendida por Minayo (2007). No final, ao longo das falas dos participantes, constatamos que na Guiné- -Bissau o ensino de produção escrita ocupa pouco espaço nas aulas de Lín- gua Portuguesa em detrimento do ensino da gramática normativa, o que acaba levando muitos estudantes guineenses a pagar cursos particulares para poder participar do processo seletivo da UNILAB. Em seguida, apresentamos os resultados da pesquisa e a respec- tiva discussão. Apesar de experiências diferentes dos participantes da pesquisa, vimos que eles relataram algo em comum, quase unânime, a predominância de ensino de Língua Portuguesa durante seus percursos no ensino secundário. 44 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 RESULTADOS E DISCUSSÕES Para este texto, fizemos recorte de 3 respostas da entrevista se- miestruturada com 5 estudantes guineenses da Unilab de entre 3º a 6º se- mestre. A entrevista com o público-alvo aconteceu na plataforma Google Meet no mês de fevereiro de 2022. A idade dos participantes compreende entre 23 a 26 anos de idade. Em se tratando do ensino da Língua Portuguesa como língua segunda na Guiné-Bissau, quais são os conteúdos que predominam durante às suas aulas no Ensino Secundário (10º, 11º e 12º ano de escolaridade)? Participante 1: Olha, é muito difícil para mim enquanto guineense que já concluiu o ensino secundário, nesse caso, numa escola pública do país, afir- mar com rigor como foi a oferta da disciplina Língua Portuguesa no ensino secundário. Por que é que eu digo isto? Porque pode-se notar quase em todos esses níveis do 10º, 11º e 12º anos que, para mim, não havia tanta di- ferença em termos dos conteúdos dados. Ou seja, em todos esses três níveis escolares, eu percebia que estudava mais a gramática e um pouco da leitura e interpretação do texto do que quaisquer outros conteúdos. Participante 2: Então, de modo geral, pelo que acompanhei ao longo do meu ensino secundário, vi que há muita diferença de conteúdos dados nas escolas públicas com relação às escolas privadas. Isto porque eu estudava em uma escola privada, mas costumava ir estudar em uma escola pública, às vezes assisto às aulas de Língua Portuguesa nessa escola pública. Os con- teúdos dados nessa escola são muito limitados. Por exemplo, às vezes pro- fessor 5 horas/aulas para falar de formação de frase, verbo, predicado, tudo na base da gramática. Eu acho que professor poderia falar desses assuntos nos textos que os alunos vão ler ou escrever. Às vezes professor manda o alu- no simplesmente fazer leitura do texto no quadro. Eu acho que seria melhor o professor entregar o texto para que os alunos lessem em casa e depois na aula o aluno poderia ir ao quadro explicar o que compreende do texto, sem a necessidade de ficar a fazer simples leitura no quadro. Participante 3: Eu, particularmente, posso dizer que os conteúdos grama- ticais e leitura com interpretação de textos são mais predominantes. Sobre conteúdos gramaticais, é comum os professores falarem sobre conjugação de verbos no modo conjuntivo sobretudo. Na leitura e interpretação de texto, os professores sempre costumam trazer um texto narrativo onde solicitam 45 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? alunos a descobri as personagens (personagem principal, figurante, coadju- vante, antagonista etc.) e enredo do texto. Participante 4: É assim, os conteúdos que predominam nas aulas de Língua Portuguesa durante o meu ensino secundário são conteúdos gramaticais, produção escrita e leitura sequencialmente. Participante 5: Como eu falei há bocado, são os conteúdos gramaticais. Pro- fessor traz um texto deixando espaços para completarmos o verbo no modo e tempo solicitado. Também, outras vezes, o professor costuma dar um texto narrativo para explorarmos em casa, para descobrir personagens do texto e tudo sobre o texto. Ao buscarmos saber sobre os conteúdos que predominam no en- sino secundário, todos os participantes não hesitaram em dizer que são os conteúdos gramaticais, apoiados na gramática escolar. Essas respostas não nos surpreendem, pois, como se pode constatar no subcapítulo de- dicado ao ensino de LP na Guiné-Bissau deste trabalho, é perceptível que o ensino de LP no país de origem dos estudantes-participantes é pratica- mente da base da gramática normativa. Este assunto nos constitui enorme preocupação visto que essa abordagem de ensino nos parece que não está funcionando, pois durante todo o ensino secundário, 10º, 11º e 12º ano, os alunos são ensinados a gramática, mas no final continuam a ter problemas e dificuldades em produzir os textos e em falar a Língua Portuguesa. Olhando para o resultado final do ensino de LP a partir dos alu- nos que concluem o ensino secundário nas escolas públicas sobretudo, como relatam os participantes desta pesquisa, entendemos que o ensi- no de produção de diferentes gêneros textuais, contextualizados, deve ganhar mais espaço em detrimento ao ensino da gramática tradicional. Até porque ficou claro para muitos teóricos da área de linguagem que a gramática não ensina a falar e nem ensina a escrever com eficácia uma determinada língua. A este respeito, é entendido que: [...] essaênfase do ensino da gramática, nas escolas públicas do ensino básico e secundário do país [Guiné-Bissau], faz com que os alunos concluem o 12º ano sem terem o domínio de ler e escrever por ensino de gramática, nas aulas de Língua Portuguesa, conti- nua a acontecer de forma arcaica e mecânica até nos dias de hoje (INFAU, 2019, p. 42). Ainda sobre este assunto, Antunes relata que: 46 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Em síntese, o que tem predominado na escola é um tratamento da gramática que nega a natureza mesma da língua – da qual toda gramática é parte imprescindível – com atividade de interação recí- proca, entre interlocutores, engajados em determinado evento co- municativo, compartilhando sentidos, propósitos ou intenções, que levaria, necessariamente, a uma gramática “diferenciada”, na depen- dência dessa pluralidade de fatores (ANTUNES, 2014, pp. 52 – 53). A insistência em continuar a eleger a gramática normativa como material didático mais importante no contexto de ensino de LP na Guiné- -Bissau nos parece que transmite uma ideia de que para aprender a língua é preciso decorar ou memorizar a gramática, como se fosse a gramática o que orienta às pessoas a falar e não a gramática que deve registrar as dife- rentes formas de falar de uma língua. Neste sentido, concordamos que “ [...] ainda falta perceber que uma língua é muito mais do que sua gramática. Muito mais, mesmo. Toda a história, toda a produção cultural que uma lín- gua carrega, extrapola em muito os limites de sua gramática.” (ANTUNES, 2009, p. 13). Na mesma linha de pensamento, a autora observa que: Parece que são dois caminhos paralelos, que nunca vão se encon- trar: por um lado, os cientistas e pesquisadores, com suas inves- tigações e achados; por outro, os professores, com suas atividades diárias de ensino. Cada um olhando para seu próprio mundo. [...] O ensino continua preso às suas próprias justificativas e conve- niências, e assim, vai-se produzindo nos mesmos perfis e parâme- tros (ANTUNES, 2009, p. 14). Partindo destes argumentos, talvez seja necessário haver relações mais estreitas entre linguistas aplicados e professores de LP dos ensinos básico e secundário da Guiné-Bissau para debater esta questão de ensino de LP. Se for preciso, buscar a realização de congressos e capacitações dos professores com frequência para que possam despir dessa ideia de que somente com o ensino da gramática que os alunos vão dominar a língua. Como já dissemos em outra ocasião neste trabalho, não estamos contra o ensino da gramática na escola e nem estamos aqui para apelar à sua abolição. Mas entendemos que é preciso que o ensino de LP na Guiné- -Bissau seja ressignificado/reorientado para que passemos a ter uma gra- mática contextualizada que reflita as características distintivas do contexto local e mais espaço para o ensino de gêneros textuais, quer no âmbito da escrita assim como na leitura, onde o ensino deve passar a considerar não 47 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? somente a forma, mas o significado e o uso real, pois “[...] essas três dimen- sões – forma, significado e uso – atribuem dinamismo ao ensino da gramá- tica na medida em que ela passa a ter sentido para os alunos. Dessa forma, reconhece-se a importância da gramática como suporte essencial para a aprendizagem de línguas” (GONZALÉZ; QUEVEDO-CAMARGO, 2017, 214). Assim, desta maneira, “[...] teorias do texto, concepções de leitura, de escrita, concepções, enfim, acerca do uso interativo e funcional das línguas, é o que pode embasar um trabalho verdadeiramente eficaz do professor de português” (ANTUNES, 2003, pp. 40 – 41). Os resultados da presente pesquisa indicam que o ensino de Lín- gua Portuguesa na Guiné-Bissau precisa incorporar os gêneros textuais no ensino, dando mais espaço para o uso da língua alvo em situações relevantes. O ensino da LP pode preferir, ainda, uma abordagem comu- nicativa que valoriza não só o uso deliberado de gêneros, mas de todo um arsenal de instrumentos e procedimentos típicos da abordagem comu- nicativa. Textos podem ser selecionados em função de outras demandas comunicativas que fornecem elementos de contextualização maior, não ficando presos a exemplos isolados e descontextualizados de exames e cursos que já se afastem das limitações do ensino da gramática norma- tiva. É possível aguardar por mudanças significativas no resultado final dos alunos (na sua competência comunicativa) que concluem o ensino secundário. Isso pode fazer com que os que procuram participar no pro- cesso seletivo da UNILAB não estejam mais preocupados em arrumar dinheiro para pagar aulas privativas que abram chances novas de partici- pação em provas de redação. De que maneira você avalia o ensino de produção escrita ao longo do seu Ensino Secundário na Guiné-Bissau? Participante 1: Olha, eu vou ser muito sincero, na verdade quando eu estudava por exemplo no meu ensino secundário, eu praticamente saí do liceu, no entanto, sem saber o que era produção escrita. Porque foi algo que eu não fui ensinado. Lembro-me muito bem, os conteúdos das nos- sas provas eram mais daquele modelo técnico que muitas vezes obriga o aluno a recorrer a fazer cópia-e-cola, ou seja, aquilo que chamamos de “cábula” no nosso contexto da Guiné. Participante 2: Como falei, o ensino de produção escrita é fraco no ensino público, mas na escola privada onde estudei meus últimos anos do ensino 48 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 secundário, considero de médio a alto o ensino de produção escrita. Não é alto assim, mas é bem superior ao do ensino público. Se as escolas públicas ensi- nassem como no São José, onde estudei, os estudantes guineenses candidatos aos ingressos aos cursos da Unilab estariam enfrentando menos dificuldades no processo seletivo da Unilab no que diz respeito à redação que fazem. Participante 3: Particularmente, avalio como fraca a produção escrita no ensino secundário. Até certo ponto, posso afirmar que é inexistente a pro- dução escrita no ES porque nunca aprendi sobre escrever algum gênero textual na escola. Participante 4: De acordo com a minha experiência, o ensino de produção escrita é bom porque tive a oportunidade de estudar em melhores escolas privadas do país que exigem a produção escrita. Participante 5: Então, falando de produção escrita durante o meu ensino secundário, como já falei, só aprendi a fazer resumo e um pouco de reda- ção, mas essa redação que fazíamos era composta apenas de um parágrafo corrido. É aquela redação que os professores pedem para fazer depois de um determinado feriado. Antes de analisarmos as falas dos participantes, importa frisar que a UNILAB, onde os estudantes em causa cursam a graduação, possui duas disciplinas, Leitura e Produção de Texto I e II, obrigatórias para to- dos os cursos de graduação da referida universidade que levam os alunos a conhecer e produzir diferentes gêneros textuais recorrentes na acade- mia. Baseado no conhecimento dos gêneros textuais que os participantes detêm agora, ao avaliarem o ensino de produção escrita no ensino se- cundário, o Participante 2, que concluiu o seu ensino secundário numa das mais conhecidas escolas privadas do país – a São José - considera que quando esteve no Liceu (ensino secundário público) não sabia muito sobre produção escrita e só veio a ter conhecimento e domínio de pro- dução de gêneros textuais quando se mudou para essa escola privada. Na mesma direção, o Participante 4, que também cursou todo o seu ensino secundário nas escolas privadas do país, disse que avalia como bom o ensino de produção escrita no ensino secundário por ter estudado numa dessas melhores escolas privadas que exigem a produção escrita. Já os 3 (três) restantes participantes consideram como péssimo o ensino de produção escrita no ensino secundário. Por exemplo, o Par- ticipante 1 apontaque quando estudava no liceu não sabia nada sobre produção escrita de gêneros textuais e o que prevalecia era os conteúdos 49 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? (gramaticais) que eram obrigados a decorar. O Participante 3, por sua vez, considera fraco o ensino de produção escrita no ensino secundá- rio. O mesmo entendemos do Participante 5 que disse: “ [...] só aprendi a fazer resumo e um pouco de redação, mas essa redação que fazíamos era composta de apenas um parágrafo corrido. É “aquela redação” que os professores pedem para fazer depois de um determinado feriado”. No que diz respeito a redação de um parágrafo corrido, isso pode demons- trar a falta de interesse dos professores em ensinar produção escrita nesse gênero, pois o formato não é compatível com o modelo de redação que os estudantes são cobrados posteriormente para ingressar num curso de graduação. Logo, não faz sentido ensinar aos alunos o que não é aprovei- tável para eles. A redação que exigem deles depois de cada feriado pode- ria ser um artigo de opinião já com uma estrutura do mesmo para que os estudantes se acostumassem a produzir gêneros cobrados nas provas de ingresso a alguma universidade ou na Unilab que promove o seu ves- tibular na Guiné-Bissau. Consideramos de suma importância a atividade de escrita em salas de aulas, visto que estudante que tiver domínio de produção tem mais chance de prosseguir com êxito nos seus estudos su- periores. O CENPEC (2021) exorta que: Alguns pensam, ingenuamente, que o trabalho escolar limita-se a facilitar o acesso ao código alfabético; entretanto, a tarefa do pro- fessor é muito mais abrangente. Compreender e produzir textos são atividades humanas que implicam dimensões sociais, culturais e psicológicas e mobilizam todos os tipos de capacidade de lingua- gem (CENPEC, 2021, p. 9). Dessa forma, inserir na lista de conteúdos dos professores de Lín- gua Portuguesa do ensino secundário a produção escrita de diferentes gê- neros textuais, com destaque a produção de artigo de opinião como o faz a Unilab no seu concurso de ingresso, respeitando a estrutura formal da língua numa situação simuladora da capacidade de uso da LP. Essa é uma forma estratégica de facilitar a preparação dos estudantes concluintes do ensino secundário no prosseguimento dos seus estudos com menos difi- culdades nas universidades que cobram produção desse(s) gênero(s) nos seus exames de admissão. Analisando os depoimentos dos participantes, percebe-se que em poucas escolas privadas da Guiné-Bissau já há sinais de algum ensino da produção escrita que pressupõe, obviamente, a habilidade e o hábito 50 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 da leitura. Mas nas escolas públicas esse não é o caso ainda. Conside- rando-se a necessidade de domínio da produção de gêneros textuais por parte dos estudantes e também porque o ensino de Língua Portuguesa no país não deve continuar estático com a mesma metodologia centrada no sistema da língua, baseada somente em gramática normativa, entende- mos que é urgente a reformulação do ensino de LP nas escolas públicas da Guiné-Bissau. O nosso estudo de caso do concurso vestibular da Uni- lab revela a fragilidade, mas a evolução do ensino da LP seria benéfica para todos os estudantes do ensino liceal como preparatório para toda e qualquer universidade da Guiné-Bissau, de todo o mundo da Lusofonia ou até além dele. O que é mais cobrado nas tarefas escritas que se fazem em salas de aulas de Língua Portuguesa do Ensino Secundário? E por que isso é mais cobrado? Participante 1: Durante a minha passagem no ensino secundário e em todas as provas que eu fazia da disciplina da língua portuguesa, era mais comum na disciplina da língua portuguesa provas voltadas a leitura e interpretação do texto. Por exemplo: identificar personagens do texto, quem era o autor principal, quais os secundários e figurantes do texto. Além disso, também cos- tumam trazer um pouco de conjugação do verbo, mormente do modo con- juntivo. Esse modelo de prova era mais comum entre os professores da língua portuguesa, porque percebi que essa era a forma que conseguiam descobrir quais eram os melhores alunos, ou seja, que estavam atrelando num bom caminho, no que diz respeito à percepção da matéria ensinada durante o pe- ríodo da aula normal. Aqui o mais importante para os professores na minha percepção era a língua portuguesa em si, descobrir entre os alunos quais os melhores em termos da fala, escrita e percepção da língua portuguesa. Participante 2: As tarefas mais cobradas ao longo do ensino secundário são: falar língua portuguesa em sala de aula; chamada oral, onde as perguntas devem ser respondidas precisamente como consta no manual de apoio da disciplina e, neste caso, alunos não são ensinados a citar autores, procuram responder ao pé da letra, como está no fascículo, como se fosse o que enten- dem. Eu acho essas formas de avaliação muito precárias. Participante 3: Como posso dizer, nesses três últimos anos do ensino secun- dário as tarefas que são mais cobradas são provas a respeito de conjugação de verbos em um determinado modo e tempo verbal correto, interpretação 51 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? de um texto narrativo para descobrir personagens de texto e para depois leitura sequencialmente – esta última os professores entendem que o aluno deve saber ler antes de terminar o ensino secundário. Participante 4: É assim, para ser sincero, a maioria das tarefas ou ativida- des que fazíamos ao longo do ano letivo no ensino secundário está mais vol- tada para conteúdos gramaticais porque dizem que para dominar a Língua Portuguesa é preciso dominar a gramática escolar. Mas, na verdade, eu não concordo com este tipo de ensino. Porque se formos ver, a língua está muito além da gramática. Participante 5: Como eu falei há bocado, são os conteúdos gramaticais. Pro- fessor traz um texto deixando espaços para completarmos o verbo no modo e tempo solicitado. Também, outras vezes, o professor costuma dar um texto narrativo para explorarmos em casa, para descobrir personagens do texto e tudo sobre o texto. Nosso propósito com relação a esta pergunta foi o de saber quais são os tipos de tarefas que os professores solicitam aos alunos fazer, pois entendemos que as tarefas escritas são outras formas de desenvolver e aprimorar a escrita dos alunos. Com as tarefas escritas, o professor pode descobrir problemas ou dificuldades dos alunos e ajudá-los a ultrapassar essas dificuldades. Sobre tarefas que estudantes faziam ao longo dos anos letivos do ensino secundário, conforme suas respostas, basicamente são dois tipos de tarefas predominantes. Uma é acerca da gramática e a outra é sobre exploração de um determinado gênero literário, onde são sempre solici- tados para identificarem os elementos desse texto narrativo. A nosso ver, todos esses tipos de tarefas são importantes. Mas, mais uma vez, sentimos a falta de produção escrita nas tarefas que estu- dantes faziam no decorrer do ensino secundário. Até certo ponto, enten- demos que os professores são fieis com relação a essas tarefas que solici- tam dos estudantes, pois deve-se cobrar o que foi ensinado. Se o ensino é fortemente baseado na gramática, sem ensino de produção de gêneros textuais, então, as tarefas também devem ser sobre a gramática. Contudo, com essas tarefas, percebemos que os professores não logram reconhecer o que são tarefas escolares, visto que conforme Scaramucci (2012) as tare- fas escritas são produzidas com um propósito comunicativo claro, envol- vendo interlocutores. Assim, as tarefas podem ter a intenção de escrever para convidar ou descordar do alocutário. Desta forma, não nos parece 52 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 estratégico que tanto tarefas escritasassim como as avaliações sejam so- mente para tratar de aspectos gramaticais e explorar o texto narrativo. Entre as respostas desta indagação, chama a nossa atenção a res- posta do Participante 1 ao dizer que “esse modelo da prova era mais comum entre os professores da língua portuguesa, porque percebi que essa era a forma que conseguiam descobrir quais são os melhores alunos, ou seja, que estavam num bom caminho, no que diz respeito, a percepção da matéria ensinada durante o período da aula normal”. Esta nos parece apenas a percepção do participante, mas coso seja esse o propósito do professor podemos pensar que tanto o professor e assim como o estudan- te devem não perceber a finalidade de uma tarefa. Percebemos que o par- ticipante deve estar a fazer confusão de tarefa com avaliação, mas mesmo que seja a avaliação o professor não deve ter esse propósito, pois fica a ideia de que o professor não tem responsabilidade com relação ao resul- tado que estudantes produzem nas tarefas ou nas avaliações, quando na verdade esse não é o propósito das tarefas e nem das avaliações escolares. Segundo Weigle (2002) um dos propósitos das tarefas de avalia- ção escrita é o de elaborar possíveis situações de escrita na língua-alvo para alunos de um determinado nível ou de um determinado publicado- -alvo. Com relação a avaliação, Pascoal (2018) nos exorta que: A avaliação é uma ferramenta utilizada para constatações de dados referentes ao que foi aprendido e ao que foi ensinado, ou seja, a ava- liação seria capaz de demonstrar informações sobre alunos e profes- sores. [...] a avaliação deve ser também orientadora, por poder in- dicar dados sobre a progressão do trabalho de professores e alunos, identificando necessidades de modificações alternativas para a me- lhoria nos rendimentos de ambos autores (PASCOAL, 2018, p. 26). Conforme a autora, é desta maneira que nós acreditamos que tanto nas tarefas assim como nas avaliações escolares o propósito deve ser aquele de descobrir o nível de aprendizado dos alunos e o nível do trabalho do professor, pois a partir das atividades dos estudantes o pro- fessor pode perceber também o nível do seu trabalho enquanto docente e não somente fazer as tarefas para descobrir quem é o melhor aluno. Nós reconhecemos que existem várias categorias de avaliações, mas este não é o objeto de estudo deste nosso trabalho. A outra resposta que também nos chamou atenção é a resposta do Participante 4 ao dizer que “a maioria das tarefas ou atividades que 53 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? fazíamos ao longo do ano letivo no ensino secundário está mais voltada para conteúdos gramaticais porque dizem que para dominar a Língua Portuguesa é preciso dominar a gramática escolar”. Mais uma vez, somos obrigados a bater na mesma tecla de que não é a gramática que nos faz dominar a língua. A prova disso está mesmo na fala dos participantes. Portanto, essa alegação não se sustenta no campo de estudos de lingua- gem. A este respeito, corroboramos a ideia de que: [...] saber a gramática não é suficiente para uma atuação verbal efi- caz. De fato, um dos maiores equívocos consiste em se acreditar que o conhecimento da gramática é suficiente para se conseguir ler e escrever com sucesso os mais diferentes gêneros de texto, conforme as exigências da escrita formal e socialmente prestigiada. Somente com base nesse equívoco é que se pode justificar o apego dos pro- fessores (e de toda a comunidade escolar, os pais, inclusivamente): a) à detalhada explanação de cada uma das classes gramaticais, com suas respectivas subdivisões; b) e às intrincadas veredas da análise sintática (ANTUNES, 2007, p. 53). Conforme já adiantamos, reconhecemos a importância da abor- dagem gramatical no contexto de ensino de LP na Guiné-Bissau, mas é preciso que os professores e todos os responsáveis desse processo de ensino-aprendizagem levem em consideração que a gramática escolar é apenas um componente entre outras existentes. Portanto, o ensino de conteúdos gramaticais, baseado na gramática normativa, não deve ser predominante no contexto de ensino de LP no país. Por fim, concluímos com considerações finais onde entendemos que já é a hora de os gêneros textuais ganharem mais espaço nas aulas de Língua Portuguesa na Guiné-Bissau, já que abordagem gramatical herda- da não está dando conta. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a análise, os dados apontam que o ensino de Língua Portu- guesa na Guiné-Bissau é mais da abordagem gramatical, concentrado na gramática normativa, o que acaba levando muitos estudantes a não terem conhecimento sobre produção de gêneros textuais. Para isso, compreen- demos que é preciso que haja um debate sério sobre a situação de ensino 54 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 de LP na Guiné-Bissau. Somos da opinião de que é necessário, sempre que possível, promover formações, debates, palestras, encontros semes- trais ou anuais com os professores de LP do ensino básico e do ensino secundário para debater este assunto de ensino de LP no país. O que intensificamos dizer a respeito do ensino de LP no país de origem dos participantes é porque acreditamos que o conhecimento da gramática normativa não é suficiente para levar ao aluno a escrever e a falar bem uma língua, pois “[...] a língua, por ser uma atividade intera- tiva, direcionada para a comunicação social, supõe outros componentes além da gramática, todos, relevantes, cada um constitutivo à sua maneira e em interação com os outros” (ANTUNES, 2007, p. 40). Ainda segundo a autora, esse apego ao ensino da gramática normativa apenas: Na prática, nós nos esquecemos de que uma língua, além de uma gramática, tem também um léxico, quer dizer, um conjunto rela- tivamente extenso de palavras, à disposição dos falantes, as quais constituem as unidades de base com que construímos o sentido de nossos enunciados (ANTUNES, 2007, p. 42). Partindo desse pressuposto, concluímos que uma nova postura de ensino baseada no ensino de gêneros textuais, quer no âmbito da es- crita e assim como da leitura, pode trazer melhoras relevantes nesse pro- cesso de ensino-aprendizagem de LP na Guiné-Bissau, pois: O processo de aprendizagem da escrita e da leitura, nas chamadas sociedades modernas, é cercado de um conjunto bastante marca- do de valores socioideológicos que vão desde a ideia de que ler e escrever tornam as pessoas mais inteligentes até as possibilidades reais de ascensão social que o domínio da escrita e da leitura per- mitem (FERRAREZI JÚNIOR; CARALVALHO, 2015, p. 19). Ainda segundo os autores, é importante ensinar produção escri- ta aos alunos pré-universitários (ensino secundário) porque é nesse mo- mento que o domínio da escrita começa a fazer mais sentido para eles. A escrita passa a fazer parte de seu cotidiano e nos momentos da vida universitária que vão se enfrentar em seguida. É através de domínio da escrita que os alunos desse nível encontram as respostas satisfatórias em suas atividades básicas do dia a dia. Por exemplo, fazer uma prova escri- ta para ingressar numa universidade ou faculdade é preciso ter domínio 55 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? de escrita; construir um relatório; ata de seus encontros juvenis; resumo; fichamento; resenha; a elaboração de um cartaz ou slide utilizados na apresentação de trabalhos acadêmicos, tudo isso exige domínio de escrita (FERRAREZI JÚNIOR; CARALVALHO, 2015). Desta forma, reiteramos que entre muitas outras atividades es- colares essenciais, os alunos guineenses, pré-universitários sobretudo, precisam também desse conhecimento de redação de diferentes gêneros textuais e sobretudo de produção escrita de um artigo de opinião, pois para participar de exame de admissão da UNILAB, universidade que possui mais guineenses na diáspora, será necessário terdomínio de es- crita. Neste caso, entendemos que é preciso que os gêneros textuais sejam ensinados em todos os anos escolares, de 1º ao 12º ano. E que sejam re- forçados mais no ensino secundário para que os alunos possam terminar seus estudos e ingressar em universidades ou faculdades, principalmente na Unilab, sem grandes dificuldades. REFERÊNCIAS ANEME. Estudo Guiné-Bissau: enquadramento, perspectiva de desenvolvi- mento, levantamento e caracterização das empresas comerciais e industriais. Pólo tecnológico de Lisboa, 2018. ANTUNES, Irandé. 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Designing writing assessment tasks. In: Assessing writing. Cam- bridge: CUP, 2002. p. 77-107. 59 ATUAÇÃO DOCENTE COMO ESTRATÉGIA PARA FORTALECIMENTO DAS COMPETÊNCIAS DIGITAIS NAS ESCOLAS PÚBLICAS BRASILEIRAS Luciano da Silva Buiati Mestrando em Pesquisa em Cirurgia http://lattes.cnpq.br/4775171742295506 lucianopsicologia@hotmail.com RESUMO: Historicamente no Brasil, o setor educação aparece caracterizado tradicionalmente pela dificuldade na implementação de recursos e estratégias que objetivam o desenvolvimento no processo de ensino-aprendizagem, seja pela complexidade presente nos tensionamentos so- ciais, aspectos multiculturais, ou mesmo, a dificuldade de integração entre as diferentes esferas hierárquicas que compõe o funcionamento de toda a rede. Frente aos desa- fios expostos, essa pesquisa buscou compreender de que forma as Tecnologias Digitais de Informação e Comu- nicação (TDICs) são articuladas na prática docente em educação básica, bem como, quais são os recursos e como eles são disponibilizados para que o desenvolvimento do processo possa ocorrer de forma satisfatória, em diálogo contínuo das instituições, docentes, discentes, comunida- de e gestão pública. Conclui-se através desse estudo que embora múltiplas inovações no campo das tecnologias digitais de informação e comunicação forneçam uma am- plitude de possibilidades para uma evolução sustentável no setor educação, fatores de relevância social são identi- ficados como principais aspectos em comprometimento para a evolução neste processo. 60 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Palavras-chave: Educação Digital; Atuação docente; Educação Pública. INTRODUÇÃO Historicamente no Brasil, o setor educação aparece caracterizado tradicionalmente pela dificuldade na implementação de recursos e estraté- gias que objetivam o desenvolvimento no processo de ensino-aprendiza- gem, seja pela complexidade presente nos tensionamentos sociais, aspectos multiculturais, ou mesmo, a dificuldade de integração entre as diferentes esferas hierárquicas que compõe o funcionamento de toda a rede. Em advento à pandemia COVID-19, que desencadeou uma rup- tura com o modelo tradicional de lousa e giz em função da grave crise sanitária presente, em caráter emergencial evidenciou- se a necessidade de adaptação para o ensino remoto, requerendo de toda a comunidade escolar esforços conjuntos para minimizar os potenciais prejuízos pre- sentes em toda essa experiência de crise. Com a necessidade da mediação de recursos tecnológicos para eficácia na comunicação nesse contexto, começaram a ser evidenciadas demandas recorrentes como desafios intensos nesse processo educacio- nal, ter acesso à um aparelho com conexão à internet e a busca por um si- nal estável não estiveram entre os únicos entraves, começou-se a perceber a inabilidade em que os docentes lidavam com os recursos tecnológicos. A transposição literal das atividades pedagógicas para a estrutura on-line veio a se tornar um sintoma ambíguo e complexo, déficits na forma- ção e preparação do grupo docente para interação e manejo com recursos digitais, ausência de matriciamento e acompanhamento desses profissio- nais no desempenho da sua atuação em um cenário atípico e a presença de impactos sociais e emocionais de forma concomitante a todo esse processo. Compreender o processo de atuação docente requer uma capa- cidade analítica sobre as nuances que estruturam essa prática, desde a inclinação para o processo de escolha profissional, até os recursos teóri- cos e instrumentais que vãosendo fornecidos para esse grupo ao longo do seu processo de profissionalização técnica, que nos últimos anos, vem apresentando uma maior tendência para educação à distância. Retomar estes paradigmas pode apresentar potencial para reto- mada de uma discussão social sobre o processo, procurando evitar a ten- dência reducionista em que se refere a culpabilização do insucesso apenas 61 ATUAÇÃO DOCENTE COMO ESTRATÉGIA PARA FORTALECIMENTO DAS COMPETÊNCIAS DIGITAIS NAS ESCOLAS PÚBLICAS BRASILEIRAS aos professores, fragilizando assim, a possibilidade na identificação de recursos que possam apresentar efetividade nas diferentes frentes que de- mandam ações e estratégias integradas e coordenadas. Frente aos desafios expostos, essa pesquisa buscou compreen- der de que forma as Tecnologias Digitais de Informação e Comunica- ção (TDICs) são articuladas na prática docente em educação básica no Brasil, bem como, quais são os recursos e como eles são disponibiliza- dos para que o desenvolvimento do processo possa ocorrer de forma satisfatória, em diálogo contínuo das instituições, docentes, discentes, comunidade e gestão pública. Estabelecer um olhar que contempla os currículos escolares com intencionalidade digital propicia possibilidades de uma maior apropria- ção acerca das repercussões e impactos possíveis no processo formativo dos alunos, que nesse período histórico, apresentam socialmente um mo- delo de linguagem e comunicação envoltos ao uso das tecnologias, desen- volvendo novos padrões relacionais e, consequentemente, demandando novas formas de ensino e educação. FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL O campo escolar inevitavelmente se configura também como um espaço social, reverberando interesses político-econômicos que vêm historicamente sendo regidos pelas relações comerciais globais. E assim, década após década, o discurso de inovação influencia mudanças curri- culares, afim de redefinir as formas de gestão da educação e ajustá-los aos interesses econômicos vigentes, influenciando diretamente na necessidade de adaptações para as novas práticas, fazeres e saberes visando à aprendi- zagem de todos a partir do desenvolvimento de competências para a vida. Para a formação docente, torna-se imprescindível que esse dinamismo seja apresentado, favorecendo com que os profissionais em formação possam desenvolver um repertório que forneça uma intermediação possível entre a apreensão de conteúdos teóricos e competências e aptidões para manejo de problemáticas sociais que se mostram como atravessadores numa dinâmi- ca em sala de aula (CARVALHO et. al., 2021). Mesmo diante um universo social em constante mudança e com fácil acesso à informação em detrimento a tecnologia, as matrizes cur- riculares dos cursos de licenciatura e bacharelado no Brasil continuam não integrando elementos que conectem os egressos de curso superior na 62 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 área da educação aos instrumentos e recursos necessários para inserção ao ambiente digital e tecnológico. Percebe-se um eixo orientativo para gestão, letramento, pesquisa e práticas educativas que cumpram os requi- sitos básicos previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), mas pouco estimulam o desenvolvimento no manejo de compe- tências e técnicas que possibilitem para esse novo docente ações estraté- gicas na sua atuação. Esse diagnóstico se torna ainda mais crítico com os dados disponibilizados pelo Educasenso em 2007, em que, cerca de 600 mil professores não possuíam graduação ou atuavam em áreas diferentes das licenciaturas em que se formaram (BRASIL, 2018). Posto isto, entende-se então, o professor como sujeito da apren- dizagem, é aquele que atuará como facilitador para a formação do aluno em seus múltiplos aspectos, desde uma compreensão basal sobre a cons- tituição biológica humana, até o desenvolvimento de uma capacidade crí- tica funcional que influencia diretamente na forma como esse indivíduo virá interpretar e, consequentemente, se relacionar com o social em que está inserido. Projetar esse contexto na era digital não torna-se propor uma ruptura com os modelos educacionais instituídos até o momento, mas, dinamizar entre a estrutura atual e os novos recursos possíveis, como tornar o ambiente escolar e educacional um promotor no desen- volvimento docente e discente mediante as demandas contemporâneas. Para isto, compreende-se a lacuna existente na capacitação docente para manejo desses recursos, sobretudo, de parte do efetivo em atuação terem pautadas uma formação e prática profissional anteriores à popularização da era virtual (CARVALHO et. al., 2021). Perrenoud (2000) foi um importante pesquisador na área edu- cacional, as suas inquietações surgiram associadas à dimensão social na escola, elencou competências básicas esperadas para um educador, den- tre elas, a capacidade de organizar e estimular situações de aprendizagem. Torna-se interessante analisar esta perspectiva buscando compreender a realidade presente dos docentes em educação básica, partindo do pressu- posto que a maior parte das atividades curriculares definidas perpassam por avaliações formativas, em geral, individuais e de questões objetivas. Tendo esse ponto como princípio, exige-se do docente um contrassenso em perspectiva do seu referencial abarcado durante o processo formati- vo, buscando uma construção dinâmica no seu modelo próprio frente ao pragmatismo recorrente no modelo funcional da educação pública brasi- leira e, pela falta de sistematização nesse circuito de inovação digital, por vezes, o processo assemelha-se a estrutura de um currículo oculto. 63 ATUAÇÃO DOCENTE COMO ESTRATÉGIA PARA FORTALECIMENTO DAS COMPETÊNCIAS DIGITAIS NAS ESCOLAS PÚBLICAS BRASILEIRAS Estar inserido em um ambiente de protagonismo, exige da atua- ção docente a progressão de aprendizagem, não se limitando ao processo de “mutação” do que se sabe, mas da aplicabilidade conceitual em ativida- des cotidianas e da expansão crítica sobre a capacidade de reconhecer no- vas situações, pessoas, contextos e desafios que passam a compor a rotina de um indivíduo. Nesse sentido, docentes e discentes experimentam uma capacidade evolutiva conjunta, com efeitos distintos em cada processo, mas que elabora um processo de transversalidade contínua, estimulando atividades colaborativas e integrativas que resgatam a importância dos diferentes papéis sociais e como instituir objetivos coerentes podem for- talecer vínculos e o enfrentamento para os desafios cotidianos. Estabe- lecer padrões assertivos e efetivos de comunicação coloca-se como uma das habilidades principais neste cenário, compreendendo que os fatores modificadores para essa realidade estão implicados a partir de diferentes atores (PERRENOUD, 2000) Nesta visão, o setor educação não deve apresentar-se indiferente da realidade a qual o aluno está inserido, sendo necessário reconhecer quais os fomentos e estruturas se fazem necessárias para instrumentalizar a equipe docente com técnicas e metodologias mais atrativas e historica- mente contextualizadas, constituindo assim um espaço que interliga-se aos demais espaços de conhecimento hoje existentes. O letramento digi- tal precisa-se tornar familiar para o manejo docente, possibilitando as- sim, o dimensionamento e utilização intercalados conforme os objetivos pedagógicos previstos, estimulando e engajando os discentes numa roti- na escolar mais atrativa e que evoca a capacidade em prontidão da maior parte deles da interação com os recursos digitais durante o processo de escolarização. Cabe destacar que no Brasil os maiores índices de evasão escolar estão associados à ausência de motivação, aspecto esse que pode ser revisitado a partir de ações inovadoras (BRANCO et. al., 2020). COMPETÊNCIAS DIGITAIS PARA ATUAÇÃO NA EDUCAÇÃO A formação docente veio ao longo de muitas décadas reafirman- do o desenvolvimento de competências e habilidades compatíveis com o processo de ensino-aprendizagemclássico, porém, ao se referir ao am- biente digital, requer-se uma atuação que não seja apenas técnica, mas que a didática envolva capacidade crítica frente aos dados obtidos, na interpretação promovida e na dinâmica em que esses aspectos apresen- 64 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 tam potencial para impactar diretamente o curso dos leitores, que neste cenário, são os discentes. O processo atitudinal e de capacidade de toma- da de decisões são colocadas como aptidões imprescindíveis, uma vez que, nesse ambiente o docente precisará atuar numa perspectiva criativa, inclusiva e ética, promovendo e orientando o senso de autonomia e expe- rimentação contínuos, em um uso confiante e produtivo na esfera social (SÁ e PAIXÃO, 2015). A comunicação deve estar à serviço do ensino, uma comunicação dialógica, no sentido da mediação, pode possibilitar ao estudante a sensa- ção de integração a um grupo de trabalho. A aprendizagem colaborativa neste contexto torna-se a essência das estratégias e do formato pedagó- gico dos cursos com inovação, formando e dinamizando comunidades virtuais de ensino e prática. O docente provoca e envolve os grupos de trabalho a partir da elaboração de discussões e atividades em ambien- te virtual, que podem envolver textos, imagens, animações, entre outras atividades interativas. Embora todo esse dinamismo esteja envolvido na prática profissional, faz-se necessário não perder de vista a intencionali- dade, elencando de forma sistematizada quais são as competências, co- nhecimentos e habilidades que se têm como objetivo para desenvolvi- mento formativo dos discentes. Para além dos fatores de sucesso, torna-se importante interpretar as limitações identificadas no manejo dos recur- sos e tecnologias digitais tanto do orientador, como dos orientandos, via- bilizando o reconhecimento das potenciais necessidades de ajustamento (DIAS-TRINDADE, 2022). Embora todas as competências listadas acima sejam ponto de par- tida para atuação docente em educação digital, destaca-se a importância da universalização dos recursos estruturais e acesso ilimitado à internet para que os grupos de trabalho e aprendizagem colaborativa possa se tornar efetivos, o que se contrasta pela pujante desigualdade social no Brasil. A utilização de recursos próprios esteve entre as queixas do grupo docen- te ao longo da pandemia COVID-19, expondo o despreparo por parte da gestão pública, ausência de intervenções estratégicas e sistemáticas afim possibilitar uma expansão sustentável e que apresentem minimamente um progresso coerente para as equipes em atuação. Torna-se urgente identifi- car os fatores motivadores da atuação docente em formação continuada e aperfeiçoamento didático que implique na inclusão das TDICs ao longo do desenvolvimento conteudista (CARVALHO et. al., 2021). 65 ATUAÇÃO DOCENTE COMO ESTRATÉGIA PARA FORTALECIMENTO DAS COMPETÊNCIAS DIGITAIS NAS ESCOLAS PÚBLICAS BRASILEIRAS TECNOLOGIAS DIGITAIS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TDICS) As tecnologias são recursos presentes na evolução humana desde a pré-história, em um momento contemporâneo em que discutimos a implementação de recursos referentes à educação digital, torna-se im- prescindível conhecer qual a função que esses elementos podem pro- porcionar no ambiente de ensino-aprendizagem. A linguagem coloca-se como importante meio de interação e comunicação social, sobretudo, a comunicação oral que possibilita discursos, músicas e gestos atribuídos à signos que possibilitam compreensão por parte de determinados grupos. Esse mesmo recurso pode ser utilizado via tecnologia, através das mídias sociais que são capazes de transmitir em tempo real com delineamento fidedigno a mensagem desejada. A escrita configura-se também como um importante recurso de linguagem, através dela, torna-se possível a construção de frases, textos e imagens que possibilitam comunicação em massa. Em um processo de síntese entre linguagem verbal e escrita pos- sibilitou-se originar a linguagem digital, organizando e reorganizando informações e comunicações variadas, sempre possíveis de atualização, formando os hipertextos (KENKSI, 2021). Para os profissionais em atuação docente, a linguagem digi- tal pode se destacar como um importante e potente recurso, uma vez que, a sua utilização já encontra-se sendo realizada por grande parte da população brasileira, ela pode se apresentar em textos escritos, vozes, músicas, abreviações, vídeos, desenhos, emoticons, memes, imagens ou símbolos. O elevando índice de interatividade caracterizam esse formato de linguagem e favorece um maior dinamismo e fluidez nos processos interacionais, constrói sentidos distintos em outros contextos, com uma mensagem que se renova podendo ser adaptada e aperfeiçoada conforme o objetivo proposto. Dentre as possibilidades e modalidades das TDICs, podem ser utilizadas em sala de aula para atividades pontuais, em labo- ratórios presenciais, atividades realizadas exclusivamente em ambiente ead (E-learning), em formações híbridas (B-learning), espaços abertos para ações e colaborações (C-learning), através do uso de dispositivos móveis (M-learning), aprendizagem personalizável (P-learning), uso de diversos aparelhos digitais em ambiente presencial (T- learning) e com acesso à informação a partir de diferentes canais ao mesmo tempo (U- learning), favorecendo uma ampla e complexa rede de opções adaptáveis para utilização conforme proposta pedagógica e os objetivos identifica- dos (KENKSI, 2021). 66 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 CONCLUSÃO Conclui-se através desse estudo que embora múltiplas inova- ções no campo das tecnologias digitais de informação e comunicação forneçam uma amplitude de possibilidades para uma evolução susten- tável no setor educação, fatores de relevância social são identificados como principais aspectos em comprometimento para a evolução nes- te processo. Partindo desde a ausência de sistematização no currículo para formação docente, elaboração de políticas públicas que favoreçam a efetivação na aplicação de recursos, até a estimulação cultural para utilização dos recursos digitais. Torna-se imprescindível mencionar que os dados mencio- nados limitam-se a estrutura metodológica e aos materiais utilizados requerendo a elaboração de mais pesquisas que possibilitem o apro- fundamento sobre o tema e a interpretação de mais aspectos que poten- cialmente possa impactar na consolidação e expansão das tecnologias digitais no setor educação. REFERÊNCIAS BRANCO, Emerson Pereira; ADRIANO, Gisele; ZANATTA, Shalimar Calegari. Educação e TDIC: contextos e desafios das aulas remotas durante a pandemia da COVID-19. In: Debates em Educação, Maceió, v. 12, p. 328-350, dez. 2020. ISSN 2175-6600. Disponível em: . Acesso em: 20 de novembro de 2023. BRASIL. Ministério da Educação. Plano Nacional de Formação de Professores. 2018. 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Não escapam, entretanto, e em pleno século dito pós-Moderno, da bestialização im- posta pelo ser-adulto. A que desafio deveria se propor alguém que se pressuponha pesquisador e militante com as infâncias ao compor espaços de deliberação com propostas mirabolantes e supostamente acolhe- doras? Grada Kilomba nos dá uma pista: A margem se configura como um espaço de abertura e criativida- de, onde novos discursos críticos se dão. Nesse espa- ço crítico, podemos imaginar (...) perguntas que de- safiam a autoridade colonial do centro e os discursos hegemônicos dentro dele. Assim, a margem é um local que nutre nossa capacidade de resistir à opressão, de transformar e de imaginar mundos alternativos e no- vos discursos (KILOMBA, 2019, p. 68). O cotidiano é uma dimensão do movimento e das relações entre os objetos fixos e os fluxos das ações dos atores sociais e demais componentes do ambiente. A filósofa e his- 70 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 toriadora Isabelle Stengers condensa O Idiota literário com o filosófico para ilustrar seu pensamento acerca das relações geopolíticas e a partir das multicosmologias. A autora propõe aquilo que chama de interstício, algo mais próximo da ação do que de um conceito entre vieses dualistas “isto versus aquilo”, baseada nos “interstícios incivis” – ou na incivilidade que desestabiliza estruturas hegemônicas de poder, como o faz o idiota. Muito do que a priori tentei denunciar sobre adultismos na Conferên- cia, eu próprio cometi por várias vezes, em minha ânsia por “me abrir a esse canal” que me permitiria compreender a criança, aquele outro, em seus próprios termos. Há algo estigmatizador que surge dessa relação de maneira muito sutil e que pode acabar pondo a comunicação a perder. COELHO (2013, pp. 33-34) faz um alerta importante a respeito da antro- pologia generalizada, que traz embutido um poder mascarado de isento nas relações feitas de olhar antropológico, e em seguida nos provoca a um esforço reflexivo para que nos sensibilizemos à dimensão microfísica da ética na etnografia. Palavras-chave: Infância; Aprendizagem; Natureza. O Município de Belo Horizonte, por meio do Conselho Munici- pal dos Direitos da Criança e do Adolescente1, promoveu em novembro de 2022 a 10ª Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Ado- lescente2. A convenção formal redigida como Regimento e em documen- 1 Criado pela Lei Municipal nº 6.263, de 20 de novembro de 1992, atualizada pela Lei Municipal nº 8.502, de 6 de março de 2003, o CMDCA/BH é órgão deliberativo e articulador das ações e políticas relacionadas à população de 0 a 18 anos. Ele tem a competência de apontar as diretrizes para garantir as políticas sociais básicas, as medidas protetivas e socioeducativas, e ainda monitorar as ações governamentais e não governamentais. Suas orientações sobre a política têm força de decisão: os gestores públicos devem fazer os investimentos necessários, e todos os atores do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança devem se pautar pelas deliberações do Conselho. Não é papel do Conselho executar as políticas e ações. 2 A 10ª Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Belo Ho- rizonte, convocada por meio da Resolução nº 214/2022, foi realizada nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro de 2022 sob o tema Situação dos direitos humanos de crianças e adolescentes em tempos de pandemia pela Covid-19: violações e vulnerabili- dades de crianças e adolescentes, ações necessárias para reparação e garantia de políticas de proteção integral, com respeito à diversidade. A Conferência debateu o Documento Base da 12ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - e, a partir das perguntas geradoras, foram formuladas propostas, a serem encaminhadas para debate na conferência estadual. Também elegeu delegados e delegadas para as 71 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS to orientador da Conferência explicita que as crianças e adolescentes são sujeitos de direito com direito a voz e voto, e que todas as deliberações nas etapas municipais, estaduais e federal deveriam adequar a linguagem dos textos e garantir escuta plena com respeito a todas as fases de de- senvolvimento e realidades sociais de cada indivíduo ali presente. O que se viu, entretanto, foi um evento adultizado, cheio de falas rebuscadas e estereotipadas que deram ênfases a toscas trocas de afagos entre autori- dades e para autoridades, que prezaram pelo tempo e falas do adulto3, por interpretações adultas daquilo que as crianças e os adolescentes falaram em seus próprios termos. Não deviam os subalternos poderem falar?4. Doravante me debruçarei sobre as infâncias e a criança como devires bes- tializados – marginalizados - cheios de narrativas e potentes anseios. Percebo em meus exercícios etnográficos a necessidade de prio- rizar um planejamento participativo e baseado no lugar, para que eu pos- sa de fato ir ao encontro das necessidades e interesses das comunidades (TOMÁS, 2022, p. 83). As crianças têm direito de ser incluídas neste pro- cesso e a serem ouvidas, posto que detentoras de conhecimento experien- cial e de consciência crítica do espaço. Crianças falam com entusiasmo desde suas margens, esperan- çosas por estarem sendo de fato escutadas. Ao falarem de si e de suas realidades, apresentam quadros surpreendentes de suas relações com as pessoas e com os espaços com quem e por onde transitam (SOUSA, 2014, p. 83). Não escapam, entretanto, e em pleno século dito pós-Moderno, da bestialização imposta pelo ser-adulto. A que desafio deveria se propor alguém que se pressuponha pesquisador e militante com as infâncias ao compor espaços de deliberação com propostas mirabolantes e suposta- mente acolhedoras? Grada Kilomba nos dá uma pista: conferências estaduais, sendo 12 delegados definidos pela Comissão Organizadora Estadual. https://prefeitura.pbh.gov.br/smasac/conferencia/criancaeadolescente. 3 Compus delegação eleita pela Regional Noroeste no Eixo 3 da Conferência, cujo tema foi Ampliação e consolidação da participação de crianças e adolescentes nos espaços de discussão e deliberação de políticas públicas de promoção, proteção e defesa dos seus direitos, durante e após a pandemia. 4 No capítulo dois de “Memórias da plantação – Episódios de racismo cotidiano”, de Grada Kilomba (2019, p. 47), a autora resgata Gayatri Spivak (1995) para categori- camente afirmar que pessoas “subalternas” não podem falar. Aqui considero que as crianças e adolescentes ficaram mantidas enclausuradas em suas subalternidades já previamente postas desde sempre nos espaços políticos no Brasil. 72 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 A margem se configura como um espaço de abertura e criativi- dade, onde novos discursos críticos se dão. Nesse espaço crítico, podemos imaginar (...) perguntas que desafiam a autoridade colo- nialdo centro e os discursos hegemônicos dentro dele. Assim, a margem é um local que nutre nossa capacidade de resistir à opres- são, de transformar e de imaginar mundos alternativos e novos discursos (KILOMBA, 2019, p. 68). Devires5 marginais trazem consigo infinitas possibilidades de ser sujeito6. A criança é sujeito próprio de um haver muito singular e, a tro- çar modos pré-determinados de ser e fazer, farta-se muito mais de suas aprendizagens nos interstícios de suas relações com o mundo e com outras pessoas. Enquanto pessoa-sujeito de direitos, produto e produtora de cul- tura e aprendizagem – logo, agente -, exprime uma força da natureza que subverte a malha da cultura de maneira muito própria, independente de concessões ou transmissões, e a partir de suas relações sociais com adultos e outras crianças. Também nesse sentido eu reflito sobre a possibilidade de reconhecer que a criança deposita seu nome e sua autoria em sua agência: (...) o nome do autor funciona para caracterizar um certo modo de ser do discurso: para um discurso, o fato de haver um nome de autor, o fato de que se possa dizer “isso foi escrito por tal pessoa”, ou “tal pessoa é o autor disso”, indica que esse discurso não é uma palavra cotidiana, indiferente, uma palavra que afasta, que flutua e passa, uma palavra imediatamente consumível, mas que se tra- ta de uma palavra que deve ser recebida de uma certa maneira e 5 Tomo o devir sob a perspectiva de Gilles Deleuze (1991), para quem o devir não produz outra coisa senão ele próprio. É uma falsa alternativa que nos faz dizer: ou imitamos, ou somos. O que é real é o próprio devir, o bloco de devir, e não os termos supostamente fixos pelos quais passaria aquele que se torna. Como um devir, não tem sujeito distinto de si mesmo; mas também como ele não tem termo, porque seu termo por sua vez só existe tomado num outro devir do qual ele é sujeito, e que coe- xiste, que faz bloco com o primeiro. É o princípio de uma realidade própria ao devir (a ideia bergsoniana de uma coexistência de “durações” muito diferentes, superiores ou inferiores à “nossa”, e todas comunicantes). 6 Sob a perspectiva da alteridade, que reconhece e afirma também o outro como sujei- to, Maria Claudia Coelho (COELHO, 2013, p. 28) disserta sobre o fazer etnográfico como postura de mundo, e problematiza que se trata de um esforço para compreen- são de que em um ponto está um sujeito curioso por uma forma de estar no mundo que lhe parece distinta da sua e que por isso excita sua curiosidade; de outro, está outro sujeito, cujo modo de vida está agora sendo objeto de escrutínio por parte de alguém mais ou menos autorizado a fazê-lo. 73 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS que deve, em uma dada cultura, receber um certo status. (FOU- CAULT, 2013, p. 273-274). A infância não é uma ideia abstrata, tampouco natural, menos ainda neutra. Sua visibilidade está condicionada e condiciona as relações que os diferentes sujeitos inscrevem e conformam. Esse entendimento reforça uma concepção de que o estatuto e os papéis sociais que são atri- buídos à infância mudam com as formas sociais das quais as crianças são sujeito e objeto de variação e de mudança em função de dimensões so- ciais, como classe, contextos culturais e relações de gênero, entre outras. Como emerge tal sujeito-criança? Corpo é, do ponto de vista materialista, a concretude (ou a ra- zão) de um construto historicamente situado. Fisiologicamente, corpo é a complexa estrutura que pulsa vida a partir de um sincronismo dos microcosmos que o compõe, inclusive a simbiose. Metafisicamente (ou cosmologicamente), corpo é aquilo que se apresenta ao pensamento, seja uma ideia ou uma percepção sensorial (que não necessariamente corres- ponde ao real, a exemplo das imagens projetadas por sombra produzida por objetos com forma bastante diferente da sombra projetada). Me es- forço em tentar me aproximar de uma postura romântica de ciência que consiste em não reduzir a existência para transformá-la em ciência, não fragmentá-la para convertê-la em pesquisa (LOPES, 2022, p. 12). Corpo “está sendo”, conforme a hermenêutica heideggeriana, porquanto dure a racionalidade direcionada a ele (entre um prestar aten- ção e um dispersar-se ou desinteressar- se). Quero dizer, a referência ne- cessária ao humano para que se situe naquilo que habita (o mundo, a lou- cura, a cidade...), é o corpo que está: o corpo humano no momento junto com os corpos não-humanos e humanos. Deste modo, é interessante que se pense no fazer corpo como instância para compreensão e produção de cultura (LOPES, 2022, p. 9; SOUSA, 2014, p. 77). Ganham corpo as coi- sas, e os além-corpos à medida em que se relacionam ou se refugiam na loucura ou no hedonismo (SOUSA, 2014, p. 80). “O corpo” é um singular abrangente, que abarca perspectivas possíveis (por isto inferi que o corpo “faz-se”, e não “é”) de corpos constituídos e constituintes. O corpo como cerne da cultura e da sociedade, é central na invenção de cotidianos, e eu defendo que o corpo é pressuposto para a gambiarra7. 7 A gambiarra, segundo Sabrina Sedlmayer (2019, p. 2) está presente em muitos ges- tos de criação de linguagem, verbal ou imagética, e roça certo patrimônio vivencial, certos arranjos nos quais a escassez de recursos é operacionalizada e a sobrevivência 74 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 O primeiro território de onde emerge qualquer improviso, qual- quer gambiarra, é o sujeito e seu corpo, ou o corpo e sua subjetividade. Isto torna-se um problema em contraste com as estruturas institucionais engessadas em padrões que excluem o sujeito das partilhas, embora fa- çam uso dele como massa de manobra. (...) no momento em que se aborda esse problema da vida dos in- divíduos, da vida de seu corpo e de seus desejos, necessita-se de mais alguém. Um deus, eventualmente, mas o deus não está pre- sente; pois bem, vocês vão precisar de um homem. E o que esse homem terá de fazer? Pois bem, é ele que, eventualmente sozinho, sem ajuda de quem quer que seja, falando sozinho em nome da ra- zão, vai se dirigir aos indivíduos e com toda a franqueza lhes dizer a verdade, uma verdade que deve persuadi-los, e persuadi-los a se conduzir corno devem. (FOUCALT, 2010, p. 188). Para além da concepção total de corpo, faz-se necessária a com- preensão de que as formas como os sujeitos lidam com o corpo não são universais, mas resultado de significativos processos históricos. Constru- to sociocultural e político, produto e produtor de cultura, o corpo é cons- truído ao longo da vida e assentado em uma temporalidade, sendo cada vez mais suporte de signos sociais contraditórios. Paradoxo dos paradoxos, as atuais sociedades capitalistas globa- lizadas fazem prova de um uso extremo do tempo, quer exaurindo-o até à neurose e à histeria, quer desvalorizando-o infinitamente, tornando-o inútil (sem emprego) e com ele o próprio sujeito, que passa a ser um peso, uma dificuldade social, cuja origem é atribuída, em primeiro lugar, a um culpabilizante fracasso pessoal e individual. Assume-se que os signos temporais, como todos os signos, consti- tuem-se como significantes e significados, tendo em mente que, de acordo com a teoria semiótica, referente (ou objeto) de um discur- so e parte de urna relação de signos; ele e constituído, por assim dizer, dentro do discurso (FABIAN, 2013, p. 105). é alçada via invenção do cotidiano. A hipótese que se lança é que há potentes gestos – práticas, táticas, políticas – que se alicerçam justamente na escassez de produtos, de recursos e/ou serviços. Nesse paradoxo, na transformação do negativo em posi- tivo, percebe-se uma potência singular na qual a falta é transformada. 75 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS O cotidiano é uma dimensão do movimento e das relações entre os objetos fixos e os fluxos das ações dos atores sociais e demais componentes do ambiente8.Essa relação afetiva entre esses elementos é que constitui a trama social (DAS, 2020), que provê o desenvolvimento humano para a evolução e/ou destruição e regressão; mas sempre com atitudes de esperan- ça nas brechas por aqueles que acreditam ser possível atender suas necessi- dades e, simultaneamente, do habitat em que vive, habitando de forma con- junta, tornando o espaço um lugar para todos. Entrecruzam-se histórias de vida e percursos de escritas e inscrições de si e do outro. A história de vida e a autobiografia (aliás, para os fins desta discus- são, todos os tipos de escrita) são em essência auto-constitutivas; elas são momentos, fixados no tempo pelo mundo, no processo dialético de constituição de si. Enquanto tal, ambas demandam a mediação do Outro. O “Outro”, aqui, não diz respeito meramente a um indivíduo concreto que está diante de alguém, mas àquilo que ele representa simbolicamente. No nível mais abstrato, ele é o locus transcendental do sentido; ele é, também, tipificado por pa- péis sociais, por percepções reguladas por convenções, por estilos culturalmente determinados, e por um amplo leque de associa- ções idiossincráticas que podem não ser plenamente conscientes. (CRAPANZANO, 1977, p. 4) Ao fazerem corpos presentes em uma Conferência de Estado cujo propósito visceral foi a redação de um texto coletivo com força de lei, escrito “a mais de mil mãos” a partir de diferentes histórias de vida e realidades sociais e culturais, as crianças assumiram os próprios relatos de vida como representativos de um ato de ascensão social e de integra- ção à cultural dominante (adulta, branca, machista, racista, homofóbica, transfóbica e elitista). O exemplo que trago aqui é o perfeito exemplo de um âmbito de luta militante destinada a suscitar consciências de classe (LEJEUNE, 2008, p. 133), e que me remete à figura filosófica do “idiota”. Em 1869, o escritor russo Fiódor Dostoiévski publicou “O Idiota”. O romance quixotesco, dividido em quatro partes, versa sobre o universo relacional do príncipe Liév Michkin. O jovem adulto, apesar da saúde frágil devida às graves crises epilépticas que o acometem, transita socialmente. Um homem comum, Michkin vai às pessoas de dentro da realeza e fora 8 Veena Das (2020) afirma que é preciso entender os temas de como se pode mudar o olhar para o ato de habitar que decorre não do sujeito do saber, mas do sujeito empenha- do no trabalho de costurar, de unir retalhos e atar relacionamentos na vida cotidiana. 76 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 dela, aos cristãos, anarquistas e niilistas, e com tamanha disponibilidade e espontaneidade que tomam-no por ingênuo. Ele nega mover-se por meio de códigos de conduta ou de etiquetas. Interessa-se pelas pessoas, pela re- solução não belicosa das urgências que emergem da vida social. Michkin pensa por si mesmo e age conforme suas convicções, sem julgamentos das pessoas, situações e relações que se apresentam a ele. Ele pausa seu pen- samento, esforça-se para enxergar sempre algo além do que se apresenta como natural e óbvio, e isto incomoda todo o seu entorno. Não muito dis- tante do início da obra, o príncipe é rotulado de idiota. Em certo momento, ele expressa uma reflexão sobre a alcunha que atribuem a ele: Em primeiro lugar, resolvi ser cortês e sincero com todo o mundo. Ninguém deve esperar mais do que isso, de mim. Talvez aqui tam- bém me olhem como uma criança; não faz mal. Todo o mundo me toma por um idiota e isso também pela mesma razão. Outrora estive tão doente que realmente parecia um idiota. Mas posso eu ser idiota, agora, se me sinto apto a ver, por mim próprio, que todo mundo me toma por um idiota? Quando cheguei, pensei: Bem sei que me tomam por um idiota; todavia tenho discernimento e eles não se dão conta disso! (DOSTOIÉVSKI, 2020, p. 59). Gilles Deleuze toma “O Idiota” emprestado de Dostoiévski e tor- na-o uma personagem conceitual para tecer uma análise da Filosofia e à Filosofia e, consequentemente, da vida, das sociedades e dos cotidianos (DELEUZE, 2003). O autor problematiza o perigo das reproduções e cer- tezas absolutas, e defende a urgência de se esgotar a dúvida às últimas consequências. Com isto, ele enfatiza que a criação de conceitos deve pri- meiramente fazer sentido para quem os pensa e cria para, assim, poder-se falar em ato filosófico. O idiota se opõe à doxografia, - o conjunto de acúmulos de opinião cada vez mais conhecidas, que em sua essência não é uma atividade criadora -, por meio de uma experimentação radical de um determinado estado de coisas que possui força para suspender valo- res consolidados pela doxa (MENGUE, 2013). Ele quer fazer do absurdo a mais alta potência do pensamento, isto é, criar, e fazer-se de idiota será sempre uma função da filosofia (DELEUZE, 2003) pois permite a vivên- cia de outras maneiras de pensar e agir. A filósofa e historiadora Isabelle Stengers condensa O Idiota li- terário com o filosófico para ilustrar seu pensamento acerca das relações geopolíticas e a partir das multicosmologias. A autora propõe aquilo que 77 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS chama de interstício, algo mais próximo da ação do que de um conceito entre vieses dualistas “isto versus aquilo”, baseada nos “interstícios inci- vis” – ou na incivilidade que desestabiliza estruturas hegemônicas de po- der, como o faz o idiota: O idiota, no sentido grego, é aquele que não fala a língua grega, e que por isso está separado da comunidade civilizada. Reencontra- mos esse sentido na palavra “idioma”, uma linguagem quase pri- vada, que exclui, portanto, uma comunicação regida pela trans- parência e pelo anonimato, que é o próprio intercâmbio entre os locutores. Mas o idiota de Deleuze, que ele tomou de emprésti- mo de Dostoiévski para dele fazer uma personagem conceitual, é aquele que sempre desacelera os outros, aquele que resiste à maneira como a situação é apresentada, cujas urgências mobili- zam o pensamento ou a ação. E resiste não porque a apresentação seja falsa, não porque as urgências sejam mentirosas, mas porque “há algo de mais importante”. Que não lhe perguntemos o quê. O idiota não responderá, ele não discutirá. O idiota faz presen- ça, ou, como diria Whitehead, ele coloca um interstício. Não se trata de interrogá-lo: “o que é mais importante?”. “Ele não sabe.” Mas sua eficácia não está em desfazer os fundamentos dos saberes, em criar uma noite onde todos os gatos são pardos. Nós sabemos, existem saberes, mas o idiota pede que não nos precipitemos, que não nos sintamos autorizados a nos pensar detentores do signifi- cado daquilo que sabemos (STENGERS, 2018). Ainda segundo a autora, o interstício abriga distintos modos de existência e novas formas de vida (SZTUTMAN, 2018). Esse sistema am- bientalmente estendido entrecorta as fronteiras entre corpo e cérebro, per- mitindo a manifestação de capacidades que não existem ‘dentro’ do corpo e cérebro, nem ‘fora’ no ambiente, e possibilita sentir “com” os outros. Meu fazer etnográfico por entre os territórios de disputa de cor- pos, gerações e espaços passa longe de mera imiscuição. Ao me postar como etnógrafo e delegado eleito com direito a voz e voto com aquelas crianças na Conferência, também minha criança se fez presente ali, sendo literalmente passar a minha frente filmes de minha própria história de vida, das árduas solapadas do devir das coisas políticas que mantém-se como horizontes que, apesar de à vista, parecem nunca chegar. Ao fim da Conferência, em sessão plenária já no avançar da noite, as crianças pre- sentes no grande auditório de uma famosa universidade privada da Igreja 78 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Católica levantavam seus crachás de delegadas e delegados para aprovar o que os adultos da mesa diretora projetavam no telão. Tal como o capítulo final de “A Fera na Selva”, de Henry James: (...) era como se a verdade, a horrívellugar de movimento e transformação. Diego Andrade de Jesus Lelis Doutorando em Educação http://lattes.cnpq.br/9597409496812373 diegolellis09@hotmail.com SUMÁRIO 2021: RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO NECROQUANTITATIVA Cibele Cristina Gonçalves Rodrigues DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C1 13 A TIC INSERIDA NO APRENDIZADO DE JOVENS: BENEFÍCIOS PARA A APRENDIZAGEM Danilo Luiz da Silva DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C2 21 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ-BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? Laurindo Leite Infau DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C3 31 ATUAÇÃO DOCENTE COMO ESTRATÉGIA PARA FORTALECIMENTO DAS COMPETÊNCIAS DIGITAIS NAS ESCOLAS PÚBLICAS BRASILEIRAS Luciano da Silva Buiati DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C4 59 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS Gustavo Eleuterio Pena DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C5 69 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA Maria da Penha Nóbrega Uchôa Cordeiro, Sonia Maria da Costa Barreto DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C6 83 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR Danilo Américo Pereira DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C7 107 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE Petrucia de Melo Andrade DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C8 123 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? Mara Felipe DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C9 141 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? Aline Borges de Araujo DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C10 157 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO Wanessa Moreira dos Santos DOI 10.48021/978-65-270-1526-0-C11 173 13 2021: RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO NECROQUANTITATIVA Cibele Cristina Gonçalves Rodrigues Mestranda em Docência para a Educação Básica http://lattes.cnpq.br/7123792861826095 professoracibele2020@gmail.com RESUMO: Considerando o debate em torno do retor- no às aulas presenciais em meio à pandemia, e boletins informativos que demonstravam altas taxas de morta- lidade da Covid-19, o trabalho desenvolvido, através de estudos interdisciplinares e de uma metodologia diver- sificada, busca, diante do cenário caótico vivenciado, promover a abertura de discussões e reflexões sobre a necessidade de caminhar rumo a um novo olhar para o cenário político-pedagógico vigente, apresentando quais as ações estão modificando a realidade, quais contrassensos comprometem drasticamente a história em andamento, quais os embates a participar, interce- der, transformar. O presente estudo reflexiona a poten- cial mudança da atualidade educacional, pressupondo um espaço que favoreça a construção dos múltiplos sa- beres, construtores da pessoa humana, em detrimento a uma educação que visa a resultados quantitativos a serviço de índices de desenvolvimento que demostram tão somente algoritmos, e não o pleno desenvolvimen- to humano, como preveem a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, bem como o Plano Nacional da Educação: a práxis destoa da teoria - das fábricas industriais de inúmeras produ- 14 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 ções à fabricação de algoritmos educacionais intrinsicamente dialógicas, no entanto, a matéria-prima da educação é humana! Frente a todas essas questões que dizem respeito diretamente à educação brasileira, a reflexão e o diálogo com os educadores do Brasil se torna imprescindíveis, para que seja possível reverter o retrocesso e impedir a consolidação necropolítica educacional. Nessa direção, questiona-se para além do impasse da defi- ciência formativa numérica. O retorno às aulas presenciais, em meados de 2021, período ainda pandêmico, pode ser concebido a partir de um olhar crítico com relação ao tipo de sociedade e educação difundidos no Brasil. Esta pesquisa bibliográfica busca analisar criticamente o contexto socio- cultural brasileiro que privilegiou o retorno às atividades presenciais, de- sordenado e confuso. É nessa linha que esta pesquisa mergulha, refletindo sobre a relação entre necropolítica e educação, e se os algoritmos gerados a partir das avaliações externas nacionais não sinalizam a educação “ne- croquantitativa” – saberes institucionalizados em desfavor ao pleno desen- volvimento humano, num contexto pandêmico. A preocupação compac- tuada com Mbembe é justamente com a “instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição material de corpos humanos e popu- lações”, com a produção de sujeitos descartáveis, de artefatos, sendo “as formas contemporâneas de subjugação da vida ao poder da morte que reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e ter- ror”. Diante do exposto, a pesquisa investigará as ações conceituais, proce- dimentais, atitudinais e jurisprudenciais na área educacional, desafiando a ruptura de paradigmas, objetivando apresentar reflexões como atenuantes desse cenário necropolítico educacional. Palavras-chave: Retorno às aulas presenciais; Avaliações externas 2021; Necropolítica educacional. 1 INTRODUÇÃO O cenário vivenciado é absurdamente implacável, sobrecarre- gado de pouco consenso, e profundo dissenso. A pandemia gerada pelo COVID-19, longe de ser combatida firmemente, ofertou a possibilidade de refletir e de perceber o mundo de outra forma: enquanto, enlutados, acompanhamos os inúmeros dos boletins informativos das vítimas fatais deste vírus cruel, foi possível testemunhar a morte da própria escola – se por um lado a pandemia atrofiou pulmões, gerando a falta de ar, por 15 2021: RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO NECROQUANTITATIVA outro, debilitou o pulsar, o mover, o coração da escola. O distanciamento social cumpriu duas funções paradoxais: a proteção à vida, e o agiganta- mento das desigualdades sociais. De repente, aprisionados em março de 2020, o embate para se manterem vivos, humanos e a educação – (indis- sociáveis) começou. Alguns principais aspectos relacionados à escola, antes, relativa- mente imperceptíveis, e que a pandemia desnudou são os papéis assumi- dos, não só diretamente relacionados ao ensinar e ao aprender, e a impor- tância do professor, mas à dimensão social, onde, para muitos discentes, a escola era o lugar onde se fazia a única refeição do dia, e de maneira abrupta foi interrompida, e, para a implementação do ensino remoto, um momento depois, foi possível assistir à uma cena de terrível contrassenso: famílias foram convocadas à escola para serem subsidiadas com alimentação, mas ao mesmo tempo saíam com um login e uma senha na mão. Como pessoas que utilizavam o espaço escolar para a alimentação, teriam condições de conectividade e aparelhagem para acesso a uma educação remota? Evidentemente, a evasão digital nas escolas públicas, por inúme- ros motivos, alcançou um índice assustador, como o número de mortes advindas da pandemia, e MOSÉ (2014) reflexiona sobre esse novo mun- do: precisamos enfrentar este fértil e difícil problema – o que é educar no século XXI? O que é realmente importante aprender? Lidar com essa nova composição exige modelos conceituais mais amplos e complexos do que aqueles ainda utilizados. E eis que, em maio de 2021, após anúncio do SAEB e SARESP, avaliações externas ditadas pelo governo federal, as quais quantificam ín- dices valorativos da educação brasileira, novamente, depois de um ano de enfrentamento pandêmico, as famílias, em meio à pandemia, foram convocadas à escola, desta vez, para autorizarem seus filhos e filhas a se sentarem às cadeiras da aprendizagem. É bom salientar que, neste perío- do, uma boa parte dos professores não tomara a segunda dose da vacina, e quiçá os discentes. Há apenas duas regras para o retorno às aulas presenciais: seguir os protocoloscrueza da sua própria imagem lhe mostrasse o que havia sido ordenado e cumprido. Viu a Selva de sua vida e viu a Fera na tocaia – então, enquanto olhava, viu, como uma vibração no ar, que ela saltava, enorme e horrenda, para o bote que deveria liquidar com ele. Seu olhar se escureceu – a Fera ali jun- to – e na sua alucinação, virando-se instintivamente para escapar, tombou de face sobre o túmulo (JAMES, 2011, p. 90). É bestializado – idiota! - tudo que escapa ao controle e que escan- cara a realidade das coisas. Quanto a isto, me refiro tanto às compreen- sões a respeito da vida – como a solidão de ser e devir -, como às estru- turas de poder corporificadas tanto por pessoas adultas e crianças, como por instituições (SOUSA, 2014, p. 89). Crianças e etnógrafos partilham suas vísceras autorais e autobiográficas (DAS, 2020) em um looping que nem a pragmática consegue entrincheirar (TARDE, 2007, p. 131). Para (DAS, 2020), temos que prestar muita atenção às maneiras específicas pe- las quais a linguagem, na qualidade de portadora de uma força perlocu- tória, transforma conceitos cotidianos no que ela chama de “armas letais”. Na Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Ado- lescente eu consegui me localizar de perto e de dentro de uma estrutura deliberativa que se preza comunal, mas que na prática cria mecanismos de segregação para que a Mesa Diretora, composta por conselheiros e au- toridades do Executivo Municipal, do Ministério Público e do Judiciário consiga criar os instrumentos normativos que quer. O extenuante dia de reuniões dos grupos de trabalho dos Eixos da Conferência começou logo cedo pela manhã, e estendeu-se para um avançado da noite. As crianças tinham pipoca e sanduíche para permanecerem. A reunião plenária, que é o momento-chave regimental da Conferência, em que todos no plenário deveriam votar as propostas dos Eixos, ocorreu já tarde da noite, com todas as mais de 180 crianças e adolescentes ali presentes já cansados, já frustra- dos e ouso dizer cientes de que proveram quórum para assuntos de adultos. Foi interessante observar também, e entretanto, crianças as- sumindo então o que adultos haviam dito sobre elas e seus direitos na Conferência, e tomando microfones das mãos da articuladora e de um conselheiro para falarem a todo o público. 79 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS Interessante também, que por pressão das próprias crianças e adolescentes cada candidatura à delegação que representará as catego- rias na etapa estadual em agosto de 2023 subiu ao palco e falou, em seus termos, sobre o que ansiava e o que propunha se fosse eleita ou eleito delegada ou delegado. Foram cerca de 50 crianças e adolescentes que se candidataram, e cada uma e cada um falou, desde textos rebuscados cria- dos com auxílio adulto a espontâneas afirmações de si. Uma garota de cerca de 9 anos bradou assertiva: Eu tô aqui porque eu acho que sô muito legal e muito inteligente, por isso eu quero ser delegada! Outra, de cerca de 13 anos, contou experiências sexistas que so- freu, e que como delegada faria frente a que o acolhimento de adolescen- tes vítimas de assédio seja feito principalmente na comunidade, ao invés das vias únicas institucionais que atualmente o fazem. Houve intérpretes de LIBRAS no evento, e foi também curioso como as crianças num primeiro momento imitavam, entravam na frente, davam risada, mas logo compreenderam aquele gestual como parte da Conferência, importante para eles próprios. Fizeram-se de idiotas, incorporaram as bestas muitas das crian- ças naquele meu exercício de observar, participar e anotar. Neste texto eu quis propor ao leitor um convite a que perceba como o ser-criança entre adultos ainda é carregado de desafios mesmo de ordem existencial. Tam- bém quis problematizar um pouco sobre a participação das crianças em um evento da magnitude da Conferência como ato autobiográfico, posto que cada criança ali membro de um Eixo específico teve direito a voz e voto para propor ações, ainda que posteriormente os textos aprovados foram os que os adultos escolheram. Me fiz entrar em uma crise enquanto etnógrafo que tece tais críticas: (...) para cada estrela, herói ou explorador que tem uma vida a ser escrita, existem algumas dezenas de nègres disponíveis (...); para um “etnobiógrafo” amador que quiser captar uma vida, existem centenas de milhares de modelos possíveis, o modelo escolhido deve se dar por muito feliz em ter acesso a uma notoriedade que não lhe era destinada. Todo o valor da narrativa consiste no valor agregado pela escrita, ou antes, pelo novo circuito de comunica- ção no qual o mediador o insere: o infeliz se daria conta disso se, em seguida, tentasse escrever ele próprio. Perderia o crédito. Ele é de fato a criatura de seu etnobiógrafo. (LEJEUNE, 2008, P. 129). 80 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Muito do que a priori tentei denunciar sobre adultismos na Con- ferência, eu próprio cometi por várias vezes, em minha ânsia por “me abrir a esse canal” que me permitiria compreender a criança, aquele ou- tro, em seus próprios termos. Há algo estigmatizador que surge dessa re- lação de maneira muito sutil e que pode acabar pondo a comunicação a perder. COELHO (2013, pp. 33-34) faz um alerta importante a respeito da antropologia generalizada, que traz embutido um poder mascarado de isento nas relações feitas de olhar antropológico9, e em seguida nos provoca a um esforço reflexivo para que nos sensibilizemos à dimensão microfísica da ética na etnografia. É muito importante, neste exercício que faço escrevendo este artigo, que eu consiga perceber minha posição privilegiada em relação àquelas crianças ainda que eu não tenha composto a Mesa Diretora, mas a grande plateia a que regimentalmente na Conferência se denominou Pleno ou Plenário. Em relação ao que pretendo apreender do que as crianças dizem com o que querem dizer, como etnógrafo e como delegado da Conferência devo me atentar aos não ditos. (...) poderíamos nomear como a canção silenciosa do diálogo: tudo aquilo que o antropólogo não poderia dizer, e tudo aquilo que seus informantes não puderam dizer, mas que foram capazes, frequentemente por meio de seu silêncio, de revelar (não dese- jo soar místico aqui, quero meramente chamar a atenção do lei- tor para tudo aquilo que é comunicado e que não é dito, durante todo e qualquer encontro, incluindo os encontros etnográficos). É a essas mensagens formuladas em uma linguagem paralela que, voluntariamente ou não, nós frequentemente respondemos. Preci- samos reconhecer a má fé contida em muitas de nossas manobras estilísticas que produzem a ilusão de neutralidade, ou mesmo de objetividade. (CRAPANZANO, 1977, p. 5). 9 A autora afirma que “Nativo” e “etnógrafo” não são identidades essencializadas, mas posições em uma relação de conhecimento, em que o primeiro ocupa o lugar de objeto de uma reflexão, enquanto o segundo é sujeito da produção de um saber. A metáfora favorita dos antropólogos para essa relação é o olhar: o “olhar antropoló- gico”, a “observação participante”. Essa metáfora – a qual, como sabemos, nunca é “apenas” uma metáfora, mas tem em si o potencial de revelar relações subjacentes, muitas vezes inconscientes para quem as enuncia (COELHO, 2013, p. 32). 81 BESTAS NA SELVA: CRIANÇAS EM UMA GRANDE CONFERÊNCIA SOBRE SEUS DIREITOS Minha pesquisa de mestrado segue com o fito de compreender as formas de participação das crianças em seus atos de brincar, e também quais aprendizagens parecem emergir nas interações delas entre si, com adultos e com um equipamento público. REFERÊNCIAS COELHO, Maria Cláudia. A Compreensão do Outro: ética, o lugar do ‘nativo’ e a desnaturalização da experiência. Tendências: Caderno de Ciências Sociais, n. 7, 2013, p. 21-35. CRAPANZANO, Vincent. The life history in anthropological fieldwork. Anthro- pology and Humanism Quaterly, n. 02-03, 1977, p. 03-07. 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Galáxia, #07, abril 2004, pp. 19-48. 83 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA Maria da Penha Nóbrega Uchôa Cordeiro Mestranda em Ciência, Tecnologia e Educação http://lattes.cnpq.br/6230650457313324 penha.uchoacordeiro@gmail.com Sonia Maria da Costa Barreto Doutora em Comunicação e Semiótica http://lattes.cnpq.br/4289062895358805 soniamcb@terra.com.br RESUMO: Este artigo traz um recorte dos resultados da pesquisa de mestrado “Educação Infantil e Ludi- cidade: as contribuições da brincadeira ‘Amarelinha’ no desenvolvimento cognitivo da criança”, concluída no mês de outubro de 2023, no Centro Universitário Vale do Cricaré (UNIVC), com o objetivo de relatar as contribuições da atividade lúdica “Amarelinha” no de- senvolvimento cognitivo de alunos de quatro a cinco anos na Educação Infantil em Boa Esperança – Presi- dente Kennedy/ES. O jogo “Amarelinha” foi escolhido por auxiliar na organização do esquema corporal das crianças e possibilitar a identificação de números, co- res e formas geométricas, além de estimular a sociali- zação. O caráter lúdico faz com que a noção de jogo prevaleça e ordene sua execução de forma prazerosa. O período da Educação Infantil é importante para 84 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 a introdução das brincadeiras e, dessa maneira, o processo de ensino/ aprendizagem torna-se mais aprazível, dinâmico e significativo. A inves- tigação foi realizada através de pesquisa bibliográfica, utilizando auto- res contidos no Referencial Teórico. Também foi realizada pesquisa de campo utilizando a observação, bem como entrevistas com os professores participantes. Após verificar o papel da brincadeira na educação infantil, observou-se que os educadores incorporaram com sucesso elementos lú- dicos em suas estratégias de ensino, resultando em melhor aprendizado e habilidades cognitivas para as crianças dentro da instituição. Consta- tou-se que o envolvimento em atividades pedagógicas que incorporem jogos, brinquedos e outros elementos lúdicos é essencial para o desenvol- vimento cognitivo das crianças na Educação Infantil. Palavras-chave: Educação Infantil; Ludicidade; Brincadeira Amarelinha; Desenvolvimento cognitivo. INTRODUÇÃO Percebe-se que através do lúdico a criança aprende com muito mais prazer, destacando que as brincadeiras formam o caminho pelo qual a criança consegue entender o mundo que a rodeia. Dessa forma, cita-se, especialmente, a brincadeira “Amarelinha”, onde a criança tem condições de aprender cores, formas geométricas, números, além de desenvolver a coordenação motora e a socialização. A brincadeira “Amarelinha” foi escolhida para auxiliar na organização do esquema corporal das crianças, que envolve a exploração do espaço em que elas vivem. De acordo com Vygotsky (2003, p. 84) “As crianças formam es- truturas mentais pelo uso de instrumentos e sinais. A brincadeira, a cria- ção de situações imaginárias surge da tensão do indivíduo e a sociedade. O lúdico liberta a criança das amarras da realidade”. Assim, ao proporcionar atividades lúdicas às crianças, o profes- sor está oferecendo a possibilidade de conviver com diferentes sentidos, mostrando através da brincadeira como as crianças veem e constroem o mundo, como querem que ele seja, com o que se importam. Para tanto, a pesquisa trouxe como problemática como a ativida- de lúdica “Amarelinha” favorece no desenvolvimento cognitivo da crian- ça de quatro a cinco anos na Educação Infantil. Assim, apresentou-se como objetivo geral: compreender as contribuições da atividade lúdica 85 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA “Amarelinha” no desenvolvimento cognitivo de alunos de quatro a cinco anos na Educação Infantil. Buscando atender o objetivo geral, a autora o desmembrou nos seguintes objetivos específicos: reconhecer a importância da ludicidade no desenvolvimento cognitivo da criança na Educação Infantil; relatar se a atividade lúdica – Amarelinha – contribui com o desenvolvimento cog- nitivo de alunos de quatro a cinco anos na Educação Infantil; e, por fim, elaborar e disponibilizar uma cartilha com instruções de como a “Ama- relinha” pode ajudar o aluno a desenvolver a identificação de números, cores e formas geométricas, além da socialização. A referida cartilha foi disponibilizada de forma on-line para os professores da Educação Infan- til, da localidade de Boa Esperança, município de Presidente Kennedy – ES e demais profissionais interessados no assunto. Como metodologia, foi utilizada a pesquisa bibliográfica, buscan- do compreender a importância da ludicidade no desenvolvimento cogni- tivo dos alunos na Educação Infantil, bem como uma pesquisa de campo com abordagem qualitativa, cujos dados foram obtidos através da observa- ção e entrevista com professores do Pré I e Pré II do CMEI Bem Me Quer, na localidade de Boa Esperança, município de Presidente Kennedy/ES. A pesquisa buscou mostrar aos professores e alunos da Educação Infantil de que forma utilizar a brincadeira “Amarelinha” como recur- so didático, lúdico e atraente, com considerávelpoder de atração, sig- nificação e de baixo custo, tornando a aprendizagem das cores, formas geométricas e números mais descontraída. Brincando a criança tem a oportunidade de se desenvolver, pois quando brinca ela experimenta, faz descobertas, inventa, se exercita, vivenciando uma experiência que irá promovendo maior interação com os colegas. A IMPORTÂNCIA DA LUDICIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL O brincar é a ação dos anseios internalizados na criança. O brin- car fora da escola descreve um período específico da vida, quando o mun- do da criança é invariavelmente modificado e tudo pode se transformar em brinquedo, avaliando os conhecimentos da criança com o mundo. Rau (2007, p. 46) afirma, que: Para Vygotsky a idéia de brincar se origina na imaginação criada pela criança, em que os desejos impossíveis podem ser resgata- 86 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 dos, reduzindo a tensão e, ao mesmo tempo, constituindo uma maneira de acomodação a conflitos e frustrações da vida real. O autor afirma que “brincar leva a criança a tornar-se mais flexível e buscar alternativas de ação”. Enquanto brinca, a criança concentra sua atenção na atividade em si e não em seus resultados e efeitos. Permitir brincar às crianças é uma tarefa essencial do educador. Desse modo, o lúdico torna-se indispensável para o desenvolvi- mento da criança, já que no brincar não apenas se aprende conteúdos, mas se aprende também para a vida. É através da ludicidade que as crian- ças inventam, têm o poder, esquecendo-se, deste modo, o distanciamento entre elas e os adultos. Do mesmo modo, vão construindo sua inteligên- cia e a própria maturidade social. É através do brincar que a criança expressa seus sentimentos e imita o universo dos adultos e por meio desta conduta ela pode achegar ao sistema de conscientização a respeito da responsabilidade, tanto de seu comportamento quanto do seu desenvolvimento social. Rau (2007, p. 74) considera que: O jogo simbólico se desenvolve a partir dos esquemas sensório- motores, os quais, à medida que são compreendidos, começam a ser imitados e representados. Sua função é satisfazer o EU por meio de uma transformação do real em função dos desejos: ao brincar de boneca, a criança refaz sua própria vida, corrigindo-a à sua maneira e revive todos os prazeres e conflitos, resolven- do-os, compensando-os, ou seja, completando a realidade por meio da ficção. Assim o Piaget aponta que esse tipo de jogo tem a função de assimilar a realidade por meio da liquidação de con- flitos, da compensação de necessidades não satisfeitas ou pela simples inversão de papéis. É o caminho para um mundo de faz- -de-conta, que possibilita à criança a realização de sonhos e fan- tasias, revela conflitos interiores, medos e angústias, aliviando as tensões e as frustrações. A autora especifica que o brincar é recurso importante para a superação de medos, ansiedades e estabilização das tensões resultantes da relação da criança com o meio em que vive. O brincar em si reflete uma circunstância de autonomia da crian- ça, visto que as ações dela, habitualmente de modo imitativo, exibem ações mentais complexas, em que a criança observa a exteriorização e 87 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA alguns comportamentos dos adultos. Ela interioriza essas condutas e, em seguida, exterioriza por meio da ação imitativa. É através do brincar que a criança expressa o que aprendeu, assim como forma suas ideias, evidenciando suas ansiedades sobre o mundo e as pessoas, o que ajuda no progresso da criança em muitos aspectos. Rau (2007, p. 85) relaciona o lúdico como apoio na aprendiza- gem em diversas áreas do desenvolvimento. A autora discorre que: O lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas do de- senvolvimento e aprendizagem pode ser muito significativo no sentido de encorajar as crianças a tomar consciência dos conhe- cimentos sociais que são desenvolvidos durante o jogo, os quais podem ser usados para ajudá-los no desenvolvimento de uma compreensão positiva da sociedade e na aquisição de habilidades. Desse modo, se faz necessária a compreensão do professor a res- peito dos conceitos de jogos, brincadeiras e outras manifestações que em- pregam o elemento lúdico, o que necessita a aceitação de novos costumes e maior empenho. Assim, o jogo e a brincadeira necessitam ser lembrados como opções importantes para a solução dos problemas no contexto da aula, no entanto, fica evidenciado que para que isso aconteça se faz necessário que os docentes tenham conhecimento de uma variedade de atividades lúdicas, para que estas sirvam de contribuições em suas práticas pedagó- gicas, configurando-se, na seriedade docente, o entendimento do papel pedagógico do jogo em sala de aula. Nesse contexto, a autonomia do aluno não deve ser entendida como uma simples experiência de atividades prazerosas realizadas de for- ma espontânea, mas uma participação que não se impõe pela gestão pe- dagógica do professor, ou seja, a intenção gira em torno de simplesmente fazer com que os alunos brinquem na aula enquanto aprendem. Kamii (1991, p. 47) salienta que brincar é uma atividade particu- larmente boa para a vida cotidiana: “Já que são atividades tão prazerosas e interessantes fora da sala de aula, vale a pena trazê-las para dentro da classe e tornar a educação mais compatível com o desenvolvimento das crianças”. Para Kamii (1991), o fato de as crianças escolherem os jogos que querem levar para a escola e a possibilidade de alterar as regras dos jogos também fazem com que elas se sintam mais livres, pois compartilhar os 88 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 jogos e as regras que trazem consigo pode facilitar seu aprendizado e o desenvolvimento independente. De acordo com a autora (1991, p. 39), “como as crianças peque- nas geralmente querem jogar em grupo, os jogos constituem uma situa- ção natural em que as crianças são motivadas a cooperar para estabelecer regras e cumpri-las”. É fundamental ressaltar que os jogos facilitam uma maior partici- pação, tomada de decisões, coordenação de informações, troca de ideias e interação entre as crianças. Quando as crianças verbalizaram o dia em que tiveram mais liberdade para brincar e escolher parceiros, suas infe- rências evidenciaram esse fato, também pela variedade da brincadeira. Segundo Huizinga (2001, p. 5), o elemento essencial do jogo reside na sua capacidade de evocar emoções como diversão, distração, estimula- ção, felicidade e euforia no jogador. Como resultado, a brincadeira pode ter um impacto significativo no processo geral de desenvolvimento da criança. Para que um educador possa interagir com sucesso com as crian- ças num ambiente de aprendizagem, este deve estar atento às interações e à participação das crianças. Isso inclui selecionar atividades e ambientes apropriados para o momento educativo. Para conseguir isso, o educador deve possuir um forte conhecimento teórico de brincadeiras, dinâmicas e jogos, que possa então ser aplicado às experiências práticas das crianças. É através dessas atividades pedagógicas que as crianças podem desenvol- ver a sua autoestima, criatividade e capacidade de transformar as suas ideias imaginativas em realidade. Como forma de melhorar o desenvolvimento da criança, os educadores têm empregado a ludicidade com grande sucesso. Essa abor- dagem inovadora trouxe inúmeras mudanças ao ambiente escolar, com muitos especialistas se dedicando a essa forma de ensino. O brincar per- mite o desenvolvimento de habilidades cognitivas, afetivas e motoras, tornando-se uma ferramenta fundamental em sala de aula. JOGO, BRINCADEIRA E BRINQUEDO O termo jogo pode apresentar diferentes significados. Apesar de ser discutido entre pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, há dificuldades para chegar a um consenso. Assim, para poder determinar os termosjogo, brincadeira e brinquedo, foi necessário recorrer a diver- 89 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA sos textos e autores, devido à complexidade do tema. Embora haja um consenso entre os autores sobre a importância dos jogos e brincadeiras na vida das crianças e em suas funções sociais, também há muitas visões diferentes sobre a definição dos termos. Não se conhece a origem dos jogos. Seus criadores são anônimos, sabe-se apenas que são provenientes de práticas abandonadas por adul- tos, relatadas em fragmentos de romances, poesias, mitos e rituais religio- sos. A tradicionalidade e a universalidade dos jogos assentam-se no fato de que povos distintos e antigos, como na Grécia e cidades do Oriente, brincavam de amarelinha, de empinar papagaios, jogar pedrinhas, e até hoje as crianças fazem isso quase da mesma forma. Esses jogos foram transmitidos de geração em geração, através de conhecimentos empíri- cos, e permanecem na memória infantil (KISHIMOTO, 2003). De acordo com Huizinga (2001, p. 33): O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana. Para o autor, o jogo permite a possibilidade de aproveitamento que estabelece, através do caráter lúdico, experiências e vivências significativas para as crianças. Os jogos também podem ser atividades livres em que seus participantes inventam suas próprias regras que obedecem não por impo- sição, mas por acordo mútuo. O jogo é reconhecido como um elemento que oportuniza à criança um espaço agradável, motivador e enriquecedor, para aprender uma variedade de habilidades. “É uma ação que desenvolve o quadro cognitivo e as relações sócio-afetivas” (SOUZA, 2007). Para Kishimoto (1994, p. 13): O jogo como promotor da aprendizagem e do desenvolvimento passa a ser considerado nas práticas escolares como importante aliado para o ensino, já que colocar o aluno diante de situações lúdicas como jogo pode ser uma boa estratégia para aproximá-lo dos conteúdos culturais a serem veiculados na escola. Percebe-se, na fala da autora, a necessidade de o professor tra- zer em seu planejamento atividades lúdicas, lembrando que os jogos e 90 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 as brincadeiras estabelecem compartilhamentos, embates, combinações e trocas, gerando realizações cognitivas, emocionais e sociais. O jogo caracteriza-se por ser prazeroso, envolvendo regras, liber- dade para participar ou não, sua seriedade, a separação dos fenômenos cotidianos, as limitações de espaço e tempo, sua representação e a incer- teza de seu resultado, podendo haver regras explícitas, como na amareli- nha ou no xadrez, ou implícitas, como em um jogo virtual. Segundo Piaget (1978), os jogos podem se dividir em três eta- pas: jogos de exercícios (aparecem no período sensório-motor), jogos simbólicos (aparecem no período pré-operatório) e jogos de regras (fase das operações concretas). Essa é uma categorização do ponto de vista do desenvolvimento infantil, pois do ponto de vista material existem atual- mente diferentes classificações, a que não recorreremos nesse momento. Os jogos de exercícios acontecem desde o nascimento até o sur- gimento da linguagem, quando há diversão com movimentos corporais repetitivos, como: pular, correr, etc., sendo nada mais que uma diversão. Os jogos simbólicos aparecem em torno dos dois anos e vai até os seis anos. Nesses jogos, as crianças modificam o significado dos objetos, as- sumem papéis em seu contexto social e expressam seus sonhos e fantasias. É uma maneira que elas usam para expressar como veem as coisas e o conhe- cimento no mundo real, fazendo a ponte entre a realidade e a imaginação. Os jogos de regras é a atividade lúdica que aparece por volta dos sete anos. As regras pressupõem a existência de relações sociais. Um jogo é um fato social e assume o significado e a imagem que a sociedade lhe atribui de acordo com seus valores, suas crenças, enfim, seu modo de vida. Os jogos são atividades lúdicas que auxiliam no ensino apren- dizagem de forma prazerosa e dinâmica. E a brincadeira é diferente dos jogos? Segundo Souza (2007), o termo brincadeira tem como particula- ridade o ato de brincar, que se refere ao comportamento espontâneo que resulta de atividades não estruturadas. Kishimoto (2003) afirma que brincar “[...] é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lú- dica”. A brincadeira expressa a forma como as crianças refletem, coman- dam e organizam o mundo. Para Piaget (1978), a criança assimila o mundo à sua maneira en- quanto brinca, sem se comprometer com a realidade, pois sua interação com os objetos dependerá não das propriedades do objeto, mas da função que a criança lhe dá. 91 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA A criança, por meio de sua criatividade, dará aos objetos signifi- cados diferentes dos que normalmente possuem, tratando-os como brin- quedos. O brinquedo acaba se tornando um objeto de comunicação, um meio pelo qual a criança sai da relação centrada no objeto, este tornan- do-se um intermediário entre ela e as outras crianças e, mais geralmente, entre ela e o mundo. O brinquedo é caracterizado pelo objeto do brincar, que tem for- te valor cultural e permite uma melhor compreensão de uma determina- da cultura ou sociedade. Ele não necessita ser visto somente como algo feito pelo mercado consumidor, mas como um objeto que leve a criança em uma viagem imaginária, podendo ser um objeto industrial, um objeto feito à mão, ou ser feito pela própria criança. Para Kishimoto (2003, p. 07), “[...] brinquedo será entendido sempre como objeto, suporte da brincadeira, a brincadeira como a des- crição de uma conduta estruturada, com regras e jogo infantil para de- signar tanto o objeto e as regras do jogo da criança”. Quando a criança começa a brincar, se apropriando de qualquer objeto, é a partir daí que o objeto passa a ser seu brinquedo; tendo esse brinquedo, ela imagina e se reinventa na brincadeira. A atividade ocorre quando a criança gera suas próprias estruturas e regras na brincadeira. A presença de brinquedos no ambiente infantil é necessária para o pleno desenvolvimento das crianças, pois sua exploração permitirá o acesso a informações e relações com outras situações, tornando o conhe- cimento adquirido mais prazeroso e significativo. BRINCADEIRA “AMARELINHA”: SUPORTE PARA A APRENDIZAGEM Ao embarcar na pesquisa histórica, torna-se evidente que o jogo da amarelinha já era praticado na Roma Antiga. Mantovani (2010) traz que existem figuras que evidenciam crianças brincando de amarelinha nos pavilhões de mármore nas vias da Roma antiga. Na França, tinha uma brincadeira que eles utilizavam uma pedri- nha para assinalar as casas do jogo. No entanto, quando os portugueses apresentaram a brincadeira no Brasil, ela tornou-se popular, pois pode ser jogada em qualquer lugar e sem custo – apenas é riscada, desenhada ou pintada no chão. Há uma relação com a palavra francesa “Marelle” = amarelo, em francês, acrescentado o sufixo “inha” (SILVA, 2021). 92 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 No Brasil, por ser um país que possui uma diversidade de cultu- ras, é complexo apontar as origens da brincadeira “Amarelinha”. Existe um vestígio de que as primeiras brincadeiras chegaram com os primeiros colonizadores portugueses. Atualmente, a Amarelinha é bem conhecida e jogada em quase todos os países do mundo. As regras podem variar de lugar para lugar, mas a ideia básica é sempre a mesma. O jogo consiste em saltar num pé sobreoito quadrados gizados ou riscados no chão, que compõem uma figura geométrica, salvo sobre aquele onde cair a pedra ou malha, que é lançada pelos jogadores antes de começarem a jogar. O desenho da figu- ra geométrica tanto pode apresentar quadrados como retângulos, geral- mente numerados de 1 a 10, e o topo – o céu – costuma ser de formato semicircular ou oval. Não se sabe ao certo a origem das brincadeiras tradicionais, elas são consideradas parte da cultura popular e muitas têm seu período histó- rico desconhecido. Após a realização do resgate histórico da Amarelinha, que faz parte do tema principal desta pesquisa, evidencia-se a importância dessas brincadeiras para o desenvolvimento motor e social das crianças. O jogo pode ser visto como um instrumento pedagógico muito rico, que todos os professores podem utilizar para desenvolver em seus alunos vários conhecimentos, pois ele é reconhecido como meio de fornecer à criança um ambiente agradável, motivador e prazeroso, que possibilita a aprendizagem de várias habilidades (SANTOS; MATOS; ALMEIDA, 2009, p. 4). Por isso, é importante proporcionar aos alunos da Educação In- fantil jogos e brincadeiras tradicionais, ainda mais na sociedade violenta de hoje, onde muitas crianças já não brincam nas ruas devido ao medo e à insegurança dos pais. 93 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA Figura 1 – Jogo da Amarelinha Fonte: da Autora. Como se pode notar na Figura 1, a Amarelinha é um jogo que permite às crianças construir diferentes aprendizagens que promovem di- retamente o desenvolvimento físico, tônus muscular, equilíbrio, conceitos espaciais, lateralidade, serialização, números e ordenação. As emoções, as relações sociais com os pares, os amigos e a experiência de bem-estar infantil das crianças também são demonstrados através da brincadeira. Dessa forma, a Amarelinha é um jogo com muitas chances de as crianças aprenderem e se desenvolverem. Como todos os jogos, a idade permite que você decida até onde eles podem ir. As crianças são capazes de pensar e planejar seu salto, ora para um lado, ora para o outro lado, ora para frente, ora com as mãos, ora com os pés, assim como o jogo es- timula a criança a pensar na força necessária para jogar uma pedrinha no quadrado alvo (SILVA, 2021). O jogo da Amarelinha pode auxiliar no desenvolvimento, memo- rização de sequências numéricas, conceitos espaciais, bem como auxilia diretamente na organização de esquemas corporais e habilidades moto- ras. Kishimoto (2009, p. 05) afirma que: A criança, mesmo pequena, sabe muitas coisas: toma decisões, es- colhe o que quer fazer, interage com pessoas, expressa o que sabe 94 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 fazer e mostra, em seus gestos, em um olhar, uma palavra, como é capaz de compreender o mundo. Entre as coisas de que a criança gosta está o brincar, que é um dos seus direitos. O brincar é uma ação livre, que surge a qualquer hora, iniciada e conduzida pela criança; dá prazer, não exige como condição um produto final; relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades e introduz a criança no mundo imaginário. O jogo da Amarelinha, esquematizado no chão, em quadrados, em caracol, com linhas curvas, desenhadas pela própria criança ou já de- senhadas e pintadas nas calçadas, ou de qualquer outro jeito, confirma o que Kishimoto apregoa. O brincar, nesse caso, pode fazer com que os educadores reflitam sobre o quanto um jogo simples, sem custo, sem tec- nologia, pode proporcionar a compreensão e o respeito pelas regras do jogo, pelas emoções e, em suma, uma reflexão melhor sobre o papel da aprendizagem, promovendo o desenvolvimento das crianças. METODOLOGIA Com o objetivo de verificar como a atividade lúdica “Amareli- nha” favorece o desenvolvimento cognitivo da criança de quatro a cinco anos na Educação Infantil no CMEI Bem Me Quer, da localidade de Boa Esperança, município de Presidente Kennedy/ES, a pesquisa buscou al- guns processos metodológicos visando atingir os objetivos propostos. A fase inicial constituiu-se do aprofundamento das discussões teóricas, buscando em referências específicas subsídios para identificar os principais conceitos e categorias que balizam essa discussão. Com base nesta matriz teórica, pôde-se compreender os objetivos propostos e os encaminhamentos metodológicos. A investigação foi realizada através de uma pesquisa bibliográfica numa abordagem qualitativa, por entender que esta abordagem traba- lha o processo da construção de significados dos sujeitos pesquisados. A abordagem qualitativa defende uma visão de mundo dos fenômenos, leva em conta todas as influências de uma situação e se contrapõe ao esquema meramente quantitativo de pesquisa, por entender que esse esquema di- vide a realidade em unidades mensuráveis e isola-as no estudo. Para Severino (2007, p. 83), a pesquisa bibliográfica é a “[...] construção de conhecimento novo”, baseado no que já se tem inscrito na 95 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA academia. Dessa forma, foram consultados os trabalhos desenvolvidos por teóricos como Piaget (1978), Kishimoto (1993) (1997) (2009), Souza (2017) e Vygotsky (2003), empregando as contribuições teórico-metodo- lógicas, os dados, os estudos analíticos e as categorias de análise já elabo- radas pelos autores estudados. Ressalta-se que se faz necessário um referencial teórico bem esquematizado para compreender, interpretar e explicar a realidade, os fenômenos e as relações entre homem-mundo mediadas por outros ho- mens. Nesse sentido, retoma-se Severino (2007, p. 84), que diz: “[...] o grande diferencial, de natureza epistemológica, está na própria forma de se conceber a relação com o conhecimento”. Também foi realizada a observação no Pré I e Pré II, buscando compreender como os alunos se desenvolvem quando se trabalha de for- ma lúdica em sala de aula. Para tanto, foi utilizado um diário de bordo, no qual foram anotadas todas as reações expressas pelos alunos em cada atividade oferecida pelo professor regente. Outro passo importante realizado foi a pesquisa de campo, atra- vés de entrevista. A entrevista, de acordo com Gil (2002), é uma ferramen- ta que permite a elaboração e compreensão do problema. Seu benefício é a oportunidade de entender imediatamente as informações desejadas, incluindo o contexto perceptual dos dados que escapa de outras ferra- mentas, como questionários e observações. A pesquisa foi realizada no CMEI Bem Me Quer, na localidade de Boa Esperança, Zona Rural, município de Presidente Kennedy/ES, es- cola pública e rural. Os sujeitos de pesquisa foram sete professores do Pré I e II, e cada turma tem 13 alunos. A produção de dados se deu através de uma entrevista semiestru- turada, utilizando um roteiro com perguntas fechadas e abertas. Os da- dos foram coletados e analisados por meio da pesquisa de campo com os professores do CMEI já referido, buscando averiguar quais conhecimentos os professores tinham a respeito da ludicidade na Educação Infantil, bem como de que forma trabalhavam jogos e brincadeiras com as turmas. A pesquisadora também trabalhou com a “Amarelinha” nas tur- mas pesquisadas, buscando analisar a reação e a inter-relação dos alunos durante o jogo. 96 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 RESULTADOS E DISCUSSÕES A produção de dados se deu pela análise da pesquisa de campo realizada com os professores do CMEI pesquisado. Foi realizada uma en- trevista com os professores seguindo um roteiro de perguntas abertas e fechadas. As questões fechadas tratavam da formação do professor, tem- po de formação e tempo de serviço na Educação Infantil. A primeira questão foi em relação à formação do professor, se ti- nha graduação, especialização, entre outras alternativas. O Gráfico 1traz o percentual, evidenciando o nível acadêmico desses professores. Gráfico 1 – Formação Acadêmica Fonte: Entrevista (2023) De acordo com o Gráfico 1, 57% dos professores entrevistados são mestres, enquanto 43% possuem graduação e especialização. Outro ponto observado no gráfico é que 0% tem apenas curso superior comple- to ou incompleto. Assim, percebe-se que os professores estão habilitados para atuar na educação. Porém, bem sabe-se que não basta apenas o pro- fessor ter formação, ele necessita, além de ser habilitado, ter competência e conhecimento para desenvolver um trabalho responsável. Para tanto, o professor necessita estar em constante formação. Libâneo (2001, p. 36) diz que: É certo, assim, que a tarefa de ensinar a pensar requer dos pro- fessores o conhecimento de estratégias de ensino e o desenvolvi- 97 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA mento de suas próprias competências do pensar. Se o professor não dispõe de habilidades de pensamento, se não sabe “aprender a aprender”, se é incapaz de organizar e regular suas próprias ativi- dades de aprendizagem, será impossível ajudar os alunos a poten- cializarem suas capacidades cognitivas. Libâneo afirma que a preparação dos professores é um processo pedagógico fundamental que deve ser realizado para que estes possam exercer com competência suas funções docentes. Em seguida, foi perguntado aos professores há quanto tempo es- tão formados. O Gráfico 2 traz o percentual, retratando os dados obtidos. Gráfico 2 – Tempo de Formação Acadêmica Fonte: Entrevista (2023) Observando o Gráfico 2, pode-se observar que 57% dos entrevista- dos estão formados de 5 a 10 anos, enquanto que 29% estão formados de 0 a 5 anos e apenas 14% tem um tempo maior de formação, de 10 a 15 anos. Como já relatado anteriormente, nem sempre a formação ou mesmo o tempo de formação é que mostra se o professor exerce bem ou mal a sua profissão. Segundo Nóvoa (1992, p. 13): A formação não se constrói por acumulação de cursos, de conhe- cimento ou de técnicas, mas assim através de um trabalho de refle- xibilidade crítica sobre práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. A formação vai e vem, avança e recua, cons- truindo-se num processo de relações ao saber e ao conhecimento. 98 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 O espaço escolar é, sem dúvida, um espaço democrático, um lu- gar para os professores participarem de um diálogo construtivo, compar- tilharem suas ideias, discutirem práticas pedagógicas, formação pessoal e referências culturais, políticas e ideológicas. A escola deve ser um centro de crescimento onde os professores possam compartilhar suas experiên- cias, conhecimentos e vida, e se envolver em interações significativas. Assim, a escola deve ser um espaço privilegiado de produção de conheci- mento onde teoria e prática se unem. Também foi perguntado há quanto tempo esses professores traba- lham na Educação Infantil. O Gráfico 3 apresenta o percentual das respostas. Gráfico 3 – Tempo de serviço na Educação Infantil Fonte: Entrevista (2023) Evidencia-se que 69% dos professores estão em início de carrei- ra, ou seja, tem de 0 a 5 anos de tempo de serviço, enquanto que 17% já trabalham há mais de 15 anos, isto é, já têm uma caminhada na Educação Infantil, e 14% trabalham de 5 a 10 anos. A formação de indivíduos respeitosos, críticos e autoconscientes começa com a Educação Infantil. Os professores desempenham um papel crucial na facilitação do processo de aprendizagem e no cultivo de valores sociais e éticos. Por meio da transmissão do conhecimento científico e social, os educadores auxiliam na criação de uma sociedade harmoniosa. O papel de um professor na vida de uma criança tem imenso significado na formação de sua autoconsciência, capacidade de pensar criticamente e desenvolvimento de habilidades sociais. Por meio de ativi- 99 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA dades em sala de aula, os educadores se envolvem ativamente no processo de aprendizagem das crianças, dentro e fora das dependências da escola, facilitando seu crescimento intelectual e a formação de caráter. A identidade profissional do professor não é inata; ao contrário, é moldada por práticas sociais dentro da profissão docente. Por meio da reflexão crítica sobre a profissão em meio às realidades sociais, os profes- sores configuram suas identidades profissionais para atender às neces- sidades e demandas de suas comunidades escolares. Isso é crucial para atender às expectativas e exigências da comunidade. Portanto, esse processo de formação deve estar vinculado aos conhecimentos, atitudes, personagens e valores que inevitavelmente emergem da própria experiência, que se tornam importantes reflexos da atividade educativa. Todavia, não basta tão somente que os professores possuam apenas saberes, é imprescindível que tenham tanto saberes quanto compe- tências, pois: Saberes são conhecimentos teóricos e práticos neces- sários para o exercício profissional, competências são as qualidades, capacidades, habilidades e atitudes relacionadas aos conhecimentos teóricos e práticos e que permitem o exercício adequado da profis- são (LIBÂNEO, apud SILVA e GUIMARÃES, 2011, p. 15). O professor como profissional da educação é, portanto, um in- telectual em processo de formação constante, necessitando valer-se de sua experiência prática, vivenciada cotidianamente entre escolas, com saberes pedagógicos que reflitam continuamente em sua prática docente. O próximo questionamento foi em relação à importância de se trabalhar jogos e brincadeiras na Educação Infantil, em busca de saber se os professores acham isso importante. Para a Professora A, trabalhar com a aprendizagem é indissociável dos jogos e das brincadeiras. Já as Professoras B e C disseram que os jogos e as brincadeiras possibilitam o desenvolvimento da criança em todos os aspectos. A Professora C relatou que a criança pode se desenvolver a partir de situações de interação que são proporcionadas através do lúdico. A Pro- fessora D tem a mesma compreensão da Professora B, dizendo que os jogos são indispensáveis no desenvolvimento da criança em todos os aspectos. As Professoras E, F e G também têm a mesma compreensão, pois falam que os jogos e as brincadeiras são fundamentais para o desenvolvimento da criança como socialização, adaptação, entre outros aspectos. 100 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Também foi realizada a observação em sala de aula nas turmas de Pré I e Pré II, buscando compreender como os alunos se desenvolvem quando o professor trabalha de forma lúdica em sala de aula. Para tanto, foi utilizado um diário de bordo, no qual foram anotadas todas as reações expressas pelos alunos em cada atividade oferecida pelo professor regente. Na observação realizada no Pré II, a professora regente trabalhou as cores primárias através de uma atividade lúdica. Ela utilizou garrafas PET com água e um algodão na tampa com as cores, onde as crianças ficavam atentas e surpresas com o surgimento das cores como num pas- so de mágica. Também trabalhou com uma caixa surpresa, onde havia várias bolinhas com cores primárias. Desse modo, colocou as crianças sentadas no chão, em círculo. Cada criança colocava a mão dentro da caixa, retirava a bolinha e falava a cor. Em seguida, a turma falava junto a cor que foi retirada. Na turma do Pré I, a professora realizou uma prática para a coor- denação motora dos alunos utilizando uma atividade, a qual está sendo disponibilizada a seguir: Figura 1 – Exemplo de atividade para a coordenação motora Fonte: Escolaeducação.com.br 101 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA A professora apresentou a atividade às criançase explicou como deveriam proceder, e pediu que escolhessem um lápis da cor que mais gostavam para poder realizá-la. Elas gostaram muito, apesar de que algu- mas tiveram dificuldade em realizar a atividade, mas outras fizeram sem apresentar problemas. Através da observação, percebe-se que quando se trabalha de for- ma lúdica, as crianças se envolvem mais e demonstram gostar do que es- tão fazendo. Outro ponto importante percebido é o quanto as atividades planejadas e pensadas são importantes no processo de ensino-aprendiza- gem do aluno e o quanto os alunos respondem positivamente às ativida- des que são desenvolvidas em sala de aula. Os professores devem oferecer oportunidades para que as crian- ças se envolvam em uma variedade de atividades e métodos diversos. Tais experiências devem estimular a criatividade, a experimentação e a ima- ginação, bem como desenvolver habilidades de linguagem expressiva e promover interações sociais. Através da brincadeira, a criança aprende novos conceitos, adquire conhecimento e tem um crescimento saudável. Nada melhor para a criança que aprender por meio daquilo que ela mais gosta de fazer, que é brincar. Na roda de conversa, a pesquisadora começou apresentando a brin- cadeira “Amarelinha” com o objetivo de promover a vivência da brincadei- ra e, através dela e de algumas alterações, abordar determinados conteúdos como números, sequência, leitura, concentração, equilíbrio, entre outros. Desse modo, a pesquisadora iniciou a atividade fazendo um es- clarecimento das regras e de como os grupos de crianças iriam se organi- zar no espaço físico, desenhando no quadro negro a posição de cada um e os limites que seriam utilizados durante a brincadeira. Em seguida, foi utilizado o vídeo com a música “Amarelinha”, dis- ponível em https://www.youtube.com/watch?v=XA6_cGt8KqM. Após o termino da música, foram feitos alguns questionamentos aos alunos: Quem já brincou de Amarelinha? Vocês acharam fácil ou difícil brincar de Amarelinha? Qual brincadeira vocês mais gostam de brincar? Para dar início, primeiro a pesquisadora demonstrou como é a brincadeira. Os alunos foram separados em dois grupos, tendo em cada um seis crianças. Alguns tiveram dificuldade na hora de pular. Foi ob- servado que as meninas interagiram muito bem, porém pulando com os dois pés, pois não conseguiam se equilibrar com um pé só, bem como apresentaram dificuldade para fazer o lançamento da pedra nas casas, 102 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 precisando de auxílio em algumas vezes. Com os meninos não foi dife- rente, pois alguns tiveram suas dificuldades, mas dois deles conseguiram pular com tranquilidade, por serem duas crianças bem independentes. Eles tiveram uma reação de surpresa, pois não conheciam as regras da brincadeira. Brincavam, mas não sabiam o verdadeiro sentido. As crianças pequenas, ao aprenderem os números com emba- samento no conceito de conservação do objeto, entendem que os obje- tos existem e assim elas começam a explorá-los e estudá-los quantitati- vamente. As crianças desenvolvem sua compreensão dos números por meio de experiências práticas e experimentação com vários materiais, à medida que aprendem a categorizá-los e contá-los. O jogo pode ser visto como uma ferramenta pedagógica muito rica que qualquer professor pode utilizar para desenvolver diversos co- nhecimentos em seus alunos, pois é visto como uma forma de proporcio- nar um ambiente lúdico, motivador e divertido para a criança aprender diferentes habilidades (SANTOS; MATOS; ALMEIDA, 2009). Atualmente, a Amarelinha é conhecida e brincada em quase to- dos os países do mundo. As regras podem mudar de lugar para lugar, mas a ideia básica é sempre a mesma. Resgatar uma brincadeira ou um jogo de infância é importante, uma vez que isso pode ser realizado na escola, na família e em outros grupos sociais, cujas vantagens e possibilidades já foram relatadas anteriormente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerando-se a ludicidade como um instrumento importan- te para o desenvolvimento das ações pedagógicas dos professores, pode- -se verificar essa importância no processo de ensino e aprendizagem das crianças, por meio das observações realizadas, em sala de aula, bem como nas entrevistas com professores do Pré I e Pré II do CMEI Bem Me Quer, na localidade de Boa Esperança, município de Presidente Kennedy/ES. Após verificar o papel da brincadeira na Educação Infantil, foi observado que os educadores incorporaram com sucesso elementos lú- dicos em suas estratégias de ensino, resultando em melhor aprendizado e habilidades cognitivas para as crianças dentro da instituição. Consta- tou-se que o envolvimento em atividades pedagógicas que incorporem jogos, brinquedos e outros elementos lúdicos é essencial para o desenvol- vimento cognitivo das crianças. 103 EDUCAÇÃO INFANTIL E LUDICIDADE: AS CONTRIBUIÇÕES DA BRINCADEIRA “AMARELINHA” NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DA CRIANÇA Ao terem uma variedade de atividades lúdicas, incluindo a Ama- relinha, juntamente com materiais apropriados e condições espaciais e temporais desafiadoras, as crianças são capazes de aprender brincando e desenvolver habilidades em linguagem oral e escrita, raciocínio lógico, orientação espaço-temporal, relacionamento interpessoal e autocons- ciência, extraindo elementos de seu próprio repertório. À medida que as interações entre educadores e crianças se tor- nam mais mediadas, as crianças têm maior oportunidade de aprender a coordenar suas ações em jogos e outras situações que existem além da sala de aula. Essa transformação do processo de brincar em uma expe- riência coletiva permite interações sociais e mudança de atitudes. Parece evidente que a incorporação do lúdico ao ambiente de aprendizagem melhorou com sucesso a educação das crianças nessa ins- tituição. Os educadores empregaram uma abordagem dinâmica e ima- ginativa para suas atividades lúdicas, reconhecendo suas contribuições significativas para o processo de ensino e aprendizagem. Essa abordagem facilitou o desenvolvimento das habilidades e do potencial das crianças, com ênfase particular no desenvolvimento cognitivo. Nesse contexto, este trabalho servirá de base para novas pesqui- sas e reflexões sobre a utilização do lúdico para o desenvolvimento cog- nitivo da criança na Educação Infantil, além de contribuir para novas propostas no ambiente escolar, visando ao favorecimento das práticas pedagógicas contextualizadas com a realidade da criança e do ambiente escolar, com os diversos recursos disponíveis, dentre eles os tecnológicos, contemplando-se a formação dos educadores nessa perspectiva. REFERÊNCIAS BAPTISTA, Ivanete Alves. O Lúdico como estratégia de ensino nos Anos Ini- ciais do Ensino Fundamental numa escola de Presidente Kennedy-ES. – Fa- culdade Vale do Cricaré, São Mateus - ES, 2019. COLAS. DUFLO. O jogo de Pascal a schiller. Porto Alegre; artes médicas, 1999, p. 85. CRUZ. Tânia Regina de Oliveira da. A Importância da ludicidade na Educação Infantil: Os jogos e brincadeiras como fonte de interesse para o ensino aprendi- zagem. 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Tendo em vista todo o processo evoluti- vo que todos os ambientes tiveram após os avanços tecnológicos, quando se tratando da educação esses avanços significativos estão pautados em novas pos- turas e métodos sofisticados para garantir ao usuário a mais alta excelência. Este artigo de caráter biblio- gráfico visa apresentar o papel da docência no ensino superior pautado na modalidade EAD, e o papel do tutor responsável por fazer a articulação no ambiente virtual de aprendizagem visando maximizar a cons- trução do conhecimento, e um ensino de qualidade pautados na modalidade citada anteriormente. Diante a essa necessidade, e visando a tecnologia a nosso fa- 108 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 vor, este presente artigo discorre sobre o papel e a importância do profes- sor tutor no processo de ensino aprendizagem na modalidade EAD. Palavras-chave: Professor Tutor; Docência EAD; Tecnologia; Ensi- no Aprendizagem. 1 INTRODUÇÃO O presente instrumento de pesquisa será norteado a partir de re- ferências bibliográficas de autores renomados com total credibilidade no assunto, como: Almeida, Miranda, Moran, Marques, etc. Durante todo o desenvolver do processo de construção, serão expostos os aspectos que nortearam a oferta de ensino pautada na modalidade de educação EAD. É notório que o professor tutor tem ganhado destaque nos últimos anos, pois é uma pessoa física em contato direto com os alunos, que faz toda a mediação entre os conteúdos e arquivos digitais e a proximidade com a realidade vivida de acordo com o curso no qual se está matriculado. Como nos confirma Almeida: Atualmente, os cursos de Ensino Superior a Distância, em sua maioria, contam com um profissional para realizar a função de tu- toria nos pólos de apoio presencial, local no qual o aluno tem con- tato presencial com os demais colegas e com o tutor que vai auxiliar em suas dúvidas durante o curso, além de auxiliá-lo na realização de atividades disponibilizadas online. (ALMEIDA, et al, 2016, p. 02) Por isso é tão necessário compreender ainda mais a importância do papel deste profissional na formação do processo de ensino aprendi- zagem EAD, São exposições de pensamentos como estes do autor que se fez levar a seguinte indagação para esta pesquisa: Qual a importância do professor tutor no ensino na modalidade de educação a distância? As tecnologias são realmente aliadas quando se trata do proces- so educacional? A escolha do tema se construiu a partir da discussão sobre a impor- tância, principal função e perfil do professor tutor nestes estabelecimentos de ensino, e pontuar a importância da tecnologia para fins educacionais. 109 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Tecnologia aplicada aos espações de aprendizado Falar de Ensino a Distância sem citar de forma enxuta o que é tecnologia ficara inviável. Para isso se define tecnologia. De acordo com o site significados, denominam tecnologia como: Tecnologia é um produto da ciência e da engenharia que envolve um conjunto de instrumentos, métodos e técnicas que visam a resolução de problemas. É uma aplicação prática do conhecimento científico em diversas áreas de pesquisa. A palavra tecnologia tem origem no grego “tekhne” que significa “técnica, arte, ofício” juntamente com o sufixo “logia” que significa “estudo”. (SIGNIFICADOS, 2014) É notório que dia após dia o aumento da tecnologia vem se gra- duando de forma extremamente rápida a fim de contribuir e facilitar a vida de todas as pessoas que tenham este tipo de acesso em mãos ou faci- litada, muitas vezes não sabem que todos estes avanços são oriundos da revolução industrial como nos esclarecer o autor. De acordo com Leão: A tecnologia de processos ou da própria tecnologia em seu sentido solitário que invariavelmente tem papel preponderante nos pro- cessos produtivos advém de um período muitoimportante que é a revolução industrial, é nesta época que a mão de obra começou a ser substituída por maquinas, equipamentos, invenções, etc., sen- do assim é também neste período que a tecnologia começa a te papel crucial nas formas de produção, fazendo com que surgisse consequentemente as grandes fábricas e industrias. (LEÃO, 2014) A partir deste período começamos a entender como as maquinas e invenções começaram a ganhar espaços no passar dos anos, auxiliando o ser humano nas suas tarefas diárias e contribuindo de forma significativa, mas nem sempre a tecnologia serviu de bons aspectos como nos relata Leão. A tecnologia proporcionou maravilhas como a penicilina, cirur- gia de coração e a pílula anticoncepcional. Proporcionou horro- res como a bomba de hidrogênio, gases de uso bélico que atuam 110 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 sobre o sistema nervoso e a metralhadora. Proporcionou benefí- cios como o automóvel, os aparelhos de televisão e o pão de trigo. (LEÃO, 2014) Como cita o autor acima, ao decorrer do processo de aquisição e conhecimento relacionada a tecnologia, fatores positivos e negativos pas- saram a fazer parte do dia da população mundial, desde de benefícios como a energia elétrica, até a produção de armas e tanques para fins de guerra militar. Dando um grande salto entre a revolução industrial até o ano de 1904 que é o ano em que no brasil começa a ofertar o ensino na modali- dade a distância - EAD; pode-se dizer que foi a maior forma de tecnolo- gia aplicada a espaços virtuais de educação e aprendizagens. E diante a tal demanda decretou-se então em 1998 que: Educação a Distância é uma forma de ensino que possibilita a au- toaprendizagem, com a mediação de recursos didáticos sistematica- mente organizados, apresentados em diferentes suportes de infor- mação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação. (BRASIL, 1998, não paginado) Ressalta-se que em 1904 estes espaços de aprendizagem tiveram seu início por meio de telecursos através correspondência, ou seja, via cor- reios onde por sua vez, estes cursos eram pagos pelas pessoas interessadas e a empresa que ofertava esta modalidade de ensino enviava todo o material especifico para a residência do aluno, o mesmo realizava as atividades pro- postas e enviava para que a empresa fizesse a correção e envio dos certifica- do. Em outras palavras, todo o processo de aprendizagem ficava única e ex- clusivamente por conta do aluno, sem auxilio imediato em caso de dúvidas. Após tal início, Miranda esclarece que em 1934, surge o Instituto Universal Brasileiro, com cursos à distância, de várias áreas, no estilo de capacitação e aprimoramento, e muitos voltados para o mercado de tra- balho profissional. (MIRANDA, p. 03) Percebe-se que a partir da data citada pelo autor também se tem início a vários cursos de aperfeiçoamento, e de capacitação com o intuito de preparar ainda mais as pessoas para o mercado de trabalho. Com o avanço da tecnologia, os meios de comunicação que cir- cundam a internet surgem como uma opção eficaz e sistemática a fim 111 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR de compensar as necessidades existentes do homem atual, dando velo- cidade aos meios de comunicação deixando de lado a necessidade da presença física. O homem, com sua capacidade de aprendizado passou a dominar as novas tecnologias não deixando de lado as que já existiam. Diante a esse avanço tecnológico, ligados a educação TADESCO escla- rece o que podem ser as TICS. “Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), é o conjunto de tecnologias microeletrônicas, informáticas e de telecomunicações, que produzem, processam, armazenam e transmite dados em forma de imagens, vídeos textos ou áudios” (TADESCO, 2004. p. 96). Mas seu uso constante sem planejamento orientado tem se tor- nado um grande problema. Fortalece argumentos por parte de alguns profissionais da educação como suporte ideário de resistência no proces- so de adesão das novas tecnologias como ferramenta pedagógica essen- cial no processo de ensino-aprendizagem. Os avanços tecnológicos surgem para fins mais funcionais, diante ao processo educacional o ensinar e aprender remotamente passam a ter as mesmas funcionalidades tanto nos cursos semipresenciais quanto nos cursos totalmente a distância. Este processo de ensino-aprendizagem dependerá e fatores como, o total de alunos, os meios de tecnologia que estarão disponí- veis, o tempo estimado das aulas, o número de aulas ministradas ao decorrer da semana, e o tipo de apoio institucional que será disponibilizado. Nos dias atuais, pode-se ter acesso a inúmeros programas que servem de modo a facilitar a criação de salas de aulas virtuais, onde pro- fessores e alunos se reúnem para que possa ser discutido conteúdos e palestras. Programas como Classrom, Aulanet da PUC do Rio de Janeiro, entre outros que se assemelham, faz com que o educador de andamento ao curso, orientando seus alunos e incentivando os mesmo a debater fó- runs no qual julgue importante. Neste processo o educador passa a ter a função de orientador dos meios de aprendizagens. O professor, tendo uma visão pedagógica inovadora, aberta, que pressupõe a participação dos alunos, pode utilizar algumas ferramentas simples da Internet para melhorar a interação presencial-virtual entre todos. É diante a essa visão que surgem nos estabelecimentos de ensino superior os famosos tutores. 112 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 2.2 EAD: ambiente de aprendizado Antes de começar a expor os pensamentos sobre este tipo de mo- dalidade de ensino, será exposto o seguinte artigo: Art. 1º Educação a distância é uma forma de ensino que possibi- lita a auto-aprendizagem, com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados em diferentes su- portes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação. (LDB – Lei de Diretrizes E Bases, 1998) Tendo essa citação como referência, nota-se que se diz em au- toaprendizagem, ou seja, dá-se a entender que todo o processo vai depender de quem está sujeito a estudar, ou seja, depende única e exclusivamente da pessoa interessada em aumentar seus níveis de aprendizado e conhecimento. Independentemente da modalidade escolhida, sendo semipre- sencial ou totalmente a distância, ambos necessitam ter a sua disponi- bilidade um ambiente interativo, e confiável onde ocorrerá este processo educacional. Uma das formas mais conhecidas para alcançar tais níveis de satisfação é a participação do tutor na mediação do conteúdo; como mostrado no tópico anterior. Mas vale ressaltar que todo o processo irá depender da força de vontade do estudante. Marques diz: Por meio da interação do sujeito (homem) com o objeto (meio- -físico-social), a aquisição está relacionada com processo de equi- libração; a retenção considera o inconsciente cognitivo e a trans- ferência considera as suas aprendizagens anteriores, a partir de novas situações. (MARQUES, 2014, p. 03) E Becker afirma que: O sujeito age sobre o objeto, assimilando-o: essa ação assimiladora transforma o objeto. O objeto, ao ser assimilado, resiste aos instru- mentos de assimilação de que o sujeito dispõe no momento. Por isso, o sujeito reage refazendo esses instrumentos ou construindo novos instrumentos, mais poderosos, com os quais se torna capaz de assimilar, isto é, de transformar objetos cada vez mais complexos. 113 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR Dando ênfase aos argumentos mencionados, em primeiro mo- mento o autor nos esclarece que apenas com a interação entre o homem e os objetos é que acontece o processo de assimilação e equilíbrio, tendo sua retenção de informações relacionada a aprendizagem anteriores, isso quer dizer que só apenas quando o educando sentarpara estudar, e ter na sua frente o material de estudos, e ele estiver disposto a seguir em frente é que este processo de aprendizagem acontecerá, pois será viável o mes- mo associar o material que está estudando com algo que ele já vivenciou antes, pode ser em sala de aula quando mais novo, ou até mesmo no seu dia a dia. Só aí, e partir daí que o estudando irá conseguir compreender o conteúdo oferecido para tais fins. Na segunda explanação, encontramos nas falas do autor uma ação entre o objeto, esta ação pode-se compreender de duas formas, ou o objeto será encarar uma nova tecnologia “o computador” sendo objeto desconhecido, e o mesmo passa a transformar este objeto desconheci- do em algo viável para seu benefício próprio. Ou este objeto pode ser considerado “o ambiente de estudos virtual”, também sendo um objeto desconhecido, no qual se aventura em buscar de encontrar as respos- tas necessárias para suprir suas necessidades. Ao mesmo tempo em que transforma este ambiente desconhecido como referência de saberes para alcançar suas metas. Ambos pensamentos nos remete na própria busca pelo conheci- mento, ou seja, sair da zona de conforto, correr atrás, encarar o desconhe- cido e fazer com que o “novo” o “objeto” passe a trazer algo de bom para o conhecimento e entendimento do educando. Para que todo o processo de ensino aprendizagem seja concreti- zado da melhor forma possível, deve haver mudanças, como nos esclare- ce Zanette et al.: Segundo ao autor: O processo de ensino-aprendizagem na EAD constitui-se em mu- danças didático-pedagógicas em uma modalidade com caracte- rísticas próprias, constituídas da temporalidade, da espacialidade e do uso sistemático das TICs. Além disso, incorpora a atuação docente em atribuições que se completam e diferenciam, com a participação de outros profissionais que integram as equipes mul- tidisciplinares. (ZANETTE; et al. 2016; p. 02) 114 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Contextualizando com a ideia citada pelo autor, este tipo de en- sino aprendizado possuem características atípicas, ou seja, que fogem de um padrão tradicional onde temos em mente, salas, carteiras, quadro e giz. Grande parte do processo educacional é realizado por meios de ins- trumentos tecnológicos, onde por sua vez o educando terá todo o con- teúdo ao seu tempo e disposição, ou seja, sem horário fixo e obrigatorie- dade da sua presença diária. Mesmo todo este processo sendo oriundo de tecnologia, as organizações de ensino superior oferecem suporte online e presencial nos seus polos, além de alguns estabelecimentos oferecerem aulas com uma equipe multidisciplinar. Este tipo de modalidade de ensino pode nos trazer conforto para aqueles que precisam estudar, mas não podem ficar exclusivamente por conta. Estas palavras exemplificam esta afirmação. A modalidade EAD como um caminho estratégico para realizar mudanças profundas na educação. É uma opção cada vez mais im- portante para aprender ao longo da vida, para a formação conti- nuada, para a aceleração profissional e conciliar estudo e trabalho. (MORAN; 2011; p. 53) Fica evidente que o processo de ensino e aprendizagem nesta modalidade de ensino, depende de vários fatores, tanto positivos quanto negativos que serão expostos a seguir. Pontos positivos do ensino aprendizado EAD: • Flexibilização dos horários de estudos: Os conteúdos ficam ane- xados em uma plataforma online e a disposição do educando 24 horas por dia. Ou seja, o aluno passa a adquirir o aprendizado no momento em que se sentir mais confortável. • Conciliação do trabalho x estudos: Ficando o conteúdo à dispo- sição do educando, o mesmo não precisará deixar de trabalhar para que possa estudar, dando assim facilidade e comodidade. • Vídeos aulas podem ser revistas: Em algum momento o outro o aluno ficará com dúvidas em relação a algum conteúdo ou atividade pro- posta pelo professor, e isso não se torna um problema, pois o aluno pode rever todo o conteúdo novamente. • Equipe a disposição: as instituições que oferecem este tipo en- sino oferecem dentro de sua plataforma alguns tipos de auxilio tanto pe- dagógico quanto financeiro. 115 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR Você pode enviar suas dúvidas no portal, logo após, um repre- sentante pedagógico ou financeiro entra em contato para esclarecer qualquer dúvida. • Comodidade: todo o processo de ensino aprendizagem ocorro no ambiente virtual, e o aluno pode acessar no sofá da própria casa, dei- tado em sua casa, ou estudo na mesa de estudos. No caso das instituições que oferecem o sistema semipresencial, os alunos se deslocam uma vez por semana para ter a aula presencial, e o restante do conteúdo fica disponibilizado online na plataforma. Pontos negativos: • Sem aparelhos específicos: Alunos que optem por este tipo modelo de ensino aprendizado tem de se prepara para tal, deve possuir computador, celular e internet de média ou alta qualidade, pois só através destes aparelhos que se podem ter o acesso as plataformas. Pessoas de baixa renda, que são atraídas pelos valores inferiores ao de uma instituição convencional, deve estar atento para que estes tipos de gastos extras caso não tenham nenhuma infraestrutura mínima exigida. Ou então, terão gastos com passagem e deslocamento caso opte por estudar nas salas de informática que as instituições oferecem para estudos. • Pouca socialização com demais alunos: Neste tipo de modalida- de de ensino, a pessoa tem somente o seu computador, o professor tutor, e o professor que desenvolveu o conteúdo. Não existe uma grande socialização entre as pessoas que optam por este tipo de ensino. Pode-se notar que existem mais pontos positivos do que pontos negativos, e isso é um excelente ponto a favor para o processo de ensino e aprendizagem no qual o educando se submetera a passar. Quanto mais confortável, e disposto, melhor será a capacidade de absorver todo o con- teúdo ministrado, tanto mediante as apostilas, quanto aos vídeos e aulas online ofertadas, e isso se torna satisfatório para o educando que dia após dia se torna mais capaz e preparado para enfrentar o mercado de trabalho para o qual está se capacitando. 2.3 Professor tutor As novas tecnologias EAD não podem ser banalizadas e serem julgadas como algo sem controle ao ponto em que o educando apenas re- 116 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 cebe algo pronto, pois este não é o propósito desta modalidade de ensino. A EAD serve de apoio aos educandos para que possam fazer o equilíbrio de suas necessidades pessoais com as plataformas de ensino e discussões que estão à disposição 24 horas por dia com a finalidade de trocar expe- riências, tirar suas dúvidas e acompanhar os todos os resultados obtidos ao decorrer do processo. Os cursos e graduações semipresenciais contam com profissional denominado tutor, que ajuda o educando a conciliar o conteúdo estudado com o dia-a-dia, experiencias, e ideias. CLEAR define o termo tutor: Pensar em novos modelos de educação a distância implica em pensar no papel do docente como um dos principais componen- tes no processo de aprender e ensinar. O papel do professor deu lugar ao tutor que é um organizador, dinamizador e orientador da construção do conhecimento do aluno e de sua aprendizagem. Os tutores são mediadores da aprendizagem que se constrói a partir da interação nos ambientes de ensino. Pode-se dizer que o papel principal do tutor na era digital é o de impulsionador e motivador, auxiliando o aluno desmotivado para que o mesmo possa atingir seus objetivos no curso, sendo orientado e apoiado nas dificulda- des. (CLEAR et al., p. 4) Esta prática de tutoria busca-se fazer a mediação entre os inte- ressados em adquirir conhecimento e as instituições e professores que desenvolvem os conteúdos oferecidos, as aulas e os materiais oferecidos para que possam aprender todo o conteúdo proposto e assim chegarsanitários, e “treinar” esses alunos e alunas para alcançarem a nota projetada, que em 2022 foi anunciada, hipoteticamente, como o fracasso ou o sucesso escolar. Muitos municípios foram alvos de aponta- mentos severos dos Tribunais de Contas. Indubitavelmente, o momento presencial na escola deveria focar nas habilidades socioemocionais, no espaço de escuta e da fala dos sen- 16 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 timentos, considerando aspectos humanos de nossa existência, em detri- mento aos algoritmos que poderão ser gerados a partir de conhecimentos tradicionais, não correspondentes em uma sociedade que fora totalmente modificada, e então, RESPIRAR e seguir em frente. A Resolução CNE/CP nº 2, de 10 de dezembro de 2020 instituiu Diretrizes Nacionais orientadoras para a implementação dos dispositivos da Lei nº 14.040, de 18 de agosto de 2020, que estabelece normas educa- cionais excepcionais a serem adotadas pelos sistemas de ensino, institui- ções e redes escolares, públicas, privadas, comunitárias e confessionais, durante o estado de calamidade reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020. E dentre elas consta da Seção II: Dos Direitos e Objetivos de Aprendizagem Art. 3º O cumprimento do disposto no caput do art. 2º desta Re- solução fica subordinado: I - na Educação Básica, ao processo educativo que visa ao atendi- mento dos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento previstos para cada etapa educacional, expressos nas competências previstas na BNCC e desdobradas nas propostas pedagógicas e nos currículos das instituições escolares ou redes de ensino, bem como nas pertinentes Diretrizes Curriculares e Operacionais Nacionais. E a própria BNCC (Base Nacional Comum Curricular), explicita- mente em suas competências, 8, 9 e 10, reconhece as habilidades socioemo- cionais como essenciais à formação dos alunos e alunas, conforme segue: 8. Autoconhecimento e autocuidado: Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo- se na di- versidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. 9. Empatia e cooperação: Exercitar a empatia, o diálogo, a resolu- ção de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promoven- do o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, suas identidades, suas culturas e suas potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. 10. Responsabilidade e cidadania: Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e de- terminação, tomando decisões com base em princípios éticos, de- mocráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. 17 2021: RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO NECROQUANTITATIVA O anúncio dessas avaliações externas feriu princípios básicos que estruturam a democracia brasileira, pois, evidentemente, após tanto so- frimento suportado pela Covid 19, os saberes tradicionais, principalmen- te na Educação Básica, foram afetados, e essas avaliações consideraram, tão somente, saberes linguísticos e matemáticos, visando ao financiamen- to da educação. GALEANO (2010) faz uma provocação bem-vinda ao século XXI: O passado é mudo? Ou continuamos surdos? E assevera: Os símbolos da prosperidade são símbolos da dependência. Rece- be-se a tecnologia moderna como no século passado se receberam as ferrovias, a serviço dos interesses estrangeiros que modela e re- modelam o estatuto colonial deste país. Ocorre conosco o mesmo que a um relógio que se atrasa e não é acertado, embora seus pon- teiros sigam caminhando para a frente, a diferença entre a hora que marca e a hora certa será crescente. Reitera-se : a diferença entre a hora que marca e a hora certa será crescente, assim como a redação da lei e a práxis ordenada, caminhando lamentavelmente à fabricação de números, contrapondo-se à formação integral do ser humano, e, sobretudo, desprezando o direito à vida, sinali- zando a educação “necroquantitativa”, com toda semântica neológica que se pode abstrair: não, dificilmente, as escolas públicas, neste momento pandêmico, alcançariam as metas projetadas, e sim, vidas foram coisifi- cadas, perdidas – para o capitalismo, e para a própria existência (morte). 2 MOVIMENTO NECROPOLÍTICO: A VERDADE DO OPRESSOR RESIDE NA CONSCIÊNCIA DO OPRIMIDO Não há como ampliar o debate sem antes haver a reflexão sob a ótica freiriana: Humanização e desumanização, dentro da história, num contexto real, concreto, objetivo, são possibilidades dos homens como seres inconclusos e conscientes de sua inconclusão. Mas, se ambas as possibilidades, só a primeira nos parece ser o que chamamos de vocação dos homens. Vocação negada, mas também afirmada na própria negação. Vocação negada na injustiça, na exploração, na opressão, na violência dos opressores. Mas afirmada no anseio de 18 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 liberdade, de justiça, de luta dos oprimidos, pela recuperação de sua humanidade roubada. (FREIRE, 1987) Em outros termos, um olhar atento aos resultados da pandemia demostra, ao contrário do que as vozes que ecoam pelo fim da escola, em que a matéria-prima é humana, genuinamente humana querem concluir, é o valor admirável e insubstituível da escola como instituição histórica, a qual permite aos que a ocupam colocar o mundo em xeque, entendê-lo, problematizá-lo e, possivelmente, imaginar e viver outros mundos para além do capital. Uma das sequelas principais provocadas pela pandemia, sobre- tudo naqueles envolvidos na educação, recai sobre a diferença entre os profissionais que atuam na educação pública e os que atuam na educação privada. Os submetidos às exigências de empresas aplicadas ao negócio educativo, a pandemia pode estar provocando um agravante ainda maior em função da necessidade de se adequar à demanda capital, consideran- do que toda a economia foi afetada, e muitos alunos e alunas migraram para a educação pública. As exigências intensificaram, diferentemente daqueles que trabalham na educação pública, que teve mais tempo para repensar e se adequar, bem como instrumentalizar as instituições para que o ensino-aprendizagem não parasse. A pandemia ressignificou a ex- periência do cronos, do tempo, e do mundo do trabalho. Esse efeito é muito semelhante ao que MASSCHELEIN e SI- MONS (2014) chamam de “suspensão”: na escola, enquanto forma esco- lar, o que vale fora da escola está suspenso para que a escola possa fazer as suas operações pedagógicas. Por isso mesmo, eles argumentam: A escola nasce simbolicamente quando ela fecha as suas portas, porque ela vive da separação, da suspensão do que vale socialmen- te. Nesse sentido, seria impossível pensar uma escola-casa ou uma escola em casa, pois justamente a escola nasce da separação da casa e das outras instituições sociais. Lembremos que a palavra escola tem na sua raiz etimológica uma palavra grega, skholé, que significa justamente “tempo livre”, no sentido de tempo liberado das exigências extraescolares. Nesse sentido, curiosa e paradoxal- mente, aqueles submetidos às pressões de instituições educativas privadas viram-se impedidos de experimentar um tempo escolar pelo mercado educativo escolar. 19 2021: RETORNO ÀS AULAS PRESENCIAIS A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO NECROQUANTITATIVA A reflexão se torna imprescindível para a compreensão do por- quê os estados e municípios mantiveram empenhados no retorno às aulas presenciais, em meados de 2021. Seria possível entender a imposição de grandes empresas do ensino privado no Brasil em aclamar este retorno presencial, por outro lado, foi possível vislumbrar esse retorno apoiado mesmo em estados em que o índice de mortalidade permanecia alto. Desde a publicidade das avaliações obrigatórias externas SAEB e SARESP foi possível identificar fatores de insurgência dessa necropolítica naa concluir seus objetivos. Diante a este contexto o tutor tem característi- cas essenciais, como, dominar os conteúdos, acompanhar e orientar seus educandos colocando em evidência os materiais didáticos em compara- ção com a realidade exercida oriunda de cada profissão. As funções dos tutores podem variar de acordo com as caracte- rísticas pela qual o foram contratados, existem dois tipos de profissionais denominados tutores que atuam no ensino superior; encontra-se na li- teratura o tutor presencial e o tutor a distância com suas características específicas como será mencionado por BRASIL. 117 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR 2.4 Tutor presencial Tendo como “obrigação” o tutor que atua na modalidade presencial é solicitado para atender os alunos que estão presentes nos polos de apoio presencial, cujo os horários são agendando antecipadamente e deve também: conhecer o projeto pedagógico do curso, o material didático e o conteúdo específico dos conteúdos sob sua responsabilidade, a fim de auxiliar os alunos no desenvolvimento de suas atividades indivi- duais e em grupo, fomentando o hábito da pesquisa, esclarecendo dúvidas em relação a conteúdos específicos, bem como ao uso das tecnologias disponíveis. Participa de momentos presenciais obriga- tórios, tais como avaliações, aulas práticas e laboratórios e estágios supervisionados, quando se aplicam. (BRASIL, 2007, p. 22). Diante ao exposto acima percebe-se que o tutor não atende por atender os alunos, ele deve estar ciente de todo um contexto que norteiam os cursos, a instituição que representa, além de ter toda dinâmica neces- sária que a profissão necessita. 2.5 Tutor a distância atua a partir da instituição mediando o processo pedagógico junto a estudantes, geograficamente distantes, e referenciados aos pó- los descentralizados de apoio presencial. Sua principal atribuição é o esclarecimento de dúvidas através fóruns de discussão pela Internet, pelo telefone, participação em videoconferências, entre outros, de acordo com o projeto pedagógico. (...) tem também a responsabilidade de promover espaços de construção coletiva de conhecimento, selecionar material de apoio e sustentação teó- rica aos conteúdos e, frequentemente, faz parte de suas atribui- ções participar dos processos avaliativos de ensino-aprendizagem (BRASIL, 2007, p. 21) Este tipo de tutoria como o próprio nome já diz, é realizado a distância, o tutor se encontra presente na instituição, ou seja, no polo, e tirar as dúvidas através da internet, ou pelo telefone. Uma das principais diferenças é que este tipo de tutor não participa efetivamente das avalia- ções, e nem dos estágios que vierem a surgir. 118 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Mas vale ressaltar que existe similaridade entre as duas modali- dades de tutoria, ambas fornecem suporte pedagógico, além de ter ciência do projeto político pedagógico dos cursos, e promover atividades de dis- cussões entre os educandos tanto na modalidade EAD quanto presencial. Obtendo as informações citadas acima, pode-se dizer que o tutor também é um professor, pois age de forma pedagógica como o mediar de todo um processo de ensino-aprendizagem, pois no momento solicitado o mesmo assume a docência, sendo responsável pelas inúmeras formas de transmitir informações referentes aos conteúdos propostos além de fa- zer intervenções quando as informações não parecem claras o suficiente para os educandos. Alonso expões sua opinião dizendo que: Se o tutor é quem acompanha o aluno, trabalha cotidianamente com ele, participa dos processos de avaliação das aprendizagens, do curso etc., conforme atribuição descrita há pouco, a pergunta é: no que essas atribuições são diferentes das docentes? (…) A discussão sobre o papel do docente na EaD, por conseguinte daquele que po- deria junto com ele desenvolver atividades de formação, seria essen- cial para a consolidação da modalidade (ALONSO, 2010, p. 1330). Pensando no exposto acima, nota-se que o autor enfatiza que o tutor poderia também desenvolver atividades pois é a pessoa mais pró- xima que os educandos tem entre os materiais didáticos e as telas do computador. É de conhecimento de todos que o tutor não é aquele que “monta” o curso e nem as atividades, pois se tratando de cursos de ensino superior a obrigatoriedade e que as atividades devem ser desenvolvidas por pessoas consideradas mestres, ou seja, que possuam formação de mestrado em determinado conteúdo. Não deixando de mencionar, o tutor, é uma pessoa que possui a escolaridade mínima de pós-graduação, ou seja, são pessoas formadas em cursos superiores que possuem especialização em alguma área. Além de ser especialista em algum assunto, o tutor deve ter viven- cia na aera o qual ministra os conteúdos, pois como citado anteriormente o tutor faz a aproximação de todo o conteúdo fornecido e a realidade vivida dia-a-dia naquela profissão pelo qual o educando está a estudar. Só assim os educandos terão em “mãos” a realidade do ambiente em que vão estudar, não tendo após a conclusão do curso decepções e situações ines- peradas que fujam da proposta de ensino na qual ele se submeteu. Vale 119 ENSINO À DISTÂNCIA: AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZADO COM O AUXÍLIO DO PROFESSOR TUTOR ressaltar que ao decorrer dos estágios obrigatórios estas realidades tam- bém podem ser alcançadas, porém geralmente no período final do curso onde o mesmo já bagagem suficiente para encarar o mercado de trabalho. 3 CONCLUSÃO Ao discorrer de todo o contexto exposto na estrutura deste tra- balho, conclui-se que desde da inserção das tecnologias no cotidiano do ser humano, o mesmo passou a ponderar seus malefícios e benéficos que chegaram juntos á tamanhas novidades tecnológicas. A vida ficou mais cômoda, as coisas ficaram mais fáceis e acessíveis, e não poderia repercu- tir de forma diferente quando se trata da educação. Várias transformações ao longo das décadas se passou a educa- ção brasileira, em busca de contribuir para que as pessoas pudessem se capacitar para fazer jus a boas qualificações profissionais e também para que possam conseguir ingressar no mercado de trabalho de maneira mais eficaz, e com isso as instituições particulares e públicas passaram a adotar a metodologia de ensino a distância, (EAD). Este tipo de modalidade de ensino contribuiu e contribui de forma significativa na vida das pessoas que necessitam estudar e não abrir mão do trabalho em que se encontra. De acordo com a crescente demanda e sem perder a qualidade de ensino, as instituições oferecem aos seus alunos, o professor, como visto ao decorrer de toda argumentação e contextualizando com os autores, o professor tutor é de suma importância para este tipo de modalidade de ensino, pois é o profissional mais próximo entre as páginas de livros e a realidade do mercado de trabalho no qual o aluno estará inserido assim que concluir todas as etapas do curso. Visando responder o que se expõe na introdução, concluo que as tecnologias assim como os professores tutores contribuem de maneira muito importante para as pessoas darem seus primeiros passos a cami- nho de um futuro melhor. A tecnologia passa a ser aliada das pessoas ao facilitar o acesso a conteúdos que se busca, e o professor tutor apresenta os passos para a realidade que lhes esperam. 120 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Leonardo R. et al FUCK, Rafael Schilling. NOVAS PERSPECTIVAS DA DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR: A IMPORTÂNCIA DA TUTORIA PRE- SENCIAL EM CURSO DE LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA. CINTED-UFRGS, NOVAS TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO, V. 14, n° 02, 2016. ALONSO, K. M. A EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR NO BRASIL E A EAD: DINÂMICAS E LUGARES. Educ. Soc. Campinas, v. 31; 2010. Disponível em: Acesso em: 05/01/2020. BECKER, Fernando. O que é Construtivismo? Série Idéias,n. 20. São Paulo: FDE, 1994. Disponível em: Acesso em: 29/12/2019. BRASIL. Decreto nº 2.494, de 10 de fevereiro de 1998. REGULAMENTA O ART. 80 DA LDB (LEI Nº 9.394/96). Brasília: Presidência da República. Disponível em: . Acesso em: 15/01/2020. BRASIL. REFERENCIAIS DE QUALIDADE PARA EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA. Brasília, 2007. Disponível em: Acesso em: 09/12/2019. CLER, Alessandro Hércules; et al. OS DESAFIOS DA EAD E O PAPEL DO TU- TOR. Revista do Núcleo de Pesquisa em Ensino e Tecnologia (NUPET) da UEMG. 1° edição. 2018. LDB, Lei de Diretrizes e Bases. 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OS DESAFIOS DA DOCÊNCIA E TUTORIA NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO OLHAR DO PROFESSOR. Criciúma; 2016. 123 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE Petrucia de Melo Andrade Mestranda em Educação http://lattes.cnpq.br/4790506370401422 petruciamelo@gmail.com RESUMO: O objetivo deste artigo é apresentar, sob a perspectiva dos principais gestores responsáveis pela formulação e coordenação de políticas públicas, como o protagonismo juvenil e o empreendedorismo podem contribuir para a empregabilidade de adoles- centes em situação de vulnerabilidade, especialmen- te aqueles privados de liberdade. O referencial teóri- co metodológico foi o Interacionismo Simbólico e a Teoria Fundamentada nos Dados. Entrevistou-se os principais gestores dos órgãos responsáveis pela im- plementação e execução das políticas públicas nessa área. Entre outros resultados, constata-se que ainda existe uma grande distorção no reconhecimento do adolescente como sujeito em desenvolvimento, sujeito de direitos e prioridade absoluta. Palavras-chave: Adolescência; Políticas públicas; Vul- nerabilidade social; Socioaprendizagem. 124 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 1 INTRODUÇÃO A aprendizagem profissional é objeto de diversas pesquisas que abordam diferentes perspectivas, como a oportunidade para adolescentes em situação de trabalho infantil, os obstáculos enfrentados pelos jovens na inserção no mercado de trabalho, a busca pelo primeiro emprego, o desenvolvimento local, a alternativa para adolescentes e jovens de classes populares, bem como a sua aplicação no cumprimento de medidas so- cioeducativas com restrição de liberdade. As estatísticas confirmam o que já é observado de maneira empí- rica, segundo o Levantamento Anual SINASE, dados referentes ao ano de 2017, indicam que existiam 24.803 (vinte e quatro mil, oitocentos e três) adolescentes e jovens entre 12 e 21 anos atendidos em estabelecimen- to educacional e semiliberdade, sendo 17.811 em medida de internação (71,8%), 2.160 em regime de semiliberdade (8,7%) e 4.832 em internação provisória (19,5%) em atendimento nas 484 unidades voltadas à restrição e privação de liberdade (internação, internação provisória e semiliberda- de) na data de 30 de novembro de 2017, além de 1.295 (hum mil duzentos e noventa e cinco) adolescentes em outras modalidades de atendimento (atendimento inicial - 937, internação sanção – 306, medida protetiva - 63), com um total geral de 26.109 (vinte e seis mil, cento e nove) adoles- centes e jovens incluídos no SINASE (BRASIL, 2019). A aprendizagem profissional vai além de ser uma norma exigida dos empregadores e fiscalizada pelo Estado. Ela também é compreendida como uma política pública para enfrentar o trabalho infantil, fortalecen- do o combate à entrada prematura de crianças e adolescentes no mercado de trabalho, especialmente em condições exploratórias e precárias, onde são vistos como mão de obra barata e submissa. As potencialidades dessa política possibilitam que os adolescentes que são vítimas do trabalho in- fantil tenham acesso à proteção das instituições formadoras e melhorem suas condições de vida, beneficiando também os membros de suas famí- lias (SÁ; SOUZA; CORREA, 2021). Diante dos desafios enfrentados para consolidar a aprendizagem profissional, é necessário estabelecer uma rede que incentive os empre- gadores a assumirem a responsabilidade e o compromisso de combater o trabalho infantil, oferecendo oportunidades de profissionalização e tra- balho protegido, com foco no desempenho da função social do trabalho e da iniciativa privada (SÁ; SOUZA; CORREA, 2021). 125 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE As mudanças nas áreas tecnológicas, empresariais e econômicas têm impacto direto no aumento do desemprego entre os jovens. Portan- to, é de extrema importância uma abordagem direcionada aos jovens, a fim de proporcionar-lhes a primeira oportunidade no mercado de tra- balho. É observado que muitos jovens que se inscrevem nos programas de adolescente aprendiz, amparados pela lei, passaram por situações de vulnerabilidade na infância, como falta de recursos financeiros, famílias disfuncionais e carência de educação básica (MORAES; RODRIGUES; SCATOLIN, 2020). Embora algumas empresas ofereçam a primeira oportunidade, muitas vezes não têm o objetivo real de treinar os adolescentes para o futuro, mas buscam benefícios, como mão de obra barata e reduções sig- nificativas nos impostos. Recomenda-se, portanto, que estudos futuros investiguem a permanência dos adolescentes nas empresas após o térmi- no do contrato de trabalho e analisem a contribuição das empresas para o desenvolvimento das habilidades dos adolescentes como trabalhadores (MORAES; RODRIGUES; SCATOLIN, 2020). O trabalho de adolescentes e jovens no Brasil tem sido objeto de questionamentos por diversos pesquisadores, devido ao fato de essa mo- dalidade ser direcionada principalmente aos filhos da classe operária, que são pressionados pelas dificuldades econômicas a ingressar precocemente no mercado de trabalho. Nesse contexto, a aprendizagem profissional surge como uma porta de entrada protegida, garantindo os direitos previstos na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, enquanto os filhos da elite têm a oportunidade de se dedicar aos estudos e seguir para o ensino superior sem a necessidade de trabalhar. (CASTRO, 2007). As alterações na legislação em relação à aprendizagem trouxeram avanços no aumento de oportunidades para os adolescentes e jovens par- ticipantes dos programas, mas reconhecem que, em uma sociedade capi- talista, onde os interesses do capital se sobrepõem a tudo, é fundamental o cumprimento da Lei 10.097/2000. Isso requer uma fiscalização contí-nua que garanta que a prática nas empresas realmente contribua para o processo de formação dos jovens aprendizes (CASTRO, 2007). A Lei nº 10.097, promulgada em 19 de dezembro de 2000, teve como objetivo assegurar o direito constitucional à profissionalização para adolescentes, oferecendo um ambiente protegido de trabalho. Essa medi- da estabeleceu cotas obrigatórias para empresas de médio e grande porte, sejam elas privadas ou públicas. Os requisitos para a contratação de jovens 126 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 estão delineados nos incisos I, II e III do parágrafo 3º do Art. 227, os quais estabelecem a idade mínima de quatorze anos para admissão, a garantia de direitos previdenciários e trabalhistas, bem como o acesso à educação. Essa legislação, popularmente conhecida como Lei da Apren- dizagem, estabelece regras específicas para o tipo de relação de traba- lho denominado “contrato especial”. Nesse tipo de contrato, o aspecto formativo tem maior importância em relação ao objetivo de produ- ção presente nos contratos regulares. O programa pedagógico da Lei da Aprendizagem baseia-se no desenvolvimento integral do aprendiz, combinando atividades teóricas e vivências práticas que visam prepará- -lo para uma ocupação plena. No contexto internacional, as medidas socioeducativas estão in- seridas na Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (CDC), adotada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de novembro de 1989. Essa convenção foi ratificada por 196 países, incluindo o Brasil em 24 de setembro de 1990. Além disso, as Regras Mínimas das Nações Uni- das para a Administração da Justiça de Jovens, também conhecidas como Regras de Beijing, adotadas em 1985, são consideradas diretrizes inter- nacionais no âmbito das medidas socioeducativas e são reconhecidas no mercado de trabalho formal. Tais disposições legais e diretrizes internacionais têm como ob- jetivo fornecer um arcabouço jurídico e pedagógico para garantir a in- serção adequada de adolescentes no mundo do trabalho, oferecendo-lhes oportunidades de desenvolvimento e formação profissional, ao mesmo tempo em que protegem seus direitos e promovem seu acesso à educação. Essas iniciativas visam a construção de uma sociedade mais justa, na qual os jovens possam se tornar cidadãos produtivos e plenamente integrados na vida social e profissional. Diante dessas discussões, registra-se que a aprendizagem profis- sional vai além de uma norma exigida aos empregadores e fiscalizada pelo Estado. Ela deve se articular com o aprendizado de outros saberes, com a necessidade de mercado e com as formas mais objetivas de inserção no mercado de trabalho. O que se percebe é que a empregabilidade do adoles- cente em situação de vulnerabilidade depende de outras questões como seu próprio protagonismo na formação e o empreendedorismo necessário para atender objetivamente ao que o mercado de trabalho contrata. Por essa condição, o objetivo desse artigo é apresentar, sob a ótica dos principais gestores dos órgãos responsáveis pela construção e articu- 127 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE lação das políticas públicas, como o protagonismo e o empreendedoris- mo podem contribuir para a empregabilidade dos adolescentes em situa- ção de vulnerabilidade, principalmente os privados de liberdade. 2 METODOLOGIA Realizou-se uma pesquisa social qualitativa com foco em polí- tica da aprendizagem profissional, utilizando o Interacionismo Simbó- lico como referencial teórico, pois essa abordagem está alinhada com a proposta do estudo, uma vez que a abordagem dessa política pública é permeada pelo discurso de diferentes atores sobre uma mesma realidade, que está repleto de significados técnicos, sociais e culturais, os quais se modificam e constroem novos conceitos durante esse contato (Figura 1) (CARVALHO; BORGES; REGO, 2010). Figura 1 – Interacionismo Simbólico Fonte: Adaptado Queiróz, 2015. Metodologicamente, o estudo adota a perspectiva da Teoria Fun- damentada nos Dados (TFD), um método que permite a conceitualiza- ção e a construção de teorias sobre uma determinada realidade, por meio da interação sistemática do pesquisador com os dados coletados. Essa abordagem possibilita iniciar com uma área de estudo e desenvolver a teoria com base nos dados emergentes do fenômeno investigado. Espe- cificamente, nesta pesquisa, a TFD adotada assume pressupostos cons- trutivistas, entendendo que a teoria que emerge é resultado da interação 128 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 colaborativa entre o pesquisador e os entrevistados (STRAUSS; CORBIN, 2008; CLARKE, 2005; POPART, 2010). Na busca por representar de forma abrangente as diferentes rea- lidades do fenômeno estudado, a pesquisa tem como contexto os órgãos responsáveis pela articulação de políticas públicas relacionadas à apren- dizagem profissional de adolescentes. Os participantes desta pesquisa foram os principais gestores que representam esses órgãos, os quais possuem uma peculiar conexão com a gestão e elaboração das políticas públicas voltadas para o apoio à forma- ção profissional de adolescentes privados de liberdade. As entrevistas foram utilizadas como método de coleta de dados, sendo previamente autorizadas e gravadas em formato presencial e digi- tal. Para a análise, foram seguidas as etapas propostas pela Teoria Funda- mentada nos Dados. Dessa forma, os dados foram codificados (aberta e axial) e posteriormente construiu-se a trama de teoria emergente durante o processo de tratamento dos dados. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO O protagonismo juvenil como abordagem pedagógica estimula o processo gradativo do autoconhecimento, na construção da autoimagem do adolescente, tendo como mola propulsora a iniciativa, seus próprios interesses e seu compromisso social, se perceber como o ator principal na construção do seu Projeto de Vida, buscando um papel ativo e colabora- tivo na família, escola e comunidade (Figura 2). Figura 2 – Protagonismo juvenil na aprendizagem Fonte: Dados da pesquisa, 2023. 129 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE A fala abaixo, sintetiza em parte o conceito apresentado por essa definição: “Sim... esse é um dos principais pontos do novo ensino médio né... promover o protagonismo do adolescente, esse protagonismo seja pelo processo de escolha, pela proposição em termos também de unidades curriculares dentro da escola... as 27 unidades federati- vas ofertam, a unidade curricular projeto de vida que trabalham em três grandes dimensões no processo de é auto reflexão, de au- toconhecimento, e planejamento futuro”. E01.E Estimular o desenvolvimento das competências socioemocio- nais para o século XXI e oferecer suporte para a construção e viabili- zação do Projeto de Vida dos estudantes é um eixo central do projeto pedagógico do NEM. “Então é um processo de vida né... Com potencialidades de ela- borar em conjunto né... com os seus amigos de classe, com seus professores é... justamente o seu trajeto longo do ensino médio e pós ensino médio... Esse é um dos principais aspectos do novo en- sino médio, é um processo de escuta ativa dos jovens sobre o que ele deseja, sobre o que ele quer com a integração do que é ofertado com o ambiente no qual a escola está inserida e um alinhamento de escolha dele conforme o projeto de vida dele” E01.E Poder refletir sobre seus interesses, suas necessidades pedagógicas e sobre o seu planejamento futuro, motivou os alunos. A escuta ativa dos adolescentes fortalece e contempla o protagonismo juvenil na interação do ambiente escolar com o alinhamento de escolha do projeto de vida dele. “Temos de um índice de aceitação muito significativo entre os ado- lescentes, pela primeira vez eles podem escolher parte da carga horária, escolhendo parte da carga horária conforme o seu perfil, conforme seu interesse, conforme sua necessidade pedagógica e tambémconforme né... a orientação é do seu projeto de vida” E01.E O NEM acredita no potencial protagonista de seus alunos tendo um papel preponderante no desenvolvimento positivo no desenvolvi- mento prático do protagonismo juvenil dentro da escola, o que dá sen- tido aos alunos em razão deles se sentirem parte integrante do processo. 130 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 “a aprendizagem muitas vezes ela não faz sentido para o adoles- cente, eu vejo isso quando a gente está falando com eles... e eles não estão entendendo o que que eles vão fazer.” E02.T Para a sociedade brasileira, “o trabalho se afirma como um valor cultural e simbólico” (MARTINS, 1997, p. 98), um valor moral: de ca- racterização da honestidade e bom caráter. Poderia ser esse modelo de representação social do trabalho que explicaria a crescente demanda de adolescentes e de crianças no mundo do trabalho? Para dar uma resposta assertiva, será importante ouvir do próprio adolescente, sobre o sentido do trabalho para ele. “Nós nunca vamos alcançar tudo o que esse adolescente deseja, até porque... por ser um sujeito em desenvolvimento... Por isso que existe adultos desenhando a política pública, mas acho que a gente precisa escutar os adolescentes.” E03.A Fortalecer a implementação dos Comitês de Participação do Adolescente - CPA nos estados e municípios, potencializando o prota- gonismo juvenil dos adolescentes com uma participação qualificada para contribuir na formulação de políticas públicas de crianças e adolescentes como um direito já assegurado. “É fundamental, para o Conanda está cada vez mais claro que não dá para fazer política para o adolescente sem a participação deles.” E04.C Em geral os cursos não respondem aos anseios dos adolescentes, sendo necessário diversificar as ofertas dos cursos em diálogo com os interesses dos adolescentes. “a gente tem que ouvir deles como é que eles enxergam o mun- do do trabalho hoje, com o que é que eles sonham a gente está num momento de transição de profissões... que estão deixando de existir e várias outras profissões que estão surgindo... Hoje eles querem ser produtores de conteúdo digital...o querem ser influen- ciadores digitais que é uma coisa que a gente trata com dificuldade de saber o que é, mas eles estão com isso em mira.” E06.S 131 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE O exercício do controle social por meio da sociedade civil através da participação de instâncias colegiada, atuam na gestão pública. Quanto à função fiscalizadora, os conselhos cumprem o papel de acompanha- mento e controle dos atos praticados pelos gestores, bem como o MP. “Conanda é mais nesse sentido de diretrizes, é genérica para o Brasil todo... e a nota foi no sentido de que sim que é possível a in- tegração com o quinto itinerário formativo... Alguns estados têm resolução do conselho estadual e do conselho nacional de educa- ção, alguns estados tem resolução do conselho estadual, porém ainda há uma dificuldade de se fazer essa integração.”. E02.T Embora haja um reconhecimento da importância dos Conse- lhos, é notória a fragilidade dos Conselhos de Direitos e do Conselho de educação no acompanhamento e controle das políticas públicas. As falas apontam para a necessidade de maior fiscalização sistemática pelos órgãos competente, ações eventuais precariza o acompanhamento e con- trole da política da aprendizagem profissional “...Então a gente busca as entidades formadoras, os parceiros... a gente eventualmente provoca secretarias estaduais e municipais de educação é... mas isso não é uma coisa sistematizada... varia de acordo com a realidade de cada um. O grau de articulação que a pessoa tem com o Ministério do trabalho vai ter naquela localida- de naquele estado.” E02.T As diretrizes do Art. 66, Decreto do nº 9.579/2018 trazia a opção para as empresas com dificuldade de cumprir com a obrigação de contra- tação mínima da Lei da Aprendizagem, possibilitava o cumprimento de cotas alternativas em setores econômicos específicos, perante assinatura de termo de compromisso, afirmado com agentes da fiscalização do tra- balho. Essa normativa foi alterada pelo Decreto n. 11.061/2022, ainda em vigor, que dispensa a necessidade da Inspeção do Trabalho e fragiliza as ações de fiscalização pelos auditores fiscais do MPT. “A empresa sempre preferiu contratar o adulto aprendiz, o jovem aprendiz acima de 18 anos, porque tem mais autonomia mais ma- turidade, não tem as restrições do trabalho protetivo, ou seja, pode trabalhar à noite, pode trabalhar em horário noturno ou pode tra- balhar atividades perigosas insalubres né...” E02.T 132 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Assegurar a participação de crianças e adolescentes nos conse- lhos de direitos da criança e do adolescente através do Comitê de Parti- cipação do Adolescente. “... participarem das decisões que lhes digam res- peito de acordo com a sua idade e maturidade nos processos de formulação, deliberação, monitoramento e avaliação das políticas públicas” (Resolução nº 191/2017 Conanda) “...a oitiva dos adolescentes é importante, mas como que se ouve os adolescentes hoje no nosso país? Porque os Comitês de parti- cipação de adolescentes – CPA dos conselhos municipais elas não estão formadas, não são estruturadas (nem os Comitês estaduais) então como é que se ouve então esses adolescentes?” E02.T A importância dos conselhos de direitos e de seguimentos afins, desenvolverem diretrizes, normativas, resoluções e orientações técnicas em conjunto, com objetivo de fortalecer as políticas públicas da aprendi- zagem profissional, e como as políticas públicas poderão ser desenvolvi- das nos estados e municípios da federação, assegurando o eixo de Con- trole social que integra as premissas do Sistema de Garantias de Direitos da Criança e do Adolescente – SGDCA. “Os Conselhos tem papel fundamental no desenvolvimento da política pública de referência. O Conanda e o CNAS têm papel fundamental na elaboração das diretrizes.” E05.F A importância dos auditores fiscais no monitoramento e fiscali- zação no cumprimento das cotas para inclusão produtiva dos adolescen- tes ao mundo do trabalho, é ressaltada pelos entrevistados dessa pesquisa. “Sucesso da inserção depende muito dos auditores fiscais, foram e são os grandes anjos da aprendizagem nos últimos anos”. E05.F Necessidade de desenvolver formação continuada para os mem- bros que integram os conselhos, tanto dos membros governamentais, quanto os membros não governamentais. Os conselhos tem o papel pre- ponderante de fiscalizar e buscar a integração e articulação dos conselhos estaduais, distrital e municipais e conselhos tutelares, fortalecendo a efe- tividade das políticas públicas afins. 133 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE “O Conselho precisa saber o que a política socioeducativa de fato tem que garantir e prover aos adolescentes, qual é a responsabili- dade da política de atendimento socioeducativo”. E06.S Percebe-se que há uma crítica aos órgãos de controle social foca- do nos conselhos de direitos, sugerindo um avanço na possibilidade de corresponsabilizar o executivo pela precariedade das políticas públicas, utilizando a Lei nº 13.431 de 2017, como violência institucional. E a ne- cessidade de fiscalização da política de atendimento socioeducativo, para identificar o que de fato são realizados nas unidades socioeducativas. “...é preciso os Concelhos avancem muito nessa apropriação, na adoção de ações que de fato vinculem o executivo a esse trabalho transversal, que responsabilizem a assistência social pelo adoles- cente em cumprimento de medida em meio aberto, responsabilize a educação pela precarização do ensino, incluindo da aprendiza- gem profissional.” E06.S O alcance da inserção no mundo do trabalho traz em si a pers- pectiva da autonomia produzidas no ambiente de trabalho, ressaltando os aspectossubjetivos que inscreve o adolescente no campo das relações social com recorte de satisfação e honra. Quando um adolescente tem a oportunidade de participar ativamente do ambiente de trabalho, ele pode adquirir habilidades práticas e conhecimentos específicos, mas também experimenta um crescimento pessoal profundo. Ao se envolver em ati- vidades laborais significativas, o jovem adquire um senso de propósito e responsabilidade, fortalecendo sua confiança em si mesmo. “Relatos do orgulho que as famílias sentem ao ver o adolescente daquela família, pela forma que se vestia para poder ir para o local de estágio de trabalho... Mudança do vocabulário desses adoles- centes no sentido daquele convívio, num ambiente mais formal, do quanto mudou a própria convivência familiar a partir da con- vivência comunitária.” E03.A Muitos relatos de êxito nessa transição estão relacionados ao empreendedorismo. Ele, por contingência aparece como possibilidade à exclusão social e falta de oportunidades pelo déficit de escolaridade, para um determinado grupo de pessoas por questões, socioeconômicas, esco- laridade, para ter uma fonte trabalho e renda. 134 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Figura 3 – Empreendedorismo como oportunidade para o adolescente que NEM estuda e NEM trabalha. Fonte: Dados da pesquisa, 2023 Hoje tem-se a educação como pilar para inclusão produtiva, po- rém, mas não dá para negar que existe um grupo de adolescentes, espe- cialmente em cumprimento de medida socioeducativa que necessita de políticas alternativas, sem, contudo, abrir mão da educação, essencial ao desenvolvimento intelectual. “Existe uma parte de adolescentes que não tem interesse nesse tipo de profissão... trabalhar dentro da empresa no mundo corporati- vo, esse grupo de adolescente precisa de outras formas de fomento ao empreendedorismo, na atuação cultural e outras áreas.” E04.C Existe a possibilidade de flexibilizar critérios metodológicos na política da aprendizagem, quanto a oferta de formação para o empreen- dedorismo, essas discussões ainda encontram algumas resistências, mas a situação apontada pela pesquisa do Sesi/Sanai (2023). Convoca os ato- res de defesa dos direitos da criança e do adolescente a ciar alternativas viáveis, para mitigar a situação dos adolescentes que nem estudam e nem estudam, alcunhados de Nem, Nem. “Felizmente já se tem discutido nos programas de atendimento so- cioeducativo essa questão, é claro que tem o outro lado da moeda da precarização do trabalho, o Brasil é um país do empreendedor por contingência, não necessariamente a pessoa tem um espírito empreendedor.” E06.S 135 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE O Empreendedorismo tem sido pensado como uma alternativa de acesso ao mundo do de trabalho. Para atender as demandas e mudanças progressivas na vida pessoal e no mundo do trabalho, a política da apren- dizagem profissional, e as instituições afins tornam-se corresponsáveis para formar pessoas preparadas para dar conta de lidar com todas essas impre- visibilidades, constantes em tempos líquidos (BAUMANN, 2005). A educação nesse contexto precisa ser pensada de forma a pro- porcionar uma aprendizagem significativa. Relatório do GEM (2015), destaca que a principal deficiência para praticamente todos os países par- ticipantes do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), varia de acordo com o nível de educação empreendedora no ensino fundamental e médio. “A gente sabe que é preciso ter um pendor para o empreendedoris- mo, não é assim, mas ela empreende por contingência, porque ela não conseguiu outra alternativa, mas em contrapartida nós tam- bém temos que ter em vista a pluralidade a potência dos adoles- centes... “contemplar também essa construção cidadã do trabalho por outras vias que não passem necessariamente pela formalidade. Não é obrigar ou induzir o adolescente a ser um empreendedor por contingência, mas identificar aquele adolescente que tem uma veia empreendedora e qualificá-lo para empreender,”. E06.S Elaborar um desenho de uma metodologia específica para o so- cioeducando ter a possibilidade de empreender, representada pela forma- ção profissional, poderá ser um caminho, para que esse número de Nem Nem e outros adolescentes, possam empreender com preparo e orienta- ção profissional adequados. Trazer essa discussão e elaborar critérios e metodologia para al- cançar os vulneráveis, como alternativa de inserção no mundo do traba- lho é necessário, porque não trabalhar é retornar a infracionalidade. “o adolescente a despeito do seu um indivíduo que vem de um subs- trato de muitas vulnerabilidades, a gente pode ter ali um empreen- dedor. E a outra questão é que nós tenhamos uma flexibilização de critérios (eu não gosto muito de chamar de flexibilização).” E06.S O lobby político tem sido exercido por alguns setores empresa- riais, para influenciar nos espaços decisórios do poder público, atuando tanto no executivo quanto no legislativo, sendo mais frequente nesse últi- mo setor mencionado, visando para atender seus interesses. 136 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 “...existem as pessoas querem protagonismo, outras querem fazer as mudanças, as empresas estão insatisfeitos com aprendizagem profissional, com essa política pública e eles realmente tencionam, as empresas tencionam. Alguns segmentos econômicos tencio- nam com mais intensidade a aprendizagem profissional, o tempo inteiro no Congresso e também perante o governo.” E02.T Estatuto do aprendiz em tramitação desde o ano de 2019, sua aprovação na Câmara dos deputados, vem sedo postergada como resul- tado do Lobby político, a última vez que entro em pauta foi em março de 2023. No entanto foi retirado de pauta com aprovação do “Requerimento de Retirada de Pauta. Sim: 12; Não: 11; Abstenção: 0; e Quórum de Vota- ção: 23. Obstrução: 0; e Total de Votantes: 23” “...Hoje quem resiste ao avanço da política para aprendizagem é o empresariado. Eles organizam, financiam e fomentam que a polí- tica não avance né... barra o projeto na Câmara etc... Então acho que essa concepção é que tinha de mudar.” E04.C Ainda existe uma grande distorção no reconhecimento do ado- lescente como sujeito em desenvolvimento, sujeito de direitos e priorida- de absoluta. (art. 227 da CF/1988) O Lobby se apresenta forte, mas tem acontecido decisões favorá- veis à aprendizagem profissional. O entendimento do TST e TSE no recente julgamento nº 1.046, vedou a flexibilização da cota de aprendizagem em acordos coletivos. Portanto é essencial a sensibilização para que empresas contratantes, compreendam sua responsabilidade social, ofertando oportunidade ao adolescente aprendiz. “...a aprendizagem é uma política antiga. Que eu digo sempre mui- to resiliente, porque ela já enfrentou várias lutas ao longo destes anos justamente por essa ignorância que cria narrativas distantes da realidade. Já tivemos ação no STF para combate-la, vários de- cretos, portarias, medidas provisórias e... é... Ignoravam essa arti- culação dela com a educação com assistência social ou que tinha um olhar é... único e exclusivo para uma área egocentristas” E04.F 137 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise das políticas públicas de aprendizagem pro- fissional voltadas para adolescentes em situação de vulnerabilidade so- cial, é possível observar que a implementação dessas políticas tem sido bastante desigual e pouco efetiva em muitos municípios do país, é im- portante ressaltar que ainda há muitos desafios a serem superados na gestão de políticas públicas. Dentre os pontos que merecem destaques incluem: a falta de in- vestimentos adequados na educação básica, que comprometem a quali- dade do ensino oferecido e também compromete a redução das desigual- dades educacionais e distorção idade série; a fragilidade das políticas de formação de professores,em especial no que se refere à formação voltada para o sistema socioeducativo; necessidade de uma política pública mais eficiente na economicidade dos recursos destinados à educação profis- sional, com o objetivo de promover a equidade e a justiça social; difi- culdades na mobilização e articulação de atores locais, falta de recursos financeiros para a incremento da socioaprendizagem, baixa qualificação dos gestores, entre outros desafios. Dados apresentados por variados institutos, trazem inquietações le- gitimas que carecem de uma força tarefa para mitigar a situação. O Brasil está com 35,9% de pessoas na faixa etária entre 18 e 24 anos que nem trabalham e nem estudam, é o segundo país do mundo no ranking dos países pesquisados pela OCDE (2022), perdendo apena para a África do Sul. Esses números não são alvissareiros. Assim como os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua da Educação de 2022, divulgados pelo IBGE. Os números mostram que um (01) em cada cinco (05) brasileiros entre 15 e 29 anos estão fora da sala de aula e do mercado de trabalho. Esses dados são alarmantes e mostram a vulnerabilidade da ado- lescência no acesso ao mundo do trabalho e no acesso à educação no cenário brasileiro. É preciso que políticas públicas sejam criadas para ga- rantir o direito a aprendizagem profissional e à educação. Além disso, é importante ressaltar que a falta de acesso à educa- ção de qualidade e oportunidades de trabalho para os adolescentes, tam- bém poderá afetar negativamente o desenvolvimento econômico do país. No contexto atual, é fundamental encontrar um equilíbrio entre a formação empreendedora e a educação tradicional, a fim de proporcio- nar aos adolescentes uma socio-aprendizagem de qualidade. Isso permi- 138 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 tirá capacitá-los tanto para o empreendedorismo quanto para o desenvol- vimento de competências socioemocionais e profissionais. Uma pesquisa realizada pelo Sebrae em parceria com a FGV em 2020 revelou que entre os 7.403 empresários entrevistados, aqueles que possuíam formação até o Ensino Médio ou menos encontravam maior dificuldade em manter suas empresas operando de forma digital. Esse re- sultado evidencia que a falta de qualificação e conhecimento pode repre- sentar um obstáculo significativo para os empreendedores que buscam se manter competitivos em um mercado cada vez mais digitalizado. Nesse contexto, a educação desempenha um papel fundamental como ferramenta para capacitar os futuros empreendedores. É necessá- rio trabalhar habilidades eficientes e necessárias, buscando os recursos e oportunidades disponíveis para a qualificação profissional. Investir na formação adequada torna-se crucial para o sucesso do empreendedor. É imprescindível que as instituições de ensino e organizações re- lacionadas promovam programas educacionais voltados para o empreen- dedorismo. Esses programas devem abordar aspectos teóricos e práticos, fornecendo conhecimentos sobre gestão, marketing, finanças e inovação, além de desenvolver competências socioemocionais, como liderança, re- siliência e trabalho em equipe. Ao investir na educação empreendedora, estamos proporcionan- do aos jovens não apenas a oportunidade de adquirir conhecimentos prá- ticos e teóricos, mas também capacitando-os a enfrentar os desafios do mundo dos negócios. Com uma base sólida de formação empreendedora, eles estarão mais preparados para inovar, empreender e contribuir para o desenvolvimento econômico e social de suas comunidades. Para reverter a realidade negativa que é encontrada, é necessária uma aliança dos três setores: governo, setor privado e a sociedade civil, tra- balhando de forma integrada e articulada para investir em políticas públi- cas que ofereçam acesso à educação de qualidade, programa de estágio e aprendizagem profissional, com incentivos para a criação de novas vagas no mercado de trabalho aos adolescentes em situação de vulnerabilidade. Essa é uma medida a fim de criar um ambiente propício para o empreende- dorismo juvenil. Essas parcerias podem oferecer mentoria, estágios, acesso a recursos financeiros e networking, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades e o crescimento dos adolescentes como empreendedores. Portanto, é crucial reconhecer a importância de investir em pro- gramas de educação socioemocional como parte das políticas públicas 139 PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO PARA ADOLESCENTES PRIVADOS DE LIBERDADE voltadas para crianças e adolescentes. Esses programas desempenham um papel fundamental no resgate da autoestima desses jovens, oferecen- do-lhes esperança e uma perspectiva de um futuro melhor. A falta de oportunidades e a desigualdade social representam de- safios significativos para a sociedade brasileira. Sem uma mudança signi- ficativa nesse cenário, corremos o risco de entrar em um ciclo vicioso de desigualdade e pobreza, comprometendo o futuro de toda uma geração e impedindo o país de alcançar seu pleno potencial de desenvolvimento. REFERÊNCIAS BRASIL, Programas do SINASE, Eixo 03. Levantamento Anual do Sistema de Atendimento Socioeducativo (SINASE) 2020 Disponível em: https://www.gov. br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/crianca-e-adolescente/SINASE_EIXO03.pdf BRASIL. 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O Olodum foi criado por jovens negros que se sentiam discrimina- dos no carnaval de Salvador e embora não tivessem no momento de fundação a consciência política, nasceu com o único e exclusivo propósito de brincar o carna- val. E Lélia com isso? O texto é feito um paralelo pau- tando as atividades do Olodum com alguns conceitos e terminologias propostas por Gonzales. Palavras-chave: Lélia Gonzales; Olodum; Pedagogia Olodum. 142 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 “Aguce a consciência Negra cor, negra cor Extirpar o mal que nos rodeia Se defender A arma é musical”1 Buscando informações sobre Lélia Gonzales na internet, me de- paro com vários sites que afirmam que ela ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Bloco Afro Olodum2. Seria uma honra, mas como se diz… só que não! Até eu que conheço tanto da história do Olodum, fiquei intri- gada e perguntei à diretoria se era fato ou fake, ou se ao menos houve alguma influência. O Olodum nasceu em 1979, um ano e dois meses depois da fun- dação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial - MNUCDR, que Lélia fez parte do grupo de fundadores e, portanto, ba- 1 Música “Berimbau” composta por Pierre Onassis, Germano Meneghel e Marqui- nhos Marques. CD Música Do Olodum - 20 Anos. 1999 Sony Music Entertain- ment (Brasil). Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SILVA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Funda- ção Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag 296 https://www.youtube.com/ watch?v=9QwMGzvQmTw 2 Alguns sites que dizem que Lélia ajudou a criar o Olodum e até a colocam como fundadora. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lélia_Gonzalez - http://lelia.unb. br/index.php?option=com_content&view=article&id=32&Itemid=764 - ht- tps://ceert.org.br/noticias/historia-cultura-arte/43873/lelia-gonzalez-e-home- nageada-em-grafite-gigante-no-centro-de-sao-paulo - https://ipeafro.org. br/5403-2/ - https://observatorio3setor.org.br/noticias/filha-de-negro-e-indi- gena-ela-lutou-contra-o-preconceito-no-brasil/ - https://www.facebook.com/ muitaspsi/posts/218905045588049/ - https://feminismo.org.br/20-anos-sem- -lelia-gonzalez/3137/ - https://www.camara.leg.br/internet/sitaqweb/TextoHT- ML.asp?etapa=3&nuSessao=183.4.55.O&nuQuarto=3&nuOrador=3&nuIn- sercao=0&dtHorarioQuarto=11:40&sgFaseSessao=BC%20%20%20%20%20%20 %20%20&Data=11/07/2018&txApelido=BENEDITA%20DA%20SILVA&txFase- Sessao=Breves%20Comunicações%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20 &dtHoraQuarto=11:40&txEtapa=Com%20redação%20final. Pesquisa realizada em 21/07/2021 e https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/01/05/trabalharemos- -juntas-para-ampliar-diversidade-diz-anielle-franco-em-posse-de-tebet-no-plane- jamento.ghtml, pesquisa realizada em 06/01/2023. 143 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? sicamente no mesmo momento de toda efervescência e ebulição social, cultural, econômica e política. Diferente do MNUCDR que foi fundado para resistência e luta por pautas que fossem em direção ao fim da dis- criminação racial, o Olodum, embora tenha sido criado por jovens ne- gros que se sentiam discriminados socialmente no carnaval de Salvador, embora não tivessem no momento a consciência política, nasceu com o único e exclusivo propósito de brincar o carnaval. E Lélia com isso? Bom, com sua mudança de trajetória, tor- nando-se uma instituição mais abrangente a partir de 1983, o Olodum passou a ser caracterizado como um terreiro, um território de resistên- cia e de potentes reflexões, de uma educação sócio, política e cultural de corpo presente no movimento negro brasileiro e, portanto, podemos pautar algumas atividades do Olodum a partir de alguns conceitos pro- postos por Lélia Gonzales. Lélia Gonzalez (1935-1994) é uma mulher, uma ativista e inte- lectual que denunciou o racismo e o sexismo como formas de violência que subalternizam as mulheres negras e nos legou vários dos temas que ainda agitam as reivindicações políticas brasileiras. Como já dito, foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado contra Discriminação e o Racismo (MNUCDR), em 1978, atualmente denominado Movimento Negro Unificado (MNU) e integrou a assessoria política do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN). Sua militância trouxe reflexões sobre a realidade com base em atributos condicionados por cor, sexo e condição de classe social. Uma grande pensadora que pregava a importância do conhecimento das raízes africanas para a conscientização do povo negro. Lélia esteve em Salvador no ano de 1978, trazida pelo prefeito da época, Edivaldo Brito, único prefeito negro de Salvador, para uma se- mana de palestras. A situação do negro na Bahia e no Brasil é vista por Lélia Gonzalez como um problema a se resolver, porque a tão falada “de- mocracia racial” não passa de um mito. Continuando, ela disse que em termos de país e em particular a Bahia tem mais possibilidades de no futuro conquistar essa democracia, caso não prevaleça essa mentalidade de discriminação racial.3 A criação do Olodum se deu um ano depois da ida de Lélia Gon- zales e Abdias do Nascimento a Salvador. Assim, o contato dos ativistas baianos com estas figuras marcantes e os debates emergentes na socieda- 3 Diário de Notícias, 4/5/1978, p. 3. 144 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 de brasileira sobre as relações raciais existentes contribuíram na articula- ção de um debate mais político, que articulassem à questão cultural. Foi pouco tempo de caminhos cruzados. Quando Lélia nos dei- xou, o Olodum estava com 15 anos, sendo que há apenas 11 tinha mu- dado sua conduta institucional e passado a adotar uma atuação expli- citamente política. Entre 1983 e 1994, foram anos muito efervescentes para o movimento negro contemporâneo, para a produção intelectual de Lélia Gonzales e para o Olodum, enquanto movimento social, cultu- ral, musical e político. No que pese não ter contribuído com o processo de criação do Bloco Afro Olodum, Lélia Gonzales, junto com Abdias Nascimento e Joel Rufino dos Santos serviram como fonte de inspiração intelectual e polí- tica para que, a partir de 1983, quando o bloco afro se transformou em Grupo Cultural Olodum, pudesse trilhar os caminhos que estes três já trilhavam e propagavam em suas lidas diárias no Rio de Janeiro. As ques- tões relativas ao orgulho à negritude, tais como o combate ao racismo, cultura como instrumento de transformação social e política, cidadania e direitos humanos, além da concepção de temas (enredos) carnavalescos foram sabidamente incorporadas ao fazer institucional do grupo, agora transformado pelas ideias destes cariocas. Desse cruzamento ideológico,podemos citar um fato concreto em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, quando ocor- reu o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribe- nhas, e com ele a criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, encontro esse que foi definido o 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha, no qual Lélia esteve ativamente presente e também representantes do Olodum. Portanto, foi uma ocorrência efetiva de (re)união e de (re)conhecimento de duas histórias marcadamente guerreiras, combativas e imprescindíveis à construção do empoderamento do povo negro. Como relembrou Kátia Mello - pedagoga e primeira coordenadora do Projeto Rufar dos Tambores, hoje Escola Olodum4 -, em live promovida 4 Projeto Pedagógico mantido pela Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum mantém em Salvador - Bahia, iniciado a partir do projeto ‘Rufar dos Tambores’, em 1984, a Escola Olodum é um espaço real de participação e expressão da comu- nidade afrodescendente, constituindo-se numa referência nacional e internacio- nal pela inovação no trabalho com arte, educação, pluralidade cultural e promo- ção da luta antirracista. 145 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? pelo Olodum5, em julho de 2021, para celebrar o Dia da Mulher Afro-lati- no-americana e Caribenha, que no momento do I Encontro “(…) vínha- mos de um acúmulo de encontros e eventos nacionais e esses encontros deram o embasamento para que a gente chegasse em Santo Domingo, onde íamos tratar de um tema pós-Bejin, que tinha acontecido na China, que falava dessa necessidade de um feminismo negro e transnacional.” Esses encontros preliminares formam momentos especiais para Kátia Mello e Cristina Rodrigues, representes do Olodum, pudessem aprofundar e refletir atentamente sobre a realidade de inclusão das mu- lheres na sociedade brasileira, em especial as mulheres negras. O Olodum é uma instituição referência no protagonismo feminino. Foi o primeiro bloco afro a ter uma mulher eleita presidente, ainda nos anos 80, a ter a primeira maestrina de percussão, ser o primeiro bloco afro a discutir e refletir a condição da mulher negra por meio do seminário “Mãe, Mu- lher, Maria Olodum” e a ter ao longo de sua trajetória de mais de 40 anos, várias mulheres no comando e execução de suas principais atividades. Tais atitude do Olodum é uma intersecção com o pensamento de Gonzalez que tão bem sabia conceituar e formular a contradição especí- fica de ser mulher negra, a questão de como a desigualdade, o racismo e a discriminação produziam a nossa realidade de exclusão e que paralela e maravilhosamente conseguia positivar todas as coisas com as quais as mulheres negras são estigmatizadas. Essa ligação é facilmente rememorada no conceito de Amefrica- nidade, cunhado por Lélia Gonzalez, que no seu texto “A categoria políti- co-cultural de amefricanidade6” nos explica que ‘amefricanidade’ é uma categoria política e cultural, que nos traz um novo olhar criativo sobre a formação histórica e cultural do Brasil, incorporando dinâmicas cultu- rais afrocentradas de adaptação, resistências, reinterpretação, recriação de novas formas desde essa amefrica ladina que assume seu processo his- tórico afrocentrado e rompe com o processo de denegação do racismo e de seus sintomas. 5 Diálogos Contemporâneos - Julho das Pretas. Realizado em 21/07/2021, https:// www.youtube.com/watch?v=NPEQ2ga6qUE 6 GONZALEZ, Lélia. A Categoria político-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, N. 92/93(Jan/Jun). 1988b, p. 69-82. Disponível em: ht- tps://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/a-categoria-polc3adtico-cultural- -de-amefricanidade-lelia-gonzales1.pdf 146 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Com essa definição em linhas gerais, as ideias de Lélia compac- tuam com as reflexões do Olodum sobre o falacioso processo de dene- gação do racismo brasileiro, que nas palavras dela é, na verdade, “um dos mais eficazes mitos de dominação7” e que em suas canções o Olo- dum compara o racismo invisível do Brasil com o apartheid sul-africano (1948-1994), a exemplo da música “Olodum resistência”, que nos diz para resistirmos ao sistema opressor e não aceitarmos sermos injustiçados: “Olodum resistente Contra o sistema reacionário E a força do imaginário Formando os laços da união Devastando a desigualdade Obstando o apartheid O seu dinamismo cria evoluções O seu dinamismo cria evoluções Ele surgiu no pelourinho Com seu canto profético Lançando um desafio Que abrange o universo Que abrange o universo 8” Agir de forma disruptiva em relação ao que Lélia chamou de racis- mo por denegação9, implica justamente em podermos incorporar nas nossas práticas cotidianas, lentes de análises que identifiquem na diáspora uma ex- periência histórica comum que precisa ser conhecida. Portanto é necessário revisitar as estratégias de resistência cultural negro africano, como forma de 7 GONZALEZ, Lélia. “Por um feminismo afrolatinoamericano”. Revista Isis Inter- nacional, Santiago, v. 9, p. 133-141, 1988. Pag. 137. 8 Música: “Olodum resistência”, dos compositores Beto do Carmo, Cabral e Cresso Vieira. LP Do deserto do Saara ao nordeste brasileiro. 1989 Warner Music Brasil. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SILVA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag. 339 https://www.youtube.com/watch?v=u0_zEhT7Hkw 9 GONZALEZ, Lélia. “Nanny”. Humanidades, Brasília, v. 17, ano IV, p. 23-25, 1988. 147 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? estruturação de sociedades e de discursos livres. Lélia nos diz: “nas sociedades de racismo por denegação o processo é diferente, como já foi dito. Aqui, a força do cultural se apresenta como a melhor forma de resistência. O que não signi- fica que vozes solitárias não se ergam, efetuando análises/denúncias do siste- ma vigente.”10 O Olodum é uma dessas forças culturais, que a exemplo da sua música “Protesto Olodum11”, gravada em 1988, aponta para algumas questões do pensamento de Lélia que propõem abordagens interligadas do feminismo negro, questões de gênero, racismo, colonialismo, imperialismo e seus efeitos: “Força e pudor Liberdade ao povo do ‘Pelô’ Mãe que é mãe no parto sente dor … Declara a nação Pelourinho contra a prostituição Faz protesto, manifestação … AIDS se expandiu E o terror já domina o Brasil Faz denúncia: Olodum Pelourinho … Brasil liderança Força e elite na poluição Em destaque o terror, Cubatão … Vai com a nordestópia Na Bahia existe Etiópia Pro nordeste o país vira as costas 10 GONZALES, LÉLIA. RIOS, Flávia. LIMA, Márcia. Por um feminismo afro-latino- -americano. Ed. Zahah.2020. pag. 11 Música: “Protesto Olodum”, do compositor Tatau, no LP Núbia Axum Etiópia1988 War- ner Music Brasil. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SIL- VA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palma- res. Salvador/Ba, 2005. Pag.360 https://www.youtube.com/watch?v=qrMSnXMtfdY 148 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 … Nós somos capazes Pelourinho a verdade nos traz Monumento da força e da paz Mas mesmo assim E lá vou eu” Há uma urgência de enfrentamento da violência do colonialismo que ainda persiste e insiste em nossa sociedade, emerge também o com- promisso político do Olodum de repensar categorias, práticas, articulações, aplicações, institucionalizações compreendendo a memória como pressu- posto de seus projetos políticos, compreender o presente, organizando cro- nologicamente o passado e lançando-se em flechas para o futuro. Associar o conceito de “amefricanidade” às práticas sociais, po- líticas, culturais e musicais do Olodum é enaltecer e manter contempo- râneoesse instrumento metodológico para interpretar o processo de for- mação da nossa sociedade, pois fala da teoria e da prática como formas indissociadas e carrega em si a possibilidade de um projeto de continente, de Brasil que se opõe ao racismo, ao sexismo e traz para o centro as nar- rativas, as instituições, as práticas afro-diaspóricas. O projeto e a categoria de amefricanidade de Lélia são a possi- bilidade de propostas de repactuação político epistêmico e neste senti- do o Olodum faz o mesmo movimento de olhar para trás para refletir prospecções coletivas e pensando, como bem eternizou Jurema Wernek12, que “nossos passos vêm de longe” com base em um ditado africano que diz que “é preciso saber de onde se vem, para saber para onde se vai”. A perspectiva da consideração do presente com a ancestralidade, do pas- sado como orientador das lutas contemporâneas, permite por meio de suas diversas músicas e discussões adentrar nesses processos de memo- rias que implicam em eleger essa memória ritualizada, justamente como ferramenta de compreensão da cronologia histórica do Brasil, ao refletir o passado, o presente e o futuro de forma imbricada. Partindo-se desse processo de poder costurar histórias indivi- duais e coletivas, desprendidas, constituídas na diáspora, pode-se por 12 WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maisa; WHITE, Evelyn (Org.). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas; Criola; Global Exchange, 2006. 149 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? meio de ações e canções do Olodum e nos textos de Lélia cartografar es- sas memorias usurpadas pelo colonialismo, compreendo outras impres- sões e concepções de tempo, de memória, de história. Lélia nos diz que “foi no interior das novas sociedades que se formaram no Novo Mundo (sejam de segregação aberta ou disfarçada) que a amefricanidade floresceu e se estruturou. Já na época colonial escravista ela se manifestava nas revoltas, na elaboração de estratégias de resistência cultural, no desenvolvimento de formas alternativas de organização social livre13”, daí podemos identificar várias formas de re- sistências amefricanas tão cravejadas nas narrativas das revoltas oito- centistas, na formação dos quilombos, nos motins, no banzu, nos perió- dicos revolucionários, na mobilização estudantil e dentre tantas outras que ela não falou, mas identifica-se nas atividades e ações do Olodum. Pois, dentro de uma perspectiva decolonial de direitos humanos é in- dispensável o exercício reflexivo que entenda as diversas facetas do Olo- dum - como banda, instituição do movimento negro, bloco afro, como escola de educação não formal, editor de livros, promotor de eventos, marca de roupas, etc. - que contribui para as práticas de liberdade, a partir do reposicionamento das resistências amefricanas. Outro ponto de ligação entre o pensamento do Olodum e o de Lélia é que ambos foram construídos a partir do contato com várias pessoas e localidades. Lélia foi uma “intelectual diaspórica, com um pensamento erigido por meio de trocas afetivas e culturais, ao longo do chamado Atlântico Negro, com intelectuais, amigos e ativistas da América do Norte, Caribe e África Atlântica14”. Já o Olodum ao longo de mais de 40 anos, visitou 41 países de 5 continentes e esteve com artis- tas e personalidade de renome nacional e internacional, sendo também uma organização diaspórica que produz um pensamento e musicalida- de globalizado e transnacional, que evoca memórias coletivas (matrizes culturais) e experiências de lugares (territorialidade e lugar social) re- presentadas pela história dos povos negros. As resistências Amefricanas que se cruzam com o Olodum se manifestaram das mais diversas formas possíveis. Não há como, em um pequeno ensaio abarcar e esgotar, todas as potências desse enlace de 13 GONZALES, LÉLIA. RIOS, Flávia. LIMA, Márcia. Por um feminismo afro-latino- -americano. Ed. Zahah. 2020. 14 RATTS, Alex; RIOS, Flavia. Lélia Gonzalez São Paulo: Selo Negro, 2010. (Coleção Retratos do Brasil Negro). Pag. 128. 150 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 movimento anticolonial. Então finalizando no momento, volto a desta- car a intersecção sobre a universalidade da categoria mulher e as rela- ções de gênero, que Lélia Gonzalez tão bem antecipou esse debate atual e o Olodum descortina. A exclusão e a violência impostas pelo racismo são diferentes para homens e mulheres e para analisar as representações das mulheres negras na nossa sociedade, Lélia parte de três noções: a mulata, a domés- tica e a mãe preta. A mulata e a doméstica, foram caracterizadas como representações negativas, decorrentes da articulação entre o racismo, ex- ploração de mão-de-obra e o sexismo. Mas na noção de “mãe preta”, além de apontar o negativo, ela consegue fazer a positivação do estereótipo. A ‘mãe preta’, que para a sociedade branca e classe média repre- senta resignação, passividade perante as situações de opressão, simpatia, amorosidade e resiliência é a mulher forte, o sujeito político que pro- moveu estratégias e “desenvolveu as suas formas de resistência [...] cuja importância foi fundamental na formação dos valores e das crenças do nosso povo. Conscientemente ou não, ela passou para o brasileiro branco as categorias das culturas negro-africanas de que era representante. Foi por aí que ela africanizou o português falado no Brasil (transformando-o em ‘pretuguês’) e, conseqüentemente, a cultura brasileira15”. A “Mãe, Mulher, Maria Olodum16” cantada pelo Olodum é essa mãe preta insurgente, que resisti, constrói e avança nas lutas contra a escravidão dos tempos atuais, contribuindo para o movimento de mulheres como um todo, intervindo ativamente na condução de seus destinos e deixando como legado a experiência do enfrentamento do racismo e do sexismo: “Atlântida, Bahia O mar é o caminho O Guetho, o espinho A flor, ressurreição 15 BAIRROS, Luiza. “Lembrando Lélia Gonzalez”. In: WERNECK, Jurema; MENDON- ÇA, Maisa; WHITE, Evelyn (Org.). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas; Criola; Global Exchange, 2006. pag. 54. 16 Música: ‘A ver Navios”, dos compositores Roque Carvalho e Walmir Brito. CD A Música do Olodum. 1992 Warner Music Brasil Ltda. Letra e partitura registrada em FELIPE, Mara e SILVA, Gerson. Olodum, história e cultura afro-brasileiras em 30 músicas. Salvador, Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum, 2010 Página 17. Disponível para ouvir em: https://www.youtube.com/watch?v=Txu9eE3Sqag 151 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? Com Cristo vamos nessa Subir no calvário E lá dentro das urnas Confiamos os votos E ficamos a ver navios Após a eleição Olodum relata um clima intransigente Permanentemente sobre a ecologia Do direito da criança ao adolescente O velho esquecido, a mãe, mulher, Maria. … Se a ONU se tocasse pra solucionar O trama empobrecido desse continente O mundo desarmado em arma nuclear E uma canção feliz e um rosto sorridente Quem diria? … Não debilitados, famintos gerados Grupos que formaram laços influentes Reprimiu a dor, vestiu a fantasia De que seria livre e nada mais sentia A agressão constante da sociedade vigente A essa gente que sorriu a dor Mostrou sua resistência Navegando aos mares Entre fatos e resumos Hoje eu sei quem sou E quem diria? Mãe, Mulher, Maria, Olodum Amamentando o dia” Portanto pode-se afirmar, tanto Lélia Gonzalez quanto o Olo- dum, mesmo sem esse cruzamento “fake news” que encontramos pelas 152 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 páginas da internet, influenciaram e influenciam mulheres e homens, e seus pensamentos inspiram a organização dos movimentos negros. Em sua visita ao Brasil em 2019, Angela Davis, importante ati- vista e intelectual negra estadunidense, nos perguntou: “Por que vocês precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo17”. MichaelJackson, a maior referência da música pop contemporânea, quando quis cantar ao mundo que “eles não ligar para gente18”, procurou o Olodum. Então: leia Lélia Gonzales e vem “com o Olodum nessa melodia. Vem meu amor, deixa fluir essa alegria… Eu sou Olodum, quem tu és?! 19” OLODUM VESTE LETRAS “Papiro se transforma em papel Onde escrevo minha canção Inspiração, melodia musical Começa a tocar os tambores Sacode pra cima o astral Porque todo mundo aqui Quer fazer carnaval20” 17 MERCIER, Daniela. Lélia Gonzales, onipresente. El País, 25/10/2020. Disponível em https://brasil.elpais.com/cultura/2020-10-25/lelia-gonzalez-onipresente.html. Acesso em 26/07/2021. 18 Música: They Don’t Care About Us. Michael Jackson. 1996. https://www.youtube. com/watch?v=PoEa9bzeTu0 19 Música: “Vem meu amor”, dos compositores Guio e Silvio. CD A Música do Olo- dum1992 Warner Music Brasil Ltda. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SILVA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag.306. https://www. youtube.com/watch?v=ePQRPxmqErY 20 Música “Olodum veste letras” de Jucka Maneiro, Sandoval e Roberto Cruz. Sem re- gistro fonográfico. 2011. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SILVA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag. 53. 153 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? REFERÊNCIAS BAIRROS, Luiza. “Lembrando Lélia Gonzalez”. In: WERNECK, Jurema; MEN- DONÇA, Maisa; WHITE, Evelyn (Org.). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas; Criola; Global Exchange, 2006. GONZALEZ, Lélia. A Categoria político-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, N. 92/93(Jan/Jun). 1988b, p. 69-82. Disponível em: https://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/a-categoria-polc3adtico- -cultural-de-amefricanidade-lelia-gonzales1.pdf. GONZALEZ, Lélia. “Por um feminismo afrolatinoamericano”. Revista Isis In- ternacional, Santiago, v. 9, p. 133-141, 1988. GONZALEZ, Lélia. “Nanny”. Humanidades, Brasília, v. 17, ano IV, p. 23-25, 1988. GONZALES, LÉLIA. RIOS, Flávia. LIMA, Márcia. Por um feminismo afro-lati- no-americano. Ed. Zahah.2020. MERCIER, Daniela. Lélia Gonzales, onipresente. El País, 25/10/2020. Disponí- vel em https://brasil.elpais.com/cultura/2020-10-25/lelia-gonzalez-onipresente. html. Acesso em 26/07/2021. RATTS, Alex; RIOS, Flavia. Lélia Gonzalez São Paulo: Selo Negro, 2010. (Cole- ção Retratos do Brasil Negro). SILVA, Kátia de Melo e. Grupo Cultural Olodum. Último Acesso em:26/07/2021 WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maisa; WHITE, Evelyn (Org.). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas; Criola; Global Exchange, 2006 Referências Musicais: “A ver Navios”, dos compositores Roque Carvalho e Walmir Brito. CD A Música do Olodum. 1992 Warner Music Brasil Ltda. FELIPE, Mara e SILVA, Gerson. Olodum, história e cultura afro-brasileiras em 30 músicas. Salvador, Associação 154 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Carnavalesca Bloco Afro Olodum, 2010 Página 17. https://www.youtube.com/ watch?v=Txu9eE3Sqag “Berimbau” composta por Pierre Onassis, Germano Meneghel e Marquinhos Marques. CD Música Do Olodum - 20 Anos. 1999 Sony Music Entertainment (Brasil). Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SIL- VA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Funda- ção Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag 296 https://www.youtube.com/ watch?v=9QwMGzvQmTw “Olodum veste letras” de Jucka Maneiro, Sandoval e Roberto Cruz. Sem regis- tro fonográfico. 2011. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SILVA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag. 53. “Olodum resistência”, dos compositores Beto do Carmo, Cabral e Cresso Viei- ra. LP Do deserto do Saara ao nordeste brasileiro. 1989 Warner Music Brasil. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nelson, SILVA, Ubi- raci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negri- tude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag. 339 https://www.youtube.com/ watch?v=u0_zEhT7Hkw “Protesto Olodum”, do compositor Tatau, no LP Núbia Axum Etiópia1988 War- ner Music Brasil. Letra registrada em RODRIGUES, João Jorge, MENDES, Nel- son, SILVA, Ubiraci e CAPINAN, Bete (pesquisadores). “Olodum, Carnaval, Cultura, Negritude 1979 - 2014”. Associação Carnavalesca Bloco Afro Olodum e Fundação Cultural Palmares. Salvador/Ba, 2005. Pag.360 https://www.youtube. com/watch?v=qrMSnXMtfdY They Don’t Care About Us. Michael Jackson. 1996. https://www.youtube.com/ watch?v=PoEa9bzeTu0 155 SE LÉLIA GONZALES ERA OLODUM: QUEM TU ÉS? Sites que dizem que Lélia Gonzales ajudou a fundar o Olodum - todas as pesquisas realizadas em 27/07/2021: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lélia_Gonzalez http://lelia.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&id=32&Itemid=764 https://ceert.org.br/noticias/historia-cultura-arte/43873/lelia-gonzalez-e-home- nageada-em-grafite-gigante-no-centro-de-sao-paulo https://ipeafro.org.br/5403-2/ https://observatorio3setor.org.br/noticias/filha-de-negro-e-indigena-ela-lutou -contra-o-preconceito-no-brasil/ https://www.facebook.com/muitaspsi/posts/218905045588049/ https://feminismo.org.br/20-anos-sem-lelia-gonzalez/3137/ https://www.camara.leg.br/internet/sitaqweb/TextoHTML.asp?etapa=3&nu- Sessao=183.4.55.O&nuQuarto=3&nuOrador=3&nuInsercao=0&dtHo- rarioQuarto=11:40&sgFaseSessao=BC%20%20%20%20%20%20%20%20 &Data=11/07/2018&txApelido=BENEDITA%20DA%20SILVA&txFaseSes- sao=Breves%20Comunicações%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20%20 &dtHoraQuarto=11:40&txEtapa=Com%20redação%20final 157 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? Aline Borges de Araujo Mestra em Educação http://lattes.cnpq.br/4288722505265183 https://orcid.org/0009-0001-7989-3002 alineb@aluno.facmais.edu.br RESUMO: Ao pensar a importância do brincar nas so- ciedades contemporâneas é possível observar a relevân- cia da brincadeira no desenvolvimento de um conjunto de habilidades e competências úteis para a vida de uma criança. Ao pensar nestas habilidades e competências, este trabalho tem o objetivo de analisar as relações do brincar com as desigualdades de gênero naturalizadas na sociedade. A pesquisa de cunho bibliográfico foi reali- zada em diversos livros e artigos científicos em que foi observado a importância do brincar para o desenvolvi- mento infantil, pois enquanto brinca, a criança aprende com seus pares, preparando-se para a vida adulta. Entre- tanto, a brincadeira enquanto imitação da vida adulta é instrumento de disciplinamento dos corpos e, portanto, utilizadas para naturalizar e internalizar no indivíduo as normas socialmente impostas. Destarte, este trabalho considera a importância do brincar na Educação Infan- til enquanto espaço de ressignificação das brincadeiras, permitindo às crianças o desenvolvimento de um pensa- mento mais crítico e atitudes mais autônomas. Palavras-chave: Brincar; Desigualdade de gênero; Educação Infantil. 158 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 1 INTRODUÇÃO: BRINCAR PARA QUÊ? Pensar a importância do brincar nas sociedades contemporâneas demanda uma reflexão sobre uma complexa rede de teorias relacionadas à infância assim como a relevância da brincadeira no desenvolvimentoescola. O discurso persuasivo para o retorno presencial esteve alicerçado nos altos índices de evasão escolar digital, déficit de aprendizagem e saúde mental dos alunos e alunas, os quais voltaram submetidos a treinamentos pedagó- gicos para o alcance quantitativo das metas projetadas para os municípios. A pandemia no Brasil contaminou o discurso de proteção do direito à vida, em favor de uma retórica da formação – fragmentada industrial – humana. MBEMBE (2017) em seu ensaio Necropolítica tenta analisar so- bre que condições o direito de matar, deixar viver ou expor à morte é praticado. A necropolítica articula a desumanização e inferiorização de determinados sujeitos, legalizando suas mortes. MIRANDA (2020) afirma que este conceito do século XXI se refere a um fenômeno social que não é novo, e está relacionado ao capi- talismo no sentido de que seria questionável a possibilidade de um capi- talismo não necropolítico: A norma contemporânea do capitalismo é estruturada de maneira necropolítica não apenas por destruir as funções de contemplação de direitos do Estado, mas fundamentalmente na proliferação de subjetividades “empresas de si mesmos” indiferentes com a vida de corpos considerados inferiores, fracos ou não-humanos, cujas vidas não importam para o deus-mercado. O retorno às aulas presenciais pareceu estar a serviço de fatores relacionados à educação necroquantitativa, o que devasta princípios de solidariedade e empatia social, assim como a função estatal de reduzir a precariedade dos sujeitos historicamente vulnerabilizados no Brasil. As- sistir ao direito à educação transformado em valor numérico agregável, sujeitos em algoritmos, sem espaço para o amplo debate, é aceitar a morte (de forma generalizada e metafórica) como superior ao direito à vida. Alinhando-se ao pensamento de Mbembe (2011): O que resta do sujeito humano em uma época em que a instrumentalidade da razão é 20 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 executada por e através de máquinas de informação e tecnologias de cál- culo? Quem definirá o limite que distingue entre o calculável e o incalcu- lável, entre o que é considerado digno e o que é considerado sem valor e, portanto, dispensável? É possível transformar esses novos instrumentos de cálculo e poder em instrumentos de libertação? Em outras palavras, seremos capazes de inventar modos diferen- tes de medição que possam abrir a possibilidade de uma estética diferen- te, uma política diferente de habitar a Terra, de reparar e compartilhar o planeta? Em tempos pandêmicos, a matriz curricular de formação huma- na pareceu despontar ou fez despontar sua face necropolítica. REFERÊNCIAS DICKMANN, Ivanio; DICKMANN, Ivo. Pedagogia da Liderança. São Paulo: Dialogar, 2016. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. GADELHA, Sylvio. Biopolítica, governamentalidade e educação: introdução e co- nexões a partir de Michel Foucault. Belo Horizonte: Autêntica Editora LTDA, 2009. GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Sergio Faraco Rio de Janeiro: L&PM, 2010. KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Santa Cruz de Tenerife: Melusina[sic], 2011. MASSCHELEIN, J.; SIMONS, M. Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. MIRANDA, Gabriel. As faces da produção da morte. Liberalismo e necropolítica Entrevista especial com Gabriel Miranda. In: IHU online, 04 mar. 2020. Disponí- vel em:de um conjunto de habilidades e competências úteis para a vida de uma criança. Ao pensar nestas habilidades e competências, este trabalho tem o objetivo de analisar as relações do brincar com as desigualdades de gê- nero naturalizadas na sociedade. Embora o brincar não se restrinja à infância, é possível afirmar que a brincadeira é a atividade principal da vida da criança. Assim, as legislações visam garantir o direito à brincadeira e, as teorias da infância valorizam-na como importante instrumento de aprendizagem para o desenvolvimento infantil. Portanto, o brincar está presente em todos os espaços sociais e são prestigiados em espaços de aprendizagem, como o lar e a escola. Dentre as teorias do brincar, pode se afirmar que a brincadeira é fundamentada em dois princípios básicos. O primeiro é a diversão, ao brincar a criança se diverte, cria mundos imaginários e pode ser o que ela quiser, como um super-herói ou bandido. Enquanto brinca ela pode voar até outras galáxias ou mergulhar no profundo do oceano, pode ma- tar ou morrer e depois reviver. Neste princípio a fantasia predomina e não há limites para a imaginação. O segundo princípio se fundamenta na aprendizagem, pois ao brincar a criança busca conhecer e para conhecer ela utiliza os sentidos, como o tato para sentir espessura, temperatura, profundidade, massa. Com a audição aprende a diferenciar os sons. Com o paladar ela aprecia os sabores. Com o olfato aprende sobre os odores e com a visão aprende sobre as cores e formas. Ambos os princípios do brincar ocorrem de forma simultânea na ação lúdica. Não há brincar sem diversão como não há brincar sem apren- dizagem. Enquanto brinca, a criança se diverte e aprende. Nesta ação, há uma constante cooperação de aprendizagem e ludicidade que estimula a aquisição de habilidades e competências úteis para a vida do sujeito. Ao partirmos destes princípios do brincar como ação lúdica de aprendizagem é possível compreender as divergências de opiniões relacionadas às fina- lidades das brincadeiras e como estas precisam ser debatidas para que as crianças estejam protegidas do preconceito e tenham preservados o direito de brincar livremente, assim como, o direito de ter uma educação de quali- dade, ambos, garantidos pelo estado, pela família e pela sociedade. 159 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? 2 BRINCAR: PRAZER E APRENDIZAGEM Desde o Romantismo o brincar passou a ser considerado de grande importância para a aprendizagem das crianças e ao longo dos anos impor- tantes teóricos da Educação desenvolveram métodos de ensino fundamen- tados em brincadeiras. A importância do brincar é entendia por Araujo (2022) como parte importante do desenvolvimento da criatividade, pois: Ao brincar a criança constrói um mundo imaginário e se permite vivenciar emoções distintas como viver a princesa/príncipe de um conto de fadas ou um bandido/a que corre da polícia. No brincar ela pode resolver situações que, na realidade, são impossíveis, tais como: como uma criança que brinca de dirigir um carro, mesmo sabendo que não tem habilidade física e treino para a atividade. Na brincadeira a criança vivencia o lúdico, seja sozinha ou acom- panhada de seus pares (ARAUJO, 2022, p. 28). Ao brincar a criança cria imagens, histórias e é capaz de estabele- cer relações interpessoais, pois interage com o outro e estabelece contra- tos e acordos para que a brincadeira evolua e prossiga por tempo indeter- minado. Nesta ação conjunta, as crianças aprendem a resolver conflitos, a tomar decisões e a estabelecer regras que possibilitam o desenvolvimento da brincadeira e evitam a violência. Em brincadeiras de grupo, é possível evitar a dominação de um sobre os demais quando as crianças negociam o papel que cada uma delas irá desempenhar durante a ação lúdica. Ao brincar a criança faz representações da vida cotidiana. Segun- do Kishimoto (1997): O brinquedo coloca a criança na presença de reproduções: tudo o que existe no cotidiano, a natureza e as construções humanas. Pode-se dizer que um dos objetivos do brinquedo é dar à crian- ça um substituto dos objetos reais, para que possa manipulá-los (KISHIMOTO, 1997, p. 18). Esta é a possibilidade de as crianças colocarem em prática as nor- mas que regem a sociedade, como o respeito ao outro e o respeito às leis vigentes. Ao reproduzir situações cotidianas, a criança imita o adulto e representa-o em suas ações, como a mãe que prepara o alimento ou o pai que ensina a lição de casa. Ao fazer a representação do real para o imagi- 160 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 nário a criança imita o outro independente do gênero, assim como imita um animal, um bandido ou um mocinho. Nesta mesma premissa está o uso de brinquedos que representam o real, como bonecas e carrinhos, mas podem ser outros objetos como, uma vara que representa um cavalo. Na ação lúdica o brincar vai além do brinquedo pois este desencadeia a imaginação, permitindo à criança criar infinitas possibilidades de ser. Para Leontiev (2010): Há uma ação real, uma operação real e imagens reais de objetos reais, mas a criança, apesar de tudo, age com a vara como se fosse um cavalo, e isto indica que há algo imaginário no jogo como um todo, que é a situação imaginária. Em outras palavras, a estrutura da atividade lúdica é tal que ocasiona o surgimento de uma situa- ção lúdica imaginária (LEONTIEV, 2010, p. 127). É importante considerar a liberdade de escolha da criança na es- colha dos objetos do brincar, que podem ou não representar objetos do cotidiano adulto. Esta liberdade de escolha e de significado dado a estes objetos enriquecem o brincar e permite a criação de infinitas possibilida- des imaginárias de representação do mundo adulto. Ao brincar a criança expressa seu desejo de ser adulta. E essa imitação é parte fundamental no processo de desenvolvimento do sujeito enquanto ser social. Ao brincar a criança cria mundos imaginários e não se envergonha de suas criações imaginativas. Freud (1996) explica que: Apesar de toda a emoção com que a criança catexiza seu mundo de brinquedo, ela o distingue perfeitamente da realidade, e gos- ta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’(...). Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quanti- dade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade (FREUD, 1996, p. 78) Esse espaço de brincadeira desenvolvido pela criança é consciente. Na ação lúdica a criança expressa livremente suas emoções, como: desejos, medos e valores sociais. Assim, ao imitar uma pessoa ela tem perfeita cons- ciência de si e do outro, no entanto, ao imitar, ela aprende sobre o outro e sobre si mesma, como as limitações, gostos e afinidades de ambos. Vale lembrar das palavras de Freud (1996) sobre o brincar, em que afirma: 161 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? A ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos (...). Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e dispende na mesma muita emoção. A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real (FREUD, 1996, p. 78). À luz deste conceito é possível afirmar que o brincar é fundamen- tal para o desenvolvimento intelectual e cognitivo da criança e, portanto, deve ser considerado como método e conteúdo escolar no sentido de en- riquecer as aprendizagens e impulsionar o desenvolvimento de habilida- des e competências relacionadas à vida em sociedade como, a socializa- ção, resolução de problemas, tomada de decisões e respeito mútuo. 3 O LUGAR DO BRINCAR NO ESPAÇO ESCOLAR A Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDBN (1996) garante a Educação Infantil como direito das crianças, sendode matrícula obri- gatória a partir dos quatro anos de idade. A Base Nacional Comum Cur- ricular - BNCC (2018), estabelece seis direitos de aprendizagem para a Educação Infantil, dentre estes direitos o documento orienta que o brin- car deve ocorrer Cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tem- pos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimen- tos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocio- nais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e rela- cionais (BRASIL, 2018, p. 38). O brincar está relacionado a riqueza de espaços e parceiros de brin- cadeiras, pois ao brincar a criança amplia sua capacidade de aprendizagem da cultura, desenvolve habilidades psicomotoras e interage com seus pares. Na interação com o outro, habilidades como a comunicação, linguagem e coordenação motora estão em constante processo de aperfeiçoamento e neste espaço rico de trocas, a criança tem inúmeras oportunidades de ad- quirir novas competências que lhe serão úteis ao longo da vida. Ao chegar à escola a criança passa por um processo de separa- ção da família e entra em um espaço de pluralidades e diferenças. Neste espaço social a brincadeira é um instrumento de socialização e interação 162 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 entre as crianças que estão se preparando para a vida em sociedade. Ao brincar, as mesmas se conhecem, expressam sentimentos, internalizam regras e aprendem a solucionar conflitos, assim adquirem estas impor- tantes habilidades de convivência que lhes serão úteis na resolução de problemas e tomadas de decisões futuras. A brincadeira é um espaço de aprendizagem, pois as crianças tro- cam experiências com seus pares, professores e pais. Ao analisar a apren- dizagem a partir das interações sociais, Vygotsky (2001, p. 351), observou a existência de uma Zona de Desenvolvimento Imediato (ZDI) que é “o que a criança hoje é capaz de fazer em colaboração, amanhã estará em condições de fazer sozinha”, em outras palavras a ZDI consiste na possi- bilidade de a criança fazer de maneira independente o que já sabe fazer com a ajuda de um parceiro mais experiente. Ao propor uma brincadeira, o adulto está convidando a crian- ça a aprender algo novo, aperfeiçoar uma habilidade ou descobrir novas formas de aprendizagem a partir daquela ação lúdica. Portanto, a brin- cadeira, nos espaços escolares, precisa ser planejada pelo professor com objetivos claros e específicos. Ao planejar, o professor precisa estar ciente de que a brincadeira pode ser dirigida, que é quando a professora sugere um brinquedo ou brincadeira e dirige os caminhos que esta deverá per- correr e qual o seu objetivo final, porém há também a brincadeira livre, em que as crianças são livres para escolher do que elas vão brincar, como brincar e quando esta brincadeira terá um final. Em ambos os casos, as brincadeiras proporcionam desenvolvimento e aprendizagem, pois há uma constante ZDI na troca de experiências que ocorre entre as crianças. A BNCC (2018), orienta que a criança precisa aprender a viver em sociedade de forma criativa e autônoma e para tanto esta precisa vi- venciar experiências que lhe proporcione desafios e a capacite para solu- cionar as demandas da vida em sociedade. Nesse sentido, os direitos de aprendizagem, expressos na BNCC, Asseguram, na Educação Infantil, as condições para que as crian- ças aprendam em situações nas quais possam desempenhar um papel ativo em ambientes que as convidem a vivenciar desafios e a sentirem-se provocadas a resolvê-los, nas quais possam construir significados sobre si, os outros e o mundo social e natural (BRA- SIL, 2018, p. 37). 163 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? A brincadeira proporciona às crianças uma representação da vida real e no espaço do brincar é possível que aprendam a se posicio- nar diante dos desafios propostos, compreender o significado das regras sociais e a importância de respeitá-las e imitar o mundo adulto de modo que a experiência seja prazerosa e a aprendizagem seja significativa. A brincadeira é uma preparação para a vida adulta, um preparo lúdico em que todas as possibilidades são válidas assim como a possibilidade de mudar de uma realidade imaginada para outra. Esta é uma importante maneira de pensar as possibilidades, antes da tomada de decisão que ao adulto é exigido fazer em diferentes momentos da vida, como: a escolha da profissão, casamento, filhos, dentre outras. 4 O BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL: ESPAÇO DE APRENDIZAGEM Ao brincar a criança se propõe a obedecer às regras sociais que dirigem as ações associadas à brincadeira. Uma criança que brinca de motorista sabe que não tem idade e preparo para dirigir um carro, mas consegue obedecer às leis de trânsito exigidas por um colega de brin- cadeira. Estas representações imaginárias de situações cotidianas reais estimulam a criança a obedecer às regras socialmente impostas. Assim, é possível observar que as crianças aprendem a se comportar como os adultos se comportam absorvendo seu modo de agir e pensar. Portanto, ao brincar, a criança aprende comportamentos de respeito, solidariedade, liderança e compaixão, mas também, pode aprender a ser, desrespeitoso, preconceituoso, autoritário e desumano. O espaço escolar é um ambiente de diversidade em que as crian- ças trazem de suas vivências e experiências anteriores, os comportamen- tos, crenças e atitudes que entram em conflito nos momentos de brinca- deira. Diante das divergências de opinião e conflitos entre as crianças, cabe ao professor mediar as relações para que as mesmas aprendam a respeitar a forma de ser do outro e assim descobrir novas formas de ver o mundo, corrigir formas equivocadas de agir e aprender a conviver com a diferença. O olhar crítico do professor é fundamental para que as crian- ças se sintam acolhidas, compreendidas e aceitas. Vale ressaltar que a escola é um espaço de disciplinamento dos corpos e disciplina as crianças no sentido de prepará-las para a vida adul- ta. Entretanto, o brincar precisa ser um ato de criticidade por parte dos educadores que propõe e observa o desenvolvimento da brincadeira. Há 164 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 diversos exemplos de brincadeiras que podem ser analisadas de diferen- tes prismas, como o brincar de casinha que pode ser direcionado para o trabalho de cooperação entre as crianças independente do sexo ou pode ser uma brincadeira que acentua a desigualdade de gênero. Ao pensar sobre a brincadeira em questão, o professor pode pro- por um pensamento que enfatiza a igualdade, respeito e justiça entre os sexos. Nesta brincadeira, cada criança será livre para desempenhar o pa- pel que quiser, como cozinhar, cuidar das crianças, fazer compras, dirigir um automóvel para levar as crianças à escola, sair para trabalhar, cuidar da limpeza da casa ou da louça. No entanto, se ao propor esta mesma brincadeira a professora sugerir a divisão dos papéis sociais a serem re- presentados de acordo com o sexo da criança, como: as meninas cuidam de todo o trabalho doméstico enquanto os meninos saem para trabalhar dirigindo seus automóveis, a brincadeira passa a ter um papel de legiti- mação das desigualdades sociais relacionadas ao gênero. Essa desigualda- de desencadeia um processo de desvalorização da mulher e dominação do homem. Dorlin (2021), compreende esta desigualdade como a domi- nação masculina ao explicar: A opressão sistêmica funda-se em uma exploração econômica: a atribuição do trabalho de reprodução da “espécie” às mulhe- res, beneficiando os homens que se apropriam não apenas desse trabalho e de seus produtos (filhos e, portanto, o conjunto da filiação, bem como o tempo liberado graças à atribuição das ta- refas de reprodução da força do trabalho e de cuidado infantil às mulheres), como também docorpo completo das trabalhadoras (DORLIN, 2021, p. 41). Ao naturalizar esta desigualdade e compreendê-la como necessá- ria para o bom funcionamento da sociedade, a mulher se percebe como uma propriedade que busca atender as exigências que lhe são impostas. Esta opressão sobre as mulheres iniciada ainda na infância com as cores que diferencia os sexos, as brincadeiras que impõe às meninas um papel de subalternização e inferiorização, o brincar de bonecas que as relega ao es- paço doméstico mantendo-as em casa dedicando-se aos cuidados do outro, são alguns exemplos de desigualdades naturalizadas através de brincadei- ras. Porém, para os meninos é natural oferecer carrinhos, aviõezinhos que remetem ao espaço público, a aventura, a exploração e a conquista. 165 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? É possível observar que ambas as brincadeiras proporcionam a diversão, no entanto o conhecimento relativo a cada uma é diferente, pois as meninas são impedidas de aprender sobre o espaço, a lateralidade, o trânsito, a coordenação motora, localização espacial, expressão de ideias em público, a liderança em espaços públicos, já os meninos são impedi- dos de demonstrar afeto, falar e expressar as emoções, dividir as tarefas, fazer trabalhos manuais, aprender a cuidar do outro e de si mesmo, como os cuidados básicos com a própria saúde, alimentação e higiene do corpo, além dos cuidados básicos com o espaço que ocupa. Diante disso é possível perceber que a brincadeira é fundamen- tal para o desenvolvimento de habilidades e competências relacionadas à vida, no sentido de promover mais igualdade entre os sexos. O brincar proporciona uma capacidade imaginativa para resolver problemas que preparam a criança para o mundo adulto. Essa capacidade imaginativa precisa ser desenvolvida desde a primeira infância, pois é a partir dela que se constitui a criatividade. Uma criança criativa consegue se posicio- nar diante de injustiças e buscar por mais respeito aos direitos de todos. Vygotsky (2012) descreve a imaginação como fundamento de toda a atividade criadora e a partir de experiências anteriores a criança é capaz de criar, em outras palavras, ela usa a experiência para criar algo novo. O espaço da brincadeira é fundamental para o desenvolvimento da criatividade. Para o autor “o jogo da criança não é uma simples recor- dação do que viveu, é antes uma reelaboração criativa das impressões já vividas, uma adaptação e construção, a partir dessas impressões, de uma nova realidade-resposta às suas exigências e necessidades afetivas (VY- GOTSKY, 2012, p. 27). Ao considerar a importância do brincar para o desenvolvimento da criatividade e capacidade de conviver e se relacionar de forma har- moniosa com o outro, o espaço da Educação Infantil é primordial para o brincar, pois a riqueza de recursos materiais e de relações interpessoais garantem uma diversidade de aprendizagens significativas. Assim, o pro- fessor precisa estar atento ao que propor nas brincadeiras, permitindo a liberdade das crianças em se expressar e aprender novas formas de ser e viver, ou seja, o brincar criativo e com liberdade de expressão permitem a construção de um pensamento mais crítico e autônomo favorecendo mais igualdade entre os sexos. 166 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 5 A BRINCADEIRA LEGITIMA A DESIGUALDADE OU PROMOVE IGUALDADE DE GÊNERO? O brincar é uma atividade que pode ser vivenciada de forma indivi- dual ou coletiva, no entanto, não é possível haver brincadeira sem a participa- ção do outro na ação do brincar. Esta participação pode ocorrer no momento do desenvolvimento da brincadeira ou anterior a esta. Em outras palavras, significa que o brincar é uma ação humana e, portanto, é algo aprendido nas relações interpessoais, pois para que o brincar ocorra, faz-se necessário ha- ver comunicação e entendimento. Gilles Brougère, explica que “brincar não é uma dinâmica interna do indivíduo, mas uma atividade dotada de uma significação social precisa que, como outras, necessita de aprendizagem” (BROUGÈRE, 2008, p. 20). Nesse sentido, é possível afirmar que para brin- car é preciso aprender e aprende-se a brincar, brincando. Araujo destaca que: Para que haja a brincadeira é preciso um espaço em que os en- volvidos estejam em comum acordo, entendam a atividade como lúdica, cumpram as regras e estejam com o estado de espírito apto para vivenciar o lúdico. Isso sugere que o ato de brincar pode ser aprendido e demanda habilidades que a criança aprende nas vi- vências diárias de sua vida; já que, desde os primeiros momen- tos de sua existência, a criança é inserida no mundo cultural e ao se relacionar com ele, tem experiências que proporcioná-la-ão aprendizagens que permitirão interpretar e dar significado às ati- vidades humanas (ARAUJO, 2022, p. 25). O primeiro par da criança na brincadeira é a mãe que brinca com o filho e ensina-o as brincadeiras e a partir delas a criança aprende diversas habilidades que lhe serão úteis ao longo da vida, como coor- denação motora, comunicação e linguagem e cuidados de si. Nota-se a importância do brincar para o desenvolvimento da criança assim como a importância da diversidade de pares, espaços e brincadeiras a serem experienciadas pela criança em desenvolvimento. Ao pensar o brincar como construto cultural, já que é característico do humano, aprendido, modificado e repassado para as gerações seguintes, entende-se o brincar como uma ação humana que reflete a cultura de uma sociedade, sua forma de viver e compreender o mundo. Assim, é possível observar que as brincadeiras infantis refletem a forma de dominação exis- tente na sociedade, como a dominação masculina, branca e heterossexual. 167 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? O brincar é uma atividade disciplinar que impõe à criança uma forma de ser e se portar na sociedade em que está inserida. Para Foucault (1984) a sociedade é composta por forças antagônicas denominadas por ele de relações de poder. Nesta relação de poder está o adulto que impõe à criança a disciplina e o brincar é uma forma lúdica de disciplinar os corpos infantis. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de trans- missão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. (...). Deve-se, antes, fazer uma análise ascenden- te do poder: partir dos mecanismos infinitesimais que têm uma história, um caminho, técnicas e táticas e depois examinar como estes mecanismos de poder foram e ainda são investidos, coloni- zados, utilizados, subjugados, transformados, deslocados, desdo- brados, etc., por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de dominação global (FOUCAULT, 1984, p. 233-234). Nas relações de poder entre adultos e crianças há uma desigual- dade de forças que permite ao adulto impor o poder disciplinar em dife- rentes espaços da sociedade, como na família e na escola. O poder disci- plinar, segundo Hoffman (2018), Empenha-se em controlar meticulosa, exaustiva e continuamente as atividades dos corpos, de modo a constituí-los como portadores de uma relação altamente particular entre utilidade e docilidade, pela qual um acréscimo na utilidade corresponda a um acréscimo na docilidade e viceversa (HOFFMAN, 2018, p. 43). O controle hierárquico e constante das ações da criança e a forma como o poder do adulto é usado para controle e disciplinamento dos cor- pos infantis configura a internalização e naturalização das normas social- mente impostas, desde a primeira infância.Assim, os menores desvios de comportamento são punidos com a exclusão do indivíduo do grupo. Já a obediência à regra é recompensada. Deste modo, a criança desde pequena, 168 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 passa a entender que para pertencer ao grupo precisa obedecer às regras e não questioná-las ou desobedecê-las. Este é um fato que confronta com a autonomia e pensamento crítico que precisa ser desenvolvido desde os pri- meiros anos de vida do sujeito. Diante desta contradição aqui apresentada, à luz das palavras de Foucault (2013) é possível esclarecer que Temos que deixar de descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “recalca”, “censura”, “abs- trai”, “mascara”, “esconde”. Na verdade, o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais da verdade. O indi- víduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção (FOUCAULT, 2013, p. 161). O brincar é um importante disciplinador de corpos que ensina de diferentes formas como viver em sociedade, como: respeitar as leis, desenvolver um senso ético, o respeito mútuo e o cuidado de si, entretan- to, o brincar precisa ser ressignificado quando usado como instrumento de exclusão e desigualdade, ou seja, o brincar enquanto reprodutor de desigualdades impõe sobre as crianças formas de ser que afetarão seu desenvolvimento de modo que na vida adulta haverá dificuldades que poderiam ter sido evitadas se o brincar fosse um espaço de liberdade de expressão e criatividade. A Educação Infantil representa um importante espaço para a reflexão sobre o papel do brincar na legitimação dos papéis sociais de- senvolvidos por homens e mulheres. Destarte, há de se pensar em como desenvolver o pensamento crítico nos alunos sobre como as regras social- mente impostas podem ser utilizadas para subjugar e inferiorizar as mu- lheres, assim como para impor sobre os meninos o direito a autoridade e controle, impedindo a ambos de escolher, ser, sentir e pensar livremente. É importante lembrar que embora meninos e meninas sejam di- ferentes, estas diferenças não podem ser transformadas em desigualda- des, pois as desigualdades estabelecem uma relação de poder desigual entre os sexos em que é retirado dos meninos e meninas a liberdade de ser, escolher e agir. Neste sentido, Souza et al. (2023) explica que: Reconhecer as diferenças é questionar os conceitos homogêneos, estáveis e permanentes que excluem o que é estranho dos padrões normativos. Todas essas certezas que foram construídas ao longo do tempo devem se fragilizar e desvanecer, pois é necessário des- 169 UMA QUESTÃO DE GÊNERO: O QUE AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL? construir, pluralizar, ressignificar, reinventar identidades e subjeti- vidades, saberes, valores, convicções e horizontes de sentidos. Ao reconhecer as diferenças e especificidades de cada criança, independente do sexo, o professor da Educação Infantil pode desenvol- ver um trabalho de desconstrução da norma naturalizada. As diferenças entre os sexos ou as diferenças entre os alunos precisam ser vistas como individualidade e especificidade de cada criança, assim, desconstruir as certezas que promovem as desigualdades é um importante trabalho de justiça e igualdade a ser realizado pela escola. Destarte, para as crianças da Educação Infantil, o trabalho com brincadeiras é essencial para a construção de um pensamento crítico em que as crianças vão aprender a questionar as normas socialmente impostas que promovem desigualdades e são internalizadas através de brincadeiras, como o brincar de boneca para as meninas e carrinho para os meninos. 6 CONCLUSÃO O brincar é a principal atividade da vida de uma criança, pois en- quanto brinca desenvolve diversas habilidades físicas, intelectuais e emo- cionais. Estas habilidades são essenciais para a vida do sujeito que precisa se preparar para a vida adulta e, portanto, desenvolver a capacidade de análise de fatos, a criticidade e a autonomia para agir na sociedade, tomar decisões e resolver problemas. A Educação Infantil é um importante espaço para o desenvolvi- mento de habilidades a partir de brincadeiras. Ao pensar em atividades lúdicas, o professor planeja brincadeiras que englobam o aprimoramento de diversas habilidades e competências, como coordenação motora am- pla e fina, localização espacial, relacionamentos interpessoais, alfabetiza- ção, criticidade e autonomia. As brincadeiras, também podem ser instrumentos de disciplina- mento dos corpos infantis ao propor às crianças a internalização de normas socialmente impostas, como os papéis sociais de gênero que estabelecem desigualdades entre meninos e meninas. Portanto, ao pensar nas desigual- dades de gênero naturalizadas na sociedade e suas relações com o brin- car na Educação Infantil, conclui-se que cabe ao professor o planejamento de brincadeiras que estimulam o pensamento crítico e o questionamento das regras que evidenciam as desigualdades. Pois, o brincar proporciona 170 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 aprendizagem e diversão e ao aprender brincando as crianças internalizam a criticidade e a autonomia necessárias para uma vida adulta livre de pre- conceitos e que valoriza a igualdade, a justiça e a liberdade de ser. REFERÊNCIAS ARAUJO, Aline Borges de. A naturalização das desigualdades de gênero em brincadeiras da educação infantil. (Dissertação de Mestrado) Inhumas: Fa- cMais, 2022. Disponível em: http://65.108.49.104/bitstream/123456789/667/1/ Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Aline%20Borges%20de%20Araujo%20 reposit%C3%B3rio.pdf. Acesso em: 26/07/2023. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_ EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 11/09/2023. BROUGÈRE, Gilles. A criança e a cultura lúdica. In: KISHIMOTO, Tizuko M. (org) O brincar e suas teorias. São Paulo: Cengage Learning, 2008. 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Alexandre Franco. - 1ª ed. - Lisboa: Dinalivro, 2012. 173 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DASESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO Wanessa Moreira dos Santos Pós-graduada em Políticas Educacionais, Gestão Escolar e Trabalho Docente http://lattes.cnpq.br/0911681711642542 wanessa_moreira@discente.ufg.br RESUMO: Este artigo, sob o tema violência escolar, com recorte nas desigualdades sociais, tem o objetivo de dis- cutir a relação entre a crescente violência nas escolas bra- sileiras e sua relação com a desigualdade social. A partir do problema dessa pesquisa: A crescente violência nas escolas brasileiras tem relação com a desigualdade social? As atuais ações de prevenção e enfrentamento da violên- cia no interior das escolas tem apresentado um impacto relevante? Buscamos compreender os tipos de violência inseridas o interior das escolas, visando apontar possibi- lidades de prevenção e enfrentamento dessas violências. Para tanto, foi desenvolvida uma pesquisa bibliográfica numa abordagem qualitativa, tendo como base os da- dos do portal SiELO e revistas de pesquisa em educação. Utilizamos o recorte temporal de 2003 a 2023, em que as análises se ancoraram em Charlot (2004), Leite e Marinho (2016) e Arroyo (2007). O resultado desse estudo indicou a existência de relação da violência no interior das escolas brasileiras com as desigualdades sociais além da necessi- dade de maior reflexão sobre as ações de prevenção. Palavras-chave: Violência; Desigualdades sociais; Violência escolar. 174 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 INTRODUÇÃO Este artigo tem como objetivo discutir a relação entre a crescente violência nas escolas brasileiras e sua relação com a desigualdade social. Nos últimos anos tem crescido o número de notícias sobre violências e ataques no interior das escolas veiculados na mídia como: “2023 já é o ano com mais ataques em escolas, diz ONG” (ANDES Sindicato Nacio- nal, 2023), “Escolas da rede estadual têm até oito casos de violência por dia” (O Popular, 2022), “Oito em cada dez jovens já presenciaram atos de violência nas escolas” (Jornal da USP, 2021) e “Brasil teve ao menos 16 ataques em escolas nos últimos 20 anos; relembre casos” (CNN Brasil, 2023). Essas reportagens exemplificam o crescimento das violências no interior das escolas e nos levam a indagar sobre as principais causas desse problema social e formas de se enfrentá-las. Leite e Marinho (2016) apontam que é “bastante evidente que a proliferação de eventos violentos tem muito mais relação com exclu- são social e desigualdade que com segurança pública” (p. 8), explicitando que as ações violentas dizem respeito à manifestação de conflitos sociais, diante dos quais “as desigualdades de poder estabelecem a hierarquia das relações sociais, onde as classes dominantes procuram neutralizar qual- quer atividade que possa desestabilizar a ordem dessa hierarquia social.” (p. 8). Seguindo essa linha, estes autores então definem que uma situação de violência por parte de indivíduos caracteriza-se do: […] produto de situações de conflito e relações de poder que tradu- zem a emergência de uma situação social na qual os envolvidos se apresentam pouco integrados aos mecanismos de regulação impes- soais, ao aparecer submersos em relações que, ao serem inevitáveis (por sobrevivência imediata), se tornam pesadas uma forte exterio- rização do subjetivo (mundo da vida) em resposta a uma debilitada interiorização do objetivo (sistema). (LEITE; MARINHO, 2016, p. 8). Sendo assim, esta definição leva-nos a compreender que os epi- sódios de violências, relatados em matérias e notícias disponibilizados pela mídia, podem ter sido causados por uma série de conflitos interio- rizados pelos jovens e adolescentes, que desestabilizam os mecanismos interpessoais. Refletimos, assim, quais ações realmente mediam essas relações sociais, inevitáveis no interior das escolas, que possam, de fato, evitar que um aluno (ou ex-aluno) vá para a escola determinado a defen- 175 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO der-se matando, esfaqueando, ateando fogo ou se suicidando, como vem acontecendo nas últimas duas décadas. Segundo Charlot (2004, p. 1) a violência se tornou igualmente um objeto de pesquisa e o desafio que se apresenta é tratar com rigor essa noção que compreende coisas muito diferentes. Nesse estudo, discutire- mos as violências que acontecem no interior do ambiente escolar, tendo como referencial teórico Charlot (2004), Leite e Marinho (2016) e Arroyo (2007). Miguel Arroyo (2007) focaliza que a categoria de “violentos” para os jovens e adolescentes que frequentam as escolas aparece como um novo parâmetro segregador na sociedade e nas escolas, o que nos remete, de forma intuitiva, a desigualdades sociais, este autor ainda nos alerta que essas violências estariam demonstrando uma fragilidade na proclamação da educação como direito de todos. Parto desses dados, das pesquisas e análises, e observo as reações de repúdio e até de espanto diante das violências, e diante, sobretu- do, de infâncias e adolescências tidas como infratoras. Concentro minha atenção nas reações da sociedade, da mídia, da academia, do campo do direito e das políticas sociais. (ARROYO, 2007, p. 2). O que justifica o problema dessa pesquisa é que, aparentemente, esse repúdio e espanto da sociedade às violências no ambiente escolar cometidas por jovens e adolescentes estudantes, não parece-nos distin- to do repúdio que os socialmente desiguais, fora das escolas, sofrem da massa dominante da sociedade que tem estabilizada sua estrutura social, familiar e financeira. Tendo em vista a desestabilização das concepções de educação, de formação e desenvolvimento humano, das funções do- centes e dos referentes teóricos, observado por Arroyo (2007), buscamos então responder as seguintes questões ao final dessa pesquisa: A crescente violência no interior das escolas brasileiras tem relação com a desigualda- de social? As atuais ações de prevenção e enfrentamento no interior das escolas tem surtido efeito? Buscamos assim identificar a relação da crescente violência no interior das escolas brasileiras, das últimas duas décadas, com a desi- gualdade social, para enfim poder conjecturar novas ações de preven- ção e enfrentamento pautadas nessa relação, tendo em vista que as atuais propostas de intervenção estabelecem mais mediação dos profissionais atuantes na segurança pública do que a mediação dos profissionais da educação. Com isso, elencamos dois objetivos específicos para tal estudo: 176 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 a definição dos tipos de violência no interior das escolas e o apontamento de possibilidades de prevenção e enfrentamento dessas violências, mais pautadas em processos educacionais do que em segurança pública. Este artigo será organizado em três partes. Na primeira discu- tiremos sobre os tipos de violência no interior das escolas. Na segunda parte, buscaremos relacionar a crescente violência no interior das escolas brasileiras com as desigualdades sociais para, na terceira parte, abordar algumas possibilidades de prevenção e enfrentamento dessas violências pautadas na possível relação das mesmas com a desigualdade social. 1 AS VIOLÊNCIAS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: DEFINIÇÕES De acordo com Charlot (2004), historicamente, a questão da vio- lência na escola não é tão nova e afirma que “[…] se a violência na escola não é um fenômeno radicalmente novo, ela assume formas que, estas sim, são novas.” (p. 1) e especifica que é preciso distinguir a violência na esco- la, a violência à escola e a violência da escola. Define que a violência na escola é aquela que se produz dentro do espaço escolar, porém não está ligada à natureza e atividades da instituição escolar, por exemplo: quan- do um grupo “entra na escola para acertar contas das disputas”, a escola é apenas o lugar de uma violência que aconteceria em qualquer outro local. Com relação à violência à escola, esta sim está ligadaà natureza e às atividades da instituição escolar, por exemplo quando os alunos pro- vocam incêndios, vandalismos, agridem os profissionais da instituição ou os insultam, ou seja, eles se entregam a violências que visam agredir diretamente a instituição e aqueles que a representam. Já a violência da escola, é caracterizada por “uma violência insti- tucional, simbólica, que os próprios jovens suportam através da maneira como a instituição e seus agentes os tratam” (p. 3), como os modos de distribuição das salas de aula, de atribuição de notas, palavras desdenho- sas e estigmatizadas direcionadas aos alunos que podem ser consideradas pelos alunos como injustas ou racistas. Bispo e Lima (2014) dizem que “a palavra violência é utilizada para nomear condutas diversificadas e, em termos linguísticos, comporta múltiplas possibilidades de significação.” (p. 2) e define-as de três formas, pelas quais elas podem manifestar-se. A primeira forma é a violência subjetiva, que seria a forma mais visível e refere-se à violência exercida “por agentes sociais determinados, como indivíduos considerados malévolos, aparelhos repressivos discipli- 177 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO nados e turbas fanáticas, passíveis de serem identificados como sujeitos do ato cometido.” (p. 3), ou seja, as agressões são visíveis por envolver o uso de uma força que excede determinados limites. Estes autores relatam que, ge- ralmente, essa é a única forma de violência destacada na escola, que inclu- sive são essas que viram manchetes, “expondo as fragilidades das estruturas sociais para conter os ímpetos agressivos de seus agentes.” (p. 3). A segunda forma de violência é a violência simbólica que, di- ferente da violência subjetiva, ela “apresenta-se de forma mais sutil nas palavras, nomeações, classificações e formas de utilização da linguagem” (p. 3). Muitas vezes estas nem são reconhecidas como violência, mas pro- duzem efeitos de uma forma traiçoeira e resultados catastróficos, ou seja, esse tipo de violência pode causar uma bola de neve de violências co- metidas pelas vítimas das violências simbólicas, por exemplo o Bullying. Fajardo et al (2006) também relaciona a violência simbólica aos atos de discriminação, preconceito e exclusão, “muitas vezes cometida pela pró- pria instituição educativa.” (p. 7), complementando que “a escola não é só o lugar onde explode a violência, ela participa, também, de sua gênese exercendo sobre os indivíduos algum tipo de pressão.” (p. 7). Bispo e Lima (2014) destacam a “diferença entre a violência fruto da desregulação social, de outra violência, mais ligada aos sentimentos de fracasso e humilhação dos segregados” (p. 12), demonstrando uma im- portante relação entre violência e disciplina, em que a “constituição dos alunos ‘violentos’ na escola pode ser pensada como pertinente à manu- tenção da ordem disciplinar.” (p. 12). Existe também a distinção, na ques- tão da violência, da agressão e a da agressividade, onde a agressividade é gerada por uma frustração que leva à angústia, já a agressão “é um ato que implica uma brutalidade física ou verbal” (CHARLOT, 2004, p. 4). Zequinão et al (2016), colabora com essa distinção, ao destacar que, por exemplo o bullying “sempre tem como objetivo ferir e magoar a vítima, ocorrendo principalmente de três maneiras: agressões físicas di- retas; agressões verbais diretas; e agressões indiretas.” (p. 3), violência esta claramente caracterizada como simbólica, devido a esse caráter de invisi- bilidade, como define Bispo e Lima (2014), na qual o agente da violência se torna mais difuso, o que dificulta a sua superação e prevenção, tendo em vista que a própria dinâmica escolar pode reforçar, em suas práticas disciplinares e administrativas, a proliferação desse tipo de violência. A terceira forma de violência definida por Bispo e Lima (2014) é a violência objetiva ou sistêmica, “sustentada pelos jogos de relações 178 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 sociais, políticas e econômicas, podendo ser demarcada no próprio dis- curso como referida à sustentação de laços de dominação e de explora- ção.” (p. 3). Observem que a violência objetiva, sustentada por laços de dominação envolvendo as relações sociais, como descreve Bispo e Lima (2014), já apresenta traços de relação com desigualdades sociais, logo mais discutidas com o aporte de Leite e Marinho (2016), que relatam que as “desigualdades de poder estabelecem a hierarquia das relações sociais, onde as classes dominantes procuram neutralizar qualquer atividade que possa desestabilizar a ordem dessa hierarquia social.” (p. 8). Além dis- so, Bispo e Lima (2014) afirmam que “a violência objetiva não deixa de lançar mão de diversos mecanismos de violência simbólica e, em muitas ocasiões, até da violência física direta contra determinados sujeitos, como parte das relações de dominação.” (p. 3). Apresentadas as definições dos tipos e formas das violências presentes no interior das escolas, buscaremos a seguir identificar se há relação da crescente violência no interior das escolas brasileiras com as desigualdades sociais. 2 RELAÇÃO ENTRE VIOLÊNCIA NO INTERIOR DAS ESCOLAS E DESIGUALDADES SOCIAIS Para iniciar nossa discussão sobre a relação das violências no in- terior das escolas com a desigualdade social, partiremos dos conceitos de desigualdades sociais, definidos por Leite e Marinho (2016), em que […] existem ao menos três tipos distintos de desigualdade: desi- gualdade vital; desigualdade existencial e desigualdade material. A mais comum dentre elas [...] é a desigualdade material. […] “Desigualdade existencial significa a negação de (igual) reconhe- cimento e respeito, e é um forte gerador de humilhações para [...] grupos étnicos estigmatizados”. (LEITE; MARINHO, 2016, p. 4 apud THERBORN, 2010, p. 146). Observem que a definição de desigualdade existencial, um dos principais tipos de desigualdades sociais definidos por Leite e Marinho (2016), implica na negação do igual reconhecimento e respeito, sendo “um forte gerador de humilhações para os negros, (amer-)índios, mu- lheres em sociedades patriarcais, imigrantes pobres, membros de castas 179 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO inferiores e grupos étnicos estigmatizados” (p. 4). Notemos que diante das definições dos tipos de violência no interior das escolas por Charlot (2004) e Bispo e Lima (2014), em especial a violência da escola ou insti- tucional, ligada às violências simbólica e objetivas (sistêmica) pudemos aproximarmo-nos do alcance dessa relação da crescente violência no in- terior das escolas com a desigualdade social, instaurada na sociedade. Diante da discussão externada sobre as violências simbólicas no interior das escolas, é pertinente afirmar que as mesmas implicam direta- mente na negação do igual reconhecimento e respeito desses jovens, adoles- centes e crianças por serem negros, ou pobres, ou pertencentes a quaisquer grupos étnicos estigmatizados, por exemplo a diversidade de gênero. Essa afirmação deixa explícito que esse tipo de violência se encaixa de forma precisa na presente definição de desigualdades sociais de Leite e Marinho (2016), diretamente ligada à desigualdade existencial. Os autores em seus estudos ainda exploram as relações conceituais de violência e desigualda- de social, ao detectar que as violências consideradas ataques relatados pela mídia, se apresentam como geradoras de “estratégias subversivas”, como formas de “sobrevivência imediata” (p. 8) dos jovens e adolescentes cujo reconhecimento e respeito lhe são negados no ambiente escolar, diante das violências simbólicas, ou seja: violência da escola. Isso implica que as violências cometidas por esses jovens, ado- lescentes e crianças são um produto advindo de situações de conflito e relações de poder (LEITE; MARINHO, 2016, p. 8) advindas das violên- ciassimbólicas sofridas no ambiente escolar. Neste sentido, Bispo e Lima (2014, p. 13) reflete que: […] Todas as contradições, conflitos de interesse, relações de po- der, discriminações, exclusões e formas de violência presentes na sociedade estão presentes também no interior das escolas. […] Os problemas sociais invadem as salas de aula, interferindo nos pro- cessos de aprendizagem escolar. E de que forma a instituição tem mediado esses problemas so- ciais, externados no interior das escolas e causando a violência à escola, definida por Charlot (2004)? Segundo Arroyo (2007, p. 8) temos na esco- la uma forma de exclusão que é “rejeitar, expulsar, não matricular alunos tidos como violentos”. Para Bispo e Lima (2014): 180 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 As nomeações dos alunos-problema pelos professores, como “vio- lentos”, “agressivos” ou “hiperativos”, por exemplo, fazem perpe- tuar a violência simbólica nas escolas e têm efeitos segregativos sobre os jovens, agravando as situações de conflito […] Essa ló- gica da inclusão/exclusão precisa ser repensada se almejamos en- contrar soluções para superar a violência na escola. […] (BISPO; LIMA, 2014, p. 15 – 16). Neste momento, diante da discussão apresentada, é pertinente afirmar que as diversas formas de exclusão, presentes no interior das es- colas, também “corroboram com a desigualdade: a exclusão permanece sendo um aspecto central do mundo contemporâneo” (LEITE; MARI- NHO, 2016, p. 5) e que esses processos de exclusão, observados no mundo contemporâneo, “não negam apenas o acesso ao trabalho (dinheiro para consumir), mas negam a própria condição de sujeito do indivíduo.” (p. 5). Arroyo (2007, p. 5) reflete sobre as possíveis consequências em aban- donar, de forma indefesa, os alunos tidos como violentos, nas violências extramuros das escolas ao expulsá-los da instituição. Ruotti (2010), na sua pesquisa de abordagem qualitativa, na qual foi utilizada a metodo- logia de estudo de caso, externa uma série de relatos que nos impulsiona a refletir criticamente inclusive sobre a organização e gestão das escolas, permeada por ações dos profissionais da educação culminando da ex- pulsão de alunos, mediante conflitos externados no interior das mesmas. Observem este relato: [Como a diretora é?] Conversa gritando com os outros, não sabe conversar normal. (aluno, 1º ano do ensino médio) [...] Ano pas- sado saiu aquela discussão com o professor, o professor chamou o aluno de lixo, daí acabou xingando ele, falando um monte de coisa e o aluno daí foi expulso. [...] Depois que o aluno foi expulso, a professora chegou na sala e começou a falar uma par do aluno, né? Aí o colega, esse moleque, o segundo que foi expulso, era colega dele e ele não aceitou a professora falar, aí começaram a xingar ela também, daí esse aluno acabou sendo expulso também. (aluno, 8ª série) […] Teve uma amiga minha que ela foi expulsa porque mi- nha professora gritou com ela, do lado dela gritou com ela, nisso que apertou o braço dela, ela já xingou, empurrou e enfrentou, entendeu? Ela foi expulsa da escola e tudo por causa disso. (aluna, 3º ano do ensino médio) […] (RUOTTI, 2010, p. 14). 181 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO É clara a utilização de um método de solução de conflitos “ex- pulsando os alunos tidos como violentos, jogando-os indefesos nas vio- lências das cidades.” (ARROYO, 2007, p. 5). É perceptível parâmetros de racionalidade administrativa para o alcance da eficácia da estrutura política, normas e regulamentos impessoais nas relações hierárquicas de autoridade, com rotinas e procedimentos padronizados. Sabemos que a gestão é protagonista da transformação da realidade escolar e que sua responsabilização e liderança são imprescindíveis na condução dos pro- fissionais do ambiente escolar na luta contra as expulsões e exclusões des- ses jovens do ambiente escolar, evitando a proliferação de desigualdade social no interior das escolas e alimentando essas desigualdades fora das mesmas, caracterizadas por Leite e Marinho (2016). Zequinão et al (2016) ainda corrobora com a relação da desi- gualdade e vulnerabilidade social com a violência simbólica, a qual é fundida de forma significativa pelo fenômeno bullying, que se manifesta não somente por agressividade, disputa de poder, competitividade. Es- tes autores descrevem que o Bullying vem sendo relatado na literatura, como a agressão sexual, a extorsão, ameaças e o cyberbullying, conside- rada violência mediante a agressão física ou moral ao apresentar quatro características: “intenção do autor em ferir o alvo; repetição da agressão; presença de público espectador; e concordância do alvo com relação à ofensa.” (p. 3). Deixam claro que o “fenômeno bullying” se diferencia de outras agressões pela intencionalidade e pela persistência, diretamente ligados a relações de desigualdades. Já foram apontados na literatura alguns fatores de vulnerabilidade social que podem favorecer o envolvimento no bullying escolar. Dentre eles, destacam-se: […] relações de desigualdade e baixo nível socioeconômico […] Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo descrever como ocorre o bullying em escolas de alta vulnerabilidade social […] (ZEQUINÃO et al, 2016, p. 5). Ao relatarem que esse tipo de violência, na qual o bullying é inse- rido, é fomentado pelas relações de desigualdade e baixo nível socioeco- nômico, podemos então notar que não somente a desigualdade existen- cial está inserida nos atos de violências constantes no interior das escolas, mas também a citada desigualdade material. Ao concordamos que a violência escolar é como um fenômeno sócio-histórico, “que não se limita aos muros da escola, mas que se cons- 182 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 trói em meio à realidade social mais ampla”, (KAPPEL et al, 2014, p. 11); ao entendermos que, segundo Vasconcelos (2017, p. 2), a escola frequen- temente é convertida em um verdadeiro laboratório de violências, a esco- la pode ser representada como o lugar da interação entre a casa e a rua, “dois espaços sociais básicos capazes de prover uma leitura sui generis da estrutura sociocultural brasileira”; e ao concordarmos que: […] A educação é um processo de formação humana, para além da transmissão de conteúdos formais. […] As transformações do laço social consequentes da época atual afetam as relações do alu- no com a escola e com os educadores […] Os jovens hoje buscam diferentes formas de laço social, marcados pela descentralização, horizontalidade, fragilidade e multiplicidade. A escola não pode manter-se alheia às transformações sociais. […] (BISPO; LIMA, 2014, p. 17). Notamos que existe um importante aporte teórico sobre os tipos e formas de violência no interior das escolas que indicam sua relação com a desigualdade social especificamente com a violência da escola (CHARLOT, 2004) e com a violência simbólica e objetiva (BISPO; LIMA, 2014). Para, então, identificarmos também a relação das desigualdades sociais com a violência à escola (CHARLOT, 2004) e com a violência subjetiva (BISPO; LIMA, 2014), cometidas pelos estudantes, discorreremos agora sobre o que a literatura sobre o tema aponta referente às causas que levam a estes atos cometidos por jovens, adolescentes e crianças no interior das escolas. Tendo em vista que este estudo também questiona se as atuais ações de prevenção e enfrentamento da violência no interior das escolas tem apresentado um impacto relevante, a discussão que segue se tam- bém se justifica em contribuir para a apresentação, no próximo tópico, de possibilidades de ações de prevenção pautadas nos indicativos que essa pesquisa apresentará com relação às causas desses ataques às escolas. Ruotti (2010) aponta que muitas das violências subjetivas, defini- das por Bispo e Lima (2014) e Charlot (2004), cometidas por alunos seria uma estratégia dos alunos tidos como “malsucedidos”que, ao perceberem “que apesar do seu esforço não conseguem obter resultados positivos. Estes se retiram do jogo, já que não podem ganhar.” (p. 13). O que nos remete exatamente à necessidade de reflexão, externada anteriormente, referente às consequências das constantes catalogações desses jovens, crianças ou adolescentes como violentos, infratores, bárbaros, normal ou anormal, sem 183 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO problemas ou com problemas, como reflete Arroyo (2007), estigmas estes embutidos pela violência da escola, definida e caracterizada por Charlot (2004) como uma violência institucional, simbólica que, mediante a litera- tura estudada, tem relação direta com a desigualdade social. Apresenta-se, então, a relevância em levantarmos a problemática que essas palavras desdenhosas e estigmatizadas direcionada aos alunos, caracterizadas como violência da escola ou institucional, podem perpe- tuar, tendo em visa que Arroyo (2007, p. 4) indaga: Como uma criança-adolescente ou um coletivo de crianças, adoles- centes ou jovens elabora o fato de ser catalogado como violentos, in- fratores, bárbaros em seus processos de conformação de identidades? Essas categorias de “normal-anormal, de aluno sem problemas ou com problemas” ligadas diretamente ao rendimento escolar, pela pró- pria instituição, serem utilizadas como referências sobretudo às qualida- des morais dos alunos, de suas famílias e de sua origem, causando uma exclusão social no meio escolar, implicando da negação de igual reconhe- cimento e respeito, geradora da desigualdade existencial. Buscando ainda as causas para os casos de violências hediondas no interior das escolas, Leite e Marinho (2016) colaboram com esta discussão ao explorar as possíveis relações conceituais entre desigualdades e violência a partir das noções de exclusão e estigma social, analisando a “importân- cia da violência num contexto social em que a desigualdade, exclusão e desqualificação social são marcas e praticamente fazem parte da dinâmica cultural do povo brasileiro.” (p. 7). Estes autores inclusive deixam claro que: […] é evidente que a proliferação de eventos violentos tem muito mais relação com exclusão social e desigualdade que com segu- rança pública, pois as ações violentas dizem respeito à manifesta- ção de um contexto específico: conflito social. (p. 8). Sendo assim, a relação da exclusão social e da desigualdade com os eventos violentos nos levam a questionar se as ações de enfrentamen- to se pautam em prevenir as causas das violências na escola e à esco- la (CHARLOT, 2004) ou se movimentam-se apenas em casos pontuais, como os relatados nas mídias, quando há agressão física, quando ateiam fogo na escola que frequentam ou atiraram em sujeitos do ambiente esco- lar, resultando em homicídios cometidos por alunos. 184 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Como já relatamos e comprovamos, a violência, então, surge como definidor de uma situação de conflito, como já apontou Leite e Marinho (2016, p. 8). Seguindo a linha destes autores, a violência é, portanto, uma das respostas possíveis a essas imposições, nas quais os “sujeitos se veem oprimidos, desafiados e excluídos” (p. 9). Constitui-se uma forma de linguagem que comunica a resistência a essas estruturas de socialização interiorizadas dentro das escolas, em que a violência se mostra como estratégias subversivas, em relação à violência simbólica ao qual estão expostos. Nesse sentido a violência foi apresentada como “uma ferramenta, ou instrumento, ou linguagem, utilizada pelos que já não podem falar” (p. 10), demonstrando que as desigualdades sociais estão interiorizadas no ambiente escolar. Concluímos então, como resultado dessa pesquisa bibliográfica, que as ações de prevenção devem, indiscutivelmente, pautar-se nas bases teóricas e educacionais que lutam contra as desigualdades, que visam per- mitir uma escola para todos, sem excluí-los, expulsá-los ou taxá-los como criminosos. Resultado esse que advém da presente articulação da atual lite- ratura sobre violência e sobre desigualdade social que demonstrou a clara relação da crescente violência nas escolas com as desigualdades sociais. Acrescentamos que essas ações de prevenção às causas dessas violências não podem deixar de lado uma formação adequada aos pro- fissionais atuantes no ambiente escolar, como aponta Ruotti ao compro- var ausência de formação e/ou capacitação do profissional da educação para lidar com conflitos, mediante relatos dos entrevistados. Gomes e Bittar (2021, p. 3) também aponta que “há queixas sobre ausência de formação e capacitação para professores, equipe pedagógica e a institui- ção escolar, no combate à violência no espaço escolar […]”, assim como Giordani, Seffner e Dell’aglio (2017, p. 7) ao concluir que: “Mostra-se necessária a formação dos professores e funcionários da escola para que sua presença sirva como proteção aos estudantes”, na busca de evitar que as vítimas revidem as ofensas sofridas nas formas, consideradas como ataques, relatadas pela mídia. A seguir, pautados nas conclusões já apontadas, apresentare- mos algumas reflexões sobre ações de enfrentamento já instaladas no ambiente escolas nas últimas duas décadas assim como possibilidades de prevenção e enfrentamento dessas violências articuladas à identi- ficada relação das mesmas com a desigualdade social impregnada no interior das escolas. 185 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO 3 POSSIBILIDADES DE PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA NO INTERIOR DAS ESCOLAS Nas mídias encontramos notícias referentes a diversos “ataques” em escolas feitos por estudantes ou por ex-estudantes que, nos levam a buscar as possíveis causas e refletir em como prevenir, evitar ou reduzir a ocorrência de casos que parecem estar em uma onda crescente nos últimos anos. A CNN Brasil (2023), listou um conjunto de casos que foram des- taques nacionais, entre 2003 e 2023, em que dos 16 episódios, 11 foram com armas de fogo e 14 em escolas públicas: “São Paulo/SP – março de 2023; Uma professora morreu, [...] após ser esfaqueada por um aluno em uma escola estadual [...].; Ipaussu/SP – dezembro de 2022; esfaquear duas pessoas e fazer outra de refém. […] vingança contra a diretora da escola [...] teve problemas há dez anos.; Sobral/CE – maio de 2022; Um aluno de 15 anos atirou em três estudantes de uma escola pública.[...] São Paulo/SP – março de 2022; Uma estudante de 12 anos foi esfaqueada por um colega de classe no Colégio Floresta […] O agressor era outro estudante, de 13 anos [...] sofria bullying.; Morro do Chapéu/BA – setembro de 2022; Um adolescente de 13 anos atacou a Escola Municipal Yeda Barradas Car- neiro, [...] ateou fogo no colégio e feriu a diretora com o uso de uma faca.; Barreiras/BA – setembro de 2022; Um estudante armado entrou na Escola Municipal Eurides Sant’Anna, [...] atirou contra dois alunos […] Caraí/MG – julho de 2019; [...] um aluno de 17 anos invadiu uma sala de aula da Escola Estadual Orlando Tavares no município mineiro de Caraí. Ele disparou e feriu dois estudantes.; Suzano/SP – março de 2019; Um ataque na Escola Estadual Raul Brasil [...] deixou dez mortos, incluindo os dois atiradores, e 11 feridos. [...] ex-alunos da instituição.; Medianeira/PR – setembro de 2018; Um estudante de 15 anos do ensino médio pegou uma arma e atirou nos colegas em uma escola estadual […] alvo de bullying na escola.; Goiânia/GO – outubro de 2017; Um adolescente de 14 anos matou a tiros dois co- legas e feriu outros quatro em uma sala de aula do Colégio Goyases [...] ele usou a arma da mãe, [...] sofria bullying [...]; São Caetano do Sul/SP – setembro de 2011 Um estudante de apenas 10 anos atirou na professora e se matou em seguida na Escola Municipal Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul, no ABC paulista. Ele usou uma arma do pai, um guarda civilmunicipal.[...] o menino era muito estudio- so, inteligente e calmo.; Rio de Janeiro/RJ (Realengo) – abril de 2011, [...] a tragédia em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, deixou 12 186 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 crianças mortas. O crime foi cometido por um ex-aluno de 23 anos que levou dois revólveres à Escola Municipal Tasso da Silveira e dis- parou contra os alunos, todos de 13 a 15 anos. (CNN BRASIL, 2023). O ANDES Sindicato Nacional destacou que desde o ano de 2002 já foram contabilizados 25 casos que deixaram 139 vítimas, sendo 46 fatais e que o ano de 2023 foi o que mais registrou episódios de violência com sete “ataques” a escolas, seguido por 2022 com seis ataques, e 2019 com três ca- sos. (ANDES SINDICATO NACIONAL, 2023). “Todos os dias deste mês de março a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc) recebeu en- tre seis a oito chamados em razão de crises no ambiente escolar.” (O POPU- LAR, 2023). No Jornal da USP (ANDRE DERVICHE, 28 de setembro de 2021), é informado que “Oito em cada dez jovens já presenciaram atos de violência nas escolas”, em entrevista com o professor Luiz Guilherme Dácar da Silva, que é membro do Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, o professor diz que o resultado mostra que o problema da violência é muito profundo e complexo apontando que a desigualdade so- cial e a violência estão unidas no ambiente escolar, em um tópico intitulado “Desigualdade Social e a Violência”. Esses casos indicam não somente o crescimento de casos de vio- lência no interior das escolas, mas a emergente necessidade de refletirmos sobre suas possíveis causas para propor métodos de prevenção e enfren- tamento com impactos relevantes, tendo em vista que a análise de Lopes e Rossato (2023) conclui que as atuais ações voltadas para essa realidade apresentam resultados duvidosos: Embora a efetividade do uso de policiais em escolas para redu- zir a violência possa ser fundamentada em teorias criminológicas como a das Atividades de Rotina, os poucos estudos de impacto disponíveis na literatura especializada indicam que esse tipo de política pública apresenta resultados duvidosos. (LOPES; ROSSA- TO, 2023, p. 4). Tendo em vista o crescimento de políticas de segurança nas esco- las, envolvendo controle social e câmeras, a presença de policiais não so- mente ao redor das escolas, mas no interior das mesmas, parece-nos que, mediante o crescimento dos casos, o “poder disciplinar para o controle social utilizado pela instituição escolar” (BISPO; LIMA, 2014, p. 13) não impediu as tragédias noticiadas nas mídias. 187 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO Considerando as formas de violências no interior da escola Ch- rispino e Gonçalves (2013) defendem “a necessidade de a escola conhecer o perfil da violência da qual é autora, vítima, palco e laboratório para a aprendizagem” (p. 3) a fim de conjecturar soluções públicas eficazes. Talvez esteja na hora de os formuladores de políticas públicas dei- xarem os “cantos das cordas”, onde se deixaram levar pelos sus- tos sistemáticos e pela indignação justa causada pelos fatos que se multiplicam, para protagonizarem ações proativas, buscando, no universo escolar, conhecer a realidade, quantificar, categorizar, modelar, propor soluções, avaliar resultados e re-planejar rotinas. (CHRISPINO E GONÇALVES, 2013, p. 4). Ou seja, defendem que o complexo problema da violência solicita uma “visão sistêmica, interdisciplinar e multissetorial, sem o que, não passará de esforços pontuais” (p. 5) caso não utilizarmos as ferramentas necessárias. Como os objetivos desse estudo não envolvem relatar detalhes de todas as ações de prevenção já colocados em prática, mas sim identificar se os impactos das mesmas e conjecturar novas possibilidades, pautadas nos resultados desse estudo, focaremos nessa última parte em apresentar apon- tamentos presentes na literatura pesquisada. Por exemplo: Lopes e Rossa- to (2023) relatam que foram implantadas uma variedade de iniciativas e programas de segurança pública voltados à sua prevenção, e sua pesquisa teve como objetivo avaliar o impacto do Escola Segura, implementado em maio de 2019. No qual o governo do Paraná contratou policiais militares da reserva ou reformados para atuar na prevenção da violência e de delitos nas escolas da rede estadual de ensino. Os resultados mostram que o Escola Segura não tem nenhum impacto nas variáveis analisadas. Gonçalvez e Spósito (2002), que apresentam iniciativas do Poder Público, como o Programa Paz nas Escolas inserido nas comunidades escolares, a partir de 2000, em 14 estados brasileiros que, embora estes autores sejam favoráveis a essas ações do poder público contendo inciati- vas envolvendo a área de segurança, o estudo evidenciou que o fato de os estabelecimentos de ensino terem adotado medidas de segurança ostensi- va não alterou, de forma significativa, as ocorrências analisadas. Já Chrispino e Dusi (2008) defendem modelos de políticas pú- blicas para redução da violência escolar, com o aspecto Cultura da Paz, sob a hipótese de que a massificação da escola, ao reunir alunos distintos e diferentes, naturalmente, provoca conflitos que não são trabalhados no 188 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 interior das escolas, acarretam as situações de violência. Seguindo essa linha, os autores apresentam são ações de gestão e de ensino que podem corroborar com a redução das violências, como a articulação dos agentes públicos na busca da proteção integral à criança e ao adolescente (p. 11) e o exercício do debate de temas que compõem o universo do aluno com ênfase na solução alternativa de conflitos, no valor da diversidade, no exercício da tolerância e na implantação da Cultura de Paz (p. 15). De acordo com Njaine e Minayo (2003), em relação ao comporta- mento violento, “muitos dos alunos que se queixaram de ser humilhados na família, na escola e na comunidade, também disseram agir da mesma forma com seus semelhantes reproduzindo o comportamento censurado […]” (p. 3), levantando que nenhuma prática isolada se constitui em uma mediação propriamente dita e destaca a importância de outras fontes de mediação, que levem em consideração “a própria cultura, a política, a economia, a classe social, o sexo, a idade, a etnia e os meios tecnológicos.” (p. 3), ao relatar que os dados quantitativos revelaram que, para todas as escolas, “a humilhação foi a forma de agressão mais sofrida pelos alunos, seguida dos furtos, ameaças e destruição de seus objetos.” (p. 3). Silva e Assis (2018) conclui em sua pesquisa que é notável a ne- cessidade de haver mais estudos que desenvolvam a temática da violên- cia em escolas e que avaliem ações de prevenção e enfrentamento desse fenômeno, justificando a presente pesquisa sob essa temática. Seguindo a mesma linha, Paula e Silva, e Salles (2010) defendem que é importan- te que os programas de prevenção à violência ampliem a reflexão sobre os diferentes aspectos presentes na violência escolar, assim como Kappel et al (2014) ao detectar a potencialidade da construção e fortalecimento do diálogo entre os diferentes atores da comunidade escolar e de uma rede de enfrentamento intersetorial. Da mesma forma Chrispino e Santos (2011) detectaram que a manifestação do conflito surge da diferença não trabalhada pela escola, indicado que os movimentos realizados no campo das políticas educacionais não devem medir esforços para definir e im- plantar uma escola pacífica e uma aula pacífica, envolvendo o contexto extramuros da escola nas atividades educativas das mesmas. Os resultados de Ruotti (2010) também indicam a existência de manifestações de violência próprias da realidade externa penetrando o interior das escolas, além do modo como essas manifestações interferem na conduta dos profissionais e agentes da educação, estimulando inclusive sentimentosde medo e insegurança entre os atores da escola. Esses senti- mentos acabam resultando na adoção de uma disciplina rígida, cujos efei- 189 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO tos evidenciam a produção de uma violência institucional, implicando nas exclusões e até expulsões. Relacionado a essa exclusão presente no interior das escolas, Chrispino e Gonçalves (2013) defende que a escola deve ser um espaço de proteção, aprendizagem e socialização, contribuindo para a resi- liência do aluno, adaptando-o às mais diversas adversidades presentes em seu meio e criar para essas crianças e jovens estímulos e condições para se tornarem atores influentes em seu próprio futuro. Njaine e Minayo (2003) corroboram com essa linha ao concluírem que escola e família são como fontes privilegiadas de mediações, capazes de possibilitar uma atuação am- pla no campo da prevenção da violência, sendo imprescindível que essas instituições caminhem juntas, buscando estabelecer uma relação respeitosa com os jovens. As autoras também evidenciaram a necessidade de a escola trabalhar como mediadora na reflexão crítica dos conteúdos sobre a vio- lência veiculados pelos meios de comunicação. Diante desses diversos resultados e conclusões, e dos tipos de violências que geram as violências que são noticiadas e levadas a público, ainda não detectamos quais as bases educacionais teóricas fundamentam a inserção de policiais no interior das escolas para mediar os conflitos. Será que a formação dos profissionais atuantes na segurança pública com- preende a mediação dos conflitos sociais ou disciplinares, relatados nessa pesquisa considerados as causas daqueles ataques relatados na mídia? É pertinente, então, defendermos que avanços no combate à pre- venção da violência no interior das escolas só são possíveis se pautarmo- -nos na avaliação de antigas ações, apontadas por diferentes autores, com posicionamentos distintos, para conjecturarmos novas ações. Até mesmo Gonçalves e Spósito (2002), que defendem medidas de caráter educati- vo e iniciativas relacionadas à área de segurança, revelam que iniciativas centradas exclusivamente na ação policial são frágeis. Isso porque mui- tos alunos são estigmatizados pela condição social de pobreza e, muitas vezes, pela origem étnica e, assim, acabam sendo tratados como virtuais criminosos e delinquentes. (p. 34). Finalizaremos este tópico, apresentaremos agora um conjunto de situações que não dão certo no enfrentamento da violência da escola, na escola e contra a escola, segundo Vasconcelos (2017). Segundo o autor, “não pode dar certo tratar essas consequências com mais violência, como as famosas humilhações públicas ou até castigos corporais que, no fundo, transmitem a mensagem de que o aluno é o culpado pelo seu sofrimen- to.” (p. 6). Aponta também, que uma alternativa que não dá certo é a instalação de câmeras em pontos estratégicos da escola, que é condenado 190 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 por especialistas que afirmam que essa estratégia negligencia o diálogo de toda a comunidade envolvida no ambiente escolar, podendo trans- formar-se em uma “arma” contra os alunos e professores, além de trazer prejuízo à socialização dos alunos. Outra prática que, segundo Varcon- celos (2017), não dá certo é, caso o aluno seja indisciplinado, rotulá-lo como um indivíduo mimado, preguiçoso, imaturo e coisas do gênero e diminuir a nota de sua prova, corroborando com a discussão apresentada sobre essa estigmatização do jovem e adolescente que não se comportou de forma esperada. Descreve ainda que muitos docentes e gestores ainda baseiam-se na punição e na eliminação, o que, “em vez de contribuir para extinguir o problema da violência, reforça-o” (p. 7). Nem polícia, nem instalação de câmeras de vídeos e nem detec- tores de metais serão eficazes como medidas de segurança nas es- colas. O problema da violência nas escolas não é exclusivamente uma questão de segurança. […] A maior arma contra a violência nas escolas é pedagógica e não policial. (FAJARDO et al 2006 apud CANDAU, 2001, p. 97). Pois, perpetuar a violência simbólica nas escolas com a inserção de policiais ou regras de controle social, diante dos resultados apresen- tados por este estudo, têm efeitos segregativos sobre os jovens, tornando mais graves as situações de conflito, como aponta Bispo e Lima (2014, p. 15). Levando em consideração a complexidade dos sujeitos, a ação pri- mordial detectada é a dedicação de esforços coletivos atribuídos a estes, nos impulsionando a buscar ações que compreendam a relação dessas violências com efeitos segregativos com as desigualdades sociais. 4 CONCLUSÃO Concluímos com esse estudo, diante da articulação da literatura levantada sobre o tema violência escolar, com recorte nas desigualdades sociais que a crescente violência nas escolas brasileiras apresenta relação direta com a desigualdade social, ao buscamos compreender os tipos de violência inseridas o interior das escolas. Tivemos também, como resul- tado dessa pesquisa, que atuais ações de prevenção e enfrentamento da violência no interior das escolas não tem apresentado um impacto rele- vante, mediante o crescimento dos casos considerados ataques às escolas, relatados pela mídia, diante do recorte temporal de 2003 a 2023. 191 VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES SOCIAIS NO INTERIOR DAS ESCOLAS: PREVENÇÃO E ENFRENTAMENTO Esses resultados se ancoraram primordialmente em Charlot (2004), Leite e Marinho (2016) e Arroyo (2007), mas com significativo aporte dos levantamentos bibliográficos de abordagem qualitativa dispo- níveis no portal SciELO e em revistas de pesquisa em educação. Diante desses resultados pudemos apontar possibilidades de prevenção e enfren- tamento dessas violências, pautadas em processos educacionais e relacio- nados à diversidade e cultura. Apontamos então a necessidade de uma reconfiguração das atuais ações de prevenção e enfrentamento formu- ladas até a atualidade, tendo em vista que não foi detectado na literatura levantada sobre o tema nenhum aporte teórico para o uso de medidas preventivas de caráter educativo relacionadas à área de segurança. Ou seja: a necessidade de mediação de policiais nos conflitos intramuros da escola, controle social, expulsão da escola ou prisão dos alunos que apre- sentaram comportamento violento não são apontados em nenhuma pes- quisa levantada até o momento. A constatação da relação dessas violências no interior das esco- las brasileiras com as ações institucionais, foi fomentada pela detecção de que os conflitos gerados por violências subjetivas, simbólicas e sistê- micas, por violências na escola, à escola e dá escola (CHARLOT, 2004), subjetivas e objetivas (BISPO; LIMA, 2014) na verdade são, numa parcela significativa, consequências da desigualdade social instaurada e impreg- nada não somente na sociedade, mas também no interior das escolas. Com isso esperamos que a ideia de infâncias tidas como infrato- ras, que vieram à tona, como expõe Arroyo (2007, p. 4), abra espaço para o debate de ações que entendam essas violências no interior das escolas como fruto da desigualdade social e não que tentem escondê-las ou ca- muflá-las, através da culpabilização dos jovens que, por serem vítimas das violências simbólicas e institucionais, acabam cometendo violências na escola e à escola em forma de defesa própria, por não suportar tama- nha covardia demonstrada pela violência da escola sendo estigmatizados, excluídos, culpabilizados, expulsos etc.. Cabe ressaltar que Charlot (2004, p. 6) afirma que a violência é distinguida da transgressão e da incivilidade, implicando que nem todo comportamento “grosseiro” ou fora dos padrões esperados pela “elite do- minante”, é uma violência que necessita da intervenção policial, principal- mente se ocorrida no interior de uma instituição que visa o ensino e a edu- cação. Além de detectarmos que “políticas públicas demais amplo do termo que, em certas condições, pode substituir a propriedade dos meios de produção como fator discriminante da nova divisão social, uma divisão semelhante, mas não idêntica, à atual subdivisão em classes. (SCHAFF, 1990, p. 49). A transformação da sociedade reflete de maneira direta na forma da qual o conhecimento deve ser construído, o aprendizado passa a ser cooperativo, onde todos os envolvidos devem contribuir para que a bar- reiras entre educador e educando sejam quebradas. Educar utilizando as TICs é um grande paradigma que deve ser superado, devem ser traçadas e desenvolvidas ações para viabilizar a re- solução desse problema. Essa realidade é contextualizada na análise de Moran (2001): Ensinar com novas tecnologias será uma revolução se mudarmos simultaneamente os paradigmas convencionais do ensino, que mantêm distantes professores e alunos. Caso contrário, consegui- remos dar um verniz de modernidade, sem mexer no essencial. (MORAN, 2001, p. 28). Nesta abordagem a informática passa a ter papel de destaque no aprendizado cooperativo, Fonseca (2006) destaca quatro formas de utili- zar a informática na aprendizagem. 24 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 ● A informática aplicada à educação que é o uso de aplicativos da informática em tarefas administrativas. A informática é usada para o gerenciamento da escola no sentido da organização. ● A informática na educação que se caracteriza pela utilização do computador através de softwares desenvolvidos para propiciar su- porte à educação. O aluno utiliza o computador para tirar dúvidas, fazer reforço, usando tutoriais ou mesmo consultando a internet; ● A informática educacional, onde o computador é utilizado como ferramenta para desenvolvimento de projetos em que gru- pos de alunos são orientados a desenvolver determinado tema, com o acompanhamento do professor; ● A informática educativa que se caracteriza pelo uso da infor- mática como suporte ao professor, como um instrumento a mais em sua sala de aula. (FONSECA, 2006, p. 59). Essas quatro abordagens possuem relevância no ambiente escolar e principalmente para o enfoque do aprendizado, sendo possível observar e entender a relevância da tecnologia como um dos atores principais na implantação das TICs. Para Almeida (2000, p. 61), “Tem-se estabelecido em um novo domínio da ciência que em seu próprio conceito traz embutida a ideia de pluralidade de inter-relação e intercâmbio crítico entre saberes e ideias”, essa é a ideia da utilização dessa alternativa pedagógica como fator indis- pensável para o bom rendimento do aluno. A correta utilização e a eficácia das TICs são pontos primordiais a serem discutidos, e neste sentido, Kenski (2003) relata que: Uma das soluções para esse impasse está na possibilidade de educa- dores também participarem das equipes produtoras dessas novas tec- nologias educativas. Para isso é preciso que os cursos de formação de professores se preocupem em lhes garantir essas novas competências. Que ao lado do saber científico e do saber pedagógico, sejam ofere- cidas ao professor as condições para ser agente, produtor, operador e crítico dessas novas educações mediadas pelas tecnologias eletrônicas de comunicação e informação. (KENSKI, 2003, p. 49-50). Portanto ao conciliar as tecnologias e a pedagogia nós passamos a ter um cenário mais organizado com o propósito de que o discente, pos- sa adquirir os conhecimentos que lhe é necessário. Lévy (1999) descreve da seguinte forma: 25 A TIC INSERIDA NO APRENDIZADO DE JOVENS: BENEFÍCIOS PARA A APRENDIZAGEM Não se trata aqui de utilizar as tecnologias a qualquer custo, mas sim de acompanhar consciente e deliberadamente uma mudança de civilização que questiona profundamente as formas institucionais, as mentalidades e a cultura dos sistemas educacionais tradicionais e, sobretudo, os papéis de professor e de aluno (LÉVY, 1999, p. 172). A interatividade entre as diversas tecnologias é a efetivação de um caminho repleto de novidades e possibilidades para o aprendizado é o cenário traçado nessa alternativa pedagógica. Segundo Silva (2003): A disposição interativa permite ao usuário ser ator e autor, fazendo da comunicação não apenas o trabalho da emissão, mas cocriação da própria mensagem e da comunicação. Permite a participação entendida como troca de ações, controle sobre acontecimentos e modificação de conteúdos. O usuário pode ouvir, ver, ler, gravar, voltar, ir adiante, selecionar, tratar e enviar qualquer tipo de men- sagem para qualquer lugar. Em suma, a interatividade permite ultrapassar a condição de espectador passivo para a condição de sujeito operativo. (SILVA, 2003, p. 02). Levy (1999) traz para a discussão a reflexão sobre os espaços de ensino-aprendizado, e sua importância na utilização das TICs: Devemos construir novos modelos de espaço dos conhecimentos. No lugar de uma representação em escalas lineares e paralelas, em pirâmides estruturadas em níveis, organizadas pela noção de pré-requisitos e convergindo para saberes superiores, a partir de agora devemos preferir a imagem de espaços de conhecimentos emergentes, abertos, contínuos, em fluxo, não lineares, se se orga- nizando de acordo com os objetivos ou contextos, nos quais cada um ocupa uma posição singular e evolutiva (LEVY, 1999, p. 158). Muitas discussões e debates acerca do tema têm sido realizados e nesse contexto educacional vale ressaltar a visão de Moreira (1999, p. 151), “Aprendizagem Significativa é um processo por meio do qual uma nova informação relaciona-se com um aspecto especificamente relevante da estrutura de conhecimento do indivíduo”. Outro ponto de reflexão é que através das TICs é possível gerar uma melhor interdisciplinaridade, pois o universo a ser explorado é expan- dido e diversificado, podendo o professor de uma disciplina ir ao encontro 26 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 do que foi planejado em outra. Fazenda (1999, p. 17) “parte do princípio de que nenhuma forma de conhecimento é em si mesmo racional”. Continuando a apresentar e discutir o papel das TICs no sistema educacional Sancho (2006), descreve que “a principal dificuldade para transformar os contextos de ensino com a incorporação de tecnologias diversificadas de informação e comunicação parece se encontrar no fato de que a tipologia de ensino dominante na escola é a centrada no profes- sor” (SANCHO, 2006, p. 19). Sancho (2006) ainda complementa o contexto de tecnologia e so- ciedade, afirmando que, “a maioria das pessoas que vive no mundo tec- nologicamente desenvolvido tem um acesso sem precedentes à informa- ção: isso não significa que disponha de habilidades e do saber necessários para convertê-los em conhecimento” (SANCHO, 2006, p. 18). A informação está disponível, mas é preciso o senso crítico e ana- lítico possibilitando que o educando entenda quais informações são uteis para o aprendizado. Mas para que a aquisição de conhecimento aconteça Formiga (2009) pondera que: A aquisição do conhecimento por meio de uma aprendizagem de conteúdos significativos tem relação determinante com o processo cognitivo de exercitar a imaginação, a memória, a criatividade e a capacidade de transferência para aplicar os conhecimentos na vida profissional e no mundo. (FORMIGA, 2009, p. 42). Torna-se necessário entender a realidade cultural do grupo de in- divíduos que vai ser colocado em sintonia com a metodologia de apren- dizado para que seja possível estabelecer as melhores estratégias para al- cançar em sua plenitude. Segundo Kass (1987): Alguns destes sistemas, mais elaborados, usam uma estrutura de árvore para direcionar o processo de ensino, em que a resposta do aluno a uma dada questão vai decidir qual dos ramos disponíveis que nesse nível vai ser seguido. (KASS, 1987, p. 59) Uma maneira de auxiliar o aprendizado através das Tecnologias de Informação e Comunicação são os tutores inteligentes, os quais seus objetivos,redução da violência escolar baseadas na alocação de policiais militares em escolas apresentam resultados no mínimo duvidosos.” (LOPES; ROSSATO, 2023, p. 16-17). 192 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Enfim, concluímos que as ações de prevenção contra as violên- cias devem fortalecer as relações entre a escola, os alunos e a comuni- dade, além de oferecer um maior preparo aos profissionais inseridos no ambiente escolar para mediar conflitos e combater todos os tipos de agressão, mesmo que institucional. Somente assim poderemos minimi- zar os efeitos dos fatores de risco aos quais essas crianças estão expostas, levando em consideração a presente a relação da violência no interior das escolas brasileiras com as desigualdades sociais e a da necessidade de reflexão sobre ações de prevenção pautadas causas da violência não noticiadas pela mídia. REFERÊNCIAS 2023 já é o ano com mais ataques em escolas, diz ONG. ANDES Sindicato Na- cional, 20 Jun. 2023. Disponível em: https://www.andes.org.br/conteudos/no- ticia/2023-ja-e-o-ano-com-mais-ataques-em-escolas-diz-oNG1#:~:text=O%20 epis%C3%B3dio%20soma%2Dse%20%C3%A0,e%202019%20com%20tr%- C3%AAs%20casos. Acesso em: 8 jul. 2023. Arroyo, M. G.. Quando violência infanto-juvenil indaga a pedagogia. Educação e Sociedade, [S.l.: s.n.], p. 787–807. 28 jun. 2007. Bispo, F. S. e Lima, N. L. de.. A violência no contexto escolar: uma leitura inter- disciplinar. Educação em Revista, [S.l.: s.n.], p. 161–180. 2014. 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"Rico é aquele que sabe ter o suficiente" (Lao Tze) _Hlk145860968 _35nkun2 _1ksv4uv _heading=h.gjdgxs _heading=h.3znysh7 _heading=h.2et92p0segundo Silva (2006), podemos descrever assim: 27 A TIC INSERIDA NO APRENDIZADO DE JOVENS: BENEFÍCIOS PARA A APRENDIZAGEM • Informações sobre o conhecimento atual do aluno e sua evolução; • Conhecimento do domínio que pretende ensinar; • Técnicas de transmissão do conhecimento, armazenado na sua base de conhecimento. Este sistema deve ainda ser capaz de se adaptar a uma dada ses- são de ensino, em função do conhecimento didático nele contido. (SILVA, 2006, p. 48). Com isso, a implantação das TICs é uma barreira que precisa ser superada, pois assim os resultados serão melhores e o contato professor/ aluno torna-se mais produtivo e saudável para ambos os lados. MÉTODO Como metodologia de pesquisa, empregou-se um levantamen- to bibliográfico acerca de alguns autores que desenvolveram referenciais teóricos e diversos estudos sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) no aprendizado de jovens, Dentre os teóricos, uti- lizaram-se conceitos e ideias dos seguintes autores: ALMEIDA (2000), BRASIL (1998), FAZENDA (1999), FONSECA (2006), FORMIGA (2009), KASS (1987), KENSKI (2003), LÉVY (1999), MORAN (2001), MOREIRA (1999), SANCHO (2006), SCHAFF (1995) e SILVA (2003). RESULTADOS E DISCUSSÃO Analisando todas as teorias apresentadas através dos textos dos di- versos autores, percebeu-se que as Tecnologias de Informação e Comunicação são essenciais para o nosso contexto de aprendizagem, onde os profissionais da educação precisam estar atentos à realidade da sociedade ao seu redor e realizar reflexões sobre o grupo de educandos que terão contato com o ensino. Em um mundo globalizado e massivamente conectado, a unidade escolar e seus colaboradores não podem ficar fora dessa interatividade. Os profissionais têm que avaliar as melhores ferramentas e metodologias dis- poníveis nas TICs para que seu plano de aula ou plano de trabalho esteja adaptado para atender as demandas daqueles que irão passar pelo processo. A implantação das TICs é uma oportunidade para que possamos desenvolver nos estudantes o maior envolvimento com os conceitos e prá- ticas mediados pelos docentes oportunizando uma efetiva aprendizagem. 28 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 CONSIDERAÇÕES FINAIS Podemos destacar como imprescindível o uso das Tecnologias de Informações e Comunicações como instrumento nas atividades de ensi- no, colocam ao dispor do aluno uma realidade de educação mais próxi- ma a sua realidade social, onde a tecnologia está presente em muitos dos espaços em que ele circula, seja através da utilização de equipamentos eletrônicos ou redes sociais. Contudo, utilizar as TICs é um fator natural e necessário, não sendo viável a instituição escolar ficar debatendo se deve ou não ser implantada, e sim definir os critérios e meios para que isso seja feito, o profissional da edu- cação precisa entender que essa é uma alternativa pedagógica de grande valia para suas atividades e que visa melhorar todos os procedimentos de ensino e aprendizagem. Demonstra ser evidente a relevância destas ferramentas, com isso, sua implantação e utilização deve ser estimulada nas unidades escolares. REFERÊNCIAS ALMEIDA, F.J.; Fonseca Junior, F.M. Projetos e ambientes inovadores. Brasília: Secretaria de Educação a Distância - Seed/ Proinfo- Ministério da Educação, 2000. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Na- cionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâme- tros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998. FAZENDA, Ivani Org. (1999). 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Para coleta de dados, primeiramente, embasamos em estudo bibliográfico, onde baseamos em artigos já publicados sobre o as- sunto, e em seguida realizamos a entrevista semiestru- turada com 5 estudantes guineenses da Unilab de entre 3º a 6º semestre. A nossa forma de análise se baseou na análise temática fundamentada por Minayo (2007). De acordo com o resultado da pesquisa, chegamos à conclusão de que a abordagem gramatical, ensino da base de gramática normativa, que predomina no ensino de Língua Portuguesa L2 na Guiné-Bissau e o ensino de gêneros textuais, no âmbito da escrita so- bretudo, ocupa pouco espaço. Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa na Guiné-Bissau; Estudantes guineenses. Gêneros tex- tuais; Escrita; Gramática escolar. 32 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 INTRODUÇÃO Oficialmente, a República da Guiné-Bissau é um país que fica situada na costa da África ocidental, com uma dimensão territorial de 36.125 Km² e uma população de aproximadamente 2 milhões de habi- tantes. Territorialmente, o país está limitado ao norte com a República do Senegal e a leste e ao sul com a República da Guiné Conacri. A leste é banhado pelo oceano atlântico onde “o mar territorial da República da Guiné-Bissau expande-se por 150 milhas marítimas a contar das princi- pais linhas de base definidas pelos pontos seguintes: a Norte: 12o 20’2’’ N e 16o 43’ 2’’ W; a Sul – 10o 35’ 8’’ N e 15o 4’ W” (ANEME, 2018, p. 11). Também faz parte do território da Guiné-Bissau o arquipélago dos Bijagós, formado por mais de 80 ilhas que em sua grande maioria são desabitadas. “O país é constituído por uma parte continental (com cerca de 470.000 ha – 15% do território considerados área protegida) e outra insular, que engloba o Arquipélago dos Bijagós, composto por 88 ilhas e ilhéus, dos quais somente 17 são habitadas.” (ANEME, 2018, p. 11). Figura 1 – Mapa da Guiné-Bissau Fonte: ANEME, 2018, p. 18. Da divisão administrativa, administrativamente o país está orga- nizado em 8 regiões e 1 setor autónomo (Bissau). As regiões estão divi- 33 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? didas em 38 setores, incluindo Bissau, e estes, por suas vezes, em secções compostas por tabancas (aldeias). A Guiné-Bissau foi colónia de Portugal e até chegou a ser uma província portuguesa. Tornou-se independente em 1973, mas Portugal só reconheceu essaindependência em 1974. É o primeiro País Africano de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a tomar independência, resultado de uma luta armada que durou 11 anos. Da forma do governo, a forma do governo é República semipresi- dencialista. As eleições legislativas acontecem de 4 em 4 anos para eleger os deputados da nação. No total, são eleitos 102 (cento e dois) deputados, sendo 100 (cem) eleitos no país e 1 (um) no círculo eleitoral da África e outro 1 (um) no círculo eleitoral da Europa. O partido que possuir a maioria absoluta, um total de 52 deputados, governa o país por um man- dato de 4 anos. A eleição presidencial acontece de 5 em 5 anos. Do sistema político: O sistema político da Guiné-Bissau caracteriza-se pelo multipar- tidarismo, com uma república semipresidencialista, numa demo- cracia representativa em transição, por meio da qual o presidente é chefe de estado e o primeiro-ministro é chefe de governo. Assim, o poder executivo é exercido pelo governo, enquanto o poder legislativo é investido, tanto pelo governo, como pela Assembleia Nacional Popular. O poder judicial, por seu lado, é independente dos poderes executivo e legislativo. Apesar do quadro democrático e constitucional, os militares têm interferido várias vezes na lide- rança civil desde que eleições multipartidárias foram instituídas em 1994. Nos últimos 16 anos, a Guiné-Bissau sofreu dois golpes de Estado, uma guerra civil, uma tentativa de golpe e um assassinato presidencial pelos militares. Nenhum presidente conseguiu cum- prir um mandato de 5 anos completo (ANEME, 2018, pp. 17- 18). Em atualização, vale ressaltar que pela primeira vez um presi- dente chegou ao fim do seu mandato de 5 anos no final de 2019, mas as instabilidades políticas e as tentativas de golpes de estado continuam a ser notícias nacionais e internacionais. Há bem pouco, no dia 1 de fevereiro deste ano de 2022 houve mais uma tentativa de golpes de estado, onde o presidente e o chefe de governo tiveram de fugir para não serem mortos. Da religião, “Religião: Étnicas (animistas) – 44,9%, Islâmica (suni- tas) – 41,9%, cristãos – 11,9% e outras (incluindo ateus) – 1,3%” (ANIME, 2018, p. 10). 34 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Da população, conforme ANEME (2018), a população da Guiné- -Bissau é composta por cerca de 30 etnias, que se localizam em regiões e setores específicos. No que diz respeito a faixa etária, o país possui uma população jovem em idade de trabalhar, como observa: Relativamente à estrutura etária da população, esta mostra dife- renças acentuadas entre os grupos etários, caracterizada por uma população jovem: a população com 0-14 anos é de cerca de 680,3 mil pessoas, representando 43,44% da população residente total. A população em idade de trabalhar (população entre os 15 e os 64 anos) é de 853,28 mil pessoas, representando aproximadamente 54,50% da população do País, enquanto que a população com 65 ou mais anos é de apenas 32,22 mil pessoas (2,06% da população). (ANEME, 2018, p. 15). Do sistema educativo, conforme a Lei de Base do Sistema educa- tivo guineense (LBSE), o sistema educativo da Guiné-Bissau é gerido pelo governo através do Ministério da Educação Nacional. Abrange educação formal e educação não formal. No seu artigo 8º afirma que: 1- A educação formal integra, sequencialmente, os ensinos pré- -escolar, básico, secundário, técnico-profissional, superior, ou- trossim, modalidades especiais e atividades para a ocupação de tempos livres. 2- A transição do aluno para qualquer ano de escolaridade na educa- ção escolar está sempre dependente da avaliação positiva das suas capacidades e do seu desempenho. (LBSE, 2010, p. 4). Segundo a mesma lei, “ a educação não formal [...] abrange todas as dimensões da ação educativa e tem por escopo expandir os conheci- mentos ou potencialidades dos seus destinatários, em complemento da formação formal ou em suprimento da que não poderem obter” (p. 3). Assim, entendemos que a educação não formal na Guiné-Bissau é toda e qualquer outra forma de educação que não seja a educação formal des- crita na lei, podendo esta substituir a educação formal onde ela não con- segue fazer presente. Lembrando que o governo não consegue oferecer educação formal para toda população guineenses, há tabancas que não tem escolas até hoje. Das línguas no país, no que concerne às línguas, o país possui várias línguas dentro do território nacional. Essas línguas são línguas de 35 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? diferentes grupos étnicos que compõe a população guineense. A ANEME (2018) relata que: Embora a língua oficial seja o português, apenas cerca de 27.1% da população fala a língua (primeira ou segunda língua). A grande maioria da população (90.4%) fala KRIOL, uma língua crioula baseada no português, enquanto os restantes habitantes fa- lam uma variedade de línguas africanas nativas. (p. 17). Mesmo sendo o crioulo a língua mais falada no país, a única lín- gua do ensino é o português. Assim, Scatamburlo (2013, p. 1) afirma que “apesar da importância do Crioulo Guineense como língua de comunica- ção, o ensino oficial continua a manter a língua portuguesa como única língua de ensino-aprendizagem”. Na mesma linha, Cá (2019, p. 15) relata que: “[...] o português de extração europeia sobrepõe-se a ambas catego- rias até aqui registradas [...]”. A Língua Portuguesa (doravante LP) tem um enorme prestígio no país, pois as pessoas que a dominam são capazes de conseguir um bom emprego e acessar lugares importantes em relação às pessoas que não conseguem comunicar em português. Porém, são poucas pessoas que sabem falar português como acima constatado. Para estudantes guineenses do Ensino Secundário (equivalen- te ao Ensino Médio do Brasil), com interesse de conseguir uma vaga na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (doravante UNILAB), domínio e conhecimento de estrutura de Língua Portuguesa é de muita importância. Estudante que tiver habilidade de comunicar e escrever fica mais fácil prosseguir nos seus estudos em nível superior nesta universidade, pois a principal prova de admissão é a re- dação. Apesar de toda essa relevância de LP para estudantes guineenses de ensino secundário, o ensino-aprendizagem de LP no país continua a desejar – eis o que nos motiva a fazer esta pesquisa. Este texto é recorte de uma parte da dissertação de um dos autores apresentada para obtenção do grau de mestre em Linguística Aplicada. Este trabalho tem como objetivo identificar o ensino de Língua Portuguesa L2 na Guiné-Bissau perante a necessidade de ensino de gêneros textuais, hoje em dia. Metodologicamente, é um estudo de caso com análise qualitativa. Para coleta de dados, primeiramente, embasamos em estudo bibliográfico que segundo Gil “ a pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos cien- 36 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 tíficos” (GIL, 2002, p. 44) e em seguida realizamos a entrevista semiestru- turada com 5 estudantes guineenses da Unilab de entre 3º a 6º semestre. O texto está composto de 6 seções a saber: 1) Introdução – fala- mos um pouco do contexto geral da Guiné-Bissau, país em pesquisa; 2) seção de Professor e ensino de Língua Portuguesa – debruçamos sobre a posição de professor de LP de hoje em dia com relação ao ensino de gê- neros textuais nas aulas de LP; 3) Afinal, como é o ensino de Língua Por- tuguesa L2 na Guiné-Bissau perante a necessidade de ensino de gêneros textuais? – nesta seção, a partir das literaturas já existentes, tecemos sobre ensino de Língua Portuguesa na Guiné-Bissau; 4) Metodologia - nesta seção, demonstramos o caminho que percorremos para coletar os dados, e assim como demostramos quem são os participantes da pesquisa. 5) Resultados e discussões – analisamos os dadosda entrevista e por fim 6) fechamos o texto com considerações finais. Passemos agora a falar do professor de Língua Portuguesa com relação ao ensino de gêneros textuais. PROFESSOR E O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Assunto sobre ensino de escrita nas escolas não é um assunto novo na academia, é um assunto já discutido por outros autores. Mas já que o nosso trabalho tem a ver com o ensino de gêneros textuais e devido a sua importância nas aulas de LP entendemos pertinente trazer esta seção. Ao longo desta seção teórica ficamos mais focados em demonstrar a importân- cia de produção escrita e uso de gêneros textuais em salas de aulas de LP. Muitas vezes, quando se fala de processo de escrita o que vem em mente é que os alunos devem saber escrever para poder responder cor- retamente sobre produções escritas, provas e outras atividades na escola. Isso é bom, mas é importante também levar em consideração que o ato de escrever transcende o meio escolar. Assim, concordamos que “ler e es- crever são atividades que desempenhamos constantemente, nas diversas situações do cotidiano, como na leitura e na escrita de e-mails, bilhete, listas de compras, embalagens, placas, avisos etc. São as práticas de lin- guagem em situação de uso” (SANTOS et al., 2012, p. 97). E concordamos ainda que “quando dominamos um gênero textual, não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares” (MARCUSCHI, 2008, p. 154). Acreditamos também que: 37 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? Do ponto de vista social, a escrita permite o acesso às formas de socialização mais complexas da vida cidadã. Mesmo que os alunos não almejem ou não se tornem, no futuro, jornalistas, políticos, advogados, professores ou publicitários, é muito importante que saibam escrever diferentes gêneros textuais, adaptando-se às exi- gências de cada esfera de trabalho. O indivíduo que não sabe es- crever será um cidadão que vai sempre depender dos outros e terá muitas limitações em sua vida profissional (CENPEC, 2021, p. 10). É claro que o nosso trabalho está mais focado na produção es- crita nas aulas de LP para facilitar aos estudantes a conhecerem melhor a estrutura de língua e poder se comunicar de forma escrita, mas com- preendemos que esses estudantes não estão e nem estarão ausentes na interação social do dia a dia. Por isso concordamos que nessa esfera so- cial, quem não tiver domínio de escrita não terá como enquadrar melhor em sociedade de grandes cidades e será sujeito a perder chances de bom emprego ou melhores condições de vida, uma vez que, na maioria das vezes, trato social nas grandes cidades é desenvolvido a partir de escrita que pode ser por exemplo: construção de um currículo para pedido de emprego, e-mail para pedido de informação formal em uma instituição etc. Neste caso, entendemos que “o texto, a interação verbal, comumente acrescida de outras sinalizações visuais ou sonoras, é que deve centrali- zar nosso empenho de ensino e aprendizagem” (ANTUNES 2014, p. 96). Desta forma, como afirmam autores a seguir, acreditamos que: Na ótica do ensino, os gêneros constituem um ponto de referência concreto para os alunos. Em relação à extrema variedade das prá- ticas de linguagem, os gêneros podem ser considerados entidades intermediárias, permitindo estabilizar os elementos formais e ri- tuais das práticas. Assim, o trabalho sobre gêneros dota os alunos de meios de análises das condições sociais efetivas de produção e de recepção dos textos. [...] Portanto, se os textos constituem, em nosso procedimento, os objetos concretos, empíricos, sobre os quais os alunos trabalham em sala de aula, o gênero de texto de- fine a unidade de trabalho que articula esses objetos em um todo coerente (DOLZ, et al., 2004, p. 144). Partindo deste pressuposto, entendemos que ensino dos gêneros nas escolas, sendo eles entidades intermediárias, o seu ensino é pertinente em todas outras disciplinas curriculares. Ou seja, o ensino baseado em 38 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 escrita não deve ficar somente limitado a uma só disciplina. Por exemplo: a disciplina de Língua Portuguesa ou outra similar. Deve fazer parte de todas outras disciplinas onde se pode fazer presente. Com aparição de várias literaturas, em toda parte do mundo, que exortam sobre trabalho com a escrita, os profissionais docentes não de- vem continuar a persistir em deixar de lado o ensino de escrita e promo- ver o ensino baseado somente em gramática normativa que muitas vezes é “inflexível” e que preocupa em constatar o errado e o certo, conforme recomenda a gramática normativa, o que pode inibir os alunos e dificul- tar o processo de ensino-aprendizagem (ANTUNES, 2003). Desta forma, quando realmente o profissional docente decidir trabalhar a escrita deve evitar de promover: [...] a prática de uma escrita artificial e inexpressiva, realizada em “exercícios” de criar lista de palavras soltas ou, ainda, de formar frases. Tais palavras e frases isoladas, desvinculadas de qualquer contexto comunicativo, são vazias do sentido e das intenções com que as pessoas dizem as coisas que têm a dizer. Além do mais, esses exercícios de formar frases soltas afastam os alunos daquilo que eles fazem, naturalmente, quando interagem com os outros, que é “construir peças inteiras”, ou seja, textos, com unidade, como começo, meio e fim, para expressar sentidos e intenções. Parece incrível, mas é na escola que as pessoas “exercitam” a linguagem ao contrário, ou seja, a linguagem que não diz nada. Nessa linguagem vazia, os princípios básicos da textualidade são violados, porque o que se diz é reduzido a uma sequência de frases desligadas umas das outras, sem qualquer perspectiva de ordem ou de progressão e sem responder a qualquer tipo particular de contexto social [...] (ANTUNES, 2003, p. 26). Mesmo ensinando sob a base de texto e produção escrita, será pre- ciso contextualizar os gêneros e não ter um único propósito de avaliar e atribuir notas. Indo nessa direção corroboramos com a ideia de que “[...] o professor deve abandonar a visão tradicional que condiciona o ato ex- clusivo de produzir o trabalho chamado propriamente de “redação” como sendo a única prática de escrita da vida escolar, e reconsiderar todas as atividades de escrita” (FERRAREZI JÚNIOR; CARVALHO, 2015, p. 19). Baseando nos autores, chegamos à conclusão de que os professo- res têm uma enorme responsabilidade em termos de tomadas de decisões em sala de aulas para promover o processo de ensino de escrita. Chega 39 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? à altura de professores serem autônomos e ensinar o que eles compreen- dem pode trazer mudanças significativas no processo de ensino apren- dizagem de Língua Portuguesa sobretudo, a partir de produção escrita, e não ficando presos às recomendações de ensino de língua somente da base gramatical. Isto porque conforme Gonzáles e Quevedo-Camargo (2017), ensino de gramática pela gramática, foco somente nas formas, não contribui na progressão do aluno porque o professor não leva em consideração a aprendizagem do aluno, está mais preocupado em cum- prir com o seu programa já pré-estabelecido. Desta forma, estendemos que, mesmo que ela venha a ser ensinada, “contextualizar a gramática é apenas uma estratégia metodológica de análise das funções que cada uma de suas categorias cumpre na construção dos sentidos do texto. É, portanto, parte de uma perspectiva que pretenda fazer do texto objeto de ensino-aprendizagem.” (ANTUNES 2014, p. 110). Contudo, apesar da responsabilidade que professes têm para pro- mover um ensino que dê mais espaço aos gêneros textuais, pela nossa experiência, temos que admitir que muitas vezes, os professores também são vítimasde determinados tipos de ensinos nas escolas. Proprietários de escolas (em caso de escolas particulares) e entidades governamentais ligados ao ensino (em caso de escolas públicas) podem contribuir para dificultar uma nova postura de ensino, a partir de parâmetros curricu- lares que condicionam os professores a cumprir. E nós entendemos que, como já vimos atrás, o ensino baseado em gramática, foco nas formas, não facilita o aluno a ter domínio de produção escrita, que, hoje em dia, faz parte de vida de alunos, quer na escola e assim como fora dela. Partindo deste pressuposto, passaremos a falar do que constamos sobre a atual abordagem de ensino de Língua Portuguesa na Guiné-Bissau. AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? Assunto sobre ensino de LP na Guiné-Bissau é alvo de debate por parte de muitos teóricos e pesquisadores guineenses. Apesar disso, pelo que se percebe, até nos dias de hoje, a forma de ensino de LP continua da mesma maneira e na mesma situação, desde anos 90. Por exemplo, uma pesquisa feita em 1996, para construção de dissertação de mestrado de pes- quisador guineense, revelou-se a inexistência de um método apropriado que possa facilitar o aluno a dominar LP. Assim, pesquisador afirma que: 40 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 Efetivamente não existe uma proposta concreta para o desenvol- vimento da escrita e oralidade do Português, que mostre como a pessoa pode aprender a usar o Português com habilidade. Assim, se o aluno vai à escola, por melhor que seja o professor de Portu- guês, por melhores que sejam os programas e os livros, mesmo imaginando que tivéssemos métodos e recursos mais sofisticados do ensino do Português no mundo, ele volta para casa, fala a sua língua, fala o Crioulo, não servindo o ensino para consolidar uma fluência comunicativa plena dentro do cotidiano do cidadão gui- neense. (SANI, 1996, p. 70). Na mesma direção, uma outra pesquisa realizada em 2017 retrata o que o outro pesquisador já observou há 20 anos, observando que “[...] essa situação pode ser justificada em função dos métodos que são usados no processo de ensino e aprendizagem nesses países – lembrando que a Guiné-Bissau herdou o sistema educacional colonial em que o português é ensinado só levando em conta a sua base gramatical.” (SILVA; SAMPA, 2017, p. 235). Ainda nessa mesma linha de pensamento é entendido que “[...] por outro lado, os professores guineenses continuam a fazer da frase a unidade a analisar, por excelência, na aula de LP, isto é, a única parte da gramática a levar em consideração no que concerne ao ensino do Portu- guês.” (BALDÉ, 2013, p. 76). Até aqui, entendemos que a preocupação dos pesquisadores, aci- ma citados, é a mesma. O cerne da questão é sobre como ensinar a LP nas escolas guineenses para que os alunos possam falar e escrever nessa língua com fluência. Sobre a concentração de ensino de LP em gramática normativa, esse assunto nos parece que é de conhecimento de muitos estudantes e pesquisadores guineenses. A expectativa de que ao ensinar a gramática os alunos vão dominar a falar e escrever em LP não está sendo verificada. O ensino é de base gramatical, mas os alunos não conseguem dominar a gramática e ainda continuam a ter dificuldades em expressar suas ideias de forma oral e escrita em LP. Neste caso, entendemos que todos (gover- no, gestores de escolas, professores, pais) devem estar envolvidos na res- significação do processo de ensino-aprendizagem de LP na Guiné-Bissau. Desta forma, corroboramos com a ideia de que: Para alterar esse quadro negro do rendimento dos alunos em LP, a vontade, o empenho e querer mudar, por parte do corpo docente e das instâncias políticas, são de extrema necessidade. Quer dizer, é 41 AFINAL, COMO É O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA L2 NA GUINÉ- BISSAU PERANTE A NECESSIDADE DE ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS? urgente que haja uma vontade política para um investimento sério na formação de professores com vontade de trabalhar e inverter essa tendência desanimadora na qual estamos mergulhados. A es- cola deve assumir compromisso de procurar garantir que a sala de aula seja um espaço onde cada aluno tenha direito à palavra, reco- nhecido como legítimo e essa palavra seja valorizada no discurso do outro (BALDÉ, 2013, p. 76). Assim, entendemos que uma nova proposta de ensino de LP no país, que leve em consideração a produção escrita, possa fazer diferença, já que a proposta herdada, ensino de LP baseado em gramática escolar, nos parece que não está funcionando. Neste caso, acreditamos que o uso de gêneros textuais pode ser uma alternativa plausível, pois “[...] o traba- lho escolar, no domínio da produção de linguagem, faz-se sobre os gêne- ros, quer se queira ou não. Esses constituem o instrumento de mediação de toda estratégia de ensino e o material de trabalho, necessário e inesgo- tável, para o ensino da textualidade” (SCHNEUWLY, et al. 2004, p. 44). Nesse mesmo âmbito, entende-se que: “em outros termos, a comunicação verbal só é possível por algum gênero textual no trato sociointerativo da produção linguística” (MARCUSCHI, 2008, p. 154). São essas e mais outras teorias que vem demonstrando, esta ques- tão, de que é preciso considerar os textos no processo de ensino de língua. E nós acreditamos que o ensino de LP baseado somente na gramática pode ser um dos problemas que impede o avanço de ensino-aprendiza- gem em LP na Guiné-Bissau, pois, mesmo sendo considerado o ensino de base gramatical, até agora, continua a existir problema de comunicação por parte dos alunos. Ademais, A falta de domínio do português assume assim uma relevância crítica e estrutural no funcionamento do sistema, com incidência negativa na qualidade dos serviços prestados e no relacionamen- to entre a escola e os alunos. O domínio deficiente do português, tanto pelo professor como pelos alunos, gera uma situação de falta de comunicação nas escolas, que se alia à inibição e ao alheamento que resultam, sem dúvida, nos elevados níveis de insucesso escolar que tanto marcam o ensino guineense (BALDÉ, 2013, p. 38). Desta forma, percebemos que os professores têm um papel fun- damental nesse processo. Devem evitar de posicionar como donos de sa- las de aulas, como acontece em alguns casos: 42 EDUCAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS – VOLUME 2 O professor do ensino primário e secundário da Guiné-Bissau mostra-se tradicionalmente como o único conhecedor da matéria que ele ensina. Ele é tido como o responsável pela aprendizagem do aluno, dono do conhecimento, não abrindo oportunidades ao aprendente de aproveitar ao máximo que puder a sua aprendiza- gem. Essa postura e perfil tradicional contrasta com o que toma- mos contemporaneamente como válido e desejável, a saber, que o aluno tenha condições para ser em parte co-responsável por seus estudos (SANI, 1996, p. 70). Neste caso, entendemos que o professor guineense deve ter em mente que o conhecimento é construído em conjunto com os alunos. Não se deve posicionar como dono de todo conhecimento, pois “[...] os princípios são o fundamento em que o professor vai apoiar-se para criar suas opções de trabalho. O novo perfil do professor é aquele do pesqui- sador, que, com seus alunos (e não, “para” eles), produz conhecimento, o descobre e o redescobre. Sempre.” (ANTUNES, 2003, p. 36). Concluímos que o ensino de LP na Guiné-Bissau continua a ser de base gramatical. Ou seja, a gramática normativa é usada como o prin- cipal material para desenvolvimento de aulas. Por outro lado, percebemos que os professores, enquanto educadores, precisam de formação contínua que possa lhes ajudar a reformular, sempre que possível, as suas metodo- logias de ensino. Concordamos que, até certo ponto, a gramática deve ser ensinada. Porém, é preciso adotar outras visões de ensino que não fiquem presas somente na forma. Desta forma, corroboramos a ideia