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2 AURYLENE GOMES DE ANDRADE IMPACTO DA PÓS-PANDEMIA DE COVID-19 NOS NÍVEIS DE DEPRESSÃO, ANSIEDADE E ESTRESSE EM ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA DO DISTRITO FEDERAL: UMA ABORDAGEM NEUROCIENTÍFICA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Psicologia. Orientador: Prof. Dr. Leandro Freitas Oliveira Brasília 2024 3 Dissertação de autoria de Aurylene Gomes de Andrade, intitulada “IMPACTO DA PÓS-PANDEMIA DE COVID-19 NOS NÍVEIS DE DEPRESSÃO, ANSIEDADE E ESTRESSE EM ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA DO DISTRITO FEDERAL: UMA ABORDAGEM NEUROCIENTÍFICA”, apresentada como requisito para obtenção do grau de Mestre em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, em .... de .... de 2024, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: _______________________________________ Prof. Dr. Leandro Freitas Oliveira Orientador Universidade Católica de Brasília _______________________________________ Profa. Dra. Eduarda Rezende Freitas Universidade Católica de Brasília _______________________________________ Prof. Dr. Brasília 2024 4 Aos meus familiares e amigos (as) pelo apoio incondicional na realização desse estudo, por toda ajuda, incentivo e colaboração durante todo o tempo da pesquisa. 5 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pelo dom da vida, especialmente após um período pandêmico e por ter me proporcionado forças e saúde para prosseguir nos estudos mesmo vivendo a dor do luto pela morte da minha referência de vida, meu porto seguro, minha motivação e quem mais me incentivou a sempre estudar e buscar a realização dos meus sonhos, meu pai Aurystenio de Andrade (in memoriam). Aos meus familiares, em especial a minha mãe Maria Gorete Gomes de Andrade, por todo apoio e ajuda para que eu trilhasse essa formação acadêmica tão importante em minha vida. Meus pais foram professores e segui essa mesma profissão pela inspiração proporcionada por eles. Sempre os admirei e tenho muito orgulho por toda dedicação dispensada à educação pública. A eles a minha eterna gratidão por ter me ensinado tanto. Aos meus amigos da Psicologia, aos meus colegas de trabalho, aos meus colegas do curso de Mestrado em Psicologia, em especial a Adriana Almeida Sousa Rodrigues por toda ajuda, contribuição, incentivo, palavras de carinho e motivação para seguir essa trajetória tão fundamental em minha vida e formação profissional e acadêmica. Ao meu orientador, professor Leandro Freitas Oliveira, por todo o acompanhamento desse projeto, pela sua dedicação em me orientar, por suas brilhantes contribuições e sugestões para a conclusão desse estudo, pela sua magnífica forma de me escutar, me entender, me apoiar e me conduzir nessa jornada de estudos. Minha gratidão por me proporcionar momentos de muito aprendizado e por sua humildade em ensinar com maestria, com excelência. Aos demais professores da banca de qualificação, professora Lêda Gonçalves de Freitas e professora Poliana Peres Ghazale pelas excelentes contribuições nesse projeto e pela imensurável ajuda com sugestões e materiais para complementar meus estudos para a conclusão dessa etapa tão importante em minha vida. A todos os professores do curso de Mestrado em Psicologia, que me ensinaram tanto para que eu chegasse até aqui. A todos os que fazem parte da minha vida pessoal, profissional e acadêmica, muito obrigada! 6 RESUMO Andrade, A. G. (2024). Impacto da Pós-Pandemia de COVID-19 nos Níveis de Depressão, Ansiedade e Estresse em Estudantes da Educação Básica do Distrito Federal: Uma Abordagem Neurocientífica. [Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia]. Universidade Católica de Brasília – UCB-DF. A pandemia da covid-19, doença causada pelo Sars-CoV-2, o novo coronavírus, surgido na China em dezembro de 2019 espalhou-se por todo o mundo e teve impactos gigantescos em diversas áreas das nossas vidas mudando a rotina da população principalmente em seus dois primeiros anos, a saber: 2020 e 2021e devido às medidas de isolamento físico social decorrente do período pandêmico, as escolas foram fechadas, a partir de março de 2020, no Brasil e, posteriormente, as aulas ocorreram de forma totalmente remota utilizando as telas como o recurso pedagógico fundamental e, no segundo semestre de 2021, houve o retorno das aulas presenciais. Diante desse cenário de mudanças na realidade educacional de estudantes não só no Brasil, mas a nível mundial, a presente pesquisa de natureza quantitativa com cunho descritivo e qualitativa objetivou examinar o impacto da pandemia da COVID-19 nos níveis de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da educação básica como marcadores inferenciais para alterações fisiológicas e anatômicas cerebrais. Para isso, estrutura-se em torno da aplicação da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) e da Escala Generalized Anxiety Disorder (GAD-7) (Transtorno de Ansiedade Generalizada) na coleta de dados dos estudantes participantes para quantificar os estados emocionais destes no período pós-pandemia e este estudo também se alicerçou em teorias e pesquisas em neurociências com o objetivo de compreender os mecanismos neurais por trás da depressão, ansiedade e estresse, bem como, para entender como a pandemia da covid-19 pode ter afetado esses aspectos da saúde mental. A seleção dos estudos foi a partir da busca em base de dados bibliográficos como PubMed, Science Direct e Google School, com a utilização das palavras-chave e inclusão de estudos publicados nos últimos anos que correspondem ao período pandêmico e pós-pandemia, em português e inglês. Palavras-chave: COVID-19, depressão, educação básica, estudantes, ansiedade, estresse, neurociências, Brasil 7 ABSTRACT The pandemic of covid-19, disease caused by Sars-CoV-2, the new coronavirus, emerged in China in December 2019 has spread around the world and has had huge impacts in various areas o four lives changing the routine of the population mainly in its first two years, namely: 2020 and 2021 and due to the measures of physical social isolation resulting from the pandemical period, the schools were closed, from March 2020, in Brazil and, subsequently, the classes took place completely remotely using the screens as the fundamental pedagogical resource and, in the second half of 2021, there was the return of face-to-face classes. Faced with this scenario of changes in the educational reality of students not only in Brazil, but at the global level, the present research of a quantitative nature with a descriptive and qualitative purpose aimed to examine the impact of the COVID-19 pandemic on the levels of depression, anxiety and stress in students of Basic Education as inferential markers for physiological and anatomical brain changes. For this, it is structured around the application of the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21) and the Generalized Anxiety Disorder Scale (GAD-7) in the collection of data from the students participants to quantify their emotional states in the post-pandemic period and also based on theories and research in neurosciences with the aim of understanding the neural mechanisms behind depression, anxiety, and stress, as well as to understand how the Covid-19 pandemic may have affected these aspects of mental health. The selection of the studies was based on the search in bibliographic databases such as PubMed, Science Direct and Google School, with the use of keywords and inclusion of studies published in recent years that correspond to the pandemic and post-pandemic period, in Portuguese and English. Keywords:– no caso da anorexia); § Ansiedade, preocupação ou sintomas físicos causam sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social. o formigamentos ou anestesias nos dedos e nos lábios; o ondas de calor ou calafrios; o desrealização (sensação de que o ambiente familiar está estranho) ou despersonalização (sensação de estranheza quanto a si mesmo); o tontura, instabilidade; o dor ou desconforto torácico; o náusea ou desconforto abdominal. Transtorno de pânico § Ter ataques de pânico de forma repetitiva e inesperada; § Pelo menos um dos ataques foi seguido por período mínimo de um mês com os seguintes critérios: o preocupação persistente com a possibilidade de ter novos ataques; o preocupações com implicações ou consequências dos ataques, como perder o controle, enlouquecer ou ter um infarto; o alterações do comportamento relacionadas aos ataques (evitar aglomerações, evitar sair de casa); o presença ou não de agorafobia associada. O transtorno não é devido a efeitos fisiológicos diretos de uma substância (medicamento, uso de substâncias) ou a uma condição médica ou doenças (como hipertireoidismo, lúpus, diabetes, entre outras). O campo TAG classifica-se pela prevalência de sintomas ansiosos demasiados, vividos pelas pessoas acometidas pelo transtorno, na maior parte dos dias e pelo tempo 41 de muitos meses. Essas pessoas vivem de forma angustiante, sempre estão tensas e preocupadas, além de estarem constantemente nervosas, segundo Dalgalarrondo, (2019). Além disso, a predominância dos sintomas de insônia, bem como, de dificuldade de conseguir relaxar, a aflição permanente, irritabilidade elevada e problemas para se concentrar, são comuns nesses quadros de transtorno. São normais também os sintomas classificados como físicos, como exemplos, a cefaleia, dor muscular, dor ou sensação de estar com o estômago queimando, a taquicardia, a vertigem, o formigamento e a sudorese fria. Salienta-se que, para compor o diagnóstico e detectar uma síndrome ansiosa em uma pessoa, é preciso que o profissional de saúde analise junto ao paciente se os sintomas ansiosos apresentados estejam prejudicando um sofrimento de cunho significativo em sua vida social, pessoal, profissional. Para corroborar essa questão, temos nos estudos epidemiológicos de Andrade et al.; (2012); Ribeiro et al.; (2013), amostras das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro em que há a presença iminente de TAG, no período dos últimos doze meses a pesquisa, em que os índices apontam a incidência entre 2,2 a 3,5% das pessoas e, ao menos uma vez na vida entre 5,8 a 6,0% da população. 4.2.4 O estresse Em Straub (2014) temos que o húngaro Hans Selye (1907-1982), que foi um endocrinologista protuberante, começou a ficar famoso na denominada McGill University, em Montreal, devido à identificação de um novo hormônio. Ele trabalhou com uma espécie de fragmento de ovário e para isso, criou um plano que consistia na aplicação de injeções diárias do fragmento a um modelo de ratos de laboratório e, com isso, examinar alterações no comportamento e na saúde. Entretanto, esse plano que a princípio parecia simples, não prosseguiu de forma fácil de ser executado, pois Selye notou que os ratos, assim como os seres humanos, não gostam de receber injeções. Mas, após diversos meses da administração das injeções nos ratos, foi possível que o jovem endocrinologista fizesse um brilhante achado, a de que a maior parte dos ratos tinha desenvolvido úlceras hemorrágicas, atrofias do timo que consiste na produção dos 42 linfócitos para combater enfermidades, e crescimento das glândulas adrenais. Seu primeiro impacto foi de contentamento por confiar ter descoberto os efeitos fisiológicos do fragmento de ovário, mas, Selye teve cautela e entendeu que necessitava de um grupo de controle para que suas descobertas não fossem frustradas. Dessa forma, demais grupos de ratos também receberam injeções diárias que consistiam em fragmentos de rins, baço ou uma solução salina, ao invés de fragmentos de ovários. De acordo com Straub (2014), esses grupos de ratos foram tratados da mesma forma que os demais apresentando comportamento similar, sendo necessário serem apanhados, bem como, abatidos e perseguidos pelo laboratório para receberem as injeções, devido ao fato de que os ratos não gostavam de recebê-las. Após a administração das injeções, Selye constatou que os ratos de controle apresentaram os mesmos sintomas dos primeiros, como o crescimento das glândulas adrenais, os timos atrofiados e as úlceras hemorrágicas. Assim, as mesmas alterações ocorreram nos dois grupos de ratos de laboratório e não poderiam ter sido desencadeadas pelo fragmento de ovário. Conclui-se pelo experimento que as mudanças encontradas foram causadas pelo estresse a que os ratos estavam sendo acometidos desde o início da manipulação da pesquisa desenvolvida por Selye. Selye descobriu a resposta de estresse a partir do experimento realizado com ratos de laboratório, desencadeando assim uma nova esfera na medicina, denominada de fisiologia do estresse. Ele não foi o primeiro a utilizar a palavra estresse, porém, é a partir de seus achados o surgimento de duas ideias fundamentais nesse âmbito, a saber: “O corpo tem uma resposta notavelmente semelhante a muitos estressores diferentes” e “Os estressores, às vezes, podem deixar as pessoas doentes”. Partindo dessas premissas, tem-se que a segunda ideia seja fundamental na compreensão de que o estresse em sua forma crônica e persistente pode ter influência na vulnerabilidade dos seres humanos a propensão de doenças. A partir disso, inúmeras pesquisas foram desenvolvidas nesse campo abrindo um leque de junções entre o estresse e diversas doenças de cunho físico e psicológico, como por exemplo, doenças que correspondem ao câncer, cardiopatias, diabetes, artrite, cefaleias, asma, distúrbios digestivos, depressão e ansiedade (STRAUB, 2014). De acordo com Straub (2014), pesquisadores como Selye (1934) ao situarem nexos entre o estresse e diversas doenças de cunho físico e psicológico, como as 43 elencadas acima, em contrapartida, vivências estressantes que soubemos lidar podem ser definidas como experiências positivas em nossas histórias e permitir, futuramente, mais soluções de enfrentamento. O estresse faz parte da vida e sem o estresse as nossas vidas seriam consideradas como entediantes. Entretanto, quando o estresse gera uma sobrecarga nos recursos de enfrentamento, pode acarretar prejuízos a nossa saúde. Assim, é normal sentir estresse em nosso cotidiano que pode vir da escola, do trabalho, da família, das interações com o outro etc, ocorrendo em nossas vidas em tempo real quando precisamos enfrentar as demandas inerentes ao nosso dia a dia. O autor assevera que mesmo com a universalidade do termo estresse, os psicólogos ainda não dispõem de uma definição que seja adequada para conceituá-lo. Assim, esse termo é utilizado, por vezes, na descrição de uma situação ou até de um estímulo ameaçador e, em outras ocorrências, na definição de uma resposta a uma determinada situação. Nesse parâmetro, os psicólogos da saúde definiram que os estressores são acontecimentos ou circunstâncias complexas que podem desencadear ajustes de enfrentamento nos indivíduos, e o estresse é um processo no qual os indivíduos percebem e respondem a episódios que sejam desafiadores ou prejudiciais para estes. Na perspectiva biológica, os processos de cunho biológico que surgem quando as pessoas sentem estresse podem divergir de acordo com a fisiologia individual e dos níveis de reatividade fisiológica de cada pessoa. Entretanto, os mesmos processos basilares são capazes de afetar todas as pessoas. As intervenções psicológicas comprometem a forma como avaliamos situações que são consideradas como desafiadoras, sejam estas estressantesou não estressantes tendo em vista a personalidade e vivências de cada um. O estresse é um fenômeno biológico complexo, caracterizado pela resposta do organismo a um desafio ou ameaça percebida. Esse processo inicia-se no cérebro, especificamente na área chamada hipotálamo, que ativa o sistema nervoso simpático, desencadeando a liberação de catecolaminas (como adrenalina e noradrenalina) pelas glândulas adrenais. Paralelamente, o hipotálamo estimula a liberação do hormônio corticotropina - CRH pela hipófise, que por sua vez, promove a secreção de cortisol pelas glândulas adrenais. O cortisol, um glucocorticoide, desempenha um papel central na resposta ao estresse, ajudando o organismo a mobilizar energia e modulando o sistema imunológico. A resposta ao estresse é vital para a sobrevivência, pois prepara o 44 corpo para a ação, seja lutando ou fugindo do perigo percebido (Sapolsky, 2004; McEwen, 2007). No entanto, quando o estresse é crônico, a exposição prolongada ao cortisol e outras substâncias relacionadas pode ter efeitos deletérios sobre o corpo e o cérebro. Isso pode levar a alterações na estrutura e função de áreas cerebrais como o hipocampo, a amígdala e o córtex pré-frontal, afetando a memória, a aprendizagem e a regulação emocional. Além disso, o estresse crônico está relacionado a diversas condições de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, distúrbios neuropsiquiátricos como depressão e ansiedade, e comprometimento do sistema imunológico. A complexidade da resposta ao estresse reflete a interação entre sistemas neurais, endócrinos e imunológicos, evidenciando a importância de estratégias de manejo eficazes para mitigar seus efeitos negativos sobre a saúde (McEwen, 1998; Lupien et al., 2009). Nesse contexto, Straub (2014) ainda conceitua que influências socioculturais individuais das pessoas afetam a forma como ponderamos o estresse que surge de várias maneiras, como os fatos importantes da vida cotidiana, eventos catastróficos, problemas do dia a dia, situações de estresse oriundas do ambiente como trabalho, escola, família, amigos. Assim, pode-se considerar que a pandemia da covid-19 ocasionou um estresse significativo nas pessoas por se enquadrar em um exemplo estressor, trágico e que também desencadeia comportamento de enfrentamento. Outros autores corroboram com essa temática, como Benzoni et al., (2021) que ponderam que a pandemia da covid-19 acarretou inúmeros impactos na população mundial, no que tange as condições sanitárias, sociais, econômicas e psicológicas e seu concludente estresse pode conduzir os indivíduos a desenvolverem problemas de longo prazo. Dados oficiais do Ministério da Saúde registraram no Brasil, no período compreendido entre 17 de março a 15 de dezembro de 2020, o total de 6.970.034 casos comprovados da doença e o quantitativo de 182.799 óbitos (Brasil – Ministério da Saúde, 2020). Em atividades profissionais no campo da saúde mental, no âmbito clínico ou institucional, é crível a percepção enfática dos impactos psicossociais do período correspondente à pandemia da covid-19 tendo em vista que em meio a uma questão de urgência a nível mundial, com tempos de quarentena e isolamento social que foram infligidos à população, corrobora-se a precisão de desenvolvimento interdisciplinar de 45 pesquisas acerca dos potenciais efeitos da maior crise sanitária da atualidade. Nesse quesito, Holmes et al., (2020) assinalam a necessidade de descoberta, análise e aprimoramento das interposições que tratem dos enfoques psicológicos e sociais do período pandêmico, estabelecendo a conexão entre disciplinas. Ainda nesse contexto, Brooks et al., (2020) descrevem que a condição pandêmica reflete em um alto predomínio de traços de sofrimento, bem como, de distúrbio psicológico, como o emocional, a depressão, o estresse, o humor rebaixado, a irritabilidade, a insônia, a raiva e a exaustão emocional. Mas como o cérebro lida com situações extremas? Como o cérebro se adapta a estressores crônicos? De acordo com Franco (2021), o cérebro configura-se para questões de sobrevivência a situações consideradas extremas, a saber: o estresse pandêmico, por exemplo. A resposta cerebral altera em função de diversos fatores, sendo o estresse e a resiliência. Assim, o estresse comumente associa-se a uma condição patológica. Contudo, é concernente a uma reação humana perante conjunturas ameaçadoras ou de demasiada demanda. A biologia do estresse não é somente um preceito emergencial estando mais para uma técnica contínua, tendo em vista que o corpo e o cérebro se adaptam às vivências do dia a dia, sejam elas estressantes ou não. O Instituto Espanhol de Resiliência estabelece o termo resiliência como a capacidade de o ser humano enfrentar as questões de adversidades e a neurociência pondera que os seres humanos mais resilientes possuem um maior equilíbrio emocional perante condições de estresse. Isso permite a essas pessoas uma percepção de controle acerca dos acontecimentos, bem como, uma habilidade maior de enfrentamento. 4.3 NEUROCIÊNCIAS De acordo com Bastoszeck (2009), neurociência é uma especialidade contemporânea unificando neurologia, psicologia e biologia. Recentemente, muitos enfoques no âmbito da fisiologia, da bioquímica, da farmacologia e da composição do sistema nervoso de invertebrados e o cérebro de vertebrados foram esclarecidos. Importantes pesquisas sobre a atribuição da percepção, das emoções, da aprendizagem e da memória despontaram avanços expressivos, principalmente seguindo abordagens relativas à 46 neurociência cognitiva. Macedo et al.; (2023) estabelecem que neurociência, ou a forma no plural, neurociências abarca um amplo leque de informações e disciplinas destinadas à compreensão do cérebro, a saber: a neuroanatomia, a neuroquímica, a neuroendocrinologia, a neurogenética, a neuroimagiologia, a neuroquímica, a neuroendocrinologia, a neurogenética, a neuroimagiologia, a neuroimunologia, a neuropatologia, a neurofarmacologia, a neurofísica, a neurofisiologia, a neuropsicologia e uma variedade de neurociências de cunho clínico, como por exemplo, a neurologia, a psiquiatria, a neurocirurgia, etc. 4.3.1 Bases neurobiológicas do estresse, ansiedade e depressão De acordo com Lebel et al., (2008), Cunha (2009) e Hermann et al., (2021), alcançar uma abrangência das bases neurobiológicas do estresse na conjuntura da pandemia da covid-19 é de fundamental importância. Nesse contexto, um fator crucial a ser ponderado corresponde à relação que se dá entre o funcionamento do cérebro e o estresse, primordialmente no decorrer dos estágios denominados dinâmicos de desenvolvimento do cérebro no período da infância. Assim, o cérebro em desenvolvimento passa por transformações expressivas na atividade de diversas regiões cerebrais como parte do procedimento de maturação. Essa etapa difícil do desenvolvimento é caracterizada pela maturação cerebral dinâmica, abarcando a instauração de conexões neurais, processamento de informações e colaborando para o desenvolvimento da criança no âmbito intelectual, emocional e social. Logo, as pessoas que correspondem a essas etapas de desenvolvimento são passíveis às consequências do estresse. Nesse caminho, a interação correspondente entre a maturação cerebral infantil e o estresse no cenário pandêmico proporciona um campo de investigação completo e multifacetado e que faz jus a um aprofundamento abarcante, conforme assinala Gomes et al., (2023). Cosenza e Guerra (2011), Domingues (2007) e Oliveira e Lent (2018), esclarecem que o neurodesenvolvimento corresponde a um procedimento demorado e dinâmico que se expandem em fases associadas a faixas etárias, ainda que não aconteça totalmente ao mesmo tempo ou mantendo a mesma configuração em decorrência de fatores biológicos individuais e estímulo do ambiente.Os estímulos experienciados 47 pelas crianças, abrangendo vivências afetivas, cognitivas, sociais e físicas cumprem um efeito intenso no que concerne ao aprendizado, pensamento e comportamento. Por conseguinte, a exposição precoce a acontecimentos caracterizados como estressantes torna-se uma influencia expressiva no desenvolvimento cerebral. Assim, a pandemia da covid-19 proporcionou demasiados riscos para as crianças, tendo em vista que elas são singularmente vulneráveis aos seus efeitos na saúde mental, bem-estar físico, desenvolvimento social, bem como, seu percurso geral de saúde. Oliveira (2010) alerta que crianças e adolescentes que viveram Experiências de Estresse Precoce - EEP manifestaram atividade cognitiva agravada. Pesquisas de neuroimagem mostraram variações expressivas nos campos correspondentes aos hipocampos, corpo caloso, córtex pré-frontal e córtex cingulado anterior. Estas variações também surgiram como complicações nas partes intelectuais de linguagem, de atenção, funcionamento executivo e outros desempenhos cognitivos. Ademais, a experiência de EEP tem efeitos contínuos no que tange a variações de comportamento e psiquiátricas, que são capazes de comprometer o desenvolvimento mental e social dessas crianças e adolescentes. Isso acontece porque segundo os estudos de McEwen (2008), Charmandari et al., (2003) e Graeff (2007), o estresse crônico conduz à ativação prolongada do sistema nervoso autônomo e do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal - HPA, que irrompe em um conjunto de procedimentos neurobiológicos e neuroquímicos, tais como a liberação de adrenalina e cortisol. Essas ocorrências são passiveis de acarretar variações imutáveis na composição e no desenvolvimento cerebral, se mantidas por um grande período, podendo ampliar o risco de estender problemas de cognição. Do ponto de vista pedagógico, o estresse exerce um impacto significativo na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo das crianças, afetando tanto a capacidade de processar novas informações quanto a de reter conhecimento a longo prazo. Estudos demonstram que a exposição prolongada ao estresse, especialmente nos estágios iniciais da vida, pode levar a alterações estruturais e funcionais em regiões do cérebro cruciais para a aprendizagem, como o hipocampo, a amígdala e o córtex pré-frontal. Essas alterações podem comprometer a memória, a atenção e a capacidade de regulação emocional, elementos fundamentais para um desempenho acadêmico satisfatório. Pesquisas indicam que ambientes estressantes, caracterizados por instabilidade, pressão ou ameaças, podem reduzir a neuroplasticidade e a neurogênese no hipocampo, 48 prejudicando assim a capacidade das crianças de aprender e formar novas memórias (Shonkoff & Garner, 2012; Lupien et al., 2009). Portanto, a compreensão dos efeitos do estresse no desenvolvimento cerebral infantil é essencial para o desenvolvimento de estratégias pedagógicas e intervenções psicoeducacionais que promovam ambientes de aprendizagem seguros e estimulantes, minimizando os impactos negativos do estresse na capacidade cognitiva e no bem-estar das crianças. Nos estudos de Costa (2016), tem-se que o desenvolvimento do córtex pré- frontal e de outras áreas do cérebro, são primordiais na vida da criança para que esta atinja seu bem-estar e equilíbrio mental em sua vida adulta. O cérebro da criança está adaptado, sobretudo, pelas vivências que transpassam as interações de cunho social. De outro modo, emoções, como por exemplo, o medo e o estresse podem apresentar um efeito negativo a médio e longo prazo ao se tornarem regulares na fase da infância. Dessa forma, para certificar que as crianças tenham um desenvolvimento saudável é fundamental o acesso a vivências de formação e enriquecimento em seus primeiros anos de vida. Matos (2017) e Silva (2020) estabelecem que no estresse crônico que é gerado devido a constante exposição a estímulos estressantes ou em falha na adequação, há variações nas denominadas réplicas químicas da estrutura física e em seu equilíbrio normal no que concerne ao funcionamento. Os níveis de hormônios, a saber: cortisol, adrenalina e noradrenalina ficam irregulares, isto é, desregulados, o que afetam a proteção natural do organismo. Essas alterações de ordem química resultam em um aumento dos níveis de açúcar no sangue que se assemelha a diabetes, ao comprometimento da insulina e ao prolongamento do envelhecimento. Ocorre ainda uma implicação direta no desempenho cognitivo, como por exemplo, a memória e a concentração e até mesmo imprecisões na área cerebral que responde pela tomada de decisões, como o hipocampo, a amígdala, o núcleo accumbens, áreas visuais e pré- frontais. Os estudos de Silva (2020) sugerem que o estresse crônico manifesta impactos expressivos sobre as funções cognitivas e emocionais nas pessoas, o que demanda, por conseguinte, uma atenção que seja mais particularizada no que concerne a consultas médicas, psicológicas e neuropsicológicas. Os sintomas no indivíduo podem variar e inclui problemas relacionados à insônia, fadiga e alterações de humor. Dessa forma, Benzoni (2021) reforça acerca da necessidade da realização de pesquisas mais profundas sobre a temática do impacto que o estresse crônico desencadeia no 49 funcionamento cognitivo e emocional das pessoas e seus potenciais efeitos a longo prazo. Vismari (2008) pondera que as bases biológicas que correspondem a transtornos depressivos têm sido apresentadas através da hipótese monoaminérgica da depressão, por mais de três décadas. Essa hipótese sugere que a depressão seja resultado de uma disponibilidade menor no que tange a aminas biogênicas cerebrais, particularmente de serotonina, noradrenalina e/ou dopamina. Nesse mesmo contexto, Norris (2021) estabelece que a teoria monoaminérgica da depressão implica a diminuição dos níveis dos neurotransmissores na fenda sináptica, seja pela diminuição da liberação pré- sináptica ou pela diminuição da sensibilidade pós-sináptica, como o processo patológico fundamental na depressão. De acordo com Oliveira et al., (2021), o transportador de dopamina - DAT, proteína existente na membrana celular dos neurônios, tem como papel primordial a regulação dos níveis de dopamina através da recaptação extracelular do neurotransmissor para o interior do neurônio pré-sináptico. E sobre o sistema mesolímbico, temos a atuação da dopamina que caracteriza a impressão de prazer nas pessoas. Nesse âmbito, Rosa (2016) afirma que a depressão está relacionada a uma deficiência de monoaminas (noradrenalina, serotonina e dopamina) na fenda sináptica e que o restabelecimento dessas está associado à melhora dos sintomas depressivos. De acordo com Rosa (2016), em uma pessoa saudável, neurotransmissores monoaminérgicos são liberados pelo neurônio pré-sináptico e podem se ligar a receptores específicos no neurônio pós-sináptico. Na teoria monoaminérgica da depressão há uma redução de monoaminas na fenda sináptica, no indivíduo deprimido. Fármacos antidepressivos restabelecem os níveis de monoaminas, como acontece, por exemplo, em casos de inibidores seletivos de recaptação de monoaminas, que promovem um aumento da concentração de neurotransmissores monoaminérgicos disponíveis nas sinapses, causando uma diminuição dos sintomas depressivos. Rosa (2016) esclarece que a teoria neurotrófica associa a diminuição do fator neurotrófico derivado do cérebro - BDNF, do inglês brain-derived neurothophic, ao estresse. Dessa forma, o aumento de cortisol provoca uma interferência na via de sinalização alterando o BDNF. Alterações desencadeiam a depressão, em que cérebros depressivos possuem baixos níveis de BDNF. O eixo hipotalâmico-hipófise-adrenal é ativado em situações em que o indivíduo está sob estresse crônico. O cortisol é o produto final do eixo hipotálamo e atual em resposta ao estresseno organismo. Este hormônio atua como um 50 regulador de feedback negativo no eixo hipotálamo e na hipófise. O cortisol também exerce uma função de feedback negativo no eixo hipotálamo através do hipocampo. A regulação do feedback negativo acontece por meio de um sistema duplo de receptores de mineralocorticoides e de glicocorticoides. Na depressão o eixo está desregulado e os mecanismos de feedback negativos são enfraquecidos. O cortisol favorece uma maior atividade da via glutamatérgica, que promove o estresse oxidativo, ou seja, a prevalência de radicais livres sobre os mecanismos oxidantes e estes radicais ao reagir com os neurônios, desencadeia apoptose. Segundo Costa (2018), a depressão é um distúrbio que pode ser desencadeado por muitos fatores. Rosa (2016) considera que a explicação mais aceita tem sido a de que no cérebro dos deprimidos haveria diminuição da produção de certos neurotransmissores. Baixos níveis de serotonina em áreas do cérebro seriam a causa da depressão. A hipótese monoaminérgica se tornou duvidosa e hoje as hipóteses vinculadas ao estresse são as mais aceitáveis devido ao cotidiano das pessoas que requer uma melhor administração junto a outros interesses, vínculos e compromissos, seja com a família, com responsabilidades econômicas e sociais, e quando há uma pressão nesses aspectos ocorre interferência na condição de saúde e doença. 4.3.2 Efeitos da pandemia no cérebro, neuroimagem e COVID-19 Uma pesquisa apresentada em Chicago – EUA revelou alterações cerebrais entre pacientes com covid longa. O estudo usou uma nova técnica de ressonância magnética que avalia microestrutura do cérebro. De acordo com a pesquisa, pessoas que apresentaram sintomas de covid longa têm padrões de alterações cerebrais que diferem da dos pacientes que se encontram totalmente recuperados e/ou dos que nunca tiveram diagnóstico confirmado da infecção. Segundo os autores da pesquisa que foi apresentada em reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte - RSNA, até aproximadamente 25% dos pacientes tem predisposição para o desenvolvimento de uma condição denominada “covid longa”, incluindo uma gama de sintomas, a saber: fadiga, dificuldade em concentrar-se, “névoa cerebral”, alterações no olfato e/ou paladar, dores nas articulações e/ou musculares, falta de ar, sintomas que envolvem o trato digestivo, entre outros sintomas. Os sintomas costumam ter a duração por 51 semanas, meses ou anos após o período da infecção, como demonstrado em outros estudos. De acordo com um estudo publicado em uma renomada revista científica denominada Cell (2023) há outra explanação para alguns casos de covid longa tendo como base para a proposta as descobertas de que os níveis de serotonina constavam estar mais baixos nas pessoas com a condição dos sintomas. A explicação para a redução dos níveis de serotonina se devem devido a resquícios do vírus que persistem na região do intestino, conforme explicação dos pesquisadores da Universidade da Pensilvânia. Essa diminuição da serotonina pode explicar principalmente sobre problemas de memória, bem como, alguns sintomas neurológicos e cognitivos da covid longa. Entretanto, a sustentação dessa condição ainda é considerada como mal compreendida, tendo em vista que a imagem de microestrutura por difusão - DMI, que consiste em uma nova técnica de ressonância magnética, pode ser vista como uma abordagem promissora em se tratando de avanços nessa área, conforme o estudo apresentado em Chicago. O DMI examina o movimento das moléculas de água nos tecidos e ao compreender a forma como as moléculas de água se movimentam em diversas direções e velocidades, pode fornecer informações precisas sobre a microestrutura cerebral. Um dos autores do estudo relatou que o procedimento pode detectar inclusive alterações muito pequenas na região cerebral, alterações essas não detectáveis por meio de exame convencional de ressonância magnética. Ainda sobre o estudo de Chicago (2023), os pesquisadores compararam exames de ressonância magnética da região do cérebro em três grupos, a saber: 89 pacientes com covid longa, 38 pacientes diagnosticados com covid e que não mencionaram sintomas subjetivos de longo prazo, e 46 pacientes completamente saudáveis, isto é, que não apresentaram histórico de infecção ao vírus da covid. Primeiramente foi comparada a macroestrutura cerebral nos três grupos com o objetivo de testar a atrofia, bem como, qualquer outra anormalidade presente. Após, os pesquisadores utilizaram o DMI com vistas à obtenção de uma visão mais aprofundada da área cerebral. Os três grupos de pacientes foram submetidos a analises de toda a área cerebral com o intuito de avaliar a distribuição espacial de eventuais alterações e associações com dados clínicos, incluindo sintomas da covid de longa duração, como por exemplo, a fadiga, comprometimento de cunho cognitivo ou da região do olfato. Os resultados dessas análises não demonstraram perda de volume do cérebro ou quaisquer outros tipos de 52 lesões que pudessem explicar os sintomas da covid longa. Entretanto, a infecção por covid induziu um padrão específico de alterações microestruturais em diversas regiões cerebrais, e esse padrão específico divergiu dos pacientes que tiveram covid de longa duração e aqueles que não manifestaram nenhum sintoma da doença. Segundo os pesquisadores, este estudo permitiu uma visão in vivo acerca do impacto da covid no cérebro dos indivíduos. 4.3.3 Implicações das neurociências para intervenções terapêuticas Baldissera (2021) esclarece que o Diretor Executivo - Chief Executive Officer – CEO da Salesforce, Marc Benioff, o cofundador do Twitter, Jack Dorsey e o cofundador da Google, Sergey Brin possuem algo em comum além de terem transformado o universo da tecnologia e esse fato que os liga diz respeito à prática de mindfulness em suas vidas diárias. Essa prática exige deles uma rotina de dedicação, concentração e silêncio tendo em vista que o mindfulness se caracteriza pelo estado mental de atenção plena. Pessoas ao redor do mundo, além desses grandes empreendedores, tentam incluir a meditação e a prática de exercícios de respiração em suas rotinas tendo em mente os benefícios que o mindfulness proporciona em suas vidas, como o aumento da produtividade e a forma de lidar com situações de estresse. Os benefícios do mindfulness já são evidenciados pela esfera multidisciplinar que pesquisa o cérebro humano, a saber: a neurociência. Assim, conforme Baldissera (2021) mindfulness por ser um estado mental se caracteriza pela atenção plena nas tarefas que estão sendo desempenhadas no momento presente. Deste modo, todos os sentidos são ativados para vivenciar esse instante de maneira intencional e consciente. Logo, pensamentos e sentimentos não precisam, necessariamente, serem negligenciados nesse processo, pois necessitam ser experimentados conforme ocorrem, sem qualquer juízo de valor, isto é, a atenção plena não requer o esvaziamento total da mente. Mindfulness, de acordo com Germer et al., (2016), versa-se meramente de ter consciência de onde a mente está de um instante para o outro, com terno assentimento. Esse modo de atenção absoluta pode ter uma implicação intensamente transformadora perante nossas vidas cotidianas. Assim, podemos nos instruir acerca da contemplação de coisas comuns, como o paladar de uma 53 fruta, ou a suportar amplos obstáculos, como por exemplo, a morte de um familiar quando aprendemos a ter consciência (mindful). Mindfulness, segundo Germer et al., (2016) é ainda considerado como uma espécie de fonte renovável de vigor e prazer podendo ser prontamente sentido por qualquer indivíduo, entretanto, não é possível sua descrição da mesma forma, tendo em vista que a consciência atenta é, sobretudo, uma consciência experimental e não verbal, a saber: sensorial,somática, intuitiva e emocional, e seu progresso demanda certo treino. Dessa forma, como qualquer aptidão adquirida, a vivência de mindfulness fica mais sólida a partir da prática. Baldissera (2021) exemplifica que a prática para manter- se no estado mental de atenção plena se assemelha a prática de atividade física em que é necessário treino constante e cultivar uma rotina para que os efeitos de tal prática sejam notados. Mindfulness, conforme Germer et al., (2016), caracteriza-se por ser uma oportunidade de estar inteiramente vivo, atento às nossas vidas. É uma maneira de nos pautarmos a toda vivência, seja ela de cunho positivo, negativo ou neutro para que a nossa dor, bem como, o nosso sofrimento seja suavizado aumentando assim a nossa sensação de bem-estar. Estar consciente (mindful) é estar desperto, distinguir o que ocorre no tempo atual com uma posição amistosa. A atenção total, de forma plena, (mindfulness) foca nossa atenção no que está sendo realizado no momento. Quando ficamos conscientes, nossa atenção não fica implicada no tempo passado ou no tempo futuro, pois, estamos presentes de forma integral, total e essa forma de atenção pode produzir energia, lucidez mental e contentamento. Além disso, é uma aptidão que pode ser desenvolvida por qualquer ser humano. Germer et al., (2016) pondera que mindfulness constitui-se como uma tradução para o inglês do vocábulo sati em pali. Há 2,5 mil anos o pali era descrito como a língua referente à psicologia budista, e o termo mindfulness é o preceito principal dessa tradição. A palavra sati indica estar vigilante, isto é, atento (awareness), atenção, lembrar. O que significa estar atento (awareness)? Brown e Ryan (2003) apud Germer et al., (2016) esclarecem percepção e atenção em conformidade com a consciência, a saber: Consciência envolve tanto estar atento como atenção. Estar atento (awareness) é o “radar” de segundo plano da consciência, 54 continuamente monitorando os ambientes interno e externo. Pode-se ter a percepção de estímulos sem que eles estejam no centro da atenção. Atenção é o processo de focar estando atento, consciente, fornecendo sensibilidade aumentada a uma variedade limitada de experiências (Westen, 1999). Na realidade, estar atento e atenção estão interligados, de modo que a atenção continuamente arranca “vultos” da “terra” do estado de alerta, mantendo-os em foco por períodos de tempo variáveis (p.822). A busca pela atenção plena é uma prática milenar que além de ter inspiração no budismo tem também no taoísmo. Jon Kabat-Zinn, biólogo americano, foi o responsável por trazer o mindfulness para o Ocidente, em 1979. O biólogo pesquisou o mindfulness e iniciou um programa de redução de estresse intitulado Mindfulness-Based Stress Reduction -MBSR, na faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, Estados Unidos. O MBSR foi precursor ao apontar para a melhoria na qualidade de vida em decorrência da prática de atenção plena. O programa que visa a redução do estresse se compõe de 8 aulas com duração de 2h30 sendo dispostas no decorrer de 8 semanas. Técnicas como respiração, escaneamento corporal, caminhada e movimentos com atenção plena são ensinados nas aulas. Assim, o participante é incentivado a dedicar-se pelo tempo de 45 minutos do seu dia a prática de exercícios de mindfulness após a conclusão do programa MBSR, segundo Baldissera (2021). A autora explica que esse programa MBSR é o mais conhecido no que concerne à aplicação de mindfulness, porém, há outros tipos de protocolos sob a indicação de diversos profissionais da saúde mental como psicólogos e psiquiatras e atualmente o mindfulness auxilia na complementação de tratamentos referentes a transtornos mentais como a depressão e a ansiedade generalizada, tendo em vista os benefícios inerentes á prática, bem como, no manejo de problemas do cotidiano das pessoas. As eficácias do mindfulness no campo da saúde mental estimularam o interesse de cientistas há alguns anos e, de acordo com dados da Associação Americana de Pesquisa em Mindfulness - AMRA, as publicações de cunho científico acerca dessa temática atingiram o quantitativo de 12 no ano de 2000 para 624 no ano de 2015 e para compreender esses efeitos da prática de mindfulness, os pesquisadores empregaram como recursos exames de neuroimagem, escalas psicológicas além de avaliações neurobiológicas. No âmbito dessas publicações cientificas, uma teve potencial destaque e trata-se e uma revisão sistemática em que cientistas da Universidade John Hopkins efetuaram uma meta- análise que corresponde a uma analise de cunho estatístico dos resultados de dois ou 55 mais estudos independentes, de 17. 801 citações e 47 testes com 3.320 participantes no ano de 2015. O objetivo era compreender se, verdadeiramente, os programas que se fundamentam na prática da meditação contribuíam para amenizar o estresse, como também, a promoção de bem-estar. Como resultado, mostras moderadas de diminuição de depressão, ansiedade e dor foram descobertas nas pesquisas e, com isso, os pesquisadores advertiram para a necessidade de mais pesquisas sobre a prática de mindfulness. Todavia, a neurociência já consegue elucidar como o mindfulness pode afetar o cérebro do ser humano. A neurociência, conforme Baldissera (2021) esclarece sobre os benefícios do mindfulness tendo como base a observação de quais regiões do cérebro humano são acionadas com a técnica. O córtex pré-frontal é fracionado em três aglomerados de disposições cognitivas que são capazes de ser acionadas no decurso da prática de exercícios de atenção plena. Na tabela de Baldissera (2021), adaptada a seguir, podemos exemplificar esse panorama, Tabela 3 Regiões cerebrais Rede default (ou rede de modo padrão) rede cerebral ativada quando estamos em estado de divagação mental, ou seja, quando estamos “viajando”. Ela entra em ação quando pensamos em outras pessoas, em nós mesmos ou em situações do passado. Também é ativada quando planejamos o futuro. Saliência rede ativada quando direcionamos o pensamento para uma ação. Rede central executiva rede cerebral ativada quando uma tarefa é executada. Baldissera, 2021 (adaptada) O cérebro humano, de acordo com Baldissera (2021) é capaz de se intercalar entre aglomerados de forma contínua. No decorrer da prática de mindfulness, há uma diminuição nas atividades que compõem a rede central, já que permanecemos focados no momento presente. Nesse contexto, as amígdalas cerebrais também exteriorizam uma 56 atividade considerada de menor potencial, o que restringe a força das emoções de neurotransmissores que visam a potencializar a impressão de bem-estar, como indicado na tabela de Baldissera (2021), adaptada, a seguir: Tabela 4 Neurotransmissores Ácido gama-aminobutírico (GABA) conhecido pelo efeito calmante no cérebro Dopamina associado ao prazer Serotonina ligada à regulação do humor Endorfina que tem um efeito analgésico natural no corpo Baldissera (2021) adaptada Baldissera (2021) ainda esclarece que o mindfulness também é responsável pela diminuição dos níveis de cortisol que se caracteriza pelo hormônio com a função de conter o estresse do corpo humano. Essa redução traz melhorias na qualidade do sono e retarda a ação de envelhecimento celular, como também exerce grande efeito na resposta imunológica, nos procedimentos inflamatórios e na configuração do tecido cerebral. O crescimento na quantidade de neurônios de certas regiões do órgão também se fundamenta como outro indício dos impactos do mindfulness no cérebro humano. Esse resultado se dá por meio de pesquisadores da Universidade de Harvard que ao acompanhar 17 participantes do programa de MBSR, notaram que houve uma elevação da massa cinzenta na região do córtex cingulado posterior, na junção temporoparietal e no cerebelo. Estas áreas estão relacionadasà habilidade de aprendizado, memória, regulamentação dos níveis de emoção, encadeamento autorreferencial e acolhimento de novas probabilidades. Assim, isso ocorre devido à neuroplasticidade do cérebro, isto é, à disposição do sistema nervoso de se alterar, de se adaptar e afeiçoar no decorrer da vida de uma pessoa, em níveis de cunho estrutural e funcional. O mindfulness deve ser entendido como um colaborador nas intervenções que tratam de transtornos mentais, no auxílio de doenças crônicas, como a diabetes e a hipertensão e de dores agudas. Dessa forma, não deve ser compreendido como uma cura, como uma resposta para todas as doenças. 57 Segundo Cardoso (2011), as psicoterapias comportamentais, bem como, os tratamentos com fitoterápicos e a prática de exercícios físicos vem apresentando resultados eficientes na modificação do comportamento de indivíduos com diagnósticos de depressão. A pessoa com depressão tende a apresentar redução na frequência de comportamentos positivamente reforçados, as atividades prazerosas, e aumento, de forma concomitante de comportamentos de fuga e esquiva de situações aversivas. Filho et al., (2014) estabelecem que a prática de exercício afeta o desempenho cognitivo e de forma aguda, há uma especulação de que os efeitos dos exercícios sobre a resposta cognitiva sejam mediados por aumentos no fluxo sanguíneo do cérebro e, por consequência, no aporte de nutrientes, ou por um aumento na atividade de neurotransmissores. Santos e Nascimento (2023) pesquisaram acerca dos benefícios da prática de atividade física para pessoas com diagnóstico de depressão analisando as possibilidades que a Educação Física pode apresentar para que essa doença seja evitada reforçando que os exercícios beneficiam o desenvolvimento corporal, bem como, da saúde mental dos indivíduos. Estudos concernentes a essa temática recomendam que a atividade física colabora no tratamento e na prevenção da depressão e fatores como a liberação de hormônios e, principalmente, a socialização com outras pessoas são classificados como pontos adequados para o sucesso do tratamento e prevenção da depressão, doença essa que afeta e tira a vida de milhões de pessoas ao redor do globo. Há fatores que são capazes de minimizar os efeitos da depressão e um deles corresponde à prática regular de atividade física auxiliando na prevenção, bem como, em seu combate. Para que essa prática de atividade física tenha um excelente efeito terapêutico é fundamental que os exercícios sejam sempre acompanhados de um profissional credenciado para esta finalidade. Assim, Da Silva Oliveira (2014) ressalta que: A atividade física pode influenciar de duas maneiras na depressão, com valor preventivo (é utilizada como proteção contra o desenvolvimento de sintomas depressivos) e como “tratamento”, através dos mecanismos psicológicos e/ou biológicos. Entre os fatores psicológicos a atividade intervém na distração dos estímulos estressores, maior controle sobre seu corpo e sua vida e a interação social – proporcionada pelo convívio com outras pessoas. Já os fatores biológicos estão relacionados ao efeito da endorfina. A endorfina tem efeito 58 similar à morfina, que pode reduzir a sensação de dor e produzir um estado de euforia. A depressão também está relacionada a uma transmissão prejudicada em algumas sinapses aminérgicas centrais, por defeitos na produção, na transferência ou na perda de aminas. Há também a hipótese biológica que o exercício físico associado ao tratamento promove a melhora da alteração de uma ou de todas as monoaminas cerebrais (como exemplo a serotonina e noradrenalina), uma vez que essas substâncias são neurotransmissores (assim como a dopamina e a endorfina) e estão relacionadas respectivamente à satisfação, ao prazer, sono, humor, apetite, etc. (p.2). Outro exemplo de intervenção terapêutica refere-se à Terapia Cognitivo Comportamental - TCC que também pode ser relacionada a neurociências como uma intervenção terapêutica em estudantes que foram afetados psicologicamente pela pandemia da covid-19, além do mindfulness, como reportado acima e prática de exercícios físicos. Dados publicados por Cognitivo Blog enfatizam a relação entre a TCC e Neurociências revelando os principais enfoques relativos ao funcionamento do cérebro. Assim, a TCC é vista como fundamental no campo da psicologia ao ofertar ferramentas significativas na condução de inúmeros distúrbios psicológicos. As neurociências visam ao aprofundamento da compreensão cerebral, em como o cérebro pode impactar o comportamento humano e o bem-estar. Ao observar a conjuntura a esses dois campos, há a possibilidade de obter insights importantes acerca da complexidade da mente das pessoas. A TCC é uma abordagem terapêutica com foco na identificação, bem como, na modificação de padrões de pensamento e comportamento que são capazes de influenciar as emoções e consequentemente as ações. Assim, um estudante com ansiedade pode se beneficiar dessa abordagem terapêutica, com o auxílio do profissional psicólogo, para que este reconheça e altere pensamentos considerados negativos ao substituir essas percepções por outras que sejam mais realistas e menos nocivas, dessa forma, o estudante aprenderá a lidar melhor em situações que podem causar ansiedade. É uma prática direcionada, breve, com o predomínio de táticas que visam à mudança comportamental do sujeito. Oferece instrumentos reais e eficazes na assistência a pacientes que estejam enfrentando várias condições psicológicas que afetem o seu bem- estar. Seus fundamentos se estabelecem no autoconhecimento e na concepção de como os pensamentos, as emoções e os comportamentos estão conectados. Um dos princípios basilares dessa terapia é a de que pensamentos distorcidos podem desencadear emoções 59 e comportamentos desadaptativos e, por meio de técnicas, há a reestruturação cognitiva com a substituição de pensamentos negativos por pensamentos mais realistas e positivos com o objetivo de beneficiar a saúde emocional e comportamental dos indivíduos (COGNITIVO, 2023). A relação entre a TCC e as Neurociências é intensa e complementar, sendo a TCC com a mudança nos padrões de pensamento e comportamento impactando diretamente no cérebro e tendo o auxílio das Neurociências nesse âmbito. Estudos de neuroimagem dão conta de que a TCC desencadeia alterações na atividade cerebral no que tange ao processamento de emoções e a cognição. Assim, ao mudar os pensamentos e comportamentos, com o auxílio da intervenção da TCC, acontecem alterações neurobiológicas reais. Para os profissionais psicólogos, esta relação impulsiona a relevância em abordagens terapêuticas com base em evidências em particularmente em como essas abordagens podem afetar a mente humana e o cérebro de forma positiva e duradoura. A neuroplasticidade que compreende a capacidade de o cérebro se reorganizar em resposta a experiências, corresponde a uma ideia essencial na interseção entre a TCC e a Neurociências tendo em vista que quando há a alteração nos padrões de pensamento e comportamento, similarmente há mudanças na estrutura e função cerebral, exemplo vívido de neuroplasticidade e se um indivíduo exercita as práticas de enfrentamento para questões de ansiedade da TCC e de forma consistente, as novas maneiras de raciocinar e reagir são capazes de fortalecer os movimentos neurais integrados à regulação emocional e ao pensamento de cunho racional. Compreender o funcionamento da neuroplasticidade se faz essencial por reforçar a compreensão de que intervenções comportamentais e cognitivas causam um efeito fisiológico concreto e promove mudanças efetivas na saúde mental das pessoas (COGNITIVO, 2023). 4.3.4 Neurociências e educação De acordo com Lima (2020), a combinação da neurociência na educação objetiva avaliar as bases neurobiológicas do aprendizado, percebendo oprocessamento da aprendizagem nos estudantes. Compreende-se que nos últimos anos, tem havido um grande empenho de pesquisadores de diversas áreas na procura por entender a relação que há entre a neurociência e a aprendizagem. Dessa forma, o entendimento dessas 60 novas abordagens é relevante para que as práticas pedagógicas sejam repensadas com o intuito de desenvolver novas estratégias de ensino e aprendizagem relacionando os conhecimentos entre a neurociência e a educação. Os estudos em neurociências, segundo Guerra (2011), elucidam sobre a forma do processamento dos mecanismos cerebrais essenciais para a aprendizagem, em fundamento às práticas pedagógicas e as noções sobre como se dá o funcionamento cerebral. Assim, é fundamental a compreensão de que: As neurociências são ciências naturais, que descobrem os princípios da estrutura e do funcionamento neurais, proporcionando compreensão dos fenômenos observados. A Educação tem outra natureza e sua finalidade é criar condições (estratégias pedagógicas, ambiente favorável, infraestrutura material e recursos humanos) que atendam a um objetivo específico, por exemplo, o desenvolvimento de competências pelo aprendiz, num contexto particular. A educação não é investigada e explicada da mesma forma que a neurotransmissão. Ela não é regulada apenas por leis físicas, mas também por aspectos humanos que incluem sala de aula, dinâmica do processo ensino-aprendizagem, escola, família, comunidade, políticas públicas. Descobertas em neurociências não se aplicam direta e imediatamente na escola. A aplicação desse conhecimento no contexto educacional tem limitações. As neurociências podem informar a educação, mas não explicá-la ou fornecer prescrições, receitas que garantam resultados. Teorias psicológicas baseadas nos mecanismos cerebrais envolvidos na aprendizagem podem inspirar objetivos e estratégias educacionais. O trabalho do educador pode ser mais significativo e eficiente se ele conhece o funcionamento cerebral, o que lhe possibilita desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais adequadas (GUERRA, 2011, p.3). Assim, Bastoszeck (2009) esclarece que a pesquisa no campo das neurociências fornecem elementos que guiam as estratégias educacionais incumbindo aos educadores o entendimento acerca de como se processa a disposição do cérebro, seus desempenhos, os períodos receptivos, as estruturas da memória, linguagem, atenção, emoções, bem como, as potencialidades inerentes ao sistema nervoso central. Entender neurociências pode facilitar o desenvolvimento do trabalho docente, porém, requer ferramentas e meios e atualmente há inúmeros questionamentos que ainda não foram esclarecidos pelo campo das neurociências, tendo em vista que as pesquisas entre educação e neurociências são precoces. 61 É essencial enfatizar acerca dos impactos da covid-19 nas escolas. Em Souto et al., (2021), tem-se que no Brasil, cerca de 50 milhões de estudantes foram afetados em sua aprendizagem, o que pode acarretar sérios gaps, isto é, lacunas nos campos social e acadêmico cujas consequências ainda estão por ser evidenciadas. O ambiente escolar é mais do que um lugar de aquisição de informações, é também um local para estimular o desenvolvimento de relacionamentos interpessoais e aptidões socioemocionais. Para os estudantes que são considerados mais vulneráveis, as escolas também proporcionam amparo no que se refere à alimentação saudável e segurança. A principal causa provocada pela pandemia foi à necessidade de isolamento social que afetou diretamente as condições sociais causadas pelo estresse. Com base nos estudos de Souto et al., (2021), as implicações para a saúde mental podem se tornar piores quando ocorre um período maior de isolamento, bem como, de afastamento do convívio social e nisso abarca-se o desenvolvimento de transtornos de ordem psíquica. Dessa forma, a pandemia da covid-19 expõe particularidades em grande proporção, que decorreram em um acréscimo na quantidade de crianças e adolescentes que vivenciam o transtorno de estresse durante e pós-pandemia, além de diminuir a quantidade de vida e predispor a complicações no desenvolvimento e na parte cognitiva. Dessa forma, é primordial a discussão de estratégias que permitam apoiar a saúde mental dos estudantes no contexto escolar nesse período pós-pandêmico. Há algumas posturas que uma instituição escolar pode fazer para oferecer uma melhora na saúde mental dos estudantes, a saber: trabalhar a temática da saúde mental no contexto escolar. O tema saúde mental é um desafio a ser vencido, pois, considera-se ainda ser um tabu por algumas pessoas na comunidade, mas, aos poucos essa mentalidade vem sendo desconstruída e essa temática vem sendo discutida na sociedade. A saúde mental pode ser trabalhada no contexto das salas de aula e por meio de atividades especiais. Convém a capacitação dos profissionais, como os docentes que atuam diretamente com os estudantes e a gestão escolar. Propiciar um ambiente escolar acolhedor e inclusivo, tendo uma equipe de profissionais especializados na área, como psicólogos, para fornecer um suporte quando necessário, ter uma comunicação efetiva com os pais e/ou responsáveis em prol de auxiliar a criança e o adolescente de forma mais precisa e incentivar os estudantes, bem como, os pais a buscarem ajuda externa, ou seja, de um profissional especializado, preparado para lidar com questões inerentes à saúde mental (LANGE, 2023). 62 5. METODOLOGIA 5.1 Tipo de Pesquisa A pesquisa é de natureza quantitativa com cunho descritivo e qualitativa. Segundo Hair et al., (2005), pesquisas descritivas objetivam descrever características de determinado fenômeno ou a relação entre variáveis. Este estudo é estruturado em torno da aplicação da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse - DASS-21 (Lovibond & Lovibond, 1995), uma ferramenta amplamente aceita e utilizada para medir a saúde mental e da Escala Generalized Anxiety Disorder-7 - GAD-7, considerada como um dos instrumentos mais utilizados para a identificação do TAG no mundo, de acordo com Ahn et al., (2019), Alghadir et al., (2020); Lee & Kim, (2019); Pagán-Torres et al., (2020). A investigação desse estudo também se alicerça em teorias e pesquisas em neurociências (Pessoa, 2013; Davidson & McEwen, 2012) para compreender melhor os mecanismos neurais por trás da depressão, ansiedade e estresse. As neurociências fornecem um quadro robusto para interpretar as respostas dos estudantes às Escalas DASS-21 e GAD-7 para entender como a pandemia da covid-19 pode ter afetado esses aspectos da saúde mental. 5.2 Participantes Considerando a natureza desta pesquisa, os participantes desse estudo são estudantes da educação básica do DF e que correspondem à faixa etária de 11 a 17 anos. Foi realizada uma amostra estratificada com o intuito de garantir a representatividade de diferentes faixas etárias, séries e tipos de escola, se públicas ou privadas. O número de estudantes participantes corresponde a uma amostra de 72 estudantes que cursam o Ensino Fundamental II e/ou Ensino Médio. O quantitativo coletado engloba estudantes do sexo feminino e masculino, mas, não foi estabelecido o critério de identificá-los, abrange estudantes de diferentes faixas etárias, bem como, séries e os tipos de escolas em que estão matriculados na rede pública de ensino e na rede particular tendo em vista que nesta escola pública no DF, há estudantes tanto de escolas públicas quanto de escolas particulares, devido ao sistema de ingresso destes estudantes. 63 A participação dos estudantes no estudo foi voluntária e todos os estudantes e seus responsáveis foram devidamente informados sobre os propósitos da pesquisa, o anonimato e a confidencialidade das respostas por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE e Termo de Assentimento Livre e Esclarecido - TALE,concordando em participar da pesquisa antes do recebimento do link do Google Forms. Os termos TCLE e TALE foram enviados pela pesquisadora e psicóloga responsável Aurylene Gomes de Andrade em formato PDF juntamente com o link com as Escalas DASS-21 e GAD-7 aos professores da instituição educacional que reenviaram aos estudantes e seus responsáveis e também disponibilizado o link nos stories do Instagram da escola, após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa – CEP da Universidade Católica de Brasília – UCB. A forma disponibilizada do link do Google Forms, bem como, dos TCLE e TALE a estudantes e seus responsáveis foi alterada do modelo anterior devido ao prazo estabelecido pelo Comitê de Ética em Pesquisa para liberação da aprovação para a coleta de dados na instituição educacional, o que inviabilizou a coleta de dados de forma presencial devido à conclusão dos trabalhos escolares pelos professores da escola que estavam em realização de ajustes dos critérios de avaliação dos estudantes, reduzindo consideravelmente o fluxo de alunos nesse período de fim de ano letivo. Dessa forma, o envio dos documentos inerentes ao estudo não foi disponibilizado a todos os estudantes da instituição, pois, nem todos os professores utilizam como instrumento de trabalho para comunicação o aplicativo de WhatsApp. Assim, a quantidade de estudantes participantes na realização da coleta de dados foi alterada de 300 para 72. Os participantes foram convidados a participarem da pesquisa respondendo às Escalas DASS-21 e GAD-7, que avaliaram os níveis de depressão, ansiedade e estresse após o período da pandemia da covid-19. A análise dessas respostas proporcionou uma visão abrangente do impacto da pandemia da covid-19 no que tange à saúde mental dos estudantes. Os dados coletados dos estudantes participantes foram comparados e contrastados com os estudos disponíveis na literatura de neurociências, para fundamentar as discussões acerca dos mecanismos neurais que estão por trás dos impactos observados na saúde mental dos estudantes durante a pandemia. 64 5.2.1 Critérios de inclusão - Ser estudante da educação básica e que esteja cursando o Ensino Fundamental II e/ou Ensino Médio em escolas públicas ou particulares do Distrito Federal; - Os pais e/ou responsáveis terem realizado a leitura do TCLE e tendo consentido com que os (as) filhos (as) estudantes participem da pesquisa tendo em vista que a faixa etária predominante dos estudantes que cursam a educação básica é entre 11 a 17 anos; - O estudante participante ter realizado a leitura do TALE e consentido em participar da pesquisa, por ser menor de idade. 5.2.2 Critérios de exclusão - Estudantes de graduação, pós-graduação; - Estudantes matriculados em escolas de outros estados no Brasil; - Não completar todas as respostas dos itens das Escalas DASS-21 e GAD-7 para a coleta e análise dos dados. 5.3 Contexto O Brasil, segundo Souza & Santos (2019), em sua diversidade geográfica, cultural e socioeconômica, apresenta uma variedade de contextos educacionais em suas escolas, sejam públicas ou particulares. Este estudo, portanto, buscou abranger a totalidade desses contextos, considerando que a experiência dos estudantes durante a pandemia da covid-19 possa ter sido influenciada por uma multiplicidade de fatores contextuais. De acordo com o Institucional Data Senado (2022), a pandemia da covid-19 trouxe consigo uma mudança sem precedentes na educação brasileira. Escolas em todo o país foram fechadas, forçando uma transição abrupta para o ensino remoto. Nesse contexto, as telas se tornaram a principal plataforma de ensino e aprendizagem. Além das dificuldades pedagógicas e técnicas inerentes a essa transição, preocupações emergiram sobre o bem-estar e a saúde mental dos estudantes, uma vez que o isolamento social, a mudança da rotina e a ansiedade gerada pela pandemia podem afetar negativamente o estado mental dos alunos. 65 No DF esse cenário não foi diferente e os estudantes vivenciaram essa transição do ensino presencial para o remoto. A escolha da instituição educacional pública do DF em que a pesquisa foi desenvolvida se deve ao fato da possibilidade de reunir nesta Unidade Escolar – UE alunos que também estudam em outras unidades educacionais, a saber: instituições públicas e particulares e que cursam os níveis de Ensino Fundamental II e Ensino Médio, que correspondem à educação básica, no turno contrário ao turno de estudo nesta escola e de serem residentes em diversas localidades do DF e do entorno de Brasília, assim, averiguam-se questões acerca da diversidade geográfica, cultural e socioeconômica que estes estudantes estão inseridos. De acordo com o Conselho de Educação do DF, o Ensino Fundamental é oferecido em instituição pública ou particular, em jornada parcial, ampliada ou integral, sendo inspecionada por setor competente da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal - SEEDF e dividida nas fases que correspondem aos anos iniciais, do 10 ao 50 ano e aos anos finais, do 60 ao 90 ano, que compreendem ao escopo da educação básica juntamente com o Ensino Médio, etapa final e que tem a duração mínima de 3 (três) anos e 3.000 (três mil) horas de efetivo trabalho escolar, dividida em formação geral básica e parte diversificada. O Ensino Médio dividido em 3 (três) séries, também é oferecido em instituição educacional pública ou particular, em jornada parcial, ampliada ou integral, em semestre ou ano letivo e inspecionada por setor competente da SEEDF. Dessa forma, educação básica, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB – 9.394/96, estrutura-se por etapas e modalidades de ensino, englobando a Educação Infantil, o Ensino Fundamental obrigatório de 9 (nove) anos e o Ensino Médio. Há ainda, segundo o Conselho de Educação do DF, a modalidade Educação de Jovens e Adultos - EJA, destinados aos que não tiveram acesso à escolarização do Ensino Fundamental e do Ensino Médio na idade própria ou que nela não puderem permanecer, tendo como objetivo proporcionar a estes estudantes a oportunidade de cursar todas as etapas da educação básica. Assim, nesta escola pública do DF, há a possibilidade de ter entre os estudantes matriculados, os que cursam a educação básica em outras UEs públicas ou particulares do DF compreendendo aos anos finais, Ensino Médio e EJA e que estão na faixa etária entre 11 e 17 anos e/ou acima de 18 anos, no caso de estudantes de EJA. 66 Este estudo objetivou integrar a literatura existente que investigou, nesse contexto singular de pandemia, a extensão e a natureza dos impactos sobre a saúde mental dos estudantes, avaliados através da aplicação das Escalas DASS-21 e GAD-7. Este cenário de mudança repentina e incerteza, aliado às variáveis sociais, neurobiológicas, econômicas e culturais únicas do Brasil, fornece um contexto complexo e desafiador para a compreensão dos impactos da pandemia na saúde mental dos estudantes brasileiros. 5.4 Instrumentos 5.4.1 Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse - DASS-21 A pesquisa combinou o uso da Escala DASS-21 para avaliar o nível de estresse, depressão e ansiedade entre os estudantes da educação básica, e uma busca da literatura neurocientífica para elucidar os potenciais efeitos fisiológicos e anatômicos inerentes ao período da pós-pandemia da covid-19 no cérebro desses estudantes. A Escala DASS-21 (Depression, Anxiety and Stress Scale) é um instrumento reconhecido e amplamente utilizado que foi desenvolvido por Lovibond & Lovibond (1995). Esta escala permitiu a quantificação dos níveis relativos ao estresse, depressão e ansiedade nos estudantes que participaram da pesquisa, bem como, a correspondente correlação com o período pós-pandêmico. Com relação à análise do impacto fisiológico e anatômico da pandemia no cérebro dos estudantes, utilizamosartigos científicos já publicados em neurociências. Isto foi feito com base em trabalhos de autores como Porges (2011) e McEwen e Gianaros (2010), que discutiram o impacto do estresse crônico e dos fatores ambientais no desenvolvimento cerebral e na função cognitiva. Esta busca também incluiu a literatura que discute as possíveis intervenções e estratégias para mitigar os impactos na saúde mental dos estudantes pós-pandemia da covid-19, com base nas neurociências. A escolha da escala DASS-21 como um indicador Proxy para correlações fisiológicas e anatômicas é rigorosamente fundamentada na literatura científica. Estudos anteriores têm estabelecido ligações robustas dentre os estados emocionais avaliados pela escala DASS-21 e alterações neurobiológicas específicas (Thoma et al.; 2012). Por exemplo, sintomas de depressão têm sido associados a reduções na densidade da substância cinzenta de ansiedade em regiões como o córtex pré-frontal (Davidson et al.; 67 2002). Da mesma forma, sintomas de ansiedade têm sido ligados à hiperatividade na amígdala e outras regiões do sistema límbico (Etkin & Wager, 2007). É crucial entender que a função de Proxy da escala DASS-21 neste estudo é limitada exclusivamente à inferência de correlações fisiológicas e anatômicas potenciais. Para os estados emocionais de depressão e ansiedade, a escala foi utilizada em sua capacidade primária e direta de avaliação. Portanto, os dados gerados foram interpretados dentro desses parâmetros metodológicos claramente definidos. Para verificar os níveis de estresse, depressão e ansiedade no pós-pandemia, a escala DASS-21 foi utilizada com o intuito de coletar dados diretos dos estudantes. Essa Escala, validada para o contexto brasileiro (Vignola & Tucci, 2014), forneceu medidas quantitativas confiáveis dos níveis de estresse, depressão e ansiedade. Os resultados da escala DASS-21 foram então comparados e interpretados à luz da literatura existente em neurociências, especialmente aquelas que discutem os impactos fisiológicos e anatômicos de tais estados emocionais no cérebro. Por exemplo, o estresse crônico é conhecido por ter efeitos negativos sobre a estrutura e função do cérebro, particularmente nas áreas associadas à memória e aprendizagem (McEwen & Morrison, 2013). Para verificar as intervenções e estratégias para mitigar os impactos na saúde mental de estudantes pós-pandemia da covid-19, com base nas neurociências, após a avaliação dos níveis de estresse, depressão e ansiedade nos estudantes, foram propostas intervenções e estratégias para diminuir esses impactos. Para tanto, nos baseamos em estudos neurocientíficos pré-existentes que discutiram maneiras eficazes para lidar com esses problemas. Por exemplo, práticas como a regulação emocional, mindfulness, TCC, prática de atividade física, têm sido associados a uma melhor saúde mental e a alterações positivas na estrutura e função cerebral (Cardoso, 2011), (Davidson & McEwen, 2012), (Da Silva Oliveira, 2014), (Filho et al., 2014), (Baldissera, 2021), (Cognitivo, 2023), (Santos e Nascimento, 2023). Além disso, estratégias de aprendizagem baseadas em neurociências, como o ensino adaptativo, também são úteis para melhorar o bem-estar emocional dos estudantes (Schwabe & Wolf, 2013). 68 5.4.2 Generalized Anxiety Disorder-7 - GAD-7 A Generalized Anxiety Disorder-7 - GAD-7, (Transtorno de Ansiedade Generalizada), foi formada com base em critérios de transtorno de ansiedade contidas na quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-4 por Spitzer et al., (2006). Em Gonçalves (2019) e Moreno et al., (2016) temos a explicação de que essa escala constitui-se por ser uma ferramenta contendo um questionário de rastreio do Transtorno de Ansiedade Generalizada, de simples e rápida aplicação por profissionais de saúde e tem sido explicitada como uma medida válida para aferir os sintomas de ansiedade que foram vivenciados nas últimas duas semanas da aplicação da escala. Segundo Moreno et al., (2016), e Da Silva (2021), essa escala de medida, a GAD-7 corresponde a uma escala tipo likert, que é definida por ser um tipo de escala de resposta psicométrica utilizada usualmente em questionários, e é a escala mais empregada em pesquisas de opinião. Os estudantes participantes da pesquisa, ao responderem a um questionário com base nesta escala, explicitam seu nível de assentimento com uma afirmação. É composta por sete itens a serem respondidos com: “Nunca” (0), “Em vários dias” (1), “Em mais de metade dos dias” (2) ou “Em quase todos os dias” (3). A codificação quantitativa varia entre 0 a 3 e retrata a frequência dos sintomas de ansiedade que os estudantes participantes da pesquisa identificaram ao responder o questionário correspondente ao período da semana anterior à coleta desses dados. O escore total dos itens tem uma variação entre zero a 21 pontos e oferece uma perspectiva do nível geral de ansiedade, informando tanto acerca da média quanto da variabilidade entre os alunos. 5.5 Procedimento A coleta de dados para este estudo foi conduzida de forma totalmente on-line, utilizando a plataforma Google Forms. Os instrumentos de coleta de dados foram dois questionários, baseado nas escalas DASS-21 e GAD-7, sendo a GAD-7 adaptada para a pesquisa. A GAD-7 tem por objetivo de ser um instrumento de medida breve de autorrelato para avaliação de casos prováveis de TAG, de acordo com Spitzer et al., 69 (2006). Estes questionários serviram para avaliar os níveis de depressão, ansiedade e estresse dos estudantes. As respostas aos questionários só foram realizadas após todos os pais e/ou responsáveis dos participantes menores de idade terem realizado a leitura e explicitado a concordância ao TCLE e os estudantes participantes também terem realizado a leitura e concordância ao TALE. O procedimento de coleta de dados foi realizado em três etapas: 1. Preparação: Nesta etapa, os questionários foram elaborados e configurados no Google Forms. 2. Distribuição: Após a preparação dos questionários, a próxima etapa foi a distribuição do link do Google Forms e arquivos em PDF do TCLE e TALE para os professores da UE, pais/responsáveis e estudantes. Esta distribuição foi feita de maneira a alcançar uma amostra significativa de estudantes mesmo em período de conclusão dos trabalhos escolares por professores e estudantes e finalização do semestre letivo em curso. 3. Análise dos dados: Uma vez coletados, os dados foram exportados do Google Forms para um software de análise estatística para a análise dos dados. Nesta etapa, os níveis de depressão, ansiedade e estresse foram quantificados e analisados em relação ao período da pós-pandemia da covid-19. A coleta de dados on-line, como descrita acima, tem vantagens, incluindo a capacidade de alcançar uma ampla população de estudantes de maneira eficiente, a facilidade de análise dos dados coletados e a capacidade de minimizar erros na entrada de dados (Sue & Ritter, 2012). 5.6 Execução de busca na literatura Foi realizada uma busca em bases de dados como PubMed, Science Direct e Google School, utilizando palavras-chave como “COVID-19”, “depressão”, “educação básica”, “estudantes”, “ansiedade”, “estresse”, “neurociências” e “Brasil”. Foram incluídos estudos publicados nos últimos anos correspondentes ao período pandêmico e pós- pandemia, em português e inglês. 70 5.7 Aquisição dos dados Após a coleta dos dados por meio das escalas DASS-21 e GAD-7, buscamos na literatura neurocientífica, a partir dos resultados obtidos nas escalas, artigos para interpretar os achados dessa pesquisa. Na parte qualitativa da análise, por meio da literatura, identificamos os principais impactos relatados e como as circunstâncias específicas da pandemia influenciaram, a nível cerebral, esses estudantes. Além disso, aspotenciais estratégias e intervenções para mitigar os impactos na saúde mental dos estudantes pós-pandemia da covid-19. Na análise quantitativa, os dados coletados com o uso das escalas DASS-21e GAD- 7 foram analisados estatisticamente. Foi aplicada uma metodologia estatística adequada, que permitiu uma avaliação rigorosa e sistemática dos níveis de depressão, ansiedade e estresse entre os estudantes pós-pandemia da covid-19. O uso de técnicas estatísticas robustas e adequadas garantiu que as conclusões do estudo fossem baseadas em evidências sólidas, permitindo que a pesquisa contribuísse de maneira significativa para a compreensão dos efeitos da pandemia na saúde mental dos estudantes e para o desenvolvimento de estratégias eficazes de intervenções e apoio. Análise Estatística Para a análise estatística dos dados coletados através da escala DASS-21, foram empregues procedimentos que visam sintetizar as informações e identificar padrões significativos nos estados emocionais de depressão, ansiedade e estresse dos estudantes da educação básica no período pós-pandêmico. Também foi aplicada a escala GAD-7, adaptada com cinco itens com o objetivo de mensurar sintomas de ansiedade. A análise estatística foi realizada com o objetivo de reunir as informações coletadas e identificar padrões relevantes que refletem o estado de ansiedade dos estudantes. Um total de dados de 72 participantes (n-72) foi utilizado nessa pesquisa. Softwares para análise dos Dados A linguagem de programação escolhida foi Python®, devido à sua versatilidade e ampla adoção na comunidade científica para análises estatísticas e de dados. A versão utilizada foi a 3.8.10, que oferece suporte a uma vasta gama de bibliotecas úteis para a 71 manipulação e análise de dados. A biblioteca Pandas®, uma das principais ferramentas para análise e manipulação de dados em Python®, foi utilizada na versão 1.3.2. Pandas® proporcionam estruturas de dados de alto desempenho e ferramentas de análise, facilitando o trabalho com dados tabulares e séries temporais. Para a geração de gráficos, foi empregue a biblioteca Matplotlib® na versão 3.4.3. Matplotlib® é uma biblioteca de plotagem para a linguagem de programação Python que fornece uma API orientada a objetos para incorporar gráficos em aplicações. Complementando as funcionalidades de Matplotlib®, a biblioteca Seaborn® foi usada para criar gráficos estatísticos avançados. Na versão 0.11.2, Seaborn® oferece uma interface de alto nível para a construção de gráficos estatísticos atraentes e informativos. Conversão de Dados As respostas fornecidas pelos participantes na escala DASS-21, inicialmente em formato textual, foram convertidas em dados numéricos. Cada item da escala foi pontuado de 0 a 3, correspondendo à frequência ou intensidade com que os participantes experimentaram cada condição ao longo da semana anterior. Para a GAD-7, as respostas dos estudantes, inicialmente em formato textual, foram convertidas em dados numéricos de acordo com o seguinte critério: “Nunca” (0), “Em vários dias” (1), “Em mais de metade dos dias” (2) e “Em quase todos os dias” (3). Esta codificação quantitativa reflete a frequência dos sintomas de ansiedade relatados pelos estudantes durante a semana anterior à coleta de dados. Agrupamento dos Dados Na escala DASS-21, os itens foram agrupados em três subescalas correspondentes: Depressão, Ansiedade e Estresse. Os escores para cada subescala foram somados para obter um escore total para cada condição emocional, o que permitiu uma análise mais detalhada de cada estado. Na escala GAD-7, os dados foram tratados de forma agregada, com a soma das pontuações de cada item para compor um escore total de ansiedade. Esse método possibilita uma análise holística do nível de ansiedade, bem como, a comparação entre os diferentes sintomas avaliados pela escala. 72 Análise Descritiva Foram calculadas as estatísticas descritivas básicas para cada subescala, incluindo média, desvio padrão, mediana, mínimo, máximo e os quartis, que fornecem uma visão geral da distribuição dos escores. Visualização dos Dados Para ilustrar a distribuição dos escores, foram gerados para a escala DASS-21 histogramas e boxplots. Os histogramas ajudaram a entender a forma da distribuição dos escores, enquanto os boxplots forneceram uma visão clara da dispersão dos dados e da presença de potenciais outliers. Para a escala GAD-7, utilizou-se a visualização de dados por meio de gráficos de barras, mapas de calor e boxplots. Os gráficos de barras foram utilizados para representar a frequência de cada categoria de resposta por item. O mapa de calor da matriz de correlação foi empregue para visualizar a associação entre os itens da escala. Os boxplots ofereceram uma representação gráfica da distribuição dos escores para cada item, destacando a mediana e possíveis outliers. Teste de Normalidade Dada a importância da normalidade na seleção de testes estatísticos adequados, o teste de Shapiro-Wilk foi realizado para cada subescala a fim de avaliar a normalidade dos dados. Resultados da integra apresentados na sessão “teste de normalidade e Shapiro-Wilk”. Análise de Correlação No presente estudo, utilizamos a correlação de Spearman para examinar as relações entre as subescalas devido a não normalidade dos dados. Isso permitiu identificar a força e a direção das associações entre depressão, ansiedade e estresse. Análise de Cluster Para explorar a existência de grupos de estudantes com perfis emocionais semelhantes, foi realizada uma análise de cluster hierárquica. O dendograma resultante foi utilizado para visualizar como os participantes foram agrupados com base na semelhança de suas respostas. 73 Cada passo foi cuidadosamente executado para assegurar a integridade dos resultados e a validade das conclusões estatísticas tiradas deste estudo. 5.8 Aspectos Éticos Para a presente pesquisa, respeitando todos os preceitos éticos ao se tratar de um estudo que envolve seres humanos, foi contatado, por meio eletrônico, a saber: e-mail, o órgão da SEEDF, intitulado EAPE para fins de orientação e autorização sobre pesquisas na Rede Pública de Ensino do DF. Para tanto, foi enviado ao setor de documentação o Formulário de solicitação de autorização de pesquisa da EAPE, o projeto da pesquisa e uma carta da instituição, a saber: Universidade Católica de Brasília - UCB em que foi apresentada a pesquisadora responsável, bem como, os objetivos da pesquisa com a justificativa em desenvolver o estudo em escolas públicas do DF e com a devida assinatura do professor orientador da pesquisa. Dessa forma, foram observadas e respeitadas as orientações que legislam sobre as normas que dizem respeito ao acesso a informações e pesquisas com seres humanos, com base nas seguintes leis, Lei n0 12.527, de 18 de novembro de 2011 – Lei de Acesso à Informação - LAI; Lei n0 13.709, de 14 de agosto de 2018 – Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais - LGPD; Resolução n0 466/2012 – CNS – Fundamentos éticos e científicos para pesquisas com seres humanos. Além disso, a equipe gestora da instituição de ensino em que a coleta de dados foi realizada foi contatada e orientada, presencialmente, sobre a pesquisa e após a ciência e autorização desta, foi enviado por meio eletrônico, o termo de anuência com maiores esclarecimentos acerca dos objetivos, instrumentos, o tempo de aplicação dos procedimentos que visam à coleta de dados dos estudantes, bem como, a forma de aplicação e as datas previstas para início e término das escalas de medição, após aprovação do CEP da UCB. 5.8.1 Riscos e benefícios Este projeto possui os seguintes benefícios: busca de estratégias para proporcionar um melhor suporte ao estudante com redução dos riscos de adoecimento psíquico. Os resultados poderão orientar educadores, psicólogos, pais e formuladoresCOVID-19, depression, basic education, students, anxiety, stress, neurosciences, Brazil 8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1(A) – Histograma dos escores de Depressão – Distribuição dos escores de depressão entre os estudantes com a frequência dos escores no eixo vertical e a pontuação da Escala DASS-21 no eixo horizontal......................................................76 Figura 1(B) – Boxplot dos escores de Depressão – Dispersão dos escores de depressão, indicando a mediana, quartis e possíveis outliers........................................................76 Figura 2(A) – Histograma dos escores de Ansiedade – Distribuição frequência dos escores de ansiedade dos participantes, com os escores no eixo horizontal e a frequência no eixo vertical.............................................................................................................76 Figura 2(B) – Boxplot dos escores de Ansiedade – Mediana, quartis e outliers dos escores de ansiedade dos estudantes.............................................................................76 Figura 3(A) – Histograma dos escores de Estresse – Frequência dos escores de estresse dos estudantes, com os escores no eixo horizontal e a frequência no eixo vertical....77 Figura 3(B) – Boxplot dos escores de Estresse – Dispersão dos escores de estresse, incluindo a mediana, os quartis e outliers.....................................................................77 Figura 4 – Heatmap da Correlação de Spearman entre as Subescalas – Correlações entre as subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse, com os coeficientes de correlação coloridos de acordo com sua magnitude.......................................................................79 Figura 5 – Dendograma da Análise de Cluster Hierárquica – Mostra como os estudantes são agrupados com base na similaridade dos seus escores nas subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse.....................................................................................................80 Figura 6 – Gráfico de Barras para Frequência de Respostas – Frequência das respostas dos alunos para cada pergunta da escala GAD-7. Cada barra representa uma pergunta e é segmentada em quatro categorias de resposta: “Nunca”, “Em vários dias”, “Em mais de metade dos dias” e “Em quase todos os dias”. A altura de cada segmento reflete o número de alunos que selecionaram aquela opção, permitindo a visualização da prevalência de cada nível de resposta para os sintomas de ansiedade..........................83 9 Figura 7 – Mapa de Calor da Matriz de Correlação – Matriz de correlação entre as respostas das perguntas da Escala GAD-7. As cores variam de azul (correlação negativa ou fraca) a vermelho (correlação positiva forte), indicando a intensidade da relação entre as respostas de diferentes perguntas. Mapa utilizado para identificar padrões de sintomas que tendem a ocorrer simultaneamente..........................................................84 Figura 8 – Gráfico de Distribuição do Escore Total – Distribuição dos escores totais de ansiedade entre os alunos. Combinação de um histograma com uma curva de densidade, mostrando a frequência e a distribuição dos escores. A linha vertical vermelha representa a média dos escores, fornecendo uma referência para o nível médio de ansiedade no grupo estudado........................................................................................85 Figura 9 – Boxplots para Cada Pergunta – Distribuição das respostas para cada pergunta da Escala GAD-7. As caixas centrais indicam o intervalo interquartil, com a linha mediana destacada. Os ‘bigodes’ estendem-se para mostrar a variação nas respostas, e pontos isolados representam outliers, indicando respostas que se desviam significativamente na maioria......................................................................................86 10 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Sintomas das síndromes depressivas......................................................35 Tabela 2 – Critérios diagnósticos segundo o DSM-5 e a CID-11.;..........................39 Tabela 3 – Regiões cerebrais....................................................................................55 Tabela 4 – Neurotransmissores.................................................................................56 11 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AIDS – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Acquired Immunodeficiency Syndrome) AMRA – Associação Americana de Pesquisa em Mindfulness BDNF – Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (Brain Derived Neurothophic) CA – Cíngulo anterior CEO – Diretor Executivo (Chief Executive Officer) CEP – Comitê de Ética em Pesquisa CID-11 – Classificação Internacional de doenças e problemas relacionados à saúde CIDI – Composite International Diagnostic Interview CNS – Fundamentos éticos e científicos para pesquisas com seres humanos COVID-19 – Coronavírus – 2019 CPF – Córtex pré-frontal CRP – Conselho Regional de Psicologia DALY – Disability Adjusted Life Years DASS-21 – Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (Depression, Anxiety and Stress Scale) DAT – Transportador de Dopamina DF – Distrito Federal DMI – Imagem de Microestrutura por Difusão DSM-4 - Manual Diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder) 12 DSM-5 – Manual Diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder) EAPE – Subsecretaria de Formação Continuada dos Profissionais da Educação EEP – Experiências de Estresse Precoce EJA – Educação de Jovens e Adultos EUA – Estados Unidos GAD-7 – Generalized Anxiety Disorder-7 HPA – Eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal H1N1 – Influenza H5N1 – Influenza IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPUB – UFRJ – Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro LAI – Lei n0 12. 527, de 18 de novembro de 2011 – Lei de Acesso à Informação LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais MBSR – Mindfulness-Based Stress Reduction MEC – Ministério da Educação MERS – Síndrome Respiratória do Oriente Médio OMS – Organização Mundial da Saúde OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde PDF – Formato Portátil de Documento (Portable Document Format) PHQ-9 – Patient Health Questionnaire-9 RSNA – Sociedade Radiológica da América do Norte SARESP – Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo 13 SARS – Síndrome Respiratória Aguda Grave SARS-CoV-2 – Coronavírus 2 da Síndrome Respiratória Aguda Grave SBN – Sociedade Brasileira de Neurocirurgia SEEDF – Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizada TALE – Termo de Assentimento Livre e Esclarecido TCC – Teoria Cognitivo Comportamental TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UCB – Universidade Católica de Brasília UE – Unidade Educacional YLDs – Years lived with disabilities 14 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO.......................................................................................................16 2. HIPÓTESE...............................................................................................................20 3. OBJETIVOS............................................................................................................21 3.1 Objetivo Geral.....................................................................................................21 3.2 Objetivo Específicos............................................................................................21 4. REFERENCIAL TEÓRICO..................................................................................22 4.1 COVID-19...........................................................................................................22de políticas na criação de estratégias e intervenções mais eficazes para apoiar a saúde mental dos estudantes durante e após crises similares, e estima-se que este estudo envolva riscos mínimos aos participantes, quais sejam experimentação de desconforto 74 ou angústia incitados pelos temas tratados nos questionários, riscos de quebra de confidencialidade e privacidade e de aumento do tempo de tela dos estudantes participantes, que serão minimizados da seguinte forma: orientação, apoio psicológico, escuta psicológica, caso necessário, com a pesquisadora e psicóloga Aurylene Gomes de Andrade, CRP-01/24943 e o que mais for preciso para a recuperação do bem-estar mental, bem como, o sigilo dos dados dos estudantes participantes que foram enviados somente para o e-mail da pesquisadora responsável para que os dados fossem analisados no estudo. Os resultados da pesquisa serão divulgados na Instituição Universidade Católica de Brasília – UCB podendo ser publicados posteriormente, e ainda assim a identidade dos participantes será preservada. Os dados e materiais utilizados na pesquisa ficarão sob a guarda da pesquisadora. Os participantes poderão solicitar acesso aos resultados da pesquisa sempre que julgar necessário, por meio do e-mail e/ou contato telefônico da pesquisadora e psicóloga responsável pela pesquisa e que foram disponibilizados nos termos TCLE e TALE enviados aos estudantes, pais e/ou responsáveis e ao solicitar a produção de conhecimento como resultado do presente estudo, este será enviado em formato PDF por meio do e-mail do solicitante. 75 6. RESULTADOS Resultados DASS-21 Para cada subescala da DASS-21, as seguintes estatísticas foram calculadas baseadas no n=72. Depressão: Os escores variaram de 0 a 21, com uma média de 8.36 e um desvio padrão de 6.22. A mediana dos escores foi 8, e os quartis mostraram que 25% dos estudantes participantes tiveram escores de 3 ou menos, enquanto 75% tiveram escores de 14 ou menos. Ansiedade: A média dos escores foi de 8.60, com um desvio padrão de 5.99. Os escores variaram de 0 a 21, com uma mediana de 8,5. O primeiro quartil foi 4, indicando que 25% dos estudantes participantes tiveram escores de 4 ou menos, e o terceiro quartil foi 13,25, mostrando que 75% dos estudantes participantes tiveram escores abaixo de 13,25. Estresse: A média dos escores foi de 9,74, e o desvio padrão foi de 6.78. A pontuação variou do mínimo de 0 ao máximo de 21. A mediana foi 9, com 25% dos estudantes participantes obtendo escores de 4 ou menos, e 75% dos estudantes participantes obtendo escores de 16 ou menos. Os histogramas e boxplots gerados para cada subescala da DASS-21 – Depressão, Ansiedade e Estresse – proporcionaram insights, percepções valiosas sobre a distribuição dos escores de saúde mental dos estudantes participantes da educação básica no período pós-pandêmico. Teste de Normalidade: Shapiro-Wilk – DASS-21 Para avaliar a normalidade dos dados, foi aplicado o teste de Shapiro-Wilk. Os resultados foram os seguintes: Depressão: estatística de 0.937 e p-valor de 0.00137, indicando que os dados não seguem uma distribuição normal. Ansiedade: Estatística de 0.949 e p-valor de 0.00549, sugerindo uma distribuição não normal. 76 Estresse: Estatística de 0.931 e p-valor de 0.00070, confirmando a não normalidade dos dados. A falta de normalidade nos dados orientou a escolha de métodos estatísticos não paramétricos para as análises subsequentes, incluindo a correlação de Spearman e análises de cluster. Depressão O histograma dos escores de depressão revelou uma distribuição com uma leve assimetria à direita, indicando uma concentração de escores mais baixos, mas também, uma presença notável de escores mais elevados (figura 1A). O boxplot correspondente mostrou uma mediana próxima ao centro da Escala, com alguns outliers, indicando que, embora a maioria dos estudantes participantes tenha relatado níveis baixos a níveis moderados de depressão, um grupo menor experimentou níveis significativamente mais altos (figura 1B). Figura 1(A) Histograma dos escores de Depressão – A distribuição dos escores de depressão entre os estudantes participantes é mostrada, com a frequência dos escores no eixo vertical e a pontuação da Escala DASS-21 no eixo horizontal. (B) Boxplot dos escores de depressão – Este gráfico apresenta a dispersão dos escores de depressão, indicando a mediana, quartis e possíveis outliers. Ansiedade Similarmente, a distribuição dos escores de ansiedade, conforme ilustrado pelo histograma (figura 2A), também apresentou uma assimetria à direita. A mediana, como indicado pelo boxplot, estava ligeiramente acima do meio da escala, com uma faixa de interquartil mais ampla do que a observada para depressão (figura 2B). Isso sugere uma variação maior nos níveis de ansiedade entre os estudantes participantes, com alguns casos extremos, como evidenciado pelos outliers. 77 Figura 2(A) Histograma dos escores de Ansiedade – Ilustra a distribuição frequência dos escores de ansiedade dos participantes, com os escores no eixo horizontal e a frequência no eixo vertical. (B) Boxplot dos escores de Ansiedade – O boxplot destaca a mediana, os quartis e outliers dos escores de ansiedade dos estudantes participantes. Estresse Os escores de estresse mostraram um padrão de distribuição parecido, com um histograma também inclinado para a direita (figura 3A). O boxplot revelou uma dispersão de dados semelhantes à de ansiedade, com uma mediana mais alta e a presença de outliers (figura 3B). Isso indica que os níveis de estresse, embora variados, tendem a ser mais elevados entre os estudantes participantes do que os níveis de depressão. Figura 3(A) Histograma dos escores de Estresse – O histograma exibe a frequência dos escores de estresse dos estudantes participantes, com os escores no eixo horizontal e a frequência no eixo vertical. (B) Boxplot dos escores de Estresse – Esse gráfico mostra a dispersão dos escores de estresse, incluindo a mediana, os quartis e outliers. 78 Interpretação dos Gráficos A interpretação dos gráficos apresentados na nossa pesquisa sugere que, no geral, os estudantes apresentaram uma tendência a relatar níveis baixos a níveis moderados de depressão, ansiedade e estresse. No entanto, a presença de outliers e a variação observada nos boxplots indicam que um subconjunto de estudantes participantes experimentou níveis significativamente mais altos dessas condições. Isso aponta para a necessidade de uma atenção especial a essse estudantes, que podem estar enfrentando desafios mais sérios em relação a sua saúde mental. A comparação entre as três subescalas apresentadas sugere que, enquanto depressão e ansiedade apresentaram padrões de distribuição relativamente semelhantes, os escores de estresse mostraram uma tendência a serem mais elevados. Esta observação pode refletir o impacto cumulativo do estresse no ambiente pós-pandêmico sobre os estudantes, possivelmente exacerbado por fatores como mudanças nas rotinas escolares e incertezas contínuas que vieram após a pandemia da covid-19. Podemos afirmar por meio da análise da escala DASS-21, que esses resultados fornecem uma base para aprofundar a compreensão dos efeitos psicológicos da pandemia sobre estudantes da educação básica e ressaltam a importância de intervenções direcionadas e suporte psicológico, especialmente para aqueles identificados com níveis mais elevados de depressão, ansiedade e estresse. Análise de Correlação de Spearman Para deixar os dados mais sólidos, a relação entre as subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse, foi utilizada a correlação de Spearman. Este método é apropriado para dados que não seguem uma distribuição normal e é capaz de medir a força e a direção da associação entre variáveis.Interpretação do Heatmap de Correlação O heatmap da correlação de Spearman entre as subescalas mostrou coeficientes de correlação excepcionalmente altos, indicando fortes relações positivas entre todas as combinações das três subescalas. Depressão e Ansiedade: Correlação de 0.94 79 Depressão e Estresse: Correlação de 0.96 Ansiedade e Estresse: Correlação de 0.95 Esses coeficientes sugerem que os estudantes participantes que relataram altos níveis em uma das condições (depressão, ansiedade ou estresse) também tendem a apresentar níveis elevados nas outras. As cores no heatmap representam a força dessas correlações, com tons mais quentes (como vermelho e laranja) indicando correlações mais fortes (figura 4). Figura 4 – Heatmap da Correlação de Spearman entre as Subescalas – Representam as correlações entre as subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse, com os coeficientes de correlação coloridos de acordo com sua magnitude. Análise de Cluster: Dendograma A análise de cluster hierárquica foi realizada para identificar padrões nos dados e agrupar estudantes com perfis emocionais semelhantes. O resultado dessa análise foi visualizado através de um dendograma. 80 Interpretação do Dendograma O dendograma é uma ferramenta visual que representa a formação de clusters de estudantes com base na similaridade de seus escores em Depressão, Ansiedade e Estresse. No dendograma, cada linha vertical representa um participante, e a fusão dessas linhas indica a formação de clusters. A altura na qual as linhas se fundem reflete a distância ou dissimilaridade entre os grupos: quanto menor a altura, mais similares são os grupos ou indivíduos (figura 5). Observações do Dendograma No nosso estudo, o dendograma revelou a presença de distintos grupos de estudantes. Grupos com Níveis Baixos a Moderados: A primeira observação foi a existência de clusters que representam estudantes com escores baixos a moderados nas três subescalas. Estes estudantes podem ser considerados como tendo uma adaptação relativamente melhor ao período pós-pandêmico, com menores níveis de depressão, ansiedade e estresse (figura 5). Grupos com Níveis Elevados: Por outro lado, o dendograma também indicou a formação de clusters de estudantes com escores mais elevados. Estes grupos são de particular interesse, pois sugerem a presença de um subconjunto de estudantes que podem estar enfrentando desafios significativos de saúde mental (figura 5). 81 Figura 5 – Dendograma da Análise de Cluster Hierárquica – O dendograma mostra como os estudantes são agrupados com base na similaridade dos seus escores nas subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse. Implicações dos Resultados da Escala DASS-21 A forte correlação entre as subescalas é indicativa de uma sobreposição significativa nos escores de depressão, ansiedade e estresse. Esse padrão sugere que as experiências de depressão, ansiedade e estresse estão intimamente interligadas entre os estudantes da educação básica no contexto pós-pandêmico. Essa interconexão pode refletir como as pressões e incertezas associadas à pandemia influenciaram de forma compreensiva a saúde mental dos estudantes. A alta correlação entre essas subescalas reforça a necessidade de abordagens de intervenção holísticas que possam abordar simultaneamente múltiplas facetas da saúde mental dos estudantes. Intervenções que se concentram exclusivamente em um aspecto, como a ansiedade, sem considerar a possível presença de estresse ou depressão, podem não ser totalmente eficazes para aqueles estudantes que estão experimentando múltiplas condições emocionais. Esses resultados destacam a complexidade dos desafios de saúde mental enfrentados pelos estudantes no período pós-pandêmico e apontam para a importância de uma abordagem integrada na assistência e no suporte psicológico a esta população. Resultados GAD-7 Ansiedade A análise dos escores totais de ansiedade revelou que os valores variaram de 1 a 6, com uma média de aproximadamente 3,73, indicando um nível moderado de sintomas de ansiedade entre os estudantes. O desvio padrão de aproximadamente 1.33 sugere uma variação moderada nos níveis de ansiedade dentro do grupo. 82 Um dado alarmante foi acessado pela mediana dos escores de 4, indicando que metade dos estudantes, um número alto, relatou sintomas correspondentes a “Em mais da metade dos dias” ou mais frequentemente quando associado a sintomas de depressão. Os quartis refletiram que 25% dos estudantes participantes tiveram escores de 3 ou menos (até “Em vários dias”), enquanto 75% dos estudantes participantes tiveram escores de 4.5 ou menos, sugerindo que a maioria dos estudantes relatou sintomas de ansiedade com uma frequência de “Em mais de metade dos dias” para menos. Os histogramas e boxplots gerados a partir dos escores totais da GAD-7 proporcionaram uma visualização clara da distribuição dos escores de ansiedade entre os estudantes, destacando tanto a tendência central quanto a dispersão dos escores. Teste de Normalidade: Shapiro-Wilk – GAD-7 A aplicação do teste de Shapiro-Wilk resultou em uma estatística de teste de aproximadamente 0.929 e um p-valor de aproximadamente 0.0006. O valor de p abaixo do limiar convencional de 0.05 indica que os escores totais de ansiedade não seguem uma distribuição normal. Isso implica que a utilização de métodos estatísticos não paramétricos é mais adequada para análises mais profundas dos dados. A interpretação desses resultados sugere que enquanto os níveis de ansiedade variam entre os estudantes, existe uma tendência geral em direção a sintomas de ansiedade de frequência moderada. Além disso, a não normalidade dos dados pode apontar para a presença de fatores subjetivos e individuais que afetam os escores de ansiedade, o que ressalta a importância de abordagens personalizadas ao lidar com o bem-estar emocional dos estudantes. Gráfico de Barras para frequência de respostas – GAD-7 No presente estudo, o gráfico de barras representa a frequência de respostas para cada uma das perguntas da escala GAD-7. Cada pergunta é representada por uma barra dividida em quatro segmentos coloridos, cada um correspondendo a uma categoria de resposta: “Nunca”, “Em vários dias”, “Em mais de metade dos dias” e “Em quase todos os dias”. A altura de cada segmento dentro da barra indica quantos estudantes escolheram aquela resposta específica (figura 6). 83 O gráfico de barras fornece uma visão de quais sintomas de ansiedade são mais comuns entre os estudantes. Por exemplo, um segmento maior para respostas como “Em quase todos os dias” numa pergunta específica indica uma prevalência maior desse sintoma específico de ansiedade. Isso sugere áreas que podem necessitar de maior atenção e apoio dentro do contexto escolar (figura 6). Figura 6 – Gráfico de Barras para Frequência de Respostas – Frequência das respostas dos estudantes para cada pergunta da Escala GAD-7. Cada barra representa uma pergunta e é segmentada em quatro categorias de respostas: “Nunca”, “Em vários dias”, “Em mais de metade dos dias” e “Em quase todos os dias”. A altura de cada segmento reflete o número de estudantes que selecionaram aquela opção, permitindo a visualização da prevalência de cada nível de resposta para os sintomas de ansiedade. Mapa de Calor da Matriz de Correlação Na nossa pesquisa, o mapa de calor exibe a matriz de correlação entre as respostas das diferentes perguntas. Cores mais quentes (como vermelho) indicam uma correlação positiva forte, e cores mais frias (como azul) indicam uma correlação negativa ou ausência de correlação (figura 7). Este mapa foi utilizado de forma crucial para compreender como diferentes aspectos da ansiedade estão relacionados entre si. Na presente pesquisa foi possível ver que altas correlaçõespositivas sugerem que estudantes que apresentam um tipo de sintoma de ansiedade têm maior probabilidade de apresentar outro. Isso pode indicar 84 padrões comuns de experiência de ansiedade entre os estudantes, orientando potenciais abordagens para o apoio e a intervenção (figura 7). Figura 7 – Mapa de Calor da Matriz de Correlação – Mapa de calor representando a matriz de correlação entre as respostas das perguntas da Escala GAD-7. As cores variam de azul (correlação negativa ou fraca) a vermelho (correlação positiva forte), indicando a intensidade da relação entre as respostas de diferentes perguntas. Este mapa é utilizado para identificar padrões de sintomas que tendem a ocorrer simultaneamente. Gráfico de distribuição do escore total Este gráfico mostra a distribuição dos escores totais de ansiedade, que são a soma das respostas para todas as perguntas. A linha vermelha indica a média dos escores totais, enquanto o histograma e a curva de densidade mostram como os escores estão distribuídos (figura 8). Observando o gráfico, podemos ver que a posição da média e a forma da distribuição oferecem uma visão geral do nível de ansiedade entre os estudantes. Por exemplo, uma média alta sugere um nível geral mais elevado de ansiedade. A dispersão 85 indica se a experiência de ansiedade é semelhante entre os alunos ou se varia significativamente. Figura 8 – Gráfico de Distribuição do Escore Total – Distribuição dos escores totais de ansiedade entre os estudantes. O gráfico combina um histograma com uma curva de densidade, mostrando a frequência e a distribuição dos escores. A linha vermelha representa a média dos escores, fornecendo uma referência para o nível médio de ansiedade no grupo estudado. Boxplots para cada pergunta Cada boxplot mostra a distribuição das respostas para uma pergunta específica. A linha central “dentro da caixa” é a mediana (o valor do meio). As bordas da caixa indicam o primeiro e o terceiro quartis (25% a 75% dos dados, respectivamente), e as linhas que se estendem da caixa (chamadas de ‘bigodes’) mostram a variação fora dos quartis. Pontos fora dos bigodes são considerados outliers (figura 9). Os dados dos boxplots acessados nessa pesquisa permitiu uma análise detalhada da variação nas respostas. Por exemplo, uma caixa estreita indica que a maioria dos estudantes tem respostas similares, enquanto uma caixa mais larga mostra maior variação nas respostas. A posição da mediana fornece uma indicação do nível típico de ansiedade relatado naquela pergunta. 86 Figura 9 – Boxplots para Cada Pergunta – Boxplots detalhando a distribuição das respostas para cada pergunta da Escala GAD-7. As caixas centrais indicam o intervalo interquartil, com a linha mediana destacada. Os ‘bigodes’ estendem-se para mostrar a variação nas respostas, e pontos isolados representam outliers, indicando respostas que se desviam significativamente da maioria. Em resumo, os achados do presente estudo, acessados por meio da aplicação da escala GAD-7, revelam múltiplas dimensões da experiência de ansiedade entre estudantes avaliados na pesquisa. O gráfico de barras destaca os sintomas mais prevalentes, enquanto o mapa de calor sugere padrões de sintomas co-ocorrentes. A análise do escore total oferece uma perspectiva do nível geral de ansiedade, mostrando tanto a média quanto a variabilidade entre os estudantes. Os boxplots aprofundam essa análise, detalhando a distribuição de respostas para cada sintoma específico. Esses resultados indicam não apenas os aspectos mais comuns e intensos da ansiedade entre os estudantes, mas também, revelam como esses sintomas interagem e variam individualmente. Isso pode informar abordagens direcionadas para apoiar estudantes com diferentes padrões de ansiedade, destacando a necessidade de intervenções personalizadas e abrangentes para abordar a saúde mental na escola. 87 7. DISCUSSÃO De acordo com informações da OMS em relatório mundial da saúde mental, aproximadamente 1 bilhão de pessoas conviviam no ano de 2019 com algum tipo de transtorno mental e a eminente crise nesse grupo é um problema global, alcançando pessoas de todas as idades, especialmente crianças e adolescentes em idade escolar. E, em consonância com as idades escolares, entre 10 e 13 anos, 13,5% já manifestavam problemas de saúde mental e entre 15 e 19 anos, 14,7% enfrentavam algum transtorno relacionado a questões de saúde. Esses dados são referentes ao período anterior à pandemia da covid-19 e com o impacto do isolamento físico devido às restrições emergenciais juntamente com o medo gerado de contaminação, esse número que já era alarmante foi aumentado e a mesma pesquisa realizada pela OMS destaca a estimativa de um crescimento no número de casos de transtornos de depressão e ansiedade como consequências da pandemia. Vargas (2021) esclarece acerca de estudos longitudinais da saúde com ênfase no que pondera a coordenação da Fiocruz em que há o reconhecimento da maior vulnerabilidade feminina em estudos que foram desenvolvidos que permitiram analisar os efeitos do distanciamento social na redução da morbimortalidade específica da covid- 19, bem como, seus impactos no que tange ao agravamento de fatores de risco e manejo de doenças do tipo crônicas. Segundo informações de Shigemura (2020) e Brasil (2021), e dados da OMS (2020), a pandemia da covid-19, devido a sua gravidade, é compreendida como uma questão de saúde pública, tendo em vista as inúmeras mortes e infecções e por questões de termos uma pandemia dentro de uma pandemia no que se referem aos diversos transtornos mentais que a população encontra-se afetada, um aumento considerável de pessoas em sofrimento psíquico e mental, além de outros setores inerentes às políticas públicas e sociais que tiveram potenciais efeitos nas áreas da economia, educação, assistência social, dentre outras. A OMS destaca que o conceito de saúde pode ser definido como um “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a mera ausência de doenças ou enfermidade”. Dessa forma, é crucial a subsistência da saúde em sua totalidade, isto é, em todos os seus ambitos e nisso inclui a saúde mental. Neumann (2021) destaca a problemática na área da educação enfatizando a suspensão das aulas presenciais no período compreendido entre março de 2020 a agosto 88 de 2021, devido às medidas de distanciamento físico e social para conter o avanço progressivo da doença. Essa medida afetou substancialmente os estudantes da educação básica, que compreendem o ensino infantil, fundamental e médio atingindo também os estudantes universitários. Deste modo, houve um crescimento em relação às demandas de atendimento psicológico e/ou psiquiátrico perante os potenciais danos à saúde mental principalmente das crianças e dos adolescentes que viveram além do isolamento, situações de perdas de entes queridos e os transtornos de depressão, ansiedade e estresse frente a tantas situações inesperadas, como também, as exigências que a nova forma de ensino-aprendizagem demandou no período pandêmico, o ensino remoto e/ou pela ausência de acesso à educação, mesmo que de forma remota. A pandemia expôs um cenário social em que muitos estudantes permaneceram impedidos de acessar esse novo mundo compreendido pelas possibilidades do ensino remoto devido ás limitações, falta de recursos tecnológicos muito comuns em inúmeras famílias no Brasil e também da ausência de um acompanhamento eficaz nas atividades escolares acarretando em mais danos à saúde, como também, em sua aquisição de aprendizagem. No presente estudo, 72 estudantes (n=72) participantes que compõem a amostra desta pesquisa e que foram submetidos aos questionários das escalas DASS-21 e GAD-7, foi possívelconstatar a partir da escala DASS-21, a presença de diferentes grupos de estudantes, em que há grupos com níveis considerados baixos a moderados nas três subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse. Assim, os resultados desses estudantes podem ser analisados como, ainda que há uma quantidade de estudantes que encontraram uma adequação relativamente melhor ao período pós-pandemia, menores índices nos níveis de depressão, ansiedade e estresse, outro grupo de estudantes apresentou níveis elevados, estes implicam sobre um subconjunto de estudantes que podem estar em confronto com desafios expressivos em sua saúde mental. No nosso estudo, a distribuição dos escores de depressão entre os estudantes revela uma prevalência moderada de sintomas depressivos, com uma média de 8.36 e uma assimetria à direita (figura 1). Neurocientificamente, esta observação pode ser correlacionada com alterações no sistema de neurotransmissão, especificamente na função serotoninérgica e na atividade do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal - HPA, ambas críticas na patogênese da depressão. Estudos mostram que o estresse crônico, como o vivenciado durante a pandemia, pode levar à hiperatividade do eixo HPA, resultando em níveis elevados de cortisol, o que por sua vez, afeta negativamente a 89 neuroplasticidade e promove a disfunção de áreas cerebrais associadas à regulação do humor, como o hipocampo e o córtex pré-frontal (McEwen, 2007; Pariante & Lightman, 2008). Estas alterações podem contribuir para os sintomas depressivos observados, sugerindo uma possível ligação entre o estresse pandêmico e alterações neuroendócrinas subjacentes à depressão. A análise dos escores de ansiedade apresentou uma média de 8.60 e variabilidade considerável (figura 2), esses dados podem refletir as consequências neurobiológicas do estresse prolongado sobre os circuitos de ansiedade no cérebro, incluindo a amígdala e o córtex pré-frontal. A amígdala, responsável pelo processamento de ameaças e medo, pode tornar-se hiperativa em resposta ao estresse crônico, enquanto a capacidade do córtex pré-frontal de exercer controle executivo e regulatório pode ser comprometida, exacerbando a percepção de ansiedade (Shin & Liberzon, 2010; Arnsten, 2009). Além disso, a pandemia pode ter afetado o desenvolvimento e a maturação dessas regiões cerebrais em jovens, potencialmente aumentando sua vulnerabilidade à ansiedade. A variação nos escores de ansiedade também reflete a diversidade na resiliência individual e na capacidade de adaptação ao estresse, mediadas por diferenças na estrutura e função cerebral. O aumento dos escores de estresse, com média de 9.74 (figura 3), sugere um impacto significativo do ambiente pandêmico sobre o bem-estar psicológico dos estudantes. Do ponto de vista neurocientífico, o estresse crônico pode, também, levar à desregulação do eixo HPA, já discutido anteriormente, e à subsequente liberação de cortisol, afetando negativamente a função cerebral. A exposição prolongada ao cortisol pode resultar em atrofia do hipocampo, uma região crucial para o aprendizado e a memória, além de afetar a conectividade funcional e a estrutura do córtex-pré-frontal, comprometendo a capacidade de regulação emocional, aprendizagem e tomada de decisão (Lupien et al., 2009; McEwen, 2007). Este padrão de alterações neurobiológicas pode não apenas predispor os indivíduos a níveis mais elevados de estresse percebido, mas também, impactar sua capacidade de enfrentamento, contribuindo para os elevados escores de estresse observados. Um outro lado apresentado na nossa pesquisa, ainda referente a DASS-21, foi a análise de correlação de Spearman entre as subescalas de Depressão, Ansiedade e Estresse. O resultado revelou coeficientes de correlação notavelmente altos (Depressão 90 e Ansiedade: 0.94; Depressão e Estresse: 0.96; Ansiedade e Estresse: 0.95) (figura 4), indicando uma forte interconexão entre estas dimensões da saúde mental desse grupo de estudantes. Além, dos mecanismos relacionados ao eixo HPA e à amígdala, outros estudos neurocientíficos apontam para a participação de sistemas neurotransmissores específicos, como o serotonérgico, o noradrenérgico e o dopaminérgico, na modulação de humor e ansiedade (Harmer, 2008; Belujon & Grace, 2017). A disfunção nestes sistemas pode ser um fator subjacente à alta correlação observada entre depressão, ansiedade e estresse, refletindo como desequilíbrios neuroquímicos podem predispor a comorbidades neuropsiquiátricas. Além disso, pesquisas recentes sugerem que a neuroinflamação e as alterações na microbiota intestinal também podem desempenhar papéis significativos na patogênese da depressão e ansiedade, fornecendo uma ligação entre o sistema imunológico, o cérebro e o comportamento (Miller & Raison, 2016; Cryan et al., 2019). A formação de clusters identificada pela análise de cluster hierárquica (figura 5) e visualizada no dendograma reflete a heterogeneidade nos perfis de sintomas de depressão, ansiedade e estresse entre os estudantes. Esta heterogeneidade pode ser explicada, em parte, pelas diferenças na conectividade funcional entre regiões do lobo temporal, que estão envolvidas na regulação emocional, e na resposta ao estresse além de fatores sociais que nos possibilita compreender que a biologia nos orienta, mas não determina (Seeley et al., 2007; Menon, 2011). Variações na conectividade entre áreas podem influenciar a capacidade de um indivíduo de processar e responder a estímulos emocionais, resultando em diferentes perfis de resiliência ou vulnerabilidade aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Pesquisas sobre a neuroplasticidade também destacam como experiências de estresse crônico durante a pandemia podem afetar a estrutura e a função cerebral, alterando padrões de conectividade neural e potencialmente contribuindo para os perfis de sintomas observados (Lupien et al., 2009; Davidson & McEwen, 2012). Foi constatada que a pandemia impôs uma série de estressores únicos sobre crianças e adolescentes incluindo o isolamento social, a interrupção das rotinas educacionais, a incerteza sobre o futuro e o medo de contágio. Tais estressores exacerbam a vulnerabilidade a problemas de saúde mental, desencadeando ou intensificando os sintomas de depressão, ansiedade e estresse (Brooks et al., 2020; Loades et al., 2020). Nessa pesquisa, a correlação significativa entre as subescalas da 91 DASS-21 reflete a interconexão entre estes sintomas, sugerindo que a experiência de um pode aumentar a susceptibilidade ou intensidade dos outros. No presente estudo, a análise dos escores totais da escala Generalized Anxiety Disorder 7 - GAD-7 revelou um nível moderado de sintomas de ansiedade entre os estudantes, com uma média de 3.73 e uma mediana de 4. Estes dados sugerem que uma significativa proporção de estudantes experimentou sintomas de ansiedade frequentemente durante o período avaliado (figura 6). O desvio padrão de 1.33 indica uma variação considerável nos níveis de ansiedade, refletindo a diversidade de experiências de ansiedade dentro da população estudantil. A não normalidade dos dados, conforme indicado pelo teste de Shapiro-Wilk (p-valor 0.0006), reforça a complexidade dos padrões de ansiedade e a necessidade de análises não paramétricas para entender melhor estas variações. Do ponto de vista neurocientífico, a ansiedade pode ser compreendida através da análise de sistemas cerebrais específicos, além do eixo hipotálamo-pituitária- adrenal - HPA e da amígdala. Pesquisas recentes destacam o papel do córtex pré-frontal - CPF e sua interação com a amígdala na regulação da ansiedade. O CPF, responsável por funções executivas, incluindo tomada de decisão e regulação emocional, pode exercer influência inibitória sobre a amígdala, modulando a resposta ao medo e à ansiedade (Goldin et al., 2008;Bishop, 2007). Alterações na funcionalidade ou na conectividade entre o CPF e a amígdala podem contribuir para a intensificação dos sintomas de ansiedade. Além disso, estudos sobre a neuroinflamação fornecem evidências de que processos inflamatórios no cérebro podem estar associados a transtornos de ansiedade (Michopoulos et al., 2017). A inflamação sistêmica tem sido relacionada a alterações na neurotransmissão e na neuroplasticidade, potencialmente exacerbando sintomas de ansiedade. A microbiota intestinal também tem sido estudada por seu papel na modulação da função cerebral e do comportamento através do eixo intestino-cérebro, sugerindo que desequilíbrios na microbiota podem influenciar o desenvolvimento de sintomas de ansiedade (Foster et al., 2017). A representação gráfica da frequência de respostas para cada item da GAD-7 destaca quais sintomas de ansiedade são mais prevalentes entre os estudantes. Este detalhe pode ajudar a identificar áreas específicas de necessidade e direcionar intervenções de apoio. Por exemplo, um número maior de respostas indicando 92 ansiedade “Em quase todos os dias” em itens específicos pode apontar para sintomas predominantes que podem ser alvos de intervenções psicoeducacionais ou terapêuticas direcionadas. No presente estudo, a matriz de correlação (figura 7) apresentou uma correlação negativa entre “senti-me nervoso (a),ansioso (a) ou irritado (a)” e “tive dificuldades em relaxar”. A correlação negativa pode refletir uma particularidade da população estudada. É possível que, para alguns indivíduos, a ansiedade não se manifeste predominantemente através de tensão ou dificuldade em relaxar, mas sim por meio de outros sintomas psicológicos ou somáticos. Alternativamente, a aparente discrepância pode estar relacionada à natureza adaptativa de alguns estudantes em resposta ao estresse prolongado, uma forma de resiliência psicológica que merece investigação adicional. É imperativo considerar a complexidade dos mecanismos neurais subjacentes à ansiedade. Pesquisas em neurociência têm revelado que a ansiedade está associada a uma atividade alterada em várias regiões cerebrais incluindo o córtex pré-frontal, a amígdala, hipocampo e o hipotálamo (Etkin & Wager, 2007; Shin & Liberzon, 2010), e que o estresse crônico pode levar a mudanças fisiológicas nessas áreas (McEwen, 2007). A plasticidade neural, que permite a adaptação do cérebro a ambientes desafiadores, pode ser uma chave interpretativa para os padrões observados (Davidson & McEwen, 2012). A correlação negativa observada requer uma análise aprofundada e cautelosa, levando em consideração as limitações do instrumento de medida, a diversidade dos sintomas de ansiedade e a complexa interação entre fatores ambientais, psicológicos e biológicos durante e após a pandemia da COVID-19. Estudos longitudinais seriam particularmente valiosos para rastrear a trajetória dos sintomas de ansiedade ao longo do tempo e determinar a estabilidade dessas correlações em diferentes fases do desenvolvimento e recuperação pós-pandêmica. O gráfico de distribuição indica uma média elevada de escores totais de ansiedade (figura 8), refletindo um nível geral significativo de ansiedade entre os estudantes. Neurocientificamente, este achado pode ser associado a alterações no sistema nervoso parte central. Pesquisas recentes sugerem que a pandemia da COVID- 19 pode ter impactado a conectividade e a função de regiões cerebrais envolvidas na regulação da ansiedade, como o córtex pré-frontal - CPF e o cíngulo anterior - CA, áreas essenciais para a regulação emocional e processamento do medo (Godoy et al., 2018; Sylvester et al., 2020). A alteração da função dessas áreas pode contribuir para o aumento dos níveis de ansiedade observados. Fortalecendo ainda mais essa correlação, 93 estudos longitudinais e de neuroimagem têm demonstrado que a variabilidade nos sistemas de ansiedade pode estar associada a estruturas como amígdala, CPF e CA (Etkin & Wager, 2007; Shin & Liberzon, 2010). Essas regiões são cruciais para a percepção de ameaças, processamento emocional e regulação do estresse. Variações na conectividade entre estas áreas podem explicar porque alguns indivíduos apresentam maior susceptibilidade aos sintomas de ansiedade. Por meio da análise dos boxplots podemos ver variações nas respostas a perguntas específicas, indicando uma diversidade em forma como os sintomas de ansiedade são experimentados pelos estudantes (figura 9). Esta variabilidade pode ser explicada por diferenças na neurobiologia individual. Como variações na expressão de receptores de neurotransmissores ou na resiliência neural a estressores (Bishop, 2007; Holmes & Wellman, 2009). Por exemplo, uma maior variabilidade nas respostas pode refletir diferenças individuais na susceptibilidade a sintomas específicos de ansiedade, potencialmente mediadas por diferenças na neuroplasticidade ou na regulação neuroquímica. A neurogenética oferece insights valiosos para compreender essa heterogeneidade. Estudos têm identificado variantes genéticas que afetam a função de neurotransmissores como a serotonina e o GABA, que estão implicados na regulação da ansiedade (Lesch et al., 1996; Masi et al., 2004). Essas variantes genéticas podem influenciar a expressão de sintomas específicos de ansiedade, contribuindo para a variabilidade observada nos boxplots. Além disso, pesquisas sobre neuroplasticidade e ansiedade sugerem que a exposição a estressores crônicos durante o desenvolvimento pode levar a mudanças duradouras na estrutura e função cerebral, afetando a susceptibilidade à ansiedade (McEwen, 2007). Essas alterações incluem a redução da neurogênese no hipocampo e mudanças na densidade dendrítica no córtex pré-frontal, o que pode afetar a capacidade de regulação emocional e aumentar a vulnerabilidade aos sintomas de ansiedade. Um fator pouco falado, quando pensamos em saúde mental, é a microbiota intestinal. A pandemia trouxe à tona o papel potencial da microbiota intestinal no bem- estar psicológico através do eixo intestino-cérebro, sugerindo que mudanças no estilo de vida durante o confinamento poderiam influenciar a saúde mental por meio de alterações na composição da microbiota (Cryan et al., 2019). Uma pesquisa realizada por Ruiz-Roso et al., (2020), analisou as mudanças nos hábitos alimentares durante o confinamento em diferentes países, incluindo Espanha, Itália, Brasil, Chile e Colômbia. 94 De acordo com os pesquisadores, houve um aumento no consumo de lanches, carnes processadas, e produtos de padaria, juntamente com uma diminuição na ingestão de frutas e vegetais, sugerindo uma deterioração da qualidade da dieta durante o período de confinamento, destacando a necessidade de políticas públicas para promover hábitos alimentares saudáveis. Pietrobelli et al., (2020), mostrou um consumo elevado de alimentos não saudáveis e uma regulação da atividade física entre crianças e adolescentes durante esse período, podendo se estender após o término da pandemia. Fiolet e colaboradores (2021), por meio de uma revisão sisstemática e meta-análise, mostrou que o consumo elevado de alimentos ultraprocessados pode estar associado a um aumento no risco de desenvolvimento de sintomas de transtornos mentais comuns, como depressão e ansiedade. Este vínculo sugere que a qualidade da dieta é um fator determinante crucial no bem-estar psicológico e na prevenção de transtornos mentais. Portanto, essa perspectiva amplia o entendimento dos mecanismos pelos quais a pandemia pode afetar a ansiedade, além das respostas neuroendócrinas e neuroinflamatórias ao estresse. A aplicação da escala Generalized Anxiety Disorder 7 - GAD-7 em nossa pesquisa enfrentou desafios inesperados, resultando na coleta de dados para apenas cinco das sete questões originais. Apesar deste contratempo, a análise das respostasdisponíveis oferece insights valiosos sobre os sintomas de ansiedade entre os estudantes no contexto examinado. É importante destacar, que embora incompleta, a utilização parcial da GAD-7 ainda fornece uma base sólida para avaliar a prevalência e intensidade dos sintomas de ansiedade, complementada por dados obtidos através da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse - DASS-21. A integridade da avaliação da ansiedade, mesmo com a GAD-7 parcial, é sustentada por várias considerações. Primeiro, as cinco questões da GAD-7 que foram administradas cobrem uma gama representativa de sintomas de ansiedade, permitindo uma avaliação confiável da condição. Esses itens abrangem aspectos chave como nervosismo, incapacidade de parar ou controlar a preocupação e irritabilidade, que são sintomas centrais na caracterização da ansiedade generalizada. A consistência nas respostas a essas questões sugere que elas podem servir como um indicador confiável da presença de ansiedade entre os participantes. 95 Além disso, a corroboração dos resultados obtidos através da GAD-7 parcial com aqueles da DASS-21 fortalece a validade de nossas conclusões. A DASS-21, uma ferramenta amplamente reconhecida e validada para avaliar depressão, ansiedade e estresse, forneceu uma análise complementar que respalda os achados da GAD-7. A convergência dos resultados entre as duas escalas, especialmente na subescala da ansiedade da DASS-21, reforça a confiabilidade dos dados coletados e oferece uma visão abrangente da saúde mental dos estudantes. A alta correlação entre as subescalas de ansiedade e estresse da DASS-21 e os escores parciais da GAD-7 sugere que os sintomas de ansiedade são uma preocupação significativa e estão consistentemente presentes na experiência dos estudantes avaliados. Embora reconheçamos a limitação de não ter aplicado a GAD-7 em sua totalidade, a abordagem adotada na análise dos dados disponíveis, foi rigorosa e metodologicamente sólida. A decisão de prosseguir com a análise das cinco questões disponíveis foi tomada com base na compreensão de que a essência da avaliação da ansiedade poderia ser mantida, permitindo uma interpretação válida dentro do contexto mais amplo da pesquisa. Esta abordagem pragmática não apenas salvaguarda a utilidade dos dados coletados, mas também, demonstra adaptabilidade diante de desafios inesperados na pesquisa. Em suma, apesar dos desafios enfrentados na aplicação completa da GAD-7, os dados coletados através das questões disponíveis, em conjunto com os resultados da DASS-21, fornecem uma base robusta para a avaliação dos sintomas de ansiedade entre os estudantes. Essa análise integrada permite uma compreensão abrangente do impacto da ansiedade na população estudantil, destacando a importância de estratégias de intervenção focadas e eficazes para abordar a saúde mental no ambiente educacional. Nosso trabalho reforça a questão de que não podemos desconsiderar, a partir dos resultados dessa pesquisa, os possíveis impactos da pandemia no cérebro. Do ponto de vista biológico, estudos neuropatológicos têm evidenciado que o SARS-CoV-2 é capaz de invadir o sistema nervoso central - SNC, potencialmente afetando a função cerebral e contribuindo para sintomas neuropsiquiátricos. O vírus pode acessar o cérebro através da barreira hematoencefálica, utilizando mecanismos como a via do nervo olfatório ou a mediação por células endoteliais. Uma vez no SNC, a presença do vírus pode desencadear respostas inflamatórias, com liberação de citocinas pró- 96 inflamatórias, o que tem sido associado a alterações de humor e cognição (Steinman et al., 2020; Holmes et al., 2020). Além disso, a resposta imune ao vírus, caracterizada pela tempestade de citocinas, tem sido relacionada a uma série de efeitos sistêmicos que podem afetar indiretamente o cérebro. Esta resposta hiperativa do sistema imune pode levar a alterações neuroquímicas e a uma maior permeabilidade da barreira hematoencefálica, facilitando assim o surgimento de sintomas neuropsiquiátricos, incluindo depressão e ansiedade (Taquet et al., 2021). No âmbito psicossocial, o isolamento social, o medo da infecção, as perdas econômicas e o luto por entes queridos são fatores de estresse significativos introduzidos ou exacerbados pela pandemia. Esses fatores podem atuar como gatilhos ou agravantes de condições psiquiátricas, especialmente em crianças, que podem ser particularmente sensíveis às mudanças em sua rotina e ao estresse percebido pelos pais ou responsáveis (Loades et al., 2020). Especificamente em crianças, o fechamento de escolas e a interrupção de atividades sociais regulares representam uma perda significativa de suporte social e oportunidades de aprendizado, que são cruciais para o seu desenvolvimento emocional e social O cérebro é social, a falta de interação com colegas e professores pode aumentar sentimentos de isolamento, contribuindo para o aumento da ansiedade e sintomas depressivo (Lee, 2020). A aplicação das escalas DASS-21 e GAD-7 em pesquisas recentes reflete essa tendência, revelando um aumento preocupante nos níveis de depressão e ansiedade entre crianças durante a pandemia. Esses instrumentos, amplamente validados para avaliar sintomas de depressão, ansiedade e estresse, fornecem uma medida quantitativa que corrobora relatos anedóticos e observações clínicas sobre o impacto psicológico da COVID-19 nesse grupo etário (Bignard et al., 2020). Em suma, a complexa interação entre os efeitos biológicos diretos do SARS-CoV-2 no cérebro, as respostas imunológicas sistêmicas, e os profundos fatores psicossociais desencadeados pela pandemia, contribuem para o agravamento dos sintomas de depressão e ansiedade em crianças. Esses achados ressaltam a necessidade de abordagens multidisciplinares para mitigar os impactos da COVID-19 na saúde mental infantil, incluindo intervenções psicossociais, suporte educacional e, quando necessário, tratamento psiquiátrico. 97 Na nossa pesquisa científica, ao integrar os resultados obtidos pelas escalas DASS-21 e GAD-7 com conhecimentos de neuroanatomia e neurofisiologia, este estudo propôs uma conexão entre os sintomas psicológicos de depressão, ansiedade e estresse e possíveis alterações neurobiológicas subjacentes. A literatura científica atual forneceu evidências que apoiam essa correlação, destacando, por exemplo, como a exposição prolongada ao estresse pode afetar a neuroplasticidade, alterando a estrutura e a função de diversas regiões cerebrais (McEwen, 2007; Lupien et al., 2009). Essas alterações podem contribuir para os sintomas observados e são consistentes com achados de estudos de neuroimagem que demonstram mudanças na conectividade e atividade dessas áreas em indivíduos com depressão e ansiedade (Anand et al., 2005; Shin & Liberzon, 2010). Adicionalmente, a literatura científica destaca o papel dos neurotransmissores, como o serotoninérgico, noradrenérgico e dopaminérgico, na modulação do humor e da resposta ao estresse, sugerindo que desequilíbrios nesses mensageiros químicos podem estar associados aos sintomas relatados nas escalas (Harmer, 2008; Ressler & Nemeroff, 2000). O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal - HPA também é frequentemente implicado na resposta ao estresse crônico e na patogênese de transtornos de humor, com a hiperativação desse eixo contribuindo para o aumento dos níveis de cortisol e afetando negativamente a função cerebral (Pariante & Lightman, 2008). Portanto, a utilização das escalas DASS-21 e GAD-7 neste estudo vão além da simples identificação de sintomas psicológicos, sugerindo uma abordagem mais abrangente que considera as bases neurobiológicas dos transtornos de saúde mental. Esse entendimento reforça a importância de intervenções que abordem os aspectos neurobiológicos dos transtornos psicológicos, potencializando a eficácia das terapiaspsicológicas com estratégias que visam restaurar o equilíbrio neuroquímico e promover a neuroplasticidade (Pittenger & Duman, 2008; Camprodon & Roffman, 2016). Assim, a integração dos dados psicométricos com o conhecimento neurocientífico presentes nesse estudo promove uma compreensão holística dos transtornos de saúde mental, enfatizando a necessidade de uma abordagem multidisciplinar no tratamento e cuidado com essas crianças. 98 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a realização desta pesquisa foi possível verificar um aumento de estudos sobre saúde mental de estudantes da educação básica. Os estudos encontrados no início da pandemia da covid-19 eram referentes a estudantes universitários, principalmente, de cursos voltados às áreas da saúde, e também de profissionais atuantes na linha de frente da covid-19, mas, a partir de 2021, houve um crescimento nessas pesquisas tendo em vista a preocupação iminente, sobretudo, devido às consequências do ensino remoto. Há uma diversidade de realidades educacionais, bem como, sociais e econômicas no Brasil e essa discrepância representa um enorme desafio para as instituições de ensino, para o cenário da educação, até mesmo em tempos não emergenciais. Esta pesquisa contou com a participação de estudantes da educação básica dos Ensinos Fundamental II e Médio de instituições públicas e particulares, com a coleta de dados realizada em uma escola pública em Brasília DF. Os estudantes participantes da pesquisa residem em variadas localidades, cidades do DF e entorno de Brasília. Este estudo teve como objetivo geral a análise do impacto da pandemia da covid-19 nos níveis de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da educação básica como marcadores inferenciais para alterações fisiológicas e anatômicas cerebrais. Este objetivo foi alcançado ao longo da pesquisa, tendo sido expressa com resultados da amostra entre os 72 estudantes da pesquisa com base nas escalas DASS-21 e GAD-7. Já em relação aos objetivos específicos, temos que o primeiro visa à quantificação dos estudos emocionais de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da educação básica após o período pandêmico através da escala DASS-21 e da escala GAD-7, e o segundo objetivo específico propõe uma sintetização das intervenções para mitigar os impactos na saúde mental de estudantes pós-pandemia da covid-19, tendo como base as neurociências. Ambos objetivos foram constatados por meio das escalas aplicadas que permitiu a quantificação desses estados e, inclusive, nos cinco itens relacionados à escala GAD-7 foi possível verificar as potenciais necessidades individualizadas nas amostras correspondentes aos estudantes participantes da educação básica. Além disso, verificou-se que há possibilidades de intervenção baseadas nas 99 neurociências, como a prática de mindfulness e aliada a abordagem terapêutica da TCC que podem apresentar resultados significativos na diminuição dos sintomas decorrentes da ansiedade, depressão e estresse. Portanto, a conclusão desta pesquisa transcende a mera constatação do aumento de sintomas de estresse, depressão e ansiedade entre estudantes, um fenômeno já amplamente documentado na literatura científica atual. O caráter inovador deste estudo emerge da integração de dados psicométricos, obtidos através das escalas DASS- 21 e GAD-7, com insights provenientes das neurociências, criando um diálogo enriquecedor entre estas disciplinas. Esta abordagem interdisciplinar permitiu não apenas a identificação de padrões de sintomas psicológicos, mas também, a exploração de suas possíveis correlações com alterações neuroanatômicas e neurofisiológicas subjacentes. A inovação reside, portanto, na tentativa de mapear os efeitos psicológicos manifestos em alterações neurobiológicas específicas, fornecendo uma compreensão mais holística dos mecanismos subjacentes aos transtornos de saúde mental. Ao correlacionar sintomas psicológicos com fundamentos neurocientíficos, abre-se a possibilidade de identificar biomarcadores para depressão, ansiedade e estresse, o que pode revolucionar as estratégias de diagnóstico e tratamento, tornando-as mais eficazes e individualizadas. Além disso, este estudo destaca a necessidade crítica de abordagens terapêuticas que considerem tanto os aspectos psicológicos quanto biológicos dos transtornos de saúde mental, sugerindo que a integração da psicoterapia com parte de uma equipe multidisciplinar pode oferecer resultados terapêuticos superiores. Isso reforça a importância da pesquisa interdisciplinar em saúde mental, demonstrando que a compreensão dos transtornos psicológicos pode ser profundamente aprimorada por meio do diálogo entre a psicologia e a neurociência. Em suma, este trabalho não apenas contribui para a literatura científica, evidenciando a prevalência de sintomas de estresse, depressão e ansiedade em um contexto educacional, mas também, avança na nossa compreensão sobre a complexa interação entre mente e cérebro. A inovação fundamental deste estudo reside na sua capacidade de informar o desenvolvimento de práticas clínicas e educacionais, as quais podem agora ser embasadas em uma compreensão mais rica das raízes neurobiológicas 100 dos transtornos de saúde mental, potencializando assim o bem-estar e a resiliência de estudantes em face aos desafios psicológicos contemporâneos. 101 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, L., SILVA, R., ARAÚJO, R. Covid-19: origin, pathogenesis, transmission, clinical aspects and current therapeutic strategies. Revista Prevenção de Infecção e Saúde, v.6, 2020. ALVES, L. Educação remota: entre a ilusão e a realidade. Interfaces Científicas: educação, Aracajú, v.8, n.3, p.348-365, 2020. ANDRADE, C., & LOPES, G. Brasil República: uma história de surtos, pandemias e epidemias. Boletim de Conjuntura (Boca), ano III, v.5, n.14, 2021. ANDRADE, L., et al. Prevalence of CID-10 mental disordes in a catchment area in the city of São Paulo, Brazil. Soc. 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METODOLOGIA....................................................................................................62 5.1 Tipo de Pesquisa..................................................................................................62 5.2 Participantes.........................................................................................................62 5.2.1 Critérios de inclusão.....................................................................................64 5.2.2 Critérios de exclusão....................................................................................64 5.3 Contexto...............................................................................................................64 5.4 Instrumentos........................................................................................................66 5.4.1 Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21)..............................66 5.4.2 Escala Generalized Anxiety Disorder (GAD-7)...........................................68 5.5 Procedimento.......................................................................................................68 15 5.6 Execução de busca na literatura...........................................................................69 5.7 Aquisição dos dados............................................................................................70 5.8 Aspectos Éticos....................................................................................................73 5.8.1 Riscos e benefícios.......................................................................................73 6. RESULTADOS........................................................................................................74 7. DISCUSSÃO............................................................................................................87 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................98 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................101 APÊNDICE- TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO...................................115 TERMO DE ASSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO......................................117 ANEXO- ESCALA DE DEPRESSÃO, ANSIEDADE E ESTRESSE-DASS-21........................119 ESCALA GENERALIZED ANXIETY DISORDER-GAD-7......................................120 MEMORANDO-SEE/AUTORIZAÇÃO PARA PESQUISA......................................121 TERMO DE ANUÊNCIA.............................................................................................123 PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP..............................................................125 16 1. INTRODUÇÃO A neurociência é considerada, de acordo com Neto & Incrocci (2021), uma das disciplinas que mais se desenvolvem em toda a ciência tendo em vista que novos desvendamentos surgem nesse âmbito quase que diariamente tamanha a relevância para a ciência moderna e, dessa forma, difunde luz sobre a base de cunho neural do comportamento do ser humano que se estende do nível molecular ao nível comportamental com o uso de ferramentas influentes e inventivas. Assim, achados e progressos neurocientíficos nos consentirão uma melhor compreensão acerca dos mecanismos abrangidos e como estes admitem capacidades cognitivas. Em referência a importância dos estudos da neurociência no que tange ao comportamento do ser humano, bem como, seus impactos no cérebro, uma pesquisa desenvolvida no Reino Unido e publicada no periódico científico The Lancet (2023) revelou acerca dos efeitos pós-covid-19 nos seres humanos que podem afetar a atividade cerebral destes com o condizente a dez anos de envelhecimento, que, mesmo após o período de dois anos, indivíduos que foram infectados com o vírus ainda podem ser impactados, de acordo com os resultados do presente estudo britânico. A pesquisa se concentrou na analise de três grupos distintos de indivíduos, a saber: os que nunca tiveram o vírus da covid-19, os que tiveram e foram considerados como totalmente curados e os que tiveram e continuaram a ter sintomas do vírus, um efeito prolongado, ou covid longa. As análises foram submetidas em períodos distintos, em 2021 e em 2022 e os resultados analisados refletem que indivíduos afetados pelos sintomas da covid-19 por um período de três meses ou mais manifestaram um comportamento expressivamente pior nessas tarefas ao se comparar com os que seguiram por um período menor. Ainda não há conclusões acerca da melhora com o passar do tempo e tampouco sobre a continuidade desses efeitos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia - SBN, esse tipo de pesquisa é primordial no entendimento sobre os efeitos da covid-19 a longo prazo e que por ser uma doença nova, desconhecemos seus impactos no futuro e avanços no conhecimento são importantes na busca da melhora na qualidade de vida das pessoas ao trazer possibilidades de prevenção e tratamento. E além dos quadros neurológicos, a SBN enfatiza que a covid-19 pode desencadear sintomas debilitantes persistentes, como 17 por exemplos, a fadiga, lapsos de memória, piora do raciocínio, episódios de insônia e alterações de humor no que tange a depressão e a ansiedade nos indivíduos. Em situações pandêmicas, como a da covid-19, o foco dos estudos, dos serviços de saúde, de gestores e da mídia em geral, costuma ser dirigido a aspectos de cunho biológico da doença e, dessa forma, os aspectos psicossociais recebem pouca ou nenhuma atenção ou são totalmente negligenciados (Ornell et al.; 2020; Ho CSH et al.; 2020). Porém, há o entendimento de que a doença causada pela pandemia da covid-19 compromete não só a saúde física das pessoas, como também a saúde mental e o bem- estar (Fiorillo et al.; 2020; Santos 2020). Os surtos anteriores que acometeram a população ao redor do mundo confirmaram que os efeitos na saúde mental podem ser mais duradouros e ter um predomínio maior que a própria pandemia em si, cujas consequências relativas a questões econômicas e psicossociais podem ser consideradas alarmantes e incontáveis (Shigemura et al.; 2020; Reardon 2015). Ornell et al.; 2020 ponderam que a “morbimortalidade secundária” as implicações na saúde mental inclinam-se a ultrapassar a associada diretamente à doença, durante as epidemias. De acordo com Nabuco et al.; (2020) apud Zhou et al.;(2020), Kumar (2020), no período pandêmico a que fomos acometidos desde 2020, não havia medicação com efeito de curar os sintomas da doença e, dessa forma, algumas medidas foram recomendadas pelos órgãos de saúde pública, tais como o distanciamento físico social, o uso de máscaras e o reforço dos hábitos de higiene. Essas recomendações foram primordiais para frear a disseminação do vírus da covid-19, mas, ao mesmo tempo em que nos protegíamos da doença física, o alcance aos meios de rede de proteção psicossocial foram reduzidos, como por exemplo, o acesso ao trabalho, à escola, o lazer, familiares e amigos. Assim, as medidas sanitárias adotadas para mitigar o risco de contágio da pandemia da covid-19 e garantir a proteção da população e também impedir o colapso dos serviços de saúde, entre outras determinações, são situações que causam mudanças bruscas no dia a dia de todos e particularmente, de acordo com a Organização Mundial de Saúde - OMS (2020), o fechamento das instituições educacionais com o objetivo de conter o avanço da doença afastou aproximadamente 1,5 bilhão de crianças e adolescentes de seus ambientes escolares. Isso resultou em escolas totalmente fechadas por um longo período e acarretou em adoção de práticas pedagógicas emergenciais com 18 o uso de recurso principalmente de telas para que as aulas fossem posteriormente retomadas em um formato totalmente diferenciado, o remoto (OLIVEIRA et al.; 2020). A pandemia da covid-19 acentuou déficit educacional e demandou ações do poder público, segundo dados do Senado Federal (2021) que, diante da situação pandêmica no ano de 2020, o Ministério da Educação - MEC autorizou a substituição das aulas presenciais pelo modelo remoto para as instituições de ensino superior e, posteriormente, para a educação básica em todo o Brasil. No ano seguinte, em 2021, após mais de um ano e meio de ensino remoto, no Distrito Federal - DF, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal - SEEDF emitiu um documento, a Circular n0 04/2021, em que foram apresentadas as recomendações para a retomada das atividades presenciais. Esse retorno presencial foi realizado de forma escalonada a fim de preparar e orientar os estudantes da educação básica quanto às ações desse retorno presencial reiterando a necessidade de ainda respeitar as medidas de biossegurança com turmas reduzidas, distanciamento mínimo entre as carteiras e divisão das turmas, entre outras medidas de segurança a fim de evitar a contaminação da covid-19. Após o retorno presencial dos estudantes em todo o Brasil ainda em período pandêmico, uma avaliação realizada pela Secretaria de Educação de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna (2022) sinalizaram implicações da pandemia da covid-19 na saúde mental e socioemocional de estudantes. O mapeamento realizado identificou que 70% dos estudantes de São Paulo descreveram sintomas de depressão e ansiedade, entretanto, os possíveis correlatos neurais ainda não são claros. O estudo retratou que dois em cada três estudantes que cursam o 50 ao 90 ano do Ensino Fundamental e 30 ano do Ensino Médio, que corresponde a educação básica, da rede estadual revelaram esses sintomas. Nesse mapeamento foi possível obter dados de 642 mil estudantes participantes do estudo no campo do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo - SARESP. Assim, do grupo de estudantes participantes que foi analisado, um em cada três alunos alegaram sentir dificuldades de concentração no que é recomendado pelos professores no contexto da sala de aula. Nesse patamar, 18,8% narraram profunda sensação de esgotamento, além de se sentirem sob pressão e 18,1% referiram perder completamente o sono por sentirem-se preocupados e 13,6% alegaram a perda de confiança em si mesmo, o que podem ser classificados como sintomas que retratam transtornos de ansiedade e de depressão. 19 Diante da exposição desse cenário, o presente estudo se concentra na emergente preocupação com a deterioração da saúde mental, especificamente os níveis de depressão, ansiedade e estresse, entre os estudantes da educação básica após o período da pandemia da covid-19. Portanto, a questão de pesquisa que irá nortear este estudo é: “Como os níveis de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da educação básica do Distrito Federal pós-pandemia da COVID-19 estão correlacionados com alterações neuroanatômicas e fisiológicas sugeridas pela literatura neurocientífica?” Para nortear este estudo temos, inicialmente, os objetivos: geral e específicos com o intuito de analisar o impacto da pandemia da COVID-19 nos níveis de depressão, ansiedade e estresse nesses estudantes na pós-pandemia como marcadores inferenciais para alterações fisiológicas e anatômicas cerebrais e para investigar esta inquietação, há o delineamento do referencial teórico, que abrange: 1) COVID-19, coronavírus Sars-CoV- 2, pandemias e epidemias no Brasil e no mundo, medidas de prevenção no combate à pandemia da COVID-19, crises dentro da crise pandêmica; 2) Saúde Mental, saúde e doença, a depressão, a ansiedade e o estresse; 3) Neurociências, bases neurobiológicas do estresse, ansiedade e depressão, efeitos da pandemia no cérebro, neuroimagem e COVID-19, implicações das neurociências para intervenções terapêuticas, neurociências e educação. Em seguida, temos a apresentação da metodologia, ou seja, a preparação para responder à questão dessa pesquisa. Para isso, a pesquisa foi conduzida pela natureza quantitativa com cunho descritivo e qualitativa. Nos instrumentos, foram utilizados a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse - DASS-21 e a Escala Generalized Anxiety Disorder - GAD-7 (Transtorno de Ansiedade Generalizada). Assim, verificamos, com os instrumentos destacados, a permanência, o predomínio de problemas de saúde mental em estudantes da educação básica do Distrito Federal. Por fim, com os resultados desta busca, ponderou-se o fornecimento de um melhor entendimento acerca das condições de saúde mental dos estudantes participantes deste estudo. 20 2. HIPÓTESE A exposição prolongada aos efeitos da pandemia da covid-19 está correlacionada com aumentos significativos nos níveis de estresse, depressão e ansiedade em estudantes da educação básica do Distrito Federal. Essas variações comportamentais, por sua vez, são indicadores Proxy para mudanças anatômicas e fisiológicas no cérebro, com base em literatura neurocientífica existente. 21 3. OBJETIVOS 3.1 Objetivo Geral: • Analisar o impacto da pandemia da COVID-19 nos níveis de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da educação básica como marcadores inferenciais para alterações fisiológicas e anatômicas cerebrais. 3.2 Objetivos Específicos: • Quantificar os estados emocionais de depressão, ansiedade e estresse em estudantes da educação básica após o período pandêmico através da escala DASS-21 e da escala GAD-7; • Sintetizar as intervenções e estratégias para mitigar os impactos na saúde mental de estudantes pós-pandemia da COVID-19, com base nas neurociências. 22 4. REFERENCIAL TEÓRICO 4.1 COVID-19 4.1.1 Coronavírus Sars-CoV-2 A doença provocada pelo Coronavírus 2 da Síndrome Respiratória Aguda Grave - Sars-CoV-2, surgida ao final de 2019 em Wuhan na China foi declarada pela Organização Mundial de Saúde - OMS (2020) como a sexta emergência em questão de saúde pública de relevância internacional sendo demandada atenção e instituída como pandêmica. Tendo a OMS sido informada na data de 31 de dezembro de 2019 sobre a ocorrência de inúmeros casos de pneumonia na China, mais especificamente na cidade de Wuhan, localizada na província de Hubei, República Popular deste país, em janeiro, autoridades chinesas comprovaramque a causa seria um novo tipo de vírus, intitulada Coronavírus Disease, Doença do Coronavírus - COVID-19, (LUNARDI et al.; 2021). Nos estudos de Lima et al.; (2022) há o destaque para a nova variante de um vírus, segundo o autor, já conhecido, o coronavírus, Sars-CoV-2. Casos registrados de alta infectividade foram considerados pela OMS (2020) como uma nova cepa, tipo de coronavírus nunca antes identificado nos seres humanos, denominada covid-19. Neste caso, quando um número alto de pessoas da cidade de Wuhan, na China, passou a manifestar uma infecção respiratória grave e desconhecida em um pequeno lapso de tempo, acendeu-se o alarme para o princípio de um surto epidêmico tendo casos semelhantes de infecções respiratórias surgidas rapidamente em outras cidades e regiões da China e sendo alastradas para outras regiões fora do epicentro, destacando assim, o início de uma epidemia (SEGATA, 2020). A epidemia da covid-19 espalhou-se pelo mundo a partir de dezembro de 2019 em casos confirmados no Brasil sendo transmitidos por pessoas que estavam em viagem em países inicialmente infectados pelo vírus nesse período do surto epidêmico (MCKIBBIN; FERNANDO, 2020). Em um curto espaço de tempo, houve um aumento no número de casos da doença em mais países, não somente na China, e continentes, afetando quase toda a população mundial, a OMS decretou o que é classificado o pior dos cenários, a pandemia (SEGATA, 2020). Em Lima et al.; (2022) tem-se que devido 23 ao aumento no número de registro de casos de infecção a nível global, a pandemia da covid-19 foi anunciada em 11 de março de 2020. Segata (2020) explica que surto, epidemia e pandemia são termos utilizados no universo técnico da epidemiologia no que tange a classificação das doenças infecciosas de cunho temporal, geográfico e quantitativo. Esses termos são pertinentes em processos de vigilância e controle tendo em vista as definições dos níveis de atenção, bem como, de protocolos de ação. Assim, o Ministério da Saúde adotou a prevenção como medida de contenção da doença covid-19, e o controle da disseminação do vírus haja vista a falta de tratamento eficaz nas pessoas infectadas (LIMA et al.; 2022). 4.1.2 Pandemias e epidemias no Brasil e no mundo Andrade & Lopes (2021) ponderam que pandemias e epidemias são passíveis de terem como vetores uma infinidade de microrganismos, a saber, vírus e bactérias. Tanto pandemias quanto epidemias expõem as pessoas a graves números de letalidade além de serem consideradas de enorme propagação. Episódios de pandemias e epidemias e suas evoluções impactam diretamente nas deliberações e direções de países e mercados, dizimando inúmeras vidas e expondo a vulnerabilidade dos seres. Nesse contexto, a letalidade nos seres humanos está relacionada a causas de enfermidades respiratórias que são preponderantes neste cenário pandêmico. Estima-se que um índice significativo dessas doenças esteja diretamente relacionado a quadros infecciosos ocasionados por vírus. Um número expressivo de novos vírus respiratórios vem sendo revelado desde o começo do século XXI e afere-se que esses vírus gerem 95% das doenças respiratórias em crianças e bebês e em torno de 30-40% na população idosa (ALBUQUERQUE; SILVA; ARAÚJO, 2020). Zampietro (2019) expõe acerca das primeiras pragas que assolaram o mundo, denominada Justiniano, nome em homenagem ao líder do Império Bizantino. O surto, na época, foi ocasionado por uma bactéria surgida no Oriente, chegando à civilização por meio do comércio. Séculos mais tarde, esse mesmo agente bacteriano seria o responsável pela peste bubônica ou “peste negra” que dizimou um quarto da população 24 da Europa Ocidental em apenas 4 anos, em meados de 1347 a 1352 (LE GOFF; TRUONG, 2006). É imprescindível a compreensão da razão dos surgimentos de surtos de doenças e, para isso, inúmeros fatores podem ser observados, a saber: o crescimento urbano desenfreado, as crises sanitárias, a desigualdade social e a pobreza. Dessa forma, efeitos das doenças infectocontagiosas são potencializados por problemas intrínsecos da própria sociedade, sendo fundamental analisar suas fontes, bem como, suas motivações (ANDRADE; LOPES, 2021). A Lei 11.445 de 5 de janeiro de 2007 – estabelece as Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico – criando o Comitê Interministerial de Saneamento Básico. A referida Lei é responsável por estabelecer as Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico e para a política federal de Saneamento Básico. Entretanto, inúmeras mortes são registradas todos os anos devido à precariedade do sistema para com a população. A crise sanitária presente no Brasil expõe a desigualdade social vivida por muitas pessoas residentes no país. Inúmeras enfermidades e principalmente mortes poderiam ter sido evitadas se o acesso ao saneamento básico fosse eficaz, se os tratamentos de água, de esgoto e de coleta de lixo fossem, de fato, assegurados às pessoas (ANDRADE; LOPES, 2021). A crise sanitária é apenas um exemplo do que a população já ficou exposta em relação a enfermidades ao longo dos anos. As pessoas foram acometidas a vastos momentos de doenças infectocontagiosas, a saber: a Revolta da Vacina, Gripe Espanhola, Poliomielite, Meningite, AIDS, Dengue, Chikungunya, Zika até chegar à pandemia da COVID-19 que se agravou no país a partir de 2020 e que, por ser uma emergência em saúde pública, requer urgência na adoção de medidas de prevenção, de controle e de redução de riscos, de danos em circunstâncias epidemiológicas (ANDRADE; LOPES, 2021). Com a globalização, observou-se nos últimos anos um crescimento na disseminação dos agentes patológicos em todo o globo, como exemplos, os surtos de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida - AIDS, Zika, Síndrome Respiratória Aguda Grave - SARS, Síndrome Respiratória do Oriente Médio - MERS e Ebola que despertaram um alerta no mundo devido à complexidade em conter essas doenças que tiveram enormes impactos nos campos da economia, da política, e do psicossocial 25 (Xiang et al.; 2020). Pesquisas conduzidas no decorrer dessas epidemias e também após, principalmente as denominadas SARS em 2003 e Ebola em 2014 revelaram o medo disseminado da população trazendo o aumento de sintomas como ansiedade, depressão, além do transtorno por estresse pós-traumático (SHUJA et al,. 2020; PERSON et al.; 2004). Ainda, Albuquerque et al.; (2020) ponderam que na última década, a emergência relacionada as doenças como a gripe aviária - Influenza A H5N1 em 2003, a SARS em 2002, a Influenza A H1N1 em 2009 e a Zika em 2015 foram responsáveis por causar inúmeras dúvidas acerca da função da vigilância epidemiológica. A isso, refere-se que pandemias têm ocorrido com frequência e a OMS tem reconhecido, desde 2018, sobre a necessidade de um preparo frente ao surgimento de novos patógenos, como por exemplo, os vírus e bactérias, o que inclui as enfermidades vistas como desconhecidas no rol de prioridades na pesquisa e no desenvolvimento no quadro emergencial. Nesse contexto, os episódios de novos casos de doenças, de novos surtos eram aguardados pelas autoridades competentes, mas não era esperada que a pandemia que viria poderia ser a maior de todas, superando a Gripe Espanhola (ALBUQUERQUE; SILVA; ARAÚJO, 2020). Com a instalação da pandemia a nível global, a quarentena foi decretada mundialmente, incluindo o Brasil que teve seu primeiro diagnóstico confirmado da covid-19 em 26 de fevereiro de 2020. O caso confirmado foi de um paciente que havia retornado de uma viagem à Itália, epicentro do surto da doença, durante o período (HENRIQUES; VASCONCELOS, 2020). 4.1.3 Medidas de prevenção no combate à pandemia da COVID-19 As autoridades de saúde pública brasileiras recomendaram o distanciamento físico social como medida para evitar a propagação da pandemia da covid-19, desde o seu início e,entre outras medidas, o isolamento social das pessoas identificadas como casos confirmados da doença, a higiene das mãos e o uso de máscara protetora facial (LIMA et al.; 2022). Entretanto, o principal mecanismo para reduzir o número de casos confirmados e mortes pela doença foi o fechamento de forma total e/ou parcial de estabelecimentos com potencial para reunir um número significativo de pessoas. Esses 26 locais foram devidamente identificados como as escolas, faculdades e universidades, comércios considerados como serviços não essenciais à população e até fronteiras e o cancelamento de eventos públicos, isto é, qualquer local passível de aglomerações (LIMA et al.; 2022). Em março de 2020, devido a enorme possibilidade em surgir transmissões comunitárias do vírus, instaurou-se a medida de quarentena no Brasil tendo em vista que o isolamento físico social era a maneira tida como a mais efetiva na prevenção a pandemia da covid-19. A medida foi mais efetiva no momento, mas, não inócua para a nossa saúde mental tendo em vista que a condição de cerceamento de liberdade de movimento das pessoas pode acarretar malefícios à saúde mental devido a essa nova situação com mudança brusca na rotina de todos e, dessa forma, não é uma medida inofensiva. E na data de 17 de março de 2020, em decorrência do isolamento físico social, o Ministério da Educação aprova a substituição das aulas presenciais por aulas remotas emergenciais devido a grave crise pandêmica vivida desde o início deste ano. As aulas remotas emergenciais, realizadas no contexto do coronavírus seriam mediadas por tecnologias tendo em vista às medidas de afastamento social instauradas em todo o país e no mundo (BRASIL, 2020). Consoante às medidas de afastamento social, em março de 2020, como proposta de enfrentamento do novo coronavírus, entre elas, o fechamento das escolas com a consequente suspensão das aulas presenciais, essa medida, de acordo com Vazquez et al.; (2022), trouxe impactos: “Por se tratar da principal atividade da maioria dos jovens, a falta da escola afetou significativamente as relações de sociabilidade e as rotinas diárias por um longo período e de forma inédita, especialmente no Brasil” (p.305). As medidas de distanciamento social propostas desde 2020 pelos agentes da saúde têm impactado as relações que as pessoas mantêm entre si e seus respectivos locais de interação na comunidade. Perante a fase de propagação pandêmica, praticamente todas as atividades presenciais foram modificadas para o formato virtual e isso se deu de forma inesperada. Alguns serviços considerados essenciais tiveram sua funcionalidade de forma razoável enquanto outros não tiveram uma forma adaptável que se ajustasse as necessidades de todos os usuários, a saber: a suspensão das atividades presenciais de ensino de todos os estudantes e que a depender das 27 particularidades de cada instituição, houve a adoção de atividades escolares à distância (CRUZ et al.; 2022). Não somente os estudantes, o governo e toda a população tiveram de se enquadrar a esse novo ritmo de vida devido a grave situação pandêmica e instauração da quarentena, com a organização do trabalho em casa, o home office, com o comércio e as escolas fechadas, passando a funcionar somente os serviços essenciais (LUNARDI, 2021 apud GANDRA, 2020; QUEIROGA, 2020; VERCELLI, 2020). Por meio da crise pandêmica, novas crises também foram instauradas, a saber: econômicas, psicológicas, educacionais e em diversos sentidos da vida humana, devido a todas as mudanças ocorridas e de forma obrigatória, bruscas (ALVES, 2020). Segundo a OMS (2022), as informações obtidas no resumo científico acerca dos impactos da covid-19 na saúde mental do mundo são consideradas somente “a ponta do iceberg”, ressaltando que este se constitui como um alerta para que todos os países possam dedicar mais atenção à saúde mental e desenvolver um atendimento melhor, de apoio e contribuição à saúde mental da população. Esse aumento decorre do sintoma de estresse considerado sem precedentes e ocasionado pelo isolamento social a que a população foi exposta por um longo tempo em decorrência da pandemia da covid-19. Além disso, as restrições impostas como medidas de contenção da doença, como a capacidade dos indivíduos desenvolverem seus ofícios, a procura de apoio dos familiares e envolvimento em seus grupos. A solidão vivida pelas pessoas, o medo de contágio da doença, a dor e o sofrimento de entes queridos, o luto e preocupações em torno da questão financeira são exemplos de estressores que também foram mencionados na pesquisa. Esses múltiplos fatores de estresse conduzem aos sintomas de ansiedade e de depressão. A Organização Pan-Americana da Saúde – OPAS (2022) desenvolveu uma pesquisa em que foram apresentados dados atribuídos a um resumo científico de que no primeiro ano da pandemia da covid-19 foi desencadeado um aumento de 25% na prevalência global dos sintomas de ansiedade e de depressão em todo o mundo. Com base nesses dados, a OMS (2022) faz um alerta para a intensificação dos serviços de saúde e de apoio à saúde mental da população por todos os países. O resumo científico também aponta quem foi mais afetado e preconiza as consequências da pandemia da covid-19 no quesito de disponibilidade de serviços de saúde mental e como isso foi 28 alterado durante a emergência de saúde pública. Segundo a OMS, preocupações com prováveis crescimentos dessas condições conduziram o equivalente a 90% dos países observados para a inclusão de serviços de saúde mental e apoio psicossocial em seus planos de resposta à pandemia da covid-19, porém, há o predomínio de enormes lacunas e apreensões sobre essa questão tão emergente e preocupante. Outro estudo realizado pela OMS (2020) retrata que a OPAS fez um alerta de que a pandemia da covid-19 pode contribuir para o aumento dos fatores de risco para o suicídio. O objetivo do alerta foi de que mesmo com o distanciamento físico social, as pessoas poderiam continuar conectadas com seus entes queridos e amigos com o intuito principalmente de identificar os sinais de alerta para os potenciais riscos que a pandemia da covid-19 trouxe para toda a população. De acordo com a pesquisa, o coronavírus está comprometendo a saúde mental de muitas pessoas e pesquisas recentes apontaram um crescimento nos sintomas de angústia, ansiedade e depressão. O chefe de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OPAS, destaca que os efeitos da doença do novo coronavírus possivelmente “afetou o bem-estar mental de todos”. Dessa forma, torna-se fundamental o cuidado com a saúde mental, estar atento aos sinais de alerta que podem corresponder ao risco de suicídio além da importância da manutenção dos vínculos sociais. 4.1.4 Crises dentro da crise pandêmica Em vários estados no país e no DF, em consonância com a Portaria Conjunta N0 12, de 28 de outubro de 2021, que dispõe sobre as medidas de prevenção, monitoramento e controle da COVID-19 nas unidades escolares da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal, as aulas nas escolas públicas foram retomadas, mas, de forma remota no segundo semestre de 2020. Já as aulas presenciais, foram retomadas de forma gradual no DF, somente no segundo semestre de 2021. Dessa forma, os estudantes passaram um tempo extenso de isolamento social e, também, dos vínculos afetivos com os colegas da escola, professores e amigos. Nesse período de isolamento social ocorreu, segundo Vazquez et al.; (2022) a suspensão das rotinas fundamentais no que se refere principalmente ao estudo e ao lazer e isso em uma fase da vida em que as atividades de cunho social são visivelmente mais 29 profundas e, além disso, o crescimento dos danos à saúde mental em um período em que as fragilidades emocionais encontram-se exacerbadas. Em Rodrigues et al.; (2020) temos que a medida emergencial preventivaadequada a proteção da saúde, bem como, salvar vidas, como a quarentena e o isolamento físico social, podem acarretar vários sintomas denominados psicopatológicos, como por exemplo, alterações no humor apresentando humor deprimido, irritabilidade, insônia, ansiedade, temor, fúria, estresse pós-traumático, confusão mental, dentre outros sintomas inerentes ao estado que o cerceamento da liberdade pode desencadear na população. Com a medida preventiva obrigatória que consistiu no fechamento total das escolas, esse ambiente que propicia a interação social e, que muitas vezes, constitui-se como único meio a que os jovens têm acesso, deixou de existir na vida dos estudantes impactando no seu desenvolvimento social como indivíduo, em seu aspecto afetivo- emocional no processo de amadurecimento, no modo de se integrar as suas próprias experiências, suas particularidades, no seu aspecto social, na forma como o indivíduo reage perante situações que envolvem o outro, em grupos (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001), no seu bem-estar, bem como, no seu desenvolvimento cognitivo tendo em vista as mudanças ocorridas na forma do ensino e aprendizagem. Estudantes adolescentes são indivíduos em processo de transformação e faz-se necessária a compreensão de suas necessidades, as peculiaridades inerentes a essa fase de desenvolvimento. É preciso dar voz a esses estudantes, entender seus anseios, refletir sobre possíveis formas de cuidado haja vista os comportamentos na saúde mental. Para muitos estudantes, as escolas são vistas não apenas como um espaço para o aprendizado, mas como um local que possibilita a convivência com o outro, um lugar para encontrar os amigos, para que estes possam se socializar (VAZQUEZ et al.; 2022). Adolescentes e jovens formam aproximadamente 37% da população nacional e expõem um período do ciclo vital considerado saudável e em que danos derivam de causas culturais e sociais, que tendem a ampliar a questão da vulnerabilidade desse grupo no que tange aos direitos e oportunidades (COSTA et al.; 2021). Ávila et al.; (2021) apud Friedman, (1994) ponderam que é nesse período da adolescência que surgem transformações de cunho emocional que são relevantes para o sujeito, a saber: a formação da autoestima e da autocrítica, indagações sobre os valores dos pais e dos adultos, de forma geral. É nessa fase da adolescência que compreendem as descobertas 30 entre a infância e a idade adulta em que o adolescente não é adulto ainda e, portanto, não é recomendável assumir responsabilidades de uma vida adulta, mas, também não é mais criança. Constitui-se como um sujeito em formação, na constituição de sua identidade e disso decorrem mudanças psicológicas consideráveis além de mudanças neuroendócrinas, cerebrais e mudanças físicas. Segundo Winnicott (2005), “esta é uma fase que precisa ser efetivamente vivida, e é essencialmente uma fase de descoberta pessoal” (p.70). Ressalta-se a importância de perceber os estudantes adolescentes na sociedade e considerando que eles compreendem uma parte expressiva da população brasileira, o processo de formação de sua identidade, o adolescer é fundamental e gera implicações para a geração seguinte, a de adultos. É primordial tecer estratégias que inviabilizem o adoecimento psíquico desses estudantes para que possam se desenvolver efetivamente e serem futuros adultos conscientes, integrados em seu meio, na sociedade da qual pertencem. Analisar as implicações do período pandêmico na saúde mental dos estudantes com a meta de prevenção, bem como, da diminuição de seus efeitos tanto na vida acadêmica quanto na vida pessoal destes (COSTA et al.; 2021). 4.2 SAÚDE MENTAL 4.2.1 Saúde e doença Saúde compreende tanto o bem-estar físico como o psicológico e social, assim como conceitua Straub (2014) acerca da saúde que envolve uma condição de completo bem-estar na ordem física, mental e social. O autor esclarece sobre questões inerentes à saúde e doença exemplificando que não obstante todas as civilizações terem sido atingidas por doenças, cada uma delas entendia e abordava a doença de maneiras distintas. No período pré-histórico, por exemplo, pensava-se que os demônios fossem as causas do surgimento das doenças. Já na Idade Média (476-1450), as pessoas acreditavam que as causas das doenças constituíam formas de punição devido a fraquezas de cunho neural. Compreender a história nos auxilia a entender em como as questões relacionadas à saúde e doença são tratadas atualmente, ao considerar como as nossas percepções acerca dessas temáticas foram modificadas ao longo dos anos. 31 Os esforços para tratar doenças advêm da medicina pré-histórica, datada de 20 mil anos. E aproximadamente 4 mil anos atrás, algumas populações tiveram a percepção da importância de bons hábitos de higiene para a preservação da saúde, entendendo que a higiene exercia uma função na saúde e na doença e, assim, fizeram tentativas de melhorias na higiene de ordem pública, como por exemplo, os egípcios que faziam rituais de limpeza para evitar que vermes geradores de doenças pudessem infestar o corpo. Já na Mesopotâmia, produzia-se sabão e delineavam-se disposições sanitárias e instalavam-se sistemas públicos para o tratamento de esgotos (STONE, COHEN & ADLER, 1979 apud STRAUB 2014). Foi na Grécia e em Roma que os avanços em saúde pública e saneamento foram mais significativos, mais precisamente nos séculos V e VI a.C. Em Roma, um enorme sistema de drenagem, denominada Cloaca Maxima, foi edificada com o intuito de drenar um pântano, que posteriormente designou-se como o Fórum Romano. Com o passar do tempo, a Cloaca tornou-se um sistema contemporâneo de esgotamento sanitário e banheiros públicos tornavam-se comuns em meados do século I d.C. em Roma. Outras modificações também foram desenvolvidas em Roma, como por exemplo, o primeiro aqueduto, responsável por trazer água pura no ano de 312 a.C. e a limpeza dos locais públicos era supervisionada por uma equipe de oficiais que também controlava o fornecimento de alimentos. Essa equipe era responsável por criar regras que visavam assegurar que carnes e outros alimentos considerados perecíveis estivessem frescos e estabeleciam também o armazenamento de enormes quantias de grãos para prevenção da fome (CARTWRIGHT, 1979 apud STRAUB, 2014). Em consonância com os estudos de Straub (2014), a saúde e a doença são acontecimentos fundamentalmente de cunho biológico. Dessa forma, o entendimento dos sistemas físicos do corpo se faz indispensável para compreendermos o quanto os bons hábitos auxiliam na prevenção de doenças e na promoção do bem-estar. Em contrapartida, os maus hábitos fazem o oposto. 4.2.2 A depressão Dalgalarrondo (2019) relata que Jean Staronbinski (1920-2019), considerado um dos mais notáveis historiadores da psicopatologia, nos instrui acerca do personagem 32 Belerofonte que sofre de uma grave tristeza, a melancolia, no século VIII a.C., na Ilíada, poema épico da Grécia antiga, tendo em vista que “[...] objeto de ódio para os deuses, ele vagava só na planície de Aleia, o coração devorado de tristeza, evitando os vestígios dos homens” (Ilíada, versos 200-3). Ainda na Grécia antiga, mas séculos depois, Hipócrates (460 a.C. -370ª.C.), dizia: “Quando o medo e a tristeza persistem por muito tempo, constituem a melancolia” (Hipócrates, Aforismos, VI, 23, p. 147). Em Starobinski, (2016) apud Dalgalarrondo (2019), temos que na Idade Média, de igual modo, filhos de Saturno e os atingidos pelo pecado da acedia, eram também considerados como melancólicos. A história remonta que o período do renascimento é classificado como a “idade de ouro da melancolia” e, além disso, o sentimento melancólico também fez parte do período do romantismo nos séculos XVIII e XIX. Dessa forma, a depressão é reconhecida desde a Antiguidade, apenas alterando suas feiçõesconforme a época e a cultura, sem deixar de seguir de perto a vida dos seres humanos. Santos & Nascimento (2023) conceituam a depressão como um transtorno que ocasiona transformações no campo social, psicológico, fisiológico e biológico e que indivíduos que recebem o diagnóstico de depressão manifestam implicações no funcionamento psicossocial, na saúde física, mortalidade e na qualidade de vida. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5 conceitua que o Transtorno Depressivo Maior, comumente denominado de depressão, possui características específicas que podem comprometer a capacidade da pessoa funcionar. A pessoa acometida com esse transtorno apresenta o humor triste, vago, irritável e vem rodeado de alterações de cunho somático e cognitivo. A seção do DSM-5 acerca dos transtornos de humor abrange a depressão e o transtorno bipolar e de acordo com Norris (2021), os índices de transtornos de humor são mais altos entre os indivíduos que residem na ou às margens da pobreza. Em Boas et al.; (2019) e Pitssilou et al., (2020) têm-se que a teoria monoaminérgica pressupõe que a depleção de neurotransmissores entre as sinapses é a responsável pelas alterações no humor. Nesse âmbito, Norris (2021) descreve que os distúrbios neurológicos do sistema límbico e dos núcleos da base do mesmo modo estão implicados no desenvolvimento de transtornos de humor. Associa-se disfunção de neurotransmissores à depressão em decorrência de um desequilíbrio de 5-HT - receptor 33 de serotonina e/ou adrenalina. Estudos atuais também atribuem à dopamina aos transtornos depressivos. Diversos estudos ao longo dos anos destacam a prevalência da depressão no Brasil e no mundo nas pessoas diagnosticadas com esse transtorno, a saber: uma pesquisa no Brasil na cidade de São Paulo, Andrade et al., (2002), destacam os achados correspondentes ao quantitativo de 1.464 pessoas a partir dos 18 anos de idade que nessa época, no ano de 2002, já apresentavam predominância de depressão na vida de 17% do total. Ribeiro et al., (2013), em outro estudo ainda no Brasil, apresentou dados das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, nos anos de 2007 e 2008, com 3.744 pessoas participantes na faixa etária entre 15 e 75 anos, em que foram localizados a predominância de depressão na vida de 17,4% no Rio de Janeiro e de 19,9% em São Paulo. Para computar a amostra, foi utilizado o instrumento denominado Composite International Diagnostic Interview - CIDI. Nos estudos de Ferrari et al., (2013); Lam et al., (2016), são delineados que o predomínio pontual da depressão maior seja estimada em torno de 4,4 a 4,7% no mundo, e ainda, de 3,0 a 6,6% nos últimos doze meses, e de até 16,25 a prevalência na vida, sendo considerada baixa, aproximadamente 5% nos países como Taiwan, China e Japão e considerada alta, sendo mais de 15% nos Estados Unidos, na França e na Holanda. Outro estudo datado do ano de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE teve a participação de 49.025 pessoas adultas sendo entrevistadas em 69.954 domicílios com o uso do instrumento intitulado Patient Health Questionnaire-9 - PHQ-9 na identificação da depressão pela epidemióloga da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, (BARROS et al.; 2017). Nesse estudo foi identificado que no período estabelecido de duas últimas semanas à realização da amostra, 9,7% das pessoas entrevistadas tinham manifestado algum quadro considerado depressivo, sendo 3,9% de depressão maior e 21% dos entrevistados descreveram humor depressivo. Ainda, 34,9% das pessoas do estudo apresentaram um quadro de humor depressivo por um período maior que sete dias e 7,2% das pessoas foram diagnosticadas com depressão, em alguma fase da vida. Dessa forma, de acordo com os achados relativos ao Brasil, provavelmente os índices são superiores para depressão maior, observando o panorama internacional. 34 Em todo o mundo, a depressão atingiu o patamar no ano de 2010 de aproximadamente 298 milhões de pessoas e, destas, as mulheres representam o quantitativo de 187 milhões, segundo Kessler et al., (2007); Ferrari et al., (2013). A OMS caracteriza a depressão como uma das principais causas do que é identificado como “anos vividos com incapacidades” - YLDs, years lived with disability e “perda de anos em termos de morte prematura e perda de anos de vida produtiva” - DALY Disability Adjusted Life Years. No ano de 2010, a DALY correlacionada à depressão, foi associada a aproximadamente 16 milhões de suicídios, ainda de acordo com Ferrari et al., (2013). Assim, a depressão é responsável por um impacto relevante na saúde física e mental das pessoas acometidas por esta doença e na qualidade de vida destas. Pesquisas de cunho epidemiológico em Bolton et al., (2010) apud Dalgalarrondo (2019), retratam a preocupante realidade de tentativa de suicídio de 15 a 40% das pessoas com depressão maior. Achados de suicídios completos despontam o percentual de que 60% de todos eles são concretizados por pessoas depressivas, isto é, ser acometido pela doença desencadeia em até 20 vezes o risco de consumação do suicídio. Del Pino, (2003) apud Dalgalarrondo (2019), conceitua que as síndromes depressivas, em se tratando da visão psicopatológica, têm o humor triste como componentes mais marcantes e o desânimo no campo volitivo. Sentimentos de tristeza e desânimo são considerados mais penosos e resistentes quando se trata da doença depressão em comparação com situações naturais de tristeza que acontecem no decorrer da vida. Segundo dados da OMS (2023), até o ano 2020 a depressão estaria no rol da principal doença mais dominante em todo o mundo. Dados atuais revelam que mais de 120 milhões de pessoas são acometidas com a doença depressão em todo o mundo e no Brasil esse quantitativo é de mais de 17 milhões. Estudos revelam que aproximadamente 850 mil pessoas perdem a vida ao ano em decorrência do desenvolvimento de quadros graves da depressão. A OMS ainda enfatiza que além da doença ser considerada como um dos distúrbios mais predominantes em todo o mundo, a forma de prevenção e tratamento é inconstante devido aos mais diversos casos, bem como, níveis de gravidades, e em alguns casos, o próprio indivíduo rejeita o diagnóstico e se esquiva do tratamento e, dessa forma, torna-se inviável a conservação de sua saúde desencadeando em um enorme desafio a ser resolvido (PARAMI, 2021). 35 Na tabela de Kupfer et al., (2012); Singh; Gotlib, (2014) apud Dalgalarrondo, (2019) a seguir, temos a exposição completa de uma síntese dos conjuntos de sinais e sintomas conforme o campo psicopatológico. Tabela 1 Sintomas das síndromes depressivas nas diferentes esferas psicopatológicas Sintomas afetivos e de humor Alterações da volução e da psicomotricidade § Tristeza, sentimento de melancolia, na maior parte do dia, todos ou quase todos os dias; § Choro fácil e/ou frequente; § Apatia (indiferença afetiva: “tanto faz como tanto fez”), na maior parte do dia, todos ou quase todos os dias; § Sentimento de falta de sentimento (“É terrível: não consigo sentir mais nada!”); § Sentimento de tédio, de aborrecimento crônico; § Irritabilidade aumentada (a ruídos, pessoas, vozes, etc.), na maior parte do dia, todos ou quase todos os dias; São frequentes também: § Angústia; § Ansiedade; § Desespero; § Desesperança. § Desânimo, diminuição da vontade (hipobulia: “não tenho pique para mais nada”); § Anedonia (incapacidade de sentir prazer em várias esferas da vida, como alimentação, sexo, amizades); § Tendência a permanecer quieto na cama, por todo o dia (com o quarto escuro, recusando visitas); § Aumento na latência entre as perguntas e as respostas; § Lentificação psicomotora (pode progredir até o estupor/catatonia; § Estupor/catatonia; § Diminuição da fala, fala em tom baixo, lenta,e aumento da latência entre perguntas e respostas; § Mutismo (negativismo verbal completo); § Negativismo (recusa à alimentação, à interação pessoal, etc.); 36 Alterações ideativas Alterações da esfera instintiva e neurovegetativa § Ideação negativa, pessimismo em relação a tudo; § Ideias de arrependimento e de culpa; § Ruminações com mágoas atuais e antigas; § Visão de mundo marcada pelo tédio: (“A vida é vazia, sem sentido, nada vale a pena”); § Realismo depressivo: inferências sobre a vida mais realistas e pessimistas em relação a pessoas sem depressão, sendo que estas tenderiam a apresentar um viés positivo de avaliação da realidade; § Ideias de morte, desejo de desaparecer, dormir para sempre; § Ideação, planos ou atos suicidas. § Fadiga, cansaço fácil e constante (sente o corpo pesado); § Insônia ou hipersonia; § Diminuição ou aumento do apetite; § Constipação, palidez, pele fria com diminuição do turgor; § Diminuição da libido (do desejo sexual); § Diminuição da resposta sexual (disfunção erétil, orgasmo retardado ou anorgasmia). Alterações da autovalorização Alterações cognitivas § Autoestima diminuída; § Sentimento de insuficiência, de incapacidade; § Sentimento de vergonha; § Autodepreciação. § Déficit de atenção e concentração; § Déficit secundário de memória; § Dificuldade de tomar decisões; § Pseudodemência depressiva. 37 Perdas e depressão Sintomas psicóticos Alguns aspectos neurobiológicos da depressão § Ideias delirantes de conteúdo negativo: o Delírio de ruína ou miséria; o Delírio de culpa; o Delírio hipocondríaco e/ou de negação de órgãos e partes do corpo; o Delírio de inexistência (de si e/ou do mundo). § Alucinações, geralmente auditivas, com conteúdos depressivos; § Ilusões auditivas ou visuais; § Ideação paranóide e outros sintomas psicóticos humor-incongruentes (delírio de perseguição, quando presente, pode revelar que, de algum modo, a pessoa “mereceria” ser perseguida e punida). Alterações estruturais do cérebro § Redução do volume do hipocampo (que se associa a formas mais graves de depressão); § Redução de área cinzenta em: cíngulo anterior, striatum, ínsula, amígdala e córtex pré-frontal. Alterações funcionais do cérebro § Alterações em circuitos pré-frontal- límbicos, modulados por serotonina, e circuitos striatum- frontais, modulados por dopamina; § Aumento de atividade em sistemas neurais de base para o processamento de emoções (amígdala e córtex pré-frontal) e redução em sistemas neurais de apoio à regulação de emoções (córtex pré-frontal dorsolateral). Fontes: Kupfer et al.; (2012); Singh; Gotlib, (2014) apud Dalgalarrondo, (2019). 4.2.3 A ansiedade De acordo com dados da OMS (2022), o Brasil é considerado o país com mais casos de ansiedade no mundo e conforme descrições de especialistas há casos em que alguns sinais e sintomas podem não ser somente um desconforto eventual e sim um transtorno de ansiedade e, nesses casos, classifica-se como uma doença que requer tratamento e acompanhamento médico especializado. Sentir-se com o coração acelerado perante uma avaliação, nervosismo, inquietação por ter de apresentar algo importante, 38 se sentir ansioso, são exemplos de respostas naturais e temporais do organismo humano frente a momentos de estresse que foge da rotina habitual que um indivíduo está acostumado. Mas, nem sempre esses sinais e sintomas são considerados temporários e a condições adequadas aos fatos que causam apreensão. Segundo estudos da OMS, no ano de 2019, 18,6 milhões de brasileiros conviviam com o transtorno de ansiedade, isto é, cerca de 10% da população. Com esses dados alarmantes, a coordenação do Centro de Estudos do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro - IPUB-UFRJ, explica quando os sintomas de ansiedade não despontam mais como um efeito normal e despertam o alerta de que algo não vai bem. Assim, destaca-se a diferença entre ansiedade comum para a ansiedade patológica. A ansiedade normal se caracteriza como aquela em que todos nós podemos apresentar em algum momento do nosso cotidiano. Porém, o transtorno de ansiedade é aquele que limita o dia a dia das pessoas, a saber: a pessoa acometida pela doença pode não conseguir desenvolver suas atividades cotidianas como estudar e trabalhar e, além disso, apresenta o sofrimento de cunho físico e psíquico de forma mais profunda e os sintomas apresentados não são fundamentalmente pautados a uma questão específica. Dessa forma, a pesquisa da OMS destaca que os sintomas do transtorno de ansiedade podem variar de pessoa para pessoa, entretanto, podem ser manifestados de maneira similar ao de sintomas de ansiedade considerados comuns do dia a dia. Na ansiedade patológica, a propensão é de que os sintomas tenham uma duração mais prolongada e se constituam de forma mais intensa e ademais, os sintomas podem surgir sem que ocorra uma motivação para isso. Com a ansiedade comum do dia a dia, os sintomas perduram somente algumas horas e tendem a sumir com a remoção do estímulo responsável por incitar a situação de desconforto. Conforme dados apresentados por Somers et al.; (2006); Kessler et al.; (2007) & Remes et al., (2016), no mundo, as síndromes ansiosas são responsáveis por retratar os transtornos mentais mais constantes manifestando uma predominância na vida da pessoas acometida pela doença de aproximadamente 17 a 30%. No Brasil, Andrade et al., (2012); Ribeiro et al., (2013) ponderam que achados epidemiológicos registrados nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro despontaram ao menos um transtorno de ansiedade e/ou de fobias no período dos últimos doze meses da pesquisa e essa amostra 39 foi de 18,8 a 20,8% das pessoas e ao menos uma incidência na vida em 27,7 a 30,8% da população. Em Hollander; Simeon, (2004) apud Dalgalarrondo (2019), evidencia-se que as síndromes ansiosas são agrupadas de duas formas, a saber: transtorno de ansiedade generalizada - TAG e os transtornos de pânico. A tabela a seguir sintetiza os principais elementos que compõem esses dois tipos de transtorno, de acordo com o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais - DSM-5 e a Classificação Internacional de Doenças e problemas relacionados à saúde - CID-11. Tabela 2 Critérios diagnósticos para os transtornos de ansiedade segundo o DSM-5 e a CID-11 Transtorno de ansiedade generalizada TAG Ataque de pânico e transtorno de pânico § Ansiedade, apreensão e preocupações excessivas na maioria dos dias, por muitos meses (no DSM-5, pelo menos seis meses), em diferentes atividades e eventos da vida. Além disso, a pessoa considera difícil controlar a preocupação e a ansiedade; § A ansiedade e a preocupação estão associadas a pelo menos mais três dos seguintes sintomas: o inquietação ou sensação de estar “com os nervos à flor da pele”; o cansaço fácil, fatigabilidade; o dificuldade de concentrar-se; o irritabilidade, “pavio curto”; o tensão muscular, dificuldade de relaxar; o alteração do sono (dificuldade de pegar no sono ou mantê-lo). Ataque de pânico § Crises de ansiedade, de intenso desconforto ou de sensação de medo que alcançam um pico em minutos (geralmente não duram mais que meia ou uma hora), com pelo menos quatro dos seguintes critérios: o palpitações ou taquicardia; o sensação de falta de ar, desconforto respiratório; o sensação de asfixia ou de estar sufocando; o suor de mãos, pés, face, geralmente frio; o medo de perder o controle ou enlouquecer; o medo de morrer, de ter um ataque cardíaco; o tremores ou abalos; 40 § O foco da ansiedade ou preocupação não é decorrente de outro transtorno mental (como medo de ter crises de pânico, ser contaminado – no caso de TOC -, ganhar peso