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LEITURA E ESCRITA ACADÊMICAS Nadia Studzinski Estima de Castro Revisão de literatura acadêmica Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Elaborar perguntas de pesquisa a partir de um tema abrangente, visando a elaborar uma revisão de literatura eficiente. Diferenciar os gêneros acadêmicos. Construir parágrafos coesos e coerentes em um planejamento de texto logicamente sequenciado, no contexto de revisão de literatura. Introdução Neste capítulo, você vai estudar tópicos relacionados à atividade de revisão da literatura acadêmica. Essa é uma das etapas fundamentais de qualquer estudo e visa a apoiar o pesquisador na tarefa de responder às suas perguntas. Ao longo do capítulo, você vai refletir sobre a elaboração de per- guntas de pesquisa. Como você vai ver, uma pergunta relevante para a ciência pode ser construída a partir de diferentes fontes que mobilizam o pesquisador. Além disso, você vai conhecer os principais gêneros tex- tuais acadêmicos. Por fim, vai ver a importância de parágrafos coesos e coerentes para a execução de um texto logicamente sequenciado. Temas abrangentes e perguntas de pesquisa Para compreender melhor os conceitos de tema e pergunta de pesquisa, consi- dere a temática da redução dos recursos do Planeta. Essa é uma temática ampla, que pode ser estudada em saúde, direito, economia, educação, biologia, entre outras áreas. Agora, cada um desses campos do saber humano pode delimitar o seu objeto de pesquisa de forma singular. Por exemplo: a biologia pode analisar a conservação dos recursos naturais; a educação pode avaliar de que forma esses temas são abordados para a formação integral dos sujeitos; a economia pode analisar a redução dos recursos e o seu impacto no desenvolvimento econômico dos países e assim por diante. O que se percebe é a construção de perguntas específi cas a partir de temas que podem ser abrangentes. De acordo com Flick (2012), a pesquisa parte do contexto do pesquisador e da formulação de questões. Além disso, o pesquisador deve ler pesquisas relacionadas à que pretende levar a cabo e elaborar a sua própria pergunta de pesquisa. O tema da pesquisa pode ser abrangente; o que importa para o pesquisador é a delimitação. Gil (2002) defende que, de modo geral, o estu- dante inicia o processo de pesquisa pela escolha do tema, o que não constitui diretamente um problema de pesquisa; ao formular perguntas sobre esse tema, ele provoca a problematização passível de estudo. Mas como formular perguntas de pesquisa? Flick (2012) argumenta que as perguntas de pesquisa podem ser observadas de diferentes ângulos. Ele exem- plifica a transposição do tema saúde, por exemplo, em perguntas de pesquisa que sejam socialmente relevantes: “[...] há problemas de saúde particularmente fortes ou frequentes e lacunas de serviço para subgrupos particulares ou para adolescentes em geral?” (FLICK, 2012, p. 33). O que acontece, então, é que as respostas possíveis para essa pergunta geram progresso e avanço para a pesquisa, para o campo de estudo e para as pessoas envolvidas, por exemplo. Há um impacto no conhecimento a partir da análise proposta. Ou seja, um tema genérico se transforma em uma pergunta socialmente relevante. Flick (2012) justifica que o contexto e os diferentes grupos sociais em que os sujeitos estão inseridos influenciam o desenvolvimento das práticas investigativas. Nesse sentido, são as suposições que formam a base para o desenvolvimento de questões gerais de pesquisa, ou seja, há relação com contexto, grupo social, período histórico, campo de estudo, etc. A partir da observação, o pesquisador elabora as suas perguntas de pesquisa. Para Flick (2012), as perguntas de pesquisa devem apresentar qualidades importantes: especificidade e foco. Portanto, você deve formular perguntas que sejam claras e direcionadas para o objetivo da investigação. Afinal, as questões de pesquisa levam à definição do tema a ser estudado, do motivo do estudo, da metologia utilizada e das referências a serem buscadas. Dessa forma, atente ao excesso de perguntas, pois você terá de respondê-las. É mais válido priorizar a complexidade em poucas perguntas do que a generalização em muitas perguntas. Revisão de literatura acadêmica2 Considere que o tema geral de uma pesquisa são as redes sociais. Uma pergunta de pesquisa ruim para esse tema seria esta: “Qual é a influência das redes sociais na vida das pessoas?”. Essa pergunta é ruim pois é muito abrangente. A resposta para ela é muito ampla. Além disso, esse questionamento gera muitos outros: quais redes sociais? Que pessoas? Influência em que aspecto da vida? Uma boa pergunta de pesquisa seria esta: “De que forma as redes sociais como Facebook e LinkedIn interferem nos resultados escolares de jovens entre 14 e 16 anos?”. Você percebe a diferença? Na segunda formulação, parte-se de um tema genérico para um ponto específico dele, com objetivo, foco, clareza e precisão. O pesquisador define o aspecto específico que deseja investigar e quem é o seu público-alvo. O problema de pesquisa é representado por uma interrogação, enquanto a hipótese de pesquisa é centrada em afirmações detalhadas. Por exemplo, a pergunta “Que fatores influenciam o consumo de drogas por jovens em idade escolar?” pode corresponder ao tema genérico “Consumo de drogas por jovens”. O importante é que a pergunta centre o seu objeto em um público e em respostas específicas (hipóteses). No caso do exemplo, possíveis respos- tas seriam: aumento da ansiedade; pressões sociais; facilidade de acesso às drogas; necessidade de afirmação social; influência de grupos. Essas hipó- teses emergem da pergunta de pesquisa e geram afirmações que podem ser confirmadas ou refutadas. Gêneros acadêmicos Os gêneros textuais acadêmicos são produções escritas exigidas em diferentes níveis de formação. Cada gênero apresenta características específi cas e fun- ções determinadas. Conhecer esses gêneros é um requisito para a fi nalização de cursos de graduação, especialização, mestrado e doutorado, entre outros. Afi nal, os sujeitos devem adequar os seus textos aos estilos e às exigências do contexto acadêmico e da sua etapa de formação. Como você sabe, o texto jornalístico e o poema lírico são gêneros textuais distintos. Cada um deles apresenta exigências singulares de produção. Com o texto acadêmico, ocorre o mesmo. Ele apresenta definições básicas de 3Revisão de literatura acadêmica estruturação e escrita que devem ser seguidas pelo estudante. A produção exigida pode ser um relatório, uma monografia, uma resenha, um artigo, um relato de experiência, etc., dependendo do contexto. Para produzir os gêneros textuais de forma adequada, é importante identi- ficar as definições e as funcionalidades de cada um. Considere que os gêneros textuais surgem e se integram às sociedades “[...] funcionalmente nas culturas em que se desenvolvem” (MARCUSCHI, 2003, p. 1). Os gêneros textuais aca- dêmicos se caracterizam muito mais pela função comunicativa e institucional do que por estruturas linguísticas. Portanto, são identificados formalmente de forma objetiva, pois seguem um padrão de estruturação e avaliação. A seguir, veja como são definidos os tipos textuais: são constructos teóricos definidos por propriedades linguísticas intrínsecas; constituem sequências linguísticas ou sequências de enunciados, e não textos empíricos; a sua nomeação abrange um conjunto limitado de categorias teóricas determinadas por aspectos lexicais, sintáticos, relações lógicas, tempo verbal; envolvem designações teóricas dos tipos narração, argumentação, descrição, injunção e exposição. Agora, veja as características dos gêneros textuais: são realizações linguísticas concretas definidas por propriedades sociocomunicativas; constituem textos empiricamente realizados, cumprindo funções em situações comunicativas; a sua nomeação abrange um conjunto abertoe praticamente ilimitado de designações concretas determinadas por canal, estilo, conteúdo, composição e função. Entre os exemplos de gêneros textuais, considere: telefonema, sermão, carta co- mercial, carta pessoal, romance, bilhete, aula expositiva, reunião de condomínio, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio, instrução de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo virtual, aula virtual, tese, disser- tação, etc. (MARCUSCHI, 2003). Os gêneros textuais acadêmicos são divididos em: artigo, resenha, ensaio, fichamento, relato de experiência, trabalho de conclusão, dissertação e tese. Observe, nos parágrafos a seguir, o detalhamento de alguns desses gêneros textuais acadêmicos, seguido de exemplos de produção de cada um deles. Revisão de literatura acadêmica4 ceger Highlight q bold ceger Highlight O artigo é um tipo de texto que apresenta uma investigação científica. Estrutura-se com: problema de pesquisa, objetivos, métodos de pesquisa, análise dos dados e consideração sobre a investigação. O artigo pode ser submetido a periódicos e congressos para apresentação e divulgação no meio acadêmico. O artigo, portanto, pode ser empírico. Nesse caso, é elaborado com base nos dados obtidos pelo pesquisador a respeito de um tema. Mas os artigos também podem ser do tipo “revisão”. Nesse tipo de texto, os autores realizam uma revisão da literatura sobre determinado tema e elaboram um artigo em que debatem ideias consolidadas da área. O artigo científico deve apresentar os seguintes elementos: introdução, problema de pesquisa, objetivos, revisão da literatura, fundamentação teórica, metodologia de pesquisa, instrumentos de pesquisa, dados, análise dos dados, conclusão, referências, apêndices e anexos (quando existirem). A abordagem do tema deve ser inovadora, no sentido de avanço para o conhecimento. Mesmo em um artigo de revisão, é possível inserir análise crítica. O relato de experiência é um texto marcado pela narração de uma ex- periência vivida pelo autor. Pode estar relacionado com: um curso de que o estudante/pesquisador participou, um projeto de pesquisa, um período de mobilidade acadêmica, uma observação de campo, etc. Esse tipo de texto é sempre contextualizado, com objetivo definido e com suporte teórico. Portanto, o relato de experiência não possibilita subjetivismo e impressões pessoais e aleatórias. É um texto que narra uma experiência, mas com fundamentação. Lembre-se de que esse tipo de texto é acadêmico; portanto, as considerações devem manter seriedade e impessoalidade. A ideia é apresentar relatos de vivências que sejam importantes para o campo de pesquisa; portanto, apresente ponderações e reflexões sobre as situações observadas. No link a seguir, analise um exemplo de relato de experiência. https://qrgo.page.link/sCbA7 A resenha, por sua vez, é utilizada para a divulgação de obras com data recente de publicação, ou de obras que podem não ser conhecidas pelos leitores. É o caso, por exemplo, de uma obra em língua estrangeira que pode ser válida 5Revisão de literatura acadêmica para a produção acadêmica de determinada área. Essa obra pode ser de difícil acesso, até por ser em língua estrangeira. Assim, o pesquisador que tem acesso a ela elabora um texto apresentando ao leitor as ideias inovadoras do autor. Para esse tipo de texto, os periódicos dedicam, na maioria das vezes, até uma seção inteira. Mas há exigências: os textos precisam tratam de obras recentes. Ou seja, alguns periódicos delimitam um período limite de publicação. Para obras em língua estrangeira, os meios de divulgação indicam publicações dos últimos cinco anos. Para obras nacionais, consideram-se os últimos dois anos. O estudante que objetiva submeter resenha (e artigo científico) a periódicos deve acessar as informações específicas de cada publicação para identificar as normas estabelecidas. A resenha, portanto, deve ser elaborada com a identificação detalhada do autor, incluindo informações sobre trajetória de formação, atuação profissional e obras anteriores. Além da identificação do autor, é necessário indicar todas as referências da obra (local, editora, data, coleção, volume, edição, etc.). Após a identificação, o autor da resenha apresenta ao seu leitor o conteúdo da obra, expondo as ideias que estão sendo defendidas. Além disso, o autor da resenha pode inserir apreciação das ideias, desde que com fundamentação. Acesse o link a seguir para ver um exemplo de resenha. https://qrgo.page.link/y1V34 Por fim, considere os trabalhos de conclusão: trabalho de conclusão de curso (TCC), monografia, dissertação e tese. Todos eles apresentam uma es- trutura básica: elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais. Evidentemente, a complexidade do desenvolvimento de cada um é variável, da mesma forma que a originalidade e o detalhamento. As teses são escritas por doutorandos, enquanto as dissertações, por mestrandos. As monografias representam o gênero de texto produzido para a finalização de cursos de especialização. Em todos esses textos, é fundamental utilizar uma linguagem clara, concisa, coesa, formal, impessoal, objetiva e rigorosa. Da mesma forma, a pergunta de pesquisa, os objetivos, as hipóteses, a metodologia, os instrumentos e o desenvolvimento devem ser estruturados de forma lógica. A estrutura exige: Revisão de literatura acadêmica6 introdução do estudo, desenvolvimento e conclusões, além de elementos pré-textuais e textuais. Observe, no Quadro 1, os elementos que compõem esses trabalhos. Fonte: Adaptado de Universidade do Porto (2016). Elementos pré-textuais Capa: nome do autor; título; número do volume (caso exista mais de um); local de publicação; editor; ano de publicação. Folha de rosto: instituição; título; autor; informações sobre a natureza do trabalho e o grau a ser obtido; orientador; local e ano. Ordenação das páginas preliminares: página de rosto, dedicatória (opcional); agradecimentos (opcional); resumo; resumo em língua estrangeira; sumário; lista de ilustrações e de tabelas (deve conter o número da figura, o título e a página correspondente); lista de abreviaturas e de símbolos (deve conter o número da figura, o título e a página correspondente); prefácio (opcional); introdução; corpo principal da dissertação (capítulos); conclusão; referências bibliográficas; anexos; apêndices; índices (ideográfico, onomástico, didascálico). Elementos textuais Texto (introdução, corpo do trabalho, conclusão). Lista das referências bibliográficas. Elementos pós-textuais Notas. Índices remissivos de autores e/ ou assuntos (opcional). Anexos (opcional): materiais utilizados na pesquisa e que não foram elaborados pelo autor. Por exemplo: questionário de outro autor que serviu de base para a elaboração do questionário da pesquisa. Apêndices (opcional): materiais utilizados na pesquisa e que foram elaborados pelo autor. Por exemplo: questionário de pesquisa elaborado pelo autor. Quadro 1. Elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais De acordo com a NBR 14724 (ABNT, 2002, p. 4), os trabalhos de con- clusão devem “[...] expressar conhecimento do assunto escolhido, que deve ser obrigatoriamente emanado da disciplina, módulo, estudo independente, 7Revisão de literatura acadêmica curso, programa e outros ministrados”. Ainda conforme a mesma norma, a dissertação de mestrado tem o objetivo de apresentar “[...] os resultados de um trabalho experimental ou exposição de um estudo científico retrospectivo, de tema único e bem delimitado em sua extensão, com o objetivo de reunir, analisar e interpretar informações” (ABNT, 2002, p. 3). Como se trata de um gênero textual acadêmico, é exigido do autor indicação de literatura existente sobre o assunto e capacidade de sistematizá-lo. Por último, a tese, da mesma forma que a dissertação, apresenta um es- tudo, mas com caráter maiscomplexo e detalhado. A ideia é que ela aborde determinado tema de forma inovadora; é indicado, inclusive, que apresente um novo conceito. Portanto, conforme a NBR 14724 (ABNT, 2002, p. 4), a tese deve apresentar uma “[...] investigação original, constituindo-se em real contribuição para a especialidade em questão”. Coesão e coerência na redação de parágrafos Depois de delimitada a pergunta de pesquisa, todo pesquisador deve partir para uma análise da literatura do campo. Nessa etapa, o pesquisador acessa diferentes materiais e os reúne para a construção da argumentação do seu trabalho. Mas atenção: é preciso evitar o efeito “colcha de retalhos”. Você já ouviu falar dessa expressão? Ela é utilizada para designar um texto que consiste numa sequência de citações de outros autores, sem coerência e sem justifi cativas adequadas. O ideal é que o trabalho seja construído com base na refl exão e, em seguida, nas citações. Ou seja, o estudante apresenta a refl exão e utiliza a citação apenas para reforçar as ideias defendidas no trabalho. Nesse contexto, coesão e coerência são fundamentais para o encadeamento da argumentação. A coerência, como pontua Gold (2010), tem relação com o sentido e representa a harmonia entre as ideias. Para a autora, um texto é coerente quando existe alinhamento entre as palavras e elas apresentam vínculo de sentido. Assim, a mensagem se organiza de forma sequenciada, com início, meio e fim. A coesão, como atributo da redação, amplia a conexão entre os elementos do texto — frase com frase, parágrafo com parágrafo, seção com seção, capítulo com capítulo —, até formatar um trabalhar harmônico. De acordo com a argumentação apresentada no Manual de Redação da Presidência da República, quando se lê um texto e se verifica que as palavras, as frases e os parágrafos estão entrelaçados, dando continuidade uns aos outros, há coerência e coesão (BRASIL, 2018). Esses dois elementos estão relacionados com a revisão da literatura. Ou seja, as evidências de pesquisa que reforçam as ideias do autor devem ser Revisão de literatura acadêmica8 coerentes e coesas com o trabalho. Logo, os parágrafos devem ter relação lógica e constituir uma trajetória de crescimento do conhecimento. Portanto, estruture os parágrafos de forma a relacioná-los uns com os outros, organi- zando e defendendo ideias. Por fim, tenha sempre em mente que um parágrafo representa um grupo de períodos, os quais devem estar relacionados e centrados em uma ideia principal. Assim, você estimula o raciocínio do seu leitor. A seguir, observe dois exemplos de formulação de parágrafos. Palavras-chave e construção de parágrafos coesos e coerentes Observe as palavras-chave listadas a seguir e o parágrafo que faz uso delas. Palavras-chave: Campo. Tratamento. Animais. Resultados. Ao cuidar do gado, o peão monta e governa os cavalos sem maltratá-los. O modo de tratar o cavalo parece rude, mas o vaqueiro jamais é cruel. Ele sabe como o animal foi domado, conhece as qualidades e defeitos do animal, sabe onde, quando e quanto exigir do cavalo. O vaqueiro aprendeu que paciência e muitos exercícios são os principais meios para se obter sucesso na lida com os cavalos, e que não se pode exigir mais do que é esperado (FIGUEIREDO, [201-?], p. 38). Agora veja as palavras-chave e o parágrafo a seguir. Palavras-chave: Brasil. Distribuição de renda. Concentração de renda. Injustiça. A distribuição de renda no Brasil é injusta. Embora a renda per capita bra- sileira seja estimada em US$ 2.000 anuais, a maioria do povo ganha menos, enquanto uma minoria ganha dezenas ou centenas de vezes mais. A maioria dos trabalhadores ganha o salário mínimo, que vale cerca de US$ 65 mensais, ou US$ 780 anuais; muitos nordestinos recebem a metade do salário mínimo, ou US$ 380 anuais. Dividindo essa pequena quantia por uma família onde há crianças e mulheres, a renda per capita fica ainda mais reduzida; contando-se o número de desempregados, a renda diminui um pouco mais. Há pessoas que ganham cerca de US$ 10.000 mensais, ou US$ 120.000 por ano; outras ganham muito mais, ainda. O contraste entre o pouco que muitos ganham e o muito que poucos ganham prova que a distribuição de renda em nosso país é injusta (FIGUEIREDO, [201-?], p. 38). Observe que a ideia central, ou período tópico, conforme denomina Figueiredo ([201-?]), geralmente é destacada no início do parágrafo. Em seguida, aparecem os outros períodos, que explicam ou detalham a ideia central. No primeiro exemplo, a ideia central é apresentada de forma direta: o peão cuida do gado, montando no cavalo, mas sem maltratá-lo. De que forma ele faz isso? Ele não é cruel, o 9Revisão de literatura acadêmica animal foi domado, o peão conhece as qualidades do cavalo e, com paciência e exercício, obtém sucesso. Percebe-se, portanto, lógica no desenvolvimento da ideia principal, conforme as frases vão compondo o parágrafo. O mesmo ocorre no segundo exemplo. Qual é a ideia central? A distribuição injusta de renda no Brasil. Como desenvolver a defesa dessa ideia de forma coerente e coesa? Com frases periféricas que estejam relacionadas com a ideia principal e que apresentem justificativas para ela. Observe a sequência argumentativa: “a maioria do povo ganha menos”; “a maioria dos trabalhadores ganha o salário mínimo”; “dividindo essa pequena quantia por uma família onde há crianças e mulheres, a renda per capita fica ainda mais reduzida”; “há pessoas que ganham cerca de US$ 10.000 mensais, ou US$ 120.000 por ano”; “outras ganham muito mais”. Por fim, reafirma-se a ideia inicial e principal: “o contraste entre o pouco que muitos ganham e o muito que poucos ganham prova que a distribuição de renda em nosso país é injusta”. Essa é a forma de elaborar parágrafos que sejam coesos e coerentes e que mantenham uma lógica para a apresentação da ideia central. A ideia é fazer com que o leitor entenda a proposta de reflexão com base em informações encadeadas e relacionadas entre si. ABNT. NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. BRASIL. Manual de redação da Presidência da República. 3. ed. Brasília: Presidência da República, 2018. FIGUEIREDO, L. C. A redação pelo parágrafo. Brasília: UNB, [201-?]. FLICK, U. Introdução à metodologia de pesquisa: um guia para iniciantes. Porto Alegre: Penso, 2012. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. GOLD, M. Redação empresarial. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010. MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: definição e funcionalidades. In: DIONÍSIO, Â. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (org.). Gêneros textuais e ensino. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003. UNIVERSIDADE DO PORTO. Elementos pré-textuais, textuais e pós-textuais orientações. Porto: SDI, 2016. Disponível em: https://sdi.fba.up.pt/biblioteca/investigacao-apoio/ estrutura/elementos-textuais/. Acesso em: 15 set. 2019. Revisão de literatura acadêmica10 Leituras recomendadas HOGA, L. A. K.; ABE, C. T. Relato de experiência sobre o processo educativo para a promoção da saúde de adolescentes. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 34, n. 4, dez. 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v34n4/v34n4a14. Acesso em: 15 set. 2019. VELDEN, F. V. [Nas antípodas do globo...]. Resenha de: POTTS, A.; ARMSTRONG, P.; BROWN, D. A New Zealand book of beasts: animals in our culture, history and everyday life. Auckland: Auckland University Press, 2013. Disponível em: http://www.revistas.usp. br/cadernosdecampo/article/view/154450/154325. Acesso em: 15 set. 2019. 11Revisão de literatura acadêmica