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AJUFE - Os Magistrados Federais e a Reforma da Previdência

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Europa Ocidental e Japão).
Assim, com a diminuição da oferta de emprego, com a diminuição do crescimento econômico
e com a precarização das autonomias dos Estados-nação, forma-se um quadro em que o
investimento econômico em atividades produtivas torna-se cada anacrônico, ocasionando a
precarização das relações de trabalho.
Isso afeta sobretudo a possibilidade de continuidade do pacto de gerações característico do
regime de repartição, pois há cada vez menos gente empregada formalmente gerando as
contribuições necessárias para o financiamento dos aposentados.
De outro lado, há cada vez mais aposentados ou pretendentes a inativação, resultado
sobretudo da elevação da longevidade da população. É nesse contexto que no mundo todo começam
a ser articulados esforços principalmente através das instituições multilaterais de crédito (Fundo
Monetário Internacional, Banco Mundial) no sentido de reformas estruturais dos sistemas internos
6 Alves, Giovani, “Trabalho e Mundialização do capital - A Nova Degradação do Trabalho na Era da Globalização”, Giovanni
Alves, Editora Praxis, 1999)
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de previdência e pensão, seguindo-se como primeiro exemplo é sempre citada a reforma do sistema
de previdência social do Chile, que passou de um sistema de repartição para um sistema de
capitalização. Significativo desse esforços de convencimento é o posicionamento de Estelle James7,
Economista Sênior do Departamento de Pesquisas de Políticas do Banco Mundial, que assim
escreveu:
Ao longo dos próximos 35 anos, a proporção da população mundial acima de 60 anos
praticamente dobrará, de 9% para 16%. Devido aos rápidos aumentos na expectativa de vida e aos
declínios das taxas de fertilidade, as populações estão envelhecendo muito mais rapidamente nos
países em desenvolvimento do que ocorreu nos países industraisi. À medida que as pessoas jovens
em idade de trabalho produtivo se aproximarem da aposentadoria – por vlta de 2030 -, 80% da
população idosa do mundo viverão no que hoje são os países em desenvolvimento.
Mas não é só decorrente do aumento da população em idade avançada e elegível para
benefícios de inativação que é apregoada a Reforma da Previdência.
Com efeito, como já dito que o sistema de repartição baseia-se em um sistema de pacto de
solidariedade entre gerações, o sistema baseia-se (como no Brasil) em contribuições de
trabalhadores e com contribuições de seus empregadores.
Isso implica em custos para os empregadores, calculados sobre a folha de pagamentos,
que por vezes desestimulam a oferta de empregos, com a conseqüente fuga para o mercado
informal de trabalho e a busca de aposentadorias o mais rápido possível, ante o risco de “quebra”
do sistema de aposentadoria, com o que aqueles que possuem condições de usufruir um benefício
previdenciário, por mínimo que seja, preferem antecipar a fruição do benefício a arriscar não ter
benefício algum no futuro. Isso também causa a saída do mercado de trabalho de mão de obra
experiente, causando problemas no processo produtivo.
O Banco Mundial tem afirmado que para eliminar o risco de “quebra” do sistema de
aposentadoria baseado na repartição, o ideal é adotar um novo sistema, baseado em três pilares,
estruturados da seguinte forma:
- um pilar obrigatório gerenciado pelo governo e financiado a partir dos impostos para fins
de redistribuição;
- um pilar obrigatório gerenciado pelo setor privado e plenamente capitalizado, para fins
de poupança;
- um pilar voluntário para aquelas pessoas que desejam mais proteção na aposentadoria.
Na realidade, as razões de adoção de um novo sistema de previdência não se justifica
somente pela impossibilidade de continuação do sistema de repartição. Em realidade há outras
razões que não apenas a preocupação com as futuras gerações.
Ocorre que o sistema mundial sofreu grandes mudanças a partir da década de 1970. Com
efeito, o financiamento que havia para mercados emergentes, a partir de juros baixos e crédito fácil
passou a sofrer cada vez mais restrições a partir da primeira crise do petróleo (1973). O crédito
passou a escassear e as taxas de juros para empréstimos internacionais foram crescendo, de tal
forma que o crescimento econômico não conseguia gerar os superávits necessários para pagar os
empréstimos já contraídos e gerar poupança interna, capaz de financiar atividades produtivas e
7 James, Estelle, Novos Sistemas Previdenciários: Experiências, Evidências e Questões Pendentes, disponíivel em http://
/www.mpas.gov.br/docs/volume 09.pdf (acesso em 31/01/03)
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gerar o crescimento econômico necessário para incorporar as novas massas de mão-de-obra ao
mercado de trabalho.
De outro lado, a dívida externa cresce sem a geração de novos empréstimos, o que obriga
a dispender cada vez maiores parcelas do PIB para pagar as dívidas já contraídas. Os credores
passam a exigir, além de aumento das taxas de juros, garantias do pagamento da dívida, que
somente podem ser dadas a partir da compressão das políticas públicas, com a diminuição de
recursos para as políticas redistributivas.
Surge, então, como fórmula mágica, a adoção de sistemas de capitalização para a previdência
social, que de um lado teria o condão de diminuir os gastos públicos com a previdência e de outro
lado, poderia gerar a poupança interna necessária para retomar o ciclo virtuoso do crescimento
econômico.
Esta é, em síntese apertada as justificativas teóricas da necessidade de Reforma da
Previdência, surgida muito mais como um fenômeno decorrente da mundialização do capital e
fragilidade das economias dependentes dos países em desenvolvimento do que uma preocupação
sincera dos organismos internacionais com o futuro dos países em desenvolvimento e suas
populações idosas.
A REFORMA DO REGIME GERAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL
O Ministério da Previdência Social – MPAS – de longa data está comprometido com reformas
do sistema de previdência social, fruto e conseqüência da visão política dos governantes brasileiros
a partir da última década do século passado. Com efeito, tem feito grandes estudos nesse sentido8 ,
sempre com vistas a defesa da reforma do sistema, com vistas a redução de benefícios ou aumento
da idade mínima para o gozo de benefícios.
O ponto culminante nesse sentido é o DIAGNÓSTICO DO SISTEMA PREVIDENCIÁRIO,
que pode ser visto no site do MPAS. Nesse diagnóstico, é apontado o crescimento da longevidade
da população, a deterioração das relações formais de trabalho entre 1990 a 2002 e que avançamos
de uma situação de praticamente igualdade entre o montante de receitas previdenciárias no ano de
1995 (com um déficit de apenas 400 milhões de reais) para um déficit de 17 bilhões de reais em
2002.
Na realidade, esta avaliação pode ser contestada com relativa facilidade.
Ocorre que nesse resultado não estão consideradas as contribuições da seguridade social
(PIS, COFINS, CSLL, CPMF), além do que não são computadas as renúncias fiscais, que foram
estimadas em mais de dez bilhões de reais apenas no ano de 2002.
Por outro lado, os excedentes gerados até o ano de 1995 foram apropriados pelo Tesouro
Nacional, principalmente para o pagamento de juros , sem que ocorresse qualquer retorno desses
valores aos cofres da Previdência Social.
Por outro lado, a Constituição de 1988 assegurou aos trabalhadores rurais a garantia de
aposentadoria de um salário mínimo, sem a necessidade de contribuição , sendo que a Lei 8.213/
8 A coleção da Previdência Social, que pode ser encontrada no site do MPAS tem desenvolvido estudos nesse sentido,
sendo vasta a bibliografia nesse caminho, bem como vários os seminários e encontros nesse sentido.
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91 ampliou a cobertura aos segurados rurais (através do conceito de núcleo familiar rural). Ainda,
a contribuição do meio rural é calculada sobre um percentual da produção com o que tem-se um
quadro que os benefícios rurais terminam por gerar um déficit apenas nessa área de quase quinze
bilhões