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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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receber qualquer informação que julgassem oportuna e importante para 
meu conhecimento. 
Assim procedi, porque seria mais objetivo obter informações não 
solicitadas diretamente por mim do que respostas às minhas questões, 
uma vez que estava envolvida na terapia. No entanto, nada me foi 
notificado pela escola. 
Estava interessada na observação que Dibs havia feito sobre o 
coelhinho da escola. Era um indício de que, embora não fosse um 
membro ativo e participante do grupo, estava observando, aprendendo, 
refletindo, extraindo conclusões, enquanto sondava, à margem dos 
acontecimentos. Seria interessante saber qual seu comportamento na 
escola e em casa. Sem dúvida, seria também interessante, para aqueles 
que conheciam Dibs, saber como ele se expressava na ludoterapia. 
Entretanto, não tencionava mudar a orientação que vinha 
adotando, pois minha preocupação prioritária era com a percepção 
atual de Dibs a respeito do seu mundo, seu relacionamento, de seus 
sentimentos, do desenvolvimento de seus conceitos, suas conclusões, 
deduções e inferências. Podia imaginar Dibs abrindo a porta para que o 
coelho enjaulado vivesse sua liberdade. Podia compreender o impulso 
que o predispôs a essa atitude. 
Dibs continuava seu brinquedo. Ergueu a cerca de papelão em 
volta dos animais. 
- Farei uma porta na cerca - avisou, enquanto cortava e dobrava o 
papelão para fazer a abertura. - Assim os animais poderão sair quando 
bem quiserem. 
- Estou vendo. 
Apanhou, então, vários pedacinhos de papelão de formas muito 
originais para delimitar a cerca, e os examinou detalhada e 
criticamente. 
- Isto é... Isto é... - falava, tentando definir o objeto. - Bem, isto é 
um pedaço de nada. Assim é que o nada deve ser - concluiu levantando-
os para que eu pudesse vê-las. 
Ouvindo-o, percebi quão acurada havia sido aquela sua 
inferência. 
- Este homem aqui tem uma espingarda - comentou. - Este está 
montado a cavalo. Aqui estão mais soldados. Que tal enfileirá-los à 
borda da caixa de areia? Ah!, já sei! Vou colocá-los na caixa - disse, 
executando seus planos. - Este caminhão está, mais uma vez, abrindo 
uma estrada em volta da casa. O coelho e o gato estão olhando pela 
janela: Apenas observando. 
Dibs sentou-se ali com as mãos entrelaçadas em seu colo, 
olhando para mim, em completo silêncio. A expressão de seu rosto era 
séria, mas seus olhos faiscavam, revelando seus pensamentos. 
Inclinou-se para aproximar-se mais de mim. 
- Hoje não é o dia da Independência - falou. - E não será até que 
chegue o dia 4 de julho. Mas 4 de julho será uma quinta-feira. Faltam 
quatro meses e duas semanas para esse dia, uma quinta-feira, e eu 
virei aqui e encontrarei Miss A. Olhei no calendário para saber se 1º de 
julho caía numa segunda-feira. Então, terça-feira é dia 2, quarta-feira 
dia 3. Quarta é quase o dia da Independência, mas ainda não é. Então, 
vem 4 de julho, que é o dia da Independência e é justamente uma 
quinta-feira, dia da semana em que me encontro com você - comentou, 
segurando o coelhinho de brinquedo. - Quarta-feira, 3 de julho, será um 
longo dia, terá como todos os dias do ano uma manhã, uma tarde, uma 
noite. Então virá a luz da manhã seguinte. Dia da Independência! 
Quatro de julho!, quinta-feira, e eu estarei aqui! 
- Você deve gostar realmente de vir aqui. 
- Ah!, e como gosto. Gosto tanto! - reafirmou, sorrindo. O dia da 
Independência é o dia dos soldados e marinheiros - falou, alterando sua 
voz para uma tonalidade suave e moderada. - Os tambores tocam: bum-
bum-bum. E as bandeiras são penduradas fora das casas - 
acrescentou, cantarolando uma marcha. (Pag. 66 67) Parou a conversa 
e voltou a escavar a areia. Com ela encheu o caminhão. Empurrou-o 
por ali. 
- É um dia alegre - continuou. - Dia da Independência! E os 
soldados estão todos vibrando de alegria. Na verdade, estão 
proclamando a liberdade e destrancando todas as portas! 
A beleza e a força da linguagem dessa criança eram 
impressionantes. E pensar que toda essa capacidade de expressão 
havia crescido e florescido, embora reprimida e encoberta, na 
impetuosidade de seu medo, solidão e ansiedade. Mas, agora que 
começava a entender seu medo e a descobrir verdades, Dibs ia 
crescendo e desabrochando. Estava trocando seu pavor, sua raiva e 
suas angústias pela esperança, confiança e alegria. Sua profunda 
tristeza e seu sentimento de derrota estavam se dissolvendo. 
- Você também sente aquela alegria, não é verdade, Dibs? - 
perguntei-lhe depois de um pequeno intervalo. 
- É uma alegria que não quero perder - confessou. - Eu venho 
com alegria a esta sala. 
Examinei-o, sentado na beirada da caixa de areia, irradiando o 
sentimento de paz que estava experimentando naquele instante. Parecia 
tão pequenino, e assim mesmo tão cheio de fé, coragem e grandeza, que 
percebi e senti a força de sua dignidade e firmeza. 
- Venho com alegria para esta sala - disse novamente. - E deixo-a 
com tristeza. 
- É assim? E nenhuma dessas alegrias aqui experimentadas vai 
com você? - perguntei. 
Dibs enterrou três soldadinhos na areia. 
- Isto os faz infelizes. Não podem ver, não podem ouvir, não 
podem respirar. Dibs, desenterre-os logo - ordenou a si mesmo. - Você 
não sabe que está quase mi hora de ir embora? Será que quer deixá-los 
enterrados, Dibs? 
- Daqui a cinco minutos será hora de ir. Decidiu deixá-los 
enterrados? 
- Vou brincar com os soldados aqui no chão - disse, saltando 
rapidamente para fora da caixa de areia. - Vou fazer uma fila com eles 
de acordo com o tamanho. 
Saltou para o chão e arrumou os soldados. Voltou para a areia em 
busca dos restantes que havia soterrado. Escolheu um deles, verificou 
com cuidado todos os seus detalhes e, segurando-o, exibiu-o para mim. 
- Este é papai - declarou. 
- Ah! Aquele é o papai, não é? - reafirmei casualmente. 
- Sim - respondeu. Dibs colocou-o no chão à sua frente, fechou o 
punho, espancou-o, ergueu-o e socou-o mais e mais. E, de novo, repetiu 
a surra por várias vezes. Então, olhou para mim. 
- Estão faltando quatro minutos? - perguntou. 
- Certo. Faltam quatro minutos. 
- Então, estará na hora de voltar para casa - afirmou. 
- Exatamente. 
Continuou a brincar com o "papai" soldado, colocando-o em pé 
para em seguida fazê-lo cair pelo efeito de suas pancadas. Novamente, 
interrompeu para confirmar se, de fato, ainda lhe restavam três 
minutos. 
- Certo. E então estará na hora de você voltar para casa. - Repeti 
sua previsão anterior mais para reforçá-la do que para chamar-lhe a 
atenção sobre um fato de seu conhecimento. 
- É verdade. E mesmo que não queira ir para casa, estará na hora 
de ir para casa - Dibs concluiu. 
- É, sim. Mesmo que você não queira ir, estará na hora de ir. 
Dibs concordou e deu um longo suspiro. Manteve-se em absoluto 
silêncio durante um minuto. Que extraordinário sentido de tempo tinha 
aquele garoto! 
- Dois minutos mais? - perguntou. 
- Sim. 
- Voltarei na próxima quinta-feira - afirmou. 
- Voltará, é claro. 
- Amanhã é o dia do aniversário de Washington. E sexta-feira. 
Sábado é um dia vazio. Sem significado. Domingo é dia 24. Então 
virá segunda-feira e voltarei para a escola - anunciou com um lampejo 
de alegria no olhar. 
Embora seu comportamento não indicasse, a escola significava 
muito para ele. Embora seus professores se sentissem perplexos, 
frustrados e derrotados, haviam atingido Dibs. Ele sabia o que ocorria 
em sua classe. A marcha que há pouco cantava, provavelmente, era 
uma das que haviam sido ensinadas às crianças na escola. 
Marshmallow era seu animalzinho de estimação, mais que um bichinho 
enjaulado. E também compunha uma das experiências