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A RELAÇÃO DE TRABALHO AULA 3 Profª Karla Knihs 2 CONVERSA INICIAL Olá! Bem-vindo a nossa aula. Continuaremos estudando os princípios inerentes ao Direito do Trabalho. Aos estudos desta aula, você precisará aliar a matéria estudada anteriormente, que também tratou dos princípios do direito do trabalho. Estudaremos, em seguida, as relações de trabalho e as relações de emprego, os sujeitos da relação de emprego e a legislação que permeia essas relações. Dentro do universo das relações jurídicas, encontram-se as de trabalho e as de emprego. A relação de emprego é uma espécie de relação de trabalho, e o operador de Direito deve estar capacitado a atuar preventivamente, a fim de evitar passivos trabalhistas e prejuízos à empresa, ou, também, na proteção de Direito do trabalhador, seja ele empregado ou não. Veja como se dá a classificação: Figura 1 – Classificação da relação de trabalho e de emprego Conforme se depreende do esquema apresentado, a relação de trabalho tem caráter genérico. “Refere-se a todas as relações jurídicas caracterizadas por terem sua prestação essencial centrada em uma obrigação de fazer, consubstanciada em labor humano” (Godinho, 2013, p. 277). É toda modalidade de contratação do trabalho humano modernamente admissível. A expressão englobaria: a relação de emprego; relação de trabalho autônomo; relação de trabalho eventual; trabalho avulso, estágio etc. Já a relação de emprego é uma das modalidades jurídicas específicas de relação de trabalho. Relação de trabalho = gênero Relação de emprego = espécie 3 Vamos estudar as relações trabalhistas, nos moldes previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que sofreu inúmeras alterações recentemente. Bons estudos! Mas antes considere a seguinte situação: Mário, empresário, necessita contratar um funcionário para a sua empresa de marketing que crie campanhas publicitárias, e faz um anúncio nos classificados, especificando todas as informações e solicitando aos interessados que enviem seus currículos via e-mail indicando a pretensão salarial. José se interessa pelo emprego, remete seu currículo e é chamado para uma entrevista, sendo aprovado após o devido processo de seleção. Contudo, é informado que Mário não conseguirá remunerá-lo dentro de sua pretensão salarial, pois, com os acréscimos dos encargos sociais, o valor mensal a ser desembolsado ficaria muito alto. Assim, Mário sugere contratar José sem a anotação de sua CTPS, para que assim não incida os encargos sociais. Propõe que o autor trabalhe mediante a constituição de uma PJ – pessoa jurídica. José o procura, perguntando se é possível tal contratação, questionando acerca da sua legalidade. Não precisa responder agora. Vá para o conteúdo teórico desse tema e, ao final, retomaremos essa questão. TEMA 1 – PRINCÍPIOS DO DIREITO DO TRABALHO: PRINCÍPIO DA IRRENUNCIABILIDADE Também chamado de princípio da indisponibilidade, preceitua que, ao empregado, é vedado dispor de seus direitos assegurados pela ordem jurídica. A renúncia pode ser definida como o ato unilateral do empregado que desiste de algum direito assegurado por lei. Conforme salienta o professor Maurício Godinho Delgado (2015, p. 205): a indisponibilidade inata aos direitos trabalhistas constitui-se talvez no veículo principal utilizado pelo Direito do Trabalho para tentar equalizar, no plano jurídico, a assincronia clássica existente entre os sujeitos da relação socioeconômica de emprego. Como exemplo, podemos imaginar que o trabalhador assine um documento renunciando suas férias. Se isso ocorrer, a renúncia não terá 4 qualquer validade, e o trabalhador poderá reclamar o seu pagamento, em dobro, na Justiça do Trabalho. Assim preceitua o art. 9º da CLT: “serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação”. Além disso, o art. 444 da CLT diz que As relações contratuais de trabalho podem ser objeto de livre estipulação das partes interessadas em tudo quanto não contravenha às disposições de proteção ao trabalho, aos contratos coletivos que lhes sejam aplicáveis e às decisões das autoridades competentes. Por tudo, temos que o princípio da irrenunciabilidade dos direitos garante a nulidade de todo ato destinado a fraudar, desvirtuar ou impedir a aplicação da legislação trabalhista, só sendo permitida a alteração nas condições de trabalho com o consentimento do empregado e, ainda assim, desde que não lhe acarretem prejuízos, sob pena de nulidade. Não pode o trabalhador concordar, portanto, com o pagamento de salário inferior ao piso, ou com a não remuneração de horas extras, por exemplo. É importante ressaltar que existe diferença entre renúncia e transação. Transacionar significa realizar acordos e, em alguns casos, a Justiça do Trabalho aceita que haja não a renúncia de direitos, mas sim a realização de acordo entre empregado e empregador para que se possa colocar fim a um litígio de forma amigável e consensual. Vamos pensar num caso concreto: imagine que um trabalhador ajuizou uma ação na Justiça do Trabalho pedindo os depósitos de FGTS que não foram feitos, e dano moral. Empregado e empregador celebram acordo em que o trabalhador abre mão dos depósitos do FGTS, e concorda em receber R$ 2.000,00 (dois mil reais) a título de danos morais. Será que o juiz deve homologar o acordo? No caso, o juiz pode se negar a homologar tal acordo, pois ele, além de prejudicar o trabalhador, prejudica a sociedade. Assim, embora seja possível realizar acordo na Justiça do Trabalho, as partes e o juízo devem levar em consideração que bens estão sendo discutidos. Não se pode transacionar, ou seja, realizar acordos se se tratar de direito absolutamente indisponível. No caso de direito relativamente disponível, é possível transacionar. A matéria ainda é controvertida, sendo objeto de debate nos tribunais. Contudo, a Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) trouxe ao Processo do 5 Trabalho a possibilidade de as partes optarem por jurisdição voluntária para homologação de acordo extrajudicial. Esta foi regulamentada entre os arts. 855-B e 855-E da CLT. Anteriormente à Reforma Trabalhista, apenas se admitiam a realização de acordos para solução de conflitos nas ações trabalhistas em curso. A partir da alteração da legislação, as partes podem requerer ao juízo a homologação de um acordo negociado extrajudicialmente: Art. 855-B. O processo de homologação de acordo extrajudicial terá início por petição conjunta, sendo obrigatória a representação das partes por advogado. § 1º As partes não poderão ser representadas por advogado comum. § 2º Faculta-se ao trabalhador ser assistido pelo advogado do sindicato de sua categoria. Art. 855-C . O disposto neste Capítulo não prejudica o prazo estabelecido no § 6º do art. 477 desta Consolidação e não afasta a aplicação da multa prevista no § 8º art. 477 desta Consolidação. Art. 855-D. No prazo de quinze dias a contar da distribuição da petição, o juiz analisará o acordo, designará audiência se entender necessário e proferirá sentença.’ Art. 855-E. A petição de homologação de acordo extrajudicial suspende o prazo prescricional da ação quanto aos direitos nela especificados. Parágrafo único. O prazo prescricional voltará a fluir no dia útil seguinte ao do trânsito em julgado da decisão que negar a homologação do acordo. Frise-se que, mesmo com a alteração legislativa da Reforma, não existe a obrigatoriedade de que a Justiça do Trabalho homologue todo e qualquer acordo extrajudicial firmado entre empregados e empregadores. O juiz, no caso concreto, irá analisar se o acordo é razoável e se não se está cometendo fraude. Outra questão importante envolvendo a matéria e a Reforma Trabalhistadiz respeito à figura do trabalhador hiperssuficiente, prevista no art. 444 da CLT: Art. 444. [...] Parágrafo único - A livre estipulação a que se refere o caput deste artigo aplica-se às hipóteses previstas no art. 611-A desta Consolidação, com a mesma eficácia legal e preponderância sobre os instrumentos coletivos, no caso de empregado portador de diploma de nível superior e que perceba salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social. Trata-se da possibilidade de que os trabalhadores com faixa salarial elevada e portadores de diploma de nível superior possam negociar condições de trabalho menos benéficas quando comparadas com os direitos trabalhistas previstos na legislação, exceto no que se refere aos direitos garantidos pela Constituição Federal. 6 Esse dispositivo tem dado margem a inúmeras discussões, pois, no caso, a hiperssuficiência do trabalhador é de natureza econômica e técnica, permanecendo, contudo, a chamada hipossuficiência jurídica. TEMA 2 – PRINCÍPIOS DO DIREITO DO TRABALHO: PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE DA RELAÇÃO DE EMPREGO Refere-se à permanência do vínculo empregatício, com a integração do trabalhador na estrutura e dinâmica empresariais. Assim, por esse princípio, dá- se preferência aos contratos de trabalho por tempo indeterminado, sendo que os contratos por prazo determinado só podem ser celebrados quando houver expressa previsão legal. Esse princípio atribui à relação de emprego a mais ampla duração, impedindo as despedidas nos casos de estabilidade, impedindo, também, o rebaixamento de função. O princípio é mais uma garantia que o trabalhador tem em relação a seu emprego e encontra amparo tanto constitucional quanto do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Conforme a Constituição Federal: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: I – relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos; Ainda, nos termos da Súmula n. 212 do TST, “o ônus de provar o término do contrato de trabalho, quando negados a prestação de serviço e o despedimento, é do empregador, pois o princípio da continuidade da relação de emprego constitui presunção favorável ao empregado”. Por fim, o Direito do Trabalho garante, inclusive, a continuidade da relação de emprego quando haja sucessão de empregadores, nos termos dos arts. 10 e 448 da CLT: Art. 10 - Qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa não afetará os direitos adquiridos por seus empregados. Art. 448 - A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados. A continuidade da relação de emprego se presume, portanto, sendo ônus do empregador provar que houve a rescisão contratual. Por exemplo: vamos imaginar que o empregado tenha sido contratado para trabalhar, constando do 7 contrato que a experiência seria de 30 dias. Caso o empregado ultrapasse os 30 dias, se considera que o contrato de trabalho deixou de ser por tempo determinado (experiência), tendo se convertido em contrato de trabalho por prazo determinado. Se o empregador não celebra contrato de experiência, se considera que é por tempo determinado desde o início. Pode ocorrer que o empregado deixe de comparecer ao trabalho durante o contrato de trabalho. Imagine que isso ocorreu na empresa em que você presta assessoria jurídica. Um dos sócios te procura para saber qual deve ser a atitude do empregador para evitar passivo trabalhista. Nesse caso, o que você responderia? TEMA 3 – DEMAIS PRINCÍPIOS RELEVANTES DO DIREITO DO TRABALHO Além dos princípios basilares apresentados, o Direito do Trabalho se arvora nos seguintes: Princípio da primazia da realidade sobre a forma: refere-se à prevalência da realidade/prática concreta ao longo do contrato, independentemente da forma contratada. Assim, deve ser dada preferência à realidade fática verificada na prática da prestação de serviços em vez de ao que possa se depreender de documentos, quando houver discordância entre fatos e documentos. Por exemplo: o cartão- ponto foi registrado sempre no mesmo horário, todos os dias, com entrada às 08:00 e saída às 17:00. Tendo em vista ser impossível que o empregado tenha cumprido exatamente esse horário durante todo o contrato de trabalho, o que vale é o fato, que pode ser comprovado por testemunha, por exemplo, e não o cartão-ponto. Princípio da intangibilidade salarial: o salário merece garantia de modo a assegurar o seu valor, montante e disponibilidade em benefício do empregado. Ainda, o salário possui caráter alimentar, sendo vedada a redução salarial. O salário não pode sofrer descontos que não sejam legalmente permitidos, nos termos do art. 462 da CLT: “Art. 462 - Ao empregador é vedado efetuar qualquer desconto nos salários do empregado, salvo quando este resultar de adiantamentos, de dispositivos de lei ou de contrato coletivo”. Essa disposição pode ser flexibilizada por negociação coletiva, nos termos do art. 7º, VI, CF/88: “Art. 7º São direitos 8 dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: [...] VI - irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo”. Princípio da preservação da empresa: é a forma moderna da concepção das relações trabalhistas, em que se busca a harmonização de interesses entre empregado e empregador. Diz respeito ao “não comprometimento da viabilidade da empresa como unidade produtiva de bens e serviços para a sociedade geradora de renda e emprego para os trabalhadores” (Martins Filho, 2010, p. 69). Princípio da isonomia: significa tratar com igualdade os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades. O art. 5º da CF/88 traz algumas regras que refletem esse princípio, tais como: liberdade de exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, liberdade sindical, direito de greve, representação dos trabalhadores na empresa etc. O art. 7º da CF/88, por sua vez, traz algumas das hipóteses de tratamento isonômico: equiparação entre trabalhadores urbanos e rurais; não discriminação por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil quanto a salários, funções e contratação; não discriminação ao trabalhador portador de deficiência; não discriminação entre trabalho intelectual, técnico e manual; igualdade de direitos entre trabalhador com vínculo empregatício e trabalhador avulso etc. O Direito Internacional do Trabalho também garante a isonomia na Declaração da OIT sobre os princípios fundamentais no trabalho, proibindo o trabalho forçado e o trabalho infantil, garantindo liberdade sindical e a igualdade de remuneração e não discriminação. Princípio da boa-fé: norteia todas as relações contratuais, não só no Direito do Trabalho. Pode ser descrita como a intenção moralmente reta no agir, estabelecendo um padrão ético de conduta para as partes nas relações obrigacionais. TEMA 4 – RELAÇÃO DE TRABALHO X RELAÇÃO DE EMPREGO: CARACTERÍSTICAS DA RELAÇÃO DE EMPREGO Dentro da diversidade de relações jurídicas existentes, é necessário compreender que, nas relações de trabalho, há um vínculo jurídico genérico pelo 9 qual uma pessoa presta serviços a outrem, enquanto a relação de emprego é uma espécie de relação de trabalho. Assim, aqui vale a máxima: “todo empregado é trabalhador, mas nem todo trabalhador é empregado” (Romar, 2019, p. 117). Assim, por questão metodológica, vamos estudar primeiro a relação de emprego, e, nas próximas aulas, as relações de trabalho (autônomo, eventual, temporário, estagiário, entre outros). Figura 2 – Relação de trabalho x Relação de emprego A Consolidaçãodas Leis do Trabalho elenca, na combinação dos arts. 2º e 3º, os requisitos fáticos e jurídicos da relação de emprego. Conforme se depreende do art. 3º da CLT, para que se configure a relação empregatícia, é necessário que estejam presentes cinco requisitos. São eles: 1. Pessoa física; 2. Pessoalidade; 3. Subordinação jurídica (dependência); 4. Habitualidade (não eventual); 5. Onerosidade (salário). Vamos analisar cada requisito separadamente: 4.1 Pessoa física: prestação de trabalho por pessoa física a um tomador qualquer: a figura do empregado é sempre uma pessoa natural Para a existência de vínculo empregatício, há a necessidade de que o empregado seja pessoa natural, ou seja, não pode ser pessoa jurídica. 10 Perceba que a contratação de uma pessoa jurídica para a prestação de serviços é permitida, mas a relação não será de caráter trabalhista, mas sim civil. Com a recente reforma trabalhista, houve a criação de uma figura até então inexistente nas leis do trabalho, o chamado autônomo exclusivo. Trata-se de um profissional que poderá prestar serviços de forma contínua e para uma única empresa sem que isso seja caracterizado como vínculo empregatício. Entretanto, nessa modalidade de contrato, não existe o requisito da subordinação, razão ela qual não se trata de vínculo empregatício. Exemplo: imagine que determinada pessoa possua um caminhão e que, devido à crise, esteja muito difícil conseguir fretes. O trabalhador poderá oferecer seus serviços a uma transportadora, firmando um contrato como autônomo. Esse contrato, por falta de subordinação, não torna a pessoa um empregado da transportadora. Assim, o próprio dono do caminhão passa a escolher seu horário de trabalho, não recebendo ordens diretas da empresa. Mas atenção! Nessa hipótese, é necessário que o trabalhador possua total independência, sob pena de se configurar o vínculo empregatício. 4.2 Pessoalidade: empregado não pode se fazer substituir por outra pessoa Conforme vimos, a contratação de Pessoa Jurídica para prestação de serviços é permitida pela lei, mas não é a lei trabalhista que trata de tais relações e sim a lei civil, pois nesse caso teremos duas empresas negociando, e não empresa e pessoa física, como no contrato de trabalho celetista. Assim, quando a relação envolver duas pessoas jurídicas, pode o responsável pela Pessoa Jurídica prestadora enviar quem ele quiser para prestar aquele serviço, já que não existe a pessoalidade. Contudo, para a caracterização do vínculo empregatício, é necessário que haja pessoalidade, ou seja, o empregado não pode mandar outra pessoa para trabalhar em seu lugar, não podendo o empregado se fazer substituir por outra pessoa. O serviço deve ser prestado pelo empregado, pessoalmente. 11 4.3 Não eventualidade (habitualidade ou com continuidade) Durante a graduação, imagine que você teve aulas com um professor que lecionava apenas uma vez por semana, às quintas-feiras. Nesse caso, o professor pode ser considerado empregado, mesmo comparecendo uma vez por semana para ministrar as aulas? A resposta é afirmativa: o professor trabalha habitualmente, e não eventualmente, ou seja, toda semana ele comparece à instituição. A confusão é bastante comum, mas é importante perceber que a prestação habitual de serviços por longos períodos e horário definido, mesmo que não diariamente, configura vínculo de emprego, salvo no caso de atividade sem fim lucrativo, como é o caso do trabalhador diarista doméstico. Assim, se uma empresa contrata uma faxineira (pessoa física) para trabalhar duas vezes por semana, com pessoalidade, subordinação, onerosidade, não habitualidade, levando-se em consideração o caráter lucrativo da empresa, há a caracterização do vínculo empregatício. 4.4 Subordinação ao tomador de serviços Dizer que o empregado está subordinado ao empregador significa que há dependência social, econômica, técnica e jurídica por parte do empregado, razão pela qual o empregado é hierarquicamente subordinado ao patrão, que deve assumir todos os riscos do negócio. O empregado não é autônomo, estando, portanto, subordinado ao empregador. O subordinado está sob a direção do empregador, e acata as ordens por haver uma relação hierárquica de dependência. Assim, caso não haja subordinação, não se configura o vínculo empregatício. 4.5 Onerosidade: possui cunho econômico; contrato bilateral e oneroso Imagine a seguinte situação: Amanda trabalhou durante 13 meses em uma ONG, duas vezes por semana, das 08:00 às 13:00, recebendo ordens diretas do diretor de marketing. O trabalho se deu de maneira voluntária, sem remuneração. Nesse caso, pode Amanda pleitear, junto à Justiça do Trabalho, o reconhecimento de vínculo empregatício com a ONG? 12 A resposta é negativa, uma vez que não se cumpriu no caso o requisito da onerosidade, ou seja, Amanda não pode ser considerada empregada porque não recebia salário. TEMA 5 – DOS SUJEITOS DA RELAÇÃO DE EMPREGO: EMPREGADO E EMPREGADOR De acordo com o art. 3º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), “considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário”. Não haverá distinções relativas à espécie de emprego e à condição de trabalhador, nem entre o trabalho intelectual, técnico e manual. Assim, pessoa jurídica não pode ser um empregado, por expressa disposição legal. O conceito de empregador, por sua vez, está definido no art. 2º da CLT: “considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço”. Perceba que qualquer pessoa pode ser considerada empregador, seja pessoa física ou jurídica, empresa individual ou sociedade, profissional liberal, associação ou instituição, mesmo aquelas que não tenham fins lucrativos. Ainda, nos termos do parágrafo 2º do art. 2º da CLT, alterado pela reforma trabalhista, sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, ou ainda quando, mesmo guardando cada uma sua autonomia, integrem grupo econômico, serão responsáveis solidariamente pelas obrigações decorrentes da relação de emprego. No Direito do Trabalho, não são exigidos requisitos formais para a configuração do grupo de empresas, que pode decorrer de situação de fato. Assim, o grupo econômico, uma vez reconhecido, deverá responder solidariamente pelas obrigações, ou seja, o trabalhador pode cobrar seus direitos tanto da empresa que o emprega diretamente quanto de uma empresa parceira, empresas com identidade de sócios ou sob o mesmo controle, caso a primeira não cumpra com seus haveres trabalhistas. Mas não se deve esquecer da redação do parágrafo 3º do mesmo artigo, segundo o qual não caracteriza grupo econômico a mera identidade de sócios, sendo necessárias, para a configuração 13 do grupo, a demonstração do interesse integrado, a efetiva comunhão de interesses e a atuação conjunta das empresas dele integrantes. O empregador, segundo a Lei, possui algumas prerrogativas. Os poderes do empregador se manifestam de quatro maneiras: Poder de direção O poder de direção garante que o empregador possa escolher e organizar a estrutura da empresa, decidindo, por exemplo, de que forma se desenvolverá o processo de trabalho, com a definição as rotinas de trabalho, a organização hierárquica, a divisão dos fluxos de trabalho etc. É, portanto, o poder de estabelecer regras que devem ser obedecidas pelos empregados no desempenho de suas funções durante o vínculo jurídico laboral. Exemplo: o empregador pode determinar o horário de trabalho e ser cumprido pelo empregado, segundo seu interesse, desde que cumpridos osrequisitos legais. Assim, o empregado não pode se recusar a trabalhar no sábado, por exemplo, se isso constar expressamente de seu contrato de trabalho. Poder de regulamentação O poder de regulamentação diz respeito às ordens de serviço (verbais e escritas); regulamentos internos; às circulares e aos memorandos, entre outros expedientes, que têm por finalidade estruturar (organizar) as atividades desenvolvidas. Exemplo: a empresa pode prever em seu regulamento um padrão para a vestimenta de seus empregados, proibindo que se utilizem bermudas ou crocs no ambiente de trabalho. Poder de fiscalização, de controle ou de vigilância O poder de fiscalização é a da prerrogativa conferida ao empregador de acompanhar e exercer vigilância no âmbito interno do espaço empresarial. Uma pergunta muito comum diz respeito à possibilidade de o empregador proceder revista de bolsas dos empregados e instalar câmeras de vigilância. Os tribunais do trabalho já decidiram que a revista pode ser feita, desde que não de maneira vexatória, e que é legal a instalação de câmeras de vigilância, desde que não em banheiros e vestiários. 14 Ademais, o empregador pode controlar os acessos do empregado à internet, bem como as comunicações por e-mail, em razão justamente de seu poder de fiscalização, controle e vigilância. Poder disciplinar O poder disciplinar, ou poder diretivo, trata-se do direito conferido ao empregador de impor sanções aos empregados em caso de descumprimento de suas obrigações contratuais. O empregador pode impor sanções conforme a gravidade da falta do empregado. Por exemplo, é abusiva a justa causa dada ao empregado que atrasa dez minutos em um único dia, sendo adequada a advertência verbal. Contudo, caso haja contumácia nos atrasos, é possível a aplicação de uma advertência escrita. Em caso de excesso de atrasos e faltas, uma suspensão. A justa causa, por sua vez, pode ser aplicada na primeira vez que o empregado for pego furtando a empresa, pois esta é uma falta grave que não pressupõe qualquer tolerância por parte do empregador. FINALIZANDO Lembra-se do caso concreto do começo da aula? Mário sugeriu contratar José sem a anotação de sua CTPS, para que assim não incida os encargos sociais. Propõe que o autor trabalhe mediante a constituição de uma PJ – pessoa jurídica. José o procura, perguntando se é possível tal contratação, questionando acerca da sua legalidade. Tendo em vista os estudos realizados nessa aula, podemos perceber que o empregador está tentando perpetrar uma fraude ao contrato de trabalho, por meio da “pejotização”, já que, no caso, procura um empregado e não um trabalhador autônomo. 15 REFERÊNCIAS DELGADO, M. G. Curso de Direito do Trabalho. 14. ed. São Paulo: RT, 2015. DINIZ, M. H. As lacunas no direito. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1997. _____. Compêndio de introdução à ciência do Direito. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. FINCATO, D.; STÜRMER, G. A reforma trabalhista simplificada: comentários à lei n 13.467/2017. Porto Alegre: EdiPUC-RS, 2019 (e-pub). GUIMARÃES, R. P. de F. Manual de direito individual do trabalho. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. MANUS, P. P. T. Direito do Trabalho. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MARQUES, F.; ABUD, C. J. Direito do trabalho. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2010. MARTINS FILHO, I. G. da S. Manual de Direito e Processo do Trabalho. 19. ed., rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2010. MARTINS, S. P. Manual de Direito do Trabalho. 12. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. OIT. Organização Internacional do Trabalho. Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2020. PEREITA, L. Direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. ROMAR, C. T. M. Direito do Trabalho esquematizado. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2019.