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TRAUMATO ORTOPÉDICO FUNCIONAL I Gabriela Souza de Vasconcelos Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Listar as técnicas de tratamento conservador. Descrever as fraturas específicas dos membros superiores e inferiores; pélvicas, acetabulares e vertebrais. Propor intervenções fisioterapêuticas relacionadas ao tratamento conservador baseadas nas especificidades das fraturas dos membros superiores e inferiores; pélvicas, acetabulares e vertebrais. Introdução A escolha pelo tratamento da fratura, seja ele conservador ou cirúrgico, é do médico ortopedista, mas o fisioterapeuta deverá saber o tipo e a extensão da lesão, os procedimentos realizados e o tipo de imobilização, visto que qualquer imobilizador, independentemente do tempo de uso, poderá gerar inúmeras consequências que deverão ser resolvidas durante o tratamento fisioterapêutico. Neste capítulo, você vai conhecer as técnicas de tratamento conser- vador da fratura, os principais tipos de fratura de acordo com a região e vai aprender sobre as intervenções fisioterapêuticas aplicadas às fraturas. Tratamento conservador em fraturas A escolha do tratamento defi nitivo de uma fratura é uma decisão do médico ortopedista que atende o paciente no serviço de emergência. Algumas fraturas podem ser tratadas de maneira segura apenas com imobilização, enquanto ou- tras requerem redução fechada (sem tratamento cirúrgico) ou, ainda, necessitam da redução aberta (tratamento cirúrgico) (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). Alguns fatores contraindicam o tratamento conservador, como fraturas intra-articulares deslocadas, lesão arterial associada, métodos fechados que falharam em alcançar ou em manter o alinhamento aceitável, fratura decor- rente de uma lesão metastática, mobilização precoce desejável ou, ainda, se o tratamento cirúrgico fornecer melhor resultado que o conservador para aquele caso (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). Como em qualquer tratamento de fratura, o manejo conservador consiste primeiro em redução fechada para restaurar o alinhamento do osso e orientar a cicatrização e deve ser realizado o mais breve possível (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). A redução pode ser dividida em quatro passos: distração, desencaixe, reposição e liberação. A distração é a aplicação de uma força longitudinal, manualmente ou com pesos, para tracionar e separar os fragmentos ósseos. O desencaixe permite a desimpactação do osso e alivia a tensão nos tecidos moles para permitir que os fragmentos da fratura se reposicionem. A reposição se caracteriza por reverter as forças que causaram a lesão, proporcionando o alinhamento aos fragmentos ósseos. Já a liberação se refere à remoção da força inicial de distração, com o intento de que o alinhamento seja mantido. Nesse momento, é importante o uso de imobilizador para manter o alinhamento, pois as forças como a contração muscular e a gravidade retornam e os fragmentos da fratura têm um risco de ficarem mal alinhados novamente. Após essas quatro etapas, o paciente deve repetir o raio X e a condição neurovascular deve ser reavaliada para assegurar que o pulso esteja presente, que a extremidade tenha perfusão e a função nervosa não tenha sido comprometida durante o procedimento (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). Quando executada da forma correta, as complicações na redução das fraturas são incomuns. Entretanto, mesmo quando as técnicas forem cor- retamente executadas, é possível que ocorram complicações, que incluem: conversão de uma fratura fechada em uma exposta, trauma de tecidos moles durante a redução, produzindo síndrome compartimental, tentativa de redução que cause lesão nos tecidos moles, tornando a fratura mais instável, ou lesão neurovascular devido a laceração ou compressão óssea (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). Após a redução, a estabilização será fornecida por um imobilizador, que manterá a redução e diminuirá a mobilidade dos fragmentos, favorecendo o processo de cicatrização e consolidação do osso. Nos adultos, algumas fraturas costumam ser tratadas de forma mais eficiente pelas abordagem não Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador2 operatória, como, por exemplo, as fraturas não deslocadas ou minimamente deslocadas da tíbia e do úmero, mas essa abordagem requer acompanhamento regular, uma vez que deslocamentos do foco da fratura são frequentes antes da consolidação (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). Os imobilizadores podem ser temporários ou definitivos no tratamento da fratura e, normalmente, mais de um tipo de imobilização é utilizado até que a fratura esteja consolidada. O tipo de imobilização será escolhido pelo médico e dependerá do tipo da fratura, da extensão da lesão, da idade e das condições de saúde do paciente. O fisioterapeuta deverá saber o tipo e a extensão da lesão, os procedimentos realizados, além de conhecer o tipo de imobilização, visto que qualquer imobilizador, independentemente do tempo de uso, poderá gerar rigidez articular, fraqueza muscular, alteração na circulação sanguínea, na propriocepção e na cinestesia. O tempo para a consolidação é mais longo e o risco de complicações, como a não união, o desalinhamento e a rigidez das articulações adjacentes, é maior (ATKINSON; COUTTS; HASSENKAMP, 2005). Alguns exemplos de tratamento conservador com o uso de imobilização são as tipoias ou bandagens (triangular, colar e manguito, high sling, bandagem corporal), talas, gessos, splints, tração esquelética e tração cutânea, entre outros (ATKINSON; COUTTS; HASSENKAMP, 2005). Bandagem triangular: é usada para suportar o peso do antebraço e aliviar o peso na parte superior do braço em fraturas ou lesões ao redor do ombro, úmero ou cotovelo (Figura 1). Figura 1. Bandagem triangular. Fonte: Motortion Films/Shutterstock.com. 3Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador Colar e manguito: a aplicação é muito semelhante à da bandagem triangular, mas a principal vantagem é o apoio no pulso. Dessa forma, o úmero é deixado sem suporte, de modo que uma força de tração gravitacional seja exercida nele, permitindo a correção da fratura no eixo longitudinal (Figura 2). Figura 2. Colar e manguito. Fonte: ILYA AKINSHIN/Shutterstock.com. High sling: suporta todo o braço e mantém a mão/pulso em elevação, reduzindo o risco de inchaço na mão. Esse tipo de bandagem é usado em fraturas de mão, punho e antebraço tratadas com ou sem splint externo. Bandagem corporal: é uma tipoia que suporta o braço, como a ban- dagem triangular, mas o braço é enfaixado para o lado, para que possa ser usado apenas sob as roupas. Um curativo corporal é usado pre- dominantemente para impedir o movimento da parte superior braço, especialmente nos estágios iniciais (1 a 10 dias) após fratura da cabeça do úmero ou após cirurgia no ombro. A bandagem corporal precisa ser reaplicada regularmente, pois o suporte vai diminuindo com o tempo (Figura 3). Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador4 Figura 3. Bandagem corporal. Fonte: belushi/Shutterstock.com. Independentemente do tipo de bandagem escolhida, o paciente deve ser orientado a manter as articulações não acometidas e não dolorosas em movi- mento e realizar contrações isométricas para manutenção do tônus. Tala As talas não são circunferenciais e permitem que a extremidade inche sem aumentar a pressão do tecido, e isso faz com que elas sejam diferentes dos gessos. Além disso, como a tala permite a penetração do frio, as compressas de gelo podem ser aplicadas no local da lesão. Em função disso, as talas são mais usadas na fase inicial do tratamento das fraturas, mas fornecem mais movimento e menos estabilidade, o que faz com que o gesso seja aplicado assim que o edema no local diminui. Gesso Qualquer paciente com um gesso circunferencial deve receber instruções escritas descrevendo os sintomas da síndrome compartimentalcom um gesso muito apertado. Em casos de exacerbação dos sintomas, como dor e edema, 5Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador sensação de frieza, alteração na cor da pele das porções distais da extremidade, o paciente deve retornar imediatamente, pois o gesso está muito apertado. As vantagens do gesso é que é barato, fácil de aplicar, útil na imobilização da maioria dos locais de fraturas, pode ser facilmente reforçado ou substituído e pode ser colocado sobre pequenas feridas ou cicatrizes depois de terem sido cobertas (Figura 4). As desvantagens incluem potencial oclusão vascular, úlceras por pressão, infecção não diagnosticada e rigidez articular após o uso. Além disso, existem ainda algumas desvantagens para o paciente, como o peso do gesso, especialmente no membro inferior, o fato de ele ser quente e provocar coceira e de desintegrar-se no caso de ser molhado. As vantagens superam em muito as desvantagens, e o gesso é a primeira escolha de imobilização para a maioria das fraturas simples. No caso de o paciente ser idoso e frágil ou, então, um jovem que queira continuar sua rotina ativamente, o ideal seria um suporte sintético, mais leve. Figura 4. Exemplo de uma aplicação de gesso para tratar fraturas. Fonte: Andrey_Popov/Shutterstock.com. Tração A tração não é normalmente usada como único tratamento da fratura, podendo ser empregada quando a cirurgia for contraindicada ou como uma medida temporária antes de um reparo cirúrgico. É utilizada até que alguns ganhos sejam obtidos, tais como: cura de feridas na pele ou outras lesões nos tecidos Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador6 moles adjacentes e diminuição do espasmo muscular para que o comprimento correto do membro possa ser alcançado. A tração pode ser aplicada à pele (tração cutânea) ou ao osso (tração es- quelética) para alinhar as fraturas. Dessas duas, a tração esquelética (Figura 5) é a mais comumente utilizada atualmente, principalmente nas fraturas dos membros inferiores. Caracteriza-se pela passagem de um fio pela proeminência óssea distal ao local da lesão, e os pesos são usados para favorecer o alinha- mento dos ossos envolvidos. Já a tração cutânea é menos utilizada, pois os pesos e a fita adesiva podem causar avulsão das camadas superficiais da pele. Figura 5. Tração esquelética. Fonte: Peter Porrini/Shutterstock.com. Não deve ser feito nenhum alongamento ou exercício de força distalmente ao local da fratura até que o osso seja curado radiologicamente. É preciso, além disso, cuidar as forças de compressão ou cisalhamento articular por várias semanas após o período de imobilização. 7Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador Tipos de fraturas Membro superior As principais fraturas que ocorrem no membro superior são diáfi se do úmero, da região distal do úmero e do cotovelo (olecrano, processo coronoide, cabeça do rádio), dos ossos do antebraço, dos ossos do carpo e da mão (SIZÍNIO et al., 2016). A fratura da diáfise do úmero pode ocorrer por trauma direto ou indireto, sobretudo em quedas com a mão espalmada, acidentes automobilísticos, trau- matismos diretamente sobre o úmero ou em desportistas, como praticantes de artes marciais e esportes radicais em geral. Em relação às fraturas do úmero, as distais representam um terço das fraturas do úmero, mas são complexas e de difícil tratamento. Em função da anatomia da região distal do úmero, o mau alinhamento gerado pela fratura ou pelo tratamento inadequado pode limitar os movimentos de flexão e extensão do cotovelo. Já as fraturas da cabeça do rádio são muito comuns (33% de todas as fraturas do cotovelo) e ocorrem em jovens a partir de um trauma ou queda com o punho estendido e a radio-ulnar pronada, gerando um valgo de cotovelo. As fraturas no antebraço podem gerar limitações nos movimentos de pro- nação e supinação. Podem ser fraturas simples, fraturas em cunhas e fraturas complexas, tanto da ulna quanto do rádio ou, ainda, dos dois. Em relação à incidência das fraturas dos ossos do carpo, o escafoide está envolvido em 78,8%; o piramidal, em 13,8%; o trapézio, em 2,3%; o hamato, em 1,5%; o semilunar, em 1,4%; o pisiforme, em 1%; o capitato, em 1%; e o trapezoide, em 0,2%. O mecanismo associado com a fratura de escafoide é a queda com a mão espalmada, ou seja, extensão e desvio radial do punho. Os metacarpos e as falanges são frequentemente acometidos por fraturas, seja por trauma direto, torção ou contrações musculares muito intensas, e o tratamento deve ser adequado para evitar rigidez articular e perda da capacidade funcional dos dedos e da mão. Membro inferior Nos membros inferiores, as fraturas mais comuns ocorrem no colo do fêmur, na diáfi se do fêmur, na região distal do fêmur, no platô tibial, na diáfi se da tíbia, no calcâneo, no tálus, nos metatarsos e falanges (SIZÍNIO et al., 2016). As fraturas do colo do fêmur podem ser divididas em intracapsulares ou extracapsulares da região trocantérica. As intracapsulares podem ser me- Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador8 diocervical ou subcapital, e essa localização pode interferir na evolução da consolidação da fratura pela vascularização da região. Já as extracapsulares (transtrocantéricas, peritrocantéricas, intertrocantéricas ou trocantéricas) apresentam bom prognóstico, pois a área é bem vascularizada e há pouca chance de ocorrer necrose do local (SIZÍNIO et al., 2016). Nos dias atuais, as fraturas da diáfise femoral são cla ssificadas de acordo com sua morfologia e seu grau de cominuiç ã o em fraturas simples, fraturas em cunha e fraturas complexas. Na região distal do fêmur, podem ocorrer as fraturas supracondiliana, unicondilar e supra e intercondilar. A fratura supracondiliana do fêmur é extra-articular e ocorre pelo movimento de hiperextensão, forçando o osso em flexão no plano sagital. A base da patela pressionada sobre a região metafisária pode agir como um fulcro, ajudando a produzir a fratura. A unicondilar se caracteriza pela fratura do côndilo lateral ou do medial (plano frontal) ou pela fratura da parte posterior do côndilo femoral lateral ou medial (plano sagital). O mecanismo de lesão é o varo de joelho, que força o fêmur contra o platô tibial. Já a fratura supra e intercondiliana, que é multifragmentária, ocorre pelo trauma direto contra o joelho em flexão, visto que a patela está apoiada sobre o fêmur distal e age como um fulcro entre os dois côndilos, forçando sua separação (SIZÍNIO et al., 2016). As fraturas do platô tibial atingem a articulação de maior superfície cartila- ginosa do organismo humano, portanto, a integridade articular dessa articulação deve ser preservada, pois tem importância na descarga do peso corporal e na locomoção. As fraturas da diáfise da tíbia são provocadas por trauma direto ou indireto sobre a perna ou por força de torção, es tando o pé fixo no solo. Dos ossos do tarso, o calcâneo é lesado com maior frequência, as fraturas podem ser intra ou extra-articulares e decorrem de um trauma axial no retropé, como queda de altura ou acidente automobilístico (SIZÍNIO et al., 2016). As fraturas dos metatarsos são as mais comuns do pé, contando com 35% das fraturas do pé e 5% das do corpo, sendo as mais comuns em acidentes de motocicleta e de traumas diretos sobre o mediopé. As fraturas dos metatarsais podem ser divididas em três grupos: primeiro metatarsal, metatarsais médios e quinto metatarsal. As fraturas das falanges são as mais comuns do antepé. O trauma na ponta dos dedos é muito frequente nas atividades com os pés descalços, sobretudo em jogos de futebol. Em geral, as fraturas das falanges recebem tratamento conservador, com imobilização por esparadrapagem, utilizando o dedo adjacente como suporte. Porém, deve-se ter atenção com os desvios torsionais e angulares grosseiros, que são facilmente reduzidos após um bloqueio anestésico digital (SIZÍNIO et al., 2016). 9Princípios gerais das fraturas:tratamento conservador Acetábulo As fraturas de acetábulo, em geral, são ocasionadas por aci den tes automo- bilísticos. Apesar de não se rem frequentes, preocupam por sua gravidade e seus potenciais riscos à vida e à função dos pacientes. Essas fraturas podem ser divididas em elementares ou padrão simples e fraturas associadas ou complexas. As elementares possuem apenas um traço de fratura, enquanto as associadas possuem dois ou mais. As fraturas elementares podem ocorrer na parede posterior, na parede anterior, na coluna anterior, na coluna posterior ou transversa. Já as associadas ocorrem em T, nas duas colunas, na coluna posterior e na parede posterior, na coluna anterior e na parede anterior, trans- versa e posterior (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008; SIZÍNIO et al., 2016). Pelve As fraturas da pelve são geralmente ocasionadas por acidentes automobilísticos e quedas de grandes alturas. Quatro são as forças possíveis no trauma pélvico: compressão anteroposterior — rotação externa da hemipelve; compressão lateral — rotação interna da hemipelve; cisalhamento vertical e padrão com- plexo (lesões combinadas). Nos casos de compressão anteroposterior, ocorre abertura da sínfi se ou fratura do ramo; na compressão lateral, ocorre fratura sacral; no cisalhamento, pode ocorrer desvio vertical da hemipelve associado ou não com fratura do ramo, da asa do ilíaco e do sacro, com diástase da sínfi se ou lesão posterior da sacroilíaca (SIZÍNIO et al., 2016). As fraturas da pelve são classificadas em estáveis, parcialmente estáveis e instáveis. As estáveis são por avulsão, minimamente desviadas, fratura isolada da asa do ílio ou fraturas isoladas do cóccix ou do sacro. As parcial- mente estáveis são por lesão em livro aberto, lesão por compressão lateral ou compressão lateral bilateral (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008). Vertebrais Coluna cervical As principais lesões da coluna cervical alta são fratura do côndilo occipital, fraturas de atlas e de áxis (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008; SIZÍNIO et al., 2016). As fraturas do côndilo occipital são consideradas raras e tratadas de forma conservadora, com um bom prognóstico se não houver outras lesões associadas. Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador10 As fraturas de C1 correspondem a 2% de todas as fraturas da coluna vertebral e são causadas pela compressão vertical do crânio sobre o atlas. Já a fratura do odontoide da áxis representa 9 a 15% das fraturas cervicais da população adulta, sendo a fratura mais comum nessa região e causada pelo movimento de flexo-extensão exagerado (lesão de chicote), que pode ocorrer em acidentes automobilísticos, por exemplo. As lesões da coluna cervical baixa podem ser classificadas de acordo com quatro critérios: morfologia, lesão facetária, estado neurológico e modifica- dores específicos. Em relação à morfologia, dividem-se em lesão de compressão, banda de tensão e translação (SIZÍNIO et al., 2016). Lesões de compressão: falha das estruturas anteriores sob compressão ou fraturas insignificantes mecanicamente dos processos espinhosos. Lesões de banda de tensão: acometem a banda de tensão anterior ou posterior. Lesão de translação em qualquer eixo: inclui lesões com deslocamento ou translação de um corpo vertebral em relação ao outro em qualquer direção. Coluna toracolombar As fraturas das colunas torácica e lombar são as mais frequentes do esqueleto axial e correspondem a cerca de 89% das fraturas da coluna vertebral. A maior incidência de fraturas na região toracolombar está relacionada com a redução da estabilidade entre a coluna torácica, que é mais rígida e estável, com a co- luna lombar, a qual apresenta maior mobilidade. As causas mais frequentes de fraturas da coluna toracolombar são queda de altura, acidentes automobilísticos e trauma direto. Os mecanismos que geram as fraturas na coluna toracolombar são compressão (diminuição da altura do corpo vertebral), distração (ruptura anterior ou posterior) e rotação (desvios rotacionais) ou, ainda, a combinação de mais de um deles (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008; SIZÍNIO et al., 2016). Dentre as fraturas geradas por forças compressivas, estão as impacta- das, as de separação e as tipo explosão. As fraturas ocasionadas por forças de distração são rotura posterior predominantemente ligamentar, rotura posterior predominantemente óssea e rotura anterior ao longo do disco in- tervertebral. Já as fraturas ocasionadas por forças de rotação são lesões do tipo cisalhamento-rotação ou, então, a combinação das compressivas com rotação e distração com rotação, sendo mais graves (RÜEDI; BUCKLEY; MORAN, 2008; SIZÍNIO et al., 2016). 11Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador Intervenção fisioterapêutica no tratamento conservador de fraturas No momento da fratura, não ocorre só a lesão óssea, mas também a lesão dos tecidos moles ao redor da fratura com sangramento e formação de cica- triz, que pode restringir a mobilidade dos tecidos na região da lesão. Além disso, algumas alterações ocorrem com a imobilização, como, por exemplo, enfraquecimento do tecido conjuntivo, degeneração da cartilagem articular, lentidão do sistema circulatório, atrofi a muscular, desenvolvimento da con- tratura, diminuição da amplitude de movimento e da fl exibilidade muscular e, ainda, dor nas articulações adjacentes quando o movimento começa. Essa dor tende a passar conforme a força e a mobilidade melhoram (DUTTON, 2010; PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Para favorecer a cicatrização desses tecidos, a mobilização precoce, não destrutiva e dentro da tolerância do local da fratura seria ideal, mas não é viável, ainda mais quando se trata de tratamento conservador. Essa mobilização precoce pode ser realizada em casos nos quais haja algum tipo de fixação interna estabilizando a fratura (KISNER; COLBY, 2015). As condutas fisioterapêuticas deverão ser escolhidas de forma que me- lhorem os déficits adquiridos em função da imobilização, como a rigidez e a amplitude de movimento, a dor, o edema, a força, o alongamento, a pro- priocepção, e que mantenham a função física, mas que não comprometam o alinhamento da fratura durante o período de consolidação. Exercícios gerais para as partes não acometidas do corpo são iniciados para minimizar problemas musculoesqueléticos, como fraqueza, rigidez articular, contraturas, além de problemas cardiorrespiratórios e circulatórios (DUTTON, 2010; PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Algumas adaptações funcionais também são importantes e devem ser ensinadas aos pacientes. No caso de facilitar e promover a deambulação do paciente, podem ser usados dispositivos auxiliares, como muletas ou andador, que serão escolhidos de acordo com o local da fratura, o tipo de imobilização e as capacidades funcionais do paciente (KISNER; COLBY, 2015). A consulta com o médico responsável é necessária para determinar se há cura clínica ou radiológica. Até que o local da fratura seja curado radiologica- mente, deve-se tomar cuidado sempre que houver estresse no local da fratura, como ao aplicar resistência ou força de alongamento ou durante atividades de sustentação de peso. Uma vez curado radiologicamente, o osso tem integridade estrutural normal e pode suportar o estresse normal (KISNER; COLBY, 2015). Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador12 Uma avaliação fisioterapêutica deve ser realizada para identificar defici- ências e determinar o status funcional atual, o nível de atividade e o resultado desejado. A partir dessa avaliação minuciosa, tanto no local da fratura quanto nas demais articulações que podem ser acometidas por compensações pela fratura, o fisioterapeuta decidirá que condutas e intervenções serão mais adequadas para o tratamento do paciente (DUTTON, 2010; PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Os objetivos da reabilitação são controlar a dor e a inflamação, facilitar o processo de cicatrização, melhorar a força e a flexibilidade muscular, corrigira postura e possíveis compensações, manter ou aprimorar o estado físico geral, educar o paciente e garantir o retorno seguro ao trabalho, às atividades de vida diária e às atividades esportivas (DUTTON, 2010; PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). As intervenções típicas incluem técnicas de mobilização articular e mo- bilização cicatricial, alongamento e inibição muscular, treino de resistência e força muscular e treino de atividade funcionais (DUTTON, 2010; PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Mobilização articular: existem inúmeras técnicas de mobilização articular, como Maitland, Mulligan, osteopatia, quiropraxia, e elas são eficazes para recuperar a perda articular sem traumatizar a cartilagem articular ou estressar o local da fratura. A intervenção começa com alongamentos suaves e progride em intensidade à medida que a reação articular se torna previsível. Mobilização do tecido cicatricial: essa técnica é usada quando o tecido cicatricial restringe os movimentos e a escolha da técnica depende do tecido envolvido. Alongamento e inibição muscular: as técnicas de alongamento passivo e facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP) são usadas durante o período pós-imobilização porque a intensidade pode ser controlada pela tolerância do paciente. É importante monitorar a intensidade da contração e não aplicar a força resistiva ou de estiramento além do local da fratura até que haja cura radiológica do osso, a fim de evitar uma força de flexão a partir do local da fratura. Uma vez que o osso é curado radiologicamente, a força de alongamento pode ser aplicada além do local da fratura. Exercícios de fortalecimento e resistência muscular: o treino de força e resistência deve ser iniciado de 2 a 3 semanas após a imobilização, porque nem o osso nem a cartilagem podem tolerar forças excessivas 13Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador de compressão ou flexão e, quando iniciados, deve ser realizado em isometria para depois progredir para exercícios isotônicos. Atividades funcionais: o paciente pode retomar as atividades normais com cautela. Durante o período pós-imobilização precoce, é importante não traumatizar o músculo enfraquecido, a cartilagem, o osso e o tecido conjuntivo. A descarga de peso parcial deve ser continuada por várias semanas após uma fratura na extremidade inferior até que o local da fratura esteja completamente curado e seja capaz de tolerar o peso corporal total. Se o a ser reabilitado for uma criança com fratura de rádio com trata- mento conservador, por exemplo, os objetivos a médio e longo prazo serão reestabelecer a força muscular, a amplitude de movimento, a coordenação e propriocepção do membro superior; a longo a prazo, os objetivos serão que ela retorne às suas atividades diárias e atividades esportivas sem nenhum prejuízo de força ou de movimento. Então, nas últimas fases do tratamento, as condutas serão alongamentos, exercícios resistidos, treino de propriocepção e coordenação, de preferência lúdicos por causa da idade, e, ainda, treino das atividades da criança, como simular vôlei, natação, basquete, escrita, gestos funcionais, como se alimentar, escovar os dentes, pegar objetos e brincadeiras que a criança refira gostar de fazer. ATKINSON, K.; COUTTS, F.; HASSENKAMP, A. Physiotherapy in orthopaedics: a problem- -solving approach. 2nd ed. London: Churchill Livingstone, 2005. DUTTON, M. Fisioterapia ortopédica: exame, avaliação e intervenção. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. KISNER, C.; COLBY, L. A. Exercícios terapêuticos: fundamentos e técnicas, 6. ed. Barueri: Manole, 2015. PRENTICE, W. E. Fisioterapia na prática esportiva: uma abordagem baseada em compe- tências. 14. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. RÜEDI, T. P.; BUCKLEY, R. E.; MORAN, C. G. Princípios AO do tratamento de fraturas. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. SIZÍNIO, K. H. et al. Ortopedia e traumatologia: princípios e práticas. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador14 Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15Princípios gerais das fraturas: tratamento conservador