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EDUCAÇÃO E SOCIOLOGIA UNIDADE II A Escola como Meio de Reprodução das Relações Sociais Ana Maria Abdul Ahad A Escola como Meio de Reprodução das Relações Sociais 3 Introdução A educação está profundamente ligada às questões políticas, sociais e econômicas, sustentando e reproduzindo valores e hierarquias sociais. Ela não apenas reflete, mas também reforça a ordem existente, naturalizando desigualdades e dificultando a mobilidade social. Apesar de sua função de perpetuar a estrutura social, a educação é um processo dinâmico e pode ser um caminho para mudança e inovação. Reconhecendo que é passível de transformação, podemos usar a educação para desafiar e superar barreiras sociais, promovendo uma sociedade mais justa e equitativa. Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Conhecer as correntes do pensamento sociológico contemporâneo que influenciam as práticas educacionais no Brasil. • Refletir sobre as políticas educacionais e seus impactos sociais. 4 A Escola como Espaço de Conflitos e Transformações Como espaço de aprendizagens, entrosamento e acolhimento, é natural que a escola seja, também, palco de diferentes conflitos. O conflito fica muito evidente quando comparamos diferentes grupos sociais dentro da escola: no primeiro, os estudantes possuem melhores condições econômicas e oportunidades para estudar, assim, familiarizam-se, facilmente, com o espaço escolar, os conteúdos, as linguagens utilizadas etc.; no segundo, os estudantes, carentes social e economicamente, acabam “sacrificando” seu bem-estar em prol da almejada ascensão social; no terceiro grupo, também carente, os estudantes parecem antever o fracasso social e acabam por negligenciar sua própria educação. Diferenças dentro da mesma escola Fonte: Plataforma Deduca (2024). #pratodosverem: a figura mostra duas imagens, lado a lado, com a mesma pessoa. À esquerda, há balões de pensamentos negativos. À direita, há balões com pensamentos positivos. Nesta esteira, vamos conhecer as teorias em sociologia da educação de Althusser, de Bourdieu e de Establet e Baudelot. Louis Althusser: Escola como Aparelho Ideológico do Estado Na obra Ideologias e aparelhos ideológicos do Estado, o filósofo franco-argelino Louis Althusser (1918-1990) afirma que para compreendermos a teoria do Estado é necessário distinguir “entre poder de Estado e aparelho de Estado”, e também entre aparelho repressivo de Estado e aparelhos ideológicos de Estado, comumente chamado de AIE. 5 O Aparelho do Estado (AE) compreende: o governo, a administração, o exército, a polícia, os tribunais, as prisões etc., que constituem aquilo que chamamos a partir de agora de Aparelho Repressivo de Estado. Repressivo indica que o Aparelho de Estado em questão “funciona pela violência” – pelo menos no limite (porque a repressão administrativa pode revestir formas não físicas) (Althusser, 1980, p. 43). Althusser (1980, p. 43) designa AIE: “um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob forma de instituições distintas e especializadas”, tais como: AIE religioso, escolar, familiar, político, sindical, cultural, jurídico e da informação. Não há repressão aparente, até porque muitas dessas instituições são privadas, pois “não possuem estatuto público”, mas são ideológicas porque funcionam em prol da ideologia. Assim, escolas, Igrejas, famílias… “educam por métodos apropriados de sanções, de exclusões de seleção, etc.”. Louis Althusser Fonte: Wikimedia Commons (2024). #pratodosverem: a imagem apresenta um esboço em preto e branco do rosto de Louis Althusser. É importante mencionar que, segundo o autor, nenhuma classe social pode manter- se no poder sem ter o domínio dos aparelhos ideológicos do Estado, e exemplifica ao lembrar que sistemas políticos autoritários e totalitários, tal como de Lênin na URSS, revolucionaram primeiramente o aparelho ideológico do Estado escolar para assegurar o futuro de seus governos. 6 Althusser distingue Aparelho Repressivo de Estado (violência e força) e Aparelhos Ideológicos do Estado (educação, religião etc.), essenciais para manter o poder. Atenção A Teoria da Reprodução Social Segundo Pierre Bourdieu Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que inicia sua contribuição na pesquisa da educação a partir de 1960, ao escrever “A escola conservadora: desigualdades frente à escola e à cultura” (Bourdieu, 1989), afirma, também, que a escola reproduz estruturas sociais, contrariando, portanto, a tese da “escola libertadora”. A educação libertadora é baseada na ideia de que o educando deve ser o agente de sua própria educação, tomando o controle de seu aprendizado e desenvolvimento. Como tal, a educação libertadora deve ser flexível, adaptável e centrada no educando. Atenção O sociólogo, ao contrário do que afirma a “escola libertadora”, conclui que o sistema escolar “tende a mostrar que ele é um dos fatores mais eficazes de conservação social, pois favorece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural” (Bourdieu, 2007, p. 41). A herança cultural, transmitida pela família, acaba naturalizando os dons sociais, assim, as classes privilegiadas internalizam os conhecimentos como algo inerente à sua existência, e as desigualdades sociais são perpetuadas ao longo da história. A função da escola, para ele, portanto, não é libertar, mas propagar a cultura dominante, e conservar as estruturas sociais, culturais e econômicas que reverberam na escola e reproduzem as hierarquias sociais. Ele inclusive aponta que a escola, para este fim, antevê insubordinações e “pune” os que não se enquadram nas normativas impostas, haja vista que “a tradição pedagógica só se dirige [...] aos educandos que estão no caso particular de deter uma herança cultural, de acordo como as exigências culturais da escola” (Bourdieu, 2007, p. 53). 7 Quadro resumo: como as desigualdades sociais são mantidas e perpetuadas habitus: disposições, gostos e práticas que moldam a forma como percebemos e agimos no mundo, este é o resultado da classe social, educação e cultura familiar a que somos submetidos no processo de socialização. capital: o econômico denota os recursos materiais e financeiros; o cultural evidencia os conhecimentos, habilidades e educação (acesso aos bens culturais: livros, viagens, museus etc.); o social expressa as conexões ou redes sociais às quais fazemos parte ou temos acesso; o capital simbólico refere-se ao prestígio e reconhecimento social. reprodução das desigualdades: ocorre nas instituições sociais e no sistema educacional, que valoriza a cultura das classes dominantes. campo social: são as diferentes esferas da vida social, onde há competição por capital. É nesta esfera que o habitus interage. Fonte: elaborada pelo autor (2024). Por fim, Pierre Bourdieu cogita mudanças na didática e no currículo escolar, uma vez que para promover a igualdade de fato e emancipar os indivíduos, a escola deveria contemplar as diferentes culturas que permeiam a nossa sociedade, ou seja, é importante reconhecer as práticas culturais na formação e oportunização individual. R. Establet e C. Baudelot: Teoria da Escola Dualista Roger Establet (1938) e Christian Baudelot (1938) são dois importantes pesquisadores da sociologia da educação. Suas principais contribuições estão na análise do sistema educacional francês e das desigualdades sociais, em que eles evidenciam como o desempenho escolar é acometido pelas desigualdades socioeconômicas. Christian Baudelot e Roger Establet são sociólogos franceses que tiveram uma preocupação em desenvolver uma concepção crítica da educação e da escola no capitalismo. Desenvolveram o conceito de escola dualista. Curiosidade Ao analisar a educação francesa sob uma perspectiva sociológica, os autores trazem o conceito de escola dualista. Trata-se de forças antagônicasque ocorrem dentro do sistema de ensino, comumente nomeados por eles de SS – Secundária Superior e PP – primária profissional (Baudelot; Establet, 1971). 8 Forças antagônicas Fonte: Plataforma Deduca (2024). #pratodosverem: a imagem mostra um homem e uma mulher sentados em uma mesa, ambos vestindo roupas de negócios e disputando forças por meio de uma queda de braços. Segundo os estudiosos, aos filhos dos burgueses a escola promove o direcionamento para a SS, em que os estudantes têm acesso a uma educação mais acadêmica que os preparam para o ensino superior (ciências exatas, humanas e linguagens); e aos filhos do proletariado, desde sempre e do princípio, são direcionados ao PP, em que os alunos são voltados para habilidades práticas e técnicas (formação técnica), a fim de ingressarem no mercado de trabalho. Assim, as funções que exigem mais qualificação são reservadas aos estudantes que ingressam em SS, e as que exigem menos qualificações aos que ingressam em PP, o que acaba por revelar a perniciosa estratificação educacional (divisão SS e PP), e da, consequente, manutenção das hierarquias sociais que dificulta romper os ciclos de pobreza. O mito de que a palavra “aluno” significa “sem luz” sugere uma interpretação incorreta do termo. Como a etimologia correta da palavra “aluno” reflete sua verdadeira relação com o processo de aprendizagem e o papel do estudante na busca por conhecimento? Reflita 9 A Relação entre Estado, Escola e Sociedade Neste tópico, faremos uma breve explanação das ideias de Freitag, que analisa a realidade educacional brasileira. Segundo a autora, as teorias educacionais ainda pecam, por serem extremamente generalistas. Contudo, a autora faz uma análise das teorias mais conhecidas quanto à “conceituação da educação e sua situação num contexto social”, que segundo ela, há dois consensos entre os autores (Freitag, 1986, p. 15): Consenso 1 A educação sempre expressa uma doutrina pedagógica, a qual implícita ou explicitamente baseia-se em uma filosofia de vida, concepção de homem e sociedade. Consenso 2 Numa realidade social concreta, o processo educacional ocorre por meio de instituições específicas (família, igreja, escola, comunidade), que se tornam porta-vozes de uma determinada doutrina pedagógica. Assim, é, demasiadamente, prosaico afirmar a relação entre Estado, escola e sociedade. Educação: Um Direito Universal A Declaração Universal dos Direitos Humanos – DUDH (1948, n. p.) traz expressamente grafado, em seu artigo 26, que “todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória”, e mais, afirma que “a instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, está baseada no mérito”. Já o artigo 205 da Constituição Federal de 1988 afirma que educação é “direito de todos e dever do Estado e da família” e, ainda, “será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. 10 Educação: um direito universal Fonte: Plataforma Deduca (2024). #pratodosverem: imagem demonstrando a comunicação global com o globo terrestre ao centro, em volta dele alguns ícones como televisão, internet, celular, notebook, música, like, casa e sinal de wi-fi. Como expressa a legislação vigente (Brasil, 1988), educação é um direito social, cuja prioridade é proteger as crianças e os adolescentes (Brasil, 1996), e ainda, como explicitado na DUDH (1948), toda pessoa tem o direito de ter acesso à escola e os direitos humanos são inalienáveis, e ninguém pode ser deles privado, assim, são universais e inalienáveis, o que equivale dizer que ninguém pode abdicar de tais direitos e nem de tê-los negados por outros. Embora ainda haja desigualdades nos espaços educacionais, há um esforço contínuo, seja em políticas públicas, teorias filosóficas e sociológicas, como já estudadas, no sentido de melhorar o acesso e a qualidade de ensino. Políticas Educacionais no Brasil Podemos destacar a Lei nº 9.394, de 1996, ou, simplesmente, LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, como instrumento norteador para a formação dos cidadãos brasileiros e os princípios elementares do sistema educacional (Brasil, 1988). 11 Na LDB, está expresso o papel dos governos na educação, bem como os programas e faixas etárias para cada nível de ensino. Cabe aqui elencar alguns dos princípios e finalidades da educação nacional, evidenciado nesta lei (1996, n.p.): I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; IX - garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extra-escolar; XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. XII - consideração com a diversidade étnico-racial. XIII - garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. XIV - respeito à diversidade humana, linguística, cultural e identitária das pessoas surdas, surdo-cegas e com deficiência auditiva. Assim, os Estados têm o dever de adequar as legislações para que a educação não deixe de cumprir seu papel fundamental: preparar para a vida e para o exercício da cidadania. Contudo, a desigualdade, que advém da segregação educacional latente, parece ser negligenciada, até mesmo esquecida, pelos legisladores que não dão conta de determinar medidas para mitigar as discrepâncias que surgem desta disparidade social. 12 Inclusão de Temas Sociais, Políticos e Culturais no Currículo Escolar Recentemente, “a Comissão de Defesa da Democracia – CDD aprovou o projeto de lei que inclui o tema educação política e direitos da cidadania na grade curricular obrigatória da educação básica” (Agência Senado, 2024). Segundo a Agência Senado (2024), o PL 4.088, de 2023, prevê que a educação política deve promover a formação cidadã, seja no pleito dos votos ou para reivindicar direitos e cumprir deveres civis. Apesar da LDB já dispor de diretrizes acerca do tema, a autora do projeto na Câmara, a senadora Teresa Leitão, afirma que o PL pretende promover a formação necessária para a plenitude da cidadania. Para além da educação política, incluir temas sociais e culturais na constituição do currículo escolar é necessário, haja vista que a formação humana perpassa pelo contexto sócio-político, econômico, histórico e cultural de seu povo. Para saber mais sobre o tema da nossa unidade, acesse o link da BNCC disponível aqui. Saiba mais https://www.gov.br/mec/pt-br/escola-em-tempo-integral/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal.pdf 13 Conclusão Esta unidade de ensino trouxe diferentes correntes do pensamento sociológico contemporâneo que acabaram por influenciar as práticas educacionais no Brasil. Althusser convida-nos a refletir sobre os aparelhos ideológicos do Estado – AEI e o papel que a escola desempenha para manutenção do status quo da ideologia dominante. O sociólogo Bourdieu conclui que a escola é eficaz na conservação das desigualdades sociais, e sua função não é libertar de fato, mas reforçar a cultura dominante. Establet e Baudelot trazem o conceito do antagonismo educacional: a educação SS voltada para o ensino acadêmico e educação PP voltada para o ensino prático e técnico, o que na prática, estratifica ainda mais a educação. Por fim, apesar das políticas públicas e da legislação, que tentam incluir temas sociais, políticos e culturais no currículo escolar, o separatismo educacional continua a ser um desafio a ser superado. 14 ReferênciasAGÊNCIA SENADO. Avança inclusão da educação política e de direitos da cidadania no currículo escolar. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/ materias/2024/03/20/avanca-inclusao-da-educacao-politica-e-de-direitos-da- cidadania-no-curriculo-escolar. Acesso em: 4 set. 2024. ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. 3. ed. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980. BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. L’École capitaliste en France. Paris: Librairie François Maspero, 1971. BOURDIEU, P. A escola conservadora: desigualdades frente à escola e à cultura. Belo Horizonte: Educ. Rev., 1989. BOURDIEU, P. Escritos de Educação. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. BOURDIEU, P. A sociologia de Pierre Bourdieu. São Paulo: Olho d’água, 2008. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2024]. Disponível em: http://portal.mec. gov.br/seesp/arquivos/pdf/constituicao.pdf. Acesso em: 4 set. 2024. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez, 1996. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 4 set. 2024. FREITAG, B. Escola, estado e sociedade. 6. ed. São Paulo: Moraes, 1986. MAKSENAS, P. Sociologia da educação: uma introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Loyola, 2002. MELO, A. Fundamentos socioculturais da Educação. Curitiba: IBPEX, 2011. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/03/20/avanca-inclusao-da-educacao-politica-e-de-direitos-da-cidadania-no-curriculo-escolar https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/03/20/avanca-inclusao-da-educacao-politica-e-de-direitos-da-cidadania-no-curriculo-escolar https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/03/20/avanca-inclusao-da-educacao-politica-e-de-direitos-da-cidadania-no-curriculo-escolar http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/constituicao.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/constituicao.pdf https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm 15 NERY, M. C. R. Sociologia da educação. Curitiba: InterSaberes, 2013. SAVIANI, D. Escola e democracia. 20. ed. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1988. UNICEF. 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