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O MOVIMENTO NEGRITUDE E AS RESISTÊNCIAS NEGRAS BRASILEIRAS 1. A FRENTE NEGRA BRASILEIRA .............................................................................. 4 2. O TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO ...................................................................... 8 3. MOVIMENTO NEGRO NA ATUALIDADE ................................................................. 9 4. FECHAMENTO ....................................................................................................... 10 5. REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 11 3 2 3 AULA 3 O MOVIMENTO NEGRITUDE E AS RESISTÊNCIAS NEGRAS BRASILEIRAS Compreender as diferentes formas de movimento e manifestação contra o racismo, tomando como exemplo o movimento da Frente Negra brasileira; Perceber como por meio do Teatro Negro Brasileiro alguns tabus sobre o afro-brasileiro foram derrubados; Refletir sobre alguns conceitos politicamente corretos no tratamento contra o racismo no Brasil. 4 1. A FRENTE NEGRA BRASILEIRA O afrodescendente, além de ver na liberdade uma árdua barreira no caminho da cidadania, também encontrou uma forte concorrência para conseguir trabalho. Saindo do campo em direção à cidade, muitos negros foram desprezados em todos os seus conhecimentos artesanais e produtivos. A população negra, além de diminuir, ainda ficou à margem da sociedade. Naquela época e ainda hoje, as massas são temidas pelas suas formas de manifestações e protestos, e por este motivo, até hoje a polícia é um forte instrumento repressor para impedir qualquer movimento considerado rebelião ou manifestação violenta, já que os negros estavam em desvantagem social. O poder político que considerava a questão social um problema da polícia, garantiu o prestígio militar em 1870, depois da Guerra do Paraguai, considerando a polícia uma das instituições nacionais mais importantes do Brasil, principalmente para repelir possíveis rebeliões, para espantar negros em protesto, para impedir arruaças dos libertos que não tinham seus direitos civis. Isso, em função das muitas manifestações que ocorreram e ainda poderiam ocorrer por causa da nítida desigualdade social1. Na chamada Segunda República (1930), que abrangeu o período Vargas, os direitos civis foram estabelecidos numa linha de não-confrontação em que nacionalismo e patriotismo definiram limites do discurso racial de 1930 até 1980. Neste contexto, a Constituição de 1934 passava a controlar a imigração e favorecer cotas para o exercício da “integração étnica” no País. A mistura de etnias e culturas praticadas desde Brasil colônia, entre escravos e senhores do engenho em sua casa-grande, propagou-se no século XX e fez do Brasil o país mais miscigênico da história social das nações. A amistosidade descrita na obra Casa Grande & Senzala motivou Gilberto Freyre2 a apontar uma democracia racial a partir do convívio pacífico entre escravos e fazendeiros. Para Freyre, a inter-relação entre negros e brancos era positiva, em especial quando se tratava do escravo doméstico, cujas tarefas (amamentar as crianças brancas, educá-las quando as distraía nas horas de lazer, nas refeições, e principalmente nos momentos de repreensão por alguma peraltice, quando rezavam juntos as orações católicas e também quando lhes ensinavam canções de ninar e cantigas infantis) eram fundamentais. 1 O estigma do negro bagunceiro, maloqueiro, malandro e bandido começou desde esse período e persiste até hoje. Com o advento dos movimentos negros na década de 70, a simples aparência do negro era motivo para decretar a prisão do indivíduo de cor. 2 Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala.. 47ª ed. revista. São Paulo: Global 2003, p. 458. 5 Como minoria social, afirmar sua representatividade sempre foi uma luta para o afro- brasileiro. SAIBA MAIS Existem matérias interessantes sobre o Movimento negro e sua expansão no Brasil, como é o caso desta referência. Assista no Youtube em https://www.youtube.com/watch?v=qZqDK38fFgk Aos poucos os negros libertados da condição de escravos perceberam que a luta pelo reconhecimento da sua cidadania era algo que deveria ser conquistado coletivamente. O indivíduo negro tornou-se ator social coletivo e passou a lutar pela construção da identidade afro-brasileira por meio de movimentos e organizações. No campo da singularidade, em que o sujeito é reconhecido como indivíduo, mas não como pessoa de fato, faltava-lhe construir uma identidade. Os atores sociais não-negros criam uma barreira entre comportamento, fala e trabalho, voltados para uma socialização unilateral em que o processo multirracial funcionaria apenas para manter aparências no padrão de comportamento dos indivíduos, mas na prática os valores de uma única etnia eram a tendência que regia o modo de agir das pessoas. Os valores impostos pelos brancos estavam muito presentes na sociedade. Permitir a construção da identidade do negro a partir de um projeto de vida diferente e a partir da necessidade de luta contra a desigualdade e do distanciamento social parecia ser a ação mais evidente. São manifestações que vinham e ainda hoje vêm sendo realizadas desde a Abolição, porém entre grupos isolados. A ideia de coletividade nesse sentido refere-se à formação de uma ação conjunta que ultrapasse os limites de um agrupamento social, ou mesmo de uma comunidade que formasse múltiplas vozes que permitiriam ao movimento de passagem do singular para o comum, do indivíduo para a comunidade, do “negrinho” para a comunidade afrodescendente, que de maneira alguma representará a homogeneidade de luta e desejos únicos para a justiça e igualdade social, porém representará a união de forças para mostrar ao mundo que o Brasil definitivamente não é a democracia racial que muitas nações reconhecem. 6 A falta de uma perspectiva social mais sólida e o árduo trabalho que ficou nas mãos do negro, fez com que muitos afro-brasileiros não encontrassem alternativa nenhuma para ter uma formação e muito menos acesso a informações. Os poucos negros que conseguiam ter acesso à educação fizeram-no à base de muito sacrifício, pois tiveram que provar antes de tudo que a inferioridade intelectual era uma invenção do homem branco com ideais eugenistas3. O embranquecimento no Brasil significava que no país havia um esforço enorme para tornar-se o país, um território de pessoas brancas, e que por isto projetaria a imagem da brancura para o mundo da economia concorrente no capitalismo industrial4. Assim, a maioria das representações nacionais, em qualquer área, de música, esporte, etc., era branca. A figura do negro tinha que se destacar usando os meios de comunicação, criando instituições que lançassem personalidades negras, criando a voz da comunidade negra. De fato, dentre os discursos pela igualdade racial, alguns ativistas preferiram unir interesses entre os próprios negros e formaram uma espécie de clube do negro no qual brancos, afrodescendentes e simpatizantes pela causa se uniam para estabelecer metas de luta e organização. SAIBA MAIS Dentre muitos artigos interessantes recomendo esse para que você possa identificar a prática política de embranquecimento, não só atualmente, mas em outros períodos históricos, ou seja, a prática do racismo e da discriminação acompanharam a evolução humana e fizeram parte do imaginário coletivo de muitas sociedades. https://www.geledes.org.br/tag/embranquecimento/ Uma forte experiência foi a Frente Negra Brasileira, fundada em 16 de setembro de 1931, que durou até 1937, tornando-se partido político em 1936. Foi a mais importante entidade criada pelos afrodescendentes na primeira metade do século XX, no campo sociopolítico. Sua meta principalera alfabetizar e oferecer aos associados a chance de obter habilidades. Com sede em São Paulo, especificamente na região da Liberdade, num local conhecido como Casa de Portugal, contou com a ajuda de intelectuais negros e ativistas que tinham alguma formação acadêmica, ou mesmo de políticos e personagens do governo 3 Eram denominados por Eugenista ou Eugenia toda e qualquer atitude do branco voltada para a cultura europeia, com objetivos claros de eliminar a etnia negra. Foi um termo criado por Francis Galton (1822-1911), que a definiu como o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações. 4 O Brasil já vivia rumores deste capitalismo, mas efetivamente o governo que investiria em indústria com bastante afinco, num país historicamente agrário, seria na política de Getúlio Vargas na década de 30. 7 brasileiro, para realizar o sonho de criar uma organização em que se pudesse resgatar a autoestima dos afro-brasileiros. Na sede da Frente Negra, em São Paulo, existiam departamentos, e em cada um deles, havia líderes incumbidos de capacitar os associados. Os chefes dos setores tinham como responsabilidade agendar reuniões periódicas, contratar e organizar as oficinas educacionais, promover encontros importantes para a realização dos debates. Gerenciavam seus setores a fim de que houvesse processos de conhecimento, de informação, mas também de integração entre todos os participantes. Por isso, os bailes, as festas com tocatas, o teatro, as cantorias eram fundamentais. A maioria dos associados inscrevia-se por causa dos bailes e das festas, entretanto durante os eventos havia a divulgação e conclamação da necessidade de cada indivíduo, principalmente dos afro-brasileiros, de buscar conhecimentos, alfabetizarem-se, profissionalizar-se. A organização política e social da Frente Negra era tanta e ganhou tamanha dimensão, que empregadores e até mesmo policiais só davam crédito às pessoas negras que apresentassem a carteirinha de sócio da Frente. Muitas famílias não aceitavam empregadas domésticas negras para trabalhar em suas casas se não apresentassem a carteirinha de associada dessa entidade. Havia pontos de encontro entre militantes da Frente Negra espalhados por todo o Brasil5, para estabelecer dentre outras ações, trocas de experiências culturais, palestras, leitura de poemas, danças e, é claro, o elemento musical (composição e apresentação). Figura 1: Modelo de carteira de associado da Frente Negra6. 5 Além da matriz em São Paulo, unidades do movimento alcançaram outros estados do território nacional. 6 Fonte: arquivo pessoal do ex-associado Francisco Lucrécio. 8 Os meios de comunicação que pudessem ser grandes aliados da causa negra eram confiscados por autoridades do governo. A Frente Negra coordenou ações no horizonte político e de integração, voltada ao aprimoramento escolarizado da consciência e aos valores dos negros. Para tanto, o jornal A Voz da Raça foi um dos veículos mais relevantes, abria suas portas aos sábados e domingos para os encontros festivos, e durante a semana, cada departamento, dentro da sua especificidade, dedicava-se às práticas educativas e profissionalizantes. Recebia autoridades como Oswald de Andrade, Nina Rodrigues, Manuel Querino, Plínio Salgado7, personagens que apoiavam e respeitavam a seriedade da Frente Negra, ou mesmo outros convidados que polemizavam a causa dos afro-brasileiros. As reuniões eram iniciadas sempre com a leitura de um poema ou com a cantoria de um grupo e na sequência o debate. A Frente Negra Brasileira representou uma das primeiras manifestações de resistência, no qual, a violência não precisou estar à frente desta batalha8. 2. O TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO Outra experiência para a formação da coletividade e a integração na luta contra o racismo no Brasil foi o TEN (Teatro Experimental do Negro), cuja origem ocorreu em 1944. Tinha como objetivo lutar para educar os afro-brasileiros sobre a necessidade de entender que não havia raça superior e servidão natural, que os afro-brasileiros deveriam ter políticas que possibilitassem sua ascensão, e principalmente que o racismo deveria ser combatido pelo código de conduta da Constituição brasileira. Um dos seus fundadores intelectuais, Abdias do Nascimento, quando em 1941 acompanhava a peça de Eugene O’Neil, O imperador Jones, na cidade de Lima, capital do Peru, no Teatro Municipal da cidade, espantou-se com o fato de o herói da peça ser um branco tingido de preto. “Por que um branco brochado de negro? ” Foi a pergunta que se fez Abdias e que o motivou a fazer algo a respeito. Abdias do Nascimento sabia da capacidade do homem negro de interpretar, cantar, e outras mais. 7 A presença de Plínio Salgado na Frente Negra Brasileira foi talvez, a manifestação política mais evidente do partido para ganhar adeptos e apoio político. Porém, nâo há registros que confirmem esta análise, sabe-se apenas que representações da comunidade negra apoiavam os ideais de Salgado. 8 Leia mais sobre o assunto em: BARBOSA, Márcio. Frente Negra Brasileira, depoimentos. São Paulo: Quilombhoje, 1998. 9 Também eram instituídos fóruns de debates para discutir os direitos civis dos negros, analisando-se as discriminações cultural e econômica. O TEN foi fundado em 1944 por um grupo de artistas e intelectuais negros, revelou muitos atores negros como Aguinaldo Camargo, cuja atuação em O Imperador Jones de Eugene O´Neil teve repercussão internacional, por ser desta vez, um ator negro a atuar na peça de O´Neil. Foi atuante até 1968, quando se dissolveu devido, entre outras coisas, à repressão movida pelo regime militar que levou seu principal idealizador, Abdias do Nascimento, ao exílio. Foram muitos os personagens que apoiaram a ideia de Abdias. A começar por Mário de Andrade, Aguinaldo de Oliveira Camargo (advogado), Wilson Tibério (pintor), Teodorico do Santos, José Herbel, e mais tarde, com o projeto em andamento: Sebastião Rodrigues Alves (militante negro), Arlinda Serafim, Ruth de Souza, Marina Gonçalves (empregadas domésticas), Claudiano Filho, Oscar Araújo, José da Silva, Antonieta, Antônio Barbosa, Natalino Dionísio, Solano Trindade e tantos outros, com ou sem formação, que ingressaram no TEN. Partindo do próprio Abdias, poucos eram os que tinham algum conhecimento da arte de interpretar. O TEN queria propor uma ação contra o racismo nos campos da cultura, economia, educação, política, meios de comunicação, justiça pública e social. Eram os mesmos objetivos propostos pela Frente Negra, na qual a cultura foi o caminho mais oportuno para evidenciar as razões e os sentimentos dos afro-brasileiros sobre uma injustiça jamais reconhecida no território brasileiro desde a Abolição da Escravatura. 3. MOVIMENTO NEGRO NA ATUALIDADE Muitas organizações que surgiram ao longo da luta para desmascarar a democracia racial brasileira deixaram claro que é prioridade o negro reconhecer-se como negro, saber quem é e qual a sua importância cultural, social e psicológica na sociedade em que vive. Frente à esta convicção outros movimentos foram ganhando espaço e corpo, principalmente, após a Constituição de 1988. Podemos afirmar, sem medo de errar, que a primeira década do século 21 foi virtuosa para o movimento negro brasileiro, para o combate ao racismo e promoção da igualdade racial no Brasil9. 9 Em 2001, ocorreu a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância, em Durban/África do Sul, e o Estado brasileiro assumiu- pela primeira vez - a existência do racismo em nosso país. Assinou, assim, a Declaração de Durban - que instituiu a escravidão e o tráfico de escravos como crimes de lesa humanidade - e indicou 10 4. FECHAMENTO Concluímos nesta aula: 1. O afro-brasileiro criou formas de resistência no campo cultural para dar maior visibilidade ao negro na sociedade; 2. Um desses movimentos foi a instituição da Frente Negra brasileira, um Clube para associados, negros ou não-negros, onde desenvolviam atividades relacionadas à formação e à informação; 3. O sucesso da Frente Negra o elevou à categoria política, portanto, obtendo apoio de personagens importantes no meio Político e Cultural; 4. Abdias do Nascimento, filósofo, vislumbra um Teatro, onde o negro pudesse atuar de fato, colocando em prática esse projeto; 5. O TEN também alcança patamares políticos e dá nome e fama a muitos personagens negros que se destacaram com o tempo; 6. Na atualidade, diversos movimentos políticos apoiaram e ajudaram outros movimentos negros a surgirem como espaço para debates e combates à discriminação e ao racismo. políticas de ações afirmativas para a superação das sequelas. Em 2003, a Lei 10.639 inseriu a História da África e Cultura Afro Brasileira nas escolas, e o Decreto 4887 regulamentou a certificação das terras quilombolas. 11 5. REFERÊNCIAS BEHAR, Patrícia Alejandra (Org.) Modelos pedagógicos em educação a distância. Porto alegre: Artmed. 2009. SILVA, Marco. PESCE, Lucila. ZUIN, Antonio (Org.). Educação online: cenário, formação e questões didático-metodológicas. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010. TORI, Romero. Educação sem distância: as tecnologias interativas. São Paulo: SENAC SP, 2010. 12 1. A FRENTE NEGRA BRASILEIRA 2. O TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO 3. MOVIMENTO NEGRO NA ATUALIDADE 4. FECHAMENTO 5. REFERÊNCIAS