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Processos Cognitivos e Aprendizagem Unidade 1 Processos e problemas de aprendizagem Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria CLÁUDIA M. C. DIAS AUTORIA Cláudia M. C. Dias Sou formada em Pedagogia e Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Alicante. Possuo experiência como psicopedagoga e docente a mais de 29 anos. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Linguagem e cognição ............................................................................ 10 Uma breve história da psicologia cognitiva ............................................................... 10 Conceito de cognição ............................................................................................. 12 A psicologia cognitiva ............................................................................................... 12 Processamento cognitivo e os sistemas de informação .................................. 14 Modelos de processamento da informação: a memória .................................. 15 Linguagem e a fundamentação teórica sobre o desenvolvimento cognitivo................................................................................................................................................. 18 Processo de aprendizagem sob o foco cognitivo .........................22 A educação como perspectiva cognitiva ......................................................................22 Como se define a perspectiva cognitiva ....................................................24 Pressupostos básicos da perspectiva cognitiva ...................................25 Educação, ciência cognitiva e aprendizagem ..........................................................25 Problemas de aprendizagem - avaliação e intervenção ............27 Dificuldades ou problemas de aprendizagem ..........................................................27 Definição de problemas de aprendizagem ............................................. 30 Definição de dificuldades de aprendizagem ........................................... 31 Avaliação ...............................................................................................................................................34 Intervenção ........................................................................................................................................ 36 Aspectos psicossociais e cognitivos ...................................................39 O conhecimento .............................................................................................................................. 40 O conhecimento declarativo ...............................................................................42 Conhecimento procedimental ............................................................................43 Conhecimento condicional ...................................................................................45 A teoria dos esquemas ........................................................................................... 46 Pensamento ...................................................................................................................................... 48 Interação social ............................................................................................................................... 49 7 UNIDADE 01 Processos Cognitivos e Aprendizagem 8 INTRODUÇÃO Você sabia que a Psicologia se definiu como ciência empírica no final do século XIX e, também, que muitos dos psicólogos nesse período eram psicólogos cognitivos? Isso mesmo, muitos psicólogos no final do século XIX foram considerados psicólogos cognitivos porque queriam estudar os processos mentais. Enquanto Wundt realizava estudos sobre a consciência, Freud buscava estratégias para compreender o inconsciente. Nessa época, o método mais utilizado era a introspecção ou a auto-observação. William James (1842-1910) determinou a psicologia como “A Ciência da Vida Mental” (GAGNÉ, 1985, p.40). Assim, a psicologia era vista como o estudo das experiências mentais. Por exemplo: o pensamento, os sentimentos, as sensações e tudo que envolvia a mente humana. Depois disso, a psicologia mergulha em um período de afirmação como ciência positivista e concentra seus estudos sobre a conduta humana, utilizando o método empírico. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar nesse universo! Processos Cognitivos e Aprendizagem 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você para lograr os seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Explicar os processos de linguagem e cognição no contexto histórico. 2. Aplicar os conhecimentos sobre a psicologia cognitiva e o processo de aprendizagem. 3. Identificar os problemas de aprendizagem, avaliação e intervenção no contexto profissional. 4. Identificar os aspectos do pensamento humano na dinâmica educacional. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Processos Cognitivos e Aprendizagem 10 Linguagem e cognição OBJETIVO: Ao término do estudo deste capítulo você será capaz de entender como a psicologia cognitiva influenciou os estudos sobre o pensamento e a linguagem. Isso será fundamental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver essa competência? Então vamos lá. Uma breve história da psicologia cognitiva Primeiro, para estudar os processos cognitivos, uma de nossas intenções é trazer a você uma revisão do contexto histórico da psicologia cognitiva. Isso porque, antes de tudo, reconhecemos que a psicologia como ciência empírica, coloca seus primeiros tijolos a partir dos estudos de William James (1842 – 1910). Esse autor e cientista tornou-se o mais influente da história da psicologia com sua famosa obra Princípios da Psicologia (1890). Verificamos que, nesse mesmo período, Wilhelm M. Wundt (1832- 1920) desenvolveu o primeiro laboratório de psicologia experimental que priorizava o estudo dos elementos da consciência. Por outro lado, Freud (1856-1939), dedicou-se a compreender como funcionava o inconsciente. John B. Watson (1878 – 1958), contrário às ideias de William James, defendeu que a psicologia é a ciência que deve estudar o comportamento humano. Watson, afirmou que a psicologia e, por meio dela os psicólogos, devem se ocupar emque estabelecemos com os outros? Interagimos socialmente com facilidade? Aprendemos com estas interações? Até que ponto posso aprender e ensinar uma tarefa para um companheiro de classe? Chegamos ao ponto em que o pensamento humano e suas interações sociocognitivas passam a ser o foco de atenção de investigadores de diversas áreas do conhecimento. Assim, o social e cognitivo passam a representar um movimento teórico com raízes nas ideias de Piaget e Vygotsky que fundamentam o desenvolvimento cognitivo relacionando as interações do indivíduo com o ambiente. Piaget descreve a construção do conhecimento por meio de estágios de desenvolvimento cognitivo, que se dariam na relação do indivíduo, suas condições orgânicas em cada fase do desenvolvimento e no ambiente. Vygotsky, embora interacionista como Piaget, coloca em sua pesquisa uma ênfase na importância dos aspectos sociais para a compreensão do desenvolvimento cognitivo na relação sócio histórica. Em outras palavras, o homem é um ser social que em uma relação dialética com o meio constrói sua condição humana e modifica historicamente a humanidade (ontogênese). Na teoria sócio histórica, as relações interpessoais denominadas intersubjetividade são a base para a formação da subjetividade, como por exemplo, os aspectos cognitivos. Processos Cognitivos e Aprendizagem 50 Analisando um pouco dos pressupostos teóricos de Piaget, que considera a criança como ser ativo e responsável pelo seu desenvolvimento, selecionando e interagindo com os estímulos do meio, o indivíduo passa a ser o maior protagonista na relação indivíduo-meio. O indivíduo busca e controla seus estímulos com o meio para construir seu conhecimento. Piaget completa sua ideia alertando que esta busca de estímulos está organizada por estruturas cognitivas que direcionam o sujeito em suas escolhas. Libâneo (2004) comenta que o suporte teórico de partida é o princípio vygotskiano de que a aprendizagem é uma articulação de processos externos e internos, visando à internalização de signos culturais pelo indivíduo, o que gera uma qualidade autorreguladora às ações e ao comportamento dos indivíduos. Esta formulação realça a atividade sócio histórica e coletiva dos indivíduos na formação das funções mentais superiores. Portanto, o caráter de mediação cultural do processo do conhecimento é, ao mesmo tempo, a atividade individual de aprendizagem pela qual o indivíduo se apropria da experiência sociocultural como ser ativo. (LIBÀNEO, 2004, p. 6) Por isso, devemos considerar que a relação de aprendizagem com o indivíduo deverá proporcionar condições de ensino-aprendizagem que fomentem capacidades e habilidades do pensar a partir das condições internas do sujeito, relacionando-as com o contexto sociocultural. EXPLICANDO MELHOR: Biólogo de formação, Piaget considera que “não é possível compreender o desenvolvimento psicológico sem considerar suas bases orgânicas” (PIAGET, 1971). Esta frase de Piaget não indica um retorno a programas inatistas que tratam de explicar o desenvolvimento cognitivo levando a variáveis biológicas e sim, que buscam a existência de uma continuidade entre mecanismos biológicos básicos e desenvolvimento cognitivo. Assim, o desenvolvimento da inteligência é um caso particular do desenvolvimento biológico geral e seu funcionamento é uma forma especial da atividade biológica. Processos Cognitivos e Aprendizagem 51 RESUMINDO: E então? Gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Nesse capítulo você deve ter aprendido a importância dos estudos sobre os aspectos psicossociais e cognitivos. Primeiro, analisamos que o conhecimento representa as informações mentalmente, seguindo as formas de: proposições, reproduções e imagens. Segundo, o conhecimento declarativo nos traz a ideia de proposições. Uma proposição é a unidade básica de informação e consiste em uma ideia. Quando identificamos o conceito de algo e sabemos o que é, nos referimos ao conhecimento declarativo. Terceiro, o conhecimento procedimental é aquele que executa ou realiza uma tarefa sobre uma determinada informação ou o saber fazer algo. Quarto, o conhecimento condicional responde ao raciocínio sobre determinado objeto ou ideia. Responde para que serve ou qual a utilidade de algo. Quinto, a teoria dos esquemas está representada por estruturas mentais que organizam o conhecimento. Sexto, atualmente existem inúmeras investigações sobre o ato de pensar humano com o objetivo de investigar e melhorar as condições de aprendizagem para a vida. Por último, verificamos que a interação com o meio é um dos fatores que influenciam o conhecimento humano. A partir disso, foram promovidas investigações situadas na psicologia cognitiva. Processos Cognitivos e Aprendizagem 52 REFERÊNCIAS AGUILERA, A. Introducción a las Dificultades del aprendizaje. Madrid: McgrawHill, 2003. ANDERSON, J. R. Cognitive Psychology and its implications. Nova Iorque: Worth, 2005 ATKINSON, R. C.; SHIFFRIN, R. M. Human memory: A proposed system and its control processes. In K. W. Spence; J. T. Spence (Eds.), The psychology of learning and motivation: Advances in research and theory (pp. 89-195), Vol. II. New York: Academic Press, 1968. BADDELEY, A. D.; HITCH, G. J. (1974). 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Essa perspectiva teórica encontra sua fundamentação no associacionismo, corrente da psicologia que surgiu a partir do século XIX, com a proposta de compreender determinados fenômenos psíquicos pela forma como se Processos Cognitivos e Aprendizagem 11 associam para a formação da consciência ou do comportamento. Seguindo as diretrizes do Associacionismo e para compreensão do comportamento humano, pesquisadores como I. Pavlov, desenvolveram pesquisas que foram denominadas condutismo. Essa é uma perspectiva teórica que está baseada na conduta ou comportamento humano que pode ser estudado por meio da observação. Na perspectiva do condutismo J. B. Watson (1878 – 1958) desenvolveu vários estudos empíricos sobre a conduta e a aprendizagem humana, partindo de critérios de associação entre um estímulo e uma resposta. No século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, alguns psicólogos americanos realizaram estudos sobre a conduta complexa entre os pilotos de aviões os quais resultaram em teorias sobre as estruturas e processos mentais (GAGNÉ, 1985, p. 41). Enquanto isso, renasciam na Alemanha, Grã- Bretanha, França e Canadá outras perspectivas centradas no cognitivismo (MANDLER, 2002 apud BRUNING et al. p. 2). A psicologia cognitiva encontra caminhos e cresce timidamente, mas as ideias condutistas permanecem, justificando práticas no contexto educacional até os dias atuais. Paralelamente, você irá perceber que a insatisfação de muitos pesquisadores cresceu no mesmo ritmo, porque muitos não conseguiam estabelecer explicações coerentes sobre o pensamento e a memória humana a partir das teorias condutistas- associacionistas. VOCÊ SABIA? Com base no processo de condicionamento descrito por Iván Pávlov (1849-1936) em que ele demonstra que mesmo as reações orgânicas, como os reflexos, podem ser controladas pelo ambiente por meio da associação estímulo-resposta, Watson utilizou um bebê como experimento dessa teoria, para demonstrar como os estímulos reforçavam questões de aprendizagem. Recomendamos o vídeo: John Watson - Teoria do Behaviorismo. Clique aqui. Processos Cognitivos e Aprendizagem 12 Conceito de cognição Em 1967, o termo “cognição” foi definido por Ulric Neisser da seguinte maneira: Cognição representa um conjunto de processos mediante os quais a entrada (input) sensorial se transforma, resume, elabora, armazena, recupera e utiliza (BEST, 2001, p. 5). O autor, Ulric Neisser publicou em 1967 um dos livros clássicos em psicologia, denominado Psicologia cognitiva. Nesse sentido, o input sensorial e os processos cognitivos se relacionam com algo que está fora de nosso organismo e, por isso, os sentidos são os responsáveis por introduzir novas energias em nosso sistema nervoso e cognitivo. Essa energia pode ser reelaborada e transformada. Beck e Alford (2000) consideram que a cognição é “a função que envolve deduções sobre nossas experiências e sobre a ocorrência e o controle de eventos futuros” (BECK e ALFORD, 2000 apud BAHLS e NAVOLAR, 2004, p. 4). Fialho (2007) nos indica que o fenômeno da cognição pode ser explicado como sendo, primeiro, uma função biológica, filogenético. Segundo, como um processo pedagógico, ontogenético e por último, por uma episteme. (FIALHO, 2007, p. 21) A psicologia cognitiva Com o descontentamento de muitos psicólogos com a falta de explicação sobre as bases teóricas do pensamento humano, outros profissionais, de áreas distintas da psicologia, se veem interessados nas propostas metodológicas para estudar o processo mental e suas manifestações. O binômio estímulo-resposta já não se mostra interessante para explicar as condições específicas da mente humana. As teorias condutistas não explicavam claramente o processamento e desenvolvimento da linguagem e contrariavam as expectativas e investigações de linguistas da época. Processos Cognitivos e Aprendizagem 13 Em meio a isso, a psicologia cognitiva volta com força ao cenário científico, oferecendo investigações em temas como: a atenção, o reconhecimento de padrões sensoriais, a memória, a linguagem, o raciocínio, a resolução de problemas, a classificação, os conceitos e a categorização das ideias na mente humana. Observe na figura o organograma que destaca uma lista crescente de autores. Figura 1: Psicólogos que estudaram a psicologia cognitiva Fonte: Elaborada pela Autora (2021). Nesta figura, destacamos alguns pesquisadores que no final da década de cinquenta contribuíram com trabalhos e estudos sobre uma renovação da psicologia cognitiva e seus fundamentos. Atualmente, no que conhecemos por psicologia cognitiva contemporânea, existem duas teorias sobre o processo de cognição, são elas: o processamento da informação e a teoria conexionista. Vejamos o que nos indicam. O primeiro é baseado na teoria do processamento da informação e tem suas raízes no surgimento da máquina de cálculo, o que seria o mesmo que indicar que a mente funciona como um computador. Exemplo: Para buscar um dado retomamos as informações armazenadas em nossa memória. A teoria conexionista está dedicada a desenvolver modelos computacionais, que têm seu início na teoria da informação, mas que se relaciona diretamente aos processos neurológicos. De modo geral, ambos estariam conectados com aspectos do funcionamento computacional. Agora, você irá compreender a diferença entre essas duas teorias defendidas por diversos autores. Processos Cognitivos e Aprendizagem 14 Processamento cognitivo e os sistemas de informação O telefone, a televisão e os computadores são alguns dos exemplos de sistema de informação que sofrem transformações ao longo do tempo. Analogamente, esses sistemas foram utilizados metaforicamente para explicar os processos da cognição humana, especialmente os computadores. Os psicólogos cognitivos utilizavam como exemplo os sistemas informáticos para explicar como funcionava o processo de informação humana, sua complexidade e para compreender o processo de aprendizagem do ser humano. Por isso, considera-se que a ciência cognitiva é uma área de estudos interdisciplinares que se inter- relacionam com a psicologia cognitiva, ciência da computação, sistemas de informação, inteligência artificial, neurociências e linguística, entre outras (LIMA, 2003 apud NEVES, 2006). Gagné (1985), determina que: a comparação das partes do sistema de processamento do computador tem funções similares à do sistema de processamento da informação do ser humano. Os seres humanos, assim como os computadores, realizam um trabalho em uma unidade central de armazenamento. Logo depois de tratar as informações, os seres humanos armazenam em uma memória a largo prazo e os computadores em um disco rígido. (GAGNÉ, 1985, p.49) Alguns profissionais estão de acordo com esta analogia e outros são contrários a esta comparação. Assim, diante de inúmeras discussões Massaro e Cowan (1993) e Palmer e Kimchi (1986) definiram uma linha de princípios sobre o processamento da informação com relação ao processo cognitivo. Veja no quadro as cinco qualidades ou princípios e seu significado (MASSARO e COWAN, 1993; PALMER e KIMCHI, 1986 apud BEST, 2001, p. 27). Processos Cognitivos e Aprendizagem 15 Quadro 1: Relação entre processamento da informação e processos cognitivos Fonte: Adaptado de BEST (2001, p. 27). Modelos de processamento da informação: a memória Você sabia que tudo começou com o estudo científico da memória? Isso mesmo. A memória passou a ser objeto de estudo a partir do trabalho de Hermann Ebbinghaus (1850-1909),o primeiro investigador experimental. Ebbinghaus estava interessado no espaço da memória e demonstrou que sujeitos entre 18 e 20 anos conseguiam recordar mais dados que os sujeitos de 8 a 10 anos e comprovou que o sentido tinha um papel importante para recordar um dado, determinando que as palavras sem sentido tinham pouca influência no espaço da memória. Binet também estudou as relações da memória com uma lista de palavras curtas e sem sentido (NEUFELD at al., 2010). Como objeto de estudo, as pesquisas sobre a memória perpassam por duas linhas centrais: a memória operativa e a memória a largo prazo. Para o que se define como modelo de processamento da Informação, verificaremos como se desenvolve a memória durante o processo de aprendizagem. Assim, para aprender alguma coisa ou um determinado conteúdo, nossa mente recebe a informação, organiza em série e atua de modo sequencial. Assim, poderíamos concluir que para processar uma informação, nossos processos cognitivos trabalham em uma sequência organizada e seriada, como por exemplo: 1, 2, 3, 4, 5, 6 etc. Processos Cognitivos e Aprendizagem 16 Figura 2: O Modelo Modal Memória a largo prazo Conhecimento declarativo. Conhecimento procedimental. Conhecimento condicional. Memória sensorial Memória a curto prazo PRÁTICA Recuperação Reconstrução Codificação Elaboração Fonte: Adaptado de Bruning et al. (2012, p.18). Na figura 2 temos uma nova revisão do modelo. Observamos como os componentes que processam a informação no ser humano aparecem divididos e são distintos uns dos outros. De acordo com essa teoria, o primeiro componente é o sistema sensorial de onde se cria o código cognitivo. Aqui, é onde detectamos os aspectos de nosso ambiente, o entorno que nos rodeia e a partir disso, selecionamos e organizamos um processo de entrada e saída de informações para armazená-las na memória a curto prazo (MCP) e/ou na memória a largo prazo (MLP). Após a recepção e seleção da informação, nosso primeiro bloco de armazenamento se denomina memória a curto prazo. Aqui, o tempo de retenção das informações é relativamente curto e sua capacidade é limitada. Atualmente, muitos acreditam na diferença entre memória a curto prazo e memória operativa (MO) ou de trabalho, pois alguns estudiosos defendem que, na memória a curto prazo, enfatizamos a duração de uma determinada informação. Dessa forma, a memória operativa se refere à funcionalidade da informação de modo consciente. Exemplo: Quando resolvemos mentalmente uma adição 33 + 24, o primeiro e mais habitual é somar as unidades e guardar o resultado na memória operativa para continuar a soma das dezenas até obter o resultado. Outro exemplo: Pense no que você deseja fazer nesse fim de semana. Percebeu alguma coisa? Pois bem, as imagens que foram produzidas em sua mente (quando pensou no fim de semana) são o retrato das ações que deseja colocar em prática. Estas imagens estão guardadas na memória operativa. Processos Cognitivos e Aprendizagem 17 Além disso, a memória operativa pode ser codificada e, por isso, pode ser armazenada na memória a largo prazo (MLP). Aqui, existe uma integração entre os conhecimentos anteriores e os novos conhecimentos. A informação pode ser elaborada, alterada, transformada, recuperada e reconstruída. A principal caraterística da memória a largo prazo é guardar informações durante toda a nossa vida para utilizá-las posteriormente. O modelo modal, anteriormente postulado por Atkinson e Shiffrin (1968) e posteriormente revisado por Baddeley e Hitch (1974), demostra que o processamento sensorial está interligado com a memória a curto prazo, largo prazo e com os processos meta-cognitivos que interferem diretamente no processo de cognição. Além disso, a memória a curto prazo passa a diferenciar-se da memória operativa e, na memória a largo prazo (MLP), ficam as informações declarativas e procedimentais, tais como as destrezas e atividades que possibilitam o movimento e a linguagem. Baddeley (1986) propõe uma estrutura da memória de trabalho que compreende um sistema geral denominado executivo central e dois subsistemas: o bucle fonoarticulatório e a agenda viso-espacial. IMPORTANTE: A memória de trabalho ou operativa é uma espécie de processamento consciente dos códigos cognitivos, em que os objetivos podem ser modificados e a memória permanente está encarregada de armazenar informações para usá-las posteriormente ao longo de toda a vida. A teoria de processamento da informação contemporânea refere- se especificamente à memória sensorial e à memória a curto prazo e seus principais pressupostos são (BRUNING et al., 2012): 1. Os sistemas de memória estão funcionalmente separados: todos os estudos cognitivos do processamento da informação definem dois ou mais sistemas de memória globais e que realizam funções específicas. Processos Cognitivos e Aprendizagem 18 2. A atenção é limitada: A capacidade para realizar um esforço mental está limitada de várias maneiras. 3. Os processos cognitivos são automáticos e controlados: Um processo cognitivo eficiente é o resultado do uso adequado dos recursos. 4. O significado é construído: O processo da informação é muito mais amplo que traduzir e representar estímulos. Linguagem e a fundamentação teórica sobre o desenvolvimento cognitivo As alterações na linguagem, basicamente na língua oral, despertaram interesse em muitos pesquisadores e cientistas no mundo. No último século, psicológicos, médicos, filósofos e linguistas se ocuparam com investigações de transtornos causados pela área de linguagem. Destacamos no quadro 2 alguns dos nomes mais relevantes que nos servem como base de estudos e que fundamentaram pesquisas sobre as alterações da língua oral. Quadro 2: Autores relevantes e pesquisas sobre alterações da língua oral Fonte: Adaptado de Aguilera (2003, p. 3). Processos Cognitivos e Aprendizagem 19 A medicina e a neurologia contribuíram para o desenvolvimento das pesquisas indicadas no quadro acima. Logo, surgiram alguns críticos que afirmavam que o cérebro humano possuía mais atributos do que se imagina e que não se podia caracterizar as funções cerebrais de modo fracionado e independente. Veremos que, simultaneamente, foram desenvolvidos estudos sobre as alterações da linguagem escrita, fundamentalmente no que diz respeito aos problemas apresentados sobre a leitura de texto. Aguilera (2003), indica alguns autores que estudaram o fenômeno das alterações na linguagem oral. Observe o quadro 3. Quadro 3: Autores relevantes que pesquisaram sobre as alterações da linguagem Fonte: Adaptado de Aguilera (2003, p. 4). Processos Cognitivos e Aprendizagem 20 As pesquisas no campo da medicina seguem e ganham novos adeptos e novas considerações acerca das alterações e implicações perceptivo-motoras que envolvem o campo da linguagem. Com o florescimento das investigações nesta área e com a chegada de Hitler ao poder, muitos pesquisadores interrompem seus trabalhos para continuar suas pesquisas nos Estados Unidos. Nesta fase, os pesquisadores direcionam o centro de estudo para as pessoas que não são deficientes e aqueles que aparentemente não sofreram nenhuma lesão cerebral. Concomitantemente, as investigações sobre o desenvolvimento cognitivo e a revolução na psicologia cognitiva contribuem de uma maneira ou de outra para que novas pesquisas sobre a linguagem sejam realizadas a partir de um enfoque psicológico e educativo. RESUMINDO: E então? Você viu como a história da Psicologia Cognitiva proporcionou diferenças na compreensão dos processos de aprendizagem. Interessante! Gostou da história que contamos? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Primeiro, você observou que a psicologia cognitiva se estabeleceu como o estudo científicodos processos mentais e que a psicologia experimental, iniciada em 1879, passa a ser de orientação cognitiva. Segundo, o condutismo acaba se convertendo na perspectiva de confiança principal da linha de pesquisa entre os psicólogos americanos. A psicologia condutista se transforma em uma tendência para o mundo a partir de inúmeros estudos de psicólogos americanos que são referências até a atualidade. É bom saber que, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, o interesse pela psicologia cognitiva começa a ter um grande impulso entre outros investigadores que estavam insatisfeitos com a perspectiva condutista. Segundo, as ciências da informação começaram a se expandir e são utilizadas como analogias para entender os processos cognitivos. Processos Cognitivos e Aprendizagem 21 RESUMINDO: Terceiro, o processamento da informação é uma metáfora defendida por muitos psicólogos que descrevem os fenômenos psicológicos para o processamento cognitivo da informação pelos seres humanos. A memória é vista como um dos elementos básicos para o processamento da informação pelo ser humano. Quarto, foi possível entender os conceitos básicos da psicologia cognitiva e a influência dos modelos de processamento da informação. Por último, verificamos que as pesquisas sobre linguagem marcaram a evolução sobre o processo de desenvolvimento cognitivo e que foram impulsionadas por várias áreas do conhecimento. Processos Cognitivos e Aprendizagem 22 Processo de aprendizagem sob o foco cognitivo OBJETIVO: Ao término do estudo deste capítulo você será capaz de compreender as contribuições da psicologia cognitiva para o processo de ensino e aprendizagem e como o processo cognitivo contribui para entendermos a aquisição da aprendizagem pelo indivíduo. E então? Motivado para desenvolver essa competência? Então vamos lá. A partir dos anos sessenta, vive-se uma grande revolução no âmbito acadêmico em que os pressupostos teóricos sobre o sentido e significado da ciência sofrem alterações em distintas áreas do conhecimento, tais como a filosofia, a pedagogia, a psicologia, entre outros. Nesse ponto, a educação é alvo de um processo de inovação no que diz respeito aos estudos cognitivos. Vejamos o porquê. A educação como perspectiva cognitiva Você já imaginou um mundo com novas perspectivas? Observe que, com a revolução dos paradigmas científicos, sobretudo na psicologia cognitiva, a educação passa a ser alvo de inúmeras investigações, principalmente no que diz respeito às teorias e aos processos de aprendizagem. Perceberá que a diversidade de perspectivas científicas altera consideravelmente as formas de pensar o processo educativo e suas relações com a atividade cognitiva do ser humano. Nesse período, identificamos especialistas de áreas distintas, contribuindo com pesquisas sobre o processo cognitivo, em especial aqueles cuja formação estivesse relacionada com as áreas de medicina, biologia e psicologia. Piaget (1896 -1980) foi um epistemólogo que contribuiu com seus estudos sobre a infância, seu desenvolvimento e as habilidades da inteligência e aprendizagem. O psicólogo Lev Vygotsky (1896 -1934) contribuiu com suas investigações no campo da psicologia histórico-social, sendo considerado um precursor da neuropsicologia Processos Cognitivos e Aprendizagem 23 soviética, com uma proposta de não reduzir os processos psíquicos a funções fisiológicas, mas como processos constituídos nas interações sociais. Henri Wallon (1879 – 1962) traz à luz seus estudos sobre educação, psicologia e filosofia, principalmente sobre o contexto e origem do pensamento e do desenvolvimento da afetividade na criança. As obras e contribuições de Wallon são ricas em fontes de estudo sobre a psicologia genética e a neuropsicologia, compreendendo a psicogenética como o estudo da origem (gênese) dos processos psíquicos e não reduzidos à condição de determinismo genético. Por outro lado, devemos ter claro que o objeto de preocupação da maioria de pesquisas no campo educacional estava direcionado pela concepção estática e unilateral do contexto do aprender. Não obstante, houve uma grande produção científica que estabelecia relações entre os processos de informação e a área educacional para identificar como o ser humano transformava, recuperava e armazenava a informação recebida e o conhecimento que havia sido gerado. Assim, foi dada maior ênfase aos estudos sobre o conhecimento, a informação e a comunicação. Nesse século, paradoxalmente, a supervalorização dos meios de informação e comunicação se transformaram em um grande desafio para nosso conhecimento. Observe a figura abaixo e imagine como será nosso futuro daqui a alguns anos com os avanços da tecnologia. Descobriremos algo novo sobre o funcionamento de nosso pensamento? Como será o processo de aprendizagem? Figura 3: Avanços da tecnologia Fonte: Pixabay Processos Cognitivos e Aprendizagem 24 REFLITA: A proposta, para este século, é ampliar o que já se sabe sobre a aprendizagem tendo como foco a psicologia cognitiva. O século XXI será a oportunidade de produzir conhecimento que transforme o que hoje conhecemos sobre como se aprende ou como se ensina. Para isso, voltamos a uma velha questão: a educação é importante? Para quem a educação realmente importa? Reflita sobre essas questões e descobrirá que as instituições educativas são muito importantes para a sociedade do conhecimento e, por sua vez, admitirá que todos reconhecerão sua importância. Agora sabemos que o urgente e necessário é indicar um caminho entre a educação do passado e os saberes do futuro. O contexto político marca as transformações no campo da educação, da sociedade e da política para a perspectiva cognitiva. Campbell e outros (1964) determinam o sentimento de impotência social e política. Dentro desse cenário, o modelo tradicional de educação, os processos clássicos de aprendizagem estariam com os dias contados, mesmo reconhecendo que em educação, as unidades temporais são mais extensas em sua eficácia e realização social. Como se define a perspectiva cognitiva A perspectiva cognitiva pode ser entendida como o momento em que vários cientistas e estudiosos buscaram compreender novas possibilidades de entender o conhecimento e o saber humano. A perspectiva cognitiva passa a ter maior validade a partir da Segunda Guerra Mundial com uma diversidade de áreas de estudos como: cibernética, inteligência artificial, ciências da computação, psicologia cognitiva, entre outros. Podemos considerar que, nos anos sessenta, estes exemplos representam uma transformação científica e uma revolução na perspectiva das ciências cognitivas caracterizando um movimento. Processos Cognitivos e Aprendizagem 25 Pressupostos básicos da perspectiva cognitiva Seoane e Rodriguez (1995) nos indicam quais foram as propostas em que se desenvolveram as metas da perspectiva cognitiva, vejamos: 1. O sujeito ativo: o sujeito psicológico deve ser ativo, complexo no seu processamento e em suas estratégias de comportamento. Além disso, deve ser criativo e gerar planos orientados ao futuro. 2. Novos métodos: Aqui, deve-se negar o rigor metodológico do empirismo positivista, característica original da perspectiva cognitiva. Devemos admitir uma multiplicidade de métodos de investigação. 3. Mente como informação: Surge um novo conceito de mente, esse novo conceito está relacionado ao sistema de processamento da informação (SEOANE e RODRIGUEZ, 1995, p. 55). Concluindo, a definição dos pressupostos de uma perspectiva cognitiva foram: o sujeito ativo, os novos métodos de pesquisa e o conceito de mente relacionado ao sistema de informação. Educação, ciência cognitiva e aprendizagem Mayer (1992) resume em três metáforas a aprendizagem e seus protagonistas: 1. Aprendizagem como aquisição de respostas: Esta foi a concepção dominante no século XX, tanto em psicologia comona prática educacional. Define o sujeito como um ser passivo e objeto da aprendizagem. A aprendizagem é mecânica e está determinada por recompensas. O professor deve valorizar as condutas do aluno em detrimento das atividades. Além disso, deve esperar respostas específicas a estímulos específicos. 2. Aprendizagem como aquisição do conhecimento: Essa concepção tem uma grande orientação cognitiva. A aprendizagem acontece a partir da relação do sujeito com o seu conhecimento. Aqui, o aluno Processos Cognitivos e Aprendizagem 26 aprende como um processador de informação e o professor ensina como um distribuidor de informação. De acordo com Mayer (1992), o currículo é a ferramenta básica da instrução. O conhecimento é avaliado a partir da quantidade de conhecimentos adquiridos. 3. Aprendizagem como construção do conhecimento: A partir desse enfoque, a aprendizagem passa a ter sentido para o sujeito que aprende. O professor se transforma em um participante ativo do processo e, junto ao aluno, promove a aprendizagem e a construção de conhecimentos em um ambiente de cognição adequado para a dinâmica didática. De modo geral, identificamos que essas definições de aprendizagem estão relacionadas aos modelos de processamento de informação. Não obstante, vivemos em constante transformação social. Por isso, entendemos que a educação é um elemento essencial para a promoção e formação do indivíduo. RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que as revoluções no âmbito acadêmico contribuíram para o desenvolvimento das teorias cognitivas. A educação, como uma das áreas de interesse da psicologia cognitiva passa a ter destaque no ambiente acadêmico e a produção científica se multiplica, principalmente no que diz respeito ao processo cognitivo. Alguns pesquisadores, sobretudo da área de psicologia e medicina, se destacam no contexto internacional e nos servem de referência até os dias atuais, como: Vygotsky, Wallon, entre outros. Assim, a preocupação de estudar a perspectiva cognitiva sob o foco educacional ganhou adeptos no mundo inteiro. É importante destacar as influências sociais presentes nessa época. Por último, revisamos o pensamento de Mayer (1992) sobre o contexto de aprendizagem. Processos Cognitivos e Aprendizagem 27 Problemas de aprendizagem - avaliação e intervenção OBJETIVO: Ao término do estudo deste capítulo você será capaz de analisar os seguintes conceitos: problemas de aprendizagem, dificuldades de aprendizagem, avaliação e intervenção. Além disso, irá verificar a importância do processo de avaliação e intervenção no âmbito profissional. E então? Motivado para desenvolver essa competência? Então vamos lá. Dificuldades ou problemas de aprendizagem A sociedade atual exige um maior nível de competitividade, de preparação profissional e de desenvolvimento pessoal para enfrentar os desafios que o século XXI apresenta. Ao contrário, se um determinado indivíduo manifesta um desenvolvimento insatisfatório, principalmente na idade escolar ou desenvolve dificuldades e problemas no percurso de aprendizagem, resultará em um processo de ensino e aprendizagem mais difícil, assim como sua integração social. O que você pode fazer para reverter esse quadro? Como enfrentar as queixas das famílias sobre o baixo rendimento escolar de seus filhos? Que tipo de prática educacional é adequada para desenvolver o potencial desses alunos? As experiências desenvolvidas na prática com crianças e adolescentes a partir do enfoque neuropsicológico estão resultando atrativas e, ao mesmo tempo, efetivas. Além disso, aportam novos conhecimentos profissionais para situações passadas. Se você observar as pesquisas nas últimas décadas sobre boas práticas educativas e as dificuldades de aprendizagem, poderá verificar como o enfoque sobre as dificuldades ou problemas de aprendizagem eram percebidos por diversos autores. Processos Cognitivos e Aprendizagem 28 A experiência de mais ou menos vinte e cinco anos na atenção psicológica de crianças com problemas de aprendizagem escolar motivados pela falta de concentração (alto índice de distração), problemas na leitura, na escrita, instabilidade emocional, impulsividade e exaltação na conduta, na maioria das vezes, é determinada por compromissos neurológicos que começam desde a imaturidade neurológica até a lesão cerebral. Esse compromisso cerebral aparente nos problemas de aprendizagem, muitas vezes é percebido pelos pais e professores das crianças que padecem, mas preferem silenciar-se ou ignorar o problema. Se observamos esta perspectiva conceitual, verificamos que o conceito de problemas de aprendizagem se modificou com as pesquisas mais recentes. Por isso, a neurologia e a neurociência aplicadas à educação, contribuem com novos conhecimentos para a compreensão dos processos de aprendizagem e seus problemas ou dificuldades, proporcionando instrumentos para uma avaliação mais criteriosa. Desse modo, podemos conhecer melhor os pontos frágeis e fortes de cada aluno e aplicar programas de intervenção capazes de enriquecer o desenvolvimento do aluno em contextos escolares e sociais. Revisando a literatura acerca do tema, verificamos que alguns autores apontam diferenças entre os termos: problemas de aprendizagem e dificuldades de aprendizagem. Para esclarecer esse ponto, indicaremos o que se entende por aprendizagem e a partir disso, a influência que cada termo exerce sobre o contexto de aprender, principalmente na escola. Sabemos que as concepções de aprendizagem surgem com o legado das investigações empíricas, definindo que todo conhecimento provém da experiência. Partindo dessa premissa da psicologia como ciência do comportamento observável, passa a relacionar aprendizagem e condicionamento. Com o desenvolvimento de novas perspectivas de aprendizagem, surgem as ideias defendidas pelo fundamento epistemológico de tipo racionalista, destacando que todo conhecimento é anterior à experiência, resultado das estruturas mentais dos sujeitos (GIUSTA, 2013). Processos Cognitivos e Aprendizagem 29 Assim, entender estas posturas sobre as concepções de aprendizagem nos servirá como fio condutor para determinar o que entendemos sobre aprendizagem. Nesse caminho, iremos ao encontro dos pesquisadores Jean Piaget e Wallon que estudaram a gênese do processo e evolução psicológica da criança. No entanto, Pain (1989) descreve que o processo de aprendizagem se inscreve na dinâmica de transmissão da cultura, que constitui a definição mais amplia da palavra educação, com quatro funções independentes (PAIN, 1989, p. 11): a. Função mantenedora da educação: ao reproduzir em cada indivíduo o conjunto de normas que regem a ação possível, a educação garante a continuidade da espécie humana. b. Função socializadora da educação: a utilização de utensílios, da linguagem e do habitat, transforma o indivíduo em sujeito e para isso a educação ensina as modalidades dessas ações que se percebe no aprendizado e construção das normas sociais. c. Função repressora da educação: permite conservar e reproduzir os valores e poder de cada classe ou grupo social. d. Função transformadora da educação: possibilita a tomada de consciência para uma educação com e para a liberdade. Quadro 4: Conceitos de aprendizagem Fonte: Adaptado de La Rosa (2001). Processos Cognitivos e Aprendizagem 30 No quadro apresentamos alguns dos conceitos sobre o que se entende por “aprendizagem”. Analisando cada conceito, você identificará sua proximidade ou não da teoria de modelos do processamento da informação. A memória é um dos fatores que determina o processo de aprendizagem na vida e na escola. Por isso, muitos estudiosos defendem a memóriacomo um dos requisitos básicos para a aprendizagem dos conhecimentos no âmbito escolar. Também, inúmeras pesquisas justificam que um déficit nas estruturas que organizam o processamento das informações pode acarretar problemas de aprendizagem simples e complexos. Definição de problemas de aprendizagem Você sabia que a definição de problemas de aprendizagem está relacionada ao desenvolvimento e história da psicologia escolar? Isso mesmo, a trajetória da psicologia escolar no Brasil acompanhou as grandes transformações do século XIX e as propostas de psicólogos americanos e europeus. Nessa época, a psicologia se ocupava de tratar os problemas e deficiências das pessoas e suas dificuldades para aprender em contextos sociais normais. Por isso, surgiram várias pesquisas e o Brasil foi um dos países preocupados em estudar os problemas de aprendizagem em seus laboratórios de aprendizagem. Os termos, problemas de aprendizagem e dificuldades de aprendizagem sempre estiveram relacionados com a história e o desenvolvimento da psicologia geral e da psicologia escolar no Brasil e no mundo. De modo geral, um problema de aprendizagem pode estar associado a uma patologia aparente nos processos cognitivos, que impedem ou dificultam a aprendizagem, para que esta por sua vez, possa ser identificada, investigada e decifrada. Segundo Pain (1989), a expressão problemas de aprendizagem pode ser definida da seguinte maneira: O problema de aprendizagem é considerado como um sintoma no sentido de que o não-aprender não configura um quadro permanente, mas ingressa em uma constelação peculiar de comportamento, nos quais se destaca como sinal de descompensação (PAZ, 1971 apud PAIN, 1989, p. 28). Processos Cognitivos e Aprendizagem 31 No entanto, se revisarmos a literatura sobre o tema descobriremos que em alguns casos, um problema de aprendizagem se relaciona muitas vezes ao ambiente clínico enquanto a expressão dificuldades de aprendizagem passa por um viés educacional, mas ambas têm a finalidade de explicar uma atividade cognitiva. Atualmente, concebemos a expressão dificuldades de aprendizagem em sentido amplo, mas sem perder de vista as contribuições que são aportadas por outros profissionais. Por isso, pesquisamos sobre as duas perspectivas, considerando os diversos fatores que devem ser analisados ao considerar esse fenômeno como escola, família, comunidade, práticas pedagógicas, entre outros. Definição de dificuldades de aprendizagem O conceito de dificuldades de aprendizagem surge com a preocupação e estudos de profissionais da área de medicina, principalmente neurólogos. Para realizar suas pesquisas, os cientistas estudavam indivíduos que padeciam de alguma deficiência, em sua maioria aqueles que não possuíam a capacidade de falar, ler, movimentar- se, entre outros. Por isso, é fundamental entender o percurso histórico da expressão “dificuldades de aprendizagem” e a evolução desse conceito até os dias atuais. Assim, antes de definir as dificuldades de aprendizagem levaremos em conta as definições universalmente aceitas na história da medicina e psicologia e que fazem as seguintes referências: • Alteração ou retraso no desenvolvimento: aparecem mais tarde as funções cognitivas que auxiliam o processo de aprendizagem. • Transtornos: desordem em um ou mais processos psicológicos básicos, envolvidos na compreensão da linguagem oral ou escrita que pode manifestar-se na falta de habilidade para ouvir, falar, ler, escrever, pensar e operar com o cálculo. É interessante diferenciar entre alguns termos que se utilizam indistintamente para expressar déficits ou dificuldades de aprendizagem e transtornos do desenvolvimento, como são os seguintes: deficiência, dificuldades de aprendizagem, transtorno de desenvolvimento e invalidez. Processos Cognitivos e Aprendizagem 32 Seguindo os critérios da Organização Mundial da Saúde, a partir do ano de 1983 uma deficiência está caracterizada pela anormalidade de uma estrutura ou função fisiológica, psicológica ou anatômica. A partir desse momento, visualizamos uma acentuada distinção entre essas terminologias: deficiência, problemas e dificuldades de aprendizagem. Assim mesmo, alguns tipos de deficiências são: intelectuais, da audição, musculoesqueléticas, desfigurador, de linguagem, da visão, viscerais, generalizadas ou múltiplas. Como se configura a deficiência? A deficiência é a ausência da capacidade de realizar uma atividade na forma que se considera normal para o ser humano. Consideram-se deficiências: da conduta, da comunicação, do cuidado pessoal, do movimento, entre outros. Então, podemos dizer que a expressão dificuldades de aprendizagem ganha espaço entre pesquisadores de distintas áreas das ciências e, a partir disso, surge também a necessidade de unificar o que se entende por essa expressão. Observamos o desenvolvimento histórico para definir essa expressão até os dias atuais. Veja que a primeira definição formal foi proposta em uma conferência da Association for Children with Learning Disabilities (ACLD) organizada por essa associação de pais e educadores de indivíduos com dificuldades de aprendizagem no âmbito escolar. Essa definição foi proposta por Samuel A. Kirk em 1962, onde esclarecia que: Uma dificuldade de aprendizagem se refere a uma alteração ou retraso no desenvolvimento em um ou mais dos processos de linguagem como falar, soletrar, escrever ou aritmética que se produz por uma disfunção cerebral, transtorno emocional ou de conduta e não por um retraso mental de privação sensorial ou fatores culturais ou instrucionais. (KIRK, 1962, p.263 apud AGUILERA, 2003, p. 44) H. Mycklebust (1963) apud Aguilera (2003), faz referência aos aspetos neuropsicológicos para definir as dificuldades de aprendizagem e destaca que: Processos Cognitivos e Aprendizagem 33 Utilizasse o termo Transtorno Neuropsicológico da Aprendizagem para referir-se às deficiências na aprendizagem em qualquer idade, causadas por diferenciações no Sistema Nervoso Central e que não se devem à deficiência mental, alteração sensorial ou causas psicogênicas. A etiologia pode ser enfermidade ou acidente ou fatores evolutivos. (AGUILERA, 2003, p.45) Devemos caminhar no sentido de superar as concepções que culpabilizam e/ou patologizam os alunos isoladamente pelo seu fracasso sem considerar o contexto social, político e econômico no qual estão inseridos, passando a olhar com mais atenção para seu cotidiano e para as interações que esse sujeito estabelece com seus pares. Tendo em vista esses objetivos, a promoção da resiliência no ambiente escolar constitui-se em um meio para a superação das adversidades que surgem a partir dos erros cometidos pelos estudantes visando o sucesso na escolarização. (JESUS, T. D. S., 2015) Por outro lado, há um grupo heterogêneo de transtornos devidos à disfunções no Sistema Nervoso Central, seja de forma identificável ou induzida. Numerosos estudos e publicações analisam a origem e o desenvolvimento histórico das dificuldades de aprendizagem. Observe no quadro 5 a síntese sobre o desenvolvimento histórico das dificuldades de aprendizagem. Processos Cognitivos e Aprendizagem 34 Quadro 5 – Desenvolvimento histórico das dificuldades de aprendizagem Fonte: Elaborado pelo autor - Adaptado de Vidal et al. (2001, p. 15). Avaliação A avalição é um dos temas mais controversos em um processo de ensino e aprendizagem. Isto posto, convido você a analisar algumas questões sobre o processo de avaliação e buscar respostas de apoio que colaborem com nossas necessidades profissionais. Pois bem, a avaliação deverá garantir um conjunto de dados da situação-problema. Logo, criar condições que favoreçam uma análise profunda dos dados e de suas variáveis para, a partir daí, estudar as alternativas e oportunidades de aprendizagem. Processos Cognitivose Aprendizagem 35 Alchiere e Cruz (2003) apud Facci et al. (2014) esclarecem que o desenvolvimento da Psicologia enquanto ciência deveu-se à sistematização dos processos psíquicos básicos e ao uso experimental de formas de medidas psicológicas que tinham como finalidade verificar os estágios de desenvolvimento e aprendizagem humana (ALCHIERE e CRUZ, 2003 apud FACCI et al., 2014). Para que o processo de avaliação seja efetivo, devemos garantir: Figura 4 – Processo de avaliação Identificar o problema ou dificuldade Ferramenta de avaliação Avaliação Estratégia Investigação Fonte: Elaborado pelo Autor (2021). O Conselho Federal de Psicologia define a avaliação no contexto da psicologia como um processo técnico e científico realizado com pessoas ou grupos de pessoas que, de acordo com cada área do conhecimento, requer metodologias específicas. Sugere que a avaliação é dinâmica e se constitui fonte de informações de caráter explicativo sobre os fenômenos psicológicos, com a finalidade de subsidiar os trabalhos nos diferentes campos de atuação do psicólogo. Entre eles, saúde, educação, trabalho e outros setores em que se fizer necessária. Conclui-se que, a avaliação é um estudo que requer um planejamento prévio e cuidadoso, de acordo com a demanda e os fins aos quais se destina. Além disso, a Resolução CFP nº 07/2003 destaca que os resultados das avaliações devem considerar e analisar os condicionantes históricos e sociais e seus efeitos no psiquismo, com a finalidade de servirem como instrumentos para atuar não somente sobre o indivíduo, mas na modificação desses condicionantes que operam desde a formulação da demanda até a conclusão do processo de avaliação psicológica. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2007, p. 8) Processos Cognitivos e Aprendizagem 36 Sobre a avaliação em uma perspectiva interacionista do desenvolvimento cognitivo, em situações de dificuldades de aprendizagem é importante a consideração dos fatores socioculturais, didáticos, familiares, individuais e comunitários. Entre as diferentes formas de avaliação existentes, podemos exemplificar a avaliação assistida proposta pela teoria sócio histórica de Vygotsky que consiste em definir o que o indivíduo já sabe (desenvolvimento real) do que potencialmente pode aprender (desenvolvimento proximal) e tanto a avaliação como a intervenção acontecem nesse “espaço” entre o desenvolvimento real e o potencial, denominado zona de desenvolvimento proximal (LINHARES, 1996). Intervenção Quando detectamos um caso potencial de problema ou dificuldade de aprendizagem, aparecem muitas entre os profissionais, a família e o sujeito (adulto ou criança) e todo o contexto educacional, familiar e comunitário. Por outro lado, entre o grupo de profissionais existe a necessidade de compreender o problema a partir de uma perspectiva profissional científica, que é produzida por resultados de um processo de avaliação que foi motivado anteriormente. Assim, a intervenção interfere na dinâmica da avaliação, considerando os fatores e as causas de um problema no campo específico das dificuldades de aprendizagem. Esses fatores podem ser: orgânicos, sociais, psicopedagógicos, culturais e ambientais. Então, o que significa Intervenção? Bem, se analisamos nossa realidade social e política encontraremos um sentido pejorativo, negativo e, às vezes, repressivo da palavra. Aguilera e Rodrigues (2003) ressaltam como relevantes os três grandes momentos que dão origem aos modelos de intervenção relacionados às dificuldades de aprendizagem. No quadro abaixo apresentamos esses períodos que marcam historicamente os modelos de intervenção na prática de nossos profissionais. Processos Cognitivos e Aprendizagem 37 Quadro 6. Etapas que marcam a história dos modelos intervenção Fonte: Adaptado de Aguilera (2003) Gondim, Bastos e Peixoto (2010), observaram, a partir de uma pesquisa realizada sobre o trabalho dos psicólogos brasileiros: “indícios apontam que o modelo de intervenção individual está sendo substituído por outro modelo, mais fortemente focado na intervenção social” (GONDIN, BASTOS e PEIXOTO, 2010, p. 192 apud LOPES e NASCIMENTO, 2015). Isso, mesmo que as atividades em clínica e de avaliação psicológica continuem como principais áreas de atuação da psicologia em nosso país. A psicologia da educação, campo consolidado e extremamente vasto em pesquisas, publicações e propostas de intervenção no Brasil, tem uma discussão ampla e expressiva sobre avaliação e intervenção em processos de aprendizagem. Estamos de acordo com o questionamento de Facci et al. (2014): Se compreendemos as dificuldades escolares como expressão de um conjunto de relações que se estabelecem no processo de escolarização, constituídas por dimensões pedagógicas, institucionais, políticas, culturais e sociais, como construir métodos de avaliação que contemplem a complexidade do fenômeno estudado? Assim, as autoras concluem que, o foco do trabalho do psicólogo, do psicanalista ou do psicopedagogo está na criança e na forma como estes pensam ou compreendem a aprendizagem e a intervenção deve ser feita a partir dela e/ ou de sua família. É sobre ela que recai o acompanhamento tanto clínico quanto cognitivo. (FACCI et al., 2014, p. 389) Processos Cognitivos e Aprendizagem 38 Dessa forma, a avaliação e a intervenção são processos que se complementam, onde os profissionais devem buscar caminhos que respeitem o sujeito e seu contexto histórico e social. Assim, entender a intervenção como um processo contínuo e de constante aprendizado é um avanço na prática do profissional. SAIBA MAIS: Quer se aprofundar nesse tema? Recomendamos o acesso ao artigo: “A pesquisa intervenção em psicologia da educação e clínica: pesquisa e prática psicológica”. Clique aqui. RESUMINDO: E então? Gostou do que apresentamos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Primeiro, foi necessário definir um marco conceitual das expressões “problemas de aprendizagem” e “dificuldades de aprendizagem”. Partindo dessa premissa, compreendemos o que significa aprendizagem e como essa compreensão pode contribuir com os objetivos e necessidades do campo profissional em que se pretende atuar. A partir disso, foi proposta uma revisão da literatura sobre os conceitos de problemas e dificuldades de aprendizagem em uma visão histórica, que contribuiu, de modo geral, para o que hoje conhecemos como psicologia cognitiva. Segundo, nos referimos ao conceito de avaliação, dentro de um marco global na área de psicologia para compreender esse processo e sua representatividade no contexto da intervenção psicológica e educacional. Isso porque consideramos como competência fundamental a formação de qualquer profissional dessa área. Terceiro, reconhecemos o conceito de intervenção como uma continuidade ao processo de avaliação defendido por muitos autores. Processos Cognitivos e Aprendizagem 39 Aspectos psicossociais e cognitivos OBJETIVO: Ao término do estudo deste capítulo você será capaz de entender como os estudos dos aspectos psicossociais e cognitivos influenciam os processos de ensino- aprendizagem. Isso será fundamental para conceber a ideia sobre o pensamento humano e as influências que esse exerce sobre o contexto social. Vamos lá! Os estudos sobre aspectos cognitivos e aprendizagem se dividem entre os que trabalham uma ênfase maior no interacionismo e a abordagem do processamento da informação. Como as pesquisas de maior importância, cabe destacar: Teoria Psicogenética de Piaget: Para Piaget (1983), a cognição humana é uma forma de adaptação biológica na qual o conhecimento é construído aos poucos a partir do desenvolvimento das estruturas cognitivas que se organizam de acordo com os estágios de desenvolvimento da inteligência.Assim, desenvolvimento cognitivo está ligado aos processos de assimilação e acomodação que promovem o equilíbrio que varia de acordo com a idade. (FLAVELL et al., 2000) Teoria Sócio histórica de Vygotsky: Para Vygotsky (1998), o conhecimento é construído durante as interações entre os indivíduos em sociedade, desencadeando o aprendizado. Assim, o processo de mediação se estabelece quando duas ou mais pessoas cooperam em uma atividade, possibilitando uma reelaboração. Nesse sentido, os adultos, que proporcionam modelos de comportamento, organizam e estruturam a participação das crianças em atividades. São denominados incentivadores cognitivos na participação orientada. Entretanto, as crianças não são passivas, assimilam o conhecimento e o reelaboram viabilizando novas atitudes e gerando, sucessivamente, novos comportamentos. (FLAVELL et al., 2000) Processos Cognitivos e Aprendizagem 40 A abordagem do processamento das informações compreende que nosso cérebro está em pleno desenvolvimento desde que nascemos. A adaptação e o processo de desenvolvimento cerebral envolvem processos cognitivos básicos, que nos permitem avançar cultural e socialmente para compartilhar eventos com outros seres humanos, promovendo sua integração ao meio ambiente. Lembre-se que a cognição equivale à capacidade do ser humano para processar a informação a partir da percepção, da experiência e do indivíduo. Para que isso aconteça, será necessário colocar em prática outros processos como a atenção, a memória, a aprendizagem, o pensamento, entre outros. Baseando-nos nas teorias de processamento da informação, a percepção seria a base para que outros processos cognitivos tais como a linguagem, o pensamento e a inteligência, que são considerados complexos, se desenvolvam. O conhecimento O que é o conhecimento? Como o conhecimento pode configurar nossa percepção sobre o mundo? Sendo assim, foi possível analisar como se fundamenta o processamento da informação pelo ser humano. Você irá estudar as relações que se estabelecem entre o conhecimento (conteúdos), o pensamento (processos cognitivos) e a interação social. Entender estas relações pode influenciar na maneira de compreender o funcionamento da mente humana. Vejamos primeiro o papel do conhecimento nas atividades do ser humano. Você se lembra do espaço de armazenamento de um disco rígido? Observe a figura. Processos Cognitivos e Aprendizagem 41 Figura 5: Imagem de um disco rígido, memória ou de seus componentes que completam um computador Fonte: Pixabay Observe a imagem e relacione-a com a memória operativa de um computador. Distinguiremos um fator muito importante com respeito à memória humana: Qual é o espaço necessário para armazenar conteúdos? Podemos armazenar conteúdos sem considerar o espaço que necessitamos? Entenda que o espaço que ocupa uma memória de computador não é o mesmo espaço que ocupa a memória operativa do ser humano. Por isso, em um computador e em outros dispositivos temos a opção de aumentar e diminuir a zona (superfície) para armazenar conteúdo. Agora, veja que interessante. O ser humano registra os conteúdos de forma diferente para economizar esse espaço físico de armazenamento. Considera-se que nossa memória operativa trabalha com um espaço reduzido e limitado e, por isso, nosso conhecimento é dividido em conhecimento geral e específico. O conhecimento geral está relacionado ao domínio do vocabulário e às habilidades de processamento da informação implicados na realização de uma tarefa. Exemplo: 1. Reconheço uma informação. 2. Interpreto esta informação. 3. Apresento esta informação ao mundo de distintas maneiras. Processos Cognitivos e Aprendizagem 42 Logo, o conhecimento específico se refere a um tema determinado que o ser humano deve dominar sobre uma tarefa específica da ciência e a realidade que nos rodeia. Exemplo: 1. Qual é o tipo de tarefa e em que consiste? 2. Como se forma ou qual é a estrutura dessa tarefa? 3. Essa tarefa traz consequências para a vida do indivíduo ou do grupo? Por ser um tema que chama muito a nossa atenção, vamos ampliar nossas considerações sobre o conhecimento específico. Pinto (2001) nos indica que: as investigações realizadas no âmbito da psicologia cognitiva nas áreas de aprendizagem e memória humanas têm implicações importantes no nível escolar. Esclarece o autor que, nesse contexto, a aprendizagem não é independente dos outros processos mentais de atenção, percepção, memória e raciocínio, sendo o conhecimento de que somos portadores do resultado da mediação mais ou menos coordenada dos vários processos cognitivos. (PINTO, 2001, p. 1) O conhecimento declarativo O tipo de conhecimento declarativo é aquele que identifica um determinado objeto, por exemplo: um carro. Esse conhecimento se representa por meio de proposições. “Proposições” representam uma unidade básica de uma informação no sistema de processamento de informação. Corresponde a uma ideia (GAGNÉ, 1985). Em outras palavras, essa ideia deve apresentar um significado linguístico que possa afirmar ou negar um conceito. Também, devemos observar que em uma proposição coexistem dois elementos: uma relação e um argumento. Beltrán (1995) explica que o conhecimento declarativo abarca ideias, generalizações e teorias que foram armazenadas ao longo da vida e está representado na memória em forma de redes de proposições (BELTRÁN et al. 1995). Processos Cognitivos e Aprendizagem 43 Exemplo: Vejamos o exemplo de Alicia: Alicia é uma aluna inteligente e atualmente está cursando o 3º ano da educação básica. Sua professora solicitou que relatasse para seus companheiros os nomes de todos os estados brasileiros e suas capitais. Como era de se esperar, Alicia recitou todos os nomes de Estados e capitais sem titubear. Esse é um exemplo de conhecimento declarativo, pois agrupa as informações por meio de dados anteriormente estudados. Assim, as ideias que se constituem como argumentos representam os nomes, os pronomes e também podem vir a ser verbos e adjetivos. A relação de uma proposição delimita a ideia e, por isso, identifica-se diretamente com os verbos, adjetivos e advérbios. Conhecimento procedimental O conhecimento procedimental relaciona-se com o modo de fazer ou colocar uma ideia em prática, produzir. Como fazer ou executar uma tarefa? Exemplo: Como construir uma casa, uma resenha ou um trabalho de fim de curso. Veja na figura abaixo, como foi construída esta casa que hoje é o Museu “Casa dos Contos”. Você pode reconhecer o estilo de construção? O que pode dizer sobre o estilo arquitetônico? Figura 6 – Museu Casa dos Contos Fonte: Wikimedia Commons. Processos Cognitivos e Aprendizagem 44 Então, propomos as perguntas: Qual o estilo arquitetônico e o estilo de construção? Os questionamentos podem ser respondidos a partir de duas variáveis: primeira, se o meu conhecimento é declarativo ou estático, posso indicar a resposta se recordo as informações. Segunda, para essa, utilizo uma resposta mais criteriosa, com outros argumentos e mais pesquisada. Isso pode indicar que conheço outros procedimentos para a construção de uma casa, por exemplo. O conhecimento procedimental é dinâmico e pode transformar a informação. Exemplo: Alicia necessita realizar a seguinte multiplicação: Como ela realizará esta multiplicação? Para realizar essa operação, Alicia deverá transformar as informações iniciais em outras para conseguir o resultado que será 2.757. Portanto, a regra para distinguir um conhecimento procedimental de outro é verificar se pode ser representado por uma produção ou relação de condição-ação. Observe o quadro abaixo que oferece alguns exemplos para diferenciar entre os tipos de conhecimento declarativo e procedimental. Quadro 7: Perguntas para avaliar o conhecimento declarativo, o conhecimento procedimentalou ambos .............................................................................................................................................................................................................................. Conhecimento Declarativo 1. Verdadeiro ou falso? Neste Estado a idade legal para beber álcool é a partir dos 18 anos. 2. Moby Dick foi escrito por:. a. Hawthorne. b. Thoreau. c. Melville. d. Hemingway. 3. Escreva o conceito de círculo. 4. Descreva os fatos e acontecimentos que levaram à Primeira Guerra Mundial. Processos Cognitivos e Aprendizagem 45 Conhecimento Procedimental 5. Qual das figuras representa um triangulo? Combinação de conhecimentos procedimental e declarativo 6. Escreva uma redação sobre o tema: A principal causa da Segunda Guerra Mundial. Seja convincente! .............................................................................................................................................................................................................................. Fonte: Adaptado de GAGNÉ (1985, p. 95). No quadro acima, você pode verificar o que é necessário para medir cada tipo de conhecimento. Pratique para identificar os conceitos que foram estudados. Gagné (1985) observa que a distinção entre o conhecimento procedimental e declarativo foi realizada pelo filósofo Ryle (1949) e é um aspecto fundamental da teoria de aprendizagem de Gagné (1977). A autora indica que esta distinção também aparece na teoria cognitiva de J. R. Anderson (1976) e esclarece que muitos psicólogos que realizam essa diferenciação destacam que estes conhecimentos são independentes uns dos outros e que outros psicólogos não encontram nenhuma diferença (GAGNÉ, 1985). O que você pensa a respeito? São diferentes? Um professor poderia notar essa diferença em sala de aula? De modo geral, os conhecimentos declarativos e procedimentais são muito importantes na dinâmica e vida escolar e por isso são temas de investigação da psicologia cognitiva. Conhecimento condicional O conhecimento condicional, ou melhor, o raciocínio condicional, envolve duas palavras: uma delas é “se” e a outra “então”. Esse tipo de conhecimento postula o quando e o porquê devemos aprender sobre uma determinada ideia. A palavra “se” especifica uma ou mais condições para produzir e executar uma tarefa. De outro modo, a palavra “então” organiza estas ações de forma racional para que sejam executadas. Processos Cognitivos e Aprendizagem 46 Beltrán (1995) define o conhecimento condicional como essencial porque sinaliza o campo de aplicação do conhecimento, evitando conhecimentos estáticos e favorecendo a transformação de uma tarefa primária em uma nova tarefa. Em linhas gerais, esclarece que se ensinamos uma pessoa o que é um resumo (conhecimento declarativo), se ensinamos como produzir (conhecimento procedimental) e se ensinamos para que serve ou sua utilidade, estaríamos ensinando um conhecimento condicional, discriminando a razão desse comportamento (BELTRÁN, 1995, p. 133). Você irá reconhecer isto na prática quando ouvir falar de conhecimento específico no processo de aprendizagem ou compreensão de conceitos de modo significativo. SAIBA MAIS: A casa dos contos, hoje Museu, está localizada na cidade de Ouro Preto em Minas Gerais e foi construída entre 1782 a 1787. Seu projeto está atribuído a José Pereira Arouca e se classifica como um casarão. Esse casarão é um dos vários emblemas do turismo em Minas Gerias e foi construído para ser a residência de João Rodrigues de Macedo, cobrador de impostos da Capitania de Minas Gerais. Saiba mais e faça uma visita! Visite a página da Cidade de Ouro Preto. Clique aqui. A teoria dos esquemas Os esquemas, na teoria apresentada por pesquisadores cognitivos, definem-se como: estruturas mentais que utilizamos para representar e organizar o conhecimento. Bruning et al. (2012) explicam que antes da década de 70, o conceito de esquema era uma noção escura da psicologia experimental, aparecendo em uma perspectiva histórica na obra de Bartlett (1932) e nos trabalhos do filósofo do século XVIII, Inmanuel Kant, que se referia às “regras da imaginação”, mediante as interpretações da experiência (BRUNING et al., 2012, p. 52). Processos Cognitivos e Aprendizagem 47 Vamos comprar uma casa? O que é necessário saber para comprar uma casa? Observe a figura abaixo. Figura 7 - O plano de uma casa Fonte: Pixabay A imagem representa o que lembramos quando desejamos comprar uma casa. Por exemplo, quais são as primeiras informações que devo saber sobre a casa? Quantos quartos tem? Quantos banheiros? Para entender, quando vamos realizar uma compra desta magnitude é prático listar uma série de itens ou desejos para efetivar a compra. No caso desse exemplo, a teoria dos esquemas pressupõe que existe uma representação mental ou conceito sobre a “casa dos nossos sonhos”. Por isso, toda a informação que organizamos está repleta de novos conteúdos que se relacionam entre si. Mesmo assim, a teoria do esquema, apesar de ser criticada por apresentar um caráter geral e impreciso sobre o conhecimento, continua sendo utilizada por muitos pesquisadores cognitivos que seguiram ampliando suas investigações e desenvolvendo conceitos, com base nos esquemas da percepção, da memória e da solução de problemas. Processos Cognitivos e Aprendizagem 48 Pensamento Você pensa? Pare e pense. Pense rápido! O que está pensando agora? Qual é o modo que o ser humano utiliza para pensar? São tantas perguntas e tão poucas respostas. Talvez nenhuma. Mas o simples exercício de pensar sobre estas perguntas nos faz parar e revisar a literatura sobre os estudos e investigações sobre o pensamento. Biólogos, nutricionistas, psicólogos, pedagogos, médicos, neurólogos, neurocientistas, educadores das atividades físicas e você estão preocupados em descobrir os propósitos ou as bases do ato de pensar ou de codificar uma informação ou mensagem. Por isso, a maneira e as estratégias de pensamento se revitalizam em distintos campos de pesquisa no Brasil e no mundo. Por qual motivo e para qual finalidade devemos ensinar a pensar? Como profissionais, que necessidade possuímos de ensinar alguém a pensar? Encontramos algumas respostas: Os estudantes estariam bem equipados para competir efetivamente pelas opções educativas, postos de trabalho, reconhecimento social e gratificações no mundo social. Isso quer dizer que teriam mais possibilidades de sucesso na vida. (BELTRÁN, 1995, p. 144) Glaser (1984) apud Beltran (1995) esclarece que “um pensamento crítico ajuda o cidadão a formular julgamentos inteligentes em temas públicos contribuindo democraticamente a resolver problemas sociais” (GLASSER (1984) apud BELTRÁN, 1995, p. 144). Pois bem, como profissionais, das respostas encontradas e seguindo nosso campo ético de formação, verificamos que seria impossível negar a alguém nossa colaboração para aprender a pensar. Isso porque acreditamos que todos os indivíduos devem estar preparados para tomar sábias resoluções em suas vidas e poder compartilhar decisões em benefício de si mesmo e para viver em sociedade. Processos Cognitivos e Aprendizagem 49 Acreditamos que os profissionais devam ampliar sua prática de ensino para que o indivíduo aprenda a pensar. Por outro lado, apontam Bereiter e Scardamalia, se os professores se limitam a ser apenas transmissores de conhecimento, o resultado pode ser que os estudantes adquiram um conhecimento inerte, quer dizer, conhecimento inútil que não será utilizado porque não está representado na memória a longo prazo de um modo adequado que possa facilitar a recuperação ao não estar conectado com o resto de dados informativos na rede cognitiva do sujeito. (BERIETER E SCARDAMALIA, apud BELTRÁN, 1995, p. 147) Interação social O que você pode dizer sobre as relações