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6 temperamentais; C. H. Cooley (1867-1929), pioneiro da Sociologia nos Estados Unidos e autor da classificação (muito difundida) dos grupos humanos em primários e secundários, baseada no critério do tipo de contato, direto ou não, que se pode realizar entre as pessoas de um mesmo grupo; G. Le Bon (1841-1931), especialmente por seus estudos sobre a Psicologia Coletiva; e F. Tönnies (1855-1936), que procurou Processos grupais investigar a natureza das comunidades e sociedades, concluindo que as primeiras, em virtude do desenvolvimento sócio-cultural, tenderiam a se transformar em sociedades. Há muito interesse em torno de possíveis ganhos teóricos e práticos decorrentes da pesquisa dos processos grupais. Supõe-se que as dili- gências científicas empreendidas neste território sejam potencialmente úteis. Alimenta-se a expectativa de que de um conhecimento mais confiável a respeito dos pequenos grupos possam advir benefícios para as atividades profissionais que se desenrolam em todas as instituições sociais. Tal estado de coisas permite-nos asseverar que o fomento da pesquisa psicossociológica dos microgrupos, sensível a circunstâncias Embora seja tão indiscutível quanto antiga a observação de os apresenta-se de uma maneira contingente. Trata-se, grupos humanos são necessários e onipresentes, constata-se que a portanto, de uma área científica em que a demanda de racionalidade na pesquisa psicossociológica experimental dos processos grupais só que veio construção teórica talvez seja menos importante do que os interesses a ser incrementada a partir do final da década de 30, sob a direta sociais na determinação das prioridades de pesquisa e da aplicação de decisiva influência de K. Lewin (1890-1947). A expressão dinâmica de e recursos para esse fim. Outro ângulo a explorar, e que também permite grupo foi cunhada exatamente por Lewin, que com ela pretendia convergir para a conjetura de que os estudo de microgrupos seja sócio- designar o campo dominado pelas investigações em torno da estrutura culturalmente condicionado, é o da grande variação da necessidade e dos processos que têm lugar nos grupos humanos, tais como: afiliativa em sociedades e em épocas diferentes. É sob esta perspectiva liderança, coesão, produtividade, cooperação, conflito e comunicação. que se podem acolher os resultados da pesquisa de Hofstätter (1971) As contribuições ocorridas no contexto da dinâmica de grupo apresen- junto a estudantes alemães e estadunidenses. Às amostras de ambos os taram um notável desenvolvimento teórico até o final da II Guerra grupos esse conhecido psicólogo social alemão dirigiu a solicitação de Mundial (1945), quando começou a se registrar um na qualida- que fizessem associações livres em torno da palavra solidão, consta- de das novas contribuições A essa altura, e a bem da verdade, tando que os norte-americanos lhe associaram termos como medo, convém esclarecer que Lewin demonstrou a viabilidade da pesquisa pequeno, fraco, doente e marginalizado, ao passo que entre os alemães experimental dos pequenos grupos, mas o interesse de psicólogos, as palavras mais lembradas foram trágico, grande, forte, profundo e século. psiquiatras e psicanalistas por esse assunto remonta ao início deste heróico. Daí a conclusão de Hofstätter de que, entre os diversos fatores que contribuem para que a pesquisa dos microgrupos seja Claro está que, se não nos restringirmos aos microgrupos, podere- muito mais desenvolvida nos EUA do que na Alemanha, encontra-se o mos descortinar um cenário da história em que se localizam estudos fato de que os alemães suportam melhor a solidão do que os norte- mais antigos do que os já mencionados. Trata-se das contribuições de americanos. Vale observar que os dados da pesquisa de Hofstätter são cientistas sociais que viveram a passagem do século, deixando-se tocar congruentes com a análise do tipo dirigido-pelos-outros, que Riesman por distintas posições Dentre eles, e a título de ilustração, (1971) julga ser muito na sociedade norte-americana. As podem ser lembrados: G. Tarde (1843-1904), que destacou a observações que nos trouxeram até aqui não nos permitem formular como processo social S. Sighele (1868-1913), cuja perspectiva grandes generalizações, mas também não promovem uma paralisia conservadora o levou a repudiar os processos multitudinários, pois teórica de tal ordem que nos impeça declarar que a pesquisa de julgava que neles só pudessem sobrevir paixões e manifestações processos grupais andará melhor à medida que vier a ser considerada a 66 67influência das variáveis históricas, sociais e culturais em nossos com- momentos e sob as mais variadas condições, necessitamos avaliar portamentos associativos. nossas crenças, estados emocionais, traços de personalidade e habili- Neste capítulo examinaremos, ainda que com brevidade, conceitos, dades cognitivas, sociais e motoras, a fim de concluirmos a respeito da hipóteses e teorias relativas aos seguintes tópicos: afiliação, confor- normalidade ou acerto de nossos atributos, experiências e decisões. mismo, liderança e coesão grupal. Seria didaticamente muito vantajoso Essa conjetura é complementada por outra: havendo dificuldades em para o leitor pouco familiarizado com a Psicologia Social a leitura aplicar critérios objetivos para a avaliação de características pessoais, adicional de alguns dos textos indicados mais adiante. procuramos nos associar a outras pessoas, na expectativa de que, através da interação que com elas possamos realizar, nos seja possível obter as informações que almejamos. 6.1. Afiliação Outra variável capaz de intensificar a necessidade de afiliação seria a ansiedade. Essa é a conclusão de Schachter (1966), baseada num Uma necessidade humana das mais importantes é a de estar com experimento que teve mulheres como participantes. Verificou-se que outros para conversar, trabalhar, debater, amar e buscar apoio, apro- as mulheres, informadas de que ao longo da pesquisa seriam submeti- vação, conforto e prestígio. Entretanto, a despeito de sua relevância, o das a dolorosas descargas elétricas (grupo experimental), preferiram, nosso conhecimento dessa motivação chega a ser rudimentar. Natural- entre as alternativas que lhes foram oferecidas aguardarem sozinhas mente, não nos estamos referindo às crenças do senso comum, que, de ou junto às demais o início do procedimento experimental a última um modo geral, ressaltam o caráter instrumental (para a satisfação de condição. Ao passo que suas colegas, informadas de que os choques necessidades psicológicas) do comportamento afiliativo. A propósito, elétricos seriam muito brandos, praticamente manifes- convém não esquecer que o conhecimento ingênuo pode ser uma boa taram sua indiferença em relação a ambas as condições. Schachter (op. fonte de inspiração para pesquisadores dotados de talento, mas a cit.) destacou diversas razões para a conduta afiliativa: busca de uma ciência se faz, segundo Bachelard (1972, cap. 2), em oposição ao saber saída da situação ameaçadora; tentativa de redução direta (ou indireta) vulgar. Assim, procurando descartar-se das crenças comuns, os psicó- da ansiedade; e necessidade de maior clareza cognitiva e de auto- logos sociais porfiam na busca de explicações mais específicas que avaliação. Posteriormente, Sarnoff & Zimbardo (1961) lograram con- destaquem, com nitidez, possíveis influências de variáveis psicológi- duzir outros experimentos que possibilitaram concluir que, na verda- cas e sociais na afiliação humana. de, não seriam os estados ansiosos que promoveriam a tendência Nos primeiros momentos da história desse tópico da Psicologia afiliativa, mas sim o medo. É de se observar que a interpretação destes Social, nenhum conceito foi mais importante do que o de instinto. últimos autores se mostra conceitualmente mais satisfatória, pois a Tratava-se do que McDougall (1926) qualificou como gregarismo ou ansiedade não está relacionada, ao contrário do que acontece com o instinto gregário, apontado como fator de propulsão da conduta asso- medo, com objetos e circunstâncias manifestamente ameaçadoras. Ou ciativa e, conseqüentemente, responsável pela formação de grupos. seja: o experimento de Schachter deve ter provocado medo nas Contudo, embora pareça razoável supor que a afiliação decorra de um participantes; se houvesse deflagrado experiências ansiosas, ter-se-ia fator inato, invariante, geneticamente transmitido e comum a todos os observado, de acordo com Sarnoff & Zimbardo, uma tendência ao membros da espécie, não conseguimos, baseados no conceito de isolamento social, já que os indivíduos ansiosos, para não serem vistos instinto gregário, explicar as variações comportamentais que sentimos como psicologicamente perturbados, evitariam contatos com outras em nós mesmos, que vão desde uma intensa necessidade de associação pessoas. até a procura de isolamento social. É evidente que uma explicação A afiliação é importante para o atendimento das necessidades instintivista de caráter tão amplo não fornece elementos teóricos aptos individuais, mas também o é para a formação da identidade psicosso- ao esclarecimento das variações acima consignadas. Em outras pala- cial e para a concretização de ideais e valores de justiça e bem-estar coletivamente compartilhados. Sob esta perspectiva, resta concluir vras, as explicações generalizantes da conduta afiliativa são precárias, embora ofereçam pistas que podem ser aproveitadas na produção que é precário o conhecimento disponível sobre a afiliação, sendo teórica. desejável o alargamento do campo de pesquisa do tema, de modo a Uma explicação mais limitada, aplicável a algumas ocorrências favorecer uma visualização mais completa dos comportamentos asso- afiliativas, é fornecida pela teoria da comparação social de Festinger ciativos humanos, que têm lugar em momentos e sob as mais distintas (1954). A principal conjetura dessa teoria é a de que nós, em diversos circunstâncias históricas, sócio-culturais e psicológicas. 69 686.2. Conformismo, conformidade e obediência se venha a ser alvo de represálias. A mudança profunda, por seu turno, ao contrário da superficial, que facultaria o retorno às condutas Não devemos confundir condutas e mudanças comportamentais originais assim que a pressão social viesse a ser suspensa, teria um sugestivas de submissão a outras pessoas com a observância coletiva a caráter mais estável, levando a supor a adesão pessoal, daquele que normas e padrões o atendimento aos últimos fora pressionado, aos padrões de conduta que inicialmente lhe tinham uma relativa homogeneidade de comportamentos e é um fato observa- provoca sido impingidos. Entre as tentativas de solucionar a questão técnica do em todas as comunidades e sociedades humanas. Em todas elas dos níveis de mudança, tão precariamente considerada no esquema de encontramos alguma uniformidade no uso da língua, no cumprimento dicotômico que acabamos de ver, situa-se a de Kelman (1958), que cias costumes, na aceitação de valores, no preenchimento das exigên- prevê três graus distintos: a aquiescência, a identificação e a internali- de papéis sociais e na observância de normas de convivência zação. Aplicam-se à aquiescência as observações precedentes sobre A a humana. A esta descrição, porém, deve-se juntar o registro de que, obediência, que é o nível mais superficial da escala de Kelman. que pode ser prejudicada ou impedida em seu desen- termos práticos, se enfrenta o problema do possível naufrágio em da identificação corresponde a uma mudança comportamental de grau intermediário, manifestando-se quando houver uma aceitação afetiva, volvimento por uma excessiva carga de compromissos e obrigações por parte da pessoa pressionada, de um modelo social que ostente padrões comportamentais que aquela esteja sendo obrigada a adotar. Em benefício da análise psicológica, convém distinguir entre confor- Finalmente, a internalização tem lugar quando o sujeito de fato vier havia a mismo e conformidade. o primeiro alude a um traço ou característica incorporar, tornando suas, formas de agir que inicialmente de personalidade relativamente Referimo-nos, com a palavra relutado em aceitar, por estarem em desacordo com suas crenças e conformismo, a uma inclinação amplamente reiterada de subordinação valores. Este nível é mais profundo do que o anterior, pois transcende nível a normas e padrões extrínsecos; à tendência a acompanhar a maioria, período da pressão social e não depende, como ocorre no em seus gostos, preferências e maneiras de agir; à submissão, muitas anterior, da continuidade da relação afetiva da identificação. vezes gratuita e inútil, ao socialmente estabelecido, em detrimento da originalidade pessoal. A entretanto, é uma manifesta- Uma antiga e conhecida série de experimentos sobre conformidade ção de natureza episódica. Caracteriza-se por uma mudança de com- foi iniciada por Asch (1951). Os participantes de sua pesquisa, instala- portamento oriunda de uma pressão social real ou (neste dos solitariamente num grupo de auxiliares (confederados) do experi- caso, baseada em fantasias e distorções perceptivas). Importa acres- mentador, responderam oralmente a problemas de avaliação do com- centar que a mudança ora considerada é a que corresponde (segundo primento de segmentos de reta que lhes eram apresentados, concor- erradas crenças do sujeito) à expectativa dos que a exigiram, tendo, além as dando, em 30% dos casos, com respostas deliberadamente disso, acarretado previamente um conflito pois fornecidas pelos auxiliares. Importa registrar que essa taxa decrescia transitou, quando da vigência da pressão social, pelo impasse entre se consideravelmente quando ao menos um dos confederados apresenta- a permanecer fiel ao padrão pessoal ou aderir à pressão externa. Os va a resposta correta. A constatação de Asch foi surpreendente, pois psicólogos sociais contemporâneos exibem um grande interesse pelo situação estimuladora não poderia ser considerada ambígua. Contudo, estudo de fatos desta última espécie. os estudos nesse tópico despertaram maior atenção após a divulgação de dos resultados das pesquisas de Milgram (1974). Os experimentos Aceitando-se o conceito de conformidade nos termos em foi definido, perguntar pela extensão da mudança comporta- que Milgram foram desdobrados em dezoito diferentes projetos, cada qual destinado à pesquisa da influência de variáveis específicas, mas todos mental. Neste particular, admite-se que deva haver diferentes níveis de profundidade de mudança de comportamentos supervenientes de eles planejados em torno de uma situação experimental básica. Esse sociais, sendo estas apresentadas sob as mais diferentes formas pres- e planejamento básico previa a participação de um confederado e de um em circunstâncias que, para o indivíduo, também são muito variadas. participante experimental, cabendo ao último a aplicação de choques elétricos ao auxiliar de pesquisa todas as vezes que este cometesse A princípio, admitiam-se apenas dois níveis de mudança comporta- mental: o superficial e o profundo. o primeiro, de caráter algum erro na aprendizagem, por memorização, de uma lista de pala- vras. Na verdade, os erros eram programados e as descargas elétricas seria manifestado pela obediência e visaria salvaguardar interesses nunca chegaram a ser aplicadas, pois o circuito era desligado assim que pessoais, eliminando, ou ao menos reduzindo, a probabilidade de que se iniciavam os trabalhos experimentais, mas Milgram procurou asse- 70 71Para gurar-se de que seus participantes interpretassem a situação tanto, o confederado deveria reagir de acordo com como real. possibilita, através das respostas apresentadas por pessoas de um intensidade dos choques, que variavam de 15V a 450V, a (suposta) grupo solicitadas a indicar duas ou três outras de sua preferência, uma descargas progressivamente ampliadas, com a diferença de sendo 15V de as efetuar um levantamento da rede constituída pelas relações interpes- Sob aplicação a outra, à medida que os erros viessem a ser cometidos. soais mantidas por membros do grupo em questão. Convém acrescen- instruções. esta condição, cerca de 60% dos participantes seguiram à risca tar que a realidade psicossocial assim detectada não é definitiva. sendo a última reação devida especialmente ao modelo Essas contribuições de Milgram causaram perplexidade as e Mudanças operadas em nossas condutas, especialmente no plano das motivações, interesses, crenças e atitudes, que ocorrem a todo mo- de experimental empregado. A perplexidade ficou por conta da suposição mento e de forma tão imprognosticável, produzem alterações no aos que, sendo possível admitir que a tendência a obedecer seja natural quadro das nossas interações que chegam a ser profundas. Assim, as seres humanos, então seria indispensável rever os julgamentos informações que se podem obter através do teste sociométrico são o daqueles que foram condenados por práticas criminosas graves, necessariamente limitadas e de valor provisório. Entretanto, a condu- cumprir ordens. genocídio, por exemplo, que, em sua defesa, se alegou estarem como a ção de um programa de aplicações sistemáticas desse instrumento pode oferecer elementos preciosos e úteis a respeito da dinâmica das Tudo isso, porém, é muito discutível, sendo desejável relações interpessoais processadas na intimidade do grupo que se reflita sobre a matéria, levando em conta as crenças que os que participan- o leitor esteja a estudar. tes apresentam quando recrutados para pesquisas Os grupos coesos distinguem-se dos de baixo índice de solidariedade rânea; questões concernentes à imagem do Homem na Psicologia contempo- as uma maior semelhança de valores, atitudes, crenças, motivações, e as limitações históricas e sócio-culturais (vale dizer, diacrôni- por objetivos e metas apresentados por seus participantes. Os contatos em cas e sincrônicas) das pesquisas do gênero. Um bom texto de entre as pessoas dos grupos assim caracterizados tendem a ser mais português, para o estudo desse tópico é o elaborado por Kiesler apoio, & e revestem-se de afetividade. Esse conjunto de aspectos Kiesler (1973). distintivos fortalece o grupo e torna mais tangível o em empreita- das coletivas; robustece-o, qualificando-o melhor para os embates que 6.3. Coesão grupal têm lugar quando os conflitos de interesses assomam à realidade Os grupos humanos diferem entre si do ponto de vista do de social, política e institucional. Os dados de pesquisa depõem neste sentido: Pepitone & Reichling (1967), em pesquisa experimental, con- consistência das relações interpessoais de seus membros. Entre grau cluíram que os grupos de grande coesão, quando provocados, oferece- grupos de existência episódica, cujos relacionamentos internos são os ram reações hostis mais prontas e diretas do que os de baixa coesão. carentes de e os mais estáveis, talvez permanentes, Mas é também no sentido de uma maior eficiência no concertar que os vínculos mantidos por seus membros, uns em relação aos em outros, são afetivamente tonalizados, distribuem-se as diferentes for- projetos e promover ações coletivas de natureza socialmente construti- va, que os grupos coesos se destacam: Schachter et al. (1967) concluí- mas de agrupamento social. De certa maneira, o conceito de coesão grupal corresponde à idéia de muito explorada ram que a coesão grupal está relacionada com a produtividade; quais- é contribuições sociológicas de E. Durkheim e F. autores nas que sejam os critérios para a determinação do último conceito, lembrados na introdução deste capítulo. É de se admitir também a quer de se esperar que os grupos coesos reúnam condições superiores para em relação ao grupo. ocorrência de coesão esteja vinculada ao estabelecimento de lealdades que superar os obstáculos que lhes sejam antepostos. A pesquisa da coesão grupal é dotada de relevância social e mantém Na Psicologia Social, a interpretação mais difundida de coesão é de imbricações com outros temas psicossociológicos, como os de comuni- origem lewiniana, podendo receber a seguinte a coesão cação, conformidade, afiliação, liderança e poder social. Certamente, resulta da atratividade que o grupo exerce sobre os seus membros, há que se levar em conta que a coesão tanto pode ocorrer em agrupa- dele desejam continuar a participar, resistindo à idéia de que mentos sociais nos quais é possível identificar fatores e processos Com muita tenta-se avaliar a coesão através do de psicologicamente desejáveis, porquanto militam a favor do desenvolvi- instrumentos objetivos de coleta de dados, como é o caso emprego do teste mento individual e coletivo, como também em grupos que brutalidade ostentam, e sociométrico de L. Moreno. Esse instrumento, de fácil utilização, como marcas mais visíveis, o fanatismo, a intolerância, a social- dogmatismo, que, sem dúvida, não aceitaríamos como fatores 72 73mente positivos. De resto, cabe lembrar que aqui, como em qualquer Se ainda pudermos acolher a contribuição de Weber (1957, sendo a outro tópico de investigação, urge apresentar os conceitos centrais primeira edição de 1922), que distinguiu a autoridade legal da tradicio- com a maior transparência possível, a fim de facilitar a sua compreen- nal e da carismática, poderemos declarar que a chefia se alimenta são e tornar provável uma utilização mais conseqüente de tais idéias. sobretudo da primeira, um tanto da segunda e nada da terceira, mas a liderança, de todas elas. 6.4. Liderança e desempenho de grupo Nesse tópico, a influência de Lewin é também facilmente constata- A liderança é um processo de influenciação social que ocorre em da. Suas idéias fundamentaram a pesquisa de White e Lippitt (1969, circunstâncias, momentos e níveis os mais diversos. São tão variados mas texto original é de 1943), que teve o mérito de alterar o rumo dos os fenômenos de liderança que se torna lícito indagar se de fato se trata estudos da liderança, até então conduzidos sob a perspectiva da de um só tipo de ocorrência. Eles se manifestam em microgrupos, personalidade dos líderes, fazendo com que eles se voltassem para É a como no caso de famílias, equipes de trabalho e grupos de amigos, mas análise da interação entre líderes, seguidores, situação e tarefa. também no âmbito dos processos societários e no das complexas importante registrar que a avenida inaugurada pela dinâmica de grupo relações internacionais. Por tais razões, o tópico da liderança interessa para os estudos psicossociológicos de processos grupais, trazendo à tanto aos psicólogos quanto aos cientistas sociais, embora venhamos a tona tanto variáveis psicológicas quanto fatores sociais, constitui uma encontrar, se passarmos de uma área a outra, diferenças marcantes na inequívoca inovação nessa área científica. As contribuições que lhe temática, teorização e metodologia de pesquisa. Os psicólogos sociais, são historicamente anteriores, atreladas ao filão aberto pelas crenças em particular, empenham-se no estudo das relações entre variáveis que em torno do líder nato e do grande homem (na história, nas ciências, podem ser alocadas em quatro grupos distintos: no das características nas artes e na política), foram marcadas pela suposição de que as de personalidade e comportamento dos líderes; no dos atributos psico- variáveis mais importantes a considerar na pesquisa da liderança são as lógicos dos seguidores; no das situações em que se desenrola o proces- da personalidade, sendo estas, por sua vez, fornecidas pela heredita- so de liderança; e no das tarefas cometidas ou assumidas pelos grupos. riedade. Daí o grande interesse manifestado por psicólogos e cientistas Muito importa teoricamente, fazer duas distinções conceituais. A sociais do início deste século, mas também do final do século passado, primeira delas se aplica às idéias de liderança e dominação. Esta em proceder a inventários da personalidade, admitindo que se tratasse última é um processo baseado na força física, sexo e idade em que os de indicadores aptos ao prognóstico de desempenhos individuais no animais de espécies infra-humanas exibem seu poderio e subjugam terreno da influência social. Neste ponto, pode-se estabelecer a con- outros do mesmo grupo, mantendo-os unidos e dilatando sua probabili- jectura de que a valorização da hereditariedade na Psicologia européia dade de sobrevivência. A liderança, porém, é um conceito mais da tão visível na obra de F. Galton (1822-1911) e de vasta adequado à nossa espécie, aplicando-se às relações interpessoais. influência em todas as disciplinas psicológicas incluindo, portanto, a Basicamente, entende-se que ocorra liderança quando alguma pessoa Psicologia Social, onde a teorização sobre o comportamento social humano se baseia no conceito de instinto, como se verifica em McDou- se torna capaz de modificar as crenças, atitudes e comportamentos de outros indivíduos, organizando-os e orientando suas ações para objeti- gall (1926) talvez tivesse sido o contraponto científico de uma realidade histórica em cujo palco avultaram os impérios europeus em vos que passam a desejar atingir. Assim interpretada, compreende-se seu esforço de expansão, gerando múltiplas estratégi- que, como processo de influenciação, a liderança guarde diferenças em relação à chefia. Este é o segundo paralelo a fazer. A chefia, a rigor, econômicas, sociais, políticas e culturais, em que não devem ser sucede apenas em sistemas constituídos por papéis sociais de tal tomadas como negligenciáveis as referentes às relações entre coloniza- maneira hierarquizados que, sendo diferente a quota de autoridade dos e colonizadores, cabendo aos últimos demonstrar (como se isso atribuída a eles, tornam-se, sob este ângulo, assimétricos, cabendo aos fosse possível) a sua superioridade racial e étnica. titulares de alguns o direito de influenciar o comportamento daqueles Pode-se resumir a investigação experimental de White & Lippitt que lhes fiquem Não há, evidentemente, qualquer ga- (op. cit.), sublinhando os seguintes fatos: os participantes (crianças), rantia de que tal poder, usufruído em contextos institucionais, possa divididos em grupos e sob a coordenação de auxiliares adultos, dedica- subsistir fora dos limites estabelecidos por parâmetros aceitos como ram-se a trabalhos manuais em todas as sessões experimentais, tendo legais. No fundo, a chefia é um poder nominal, ao passo que a sido submetidos, ao longo delas e sucessivamente, às atmosferas (ou liderança se manifesta num circuito sócio-cultural muito mais formas de liderança) democrática, autocrática e de laissez-faire (esta 75 74última seria mais bem qualificada como anárquica). Os resultados, comportamento humano de indivíduos participantes de interações afiliação, obtidos da avaliação de quatro variáveis sociais. Não obstante, a investigação de processos como democrática a melhor das três modalidades de liderança, sugerem pois, ser a conformidade, coesão grupal e liderança, sistemática e experimental- algum tuando-se a produtividade (mais elevada em atmosferas autoritárias), exce- iniciada na década de 30, sob a inspiração de Lewin, tem aduzir os grupos, quando democraticamente conduzidos, apresentaram índi- desenvolvimento, mente especialmente nos Estados Unidos. É preciso ces mais positivos em termos de coesão, (em relação ainda tais pesquisas incidem sobre microgrupos que, segundo a aos dirigentes adultos) e baixa de comportamentos agressi- Shaw (1980), que dispõem de um número de participantes não superior vos. Como acontece em todos os casos de pesquisa essas conclusões não podem ser simplesmente generalizadas e aplica- vinte. fato, a teoria de campo de Lewin é muito importante na desenvolvi- dinâmica das a situações mas possibilitam conjeturar e estabele- De mas há outras perspectivas que também foram cer hipóteses para fatos que, sendo refratários a rigorosos tratamentos de grupo, área. Por exemplo: a orientação sociométrica de Moreno; in- a rem mais bem conhecidos. experimentais, exigem planejamentos empíricos de pesquisa para se- das nessa psicanalítica, destacando a influência de motivações conscientes manifestam em situações grupais; a orientação dimanada da motiva- orientação e mecanismos de defesa em comportamentos Psicolo- que se Atualmente, nos estudos teóricos têm-se examinado as relações entre liderança, poder social, autoridade e influência social, enquanto cionais e cognitivos; e a orientação de Bales (1970), centrada num Geral, baseada na análise da aprendizagem, dos processos nas pesquisas empíricas e por vezes psicometricamente conduzidas, há muito interesse em se estudar a influência de variáveis modelo tridimensional dos grupos humanos. como sensibilidade interpessoal, inteligência, dominância, autoritaris- temática de pesquisa na dinâmica de grupo é dotada de relevância da mo, e maquiavelismo em processos de in- A havendo, portanto, o entendimento de que os resultados aplicá- fluenciação social. No quadro geral desses estudos avultam as contri- social, investigação em tais tópicos sejam (ao menos potencialmente) úteis, buições de Fiedler (1964), que, tendo adotado como ponto de partida veis situações profissionais de ordem prática. Podem ser estudos por conhecida diferenciação entre os líderes mais favoráveis à consecução a exemplo, a na Educação e na psicoterapia. Além disso, esclarecerem esses a de metas (estrutura de iniciação) e os que concedem relevo aos podem ser considerados importantes pelo fato de nos interesses e necessidads de seus seguidores (estrutura de considera- respeito da formação de nossa identidade psicossocial. ção), verificou que os do primeiro tipo distinguem mais nitidamente A procura da companhia de outras pessoas, ou seja, o conceitual- comporta- seus classificando-os em função de suas preferências afiliativo, vem sendo explicado, embora de forma sociais muito afetivas, do que os líderes que denotam maior cuidado, atenção mento restrita e limitada a situações psicológicas e teoria da disposição de ajudar seus auxiliares, conseguindo sempre encontrar e específicas, comparação social de Festinger (1954), mas também encontram-se da mente por teorias de pequeno alcance. o caso da teoria da características positivas em colaboradores menos desejados. Não é ocioso acrescentar que alguns estudos psicossociológicos foram e afiliação de Schachter (1966). De qualquer maneira, baseadas estão sendo realizados com a intenção de esclarecer melhor a natureza desprestigiadas, na Psicologia Social, as explicações gerais dos processos de influenciação social que têm lugar em organizações formais (exemplificando: órgãos da administração pública e empresas na aprendizagem e convém no instinto. distinguir entre conformismo e conformida- mático) final é o de desenvolver técnicas psicossociológicas sendo comerciais, industriais e de prestação de serviços). o objetivo (prag- Tecnicamente, o primeiro termo refere uma característica de personalidade que que de. pode ter sido desenvolvida ao longo da socialização, oriunda ao passo de uma implementadas, incrementariam a eficiência de tais organizações. que, Os conformidade é uma mudança comportamental passou fatos atinentes às últimas observações decorrem (e, se assim vierem a social (real ou imaginária) e que gerou, na pessoa que que lhe ser interpretados, o serão justamente) da orientação utilitarista da a pressão tal experiência, um conflito entre o padrão comportamental contribuições livro. Psicologia Social referida no primeiro capítulo deste por e o da sua preferência anterior. Entre as a de Mil- foi experimentais imposto mais recentes sobre a conformidade situa-se metade 6.5. Resumo gram de 60), uma intensa polêmica quanto aos problemas (1974), que produziu, após a sua divulgação (na segunda éticos Na Psicologia Social os estudos sobre processos da suscitados década pelo planejamento experimental e às políti- grupais não têm despertado tanto interesse quanto a pesquisa do cas e ideológicas dos resultados da pesquisa. 77 76Tem-se verificado que a coesão grupal, levinianamente definida a função na na autodefesa e na expressão da hostilidade partir da idéia da atratividade do grupo, desempenha uma importante 7 psicológicas individuais. dos grupos humanos, mas igualmente na satisfação de necessidades o tópico da liderança, assim como o do poder social, não despertam tanto interesse entre os pesquisadores quanto a sua importância tiria Essa situação talvez se possa explicar ainda que parcial- permi- Teorias cognitivas mente, pela existência de idéias-força de caráter libertário, tão na Psicologia Social contemporânea voga nas sociedades e que atuam como freios sobre em interpretados como fatos sociais e psicossociais negativos. as pesquisas de que, à luz de tais idéias, passam a ser A liderança é um processo de influenciação social, e atualmente seguidores, tarefas e situações. sua pesquisa se encontra centrada no exame das relações entre líderes, a Leituras recomendadas Os produtos mais desejados na pesquisa científica são teoria as teorias, não é McDavid & Harari (1980, cap. 9, 10, 11 e 12); e Zajonc (1969, cap. IV). Crano Freedman et al. (1973, cap. 1, 5, 6 e 7); Goldstein (1983, cap. 6 e 9); desde logo convém observar que o conceito de então, mas uniformemente interpretado. Nas ciências sociais e humanas mais mais do que nas ciências formais e da natureza, prosperam as diversas noções sobre o termo teoria. Conceitos isolados, hipóteses que singulares, sistemas de conjeturas logicamente pouco integradas acordo convergem para o mesmo objeto (contexto aberto, de embasados com têm recebido qualificação de teoria. Naturalmente, seria Bunge, 1980, p. 41) e argumentos metaforicamente descabida e talvez negativa para o desenvolvimento científico a imposição básicos, mas, de de vista intransigentes na definição de conceitos de da pontos lado, também seria difícil aceitar a suposição que surjam de ausência outro de qualquer resquício de uniformidade semântica lógico e contribuições que possam ser submetidas ao tratamento empírico que os pesquisadores costumam impor a conjeturas qualifica- das como científicas. objetivos que temos em vista, podemos partir da sentenças, suposição de Para que os uma teoria científica seja um conglomerado relacionadas de entre si, variadas em seu vizinhas grau de abstração aos fenômenos e logicamente deduzidas de outras, menos sendo as mais a fatos empíricos. Tais construções são avaliadas respeito sob dois à próximas gerais: o sintático e o semântico. o primeiro diz consti- critérios interna, ou seja, à inter-relação entre as assertivas que ordem teoria, que deve ser consistente; ao passo que, sob a empíricas, perspecti- tuem semântica, a tais artefatos, se incorporados às ciências aos quais va devem ser apreciados em sua relação com os fatos se 79 78