Prévia do material em texto
Renata Boa Sorte MEDICINA Introdução: - O choque é definido como uma síndrome clínica, caracterizado pela redução significativa e sistemática da perfusão tissular. (hipoperfusão tecidual) ↑ demanda metabólica - ↓ oferta de O² - Sinais e sintomas que sugerem choque: | Taquicardia: sinal típico e precoce. Contudo, FC normal + outros sinais e sintomas de choque presente = indica lesão de medula espinal. | Alteração cutânea: Fria, úmida, pálida e/ou mosqueada, por conta da vasoconstrição periférica. | Comprometimento do estado de alerta: Paciente pode estar apático, agitado ou sem interação. A piora do quadro pode levar à obnubilação e coma. | Oligúria: Devido ao desvio de fluxo sanguíneo para os órgãos “nobres” (coronárias e encéfalo), há uma redução do fluxo nos rins e consequentemente havendo uma redução na taxa de filtração glomerular. | Acidose lática: ↓ aporte de O² + ↓ depuração do ácido pelos rins, fígado e músculos = ↑ produção e concentração de ácido lático. | Hipotensão: Considerado um sinal tardio, indicando choque descompensado. DEFINIÇÃO DE HIPOTENSÃO NA PEDIATRIA: - PAS 10 anos: 2s; | Pulsos periféricos fracos; | PAS normal. ESTÁGIO 02 → CHOQUE DESCOMPENSADO | HIPOTENSIVO: - O organismo não consegue mais manter a homeostasia. Paciente começa a ter sinais e sintomas de disfunção orgânica: | Palidez cutânea ou pele mosqueada; | Cianose periférica; | Taquipneia; | Acidose metabólica; | Comprometimento do estado de alerta; | Oligúria; | Pulsos periféricos muito fracos ou ausentes; | Pulsos centrais fracos; | Hipotensão arterial. Obs.: A hipotensão é considerada um sinal tardio do choque, contudo, este sinal pode estar presente no choque distributivo precoce, por causa da redução da resistência vascular sistêmica. ESTÁGIO 03 → CHOQUE IRREVERSÍVEL: - Lesão orgânica irreversível, o paciente possui um mal prognóstico, normalmente evoluindo para óbito. Renata Boa Sorte MEDICINA Classificação etiopatogênica do choque: CHOQUE HIPOVOLÊMICO: - Mais comum em crianças. - Ocorre devido a perca de líquido intra ou extravascular. Logo: ↓ líquido = ↓ pré-carga = ↓ volume sistólico (VS) = ↓ débito cardíaco (DC) = transporte de O² inadequado. - Etiologias: | Diarreia/vômitos (perda de líquidos); | Queimadura (sequestro de líquido); | Hemorragia (fraturas, trauma); | Ingesta inadequada de líquidos.; | Ascite (drenagem de transudatos). CHOQUE DISTRIBUTIVO: - ↓ resistência vascular periférica (RVP) = ↓ distribuição adequada do fluxo sanguíneo pela microcirculação = perfusão tissular inadequada. - Etiologias: | Sepse (choque séptico) – principal etiologia; | Anafilaxia (choque anafilático); | Lesão de medula espinal (choque neurogênico). CHOQUE CARDIOGÊNICO: - Causado por contratilidade inadequada do coração ou ritmos muito rápidos ou muito lentos. - Falência do coração = ↓ função sistólica = ↓ DC = transporte de O² inadequado. - Etiologias: | Cardiopatias congênitas (comunicação intraventricular, síndrome de Tunner); | Miocardite (inflamação da camada média do músculo cardíaco); | Taqui ou bradiarritmias; | Cardiomiopatias (doença arterial coronariana – DAC – Valvulopatias, HAS, IAM). CHOQUE OBSTRUTIVO: - Ocorre quando o fluxo sanguíneo está obstruído, levando à depressão do DC. - Etiologias: | Tromboembolismo pulmonar; | Derrame pericárdio volumoso; | Pneumotórax hipertensivo. Choque Hipovolêmico: CLASSIFICAÇÃO: AVALIAÇÃO CLÍNICA & COMPLEMENTAR: Anamnese: - Pesquisar e questionar perca de fluidos (diarreia persistente, vômitos) - Se o paciente chegou com um trauma, pesquisar hemorragia. Exame físico: - Extremidades frias; - Pulsos periféricos diminuídos; - Enchimento capilar > 2s; - Se trauma: lesões traumáticas na pele. Exames complementares recomendados: - Choque hipovolêmico SEM hemorragia: | Glicose sérica rápida; | Lactato sérico; | Exame de fita urinária; | RX abdominal se paciente com suspeita de perfuração ou obstrução intestinal. | RX de tórax se paciente sem melhora após administração de isotônico (60 mL/kg) - Choque hipovolêmico COM hemorragia: | Solicitar os exames acima ↑ | Hematócrito; | Gasometria; Renata Boa Sorte MEDICINA | Coagulograma; | RX de tórax; | Avaliação focada no trauma com USG à beira leito. Manejo clínico: - Realizar reposição volêmica. - Objetivos: | Restauração da perfusão tecidual; | Aumento da pré-carga; | Restauração do DC. - Tríade letal do trauma: hipotensão + acidose + hipotermia. - Fluidos que podem ser utilizados: | Cristaloides (Ringer Lactato); | Hemocomponentes e hemoderivados (indicados para pacientes de trauma grave, com perda volêmica acentuada, indicados no protocolo de transfusão maciça). - Pacientes que recebem transfusão maciça podem apresentar de hipocalcemia. O anticoagulante presentes nas bolsas é o citrato. Infusão de cristaloides isotônicos: - Choque hipovolêmico hipotensivo: | Infundir, se necessário, até 4 bolus de 20 mL/kg cada solução isotônica cristaloide em 5 a 10 minutos. - Choque hipovolêmico compensado: | Infundir 20 mL/kg por bolus de solução isotônica cristaloide em 5 a 20 minutos. - As crianças que não evoluírem com melhora devem continuar a infusão de bolus de 20 mL/kg de cristaloides isotônicos, até um total de 60 mL/kg nos primeiros 30 minutos. - Se após 30 minutos não melhorar, considerar a infusão de coloide (se paciente com hipoalbuminemia -2: ABC + monitorizar + 2 acessos calibrosos IV + suporte de O² 3: Administrar 20 ml/kg de Ringer Lactato 4: Solicitar exame laboratorial (gasometria + hemograma completo + cálcio + glicemia) 5: Iniciar antibiótico de forma empírica. 6: Reavaliar após 30 minutos. 7: Continua com sinais de choque mesmo após 60 ml/kg de fluidos. 8: Epinefrina IV CHOQUE DISTRIBUTIVO – ANAFILÁTICO: Passo a passo do tratamento: 1: Identificação do choque e anafilaxia. 2: Administração de epinefrina IM 3: ABCDE + monitorar + suporte de O² + 2 acessos calibrosos. 4: Avaliar necessidade de IOT (angioedema) 5: Avaliar necessidade de infusão de baixa dose de epinefrina (0,05 mcg/kg/min) ou repetir dose inicial após 15 minutos 6: Ressuscitação com fluidos pode ser eficaz, em casos de mesmo em uso de epinefrina o paciente continua hipotenso. 7: Salbutamol em casos de broncoespasmos (fazer via nebulização contínua). CHOQUE DISTRIBUTIVO – NEUROGÊNICO: - Paciente com lesão cervical ou torácica superior (acima de T6) - Diferente dos outros choques, o choque neurogênico normalmente não apresenta taquicardia. Passo a passo do tratamento: 1: Identificação do choque e lesão cervical ou torácica 2: ABCDE + monitorizar + 2 acessos calibrosos IV + suporte de O² 3: Analisar no “D” a parte neurológica e sensibilidade do paciente 4: Administrar 20ml/kg de Ringer Lactato 5: Se não houver melhora, administrar droga vasopressora (noradrenalina) Choque Cardiogênico: QUADRO CLÍNICO: - Hipotensão; - Congestão pulmonar; - Dispneia; - Oligúria; - Confusão mental. AVALIAÇÃO INICIAL & COMPLEMENTAR: Anamnese: - Pesquisar sobre cardiopatias crônicas e uso de betabloqueadores ou bloqueadores do canal de cálcio. Exame físico: - Taquipneia + desconforto respiratório. - FC baixa, em caso de bradiarritmias. - Estertores crepitantes (insuficiência cardíaca). - Distensão das veias do pescoço (insuficiência cardíaca). - Ritmo cardíaco em galope e/ou sopro. Estudo complementar recomendado: - ECG 12 derivações. - A depender dos achados e história clínica, solicitar ecocardiograma. Manejo Clínico: - Baseado e direcionado na etiologia: | SCA: medidas direcionadas; | IAMCSST: reperfusão; Renata Boa Sorte MEDICINA | Suporte ventilatório: manter SatO² > 90%; | Vasopressor: noradrenalina; | Inotrópico: dobutamina (ganho de contratilidade do coração). Infusão de cristaloides isotônicos: - Infusão de bolus de 5 a 10 mL/kg de solução isotônica cristaloide, em 10 a 20 minutos. Choque obstrutivo: AVALIAÇÃO CLÍNICA & COMPLEMENTAR: Anamnese: - Pesquisa história de trombofilias. - Trauma torácico. Exame físico: - Desconforto respiratório severo; - Redução ou abolição do murmúrio vesicular no hemitórax envolvido + distensão das veias do pescoço (pneumotórax hipertensivo). - Dispneia, abaulamento das bulhas cardíacas, distensão das veias do pescoço (tamponamento cardíaco). - No tamponamento cardíaco pode ter pulso paradoxal (durante a inspiração a PA cai + de 10 mmHg) Estudos complementares recomendados: - Se pneumotórax hipertensivo ou hemotórax maciço for a suspeita, solicitar usg a beira leito. - Paciente com suspeita de tamponamento cardíaco, solicitar usg para diagnóstico e guiar pericardiocentese. - Angio TC solicitar quando há suspeita de TEP após estabilização inicial do paciente. Manejo clínico: - Principal objetivo do tratamento do choque obstrutivo é corrigir a causa da obstrução do débito cardíaco e restaurar a perfusão tecidual. CHOQUE OBSTRUTIVO POR TAMPONAMENTO CARDÍACO: - Causado por acúmulo de fluidos, sangue ou ar no espaço pericárdico, limitando o retorno venoso sistêmico. | Administrar fluidos (20 mL/kg para crianças) para aumentar DC e melhorar perfusão tecidual. Essa administração de fluidos melhora e “estabiliza” temporariamente o paciente, até que a drenagem pericárdica seja realizada. | Tratamento definitivo: drenagem pericárdica. 1: Fazer analgesia e sedação no paciente (morfina 0,1 mg/kg + Midazolam 3 mg) 2: Reclinar paciente com a cabeça elevada 30° em relação à horizontal 3: Assepsia e anestesia com lidocaína 4: Agulha curta chanfrada de 75 mm, calibre 16, conectar em uma via com válvula reguladora de fluxo de 3 vias a uma seringa de 30 mL. 5: Entrar no pericárdio através da ponta do processo xifoide com agulha direcionada para dentro, para cima e perto da parede torácica. 6: Inserir a agulha com sucção constante aplicada à seringa. 7: Monitorar com ECG, pois, se a agulha encostar no miocárdio, arritmias serão produzidas. CHOQUE OBSTRUTIVO POR PNEUMOTÓRAX HIPERTENSIVO: - Acúmulo de ar sob pressão no espaço pleural com compressão do pulmão no lado envolvido e deslocamento mediastinal para o outro lado do tórax. Logo, o pulmão não consegue se expandir da forma correta, além de exercer uma pressão sobre Renata Boa Sorte MEDICINA coração e grandes veias, comprometendo o retorno venoso e débito cardíaco. | Imediata descompressão por agulha de calibre 18-20 sobre a terceira costela (2° espaço intercostal) na linha média clavicular, seguida de toracocentese para inserção de dreno torácico assim que possível. CHOQUE OBSTRUTIVO POR LESÕES DEPENDENTES DO CANAL ARTERIAL: - Grupo de anormalidades cardíacas congênitas. | Infusão contínua de prostaglandinas E1. | Solicitar Ecocardiograma após estabilização. | Administrar inotrópico para melhorar contratilidade cardíaca. CHOQUE OBSTRUTIVO POR EMBOLIA PULMONAR: - Bloqueio súbito da artéria pulmonar principal ou de seus principais ramos. O bloqueio é causado por embolias: sanguínea, ar, gordurosa e líquido amniótico. | Administrar 20 mL/kg de fluidos isotônicos cristaloides. | Considerar tromboemboliticos e anticoagulantes se a criança não estiver em choque. | Solicitar angiografia por tomografia (angio TC) Cuidados e ações em todos os choques: TRIÂNGULO DE AVALIAÇÃO PEDIÁTRICA: - Identificar imediatamente situações de emergência, de comprometimento circulatório. - Tentar classificar o tipo e etiologia do choque, quando possível. REALIZAR NOS PRIMEIROS 5 A 15 MINUTOS: - Obtenção de acesso vascular ou intraósseo, em dois sítios, com cateteres curtos e de grosso calibre. - Aferição rápida da glicose e tratamento de hipoglicemia. - Fornecimento de O² suplementar a 100%, realizar IOT caso o paciente esteja em insuficiência respiratória e/ou com comprometimento de via aérea. - Tentar diagnosticar arritmias cardíacas e realizar sua correção antes do inicio da terapia com fluidos. - Monitoramento continuo da FC e oximetria de pulso. A PA deve ser frequentemente aferida. - Após introdução do bolus inicial, avaliar: (alvos em parênteses) | PA; (PAS percentil 5 para idade) | Pulsos centrais e periféricos; (igualmente amplos) | Perfusão cutânea; (enchimento capilar 1 mL/kg/h) REALIZAR MEDIDAS DENTRO DE 15 A 30 MINUTOS: - Identificar e iniciar tratamento de anormalidades do cálcio e outros eletrólitos; - Continuar monitorização. Caso Clínico: - Você atendeu um paciente com 1 ano de idade na sala de emergência do PS, recém-admitido em choque séptico, que foi transferido para a UTI. Você está preocupado com o prognóstico do paciente e decide visita-lo no final do seu plantão, após 12 horas, para verificar como ele se encontra. Nesse momento, qual indicador sinalizaria pior desfecho clínico? R: Hiperlactatemia persistente e sem melhora. - A queda do lactato tem valor prognóstico, logo, ↓ lactato = ↑ prognóstico.