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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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dia, Dibs. Tenha um dia muito 
feliz também". E sabe que tive? Foi, de fato, um dia feliz o de hoje. 
Dibs caminhava em volta da sala, mantendo no semblante a luz 
do seu sorriso. 
- Papai levou-nos à praia de carro, no domingo. Fomos até Long 
Island e vimos o mar. Papai e eu andamos pela praia e ele me falou 
tudo sobre o oceano: as marés, as diferenças entre oceanos, lagos, rios, 
riachos e lagunas. Depois, comecei a construir um castelo de areia, ele 
perguntou-me se poderia ajudar-me. Dei-lhe minha pá e depois cada 
um a usava um pouco. Quando terminamos, fomos brincar na água. 
Estava tão fria, que não ficamos nela muito tempo. Fizemos nosso 
piquenique no próprio carro. Todos estávamos felizes. Mamãe sorria e 
sorria. 
- Você divertiu-se muito passeando com seu pai e sua mãe? 
- Sim, e como foi agradável! Uma viagem deliciosa até a praia e de 
lá até nossa casa. E não houve palavras más. Nenhuma! 
- Sem nenhuma palavra de raiva - comentei. 
Dibs foi para a areia e sentou-se na borda da caixa. 
- Foi ali que construí a prisão para ele, onde o tranquei e cobri 
com areia. Perguntei a mim mesmo por que deveria deixá-lo sair da 
prisão e ser livre. Mas sabe o que respondi? Apenas para deixá-lo ser. 
Apenas para permitir-lhe ser livre. 
- Então você decidiu que ele deveria ser livre? 
- Sim. Não queria mantê-lo trancado e enterrado. Desejava 
somente dar-lhe uma lição. 
- Compreendo. Você queria dar-lhe uma lição. 
- Hoje conversei com papai - disse Dibs com um sorriso feliz e 
desanuviado. 
É interessante observar que Dibs expressou seu desejo de 
vingança e ódio de uma forma mais aberta apenas depois que sentiu 
maior segurança no seu relacionamento com o pai. Foi bom ouvi-lo falar 
de suas agradáveis experiências com sua família. E saber que seu pai 
não somente o instruíra sobre oceanos, rios e correntes, mas que 
dividira com ele o uso da pá e o ajudara a construir o castelo de areia. 
(Pag. 16) 
Capítulo XX 
 
- Aqui estou novamente! - exclamou Dibs, quando entrou na sala 
de espera, na quinta-feira seguinte. - Não terei muitas oportunidades de 
vê-la antes de minhas férias de verão. 
- Sim. Teremos três encontros, incluindo o de hoje. Então, ambos 
entraremos em férias. 
- Iremos para uma ilha - comentou Dibs. - Espero gostar de 
minhas férias este ano. Vovó está planejando passar o verão conosco ao 
invés de seu habitual período de férias. Que boa idéia! 
Andou pela sala. Então pegou a boneca. 
- Bem, aqui está a irmã - apresentou, embora nunca houvesse 
visto aquela boneca antes. - Não é mesmo uma pirralha? Vou dar-lhe 
para comer um pouco de um saboroso pudim de arroz, só que porei 
veneno nele e assim ela desaparecerá para sempre. 
- Você quer livrar-se da irmã? 
- Muitas vezes ela grita, arranha-me, machuca-me tanto que fico 
com medo dela. Outras tantas bato nela também. Mas ela não fica em 
casa por muito tempo. Entretanto, logo ela estará em casa para passar 
o verão conosco. Ela tem cinco anos agora. 
- Algumas vezes vocês brigam e machucam um ao outro? 
- Sim - respondeu. - Mas raramente ela vem para casa. Neste 
último fim de semana ficou conosco. 
- E como foram as coisas, então? 
- Oh! - hesitou, encolhendo os ombros. - Nem me importo. 
Quando sinto vontade, brincamos juntos. Mas não deixo que ela entre 
em meu quarto. Tenho muitos tesouros lá. Ela tenta agarrá-los e 
destruí-los. Por isso brigamos. Mas não tanto quanto antes. No próximo 
ano, ela virá morar conosco. E deverá freqüentar a mesma escola que 
eu. (Pag. 16) 
- E como você se sente diante dessa perspectiva? 
- Bem, isso não me importa. Às vezes, penso que fico contente 
sabendo que ela vem para ficar. Com certeza, deve sentir-se muito só, 
tão longe de casa. A escola é de nossa tia-avó. Contudo, todos acham 
que ela deve voltar para casa. 
- E você está contente? 
- Sim. Realmente estou - replicou. - Sua presença não me 
perturba mais. Quando estou brincando com meus blocos, trens, carros 
ou meu conjunto de construção, ela se aproxima e brinca comigo. 
Ajuda-me, entregando-me blocos ou peças. Não tenta destruir ou 
demolir o que faço. Por isso, às vezes, brincamos juntos. No domingo, li 
uma história para ela. Era um livro novo com que papai me havia 
presenteado. Era a história da eletricidade. Disse-me que não imaginara 
o quanto aquele assunto era interessante. Eu já previa aquilo. Disse-lhe 
para ficar atenta e aprender tudo o que possa. Sabia que aquela seria 
uma história fascinante. Papai contou-me que estava na livraria e olhou 
aquele novo livro para crianças e logo imaginou que eu iria gostar de lê-
lo. E acertou! 
Aproximou-se da mesa e começou a bater sobre uma pequena 
quantidade de argila. 
- Daqui a pouco o verão vai chegar - observou. - Irei para a praia. 
Para o sol. Sentirei o vento. Que bom será! Mas antes tenho que fazer 
uma coisa. 
Encaminhou-se para o cavalete, apanhou um pote de tinta e um 
copo. Derramou nele uma pequena quantidade de tinta, acrescentando 
um pouquinho de água. Adicionou outras cores à mistura e agitou bem. 
- Este é o veneno para a irmã - avisou. - Ela pensará que é um cereal e 
o comerá. Será, então, seu fim. 
- Então este veneno é para a irmã e depois que ela o comer será o 
fim para ela? 
Dibs acenou com a cabeça afirmativamente e olhou para mim. 
- Não vou dar-lhe o veneno por enquanto - falou. - Esperarei um 
pouco para meditar mais sobre o assunto. 
Foi até a cozinha e dirigiu-se à boneca-mãe. 
- O que você tem feito com o garoto? - inquiriu-lhe. - O que tem 
feito com ele? Você é estúpida e venho lhe dizendo a mesma coisa 
sempre. Será que sente vergonha de si mesma? - Levou a boneca-mãe 
para a areia. - Erga aqui uma montanha - ordenou-lhe. - Vamos, fique 
bem aí, construa a montanha e faça isso direito. O menino permanecerá 
aqui para (Pag. 165) fiscalizar seu trabalho. É bom que você tome todo o 
cuidado, pois estarei olhando você a cada minuto. Meu Deus! Meu 
Deus! Por que ele é assim? Que fiz eu para merecer isso? Construa a 
montanha, e não me venha dizer que não pode fazê-lo. Vou lhe mostrar 
como se faz. Vou ensinar-lhe uma, duas, três, muitas vezes. Mas você 
terá de erguê-la. 
Atirou a boneca na areia e foi até a janela. - É tão difícil fazer isso. 
Ninguém pode construir uma montanha. Mas eu farei com que ela 
cumpra a tarefa. Terá que erguer a montanha e o fará corretamente. 
Há sempre um modo certo e outro errado de fazer as coisas. E 
você fará seu trabalho da forma correta. 
Vagueou pela sala até chegar junto à mesa. Pegou a mamadeira e 
sugou-a durante muito tempo, enquanto mantinha seu olhar fixo em 
mim. 
- Sou apenas um bebê - observou. - E nada posso fazer ainda. 
Alguém deve cuidar de mim. Serei o bebê. O bebê não precisa sentir 
medo. Vovó tomará conta do bebê. - Tirou a mamadeira da boca, 
colocando-a sobre a mesa. 
- Mamãe não pode construir a montanha - falou calmamente. - E 
os bebês também não. Ninguém pode construir uma montanha. 
- Mamãe não pode? E os bebês também não? Parece-lhe uma 
tarefa grande demais para ser executada? - perguntei. 
- Uma imensa tempestade poderia desabar e carregar para bem 
longe todo mundo. 
- Poderia? 
- Apenas eu não quero que essa tempestade aconteça - falou Dibs 
suavemente. - Não quero que ninguém seja soprado pelo vento para 
longe daqui. 
- Compreendo. 
- Por que você não constrói aquela montanha? - Dibs gritou de 
novo. - Por que você não faz aquilo que lhe foi ordenado? Se você gritar 
ou chorar mandarei trancá-la em seu quarto. - Olhou para mim e disse: 
- Ela tenta e tenta e tenta. Está apavorada, porque não gosta de ficar 
trancada em seu quarto. E agora me chama para ajudá-la.