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TÉCNICA DE 
ENTREVISTA E 
ACONSELHAMENTO 
PSICOLÓGICO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Descrever a entrevista de triagem e a anamnese.
 > Caracterizar a entrevista psicodiagnóstica.
 > Explicar o processo de entrevista diagnóstica com crianças e adolescentes.
Introdução
Na práxis do psicólogo, especialmente o clínico, e de outros profissionais da saúde, 
o uso de entrevistas é um dos principais elementos de trabalho, pois elas são, 
geralmente, a porta de entrada pela qual o psicólogo inicia o estabelecimento do 
rapport e conhece mais profundamente o seu paciente. Isso é feito por meio do 
levantamento de dados e informações fundamentais que vão balizar a atuação 
do profissional no decorrer do processo de psicodiagnóstico ou psicoterápico.
O psicodiagnóstico é um processo que surge com uma demanda que tem um 
objetivo específico. O psicólogo usa técnicas e ferramentas com a finalidade de 
investigar construtos psicológicos e apresentar uma resposta com base em um 
planejamento específico para cada paciente, considerando as particularidades de 
cada caso: se o paciente é criança, adolescente ou adulto; se há alguma limitação 
(física, cognitiva, emocional), etc.
Neste capítulo, você vai conhecer os conceitos de entrevista clínica, entrevista 
de triagem e anamnese. Além disso, vai estudar as principais características do 
psicodiagnóstico. Por fim, vai ver os desafios e as estratégias na aplicação da 
entrevista diagnóstica com crianças e adolescentes.
A entrevista na 
clínica psicológica
Gleison Gomes da Costa
Entrevistas de triagem e de anamnese
Provavelmente, você já deve ter passado por algum tipo de entrevista em sua 
vida: entrevista de emprego, de triagem, feita na unidade de pronto-socorro, 
de anamnese, feita pelo médico, entre outras.
Para entender entrevistas de triagem e de anamnese é fundamental come-
çar pelo conceito de entrevista clínica, que difere das entrevistas realizadas 
em contextos que não são relacionados à saúde, pois tem outros objetivos 
e finalidades (MORRISON, 2010). Segundo Tavares (2007, p. 45), entrevista 
clínica é:
[...] um conjunto de técnicas de investigação, de tempo delimitado, dirigido por um 
entrevistador treinado, que utiliza de conhecimentos psicológicos, em uma relação 
profissional, com o objetivo de descrever e avaliar aspectos pessoais, relacionais 
ou sistêmicos (indivíduo, casal, família, rede social), em um processo que visa a 
fazer recomendações, encaminhamentos ou propor algum tipo de intervenção em 
benefício das pessoas entrevistadas.
É importante observar que Tavares (2007) aponta para que o entrevista-
dor seja uma pessoa treinada, pois o processo vai além de fazer com que o 
paciente responda a perguntas, o que poderia ser feito perfeitamente por 
uma máquina. O processo envolve perceber as hesitações, ver as nuances do 
comportamento não verbal e conseguir fazer perguntas que extraiam mais 
informações sobre o que foi perguntado quando ocorrerem respostas com 
características de fuga ou esquiva (MORRISON, 2010).
Como já vimos o significado de entrevista clínica, vamos estudar a seguir 
os conceitos de entrevista de triagem e de anamnese.
Entrevista de triagem
De acordo com Tavares (2007, p. 50), a “[...] entrevista de triagem tem por 
objetivo avaliar a demanda do sujeito e fazer um encaminhamento”. Geral-
mente utilizada no contexto clínico, em hospitais e em serviços de saúde 
em geral, ela é usada pelo profissional para fazer o levantamento inicial da 
demanda e ver o grau de comprometimento em que o paciente se encontra 
e a necessidade de atendimento de outras especialidades. Além disso, serve 
para saber se aquele profissional tem as competências necessárias para 
aquele atendimento (TAVARES, 2007).
Contudo, como aponta Rocha (2011), não é possível ter apenas uma única 
compreensão do que é a triagem, pois as pesquisas na literatura apontam para 
duas vertentes: a triagem tradicional e a triagem estendida ou interventiva.
A entrevista na clínica psicológica2
A triagem tradicional é a mais amplamente difundida e praticada pelos 
psicólogos e por outros profissionais de saúde, pois já existe há mais tempo. 
Ela apresenta três objetivos básicos (Figura 1), a fim de formar um quadro 
capaz de apontar um encaminhamento, interno ou externo à instituição, 
adequado para cada pessoa submetida à entrevista.
Figura 1. Objetivos da entrevista de triagem tradicional.
Ainda, de acordo com Rocha (2011), o profissional deve utilizar técnicas e 
instrumentos que possibilitem levantar o máximo possível de informações. 
Alguns exemplos muito utilizados são as entrevistas semiestruturadas, alguns 
testes psicológicos, entre outros. O importante é usar instrumentos que pos-
sibilitem a coleta dos dados que podem ser verbalizados e, ainda, dos que não 
foram relatados espontaneamente pelos pacientes e que podem ser relevantes.
A triagem estendida ou interventiva, além de cumprir a função de coletar 
dados do paciente, constitui-se em uma parte da intervenção, um cuidado 
propriamente dito, sendo porta de entrada à escuta para o que o paciente tem 
a dizer sobre as questões que o trouxeram para o atendimento (ROCHA, 2011).
Para Moraes (2016), a entrevista de triagem apresenta caráter interventivo à 
medida que insere o paciente como sujeito ativo que, com auxílio do psicólogo 
(ou outro profissional de saúde), vai passar a ter uma visão ampliada da própria 
queixa. A partir disso, vai dialogar sobre apontamentos, observações, etc.
É importante salientar que a entrevista de triagem também é compreendida 
como um processo de avaliação em que não se realiza apenas uma única 
entrevista. Em alguns casos, ela pode demandar mais de um encontro entre 
o profissional e o paciente. Geralmente, essas entrevistas são semiestru-
turadas, pois apresentam perguntas predeterminadas e, com o decorrer da 
A entrevista na clínica psicológica 3
interação, pode surgir a necessidade de novas questões para complementar 
o entendimento (MARQUES, 2005).
Durante a entrevista de triagem, é importante que o psicólogo verifique as 
expectativas e prioridades do paciente, a fim de que sejam especificadas as 
possibilidades de atendimento e de que forma tal atendimento pode ocorrer 
(HERZBERG, 1996; ROCHA, 2011).
No processo de triagem, o mais importante é que, ao final, o trabalho 
tenha sido feito em conjunto entre psicólogo e paciente e que as decisões 
tomadas tenham sido construídas pelas duas partes. Em outras palavras, 
o psicólogo ou profissional de saúde deve dispor dos dados necessários, 
enquanto o paciente deve compreender que aquele encaminhamento faz 
sentido para ele (HERZBERG, 1996).
O entrevistador deve ter um conjunto de habilidades interpessoais que o 
ajudarão na condução e no sucesso da entrevista, tendo em vista que ela é 
baseada no contato social. Tavares (2007, p. 52) apresenta uma lista de 10 habi-
lidades interpessoais que todo bom entrevistador deve ser capaz de expressar:
1) estar presente, no sentido de estar inteiramente disponível para o outro naquele 
momento, e poder ouvi-lo sem a interferência de questões pessoais; 2) ajudar o 
paciente a se sentir à vontade e a desenvolver uma aliança de trabalho; 3) facilitar 
a expressão dos motivos que levaram a pessoa a ser encaminhada ou a buscar 
ajuda; 4) buscar esclarecimentos para colocações vagas ou incompletas; 5) gentil-
mente, confrontar esquivas e contradições; 6) tolerar a ansiedade relacionada aos 
temas evocados na entrevista; 7) reconhecer defesas e modos de estruturação do 
paciente, especialmente quando elas atuam diretamente na relação com o entre-
vistador (transferência); 8) compreender seus processos contratransferenciais; 9) 
assumir a iniciativa em momentos de impasse; 10) dominar as técnicas que utiliza.
Essa lista reforça a importância do processo de formação do profissional 
responsável pela entrevista de triagem. Tal formação deve ser feita para além 
da sala de aula da faculdade, de forma continuada, aliando teoria e prática 
(TAVARES, 2007).
Entrevistade anamnese
No processo de entrevista de anamnese, ocorre a investigação da história 
de vida do examinado, buscando os aspectos de sua vida considerados re-
levantes para o entendimento da queixa (SILVA; BANDEIRA, 2016). Além disso, 
procuram-se possíveis conexões entre os aspectos da vida do paciente com 
o problema apresentado (TAVARES, 2007).
Considerando que se trata da investigação de fatos da história de vida 
do sujeito, Silva e Bandeira (2016, p. 92) classificam como fundamental que 
A entrevista na clínica psicológica4
o “[...] informante detenha um conhecimento sobre a própria vida ou sobre 
a vida de quem está sendo avaliado, sendo necessário que ele recupere 
da memória os eventos significativos questionados pelo psicólogo”. Dessa 
forma, quando se tratar de crianças, é necessária a entrevista com os pais e 
familiares. Com adolescentes, a entrevista pode ser realizada com o próprio 
adolescente e com os pais, em momentos diferentes.
A anamnese geralmente é feita por meio de entrevista semiestruturada. 
Previamente, é estabelecido um roteiro com perguntas essenciais, mas há a pos-
sibilidade de abertura para novas perguntas, promovendo alterações na estrutura 
inicial. Nesse escopo, está compreendido o espaço inicial para o estabelecimento 
do rapport (vínculo terapêutico) adequado, para explicar os objetivos, a duração 
e o papel do entrevistador no processo (SILVA; BANDEIRA, 2016).
Como citado, a entrevista de anamnese pode ser feita com crianças, ado-
lescentes, adultos e idosos. Silva e Bandeira (2016) apontam que, para cada 
uma dessas faixas etárias, as entrevistas semiestruturadas têm estruturas 
diferentes entre as sessões que as compõem. Por exemplo, no caso de crianças 
e adolescentes, a investigação será muito mais centrada em compreender a 
convivência com a família desde a gestação e a convivência escolar, um fator 
importante de socialização ao longo do ciclo vital.
Para adultos, embora seja importante pesquisar as histórias da infância, 
a maior ênfase é dada à adolescência e à vida adulta, pois já estão presentes 
novos contextos e vínculos (trabalho, faculdade, formação da própria família 
e relações sociais) (SILVA; BANDEIRA, 2016). Esses novos contextos tornam-se 
importantes, pois, ao deixar a fase de infância, em que havia grande depen-
dência dos cuidadores, as pessoas passam a assumir responsabilidades pelas 
suas escolhas. Com isso, muitas mudanças ocorrem.
Silva e Bandeira (2016) também apontam a importância de observar os 
aspectos da vida adulta de forma sistêmica, uma vez que os diversos papéis 
desempenhados podem ser fontes de ansiedade e gerar conflito. Por exemplo, 
pessoas que se dedicam muito ao âmbito profissional negligenciam aspectos 
da vida conjugal e sexual ou da vida social.
Embora na entrevista de anamnese a principal fonte de informação seja 
o relato verbal do próprio paciente, Silva e Bandeira (2016) apontam que é 
importante, em alguns casos, investigar outras fontes de informação, como 
documentos que possam ser úteis para levantar dados complementares sobre 
a pessoa (exames, prontuários, registros escolares, etc.).
Quando se trata de anamnese de crianças, nem sempre será possível coletar 
todas as informações dos pais com a precisão necessária, principalmente em 
relação ao histórico clínico, que envolve linguagem médica e de outros profis-
A entrevista na clínica psicológica 5
sionais da saúde. Krug, Bandeira e Trentini (2016) ressaltam a importância de o 
psicólogo procurar o profissional que encaminhou a criança para atendimento, a 
fim de que sejam especificados os objetivos e de que as dúvidas sejam sanadas.
Assim como na entrevista de triagem e em todas as atividades desenvolvidas 
pelo psicólogo, é fundamental que o profissional que vai trabalhar com a entre-
vista de anamnese tenha conhecimento sólido sobre as técnicas psicológicas 
e, ainda, conheça minimamente outras áreas do saber, como fármacos, suas 
utilizações e efeitos no organismo ou questões sociológicas. Assim, ele vai 
entender a importância do contexto no qual a pessoa está inserida, a fim de 
facilitar a compreensão sobre os fenômenos avaliados (SILVA; BANDEIRA, 2016).
Psicodiagnóstico: principais características
De acordo com Cunha (2007a), os primeiros estudos sobre psicodiagnóstico 
surgiram no final do século IX. Eles foram marcados pelos trabalhos de Galton 
(estudo das diferenças individuais), Cattell (testes mentais) e Binet (exame 
psicológico por meio de medidas intelectuais). Os três são conhecidos como 
os pais do psicodiagnóstico.
Segundo Cunha (2007a, p. 23), o psicodiagnóstico pode ser classificado 
como:
[...] um processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes psi-
cológicos (input), em nível individual ou não, seja para entender problemas à luz 
de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos, seja para 
classificar o caso e prever seu curso possível, comunicando os resultados (output), 
na base dos quais são propostas soluções, se for o caso.
Outro conceito é o proposto por Serafini (2016), que define o psicodiag-
nóstico como um tipo de avaliação psicológica desenvolvida no âmbito clínico 
que tem início em uma queixa ou demanda e que se desenvolve por meio 
de um processo com foco ou motivo específicos. Nesse tipo de diagnóstico 
psicológico, o foco ou motivo são de extrema importância, pois eles que vão 
guiar todo o processo. Em algumas vezes, eles não estão muito claros para o 
psicólogo nem mesmo para o próprio paciente. Por essa razão, é importante 
usar as entrevistas iniciais (com o paciente ou outras pessoas) para coletar o 
máximo de informações possíveis que auxiliarão na definição dos objetivos. 
Ter um objetivo específico vai possibilitar a elaboração de hipóteses e a 
construção de um plano de avaliação.
Para Krug, Trentini e Bandeira (2016), o psicodiagnóstico é um processo 
de investigação e intervenção clínica limitado no tempo, com embasamento 
A entrevista na clínica psicológica6
científico, conduzido à luz de uma teoria psicológica e que faz uso de técnicas 
e/ou testes para a avaliação de uma ou mais características psicológicas.
Como visto, a avaliação do tipo de psicodiagnóstico começa com uma demanda. 
Tal demanda pode ser espontânea, quando o próprio paciente procura por uma 
razão específica, ou não, quando o paciente é encaminhado por outra fonte (escola, 
trabalho, médico, etc.). Geralmente, quando o paciente chega, as informações 
apresentadas não são suficientes para a delimitação do foco (SERAFINI, 2016).
O plano de avaliação será definido com base nas perguntas e hipóteses 
iniciais elaboradas (CUNHA, 2007a). Por isso, as entrevistas iniciais são impor-
tantes, a fim de coletar o maior número de informações possíveis e delimitar 
o foco do processo de diagnóstico (SERAFINI, 2016).
Nas entrevistas iniciais, é muito importante que o psicólogo consiga colher 
o máximo de informações possíveis. Nem sempre o paciente vai ter todas 
essas informações. Em alguns casos, ele nem consegue entender direito a 
razão do encaminhamento para o psicodiagnóstico. Logo, é fundamental que 
o psicólogo faça contato com o profissional que encaminhou aquele paciente 
para a avaliação, a fim de esclarecer dúvidas e certificar-se a respeito do 
pedido (SERAFINI, 2016).
Serafini (2016) apresenta as etapas e diferenças básicas na coleta de 
informações por meio das entrevistas iniciais com crianças, adolescentes e 
adultos (Figura 2).
Figura 2. Fluxograma com as etapas da entrevista inicial.
Fonte: Serafini (2016, p. 47).
A entrevista na clínica psicológica 7
Cunha (2007a) aponta os principais objetivos da avaliação psicológica 
clínica: classificação simples, descrição, classificação nosológica (baseada 
em critérios diagnósticos, como a presença ou ausência de sintomas), diag-
nóstico diferencial (são testados critérios que excluem outras patologias), 
avaliação compreensiva (avalia o nível de funcionamento da personalidade), 
entendimento dinâmico (visão sistêmicafeita pela integração de dados), 
prevenção, prognóstico e perícia forense.
Assim como em outras formas de avaliação psicológica, o psicodiag-
nóstico pode ir além da visão tradicional de realizar diagnósticos. Ele pode 
se tornar um processo de natureza interventiva, uma vez que a condução 
dos “[...] processos de avaliação psicológica não [é] apenas para realizar 
diagnósticos, mas também para oferecer feedback, visando [a] promover 
efeitos terapêuticos enquanto ocorre a avaliação” (SCADUTO; CARDOSO; 
HECK, 2019, p. 69).
De acordo com Scaduto, Cardoso e Heck (2019), no psicodiagnóstico inter-
ventivo o psicólogo deve assumir o papel de acolhimento, buscando ir além 
da coleta informações. Ele deve gerar reflexões sobre os motivos de buscar 
ajuda, sobre seu papel no contexto em que está inserido e sobre a importância 
de sua participação em todo o processo de avaliação.
Cunha (2007a, p. 31) apresenta os passos necessários para um diagnóstico 
baseado em um modelo psicológico de natureza clínica:
a) levantamento de perguntas relacionadas com os motivos da consulta e defi-
nição das hipóteses iniciais e dos objetivos do exame; b) planejamento, seleção 
e utilização de instrumentos de exame psicológico; c) levantamento quantitativo 
e qualitativo dos dados; d) integração de dados e informações e formulação de 
inferências pela integração dos dados, tendo como pontos de referência as hipó-
teses iniciais e os objetivos do exame; e) comunicação de resultados, orientação 
sobre o caso e encerramento do processo.
Dessa forma, o processo de psicodiagnóstico apresenta estrutura e 
passos definidos, que servem para nortear o trabalho do avaliador. Contudo, 
o avaliador deve estar atento para a condução das atividades de acordo 
com o perfil e as necessidades de cada paciente que busca atendimento. 
Ele deve elaborar um plano específico para cada um, afinal cada paciente é 
dotado de subjetividades e características distintas, mesmo que os objetivos 
da avaliação sejam muito próximos ou até idênticos. Por exemplo, mesmo 
que o objetivo de dois processos de psicodiagnóstico sejam investigar 
um possível quadro de déficit de atenção e hiperatividade, as técnicas e 
estratégias utilizadas devem ser pensadas para cada um dos pacientes, 
considerando seus perfis.
A entrevista na clínica psicológica8
Existem diferenças significativas no psicodiagnóstico realizado com adul-
tos e com crianças. Essas diferenças compreendem as fontes de coleta de 
informações, a forma de utilização das técnicas, a duração das sessões, o 
estabelecimento do rapport, a devolutiva do resultado, etc. (SCADUTO; CAR-
DOSO; HECK, 2019). Na próxima seção, vamos estudar a entrevista diagnóstica 
com crianças e adolescentes.
Entrevista diagnóstica com crianças 
e adolescentes
No psicodiagnóstico com crianças ou adolescentes, os dados podem ser 
obtidos por meio do autorrelato, no qual as informações são colhidas com os 
próprios pacientes, ou do heterorrelato, no qual as informações são colhidas 
com outras pessoas que não o paciente, ou seja, com seus pais, familiares, 
médicos, professores, etc. (GIACOMONI; BANDEIRA, 2016).
As primeiras tentativas de formulação e comprovação de teorias psicoló-
gicas com crianças surgiu com Freud, quando o autor apresentou as primeiras 
tentativas de auxiliar os pais a compreenderem e avaliarem o sofrimento 
dos seus filhos, como no caso do pequeno Hans, em 1909. Depois, houve 
Melanie Klein, que buscava a sistematização do brincar e do brinquedo como 
recursos disponíveis para acessar o inconsciente infantil. Hoje, a “[...] criança 
é capaz de, brincando, estruturar a representação de seus conflitos básicos 
e o seu funcionamento mental e, deste modo, muitos fenômenos que não 
seriam obtidos pela palavra podem ser observados pelo brincar e por meio 
de expressões gráficas” (ARENALES-LOLI et al., 2013, p. 409).
Na prática clínica com adolescentes, Arenales-Loli et al. (2013) explicam que, 
diferentemente da prática com a criança, não é oportuno o uso de brinquedos 
ou do brincar como manejo técnico. Entretanto, o adolescente ainda não está 
completamente pronto para usar a palavra para fazer referência aos seus 
conteúdos internos, sendo necessária a busca por alternativas capazes de 
permitir a expressão de sentimentos, pensamentos e emoções que possam 
ser trabalhados nas sessões.
Entrevistas diagnósticas com crianças
No psicodiagnóstico, uma das técnicas para coletar informações com crianças 
é conhecida como entrevista lúdica (hora lúdica ou hora do jogo). Ela explora 
um dos comportamentos mais frequentes em crianças: o brincar. Entretanto, 
A entrevista na clínica psicológica 9
isso não pode ser confundido com o brincar por brincar. Na entrevista lúdica, 
o uso da brincadeira é feito de forma supervisionada, com delineamento de 
alguns critérios específicos para a análise do brincar (CIOCHETTA; KROEFF, 2019).
Uma pesquisa identificou que uma das principais atividades do 
psicólogo no Brasil é o atendimento de crianças. Cerca de 56,9% dos 
profissionais da área escolar afirmam trabalhar com o atendimento de crianças. 
Na área clínica, o percentual ficou em torno de 44,5%. Além disso, 41,7% dos 
profissionais da saúde relatam trabalhar com atendimento de crianças (GONDIM; 
BASTOS; PEIXOTO, 2010).
De acordo com Krug, Bandeira e Trentini (2016), é fácil perceber a influência 
da teoria psicanalítica na entrevista lúdica. Contudo, é possível destacar a 
existência de duas perspectivas adotadas quando se fala em entrevista lúdica: 
uma relacionada ao campo da avaliação psicológica e outra ao campo da 
psicanálise. Na avaliação psicológica, encontra-se maior abertura para o uso 
de diversas técnicas, como testes psicológicos, com a técnica da entrevista 
lúdica. No outro campo, de viés psicanalítico, a priorização é pela própria 
entrevista lúdica e pelas entrevistas com os pais e outras fontes, todas de 
natureza mais verbal.
A entrevista clínica realizada com crianças, segundo Krug, Bandeira e 
Trentini (2016, p. 75), pode ser chamada de entrevista lúdica diagnóstica, “[...] 
que se configura como um procedimento técnico utilizado a fim de conhecer e 
compreender a realidade da criança em processo de avaliação”. Ela pode ser 
vista como uma entrevista inicial realizada com a criança, não significando 
que seja o primeiro ou único procedimento.
Werlang (2007) afirma que, no atendimento infantil, antes de ter o primeiro 
contato com a criança, é fundamental entrevistar os pais, com o objetivo de 
obter as informações mais abrangentes possíveis sobre a queixa e sobre a 
criança (aspectos do desenvolvimento, primeiros anos de vida, comportamen-
tos em casa e em outros ambientes, fatos marcantes que possam ter chamado 
a atenção, entre outros). Também deve-se explicar aos pais a importância de 
eles deixarem a criança ciente dos motivos pelos quais ela está sendo levada 
para aquele local (clínica psicológica).
Na prática, a entrevista lúdica consiste em “[...] oferecer à criança a opor-
tunidade de brincar, como deseje, com todo o material lúdico disponível 
na sala, esclarecendo sobre o espaço onde poderá brincar, sobre o tempo 
disponível, sobre os papéis dela e do psicólogo” (WERLANG, 2007, p. 98-99). 
Cada entrevista é única, tanto para as crianças quanto para o psicólogo, pois 
A entrevista na clínica psicológica10
cada criança vai se manifestar no seu tempo e à sua maneira, e a interação 
delas com o psicoterapeuta será diferente a cada sessão, ainda que no uso dos 
mesmos brinquedos. Em geral, a postura do psicólogo é mais passiva, pois ele 
vai permitir que a criança brinque livremente. Ao mesmo tempo, o psicólogo 
assume o papel de um observador ativo, pois busca compreender as relações 
e as representações da criança com os brinquedos, correlacionando-as com 
os objetivos definidos para a análise. Também é importante fazer perguntas 
sobre a brincadeira e formular hipóteses (WERLANG, 2007).
Segundo Werlang (2007) e Krug, Bandeira e Trentini (2016), além da entrevistalúdica, outras práticas podem ser adotadas no processo de psicodiagnóstico com 
crianças: entrevistas com os pais e outras fontes de informação, testes psicoló-
gicos, entre outros. Na entrevista com os pais, é importante colher informações 
da forma mais ampla possível, sobre os diversos níveis de desenvolvimento 
(físico, emocional, cognitivo, social), a fim de conhecer mais a criança. Também 
é importante tentar compreender o funcionamento da estrutura familiar e o 
suporte social que faz parte da vida da criança (KRUG; BANDEIRA; TRENTINI, 2016).
Para auxiliar os psicólogos na busca pela compreensão de conteúdos que 
muitas vezes não são expressos ou que não podem ser observados direta-
mente, existem outras ferramentas que trazem informações de forma mais 
sistematizada, como os testes e as escalas psicológicas. Como exemplo, veja 
a seguir os citados nas obras de Borsa e Muniz (2016), Cunha (2007b), Freitas 
(2007) e Freitas e Cunha (2007).
 � Children’s apperception test (CAT, ou teste de apercepção temática 
para crianças): permite a investigação da personalidade e o estudo 
da dinâmica significativa das diferenças individuais na percepção de 
estímulos padronizados, que refletem o conteúdo latente e os proces-
sos psíquicos da criança. Ele é dividido em CAT-A (figuras de animais) 
e CAT-H (figuras humanas).
 � Desenho da figura humana (DFH): utilizado para avaliação da ma-
turidade conceitual, personalidade e ajustamento emocional e até 
aspectos específicos, como a ansiedade. É amplamente aceito pelas 
crianças, pois trata-se do desenho de uma figura humana, além de 
ser de fácil aplicação.
 � House, tree and person (HTP, ou casa, árvore e pessoa): um teste proje-
tivo que, por meio do desenho de uma casa, uma árvore e uma pessoa, 
torna possível realizar análises da personalidade do sujeito, da relação 
dele com ele mesmo e da inter-relação com familiares. É indicado para 
crianças a partir dos 8 anos.
A entrevista na clínica psicológica 11
No site do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi), é 
possível identificar outros testes favoráveis e de uso exclusivo dos 
psicólogos. Além disso, o site traz instrumentos não privativos de psicólogos. 
É importante acompanhar o Satepsi sempre que for fazer a escolha por um 
desses instrumentos (CFP, 2021).
Diagnósticos com adolescentes: desafios 
e estratégias
Os adolescentes estão na fase entre a oposição ao brincar, pois não se veem 
como uma criança, e a oposição a responder a uma autoridade, pois buscam 
independência na expressão de seus conteúdos internos e desejam que 
sejam compreendidos. Assim, o profissional que vai atender o adolescente 
se encontra diante de uma situação em que é preciso uma busca incessante 
por mediadores que sirvam de canais para a coleta de informações em um 
psicodiagnóstico (ARENALES-LOLI et al., 2013).
Alguns recursos são sugeridos por Arenales-Loli et al. (2013) para serem 
utilizados como ferramentas que possibilitam a expressão das emoções no 
adolescente: fotografias que contam a história dele e de sua família, cons-
trução de uma árvore genealógica, entre outros.
No contato com o adolescente na clínica, é muito difícil o uso exclusivo 
da comunicação verbal. Assim, é imprescindível o uso de recursos clínicos 
que possibilitem a eles expressarem suas emoções e seus sentimentos. Para 
isso, Arenales-Loli et al. (2013) trazem a utilização de jogos como mediadores 
desse contato. O jogo desenvolvido pela autora, o Túnel do Tempo, surge 
como uma forma de suprir as lacunas deixadas pelos jogos tradicionais como 
Banco Imobiliário, Jogo da Vida, entre outros. O Túnel do Tempo levanta 
questões que provocarão reflexões sobre o passado, o presente e o futuro, 
trazendo o adolescente como protagonista das histórias e reconstruindo 
fatos significativos (ARENALES-LOLI et al., 2013).
Mesmo com os desafios enfrentados pelos profissionais em relação aos 
adolescentes, existem formas de melhorar o rapport e estabelecer o vínculo 
ao fazer uso de mediadores que buscam o engajamento do adolescente ao 
processo de psicodiagnóstico. Vale ressaltar que autores como Serafini 
(2016), Tavares (2016) e Werlang (2007) sugerem praticamente os mesmos cui-
dados no psicodiagnóstico com adolescentes e com crianças. As diferenças 
estão em algumas partes, em razão das especificidades dessas diferentes 
A entrevista na clínica psicológica12
fases do ciclo vital. Por exemplo, com a criança, a entrevista inicial é feita 
primeiramente com os pais; com o adolescente, o recomendado é que a 
entrevista seja feita primeiro com ele e depois com os pais.
Como visto neste capítulo, a entrevista clínica é uma ferramenta muito 
importante na atuação do profissional da psicologia e de diversos outros 
profissionais da saúde. Ela assume um papel importante seja para avaliar 
uma demanda e dar o melhor encaminhamento, como no caso da entrevista 
de triagem, seja para coletar dados da história de vida da pessoa e munir o 
psicólogo de informações para o melhor planejamento de um psicodiagnóstico 
ou de uma intervenção. Neste capítulo, também vimos que o psicodiagnóstico 
é um processo de caráter científico, limitado no tempo, com objetivos bem 
definidos, baseado em uma entrada (demanda) e em uma saída (comunicação 
dos resultados). Ele pode ser realizado com adultos, idosos, adolescentes e 
crianças, respeitando suas singularidades.
Referências
ARENALES-LOLI, M. S. et al. O jogo como mediador na entrevista: um novo lugar no 
processo psicoterápico com adolescentes. Boletim da Academia Paulista de Psicologia, 
v. 33, n. 85, p. 405-426, dez. 2013. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/bapp/
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