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CADEIAS PRODUTIVAS DO AGRONEGÓCIO II Cristiane Mendes da Silva-Reis Análise de complexos agroindustriais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Examinar os processos de produção em agronegócios. � Descrever características dos processos, das instalações e dos equipamentos. � Analisar o desempenho de complexos agroindustriais. Introdução Os complexos agroindustriais, principalmente em países em desenvol- vimento, estão associados à economia mundial. Por isso, para compre- ender o que está acontecendo na agricultura, não se pode entender os segmentos separados, mas sim as relações entre os elos da cadeia que interligam os setores agrícola, industrial e de serviços. Assim, as relações de interdependência entre os setores de insumos, produção agrícola, indústria de alimentos e distribuição são importantes e necessárias para os complexos agroindustriais, sendo estudadas desde a década de 1950 (GOLDBERG, 1968). Neste capítulo, você vai estudar os processos de produção em agro- negócios, assim como as características desses processos, das instalações e dos equipamentos. Além disso, você vai aprender a analisar o desem- penho de complexos agroindustriais. Processos de produção em agronegócios A América Latina e, principalmente, o Brasil, tornaram-se mais atrativos ao mundo para o crescimento do agrobusiness e, por meio dele, para a criação de um novo padrão agrícola, conhecido como “complexo agroindustrial”, desde a Segunda Guerra. No Brasil, os complexos agroindustriais se formaram de maneira mais específica na década de 1970, a partir da modernização agrária que tinha se iniciado no século anterior. As mudanças relacionadas às inovações do campo aconteceram a partir dos objetivos e das estratégias do capital, em princípio comercial, e depois industrial e financeiro. Nessa fase, os setores agropecuários que realizavam exportações, como café, cana-de-açúcar e algodão, foram os mais suscetíveis e os primeiros a adquirir e a utilizar as inovações técnicas e de trabalho (ERTHAL, 2006). Nesse sentido, o complexo agroindustrial é caracterizado pelas inter-rela- ções dos segmentos indústria-agricultura-comércio-serviços com um padrão de agricultura moderna, em que o elo agropecuário começa a ser visto de forma integrada à indústria. E a agricultura, que antes era vista como uma economia natural, é substituída por atividades agrícolas associadas à industrialização, à relação de troca e dependência entre segmentos, à intensificação da mão de obra e da divisão de trabalho, à troca das importações pelo mercado do país e à especialização da agricultura com a monocultura. Conforme Fajardo (2008), o complexo agroindustrial foi formado a partir de setores e atividades produtivas interligadas. Além disso, na atividade pro- dutiva não poderia existir vazios, e os segmentos vazios, quando preenchidos, causavam o surgimento de outras atividades, tanto para frente quanto para trás, formando uma cadeia produtiva. Esse complexo agroindustrial brasileiro utilizava padrões de consumo e tecnologias novas, que não separavam mais os diferentes capitais agrícola, agroindustrial e financeiro, fazendo todos parte da economia do país de forma conjunta. Para Kageyama (1990), com a industrialização, a agricultura se transforma em um ramo da produção parecido com uma indústria, ou seja, como uma fábrica que compra insumos e produz matérias-primas para outros ramos de produção. Os autores ainda complementam, indicando que a agricultura, transformada em complexos agroindustriais, depende dos insumos de indús- trias específicas, e agora não produz somente bens de consumo final, mas também bens intermediários ou matérias-primas para outras indústrias de transformação. Análise de complexos agroindustriais2 O complexo agroindustrial tem como base a matéria-prima agrícola, enquanto o sistema agroindustrial não está relacionado a nenhuma matéria-prima. O complexo agroindustrial é composto pelos elos de indústrias e serviços de apoio para transformação da matéria-prima, e o sistema agroindustrial compreende desde a produção dos insumos até a chegada do produto agrícola final ao consumidor (GOIÁS, 2019). Por meio da industrialização da agricultura no Brasil, o setor industrial começou a direcionar as maneiras e o ritmo das inovações técnicas da agricul- tura. Assim, a agricultura, quando semi-integrada, acabou perdendo o direito a concorrer no mercado consumidor final e ficou confinada aos interesses das indústrias, normalmente processadoras de suas matérias-primas. A presença de complexos agroindustriais caracteriza a existência de pelo menos dois setores integrados, que seriam a agricultura, agora industrializada, e o industrial, representado pelas indústrias de insumos e processadoras. Os complexos agroindustriais podem ser completos ou incompletos. Os completos atuam nas áreas de estocagem, comercialização, transporte e também financiamento, enquanto os incompletos somente têm relações para frente, ou seja, com as indústrias processadoras (SILVA, 1993). No complexo agroindustrial, a interligação dos setores agrícola e industrial depende de indústrias de insumos e processadoras, que podem estar a montante e a jusante do processo produtivo. De acordo com Erthal (2006), as indústrias de insumos que ficam a montante são responsáveis pela evolução técnica da agricultura, elevando a sua produção e a produtividade, enquanto as indústrias processadoras que ficam a jusante tanto transformam as matérias-primas que chegam do campo quanto articulam a entrada, a integração e o comportamento dos empreendimentos rurais no complexo agroindustrial. Essas indústrias de base, que são as de insumo, têm dois segmentos diferentes. Sendo estes da produção de máquinas, como tratores e implementos agrícolas, e de natureza biológica e química, como agrotóxicos, fertilizantes, rações, sementes, etc. 3Análise de complexos agroindustriais Com a modernização da agricultura, indústrias de maquinários rapidamente se instalaram no Brasil trazendo tecnologias para várias culturas agrícolas do país, assim como oferta de emprego rural. A princípio, essa tecnificação por meio de maquinários se iniciou na cultura da soja, e, posteriormente, também se alastrou em culturas como algodão, amendoim, laranja e milho. Além disso, políticas governamentais permitiram a instalação das primeiras oficinas de máquinas agrícolas, tendo como vantagem a proximidade territorial com os produtores rurais (clientes) (KAGEYAMA, 1990). Outro grande setor industrial que se desenvolveu no Brasil, devido à mo- dernização da agricultura, foi o de agrotóxicos, fertilizantes e rações, devido à incapacidade do complexo agroindustrial de produzir apenas com as suas potencialidades naturais. Atualmente, a produção agrícola sem esse setor com os seus pacotes tecnológicos é muito dificultosa, porém também é onerosa. E para elevar a produtividade e, assim, diminuir os custos de produção, o produtor rural busca por novas tecnologias, que continuam por aumentar os seus custos e torná-lo dependente, permanecendo em um ciclo vicioso. Conforme Erthal (2006), o uso de insumos se difundiu no Brasil a partir da importação, e, posteriormente, com incentivos governamentais que atraíram as empresas. Em um terceiro momento, essas empresas buscaram, de forma natural, desenvolver novos insumos que fossem adequados às condições subtropicais em relação ao solo, ao clima e às espécies vegetais cultivadas. Porém, com o uso abusivo e consecutivo desses insumos na agricultura moderna, principalmente de agrotóxicos, estão surgindo, cada vez mais, populações de patógenos e pragas resistentes, o que, nos dias de hoje, tem influenciado essas grandes indústrias de insumos a buscarem produtos alter- nativos para o manejo dessas doenças e pragas. Por fim, mas não menos importante, tem-se o setor industrial de processa- mento, que transforma a matéria-primaproduzida na agricultura em produtos finais para o consumidor. As processadoras são agroindustriais que realizam os processos de pré-beneficiamento, beneficiamento ou transformação da matéria-prima agropecuária. Empreendimentos que atuam na limpeza, se- cagem e armazenamento de grãos são agroindústrias de pré-beneficiamento, enquanto as agroindústrias de beneficiamento são responsáveis por padronizar e empacotar os produtos, como arroz, amendoim e milho de pipoca, assim como as agroindústrias de transformação que realizam o processamento de uma determinada matéria-prima e a transformam em produto final, como o óleo de soja, farinhas, cereal matinal, álcool e açúcar. Análise de complexos agroindustriais4 Erthal (2006) relata que de 1945 a 1960 apareceram centenas de produtos novos com diferentes formatos, sabores, odores e cores, associados a em- balagens novas e atraentes. Além disso, iniciou-se o uso de propaganda nos meios de comunicação em massa, como, por exemplo, a TV, para incorporar esses produtos ao mercado, incentivando o surgimento de novas necessidades alimentares, como o fast food. Hoje em dia, tanto o setor industrial quanto o comercial, com os supermercados e as instituições financeiras, investem nas indústrias de processamento e também no setor agropecuário. E essas modificações realizadas, na grande maioria por empresas multinacionais, afetaram tanto o consumidor final quanto o setor agropecuário, incluindo pequenas empresas que foram desativadas ou absorvidas por elas. Por isso, é de conhecimento de todos que as empresas multinacionais de beneficiamento, a partir dos processos de verticalização e expansão, tornaram-se muito impor- tantes para vários setores, como o agropecuário, o industrial e o financeiro, na organização dos complexos agroindustriais, promovendo a integração dos seus segmentos. Características dos processos, das instalações e dos equipamentos Uma das alternativas para o pequeno produtor agregar valor ao seu produto agrícola é a industrialização de matérias-primas agropecuárias. Geralmente, os agricultores conhecem as tecnologias de transformação dessas matérias- -primas, que são, inclusive, passadas de pais para filhos, mas não têm pleno entendimento de como e por que produzir com qualidade e segurança. Além disso, tanto a sociedade quanto os órgãos fiscalizadores exigem a qualidade do produto agrícola, porém são poucos os produtores rurais que conseguem transformar a matéria-prima com qualidade e segurança alimentar. Alvarenga et al. (2006) explicam que para garantir a qualidade em unidades de proces- samento agroindustrial, é necessário que cada etapa de processamento seja controlada, como você pode observar na Figura 1. 5Análise de complexos agroindustriais Figura 1. Esquema dos princípios de controle de processos agroindustriais. Fonte: Alvarenga et al. (2006, p. 17). A agroindústria, assim como outros setores, precisa que a cadeia produtiva seja organizada. Por isso, para que a agroindústria funcione adequadamente, ela depende principalmente de três setores de produção, que são os setores primário, secundário e terciário. Análise de complexos agroindustriais6 Ou seja, para que se produza, depende da disponibilidade de matéria-prima agropecuária, de insumos de outras indústrias e de uma rede de serviços do setor terciário. É importante lembrar que a agroindústria depende principal- mente do setor primário, pois a matéria-prima necessária para o beneficiamento, processamento e transformação vem do campo, tanto da agricultura quanto da pecuária, e esses materiais devem ser ofertados em quantidade, qualidade e com baixo custo ao setor industrial. Não menos importantes, os setores secundário e terciário exercem forte influência sobre o desenvolvimento de uma agroindústria, pois esses também precisam de insumos básicos produzidos por outras fábricas, como embalagens plásticas ou de vidro, papelão, etc., e também necessitam que seus produtos finais cheguem até o consumidor final por meio do setor terciário, que fornece serviços como transporte de cargas, coleta de resíduos e mão de obra especia- lizada, além de serviços de comercialização em atacados e supermercados. Os setores primário, secundário e terciário compõem a economia de um país e são baseados nos produtos produzidos, nos modos de produção e nos recursos utilizados. O setor primário está relacionado à exploração dos recursos naturais, como, a agricul- tura, a pecuária e a mineração. Esse setor é responsável por abastecer a agroindústria com a matéria-prima e sofre influência de fatores climáticos, como geadas e estiagem. O setor secundário realiza as transformações das matérias-primas em produtos industrializados. Sendo assim, as agroindústrias se enquadram nesse setor, pois agregam valor às matérias-primas agropecuárias, como carnes, leite, pescado, frutas, etc. O setor terciário é responsável por serviços como comércio, alimentação, transporte, educação e saúde, ou seja, é esse setor que realiza o escoamento e a comercialização dos produtos da agroindústria (OLIVEIRA; ANDRADE, 2012). A agroindústria é composta pelos processos de beneficiamento, processa- mento e/ou transformação de matérias-primas vindas de atividades agrícolas, pecuárias, florestais, pesqueiras e extrativistas. Atua tanto em processos simples, como, por exemplo, secagem, classificação, limpeza e embalagem, quanto em processos mais complexos, como as operações química, física ou biológica, como a extração de óleos, a fermentação e a caramelização (PREZOTTO, 2016). 7Análise de complexos agroindustriais Matéria-prima Na agroindústria, a matéria-prima agrícola é essencial para o processamento de produtos. Ao chegar do campo, essa matéria-prima pode conter restos vegetais, como raízes, folhas e galhos, também pedras e terra, e inclusive microrganismos que podem causar deterioração dos alimentos e prejuízos à saúde humana, além de interferirem no produto final. Por isso, para um processamento de boa qualidade, é necessário ter matéria-prima de boa qualidade e esta precisa ser tratada ao chegar nas unidades de recebimento e processamento. Para o procedimento agroindustrial, são necessárias a seleção de matérias-primas e a sanitização de produtos de origem vegetal. O objetivo da seleção é separar a matéria-prima das impurezas. Para a seleção de material de origem vegetal, tanto aqueles escolhidos para o consumo in natura quanto os com tamanho, formato, e coloração inadequados e pequenas injúrias podem ser usados na agroindústria. Porém, materiais vegetais com bolores causados por fungos devem ser excluídos, pois esses microrganismos podem produzir micotoxinas que re- sistem a temperaturas em torno de 250ºC. Sobre o leite, este deve chegar na agroindústria refrigerado, de preferência a 5ºC, e deve ser verificado se está ácido. Quando ácido, apresenta coloração violeta ou avermelhada e em boas condições de processamento tem uma cor azul. Ao ser recebido, o leite deve ser imediatamente pasteurizado e, caso não seja, deverá ser guardado resfriado, à temperatura máxima de 4ºC por até, no máximo, 24 horas. As carnes preci- sam chegar embaladas na agroindústria, seja em caixas, sacos de plástico ou outro material, e congeladas ou em temperatura de resfriamento, e mantidas na câmara de congelamento ou frigorífica. Para o processamento, deve-se utilizar toda a matéria-prima, que não pode voltar para o resfriamento ou congelamento, e depois do descongelamento, toda a carne deve ser processada rapidamente para evitar possível contaminação (ALVARENGA et al., 2006). Sobre o processo de sanitização da matéria-prima de origem vegetal, primeiro são retiradas as sujeiras grossas e finas com a limpeza e depois se diminui a carga microbiana com a desinfestação. Na etapa de limpeza, a matéria-prima deve ser lavada em água corrente limpa com cloro residual livre no mínimo de 1 ppm, banhos de imersão, jatos d’água ou peneiras, até retirar todasas impurezas (ESCOLA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO PROFIS- SIONAL — EEPC, 2011). Alvarenga et al. (2006) sugerem que, para a etapa Análise de complexos agroindustriais8 de desinfestação, o material vegetal deve ser imerso em solução de hipoclorito de sódio a 100 ppm por 20 minutos, mas outras literaturas afirmam que a concentração de cloro livre varia conforme a maturação das matérias-primas, mas, normalmente, são utilizadas dosagens da ordem de 20 ppm de cloro livre (EEEP, 2011). Para a produção de compotas e conservas na agroindústria, a classificação é uma etapa muito importante. A classificação leva em consideração o tama- nho, a coloração, o ponto de maturação, a ausência de defeitos e a presença de manchas, entre outros fatores. O objetivo da classificação do tamanho é para obter lotes uniformes, além da melhor apresentação do produto final. Ela também garante a demarcação rígida do tempo e a temperatura do trata- mento térmico, garantindo maior aproveitamento dos equipamentos, quando a indústria é automatizada (EEEP, 2011). Tecnologias de produção: instalações e equipamentos envolvidos Para a instalação da agroindústria, deve-se levar em consideração a facilidade de sanitização e de limpeza, e também é importante observar as normas de construção, de acordo com a legislação vigente. Fatores como conforto térmico, renovação do ar e acessibilidade também precisam ser atendidos. A agroindústria deve estar longe de acúmulos de lixo e de locais que tenham sido aterro de lixo e/ou de depósitos de resíduos biológicos e químicos, pois esses resíduos podem contaminar o lençol freático ou podem ser carregados pelo vento, inviabilizando a utilização da água da região e/ou contaminando a matéria-prima nas etapas de processamento e produto final. Também deve-se evitar instalar a agroindústria em terrenos com depressões ou desníveis, que podem sofrer com alagamentos e retornos de resíduos sanitários das tubula- ções e instalações hidráulicas (abastecimento de água potável) e sanitárias (ALVARENGA et al., 2006). O tamanho da agroindústria deve possibilitar a flexibilização da produção nos períodos de entressafra da matéria-prima principal, de forma que não haja contato entre o produto processado e a matéria-prima na área de processamento. As etapas do processamento precisam ser realizadas de modo individualizado, para evitar a contaminação cruzada do ambiente e do produto que se encontra em uma área chamada de “suja” para uma menos “suja”, até conseguir o produto final (ALVARENGA et al., 2006; MACHADO; DUTRA; PINTO, 2015). 9Análise de complexos agroindustriais Na agroindústria, a área chamada de “suja” é aquela em que são recebidas as matérias- -primas de origem vegetal ou animal, e são realizadas a limpeza e a seleção preliminar dos produtos a serem processados, enquanto a área denominada “limpa” é aquela em que o nível de contaminação ambiental é controlado e muito baixo, permitindo o processamento dos produtos agropecuários. Sendo assim, a quantidade de conta- minação ambiental nas áreas “sujas” é muito maior do que nas áreas “limpas”, que são destinadas ao processamento da matéria-prima (ALVARENGA et al., 2006). A disposição dos setores da planta baixa de uma agroindústria deve seguir um fluxo de trabalho para que não haja contaminação da área “suja” para a área “limpa”. A disposição não deve dificultar o fluxo de trabalho e todo o contato com o meio externo da agroindústria deve ser realizado em uma antessala. As portas e as janelas de vestiários e sanitários não devem ser voltadas para qualquer dependência interna da agroindústria (ALVARENGA et al., 2006; LIMA; VILLAS-BÔAS, 2018). O esquema de fluxo de uma agroindústria pode ser observado na Figura 2. Figura 2. Esquema do fluxo de uma agroindústria. Fonte: Machado, Dutra e Pinto (2015, p. 10). Análise de complexos agroindustriais10 As pessoas e os objetos de cada setor não devem ficar transitando por outras áreas, para evitar contaminação cruzada, e as áreas de recepção da matéria-prima, processo e estoque de produtos finais precisam ser isoladas. Sobre as paredes da agroindústria, estas devem ter cor clara, superfície lisa, devem ser laváveis e impermeáveis, com pelo menos 2 metros de altura, além de resistirem à aplicação dos produtos de limpeza e o acabamento deve evitar o acúmulo de poeira. As paredes devem ser lavadas de forma rotineira (OLIVEIRA; ANDRADE, 2012). O teto também precisa ser limpo constan- temente e fabricado em material resistente para tal higiene. O piso da área de processamento deve ser resistente, de fácil lavagem, antiderrapante e com declive de 1 a 2% em direção aos drenos. Os ralos precisam ser desconectados e telados ou tampados. O piso da área externa também precisa ser de fácil lavagem e que não cause poeira ou lama. É reco- mendada a construção de calçada de aproximadamente um metro em volta da agroindústria (MACHADO; DUTRA; PINTO, 2015). Recomenda-se que as janelas e as portas sejam de alumínio, pois precisam ser de material lavável e não absorvente. É preciso que nessas janelas sejam instaladas telas antipragas para evitar a entrada de insetos, moscas e outras pragas. A recomendação é que as janelas sejam instaladas na parte supe- rior da parede para facilitar e aumentar a entrada de claridade e ventilação, e quando a abertura da janela não for suficiente, pode-se instalar exaustores. Porém, é proibida a instalação de ventiladores no setor de processamento da agroindústria. Nas portas, devem ser utilizados protetores inferiores para evitar a entrada de pragas (LIMA; VILLAS-BÔAS, 2018). É necessário que o ar ambiente da agroindústria seja renovado constantemente, principalmente nas áreas de processamento. Para facilitar a limpeza interna do ambiente, a fiação ou os fios elétricos das instalações elétricas devem ser embutidos dentro da parede, deixando apenas os interruptores e as caixas de tomadas na parte externa, assim como as instalações hidráulicas e de utilidades. Para as instalações hidráulicas, os materiais utilizados precisam ser resistentes, com as tubulações bem di- mensionadas para atender às necessidades da etapa de processamento da matéria-prima (ALVARENGA et al., 2006; OLIVEIRA; ANDRADE, 2012). 11Análise de complexos agroindustriais As boas práticas de fabricação para a agroindústria são práticas obrigatórias nas etapas de produção de alimentos e de outros produtos. Você sabe por que se deve adotar as boas práticas de fabricação na agroindústria? As boas práticas de fabricação são utilizadas na agroindústria para integrar todos os setores e, assim, ter a garantia de que todos tenham a infraestrutura que precisam, além de trabalharem com segurança. Também são utilizadas para assegurar que as exigências mínimas de higiene e organização sejam atendidas e cumpridas, buscando maior qualidade dos produtos e menor desperdício de alimentos. Sobre os utensílios e os equipamentos usados na agroindústria, são obrigató- rias as suas sanitizações para evitar a presença de microrganismos patogênicos e reduzir a microbiota deteriorante. No processo de sanitização, devem ser utilizados produtos como cloro, soda cáustica, ácidos, etc. Como são produtos agressivos, é necessário que os utensílios e os equipamentos sejam resistentes à ação desses sanitizantes. Utensílios e equipamentos de madeira, alumínio e cobre não podem ser utilizados no processamento de alimentos, porque não resistem aos produtos químicos utilizados na sanitização e apresentam superfícies porosas, que podem alojar microrganismos contaminantes. O aço inox é o material mais utilizado para compor utensílios e equipamentos, por ser resistente aos sanitizantes e não conter poros, porém é caro. Outra opção muito utilizada nas agroindústrias é o plástico, que é adequado para a manipulação de alimentos, devido, também, a ser resistente às soluções de soda cáustica e ácido normalmente utilizadas na sanitização (ALVARENGA et al., 2006). Tanto para osequipamentos quanto para os utensílios e para as instalações de uma agroindústria é importante que não haja pontos críticos para limpeza. Com isso, você deve ter percebido a importância de se implantar e utilizar as boas práticas. Esse processo, além de trabalhoso, é de conscientização, organização e comprometimento, e, se realizado adequadamente, os peque- nos produtores conseguirão atingir a qualidade e a segurança alimentar tão desejada e semelhante às grandes agroindústrias. Análise de complexos agroindustriais12 Para conhecer melhor as boas práticas de fabricação na agroindústria, acesse o link a seguir. https://qrgo.page.link/Ztg1M Desempenho de complexos agroindustriais De acordo com Castro, Lima e Silva (2010), o desempenho de um complexo agroindustrial pode ser medido a partir da competitividade, da eficiência, da equidade, da sustentabilidade ambiental e da qualidade. Além disso, para Moraes (2015), a organização do mercado também influencia o desempenho do complexo agroindustrial. Por isso, é necessário avaliar o desempenho desses sistemas, para identificar os fatores críticos que afetam de forma positiva ou negativa os complexos agroindustriais. Um fator crítico é ca- racterizado como qualquer variável, ou conjunto de variáveis ou estrutura, que interfere de forma efetiva no desempenho de um sistema, de maneira positiva ou negativa (CASTRO; TONANI; LIMA, 2019). Assim, o desem- penho é caracterizado pela capacidade de transformar insumos (inputs) em produtos finais (outputs). Na Figura 3, você pode entender melhor o conceito de desempenho de complexos agroindustriais pela representação do modelo. 13Análise de complexos agroindustriais Figura 3. Modelo de mensuração de eficiência de capital no sistema produtivo agrícola. Fonte: Schulter (2018, p. 36). Os fatores que interferem no desempenho de complexos agroindustriais são classificados em fatores internos à empresa, fatores estruturais e fatores sistêmicos. A capacidade tecnológica, o conhecimento de mercado e a pro- dutividade são fatores que estão sob a esfera de decisão da empresa e, por isso, são chamados de internos à empresa. Quando a empresa tem influência parcial, sem o poder de controlá-los inteiramente, dos quais podemos citar mercado consumidor e concorrência, são denominados de fatores estruturais, enquanto os fatores sistêmicos são aqueles externos à empresa, mas que podem interferir nas suas vantagens competitivas, como a situação macroeconômica do país e as políticas tributárias e fiscais (COUTINHO; FERRAZ, 1995). Como fatores internos à empresa, os exemplos são: estratégia e gestão, eficácia na gestão (que relaciona o planejamento estratégico e o posicionamento estratégico da empresa), capacidade de inovação e produtiva; finanças e setor de marketing da instituição, inserindo a relação com o cliente e o pós-venda. Análise de complexos agroindustriais14 Sobre os fatores estruturais, quando se trata de mercado, os exemplos são taxas de crescimento, distribuição geográfica e em faixas de renda, grau de tecnologia, economias de escala e escopo, impostos sobre os produtos, oportunidades de entrada em mercados internacionais, sistemas de comercialização e condições de acesso aos fatores de produção, como insumos, bens de capital, etc. Para os fatores sistêmicos, os exemplos são: taxa de câmbio, oferta de crédito, taxa de juros, políticas tributária e tarifária, disponibilidade, qualidade e custo de energia, transportes, telecomunicações e serviços tecnológicos, qualificação da mão de obra e treinamento, políticas de educação e formação de recursos humanos, trabalhista e de seguridade social, grau de exigência dos consumidores, tendências do comércio mundial, fluxos internacionais de capital, de investimento de risco e de tecnologia, relações com organismos multinacionais, acordos internacionais e políticas de comércio exterior (CERQUEIRA, 2013). Silva e Kageyama (1980) já afirmavam que para se entender a estrutura dos complexos agroindustriais é necessário realizar uma análise do desempenho de cada segmento que os integra. Além disso, é sabido que o desempenho das agroindústrias está associado ao grau de articulação com o setor agrope- cuário. Pelo fato de trabalharem com economias de escala, as agroindústrias procuram matérias-primas e produtos com qualidade e quantidade, além de preços compatíveis com os resultados que pretendem alcançar. Por isso, o segmento a jusante, ou seja, antes da porteira, atua orientando a inserção e a difusão de tecnologias na atividade agropecuária, causando uma pressão na agricultura, que modifica a sua forma de organização. Nesse sentido, se voltarmos na história, percebemos a importância da agropecuária no desempenho do complexo agroindustrial. No período de crise no crédito rural, de 1980 a 1985, a agropecuária demonstrou um bom resultado, enquanto era visível a recessão do setor industrial. Nesse sentido, o desempenho significativo do segmento agropecuário durante a crise teve grande influência sobre os complexos agroindustriais. Todavia, os produtos que demonstravam maior peso no desempenho favorável da agropecuária nesse período eram aqueles que tinham mecanismos de valorização, incentivos e subsídios, além de crédito e de preços mínimos, como, por exemplo, a soja, o trigo, o algodão, a laranja e o cacau, todos favorecidos por mecanismos de ajustes ou fatores externos, assim como a cana-de-açúcar, que era protegida pelos mecanismos do Proálcool (MARTINE, 1991). 15Análise de complexos agroindustriais Vale ressaltar que ao identificar os fatores críticos de desempenho, a agroindústria tem maior chance de realizar ações por meio de estratégias que resultem em maior ganho ao complexo agroindustrial. No agronegócio, o desenvolvimento e a utilização de estratégias são fundamentais para melhorar o desempenho de complexos agroindustriais. Por isso, o desempenho pode ser uma ferramenta essencial para a gestão dos complexos e para a forma- ção de políticas públicas de apoio ao seu desenvolvimento agroindustrial, ao aperfeiçoar as estratégias de competividade. ALVARENGA, A. L. B. et al. Princípios das boas práticas de fabricação: requisitos para a implementação de agroindústria de agricultores familiares. In: NASCIMENTO NETO, F. (org.). Recomendações básicas para a aplicação das boas práticas agropecuárias e de fabricação na agricultura familiar. Brasília, DF: Embrapa, 2006. (Programa de Agroin- dustrialização da Agricultura Familiar). Disponível em: http://atividaderural.com.br/ artigos/508fdddea0063.pdf. Acesso em: 16 nov. 2019. CASTRO, A. M. G.; LIMA, S. M. V.; SILVA, J. F. V. Complexo agroindustrial de biodiesel no Brasil: competitividade das cadeias produtivas de matérias-primas. Brasília, DF: Embrapa, 2010. CASTRO, A. M. G.; TONANI, F. L.; LIMA, S. M. V. Desafios para o desenvolvimento do com- plexo agroindustrial do eucalipto para agroenergia na região norte do Brasil. Brazilian Journal of Development, v. 5, n. 9, p. 14292–14320, 2019. Disponível em: http://www. brjd.com.br/index.php/BRJD/article/download/3090/3007. Acesso em: 16 nov. 2019. CERQUEIRA, L. S. Análise dos fatores de competitividade na comercialização de bens e serviços na indústria baiana de software. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 33., 2013, Salvador. Anais [...]. Salvador: Enegep, 2013. Disponível em: http://www.abepro.org.br/biblioteca/enegep2013_TN_STO_183_046_22298.pdf. Acesso em: 16 nov. 2019. COUTINHO, L. G.; FERRAZ, J. C. (coord.). Estudo da competitividade da indústria brasileira. 3. ed. Campinas: Papirus; UNICAMP, 1995. ERTHAL, R. Os complexos agroindustriais no Brasil — seu papel na economia e na organização do espaço. Revista Geo-Paisagem, ano 5, n. 9, 2006. Disponível em: http:// www.feth.ggf.br/Complexos.htm. Acesso em: 16 nov. 2019. 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