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7 . Doenças mentais mais significativas no âmbito do direito e seus critérios 
diagnósticos pelo DSM-IV46
C o m o c h e g o u n o s s a c u ltu ra a d a r à d o e n ç a o 
se n tid o d o d e sv io e a o d o e n te o s ta tu s q u e o e x c lu i?
M ic h e l F o u c a u lt
Muitos são os Transtornos Mentais cujas consequências são importantes no âm­
bito do Direito. O conhecimento das principais características e peculiaridades desses 
transtornos facilita o entendimento da condição humana e de suas manifestações. No 
campo específico da Psicologia Jurídica, o conhecimento desses transtornos permite 
a compreensão de fenômenos que interessam diretamente ao Direito Civil (interdi­
ção, adoção, guarda, regime de visitação, por exemplo), ao Direito Penal (inimputa- 
bilidade, avaliação da personalidade do réu, etc.), ao Processo Penal (interrogatório 
do réu, oitiva de testemunhas, incidente de insanidade mental); em síntese, a todos os 
ramos do direito, incluindo o Direito do Trabalho, o Direito da Criança e do Adoles­
cente e o Direito do Idoso.
Neste capítulo, destacamos alguns quadros psicopatológicos, adotando os cri­
térios diagnósticos do DSM-IV, abreviatura de D ia g n o s tic a n d S ta tis tic a l M an u a l o f 
M en ta l D is o r d e r s F ourth E d ition , publicado pela Associação Americana de Psiquia­tria (AP A).
O Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais foi elaborado por um 
Grupo de Trabalho multidisciplinar e compilado depois de amplo debate. Como uma 
classificação categorial, o Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais 
tem o intuito de oferecer uma padronização diagnóstica útil e prática para uso na área 
da saúde, mas também sendo um instrumento para o serviço social e para o direito.
A necessidade de uma classificação das doenças mentais acompanhou a his­
tória da medicina e da psicologia, porém as dificuldades de consenso em tomo dos 
transtornos a serem incluídos e o método mais adequado para sua organização se 
mantiveram como um obstáculo que se renova permanentemente, bastando notar que 
as classificações necessitam de contínuas revisões (DSM-I; DSM-II, DSM-III, DSM- 
-IV, DSM-IV-TR; CID-9, CID-10, por exemplo). As primeiras tentativas de classi­
ficação, nos Estados Unidos, seguiram um formato estatístico. Posteriormente, foi
146 AM ERICAN PSYCHIA TRIC ASSOC1ATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4“ ed. 
Porto Alegre: Artmed, 2003.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 101
incluído, na sexta edição da CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças 
e Problemas Relacionados à Saúde), um capítulo sobre doenças mentais.
Em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) desenvolveu uma va­
riação do capítulo de doenças mentais incluídos na CID, com foco na utilidade clíni­
ca, surgindo o DSM-I.
Feita esta breve explanação, cumpre registrar que o material apresentado neste 
capítulo se refere aos critérios diagnósticos do DSM-IV, e foram selecionados de 
acordo com as patologias mais significativas para o direito a partir de nossa expe­
riência pessoal. Dessa forma, cada categoria de transtornos foi escolhida a partir do 
manual (DSM-IV) por se tratar de um instrumento de reconhecida credibilidade, cujo 
uso apropriado requer treinamento especializado, mas que os operadores do direito 
necessitam conhecer na rotina de seu dia a dia. Nosso objetivo, portanto, é facilitar 
ao leitor, possibilitando-lhe uma consulta rápida, e, ao mesmo tempo, promover a 
familiarização com o tema dos diagnósticos, uma vez que esses critérios se tomam 
cada vez mais comuns na prática forense devido a sua utilidade para o direito. Desse 
modo, os operadores do direito podem ter sempre à mão um recurso simples no qual 
os sintomas de cada categoria diagnóstica estejam claramente listados, tendo em vista 
a sua relação com a prática forense.
Para uma consulta completa, o leitor deverá recorrer diretamente ao próprio 
DSM-IV, em sua versão revisada.
Dentre os transtornos que julgamos mais importantes para o direito, elencamos 
os seguintes:
7.1. Transtornos do Controle dos Impulsos
Fm nossa seleção, começamos com os Transtornos do Controle dos Impulsos 
Nao Classificados em Outro Local (DSM-IV-TR, 2003, p. 623)147 porque essas alte­
ou,óes da conduta podem, com frequência, conduzir a conflitos também no campo 
do direito, seja ao tipificarem comportamentos delituosos (note-se a relação entre 
cleptomania e furto), seja na configuração de atos jurídicos passíveis de nulidade 
(exemplo: aqueles provenientes do jogo patológico).
Cabe referir que, pela Classificação de Transtornos Mentais e de Comporta­
mentos da CID- IO1“ (1993, p. 207), estes quadros são considerados como Transtor­
nos de hábitos e impulsos (F63) e assim estão organizados:
F63.0 Jogo patológico
F63.1 Comportamento incendiário patológico (piromania)
F63.2 Roubo patológico (deptomania)
F63.3 Tricotilomania
F63.4 Outros transtornos de hábitos e impulsos (incluindo comportamento explosivo intermitente)
F 63.5 Transtornos de hábitos e impulsos não especificados
' 1 ' AM ERICAN PSYCHIA TRIC A SSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4‘ ed. 
Porto Alegre: Artmed, 2003.
' ,K W ORLD HEALTH O RGANIZATION. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. 
Porto Alegre: Artmed, 1993.
102 JORGE TRINDADE
Voltando ãòs Transtornos dé Controle dos Impulsos, tal como classificados no 
DSM-IV-TR (2003), a característica essencial que denota essa categoria é o fracas­
so em resistir a um impulso ou tentação de executar um ato perigoso para a própria 
pessoa ou para terceiros. A possibilidade é de que ocorra um escape dos impulsos, 
gerando comportamentos de risco para o sujeito ou para a sociedade.
O indivíduo com esse transtorno apresenta uma crescente tensão ou excitação 
antes de cometer o ato descontrolado. Após cometê-lo, pode ou não haver arrepen­
dimento, autorrecriminação ou culpa, dependendo se o sujeito se apresenta com ca­
racterísticas egodistônicas ou egossintònicas, quer dizer, se ele próprio sofre com o 
ato praticado, ou se somente faz sofrer aos demais, carecendo, assim, de qualquer 
sentimento de desconforto, ansiedade ou culpa. São exemplos de Transtorno de Con­
trole dos Impulsos:
Transtorno Explosivo Intermitente: caracterizado por episódios distintos de 
fracasso em resistir a impulsos agressivos, resultando em sérias agressões ou destrui­
ção de propriedades.
Cleptomania: caracteriza-se por um fracasso recorrente de resistir a impulsos 
de subtrair objetos desnecessários para o uso pessoal ou sem termo de valor mone­
tário. Pode-se perceber estrita relação com o crime de furto e, em casos mais graves, 
de roubo.
Piromania: caracterizada por um padrão de comportamento incendiário por 
prazer ou deleite, pelo gosto de atear fogo com gratificação ou alívio de tensão e 
ansiedade. Do ponto de vista jurídico, ainda que não seja em princípio uma conduta 
criminosa frequente, algumas vezes se enquadra como crime de dano (art. 163, CP) e 
crime de incêndio (art. 250, CP).
Jogo Patológico: caracteriza-se por um comportamento mal-adaptativo, re­
corrente e persistente, relacionado a jogos de azar e apostas. Esse transtorno pode 
conduzir à incapacidade do sujeito para administrar seus próprios bens, devido a 
atitudes impulsivas que causam risco de dilapidação do patrimônio, e, portanto, pode 
estar relacionado com o instituto da interdição, no campo do direito civil. No âmbi­
to criminal, o combate deve ser direcionado àqueles que, valendo-se da fragilidade 
emocional e das carências afetivas alheias, explora o jogo, auferindo vantagem para 
si em detrimento do empobrecimento alheio, daquele que não consegue refrear o 
impulso de jogar.
Tricotilomania: caracteriza-se pelo ato de puxar de forma recorrente os pró­
prios cabelos por prazer, gratificação ou alívio de tensão/ansiedade, acarretando uma 
perda capilar perceptível. Pode estar relacionado a quadros compulsivosidade adulta, há poucos indicadores acerca 
da incidência do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, mas está bem 
sedimentada a possibilidade de sua ocorrência também nessa etapa do ciclo vital.
• C u rso
O curso do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade é muito variável. 
Os sintomas podem persistir até a adolescência ou idade adulta, apresentando re­
missão na puberdade, ou a hiperatividade pode desaparecer, com persistência de um 
reduzido alcance da atenção e problemas de controle dos impulsos.
O primeiro sintoma que costuma desaparecer é a atividade excessiva; e o último, a 
distraibilidade. A remissão é improvável antes dos 12 anos e, quando ocorre, geralmente 
se dá entre 12 e 20 anos de idade. Todavia, grande parte dos sujeitos com este transtor­
no apresenta uma remissão apenas parcial, permanecendo vulneráveis ao distúrbio da 
personalidade antissocial e a outros distúrbios da personalidade e do humor. Ademais, 
as dificuldades de aprendizado frequentemente persistem ao longo do tempo.
• P a d r ã o F am ilia l
O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade é encontrado com maior 
frequência nos parentes biológicos em primeiro grau de crianças com Transtorno de 
Déficit de Atenção/Hiperatividade. De acordo com Holmes (1997, p. 333),174 parentes 
biológicos, especialmente parentes masculinos de crianças hiperativas, parecem que 
foram também mais hiperativos quando crianças, se comparados com parentes adoti­
vos de crianças hiperativas adotadas. De igual modo, irmãos de crianças hiperativas 
têm um maior risco de hiperatividade do que irmãos com pai ou mãe diferentes.
Tais achados sugerem bases genéticas para o transtorno, que, entretanto, con­
correm com fatores psicossociais e neurobiológicos.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
O diagnóstico diferencial deve ser feito com características temperamentais, 
com distúrbio de ansiedade não especificado, depressão e transtorno de conduta, em­
bora possa estar a este associado. Também pode ser útil diferenciar do Transtorno 
Desafiador e Opositivo.
172 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução Cláudia 
D om elies. 9* ed. Porto A legre: A rtm ed, 2007, p. 134.
173 LAM BERT, K.; KINSLEY, C . H. Neurociência clínica ~ as bases neurobiológicos da saúde mental. Porto A le­
gre: Artm ed, 2006, p. 178.
174 H OLM ES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2“ ed. Porto Alegre: Artes M édicas, 1997, p. 333.
124 JORGE TRINDADE
O sintoma de ansiedade na criança precisa sempre ser avaliado, uma vez que ela 
pode acompanhar o transtorno como um aspecto secundário e se manifestar através 
da hiperatividade e de uma propensão à distraibilidade.
Com frequência, o Transtorno de Conduta e o Transtorno de Déficit de Aten- 
ção/Hiperatividade coexistem, de modo que ambos devem ser identificados, diagnos­
ticados e devidamente tratados.
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 118),173 os critérios diagnósticos para Trans­
torno de Déficit de Atenção/Hiperatividade são os seguintes:
A. Ou (1) ou (2)
1) seis (ou mais) dos seguintes sintomas de desatenção persistiram por pelo menos 6 meses, em grau mal-adaptatívo e inconsistente 
com o nível de desenvolvimento:
Desatenção:
(a) frequentem ente deixa de prestar atenção a detalhes ou com ete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras
(b) com frequência tem dificuldades para m anter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas
(c) com frequência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra
(d) com frequência não segue instruções e não term ina seus deveres escolares, tarefas dom ésticas ou deveres profissionais 
(não devido a com portam ento de oposição ou incapacidade de com preender instruções)
(e) com frequência tem dificuldade para organizar ta refas e atividades
(f) com frequência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (com o tarefas escolares 
ou deveres de casa)
(g) com frequência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por ex., brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros 
materiais)
(h) é facilm ente d istraído po r estím ulos alheios à ta refa
(i) com frequência apresenta esquecimento em atividades diárias
(2) se is (ou mais) dos seguintes sintomas de hiperatividade persistiram por pelo menos 6 meses, em grau m al-adaptativo e inconsis­
tente com o nível de desenvolvimento:
Hiperatividade:
(a) frequentemente agita as m ãos ou os pés ou se rem exe na cadeira
(b) frequentemente abandona sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que permaneça sentado
(c) frequentem ente corre ou escala em demasia, em situações nas quais isto é inapropriado (em adolescentes e adultos, pode estar 
lim itado a sensações subjetivas de inquietação)
(d) com frequência tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosam ente em atividades de lazer
(e) está frequentem ente “a m ir ou muitas vezes age com o se estivesse “a todo vapor”
(f) frequentemente faia em demasia
Impulsividade:
(g) frequentem ente dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem sido completadas
(h) com frequência tem dificuldade para aguardar sua vez
(i) frequentem ente interrompe ou se mete em assuntos de outros (por ex., intromete-se em conversas ou brincadeiras)
B. Alguns sintom as de hiperatividade-impulsividade ou desatenção que causaram prejuízo estavam presentes antes dos 7 anos de 
idade.
C. Algum prejuízo causado pelos sintomas está presente em dois ou mais contextos (por ex., na escola [ou trabalho] e em casa).
D. Deve haver c laras evidências de prejuízo clin icam ente significativo no funcionamento social, acadêm ico ou ocupacional.
E. Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso de um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Esquizofrenia ou 
outro Transtom o Psicótico e não são melhor explicados por outro transtorno mental (por ex ., T ranstom o do Humor, T ranstom o de 
Ansiedade, Transtorno Dissociativo ou um Transtorno da Personalidade).
173 AM ERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Manual de publicação da American Psychological Associa- 
tion (Daniel Bueno, trad.). Porto Alegre: A rtm ed, 2001, p. 118.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 125
Cabe ressaltar, uma vez mais, que o Transtorno de Déficit de Atenção/Hipe- 
ratividade pode implicar Transtorno de Conduta e, mais tarde, Transtorno de Perso­
nalidade Antissocial. Nesse aspecto, interessa ao operador do direito que lida com 
adolescentes infratores, assim como àquele que milita no direito penal, devido à pos­
sibilidade, mais tarde, de ocorrência de comportamentos antissociais e criminais.
7.4. Transtorno Desafiador e Opositivo
O Transtorno Desafiador e Opositivo (DSM-IV-TR, 2003, p. 125),176 por sua 
vez, possui aspectos tangenciais ao Transtorno de Conduta, ao Transtorno de Déficit 
de Atenção/Hiperatividade e ao Retardo Mental. A criança que apresenta Transtorno 
Desafiador e Opositivo apresenta maior chance para conflitos sociais e relacionais, 
para brigas e desavenças, para condutas inadequadas em geral e especialmente para 
comportamentos antissociais e até mesmo delinquenciais.
Assim sendo, seu conhecimento se faz necessário aos operadores do direito que 
lidam diretamente com o adolescente infrator, tais como juiz e promotor da Infância 
e Juventude, conselheiros tutelares, técnicos que trabalham na execução de medidas 
socioeducativas (ECA), dentre outros.
De acordo com a Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da 
CID-10 (1993, p. 254), o Transtorno Desafiador de Oposição integra os Transtornos 
de Conduta, com a rubrica F91/F91.3.
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
De acordo com o DSM-IV-TR (2003, p. 125) e também com a CID-10 (1993, 
p. 264), sob a rubrica semelhante denominada Transtorno Desafiador de Oposição, 
pode-se dizer que a característica primordial do Transtorno Desafiador Opositivo é 
um padrão recorrente de comportamento hostil, provocador, desafiante, desobedienteem relação às figuras de autoridade. Deve persistir pelo menos seis meses (Critério A) 
e se caracteriza pela ocorrência frequente de pelo menos quatro dos seguintes compor­
tamentos: perder a paciência (Critério Al), discutir com adultos (Critério A2), desa­
fiar ativamente ou recusar-se a obedecer às solicitações ou regras dos adultos (Critério 
A3), deliberadamente fazer coisas que aborrecem outras pessoas (Critério A4), res­
ponsabilizar outras pessoas por seus próprios erros ou mau comportamento (Critério 
A5), ser suscetível ou facilmente aborrecido pelos outros (Critério A6), mostrar-se 
enraivecido e ressentido (Critério A7) ou ser rancoroso ou vingativo (Critério A8).
Os comportamentos negativistas ou desafiadores são manifestados por teimo­
sia persistente, resistência a ordens e relutância em negociar com os adultos ou com 
seus pares. O desafio também pode incluir a testagem deliberada ou persistente dos 
limites, geralmente desacatando ordens, discutindo e deixando de aceitar a responsa­
bilidade pelas más ações. A hostilidade normalmente aparece mediante uma conduta 
deliberadamente incomodativa ou por meio de agressões verbais (em geral sem a 
agressão física mais séria vista no Transtorno da Conduta). Os sintomas do transtorno 17 *
17 6 A M ERICA N PSYCHO LO GICAL ASSOCIATION. Manual de publicação da American Psychological Associa­tion (Daniel Bueno, trad.). Porto Alegre: Arttned. 2001, p. 125.
126 JORGE TRINDADE
tipicamente se manifestam mais nas. interações com adultos ou companheiros a quem 
o indivíduo conhece bem, podendo assim não ser perceptíveis durante o exame clíni­
co (DSM-IV-TR, 2002, p. 126).177
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
As características e transtornos associados variam em função da idade e do 
meio em que o indivíduo vive. Há indicativos de ser prevalente no sexo masculi­
no, manifestando-se em indivíduos que, nos anos pré-escolares, têm temperamento 
problemático com professores e colegas. Frequentemente, existem conflitos com os 
pais.
O número de sintomas de oposição tende a aumentar com a idade. Os sintomas 
em geral são similares em ambos os gêneros, à exceção do fato de que os homens 
podem apresentar mais comportamentos de confronto e sintomas mais persistentes 
(DSM-IV-TR, 2002, p. 126).
O transtorno costuma vir associado com comportamentos agressivos, de desres­
peito aos outros, de ataques de fúria repentina, da baixa tolerância à frustração e de 
resistência à autoridade em geral.
• P re va lê n c ia
As taxas de Transtorno Desafiador Opositivo variam de 2 a 16%, dependendo 
das qualidades da amostra populacional e dos métodos de avaliação.
• C u rso
O Transtorno Desafiador Opositivo é aparecimento característico em crianças 
com idade inferior a 9-10 anos. Seus primeiros sinais já podem ser detectados no 
ambiente familiar. Logo depois se estendem para a esfera escolar. O Transtorno De­
safiador Opositivo é um fator preditivo de Transtorno da Conduta.
• P a d rã o F a m ilia l
De acordo com o DSM-IV-TR (2003, p. 127), o Transtorno Desafiador Opo­
sitivo parece ser mais comum em famílias em que pelo menos um dos pais tem uma 
história de Transtorno do Humor, Transtorno Desafiador Opositivo, Transtorno da 
Conduta, Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, Transtorno da Persona­
lidade Antissocial ou Transtorno Relacionado a Substâncias. Em famílias marcadas 
por elevado nível de discórdia, brigas e desentendimentos conjugais e parentais, o 
Transtorno Desafiador Opositivo parece ser mais comum.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
O diagnóstico diferencial deve ser feito com as seguintes condições:
a) Transtorno de Conduta;
b) Transtorno de Humor;
c) Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade;
d) Retardo Mental Leve.
177 AM ERICAN PSYCHOLOGICAL A SSOCIATION. Manual de publicação da American Psychological Associa- 
tion (Daniel Bueno, trad.). Porto Alegre: A rtm ed, 2002, p. 126.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 127
A diferença-básica em relação ao Transtorno de Conduta reside na ausência de 
comportamentos que violam a lei e os direitos básicos dos outros, assim como tam­
bém das características de destrutividade e de crueldade, roubo e agressão física.
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 128), os critérios diagnósticos para o Trans­
torno Desafiador de Oposição são os seguintes:
iüS! ios Diagnósticos para Transtorno D esa fia do r 0
A. Um padrão de com portam ento negativista, hostil e desafiador durando pelo menos 6 meses, durante os quais quatro (ou mais) das 
seguintes características estão presentes:
(1) frequentemente perde a paciência
(2) frequentem ente discute com adultos
(3) com frequência desafia ou se recusa ativamente a obedecer a solicitações ou regras dos adultos
(4) frequentemente perturba as pessoas de forma deliberada
(5) frequentemente responsabiliza os outros por seus erros ou mau comportam ento
(6) m ostra-se frequentem ente suscetível ou é aborrecido com facilidade pelos outros
(7) frequentem ente enraivecido e ressentido
(8) frequentem ente rancoroso ou vingativo
Obs.: Considerar o critério satisfeito apenas se o comportamento ocorre com m aior frequência do que se observa tip icam ente em 
indivíduos de idade e níve l de desenvolvim ento comparáveis.
B. A perturbação do com portam ento causa prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêm ico ou ocupacional.
C. O s com portam entos não ocorrem exctusivamente durante o curso de um Transtorno Psicótico ou Transtorno do Humor.
D. Não são satisfeitos os critérios para Transtorno da Conduta e, se o indivíduo tem 18 anos ou mais, não são satisfeitos os critérios 
para Transtorno da Personalidade Antissocial.
7.5. Esquizofrenia e Transtornos Psicóticos Associados
Os transtornos incluídos neste título se caracterizam por possuírem como ele­
mento definidor a presença de sintomas psicóticos e abrigam as seguintes espécies:
1) Transtorno Psicótico Induzido;
2) Transtorno Esquizofreniforme;
3) Transtorno Esquizoafetivo;
4) Transtorno Delirante;
5) Transtorno Psicótico Breve;
6) Transtorno Psicótico Induzido;
7) Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica Geral;
8) Transtorno Psicótico Induzido por Substância;
9) Transtorno Psicótico Sem Outra especificação.
A tipologia do DSM-IV-TR (2003, p. 303) guarda relativa relação com a rubri­
ca F20-F29 da CID-10 (1993, p. 83).
A palavra p s ic o s e , para os efeitos deste manual, pode ser entendida como uma 
condição psíquica grave que implica a ruptura com o princípio da realidade, sendo 
que, para o direito, devido às consequências que pode trazer para o mundo jurídico, é 
especialmente relevante destacar:
128 JORGE TRINDADE
Esquizofrenia
A Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos vêm descritos no DSM-IV- 
-TR (2003, p. 303 e seguintes). A razão pela qual devem ser destacados aqui reside 
no fato de que se trata de condições graves que afetam profundamente o funciona­
mento mental do indivíduo (e s q u iz o = divisão; f r e n o s = alma), muitas vezes inabi­
litando-o para o exercício do direito (capacidade de fato). Além disso, na esfera do 
direito penal, estes transtornos podem conduzir às condições de que trata o art. 26 
do Código Penal.
Como antes referido, na Classificação de Transtornos Mentais e de Compor­
tamento da CID-10 (1993, p. 83), a esquizofrenia integra o bloco F20-F29, com a 
capitulação Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes.
De acordo com o DSM-IV-TR (2003, p.304), os aspectos essenciais da Es­
quizofrenia são um misto de sinais e sintomas característicos (tanto positivos 
quanto negativos) que estiveram presentes por um período de tempo significativo 
(durante um mês ou por um tempo menor, se tratados com sucesso), com alguns 
sinais do transtorno persistindo por pelo menos seis meses (Critérios A e C). Esses 
sinais e sintomas estão associados com acentuada disfunção social ou ocupacional 
(Critério B).
Os sinais e sintomas da Esquizofrenia, de uma formamuito simplificada, foram 
catalogados pela presença dos quatro “As":
a) alucinação;
b) afeto embotado;
c) ambivalência;
d) autismo.
Na realidade, trata-se de um transtorno muito complexo, e seus sintomas ultra­
passam em quantidade e qualidade a maioria das experiências das pessoas normais.
A Esquizofrenia inclui sintomas cognitivos, tais como:
a) Alucinações: alterações sensoperceptivas, sem fundo de realidade, que po­
dem ser do tipo auditivo, visual, táctil, gustativa ou olfativa. A pessoa ouve 
vozes que lhe expressam ordens ou comandos, vê objetos, animais inexisten­
tes, percebe cheiros de coisas que estão ausentes, sente gostos que não cor­
respondem à realidade ou experimentam sensações corpóreas de queimadura 
na pele, por exemplo;
b) Delírios: são alterações do conteúdo dos pensamentos que se manifestam 
através de crenças equivocadas que são mantidas apesar das evidências em 
contrário. Dentre os diversos tipos de delírios, os de conteúdo persecutó­
rio, de traição, ou de ciúme, são aqueles que com mais frequência aparecem 
como justificativa para o cometimento de crime, pois a pessoa acredita estar 
sendo perseguida ou traída e, então, age “para se defender” dessa crença 
errônea, para si tida e havida como real e como verdadeira. Esses aspectos 
devem ser considerados pelos operadores do direito, uma vez que podem 
preencher os requisitos do art. 26 do Código Penal, dando causa para isenção 
ou diminuição da pena;
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 129
c) Processos de Pensamento Desorganizado: consiste na ruptura ou no afrouxa­
mento das cadeias associativas do pensamento lógico. Por isso, usam pala­
vras de modo aleatório, desprovido do seu sentido comum e comunicacional. 
O uso de palavras desconexas expressa a confusão no nível do pensamento, 
e a esquizofrenia, eventualmente, pode ser confundida com um quadro de 
demência;
d) Inundação Cognitiva: trata-se de uma sobrecarga de estímulos semelhante a 
uma inundação de atividade cerebral, que, entretanto, não chega a ser organi­
zada ou metabolizada pelo sujeito;
e) Alterações do Afeto (Humor): consiste em uma modulação do afeto num 
nível rígido, embotado, não modulado;
f) Sintomas Somáticos: manifestações corpóreas do caos psíquico interior;
g) Alterações Motoras: imobilidade por longo período de tempo, agitação, mo­
vimentos aleatórios e sem destino.
Tipos de Esquizofrenia
A Esquizofrenia é divida nos seguintes tipos:
• Tipo Paranoide
• Tipo Desorganizado
• Tipo Catatônico
• Tipo Indiferenciado
• Tipo Residual
Dentre estes tipos, o mais relevante para o direito é a Esquizofrenia Paranoide, 
devido à presença de delírios de perseguição.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
A Esquizofrenia pode vir associada com diversos outros transtornos e possui 
um vasto espectro sintomatológico.
O afeto inadequado costuma vir acompanhado do riso com expressão facial tola 
devido à ausência de um estímulo adequado.
Alterações do ritmo do sono, desorganização, troca do dia pela noite.
Outra característica frequente é o andar a esmo, sem rumo, geralmente acompa­
nhado por uma fala desconexa em tom baixo e linguajar com tartamudeio. Reverbe­
ração, ecolalia, puerilismo, movimentos automáticos geralmente estão presentes na 
Esquizofrenia.
Pode haver desorientação auto e alopsíquica.
Existe a possibilidade de comportamentos de risco para si e para os outros devido 
à desorganização geral do funcionamento mental. Conflitos interpessoais, comporta­
mentos bizarros, agressão e violência podem conduzir a situações jurídicas, devendo 
o operador do direito diferenciar o comportamento flagrantemente criminoso daquele 
resultado de ser o agente portador de Esquizofrenia.
130 JORGE TRINDADE
• T esta g em P sic o ló g ic a - — -
Existem diversos instrumentos psicológicos, psicométricos e projetivos, ca­
pazes de fornecer subsídios importantes para a confirmação diagnóstica da Esqui­
zofrenia.
De acordo com a lição de Sadock (2007, p. 520),178 a história do paciente é es­
sencial para o diagnóstico de esquizofrenia, como também o exame do estado mental. 
Além disso, é preciso levar em conta o nível educacional, a capacidade intelectual e a 
afiliação cultural e subcultural do paciente, uma vez que existem costumes estranhos 
a um determinado grupo, mas que devem ser considerados normais para quem está 
dentro daquele contexto cultural específico.
• C u rso
A Esquizofrenia costuma apresentar sinais prodrômicos. Seu aparecimento ge­
ralmente se dá na adolescência ou no início da idade adulta, desencadeado por um 
evento estressor identificável.
Os primeiros sintomas perturbadores costumam ser desencadeados por fatores 
externos desestruturantes, por uma mudança social ou ambiental, como o ingresso na 
faculdade, uma experiência com substâncias ou a morte de um parente.
O curso clássico da Esquizofrenia é de exasperação e de progressiva deteriora­
ção das funções mentais, com prejuízo das atividades pessoais, dos relacionamentos 
e um empobrecimento geral da personalidade.
A ocorrência de surtos dificilmente permite que o sujeito retome ao patamar de 
funcionamento mental anterior. Essa condição, hoje contestada, é referida como “de­
feito esquizofrênico”, isto é, o prejuízo residual que permanece após cada surto. Por 
esse motivo, todos os esforços terapêuticos devem ser utilizados para evitar o surto 
esquizofrênico, devendo-se somar os recursos médicos, psiquiátricos e psicológicos 
para proteger o sujeito de um surto dessa natureza.
• G en ética , In cid ên cia e P a d r ã o F a m ilia r
Há fortes indicadores da presença de fatores genéticos na Esquizofrenia. Gê­
meos idênticos apresentam taxa de concordância muito elevada (86%; 65%; 50%, 
conforme o tipo de investigação), enquanto em gêmeos fraternos é menor (15%), mas 
muito mais alta do que a taxa de incidência na população geral, estimada em tomo de 
1% (Lambert e Kinsley, 2006, p. 268).179 Entretanto, as vivências familiares também 
desempenham um importante papel nas esquizofrenias, mais frequentes em famílias 
desestruturadas, desorganizadas e com funcionamento caótico, o que confere ao am­
biente uma participação não menos significativa no desenvolvimento da patologia.
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 315),180 os critérios diagnósticos para aEsqui- 
zofrenia são os seguintes:
178 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica, tradução Claudia 
Dom elles. 9a ed. Porto A legre: Artm ed, 2007, p. 520.
179 LAM BERT, K .; KINSLEY, C. H . Neurociência clínica - as bases neurobiológicas da saúde mental. Porto A le­
gre: Artm ed, 2006, p. 268.
180 AM ERICAN PS YCHOLOGICAL ASSO CIA TÍON . Manual de publicação da American Psychological Associa- 
tion (Daniel Bueno, trad.). Porto Alegre: A rtm ed, 2003, p. 315.
Manual dé Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 131
Critérios Diagnósticos para Esquizofrenia
A. Sin tomas característicos: Dois (ou mais) dos seguintes, cada qual presente por uma porção significativa de tem po durante o período 
de 1 mês (ou menos, se tratados com sucesso):
(1) delírios
(2) alucinações
(3) discurso desorganizado (por e x „ frequente descarrilamento ou incoerência)
(4) com portam ento am plamente desorganizado ou catatônico
(5) sintom as negativos, isto é, embotam ento afetivo, alogia ou avolição
Nota: Apenas um sintoma do Critério A é necessário se os delírios são bizarros ou as alucinações consistem de vozes que com en­
tam o com portam ento ou os pensam entos da pessoa, ou duas ou m ais vozes conversando entre si.
8 . Disfunção social/ocupacional: Por um a porção significativa do tem po desde o in ic io da perturbação, uma ou mais áreas im portantes 
do funcionamento, tais com o trabalho, relações interpessoais ou cuidados pessoais, estão acentuadamente abaixo do nível alcançado 
antes do início (ou, quando o início se dá na infância ou adolescência, fracasso em atingir o nível esperado de aquisição in terpessoal, 
acadêmica ouocupacúnal).
C. Duração: Sinais contínuos da perturbação persistem por pelo menos 6 meses. Este período de 6 meses deve incluir pelo menos 
1 mês de sintomas (ou menos, se tratados com sucesso) que satisfazem o critério A (isto é, sintomas da fase ativa) e pode incluir 
períodos de sintomas prodrôm icos ou residuais. Durante esses períodos prodrõmicos ou residuais, os sinais da perturbação podem 
ser manifestados apenas por sintom as negativos ou por dois ou mais sintomas relacionados no Critério A presentes de uma forma 
atenuada (por ex., crenças estranhas, experiências perceptuais incomuns).
D. Exclusão de Transtorno Esquizoafetivo e Transtorno do Humor: o Transtorno Esquizoafetivo e o Transtorno do Hum or com As­
pectos Psicóticos foram descartados, porque (1) nenhum Episódio Depressivo Maior, Maníaco ou M isto ocorreu concom itantem ente 
aos sintom as da fase ativa; ou (2) se os episódios de hum or ocorreram durante os sintomas da fase ativa, sua duração total fo i breve 
relativamente à duração dos períodos ativo e residual.
E. Exclusão de substância/condição médica geral: a perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por 
ex., um a droga de abuso, um medicam ento) ou a uma condição médica geral.
F. Relação com um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento: se existe um a história de Transtorno Autista ou um outro Transtorno 
Invasivo do Desenvolvimento, o diagnóstico adicional de Esquizofrenia é feito apenas se delírios ou alucinações proem inentes também 
estão presentes por pelo menos 1 m ês (ou menos, se tratados com sucesso).
C lassificação do curso longitudinal (pode ser aplicada apenas 1 mês após o aparecim ento inic ial dos sintomas da fase ativa): 
Episódico Com Sintomas Residuais Entre Episódios (episódios são definidos pelo ressurgimento de sintom as psicóticos proem inen­
tes); especificar tam bém se:
- Com Sintomas Negativos Proem inentes Episódico Sem Sintomas Residuais Entre Episódios Contínuo (sintomas psicóticos proem i­
nentes estão presentes durante todo o período de observação); especificar também se: Com Sintomas Negativos Proeminentes;
- Episódio Único em Remissão Parcial; especificar também se: Com Sintomas Negativos Proeminentes;
- Episódio Único em Remissão Completa;
- O utro Padrão ou Padrão Inespecífico.
O filme U m a M en te B rilh a n te , que retrata a vida de um matemático que ganhou 
o Prêmio Nobel, John Nash, tem sido referido à esquizofrenia devido ao isolamen­
to social do personagem, mas a história contrasta com outros aspectos clássicos da 
doença, marcada também por alucinações e maciça desorganização interna.
132 J O R G E T R I N D A D E
7.6. Transtorno Delirante
Este transtorno, que está referido no DSM-IV-TR (2003, p. 326),181 tem sido res- 
ponsávei por diversos comportamentos penalmente típicos, que variam num espectro 
de ações muito amplo: da simples ameaça ao homicídio e ao homicídio intrafamiliar.
Assim sendo, também possui relevância nas considerações de que trata o artigo 
26 do Código Penal. A propósito, a jurisprudência é farta no sentido de acolher o 
Transtorno Delirante como causa de inimputabilidade ou de culpabilidade diminuída, 
conforme a especificidade do caso concreto.
Como antes mencionado, o Transtorno Delirante, de acordo com a Classifica­
ção de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, p 96), organiza 
os Transtornos Delirantes Persistentes em F22, do seguinte modo:
F22.0 Transtorno delirante
F22.1 Outros transtornos delirantes persistentes
F22.2 Transtorno delirante persistente, não especificado.
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 326), a característica essencial do Transtorno 
Delirante é a presença de um ou mais delírios não bizarros que persistem por pelo 
menos um mês (Critério A). Um diagnóstico de Transtorno Delirante não é dado se 
o indivíduo já apresentou um quadro sintomático que satisfazia o Critério A para Esquizofrenia (Critério B).
O humor do indivíduo com Transtorno Delirante é compatível com o delírio. 
Delírios de ruína são consistentes com humor deprimido, enquanto delírios de grande­
za ou de referência costumam acompanhar estados eufóricos e exaltados do humor.
Pode haver a presença de alterações da sensopercepção (alucinações), mas ge­ralmente não são prolongadas.
Alterações do controle dos impulsos devem ser bem avaliadas, porque indiví­
duos com Transtorno Delirante podem planejar comportamentos homicidas, espe­
cialmente quando o delírio é persistente em tomo da existência de pessoas que os 
estão perseguindo ou prejudicando. Este dado informativo é relevante também aos 
operadores do direito, uma vez que essas pessoas costumam procurar advogados para 
se defender, ainda que seus perseguidores não sejam reais. É frequente buscar órgãos 
policiais e a Promotoria de Justiça para apresentarem queixa em relação aos prejuízos 
de que são vítimas e para sustarem a ação dos perseguidores havidos como verdadei­
ros. Em geral, o discurso desses indivíduos costuma ser coerente e bem estmturado, 
de modo que pode deixar o operador do direito em dúvida sobre a realidade ou a fantasia da narrativa apresentada.
• S u b tip o s
O tipo de Transtorno Delirante pode ser especificado com base no tema deli­rante predominante:
Tipo Erotomaníaco. O tema central do delírio diz respeito a ser amado por 
outra pessoa (Kaplan e Sadock, 1990, p. 289; DSM-IV-TR, 2003, p. 326).132
181 AM ERICAN PSYCHO LO GtCA L ASSO CIA TION . Manual de publicação da American Psychological Associa- lion (Daniel Bueno, trad.). Porto Alegre: Artm ed, 2003, p. 326.
18" KAPLAN, H. I.; SADOCK, B. J.; GREBB, J. A. Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990, p. 289.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 133
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jtes de saúde mental, quanto pelos órgãos encarregados da segurança e dos serviços 
judiciários.
Tipo Somático. Os delírios somáticos podem ocorrer de diferentes maneiras, 
desde a crença de que seu corpo emite odor desagradável até concepções de que 
certas partes do corpo são malformadas ou feias, ou ainda se acham infectadas, con­
trariamente a todas as evidências médicas.
Tipo Misto. Este subtipo se aplica quando não há predomínio de um tema de­
lirante.
Tipo Inespecificado. Quando a crença dominante no delírio não pode ser clara­
mente determinada ou não está descrita entre os tipos específicos conhecidos. Delírio 
de haver um duplo; delírio de lobisomem, por exemplo.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
Diversos problemas podem estar associados a este tipo de Transtorno. Dentre 
eles, porque podem produzir alguma consequência jurídica, cabe destacar os de na-
183 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica, tradução Claudia 
D om elles. 9* ed. Porto Alegre: A rtm ed, 2007, p. 290.
134 JORGE TRINDADE
tureza conjugal (direito de família), os de ordem profissional (direito do trabalho), 
os que conduzem à prática de atos agressivos e violentos (direito penal), sendo que 
os indivíduos com Transtorno Delirante do Tipo Persecutório e Ciumento são os que 
oferecem mais risco de agressão e violência para terceiros, às vezes dentro do próprio 
ambiente doméstico.
• C o n d iç õ es E sp ec íf ica s à C u ltu ra e a o G ên ero
O Transtorno Delirante do Tipo Ciumento parece ser mais comum em homens 
do que em mulheres, o que, a par de outros fatores, também pode ser explicado pelas 
características de uma cultura ainda machista, na qual o homem é detentor de permis­
sões que são vedadas às mulheres, ainda que sem qualquer fundamento consistente.
• P re va lê n c ia
Estima-se que o Transtorno Delirante seja raro, envolvendo percentual que se 
situa em tomo de 0,03% (DSM-IV-TR, 2003, p. 328).
Por outro lado, trata-se de um transtorno considerado tardio, com incidência 
após os 25-28 anos de idade. Muitos pacientes são casados e têm emprego, e pode 
haver alguma associação com imigração recente ou baixa situação socioeconômica 
(Sadock, 2007, p. 549).
Deve-se considerar que o Transtorno Delirante pode ser sub-relatado, porque os 
pacientes raramente buscam auxílio por conta própria. Muitas vezes esses pacientes 
são encaminhados por juizados ou tribunais devido à preexistência de uma situação 
em conflito com a lei.
• C u rso
Como antes mencionado, o início do Transtorno Delirante em geral se situa 
na fase intermediária ou tardia da idade adulta, mas pode ocorrer antes. Os Tipos 
Ciumento, Persecutório e de Grandiosidade, apesar das divergências teóricas entre 
escolas, a nosso juízo, são os que possuem prognóstico mais reservado. O Tipo Per­
secutório é o subtipo mais comum.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
O diagnóstico diferencial para o Transtorno Delirante deve ser feito levando-se 
em consideração os seus subtipos, e em relação aos seguintes Transtornos:
a) Esquizofrenia e do Transtorno Esquizofreniforme;
b) Transtornos do Humor com Características Psicóticas;
c) Transtornos da Hipocondria (subtipo somático);
d) Transtornos do Transtorno de Personalidade Paranoide.
São critérios diagnósticos para Transtorno Delirante, segundo o DSM-IV-TR 
(2003, p. 330):
Critérios Diagnósticos para Transtorno Delirante
A. Delírios não bizarros (isto é, envolvendo situações que ocorrem na vida real, ta is como ser seguido, envenenado, infectado, amado 
a distância, tra ído por cônjuge ou parceiro rom ântico ou te r uma doença) com duração mínim a de 1 mês.
B. 0 critério A para Esquizofrenia jamais fo i satisfeito.
Nota: alucinações táteis e olfativas podem estar presentes no Transtorno Delirante, se relacionadas ao tema dos delírios.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 135
C. Exce lo peto impacto do(s) delírio(s) oo de suas ram ificações, o funcionam ento não está acentuadamente prejudicado, e o com por­
tam ento não é visivelmente esquisito ou bizarro.
D. S e episódios de hum or ocorreram durante os delírios, sua duração total foi breve relativamente à duração dos períodos delirantes.
E. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., uma droga de abuso, um m edicamento) ou 
de um a condição médica geral.
Especificar tipo (os tipos seguintes são atribuídos com base no tem a predom inante do(s) delírio(s):
- Tipo Erotomaníaco: delírios de que outra pessoa, geralm ente de situação m ais elevada, está apaixonada pelo indivíduo.
- T ipo Grandioso: delírios de grande valor, poder, conhecimento, identidade ou de relação especia l com uma d ivindade ou pessoa 
fam osa.
- T ipo Ciumento: delírios de que o parceiro sexual do indivíduo é infiel.
- Tipo Persecutório: delírios de que o indivíduo (ou alguém chegado a ele) está sendo, de algum modo, maldosam ente tratado.
- Tipo Somático: delírios de que a pessoa tem algum defeito físico ou condição médica geral.
- Tipo Misto: delírios característicos de m ais de um dos tipos acima, sem predom ínio de nenhum deles.
-T ipo lnespec ificado .
7.7. Transtornos Mentais Relacionados a Substâncias
A importância para o direito destes transtornos que estão descritos no DSM- 
-IV-TR (2003, p. 207) é muito grande: justiça terapêutica, justiça restaurativa, direito 
penal, avaliação da personalidade do réu para efeitos de fixação da pena, condições 
do funcionário público usuário/dependente (ingresso, licenças, reaproveitamento em 
outra função, aposentadoria), etc.
Ademais, a delinquência juvenil e a delinquência adulta são significativamente 
influenciadas por estes transtornos, que, geralmente, aparecem como condição asso­
ciada à criminalidade em geral.
Isso, por si só, justifica que os operadores do direito procurem possuir informa­
ções e conhecimentos sobre os Transtornos Mentais Relacionados a Substâncias, no­
meadamente aqueles que militam no campo do direito penal, do Estatuto da Criança 
e do Adolescente e mesmo do direito de família. Infelizmente, a questão das drogas 
constitui um dos grandes desafios da sociedade contemporânea, e o tráfico de drogas 
tem sido referido como a maior fonte de lucro ilícito, devendo merecer atenção es­
pecial do Estado, das autoridades responsáveis por políticas públicas específicas, do 
Poder Judiciário e do Ministério Público.
Os Transtornos Mentais Relacionados a Substâncias encontram correlação pelo 
sistema de Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 
(1993, p. 192), em F10-F19, com a denominação T ran storn os m en ta is e d e co m p o r ta ­
m en to d e co rre n te s d o u so d e su b s tâ n c ia sp s ic o a tiv a s , na qual se encontram incluídos:
F10 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool
F11 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de opioides
F12 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de canabioides
F13 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de sedativos ou hipnóticos
F14 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de cocaína
F15 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de outros estimulantes, in­
cluindo cafeína
F16 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de alucinógenos
136 JORGE TRINDADE
F17 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de tabaco 
F18 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de solventes voláteis 
F19 Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de múltiplas drogas e do uso 
de outras substâncias psicoativas.
Os Transtornos Relacionados a Substâncias incluem desde transtornos relacio­
nados ao consumo de drogas (inclusive álcool), aos efeitos colaterais de um medica­
mento e à exposição a toxinas. No DSM-IV-TR (2003), o termo “substância” pode 
referir-se a um abuso de drogas, a um medicamento ou a uma toxina.
Assubstâncias discutidas neste Transtorno costumam ser classificadas em 11 
categorias:
Álcool
Anfetamina ou simpaticomiméticos de ação similar
Cateína
Canabinoides
Cocaína
Alucinógenos
Inalantes
Nicotina
Opioides
Fenciclidina (PCP) ou arilciclo-hexilaminas de ação similar e sedativos 
Hipnóticos ou ansiolíticos
Dependência de Substâncias
• C a ra c te r ís tic a s
A característica da Dependência de Substância é a presença de um conjunto 
de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos, indicando que o indivíduo 
continua utilizando uma substância, apesar de problemas significativos por ela cau­
sados.
Devem ser considerados alguns fatores que influenciam os efeitos das substân­
cias:
1) Efeitos Dependentes da Dose: estão relacionados com a quantidade da subs­
tância utilizada.
2) Diferenças Individuais: estão relacionadas com o tipo de personalidade, com 
experiências anteriores e também com fatores genéticos.
3) Interação: o efeito depende das combinações entre as substâncias. Algumas 
combinações potencializam os efeitos e podem chegar a um resultado fatal.
4) Tolerância: com administrações sucessivas, o nível de dosagem precisa ser 
aumentado para a obtenção dos mesmos efeitos.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 137
Pelos critérios do DSM-IV-TR (2003, p. 212), a Dependência é definida como 
um agrupamento de três ou mais dos sintomas, ocorrendo a qualquer momento, no 
mesmo período de 12 meses. Seus critérios são os seguintes:
'-------------------- '---------- - • ---------------------------- • ----------------------------------------------------
. C r ité rio s pa ra Dependência de
Um padrão mal-adaptativo de uso de substância, levando a prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo, m anifestado por três (ou 
mais) dos seguintes critérios, ocorrendo a qualquer momento no mesm o período de 12 meses:
(1) tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
a) uma necessidade de quantidades progressivam ente maiores da substância para adquirir a intoxicação ou efeito desejado
b) acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade de substância
(2) abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
a) síndrome de abstinência característica para a substância (consultar os Critérios A e 8 dos conjuntos de critérios para Abstinência 
das substâncias específicas)
b) a mesma substância (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumida para a liv iar ou evitar sintom as de abstinência
(3) a substância é frequentemente consum ida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido
(4) existe um desejo persistente ou esforços m al-sucedidos no sentido de reduzir ou controla r o uso da substância
(5) muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção da substância (por e x „ consultas a m últip los m édicos ou fazer 
longas viagens de automóvel), na utilização da substância (por ex., fum ar em grupo) ou na recuperação de seus efeitos
(6) im portantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso da substância
(7) o uso da substância continua, apesar da consciência de te r um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende 
a ser causado ou exacerbado peta substância (por ex., uso atual de cocaína, em bora o indivíduo reconheça que sua depressão é 
induzida por ela, ou consum o continuado de bebidas alcoólicas, em bora o indivíduo reconheça que um a úlcera piorou pelo consumo 
do álcool) * *
• A b u so d e S u b stâ n c ia
É considerado Abuso de Substância quando o indivíduo não é dependente dela, 
mas o seu uso conduz a prejuízos importantes no funcionamento geral da pessoa.
Um indivíduo não pode satisfazer o diagnóstico de abuso para determinada subs­
tância, uma vez que tenha satisfeito os critérios para dependência desta substância.
Por fim, cabe sublinhar que existe estreita relação entre droga ilícita e delinquên­
cia. O abuso, por exemplo, pode causar graves consequências jurídicas se o usuário, 
nessas condições, causar acidente de trânsito com lesões ou morte de terceiros.
Por qualquer lado que se examine a questão da dependência ou do abuso de 
substâncias, além das considerações de ordem médica e psicológica, a intervenção 
do direito através de instrumentos legislativos e judiciais adequados se faz relevante, 
mormente se considerarmos que estamos frente a um grande desafio, que deve envol­
ver a família, a escola, as instituições, o Estado e a sociedade como um todo.
* T ra n sto rn o s D is s o c ia tiv o s
Os Transtornos dissociativos também interessam ao direito. Eles são apresen­
tados pelo DSM-IV-TR (2003, p. 498) e devem ser referidos aqui, ainda que apenas 
brevemente, devido à necessidade de se conhecer como se classificam, razão pela 
qual selecionamos somente os aspectos que podem ser relevantes para a prática do 
direito, pois, dependendo da situação fática, podem produzir consequências no cam-
138 JORGE TRINDADE
po do direito penal, no direito civil, no direito administrativo e no direito do trabalho: 
amnésia dissociativa, fuga dissociativa, transtorno dissociativo de identidade, trans­
torno de despersonalização e transtorno dissociativo sem outra especificação.
Pela Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, 
p. 149), os Transtornos Dissociativos aparecem em F44, com a mesma denominação, 
apenas acrescida da expressão “ou conversivos”, dividindo-se da seguinte forma:
F44.0 Amnésia dissociativa
F44.1 Fuga dissociativa
F44.2 Estupor dissociativo
F44.3 Transtornos de transe e possessão r
F44.4 F44.7 Transtornos dissociativos de movimento e sensação
F44.4. Transtornos motores dissociativos
F44.5 Convulsões dissociativas
F44.6 Anestesia e perda sensorial dissociativa
F44.7 Transtornos dissociativos (ou conversivos) mistos
F44.8 Outros transtornos dissociativos (ou conversivos)
F44.9 Transtorno dissociativo (ou conversivo), não especificado.
Nos Transtornos Dissociativos existe uma importante separação entre as fun­
ções da personalidade do indivíduo. Para o DSM-IV-TR (2003, p, 497), o traço fun­
damental que marca os Transtornos Dissociativos é uma perturbação nas funções 
habitualmente integradas de consciência, memória, identidade ou percepção do am­
biente, sendo que o transtorno pode ter uma origem repentina ou um desenvolvimen­
to gradual, ser transitório ou crônico e progressivo.
Os principais Transtornos Dissociativos são:
a) Amnésia Dissociativa: caracterizada por uma incapacidade de recordar infor­
mações pessoais importantes, em geral de natureza traumática ou estressan- 
te, demasiadamente extensa para ser explicada pelo esquecimento normal, e 
geralmente ocorrendo imediatamente ao evento. A capacidade para aprender 
novas informações é mantida. Uma forma comum de amnésia dissociativa 
envolve a amnésia para a própria identidade pessoal, mas memória intacta 
para informações gerais (Sadock, 2007, p. 722).184
b) Fuga Dissociativa: caracterizada por uma viagem ou mudança repentina para 
um novo local, mudança inesperada de trabalho, acompanhada por uma in­
capacidade de recordar o próprio passado (amnésia) e confusão acerca da 
identidade anterior (nome, família, ocupação, etc.), associada à aquisição de 
uma nova identidade e ocupação.
c) Transtorno Dissociativo de Identidade (anteriormente Transtorno de Perso­
nalidade Múltipla): caracterizado pela assunção de duas ou mais identidades 
ou estados de personalidade distintos, cada qual dominante em um momento 
diferente. Geralmente uma personalidade é considerada o lado bom do su­
jeito, enquanto a outra representa seus aspectos negativos, o que permitiu a 
simbologia dual “santo versu s demônio”. Tradicionalmente, na origem de 
um Transtorno Dissociativo de identidade se encontra um evento traumático 
significativo, tal como abuso físico ou sexual na infância.
154 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica,tradução Claudia 
Dom elles. 9* ed. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 722.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 139
d) Transtorno de Despersonalização: envolve a perda ou a distorção episódica e 
temporária do eu. E caracterizado por um sentimento persistente de o sujeito 
estar se distanciando de si próprio ou de seu próprio corpo, mantendo intacto 
o princípio da realidade. Estes pacientes podem sentir-se mecânicos, como 
em sonho, ou distanciados do próprio corpo.
e) Transtorno Dissociativo sem outra especificação: destinado para a codifica­
ção de transtornos cuja característica predominante é um sintoma dissociati­
vo, que não se enquadra nos critérios para qualquer Transtorno Dissociativo 
específico.
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 501), os critérios diagnósticos para a Amné­
sia Dissociativa são os seguintes:
Critérios Diagnósticos para Amnésia Dissociativa
A. A perturbação predom inante consiste de um ou mais episódios de incapacidade de recordar in formações pessoais importantes, em 
geral de natureza traumática ou estressante, dem asiadam ente extensa para se r explicada pelo esquecimento normal.
B. A perturbação não ocorre exclusivamente durante o curso de Transtorno Dissociativo de Identidade, Fuga Dissociativa, Transtorno 
de Estresse Pós-Traumático, Transtorno de Estresse Agudo ou Transtorno de Somatização, nem se deve aos e fá tos fisiológicos diretos 
de um a substância (por ex., droga de abuso, medicamento), de uma condição neurológica ou de outra condição médica geral (por ex., 
Transtorno Amnéstico Devido a Traumatismo Craniano).
C. Os sintomas causam sofrimento clin icam ente significativo ou prejuízo no funcionam ento social ou ocupacional ou em outras áreas 
im portantes da vida do indivíduo.
De acordo com o mesmo Manual (DSM-IV-TR, 2003, p. 503), os critérios diag­
nósticos para Fuga Dissociativa são os seguintes:
Critérios Diagnósticos para Fuga Dissociativa I
A. A perturbação predom inante é uma viagem súbita e inesperada para longe de casa ou do local costumeiro de trabalho do indivíduo, 
com incapacidade de recordar o próprio passado.
B. C onfusão acerca da identidade pessoal ou adoção (parcial ou com pleta) de uma nova identidade.
C. A perturbação não ocorre exclusivam ente durante o curso de um Transtorno D issociativo de Identidade nem se deve aos efeitos 
fisiológicos diretos de u n a substância (por ex., droga de abuso, medicamento) ou de um a condição médica geral (por ex., epilepsia 
do lobo temporal).
D. Os sintomas causam sofrimento clin icam ente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas 
im portantes da vida do indivíduo.
Por sua vez, os critérios diagnósticos para Transtorno Dissociativo de Identida­
de (DSM-IV-TR, 2003, p. 506) são os seguintes:
Critérios Diagnósticos para Transtorno Dissociativo de Identidade
A . Presença de duas ou m ais identidades ou estados de personalidade distintos (cada qual com seu próprio padrão relativamente 
persistente de percepção, relacionam ento e pensam ento acerca do am biente e de si mesmo).
B. Pelo m enos duas dessas identidades ou estados de personalidade assumem recorrentem ente o controle do com portam ento da 
pessoa.
140 JORGE TRINDADE
C. Incapacidade de recordar informações pessoais im portantes, dem asiadamente extensa para ser explicada pelo esquecimento 
comum.
D. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., blackouts ou comportam ento caótico durante 
a Intoxicação com Álcool) ou de um a condição médica geral (por ex., crises parciais complexas).
Nota: Em crianças, os sintom as não são atribuíveis a com panheiros im aginários ou outros jogos de fantasia.
Finalmente, cabem referir os critérios diagnósticos adotados para o Transtor­
no de Despersonalização, segundo o referido Manual de Codificação (DSM-IV-TR, 
2003, p. 509).
Critérios Diagnósticos para Transtorno de Despersonalização
A. Experiências persistentes ou recorrentes de sentir-se desligado de si próprio e de com o se o indivíduo fosse um observador externo 
dos próprios processos m entais ou do próprio corpo (por ex., sentir-se com o em um sonho).
B. Durante a experiência de despersonalização, o teste de realidade permanece intacto.
C. A despersonalização causa sofrimento clin icam ente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras 
áreas im portantes da v ida do indivíduo.
D. A experiência de despersonalização não ocorre exclusivam ente durante o curso de outro transtorno mental, com o Esquizofrenia, 
Transtorno de Pânico, Transtorno de Estresse Agudo ou outro Transtorno Dissodativo, nem se deve aos efeitos fisiológicos diretos de 
uma substância (por ex., droga de abuso, m edicamento) ou de um a condição médica geral (por ex., epilepsia do lobo temporal).
Como é fácil de constatar, os Transtornos Dissociativos também merecem a 
atenção dos operadores do direito, pois não são raros os problemas ocasionados por 
eles, nomeadamente na Amnésia Dissociativa e no Transtorno Dissociativo de Iden­
tidade, quando a pessoa adquire, do ponto de vista psicológico, duas ou mais perso­
nalidades, enquanto sob a ótica jurídica a personalidade natural é uma só.
Algumas demandas judiciais podem decorrer da adoção de personalidades múl­
tiplas, especialmente quando, sob a dominância de uma, a segunda desconhece e 
denega obrigações e compromissos assumidos pela primeira.
7.8. Transtornos Sexuais
Os Transtornos Sexuais e da Identidade de Gênero, como refere o DSM-IV- 
-TR (2003, p. 511), podem ter amplos reflexos no direito, designadamente no direito 
penal. Considerando os objetivos específicos deste Manual, importa destacar as de­
nominadas Parafilias, sendo de chamar atenção para a Pedofilia em face da gravidade 
de que se reveste este transtorno nos dias de hoje, especialmente devido às facili­
dades de comunicação instantânea, de anonimato, de poder atingir um sem-número 
de participantes em diferentes locais e países, proporcionado pelo uso criminoso da 
I n t e r n e t . 185
185 A propósito, ver: TRIN DA DE, J.; BREIER, R. Pedofilia: aspectos psicológicos e penais. 2a ed. Porto Alegre: 
Livraria do Advogado, 2010.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 141
A sistemática da C la ss if ic a ç ã o d e T ra n sto rn o s M en ta is e d e C o m p o rta m en to d a 
C ID -1 0 (1993, p. 213) se faz da seguinte maneira:
F65 Transtornos de preferência sexual (inclui as parafilias)
F65.0 Fetichismo
F65.1 Transvestismofetichista
F65.2 Exibicionismo
F65.3 Voyeurismo
F65.4 Pedofilia
F65.5 Sadomasoquismo
F65.6 Transtornos múltiplos de preferência sexual 
F65.8 Outros transtornos de preferência sexual 
F65.9 Transtorno de preferência sexual, não especificado.
Parafilias
As Parafilias são caracterizadas por anseios, fantasias ou comportamentos se­
xuais recorrentes e intensos que envolvem objetos, atividades ou situações incomuns 
e causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social 
ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. A influência da 
fantasia e suas manifestações comportamentais estendem-se além da esfera sexual, 
invadindo a globalidade da vida da pessoa.
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
As parafilias se definem em função de meios desviantes da forma de obter sa­
tisfação sexual. Seus principais sintomas são fantasias, desejos e excitação sexual do 
tipo recorrente por:
a) objetos não humanos: peças de vestuário, sapatos, estatuetas, etc.;
b) sofrimento e humilhação;
c) indivíduos não anuentes, como crianças e incapazes de consentir.
Dentre os casos identificados de parafilias, a pedofilia constitui o tipo de per­
versão mais comum. Segundo Kaplan e Sadock (1999, p. 627),186 cerca de 3 a 20% 
das crianças são sexualmente molestadas antes dos 18 anos. Isso significa também 
problemas com a justiça, não apenas no sentido de identificar os casos de pedofilia e 
processar seusautores, como também proteger as vítimas, às vezes molestadas dentro 
de sua própria casa.
Exibicionistas e Voyeuristas também geram problemas de ordem policial e le­
gal. Por isso, os operadores do direito devem conhecer esses Transtornos a fim de 
promoverem os encaminhamentos jurídicos adequados a cada caso.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
Existem diversas condições associadas com os Transtornos Sexuais. Entretanto, 
devem ser destacadas as questões relacionadas ao tráfico de drogas, à prostituição 
infantil, à pornografia e a outros tipos de abusos psicológicos e físicos.
186 KAPLAN, H . L; SADOCK, B . I.; GREBB, J. A. Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999, p. 627.
142 JORGE TRINDADE
Por outro lado, a sexualidade irresponsável e criminosa está relacionada com o 
aumento de doenças sexualmente transmissíveis, dentre elas o HTV.
Ademais, comportamentos sádicos ou masoquistas são protagonistas de violên­
cia real e podem provocar ferimentos que variam desde lesões leves até ameaça de 
morte e homicídio, quando os desejos impulsivos não são satisfeitos.
• C o n d iç õ es E sp e c íf ic a s à C u ltu ra e a o G ên ero
O diagnóstico das Parafilias revela-se bastante complexo porque, dentre outras 
variáveis, conta com a dificuldade de estabelecer critérios de normalidade para a ati­
vidade sexual. Aspectos culturais, religiosos e mesmo políticos estão envolvidos na 
definição e delimitação de comportamentos sexuais.
• P re va lê n c ia
Os registros oficiais de denúncias por práticas decorrentes das Parafilias pare­
cem mostrar apenas a ponta de um ic e b e rg . Com efeito, em se tratando de perversões 
sexuais, existe uma cifra não revelada de casos cuja dimensão é muito difícil de ser 
avaliada corretamente.
Segundo Holmes (1997, p. 417),187 pode-se supor que, à exceção do masoquis­
mo sexual, as parafilias são encontradas predominantemente em homens.
Conforme ensinamento de Sadock (2007, p. 766),188 mais de 50% das para­
filias iniciam antes dos 18 anos de idade. Os parafílicos, com frequência, têm de 
três a cinco parafilias diferentes, ao mesmo tempo, ou em diferentes momentos de 
suas vidas. Entretanto, a incidência do comportamento parafílico atinge um ponto 
máximo entre os 15 e 25 anos, estimando-se que decline gradualmente com o passar 
da idade.
• C u rso
Os Transtornos Sexuais podem apresentar seus primeiros sintomas na infância 
e no início da adolescência e podem perdurar ao longo da vida adulta, adquirindo 
maior expressão, no sexo masculino, no final da quarta e início da quinta décadas 
de vida.
As Parafilias em geral apresentam prognóstico bastante sombrio. Indivíduos 
com Transtornos Sexuais (Parafilias) são egossintônicos e não revelam sentimento 
de culpa pelos atos que praticam à custa do sofrimento de outros. A psicoterapia é de 
uso muito limitado, na medida em que o indivíduo com transtornos somente recorre 
à ajuda para obter ganhos secundários, geralmente para se proteger de um problema 
conjugal, policial ou judicial.
O mau prognóstico para parafilias está associado com um início precoce, alta 
frequência dos atos, ausência de sentimentos de culpa ou vergonha sobre o ato e 
abuso de substâncias geralmente associado. O curso e o prognóstico costumam ser 
melhores quando o paciente possui relações saudáveis com o(a) parceiro(a), quando 
apresenta motivação para a mudança e quando busca tratamento por livre iniciativa, 
dando o indicativo de que apresenta distonia em seus sentimentos. Diferentemente, 
é de pior prognóstico o sujeito que busca atendimento somente porque encaminhado
187 HOLM ES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2a ed. Porto Alegre: A rtes M édicas, 1997, p. 417.
188 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução Cláudia 
Dornelles. 9a ed. Porto Alegre: Artm ed, 2007, p. 766.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 143
por um órgão judiciário em virtude de uma situação de conflito perante a lei. Em 
regra, esses indivíduos não possuem capacidade de elaboração interna. Falta empatia 
e capacidade para formação de vínculo. Por essas razões, constantemente têm sido 
evocadas as abordagens de castração química e castração física. Entretanto, nem uma 
nem outra configuram formas de tratamento, mas são intervenções destinadas a im­
pedir a atuação do impulso inadequado.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
O diagnóstico diferencial das parafilias deve ser estabelecido em relação ao uso 
não patológico de fantasias sexuais, comportamentos ou objetos como estímulo para 
a excitação sexual em indivíduos sem Parafilia.
Deve, igualmente, ser feito em relação a certos Transtornos específicos, tais como:
a) Retardo Mental;
b) Demência;
c) Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral;
d) Intoxicação com Substância;
e) Episódio Maníaco;
f) Esquizofrenia.
E preciso diferenciar parafilia de uma experimentação na qual o ato é executado 
por sua “novidade”, e não de uma forma persistente ou compulsiva. Algumas parafi­
lias, especialmente aquelas do tipo bizarro, podem fazer parte de um outro transtorno 
mental, como, por exemplo, a esquizofrenia. Doenças cerebrais (organomentais) po­
dem liberar impulsos perversos.
• P rin c ip a is e s p é c ie s d e P a ra filia
1) Exibicionismo;
2) Fetichismo;
3) Frotteurismo;
4) Pedofilia;
5) Masoquismo Sexual;
6) Sadismo Sexual;
7) Travestismo Fetichista;
8) Voyeurismo;
9) Parafilias Sem outra Especificação.
De acordo com o DSM-IV-TR (2003, p. 541), os critérios diagnósticos do Exi­
bicionismo são os seguintes:
Critérios Diagnósticos para Exibicionismo
A. Ao longo de um período mínim o de 6 meses, fantasias, anseios sexuais e comportamentos sexualm ente excitantes recorrentes e 
intensos, envolvendo a exposição dos próprios genitais a um estranho insuspeito.
B. As fantasias, anseios ou com portam entos sexuais causam sofrimento clin icam ente significativo ou prejuízo no funcionam ento social 
ou ocupacional ou em outras áreas im portantes da vida do indivíduo.
144 JORGE TRINDADE
Para o Fetichismo-, os critérios diagnósticos são os seguintes (DSM-IV-TR, 
2003, p. 542):
| ' S a 4 * ' " ‘' y -
A. Ao longo de um período mínimo de 6 meses, fantasias sexualm ente excitantes, recorrentes e intensas, impulsos sexuais e anseios 
ou comportamentos envolvendo o uso de objetos inanim ados (por ex., roupas íntimas femininas).
B. As fantasias, impulsos sexuais ou com portam entos causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento 
social ou ocupacional ou em outras áreas im portantes da vida do indivíduo.
C. Os objetos de fetiche não se restringem a artigos de vestuário fem inino usados no transvestismo (como no Fetichismo Transvéstico) 
ou a dispositivos desenvolvidos com a finalidade de estim ulação tátil da genitália (por ex., vibrador).
Por outro lado, os critérios diagnósticos para Frotteurismo, segundo o DSM-IV- 
-TR (2003, p. 542), são:
A. Ao longo de um período mínimo de 6 meses, fantasias sexualm ente excitantes, recorrentes e intensas, im pulsos sexuais ou com­
portamentos envolvendo tocar e esfregar-se em um a pessoa sem o seu consentimento.
B. As fantasias, im pulsos sexuais ou com portam entos causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento 
social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
Para Pedoftlia, os critérios diagnósticos são (DSM-IV-TR, 2003, p. 543):
C rité rio s D ia g n ó s tic o s para P edo filia
A. Ao longo de um período mínimo de 6 meses, fantasias sexualm ente excitantes recorrentes e intensas, Impulsos sexuais ou com por­
tamentos envolvendo atividade sexual com um a (ou m ais de uma) criança pré-púbere (geralmente com 13 anos ou menos).
B. As fantasias, impulsos sexuais ou com portam entos causam sofrim ento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento 
social ou ocupacional ou em outras áreas im portantes da v ida doindivíduo.
C. 0 indivíduo tem no mínim o 16 anos e é pelo menos 5 anos m ais velho que a criança ou crianças no Critério A.
Nota para a codificação: Não incluir um indivíduo no final da adolescência envolvido em um relacionam ento sexual contínuo com uma 
criança com 12 ou 13 anos de idade.
Especificar se:
Atração Sexual por Homens 
Atração Sexual por Mulheres 
Atração Sexual por Am bos os Sexos
Especificar se:
Limitada ao Incesto
Especificar tipo:
Tipo Exclusivo (atração apenas por crianças) 
Tipo Não Exclusivo
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 145
Por sua vez, os critérios catalogados pelo DSM-IV-TR (2003, p. 545) para o 
Masoquismo Sexual são os seguintes:
« ^ s o q u is m o S exual
A. Ao longo de um período mínimo de 6 meses, fantasias sexualm ente excitantes, recorrentes e in tensas, impulsos sexuais ou com por­
tamentos envolvendo o ato (real, não simulado) de se r humilhado, espancado, atado ou de outra form a submetido a sofrimento.
B. As fantasias, impulsos sexuais ou comportamentos causam sofrim ento clin icam ente significativo ou prejuízo no funcionamento 
social ou ocupacional ou em outras áreas im portantes da vida do indivíduo.
Os critérios estabelecidos pelo DSM-IV-TR (2003, p. 545) para diagnóstico de 
Sadismo Sexual são assim elencados:
Crüéríos Diagnósticos para Sadismo Sexual
A. Ao longo de um período mínimo de 6 meses, fantasias sexualmente excitantes, recorrentes e intensas, im pulsos sexuais ou comporta­
mentos envolvendo atos (reais, não simulados) nos quais o sofrimento psicológico ou tísico (incluindo humilhação) da vítim a é sexualmente 
excitante para o indivíduo.
B. As fantasias, impulsos sexuais ou comportamentos causam sofrimento clin icam ente significativo ou pre juízo no funcionamento 
social ou ocupacional ou em outras áreas im portantes da vida do indivíduo.
7.9. Demência
Destacamos aqui a demência que, pela sistemática do DSM-IV-TR (2003, p. 
157), inclui-se numa classe mais ampla: D eliriu m , Demência, Transtorno Amnésico 
e Outros Transtornos Cognitivos.
As demências são transtornos que podem envolver várias funções psíquicas si­
multaneamente e causar um devastador prejuízo no funcionamento mental do indiví­
duo. Os défices cognitivos podem ser severos, notadamente envolvendo a memória. 
Tais condições, dependendo de seu grau, podem conduzir à incapacidade do agente, 
e a interdição para a prática dos atos da vida civil figurar como o remédio jurídico 
necessário.
De acordo com Sadock (2007, p. 361),189 as funções cognitivas que podem ser 
afetadas na demência incluem a inteligência geral, aprendizagem e memória, lingua­
gem, solução de problemas, orientação, percepção, atenção e concentração, julga­
mento e habilidades sociais. A personalidade do paciente também é afetada.
De acordo com o DSM-IV-TR, um diagnóstico de demência pressupõe que os 
sintomas resultem em um comprometimento significativo no funcionamento social 
ou ocupacional e represente um declínio importante em relação ao patamar anterior 
do sujeito.
189 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução Cláudia 
D om elles. 9a ed. Porto A legre: Artmed, 2007, p. 361.
146 JORGE TRINDADE
Daí a relevância de seu estudo para os operadores do direito, que, frequente­
mente, em sua prática profissional, precisam adotar medidas judiciais, às vezes em 
caráter de urgência, para proteger o sujeito acometido de demência, que devem ser 
embasadas e subsidiadas por laudos e pareceres técnicos. Cabe salientar que as de­
mências não estão obrigatoriamente condicionadas ao fator idade avançada, mas que 
o Estatuto do Idoso constitui um importante instrumento legal para a efetiva proteção 
do idoso, uma vez que existe uma prevalência dessa condição na população com mais 
de 65 anos de idade.
A Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, 
p. 44) organiza as demências num amplo leque de entidades sob a rubrica F00, do 
qual destacamos;
F00 Demência na Doença de Alzheimer
F01 Demência vascular
F02 Demência em outras doenças classificadas em outros locais
( . . . )
F02.3 Demência na doença de Parkinson
A Demência refere-se à perda de habilidades decorrente de múltiplos défices 
cognitivos (incluindo comprometimento da memória) devido aos efeitos organica­
mente causados, que envolvem declínio da memória, da capacidade de julgamento, 
do raciocínio abstrato e de outras funções intelectuais superiores.
De acordo com a catalogação instituída pelo DSM-IV-TR (2003, p. 5168), são 
estabelecidas as seguintes entidades tipológicas:
a) Demência Tipo Alzheimer;
b) Demência Vascular;
c) Demência Devido à Doença do HIV;
d) Demência Devido a Traumatismo Craniano;
e) Demência Devido à Doença de Parkinson;
f) Demência Devido à Doença de Huntington;
g) Demência Devido à Doença de Pick;
h) Demência Devido à Doença de Creutzfeldt-Jakob;
i) Demência Devido a Outras Condições Médicas Gerais;
j) Demência Persistente Induzida por Substância;
k) Demência Devido a Múltiplas Etiologias.
Além disso, a categoria Demência Sem Outra Especificação é incluída para 
abarcar os casos incapazes de determinar uma etiologia específica frente aos múlti­
plos déficits cognitivos apresentados pelo sujeito.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 147
O DSM-IV-TR (2003, p. 176) editou os seguintes critérios diagnósticos para 
Demência do Tipo Alzheimer:
C rité rio s D ia g n ó s tico s para D em ência do T ipo A lzhe im e r
A. Desenvolvimento de múltip los déficits cognitivos manifestados tanto por ( I ) quanto por (2):
(1) com prom etim ento da m em ória (capacidade prejudicada de aprender novas in formações ou recordar in formações anteriormente 
aprendidas) _______________________________________________________________ _________________________
B. Um a (ou mais) das seguintes perturbações cognitivas:
(a) afasia (perturbação da linguagem)
(b) apraxia (capacidade prejudicada de executar atividades motoras, apesar de um funcionamento motor in tacto)
(c) agnosia (incapacidade de reconhecer ou identificar objetos, apesar de um funcionamento sensorial intacto)
(d) perturbação do funcionam ento executivo (isto é, planejamento, organização, sequenciamento, abstração)
C. 0 curso caracteriza-se por um in ic io gradual e um declínio cognitivo contínuo.
D. O s déficits cognitivos nos Critérios A1 e A 2 não se devem a quaisquer dos seguintes fatores:
(1) outras condções do sistema nervoso central que causam déficits progressivos na memória e cognição (por ex., doença cérebro- 
vascular, doença de P a to s o n , doença de Huntington, hem atom a subdural, h idrocefalia de pressão normal, tum or cerebral)
(2) condições sistém icas que com provadamente causam demência (por e x „ hipotiroidismo, deficiência de vitam ina B12 ou ácido 
fólico, deficiência de niacina, hipercalcem ia, neurossifilis, infecção com HIV)
(3) condições induzidas por substâncias
E. O s déficits não ocorrem exclusivam ente durante o curso de um delirium.
F. A perturbação não é melhor explicada por um outro transtorno do Eixo I (por e x „ Transtorno Depressivo Maior, Esquizofrenia). 
Codificar com base no tipo de início e características predominantes:
Com Início Precoce: se o início ocorre aos 65 anos ou antes.
290.11 Com Delirium, se delirium está sobreposto à demência.
F 0 0 .0 1 290.12 Com Delírios: se delírios são a característica predominante.
F00.03 290.13 Com Hum or Deprim ido: se hum or deprim ido (inclu indo apresentações que satisfazem todos os critérios de sintomas 
para um Episódio Depressivo M aior) é uma característica predominante. Um diagnóstico separado de Transtorno do 
Humor Devido a um a Condição Médica Geral não é dado.
FOO.OO 290.10 Sem Complicações: se nenhum a das características acima predom ina na apresentação clínica atual.
Com Início Tardio: se o in ic io ocorre após os 65 anos de idade.
290.3 Com Delirium, se delirium está sobreposto à demência.
F00.11 290.20 ComDelírios: se delírios são a característica predominante.
F00.13 290.21 Com Hum or Deprim ido: se hum or deprim ido (inclu indo apresentações que satisfazem todos os critérios de sintomas 
para um Episódio Depressivo M aior) é uma característica predominante. Um diagnóstico separado de Transtorno do 
Hum or Devido a um a Condição Médica Geral não é dado.
F00.10 290.0 Sem Complicações: se nenhum a das características acim a predomina na apresentação c lin ica atual.
Especificar se:
Com Perturbação do Comportamento
Nota para a codificação: Codificar também 331.0 doença de Alzheim er no Eixo III.
Cabe assinalar que, dentre os tipos de demência, a Demência do Tipo Alzheimer 
configura um transtorno grave, que produz, na sua evolução, um verdadeiro apaga- 
mento da memória, de tal maneira severo que o sujeito esquece sua própria história.
Nessas condições, uma vez identificada corretamente, a consequência é a perda 
da capacidade civil, a ser postulada via Ação de Interdição.
148 JORGE TRINDADE
O indivíduo portador de Demência do Tipo Alzheimer, excetuada a sua fase 
inicial, em que se manifestam ainda escassos sintomas de prejuízo de memória, ra­
pidamente irá acumulando défices cognitivos, motores, sensoriais, de linguagem, e 
na capacidade de identificar e reconhecer objetos e pessoas, de modo que não poderá 
reger o seu patrimônio, não estará apto para vender, doar, testar, enfim, para praticar 
os atos essenciais da vida civil.
7.10. Transtornos da Personalidade
Não há linha mais tênue do que aquela 
que divide o normal do patológico.
Introdução
O conhecimento do Transtorno da Personalidade é de excepcional valia para os 
operadores do direito. No DSM-IV-TR (2003, p. 642), essa taxionomia começa com 
uma definição geral de Transtorno da Personalidade que se aplica a cada um dos dez 
Transtornos da Personalidade específicos.
O Transtorno da Personalidade é um padrão persistente de vivência íntima ou 
comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indi­
víduo; é uma incidência invasiva e inflexível. Tem seu início na adolescência ou 
começo da idade adulta; é estável ao longo do tempo e provoca sofrimento psíquico 
ou prejuízo ao funcionamento da personalidade.
Indivíduos com Transtorno da Personalidade apresentam padrões rígidos e mal- 
-ajustados de relacionamento e de percepção do ambiente e de si mesmos.
Consoante a catalogação produzida pelo DSM-IV-TR (2003, p. 645), os crité­
rios diagnósticos para um Transtorno da Personalidade são os seguintes:
Critérios Diagnósticos para Transtorno da Personalidade
A. Um padrão persistente de vivência íntima ou com portam ento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indiví­
duo. Este padrão manifesta-se em duas (ou mais) das seguintes áreas:
(1) cognição (isto é, modo de perceber e interpretar a si mesmo, outras pessoas e eventos)
(2) afetividade (isto é, variação, in tensidade, labilidade e adequação da resposta emocional)
(3) funcionam ento interpessoal
(4) controle dos im pulsos
B. 0 padrão persistente é inflexível e abrange uma ampla fa ixa de situações pessoais e sociais.
C. 0 padrão persistente provoca sofrimento clin icam ente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras 
áreas im portantes da vida do indivíduo,
D. 0 padrão é estável e de longa duração, podendo seu início rem ontar à adolescência ou com eço da idade adulta.
E. 0 padrão persistente não é melhor explicado com o um a manifestação ou consequência de outro transtorno mental.
F. 0 padrão persistente não é decorrente dos efeitos fisio lógicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamento) ou 
de uma c o n jç ã o médica geral (por ex., traum atism o craniano).
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 149
I #
De acordo com as semelhanças descritivas, os Transtornos da Personalidade 
podem ser reunidos em três grupos:
G ru p o T ra n s to rn o s - : C a rac te rís ticas . ' i . \ .‘ ■ ' ■ • - '
T ranstornos da Personalidade Paranoide; Esquizoide; ou Os indivíduos com esses transtornos frequentem ente pare-
Esquizotípica. cem ‘ esquisitos’ ou excêntricos.
i k A B
Transtornos da Personalidade Antissocial; Borderline; H islri- Os indivíduos com esses transtornos frequentem ente pare-
ônica; ou Narcisista. cem dramáticos, emotivos ou erráticos.
S Transtornos da Personalidade Esquiva; Dependente; ou Os indivíduos com esses transtornos frequentem ente pare-
O bsesshnfCom pulsiva. cem ansiosos ou medrosos.
Por sua vez, a catalogação dos Transtornos da Personalidade é organizada da 
seguinte forma:
, UV
i S
í #
D #
I Sis
À S
\\S
S
#
Transtorno da Personalidade Paranoide
É um sistema delusivo de desconfiança e suspeitas, de modo que os motivos 
dos outros são interpretados como malévolos e dirigidos contra si. Esses indivíduos 
recusam qualquer responsabilidade por seus próprios sentimentos e atribuem a res­
ponsabilidade a outros. Costumam ser hostis, irritáveis e coléricos. O fanático, o 
colecionador de injustiças, o cônjuge com ciúme patológico e os indivíduos litigiosos 
têm transtorno da personalidade paranoide (Sadock, 2007, p. 856).190
Para um Transtorno da Personalidade Paranoide, o DSM-IV-TR (2003, p. 649) 
normatizou os seguintes critérios diagnósticos:
C rité rio s D ia g n ó s tico s para T ra n s to rn o da P ersona lidade Paranoide
A. Um padrão de desconfiança e suspeitas invasivas em relação aos outros, de m odo que seus motivos são interpretados como 
malévolos, que começa no início da idade adulta e se apresenta em um a variedade de contextos, como indicado por pelo menos 
quatro dos seguintes critérios:
(1) suspeita, sem fundam ento suficiente, de estar sendo explorado, m altratado ou enganado pelos outros
(2) preocupa-se com dúvidas infundadas acerca da lealdade ou confiabilidade de am igos ou colegas
(3) reluta em confiar nos outros por um medo in fundado de que essas in form ações possam ser maldosamente usadas contra si
(4) interpreta significados ocultos, de caráter humilhante ou ameaçador, em observações ou acontecimentos benignos
(5) guarda rancores persistentes, ou seja, é implacável com insultos, in júrias ou deslizes
(6) percebe ataques a seu caráter ou reputação que não são visíveis pelos outros e reage rapidamente com raiva ou contra-ataque
(7) tem suspeitas recorrentes, sem justificativa, quanto à fidelidade do cônjuge ou parceiro sexual
B. Não ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, T ranstorno do Hum or Com Aspectos Psicóticos ou outro Transtorno 
Psicótico, nem é deconente dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral.
Nota: Se os critérios são satisfeitos antes do início de Esquizofrenia, acrescentar ‘ Pré-Mórbido', por e x , T ra ns to m o da Personalidade 
Paranoide (Pré-M órbido)'.
S
#
Transtorno da Personalidade Esquizoide
É um padrão de distanciamento dos relacionamentos sociais, incluindo a fa­
mília, e com predileção para atividades solitárias, associado com limitada expressão 
do afeto. Seu desconforto com o convívio humano, sua introversão e afeto brando e
190 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. T radução Cláudia 
D om elles. 9a ed. Porto Alegre: Artm ed, 2007, p. 856.
150 JORGE TRINDADE
constrito são dignos de nota. Os indivíduos com este .transtorno são vistos pelos ou­
tros como excêntricos, isolados ou solitários.
Para o Transtorno da Personalidade Esquizoide, o DSM-IV-TR (2003, p. 652) 
estabeleceu os critérios diagnósticos a seguir elencados:
’• .. : ‘ ■*; • '■e depressi­
vos, mas, em tese, não tem implicações diretas com o mundo jurídico. Ademais, o 
direito penal não criminaliza a autolesão.
Transtorno do Controle dos Impulsos sem Outra Especificação: trata-se de 
uma fórmula ampla para permitir a inclusão codificada de outros transtornos que es­
capam dos outros critérios para qualquer um dos Transtornos específicos do Controle 
dos Impulsos antes descritos.
Os Transtornos de Controle dos Impulsos anteriormente referidos podem ser 
analisados mais aprofundadamente de acordo com os critérios do DSM-IV-TR 
(2003), da seguinte maneira:
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 103
Transtorno Explosivo Intermitente
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
De acordo com o DSM-IV-TR (2003), a característica essencial do Transtorno 
Explosivo Intermitente é a ocorrência de episódios definidos de fracasso em resistir 
a impulsos agressivos, manifestando-se de forma explosiva intermitente e acarretan­
do sérios atos agressivos a pessoas ou a destruição de propriedades (Critério A). O 
grau de agressividade expresso durante um episódio é amplamente desproporcional 
a qualquer provocação e desmedido em relação a qualquer fator ou estressor psicos­
social desencadeante que possa funcionar como gatilho para a explosão (Critério B).
Um diagnóstico de Transtorno Explosivo Intermitente somente é feito após 
descartados outros transtornos mentais que poderiam explicar os episódios de com­
portamento agressivo (por ex., Transtorno da Personalidade Antissocial, Transtorno 
da Personalidade B o rd er lin e , Transtorno Psicótico, Episódio Maníaco, Transtorno 
da Conduta ou Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade), sendo, assim, um 
transtorno cujo diagnóstico depende da exclusão de outras condições psicológicas 
suficientes para justificá-lo (Critério C).
Nesse caso, os episódios agressivos não podem ser decorrentes de efeitos fi­
siológicos diretos de uma substância (por ex., abuso de drogas, medicamento) ou de 
uma condição médica geral (por ex., traumatismo craniano, doença de Alzheimer) 
(Critério C).
O indivíduo pode descrever os episódios agressivos como crises, surtos ou ata­
ques nos quais o comportamento explosivo é precedido por um sentimento de tensão 
ou excitação (aura), sendo imediatamente seguido por uma sensação de alívio devido 
à descarga da tensão e da ansiedade. Posteriormente, o indivíduo pode sentir remorso, 
arrependimento ou embaraço pelo comportamento agressivo praticado, mas, como 
foi um comportamento súbito, na prática, é de difícil reparação, pois se consuma 
quase instantaneamente.
O diagnóstico deve ser obtido através de uma anamnese rigorosa capaz de asse­
gurar a ocorrência de vários episódios de perda de controle associados com surtos de 
agressividade, às vezes de violência. Um episódio isolado, por si só, não justifica o 
diagnóstico de transtorno explosivo intermitente, que, como a própria denominação 
sugere, deve apresentar interrupções e continuações. A história coletada na anamnese, 
geralmente, está associada a uma infância passada em meio conflitivo, de alcoolis­
mo, violência e instabilidade emocional. A história profissional do paciente, por sua 
vez, costuma ser pobre, com registro de perda de empregos, dificuldades conjugais e 
problemas com a lei. Depois de um episódio explosivo, pode-ser haver sentimentos 
de culpa e de depressão decorrentes de pensamentos, ideias e sentimentos de que o 
comportamento explosivo foi inadequado para as circunstâncias, desproporcional, 
gerando arrependimento ansioso e temporário.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A ss o c ia d o s
Indicadores de impulsividade ou sinais de agressividade generalizada podem 
estar presentes entre os episódios explosivos. Os indivíduos com traços narcisistas, 
obsessivos, paranoides (persecutórios) ou esquizoides podem estar especialmente 
propensos a apresentar crises ou surtos explosivos de raiva, nomeadamente quando 
estão sob forte estresse ou diante de situações críticas inesperadas.
104 JORGE TRINDADE
O grau de agressividade está em ampla desproporção com quaisquer estressores 
que possam ter ajudado a causar os episódios. Os sintomas, que o paciente pode des­
crever como ataques ou surtos, aparecem em minutos ou horas e, não importando sua 
duração, sofrem remissão espontânea e rápida. Cada episódio geralmente é seguido por 
um genuíno arrependimento ou autorreprovação. Sinais de impulsividade ou agressi­
vidade generalizada estão ausentes entre os episódios (Sadock, 2007, p. 835).149
Como antes referido, este tipo de transtorno pode acarretar consequências de di­
fícil reparação, tais como a perda do emprego, suspensão escolar, separação, dificul­
dades com relacionamentos interpessoais, acidentes de trânsito ou desentendimentos 
explosivos ao dirigir, lesões corporais ou autolesões decorrentes de ferimentos cau­
sados ou sofridos em lutas ou acidentes, bem como confronto com autoridades como 
desacato.
• C a ra c te r ís tic a s E sp ec íf ica s à C u ltu ra e a o G ên ero
Este transtorno, assim como várias outras condições psicológicas e psiquiátri­
cas, pode apresentar características específicas a uma determinada cultura e mesmo 
a variações de gênero. Um interessante fenômeno é conhecido como am ok, que se 
caracteriza pela ocorrência de um episódio de comportamento violento agudo, des­
controlado, de incontinência comportamental, para o qual a pessoa afirma uma am­
nésia (impossibilidade de recordar). De acordo com a descrição do DSM-IV (2003, 
p. 625), diferentemente do Transtorno Explosivo Intermitente, o am o k tipicamente 
ocorre como um episódio isolado, em vez de constituir um padrão de comportamento 
agressivo (condição para o transtorno explosivo intermitente), e frequentemente está 
associado com aspectos dissociativos e clivagens importantes do funcionamento da 
personalidade. O comportamento violento episódico é mais comum em homens do 
que em mulheres, embora eventos dissociativos sejam mais comuns em mulheres, o 
que, em princípio, desautoriza a correlação com personalidade histriónica. (
Em regra, os pacientes prototípicos de transtorno explosivo intermitente são *
descritos como sendo homens fisicamente fortes, porém dependentes e ansiosos, com 
um frágil senso de identidade masculina, com sentimentos de inutilidade, impotência ( ,
ou incapacidade de mudar o ambiente, circunstâncias que frequentemente precedem 
o episódio de violência física, geralmente acompanhados de agressão e incontinência 
verbal. ̂ (
•P r e v a lê n c ia ,1
Não dispomos de informações confiáveis acerca da prevalência deste transtor­
no, mas o Transtorno Explosivo Intermitente aparentemente é raro, ou, melhor con- (
siderando, é raro na modalidade de gerar sequelas graves. Há indicadores genéricos 
de que possa variar em função da faixa etária, sendo mais comum em adolescentes e 
em adultos jovens. ;
Na realidade, o transtorno explosivo intermitente é uma entidade que costuma
ser pouco relatada, mas que encontra equivalentes diversos sob a forma de registro 
policial (agressão, ameaça, antissocialidade) cujos fatos, por suas próprias caracterís- i '
ticas psicossociais, nem sempre são investigados a fundo, salvo quando a repetição 
da conduta encontra formas de expressão mais graves. Em tese, é mais comum no t
149 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução Cláudia 
Dom elles. 9a ed. Porto Alegre: Artm ed, 2007, p. 835. *
105 i 
t
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO
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sexo masculino, em que fatores genéticos, culturais e sociais desempenham papel 
mais expressivo do que aquele tradicionalmente consagrado ao sexo feminino.
Por outro lado, existem indicativos fortes no sentido de que o transtorno ex­
plosivo intermitente é mais comum nos parentes biológicos em primeiro grau de 
indivíduos com o transtorno do que na população em geral, sugerindo a contribuição 
de fatores genéticos envolvidos comnem gosta de relacionamentos íntimos, incluindo fazer parte de uma família
(2) quase sem pre opta por atividades solitárias
(3) manifesta pouco, se algum, interesse em ter experiências sexuais com outra pessoa
(4) tem prazer em poucas atividades, se alguma
(5) não tem amigos íntimos ou confidentes, outros que não parentes em primeiro grau
(6) mostra-se indiferente a elogios ou criticas de outras
(7) dem onstra frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada.
B. Não ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Hum or Com Aspectos Psicóticos, outro Transtorno 
Psicótico ou um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, nem é decorrente dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica
Nota: Se os critérios são satisfeitos antes do início de Esquizofrenia, acrescentar “Pré-Mórbido” , por ex., “Transtorno da Personalidade 
Esquizoide (Pré-M órbido)'.
Transtorno da Personalidade Esquizotípica
E definido pelo desconforto agudo em relacionamentos íntimos, distorções 
cognitivas ou da percepção de comportamento excêntrico, incluindo ansiedade 
social excessiva, prejuízo nas relações interpessoais, com ideias de referência e 
ilusões peculiares que compõem o seu pequeno universo personalíssimo. Os indi­
víduos com este transtorno são notavelmente estranhos ou esquisitos, mesmo para 
os leigos.
Como critérios diagnósticos para Transtorno da Personalidade Esquizotípica, o 
DSM-IV-TR (2003, p. 655) regrou da seguinte maneira:
C rité rio s D ia g n ó s tico s para T ra n s to rn o da P ersona lidade E squ izo típ ica
A. Um padrão invasivo de déficits sociais e interpessoais, marcado por desconforto agudo e reduzida capacidade para relacionamen­
tos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico, que com eça no início da idade adulta e está 
presente em uma variedade de contextos, como indicado por pelo menos cinco dos seguintes critérios:
(1) ideias de referência (excluindo delírios de referência)
(2) crenças bizarras ou pensamento mágico que influenciam o comportamento e são inconsistentes com as normas da subcultura 
do indivíduo (por ex., superstições, crença em clariv idência, te lepatia ou “sexto sentido'; em crianças e adolescentes, fantasias e 
preocupações bizarras)
(3) experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões somáticas
(4) pensam ento e discurso bizarros (por ex., vago, circunstancial, metafórico, superelaborado ou estereotipado)
(5) desconfiança ou ideação paranoide
(6) afeto inadequado ou constrito
(7) aparência ou comportamento esquisito, peculiar ou excêntrico
(8) não tem am igos íntimos ou confidentes, exceto parentes em primeiro grau
(9) ansiedade social excessiva que não dim inui com a fam iliaridade e tende a estar associada com tem ores paranoides, ao invés 
de julgam entos negativos acerca de si próprio
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 151
B. Não ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Hum or Com Aspectos Psicóticos, outro Transtorno 
Psicótico ou um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
Nota: Se os critérios são satisfeitos antes do in ic io de Esquizofrenia, acrescentar ‘ Pré-M órbido', por ex., “Transtorno da Personalidade 
Esquizotípica (Pré-Mórbido)” .
Transtorno da Personalidade Antissocial
É um padrão persistente de desconsideração e violação dos direitos dos outros, 
podendo incluir comportamentos antissociais e delinquentes. Ausência de ansiedade 
e culpa. Trata-se de uma incapacidade de conformar-se às normas sociais que envol­
ve muitos aspectos do desenvolvimento adolescente e adulto do paciente.
É importante salientar que um Transtorno da Personalidade Antissocial não 
pode ser diagnosticado antes dos 18 anos de idade.
As razões para essa proibição parecem claras. Da mesma maneira que não se 
aplica o Código Penal para menores de 18 anos, porque sua personalidade ainda se 
encontra em desenvolvimento, não se cataloga menores de 18 anos com diagnóstico 
de Transtorno de Personalidade Antissocial, pois isto pressuporia uma personalidade 
definitivamente consolidada. Assim, para menores de 18 anos, fica reservado o diag­
nóstico de Transtorno de Conduta, de maneira similar como se aplicam aos adoles­
centes Medidas socioeducativas (Estatuto da Criança e do Adolescente), e não penas 
(Código Penal).
• P re va lê n c ia e C u rso
Segundo Holmes (1997, p. 310),191 a prevalência do Transtorno da Personali­
dade Antissocial recai sobre homens, numa proporção de 4,5 para 1, mas existem 
dados sugestivos de que essa relação pode chegar a 8 para 1. E mais comum nas áreas 
urbanas pobres e entre os habitantes móveis dessas áreas.
O Transtorno da Personalidade Antissocial pode ser mais expressivo no início 
da fase adulta, mas costuma haver uma remissão após os 40-45 anos de idade. As 
razões deste “desgaste” ainda não são bem conhecidas, mas se acredita que, a par de 
condições hormonais, pode estar relacionada ao decréscimo da capacidade motora 
devido ao avanço da idade e das limitações naturais do corpo físico e do envelheci­
mento biológico.
Por outro lado, indivíduos com Transtorno da Personalidade Antissocial não se 
beneficiam com a punição. Aliás, de um modo geral, são incapazes de apreender com 
a experiência.
Para o Transtorno da Personalidade Antissocial, o DSM-IV-TR (2003, p. 660), 
estatuiu os seguintes critérios diagnósticos:
191 H OLM ES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2* ed. Porto Alegre: Artes M édicas, 1997, p. 310.
152 JORGE TRINDADE
Critérios Diagnósticos para Transtorno da Personalidade Antissocial _
A. Um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, com o indicado por pelo menos 
três dos seguintes critérios:
(1) fracasso em conformar-se às norm as sociais com relação a com portam entos legais, indicado pela execução repetida de atos 
que constituem motivo de detenção
(2) propensão para enganar, indicada por mentir repetidam ente, usar nomes fa lsos ou ludibriar os outros para obter vantagens 
pessoais ou prazer
(3) im pulsividade ou fracasso em fazer planos para o fu turo
(4) irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas
(5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia
(6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em m anter um comportam ento laborai consistente ou honrar 
obrigações financeiras
(7) ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por te r ferido, maltratado ou roubado outra pessoa
B. O indivíduo tem no mínim o 13 anos de idade.
C . Existem evidências de Transtom o da Conduta com in íc io antes dos 15 anos de idade.
D. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco.
O Transtorno da Personalidade Antissocial é, sem dúvida, aquele que mais in­
teressa aos operadores do direito, principalmente para aqueles que exercem sua ativi­
dade na área do Direito Penal.
Transtorno da Personalidade B o r d e r lin e
Caracteriza-se por uma instabilidade nos relacionamentos interpessoais, na re­
gulação da autoimagem e dos afetos, com sinais de impulsividade, cólera inapropria- 
da, comportamento automutilador, sentimentos de tédio e vazio, acompanhados de 
mau humor.
Por outro lado, visando a tipificar o Transtorno da Personalidade B orderlin e , o 
DSM-IV-TR (2003, p. 664) definiu os seguintes critérios diagnósticos:
C rité rio s D ia g n ó s tico s para T ra n s to rn o da P ersona lidade B ord e rlin e
Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, autoim agem e afetos e acentuada impulsividade, que começa 
no início da idade adulta e está presente em um a variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios:
(1) esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.
Nota: Náo incluir comportam ento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5
(2) um padrão derelacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e 
desvalorização
(3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da autoim agem ou do sentimento de self
(4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialm ente prejudic ia is à própria pessoa (por e x , gastos financeiros, sexo, abuso 
de substâncias, direção imprudente, com er com pulsivamente).
Nota: Não incluir comportam ento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5
(5) recorrência de comportam ento, gestos ou âm eaças suicidas ou de comportamento automutilante
(6) instabilidade afetiva devido a uma acentuada reativ idade do hum or (por e x , episódios de intensa disforia, irritabilidade ou 
ansiedade geralm ente durando algumas horas e apenas raramente m ais de alguns dias)
(7) sentimentos crônicos de vazio
(8) raiva inadequada e intensa ou dificuldade em contro lar a raiva (por e x , dem onstrações frequentes de irritação, raiva constante, 
lutas corporais recorrentes)
(9) ideação paranoide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintom as dissociatívos
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Uma necessidade Invasiva e excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso e aderente e a tem ores de sepa­
ração, que com eça no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, indicado por pelo menos cinco dos 
seguintes critérios:
(1) dificuldade em tom ar decisões do dia a dia sem um a quantidade excessiva de conselhos e reasseguramento da parte de outras 
pessoas
(2) necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pelas principais áreas de sua vida
(3) dificuldade em expressar discordância de outros, pelo medo de perder o apoio ou aprovação. Nota: Não incluir temores realistas de 
retaliação
(4) dificuldade em inic iar projetos ou fazer coisas por conta própria (em vista de um a fa lta de autoconfiança em seu julgam ento ou 
capacidades, não por falta de motivação ou energia)
(5) vai a extrem os para obter carinho e apoio de outros, a ponto de voluntariar-se para fazer coisas desagradáveis
(6) sente desconforto ou desamparo quando só, em razão de tem ores exagerados de ser incapaz de cuidar de si próprio
(7) busca urgentemente um novo relacionamento com o fonte de carinho e amparo, quando um relacionamento íntimo é rompido
(8) preocupação irrealistacom tem ores de ser abandonado à sua própria sorte
Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
É um padrão de preocupação com organização, perfeccionismo, inflexibilidade, 
gosto pela ordem e controle da situação externa. Preocupação com detalhes e regras, e 
insistência irracional para submeter os outros ao seu modo exato de fazer as coisas.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREÍTO 155
O DSM-IV-TR (2003, p. 680) normatizou os critérios diagnósticos para Trans­
torno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva da seguinte forma:
v - Critérios Diagnósticos para Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva • -
Um padrão invasivo de preocupação com organização, pedecdonism o e controle mental e interpessoal, às custas da flexibilidade, 
abertura e eficiência, que começa no início da idade adulta e está presente em um a variedade de contextos, indicado por pelo menos 
quatro dos seguintes critérios:
( t ) preocupação tão extensa com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários, que o ponto principal da atividade é perdido
(2) perfeccionismo que in terfere na conclusão de tare ias (por ex., é incapaz de com pletar um projeto porque não consegue atingir 
seus próprios padrões dem asiadam ente rígidos)
(3) devolam ento excessivo ao trabalho e à produtividade, em detrim ento de atividades de lazer e am izades (não explicado por uma 
óbvia necessidade econômica)
(4) excessiva conscienciosidade, escrúpulos e inflexibilidade em assuntos de moralidade, ética ou valores (não explicados por 
identificação cultural ou religiosa)
(5) incapacidade de desfazer-se de objetos usados ou inúteis, mesmo quando não têm valor sentimental
(6) relutância em delegar tarefas ou ao trabalho em conjunto com outras pessoas, a menos que estas se subm etam a seu modo 
exato de fazer as coisas
(7) adoção de um estilo m iserável quanto a gastos pessoais e com outras pessoas; o dinheiro é visto com o algo que deve ser 
reservado para catástrofes futuras
(8) rigidez e te imosia
Transtorno da Personalidade sem Outra Especificação
É uma categoria que serve para abrigar duas situações. De um lado, aquelas que 
satisfazem os critérios para um Transtorno da Personalidade, mas não reúnem os cri­
térios para um Transtorno da Personalidade específico. De outro, aquelas condições 
que não estão contidas na codificação, embora o sujeito tenha um padrão de persona­
lidade que satisfaz os critérios gerais para um Transtorno da Personalidade.
Considerações Finais
Para finalizar a apresentação das doenças mentais mais significativas no âmbito 
do direito e seus critérios pelo DSM-IV-TR (2003), é importante sublinhar mais uma 
vez que, dentre os dez Transtornos da Personalidade antes especificados, a nosso 
modo de ver, os mais relevantes para o direito são o Transtorno da Personalidade 
Paranoide e o Transtorno da Personalidade Antissocial, podendo-se acrescentar ainda 
o Transtorno da Personalidade B orderlin e .
O primeiro destes possui importância nas questões de imputabilidade-inim- 
putabilidade; os dois últimos, na prática de crimes. Indivíduos com Transtorno da 
Personalidade Antissocial desconhecem sentimentos de culpa, agem com extrema 
impulsividade, desconsideram, desrespeitam e lesam sistematicamente os direitos 
dos outros. São responsáveis por um grande número de delitos, notadamente os mais 
violentos.192
Impende referir que, de acordo com a Classificação de Transtornos Mentais 
e de Comportamento da CID-10 (1993, p. 194), os Transtornos da Personalidade
192 Para uma m elhor com preensão do Transtorno da Personalidade Antissocial, sugerimos rever o capítulo deste 
M anual com o título: Transtorno de Conduta, Transtorno da Personalidade Antissocial e Psicopatia, no qual pro­
curam os alinhar as três grandes patologias do agir, de modo a dem onstrar a relevância dessas entidades psicológicas 
para os operadores do direito.
156 J O R G E T R I N D A D E
encontram-se definidos na rubrica F60-F69. Entretanto, merecem destaque devido à 
possibilidade de relacionar com o DSM-IV-TR,™ os descritos em F60, sob o título 
Transtornos específicos da personalidade, assim organizados:
Nomenclatura do Transtorno pela CID-10 OID-
Transtorno de personalidade paranoide F60.0
Transtorno de personalidade esquizoide F60.1
Transtom o de personalidade antissocial F60.2
Transtorno de personalidade em ocionalm ente instável 
(tipo impulsivo e tipo borderline)
F60.3
Transtorno de personalidade histriónica F60.4
Transtorno de personalidade anancástica F60.5
Transtorno de personalidade ansiosa F60.6
Transtorno de personalidade dependente F60.7
O utros transtornos específicos de personalidade F60.8
Transtorno de personalidade não especificado. F60.9
Por fim, deve-se ressaltar que a sistematização dos critérios psicopatológicos 
constituem uma prática classificatória útil e necessária para que possam identificar 
padrões de comportamento. Todavia, não se pode esquecer que, assim como pode 
ser importante generalizar para classificar, mais relevante ainda é especificar para 
individualizar, evitando o processo de estigmatização do sujeito e garantindo a plena 
subjetividade que implica uma visão dinâmica, integradora e individual, às vezes 
longe do ideal de um acordo mínimo com relação à delimitação das categorias diag­
nósticas formais.
193 Pelos critérios do D SM -IV os transtornos da personalidade são classificados no Eixo n .
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 157outros de ordem educacional, de controle dos 
impulsos, de aprendizagem modelada por adultos e cuidadores igualmente explo­
sivos e violentos. No transtorno explosivo intermitente, como em outras condições 
psicológicas e psicopatológicas, a explicação mais abrangente decorre sempre da 
conjugação de fatores biológicos, sociais e emocionais.
• C u rso
Como antes referido, existem poucos dados disponíveis quanto à idade de início 
do Transtorno Explosivo Intermitente, mas este parece ocorrer da adolescência à ter­
ceira década de vida. O modo de início pode ser súbito e sem um período prodrômico. 
Entretanto, pode também ser sinal sugestivo do início de um transtorno futuro mais 
severo.
De regra, o transtorno explosivo intermitente inicia na segunda ou terceira dé­
cada, podendo, entretanto, aparecer em qualquer estágio da vida. Na maioria dos 
casos, a gravidade do transtorno diminui com a chegada da meia-idade. Um compro­
metimento orgânico aumentado, todavia, pode levar a episódios mais frequentes e de 
maior risco.
Segundo o DSM-IV (2003, p. 626),150 os critérios diagnósticos para Transtorno 
Explosivo Intermitente são os seguintes:
Cntenos D ia g n ó s tic o s para ira n s to rn o E xp lo s ivo Intermitente
em resistir a impulsos agressivos, resultando em atos agressivos ou destruição de proprie-A.
dades.
B. 0 grau de agressividade expressada dufante os episódios está nitidamente fora de proporção com quaisquer estressores psicosso­
ciais desencadeantes.
C. O s episódios agressivos não são m eltio r explicados por outro transtorno mental (por ex., Transtom o da Personalidade Antissocial, 
Transtorno da Personalidade Borderline, Episódio Maníaco, Transtorno da Conduta ou Transtorno de Déficit de Atençáo/H iperativida- 
de), nem se devem aos efeitos fisiológicos diretos de um a substância (por ex., abuso de drogas, m edicamento) ou de um a condição 
médica geral (por ex., traum atism o craniano, doença de Alzheimer).
Cleptomania
A cleptomania constitui um impulso mórbido para roubar (na verdade, para 
furtar).
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
O traço essencial da Cleptomania é não poder resistir ao impulso de furtar ob­
jetos, embora esses não sejam necessários para o uso pessoal ou por seu valor mone­
tário (Critério A), havendo mesmo uma atração por pequenos objetos destituídos de
150 AM ERICAN PSYCHO LO GICAL A SSOCIATION, stimuli de publicação da American Psychological Associa- 
tion (Daniel Bueno, trad.). Porto A legre: A rtm ed, 2001.
106 JORGE TRINDADE
valor econômico, mas, segundo a teoria psicanalítica, repleto de significados ocultos, 
simbólicos e regressivos.
A dinâmica da cleptomania inicia por forte e incontido desejo de tomar para si 
um determinado objeto, como se a pessoa experimentasse a necessidade imperiosa de 
internalizar “um objeto bom” que lhe dê prazer e satisfação. Essa condição é associa­
da a um estado crescente e insuportável de ansiedade antes de praticar o comporta­
mento furtivo (Critério B), seguindo um período de satisfação, prazer e gozo (Critério 
C). Na cleptomania, não existe uma relação custo-benefício no sentido material, nem 
o furto é cometido por sentimento de destruição, ódio, ou vingança, nem está vin­
culado a uma alteração do pensamento (delírio) ou da sensopercepção (alucinação, 
como, por exemplo, ouvir uma voz que ordena o furto) (Critério D). Também não 
pode ser explicado por um Transtorno da Conduta, nem por um Episódio Maníaco 
(fase eufórica de um quadro depressivo), nem pode caracterizar um Transtorno da 
Personalidade Antissocial (Critério E).
A cleptomania costuma ser um comportamento isolado, sem cúmplices, isto 
é, não compartilhado com outros autores, e revestido de uma tonalidade de segredo, 
praticado fora do campo de percepção dos outros, embora com risco de ser detectado. 
O ato não é planejado previamente, mas o resultado do impulso para o qual o sujeito 
fracassa em conter. Em geral, os objetos furtados são de pequena expressão material, 
e a pessoa com esse transtorno tem ou poderia ter condições de adquiri-lo de forma 
lícita.
Algumas vezes o prazer se restringe ao ato de apanhar o objeto e depois de- 
volvê-lo sorrateiramente. Alguns indivíduos com esse transtorno apresentam traços 
associados de personalidade retentiva, podendo o comportamento estar relacionado 
ao hábito de colecionar objetos, tais como pingentes, bibelôs, canetas, gravatas, ade­
reços de mesa, estante ou outros.
Embora os furtos não ocorram na iminência de serem apanhados em flagrante, é 
possível que os cleptomaníacos nem sempre avaliem adequadamente a possibilidade 
de serem surpreendidos, pois o impulso pode ser mais forte do que o risco de serem 
flagrados, além do que, do ponto de vista psicodinâmico, essa possibilidade pode 
conter significados muito regressivos que remontam à infância e ao descumprimento 
de regras com um misto de transgressão, humilhação e culpa. Com efeito, os indiví­
duos cleptomaníacos podem sentir culpa ou ansiedade após o furto, mas não sentem 
raiva ou desejo de vingança. Além disso, quando a meta é o objeto furtado, não se 
aplica o diagnóstico de cleptomania, já que, nesta, a gratificação é o ato de furtar em 
si mesmo, e não a obtenção, para si, de um objeto de utilidade funcional.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
A Cleptomania é um transtorno do tipo egodistônico, gerando, após um curto 
período de alívio e prazer, forte sentimento de culpa, de abatimento e de inadaptação, 
pois a pessoa tem consciência de que seu comportamento é inadequado. Embora ela 
suspeite de uma motivação inconsciente, isso não impede a repetição do ato (com­
pulsão à repetição).
Os pacientes cleptomaníacos podem sentir intensa angústia em virtude de 
seus impulsos e pela possibilidade de serem apanhados em flagrante e costumam 
manifestar sinais de depressão e ansiedade. Muitas vezes, têm sérios problemas de
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 107
relacionamentos interpessoais e com frequência mostram sinais de perturbação da 
personalidade. A Cleptomania, de fato, inscreve-se “na rotina” da pessoa, e os impul­
sos repetidos de furtar objetos produzem desordens relacionais e pessoais que podem 
gerar um ciclo vicioso de ansiedade e instabilidade de humor.
Os transtornos geralmente associados à Cleptomania, segundo o DSM-IV 
(2003, p. 627), são: Transtornos do Humor (especialmente Transtorno Depressivo 
Maior), Transtornos de Ansiedade, Transtornos Alimentares (particularmente Buli­
mia Nervosa) e Transtornos da Personalidade.
No que interessa ao direito, o transtorno cleptomaníaco pode levar o sujeito 
a dificuldades com a polícia e com a justiça, além de problemas de relacionamen­
to no trabalho ou em ambientes sociais, e os operadores do direito devem possuir 
conhecimento suficiente para discernir uma pessoa com transtorno desta natureza 
(psicológica) de criminosos comuns contra o patrimônio, dando o tratamento ou o 
encaminhamento adequado para cada situação.
• P re v a lê n c ia
A Cleptomania é uma condição relativamente rara (Holmes, 1997)151 e pouco 
conhecida. Ela parece ser mais comum entre mulheres, mas se espera que pesquisas 
futuras possam ser desenvolvidas para esclarecer melhor este transtorno, que ainda é 
mais divulgado de modo sensacionalista pelos meios de comunicação e em novelas 
do que no cenário científico.
Não há dados definitivos sobre a taxa de incidência de cleptomania, variando 
em percentuais muito amplos que se estimam entre 3 a 20% dos indivíduos detidos 
por furto, sendo de considerar que, em muitos casos, não chega a haver detenção e, 
em outros, sequer o fato é passível de registro.
• C u rso
O curso do transtorno ainda não está bem definido. Ainda existem poucas in­
formações sistemáticas sobre o curso da Cleptomania, que varia da forma esporádica 
à crônica, com alto grau de flutuação no seu curso, geralmente acompanhado de pe­
ríodos de ansiedade e tensão.
Como se trata de uma condição psicológica,a resposta jurídica pela condenação 
e punição não surte o efeito desejado, sendo que a abordagem pelo tratamento psica- 
nalítico poderá ser útil na descoberta dos motivos inconscientes que levam o sujeito 
a furtar e qual o benefício, não financeiro, mas emocional que o paciente busca com 
seu comportamento.
A cleptomania pode começar na infância, mas a maioria das crianças e adoles­
centes que furtam não se toma cleptomaníaca na idade adulta. O curso da doença é 
de surtos e remissões, mas o transtorno tende a ser crônico. A taxa de recuperação 
espontânea é desconhecida. Comprometimento grave e complicações geralmente são 
secundários ao flagrante, particularmente quando relacionado à detenção (Sadock, 
2007, p. 838).132
Dependendo da busca de um tratamento adequado, o prognóstico dessa doença 
costuma ser bom, mas, na realidade, poucos pacientes procuram auxílio por vontade
151 H OLM ES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2* ed. Porto A legre: A rtes M édicas, 1997.
152 SAD OCK , B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. T radução Cláudia 
D oraelles. 9* ed. Poeto Alegre: Artm ed, 2007, p. 838.
108 JO R G E T R IN D A D E
própria. Quando o fazem forçados por uma situação frente à justiça, por exemplo, e 
não voluntariamente, o prognóstico pode ser reservado.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
Segundo a Classificação Internacional de Doenças, CID-10 (1993, p. 209), o 
diagnóstico diferencial deve ser estabelecido com:
a) roubos153 recorrentes em lojas, sem um transtorno psicológico manifesto, com 
atos planejados e acompanhados de ganho material real;
b) transtorno mental orgânico (memória deteriorada);
c) transtorno depressivo com roubo.
Como antes referido, a distinção fundamental e diferencial se faz entre a clep­
tomania, enquanto condição psicológica, e a conduta típica de furto (Código Penal). 
Embora o elemento objetivo seja o mesmo (subtrair coisa alheia móvel), neste, o ele­
mento subjetivo é a vontade consciente e planejada que se manifesta através de dolo 
específico (an im u s fu ra n d i) , enquanto na cleptomania o comportamento está dirigido 
por uma condição psicológica determinante, solitária, em que o objeto subtraído não 
tem utilidade imediata ou valor monetário, o que pode alterar a relação entre crime, 
motivo e punição. Portanto, clarificar essa diferença é muito importante para o direi­
to, mesmo porque existe a possibilidade de simulação da patologia para tentar evitar as consequências da ação penal.
Vale aqui relembrar a diferença jurídica entre furto e roubo.
0 furto está previsto no artigo 155 do Código Penal:
Art. 155. Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
§ 1a A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso noturno.
§ 2a Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a 
pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena 
de multa.
§ 3a Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econô­
mico.
F u rto q u a lific a d o
§ 4a A pena é de reclusão de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa, se o crime é cometido:
1 - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
III - com emprego de chave falsa;
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.
§ 5a A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de veículo automotor que 
venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.
O crime de roubo, por sua vez, está tipificado no art. 157 do Código Penal, e consiste em:
Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem mediante grave ameaça ou violência 
a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência. 
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.
153 Tecnicamente furto (art. 155, CP), e não roubo (art. 157, CP).
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 109
§ Ia Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra 
a pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa 
para si ou para terceiro.
§ 2" A pena aumenta-se de um terço até metade:
I - se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma; 
il - se há concurso de duas ou mais pessoas;
III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância;
IV - se a subtração for veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou 
para o exterior;
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade.
§ 3a Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, de 7 (sete) a 15 (quinze) 
anos, além da multa; se resulta morte, a reclusão é de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, sem prejuízo 
da multa.
Cabe salientar que, no crime de roubo, há violência (v is p h y s ic a ) e esta é diri- 
jçida contra a pessoa ( \ i s c o rp o ra lis ) , e não contra a coisa, ou contra a coisa, quando 
repercute na pessoa.
No caso de Cleptomania, trata-se, em regra, e sob o ponto de vista técnico-jurí­
dico, da hipótese de furto, para a qual se exige, como elemento subjetivo, a presença 
curiosidade ou atração pelo 
fogo (Critério C). Os indivíduos com este transtorno frequentemente são “espectado­
res” regulares de incêndios em seus arredores, podem acionar alarmes falsos e extra­
em prazer a partir de instituições, equipamentos e pessoal associados com incêndios. 
Eles podem passar algum tempo junto ao corpo de bombeiros, provocar incêndios 
para afiliar-se ao corpo de bombeiros ou até mesmo tomarem-se bombeiros.
Os aspectos essenciais são:
a) ausência de motivo óbvio, tal como obter lucro, como num incêndio crimi­
noso para receber prêmio ou seguro; vingança ou motivação de extremismo 
político ou religioso; não sendo resposta a um delírio ou uma alucinação (Critério E)
b) prazer intenso em assistir o fogo ardendo (chamas, labaredas);
c) excitação e prazer logo após a prática do evento.
A situação também não decorre de um prejuízo no julgamento (por ex., De­
mência, Retardo Mental, ou Intoxicação com Substância), com a observação de que 
o diagnóstico não é feito se o comportamento incendiário é melhor explicado por 
Transtorno da Conduta, Episódio Maníaco ou Transtorno da Personalidade Antisso­
cial (Critério F).
Um diagnóstico de piromania deve ser afastado quando existe uma motivação 
financeira, ideológica, ou quando se trata de um crime praticado com o objetivo de 
esconder a existência de outro.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 629),156 os indivíduos com Piromania muitas 
vezes se dedicam a realizar prazerosos preparativos antes de iniciarem um incêndio.
Os piromaníacos, como refere Sadock (2007, p. 839),157 frequentemente são es­
pectadores costumeiros de incêndios em suas vizinhanças; muitas vezes dão alarmes 
falsos e mostram interesse pela parafernália de combate ao fogo. Os incendiários 
podem obter satisfação da destruição resultante e, frequentemente, deixam indícios 
óbvios. Aspectos associados comuns incluem a intoxicação com álcool, disfunções
155 A SSOCIAÇÃO AM ERICANA D E PSIQUIATRIA. D SM IV -R . Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artes M édicas, 1998.
136Idem.
157 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução Cláudia 
D om elles. 9a ed. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 839.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 111
psicossexuais, quociente de inteligência (Q.I.) abaixo da média, frustrações pessoais 
crônicas e ressentimento para com figuras representantes de autoridade. Em alguns 
casos, o piromaníaco excita-se sexualmente com o fogo.
Como consequência do ato praticado ou tentado, podem advir diversas respos­
tas no campo do direito. Danos materiais são suscetíveis de indenização, e conse­
quências penais podem surgir devido à ofensa através de lesões corporais ou mesmo 
morte de outras pessoas.
• C a ra c te r ís tic a s E sp ec íf ica s à Id a d e e a o G ên ero
O comportamento incendiário é uma manifestação importante e grave em crian­
ças e adolescentes, podendo ser sugestivo de outro transtorno futuro.
Também pode ser indicador de Transtorno de Conduta em crianças. Essa con­
dição é expressa pelo dito popular: “criança que brinca com fogo faz xixi na cama”. 
O transtorno piromaníaco infantil também está associado com Transtorno de Défi­
cit de Atenção/Hiperatividade ou Transtorno de Ajustamento. Embora a assertiva 
não seja absoluta, parece que a Piromania ocorre com maior frequência em homens, 
especialmente naqueles com habilidades sociais mais deficientes e dificuldades de 
aprendizagem.
• P re va lê n c ia
A Piromania aparentemente é rara (Holmes, p. 327),158 mas o transtorno é en­
contrado com maior frequência em homens do que em mulheres, e os incendiários 
patológicos possuem maior tendência para apresentarem um retardo mental leve do 
que aqueles que não apresentam o comportamento. Por outro lado, é comum se obser­
var alta incidência de abuso de álcool em incendiários, assim como drogas em geral, e 
uma história de vida marcada por traços antissociais, como vadiagem, fugas de casa, 
comportamentos de risco e delinquência.
Ademais, alguns sujeitos com traços piromaníacos podem procurar atividades 
afins, tais como ser bombeiros voluntários e, dessa forma, justificar seu contato com 
fogo, mostrando poder, coragem ou habilidade para lidar com as chamas.
• C urso
A Piromania geralmente começa na infância. Entretanto, como tem início na 
adolescência ou idade adulta, geralmente se reveste de forma mais grave.
• D ia g n ó s tic o D ife re n c ia l
De acordo com a CID-10 (1993, p. 208), a Piromania deve ser diferenciada de:
a) comportamento incendiário deliberado, sem transtorno psicológico manifes­
to;
b) transtorno de conduta;
c) transtorno de personalidade antissocial em adultos;
d) comportamento incendiário na esquizofrenia, para a qual o evento é o re­
sultado de alucinação (ouvir comandos ou vozes ordenadores do ato) ou de 
delírios;
e) transtornos psiquiátricos orgânicos (demência, embriaguez, drogas, confu­
são, memória prejudicada, incapacidade de avaliação do ato).
158 HOLM ES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2a ed. Porto Alegre: A rtes M édicas, 1997, p. 327.
112 JORGE TRINDADE
Como antes referido, a Piromania também deve ser distinguida dos atos incen­
diários de sabotagem, executados por dissidentes políticos extremistas ou por in­
cendiários pagos, o que corresponderia, no nosso sistema legal, à figura dolosa do 
crime.
Art. 250. Causar incêndio, expondo a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de 
outrem:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 anos, e multa.
Aumento de pena:
§ 1a As penas aumentam-se de um terço:
I - se o crime é cometido com o intuito de obter vantagem pecuniária em proveito próprio ou 
alheio;
II - se o incêndio é:
a) em casa habitada ou destinada à habitação;
b) em edifício público ou destinado a uso público ou a obra de assistência social ou de cultura;
c) em embarcação, aeronave, comboio ou veículo de transporte coletivo;
d) em estação ferroviária ou aeródromo;
e) em estaleiro, fábrica ou oficina;
f) em depósito de explosivo, combustível um inflamável;
g) em poço petrolífero ou galeria de mineração;
h) em lavoura, pastagem, mata ou floresta.
Incêndio Culposo:
§ 2a Se culposo o incêndio, a pena é de detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos.
Cabe observar que, pelo sistema penal brasileiro, o crime de incêndio pode ser 
praticado por qualquer pessoa, inclusive pelo proprietário da coisa incendiada, sendo 
indispensável a prova da ocorrência de perigo efetivo para a pessoa ou coisas inde­
terminadas. O crime pode decorrer do próprio fogo ou do fato em si, como do pânico 
decorrente do fogo. Na sua forma dolosa, o crime de incêndio pressupõe a vontade de 
causar o incêndio com a consciência de que este pode acarretar perigo. Dessa forma, 
não é necessário que a pessoa queira causar o dano, mas, se ela não tiver a consciên­
cia da possibilidade dessa ocorrência, inexistirá o elemento subjetivo necessário para 
configurar o crime de incêndio na sua forma dolosa.
Exigência do dolo de perigo - TJSP: “Sem o dolo de perigo, que se objetiva com a criação de 
uma situação de perigo de dano, a um determinado número de pessoas, o delito de incêndio 
não se aperfeiçoa”. (TR 430/348) No mesmo sentido, TJSP:RTJESP 8/527 (Mirabete, 2000, p. 
1440).
Já pelo sistema do DSM-IV-TR (2003, p. 630), os critérios para Piromania são 
os seguintes:
A. Comportamento incendiário deliberado e proposital em m ais de um a ocasião.
8 . Tensão ou excitação afetiva antes do ato.
C . Fascinação, in teresse, curiosidade ou atração pelo fogo e seus contextos situacionais (por ex., parafernália, usos, consequências).
D. Prazer, gratif icação ou alívio ao provocar incêndios, ou quando os testemunha ou partic ipa de seus resultados.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 113
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E. O comportamento incendiário não ocorre visando a obter ganhos monetários, expressar uma ideologia sociopolítica, encobrir uma 
atividade crim inosa, expressar raiva ou vingança, m elhorar as próprias condições de vida, em resposta a um delírio ou alucinação, ou 
em consequência de um pre juízo no ju lgamento (por ex., na Demência, no Retardo Mental ou na Intoxicação com Substância).
F. O comportamento incendiário não é melhor explicado por um Transtorno da Conduta, um Episódio Maníaco ou em Transtorno da 
Personalidade Antissocial.
Jogo Patológico
O jogo patológico constitui um impulso mórbido parajogar descontroladamen­
te. O transtorno também é denominado jogo compulsivo.
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
Segundo o DSM-IV-TR (2003, p. 630), a característica fundamental do Jogo 
Patológico é um comportamento de jogo mal-adaptativo, recorrente e persistente 
(Critério A), que perturba os empreendimentos pessoais, familiares ou ocupacionais. 
O diagnóstico não é feito se o comportamento é melhor explicado por um Episódio 
Maníaco (Critério B).
Aqueles que sofrem desse transtorno podem colocar em risco seu trabalho, 
sua vida familiar e suas relações de amizade. Frequentemente, são levados a pe­
dir dinheiro emprestado ou a contrair dívidas que não podem saldar, pois o quadro 
do jogo compulsivo tende a se agravar e a aumentar as dificuldades financeiras. A 
evolução do transtorno toma o indivíduo suscetível a mentiras, a furtos e roubos, a 
inadimplências de toda ordem, o que, por sua vez, traz implicações legais e judiciais. 
Daí a importância para os operadores do direito conhecerem as características deste 
transtorno para a adoção das medidas judiciais mais adequadas ao caso, pois indiví­
duos escravos do jogo patológico podem se tomam incapazes para administrar seus 
próprios bens, devendo, portanto, ser interditados antes que sejam demandados por 
outros comportamentos mais graves (estelionato, emissão de cheques sem provisão 
de fundos, apropriação indébita, fraudes, etc.). Em casos extremos, a situação do 
jogador patológico pode ser desesperadora e servir de motivação para tentativa de suicídio ou mesmo de suicídio.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
Além das características antes descritas, os jogadores patológicos costumam se 
mostrar grandiosos, confiantes, destemidos, gastadores, poderosos e com aparente 
falta de ansiedade, mas, numa análise mais profunda, logo se nota uma autoestima 
que oscila entre momentos de exaltação e de ruína, uma personalidade sombria e com traços de depressão.
O comportamento do jogo é progressivo e, na medida em que começam a faltar 
recursos financeiros, os jogadores podem recorrer à mentira e partir para a prática de 
comportamentos antissociais e até mesmo criminosos (furto, fraude e estelionato), 
tudo com a intenção de repor o dinheiro perdido e se manter no jogo patológico.
As características associadas mais comuns são: Transtornos do Sono, Trans­
torno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, Abuso ou Dependência de Substância, 
Transtornos da Personalidade Antissocial, Narcisista e B orderlin e .
• C o n d iç õ e s E sp e c íf ic a s à C u ltu ra e a o G ên ero
Fatores culturais são fundamentais na prevalência e no tipo de atividades liga­
das ao jogo. Em populações interioranas, são frequentes os jogos em rinhas de galos.
114 JORGE TRINDADE
Nas classes média e alta das cidades, o indivíduo aposta em corridas de cavalos, fre­
quenta casas de jogo e bingos, participa de comunidades de jogo pela In tern et, ou faz 
aplicações tipo tudo-ou-nada no mercado de ações.
• P re v a lê n c ia
Os poucos dados disponíveis sugerem que a incidência do Jogo Patológico pode 
variar entre 1 e 3% da população adulta, sendo mais comum em homens do que em 
mulheres. Outrossim, indivíduos que, antes de tomarem uma decisão arriscada, expe­
rimentam reações somáticas de ansiedade, que os leva a reavaliar a situação antes de 
agir, estão mais protegidos do jogo patológico do que aqueles que, sem essa ativida­
de, estão mais propensos a assumirem comportamentos de risco.
• C u rso
Nos homens, parece que o Jogo Patológico pode mais frequentemente iniciar 
na adolescência. A tendência é de que o jogo inicial e de apostas com pequeno valor 
econômico evoluam para repetição até chegar a ser um estado crônico.
As condições desfavoráveis, algumas delas advindas do próprio transtorno, ten­
dem a agravar a situação, levando a variações do humor. Da euforia de um ganho à 
depressão da perda, esta de caráter mais persistente e duradouro. A probabilidade é 
de aumentar o tempo despendido com o jogo, assim como também os valores das 
apostas, na ilusão de uma jogada definitiva como passaporte para a riqueza, mas, em 
geral, com a consequência prática do empobrecimento e da aniquilação financeira, 
patrimonial e do deterioro pessoal.
O curso do Jogo Patológico costuma apresentar altos e baixos, tendendo a ser 
crônico.
De acordo com Sadock (2007, p. 842),139 existem três fases no jogo patológico:
1) fase de ganho, culminando numa grande vitória, igual, aproximadamente, a 
um ano de salário, o que prende o paciente;
2) estágio de perda progressiva, no qual o paciente estrutura sua vida em tor­
no do jogo, deixando de ser um excelente jogador para transformar-se num 
jogador “tolo” devido aos riscos inerentes à patologia, vendendo seus bens, 
contraindo dívidas, faltando ao trabalho e desperdiçando oportunidade de 
empregos;
3) estágio do desespero, em que o paciente aposta freneticamente grandes quan­
tias, deixando de pagar suas dívidas, envolvendo-se com agiotas, emitindo 
cheques sem a suficiente provisão de fundos e, possivelmente, cometendo
i outros delitos rumo a sua degradação pessoal, familiar e social.
• P a d rã o F am ilia l
Há indicadores de que o Jogo Patológico é mais comum em sujeitos pertencen­
tes a famílias ligadas ao mundo das apostas e dos cassinos do que indivíduos cujas 
famílias não têm história de interesse pelo jogo.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
' O Jogo Patológico deve ser diferenciado;
a) do jogo social e esportivo;
139 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução Cláudia 
Dom elles. 9a ed. Porto Alegre: Artm ed, 2007, p. 842.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO
t
115
b) do jogo excessivo em pacientes maníacos;
c) do jogo com conotação de transtorno de personalidade antissocial, no qual há 
o predomínio de outras condições de antissocialidade e de delinquência.
Assim, o jogo social está relacionado a uma função de entretenimento com ami­
gos, em ocasiões especiais, e com perdas aceitáveis e toleráveis, predeterminadas, 
enquanto o jogo patológico é uma condição estruturada no estilo de vida.
De acordo com o DSM-IV-TR (2003, p. 632), os critérios diagnósticos para o 
Jogo patológico são os seguintes:
_________ C rité rio s D ia g n ó s tico s para J o g o P
A. Comportam ento de jogo mal-adaptativo, persistente e recorrente, indicado por cinco (ou mais) dos seguintes quesitos:
(1) preocupação com o jogo (por ex., preocupa-se com reviver experiências de jogo passadas, avalia possibilidades ou planeja a 
próxim a parada, ou pensa em m odos de obter dinheiro para jogar)
(2) necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores, a fim de obter a excitação desejada
(3) esforços repetidos e fracassados no sentido de controlar, reduzir ou cessar com o jogo
(4) inquietude ou irritabilidade, quando tenta reduzir ou cessar com o jogo
(5) joga com o forma de fugir de problemas ou de aliv iar um hum or disfórico (por ex., sentimentos de impotência, culpa, ansiedade, 
depressão)
(6) após perder dinheiro no jogo, frequentem ente vo lta outro dia para ficar quite (“recuperar o prejuízo")
(7) mente para fam iliares, para o terapeuta ou outras pessoas, para encobrir a extensão do seu envolvimento com o jogo 
(3) com eteu atos ilegais, ta is com o falsificação, fraude,furto ou estelionato, para financiar o jogo
(9) colocou em perigo ou perdeu um relacionam ento significativo, o em prego ou um a oportunidade educacional ou profissional por 
causa do jogo
(10) recorre a outras pessoas com o fim de obter dinheiro para aliv iar uma situação financeira desesperadora causada pelo jogo.
B. 0 com portam ento de jogo não é m e lhor explicado por um Episódio Maníaco,
Por fim, a par de outras controvérsias, cabe salientar que constitui Contraven­
ção Penal (art. 50 do Decreto-Lei 3.688/41) estabelecer ou explorar jogos de azar em 
lugar público, mediante pagamento ou sem ele, e promover ou fazer extrair loteria, 
sem autorização legal (art. 51). Nesse contexto, o debate acerca da proibição e do 
combate aos jogos eletrônicos, cassinos, internet, casas de bingo tem sido um tema 
relevante nos dias de hoje, pois as novas modalidades tecnológicas têm contribuído 
para o alastramento de diversas formas de jogo, aumentando, pelo menos em tese, os 
riscos para aquelas pessoas que já apresentam, por suas características de personali­
dade, uma predisposição para o jogo patológico.
Dentre os Transtornos do Controle do Impulso Não Classificados em Outro 
Local, deixamos de comentar a Tricotilomania porque este, pelo menos em tese, não 
guarda relação com o direito.
7.2. Retardo Mental
O Retardo Mental constitui um manifesto prejuízo da inteligência, uma condi­
ção de desenvolvimento incompleto da mente caracterizada pelo comprometimento 
de habilidades para resolver problemas. Os comprometimentos são influenciados por 
fatores genéticos, ambientais e psicológicos.
116 JORGE TRINDADE
O Retardo Mental integra os denominados Transtornos Geralmente Diagnos­
ticados pela Primeira Vez na Infância ou na Adolescência e está assim descrito no 
DSM-IV-TR (2003, p. 73). A par das considerações eminentemente clínicas deste 
transtorno, o Retardo Mental guarda relação com o direito em vários aspectos, como, 
por exemplo, no que diz respeito à inimputabilidade e à culpabilidade diminuída 
(art. 26 do Código Penal), com as condições associadas à delinquência (adolescentes 
infratores, em regra, possuem Q.I. menor do que adolescentes não infratores, com 
fracasso de aprendizagem e expulsão da escola, violência, concretismo, etc.), assim 
como também no que tange à capacidade do agente. Tratando-se de um transtorno 
cognitivo, importa diretamente para o direito quando se devem considerar os requisi­
tos psicológicos da capacidade do agente para a prática do ato: capacidade de querer 
(volitiva) e capacidade de compreender (cognitiva).
Na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 (1993, 
p. 220), o bloco referente ao Retardo Mental é estratificado da seguinte maneira:
F70 Retardo mental leve
F71 Retardo mental moderado
F72 Retardo mental grave
F73 Retardo mental profundo
F74 Outro retardo mental
F75 Retardo mental não especificado.
• C a ra c te r ís tic a s D ia g n ó s tic a s
Acompanhando os critérios do DSM-IV-TR (2003, p. 73), a característica es­
sencial do Retardo Mental é a limitação das aptidões cognitivas e um nível de funcio­
namento intelectual significativamente inferior à média (Critério A), acompanhado 
de limitações significativas no funcionamento adaptativo em pelo menos duas das 
seguintes áreas de habilidades: comunicação, autocuidados, vida doméstica, habili­
dades sociais/interpessoais, uso de recursos comunitários, autossuficiência, habilida­
des acadêmicas, trabalho, lazer, saúde e segurança (Critério B). O início deve ocorrer 
antes dos 18 anos (Critério C).
De acordo com Holmes (1997, p. 439),160 a linha divisória entre o retardo mental 
e a habilidade cognitiva normal nem sempre é clara, mas se estima uma significativa 
percentagem Q.I.s limítrofes (entre 75-85).
• N ív e is d e G ra v id a d e d o R e ta rd o M en ta l
Embora se costume referir quatro níveis de gravidade ao estabelecer o diagnós­
tico de Retardo Mental, pode-se acrescentar ainda um quinto nível, se considerarmos 
o Retardo Mental de Gravidade Não Especificada, estabelecendo o seguinte compa­
rativo (DSM-IV-TR, 2003, p. 74, adaptado):
• Retardo Mental Leve, Nível de QI 50-55 a aproximadamente 70;
• Retardo Mental Moderado, Nível de QI 35-40 a 50-55;
• Retardo Mental Severo, Nível de QI 20-25 a 35-40;
• Retardo Mental Profundo, Nível de QI abaixo de 20 ou 25;
• Retardo Mental de Gravidade Inespecificada, quando existem indicadores de 
Retardo Mental, mas a inteligência da pessoa, por alguma condição, não é
160 HOLMES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2“ ed. Porto Alegre: Artes M édicas, 1997, p. 439.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 117
suscetível de medição através dos métodos convencionais. Assim, por exem­
plo, quando existe alguma patologia sobreponente, ou o simples fato de a 
pessoa não consentir em ser avaliada.
• R e ta rd o m en ta l lev e
O Retardo Mental Leve é equivalente ao que foi certa vez denominado “edu- 
cável”, ou seja, pessoas que podem atingir um patamar educacional e de treinamen­
to com habilidades sociais e de comunicação durante anos pré-escolares (Holmes, 
p. 441).16' Estes indivíduos apresentam um prejuízo mínimo e não distinguíveis de 
crianças normais. Eles geralmente atingem habilidades educativas equivalentes ao 
nível do 6o ano do ensino fundamental. Estes indivíduos podem viver com relativo 
sucesso para tarefas básicas, de modo independente ou necessitarem de supervisão 
em situações mais difíceis ou sob o impacto de fatores de estresse intenso.
O retardo mental leve dificilmente pode ser diagnosticado até que as crianças 
afetadas ingressem na escola, já que suas aptidões sociais e comunicativas podem ser 
adequadas nos anos pré-escolares (Kaplan, Sadock e Greeb, 1997, p. 966).
Cabe salientar que algumas pessoas com retardo mental leve podem ser explo­
radas por terceiros de má-fé, que se aproveitam dessa condição cognitiva para extrair 
vantagem em benefício próprio, uma vez que o sujeito não consegue avaliar plena­
mente a situação de exploração e risco em que se encontra.
• R e ta rd o M en ta l M o d e ra d o
O Retardo Mental Moderado equivale ao que costumava ser considerado como 
nível de retardo “treinável”. O termo treinável, segundo Holmes (1977, p. 441),161 162 
deve ser entendido com o significado de que tais pessoas podem se beneficiar de pro­
gramas educacionais e constitui cerca de 10% da população com retardo.
Estes indivíduos adquirem habilidades de comunicação durante os primeiros 
anos da infância. Eles podem se beneficiar de treinamento vocacional e profissio­
nal. Com moderada supervisão, podem exercitar os autocuidados e contribuir para 
seu próprio sustento. Durante a adolescência, costumam apresentar dificuldades com 
seus pares e não tendem a progredir academicamente. Apresentam dificuldades de 
conviver numa sociedade competitiva, necessitando de supervisão e orientação; às 
vezes, precisam ser alocados em comunidades de proteção.
Dessa forma, o retardo mental moderado tende a ser diagnosticado mais pre­
cocemente do que o retardo mental leve, porque as aptidões comunicativas, edu­
cacionais e de habilidades sociais se desenvolvem mais lentamente nas pessoas de 
retardo mental moderado, e seu isolamento social pode iniciar nos primeiros anos da 
educação fundamental, podendo ser identificado na escola ou mesmo na família. As 
crianças com retardo mental moderado têm consciência de seus déficits e, frequen­
temente, sentem-se afastadas ou excluídas por seus pares, o que gera sentimentos de 
frustração e rechaço devido às limitações que manifestam.
• R e ta r d o M en ta l S ev ero
De acordo com o DSM-IV-TR (2003, p. 75) e Holmes (1977, p. 441), o grupo 
com Retardo Mental Severo constitui de 3 e 4% dos indivíduos com Retardo Mental.
161 H OLM ES, D . Psicologia dos Transtornos Mentais. 2a ed. Porto Alegre: Artes M édicas, 1997, p. 441.
162 Ibidem.
118 JORGE TRINDADE
Durante os primeiros anos da infância, apresentam desenvolvimento mental pobree adquirem pouca ou nenhuma capacidade de fala comunicativa. Durante a idade 
escolar, eles podem aprender a falar e ser treinados em habilidades elementares de 
higiene. Entretanto, beneficiam-se de uma parcela muito limitada da instrução em 
matérias pré-escolares, tais como familiaridade com o alfabeto e capacidade para 
contas simples. Todavia, podem alcançar habilidades tais como reconhecimento vi­
sual de algumas palavras fundamentais à sobrevivência.
Considerando os múltiplos comprometimentos, a linguagem mínima e o desen­
volvimento motor muito prejudicado, o retardo mental severo geralmente se eviden­
cia com facilidade já nos anos pré-escolares.
Na idade adulta, esses sujeitos podem ser capazes de desempenhar tarefas sim­
ples sob estreita e cuidadosa supervisão. A maioria adapta-se bem à vida em comuni­
dade, em pensões ou com suas famílias. Em situações adversas, podem necessitar de 
assistência de enfermagem ou de acompanhamento terapêutico intenso.
• R e ta rd o M en ta l P ro fu n do
Segundo Holmes (1977, p. 441)163 e também de acordo com os critérios do DSM- 
-IV-TR (2003, p. 75), este grupo com Retardo Mental Profundo constitui aproximada­
mente de 1 a 2% com retardamento. Quando crianças apresentam capacidade mínima 
para funcionamento sensório-motor, e possuem uma condição neurológica relaciona­
da com a etiologia do Retardo Mental Profundo. Um desenvolvimento mais favorável 
pode ocorrer em um ambiente altamente organizado e estruturado de forma simples e 
continente, acrescido de constante auxílio e supervisão. O desenvolvimento motor e as 
habilidades de higiene e comunicação podem melhorar com treinamento adequado.
Existe indicação para essas pessoas frequentarem programas diários de treina­
mento especializado e de oficinas protegidas com cuidados médicos, psiquiátricos, 
psicológicos e educacionais (psicopedagógicos).
• R e ta rd o M en ta l, G ra v id a d e In esp ec ifica d a
O diagnóstico de Retardo Mental, Gravidade Inespecificada, aplica-se quando 
existem fortes indicadores sugestivos de Retardo Mental, mas o indivíduo não pode 
ser adequadamente testado pelos instrumentos habituais de mensuração da inteligên­
cia ou está muito comprometido para ser testado. Isto pode ocorrer mesmo que se 
disponha de instrumentos típicos para crianças e adultos não alfabetizados, mas exis­
te demasiado prejuízo ou falta de cooperação para serem testados, ou com bebês que 
não respondem à estimulação instrumental mínima.
• C a ra c te r ís tic a s e T ra n sto rn o s A sso c ia d o s
Indivíduos com Retardo Mental Profundo costumam ser dependentes e passi­
vos, ou, então, inquietos e agressivos. Suas dificuldades exigem um elevado nível 
de frustração, podendo haver escapes agressivos, acessos de raiva, de birra ou de 
descontrole emocional.
O diagnóstico de retardo mental profundo pode ser feito através de uma ana- 
mnese detalhada, de uma avaliação intelectual padronizada e de uma medição do 
funcionamento adaptativo, cujos resultados apontam para um funcionamento signifi­
cativamente abaixo do nível esperado para crianças da mesma faixa etária.
163 HOLM ES, D. Psicologia dos Transtornos Mentais. 2* ed. Porto Alegre: Artes M édicas, 1997, p. 441.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 119
• F a to re s p re d isp o n e n te s
Diversas são as condições que podem predispor o Retardo Mental. Fatores pré- 
-natais, como hipertensão, uso crônico de álcool, infecções, sífilis e rubéola, compli­
cações da gravidez, estão identificados como condições de risco a doença.
O Retardo Mental também pode decorrer de fatores genéticos. Segundo Hol- 
mes, (1997, p. 442),164 a etiologia genética está relacionada com as formas mais seve­
ras do retardo e explicaria cerca de 25% dos casos de Retardo Mental.
Algumas anormalidades nos cromossomos autossômicos estão associadas com 
Retardo Mental. Dentre elas, cabe referir:
a) Síndrome de Down: mongoloides, com olhos oblíquos e nariz achatado;
b) Síndrome do Miado do Gato: crianças com essa síndrome não possuem parte 
do quinto cromossomo e apresentam um Retardo Mental Grave ou Profundo. 
Devido às anormalidades laríngeas, possuem um choro semelhante ao miado 
de um gato;
c) A fenilcetonúria, um problema genético com o metabolismo resulta em seve­
ro nível de retardo com Q.I. raramente superior a 40-50;
d) Doenças adquiridas na infância também fazem parte do elenco etiológico do 
Retardo Mental. Envenenamento por chumbo, hipertiroidismo, encefalite e 
meningite, além de outras infecções podem ser referidas nesse caso, assim 
como traumatismo craniano (Kaplan e Sadock, 1990, p. 578);16S
e) Influências socioculturais e ambientais. Baixas condições econômicas e so­
ciais desfavorecem os cuidados pré-natais, natais e perinatais. Dificultam o 
acesso a recursos de saúde, aumentam o risco de prematuridade, uso de dro­
gas, álcool, desnutrição e estimulação, estes considerados fatores importan­
tes para o desenvolvimento cognitivo saudável.
• P re va lê n c ia
É difícil estabelecer com segurança a taxa de prevalência do Retardo Mental. 
Holmes (1997, p. 439) refere que mais de 6 milhões de pessoas nos Estados Uni­
dos têm Q.I.s na extensão de retardo leve, enquanto os indicadores do DSM-IV-TR 
(2003, p. 78)166 sugerem ser aproximadamente 1%, mas esses critérios variam muito, 
dependendo das condições da avaliação e dos métodos utilizados, assim como tam­
bém da padronização dos testes de inteligência.
Não se pode deixar de referir que o diagnóstico de Retardo Mental, devido aos 
preconceitos ainda existentes na sociedade, possui forte impacto rotulador e estigma- 
tizante.
• C u rso
O Retardo Mental, nas suas formas severas, pode ser diagnosticado ao nasci­
mento ou nos primeiros anos de vida até a adolescência. Indivíduos com Retardo 
Mental Leve podem evoluir na aquisição de algumas habilidades desde que possuam
164 HOLM ES, D . Psicologia dos Transtornos Mentais. 2‘ ed. Porto Alegre: Artes M édicas, 1997, p. 442.
163 KAPLAN, H. I.; SADOCK, B. J.; GREEB, I. A. Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999, p. 578.
166 A SSOCIAÇÃO AM ERICANA DE PSIQUIATRIA. D SM IV -R . Manual diagnóstico e estatístico de transtornos 
mentais. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 78.
120 JORGE TRINDADE
os recursos médicos e psicológicos adequados e recebam suporte psicopedagógico e 
escolarização de boa qualidade.
Em princípio, a maioria dos casos de retardo mental caracteriza-se por um com­
prometimento intelectual básico que não apresenta plena evolução, embora o nível 
de adaptação do indivíduo afetado possa ser positivamente influenciado por um am­
biente enriquecido. Em geral, os indivíduos com retardo mental de leve a moderado 
têm a maior flexibilidade para a adaptação às condições ambientais do que aqueles 
com retardo mental profundo.
• D ia g n ó s tic o D ife ren c ia l
O diagnóstico diferencial para o Retardo Mental deve ser feito em relação a:
a) crianças provenientes de ambientes de privação;
b) surdez também pode ser confundida com Retardo Mental Profundo;
c) transtorno da Comunicação (deficiências de linguagem) e paralisia cerebral;
d) transtornos de aprendizagem;
e) funcionamento intelectual B o rd er lin e .
Finalmente, é importante ressaltar que o Retardo Mental interessa diretamente 
ao artigo 26 do Código Penal, visto que está expresso na equação “ou desenvolvi­
mento mental incompleto ou retardado”, podendo dar causa para isenção de pena ao 
agente ou para a sua redução na ordem de um a dois terços.
Algumas decisões ainda se referem ao Retardo Mental através de denominações 
clássicas e antigas tal como oligofrenia, seja aos efeitos de reconhecer a inimputabi- 
lidade ou apenas diminuir a culpabilidade.
Na área do direito civil, o Retardo Mental, dependendo de seu nível de gravida­
de, pode induzir à anulabilidade dos atos jurídicos devido à incapacidade do agente.
Desta forma, fica evidente que os operadores do direito necessitam possuir co­
nhecimentos elementares sobre o Retardo Mentalpara poderem manejar com esta 
entidade psicológica em suas petições, defesas e arrazoados, assim como identificar 
a necessidade de requerer as avaliações pertinentes. Nas hipóteses do artigo 26 do 
Código Penal, trata-se de instaurar, de ofício ou por requerimento do Ministério Pú­
blico ou da defesa, o Incidente de Insanidade Mental, previsto no art. 149 do Código 
de Processo Penal.
I *
,no o distúrbio pode ter seu início na 
infância. As crianças são excessivamente sensíveis a estímulos e facilmente pertur­
badas por ruídos, luz, temperatura ou outras alterações ambientais. Às vezes, ocorre 
o inverso: as crianças são dóceis e sem energia, dormem a maior parte do tempo e 
parecem desenvolver-se muito lentamente nos primeiros meses. É mais comum, en­
tretanto, que sejam ativas no berço, durmam pouco e apresentem choro aumentado.
Como já referimos anteriormente, essas crianças costumam apresentar sintomas 
explosivos de irritação, os quais podem se manifestar por estímulos destituídos de 
importância, mas através dos quais se tomam confusas e amedrontadas. Ademais, são 
crianças emocionalmente inseguras e instáveis, riem e choram com facilidade, cujo 
padrão de impulsividade aumenta a propensão para acidentes.
Estes indivíduos estão mais sujeitos a comportamentos de risco, a Transtorno de 
Conduta, à evasão escolar e mais expostos ao uso de drogas e à prática de comporta­
mentos antissociais e delinquenciais.
De outro lado, possuem baixa tolerância à frustração, apresentam inesperados 
acessos de raiva, costumam não obedecer, apresentam humor disfórico e são dema­
siadamente insistentes em suas solicitações a ponto de se tomarem inadequados e 
inconvenientes.
Associados ao Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade podem estar o 
Transtorno Desafiador de Oposição, o Transtorno da Conduta e o uso de drogas.
Apesar da falta de uma base neurofisiológica ou neuroquímica específica para 
o transtorno, assim como também de déficits cerebrais evidentes (Lambert e Kinsley, 
2006, p. 178),171 o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade está previsivel­
mente associado com uma variedade de outros transtornos que afetam as funções 
cerebrais, como transtornos de aprendizagem, transtornos de conduta e toxicodepen- 
dência.
E importante salientar que desatenção, hiperatividade e impulsividade podem 
resultar de muitos problemas na vida de relação das crianças (com os pais e/ou cole­
gas e amigos), de sistemas educacionais insuficientes, ou mesmo estar associados a 
outros transtornos comumente encontrados na infância e na adolescência. Portanto, 
para o diagnóstico do transtorno é sempre necessário contextualizar os sintomas na 
história de vida da criança.
• C o n d iç õ es E sp ec íf ica s à C u ltu ra , à Id a d e e a o G ên ero
O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade está sujeito a várias con­
dições e não tem passado sem críticas. Parece estar relacionado ao movimento rá­
pido das cidades modernas, ao funcionamento familiar acelerado, e à cultura da 
velocidade.
Muito se tem debatido sobre o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade 
em diversos países. índices mais elevados são identificados nos países desenvolvi­
dos, mas este fato pode ser decorrente das melhores condições de diagnóstico.
170 SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica, tradução Claudia 
D om elles. 9a ed. Porto Alegre: Artm ed, 2007, p. 134.
171 LAM BERT, K.; KINSLEY, C. H. Neurociência clínica - as bases neurobiológicas da saúde mental. Porto A le­
gre: Artmed, 2006, p. 178.
Manual de Psicologia Jurídica 
PARA OPERADORES DO DIREITO 123
O transtorno é muito mais frequente no sexo masculino. A relação pode variar 
de acordo com os estudos numa razão de 4 meninos para 1 menina até 10 para 1, 
dependendo se os critérios são utilizados de forma mais estrita ou mais flexível e 
tolerante. A condição é mais comum em meninos primogênitos.
Conforme Sadock (2007, p. 134),172 os pais de crianças com este transtorno 
apresentam uma incidência aumentada de hipercinesia, sociopatia, dependência de 
álcool e transtorno conversivo.
• P re v a lê n c ia
Pesquisas sobre a incidência do transtorno têm sugerido uma taxa que varia en­
tre 3 e 5 % em crianças (Lambert e Kinsley, 2006, p. 178),173 mas outros estudos apon­
tam para uma prevalência bem maior. Na

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