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PSICOLOGIA GRUPOS44 GÉRALD BERNARD MAILHIOT quando sua participação na minoria for desconhecida, ignorada ou anulada. Assim como o adolescente espera ser aceito pelo mundo dos adultos quando conseguir convencer os adultos de que não é mais uma criança. Também como os adolescentes, o comportamento social destes dois tipos de minorias caracteriza-se pela intra-agressão, pela auto-acusação, pelo exagero em suas CAPÍTULO QUARTO ambições, pelas recusas, pelos protestos e pelo mimetismo. Sua identificação com a maioria é equivalente e nos dois casos apoia- -se no temor Há ambivalência a respeito de seu próprio grupo DA PESQUISA-AÇÃO À DINÂMICA DE GRUPOS tanto quanto a respeito do grupo majoritário. Quanto às minorias que tentam assegurar sua sobrevivência pela independência em relação à maioria, suas atitudes coletivas são de um nível mais adulto. Elas ganharão em maturidade se Somente por etapas Kurt Lewin chegará a definir para si à identificação positiva com o grupo na qual inspiram-se seus mesmo o que são cientificamente a dinâmica e a gênese dos comportamentos, vierem acrescentar-se, ao mesmo tempo, a grupos. Como acabamos de constatar, seus trabalhos sobre a capacidade de proceder periodicamente a autocríticas e a von- psicologia das minorias lhe permitiram questionar as teorias e tade de conseguir eventualmente sua independência pela inter- as metodologias tradicionais da Psicologia Social. Ele transporá dependência com os outros grupos étnicos. uma nova etapa ao elaborar, à luz de suas próprias experiências na exploração das realidades sociais, uma concepção pessoal da pesquisa e da experimentação em psicologia dos grupos. PESQUISA EM LABORATÓRIO E PESQUISA DE CAMPO Ao término de seus trabalhos sobre as minorias psicológi- cas, Kurt Lewin chegou a duas conclusões metodológicas. A primeira consiste na seguinte descoberta: para ser válida, toda exploração científica de problemas relativos ao campo da psi- cologia das relações intergrupais deve operar-se em constante referência à sociedade global na qual estes fenômenos de grupo se inserem e se manifestam. Assim os reflexos e as atitudes dos grupos minoritários não se tornariam inteligíveis senão em referência ao contexto sócio-cultural em que se inscrevem, isto é, em referência às interações e às interdependências que toda minoria estabelece forçosamente com a maioria pela qual é discriminada. Além disso, Kurt Lewin chegou a sua segunda conclusão: para abordar e interpretar cientificamente fenô- menos desta magnitude e desta complexidade, somente uma aproximação complementar de todas as ciências do social ofe- receria alguma possibilidade de identificar corretamente as cons- tantes e as variáveis em causa. Estas duas conclusões se inpu- seram a Lewin a partir do momento em que tomou consciência de que as realidades sociais eram multidimensionais (103), (104).46 GÉRALD BERNARD MAILHIOT E GÊNESE DOS GRUPOS 47 Esta última constatação o levou a opor em psicologia social, Enfim, a pesquisa deve prolongar-se até que seus objetivos ime- a pesquisa de laboratório à pesquisa de campo. A primeira lhe diatos sejam alcançados. parecia mais artificial e inadequada. Para ele só a segunda po- deria oferecer condições válidas de experimentação. Segundo 2. Por outro lado, Kurt Lewin, de acordo com a concep- ele mesmo declarou, foi influenciado tanto pelo pragmatismo ção hegeliana do devir social tal qual é exposta pelo filósofo americano que acabava de descobrir, como pela concepção he- Karl Jaspers (67), propõe como hipótese que os fenômenos geliana do devir à qual aderia desde o tempo de seus trabalhos sociais não podem ser observados do exterior, do mesmo modo em Berlim sobre o desenvolvimento da personalidade. que não podem ser observados em laboratório, de modo estático. Eles não se tornam inteligíveis senão ao pesquisador que os 1. Para Lewin as hipóteses que a ciência formula, as leis alcança consentindo em participar de seu devir. Para Lewin, que destaca e as teorias que elabora não têm valor para a psi- os fenômenos de grupo não revelam as leis internas de sua di- cologia de grupo, senão na medida em que são aplicáveis, isto é, nâmica senão aos pesquisadores dispostos a se engajar pessoal- na medida em que permitem efetuar, sob sua luz, de modo mente a fundo, neste dinamismo em marcha, a respeitar-lhe os eficaz e durável, modificações dos fenômenos sociais que elas processos de evolução nos sentidos definidos que a História lhe querem explicar. Lewin reencontra aqui uma das teses funda- imprime e, assim, a favorecer-lhe, ao máximo, que se ultrapas- mentais do "operacionismo". Ora, no momento em que Lewin se. Finalmente o pesquisador deve implicar-se pessoalmente no estabelece seus primeiros contatos com os meios universitários futuro das realidades sociais que tenta explicar sem deixar de americanos, o "operacionismo" constitui em psicologia a influên- objetivar-se a seu Ser-lhe-á necessário, pois, prosse- cia dominante que obriga teóricos e pesquisadores do tempo a guir suas pesquisas no próprio campo em que se manifestam enfocar a metodologia da pesquisa sob uma perspectiva essen- os fenômenos que estuda e só tentar modificar sua dinâmica cialmente pragmática. Seu axioma de base é o seguinte: a va- com o consentimento explícito dos membros do grupo que serve lidade de uma hipótese, a verdade de uma teoria são propor- à sua experimentação. Decorre para ele a necessidade de, du- cionais à exatidão das previsões que elas permitem. rante suas pesquisas, assumir constantemente os dois papéis com- Deste modo, Lewin chega a fixar dois objetivos para toda plementares de participante e de observador. pesquisa sobre os fenômenos sociais. Estes dois objetivos se confundem e se completam. Podem ser visados de modo simul- OPÇÕES tâneo ou sucessivo, Segundo eles, estes objetivos procuram, seja fornecer um diagnóstico sobre uma situação social dada, seja Para compreender a obra de Lewin é essencial ter sempre descobrir ou formular a dinâmica própria da vida de um grupo. presente que ele foi um dos primeiros e um dos principais Tanto uma como outra destas duas tarefas não podem ser rea- ricos do guestaltismo E tanto sua psicologia social, tendo lizadas, de fato, sem que o pesquisador se veja forçado, para como centro o estudo do desenvolvimento da personalidade, completar uma, a empreender a outra. Elas são complementa- como sua psicologia social centrada sobre os pequenos grupos res e indissociáveis no plano metodológico. Não há diagnóstico se elaboram, se articulam e se edificam a partir de postula- de uma situação social concreta que possa ser formulado sem a dos guestaltistas. Temos aqui a chave de suas opções metodo- exploração da dinâmica própria do grupo implicado por esta lógicas. situação. Do mesmo modo, a dinâmica própria de um grupo não se revelará realmente, senão ao pesquisador que tenha con- seguido assimilar todos os dados concretos da vida deste grupo. A pesquisa em psicologia social, conclui Lewin, deve originar-se (1) Guestaltismo, do alemão "gestalt", significando estrutura, forma, Esta escola psicológica propõe apreender os fenômenos em sua totalidade a partir de uma situação social concreta a modificar. E deve sem querer dissociar elementos do conjunto em que eles se integram inspirar-se constantemente nas transformações e nos componen- e fora do qual nada significam. De início, aplicada à percepção, esta tes novos que surgem durante e sob a influência da pesquisa. teoria estendeu-se à toda a psicologia.48 GÉRALD BERNARD MAILHIOT E GÊNESE DOS GRUPOS 49 1. No plano dos objetos, já sabemos que Lewin opta dem. Assim podem observar de dentro os processos e os me- muito cedo por uma exploração sistemática e exclusiva dos canismos em jogo neste desenvolvimento, e encontram-se sob micro-fenômenos de grupos. O que nos é necessário precisar uma perspectiva ideal para descobrir sua significação essencial. agora é o postulado guestaltista subjacente a esta opção. Para Para Kurt Lewin estas opções metodológicas não se apre- Lewin, os pequenos grupos constituem as únicas totalidades sentam como hipóteses provisórias mas como postulados. Uma dinâmicas acessíveis à observação e conseqüentemente à expe- longa prática da pesquisa científica demonstrou-lhe a aquisição rimentação científica. Eis as razões. É necessário de início pre- definitiva da validade das aproximações guestaltistas para o es- cisar que se trata de pequenos grupos concretos, formados sobre tudo dos comportamentos humanos. Veremos agora, de modo a base das interações que ligam os indivíduos em contato direto. explícito, como estas opções metodológicas inspiram e orientam Ora, para Lewin, as atitudes sociais de um indivíduo ou as o sentido que tomam suas pesquisas sobre os comportamentos atitudes coletivas de um grupo não podem ser compreendidas de grupo e as atitudes coletivas. senão a partir dos diferentes conjuntos sociais de que fazem parte. E, reciprocamente; estes conjuntos sociais não podem ATITUDES COLETIVAS ser compreendidos senão a partir dos indivíduos e dos pequenos grupos concretos que eles englobam. Expliquemos como isto se De uma parte, a forma das situações concretas (trata-se Até Kurt Lewin quase todos os psicólogos sociais america- neste caso de situações sociais) depende das formas das reali- nos haviam centrado suas pesquisas no problema da socialização dades globais que as envolvem, e estas, por sua vez, dependem do ser humano (30). A maioria estava de acordo em conceber das situações concretas que possuem sua dinâmica própria. Ora, o processo de socialização como o aprendizado de atitudes so- as situações concretas são função das interações dos indivíduos. Por outro lado, e paralelamente, tocamos aqui naquilo Por isto, conclui Lewin, somente no pequeno grupo concreto que constitui a diferença fundamental entre a obra de Moreno de dimensões reduzidas, isto é, a célula social bruta, estas rela- e a de Lewin. Moreno, antes e depois de Lewin, preocupou-se ções de reciprocidade tornam-se acessíveis à observação. constantemente com o problema da socialização do ser humano. Seus trabalhos, suas pesquisas e suas descobertas estiveram sem- 2. No plano dos métodos, a influência das teorias guestal- pre polarizadas por aquilo que lhe parecia e sempre lhe pare- tistas não é menos evidente. Kurt Lewin denuncia como inváli- ceu, o problema fundamental que a Psicologia devia esclarecer. das e_estéreis as aproximações atomísticas que então prevaleciam Deste modo, aplicou-se não somente em teorizar, mas igualmente nos meios de pesquisa em psicologia social. Para ele um fenô- em inventar técnicas e instrumentos que favorecessem e facili- meno de grupo só se torna inteligível, quando se consegue pra- tassem o aprendizado ou o re-aprendizado das atitudes sociais. ticar neste fenômeno o que ele chama de cortes analíticos sociais O psicodrama, o jogo do papel, o sociodrama constituem, para e concretos, de prospecções verticais. Em outras palavras, não ele, tanto instrumentos pedagógicos como terapêuticos, conforme é decompondo o fenômeno estudado em elementos e em seg- sejam utilizados para socializar ou re-socializar o ser humano. mentos para reconstituí-lo em laboratório, em escala reduzida, Mas quer seja constituindo esta ciência nova que chamará socio- que o pesquisador pode conhecer sua dinâmica essencial. Será, metria, quer tornando mais precisa esta arte que chamará so- antes, tentando atingi-lo em sua totalidade concreta, existencial, ciatria, Moreno, durante toda a sua atividade científica, será não de fora, mas do interior. Com esta finalidade é que Lewin constantemente influenciado pelas teorias sobre a psicologia da introduz o que ele chama de pequenos grupos-testemunhas, ou aprendizagem (118). Embora se defenda e negue tal fato, seja, indivíduos que, recebendo uma formação especial, consti- Moreno edificará assim sua obra em continuidade com preo- tuem em seguida, no meio social, aquilo que Lewin chamará de cupações que foram dominantes na psicologia social até Lewin, átomos sociais radioativos, Por sua presença no interior do tal como procurava edificar-se na América. Assinalamos ante- fenômeno de grupo a ser estudado, eles se tornam os elementos riormente que, nesta época, os psicólogos sociais orientavam indicados para provocarem modificações completas de estrutura suas pesquisas quase exclusivamente no sentido de determinar de uma situação social e atitudes coletivas que lhe correspon- o contexto mais propício ao aprendizado das atitudes sociais50 GÉRALD BERNARD MAILHIOT DINÂMICA E GÊNESE DOS GRUPOS 51 democráticas. Alguns, cedendo a motivações muito mais ligadas siderado, e em segundo lugar, situar de onde vem a dinâmica ao seu sistema de valores que às exigências da ciência chega- que afeta cada um destes elementos (69). ram mesmo a definir o meio educacional mais apto a formar Lewin preconiza então que se apele para esquemas galilea- o cidadão americano perfeito (113). nos de interpretação em psicologia social, como ele conseguira Com Lewin e a partir dele, o interesse dos pesquisadores fazer em sociologia individual. Fiel a esta perspectiva, Lewin desloca e dirige-se para as atitudes coletivas. Os comportamen- não procura a explicação dos fenômenos de grupos na natureza tos em grupo e as atitudes sociais também constituem um objeto de cada um dos seus elementos ou de seus componentes, mas de exploração e de experimentação em psicologia social. O que nas múltiplas interações que se produzem entre os elementos muda, radicalmente, é a abordagem e a metodologia que se da situação social onde se situam, no próprio momento em tornam dinâmicas e guestálticas a partir de Lewin. Para definir que são observados e interpretados. Ora, segundo Lewin, o cientificamente os comportamentos em grupo e as atitudes sociais ambiente social contribui para a formação e transformação das os pesquisadores referem-se ao que são e devem ser os compor- atitudes coletivas favorecendo, ou, ao contrário, inibindo as ten- tamentos de grupo e as atitudes coletivas. dências sociais já adquiridas. A razão deste segundo Lewin, Mas, ainda há algo a acrescentar. Sempre aderindo a seus é a seguinte: tendo as situações sociais sua própria dinâmica, postulados guestaltistas, Lewin denuncia, como o havia feito em as atitudes de um indivíduo, em um dado momento, são função 1931, em relação à psicologia da personalidade (51), os esque- de sua relação dinâmica com os diferentes aspectos da situação mas aristotélicos de interpretação. Nenhum comportamento de social que ele assume de boa ou má vontade (69). Mais grupo, como aliás nenhum comportamento humano poderia se tarde ele retomará esta explicação para reformulá-la de modo explicar unicamente em termos de causalidade histórica. Eis o diferente: a estrutura de meio tal qual é percebida por um porquê. Os comportamentos dos indivíduos enquanto seres so- indivíduo depende de seus desejos, de suas necessidades, de ciais são função de uma dinâmica independente das vontades suas expectativas, de suas aspirações, enfim de suas atitudes, individuais. Os fenômenos de grupo são irredutíveis e não podem enquanto o conteúdo ideativo do ambiente coloca o indivíduo ser explicados à luz da psicologia individual. Toda dinâmica de em um determinado estado de espírito. É a relação de reciproci- grupo é a resultante do conjunto das interações no interior de dade entre as atitudes do indivíduo e o conteúdo mental do um espaço psico-social Estas interações poderão ser tensões, meio que cria a situação da qual o comportamento é função conflitos, repulsas, atrações, trocas, comunicações ou ainda pres- sões e coerções. Enfim, as atitudes coletivas só se tornarão in- teligíveis àquele que as observa, se ele conseguir responder a Segundo Lewin, as atitudes coletivas encontram-se no iní- duas questões: cio e no fim do encadeamento dos fenômenos dinâmicos que produzem os comportamentos de grupo Em outras palavras, Lewin sugere que toda situação social pode ser percebida e 1. Por que, em uma dada situação espontânea, tal concebida como constituindo uma cadeia de fenômenos cuja re- comportamento de grupo se produz de preferên- sultante seria os comportamentos de grupo. No início e no cia a um outro? final desta cadeia encontrar-se-iam as atitudes coletivas. Esta cadeia pode ser decomposta em vários tempos: primeiro, ao 2. Por que, neste momento preciso, a situação ob- nível da percepção, em seguida ao nível do servada possui tal estrutura contrariamente a uma Ao nível da percepção, as atitudes comuns a um grupo, isto é, outra? suas atitudes coletivas, seus esquemas mentais e seus esquemas afetivos de adaptação à situação social determinam a perspec- Em outras palavras, o observador deve poder refazer, do pro- tiva geral na qual os membros do grupo percebem conjunto cesso social estudado, as fases e as etapas pelas quais cada de uma situação. As percepções respectivas dos membros de um dos seus elementos foi levado a ocupar, precisamente na- um grupo, sobre a situação social, são condicionadas suas quele momento, determinada região no espaço situacional con- atitudes coletivas. Por outro lado, ao nível do comportamento,52 GÉRALD BERNARD MAILHIOT DINÂMICA E GÊNESE DOS GRUPOS 53 os esquemas coletivos e as atitudes pessoais estão presentes no campo dinâmico, enquanto constituem uma inclinação para certos Como já afirmamos, Lewin foi o primeiro a utilizar este tipos de comportamento de grupo. Esta inclinação, por sua vez, termo. Será uma noção fundamental em dinâmica dos grupos. ou cria uma atração por certos aspectos da situação ou uma Para Lewin todo conjunto de elementos interdependentes cons- repulsa em direção a outros aspectos ou regiões desta situação. titui uma totalidade dinâmica. Se os grupos são sempre tota- Quanto à cultura ambiente, ela tende a favorecer, segundo lidades dinâmicas, as totalidades dinâmicas estão longe de serem Lewin, vetores de comportamento. Para ele os vetores de com- exclusivamente grupos. Por exemplo, a personalidade é uma totalidade dinâmica na medida em que pode ser considerada portamento são as direções, as orientações dadas a um compor- tamento, ou, nos casos opostos, constituem barreiras mais ou como um complexo de sistemas, de formas e de processos psí- menos impermeáveis que dificultam a expressão de si (76). A quicos. resultante das forças que interessam tal indivíduo em suas rela- ções com um aspecto do campo dinâmico de que faz parte, é a 2. O segundo conceito invocado por Lewin é o do "eu atitude momentânea deste indivíduo em uma determinada situa- social". ção. Esta atitude momentânea se traduzirá por um comporta- Para Lewin, a personalidade revela-se como uma configu- mento de grupo. Para Lewin a razão profunda desta concepção ração de regiões, tendo uma estrutura que ele chama "quase-es- galileana em termos de interação das relações entre os diversos tacionária". Quer significar com isto que é preciso conceber elementos de um fenômeno de grupo, percebido como um todo a personalidade como um sistema que tende a reencontrar-se irredutível a seus constituintes individuais, é a seguinte: dentro idêntico a si-mesmo em todas as situações. O eu (a que ele de uma perspectiva guestaltista não pode haver fronteiras imu- prefere chamar "self" em vez de "ego") em relação táveis entre consciências individuais e um determinado meio. às realidades sociais como um sistema de círculos concêntricos. Para ele, a dicotomia entre pessoa e meio, introduzida pelos Ao centro, encontra-se um núcleo constituído pelo que Lewin behavioristas, é arbitrária e gratuita. As pessoas, os objetos, chama o "eu íntimo": este núcleo é dinâmico e formado por as instituições, os grupos e os acontecimentos sociais são ele- valores para ele fundamentais, aqueles valores aos quais o in- mentos das situações sociais. Estes elementos entretêm entre divíduo consagra a maior importância. Em torno deste núcleo eles relações dinâmicas cujo conjunto somente determina a es- central, as regiões intermediárias que Lewin chama o "eu so- trutura do campo social. cial": o eu social engloba os sistemas de valores que são parti- lhados com certos grupos, por exemplo, os valores de classe, CAMPO SOCIAL os valores profissionais. Na periferia da personalidade encon- tra-se situado o "eu Do mesmo modo que o eu íntimo é um eu fechado, este outro é um eu aberto. O eu As atitudes coletivas como, aliás, as atitudes pessoais não público é a região mais superficial de uma personalidade, aquela aparecem em Lewin nem como o resultado de mecanismos ex- que está engajada nos contatos humanos ou nas tarefas em que teriores às consciências, nem como atos subjetivos das cons- apenas os automatismos são suficientes ou são exigidos. neste ciências. Elas são segmentos de uma situação social na qual nível que se implicam aqueles que participam de fenômenos de se fundem em uma mesma realidade dinâmica elementos obje- tivos e elementos conscientes. Três conceitos básicos, tomados massa. geralmente também neste nível que muitos indivíduos de empréstimo à sua psicologia topológica, permitem a Lewin integram-se em situações de trabalho em que somente a peri- extrapolar as implicações deste teorema sobre a gênese e a feria de seu ser é engajada. dinâmica dos grupos. O mais importante destes conceitos é o Segundo as situações sociais, segundo os graus de distân- do campo social. cia social, nosso eu público ou nosso eu social reveste-se de dimensões diferentes. Nem um nem outro são estáticos. Nosso 1. O primeiro conceito-chave a que Lewin apela é o de eu social pode, estreitar-se ou dilatar-se. Lewin pretende que "totalidade dinâmica". certas personalidades são abertas ao outro a ponto de não se- rem senão estruturas de acolhimento, mesmo no plano do eu54 GÉRALD BERNARD MAILHIOT E GÊNESE DOS GRUPOS 55 íntimo. Outras, ao contrário, mesmo no plano do eu público, 2. Em segundo lugar, o grupo é para o indivíduo um ins- são dobradas sobre si mesmas e não parecem preocupadas senão trumento. Isto significa que o indivíduo mais ou menos cons- em defender-se e em fechar-se ao outro. Excepcionalmente nos cientemente utiliza o grupo e as relações sociais que mantém introvertidos, o eu social atenua-se e a personalidade toda é em seu grupo como instrumentos para satisfazer suas necessi- absorvida pelo eu íntimo. Por razões diferentes o eu social é dades psíquicas ou suas aspirações sociais. quase inexistente nos extrovertidos em quem o eu público ocupa todo o espaço vital. 3. Em terceiro lugar, o grupo é uma realidade da qual o indivíduo faz parte, mesmo aqueles que se sentem ignorados, 3. O terceiro conceito é o de "campo social". Para Lewin isolados ou rejeitados. Deste modo, cada vez que o grupo ou campo social é essencialmente uma totalidade dinâmica, cons- os grupos do qual um indivíduo faz parte, nominalmente ou tituída por entidades sociais coexistentes, não necessariamente artificialmente, sofre modificações em suas estruturas ou em sua integradas entre elas. Assim podem coexistir no interior de um dinâmica, seja por processos de crescimento, de separação, de mesmo campo social, grupos, sub-grupos, indivíduos separados diferenciação, de integração, de regressão ou de desintegração, por barreiras sociais ou ligados por redes de comunicações. ele se ressente necessariamente dos contragolpes. Seus valores, que caracteriza antes de tudo um campo social, são as posições suas necessidades, suas aspirações, suas expectativas aí encon- relativas que nele ocupam os diferentes elementos que o cons- tram gratificações ou frustações. A dinâmica de um grupo tem tituem. Estas posições são determinadas tanto pela estrutura do sempre um impacto social sobre os indivíduos que o consti- grupo como por sua gênese e sua dinâmica. tuem. Nenhum membro dela escapa totalmente. O campo social, para Lewin, é uma "gestalt", isto é, um 4. Finalmente, o grupo é para o indivíduo um dos ele- todo aos sub-grupos que nele coexistem e aos indi- mentos ou dos determinantes de seu vital. É no interior víduos que ele engloba. As propriedades dos sub-grupos ou a de um espaço vital, isto é, desta parte do universo social que personalidade de seus membros não poderiam então nos revelar lhe é livremente acessível que se desenvolve ou evolue a exis- a dinâmica dos laços que os constituem em um mesmo campo tência de um indivíduo. E o grupo é um setor deste espaço. social. A este respeito Lewin adverte o pesquisador contra todo a priori antropocêntrico. Pois é preciso constantemente disso- ciar e distinguir grupo e indivíduos, quando, de dentro, o obser- A adaptação social, em conclusão, consistiria, segundo vador procura descobrir e destacar os pólos, as valências e os Lewin, em concluir esta superação, em atualizar suas aspirações vetores que explicam as interações no interior de um mesmo e suas atitudes, em atingir seus objetivos pessoais, sem nunca campo social (67). A partir deste conceito de campo social forçar nem romper os laços funcionais com a realidade coletiva Kurt Lewin elabora suas primeiras hipóteses sobre a dinâmica ou o campo social em que o indivíduo se insere e que constitui dos pequenos grupos (77). Tais hipóteses, neste estágio de o fundamento de sua existência. seu pensamento, são em número de RESISTÊNCIAS EMOTIVAS À MUDANÇA SOCIAL 1. A primeira hipótese é que o grupo constitue o terreno sobre o qual indivíduo se mantém. Ele já havia formulado A adaptação social não pode definir-se operacionalmente, esta hipótese tentando preconizar o que deveria ser a pedagogia segundo Lewin, sem referência à mudança social. Vejamos o do jovem minoritário (73). Segundo os casos, o terreno pode detalhe de sua busca intelectual que o leva, por etapas, a enun- ser firme, frágil, móvel, fluido ou elástico. Sempre que uma ciar esta hipótese (82). pessoa não consegue definir claramente sua participação social Acabamos de revelar o que são, segundo Lewin, as inte- ou não está integrada em seu grupo, seu espaço vital ou sua rações constantes entre as atitudes coletivas e o campo social liberdade de movimento no interior do grupo serão caracteri- em que se exprimem. Abordando o problema da mudança so- zados pela instabilidade e pela cial, Kurt Lewin retoma este tema para precisá-lo e explicitá-lo.56 GÉRALD BERNARD MAILHIOT E GÊNESE DOS GRUPOS 57 As atitudes coletivas que ele já definiu de várias maneiras, apa- 2. Acrescentam-se a estas tendências do eu as recem-lhe, desta vez, como um movimento provocado em um tendências do super-ego que representam os impera- grupo de indivíduos por forças objetivas que resultam de uma tivos da sociedade, tais quais foram interiorizados situação social dada. Para ele, o clima social, as situações de pelo grupo, ou as estruturas formais do momento social observado, são realidades tão objetivas quanto o clima psíquico, a situação 3. Um terceiro determinante é a própria situa- geográfica e a configuração do espaço físico em torno do indi- ção social concebida como o conjunto dos fragmen- víduo. As relações entre as realidades sociais e os comporta- tos do universo social com os quais ele está em esta- mentos do indivíduo não são, segundo Lewin, nem mais nem do de interdependência. menos constrangedoras que aquelas que- ele mantém com o universo psíquico. Em nas condições sociais exis- As tendências do eu e do super-ego constituem, para Lewin, tentes que constituem o espaço vital de um determinado indi- a dinâmica dos valores, enquanto a dinâmica dos fatos nos é víduo, ele pode escapar a certas pressões, recusar-se a certas dada pela situação social. Em consequência, toda situação obrigações mas por outro lado não pode subtrair-se, nem esca- social pode ser definida como um momento da história do par a certos condicionamentos. preciso, em certos mundo, explicando-se assim de uma parte, por seu passado obje- momentos, adotar tal tipo de comportamento ou conformar-se tivo, consistindo no encadeamento dos fatos e dos processos so- com tal atitude para responder às expectativas do grupo. Em ciais e, de outra, por seu passado subjetivo isto é, pelas repre- outros momentos, atitudes e comportamentos lhe serão impostos sentações coletivas que os indivíduos se fazem dos antecedentes pelo grupo. A liberdade de movimento e a escolha dependem desta situação assim como da gênese de seu próprio grupo. Mas do clima social que prevalece no grupo. O clima cultural no se o passado é determinante por um lado no condicionamento qual ele vive, a dinâmica da situação social na qual se encontra dos comportamentos de grupo e das atitudes coletivas, por outro, implicado, a estrutura do momento histórico do qual participa o futuro da situação social vivida o é muito mais para a maior com as pessoas que o rodeiam, constituem uma realidade obje- parte dos indivíduos. Lewin precisa: não somente o futuro obje- tiva: a totalidade dinâmica da qual depende neste momento tivo da situação ou os determinismos e a mecânica dos fatos preciso de seu crescimento. No interior desta totalidade sociais, mas também o futuro subjetivo da situação ou as re- mica encontram-se orientados, ou mesmo condicionados, seus presentações que os indivíduos implicados nesta situação se comportamentos grupo e suas atitudes sociais. fazem de sua evolução e de seu progresso, assim como as an- tecipações ou as apreensões que eles alimentam com respeito Kurt Lewin deduz então que a conduta de todo indivíduo à situação social em que vivem. Donde a necessidade, assinala em grupo é determinada, de uma parte, pela dinâmica dos fatos Lewin, de tornar claro a gênese e a dinâmica dos grupos à luz e, de outra, pela dinâmica dos valores que percebe em cada si- de um conceito fundamental em sociologia e em antropologia tuação. Ora, para ele (e é aqui que seu pensamento se torna cultural: o conceito de mudança social. explícito) o campo de forças que se destaca da interação dos Mudança social e controle social são para Lewin conceitos fatos e dos valores depende de três coisas: indissociáveis. fácil agora compreender o porquê. A única maneira de experimentar sobre mudança social, de extrapolar 1. Primeiro, depende das tendências do eu sua dinâmica essencial, é tentar do interior, de dentro, plani- concebidas como a maneira única pela qual cada ficá-la e controlá-la. Ou ainda, é conseguindo derrubar as re- indivíduo percebe cada instante presente em função sistências à mudança social que pode melhor chegar à com- de seu passado pessoal Suas percepções neste pla- preensão de seus processos e de seus mecanismos. Reencontra- no, são condicionadas por sua sensibilidade geral, as mos aqui os propósitos que Lewin defendia sobre a pesquisa orientações fortuitas de seu ser, suas capacidades de de campo em oposição à pesquisa em laboratório. atenção afetadas ou estimuladas por seus estados Ora, para Lewin, duas atitudes típicas podem ser observa- nervosos e suas preocupações materiais e morais. das em relação a toda mudança social. A atitude conformista58 GÉRALD BERNARD MAILHIOT DINÂMICA E GÊNESE DOS GRUPOS 59 condicionada pelas percepções sociais cristalizadas que perce- mudança. Suas manobras são geralmente clandestinas e tendem bem toda mudança do statu quo como catastrófica. A atitude a criar climas de grupo que tornam as transformações sociais não conformista, ao contrário, é inspirada pelas percepções so- provisoriamente impossíveis, de modo a não comprometer seus ciais que antecipam toda mudança do statu quo como desejável privilégios adquiridos. No caso precedente o grupo seria ma- e esperada. Geralmente, neste último caso, nota Lewin, as per- joritário ou totalmente conformista. Nenhuma mudança social cepções e as atitudes dos não-conformistas não são suficientes se opera então. No caso presente os elementos conformistas para transformá-los em agentes de transformação social pelo estão em minoria, as mudanças sociais não se operam senão fato de não possuírem as técnicas de comunicação que lhes per- lentamente e na superfície, em razão de suas resistências à mitiriam operar as mudanças de clima e de atitudes no meio mudança. que desejam ver evoluir. Daí a necessidade de se poder contar, no momento em que uma mudança social se torna desejável, 3. Lewin menciona enfim o caso dos grupos não-confor- com grupos-testemunhos compostos, como vimos anteriormente, mistas no interior dos quais a totalidade ou a maioria dos mem- de átomos sociais radioativos, segundo as próprias palavras de bros experimenta e sente uma inclinação para a mudança. Nestes Lewin, que possuam ou dominem as técnicas de grupo tornan- grupos, as percepções de grupo, as atitudes coletivas, os com- do-os aptos a vencer as resistências emotivas à mudança social portamentos de grupo são polarizados por uma aspiração dos a ser introduzida no meio observado. membros em crescer e em superar a sim mesmos como grupo. A mudança social implica em uma modificação do campo Nestes grupos as estruturas formais são flexíveis e funcionais. dinâmico no qual o grupo se encontra. Conforme se realize ou Elas favorecem entre eles relações interpessoais, laços de inter- não esta modificação, o observador-participante, que é o ex- dependência e interações cada vez mais dinâmicos. perimentador preconizado por Lewin, pode identificar três tipos Como excelente guestaltista Lewin conclui que a mudança de fenômenos distintos em relação à mudança social. social para se operar exige que sejam modificadas as relações dialéticas que unem os três elementos seguintes: 1. Ou os grupos não sentem nem experimentam nenhum 1. as desejo, nenhuma aspiração a evoluir, a mudar É o caso de 2. as estruturas das consciências que vivem todos os grupos conformistas que se comprazem nas percepções nesta situação social. estereotipadas da situação social e cujas atitudes coletivas e 3. os acontecimentos que surgem nesta mes- comportamentos de grupo são determinados e condicionados por ma situação social. preconceitos. Para diagnosticar estes casos Lewin recorre ao Mas o fator determinante que tornará possível a mudança termo constância social. Atualmente os psicólogos sociais em- social, será sempre o clima de grupo dominante. Ora, o clima pregariam de preferência os termos de esclerose social ou mes- de um grupo, descobre então Lewin (71), é sempre determi- mo de necrose social para caracterizar o que não constitui mais nado pelo tipo de autoridade que nele se exerce. Daí porque, uma dinâmica de grupo, mas uma estática de grupo, de tal enuncia Lewin, modificar as atitudes coletivas ou produzir uma modo as estruturas formais absorveram ou anularam em uma mudança social consiste, na quase totalidade dos casos, em in- estratificação cristalizada as dimensões funcionais destes grupos. troduzir um novo estilo de autoridade ou uma nova concepção do poder no interior da situação social que se quer fazer evoluir. 2. No caso precedente a mudança social tem pouca ou EXPERIMENTAÇÃO E AÇÃO SOCIAL nenhuma possibilidade de se operar de tal modo o statu quo é valorizado. No caso presente, a mudança social é iniciada. e Na noite que precedeu sua morte Kurt Lewin havia terminado desejada pelos elementos não-conformistas do grupo. Mas estes a redação de um artigo sobre a "pesquisa-ação" que deveria últimos encontram resistencias da parte dos membros do grupo aparecer em uma revista científica americana: "The Journal of que têm interesses investidos no statu quo. Os elementos con- Social Psychology". Os editores do livro póstumo "Resolving formistas freiam então ou tentam contrariar as tentativas de social conflicts" incluíram este artigo entre aqueles que reuniramDINÂMICA E GÊNESE DOS GRUPOS 61 60 GÉRALD BERNARD MAILHIOT B. Em uma segunda etapa, trata-se de deduzir, sobre este tema (108). Este artigo contém as últimas formu- de prever ou de derivar destas análises, conjeturas lações do pensamento de Lewin sobre o que deveria ser a sobre a posível evolução destas percepções de grupo. experimentação e a pesquisa em psicologia social. Aliás, me- C. Finalmente, uma terceira etapa terá como lhor que em outras partes de sua obra, aí se encontram enun- objetivo descobrir e prever os novos modos de com- ciados e explicitados os objetivos, as condições de validade e portamentos de grupo que estarão em harmonia com as etapas da a reestruturação das percepções de grupo. 1. Para Lewin a pesquisa em psicologia social deve ser uma ação social. Será nesta medida que ela terá possibilidade Lewin preconiza que, através deste diagnóstico e deste do- de escapar às miragens dos esquemas pseudo-clássicos da ex- mínio do grupo chegar-se-á a um controle mais funcional das perimentação. Para conhecer os fenômenos de grupo do inte- atitudes do grupo. O objetivo estratégico a atingir, inicialmente, rior, não do exterior, o experimentador deve tentar, inicialmen- é tornar grupos e sub-grupos conscientes e lúcidos da dinâmica te, objetivar-se à seu respeito, conseguir percebê-los como ges- inerente à em evolução. Não é senão a partir talts, depois, para descobrir sua dinâmica essencial, deve em- deste momento que sub-grupos e grupos aceitarão corretivos e preender de dentro a tarefa de reestruturá-los de modo a fa- complementos às suas percepções de grupo. Suas percepções vorecer e acelerar a sua transformação. de grupo e, em seguida, suas atitudes coletivas assim como seus comportamentos de grupo, passam do subjetivo ao objetivo, 2. Duas condições parecem essenciais a Lewin para asse- do pessoal ao situacional. Sem ruptura, sem negação, mas pri- gurar a validade de uma tal experimentação: meiro por sincronização, e depois por sintonização. A experimentação em psicologia social, tornando-se uma A. Ela deve operar-se em pequenos grupos en- permite aos pesquisadores encontrar no campo, por gajados em problemas sociais reais e preocupados ocasião de uma ação social, boas condições para descobrir as em se reestruturar para, de modo mais funcional, se constantes e as variáveis em jogo na transformação de um agru- inserirem na situação social onde procuram atingir seus objetivos. pamento humano. Os processos e os determinantes da gênese dos grupos, as leis essenciais da dinâmica dos grupos poderão, B. Ela deve ser realizada por pequenos grupos- assim, pouco a pouco, serem definidas. Para serem científicas -testemunhas, compostos de experimentadores que estas definições deverão ser operacionais. Elas correrão o risco estejam engajados e motivados em relação a mudan- de nunca o serem, se a experimentação continuar a ser realiza- ças sociais que querem introduzir. A autenticidade da em laboratório. Pois quem nos assegura que os grupos re- de suas motivações lhes permitirá serem aceitos pelos constituídos artificialmente em laboratório constituem verdadei- grupos nos quais realizam as experiências e proce- ramente grupos ? Na maioria das vezes, senão sempre, os indi- derem à sua experimentação a título de membro-par- víduos agrupados para fins experimentais não conseguem inte- ticipante integrado totalmente na dinâmica do grupo grar-se e continuam a funcionar de modo individualista, defen- observado. dendo-se contra as manipulações de que são objeto mais ou 3. Enfim, segundo Lewin, a experimentação em psicolo- menos traumatizados. Lewin teve o mérito de tornar a psico- gia social deve realizar-se em três etapas essenciais. Todas três logia social consciente dos obstáculos que a pesquisa teria de enfrentar caso continuasse a ser realizada em laboratório. Seu procuram operar uma mudança social através de um controle social mais funcional das atitudes coletivas e dos comportamen- gênio consistiu em abrir novos caminhos, novas vias à pesquisa, tos de grupo. em lhe fornecer uma metodologia e perspectivas que levaram a descobertas inesperadas antes dele. A. A primeira etapa consiste em um levanta- mento ou análise das percepções de grupo que ca- racterizam os indivíduos, os sub-grupos e o grupo.CAPÍTULO QUINTO COMUNICAÇÃO HUMANA E RELAÇÕES INTERPESSOAIS Os quatro primeiros capítulos foram consagrados vamente a Kurt Lewin. Até aqui o leitor pode seguir a evolu- ção do seu pensamento e das suas pesquisas, constatar a que ponto seus trabalhos e seus experimentos em psicologia social marcam uma ruptura com o passado e um progresso decisivo na História das Ciências Sociais. Por outro lado, tomamos conhecimento de como Kurt Lewin, desde sua chegada à Amé- rica, preocupou-se em definir cientificamente aquilo que ele foi o primeiro a chamar de "dinâmica dos Com esta fi- nalidade questionou e redefiniu as metodologias e as teorias tradicionais em psicologia social Uma vez definidos de modo operacional as exigências de validade e os esquemas de expe- rimentação, Kurt Lewin lançou-se, simultaneamente, à explora- ção de três problemas-chaves que o levaram a descobertas sobre a gênese e a dinâmica dos agrupamentos humanos, considerados atualmente geniais (65), (71), (86), (92) (94), (99). Os três próximos capítulos tratarão sucessivamente destes três problemas. De início estabeleccremos a colaboração dada por Lewin à compreensão de cada um destes problemas. Des- tacaremos, depois, os progressos realizados a partir de Lewin. O leitor poderá, então, descobrir como um grande número das hipóteses de Kurt Lewin continuam a inspirar os pesquisadores em psicologia social. Algumas de suas hipóteses foram explici- tadas posteriormente, outras sofreram modificações ou foram reformuladas, mas na maioria dos casos elas foram verificadas. Os três capítulos seguintes tentarão mostrar que as descobertas mais definitivas em psicologia social após a morte de Lewin foram realizadas a partir de esquemas guestaltistas e no interior de projetos de pesquisas-ações sobre os micro-fenômenos de grupo. O balanço dos dados adquiridos desde Lewin sobre estes três problemas-chaves, à saber: a comunicação humana, o apren-