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🧠 Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar Morgana R. Duarte- TXI Transtornos alimentares Transtorno de Compulsão Alimentar (DSM-5) Característica essencial: episódios recorrentes de compulsão alimentar, ao menos uma vez por semana durante 3 meses. Episódio de compulsão: ingestão, em um período determinado 2h geralmente), de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiria em um mesmo período sob circunstâncias semelhantes. Não se limita a um único ambiente: começa a comer em um local e termina em outro. Acompanhado por uma sensação de falta de controle: incapacidade de evitar comer ou de parar de comer depois de começar → qualidade dissociativa. Sentimento de vergonha dos problemas alimentares e tentativa de ocultar os sintomas (em segredo ou o mais discretamente possível). Ocorre em indivíduos de peso normal, sobrepeso ou obesos. A maioria dos obesos não se envolve em compulsão alimentar recorrente. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 1 Obesidade A obesidade é uma grande epidemia mundial, associada a uma importante morbimortalidade. Doença crônica associada ao excesso de gordura corporal (acúmulo de tecido adiposo localizado ou generalizado). Etiologia complexa e multifatorial (estilo se vida, genes e fatores emocionais). Principais fatores de risco: história familiar, baixos níveis socioeconômicos e o sexo feminino. 1- Definições antropométricas A) Índice de Massa Corporal (IMC)- Índice de Quetelet Objetivo: avaliar se a pessoa está no peso ideal e identificar a associação entre IMC e doença crônica ou mortalidade. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 2 💡 Apesar de o conceito de obesidade ser baseado no acúmulo de tecido adiposo no organismo, o sistema de classificação mundial OMS não utiliza a quantidade ou a distribuição de gordura corporal como critério básico. Exercício físico: aumento da musculatura e de massa magra, reduzindo a massa gordurosa- pode não impactar o IMC superestima o IMC. Idosos: tendência à sarcopenia IMC subvalorizado. 💡 A gordura visceral GV é um fator de risco potencial para doença CV, independente da gordura corporal total. Indivíduos com o mesmo IMC podem ter diferentes níveis de GV. B) Medidas corporais Devem ser medidas com o paciente em posição ortostática, ereto, sem roupas e sapatos, no ponto médio entre o rebordo costal inferior e a crista ilíaca. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 3 Circunferência abdominal CA Circunferência da cintura CC a Reflete melhor o conteúdo de GV que a relação cintura-quadril RCQ b Captura melhor a adiposidade abdominal, demonstra mais precisamente a variância da GV Medida do quadril a Maior diâmetro da região glútea, passando sobre os trocânteres maiores do fêmur. Relação cintura-quadril a Avalia melhor a distribuição da adiposidade central X periférica Medidas de cinturas de acordo com a etnia propostas no consenso de síndrome metabólica da IDF Federação Internacional de Diabetes, 2006. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 4 💡 Valores de referência do Painel de Tratamento de Adultos-III do Programa Nacional de Educação em Colesterol NCEPATPIII diferem da IDF Homem 102 cm Mulher 88 C) Localização do excesso de gordura O tecido adiposo está anatomicamente distribuído em diferentes proporções no corpo humano, a depender de sexo, idade, raça, etnia, dieta, atividade física, níveis hormonais e medicamentos. Padrão ginoide (pêra): em extremidades ou periférica. Padrão andoide (maçã): em tronco ou central → maior risco para saúde. D) Distribuição em compartimentos Tecido adiposo subcutâneo TAS. Tecido adiposo visceral TAV → maior correlação com SM e risco CV. 2- Avaliação da composição corporal Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 5 O único método capaz de quantificar precisamente todos os componentes corporais de modo direto é a dissecção anatômica (in vitro). Os métodos in vivo baseiam-se na quantificação de um ou mais componentes, de fórmulas matemáticas, de suposições e estimativas. Pesagem hidrostática → princípio de Arquimedes, preciso para estimar percentual de gordura corporal, exige equipamentos específicos e laboratório. Não indicado para avaliações de campo. Antropometria → simples, prático e de baixo custo. Útil para estudos epidemiológicos, baixa acurácia na avaliação individual. a Peso e IMC: ferramenta global para diagnóstico nutricional, não diferencia massa muscular de gordura e possui variações conforme sexo, idade e etnia. b Pregas cutâneas: uso de adipômetro para medir GSC, depende da habilidade do avaliador e do aparelho. c Circunferências: medida do braço, coxa, cintura e quadril. CC associada a maior risco CV. Bioimpedância elétrica → resistência do corpo à corrente elétrica, rápido e portátil, influenciadooa por hidrtação, ciclo menstrual e etnia. Baixa precisão para obesos e pessoas musculosas. Absortometria de raios X de dupla energia → alta precisão para avaliar gordura, massa magra e óssea, determina gordura regional, baixa exposiçãi à rediação. Alto custo. Métodos de imagem a USG: simples e não invasivo, avalia a distribuição de gordura corporal, estima a gordura totoal com boas correlações. b TC padrão-ouro na análise de GV. Alto custo e exposição à radiação. c RM: preciso para avaliar gordura corporal e muscular. Caro e pouco disponível. 3- Fisiopatologia da obesidade e ciclicidade do peso A) Balanço energético O corpo humano necessita de enrgia para suas funções vitais, obtida dos alimentos e armazenada como glicogênio (fígado e músculos) e gordura (tecido Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 6 adiposo). A homeostase energética é regulada por sinais periféricos e centros hipotalâmicos para manter o peso corporal relativamente estável. Objetivo de garantir ao organismo energia mesmo em falta de alimentos (mecanismo de defesa). A ingesta alimentar também é influenciada pelo sistema de prazer e recompensa, que não necessariamente age em cooperação com o sistema homeostático, podendo levar ao consumo excessivo. 💡 O ganho de peso e o progressivo aumento da massa adiposa aumentam o gasto energético total GET e a secreção de fatores que limitam a ingestão calórica, limitando o ganho ponderal adicional. Aumento da taxa metabólica de repouso e do custo energético dos movimentos. A resistência à insulina, comum em obesos, promove lipólise, diminuição da oxidação de glicose, aumento da oxidação de gorduras → restringe o ganho de peso adicional. Obesidade NÃO é um defeito adaptativo, mas uma resposta natural ao ambiente de abundância calórica. Sua principal determinante é o desequilíbrio energético (ingestão calórica excessiva vs. gasto reduzido). B) Equilíbrio entre os nutrientes Macronutriente Armazenamento e estoque Regulação e utilização Impacto na obesidade Carboidratos Estoque limitado. Armazenado como glicogênio no fígado e músculos. Utilizado rapidamente como fonte de energia. Estoques variam rapidamente ao longo do dia. Excesso não convertido em gliogênio é oxidado. Não convertido em gordura (raro). Regulado pela ingestão: Aumento crônico da ingestão não causa diretamente ganho de peso devido à limitação do estoque. - Influencia indiretamente a gordura corporal ao Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 7 Macronutriente Armazenamento e estoque Regulação e utilização Impacto na obesidade mais carboidratos → mais oxidação e menor uso de gorduras. reduzir a oxidação de gorduras. Proteínas Representa até 15% do total calórico corporal. Estoques limitados. Armazenada em músculos e tecidos estruturais. Rígido controle dos estoques. Regulado por hormônios GH, androgênios) e atividade física. Aumento da ingestão não aumenta estoques, pois o excesso é metabolizado. Não afeta diretamente a obesidade, mas influencia o metabolismo das gorduras.- Indiretamente, maior ingestão pode reduzir a fome e aumentar gasto energético Gorduras Maior reserva energética do corpo. Armazenada no tecido adiposo como TG. Disponível para uso energético a longo prazo. Estoques não possuem controle rígido como carboidratos e proteínas. A ingestão não afeta diretamente a oxidação de gordura A oxidação depende do balanço energético (excesso calórico → armazenamento; déficit → queima). Excesso calórico de gorduras leva ao acúmulo no tecido adiposo. Como as gorduras não são reguladas pelo corpo, seu excesso pode levar ao ganho de peso crônico. Balanço energético Os estoques de energia precisam ser equilibrados entre ingestão e gasto. - Indivíduos obesos têm maior reserva energética e sobrevivem mais tempo em privação calórica. A gordura corporal funciona como um “tampãoˮ para desequilíbrios energéticos. O gasto energético total GET aumenta com maior peso corporal. A gordura é o único macronutriente que pode se acumular cronicamente. O principal fator para a obesidade é o desequilíbrio energético prolongado. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 8 Macronutriente Armazenamento e estoque Regulação e utilização Impacto na obesidade C) Determinantes do desequilíbrio energético Aumento da ingestão alimentar a Composição de macronutrientes b Fatores sociocomportamentais: aumento do tamanho das porções, mais refeições fora de casa (fast-foods), alimentação rápida prejudica os mecanismos de saciação, impacto do estilo de vida moderno (estresse, privação do sono, menso tempo para refeições). c Sistema prazer-recompensa vs Sistema homeostático i Sistema hedônico: alimentos ultrapalatáveis ativam circuitos cerebrais de recompensa similares ao vício. Alimentos ultraprocessados podem “desligarˮ a saciedade, mantendo a ingestão alimentar elevada. Diminuição do gasto energético (ingestão>gasto calórico) a Componentes do gasto energético GETotal) i 6575% Gasto Energético de Repouso GER Determinado, pp pela massa magra. Mulheres têm GER menor que homens, mas a diferença desaparece quando ajustado para massa magra. ii 1530% Gasto Energético pela Atividade Física GEAF iii 10% Termogênese Alimentar TA b Atividade física i Trabalho sedentário aumentou 80%, reduzindo a exigência física diária. Apenas 30% da população pratica atividade física no lazer. ii Exercício eleva o gasto energético mesmo em repouso. c Em repouso i Massa magra explica 4050% da variação individual. Idade reduz o GER progressivamente. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 9 ii Leptina pode ter efeito termogênico. Genes podem influenciar a taxa metabólica. Aumento da capacidade de armazenar gordura a TG é a principal reserva energética 9,3 kcal/g), enquanro carboidratos fornecem apenas 4,1 kcal/g. b TG são derivados de quilomícrons (dietéticos) e VLDL hepático. c Insulina e cortisol ativam a LPL Lipoproteína lipase), promovendo acúmulo de gordura. i Obesos apresentam maior atividade da LPL. d Testosterona, GH e catecolaminas inibem LPL, dificultando o armazenamento. Oxidação deficiente das gorduras a Lipólise: processo de quebra dos TGs armazenados (ocorre nos adipócitos e libera ácidos graxos + glicerol).] i Insulina inibe a lipólise. ii Catecolaminas, GH e cortisol estimulam a lipólise. iii Obesos podem ter aumento na lipólise basal, mas oxidam menos gordura, contribuindo para a resistência à insulina. b Competição pela oxidação: carboidratos e gorduras competem pela oxidação (alta ingestão de carbos inibem a utilização de gorduras). i A oxidação de carbo libera alguns produtos que inibem o transporte de ácidos graxos para dentro das mitocôndrias, estimulam sua reesterificação em TG no citosol, inibem a cetogênese e estimulam a liponeogênese. ii A oxidação de gorduras também gera produtos que inibem a captação de glicose, a glicólise e a oxidação de piruvato nos músculos e fígado. c Obesidade: desequilíbrio energético prolongado. i Aumento da ingestão alimentar, redução do gasto energético, sistema de prazer-recompensa sobrepondo-se ao homeostático, fatores genéticos e ambientais. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 10 Fator Relação com a obesidade Estilo de Vida Urbano Moderno Maior obesidade em populações com menor renda e nível educacional. Consumo elevado de alimentos calóricos, palatáveis e de baixa saciedade. Redução das refeições feitas em casa; aumento do fast-food e do tamanho das porções. Refeições rápidas prejudicam a saciação e estimulam o sistema de prazer e recompensa. Genética Herança poligênica (mais de 430 genes envolvidos). Associada a algumas doenças mendelianas e monogênicas. Influencia número e tamanho dos adipócitos, distribuição de gordura e metabolismo de repouso. História familiar de obesidade aumenta o risco individual. Estresse Pode ser causa ou consequência da obesidade. Sintomas como ansiedade, depressão e compulsão alimentar são comuns em obesos. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal é hiperativado, aumentando a busca por alimentos altamente calóricos. A ativação dos endocanabinoides reforça a ingestão de comida palatável. Iatrogenia farmacêutica Alguns medicamentos promovem ganho de peso. Médicos podem minimizar esse efeito prescrevendo tratamentos adequados. Medicamentos específicos e cirurgias podem ser usados como adjuvantes à mudança de estilo de vida. Privação de sono Privação do sono reduz leptina e TSH, aumenta grelina e reduz tolerância à glicose. Maior fome e apetite levam ao aumento do risco de obesidade. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 11 Fator Relação com a obesidade Melatonina regula a distribuição diurna dos processos metabólicos. Ambiente termoneutro A temperatura ambiente ideal reduz a necessidade de gasto energético para manter a homeotermia. Permanecer na zona termoneutra favorece o acúmulo de gordura. Exposição ao frio ou calor pode aumentar o gasto energético e reduzir gordura. Tabagismo A nicotina tem efeitos termogênicos e inibidores do apetite. A redução do tabagismo pode levar a maior ingestão alimentar e ganho de peso. Gravidez Para cada 5 anos a mais na idade materna, o risco de obesidade infantil aumenta em 15%. Relacionado à menor quantidade de UCP1 na prole, o que reduz a termogênese do tecido adiposo marrom. D) Ciclicidade do peso Efeito Sanfona: oscilações repetidas de perda e ganho de peso. Alta taxa de recidiva da obesidade. Apenas 25% mantêm a perda por mais de 1 ano e 10% por mais de 5 anos. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 12 Mulheres apresentam mais episódios de ciclagem do que os homens, além de maior adesão a dietas hipocalóricas e compulsão alimentar. Ponto de ajuste do peso corporal: teoria sugere que o corpo defende um peso corporal específico por meio da regulação energética, com ativação de mecanismos compensatórios. a Leptina se reduz na perda de peso → ativa vias anabólicas e reduz catabólicas. b Gasto energético basal diminui Biologia dos adipócitos: obesidade aumenta tanto o número quanto o tamanho dos adipócitos. Efeito de restrições dietéticas crônicas: restrições calóricas alteram o equilíbrio energético. Papel da atividade física: ajuda a manter a perda de peso após a fase de restrição calórica. a Perda de peso apenas por dieta: maior atividade das vias orexígenas (fome). b Perda de peso com exercício: não compensa com maior ingestão alimentar. Impacto na evolução da obesidade: alguns estudos mostram efeito negativo e outros nenhum impacto significativo. Impacto na morbimortalidade: nenhuma relação direta entre ciclagem de peso e risco CV. Fatores determinantes do sucesso ou fracasso na manutenção da perda de peso a Positivo: maior perda de peso inicial (mais motivação), estilo de vida ativo, refeições regulares, automonitoramento do peso e da alimentação Classificação dos “cicladoresˮ Obesidadee Transtorno da Compulsão Alimentar 13 e supore social e estabilidade psicológica. b Negativo: histórico de ciclidade do peso, compulsão alimentar e comer em resposta ao estresse ou emoções negativas. 4- Obesidade e doenças relacionadas Condição Relação com a obesidade DM tipo II Aumento do risco de DM2 em 50 a 80x. O padrão de acúmulo de gordura influencia mais do que o IMC, sendo a gordura abdominal (padrão androide) um fator de maior risco. Excesso calórico leva ao depósito de gordura em órgãos (fígado, pâncreas e músculos, favorecendo a resistência insulínica) Perda de peso melhora a resistência à insulina. Mudanças no estilo de vida e bariátricas demonstram potencial de remissão do DM2. SM Conjunto de fatores de risco metabólicos, incluindo obesidade central, hipertensão, resistência à insulina, dislipidemia e hipertrigliceridemia. A CA é um forte preditor de risco para doenças cardiovasculares, mais que o IMC. A capacidade limitada de armazenamento de gordura subcutânea pode levar ao acúmulo visceral. Perda de peso reduz a resistência insulínica e melhora os parâmetros metabólicos. Doença CV A obesidade promove inflamação crônica, disfunção endotelial e aterosclerose, aumentando o risco de infarto, AVC e IC. O acúmulo de gordura epicárdica está associado a maior risco CV. Tempo de exposição à obesidade agrava o risco CV. A perda de 5 a 10% do peso corporal já reduz significativamente fatores de risco como glicemia, TG e PA. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 14 Condição Relação com a obesidade Doença hepática gordurosa não alcóolica Doença hepática pode evoluir para cirrose e câncer de fígado. O acúmulo de gordura no fígado precede o aparecimento do DM2 e está associado à SM. Diagnóstico pode ser feito por USG, mas a biópsia hepática é o padrão-ouro. Perda de peso 10% pode reverter a esteatose e reduzir a fibrose hepática. Neoplasias Obesidade está associada a maior risco de 13 tipos de câncer (mama, endométrio, cólon, pâncreas e fígado). Obesidade reduz a resposta ao tratamento e eleva a mortalidade. A perda de peso pode reduzir o risco de câncer e melhorar o prognóstico dos pacientes oncológicos. Inflamação crônica e a desregulação hormonal. Síndrome da apneia obstrutiva do sono SAOS A obesidade é o maior fator de risco para SAOS, afetando 40% dos obesos e até 71% dos obesos mórbidos. O aumento da gordura cervical e visceral contribui para o colapso das vias aéreas superiores durante o sono. A SAOS pode levar a HAS, maior risco CV e resistência insulínica. O tratamento inclui perda de peso e uso de CPAP para melhora dos sintomas. Osteoartrite OA Doença articular degenerativa mais prevalente em obesos, especialmente nos joelhos. C ontribui para o desgaste articular por sobrecarga mecânica e inflamação sistêmica. Perda de peso reduz os sintomas, mas tem impacto limitado na progressão da doença. Bariátrica pode melhorar dores articulares em obesos mórbidos. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 15 Condição Relação com a obesidade Gota Aumento do risco de hiperuricemia e gota, o risco cresce progressivamente com o IMC. A resistência insulínica associada à obesidade reduz a excreção renal de ácido úrico, favorecendo a formação de cristais. Perda de peso auxilia no controle da gota, mas a redução rápida pode precipitar crises agudas. Colelitíase Obesidade aumenta o risco de cálculos biliares devido à maior secreção hepática de colesterol. Perda de peso rápida também pode elevar esse risco, sendo comum após cirurgia bariátrica ou dietas restritivas. Monitoramento e tratamento precoce são essenciais para pacientes que perdem peso rapidamente. Pancreatite Obesidade é fator de risco independente para pancreatite aguda, aumentando sua incidência e gravidade. O acúmulo de gordura peripancreática leva a inflamação local e pior prognóstico. A resistência insulínica e a dislipidemia associadas à obesidade contribuem para a pancreatite por hipertrigliceridemia. Depressão Obesidade e depressão têm associação bidirecional, com obesos apresentando maior risco de depressão e vice-versa. O uso de antidepressivos pode contribuir para o ganho de peso, especialmente os tricíclicos e inibidores da MAO. O impacto do tratamento da obesidade na melhora da depressão ainda é controverso. 5- Tratamento não farmacológico da obesidade Dietas apropriadas Exercício físico regular Terapia comportamental Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 16 A) Redução da densidade energética Aumento do consumo de alimentos ricos em água e fibras (frutas, vegetais, sopas). Redução do consumo de alimentos ultraprocessados e ricos em gorduras e açúcares. Iniciar as refeições com alimentos de baixa densidade energética para aumentar a saciedade e reduzir a ingestão calórica total. B) Dietas hipocalóricas A redução da ingestão calórica força o corpo a utilizar suas reservas de energia (gordura corporal) como combustível. O organismo responde com redução do peso corporal, sendo a gordura a principal fonte de energia mobilizada. Alimentos ricos em proteínas magras, fibras e micronutrientes essenciais para evitar desnutrição. Moderadamente hipocalórica a Redução de 500 a 1000 kcal/dia em relação ao gasto energético total GET. b Normalmente fornece 1.200 a 1.800 kcal/dia. c Indicada para a maioria dos indivíduos com sobrepeso e obesidade. Baixas calorias a Restrição mais intensa, fornecendo 800 a 1.200 kcal/dia. b Exige maior supervisão para evitar déficits nutricionais. Muito baixas calorias a Extremamente restritiva, com 400 a 800 kcal/dia. b Indicada apenas para obesidade grave, sob supervisão médica rigorosa. Indicações Contraindicações IMC 30 kg/m^2, com alto RCV e comorbidades Idade 65 anos Obesidade abdominal Arritmia cardíaca, cálculos biliares ou disfunção renal Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 17 C) Exercício físico A prática regular de exercícios físicos contribui para a prevenção do ganho de peso, emagrecimento e manutenção do peso ideal, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o RCV. Principais Diretrizes Prevenção do ganho de peso 150 a 200 min/semana de exercícios moderados. Emagrecimento 225 a 420 min/semana de exercícios moderados. Manutenção do peso Quanto maior o volume de exercícios, melhor a manutenção do peso perdido. Efeitos dos exercícios físicos Redução da gordura corporal (total, visceral e abdominal) Melhora da sensibilidade à insulina e função endotelial Redução da PA e marcadores inflamatórios Aumento do gasto calórico e da taxa metabólica de repouso Melhor controle da SM e esteatose hepática Melhores tipos de exercícios Aeróbico a Melhora o condicionamento CV, queima de gordura e aumento da capacidade aeróbica, reduz PA e melhora a sensibilidade à insulina Resistido (musculação) a Preservação da massa muscular, aumento do metabolismo basal e melhora da composição corporal. Combinado (aeróbico + resistido) a Maior impacto na perda de gordura corporal, redução da CC e melhora do perfil metabólico. HIIT a Alternância de estímulos de alta intensidade com repouso, efeito termogênico e lipolítico maior e redução do tempo de treino com alto Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 18 impacto na saúde metabólica. D) Medidas cognitivo-comportamentais Quantificação da motivação Automonitoramento Definição de objetivos Atuação na imagem corporal Padrões alimentares e controle do estímulo Resolução de problemas/gatilhos a Reduzir a exposição do paciente a estímulos que podem deflagrar os comportamentos que culminam com maior ingestão calórica. b Aumentar a exposição aos estímulos que favorecem modificação. Reestruturação cognitiva Efeitos sistêmicos da prescrição de exercícios físicos aeróbicos para indivíduos com obesidade. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 19 Prevenção da recaída 6- Tratamentofarmacológico da obesidade Indicação: pacientes com IMC 30 kg/m² ou IMC 27 kg/m² com comorbidades associadas (diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, etc.). O uso de fármacos deve ser associado a mudanças no estilo de vida, incluindo dieta e exercício. A escolha da medicação deve ser individualizada, considerando perfil metabólico, tolerabilidade e contraindicações. Monitoramento contínuo é essencial para avaliar eficácia e segurança. Classe Fármacos Mecanismo de ação Efeitos adversos Indicação Inibidores da recaptação de catecolaminas Fentermina, Dietilpropiona Estimulam a liberação de noradrenalina, reduzindo o apetite Insônia, taquicardia, hipertensão, boca seca, nervosismo IMC 30 kg/m² ou IMC 27 kg/m² com comorbidades Agonistas do GLP1 Liraglutida, Semaglutida Aumentam saciedade e reduzem esvaziamento gástrico Náuseas, vômitos, diarreia, pancreatite IMC 30 kg/m² ou IMC 27 kg/m² com comorbidades Inibidores da lipase pancreática Orlistate Reduz absorção de gorduras no intestino Diarreia, flatulência, incontinência fecal, redução da absorção de vitaminas lipossolúveis IMC 30 kg/m² ou IMC 27 kg/m² com comorbidades Agonistas do POMC e bloqueadores de receptores opioides Naltrexona + Bupropiona Aumentam a saciedade e reduzem o desejo por Náuseas, constipação, insônia, aumento da pressão arterial IMC 30 kg/m² ou IMC 27 kg/m² com comorbidades Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 20 Classe Fármacos Mecanismo de ação Efeitos adversos Indicação alimentos hipercalóricos Antagonista do receptor de canabinoide CB1 Rimonabanto (descontinuado) Bloqueia os efeitos orexígenos do sistema endocanabinoide Depressão, ansiedade, risco de suicídio Retirado do mercado por efeitos adversos psiquiátricos Outros fármacos utilizados off- label Metformina, Topiramato, Zonisamida Diferentes mecanismos (controle glicêmico, aumento de saciedade, efeito anorexígeno) Variáveis (náusea, sonolência, tontura, alteração do paladar) Apenas em casos específicos, sob orientação médica 7- Tratamento cirúrgico da obesidade Objetivos da CB Promover a redução significativa do peso e a sua manutenção no longo prazo, resultando em uma resolução completa ou na melhora substancial das doenças relacionadas com a obesidade. Indicações da CB Todos os pacientes com IMC entre 35 e 40 kg/m2 que apresentavam pelo menos uma comorbidade relacionada com a obesidade são candidatos à CB, desde que comprovado o insucesso de tratamento clínico anteriormente realizado. Para 65 anos e entre 1618: análise individual, avaliando o risco nos idosos e discutindo a indicação com endocrinologista e pediatras, além da anuência dos pais no caso dos adolescentes. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 21 💡 Comorbidades que indicam CB DM, HAS, apneia do sono, dislipidemia, doenças CVs, cor pulmonale, síndrome da hipoventilação, asma grave não controlada, osteoartrose, hérnias discais, DRGE com indicação cirúrgica, colecistopatia calculosa, pancreatites de repetição, esteatose hepática, incontinência urinária de esforço na mulher, infertilidade (homem e mulher), disfunção erétil, SOP, veias varicosas e hemorroidas, pseudotumor cerebral, estigmatização social e depressão. Mecanismos de ação da CB Componente Restritivo: restrição da acomodação gástrica, por redução do estômago (com isso, o paciente tem saciedade precoce com os alimentos sólidos); Componente Disabsortivo: redução da absorção intestinal de nutrientes. Procedimentos endossados pelo CFM Banda Gástrica Ajustável; Derivação Gastroduodenal em Y de Roux; Gastrectomia Vertical; Cirurgia de Scopinaro; “Switch Duodenal .ˮ Resultados da CB A redução da % de gordura corporal, pp a GV, observada após a cirurgia está associada a redução da resistência periférica à insulina e melhor controle dos níveis glicêmicos, redução dos níveis circulantes AGL, IL6, TNF e proteína C reativa e aumento dos níveis de adiponectina. Além de melhora da incontinência urinária, do RGE, da HAS, do pseudotumor cerebral, da insuficiência venosa periférica e da hipoventilação. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 22 Tabela 85.2 Efeitos da cirurgia bariátrica sobre as comorbidades relacionadas com a obesidade. Obesidade e Transtorno da Compulsão Alimentar 23