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DEZEMBRO 2024 - NÚMERO 2 Revista da Orientação Educacional INCLUSÃO DAS DIVERSIDADES NA ESCOLA E O TRABALHO DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL Ibaneis Rocha - Governador Celina Leão - Vice-Governadora SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO Hélvia Miridan Paranaguá Fraga - Secretária SUBSECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA Iêdes Soares Braga - Subsecretária UNIDADE DE GESTÃO ARTICULADORA DA EDUCAÇÃO BÁSICA Claudimary Pires de Oliveira - Chefe de Unidade DIRETORIA DE SERVIÇOS, PROGRAMAS E PROJETOS TRANSVERSAIS Ana Karina Braga Isac - Diretora GERÊNCIA DE ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL Érika Goulart Araújo - Gerente COMISSÃO EDITORIAL Adriana Almeida Sousa Rodrigues Anelise Sarmento Porto Cléssia Mara Santos Hélen Rose Pinheiro Fróes Érika Goulart Araujo Gleiser Mateus Ferreira Valério Jackeline Farias Moll Manoelita Tabile Manjabosco Maria Juliana de Freitas Carvalho Lopes Maria Susley Pereira Marina Cantanhêde Rampazzo Michele Miranda Azevedo Michelle Ribeiro Confessor Rejane Matias Gomes da Silva Rosemary dos Santos Menezes COLABORADOR Jailton Lopes Vicente PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Instituto Educacional Essência do Saber APOIO EDITORIAL SEBRAE DIRETORIA EXECUTIVA DIRETORA SUPERINTENDENTE Rosemary Soares Antunes Rainha DIRETORA ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO Adélia Leana Getro de Carvalho Bonfim DIRETORA TÉCNICA Diná da Rocha Loures Ferraz As opiniões veiculadas nos trabalhos publicados na Revista da Orientação Educacional Rosa dos Ventos são de responsabilidade exclusiva de seus (suas) autores(as) e não representam necessariamente a po- sição da Revista ou da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. 05 06 11 14 18 23 27 31 34 38 42 45 Editorial S U M Á R I O A escola e sua função social na promoção da educação inclusiva Katiane de Carvalho Lima A atuação do orientador educacional nas aprendizagens de estudantes com deficiência intelectual Karine Freitas de Paiva Cardoso A mediação social de conflitos como práxis da orientação educacional Cléssia Mara Santos Katilen Machado Vicente Squarisi Alinhando objetivos, metas e indicadores de resultado e ações inclusivas no plano de ação da orientação educacional da SEEDF: uma experiência da coordenação intermediária da orientação educacional - Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto Cléssia Mara Santos Guilherme Mendes Articulação de redes: superando desafios e alcançando sonhos Raquel Bastos Magalhães Caminhos para alfabetização de adultos em uma escola do campo Marina Cantanhêde Rampazzo Construindo uma cultura de paz: relato das oficinas das emoções Zilma Josefa da Fonseca Bispo Azevedo Da prática individual à ação coletiva: a inclusão na orientação educacional Leilane Andréa da Silva Araujo Inclusão social no agosto lilás Giliana Ribeiro Miguel Inclusão x integração no ambiente escolar Anelise Sarmento Porto Inclusão: um relato das práticas implementadas em um centro de ensino médio Eugênia de Medeiros Souza Ana Carolina Rabello Nascimento O impacto do Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC) no desenvolvimento acadêmico: desafios e intervenções Camilla Raquel dos Santos Dias O lugar de pessoas trans na escola Viviane Costa Silva O recreio dirigido e seu desencadeamento Lilian Chaul de Souza Onde tenha sol Cristiellen de Oliveira Guedes Michele Miranda de Azevedo Projeto Semeando a Paz: «Me aceita como eu sou» Anne Ferreira Reflexões sobre a prática pedagógica para a consolidação de um projeto de transição escolar Maria Juliana de Freitas Carvalho Lopes Rosimeiry Aparecida Carvalho Ressignificando o setembro amarelo: por uma educação socioemocional na perspectiva histórico-cultural Michele Miranda de Azevedo Cleudelene Antônia Mendonça Teatro na escola Cristiana Lopes Mourão Pontes Um caminho para a inclusão de estudantes com transtorno do espectro autista - TEA Maria Helena da Silva Araújo Vivenciando aprendizagens na educação infantil Juliana Tavares da Silva Santos 49 53 58 61 65 69 73 78 81 86 Educação Empreendedora: transformando sonhos em realidade no Distrito Federal Empreender é mais do que criar negócios; é cultivar ideias, inspirar mudanças e transformar realidades. No Distrito Federal, o Sebrae tem sido um pilar fundamental nesse processo, promovendo a educação empreendedora como ferramenta de desenvolvimento social e econômico. Desde 2013, com o lançamento do Programa Nacional de Educação Empreendedora (PNEE), o Sebrae abraçou a missão de despertar a mentalidade empreendedora em estudantes e educadores. Essa iniciativa busca mais do que preparar indivíduos para o mercado de trabalho; ela visa formar cidadãos críticos, autônomos e capazes de influenciar positivamente o mundo ao seu redor. Em 2024, o Sebrae impactou mais de 530 mil estudantes e 12 mil profissionais da educação por meio de diversas iniciativas, como palestras, workshops, jornadas, capacitações, fóruns e seminários. No cenário local, a parceria com a Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal tem proporcionado um ambiente fértil para que estudantes e educadores explorem suas vocações, pratiquem o autoconhecimento e desenvolvam competências essenciais, como criatividade, resolução de problemas e trabalho em equipe. Esse compromisso com uma educação que transforma não apenas inspira o espírito empreendedor, mas também promove valores como coletividade, respeito à diversidade e à cultura de paz. O Sebrae acredita que investir em educação empreendedora é investir em pessoas, aquelas que terão a capacidade de planejar, argumentar e realizar com equilíbrio e propósito. E ao fazer isso, o impacto vai além do individual, alcançando a sociedade como um todo. No Distrito Federal, o Sebrae reafirma sua crença de que a educação transforma, constrói futuros e realiza sonhos. Porque transformar vidas é, em essência, o maior ato de empreender. Foto: Envato Elements 5ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Caros leitores e leitoras, Nesta edição, a Revista Rosa dos Ventos buscou amplificar o olhar nos mais diversos trabalhos de excelência que vêm sendo acompanhados no âmbito da Orientação Educacional. São projetos com temáticas variadas, visões, ideias e formas de atuação frente aos mais intensos desafios que se apresentam nas escolas de todas as etapas e modalidades. Apesar de suas diferenças, são trabalhos pautados na competência técnica, na dedicação, na criatividade e, sobretudo, na sensibilidade que esses profissionais vêm imprimindo na sua prática. Em 2022, foi lançada a Revista Cartas Pedagógicas da Orientação Educacional e Outros Escritos, a primeira do Distrito Federal com este enfoque. Com uma escrita mais livre e espontânea, essa edição teve um alto alcance entre os profissionais e contou com textos marcados pela afetividade. Agora, é dado um importante passo rumo ao fomento da pesquisa e produção científica na Orientação Educacional, com a mudança de formato dos textos apresentados. Ao optar por Relatos de Experiência e Artigos, evidencia- se um caráter mais acadêmico aos trabalhos realizados. Tal formalização, no entanto, não incidiu no conteúdo, que se manteve dinâmico E D I T O R I A L Gerência de Orientação Educacional e sensível, garantindo uma leitura fluida e agradável. A sociedade vem enfrentando a questão das desigualdades em um esforço contínuo para viabilizar condições de vida mais humanas a todas as pessoas. A escola se torna, então, um importante cenário na luta pela equidade. Dessa forma, “inclusão”, o tema escolhido para pautar essa edição da revista, se mostra atual e socialmente relevante. Além disso, está em diálogo pleno com a atuação da orientação educacional, que tem sido um baluarte na inclusão de todas as pessoas no ambiente escolar. Vale ressaltar que, além da luta essencial das pessoas com deficiência, o tema também traz uma visão recente do termo, ampliando para ase d a g o g i c a - d a - o r i e n t a % C 3 % A 7 % C 3 % A 3 o - educacional_02mai19.pdf Acesso em: 16 de setembro de 2024. [s/dc] GRINSPUM, Mírian P.S. Zippin. Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. 5ª edição, São Paulo. Cortez, 2011. OLIVEIRA, Maria Cláudia Santos Lopes de; DIAS, Sueli de Souza. Deficiência Intelectual na Perspectiva Histórico- Cultural: Contribuições ao Estudo do Desenvolvimento Adulto. Revista Brasileira de Educação Especial. Marília, v. 19, n.2, p.169-182, Abril-Junho, 2013. 27ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Marina Cantanhêde Rampazzo1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2008. Caminhos para alfabetização de adultos em uma escola do campo Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Orientação Educacional. Educação do Campo. Alfabetização de adultos. INTRODUÇÃO: OS PRIMEIROS PASSOS O presente relato de experiência teve como base os Pressupostos Teóricos do Currículo em Movimento da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, que preconizam, além da concepção de Educação Integral como ampliação de tempos, espaços e oportunidades: Ao abrir espaço não apenas para ensinar a tolerância e o respeito, mas, sobretudo, para provocar análises “[...] dos processos pelos quais as diferenças são produzida através de relações de assimetria e desigualdade” (SILVA, 2003, p. 89), questionando permanentemente essas diferenças, são propostos como eixos transversais: educação para a diversidade, educação para a cidadania, educação para a sustentabilidade e educação para e em direitos humanos. (p. 22). Diante da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, este Currículo explicita a relevância da educação para o exercício da cidadania, expandindo a garantia de acesso à escola, a inclusão social, partindo para a busca de aprendizagem e o sucesso escolar de cada estudante nos espaços formais de ensino. Dessa forma, ao realizar a matriz analítica de uma Escola Classe na zona rural do Paranoá- DF, durante o ano de 2008, uma das questões que mais se tornou evidente foi o elevado índice de familiares adultos dos estudantes que não eram alfabetizados. Foi possível perceber o impacto que esse fator tinha em suas vidas e também no acompanhamento escolar dos estudantes. A região não possuía estímulos para a leitura e tornava o desenvolvimento da função social da escrita mais limitada. Não havia bibliotecas além da escola, nem placas ou sinais escritos. Sendo poucos os locais em que de fato se viam letras. Assim, optou-se por realizar um projeto que desenvolvesse aulas para jovens e adultos. Os principais objetivos eram incentivar o início e a continuidade de estudos entre os membros da comunidade escolar, reduzir os índices de analfabetismo locais, contribuir para as trocas educativas das crianças com seus familiares. O CAMINHO Mediante parceria com as agentes locais de saúde comunitária, foi feito um levantamento dos dados de possíveis interessados em acompanhar aulas de alfabetização/educação para adultos. Com uma lista superior a trinta nomes, procurou-se a Coordenação Regional de Ensino (CRE) no intuito de evidenciar a necessidade de abertura, na unidade escolar, de turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), primeiro segmento. No entanto, 28 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional de acordo com as normativas, não houve perspectivas positivas nessa tentativa. Dessa forma, buscou-se firmar nova parceria, dessa vez com o Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá - CEDEP. Este foi criado a partir da fundação da própria cidade e suas necessidades de luta por moradia e alfabetização. Hoje, o CEDEP está dividido em grupos de ação, (...) com a proposta de desenvolvermos uma educação onde todos possam aprender e transformar a realidade através de ações efetivas, pois acreditamos que, através de ações coletivas, teremos uma sociedade mais justa. (p.2) Com vasta experiência na área, esse parceiro foi o ideal para a concretização do projeto. Forneceu todas as orientações necessárias para que a ideia pudesse se concretizar, começando pela recomendação de que os professores fossem integrantes da comunidade. O próximo passo, então, foi buscar pessoas que pudessem aceitar o desafio, de forma voluntária, e tivessem perfil para a tarefa. No momento em que teve a maior quantidade de estudantes, foi possível ter três turmas funcionando ao mesmo tempo, cada uma com um(a) professor(a) diferente. A primeira voluntária era uma cuidadora de idosos, com formação de nível médio e técnico, sobrinha de um dos funcionários da escola e mãe de uma das crianças com melhores resultados naquela unidade. Ângela contribuiu durante todo o período em que o projeto esteve em vigência e era responsável pela turma de iniciantes. Ela era uma moça jovem, bonita e extremamente gentil. O mesmo é possível afirmar sobre Leonardo, que é primo de Ângela. Naquele momento, Leonardo era estudante de pedagogia. Durante o período de execução das aulas, ele não só se graduou, como ingressou como professor efetivo da Secretaria de Estado de Educação - SEEDF. Esse foi o mesmo destino de Claudia, que era mais expansiva e experiente, ficando, assim, responsável pela turma mais avançada. O projeto ocorreu oferecendo aulas para jovens, adultos e idosos da comunidade durante todo o período em que a orientadora esteve atuante na unidade escolar, portanto, de 2008 até 2012. Enquanto orientação educacional, a atuação passou por compreender a realidade, levantar as principais necessidades da comunidade escolar, formar parcerias, incentivar as famílias, prover informações. Havia o acompanhamento in loco, de forma voluntária, semanalmente, para acompanhar a realização do projeto, mapeando potencialidades e desafios. Essas ações estão de acordo com o proposto na Orientação Pedagógica da Orientação Educacional - OP (DISTRITO FEDERAL, 2019), que preconiza: A práxis da Orientação Educacional deve estar vinculada às questões pedagógicas e ao compromisso ético de contribuir para a construção de uma escola democrática, reflexiva e cidadã (BALESTRO, 2005), integrada aos outros espaços educativos presentes na comunidade na qual está estabelecida, conforme enfatizado neste documento e nas concepções da educação integral vigentes na Secretaria de Estado de Educação. (...) (p. 25). É possível, também, perceber praticamente todos os eixos de ação sugeridos pela OP sendo executados: Com o enfoque na garantia da articulação com diversos sujeitos da comunidade escolar, o trabalho da Orientação Educacional está organizado em seis grandes categorias de ação, conforme as especificidades de objetivos, estratégias e procedimentos. São ações de implantação da Orientação Educacional, ações institucionais, junto ao 29ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional professor, ao estudante, às famílias e em rede, as quais se complementam e se integram em sua práxis e no processo pedagógico de aprendizagem e desenvolvimento realizado na escola. (p. 58). O eixo institucional está muito claro, já que era uma ação promovida pela escola como um todo. Qualquer passo só foi possível porque a gestão da unidade escolar abriu todas as portas e deu todo o apoio. A escola cedia o espaço, os materiais, o nome da instituição para todas as necessidades burocráticas, além de estar constantemente divulgando e estimulando os(as) potenciais estudantes a participarem das aulas. O eixo de implantação também esteve presente na medida em que, como projeto da orientação educacional, em todas as explicações para a comunidade e para os(as) próprios(as) p r o f e s s o r e s ( a s ) , as turmas de EJA eram uma das ações apresentadas e que serviam de grande divulgação da presença e atuação da orientação educacional naquele espaço educativo. Junto aos(às) professores(as),existia uma forte relação com aqueles(as) que estavam ministrando as aulas no período noturno. Desde a seleção, passando por orientações pedagógicas e incentivos. Também havia uma ponte com os(as) professores(as) do diurno, que, muitas vezes, cediam materiais, conhecimentos e planos de aula. A relação com as famílias era um dos pontos centrais e ponta pé inicial de todo o trabalho. O fortalecimento de vínculos ficou muito evidente e foi muito interessante observar tanto alguns familiares se empoderando para poder dar suporte às crianças que estudavam pela manhã, como muitas das próprias crianças estudando mais para poder auxiliar seus familiares nas suas próprias trajetórias escolares. E foi assim também que o eixo das ações junto aos(às) estudantes esteve contemplado ao longo de todo o período, considerando sempre estudantes tanto do diurno, quanto aqueles(as) participantes no noturno. As ações em rede também estiveram no cerne da atuação, considerando, como já citado, o auxílio das agentes comunitárias de saúde e todo o papel fundamental do CEDEP e sua equipe para a realização de cada um dos passos dados. Além deles, vários(as) parceiros(as) estiveram presentes para oferecer aulas complementares e para auxiliar na superação de desafios. Entre os desafios, o que mais se destacou a partir do início das aulas, foi o acesso à escola. Tratava-se de uma questão muito complexa porque, em se tratando de zona rural, as distâncias, por vezes, eram demasiadas e sem opções de como vencê-las. Para piorar, a estrada era toda de chão batido e não havia nenhuma iluminação no percurso. Cada um(uma) resolvia da forma como lhe era possível: a pé, de bicicleta, a cavalo ou de charrete. Várias tentativas foram feitas, no entanto, ainda que reconhecendo a necessidade e pertinência do pleito, não foi viável institucionalmente. Também foram contactadas as empresas que realizavam a linha regular de ônibus da região, para que houvesse, ao menos, alguma linha durante o horário das aulas, ainda que pagando pela passagem, mas, igualmente, não foi possível. Até emissoras de televisão ... ao se falar sobre resultados encontrados em uma iniciativa na área de Educação de Jovens e Adultos, cada passo pode representar uma grande transformação na vida das pessoas, no sentido da inclusão social. 30 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional realizaram matérias sobre o assunto como forma de pressionar, mas também foi em vão. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O PONTO DE CHEGADA Como todo processo, não se pode afirmar que haja de fato um ponto de chegada, já que se trata de um ato contínuo. No entanto, o ritual da formatura se mostrou como uma expressiva simbologia na busca por resultados efetivos. Esse foi um momento marcado pela alegria e pelo orgulho da conquista daqueles que não tiveram oportunidade na idade esperada e que, finalmente, cumpriam com uma pesada expectativa social. Em relação ao projeto, no geral, pode- se afirmar que os principais objetivos foram alcançados. Isto porque houve claramente uma ampliação da educação formal na comunidade, além de uma maior participação das famílias tanto no ambiente escolar como um todo, quanto diretamente nos processos escolares das crianças envolvidas. Como relata o professor Renato Hilário dos Reis, em sua experiência junto ao CEDEP: Tudo posto, faz com que essa alfabetização nos moldes do Projeto Paranoá possa ser um espaço de possibilidade e contribuição à constituição de um sujeito que desenvolve poder, saber e sentimento. E isto, à medida que se transforma, transforma o outro e é transformado simultaneamente por este. À medida também, que transforma e é transformado simultaneamente pelas relações sociais, nas quais está enredado. (Reis, 2000, p.51) Assim, ao se falar sobre resultados encontrados em uma iniciativa na área de Educação de Jovens e Adultos, cada passo pode representar uma grande transformação na vida das pessoas, no sentido da inclusão social. Como a primeira vez que uma avó consegue escrever o nome de sua neta. Ou um trabalhador que aprende a escrever o próprio número do telefone. Ou a primeira leitura solo de um trecho da Bíblia. Assim, algo que para alguns pode parecer um pequeno passinho, pode representar, para o sujeito, toda uma trilha na busca pela cidadania. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL, Lei 9.394, de 29 de dezembro de 1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. DISTRITO FEDERAL. SEEDF – Orientação Pedagógica da Orientação Educacional. Brasília: Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, 2019. DISTRITO FEDERAL. SEEDF- Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Currículo em Movimento da Educação Básica: pressupostos teóricos. Brasília, DF, [s/da]. CENTRO DE CULTURA E DESENVOLVIMENTO DO PARANOÁ. O Paranoá em movimento. Panfleto disponível em : http://forumeja.org.br/df/sites/forumeja. org.br.df/files/PANFLETO%20DO%20CEDEP.pdf Acesso em 26/07/2024. REIS, R. H. A constituição do sujeito político, epistemológico e amoroso na alfabetização de jovens e adultos. Brasília, 2000. 31ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Zilma Josefa da Fonseca Bispo Azevedo1 1- Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. Construindo uma cultura de paz: relato das oficinas das emoções Palavras-chave: Cultura da Paz. Emoções. Conscientização Emocional. Educação. Empatia. INTRODUÇÃO A construção de uma cultura de paz é um tema que continuamente se apresenta nas discussões e nos estudos dos profissionais da educação (Dupret, 2002; Santos, Santos e Souza, 2023; Oliveira, Vieira e Brum, 2021). Em 2020 a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal publicou um caderno destinado ao tema com o título: Caderno Orientador de Convivência e Cultura de Paz. Neste documento é apontado que a efetivação de uma cultura de paz encontra na educação um pilar importantíssimo capaz de transformar realidades que são excludentes, preconceituosas e violentas em espaços de respeito aos Direitos Humanos. Nesta perspectiva, o presente relato de experiência descreve um projeto desenvolvido pela orientação educacional em uma escola de Anos Iniciais do Distrito Federal intitulado “Oficinas das Emoções” que teve como objetivo promover a conscientização emocional, a empatia e o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários entre seus estudantes de modo a favorecer as relações mais harmônicas entre estes indivíduos. DESENVOLVIMENTO A construção de uma cultura de paz: “pode ser compreendida como um marco de respeito aos direitos humanos e se constitui como um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados no respeito à vida” (Distrito Federal, 2020, p. 19). Assim, deve ser encarada como um projeto para a humanidade e não apenas um esforço individual. Em todas as sociedades em maior ou menor grau se faz necessário minimizar conflitos e contextos de violência. Segundo Columa (2007), cada país encara a questão da violência de acordo com sua cultura, focando em obstáculos regionais e específicos. A autora cita países como Austrália, Japão e Estados Unidos e reforça que cada um deles possui preocupações diferentes, mas que todos possuem questões a serem mediadas. Ao abordar os países em desenvolvimento, afirma que o foco de sua mobilização é contornar situações em um âmbito estrutural do conceito de violência. Quando olhamos para os altos índices de violência presentes na sociedade brasileira e em especial no Distrito Federal, é razoável dizer que a escola, bem como outros setores da sociedade, deve contribuir efetivamente no processo de construção da cultura de paz. Partindo desta premissa, o projeto oficinas das emoções foi concebido. As Oficinas das Emoções surgiram 32 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional como um espaço de aprendizado, reflexãoe expressão, em que participantes de diferentes faixas etárias puderam explorar e compreender os sentimentos que os compõem. Inspiradas no filme Divertida Mente (Docter, 2015), essas oficinas ofereceram um ambiente lúdico e acolhedor, facilitando a conexão dos participantes com suas emoções de maneira divertida e significativa. Durante as oficinas, cada emoção apresentada no filme (Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho) foram abordadas de forma interativa. As atividades incluíram dinâmicas em grupo, jogos, dramatizações e produções artísticas que eram divulgadas em murais. As atividades das oficinas possibilitaram aos estudantes expressar e compreender os sentimentos que eram trabalhados. Na oficina 1 (alegria): foram ofertados jogos que promoviam diversão e interação. Os participantes eram convidados a compartilhar momentos felizes de suas vidas, criando o mural da alegria. A oficina 2 (tristeza) teve a utilização de uma abordagem mais reflexiva, na qual os participantes discutiram experiências avançadas, aprendendo que a tristeza é uma emoção natural e importante para o crescimento emocional. A oficina 3 (raiva) focou na discussão sobre como lidar com este sentimento. Foram feitas atividades que ensinaram técnicas de respiração e autocontrole. Os participantes compartilharam estratégias saudáveis para expressar essa emoção sem prejudicar os outros. A oficina 4 (medo) explorou o tema através de dramatizações. Os participantes puderam discutir e refletir sobre situações que os assustavam. Isso ajudou a desmistificar esses sentimentos e promover a coragem. Por fim, a oficina 5 (nojinho) desenvolveu atividades criativas, nas quais os participantes puderam expressar aversões de maneira humorada, entendendo como essa emoção também faz parte da vida. Ao final das oficinas, promoveu-se rodas de conversa em que todos puderam compartilhar suas reflexões sobre o que aprenderam e como pretendiam aplicar esse conhecimento em suas vidas. A escolha desta estratégia se deveu ao fato de que a conversa, assim como afirmaram Moura e Lima (2014), é um espaço para troca de vivências, celebração e, acima de tudo, auxiliam no ato de forjar opiniões. Além disso, a conversa ensina a prática do diálogo, do exercício do escutar e do ouvir. Espera-se que os conhecimentos mediados no contexto das oficinas das emoções possam ter contribuído para que os estudantes desenvolvam relacionamentos mais assertivos na escola, na família e ao longo do curso de suas vidas. A experiência das oficinas nos indica que: Ao se propor um ambiente escolar para a promoção da Cultura de Paz e de convivências respeitosas, possibilita-se que a escola cumpra a sua função fundamental: promover aprendizagens as quais devem estar em consonância com as demandas pessoais e coletivas, de forma a fortalecer os/as estudantes como sujeitos de direitos que pensam, criticam, refletem, agem coletivamente, para entender, compreender e experimentar o mundo, desenvolver-se (Distrito Federal, 2008, p. 12). A escola é um espaço central para o desenvolvimento de valores como respeito, Estima-se que, a longo prazo, essas aprendizagens irão reverberar significativamente na construção de mundo que de fato respeite os direitos humanos, consolidando, por fim, a tão esperada cultura de paz. 33ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional empatia e convivência. Por meio de iniciativas que visam o bem-estar emocional e social, busca-se contribuir positivamente para o crescimento dos estudantes e o fortalecimento da comunidade educacional como um todo. CONSIDERAÇÕES FINAIS As oficinas das emoções foram uma experiência enriquecedora que não trouxe apenas diversão, mas também ensinamentos importantes sobre a compreensão e a acessibilidade de nossas emoções. Ao propor uma atividade inspirada no filme Divertida Mente (Docter, 2015), conseguiu-se criar um ambiente seguro e motivador no qual todos se sentiram à vontade para se expressar. Essa experiência reforçou a ideia de que todas as emoções têm o seu valor e lugar na vida, contribuindo para o bem-estar emocional e para os relacionamentos saudáveis. Concluiu-se, portanto, que a experiência foi exitosa, pois possibilitou aos estudantes refletir sobre os próprios sentimentos e sobre suas formas de interação com o mundo ao redor. Estima-se que, a longo prazo, essas aprendizagens irão reverberar significativamente na construção de mundo que de fato respeite os direitos humanos, consolidando, por fim, a tão esperada cultura de paz. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação. Caderno Orientador Convivência Escolar e Cultura Escolar. 2020. Disponível em: https://www. educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2018/02/ Caderno-Conviv%C3%AAncia-Escolar-e-Cultura-de- Paz.pdf DIVERTIDAMENTE. Direção de Peter Hans Docter. Estados Unidos: Disney Pixar, 2015. DUPRET, L.. Cultura de paz e ações sócio-educativas: desafios para a escola contemporânea. In: Psicologia Escolar e Educacional. São Paulo. V.6. n. 01. p. 91-96, Jun 2002. COLUMA, E. S.. Como educar para a paz. In: Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE) • V.11, n.2, p. 427- 433, Julho/Dezembro 2007. MOURA, A. F.; LIMA, M. G. A Reinvenção da Roda: Roda de Conversa, um instrumento metodológico possível. Revista Temas em Educação, [S. l.], v. 23, n. 1, p. 95–103, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpb. br/index.php/rteo/article/view/18338. Acesso em: 8 nov. 2024. SANTOS, A. F. C.; SANTOS, P. C.; SOUZA, C. P. Cultura da Paz: desafios e caminhos para seu desenvolvimento psicossocial na educação em contextos pandêmicos. In: Revista e-Curriculum, São Paulo, v. 21, p. 1-34, 2023. 34 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Leilane Andréa da Silva Araujo1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2018. Da prática individual à ação coletiva: a inclusão na orientação educacional Palavras-chave: Inclusão. Educação. Acolhimento. Transformação. INTRODUÇÃO A orientação educacional é uma prática que fortalece a organização pedagógica dentro da escola. Ela tem o objetivo de contribuir para resultados qualitativos na aprendizagem e na garantia dos direitos dos estudantes, sejam estes crianças, adolescentes ou adultos, principalmente no contexto das escolas públicas. Conforme a Orientação Pedagógica da Orientação Educacional (DISTRITO FEDERAL, 2019), essa prática está intrinsecamente ligada à função social da escola, sendo essencial para preservar e ampliar o acesso à educação de qualidade. A orientação educacional, portanto, não se limita ao atendimento individual, mas articula-se prioritariamente ao trabalho coletivo, buscando parcerias dentro e fora da escola e criando uma rede de apoio que envolve toda a comunidade escolar. Este relato de experiência descreve a trajetória de uma orientadora educacional desde seu ingresso na Secretaria de Educação do Distrito Federal, em 2018, até os dias atuais. Cabe ressaltar que sua única experiência até então era como professora. A partir de sua atuação inicial, a orientadora percebeu que a prática da orientação educacional exigia mais do que apenas experiência docente: era necessário um constante processo de reflexão e aprimoramento profissional. Nesse contexto, as formações continuadas oferecidas pela EAPE (Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação), pela GOE (Gerência de Orientação Educacional) e pelos EAP (Encontro de Articulação Pedagógica) desempenharam um papel fundamental no seu crescimento. Esses espaços de formação permitiram à orientadora educacional não apenas aprimorar suas habilidades técnicas, mas também aprofundar seu entendimento sobre a inclusão e o trabalho colaborativo na escola, essenciais para o desenvolvimento de uma prática educativa que valorizae potencializa a aprendizagem de todos os estudantes. REFLEXÕES E INFLUÊNCIAS NA PRÁTICA PEDAGÓGICA Assim como a orientação educacional passou por transformações ao longo do tempo, adaptando-se às novas demandas sociais e pedagógicas, a trajetória da orientadora educacional também reflete essa evolução. Inicialmente, a orientação tinha um perfil mais individualizado, voltado principalmente para o atendimento de estudantes considerados “problema”. Nesse contexto, a função da orientação era essencialmente terapêutica e psicologizante, com o objetivo de ajustar o estudante aos 35ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional modelos estabelecidos pela família, pela escola ou pela sociedade, um entendimento alinhado à educação tradicional, conforme destaca Grinspun (2011). Esse modelo estava focado em um atendimento centrado na resolução de “desvios”, na tentativa de restaurar a normalidade do estudante em relação aos padrões impostos. No entanto, com a evolução das tendências educacionais e a mudança para uma abordagem mais construtivista, a função da orientação foi se transformando. Ainda de acordo com Grinspun (2011), nas teorias críticas, atualmente o comprometimento da orientação educacional está relacionado à dimensão coletiva que favorece o desenvolvimento dos estudantes. Nessa nova abordagem, a orientação educacional assume uma função que vai além do apoio individual, para integrar práticas coletivas e colaborativas, trabalhando com toda a comunidade escolar na busca por soluções que atendam às necessidades e desafios de cada um. No início de sua jornada como orientadora educacional, foi atendido um estudante do 6º ano, que ilustra bem essa transição na prática. O estudante era visto pelos professores como um “aluno problema”, com comportamentos desinteressados e dificuldades para se engajar nas atividades escolares. Ele estava sempre à margem, com pouco envolvimento no processo de aprendizagem. No entanto, a orientadora sabia que seu papel não era apenas identificar os problemas, mas compreender as motivações que estavam por trás desse comportamento e buscar formas de incluí-lo de maneira mais ampla no contexto escolar. Foi então que, após uma série de conversas e acordos com o estudante, a orientadora propôs que ele se comprometesse a melhorar seu comportamento e a se engajar mais nas aulas, enquanto ela estaria ao seu lado, oferecendo apoio contínuo para ajudá-lo a superar os desafios. Recentemente, a orientadora educacional recebeu uma mensagem surpresa do estudante, agora já adulto, por meio das redes sociais. Ele escreveu: “Olá, boa noite, acho que você lembra de mim. Só tenho que te agradecer por todos os conselhos que a senhora me proporcionou naquela época. Consegui mudar minha forma de pensar e agir. Sou um novo homem, muito obrigado mesmo de coração por todo apoio que você me deu durante aquele ciclo bem desafiador que eu estava passando. Gratidão por tudo, que Deus abençoe você e sua família grandemente, e continue contribuindo para o bem cada vez mais com esse trabalho maravilhoso que você faz. Obrigado por tudo!” Esse gesto de gratidão, anos depois, ilustra o impacto que uma simples ação de acolhimento pode ter na vida de uma pessoa. Para a orientadora educacional, foi a confirmação de que a verdadeira inclusão educacional vai além de estratégias pedagógicas: envolve gestos de confiança, reconhecimento e afetividade que podem transformar a trajetória de um estudante, mesmo diante dos maiores desafios. No entanto, à medida que sua experiência na orientação educacional foi crescendo, foi compreendendo que, embora esse tipo de ação individual tivesse um grande impacto, ela não era suficiente para atender à complexidade das necessidades de todos os estudantes. Isto porque, segundo Grinspun (2011), o orientador está comprometido com a formação da cidadania dos estudantes, da ênfase anterior à orientação ... a orientação educacional assume uma função que vai além do apoio individual, para integrar práticas coletivas e colaborativas, trabalhando com toda a comunidade escolar na busca por soluções que atendam às necessidades e desafios de cada um. 36 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional individual, reforça-se hoje, o enfoque coletivo. Este caso, embora representativo de um trabalho bem-sucedido e profundamente transformador para ele, serviu como ponto de reflexão. Assim, a profissional passou a perceber que, para garantir a inclusão e o sucesso de todos os estudantes, ela precisava ampliar suas ações e pensar em soluções que envolvessem toda a comunidade escolar, de forma mais coletiva e estruturada. Foi aí que ela começou a reconhecer a importância de ações preventivas e da criação de uma rede de apoio mais abrangente, capaz de alcançar um número maior de estudantes e de oferecer suporte antes que os problemas se agravassem. CONSIDERAÇÕES FINAIS Atualmente, a orientadora educacional tem suas ações fundamentadas pelo Currículo em Movimento da Secretaria de Educação do Distrito Federal (DISTRITO FEDERAL, 2014) e pela Orientação Pedagógica da Orientação Educacional (DISTRITO FEDERAL, 2019). Dessa forma, tem como prioridade a criação de uma rede de apoio que envolve toda a comunidade escolar, trabalhando de maneira colaborativa com professores, familiares e demais profissionais. Ou seja, o foco não está mais apenas no atendimento individual, mas em ações que visam à promoção de um ambiente escolar mais inclusivo e acolhedor. Nesse sentido, a orientação educacional se consolida como um instrumento fundamental para garantir os direitos dos estudantes, especialmente em escolas públicas, promovendo uma educação que reconheça e valorize a diversidade entre os indivíduos. A partir dessa abordagem, as ações preventivas tornam-se essenciais, buscando não apenas resolver os problemas à medida que surgem, mas criar condições para que todos possam desenvolver suas habilidades e potencialidades de maneira plena. A inclusão também se legitima, porque a escola, para muitos alunos, é o único espaço de acesso aos conhecimentos. É o lugar que vai proporcionar-lhes condições de se desenvolverem e de se tornarem cidadãos, alguém com uma identidade sociocultural que lhes conferirá oportunidades de ser e de viver dignamente. (Mantoan, 2003, p.30) O trabalho descrito ilustra, então, como com empatia, acolhimento e um olhar atento às necessidades de cada um, é possível contribuir efetivamente para a construção de uma escola mais inclusiva e para o fortalecimento das aprendizagens. Esta prática não só oferece suporte aos estudantes, mas também desempenha um papel transformador na construção de um ambiente escolar mais justo, equitativo e, acima de tudo, mais humano. Como afirma Saviani (2012), a educação emerge como instrumento de correção das distorções e constitui força homogeneizadora que tem por função reforçar os laços sociais, promover a coesão e garantir a integração de todos os indivíduos no corpo social. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DISTRITO FEDERAL. Currículo em Movimento da Educação Básica. Pressupostos Teóricos. Brasília, DF: Secretaria de Estado de Educação, 2014. 92p. Disponível em: https://www.educacao.df.gov.br/wp- conteudo/uploads/2018/02/1_pressupostos_teoricos. pdf. Acesso em: 17 de setembro de 2024. [s/db] DISTRITO FEDERAL. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Brasília: Secretaria de Estado de Educação, 2014. 94 p. Disponível em: h t tps : / /www.educacao.d f .gov.br /wp-conteudo/ up loads /2019 /03 /o r i en ta%C3%A7%C3%A3o- p e d a g o g i c a - d a - o r i e n t a % C 3 % A 7 % C 3 % A 3 o - educacional_02mai19.pdf Acesso em: 16 de setembro de 2024. [s/dc] GRINSPUM, Mírian Paura S. Zippin. A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas 37ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacionalpara a escola. 5ª edição, São Paulo. Cortez, 2011. MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão Escolar: o que é? Por quê? Como fazer? 1ª ed. São Paulo: Moderna, 2003. SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. 42ª edição, São Paulo: Autores Associados, 2012. 38 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Giliana Ribeiro Miguel1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. Inclusão social no agosto lilás Palavras-chave: Inclusão Social. Empoderamento Feminino. Educação Empreendedora. Transformação Social. INTRODUÇÃO A violência contra a mulher é um problema social persistente que impacta o bem-estar físico e emocional de milhares de famílias. Este relato aborda o projeto “Agosto Lilás: Mulheres Empreendedoras”, realizado em um Centro de Ensino Fundamental, da rede pública, localizada em Planaltina, no Distrito Federal, que atende estudantes dos Anos Finais (6º ao 9º anos). O projeto visa promover a inclusão social e o empoderamento feminino por meio da educação empreendedora. Agosto Lilás é uma campanha de conscientização sobre a violência contra a mulher, promovida no mês de agosto, que visa informar e sensibilizar a sociedade sobre a importância do enfrentamento a essa problemática. O mês de agosto foi escolhido para ser o período de destaque dessa campanha devido à promulgação da Lei Maria da Penha, que ocorreu no dia 7 de agosto de 2006. O empoderamento das mulheres é fundamental para combater a violência de gênero. Durante esse mês, diversas atividades são realizadas para discutir questões de gênero e promover a autonomia das mulheres. A inclusão social pode se definir como processo para assegurar que todas as pessoas, independentemente de sua origem, gênero ou situação socioeconômica, tenham acesso a direitos, oportunidades e serviços essenciais, promovendo a igualdade e a participação plena na sociedade. (ALVES, 2021). Quando se fala sobre empoderamento feminino, refere-se ao processo pelo qual as mulheres ganham poder e controle sobre suas próprias vidas, tanto em nível pessoal quanto social. Esse conceito envolve promover a autoestima, adquirir habilidades e conhecimentos, e construir redes de apoio. Esses elementos são essenciais para permitir que as mulheres se tornem protagonistas de suas próprias histórias. (SILVA, 2020). O projeto “Agosto Lilás: Mulheres empreendedoras” ganhou destaque no que se refere à conscientização e ao combate à violência contra a mulher, com forte enfoque na inclusão social. O projeto está fundamentado na literatura sobre empoderamento feminino e inclusão social, que destaca a importância de iniciativas comunitárias no combate à violência de gênero (SILVA, 2020; MARTINS, 2019). Alves (2021) ressalta que projetos que oferecem educação empreendedora a mulheres em situação de vulnerabilidade podem contribuir significativamente para a independência financeira e emocional, atuando como ferramentas de transformação social. DESENVOLVIMENTO O objetivo principal do projeto “Agosto Lilás: Mulheres empreendedoras” é sensibilizar a comunidade escolar sobre a importância de combater todas as formas de violência contra as mulheres, seja física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial. Assim, é significativo 39ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional oportunizar, na escola, momentos dedicados às mães empreendedoras, promovendo o compartilhamento de experiências, incentivando o aprendizado ou crescimento dos negócios das mulheres participantes, fortalecendo, por esse caminho, a comunidade local. A inspiração para o projeto surgiu ao longo das escutas ativas, realizadas pela orientação educacional, com estudantes, que relataram angústias e crises de ansiedade ao testemunharem casos de violência doméstica em seus lares. No entanto, foi o depoimento de uma estudante, de nome fictício Marina, que impulsionou a criação do projeto. Marina relatou que, desde a infância, viveu em um ambiente de violência doméstica. Seu pai era agressivo e frequentemente a agredia verbalmente, além de, também, violentar física e psicologicamente sua mãe e não permitir que ela trabalhasse. Esse ciclo de violência durou anos, afetando profundamente a saúde mental e emocional da estudante. Quando chamada à escola, sua mãe, de nome fictício Maria, relatou que, por muito tempo, sofreu violência psicológica, física e patrimonial por parte do marido, o que não apenas afetou seu bem-estar emocional, mas também a impediu de buscar uma fonte de renda estável. Após a separação, para custear as despesas da casa, Maria começou a fazer artesanato de crochê, mas encontrou grandes obstáculos para vender suas peças. As vendas eram limitadas, principalmente porque suas amigas e parentes, em sua maioria de baixa renda, não podiam comprar seus produtos. Esse relato evidenciou a necessidade de criar um espaço que promovesse a inclusão social, permitindo que essa mulher, estudantes e outras mães ampliassem suas redes de apoio e colaboração, proporcionando trocas de conhecimento e abertura para novas oportunidades profissionais. Assim, surgiu a ideia de desenvolver o projeto, com o objetivo de apoiar essa e outras mães e mulheres, ajudando-as a se tornarem protagonistas de suas próprias histórias e a conquistarem sua autonomia. Desde o início da execução do projeto, ficou claro que o tema da violência contra a mulher, embora crucial, ainda era pouco explorado na nossa comunidade escolar, sendo fundamental iniciar essa discussão entre a comunidade e os professores para romper o silêncio e promover um ambiente de conscientização. O Projeto “Agosto Lilás: mulheres empreendedoras” é uma iniciativa que busca conscientizar e combater a violência contra a mulher. Para recepcionar os estudantes de maneira especial durante o mês, a proposta foi realizar, no primeiro dia útil, uma impactante ação visual e oferecer lembrancinhas para todos os estudantes, a fim de que fosse não apenas uma ação de acolhimento, mas também que transmitisse a importância do respeito e da igualdade de gênero, buscando, assim, uma conscientização. Para sensibilizar e envolver os professores, a orientação educacional realizou uma coordenação pedagógica coletiva, enfatizando a importância de abordar temas críticos, como a violência contra a mulher. A discussão foi essencial para incentivar os educadores a se tornarem agentes de mudança, promovendo uma consciência social inclusiva. Nos dias seguintes, os professores desempenharam papel vital como multiplicadores do tema, engajando-se na criação de apresentações, músicas e murais temáticos. Cada sala de aula se transformou em um espaço para expressar visualmente o compromisso com a conscientização e o respeito, envolvendo os estudantes de maneira 40 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional criativa e reflexiva. Durante todo mês, a orientação educacional organizou um ciclo de palestras para cada ano/série, abordando temas como “cuidado e higiene pessoal da mulher”, “Agosto Lilás para adolescentes”, “Maria da Penha vai à escola” e “Machismo e violência contra a mulher”. Essas atividades foram fundamentais para fornecer aos estudantes conhecimentos relevantes e promover debates sobre questões que impactam diretamente suas vidas e a sociedade. Desse modo, incluindo todos os estudantes, o projeto fortaleceu a comunidade escolar, tornando-a mais informada e consciente, promovendo a inclusão social e estimulando um diálogo enriquecedor sobre questões de gênero. O ponto alto do projeto foi o evento “Agosto Lilás: Mulheres E m p r e e n d e d o r a s ” , realizado em um sábado letivo e aberto à comunidade. Inspirado pelo depoimento da Maria, mãe e artesã, o evento ofereceu várias oficinas ministradas por mulheres empreendedoras, proporcionando uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional para as participantes. Destaca-sea dinâmica do evento, que contou com 12 oficinas realizadas simultaneamente, transformando aquele sábado letivo em uma jornada rica e diversificada de aprendizado e interação. Cada oficina proporcionou um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades específicas, contribuindo para enriquecer o conhecimento e fortalecer os laços comunitários. Além das oficinas, o evento contou com exposições e oportunidades para que as mulheres empreendedoras compartilhassem suas experiências e divulgassem seus trabalhos. Esse dia especial não apenas impulsionou o desenvolvimento profissional das participantes, mas também reforçou o senso de comunidade e a colaboração, demonstrando o impacto da inclusão social e do empoderamento feminino. Após o fim do projeto, Maria, a mãe do relato inicial, expressou sua gratidão pela criação do projeto, que proporcionou um espaço para que mulheres, como ela, pudessem mostrar seu trabalho e ampliar suas oportunidades. Segundo Maria, a participação no projeto foi um divisor de águas, pois não apenas conseguiu vender mais peças e ganhar uma renda extra, mas também se sentiu incluída, apoiada e valorizada pela comunidade. Maria destacou, ainda, como as oficinas e as oportunidades oferecidas pelo projeto a ajudaram a desenvolver habilidades empreendedoras e a ganhar confiança em suas capacidades. Ela também ressaltou a importância de iniciativas que promovem a inclusão social, dizendo que o projeto deu a ela e a outras mulheres a chance de transformar suas vidas e alcançar maior independência financeira e emocional. Sua filha Marina, estudante da escola, também compartilhou seu depoimento. Ela mencionou que ver sua mãe participar do projeto foi inspirador e transformador. Relatou que, antes do projeto, via sua mãe triste e desmotivada, lutando para encontrar meios de sustentar a família. Com o apoio do projeto, sua mãe ganhou confiança e passou a acreditar em suas próprias capacidades. A jovem destacou, também, como o ambiente escolar, que antes era um espaço de angústia, devido O projeto conseguiu atingir seu objetivo de promover a inclusão social e o empoderamento feminino, transformando a escola em um espaço de esperança e mudança. 41ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional às lembranças da violência doméstica, tornou- se um local de esperança e mudança, não só para sua mãe, mas para todas as mulheres que participaram do projeto. O depoimento dessa mãe e de sua filha ilustra o impacto positivo que o projeto teve na vida de suas participantes, demonstrando o poder da escola para a inclusão social e o empoderamento feminino no enfrentamento de desafios pessoais e sociais. Ao promover o Agosto Lilás, o projeto buscou fortalecer as mulheres, capacitando-as com conhecimento sobre seus direitos, fornecendo suporte emocional e orientação, além de incentivar a participação ativa dos nossos estudantes na busca por igualdade e justiça. CONSIDERAÇÕES FINAIS O projeto conseguiu atingir seu objetivo de promover a inclusão social e o empoderamento feminino, transformando a escola em um espaço de esperança e mudança. Essa iniciativa evidencia como a escola pode ser um agente de transformação social, utilizando práticas educativas que impulsionam o desenvolvimento de habilidades e a inclusão de grupos vulneráveis, além de fomentar um ambiente de conscientização e resiliência. Nesse contexto, Freire (2005) reforça que a educação é um caminho para a libertação de estruturas opressivas, permitindo que indivíduos e comunidades vulneráveis, como as mulheres em situação de violência, adquiram consciência crítica e ferramentas para transformar suas realidades sociais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, J. Empreendedorismo Feminino e Inclusão Social. São Paulo: Editora Moderna, 2021. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. MARTINS, L. A. Educação, Gênero e Inclusão: Reflexões Contemporâneas. Belo Horizonte: UFMG, 2019. SILVA, R. Violência de Gênero e Políticas de Inclusão Social. Porto Alegre: Editora Sulina, 2020. 42 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Anelise Sarmento Porto1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2009. Inclusão x integração no ambiente escolar Palavras-chave: Inclusão. Integração. Orientador Educacional e a inclusão. INTRODUÇÃO A inclusão escolar é um assunto que tem se tornado cada vez mais relevante nas conversas sobre educação na atualidade. No contexto do Distrito Federal, a atuação do orientador educacional é fundamental para promover um ambiente que não apenas integre, mas que também inclua todos os estudantes, respeitando suas singularidades. Um dos pilares fundamentais da educação inclusiva no Brasil é a Lei nº 13.146/2015, conhecida como Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Esta lei define diretrizes essenciais para promover a igualdade de oportunidades, garantir a acessibilidade e fomentar a participação e a inclusão das pessoas com deficiência. Paralelamente, o Decreto nº 7.611/2011 aborda aspectos da Educação Especial, do Atendimento Educacional Especializado e da acessibilidade no ensino regular, assegurando a provisão de serviços e recursos que viabilizem a inclusão escolar. Além desses, a legislação brasileira possui um arcabouço abrangente de leis e normas que asseguram o direito à educação inclusiva, tais como a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Essas diretrizes estabelecem que a educação inclusiva deve ser acessível a todos, promovendo a redução de discriminações e a necessidade de adaptações curriculares, além de exigir que os professores sejam capacitados para atender estudantes com deficiência, entre outros aspectos importantes. No entanto, mesmo com os avanços legais, atualmente, enfrentam-se desafios consideráveis para se colocar essas políticas em prática e garantir que todos possam acessar e permanecer nas escolas regulares. A inclusão escolar é um modelo de educação que promove a diversidade e a valorização das diferenças humanas. Ela permite que pessoas de diferentes origens, habilidades e características compartilhem experiências, o que ajuda a construir uma cultura de tolerância e respeito às diferenças. Nesse contexto, o orientador educacional A prática educativa deve ser constantemente reavaliada para garantir que todos tenham a oportunidade de aprender e se desenvolver plenamente. 43ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional atua como um mediador entre a escola, os estudantes e as famílias, promovendo um ambiente que favoreça a inclusão. Segundo Vygotsky (1998), a aprendizagem é um processo social e cultural, e o papel do educador é fundamental para criar condições que possibilitem o desenvolvimento do estudante. Sob essa perspectiva, a inclusão vai além da simples presença da pessoa com deficiência na sala de aula; trata-se de garantir que ela participe ativamente do processo educativo. DESENVOLVIMENTO Considerando que o preconceito e a discriminação constituem-se desafios para a inclusão na escola, e que estes afetam de forma negativa o aprendizado de alguns estudantes, promover a integração torna-se fundamental para se qualificar essa experiência no ambiente escolar e criar um espaço onde se sintam acolhidos e celebrem suas diferenças. Integrar vai além de simplesmente colocar estudantes com características diversas na mesma sala de aula que seus colegas, trata- se de criar um ambiente onde todos possam aprender juntos, respeitando e valorizando as singularidades de cada um. Autores como José Carlos Libâneo (2004) e Maria Teresa Eglér Mantoan (2006) defendem que a integração é essencial para o desenvolvimentosocial e emocional, pois favorece a convivência, a empatia e a construção de uma sociedade mais justa. Ao integrar estudantes diversos, as escolas não apenas enriquecem o processo de aprendizagem, mas também os prepara para um mundo onde a colaboração e o respeito às diferenças são fundamentais. Segundo Grinspun (2006), o orientador educacional exerce um papel fundamental na promoção da inclusão escolar, pois ajuda a formar uma cidadania crítica e auxilia a escola a organizar um Projeto Político Pedagógico voltado para o atendimento às especificidades. É essencial que esse profissional esteja sempre em processo de aprendizagem e atualização, para lidar de forma eficaz e respeitosa com a diversidade. Além disso, é importante que ajuste suas práticas e atitudes para garantir que todos tenham oportunidades equitativas. O orientador educacional também tem a responsabilidade de criar um ambiente acolhedor, que favoreça o desenvolvimento integral de todos, promovendo o respeito mútuo e a valorização das diferenças. “Sua ação abrange não só o estudante, mas todos os profissionais da educação e demais pessoas da comunidade escolar em um processo de articulação de aprendizado em rede”. (Distrito Federal, 2019, p. 89). CONSIDERAÇÕES FINAIS A integração é muitas vezes confundida com inclusão, mas é importante destacar suas diferenças. A integração pode ser vista como uma adaptação do estudante ao ambiente escolar, enquanto a inclusão busca transformar esse ambiente para que todos possam participar plenamente. Grinspun (2006) enfatiza que a inclusão deve ser entendida como um processo que envolve a construção de uma cultura escolar que valorize a diversidade. Considerando que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) reforça a necessidade de um currículo que atenda às especificidades de cada estudantes e que os Pressupostos Teóricos do currículo no Distrito Federal enfatizam a importância da diversidade e da inclusão (Distrito Federal, s/d), entende-se que a atuação do orientador educacional deve estar alinhada a esses princípios, promovendo práticas que respeitem e valorizem a diversidade. 44 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Desta forma, o papel desse profissional é crucial para a promoção da inclusão no ambiente escolar. Ao refletir sobre as teorias de Vygotsky (1998) e Grinspun (2006), fica evidente que a inclusão vai além da presença física do estudante. Trata-se de um compromisso com a construção de um ambiente educacional que respeite e valorize a diversidade. A prática educativa deve ser constantemente reavaliada para garantir que todos tenham a oportunidade de aprender e se desenvolver plenamente. É importante reconhecer a existência desses desafios e adotar estratégias eficazes para combatê-los. Isso pode incluir programas de conscientização, capacitação para professores e funcionários, além de políticas claramente definidas contra o preconceito e a discriminação. Adicionalmente, é essencial promover a valorização da diversidade e o respeito mútuo, criando um ambiente escolar acolhedor e inclusivo para todos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 24 ed. São Paulo: Saraiva, 2015. Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei Federal nº 8069, de 13 de julho de 1990. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 2002. DISTRITO FEDERAL, SEEDF. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional. Brasília/DF, 2019. GRINSPUN, M.P.S.Z. A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. São Paulo: Cortez, 2002. (Mar/2006) GRINSPUN, M.P.S.Z. Supervisão e Orientação Educacional: Perspectivas de Integração na Escola. São Paulo. Editora Cortez, 2006. LIBÂNEO, J.C. Pedagogia e Pedagogos, para quê? 7ª ed. São Paulo: Cortez, 2004. MANTOAN, M.T.E. Inclusão Escolar: O que é? Por quê? Como fazer?. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2006. VYGOTSKY, L.S; LURIA, A.R. & LEONTIEV, A.N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. VIGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 45ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Eugênia de Medeiros Souza1 Ana Carolina Rabello Nascimento2 1 Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2009. 2 Professora de Educação Básica na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2008. Inclusão: um relato das práticas implementadas em um centro de ensino médio Palavras-chave: Diversidade. Equidade. Inclusão. Práticas inclusivas. INTRODUÇÃO A inclusão é um dos maiores desafios enfrentados pelos sistemas educativos, em todo mundo (Ainscow, 2005). Contudo, muitas vezes, ela é erroneamente reduzida à ideia da mera presença física do estudante na escola (Ainscow, 2005; 2009). Refutando essa premissa, faz-se imperioso compreender que a verdadeira inclusão educacional vai muito além do acesso ao sistema educativo. Ela exige, também, a permanência e a remoção dos obstáculos que impedem a plena participação desses indivíduos no processo de ensino e aprendizagem. Ou seja, para se assegurar uma educação verdadeiramente inclusiva, é essencial que os estudantes não apenas estejam matriculados, mas também permaneçam no ambiente escolar,participem ativamente de todas as atividades e recebam o suporte necessário para atender às suas necessidades específicas. (Ainscow, 1999, 2016; Rodrigues, 2006). Extrapolando o âmbito educacional, sabe- se que a sociedade tem o dever de proteger os direitos fundamentais e garantir o bem- estar dos grupos minoritários e excluídos. Para cumprir essa responsabilidade, é essencial fomentar uma conscientização coletiva e um compromisso com a justiça social. Tal atitude visa criar um ambiente mais justo e respeitoso, onde todos possam exercer a sua cidadania e viver com dignidade (UNESCO, 2009). Nesse sentido, considerando a escola como um microcosmo da sociedade, refletindo e reproduzindo suas dinâmicas, valores e desafios, em uma escala reduzida, a integração dos princípios de inclusão educacional está profundamente conectada à garantia dos direitos fundamentais e do bem-estar de toda comunidade escolar. Assim, reconhecer essa interdependência, destaca a necessidade de uma abordagem que transcenda o ambiente escolar e envolva toda a sociedade. (Booth; Ainscow, 2011). Com base nesses pressupostos, este relato de experiência tem como objetivo oferecer uma visão detalhada do cotidiano em um Centro de Ensino Médio de Brasília, destacando as estratégias e práticas adotadas para promover a inclusão de todos os estudantes. Serão descritas as ações específicas implementadas pela Orientação Educacional (OE) e pela Sala de Recursos Generalista (SRG), que têm o objetivo de fortalecer a cidadania dos estudantes 46 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional e garantir que cada um possa integrar-se plenamente à vida escolar, contribuindo para uma comunidade mais inclusiva, justa e acolhedora. A importância de documentar as experiências e as práticas da OE e da SRG justifica-se pela necessidade de evidenciar como essas estratégias auxiliam a promoção de uma inclusão efetiva dos estudantes (Booth; Ainscow, 2011; Nóvoa, 2017; Rodrigues, 2006). Dessa forma, buscou-se demonstrar como essas iniciativas são eficazes tanto na superação das barreiras à inclusão, como na criação de um ambiente de equidade e respeito. Além disso, buscou-se fomentar uma discussão sobre a temática e criar uma rede de colaboração, que compartilhe experiências, estratégias e recursos, contribuindo para a construção de uma educação mais inclusiva. AS POLÍTICAS E PRÁTICAS INCLUSIVAS DESENVOLVIDAS De acordo com a Constituição Federal de 1988 (art. 205 e seguintes), a educação é um direito fundamental, que se respalda no desenvolvimento integral do ser humano, englobando aspectos físicos,sociais, emocionais, recreativos e culturais, além da aprendizagem acadêmica e das relações interpessoais. Alinhado a esse posicionamento, o Projeto Político Pedagógico (PPP), do Centro de Ensino Médio em questão, adota uma abordagem holística para o desenvolvimento dos indivíduos, visando não apenas o seu progresso acadêmico, mas também o seu crescimento pessoal e social. Essa proposta reflete um compromisso com a formação completa dos estudantes, reconhecendo a importância de uma educação que considera todas as dimensões do ser humano e promove uma integração harmoniosa desses aspectos em um ambiente escolar inclusivo e enriquecedor (Booth; Ainscow, 2011; Nóvoa, 2017). Seguindo essa perspectiva, a OE adota medidas que apoiam a integração dos estudantes, abrangendo os que são excluídos por deficiências, orientação sexual, condição socioeconômica ou quaisquer outras situações limitantes. Reforçando, também, os pressupostos do Currículo em Movimento do Novo Ensino Médio (Distrito Federal, 2022), que visa à criação de um ambiente onde todos se sintam parte integral da comunidade escolar. Ou seja, a OE pauta as suas ações para que os estudantes desenvolvam um sentimento de pertencimento, o que os ajuda a superar desafios emocionais e fortalece a sua integração na escola. (Booth; Ainscow, 2011). Em relação ao contexto escolar, destaca- se que o trabalho educativo é desenvolvido para uma clientela muito diversificada. Como ponto de partida para a resolução das demandas desse público heterogêneo, a OE mantém um canal aberto para ouvir e filtrar as necessidades da comunidade escolar. Nesse processo democrático, a OE assegura a eficácia das propostas e adota uma abordagem especializada para atender aos pedidos das pessoas com deficiência ou transtornos funcionais específicos. Desta forma, busca-se garantir que as necessidades desses grupos sejam adequadamente atendidas e integradas nas estratégias de inclusão e de suporte. Ao escutar as demandas da comunidade escolar com respeito e profissionalismo, é possível compreender melhor as necessidades e ajustar as estratégias para oferecer um atendimento mais eficaz. 3 - Para uma compreensão mais aprofundada sobre essa abordagem, sugerimos a leitura da “Revista Cartas Pedagógicas da Orientação Educacional e Outros Escritos”, publicada pela Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, Vol. 1, n. 1, p. 29. 47ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Outra linha de ação da OE envolve uma colaboração estreita com os estudantes para entender e aprimorar sua realidade acadêmica. São analisadas as suas rotinas de estudos, são identificadas as potencialidades e as áreas que necessitam de atenção especial. Também são debatidos temas sobre o impacto da tecnologia e das redes sociais na rotina escolar. Assim, busca-se criar um espaço onde os estudantes possam refletir sobre suas relações interpessoais e que eles possam criar um ambiente escolar harmonioso e colaborativo. As famílias são informadas sobre a importância da continuidade dos estudos e os desafios a serem enfrentados. Em paralelo a essas ações, a OE, também, atua na promoção do respeito à diversidade e no desenvolvimento de uma cultura de paz e não violência. Seguindo os princípios de Booth e Ainscow (2011), esta abordagem visa combater o bullying e o assédio, ao mesmo tempo em que estabelece ambientes que fortalecem a autoestima e apoiam o desenvolvimento pessoal dos estudantes. Em alinhamento com essa proposta, a OE implementa as Rodas de Conversas3, um espaço onde os estudantes podem refletir sobre suas experiências e emoções, promovendo uma cultura de respeito e apoio mútuo, essencial para enfrentar os desafios do contexto atual. No que diz respeito à Sala de Recursos Generalista, é um ambiente multifuncional que complementa o processo de ensino e aprendizagem dos estudantes com deficiência e/ou Transtorno do Espectro Autista (TEA) matriculados em classes comuns inclusivas. Este ambiente adaptado é essencial para promover a equidade e a inclusão, ajudando esses estudantes a atingirem seu pleno potencial acadêmico e social (Rodrigues, 2006; Booth; Ainscow, 2011). Destaca-se que, além das atribuições básicas, definidas pela legislação para a atuação da SRG no contexto de inclusão, é fundamental evidenciar o importante papel das ações colaborativas entre a SRG e a OE no desenvolvimento dos Estudos de Caso no Atendimento Educacional Especializado (AEE). Sobre essa temática, guia-se pelas diretrizes do Plano Nacional de Educação (PNE), da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96) e outras legislações correlatas que orientam as políticas educacionais no Brasil e moldam as práticas da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Para garantir um suporte adequado quanto ao melhor caminho a ser trilhado pelo estudante, durante a Educação Básica, utiliza-se este espaço de comunicação para alertar sobre a importância da realização dos estudos de caso, de forma tempestiva, durante o Ensino Fundamental. Tal ação possibilita ajustes no planejamento pedagógico e evita que estudantes, que possuem grandes distorções idade/série, cheguem ao Ensino Médio sem terem adquirido as habilidades mínimas necessárias para cursá-lo. Salienta-se que correntes contemporâneas de estudos, sobre educação inclusiva, defendem que estudantes, com deficiência e/ou TEA, não possuem necessidades educativas imutáveis. Dessa forma, o estudante pode (e deve) transitar pelas modalidades de ensino oferecidas, permitindo-lhe vivenciar experiências diversas e complementares, que o preparem para uma vida produtiva em sociedade. Portanto, é ..a OE pauta as suas ações para que os estudantes desenvolvam um sentimento de pertencimento, o que os ajuda a superar desafios emocionais e fortalece a sua integração na escola. 48 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional fundamental que se aproprie da ideia de que a Rede Pública de Educação do Distrito Federal deve ser um ambiente inclusivo em todas as suas modalidades de ensino. Diante deste contexto, é imperativo promover uma mudança de paradigma e incentivar a flexibilidade no percurso educacional desses estudantes. Atuando como agentes de transformação, é imprescindível que se dissemine conhecimentos sobre essa temática relevante, garantindo que todos os profissionais da SEEDF estejam atualizados sobre questões como: (i) O Centro de Ensino Especial não precisa ser, necessariamente, algo permanente e imutável, no trajeto acadêmico do estudante; (ii) O estudante não deve permanecer, por anos a fio, em uma Classe Especial, se as estratégias lá adotadas não estiverem suprindo as suas necessidades educativas; e (iii) Nem sempre, a classe comum inclusiva é a melhor opção, momentânea, para o estudante com deficiência e/ou TEA. Sob essa perspectiva de análise, é de fundamental importância adotar uma abordagem flexível e, sempre que necessário, realizar os Estudos de Caso de forma precoce, de modo a assegurar que todos os estudantes recebam o suporte adequado e estejam preparados para os desafios futuros, promovendo, assim, um ambiente inclusivo e de aprendizagens efetivas. Em modo de síntese, verifica-se que em todas as práticas implementadas ao longo deste relato de experiência, buscou-se promover um ambiente educacional pautado no respeito mútuo, na solidariedade e na igualdade de oportunidades. Essas ações, de forma integrada, tiveram como objetivo contribuir para a construção de uma comunidade escolar mais equitativa e inclusiva. Em última análise, almeja- se que tais iniciativas impactem positivamente a sociedade, contribuindo para a criação de um contexto mais digno, justo e fraterno para todos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A inclusão educacional é um processo dinâmico e desafiador que exige um compromisso contínuo e uma abordagem adaptativa para atender às necessidadesdiversificadas dos estudantes. Garantir a inclusão vai além da aplicação de estratégias eficazes; é necessário promover uma transformação cultural que favoreça a plena integração de todos os estudantes. Nesse sentido, a escola deve se empenhar em criar um ambiente onde a diversidade é celebrada e a equidade promovida nas práticas diárias. Os esforços visam construir uma comunidade escolar em que todos possam prosperar e se sentir valorizados. Por fim, espera-se que este relato de experiência inspire debates sobre práticas inclusivas e ofereça insights proveitosos para outras escolas, incentivando a troca de abordagens eficazes e a promoção contínua da equidade educacional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AINSCOW, M. Understanding the Development of Inclusive Schools. Falmer Press, 1999. AINSCOW, M. Inclusion and Diversity in Education. Routledge, 2005. AINSCOW, M. Inclusive Education: What? Why? How?. Routledge, 2016. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Currículo em Movimento do Novo Ensino Médio. Brasília: Gráfica e Editora Qualyta, 2022. BOOTH, T. e AINSCOW, M. Index for Inclusion: Developing Learning and Participation in Schools. Bristol: Centre for Studies on Inclusive Education (CSIE), 2011. NÓVOA, A. Professores e formação – Saberes e identidades. 2. ed. Porto: Editora Porto, 2017. RODRIGUES, D. Inclusão e Educação: Teoria e Prática. Universidade do Minho, 2006. UNESCO. Policy Guidelines on Inclusion in Education. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2009. 49ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Camilla Raquel dos Santos Dias1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. O impacto do Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC) no desenvolvimento acadêmico: desafios e intervenções Palavras-chave: Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC). Inclusão escolar. Adaptação curricular. INTRODUÇÃO O Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC), “é caracterizado pela dificuldade em perceber, discriminar, reconhecer ou compreender informações auditivas, mesmo com a audição periférica normal” (Pereira e Schochat, 1997, p. 15). Afeta a capacidade da criança e do adolescente de interpretar e processar informações auditivas de maneira eficiente. Esse transtorno não está relacionado a uma perda auditiva em si, mas sim a uma dificuldade nas rotas neurais que processam o som no cérebro. Como resultado, os estudantes com TPAC frequentemente têm problemas para seguir conversas, entender o que lhes é dito em ambientes ruidosos, e interpretar informações verbais complexas. Quando o transtorno passa despercebido, é comum que o comportamento dessas crianças seja erroneamente interpretado como desatenção ou desinteresse, o que pode prejudicar seu desenvolvimento. O TPAC é frequentemente subdiagnosticado, levando muitas pessoas a serem erroneamente percebidas como desatentas ou desinteressadas. Crianças e adolescentes que apresentam dificuldades de aprendizagem, não compreendem comandos complexos e têm dificuldade em seguir instruções podem, na verdade, estar sofrendo deste transtorno, o que afeta diretamente seu desempenho escolar. Neste contexto, o papel do orientador educacional como articulador de práticas formativas para professores e ações de sensibilização para as famílias torna-se essencial. Corroborando na identificação precoce de possíveis sinais do TPAC e no direcionamento adequado para intervenções especializadas, promovendo uma rede de apoio e ações formativas que beneficiam o desenvolvimento integral do estudante. DIAGNÓSTICOS E DIFICULDADES ASSOCIADAS AO TPAC Um dos grandes desafios em lidar com o TPAC é o fato de ele ser confundido com outros transtornos, como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Segundo Chermak e Musiek (1997), essa confusão pode atrasar o diagnóstico correto, prejudicando o desenvolvimento socioemocional e pedagógico do estudante. A avaliação precoce e o diagnóstico preciso são cruciais, uma vez que intervenções adequadas podem melhorar 50 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional significativamente o desempenho escolar e a qualidade de vida da criança. No entanto, muitas vezes a dificuldade de encaminhamento ocorre devido à semelhança dos sintomas entre os transtornos. O orientador educacional atua estrategicamente como articulador de informações e ações pedagógicas, promovendo formações para professores e encontros com familiares sobre o TPAC e a necessidade de adaptações no ambiente escolar. Ao sensibilizar a comunidade escolar, o orientador educacional contribui para a construção de um ambiente acolhedor e efetivo, diminuindo mal-entendidos sobre o comportamento dos estudantes, facilitando diagnósticos adequados e promovendo intervenções eficazes. Além de apoiar no desenvolvimento acadêmico, o orientador colabora para o crescimento emocional e social dos estudantes, reduzindo estigmas e interpretações incorretas sobre seu comportamento. Além da dificuldade no diagnóstico, outro grande obstáculo para a identificação do TPAC é a falta de conscientização sobre o transtorno. Muitas famílias não estão familiarizadas com a condição e, frequentemente, atribuem as dificuldades de seus filhos a fatores comportamentais, como preguiça, desinteresse ou falta de esforço. Essa visão equivocada pode ser prejudicial, já que reforça uma narrativa negativa em torno da criança e do adolescente, fazendo com que se sintam incapazes ou culpados por seu insucesso escolar. Quando, na verdade, estão lutando com uma condição neurológica que dificulta a interpretação dos sons e, consequentemente, a compreensão do que é ensinado. No ambiente escolar, essas dificuldades tornam-se ainda mais evidentes, pois os estudantes com TPAC, geralmente, apresentam rendimento abaixo do esperado em disciplinas que exigem uma compreensão auditiva apurada, como leitura e interpretação de textos. A presença de ruídos em sala de aula agrava o quadro, já que essas crianças têm dificuldades em filtrar sons e focar na voz do professor. A ausência de suporte pedagógico apropriado pode levar ao isolamento e desinteresse escolar, agravando os desafios acadêmicos. A orientação educacional, portanto, tem papel essencial ao auxiliar na criação de um ambiente pedagógico inclusivo e acolhedor. Por meio de ações coordenadas entre professores, famílias e especialistas, o orientador educacional promove adaptações curriculares e práticas de apoio que ajudam o estudante com TPAC a superar barreiras e desenvolver seu potencial acadêmico e social. CONSEQUÊNCIAS DO TPAC NO CONTEXTO ESCOLAR O impacto do TPAC na escola é profundo e abrangente. Crianças afetadas por esse transtorno têm dificuldades especialmente em disciplinas que exigem habilidades auditivas, como interpretação de textos. Além disso, a presença de ruídos na sala de aula intensifica os sintomas, uma vez que estudantes com TPAC não conseguem filtrar os sons de fundo para focar na voz do professor. Bellis (2003) aponta que, sem o devido suporte, essas dificuldades podem levar ao isolamento social e ao desinteresse pelo ambiente escolar, reforçando a importância de adaptações no espaço e nas práticas pedagógicas para promover a inclusão. A conscientização de pais e professores sobre o TPAC é fundamental para que adaptações sejam feitas no ambiente educacional, oferecendo suporte adequado aos estudantes (Amaral e Colella-Santos, 2010, p. 88). Nesse sentido, o orientador educacional atua proativamente, promovendo capacitações para os professores e propondo adaptações 51ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional educacionais com a equipe pedagógica. Além disso, busca sensibilizar as famílias, facilitando um acompanhamento conjunto entre escola e casa. ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO E ADAPTAÇÕESCURRICULARES Diante da suspeita de TPAC, é fundamental adotar medidas que auxiliem o desenvolvimento cognitivo e escolar do estudante. Um diagnóstico clínico detalhado, seguido de acompanhamento especializado com fonoaudiólogos e psicopedagogos, é crucial para estabelecer intervenções específicas (Amaral & Colella-Santos, 2010). Bellis (2003) ressalta a importância de abordagens terapêuticas que explorem a neuroplasticidade para criar novas sinapses, facilitando o processamento auditivo e minimizando barreiras de aprendizagem. No contexto da rede pública do Distrito Federal, o documento de Orientação Pedagógica da Orientação Educacional (O.P.) destaca o orientador educacional como um mediador no processo de aprendizagem e desenvolvimento social dos estudantes. Esse profissional é responsável por articular práticas de acolhimento e suporte junto à equipe pedagógica e às famílias, especialmente para aqueles que necessitam de atendimento educacional diferenciado, como aqueles com TPAC. A integração entre escola, família e profissionais da saúde, coordenada pelo orientador educacional, é essencial para o tratamento efetivo do TPAC. A O.P. orienta ainda que o apoio ao estudante deve incluir não apenas adaptações no ambiente escolar, como redução de ruídos e o uso de tecnologia assistiva, mas também intervenções pedagógicas específicas que auxiliem na compreensão e no desempenho escolar. Dessa forma, o orientador educacional age como elo entre todas as partes, garantindo que o estudante receba o suporte necessário para seu pleno desenvolvimento. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Estatuto da Pessoa com Deficiência asseguram o direito à adequação curricular para pessoas com necessidades específicas. O documento de orientação educacional do DF reforça que o orientador educacional deve facilitar o acesso a esses direitos, garantindo adaptações como tempo adicional para a realização de avaliações, apoio na compreensão de textos e tarefas adaptadas, promovendo uma experiência escolar inclusiva e justa para o estudante com TPAC. CONSIDERAÇÕES FINAIS O TPAC é uma condição complexa e frequentemente incompreendida, que afeta o desempenho acadêmico e o bem-estar social da criança. A falta de entendimento sobre o transtorno, tanto por professores quanto por familiares, frequentemente leva à rotulação da criança como desatenta ou preguiçosa, reforçando estigmas prejudiciais. Pesquisas de Chermak e Musiek (1997) e Bellis (2003) destacam a importância do diagnóstico precoce e de estratégias terapêuticas que explorem a neuroplasticidade, facilitando a criação de novas conexões neurais que aprimoram as habilidades auditivas da criança. A orientação educacional exerce um papel central nesse processo, atuando como elo entre Essas ações reforçam a importância de um trabalho em rede assertivo, onde todos os agentes envolvidos contribuem para a construção de pontes e conexões que sustentam uma educação inclusiva. 52 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional a família, a escola e os profissionais de saúde. De acordo com o documento de Orientação Pedagógica da Orientação Educacional do Distrito Federal (O.P.), o orientador educacional tem a responsabilidade de promover o conhecimento sobre o TPAC, auxiliando na identificação precoce de sinais do transtorno e facilitando o encaminhamento para o suporte adequado. Essa atuação também inclui a escuta atenta e o acolhimento dos professores, criando um espaço seguro para discutir as necessidades e dificuldades dos estudantes, o que fomenta uma cultura de compreensão e colaboração em prol do desenvolvimento de cada um. A sensibilização de pais e professores, conforme apontado por Amaral e Colella- Santos (2010), é fundamental para garantir um ambiente escolar adaptado às necessidades do estudante com TPAC. O orientador educacional é responsável por liderar a implementação de estratégias pedagógicas e ambientais que apoiem a inclusão, como adaptações no ambiente para reduzir ruídos e o uso de tecnologia assistiva. Essas ações reforçam a importância de um trabalho em rede assertivo, onde todos os agentes envolvidos contribuem para a construção de pontes e conexões que sustentam uma educação inclusiva. Por fim, a colaboração integrada entre família, escola e profissionais de saúde, respaldada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996), promove um ambiente educacional acolhedor e inclusivo, onde a criança com TPAC pode desenvolver plenamente seu potencial acadêmico e social. Essa abordagem inclusiva favorece além do progresso acadêmico, o fortalecimento da autoestima e qualidade de vida do estudante, contribuindo para uma experiência escolar que valoriza e potencializa suas habilidades únicas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARAL, M. I.; COLELLA-SANTOS, M. F. Transtorno do Processamento Auditivo: Abordagens Clínicas e Educacionais. São Paulo: Pró-Fono, 2010. BELLIS, T. J. Avaliação e Gestão dos Transtornos do Processamento Auditivo Central no Ambiente Educacional: Da Ciência à Prática. 2. ed. Delmar Cengage Learning, 2003. CHERMAK, G. D.; MUSIEK, F. E. Central Auditory Processing Disorders: New Perspectives. Singular Publishing Group, 1997. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: https://abrir.link/LXeQi. Acesso em: 23 set. 2024. BRASIL ESCOLA. Inclusão social. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/educacao/inclusao-social. htm. Acesso em: 28 set. 2024. PEREIRA, L. D.; SCHOCHAT, E. Processamento Auditivo Central: Manual de Avaliação. São Paulo: Lovise, 1997. PEREIRA, L. D.; SCHOCHAT, E. (Org.). Processamento Auditivo: Série Fonoaudiologia em Estudo. São Paulo: Gen-Editora Santos, 2011. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Orientações para a Organização do Trabalho Pedagógico da Orientação Educacional. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.educacao.df.gov.br. Acesso em: 23 de setembro de 2024. 53ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Viviane Costa Silva1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional aposentada na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2024. O lugar de pessoas Trans na escola Palavras-chave: Inclusão trans. Binarismo de gênero. Multiculturalidade. INTRODUÇÃO Existe um lugar para as pessoas Trans na escola? O meu interesse neste tema veio da minha prática profissional como orientadora educacional da rede pública de ensino do Distrito Federal, onde convivi com estudantes Trans que continuamente buscam o atendimento na sala de orientação educacional, representado por mim, a fim de auxiliá-los em questões como: não saber que banheiro usar, sofrimento decorrido de chacotas e humilhações por parte dos colegas, divulgação aos professores sobre o nome social e outras muitas questões. A minha falta de informação era grande e, ao pedir ajuda, percebi que a ignorância era de todos/as na minha comunidade escolar e, como orientadora educacional, eu precisava aprender sobre pessoas Trans para que pudesse intervir corretamente. Baseado nisso, este artigo visa refletir sobre os caminhos trilhados pela escola quanto às diferenças e às diversidades de gênero e as possibilidades de mudança. A escola, com suas especificidades, pode ser, por vezes, uma representação refratada da sociedade. Vivemos em uma sociedade patriarcal, capitalista, heteronormativa, em que, geralmente, só existe aceitação e integração social se houver conformidade com a norma e a escola, muitas vezes, acaba repetindo este padrão hegemônico normatizante. O patriarcado é uma formação social hegemônica que se caracteriza pela dominação masculina e que tornou a submissão da mulher e dos jovens uma prática comum e fortemente enraizada na sociedade há muitos séculos, sobretudo na sociedade ocidental, tendo sido estendido a outros continentesquestões de gênero, étnico-raciais, culturais, socioeconômicas e outras. Assim, espera-se que profissionais da orientação educacional possam encontrar nesta Revista possibilidades de atuação aplicáveis nas suas realidades. Mas, para além disso, que possam mergulhar em reflexões que aprofundem sua práxis e, por fim, que possam se envolver em inspirações para uma prática cada vez mais acolhedora e inclusiva. A escola se torna, então, um importante cenário na luta pela equidade. 6 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Katiane de Carvalho Lima1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. INTRODUÇÃO Sob a ideologia neoliberal, a educação é moldada para servir aos interesses do capitalismo, replicando a divisão hierárquica do trabalho. A escola torna-se um espaço de comparação, diferenciação e hierarquização, onde corpos são diagnosticados e julgamentos de normalidade e anormalidade são feitos (Copetti e Bisol, 2023). A construção do “aluno não ideal”, de acordo com a vivência da autora, torna-se uma narrativa ontológica que aprisiona os estudantes em identidades fixas. Pedagogias críticas revolucionárias podem desafiar essa visão, promovendo a luta contra opressões e criando práticas de contrarrepresentação. A política de inclusão escolar está sendo implementada mundialmente, desafiando professores a adotar práticas pedagógicas que integrem a diversidade. A inclusão é vista como um processo contínuo, baseado em ideais de justiça social, democracia e direitos humanos. Além disso, descrevem-se métodos para desenvolver práticas inclusivas em que os professores colaboram e preparam o ensino para todos os estudantes, promovendo equidade no aprendizado. Mudanças sociais, como a migração e a ênfase na inclusão, aumentaram a diversidade nas escolas e as expectativas das famílias e comunidades. A escola e sua função social na promoção da educação inclusiva Os professores enfrentam o desafio de criar espaços de aprendizagem equitativos. A vulnerabilidade social é um fator de risco no desenvolvimento dos jovens, e as escolas desempenham um papel crucial em minimizar essas lacunas. Considerando isso, o presente artigo tem como objetivo apresentar os desafios encontrados na prática da inclusão, fazendo um paralelo com as causas do fracasso escolar. Pesquisas mostram que o sucesso acadêmico está ligado à integração e retenção do que foi aprendido, respeitando o desenvolvimento cognitivo. A neuropsicopedagogia tem sido aplicada para promover a saúde cognitiva e estimular habilidades cognitivas em estudantes com dificuldades, integrando neurociências, pedagogia e psicologia (Unicef, 2022). É importante notar que a legislação atual garante o direito ao aprendizado e desenvolvimento adequado, conforme previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96) e a Lei nº 5.289/16, que estabelece preceitos para o aperfeiçoamento da política educacional brasileira dos sistemas públicos de ensino, para a permanência e o sucesso escolar de estudantes com distúrbios, transtornos e/ou dificuldades de aprendizagem. Palavras-chave: Inclusão. Educação. Estudantes. Desigualdades. 7ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional POR QUE AS CRIANÇAS NÃO APRENDEM? Segundo dados revelados pela UNICEF Brasil (2021): Em 2019, 2,1 milhões de estudantes foram reprovados no Brasil, mais de 620 mil abandonaram a escola e mais de 6 milhões estavam em distorção idade-série. O perfil deles é bastante conhecido: concentram- se nas regiões Norte e Nordeste, são muitas vezes crianças e adolescentes negros e indígenas ou estudantes com deficiências. Com a pandemia da Covid-19, foi esse, também, o grupo de estudantes que enfrentou as maiores dificuldades para se manter aprendendo – agravando as desigualdades no País. (UNICEF, 2021) Isto ocorre porque aprender é um processo multicausal, envolvendo aspectos afetivos, cognitivos, motores, sociais e políticos (Crespo et al., 2018). Portanto, não se pode atribuir uma única causa às dificuldades de aprendizagem. Além disso, a maneira de atuar frente às situações de fracasso precisa respeitar as especificidades de cada um, considerando que a perspectiva da equidade propõe ofertas diferenciadas para atingir de forma eficaz cada público. Assim, a compreensão do mundo individual de cada criança é contínua e necessária para promover seu desenvolvimento integral. No entanto, embora as políticas educacionais se propõem a garantir o direito à aprendizagem, a realidade nas escolas, muitas vezes, revela a falta de estrutura e profissionais capacitados (Franco e Gomes, 2020). Dessa forma, a sensação para o educador é que, por mais esforço que aplique, parece estar diante de uma barreira impenetrável. A não aprendizagem pode ser causada por diversos fatores: físicos, econômicos, sociais, emocionais, culturais, políticos, cognitivos, psicológicos, neurológicos e familiares (Santana, 2020). As dificuldades de aprendizagem envolvem problemas que impedem o processo de ocorrer de forma saudável. Segundo Vygotsky (1999), há diferentes estágios no desenvolvimento humano: o estágio pré-intelectual, o estágio pré-operatório e o estágio operatório concreto. Nestes, ocorrem alterações significativas nas habilidades e capacidades das pessoas. Cada estágio é influenciado pela interação social e pelo contexto cultural em que a criança está inserida. Déficit, dificuldade e transtorno de aprendizagem são frequentemente confundidos, gerando debates sobre erros de diagnóstico em educação e saúde. A inclusão de pessoas com necessidades especiais exige uma abordagem interdisciplinar para identificar e explorar positivamente suas potencialidades. Diante de todas essas questões, o papel da Orientação Educacional pode ser de extrema relevância, uma vez que este profissional tem como atribuições regimentais: Art. 127. A atuação do Pedagogo- Orientador Educacional deve partir do princípio da ação coletiva, contextualizada, integrada ao Projeto Político Pedagógico - PPP, visando à aprendizagem e ao desenvolvimento integral do estudante como ser autônomo, crítico, participativo, criativo e protagonista, capaz de interagir no meio social e escolar e de exercer sua cidadania com responsabilidade. (p.59) EDUCAÇÃO INCLUSIVA A inclusão é um processo contínuo, visando aumentar a participação na educação para todos. Alguns a definem como a participação de estudantes com deficiência no ensino regular, focando nas necessidades especiais como pré-requisito (Lima, 2018). Para esses, as dificuldades dos estudantes resultam de suas deficiências, ignorando que podem ser causadas por falhas nos relacionamentos, currículos inadequados ou pressões sociais (Conceição, 2011). 8 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Para outros, a inclusão está baseada na diversidade, não na deficiência, e na resposta das escolas em valorizar estudantes diversos. A inclusão combate a discriminação baseada em fatores como circunstâncias sociais, étnicas, religião, gênero e capacidade (Rodrigues, 2016). Ela visa à igualdade, promovendo uma sociedade justa, na qual todos são participantes válidos (Souza, 2018). É essa visão que será considerada no âmbito deste artigo. Assim, a inclusão se fundamenta em ideologias de justiça social, democracia e direitos humanos. A justiça social crítica defende tratar as pessoas de forma equitativa, conforme suas habilidades e experiências, em vez de tratá-las igualmente, o que perpetuaria as desigualdades (Lima, 2018). Em escolas inclusivas, portanto, a diversidade é vista como uma fonte de inovação, e o “mito da criança normal” deve ser desmontado. Isso significa desmantelar ideologias que marginalizam estudantes e integrar as diferenças no modelo educacional (Hollerweger e Catarina, 2014). A diversidade deve ser valorizada alématravés dos processos históricos do colonialismo. Maria José Magalhães et al (2018) explicam que “[a] cultura patriarcal preparou as mulheres durante séculos para a aceitação do domínio masculino e da violência. O confinamento das mulheres ao espaço doméstico reforçou essa submissão” (p.159). Essa cultura dominante se perpetua na forte banalização da violência de forma que há uma tolerância e até um certo incentivo da sociedade para que os homens possam exercer sua virilidade baseada na força e na dominação. O patriarcado se apresenta de forma multifacetada, não somente ao exercer o seu poder sobre as mulheres, mas também, para além da relação homem e mulher, ao ditar um sistema heteronormativo, não aceitando outras relações de gênero, impondo seu poder na trama de relações sociais, disseminando a desigualdade e a opressão. A heteronormatividade parte do binarismo biológico significando que um indivíduo, ao nascer com uma vagina, imediatamente significa ser mulher, feminina e heterossexual 54 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional e, ao nascer com pênis, já se subtende homem, masculino e heterossexual. O binarismo de gênero com enfoque em masculino e feminino é produzido pela diferenciação dos corpos a partir de seus órgãos sexuais, generalizando esse padrão e tornando-o uma norma. Butler (2003) chama de “matriz heterossexual”, isto é, a “[...] grade de inteligibilidade cultural por meio da qual os corpos, gêneros e desejos são naturalizados” (idem, p. 216), o que contribui para aumentar a opressão àqueles que fogem à norma, pois serão consideradas pessoas “desviantes, patológicas e descompensadas em termos emocionais” (Rich, 2010, p. 39). Em meio a esse sistema, como a escola lida com as diversidades de gênero que povoam suas salas de aula? Como as pessoas Trans são tratadas dentro dos muros escolares? São perguntas que nos fazem refletir e buscar apoio na literatura científica para compreender melhor. ESCOLA, DIVERSIDADE E POSSIBILIDADES O primeiro contato com a escola se dá ainda na infância e perdura até a fase adulta; é na escola que passamos a maior parte do nosso tempo, quando ainda estamos formando a nossa identidade. Embora a escola não seja o único espaço em que a educação acontece, é um espaço marcante e importante, que faz parte da vida de praticamente todos/as e que exerce uma grande influência na aquisição de saberes, na transmissão cultural, na interação social e na formação cidadã. A escola reforça e reproduz a desigualdade, a diferença, a segregação porque divide as/os que lá estão “através de múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento e hierarquização” (Louro, 1997, p. 57). A escola foi firmada tendo como base a distinção, a rotulação e Guacira Louro (1997) corrobora ao argumentar que “[a] escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna começou por separar adultos de crianças, católicos e protestantes. Ela também se fez diferente para os ricos e para os pobres e ela imediatamente separou os meninos das meninas” (idem, p. 57). Além disso, a escola disciplina os corpos, pois, na escola, aprende-se o momento certo de falar e de calar, aprende-se a respeitar a norma, aprende-se a agir de acordo com a norma (Louro, 1997). Embora atualmente a escola tenha o nome de escola democrática, ainda assim privilegia determinada forma de se comportar, privilegia ‘os bons’, ‘os decentes’, os que sabem como e quando falar. Na verdade, a escola ainda é um meio para a ‘fabricação’ de sujeitos disciplinados e dóceis, na sexualidade e nas identidades hegemônicas. A escola é um dos piores lugares para se assumir uma identidade de gênero fora da norma. Segundo Louro (1997): [a] escola é, sem dúvida, um dos espaços mais difíceis para que alguém “assuma” sua condição de homossexual ou bissexual ou transexual. Com a suposição de que só pode haver um tipo de desejo sexual e que esse tipo – inato a todos – deve ter como alvo um indivíduo do sexo oposto, a escola nega e ignora a homossexualidade e a transexualidade (provavelmente nega porque ignora) (...). O lugar do conhecimento mantém-se, com relação à sexualidade, o lugar do desconhecimento e da ignorância (p. 24). Aqueles e aquelas que se identificam com afeição ou desejos diferentes das normas heterossexuais sofrem muito, “[a] esses restam poucas alternativas: o silêncio, a dissimulação ou a segregação” (Louro, 2000, p. 21). Meninos e meninas aprendem, desde cedo, a reproduzir as normas e a rejeitar quem está fora delas, “aprendem, também, piadas e gozações, apelidos e gestos para dirigirem àqueles e 55ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional àquelas que não se ajustam aos padrões de gênero e de sexualidade admitidos na cultura em que vivem” (idem, p. 22”). Essa rejeição acaba desencadeando várias ações discriminatórias, em que há um exercício de poder e dominação de um grupo sobre outro, negando direitos e transformando a escola em um grande palco para a transfobia. Segundo Conceição Nogueira e et al (2017): As manifestações da transfobia assumem formas múltiplas, como a violência física, o discurso de ódio, os insultos, a violência psicológica, a exclusão ou a rejeição. Cabe realçar, de resto, que tais manifestações decorrem de uma ordem de discurso que estereotípica vivências, significados e expressões relativas aos géneros e que, ao fazê-lo, estabelece as condições estruturantes de emergência da transfobia (p. 263). Um relatório da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - ABGLT sobre o ambiente educacional no Brasil, em 2016, revelou que cerca de 60,2% das/os estudantes LGBTQIA+ se sentem inseguros na escola em razão de sua orientação sexual, 42,8% se sentem inseguros em razão de sua expressão de gênero, 68,0% foram agredidos verbalmente na instituição educacional por causa de sua identidade e expressão de gênero e 23,5% relatou ter sido agredido por este motivo com frequência ou quase sempre. O resultado disso é que muitas pessoas dissidentes da norma, incluindo os jovens Trans, acabam tendo um histórico de reprovações e até de evasão escolar, e que, segundo Bento (2011), se revela mais para ‘expulsão’ do que ‘evasão’: Na verdade, há um desejo de eliminar e excluir aqueles que “contaminam” o espaço escolar. Há um processo de expulsão, e não de evasão. É importante diferenciar “evasão” de “expulsão”, pois, ao apontar com maior precisão as causas que levam crianças a não frequentarem o espaço escolar, se terá como enfrentar com eficácia os dilemas que constituem o cotidiano escolar, entre eles, a intolerância alimentada pela homofobia. (p. 555). Entre os motivos que ocasionam essa expulsão, temos o silenciamento dos profissionais de educação. Todo esse xingamento, preconceito, segregação que se traduz em sofrimento para as pessoas Trans, é realizado à vista destes profissionais, que não sabem, ou não querem ou não têm coragem de agir. Cabe ressaltar que, de acordo com a ANTRA (2020)2, estima-se que cerca de 70% das pessoas Trans não concluíram o ensino médio e que apenas 0,02% encontram-se no ensino superior. Para as pessoas Trans continuarem estudando, é necessário um grande esforço porque a escola heteronormativa usa todo o seu poder para exclui-las. As violências são constantes, do momento em que chegam para as aulas ao momento em que saem. Olhares de deboche, olhares que constrangem, piadinhas, apelidos pejorativos são constantes e não são as únicas formas de violência (Louro, 1997). Muitos ainda sofrem por não serem respeitados quanto à sua identidade de gênero, pois muitas escolas ainda negam o direito ao nome social e usam pronomes inadequados. A mudança de nome faz parte da construção da identidade Trans (Preciado, 2014) e, ao rejeitar o nome, a escola está negando a existência Trans, o direito à individualidade, à dignidade, em uma tentativa de eliminá-los do convívioescolar. A escola enfrenta ainda muitos desafios para incluir crianças, adolescentes e jovens Trans na escola. Um dos aspectos mais polêmicos para a escola, e também para 2 - https://antrabrasil.org/noticias/ 56 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional as pessoas Trans, é o uso do banheiro. Há inúmeros relatos de discriminação, violência e até abusos em banheiros (Andrade, 2012). Pessoas Cis se sentem desconfortáveis com pessoas Trans usando o espaço e pessoas Trans se sentem incomodadas por causa dos olhares, das agressões verbais e até físicas. O homem Trans é visto como fêmea no banheiro masculino, onde pode ser vítima de abuso, de violência; no banheiro feminino pode ser acusado de constranger as mulheres que lá frequentam, e sofrer com a discriminação. Não poder usar banheiro, principalmente na escola, é ser violentado, punido nas necessidades mais básicas do ser humano, fato que gera um sofrimento ainda maior às pessoas Trans. O uso do banheiro na escola é objeto de discussão e reclamação há muito tempo, ele não é apenas um espaço reservado à realização de necessidades fisiológicas, “ele é parte fundamental do processo de construção de identidades e reprodução das diferenças, e é neste espaço que as/os estudantes Trans passam por constrangimentos, aversões e diversas outras formas de agressão e segregação” (Oliveira Junior & Maio, 2016, p. 167). Existem muitos estudos que discutem, problematizam e descrevem o que se pode fazer para amenizar o sofrimento de pessoas Trans na escola. Além de grandes teóricos, as vozes de quem vivencia na pele são muito importantes pois demonstram como eles e elas refletem sobre o sofrimento vivido na escola. Louro (2008) propõe uma pedagogia que coloca a diferença como tema central, não para que seja apenas tolerada, mas valorizada e problematizada. A escola é um lugar muito rico para se falar de multiculturalidade e diversidade e quando se trazem esses temas para dentro dela se conseguem resultados incríveis. Quando se esclarece, quando se debate (Hooks, 2013), quando se dá voz a todos, a escola se torna um lugar mais seguro para quem é diferente, fora da norma. Talvez o docente ou o orientador educacional não dimensionem o poder que tem em suas mãos, como podem fazer a diferença na vida de todos, principalmente, o poder de mudar a realidade das minorias que sofrem preconceito e exclusão na escola. CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora a maioria das pessoas Trans ainda não tenha um lugar na escola, essa situação pode ser mudada a fim de que todas as pessoas Trans possam ter o seu lugar com dignidade e com respeito. A escola é o lugar das possibilidades, podendo promover o desenvolvimento de capacidades pessoais para que pessoas Trans que tenham o seu lugar com dignidade e com respeito e possam traçar caminhos diferentes. Na dissertação de Mestrado (Silva, 2021) da autora, vários jovens Trans das nossas escolas deram depoimento sobre sua experiência na escola. O que mais chamou a atenção é que acredita-se que, se os profissionais de educação, principalmente o orientador educacional, trouxesse esse tema para ser conhecido de forma saudável e equilibrada, a forma com que toda a comunidade escolar reagiria poderia ser afetada positivamente. Quando a escola não se cala e apresenta esse assunto para ser debatido, aprendido, difundido, ela faz com que a comunidade ... aos poucos, a escola passa a ser um lugar seguro para os estudantes Trans, possibilitando que problemas como uso do banheiro, falta de respeito com a autoidentificação de gênero, violência, ameaças e opressão, deixem de existir; e seres humanos serão tratados como humanos. 57ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional escolar seja esclarecida e conscientizada quanto a diversidade de gênero e diversidade sexual. Com isso, o preconceito diminui e, aos poucos, a escola passa a ser um lugar seguro para os estudantes Trans, possibilitando que problemas como uso do banheiro, falta de respeito com a autoidentificação de gênero, violência, ameaças e opressão, deixem de existir; pois seres humanos serão tratados como humanos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. Secretaria de Educação. Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2015: as experiências de adolescentes e jovens lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais em nossos ambientes educacionais. Curitiba: ABGLT, 2016. Disponível em: https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE- Brasil-Web-3-1.pdf ANDRADE, Luma Nogueira de. Travestis na escola: assujeitamento ou resistência à ordem normativa. Orientadora: Celecina Veras Sales. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal Do Ceará, Fortaleza, 2012. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DO BRASIL- ANTRA. https://antrabrasil. org/noticias/, 2020. BENTO, B.. Na escola se aprende que a diferença faz a diferença. Revista Estudos Feministas, v. 19, n. 2, p. 549–559, maio 2011. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. HOOKS, bell. (2013). Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 1ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educação: Uma perspectiva pós-estruturalista. 6ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. LOURO, Guacira Lopes. O Corpo educado: Pedagogias da sexualidade. Autêntica. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. MAGALHÃES, Maria José; TAVARES, Manuela. Os contributos dos feminismos na luta contra a violência sobre as mulheres. In: DIAS, Isabel (org.) Violência doméstica e de género: Uma abordagem multidisciplinar . Lisboa: Pactor, 2018. p. 157-173. 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Está positivado na Carta Magna brasileira (1988) em seu artigo 205. Contudo, alguns aspectos da educação ainda se mostram em processo dedesenvolvimento. Um imperativo dos dias atuais é oferecer educação para todos, respeitando e acolhendo as diferenças. Neste sentido, concorda-se com Miranda (2023) que educar para a diversidade abrange não somente o público descrito pela Política Nacional de Educação Especial (pessoas com deficiência sensorial auditiva, intelectual; no espectro do autismo ou com altas habilidades), mas todas as pessoas com outras diversidades como, por exemplo, diferenças de gênero, raça e classe social. Nessa perspectiva o trabalho pedagógico deve focar em valorizar as diferenças e não neutralizá-las. Compreendendo que a escola é um espaço diverso, descreve-se aqui um relato de experiência sobre o projeto recreio em uma escola pública de anos iniciais do Distrito Federal com o objetivo de melhorar as relações entre os estudantes, reduzindo acidentes no momento do recreio por meio de brincadeiras dirigidas. A iniciativa desencadeou uma série de outras ações que culminaram em profundas mudanças na escola, na valorização do brincar e levaram ao respeito à diversidade. DESENVOLVIMENTO Em uma instituição escolar circunscrita em uma comunidade marcada por grandes vulnerabilidades, observa-se, a partir do ano de 2017, uma intensa preocupação dos profissionais em torno dos problemas de indisciplina, conflitos, acidentes, agressões físicas e verbais entre os estudantes. Essas condutas resultavam em acidentes que ocorriam antes, durante e após os recreios e, muitas vezes, ocasionavam o acionamento, por parte da gestão da escola, de serviços de emergência tais como o SAMU. Diante desse desafio, os educadores refletiram sobre o papel, missão e função social da escola. Os profissionais lançaram mão de conhecimentos oriundos de formações, cursos e pesquisas por eles já realizados. Fizeram proposições na linha da psicomotricidade e ludicidade, dando origem ao projeto Recreio Dirigido, que passou a compor o Projeto Político Pedagógico no ano de 2018. O projeto envolveu os diversos setores da escola como, por exemplo, Orientação Educacional (OE), Equipe Especializada de Apoio à Aprendizagem (EEAA), Atendimento Educacional Especializado (AEE – Sala de recursos), professores e gestão escolar. O foco do projeto era oferecer às crianças atividades dirigidas de modo que o recreio 59ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional pudesse se tornar um momento prazeroso, favorecendo interações harmoniosas entre os estudantes, professores e servidores da escola de modo mais organizado e seguro. Cada dia uma turma teria acesso a um espaço diferente da escola e um dia por semana ficaria livre para escolherem as brincadeiras que desejassem. A experiência mostrou-se tão exitosa que, durante o mês de agosto daquele ano, realizaram-se os jogos interclasse e estes aconteceram no espaço/tempo do recreio envolvendo todas as turmas da escola. As competições abarcaram diversas modalidades tais como: futsal, handebol, queimada, basquete e tênis de mesa. Os professores atuaram como árbitros das partidas. Foi um momento de divertimento e fortalecimento de vínculos, além de um espaço para a mediação de conflitos que surgiram com o desenrolar dos jogos. Os primeiros resultados do projeto se mostraram bem favoráveis, o que trouxe influência para outras ações da escola, inclusive algumas previstas no calendário oficial da rede de Ensino do DF como, por exemplo, a Semana Distrital de Conscientização de Promoção da Educação Inclusiva aos Alunos com Necessidades Educacionais Especiais (Lei nº 5714/2016), cujas atividades tiveram como objetivo a que os estudantes experimentassem algumas dificuldades que um indivíduos com necessidades especiais vivenciam no seu dia a dia. O recreio dirigido aconteceu em formato de ilhas específicas, cada uma fazendo referência a deficiências físicas e sensoriais. Nessas ilhas os estudantes tiveram acesso às seguintes atividades: corrida de cego; corrida de revezamento 4x4, para cegos, com bastão , corrida em cadeira de rodas, corrida de carrinho de mão, basquete em cadeira de rodas, vôlei sentado, tênis de mesa com uma mão; corrida do pezão e corrida com pé de latinha. Além das ilhas de atividades no recreio, foram desenvolvidas atividades em sala de aula (uma por dia): cabra-cega (olhos vendados); desenho e pintura sem as mãos; caixinha sensório-motor; identificação de sons diversos. Os professores fizeram, ainda, murais com as atividades realizadas em sala de aula. Na quinta-feira, os trabalhos eram expostos e, na sexta-feira, as crianças faziam um tour pela escola para conhecer os trabalhos realizados pelas outras turmas. A abordagem lúdica influenciou, também, o uso de tecnologias para fins educativos. O laboratório de informática, os jogos pedagógicos, gincanas e brincadeiras gamificadas passaram a fazer parte das aulas dos professores, sendo utilizados com intencionalidade didático pedagógica. Assim, houve uma verdadeira mudança de mentalidade na realidade didático- político-pedagógica da instituição. Seja nos processos intrínsecos aos planejamentos dos professores, seja nas ações de manutenção da escola, perpassando, por exemplo, pela inserção de grafites nas paredes expressando arte, respeito e retratando o ideário infantojuvenil brincante. Além disso, houve mudanças na dinâmica de abertura dos turnos das aulas, ações nos projetos interventivos de reagrupamento com um viés lúdico e divertido. Foram criadas oficinas e aulas de psicomotricidade, xadrez e dança. Essa experiência demonstrou o quanto o brincar é necessário no ambiente escolar, Essa experiência demonstrou o quanto o brincar é necessário no ambiente escolar, dos anos iniciais do ensino fundamental aos anos subsequentes da escolarização, desmistificando a sua importância apenas para contextos da Educação infantil. 60 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional dos anos iniciais do ensino fundamental aos anos subsequentes da escolarização, desmistificando a sua importância apenas para contextos da Educação infantil. Retratou, ainda, que o sucesso de experiências como esta dependem muito da disponibilidade e envolvimento dos adultos, como ensina Navarro e Prodócimo (2012): “O valor que determinadas brincadeiras terão para as crianças na escola dependerá muito de como elas serão encaradas, nesse contexto, pelos adultos que o frequentam. As formas de mediação realizadas pelo professor, a organização dos espaços e tempos da escola e dos materiais que se encontram ao alcance das crianças nos momentos de brincadeiras, são atitudes que podem fazer a diferença no brincar da escola.” (Navarro e Prodócimo, 2012). CONSIDERAÇÕES FINAIS Por fim, pôde-se concluir que os resultados alcançados fortaleceram as ações implementadas e trouxeram refrigério para as intempéries da jornada. Deram a certeza de que esforços coletivos provocam superação e qualidade no ensinar. O brincar, de fato, mudou a escola. Além de todas as experiências bem sucedidas presentes neste relato, ainda há o fato de que a escola subiu 1,1 ponto no IDEB ao longo do período de 4 anos, saindo da nota 4,6 para 5,7. O que mostra que o objetivo inicial de melhorar as relações interpessoais, reduzir acidentes e promover atividades lúdicas para as crianças foi alcançado e reverberou também na aprendizagem. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MIRANDA, Maria Auristela Barbosa Alves de. Infâncias diversas: o papel da brincadeira no desenvolvimento e inclusão na Educação Infantil. Revista Com Censo, Brasília, V. 10. n. 2, p. 163-169, maio de 2023. NAVARRO, Mariana Stoeterau e PRODÓCIMO, Elaine. Brincar e mediação na escola. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Florianópolis, V.34, n.3, p. 163- 169, maio de 2023. DISTRITO FEDERAL. Lei nº 5.714, de 22 de setembro de 2016. Institui e inclui no calendário oficial de eventos do Distrito Federal a Semana Distrital de Conscientização e Promoção da EducaçãoInclusiva aos Alunos com Necessidades Educacionais Especiais. Diário Oficial do Distrito Federal: seção 1, Brasília, DF, ano 65, n. 181, p. 1-15, 23 de setembro de 2016. 61ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Cristiellen de Oliveira Guedes1 Michele Miranda de Azevedo2 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. 2 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2008. Onde tenha sol Palavras-chave: Orientação Educacional. Rodas de conversa. Socioemocional. INTRODUÇÃO A orientação educacional nas escolas públicas do Distrito Federal desenvolve sua atuação na perspectiva de que a educação escolar formal deve atentar-se para o desenvolvimento integral do estudante (Distrito Federal, 2019). Nesse sentido, o aspecto afetivo-cognitivo (Martins, 2012) merece um olhar cuidadoso, especialmente depois da pandemia de Covid-19 que afetou a humanidade em 2020. O fechamento das escolas por um tempo tão prolongado, entre os anos de 2020 e 2021, mesmo com as aulas acontecendo à distância, foi considerado um fator de risco para os processos de socialização e desenvolvimento global das crianças e adolescentes, desencadeando prejuízos à saúde mental dos estudantes (Souto et al., 2021). A transição para o ensino híbrido e a subsequente retomada das aulas presenciais em 2021, em um contexto marcado por incertezas e desafios, intensificou as demandas por apoio socioemocional dos estudantes. Nesse cenário, a orientação educacional da escola onde foi desenvolvido este trabalho reconheceu a importância de implementar um acompanhamento mais estruturado e coletivo para atender às necessidades emergentes. Logo, o problema desta pesquisa se configurou em como realizar um trabalho pedagógico estruturado e coletivo para os estudantes, abrangendo aspectos sociais e afetivo-cognitivos. Assim, o objetivo central se traduziu em desenvolver um acompanhamento socioemocional estruturado e coletivo dos estudantes. Para tanto, foi necessário o desencadeamento de outros objetivos: ● Promover os saberes socioemocionais com informações e orientações sobre temas relevantes para a saúde dos adolescentes; ● Promover a cultura democrática por meio de atividades que valorizem o diálogo, a diversidade e o respeito às diferentes opiniões. Para responder a essa demanda, foi desenvolvido o projeto “Onde tenha Sol”, que incluiu a realização de rodas de conversa. A metodologia utilizada e os resultados obtidos serão explicados ao longo deste trabalho, evidenciando a importância de iniciativas como essa para a construção de uma escola mais acolhedora. O PROJETO “ONDE TENHA SOL” O projeto foi desenvolvido em uma unidade escolar pública de ensino médio, na Região Administrativa de Santa Maria, no Distrito Federal, em 2022. Na ocasião, foi desenvolvido com os estudantes das turmas dos primeiros anos, com idade entre 15 e 17 anos. A partir da demanda de estudantes por apoio socioemocional, observada pelo 62 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional elevado número de buscas espontâneas e encaminhamentos de jovens com alguma questão emocional, por parte dos professores, surgiu o Projeto “Onde Tenha Sol”. O nome do projeto foi motivado em um momento de reflexão pessoal da orientadora educacional da escola, no qual, a música homônima da banda Jota Quest inspirou a criação de um espaço de acolhimento e escuta para os estudantes, que seria esse “Sol” na escola. A estratégia que poderia melhor atender aos objetivos deste trabalho, considerando uma melhor abrangência, potencialidade em promover um ambiente seguro e acolhedor, para os estudantes expressarem seus sentimentos e emoções, além de favorecer a construção de vínculos interpessoais, foi a roda de conversa. A escolha das rodas de conversa como estratégia de intervenção se justificou pelo fato delas consistirem: [...] em um método de participação coletiva de debate acerca de determinada temática em que é possível dialogar com os sujeitos, que se expressam e escutam seus pares e a si por meio do exercício reflexivo. Um dos seus objetivos é socializar saberes e implementar a troca de experiências, de conversas, de divulgação e de conhecimentos entre os envolvidos, na perspectiva de construir e reconstruir novos conhecimentos sobre a temática proposta (Moura; Lima, 2014, p. 101). O projeto foi submetido à direção da escola e, após aprovação, foi incorporado ao Plano Político Pedagógico (PPP) da instituição. As atividades desenvolvidas abordaram temas relevantes para o desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Importante pontuar que, segundo a Orientação Pedagógica da Orientação Educacional (2019) e conforme o Currículo da Educação Básica da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (2014), o trabalho da orientação educacional deve ser desempenhado sob a perspectiva histórico- cultural da aprendizagem e do desenvolvimento humano. Na perspectiva histórico-cultural, a razão e a emoção são inter-relacionadas e interdependentes, não se separam (Silva, 2022). Portanto, para trabalhar com as questões socioemocionais na escola, considera-se a unidade afetivo-cognitiva (Martins, 2012). Assim, para desenvolver este trabalho, seria imperativo trazer elementos relacionados à cidadania, às diversidades, ao respeito, à inclusão, ao autocuidado, aos problemas sociais, entre outros, para que compusessem um repertório de conteúdos para reflexão e diálogos emancipadores. Para este trabalho, destacam-se as seguintes rodas de conversa realizadas com a participação de membros da comunidade escolar: ● com a participação da professora Mariana Almada, professora de artes da rede pública de ensino do Distrito Federal. Por meio de atividades musicais, os estudantes puderam expressar livremente seus sentimentos e suas emoções; ● com a supervisora pedagógica da escola, Roseli Gusmão, com formação em terapia integrativa, na qual foi realizada uma conversa sobre sentimentos e emoções; ● com a equipe da Unidade Básica de Saúde 01 da cidade de Santa Maria no Distrito Federal, representada pelo Dr. Mateus Ricardo Cardoso, por meio do qual foram tratados temas relacionados à saúde física e sexual dos adolescentes; ● com a psicóloga Liliane Rabelo, convidada pela escola, em que se discutiu a importância de buscar ajuda profissional em momentos de crise emocional; ● com o professor Emerson Franco, autor do projeto Papo Franco, que promoveu debates sobre a violência vivenciada por jovens em 63ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional contextos de vulnerabilidade social. Além das atividades mencionadas, foram realizadas outras rodas de conversa com a orientadora educacional e elaborados murais sobre temas como bullying, respeito no namoro e higiene corporal. Os murais atuaram como uma extensão formativa e promoveram a disseminação das informações para outros estudantes que não haviam participado das rodas de conversa. Essas ações somadas permitiram que os estudantes aprofundassem suas reflexões sobre os temas abordados e construíssem um conhecimento mais crítico sobre as questões que os afetam. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados obtidos com a implementação do projeto foram bastante positivos, evidenciando a necessidade de ações que acolham os estudantes, mas que também sejam investidas de caráter pedagógico objetivo. A orientadora educacional observou, ao longo das rodas de conversa, que os participantes desenvolveram um maior vínculo com a escola, incluindo com os professores. Os estudantes sentiram-se mais à vontade para expressar seus sentimentos e suas emoções autênticas (Silva, 2022). Também se perceberam enquanto atores na sociedade e por ela impactados. Outros resultados verificados referem-se a uma maior participação nas aulas, menor índice de faltas, maior dedicaçãoàs atividades escolares em geral, maior envolvimento nos eventos coletivos de grande porte, como a Gincana anual e o Sarau, e a redução do número de estudantes que tiveram crises emocionais na escola. As rodas de conversa sobre saúde física e sexual, bullying e respeito no namoro, abordaram temas relevantes para a saúde dos adolescentes, proporcionando informações e orientações importantes, especialmente no ensino médio. A presença de profissionais da saúde, como médicos e psicólogos, cuidou para que a qualidade das informações transmitidas e a abordagem de temas complexos acontecessem adequadamente e evitassem a desinformação. A estratégia de rodas de conversa se aproximou da realidade dos adolescentes e facilitou a compreensão dos conteúdos apresentados. Além de se mostrar e ser aceita pelos adolescentes como espaço seguro para a troca de ideias e a expressão de diferentes pontos de vista, contribuiu para a valorização da diversidade e a construção de uma cultura de convivência mais democrática. Retomando os objetivos iniciais, verifica-se que este trabalho alcançou, em grande medida, os propósitos propostos. Ao promover os saberes socioemocionais e a cultura democrática, o projeto demonstrou ser um instrumento importante para o desenvolvimento integral dos estudantes, contribuindo para a construção de um ambiente escolar mais humanizado e inclusivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Currículo em Movimento da Educação Básica: pressupostos teóricos. Brasília, DF, [s/da]. Disponível em: https://www.educacao.df.gov.br/wp- conteudo/uploads/2018/02/1_pressupostos_teoricos.pdf Além de se mostrar e ser aceita pelos adolescentes como espaço seguro para a troca de ideias e a expressão de diferentes pontos de vista, a estratégia contribuiu para a valorização da diversidade e a construção de uma cultura de convivência mais democrática. 64 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional. 2019. Disponível em: https:// www.educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2019/03/ o r i e n t a % C 3 % A 7 % C 3 % A 3 o - p e d a g o g i c a - d a - orienta%C3%A7%C3%A3o-educacional_02mai19.pdf MARTINS, L. M.. O desenvolvimento do psiquismo e a educação escolar: contribuições à luz da Psicologia Histórico-cultural e da Pedagogia Histórico-crítica. Interface — Comunicação, Saúde, Educação, v. 16, n. 40, p. 283–283, jan. 2012. MOURA, A. F.; LIMA, M. G.. 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Acesso em: 20 set. 2024. 65ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Anne Ferreira1/2 1 - Pseudônimo de Idaciana Ferreira de Sá. 2 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2009. Projeto Semeando a Paz: «Me aceita como eu sou» Palavras-chave: Paz. Diversidade. Aceitação. Étnico racial. INTRODUÇÃO O presente relato de experiência objetiva descrever o Projeto Semeando a Paz e como ele impactou a escola desde então. O projeto teve início na volta às atividades presenciais em agosto de 2021. Nesse contexto, identificou- se uma diversidade de comportamentos entre os estudantes, o que dificultava a realização de um trabalho individual e contínuo. Diante dessa necessidade, emergiu no âmbito da orientação educacional o Projeto Semeando a Paz, que passou a ser desenvolvido de maneira dinâmica, sendo construído e ajustado diariamente, conforme as demandas e realidades observadas. No início de 2022, o projeto adquiriu nova estrutura e trouxe símbolos, vídeos e diversas músicas. A canção Corrente do Bem, de Luís Miguel, tornou-se nosso hino. Atualmente, o Projeto foi se ampliando e passou a ser realizado não só em uma escola, mas em outras unidades escolares das coordenações regionais de ensino de São Sebastião, Plano Piloto e Gama. É preciso sempre lembrar que somos Rede e, como tal, devemos ajudar uns aos outros, nos fortalecendo. O Projeto tem início com a entrega de uma dobradura de origami, escolhido para representar a temática central de cada etapa. O primeiro origami apresentado é a Pombinha da Paz, que simboliza a saudação por um ano repleto de paz. Em seguida, o “tsuru”3 é introduzido, acompanhado da narrativa dos Mil Tsurus Pela Paz, inspirada na história de Sadako, que se torna o ponto de partida para o desenvolvimento do projeto. Posteriormente, são apresentados outros origamis, cada um trazendo uma mensagem específica: o Coelho, com a temática “gentileza gera gentileza”; o Coração, que remete à expressão “só se vê bem com os olhos do coração”; o Beija-flor do Respeito, simbolizando a importância do respeito, com a frase “respeito é bom e todo mundo gosta”; a Borboleta da Paciência, que destaca a necessidade de cultivar paciência; o Girassol, com o lema “seja girassol na sua vida e na vida do outro”; a Joaninha simbolizando a Responsabilidade com a frase “responsabilidade é fazer o que é certo ,mesmo quando ninguém está olhando”; o Camaleão, que traz a mensagem “Me Aceita Como Eu Sou”; e, por fim, a Planta Esperança, que representa a perseverança e a ideia de que a esperança jamais deve morrer. Essa sequência de símbolos visa promover reflexões significativas, incentivando o desenvolvimento de valores e atitudes positivas entre os participantes. Neste relato, a intenção é descrever sobre o símbolo do Camaleão (“Me Aceita Como Eu 66 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional 3 - Pássaro sagrado do Japão, representado em dobradura de papel simbolizando a paz e harmonia. Sua imagem é frequentemente associada à tranquilidade e calma. Sou”). Ele retrata bem um pouquinho da autora, que é preta e na vida sempre teve que lutar para que os outros não retirassem a sua identidade, para a chamarem pela sua cor. Ela ressalta que ser preta nunca foi um problema, que sempre gostou de sua cor. O tema “Me Aceita Como Eu Sou” fala por ela. Uma das frases usadas no projeto, tem uma conotação especial: “MEU NOME É A MINHA IDENTIDADE”. Ela ecoa dentro da escola e nas apresentações, com a mensagem “não tire o que me representa”. Isso é muito trabalhado com os estudantes e com todos que participam das apresentações. Essa etapa do projeto acontece no mês de novembro e, sempre que ele é trabalhado, há uma identificação com a música “De Toda Cor”, de Renato Luciano, bem como na história Bom dia Todas as Cores, da Ruth Rocha (2013) e nos vídeos que retratam o desrespeito, que infelizmente não é só pela cor da pele. DESENVOLVIMENTO O Projeto Semeando a Paz com o enfoque “Me Aceita Como Eu Sou”, trouxe uma abordagem inovadora para a inclusão representada pelo origami do camaleão, retratando bem que a este animal é permitida a troca de cor ou de cores. Durante as apresentações em sala e na culminância, são realizadas palestras e plenárias para que os estudantes e osdemais envolvidos possam refletir sobre como o camaleão muda de cor para se adaptar ao ambiente, simbolizando a importância de respeitar e valorizar as diferenças individuais e ainda expressar suas próprias identidades, inspirando-se na versatilidade do camaleão. As plenárias abordam questões como preconceito e aceitação, permitindo que os estudantes relatem histórias pessoais. Essas trocas de vivências ajudam a construir um ambiente de empatia, onde todos podem sentir- se valorizados. Os relatos de transformação e aceitação são muitas vezes emocionantes, mostrando que, assim como o camaleão, que mesmo trocando as cores não consegue agradar a todos, nós não precisamos agradar aos outros e sim a nós mesmos. Reflexão trazida pelo já citado livro de Ruth Rocha (2013): “Eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém. Quem não agrada a si mesmo, não pode agradar a ninguém”. Assim, o Projeto “Me Aceita Como Eu Sou” não só promove a inclusão, mas também reforça o conceito de que aceitar o outro como é, o que se torna fundamental para construir um futuro mais pacífico, mais humano e mais acolhedor. Dessa forma, “Me Aceita Como Eu Sou” é mais do que um projeto, é um chamado à ação para que todos possam construir uma sociedade mais justa e amorosa, onde cada voz é ouvida e cada ser humano é valorizado. O projeto surge da necessidade de promover a aceitação e o respeito à diversidade, abordando questões de identidade, autoestima e empatia. Vivemos em uma sociedade que muitas vezes valoriza padrões de comportamento e aparência, o que pode levar à exclusão e à discriminação de indivíduos que não se encaixam nesses moldes. O projeto busca criar um espaço seguro onde todos possam expressar sua verdadeira essência, independentemente de suas diferenças. As interações e reflexões proporcionadas pelo projeto permitiram que cada participante se sentisse valorizado e reconhecido, contribuindo para a construção de uma comunidade escolar mais inclusiva. 67ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional 3 - Pássaro sagrado do Japão, representado em dobradura de papel simbolizando a paz e harmonia. Sua imagem é frequentemente associada à tranquilidade e calma. Dessa forma, o projeto se alinha aos pressupostos teóricos da Secretaria de Educação (SEEDF), que trazem a diversidade como um dos seus eixos transversais: A SEEDF reestrutura seu Currículo de Educação Básica partindo da definição de diversidade, com base na natureza das diferenças de gênero, de intelectualidade, de raça/etnia, de orientação sexual, de pertencimento, de personalidade, de cultura, de patrimônio, de classe social, diferenças motoras, sensoriais, enfim, a diversidade vista como possibilidade de adaptar-se e de sobreviver como espécie na sociedade. (SEEDF, 2019, p.41). A aceitação é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social, e que cada indivíduo tem o direito de ser respeitado e valorizado como realmente é. Salientamos de que o mundo precisa de estratégias eficazes de prevenção de conflitos e de que estes são mais bem-sucedidos quando aplicados o quanto antes. O Projeto “Me Aceita Como Eu Sou” visa oferecer aos estudantes ferramentas necessárias para que possam desenvolver habilidades socioemocionais e se tornem agentes de transformação em suas vidas e de suas famílias. O Projeto tem como objetivo promover a aceitação e o respeito à diversidade, incentivando a autoestima e a empatia entre os estudantes, professores e demais funcionários, visando criar um ambiente inclusivo, onde cada indivíduo possa expressar sua identidade de forma autêntica. Esse objetivo vai ao encontro do que é proposto na Orientação Pedagógica da Orientação Educacional (SEEDF, 2019): Nesse sentido, entende-se que a escola não é apenas um local de acúmulo de conteúdos teóricos, mas um espaço possível de humanização no qual os sujeitos que convivem nela possam vivenciar e experimentar juntos formas de compreender, estar e transformar a realidade individual e coletiva nessa convivência e que, ao mesmo tempo, sintam-se fortalecidos com aprendizagens significativas em atividades que desenvolvam e fortaleçam a afetividade, a solidariedade, a autonomia, a criticidade, a honestidade, a responsabilidade e o entendimento mútuo, ou seja, uma cultura de realização de direitos humanos e de relações democráticas: o respeito à legitimidade do diferente e de toda diversidade humana e da sustentabilidade. (p.19) A avaliação do projeto é realizada de forma contínua, com o acompanhamento dos resultados alcançados. Além disso, são realizados feedbacks de todos os envolvidos, para identificar possíveis melhorias. Essas informações são essenciais para ajustar as estratégias e garantir as evoluções das ações e da participação ativa nas atividades, com relatos das experiências e, ainda, monitorar a participação e interação durante as atividades, registrando comportamentos e engajamento dos envolvidos. CONSIDERAÇÕES FINAIS O projeto “Me Aceita Como Eu Sou” busca alcançar seu objetivo, promover a aceitação e o respeito à diversidade, criando um espaço seguro para a expressão da identidade individual. Ao longo das atividades, foi possível observar um aumento significativo na autoestima dos estudantes, professores e demais funcionários. Além disso, percebeu-se uma maior empatia de todos os envolvidos em relação às diferenças. As interações e reflexões proporcionadas pelo projeto permitiram que cada participante se sentisse valorizado e reconhecido, contribuindo para a construção de uma comunidade escolar mais inclusiva. Assim, o Projeto “Me Aceita Como Eu Sou” não só é motivo de celebração, mas principalmente de reflexão. Reconhecer os sucessos alcançados e aprender com os 68 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional desafios enfrentados ao longo do caminho tem transmitido a segurança de que o caminho para a aceitação é CONTÍNUO. Seguimos juntos na construção de um ambiente onde cada um possa ser quem realmente é. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Currículo em Movimento da Educação Básica: pressupostos teóricos. Brasília, DF, [s/da]. Disponível em: https://www.educacao.df.gov. br/wp-conteudo/uploads/2018/02/1_pressupostos_ teoricos.pdf DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional. 2019. Disponível em: https:// www.educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2019/03/ o r i e n t a % C 3 % A 7 % C 3 % A 3 o - p e d a g o g i c a - d a - orienta%C3%A7%C3%A3o-educacional_02mai19.pdf LUCIANO, Renato. Música De Toda Cor. Intérprete: Renato Luciano. [Música]. Independente, 2024. MIGUEL, Luis. Corrente do Bem. [Música]. Independente, 2024. Disponível em: https://plataformadigital.com/ correntedobem. ROCHA, Ruth. De todas as cores. São Paulo: Salamandra, 2013. 69ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Maria Juliana de Freitas Carvalho Lopes1 Rosimeiry Aparecida Carvalho2 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2008. 2 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal aposentada desde 2023. Reflexões sobre a prática pedagógica para a consolidação de um projeto de transição escolar Palavras-chave: Transição Escolar. Educação infantil. Anos iniciais. Práticas Pedagógicas. INTRODUÇÃO Alguns termos são encontrados na literatura para nomear os movimentos vivenciados pelos estudantes ao longo de seus percursos de escolarização: transição escolar; passagem de uma etapa para outra; processo de ingresso das crianças em suas novas escolas (Distrito Federal, 2015, 2018, 2023; Carbonieri, Eidt, Magalhães, 2020; Martinati, Rocha, 2015). A temática da transição escolar não é nova. Requer, contudo, aprofundamento de estudos por parte dos profissionais daeducação (Martinati; Rocha, 2015). Importa dizer que o processo de transição escolar não se restringe apenas aos períodos de início ou término do ano letivo. Todavia, compreende as mais diferentes modificações que possam vir a ocorrer na vida dos indivíduos que compõem a comunidade escolar, como por exemplo: a chegada ou saída de um profissional da escola (Distrito Federal, 2023). Neste relato de experiência, discorrer- se-á sobre ações de um projeto de transição na passagem da educação infantil para os anos iniciais do ensino fundamental envolvendo duas escolas públicas do Distrito Federal. A prática teve como objetivo proporcionar um processo de transição escolar menos abrupto e mais inclusivo para os estudantes, respeitando as mudanças em seus processos de vida e desenvolvimento humano. As atividades foram elaboradas considerando a necessidade de inserção do brincar em todas as fases do projeto. Aconteceram formações junto à equipe docente, adequação do ambiente físico e ações específicas de inclusão da família no processo de transição. DESENVOLVIMENTO O estudo insere-se na abordagem qualitativa tendo como embasamento teórico as ideias dos representantes da Psicologia Histórico-Cultural. Utilizou-se, como metodologia de trabalho, a pesquisa-ação descrita por Tripp (2005), que a apresenta como uma estratégia de desenvolvimento de professores e aprimoramento de suas práticas de ensino com o escopo da melhoria na atuação. Nesta metodologia tem-se quatro 70 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional etapas distintas: planejamento, implementação, monitoramento e avaliação. O projeto teve como participantes os membros da comunidade escolar das duas escolas (orientadoras educacionais, coordenadores pedagógicos, professores, gestão escolar, profissionais de apoio, estudantes e famílias). As unidades escolares participantes eram vizinhas. Os estudantes do Centro de Educação Infantil, ao finalizarem o 2º período, eram encaminhados para cursarem o 1º ano do ensino fundamental na escola nomeada de Escola Classe. Como recorte temporal, tem-se as atividades realizadas entre os anos de 2010 e 2013. Entre os anos de 2010 e 2011, as ações do projeto se restringiam apenas a uma simples visita da escola de educação infantil à escola de anos iniciais. A atividade era planejada e implementada pelas orientadoras educacionais. A participação de outros profissionais limitava-se ao acompanhamento no dia do “tour” pela escola e à preparação de pequenos presentes de recordação que as crianças recebiam no final da visita. Para os estudantes, a visita implicava o conhecimento dos espaços nos quais iriam estudar no ano seguinte. Esse momento gerava certa tensão nas crianças, ao passo que conheciam uma escola sem cor e com opções exíguas para o exercício do brincar, características bem diferentes da escola que frequentavam. Estavam acostumadas com ambientes muito coloridos, espaços de recreação e até piscina. A prática de promoção de uma visita à futura escola, apesar de ser necessária, não pode ser a única ação de um projeto de transição que se proponha a ser eficaz. Desse modo, pode se configurar em uma prática artificial que não abarca as reais complexidades que o processo de transição apresenta (Distrito Federal, 2023). Isto posto, não se está condenando a visita, apenas apontando que o projeto de transição deve alicerçar-se, em outras ações. Seguindo os passos da pesquisa-ação, após o término das visitas, as orientadoras educacionais registravam as observações feitas, discutiam e avaliavam os principais resultados e iniciavam o planejamento do projeto para o ano seguinte. Como resposta a esse processo, surgiu a necessidade de que novas ações e novos protagonistas fossem incorporados. Entendeu-se, portanto, que era urgente adaptar as metodologias de trabalho de modo que permitissem uma transição escolar tranquila e acessível para todas as crianças, inclusive aquelas com deficiências e transtorno do espectro autista (TEA), um cuidado que ainda não havia sido percebido antes. Os anos de 2012 e 2013 representaram uma mudança substancial na configuração do projeto. Estas mudanças fizeram com que o Projeto Transição ganhasse força, deixando de ser exclusivo da orientação educacional e passando a ser um movimento da escola integrado ao Projeto Político Pedagógico e abraçado, principalmente, pelas equipes gestoras das duas instituições. A ampliação reverberou em atividades diferentes calcadas em três pilares: formação, família e brincar. O primeiro pilar - formação - surgiu com o objetivo inicial de mediar tensões e conflitos, manifestados entre os profissionais das duas escolas. Os professores da Escola Uma grande mudança alcançada foi a reorganização da Escola Classe de forma a tornar o espaço mais acessível e acolhedor... 71ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Classe apontavam que os profissionais da educação infantil não preparavam os estudantes adequadamente e os profissionais da educação infantil diziam que os professores da Escola Classe não faziam as adaptações e os acolhimentos necessários. Um fato que poderia ter sido um grande obstáculo para a continuidade do projeto, revelou-se, no entanto, como um elemento de mudanças significativas para prática pedagógica dos profissionais. O segundo pilar - família - foi considerado essencial para o sucesso do projeto. As duas escolas iniciaram encontros para informar sobre as características do processo de transição e para discutir o progresso das crianças, além de ouvir as preocupações dos pais. Alguns encontros ocorreram na escola de educação infantil e outros na Escola Classe, momento no qual inseriu-se uma visita à futura escola dos filhos. A presença constante dos familiares contribuiu para reduzir a ansiedade das crianças e famílias, facilitando a adaptação escolar. O terceiro e último pilar - brincar - foi fundamental para a sustentabilidade do projeto. Entendendo que o brincar possibilita o desenvolvimento psíquico, e é por ele que a criança elabora e se apropria dos conhecimentos historicamente produzidos (Carbonieri, Eidt, Magalhães, 2020; Miranda 2023), desenvolveu- se, na Escola Classe, um projeto que acontecia uma vez por semana com turmas de 1º ano e que tinha como objetivos acolher e construir a compreensão sobre regras de convivência por meio de jogos, brincadeiras e músicas. A orientadora educacional em parceria com os professores regentes mediava temas como conflitos, regras de conduta na sala de aula, autorregulação das emoções entre outros. Por fim, todas as etapas do projeto passaram por uma avaliação contínua, que foi um aspecto fundamental para monitorar o progresso das crianças e ajustar as práticas pedagógicas. A partir de 2014, após o período descrito neste relato, outras ações foram implementadas. Uma grande mudança alcançada foi a reorganização da Escola Classe de forma a tornar o espaço mais acessível e acolhedor, em linha com as recomendações de acessibilidade da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT, 2017). Rampas de acesso foram instaladas, materiais didáticos adaptados foram disponibilizados e áreas de convivência com estímulos sensoriais balanceados foram criadas para promover a socialização de forma segura e inclusiva. CONSIDERAÇÕES FINAIS A psicologia sócio histórica indica que o desenvolvimento do psiquismo humano se dá na interação social em um dado contexto histórico. Não se nega que o desenvolvimento das funções psicológicas superiores tem uma base orgânica, mas defende-se que são resultantes da interação do indivíduo com o mundo mediada por outros seres humanos (Facci, 2004). Com base nisso, os resultados positivos do projeto mostram que foi por meio da interação dos profissionais com os estudantes e suas famílias que alcançou-se as mudanças necessárias reverberando no desenvolvimento das crianças.A metodologia de pesquisa-ação mostrou-se profícua para o aprimoramento das práticas dos profissionais envolvidos. O objetivo inicial foi alcançado e as mudanças qualitativas não se deram somente nos indivíduos, mas em toda a prática pedagógica. À medida que o projeto foi amadurecendo, alicerçado pelo processo contínuo de reflexão das ações desenvolvidas, percebeu-se a necessidade de se iniciar bem mais cedo, pois as atividades de transição concentravam- se no mês de novembro. Com o tempo, os 72 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional profissionais foram percebendo que outros momentos integram o projeto transição e que o processo é contínuo se estendendo por todo ano letivo. Atualmente, a escola sem cor do início deste relato possui uma grande área de recreação, com muitos brinquedos, possibilitando diferentes formas de utilização por estudantes e professores. Hoje, o brincar é entendido como atividade essencial para o desenvolvimento das crianças. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABNT. Norma de acessibilidade para ambientes escolares. Associação Brasileira de Normas Técnicas (2017). CARBONIERI, J., EIDT, N. M., MAGALHÃES, C. A Transição Da Educação Infantil Para O Ensino Fundamental: A Gestação Da Atividade De Estudo. Psicologia Escolar e Educacional, v. 24, p. e215280, 2020. DISTRITO FEDERAL. Plano Distrital De Educação 2015-2024. Governo do Distrito Federal. Lei nº 5.499, de 14/7/2015 (DODF nº 135, de 15/7/2015), Brasília, 2015. acessada em 20 de julho https://www.educacao.df.gov. br/wp-conteudo/uploads/2018/01/pde_site_versao_com pleta.pdf [s/da] DISTRITO FEDERAL, Currículo em Movimento da Educação Básica. Ensino Fundamental Anos Iniciais e Anos Finais. Brasília, DF: Secretaria de Estado de Educação, 2018. 2ª edição. 312 p. Disponível em: https:// www.educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2021/07/ cirriculo_movimento_ensino_especial.pdf.pdf. Acesso em: 20 de julho de 2024. [s/db] DISTRITO FEDERAL. Transição Escolar: trajetórias na educação básica no Distrito Federal. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. 94 p. Brasília, 2023. acessado em 20 de julho de 2024. https://www. educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2021/07/ c a d e r n o _ t r a n s i c a o _ 2 . _ e d . _ r e v i s a d a _ e _ ampliada_17fev23.pdf [s/dc] FACCI, M., G., Dias., A periodização do desenvolvimento psicológico individual na perspectiva de Leontiev, Elkonin e Vigostski. Cadernos CEDES, v. 24, n. 62, p. 64–81, abr. 2004. MARTINATI, A., Z., ROCHA, M., S., P., de M., da., “Faz de conta que as crianças já cresceram”: o processo de transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Psicologia Escolar e Educacional, v. 19, n. 2, p. 309–320, maio 2015. MIRANDA, M., A., B., A., de. Infâncias diversas: o papel da brincadeira no desenvolvimento e inclusão na Educação Infantil. Revista Com Censo, Brasília, V. 10. n. 2, p. 163-169, maio de 2023. TRIPP, D., Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, v. 31, n. 3, p. 443–466, set. 2005. 73ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Michele Miranda de Azevedo1 Cleudelene Antônia Mendonça2 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2008. 2 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. Ressignificando o setembro amarelo: por uma educação socioemocional na perspectiva histórico-cultural Palavras-chave: Transição Escolar. Educação infantil. Anos iniciais. Práticas Pedagógicas. INTRODUÇÃO A campanha Setembro Amarelo é organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina desde 2014. O objetivo da campanha é prevenir e reduzir os casos de suicídio por meio de diversas ações coordenadas em vários tempos e espaços da sociedade. Contudo, encontram-se publicações colocando em dúvida a efetividade da referida campanha e questionam as estratégias, que mais se aproximam de marketing do que colaboram para um diálogo genuíno sobre saúde emocional (CRP PR, 2022; Ribeiro; Nascimento, 2020). Nas instituições escolares brasileiras, a Educação Socioemocional ganha força quando é incorporada à Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017), que adota como um dos objetivos da Educação Básica a formação de competências socioemocionais. Entretanto, concordando com Silva (2022), o uso do termo ‘competências’ nas mais diversas propostas de Educação Socioemocional revelou um conjunto de pressupostos morais e impositivos, que antagonizam o afetivo e cognitivo, preservam a ordem social vigente, “a despeito de suas contradições e do sofrimento que essa ordem causa à grande maioria das pessoas submetidas à lógica do capital” (Silva, 2022, p.16). Por esse motivo, neste trabalho será empregado o termo saber socioemocional. Em consonância com a Pedagogia Histórico-Crítica, que propõe a transposição didática dos saberes objetivos para os saberes escolares (Saviani, 2011) e consoante com a Psicologia Histórico- Cultural, que preconiza o entendimento da indissociabilidade entre pensamento e emoção, cognitivo-afetivo (Martins, 2012). A respeito da campanha Setembro Amarelo, todos os anos a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) divulga orientações para abordar a temática nas escolas. Em 2020, foi também divulgada a Nota Técnica n.º 5/2020 da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SESDF) que versa a respeito das orientações sobre o planejamento de atividades relacionadas à prevenção do suicídio. As duas secretarias apresentam preocupação com a abordagem do tema, bem 74 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional À medida que os estudantes se apropriam de sua realidade, têm mais possibilidades de lutar por melhores condições de vida e por mudanças nas políticas públicas, além de compreenderem e expressarem emoções mais autênticas como com as questões socioemocionais dos estudantes. O ano de 2021 evidenciou desafios para lidar com essas questões, quando do retorno às aulas presenciais, ainda em meio à pandemia de COVID-19. O período de isolamento social gerou prejuízos consideráveis à saúde mental dos estudantes, conforme demonstrado por Souto et al. (2021), e potencializou vulnerabilidades e desigualdades já existentes (Matta et al. 2021). Nesse cenário, ainda, aconteceram campanhas informais de antivacinação e disseminação de informações falsas (Cardoso, 2020). Nesse contexto, a orientação educacional teve papel importante na problematização coletiva da campanha Setembro Amarelo e o desenvolvimento dos saberes socioemocionais, na unidade escolar em que se desenvolveu o presente trabalho. Atuando conforme a Orientação Pedagógica da Orientação Educacional na identificação das situações- problema (Distrito Federal, 2019), surgiu a indagação: Como trabalhar a campanha Setembro Amarelo na perspectiva da valorização da vida, em um contexto pandêmico, de modo que esse trabalho coadune com as perspectivas histórico-crítica e histórico- cultural? Em resposta, foi desenvolvido o projeto “Valorizando a vida”, que teve como objetivo central promover reflexões sobre a valorização da vida e as questões sociais subjacentes. Os objetivos específicos se delinearam em informar sobre a campanha Setembro Amarelo; refletir a respeito do que é “valorizar a vida”, considerando ações individuais e coletivas; e problematizar as questões sociais relativas ao período da pandemia. Este estudo propõe contribuir para o campo da educação, oferecendo subsídios para a elaboração de projetos que promovam a valorização da vida, com marcadores sociais e políticos. O PROJETO O presente trabalho descreve uma experiência realizada em uma escola classe da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal, na Região Administrativa do Recanto das Emas. O projeto foi desenvolvido pelas orientadoras educacionais da escolaentre agosto e outubro de 2021. Ocorreu em meio ao ensino híbrido, em que as turmas dos estudantes se revezavam semanalmente entre aulas presenciais e remotas pela plataforma digital. A construção do projeto iniciou-se com planejamento realizado pelas orientadoras e apresentado à equipe gestora e à coordenação pedagógica, que prontamente colaboraram e providenciaram uma pauta em coordenação coletiva. A participação do corpo docente nesse momento foi essencial para garantir a adesão e o sucesso das ações, ao contribuírem com sugestões e elaborarem planos de continuidade para dar seguimento às ações. A partir desse ponto, as orientadoras elaboraram os seguintes materiais: 1 - mural informativo para comunidade escolar adulta a respeito da campanha Setembro Amarelo; 2 – material digital informativo para comunidade escolar adulta; 3 – murais para receber produções dos estudantes; 4 – roteiro de conversa para entrada em todas as turmas. O mural informativo e o material digital 75ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional para a comunidade escolar adulta trataram de informações sobre como buscar ajuda e apoio referente às questões emocionais, segundo o site oficial da campanha: setembroamarelo.com. O mural foi disposto em locais de acesso aos pais e responsáveis, de modo que fosse visualizado pelas famílias quando fossem buscar as crianças e, ao mesmo tempo, não entrasse no campo de visão direto dos estudantes, pois o material, tratava de uma abordagem de prevenção ao suicídio, com termos considerados inadequados, naquele contexto, para a abordagem pedagógica escolhida pelas autoras. O material digital foi encaminhado por aplicativo de mensagem diretamente aos pais e responsáveis, pelos respectivos professores. Os murais para receber a produção dos estudantes sobre valorização da vida foram dispostos na entrada da sala da orientação educacional e, posteriormente, em mais dois corredores da escola, além da frente das salas de aula das turmas de 4º e 5º ano que desenvolveram atividades próprias interdisciplinares. A entrada em todas as turmas para conversar com os estudantes foi realizada pelas orientadoras educacionais autoras. O roteiro da conversa foi elaborado considerando os seguintes pontos e a forma de abordá-los: As autoras, ao conversar com os estudantes, consideraram a faixa etária e utilizaram linguagem apropriada para cada ano, bem como encadearam a conversa conforme as interações apresentadas, respeitando seus entendimentos e instrumentalizando-os segundo os conhecimentos expostos (Saviani, 2011). Ponto Campanha Setembro Amarelo Significado de “valorizar” e de “vida” Que ações valorizam a vida? Atividade Apresentar a campanha tratando como uma campanha pela valorização da vida. Perguntar diretamente e deixar que se expressem. Problematizar suas respostas até chegar à introdução de conceitos sobre responsabilidades individuais e coletivas, preservação da vida, coletividade, serviços públicos. Problematizar a respeito das medidas sanitárias de contenção do coronavírus, tais como: vacinação, lavar as mãos, uso do álcool em gel, uso de máscaras, distanciamento social. Problematizar sobre ações/políticas públicas que valorizam a vida; Explicar a realização de uma atividade sob o comando dos professores, em que desenharão ou escreverão sobre “o que é valorizar a vida?”, para colocar nos murais disponibilizados na escola. Perguntar o que é “valorizar” e, posteriormente, o que é “vida". Deixar que se expressem até chegarem próximos do significado das palavras. Apresentar os significados das palavras. Problematizar a partir das respostas: perguntar qual é a vida mais importante para eles, deixar que se expressem, mas fazê-los concluir que a vida mais importante é a deles mesmos e que por isso é tão importante que eles se cuidem em todos os aspectos. Conversar sobre buscar apoio de adultos de confiança sobre questões emocionais, sentimentais, físicas. Colocar a orientação educacional à disposição dos estudantes. Trazer perguntas sobre o que mais tem vida no ambiente que nos cerca. Problematizar se essas vidas estão sendo cuidadas. Quais são as pessoas responsáveis pelos cuidados com os diferentes tipos de vida? Como abordar? As perguntas consideraram que os saberes socioemocionais devem ser trabalhados na escola em conformidade com os saberes escolares, na problematização da realidade social dos estudantes, com vistas a apropriação de conhecimentos que podem dar condições de superação dessa mesma realidade (Martins, 2012; Saviani, 2011; Silva, Fonte: Elaborado pelas autoras. 76 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional 2022). Por essa razão, as conversas com os estudantes enveredaram por diversos assuntos: importância da vacinação; notícias falsas; relevância dos serviços públicos (escolas, hospitais, segurança); importância das políticas públicas de inclusão, como programas de transferência de renda. Considerando a Pedagogia Histórico- Crítica, acredita-se no papel da escola em prover o saber objetivo transposto didaticamente em saber escolar, “para que os alunos não apenas assimilem o saber objetivo enquanto resultado, mas aprendam o processo de sua produção, bem como as tendências de sua transformação” (Saviani, 2011, p.9). À medida que os estudantes se apropriam de sua realidade, têm mais possibilidades de lutar por melhores condições de vida e por mudanças nas políticas públicas, além de compreenderem e expressarem emoções mais autênticas (Silva, 2022). Compreende-se que a instrumentalização (Saviani, 2011) dos estudantes para entender que seus sentimentos e emoções estão relacionados ao seu meio, aos fatores sociais, ambientais, econômicos, é importante para a superação da sociedade capitalista (Saviani, 2011). Examinando a dialética do conceito de exclusão/inclusão social, em última instância, a educação socioemocional deve promover a inclusão para atacar as causas da exclusão do sujeito e/ou grupo excluído (Costa; Ianni, 2018). CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados observáveis alcançados com este trabalho foram positivos. As autoras tiveram retornos por meio de relatos espontâneos de estudantes, professores, gestores, famílias e outros servidores e funcionários. Estes últimos apoiaram a ideia do mural e afirmaram que as informações foram muito bem recebidas, por serem necessárias à sua própria vida. Os gestores perceberam o engajamento dos professores e dos estudantes nas atividades relacionadas. Os professores se envolveram e deram continuidade aos trabalhos, realizando outras atividades que se relacionaram ao tema e avançaram nos objetivos de aprendizagem. Os estudantes demonstraram apropriação do que foi tratado em sala de aula por meio de desenhos e frases. Entre as produções, foram encontrados alguns em que demonstraram aprender a conexão entre o meio ambiente e os seres humanos para valorização da vida; a necessidade dos hábitos de higiene para a saúde própria e coletiva; a relevância da vacinação; a importância de relações saudáveis entre as pessoas; o impacto da escola e outros serviços públicos para a vida. Além disso, algumas turmas produziram palavras de carinho, bilhetes para pessoas que eles gostavam, pequenas frases sobre ações que se traduzem em valorizar a vida, incluindo aquelas que tratavam de políticas públicas. Assim, considerando os objetivos iniciais deste projeto, pode-se considerar que foram alcançados. Ressalta-se que as questões aqui levantadas não se esgotaram. Acredita-se na necessidade da educação socioemocional adotar as perspectivas histórico-crítica e histórico-cultural, para que as relações entre o indivíduo e a sociedade sejam apropriadas de tal modo que os estudantes sejam, de fato, sujeitos críticos e reflexivos, capazes de sentir emoções autenticamente e transformar a realidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: terceiraversão. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/conselho-nacional-de-educacao/base- nacional-comum-curricular-bncc CARDOSO, T.. Grupos antivacina mudam foco para 77ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional covid-19 e trazem sérios problemas à saúde pública. Jornal da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, 31 de março de 2020. Ciências da Saúde. Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=311026 CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DO PARANÁ– CRP PR. Setembro Amarelo: por que precisamos de uma postura crítica e reflexiva para não provocarmos mais sofrimentos? Disponível em: https://crppr.org.br/ e-preciso-falar-sobre-o-setembro-amarelo/. 2022. COSTA, M.I.S., IANNI, A.M.Z. A dialética do conceito de exclusão/inclusão social. In: Individualização, cidadania e inclusão na sociedade contemporânea: uma análise teórica [online]. São Bernardo do Campo, SP: Editora UFABC, 2018, pp. 75–101. ISBN: 978-85-68576-95-3. https://doi.org/10.7476/9788568576953.0004. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional. 2019. Disponível em: https:// www.educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2019/03/ o r i e n t a % C 3 % A 7 % C 3 % A 3 o - p e d a g o g i c a - d a - orienta%C3%A7%C3%A3o-educacional_02mai19.pdf DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde. Nota Técnica n.º 5. 2020. 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Acesso em: 20 set. 2024. 78 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Cristiana Lopes Mourão Pontes1 1- Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 1997. Teatro na escola Palavras-chave: Teatro de fantoches. Atenção. Funções psicológicas superiores. Orientação Educacional. INTRODUÇÃO O desenvolvimento da atenção mostra-se como um aspecto fundamental para o processo de aprendizagem. Ao lado de outras funções como: “memória, consciência, percepção, fala, pensamento, vontade, formação de conceitos e emoção” (Souza e Andrada, 2013), faz parte das chamadas FPS (funções psicológicas superiores). É sabido que, nas escolas, muitas crianças são encaminhadas para especialistas devido às dificuldades no que se refere ao domínio da atenção no processo de aprendizagem. Lains e Rocha (2020) defendem que a escola, embasada pelo viés da Psicologia Histórico Cultural, é capaz de planejar práticas eficazes para promover o desenvolvimento dessa importante função em seus estudantes. Sendo assim, neste relato, descreve-se uma experiência que se utilizou da linguagem do Teatro de Fantoches para mediar temáticas da orientação educacional aos estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental de uma escola pública do Distrito Federal. O objetivo foi gerar maior interação das crianças com os diversos temas da orientação educacional e desenvolver processos atencionais de modo que os estudantes pudessem apreender conhecimentos de forma mais lúdica, participativa e divertida. DESENVOLVIMENTO A experiência do presente relato teve origem em uma paixão de infância da orientadora educacional da escola. Desde criança, seus olhos brilhavam quando ouvia a palavra “Teatro”. Poder assistir às peças era uma grande satisfação. Por acreditar que seria também de muitas crianças, especialmente aquelas com necessidades educacionais especiais, a orientação educacional resolveu implantar o Projeto - Teatro na escola, no ano de 2024. O teatro de fantoches foi incorporado ao contexto da escola por meio de peças que tinham as temáticas da orientação educacional como elemento motivador e eram mediadas de forma mais leve, porém efetiva. Duas personagens, Dona Tetê e Aninha, interagiam com as crianças durante as apresentações. Os textos foram escritos pela própria orientadora educacional, que pesquisou cada assunto, escreveu diálogos e, juntamente com a coordenadora pedagógica da escola, deram vida às personagens. Os personagens interagiam com as crianças durante as encenações. Após cada o trabalho da Orientação Educacional, em parceria com os professores, promove transformações na cultura, no clima organizacional da escola e na aprendizagem dos estudantes. 79ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional apresentação, os estudantes, em especial aqueles com alguma necessidade especial, costumavam se divertir brincando com os bonecos, elaborando novos diálogos para aqueles amiguinhos. Foi observado, inclusive, que crianças autistas que antes ficavam mais afastadas de atividades no pátio, começaram a ganhar mais confiança para participar juntamente com as outras crianças no mesmo espaço. É importante salientar que os temas trabalhados pelas personagens Dona Tetê e Aninha não ficavam apenas no teatro de fantoches, mas também eram desenvolvidos em sala de aula, uma vez que tais temas foram incorporados ao planejamento dos professores, contribuindo de forma efetiva nas relações e interações ocorridas na escola. Demonstrando que o trabalho da orientação educacional, em parceria com os professores, promove transformações na cultura, no clima organizacional da escola e na aprendizagem dos estudantes. Acredita-se que o teatro de fantoches produziu mudanças significativas nas crianças da escola deste relato pois como nos diz Souza e Andrada, 2013, apud Vigotski, 1927/1995: “O aparecimento das Funções Psicológicas Superiores (FPS) está subordinado às incitações do ambiente que permeiam as experiências do sujeito desde seu nascimento. Assim, as funções psicológicas passam de natural a cultural quando mediadas. O sujeito, pela mediação do outro, converte as relações sociais em funções psicológicas, que passam a funcionar como sendo próprias de sua personalidade.” Nesta experiência, ora relatada, o teatro de fantoches apresentou-se como o signo que possibilitou aos estudantes acessarem os elementos da cultura, internalizarem e reconstruírem os valores mediados. Souza e Andrada, 2013, apud Vigotski, 1927/1995,da deficiência ou etnia, abrangendo gênero, status socioeconômico, habilidades e interesses (Rosa, 2017). Práticas pedagógicas inclusivas honram a diversidade e respondem às experiências dos estudantes ao projetar currículos e ambientes de aprendizagem (Lazzaretti e Freitas, 2016). Nesta perspectiva, mais uma vez, o Orientador Educacional apresenta função relevante na medida em que possui dentre suas atribuições: “Articular ações junto à Equipe Especializada de Apoio à Aprendizagem - EEAA e à Sala de Recursos na promoção de uma educação inclusiva a fim de contribuir para a superação de dificuldades de aprendizagem” (Distrito Federal, 2019). Além de atuar também na garantia de direitos de todos os estudantes. IGUALDADE EDUCACIONAL A igualdade educacional, para grupos marginalizados, deve transcender a visão da patologia individual e adotar uma abordagem sistêmica, integrando a reforma escolar com a luta contra injustiças e desvantagens. Embora essa abordagem possa ser desafiadora a curto prazo, é urgente que as escolas atuem como mediadoras na redução das desigualdades sociais por meio de políticas educacionais adequadas (Borges e Goi, 2017). Dessa forma, a educação inclusiva exige novas responsabilidades e uma redistribuição de recursos para grupos em desvantagem social e educacional, com o objetivo de corrigir essas desigualdades (Rodrigues, 2016). É necessário, então, promover mudanças culturais e simbólicas na educação para desconstruir pedagogias que perpetuam desigualdades de poder e marginalizam certos grupos (Araújo et al., 2017). Abordagens focadas em déficits obscurecem as dinâmicas contextuais que afetam os estudantes e limitam o potencial compensatório das escolas (Conceição, 2011). A inclusão educacional, defendida como um direito internacional, visa educar todas as pessoas em salas de aula convencionais, desafiando a reprodução de desigualdades sociais (Lima, 2018). Ela está profundamente A inclusão desafia educadores a reavaliar suas crenças, revisar métodos e reinventar seus papéis, adaptando o ambiente educacional para atender às necessidades de todos. 9ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional ligada aos princípios de igualdade e justiça social, focando em direitos humanos e equidade, ainda que a noção de justiça social seja contestada e ambígua em sua aplicação (Albuquerque, 2013). A inclusão não é um fim em si, mas um meio para alcançar uma sociedade mais justa e inclusiva. Porém, há visões divergentes sobre o que constitui justiça e igualdade para estudantes com deficiência o que, às vezes, leva à adoção de práticas segregadas sob o rótulo de “inclusão” (Lima, 2018). Um discurso de justiça social em educação inclusiva exige que as escolas reavaliem como valorizam ou desvalorizam identidades de estudantes (Rodrigues, 2016). Essas abordagens questionam pressupostos normativos e apontam para a necessidade de explorar como as instituições educacionais perpetuam desigualdades sociais e educacionais, mudando o foco da patologia individual para uma justiça social mais ampla (Almeida, 2012; Albres e Neves, 2014). CONSIDERAÇÕES FINAIS A prática inclusiva está sendo implementada em salas de aula em todo o mundo. No entanto, educadores frequentemente não são formados para inclusão, enfrentando dificuldades em adaptar recomendações gerais à prática. Muitos relatam falta de preparação para ensinar grupos diversos em ambientes inclusivos, já que essa prática se desenvolve continuamente em resposta a novos estudantes, turmas e dinâmicas. Este contexto perpetua a cultura do fracasso escolar. É por isso que se faz necessário o esforço de todos os membros da comunidade escolar para caminhar em prol de uma escola diversa e socialmente justa. Nesse sentido, Brandão Et Al (2005) ressaltam a relevância do orientador educacional, afirmando que este “deve cumprir seu papel de ajudar na elaboração de projetos e na concretização de ações que tornem as escolas espaços abertos para todos, onde as diferenças são valorizadas através de projetos inclusivos de educação” (p. 3). Ensinar para a equidade, presumindo a diversidade, e aproveitando os recursos dos estudantes, é essencial no caminho para o sucesso escolar. A inclusão desafia educadores a reavaliar suas crenças, revisar métodos e reinventar seus papéis, adaptando o ambiente educacional para atender às necessidades de todos. Incluir, então, exige que todos saiam de suas zonas de conforto, arrisquem-se a explorar novas formas de educar e busquem colaboração com colegas para superar desafios e celebrar sucessos. O esforço pela inclusão resulta em salas de aula mais eficazes, capazes de engajar um amplo espectro de estudantes de forma equitativa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBRES. N. A. NEVES, S. L. G. Libras em estudo: ensino e aprendizagem/ (organizadora). –São Paulo: FENEIS, 2014. – (Série Pesquisas). Disponível em: https://libras.ufsc.br/wp-content/ uploads/2019/09/2014-ALBRES-eNEVES_LIBRAS_ Form_profissionais.pdf. Acesso em 09 mar. 2021. ALBUQUERQUE, R. N. Multiculturalismo e o diálogo na Educação: a dificuldade de conviver com o outro. In Construir Notícias. Disponível em https://www. construirnoticias.com.br/multiculturalismo-e-o-dialogo- na-educacao-a-dificuldade-de-conviver-com-o-outro/ Acesso em 09 de março 2021. ALMEIDA, M. A.. O caminhar da deficiência intelectual e classificação pelo sistema de suporte. In: ALMEIDA, M. A. (Org.). Deficiência intelectual: realidade e ação. Secretaria da Educação. Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado – CAPE. São Paulo: SE, 2012. p. 51- 63. Disponível em: . Acesso: 19 ago. 2021. ARAÚJO, S. P.; VIEIRA, V. D.; KLEMM, S. 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Estabelece preceitos para o aperfeiçoamento da política educacional brasileira dos sistemas públicos de ensino, para a permanência e o sucesso escolar de alunos com distúrbios, transtornos e/ou dificuldades de aprendizagem, e dá outras providências. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/ fichadetramitacao?idProposicao=2084614 CONCEIÇÃO. D, F. Práticas Pedagógicas aplicadas aos alunos do CAS, durante o processo de ensino e aprendizagem. 2011. Disponível em: . Acesso: 19 ago. 2021. COPETTI, A. M. e BISOL, C. A. O Capacitismo como Barreira para a Inclusão Escolar. Anais de Colóquios de Políticas e Gestão da Educação. UFSCAR: 2023. CRESPO, Alexandra et al. Para uma educação inclusiva: Manual de apoio à prática. UCP: 2018. DISTRITO FEDERAL, Regimento da rede pública de ensino do Distrito Federal. Brasília, 2019. FRANCO, R. M. S; GOMES, C. Educação inclusiva para além da educação especial: uma revisão parcial das produções nacionais. 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Esta linguagem tem um papel importante no desenvolvimento da criança e deve ser trabalhado para além das aulas de Arte (Oliveira e Stoltz, 2010). CONSIDERAÇÕES FINAIS As crianças sinalizaram o interesse em ter mais momentos com as personagens, Dona Tetê e Aninha, inquirindo quando seriam as novas apresentações do teatro com as mesmas. Percebeu-se, com base nas observações tanto da orientadora educacional quanto dos demais profissionais da escola, que as crianças verdadeiramente interiorizaram os conteúdos mediados no teatro de fantoches. Os ensinamentos das personagens chamaram a atenção dos estudantes e permitiram abrir caminhos para diferentes aprendizagens e o desenvolvimento não só da atenção mas de outra funções psicológicas superiores (FPS). Retomando o trabalho de Laíns e Rocha (2020), pode-se afirmar que a escola é plenamente capaz de propor estratégias pedagógicas de intervenção para as dificuldades apresentadas pelos seus estudantes sem que, para isso, tenha que recorrer a encaminhamentos para profissionais de saúde sempre que uma dificuldade surgir. 80 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Ao agir assim, a escola desvia-se dos perfis medicalizantes que devotam ao campo da saúde a solução das dificuldades de escolarização. Essa postura crítica de trabalho da educação coaduna com a ideia da construção de uma escola emancipadora assim como ensina Saviani (2011). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS JAPIASSU, R. O. V. Jogos teatrais na escola pública. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 24, n. 2, jul. 1998. MACHADO, C. J. Fazer teatro na escola... por que não? Estudo sobre a produção teatral no espaço escolar. Dissertação (Mestrado em Artes) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas. 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INTRODUÇÃO O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação social e interação social em múltiplos contextos, bem como por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme definido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (American Psychiatric Association, 2013). De acordo com Silva (2012), o estudante diagnosticado com TEA sente, percebe e interage com o mundo de maneira distinta da nossa. Por isso, é fundamental que pais, professores, profissionais e a sociedade mergulhem em seu universo particular, buscando compreender o mundo sob sua perspectiva. Ao agir com empatia e abertura, os resultados podem ser surpreendentes e transformadores. Assim, para a autora, seu papel é colaborar para o conforto e inclusão dos estudantes. Para que a inclusão seja efetiva, é necessário organização, planejamento e ações conjuntas com diferentes setores. Nesse contexto, a Orientação Educacional é essencial para o auxílio na reflexão e na sensibilização da comunidade escolar para a prática de educação inclusiva (Distrito Federal, 2019), no qual cada estudante se sinta valorizado, promovendo não apenas o aprendizado, mas também o respeito à diversidade. A inclusão escolar de estudantes com deficiência, incluindo aqueles com TEA, é um direito assegurado pela legislação brasileira, conforme preconiza a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI, Lei nº 13.146/2015). Embora a LBI garanta o acesso e a permanência desses estudantes em escolas regulares, a implementação da inclusão exige mudanças significativas no ambiente escolar, muito além de físicas, mas também pedagógicas, relacionais e político- pedagógicas (Mantoan, 2015). Essa tarefa, embora complexa, é fundamental para garantir o pleno desenvolvimento dessas pessoas. Compreendendo a importância do acolhimento e dos cuidados necessários para a pessoa com autismo, é indispensável criar ações motivadoras, que façam com que o estudante se sinta confortável no ambiente escolar. O objetivo é que ele tenha vontade 82 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional de participar das atividades, sinta prazer em estar com seus colegas e construa vínculos com aqueles ao seu redor. Isto porque “qualquer criança, com ou sem deficiência, é, antes de tudo, uma criança; e seu caminho de desenvolvimento envolve oportunidades de uma vida social (Vygodskaya, 2022 apud Paoli, Machado, 2022)”. A dificuldade de socialização de uma turma da 2ª série em acolher um estudante diagnosticado com TEA, evidenciou a necessidade de desenvolver ações voltadas à inclusão. Silva (2012) relata que o contato social é sempre prejudicado em pessoas com diagnóstico de TEA. Na perspectiva histórico-cultural, que enfatiza a interação social como necessária ao conhecimento, considera afeto e intelecto como unidade no desenvo lv imen to , este relato propõe que a socialização do aluno com TEA passa, necessar iamente , pela construção de vínculos afetivos e pela promoção de um ambiente escolar acolhedor (Paoli; Machado, 2022). As habilidades socioemocionais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) são competências essenciais para auxiliar os estudantes a desenvolverem-se de maneira integral, promovendo a habilidade de lidar com suas próprias emoções e compreender as emoções alheias. Esse enfoque visa uma educação que ultrapassa o domínio cognitivo, alcançando também o campo emocional, de modo que os estudantes aprendam a gerenciar melhor suas emoções e comportamentos e promovam uma convivência mais harmônica e empática com seus colegas. Segundo a Abed (2016): “Todos os seres humanos são dotados de todas as inteligências e de todos os estilos cognitivo- afetivos, em maior ou menor intensidade – e todos podem desenvolver todas as suas habilidades e capacidades” (p.75). Isso reforça a ideia de que essas habilidades não são inatas e fixas; pelo contrário, elas podem ser cultivadas e aprimoradas ao longo do tempo por meio de práticas pedagógicas adequadas. Nesse contexto, quando as habilidades socioemocionais são abordadas de forma estruturada e aplicada, elas tendem a proporcionar aos estudantes oportunidades únicas para fortalecer sua autonomia, desenvolver relacionamentos sociais positivos e participar mais efetivamente. Estudos indicam que o desenvolvimento dessas habilidades está diretamente ligado ao preparo dos estudantes parauma convivência social saudável e para a construção de uma vida significativa (Durlaketal, 2011). Portanto, o papel da escola vai muito além da mera transmissão de conhecimento acadêmico. No mundo contemporâneo, caracterizado pela rapidez das transformações sociais, econômicas e tecnológicas, é urgente e essencial que as instituições de ensino promovam uma formação integral. Dessa maneira, aspectos como motivação, perseverança, capacidade de trabalhar em equipe e resiliência diante de adversidades devem ser estimulados desde cedo, pois constituem habilidades socioemocionais indispensáveis não apenas para o presente, mas também para o futuro de todos os estudantes (Abed, 2016; Casel, 2013). Estas competências são fundamentais para garantir Com esse projeto, espera-se o aumento da conscientização, desenvolvimento da empatia, fortalecimento das habilidades socioemocionais e criação de um ambiente acolhedor. 83ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional que as novas gerações estejam preparadas para lidar com os desafios de uma sociedade em constante mudança. DESENVOLVIMENTO O aumento expressivo de casos de inclusão de estudantes com TEA e a presença de ansiedade e comportamentos inadequados em ambiente escolar mostram a importância de trabalhar as habilidades socioemocionais de forma preventiva. Dessa forma, é urgente promover atividades que desenvolvam a psicoeducação e espaços de escuta e acolhimento para apoiar os estudantes que passam por dificuldades ou sofrimento psíquico. O presente projeto, denominado Fortalecimento das habilidades socioemocionais, foi desenvolvido com uma turma do 2º ano do Ensino Fundamental de um Centro Educacional localizado no Guará II, região administrativa do Distrito Federal. Iniciado em agosto de 2024, o projeto envolve cerca de 25 estudantes e continua sendo realizado durante as aulas destinadas a essa proposta. Por meio de rodas de conversa, o projeto busca abordar temas relacionados à inclusão de um colega autista que ingressou na turma no segundo bimestre. A escolha do tema justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão sobre a inclusão e os direitos desse colega, trabalhando as habilidades socioemocionais de forma lúdica e respeitosa. O projeto também permite aos estudantes aprender e ensinar mutuamente, enquanto constroem diferentes formas de convivência. Dessa forma, se favorece a superação da mera integração, que segundo Mantoan (2015): é inserir um aluno, ou um grupo de alunos, que já foi anteriormente excluído, e o mote da inclusão, ao contrário, é o de não deixar ninguém no exterior do ensino regular, desde o começo da vida escolar. As escolas inclusivas propõem um modo de organização do sistema educacional que considera as necessidades de todos os alunos e que é estruturado em função dessas necessidades. (Mantoan, p. 16, 2015) Diante desse problema, o objetivo do trabalho foi promover a socialização e a inclusão de um estudante com TEA. Para tanto, objetivos específicos do projeto incluíam: compreender e aceitar as diferenças entre as pessoas; promover o autocuidado e a empatia; enriquecer a psicoeducação; desenvolver ações que estimulem a convivência respeitosa; favorecer a construção de relações mais equitativas e significativas. O desenvolvimento do projeto contou com rodas de conversa, pois a partir do diálogo e da interação dos sujeitos, é que se estabelecem as mais variadas construções e compreensões das ideias (Silva, Adriana, 2012). Para orientar essas rodas de conversa, foram estabelecidos alguns combinados. Estes foram expostos nas paredes da sala para garantir um ambiente seguro e acolhedor: “O que você pode aprender com as outras pessoas”; “Exercite a empatia”; “Sinta-se livre para não falar sobre assuntos que te deixem desconfortável”; “Mantenha sigilo sobre o que for dito no grupo”; “Não existe certo ou errado! Seja você”; “Cada um fala sobre si”; e “Enquanto um fala, os demais prestam atenção”. Esses combinados reforçam o respeito mútuo e a escuta ativa. Contamos com o apoio do curso Caixa de Ferramentas e utilizamos materiais didáticos, como os cartões fornecidos pela ASEC (Associação de Saúde Emocional da Criança). Esses cartões foram selecionados para abordar temas relacionados ao autocuidado, diversidade, empatia, autoestima, saúde mental, preconceito, e comunicação não violenta, entre outros, com especial atenção às questões da 84 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional inclusão e a informações referentes ao TEA. Eles foram impressos e plastificados para facilitar o manuseio. Durante cada roda de conversa, realizamos o sorteio de um cartão com o tema do dia, seguido de um roteiro que explora: 1. Desconexão: Entender a relação inicial do grupo com o tema. 2. Conexão: Facilitar a introspecção, para que os participantes explorem seus sentimentos em relação ao tema. Uma dinâmica sugerida é a “objetos significativos”, que convida os estudantes a refletirem sobre suas emoções. 3. Abastecimento: Valorizar estratégias de enfrentamento e motivar os estudantes a refletirem sobre como lidar com os sentimentos. 4. Integração: Estimular os estudantes a pensar em novas estratégias para lidar com situações emocionais, como buscar exemplos em filmes ou séries. 5. Reflexão: Promover o autoconhecimento através de dinâmicas como a do espelho, que leva os estudantes a refletirem sobre suas ações e emoções. A condução das rodas segue um formato colaborativo e voluntário: os estudantes têm a liberdade de compartilhar ou apenas ouvir. Assim, configurou-se um espaço seguro para que eles pudessem compartilhar suas dúvidas, medos e expectativas. Ao final de cada encontro, eles podem escrever ou desenhar sobre seus sentimentos em folhas que são devolvidas e posteriormente expostas ao final do projeto. O projeto é desenvolvido com encontros semanais, observações contínuas e registros das atividades. Espera-se que, ao final, os estudantes tenham ampliado sua compreensão sobre o autismo e se tornem multiplicadores do conhecimento e práticas inclusivas, contribuindo para um ambiente escolar mais acolhedor e respeitoso. Com esse projeto, espera-se o aumento da conscientização, desenvolvimento da empatia, fortalecimento das habilidades socioemocionais e criação de um ambiente acolhedor. O impacto vai além da inclusão imediata do estudante com TEA. Ele lança as bases para uma cultura escolar mais inclusiva e empática. O trabalho intentou, como preconiza a pedagogia Histórico-Crítica, partir da realidade social desses estudantes, instrumentalizando- os para que sejam capazes de transformações significativas, promovendo uma nova realidade (Saviani, 2011) em que sejam superados estereótipos e preconceitos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da troca de experiências e da reflexão sobre suas próprias vivências, os alunos desenvolveram habilidades de comunicação, empatia e respeito às diferenças, contribuindo para a construção de um ambiente escolar mais inclusivo. Por fim, este projeto ressalta a importância de abordagens educacionais que vão além do currículo tradicional, incorporando o desenvolvimento socioemocional como parte integral da formação dos estudantes. Ao fazer isso, não apenas foi possível a inclusão de estudantes com necessidades específicas, mas todos foram preparados para os desafios de um mundo cada vez mais diverso e interconectado. Ao final, considerando os registros realizados pela autora, os estudantes demonstraram ter ampliado sua compreensão sobre o autismo, suas comorbidades, se tornaram multiplicadores do conhecimento e práticas inclusivas, contribuindo para um ambiente escolar mais acolhedor e respeitoso. 85ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABED, Anita Lilian Zuppo. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar dealunos da educação básica. Constr. psicopedag., São Paulo , v. 24, n. 25, p. 8-27, 2016 . Disponível em. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. (2013). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5). Porto Alegre: Artmed. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2015/lei/l13146.htm BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017. Disponível em:. Acesso em 15 de abril de 2021. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional. 2019. Disponível em:https:// www.educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2019/03/ o r i e n t a % C 3 % A 7 % C 3 % A 3 o - p e d a g o g i c a - d a - orienta%C3%A7%C3%A3o-educacional_02mai19.pdf Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL). (2013). Effective Social and Emotional Learning Programs. MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Editora Summus, 2015. Coleção Novas Arquiteturas Pedagógicas. PAOLI, Joana de.; MACHADO, Patrícia Fernandes Lootens. Autismos em uma perspectiva histórico- cultural. Revista GESTO-Debate, v. 22, n. 01-31, 23 nov. 2022. SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. Campinas: Autores Associados, 2011. SILVA, Adriana. A roda de conversa e sua importância na sala de aula. 2012. Monografia – Universidade Estadual Paulista, Rio Claro – São Paulo, 2012. SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mundo singular: histórias de crianças com autismo e o que elas nos ensinam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. 86 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Juliana Tavares da Silva Santos1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2008. Vivenciando aprendizagens na educação infantil Palavras-chave: Aprendizagem. Desenvolvimento. Brincadeiras. Experiências. Habilidades. INTRODUÇÃO “Desde o início da vida, a criança deve ser considerada em sua individualidade, como sujeito ativo do seu desenvolvimento, capaz de se expressar, interagir e brincar tanto por iniciativa própria como em resposta aos estímulos externos” (Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância, 2014). Por intermédio do brincar, já desde os primeiros meses de vida, a criança aprende a explorar sensorialmente diferentes objetos, bem como passa a reagir a estes estímulos propostos pelas pessoas com quem se relaciona, seja por meio do brinquedo, das brincadeiras, dos jogos e dos exercícios psicomotores que beneficiam o seu potencial, contribuindo para o desenvolvimento de suas habilidades nos aspectos físico, emocional e intelectual. Quando recebemos as crianças nas unidades escolares, no início do ano letivo, percebemos certa inquietação e preocupação em seus responsáveis, em especial àqueles com filhos atípicos, no que tange às questões voltadas ao desenvolvimento e às aprendizagens. Partindo desta realidade, sentimos a necessidade de explicar para nossa comunidade sobre a riqueza do desenvolvimento infantil dentro do ambiente escolar. Assim, por meio do trabalho desenvolvido em um Centro de Educação Infantil em Sobradinho, originou-se o “Projeto Vivenciando Aprendizagens” em colaboração com os demais educadores daquela unidade escolar. A maior preocupação na realização do projeto foi considerar que todas as crianças, independente de suas singularidades, têm o direito à socialização, integração e convivência com seus pares (Brites, 2020). JUSTIFICATIVA O trabalho realizado pelo Centro de Educação Infantil, em conjunto com as professoras e os demais servidores, visou trazer os pais ou responsáveis para dentro da escola para vivenciarem e entenderem como acontecia as aprendizagens, promovendo a inclusão e valorização da diversidade, garantindo que cada criança se sentisse acolhida e capaz de alcançar seu potencial. Tal proposta dialoga diretamente com o Caderno ‘O brincar como direito dos bebês e das crianças’: Nesta perspectiva, vale destacar que as famílias também são protagonistas e se constituem como parceiras fundamentais na escola das infâncias para promover e impulsionar as potencialidades e desenvolvimento das crianças. Sendo assim, cabe à instituição de Educação Infantil incentivar e orientar as famílias quanto às possibilidades de vivência do brincar dentro e fora de casa, tendo em vista que é por 87ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Quando os educadores usam a brincadeira como estratégia de ensino, incentivam as crianças a aprenderem através do brincar, tornando essas experiências significativas. meio da brincadeira que as crianças, em sua singularidade, têm a oportunidade de se expressar, e os adultos têm a oportunidade de exercitar a escuta atenta e o olhar sensível para as percepções das crianças em relação à vida, aos seus desejos e necessidades (Distrito Federal, 2021, p.44-45). Outro objetivo é promover, através das brincadeiras pensadas e planejadas com intencionalidade, de acordo com os objetivos a serem alcançados, o desenvolvimento das habilidades psicomotoras, sociais, físicas, afetivas, cognitivas e emocionais. Ao brincar as crianças puderam expor seus sentimentos, aprenderam, construíram, exploraram, pensaram, sentiram, reinventaram e se movimentaram, no meio em que convivem diariamente. Assim, percebe-se como a capacidade de atividades de “brincar” auxiliam na formação e na socialização, transformando a realidade das crianças (Mukhina, 1996). APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL Primeiro, devemos entender como as crianças na educação infantil aprendem e a contribuição da brincadeira neste processo. No decorrer do trabalho, foi explicitado aos responsáveis que é por meio do brincar que as crianças aprendem sobre o mundo, usando sua imaginação e desenvolvendo a criatividade. Na educação infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes o educar e o cuidar, bem como o brincar e o interagir. Portanto, fica claro que essa etapa da Educação Básica não se organiza com base em conteúdos, componentes curriculares ou áreas do conhecimento. Suas aprendizagens devem se apoiar nos direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e se conhecer. Dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento, emergem os cinco campos de experiência, a saber: o eu, o outro e o nós; o corpo, os gestos e movimentos; os traços, os sons, as cores e as formas; a escuta, a fala, o pensamento e a imaginação; os espaços, os tempos, as quantidades, as relações e as transformações (Distrito Federal, 2018, p.59- 60). Perpassando por cada campo de experiências, as crianças poderão experimentar situações cheias de significados e aprendizagens, garantindo que deixem a educação infantil com um sólido desenvolvimento das habilidades vivenciadas na primeira infância e que serão fundamentais para a alfabetização. Brincar é muito importante para as crianças, principalmente para o seu processo de aprendizagem. Pesquisadores e educadores comprovam que o brincar ajuda a enriquecer o aprendizado e desenvolver habilidades importantes, tais como investigação, expressão, experimentação e trabalho em equipe (Brites, 2020). Assim, constatamos, em consonância com o conceito do psicólogo norte-americano Gregory Kimble (1917-2006), que a aprendizagem é qualquer mudança relativamente permanente no comportamento que ocorre como resultado da experiência (Brites, 2020). Ou seja, quanto mais interagimos e nos adaptamos ao meio, mais aprendemos e vice-versa. Outro fato que comprova a importânciada mediação durante o brincar foi definido por Vygotsky (1896-1934), um dos pioneiros nos estudos da influência das relações sociais no 88 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional aprendizado. Segundo Brites (2023, p.108): “o mediador é o parceiro da criança ao longo da trajetória, é quem motiva a construir a si mesma e o próprio aprendizado de maneira criativa, questionadora e ativa”. Quando os educadores usam a brincadeira como estratégia de ensino, incentivam as crianças a aprenderem através do brincar, tornando essas experiências significativas. No lugar de aprendizes passivos, no brincar, elas experimentam e assumem papéis, interagem com os colegas e professores, podendo criar regras e aprender a respeitá-las. EXECUÇÃO DO PROJETO Seguindo o calendário proposto pelo projeto, na data específica, no pátio da escola, recebemos as famílias e explicamos sobre as atividades que seriam realizadas em conjunto com os pais/responsáveis e seus filhos. Iniciamos explicando a importância da educação infantil nesta fase inicial do processo de aprendizagem, dando ênfase nas habilidades preditoras da alfabetização, que são desenvolvidas nesta etapa. Ressaltamos que, através da estimulação destas habilidades, é possível oferecer as bases que cada criança necessita para desenvolver a alfabetização, pois permitirão que cheguem preparadas no primeiro ano do ensino fundamental, momento em que desenvolvem habilidades ainda mais complexas. Em seguida, separamos as famílias de acordo com as turmas dos filhos e explicamos que, dentro de cada turma, seriam desenvolvidas atividades conduzidas pelas professoras. Em cada turma, elas conduziram duas atividades práticas voltadas ao desenvolvimento de várias habilidades como: linguagem oral, vocabulário, discriminação fonológica, consciência fonológica e funções executivas. Todas estas atividades ocorreram por meio de brincadeiras, envolvendo materiais diversos como: bolas, papéis, palitos, bolinhas de lã, colheres, figuras, baldes, músicas etc. Fizemos o rodízio das turmas até que todos os participantes passassem por todas as atividades elaboradas para cada sala. Cabe ressaltar que, na realização de cada atividade, quanto mais apoio concreto, estratégias visuais e recursos multissensoriais fossem utilizados, mais fácil seria o processo, para as crianças típicas e atípicas, sem distinção. Ao final da realização das atividades, todos voltaram ao pátio da escola, onde foram cantadas algumas músicas, utilizando materiais não estruturados (recursos de fácil acesso que podemos disponibilizar às crianças para que elas possam explorar, brincar, imaginar e criar livremente, ampliando as possibilidades de descoberta e ação sobre o objeto ao dar-lhe um novo significado). Neste momento, também foram estimulados os movimentos corporais, o ritmo, a atenção, a percepção auditiva, a sequência etc. Todos cantaram e se divertiram juntos (pais e filhos). Assim concluiu-se o dia de vivência e aprendizados na educação infantil. Esta atividade é realizada uma vez a cada semestre, modificando o grau de dificuldade das tarefas desenvolvidas. A avaliação das atividades ocorre de forma processual, contínua e formativa, de acordo com as expectativas e os objetivos definidos para as crianças, respeitando as diferenças individuais e o ritmo de aprendizagem de cada uma. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a realização deste projeto, foi possível explorar e levar ao conhecimento das famílias, as complexidades que fazem parte do processo de aprendizagem, que demandam construção de bases sólidas, representadas pelas habilidades desenvolvidas nesta etapa da 89ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional educação infantil, minimizando a ansiedade e as preocupações relatadas pelos responsáveis no início do ano letivo. Ressaltamos também que é fundamental o acompanhamento das famílias nesta etapa, assegurando às crianças segurança e confiança na realização das atividades propostas, contribuindo de maneira significativa para o desenvolvimento eficaz das habilidades e atitudes, sendo possível a participação de todos os estudantes. Sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer quando se fala em inclusão em nosso país. Precisamos reforçar o trabalho de sensibilização e reflexão com nossos pares sobre a importância de se viver em uma sociedade com culturas diferenciadas, na qual se deve prevalecer o respeito e acesso às mesmas oportunidades para todos, independente das especificidades de cada pessoa. Tal como é apresentado na obra Orientação Pedagógica – Educação Especial: “Cabe-nos também, agir no sentido de promover a inclusão e prevenir a exclusão, bem como planejar um currículo acessível a todas as crianças, de modo a promover uma efetiva aprendizagem” (Distrito Federal, 2010, p.61). Ao promover a inclusão e a diversidade na escola, é possível reconhecer e valorizar as particularidades individuais das crianças, realizando ações como: acolhimento e escuta; formação continuada; elaboração de estratégias para sanar as dificuldades apresentadas; promoção de palestras ou rodas de conversas para conscientização de toda comunidade escolar e proporcionar espaços de convivência na comunidade. Essas ações são apenas o começo no percurso de promover ambientes em que sejam acolhedores de todas as diversidades. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRITES, L. Alfabetização: por onde começar: um programa neurocientífico eficiente para ensinar a ler de verdade. São Paulo: Editora Gente, 2023. _________. Brincar é fundamental: como entender o neurodesenvolvimento e resgatar a importância do brincar durante a primeira infância. São Paulo: Editora Gente, 2020. DISTRITO FEDERAL, S.E.E. Currículo em Movimento da Educação Básica: Educação Infantil – Secretaria de Estado de Educação. 2ª edição, Brasília, 2018. ______________. Caderno: O brincar como direito dos bebês e das crianças /SEEDF- Brasília, abril de 2021. ______________. Orientação Pedagógica – Educação Especial. Brasília: GDF/SEDF, Brasília, 2010. KIMBLE, G.A. Hilgard and Marquis’ Conditioning and Learning. 2.ed. Nova York: Appleton-Century-Crofts, 1961. Bibliotecária: Márcia Piva Radtke. CRB 10/1557 Revista da Orientação Educacional [Recurso Eletrônico] / Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal; Gerência de Educação Educacional – N.2 (2024) - Instituto Educacional Essência do Saber, 2024-. Bienal – 2024 - 1.Orientação Educacional. 2.Inclusão. 3.Educação Inclusiva. 4.Periódico. I.Instituto Educacional Essência do Saber. CDU37(051) 91ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Revista da Orientação Educacional @goe.seedf goe.subeb@se.df.gov.br Gerência de Orientação Educacional Apoio RealizaçãoA. S. Família e escola: o processo de inclusão escolar de crianças com deficiências. Caderno Intersaberes, v. 5, n. 6, p. 1-13, jan./dez., 2016. LIMA, F. A. A literatura infantil afro-brasileira na construção da identidade étnico racial/ Fernanda Alencar Lima, Maria Celeste Conceição Gama- Recife 2018 – 70 f. UFRPE. RODRIGUES, I. E.. Educação Inclusiva: Um desafio para o século XXI. Irene Rodrigues (Org.). Jundiaí: Paco Editorial, 2016. ROSA, K. B.; PAPI, S. O. G. Os professores e os desafios da inclusão de alunos com deficiência no ensino comum. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO – EDUCERE, XIII, 2017, Curitiba/PR. Anais... Curitiba/PR: PUC/PR, 2017, p. 13831- 13846. SANTANA, Â. M. V.. Educação inclusiva: uma análise sobre o processo de inclusão do aluno surdo nas escolas públicas de Tocantinópolis. 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Dentre seus objetivos, está o de acompanhar os discentes em suas necessidades pedagógicas e emocionais dentro do espaço escolar, além de atuar na garantia de direitos, na relação família e escola, na aplicação do Projeto Político Pedagógico. Assim, a orientação educacional faz parte da educação, pois busca contribuir e orientar o desenvolvimento integral dos estudantes (Luck, 2014). O espaço escolar deve evitar os erros do passado, no qual as pessoas com deficiência eram excluídas da vida social e segregadas em locais que não favoreciam o seu desenvolvimento. A escola é um local que deve promover a inclusão e auxiliar na construção social e emocional do indivíduo, além de ser obrigatório a toda população: “o direito à educação é um direito humano fundamental que não deve ser subtraído de ninguém, ainda que tenha significativas limitações intelectuais” A atuação do orientador educacional nas aprendizagens de estudantes com deficiência intelectual Palavras-chave: Orientação Educacional. Estudantes. Deficiência Intelectual. Aprendizagem. (Fávero, 2004, p. 52). Ao longo dos anos, muitos estudos e muitas pesquisas foram realizadas, direcionando cada vez mais para a inclusão. Dessa forma, leis foram surgindo ao redor do mundo para garantir a integração de estudantes com deficiência na educação e, preferencialmente, nas escolas regulares, tais como: Declaração de Salamanca, Constituição Federal de 1988, Declaração Universal dos Direitos Humanos, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Diretrizes Nacionais para Educação de Alunos que Apresentem Necessidades Educacionais Especiais, Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência, entre tantas outras. Assim, na atualidade não há mais espaço para a exclusão. A educação regular é um fator fundamental na transformação das crianças e dos adolescentes com e sem deficiência. Porém, é importante lembrar que a inclusão não é só colocar crianças com deficiências sem suporte em classes regulares, pois é preciso repensar estratégias para facilitar a inclusão e a integração. ... a escola tem uma ligação com as famílias, viabilizando sempre uma comunicação efetiva, respeitando as crenças e os valores de cada uma, obtendo o bem-estar, o desenvolvimento e a formação integral do estudante, respeitando as suas diferenças. 12 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional DESENVOLVIMENTO A educação regular, ministrada na escola, é um processo importante para formação de todas as pessoas. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (2018), a escolarização tem como um de seus objetivos principais auxiliar os estudantes para que eles possam aprender e saibam como e onde buscar informações necessárias. O orientador educacional pode contribuir com ação educacional na formação dos estudantes, mediante atendimentos individuais e coletivos, observando as suas dificuldades e trabalhando as suas potencialidades, sensibilizando e ampliando o repertório de possibilidades junto às famílias e aos demais atores da comunidade escolar. Apesar de muito se falar em inclusão, pelo que é possível observar, ainda hoje, são encontradas muitas dificuldades para que pessoas com deficiência sejam aceitas e incluídas de forma adequada. Por isso, deve haver um trabalho com toda equipe escolar para criar a independência desses estudantes e reconhecer quais são os avanços que eles apresentam ao longo do processo de escolarização. A verdadeira aprendizagem proporciona ao estudante generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar a sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu próprio saber (Cagliari, 1998, p. 56). Aprender ou ensinar não são tarefas exclusivas da escola, isto pode ser realizado em situações diárias, visto acompanharem o ritmo da sociedade que se encontra em constante evolução tecnológica. Estas reflexões devem ser pautadas nos estudos científicos, nas vivências e nos questionamentos pois, “hoje, mais do que nunca, é necessário ter uma atitude indagadora perante tudo o que se relaciona com a educação” (Piletti, 2007, p. 27). O professor, junto aos demais membros da equipe, deve promover aos estudantes um espaço de vivência, onde se proporcionem meios para que a aprendizagem seja difundida de forma prazerosa e eficaz. O ambiente social em que o estudante está inserido faz parte concreta de seu aprendizado, porque De modo concreto, não podemos pensar que a construção do conhecimento é entendida como individual. O conhecimento é produto da atividade e do conhecimento humano marcado social e culturalmente. O papel do professor consiste em agir como intermediário entre os conteúdos da aprendizagem e a atividade construtiva para assimilação (Gadotti, 1999, p.30). Muitos estudantes com deficiências intelectuais apresentam dificuldades na escrita e na leitura. De modo a auxiliar na mudança desse cenário, a escola deve promover uma alfabetização de modo a gerar um processo de construção, no qual a criança, a partir de suas hipóteses, vai construindo sua aprendizagem. Assim, é essencial que o estudante interaja com o meio, tornando-se mais crítico e autônomo. Cada um tem seu próprio ritmo e conhecimento de mundo, com isso, os educadores devem respeitar o tempo de cada estudante. O orientador educacional é uma figura fundamental nesse processo: Cabe aos orientadores criar, descobrir e propor novas formas viáveis e efetivas, de eliminação do fracasso escolar, tanto no nível de variáveis intra-escolares, que às vezes o mantém, como no de variáveis extraclasses, que não encontram meios de suprimi-lo (Grispun, 2006, p.86). Desse modo, o orientador educacional pode, juntamente ao professor do atendimento 13ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional educacional especializado, ser um mobilizador para trabalhar a inclusão na escola, visto ter contato com estudantes, professores e famílias. Além disso, uma das atribuições do OE é proporcionar uma escola de qualidade e sem preconceitos. Dessa maneira, segundo Giacaglia (2006), a escola tem uma ligaçãocom as famílias, viabilizando sempre uma comunicação efetiva, respeitando as crenças e os valores de cada uma, obtendo o bem- estar, o desenvolvimento e a formação integral do estudante, respeitando as suas diferenças. Ainda, segundo a autora: Ao planejar o trabalho na área de Orientação Familiar é necessário um conjunto amplo de informações para caracterizar as famílias, seus valores e suas expectativas. O conhecimento da família, são essenciais para a busca de uma unidade de princípios e de atuação entre ambas as instituições (Gicaglia, 2006, p.63). A atuação do orientador não está ligada somente às aprendizagens de conteúdos escolares, mas também aos aspectos emocionais. É nítido que aquele estudante com alguma dificuldade precisa de acompanhamento, inclusive os estudantes com deficiência intelectual, que necessitam de uma adequação curricular e de um acompanhamento na sua adaptação escolar, pois: Para a educação da criança com deficiência intelectual, é importante conhecer o modo como ela se desenvolve. Não importa a deficiência e a insuficiência em si mesmas (ou o defeito), mas a reação de sua personalidade em desenvolvimento no enfrentamento das dificuldades decorrentes da deficiência (Vigotski, 1997, p. 104). A orientação educacional tem o papel de acolher esses estudantes e auxiliar na promoção da inclusão daqueles atendidos na Sala de Recursos, juntamente com toda a equipe escolar. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conclui-se que é possível realizar um trabalho com estudantes com deficiência intelectual através de um acompanhamento personalizado e promover as aprendizagens na vida desse estudante, atendendo as suas dificuldades e reconhecendo as suas potencialidades. Mas é necessário o empenho da escola para conhecer, identificar as necessidades e criar estratégias de ensino aprendizagem efetivas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF, 2018. 600 p. CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização sem ba – be – bi – bo – bu. São Paulo: Scipione, 1998. FÁVERO, Eugênia Augusta Gonzaga. Direitos das Pessoas com Deficiência: Garantia de Igualdade na Diversidade. Rio de Janeiro: WVA, 2004. GADOTTI, Moacir. Gestão Democrática e Qualidade de Ensino. 1º Fórum Nacional Desafio da Qualidade Total no Ensino Público. Belo Horizonte, julho 1999. GIACAGLIA, Lia Renata Angelini; PENTEADO, Wilma Millan Alves. 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INTRODUÇÃO A ação do orientador educacional no contexto da mediação de conflitos escolares se destaca como um componente crucial para a construção de um ambiente escolar mais democrático, inclusivo e colaborativo. No presente estudo abordaremos a metodologia da Mediação Social Transformadora (MeSTra) como uma estratégia pedagógica, aplicada durante a formação continuada de educadores, com vistas a transformar a práxis pedagógica, ressignificando a realidade imediata e as relações interpessoais e institucionais dentro das escolas públicas do Distrito Federal. (Beleza, 2023). Desde 2011, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF), em parceria com a Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE), desenvolve o curso “Mediação de Conflitos como Práxis Pedagógica”. O objetivo central do curso é capacitar profissionais da educação, especialmente orientadores educacionais, para atuarem como mediadores de conflitos em suas respectivas unidades escolares. A formação desses mediadores se dá por meio da metodologia da MeSTra, que enfatiza a transformação dos conflitos em espaço de aprendizagem e a desnaturalização A mediação social de conflitos como práxis da orientação educacional Palavras-chave: Orientação Educacional. Mediação. Conflitos. Transformação. Inclusão Social. de violências no ambiente escolar, por meio de uma abordagem crítica, dialógica e participativa. Considerando as pesquisas de Santos (2023) e de Beleza (2023), foi possível analisar os impactos dessa formação continuada na atuação dos orientadores educacionais, destacando-se o uso da mediação social de conflitos enquanto prática pedagógica que pode transformar o cotidiano escolar e promover mudanças significativas na postura dos profissionais e nas dinâmicas de convivência dentro da escola. OBJETIVOS O objetivo geral deste trabalho é examinar como a metodologia da Mediação Social Transformadora contribui para a transformação das práticas pedagógicas e para a construção de uma cultura de paz no ambiente escolar. Já os objetivos específicos incluem: analisar como a formação continuada em mediação de conflitos influencia as práticas dos orientadores educacionais para o enfrentamento e prevenção de violências escolares; identificar os desafios vivenciados pelos profissionais da educação ao implementar a metodologia da MeSTra em suas unidades escolares; avaliar o impacto da mediação de conflitos na construção de um ambiente escolar 15ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional mais inclusivo e democrático, especialmente no que diz respeito às relações entre professores, estudantes e demais membros da comunidade escolar. REFERENCIAL TEÓRICO O referencial teórico deste estudo se baseia nas correntes da pedagogia crítica e da educação em e para os direitos humanos, que defendem uma prática educacional pautada na transformação social e no empoderamento dos sujeitos envolvidos no processo educativo. No campo da mediação de conflitos, autores como Bush e Folger (2006) e Beleza (2023) destacam duas abordagens principais: a mediação focada na resolução de problemas e a mediação transformadora. Segundo esses três autores, a mediação transformadora, foco deste estudo, vê o conflito não como um obstáculo a ser superado, mas como uma oportunidade de crescimento pessoal e coletivo. Para uma orientação educacional do século XXI, essa abordagem exige uma mudança paradigmática, na qual o educador faz uma autorrevisão de posturas controladoras, dominadoras, autoritárias e passa a atuar como facilitador de diálogos e promotor de processos de transformação social. Santos (2023). Tal abordagem se alinha aos princípios da educação em e para os direitos humanos (Brasil, 2013), que visa a formação de cidadãos críticos e engajados na construção de uma sociedade justa e equitativa. A metodologia da MeSTra colabora, ainda, para a inclusão social sobremaneira, posto que Costa e Ianni (2018) afirmam que a inclusão é parte constitutiva da exclusão social, isto é, não é uma coisa ou um estado. A perspectiva adotada envolve o indivíduo em mecanismos de inclusão/exclusão por meio de “estratégicas histórias de manutenção de uma ordem social perversa, no estabelecimento de formas de desigualdade, nos processos de concentração de riqueza. O excluído é parte integrante de uma sociedade, de forma a sustentar uma dada ordem social” (p.83). METODOLOGIA Para alcançar os objetivos propostos, adotou-se uma abordagem de pesquisa-ação, na qual a pesquisadora, enquanto orientadora educacional e formadora de mediadores de conflitos, atua diretamente no processo formativo, observando, interagindo e registrandoas experiências práticas dos cursistas. A pesquisa-ação se mostrou adequada por permitir uma interação dinâmica entre teoria e prática, essencial para a formação continuada em mediação social de conflitos. Os dados foram coletados por meio de observações participantes, entrevistas semiestruturadas, questionários aplicados ao final dos cursos e relatórios reflexivos produzidos pelos cursistas ao longo do processo. Essas ferramentas permitiram captar as percepções e vivências dos participantes, fornecendo uma visão aprofundada sobre o impacto da mediação na práxis pedagógica dos orientadores educacionais. O contexto da pesquisa envolve a Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE), onde o curso “Mediação de Conflitos como Práxis Pedagógica” foi oferecido entre 2011 e 2022. Durante esse ... o orientador educacional, ao atuar como mediador, não apenas contribui para o entendimento entre as partes em conflito, mas também promove uma cultura de paz e diálogo que impacta a convivência, o aprendizado dentro da escola e as realidades em nível pessoal, interpessoal e coletivo dos partícipes.... 16 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional período, participaram professores, orientadores educacionais e outros profissionais da rede pública de ensino do Distrito Federal. O curso visa proporcionar uma formação prática e reflexiva sobre a mediação social de conflitos, utilizando a metodologia da MeSTra para transformar situações e relações interpessoais no ambiente escolar favoráveis à paz. RESULTADOS E DISCUSSÕES Os resultados desta pesquisa indicam que a Mediação Social Transformadora (MeSTra) impactou profundamente a atuação dos orientadores educacionais, promovendo uma mudança significativa em suas posturas e abordagens pedagógicas. A formação continuada proporcionou aos profissionais uma ressignificação do conceito de conflito, que passou a ser visto como uma oportunidade de aprendizado e transformação, em vez de algo a ser simplesmente eliminado ou sinônimo de briga, confusão. Os participantes relataram que, ao aplicar a metodologia da MeSTra em suas escolas, observaram uma melhoria nas relações entre estudantes, professores e demais membros da comunidade escolar. A mediação possibilitou o desenvolvimento de habilidades de escuta ativa, empatia, diálogo e protagonismo, elementos essenciais para a construção de um ambiente escolar mais democrático e inclusivo. No entanto, alguns desafios foram identificados, como a resistência inicial de alguns profissionais e estudantes à participação nas rodas de mediação. Também foram mencionadas dificuldades em implementar a metodologia de forma consistente, devido à falta de apoio institucional em algumas unidades escolares. Ainda assim, os orientadores educacionais que participaram do curso destacaram que, com o tempo, as resistências foram sendo superadas à medida que os resultados positivos começaram a emergir. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Mediação Social Transformadora (MeSTra) apresenta-se como uma ferramenta poderosa no contexto escolar, especialmente quando aplicada por orientadores educacionais. A formação continuada desses profissionais, fundamentada na práxis pedagógica e nos direitos humanos, permite uma ressignificação do conflito e das violências que permeiam o ambiente escolar. O estudo demonstrou que o orientador educacional, ao atuar como mediador, não apenas contribui para o entendimento entre as partes em conflito, mas também promove uma cultura de paz e diálogo que impacta a convivência, o aprendizado dentro da escola e as realidades em nível pessoal, interpessoal e coletivo dos partícipes. Os dados coletados ao longo deste estudo revelam que os orientadores educacionais, ao adotarem a metodologia da MeSTra, desenvolvem novas competências que lhes permitem lidar de maneira mais eficaz com situações de conflito e violências, transformando-as em oportunidades de crescimento para todos os envolvidos. Além disso, a mediação social de conflitos se mostrou uma estratégia pedagógica capaz de promover mudanças profundas na postura dos profissionais da educação, ao passo que fortalece o ambiente escolar como espaço democrático, inclusivo e acolhedor das conflitividades necessárias à aprendizagem e desenvolvimento humano. Por outro lado, foram identificados desafios, especialmente no que tange à resistência inicial de alguns membros da comunidade escolar e à necessidade de maior apoio institucional para a implementação contínua da mediação. No entanto, os resultados positivos alcançados com a aplicação da MeSTra e as evidências de seu potencial transformador contribuem de forma significativa para a promoção de uma educação 17ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional pautada nos princípios dos direitos humanos e da convivência pacífica. Portanto, conclui-se que a orientação educacional, quando integrada à mediação social de conflitos, pode desempenhar um papel fundamental na construção contínua da paz no ambiente escolar, propício ao desenvolvimento integral e inclusivo para os estudantes, de trabalho junto aos profissionais da educação e junto a toda comunidade escolar. A continuidade da formação em mediação de conflitos, especialmente para orientadores educacionais, é essencial para que as escolas possam enfrentar e superar os desafios da convivência e inclusão no século XXI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Educação em Direitos Humanos: Diretrizes Nacionais. Brasília: Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013. COSTA, M.I.S., and IANNI, A.M.Z. A dialética do conceito de exclusão/inclusão social. In: Individualização, cidadania e inclusão na sociedade contemporânea: uma análise teórica [online]. São Bernardo do Campo, SP: Editora UFABC, 2018, pp. 75-101. ISBN: 978-85-68576- 95-3. https://doi.org/10.7476/9788568576953.0004. BELEZA, F. A mediação social transformadora. Estudos sobre subjetivação política na experiência do projeto Estudar em Paz. Tese de doutorado. FE/ UnB. 2023. BUSH, R. A. Baruch; FOLGER, J. P. La promesa de mediación. Buenos Aires: Granica, 2006. SANTOS, C. M. Mediação Social Transformadora: dos conflitos e violências à práxis pedagógica. Monografia (Especialização) – Universidade de Brasília. Centro de Estudos Avançados e Multidisciplinares, Brasília, 2023. 18 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Cléssia Mara Santos1 Guilherme Mendes2 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 1996. 2 - Consultor do Sebrae/DF. INTRODUÇÃO Esse relato traz uma experiência de uma oficina de revisão do Plano de Ação anual, um dos instrumentos de trabalho da práxis educativa da orientação educacional da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal – SEEDF. Por meio do trabalho da Coordenação Intermediária da Orientação Educacional na Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto (CRE PP), buscou-se atender a necessidade de ampliar a compreensão desse coletivo de orientadores educacionais (OE) sobre a produção escrita de metas, sua relação com objetivos educacionais e a importância dos indicadores de resultado, reconhecendo os desafios da escrita deste instrumento. Durante o desenvolvimento da oficina de produção do Plano de Ação, no início do ano letivo de 2024, cada OE revisitou seu próprio documento elaborado em 2023. Foi realizado o estudo conceitual de cada um dos elementos a partir de exemplos de indicadores, da estruturação da meta com os objetivos e da Alinhando objetivos, metas e indicadores de resultado e ações inclusivas no plano de ação da orientação educacional da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal: uma experiência da coordenação intermediária da orientação educacional - Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto Palavras-chave: Planode Ação. Orientação Educacional. Indicadores de Resultado. Inclusão. relação com a avaliação, além de possíveis ferramentas/metodologia para a prática de ações inclusivas na escola. DESENVOLVIMENTO O Contexto A orientação educacional representa um pilar essencial no ecossistema educacional da SEEDF, configurando-se como uma ponte vital que conecta estudantes, famílias, gestão escolar, professores e demais profissionais da educação. Esse elo facilita a comunicação e o entendimento mútuo entre esses segmentos, além de assegurar que as necessidades e preocupações de toda comunidade escolar sejam adequadamente endereçadas e incorporadas nas políticas e práticas escolares inclusivas. A partir dessa compreensão, a corrente experiência baseia-se no acompanhamento pedagógico das ações da orientação educacional por parte da Coordenação Intermediária da Orientação Educacional. Esta encontra-se no nível intermediário de gestão, especificamente 19ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional na Coordenação Regional do Plano Piloto. A análise dos Planos de Ação se deu por ocasião da solicitação de elaboração anual dos instrumentos de organização do trabalho pedagógico da orientação educacional, por parte da Gerência da Orientação Educacional, da Subsecretaria de Educação Básica da SEEDF. A elaboração do Plano de Ação anual foi realizada individualmente em 2023, bem como nos anos anteriores, sem um suporte mais personalizado para cada OE. Assim, ao final do ano, os relatórios das ações apresentados por eles pouco expressavam os resultados das ações planejadas e, em sua grande maioria, indicavam positivamente um grande volume de ações, porém não demonstravam o quão importante e impactante essas ações eram para a comunidade escolar, mudando realidades. O coletivo de OE da CREPP também identificou a necessidade de uma elaboração textual mais consciente do Plano de Ação da OE, demandando à Coordenadora Intermediária no sentido de se instrumentalizar para produzir uma escrita mais coerente, principalmente no que se refere às metas e aos indicadores de resultado. Foi observado, ainda, que, no campo da avaliação presente no formulário, havia pouca relação entre objetivos e metas e os instrumentos de avaliação das ações propostas. Os objetivos, da forma como estavam escritos nos Planos de Ação de 2023, não eram muito precisos. Isso gerava uma sensação de dispersão e perda de foco em suas ações, o que, muitas vezes, era relatado nos Encontros de Articulação Pedagógica (EAP), ao refletir sobre sua práxis. Outra problemática, no contexto de 2023, foi a ocorrência de alguns episódios de solicitação de retirada da publicização de alguns Projetos Político Pedagógicos (PPP) do portal da SEEDF, por parte do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Isto porque os documentos apresentavam uma escrita incoerente e, por vezes, insuficientemente elaborada em muitas partes, inclusive nos anexos em que estão os diversos Planos de Ação de cada setor da escola. Foram, então, esses fatores que moveram a Coordenação Intermediária da OE a buscar uma assessoria para avançar em uma melhor compreensão a respeito dos elementos que compõem o Plano de Ação, no sentido de produzi-lo com maior consciência, alinhamento entre objetivos, metas, indicadores e instrumentos de avaliação. Para isto, foram utilizados os EAP semanais. O Processo: elaboração da metodologia A Coordenadora Intermediária demandou, então, a parceria da assessoria do SEBRAE- DF junto à SEEDF, por meio do projeto de Educação Empreendedora. Assim, a Agente Local de Inovação, Deniz Helena, articulou a demanda de realizar uma oficina de construção de indicadores de resultados a partir do contexto da orientação educacional das escolas públicas da CREPP. Nessas conversas, foi feito o seguinte planejamento: realização de oficina, com dois encontros, sobre indicadores de resultados. Público: aproximadamente 80 orientadores A orientação educacional representa um pilar essencial no ecossistema educacional da SEEDF, configurando- se como uma ponte vital que conecta estudantes, famílias, gestão escolar, professores e demais profissionais da educação. 20 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional educacionais. Data sugerida: 05 de abril. Ressaltou-se que cabe a esses profissionais escrever projetos afetos à sua área de atuação, para que sejam inseridos no PPP da escola. Ficou claro que os orientadores educacionais têm conhecimento de planejamento estratégico e sabem conceituar e elaborar projetos e seus componentes (objetivos, metas, estratégia, etc). No entanto, é necessário retomar o que são indicadores de resultados, quais são os seus tipos e como analisá-los. Boa parte dos indicadores trabalhados pela orientação educacional são qualitativos, gerando uma dificuldade em quantificá-los. O planejamento foi pensado conjuntamente, também, com o professor consultor do SEBRAE-DF Guilherme Mendes, que contribuiu de maneira significativa. Ele se inteirou do contexto, da visão geral dos documentos norteadores e dos pressupostos teóricos especificados nas diretrizes curriculares da SEEDF (2014). Tais pressupostos apresentam a proposta de uma educação integral e inclusiva, bem como propõe três eixos transversais: Educação para a Diversidade, Educação para a Sustentabilidade e Educação em e para os Direitos Humanos e Cidadania. Esses são os principais fundamentos das ações temáticas da orientação educacional. Foram consideradas, ainda, as Orientações Pedagógicas: Plano Político Pedagógico (SEEDF, 2014). Este documento sinaliza que as ações pedagógicas precisam estar alinhadas às metas do Plano Distrital de Educação 2015-2024. Entre essas metas, ressalta-se a educação inclusiva, a universalização do acesso à educação, a melhoria da qualidade da 3 - Disponível no site da Secretaria de Estado de Educação: https://www.educacao.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2021/07/PLANO-DE-ACAO-LOCAL.pdf 4 - OLIVEIRA, Stéfany Marinho de, SILVA, Cecília Teixeira da e BRANDÃO, Eliane Matos. Ciclo PDCA. Universidade Federal Fluminense. Jun, 2022. educação, a valorização dos profissionais da educação, a promoção da gestão democrática, dentre outros. Diante desses documentos norteadores, foram extraídos três objetivos gerais que pudessem servir como exemplo na realização da oficina. Eles foram considerados pertinentes às atribuições da OE na escola e alinhados a uma educação integral e inclusiva. Assim, os objetivos levantados foram: · Desenvolver políticas inclusivas, o que significa que as escolas e os orientadores educacionais precisam estar equipados para reconhecer e responder às necessidades específicas de aprendizagem dos estudantes, considerando seu contexto familiar e sócio- econômico. · Fortalecer a comunicação entre escola e família, o que requer estabelecer canais de comunicação eficazes entre a escola e as famílias, promovendo uma parceria colaborativa que beneficie o desenvolvimento educacional dos estudantes. · Promover a educação integral, a fim de garantir que a educação vá além do acadêmico, abrangendo também o desenvolvimento social, emocional e cívico dos estudantes e refletindo um compromisso com uma formação integral. Dessa forma, foi delineada uma proposta de revisitação do instrumento do Plano de Ação anual da orientação educacional de 20243 que pudesse apresentar uma visão das metas e sua relação com os indicadores de resultados. Foi utilizado como referencial teórico a teoria “SMART4 “, que distingue metas e objetivos a partir de cinco elementos constitutivos ao ser definida e elaborada em sua escrita: da sigla em inglês, ser específica, mensurável, relevante, atingível e temporizável. 21ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Após compreender cada elemento, foram traçadas relações, correlações e a auto- problematização sobre as lacunas na produção textual,a partir da revisão do Plano de Ação do ano anterior. Com uma escrita mais minuciosa da meta, foi possível delimitar um conjunto de indicadores de resultado referente às ações comuns dos OE desenvolvidas nas escolas e passíveis de eficácia. Essa organização de possíveis indicadores de resultado a partir da reelaboração dos exemplos levou à compreensão que esses não apenas refletirão o progresso em direção às metas, mas também facilitarão a implementação de ajustes necessários no decorrer do ano letivo e ao longo do processo educativo. É importante compreender que o indicador é um aspecto quantificável na elaboração de uma meta, é o que mensura o impacto esperado na realidade ou situação que se deseja atingir. A oficina prosseguiu com a apresentação de um exemplo do formulário, para que o grupo pudesse revisar no seu próprio Plano de Ação a importância dos indicadores, buscando o progresso em direção às metas. Para que os indicadores sejam efetivamente utilizados para a melhoria contínua da educação, é essencial que as metodologias de mensuração e registro sejam confiáveis, acessíveis, relevantes e atuais. O próximo desafio, então, foi elaborar a escrita da meta de forma concisa, de modo que remetesse ao objetivo educacional geral. Ela deveria conter elementos mensuráveis (indicadores de resultado) e como cada meta poderia ser avaliada (último campo que consta no formulário do Plano de Ação). Assim, foi possível ter coerência entre metas, indicadores, seus objetivos específicos correspondentes, estratégias, tempo de execução e avaliação. CONSIDERAÇÕES FINAIS As reflexões levantadas ao longo das oficinas possibilitaram a compreensão que a eficácia das estratégias se dará pela análise dos indicadores propostos dentro de cada meta, permitindo ajustes contínuos tanto nas abordagens quanto nos instrumentos. Adicionalmente, a efetividade das ações de inclusão, sensibilização ou acompanhamento individualizado será medida pelo feedback dos estudantes e suas famílias, bem como pelo engajamento do público alvo nas atividades e estratégias propostas. O feedback permite explorar como os resultados, encontrados por meio dos indicadores, serão usados para avaliar o sucesso das estratégias implementadas e fazer ajustes conforme necessário num processo de melhoria contínua. Isto porque, na educação inclusiva, parte-se do pressuposto de que um planejamento não é final e poderá ter adaptações e adequações, sempre que necessário. A oficina foi finalizada com a percepção de que foi viável uma organização mental da práxis, dirimindo muitas dúvidas e indagações. Dificuldades ganharam sentido para os participantes, principalmente no campo da avaliação. Isto porque os instrumentos de avaliação e mensuração dos resultados a serem aplicados são a fotografia do antes e do depois. Por isso é importante sinalizar no Plano de Ação, que será realizado um diagnóstico inicial e outro final da realidade/situação a ser modificada. Considera-se que foi um trabalho positivo, porque o coletivo de OE saiu com mais consciência em relação àquilo que já é feito e de como realizar os registros de forma sistematizada e coerente nesse instrumento de trabalho. Algumas das avaliações relataram o seguinte: “Permitiu avaliarmos o que estamos 22 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional escrevendo, quantas ações conseguimos executar realmente” (EMS); “saímos um pouco mais instrumentalizados para essa elaboração/ revisão e a olhar para as questões corriqueiras da escola com estratégias criativas” (DNFA); “consegui realizar praticamente todas as metas e visualizei resultados” (GMV). Tantas outras atividades e urgências da dinâmica diária de uma escola pública acabam por consumir tempo de trabalho que poderiam estar disponíveis para esse momento de registro/produção/sistematização de dados e informações ao longo do ano. Porém, “se bem feito, nosso Plano de Ação no PPP consegue esclarecer sobre o trabalho da OE na escola” (EMS). “Fiquei um pouco assustada com o resultado quantitativo, mas foi importante! Esse resultado foi parcial no decorrer do ano, lógico! A minha meta inclusiva foi reduzir as faltas e evasão” (MCCL). Uma próxima etapa prevista, no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre processos avaliativos de metas, será por meio do método Ciclo PDCA (em inglês: Plan, Do, Check and Act, correspondente em português a Planejar, Fazer, Verificar e Agir). Trata-se de uma metodologia de gerenciamento simples, bastante utilizada na gestão de projetos, de qualidade e de processos. Esta objetiva promover a melhoria das ações de forma contínua (Oliveira, 2019 e Oliveira et al, 2022). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação. Diretrizes Curriculares da Secretaria de Educação do Distrito Federal. 2014. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação. Plano de Ação Anual da Orientação Educacional 2024. Disponível em: Site da Secretaria de Estado de Educação SEEDF. https://www.educacao. df.gov.br/ Acesso em: 26/2/2024. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação. Orientação Pedagógica da Orientação Educacional da SEEDF. 2019. DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação. Pressupostos Teóricos. Diretrizes Curriculares da SEEDF. 2014. SEBRAE. Guia completo para definir metas SMART pós-pandemia.2023. GDF. Plano Distrital de Educação (PDE) 2015-2024. Lei nº 5.499, de 14/7/2015 (DODF nº 135, de 15/7/2015). OLIVEIRA, M. CICLO PDCA - O Método para solução de problemas: Guia prático das 4 fases e 8 etapas do PDCA. Amazon Digital Services LLC - KDP Print US, 2019. 26 Pg. OLIVEIRA, S.M., SILVA, C.T. e BRANDÃO, E.M. Ciclo PDCA. Universidade Federal Fluminense. Jun, 2022. 23ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Raquel Bastos Magalhães1 1 - Pedagoga-Orientadora Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2019. Articulação de redes: superando desafios e alcançando sonhos Palavras-chave: Articulação de redes. Deficiência intelectual. Trajetória de vida. INTRODUÇÃO O currículo da Secretaria de Educação do Distrito Federal se fundamenta nos pressupostos teóricos da Teoria Crítica (Pedagogia Histórico- Crítica e da Psicologia histórico-cultural). Esta opção teórica se justifica por uma necessidade da educação, por meio de suas ações, questionar as desigualdades existentes na sociedade possibilitando a transformação social (Distrito Federal, 2014b). De acordo com o documento Orientação Pedagógica da Orientação Educacional do Distrito Federal (2019), as ações dos pedagogos orientadores educacionais devem fundamentar- se neste mesmo referencial teórico de modo que possa “olhar e cuidar de forma mais atenta das capacidades e possibilidades de aprendizagem de todos estudantes e de toda a comunidade escolar” (DISTRITO FEDERAL, , 2019, p. 18). Neste sentido, apresenta-se o relato de experiência referente à vivência de uma orientadora educacional da rede pública do Distrito Federal no acolhimento a uma estudante do Ensino Médio com diagnóstico de deficiência intelectual em meio ao contexto da pandemia de Covid 19. O objetivo foi articular os diversos atores das redes interna e externa de modo a promover o acesso e a garantia de direitos à jovem. DESENVOLVIMENTO No momento em que houve a transição das aulas presenciais para as atividades on- line, algo chamou a atenção dos professores de uma escola pública do Distrito Federal. Uma estudante do 1º ano do Ensino Médio apresentava respostas muito elementares em suas produções. Por vezes, cometia equívocos ortográficos que podiam ser comparados à escrita de crianças no início do seu processo de alfabetização. Diante dessa situação, o fato foi discutido com a orientação educacional que prontamente se envolveu no caso, iniciando um processo de análise dos dados, buscando traçar estratégias de intervenção. A orientadora educacional tinha um desafiopela frente: colaborar na ressignificação da trajetória de vida e do papel da escola para a estudante (DISTRITO FEDERAL, 2019). A decisão foi, portanto, desenvolver um trabalho articulado que perpassa por alguns dos eixos de atuação da orientação educacional de acordo com a Orientação Pedagógica (2019). Seu ponto de partida foi a atuação junto aos professores. Em parceria com os docentes, fez um mapeamento das principais demandas e dificuldades da estudante. Foram delineadas, algumas estratégias pedagógicas para serem desenvolvidas por eles em suas áreas de 24 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional conhecimento. Além dos professores das áreas específicas, a orientadora educacional estabeleceu interlocução com a professora da sala de recursos (profissional do atendimento educacional especializado). Como resultado destas ações, foram definidas novas parcerias, exigindo da orientação educacional lançar mão de ações em outro eixo de atuação da orientação educacional, o eixo das ações em rede. A orientadora descobriu que havia um acompanhamento prévio da estudante no Adolescentro2, mas o acompanhamento ainda estava aberto. Sendo assim, a orientadora educacional fez contato com a instituição que, de maneira célere, atendeu às demandas provocadas pela escola. Como resultado, foi feita uma avaliação cuidadosa dos fatos, culminando com o fechamento de um relatório multidisciplinar indicando que as dificuldades da estudante decorriam de uma deficiência intelectual. Nesse momento, novas ações foram delineadas, agora no eixo junto à família. A orientação educacional passou a dialogar com a mãe da estudante com o objetivo de orientá- la quanto aos “compromissos compartilhados para a aprendizagem e desenvolvimento da estudante” (Distrito Federal, 2019, p. 42). No entanto, identificou-se que, em decorrência do contexto de isolamento social, a mãe encontrava-se desempregada, ocasionando, naquele momento, um desabastecimento alimentar da família. Foi feito uma mobilização da gestão da escola e outros parceiros da comunidade escolar que, durante aquele período de exceção, auxiliaram com cestas básicas e até mesmo com um computador para o acompanhamento das aulas on-line por parte da estudante. 2 - Unidade de saúde de referência para o atendimento de adolescentes com transtornos mentais ou que façam uso eventual de substâncias psicoativas da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES). 3 - Instituição da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal voltada para a Educação Profissional. O conjunto das intervenções consumaram em uma mudança de postura da jovem que visivelmente passou a se sentir mais pertencente à sua escola. As interações com os professores se modificaram e progressos no desenvolvimento da aprendizagem começaram a ser vistos, indicando que a deficiência, em vez de promover obstáculos, possibilitou a abertura de portas para um suporte mais adequado às necessidades educacionais da estudante. Em 2022, graças ao seu esforço e à dedicação dos profissionais que a acompanharam nessa jornada, superou mais uma etapa importante ao se formar no ensino médio. Não satisfeita em apenas concluir o Ensino Médio, vislumbrou novos horizontes ao ser incentivada pela orientadora da escola a ingressar na Escola Técnica3. Com coragem e determinação, iniciou sua jornada no curso de Técnico de Enfermagem, sendo matriculada como estudante com deficiência e atualmente está prestes a concluir sua formação. Ela carrega consigo não apenas conhecimentos e habilidades adquiridas ao longo do caminho, mas também a certeza de que está transformando não só sua própria vida, mas também a da sua família e comunidade. O presente relato de experiência descreve uma postura que se coaduna com as ideias compartilhadas por Oliveira e Dias (2013) a partir da obra de Vigotski que critica a visão reducionista da deficiência intelectual, quando a associa exclusivamente a déficits cognitivos. Argumentam que o desenvolvimento psicológico é um processo dinâmico e influenciado pelo ambiente e que as pessoas com deficiência intelectual possuem potencial para desenvolver suas habilidades e alcançar seus objetivos desde que sejam proporcionadas as condições adequadas. 25ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional Ao compreender que a escola não é apenas um espaço de acúmulo de conhecimentos científicos mas um lugar em que é possível a humanização (Distrito Federal, 2019), a orientadora educacional mencionada neste relato desenvolveu uma série de ações com o intuito de mobilizar as redes interna e externa da escola de modo a possibilitar a ampliação das aprendizagens e desenvolvimento da estudante. A trajetória aqui descrita contrapõe um discurso que prevaleceu ao longo de muitos anos. “O predomínio do modelo médico contribuiu para a aproximação semântica entre deficiência e doença mental, assim como fortaleceu uma leitura da primeira a partir do paradigma da falta, negligenciando o potencial de desenvolvimento inerente aos seres humanos” (Oliveira Dias, 2013, p. 172). Essa experiência comprovou que, quando os sujeitos são vistos em suas necessidades, podem exercer suas potencialidades, que não são anuladas por uma deficiência ou por qualquer outra condição. A orientadora educacional deste relato não encarou a deficiência como uma limitação para o desenvolvimento, mas interveio, possibilitando assim, transformações na trajetória de vida da estudante. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Orientação Pedagógica da Orientação Educacional (2019) aponta para a necessidade de considerar o sujeito histórico-cultural que está na escola. Dessa forma, é possível compreender as suas reais necessidades de aprendizagem. A escola não é apenas um lugar para receber conhecimentos, mas, antes de tudo, um espaço privilegiado para interações e humanização. A atuação da orientadora educacional traduziu na prática os ensinamentos de Grinspum (2011), que apontam para a importância da interação entre os diferentes setores da escola para a construção do projeto político-pedagógico. As atividades individuais se articulam em um todo coeso, em que cada profissional contribui com sua especificidade, sem que haja hierarquias ou saberes exclusivos. A pluralidade do cotidiano escolar é resultado dessa interação, demonstrando que a escola é um espaço de construção coletiva. O presente relato mostra que a educação possui um poder intrínseco de abrir portas e transformar realidades. As conquistas não são apenas individuais, mas têm um impacto positivo para sua comunidade. Em um mundo repleto de desafios, com o apoio adequado dos profissionais da educação e principalmente do olhar dedicado da orientação educacional, é possível superar obstáculos e alcançar os sonhos mais grandiosos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DISTRITO FEDERAL, Currículo em Movimento da Educação Básica. Pressupostos Teóricos. Brasília, DF: Secretaria de Estado de Educação, 2014. 92p. Disponível em: https://www.educacao.df.gov.br/wp- conteudo/uploads/2018/02/1_pressupostos_teoricos. pdf. Acesso em: 17 de setembro de 2024. [s/db] DISTRITO FEDERAL, Currículo em Movimento da Educação Básica. Educação Especial. Brasília, DF: Secretaria de Estado de Educação, 2014. 50 p. Disponível em: https://www.educacao.df.gov.br/wp- conteudo/uploads/2021/07/cirriculo_movimento_ensino_ especial.pdf.pdf. Acesso em: 17 de setembro de 2024. [s/da] A escola não é apenas um lugar para receber conhecimentos, mas, antes de tudo, um espaço privilegiado para interações e humanização. 26 ROSA DOS VENTOS - Revista da Orientação Educacional DISTRITO FEDERAL, Orientação Pedagógica da Orientação Educacional na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Brasília, DF: Secretaria de Estado de Educação, 2014. 94 p. Disponível em: h t tps : / /www.educacao.d f .gov.br /wp-conteudo/ up loads /2019 /03 /o r i en ta%C3%A7%C3%A3o- p