Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

FILOSOFIA 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Ramirez 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
É importante destacar que há uma diferença entre as áreas de estudos da 
História e da Filosofia no que diz respeito à origem do que se entende como 
sendo o contemporâneo. Enquanto a historiografia tem a tendência de abordar 
o início do período contemporâneo com a Revolução Francesa em 1789, o 
pensamento filosófico indica que ele foi inaugurado com o filósofo alemão 
Nietzsche (1844 –1900), responsável por uma severa crítica ao pensamento 
antigo e moderno. Veremos no primeiro tema a oposição de Nietzsche ao 
desenvolvimento do uso da razão na cultura ocidental que, desde o início com o 
pensamento socrático até o pensamento moderno se revelou a partir do emprego 
de princípios morais e de culpa contra os instintos, às paixões e sensibilidade. 
Nietzsche é considerado o primeiro filósofo contemporâneo porque realizou a 
crítica à modernidade, inspirando o que designa como crise da razão. 
O tema 2 dedica-se ao estudo da crítica do sociólogo alemão Max Weber 
(1864-1920) ao processo de racionalização da cultura ocidental desde à 
ascensão da modernidade no século XVII. O pensador observa que o 
desenvolvimento da ciência moderna e do capitalismo vieram acompanhados 
por um processo que torna as relações sociais cada vez mais tomadas por 
relações burocráticas, tendendo a inibir a criatividade e liberdade dos indivíduos. 
Weber define esse movimento como jaula de ferro. 
O terceiro tema dedica-se à investigação do pensamento da Escola de 
Frankfurt e de seus pensadores: Adorno (1903-1969), Horkheimer (1895-1973), 
Marcuse (1898-1979) e Walter Benjamin (1892-1940). Inspirados no 
pensamento de Marx, Nietzsche, Freud e Weber, impactados pelas duas 
Guerras Mundiais e o papel massificador dos meios de comunicação, estes 
filósofos realizaram entre as décadas de 1920 a 1970 a crítica ao pensamento 
moderno e Iluminista, considerando que a racionalidade ao invés de emancipar 
a humanidade voltou-se contra ela. 
No tema 4 será abordada a análise crítica da filósofa alemã Hannah 
Arendt (1906-1975), seu conceito de banalidade do mal e a crítica aos regimes 
totalitários no século XX. Segundo a pensadora, os campos de concentração e 
a barbárie contemporânea foram o resultado do desvirtuamento do uso da 
racionalidade. O tema 5 investigará as críticas mais contemporâneas de Bauman 
(1925-2017) ao projeto da modernidade por meio do estudo da sociedade 
 
 
3 
globalizada com a passagem dos séculos XX e XXI. Bauman verifica o 
desenvolvimento contraditório da racionalidade presente com os recentes 
avanços tecnológicos. 
TEMA 1 – O PENSAMENTO DE NIETZSCHE 
Nietzsche no livro Crepúsculo do Ídolos (2006) publicado em 1889 
considerava realizar filosofia a marteladas. Isto significa dizer que em sua crítica 
ao desenvolvimento da razão na cultura ocidental não sobraria pedra sobre 
pedra no que diz respeito ao pensamento de praticamente todos seus 
antecessores. Nietzsche possui dois grandes “fronts” de batalha em torno do par 
moralidade-racionalidade: o primeiro front se volta conta o pensamento clássico 
grego, elegendo Sócrates e Platão como maiores adversários; e o segundo, o 
pensamento moderno caracterizado pelo otimismo do progresso da ciência e dos 
princípios liberais, sintetizados no Iluminismo, positivismo e na Alemanha com o 
idealismo alemão de Kant e Hegel. 
1.1 A crítica à moral 
Nietzsche em suas obras fez uma série de reflexões que afirmavam o 
valor da vida e denunciava como elementos hostis a ela a negação dos sentidos 
e das paixões feitas pelas “virtudes platônicas” e “cristãs” desde a Antiguidade. 
A ética altruísta (amor gratuito ao próximo), a política democrática moderna e a 
tentativa da ciência alcançar a mais plena verdade e felicidade seriam meros 
juízos de valor e não fatos. 
Nos livros Além do bem e do mal (1992) e Genealogia da Moral (1998), 
respectivamente publicados em 1886 e 1887, o filósofo mostra em um primeiro 
plano a necessidade de desconstruir a moralidade ocidental. Para tanto, analisa 
e critica a historiografia da moral ocidental, ou seja, percebe que a narrativa 
filosófica esteve pautada em valores morais como bem e mal; justo e injusto; 
vício e virtude; pecado e salvação; mentira e verdade enaltecendo a culpa e o 
pecado (este elemento desenvolvido com maior vigor pelo pensamento cristão). 
Questiona o uso da moral e das crenças, pois essas estabelecem valores falsos 
e ofuscam a realidade. Demonstra que por trás dos valores construídos, tais 
como a justiça, liberdade, igualdade, esconde-se uma falsa moral e falsas 
virtudes. Os indivíduos construíram a história, a moral e as virtudes como se 
 
 
4 
existissem fenômenos verdadeiros. Nietzsche nos adverte que o que existe são 
as interpretações morais dos fenômenos. 
Ao interpretar, os humanos necessariamente estabelecem um valor que 
é dado pela sua perspectiva. O perspectivismo é subjetivo, e, nesse caso, falta 
ao conceito a realidade, uma vez que não há nada que justifique o imaginário. 
Para Nietzsche não existe verdade, pois ela é relativa, é uma construção 
histórica e cultural, ou seja, varia de tempos em tempos e de sociedade para 
sociedade ou mesmo de indivíduo para indivíduo. Nessa direção, o pensamento 
nietzscheano assume a postura niilista (em latim, nihil significa nada), de modo 
que o niilismo é um “nadismo”, isto é, promove a suspensão dos julgamentos 
morais e considera infundados os juízos de valor e crenças baseadas na 
moralidade. Não existem verdadeiramente o bem e o mal, nem a virtude ou o 
vício. Tudo isto é uma invenção de nossa imaginação, não são a realidade, 
representam o pecado original do pensamento filosófico, o de crer ter encontrado 
a verdade. 
No livro O nascimento da tragédia (2007), publicado em 1872, Nietzsche 
descobriu que na Grécia Antiga, antes de Platão e Sócrates, dois princípios de 
vida baseados nos deuses Apolo e Dionísio, opunham-se ao mesmo tempo que 
se complementavam, compondo o que Nietzsche designava como “vida trágica”. 
Figura 1 – Apolo, deus grego que representa a beleza, a disciplina e a vida 
harmoniosa. Fazia os homens conscientes de seus vícios e era o agente de sua 
purificação; presidia sobre as leis da Religião e sobre as constituições das 
cidades, era o símbolo da inspiração profética e de uma vida virtuosa e racional 
 
Créditos: Svitlana Belinska/Adobe Stock. 
 
 
5 
Figura 2 – Dionísio, deus grego da desmedida, que representa as paixões e 
sentimentos selvagens ou irracionais. Os romanos o chamavam de Baco, é o 
deus do vinho, das festas, do lazer, do prazer, enfim, dos excessos da carne e 
dos sentimentos. Isto significa que é um deus que representa as paixões ou os 
sentidos humanos e até mesmo os vícios 
 
Créditos: Ruslan Gilmanshin/Adobe Stock. 
Por vida trágica, afirma ser um modo de vida ou existência que une a 
razão e os sentidos, Apolo e Dionísio, capazes de tornar a vida como arte, repleta 
de paixões e sentidos, sem que se negue a razão. A vida trágica é a noção de 
que a existência consiste em altos e baixos, sofrimentos e alegrias, prazeres e 
derrotas, devendo haver o Amor fati, expressão latina que representa o 'amor ao 
destino’ ou 'amor ao fado’, de modo que devemos aceitar (fugindo do 
determinismo) e superar o destino humano, ainda que repleto de percalços. 
Nietzsche aprende com o espírito trágico grego que, antes mesmo de poder 
considerar os humanos como seres racionais, devemos caracterizá-los por 
serem animais estéticos. 
No entanto, Sócrates e Platão realizaram na Antiguidade, na visão de 
Nietzsche, a primeira transvaloração, ou seja, inversão de valores, ao 
supervalorizarem a racionalidade (aspecto apolíneo) e menosprezaram os 
sentidos (aspecto dionisíaco, ligado ao corpo, paixões e desmedidas). Para 
Nietzsche essa é a origem da decadência da cultura ocidental como fim da 
 
 
6 
concepção de vida trágica, anterior à filosofia de Sócrates e Platão. O problema 
identificado é que depois desses dois filósofos e com o cristianismo, a filosofia 
começa um ataque aos sentidos e paixões e apenas promove a valorização da 
razão. Platão e Sócrates fundaram a ruptura entre o mythos (sensibilidade) e o 
logos (racionalidade), pondo fim à vida trágica. Ou seja, o aspecto dionisíaco da 
vida foi negado e Sócrates, Platão e o cristianismo passam a defender o lado 
racional e contemplativo da existência, negando a materialidade. A partir desse 
momento a filosofia inspirou-se em meras análises morais de cunho apolíneo, 
subordinando os indivíduos ao que Nietzsche denominou como moral das 
ovelhas (ou moral dos rebanhos ou moral dos escravos), responsável por criar a 
obediência dos indivíduos aos valores morais manipulados e operados por 
terceiros, sejam filósofos ou lideranças religiosas e políticas. 
1.2 Nietzsche, crítico da modernidade 
Na obra A Gaia Ciência (2002), publicada em 1882, Nietzsche inicia a sua 
crítica à razão empregada na modernidade. No célebre fragmento 125 dessa 
mesma obra, Nietzsche anuncia a morte de Deus. Na realidade, essa alegoria 
sobre a morte de Deus revela que com a ascensão da ciência moderna a partir 
do século XVII, do Iluminismo (século XVIII) e do positivismo (século XIX) o 
pensamento racional e científico acabou por destronar Deus como fonte de 
verdade e solução de todos os problemas humanos, conforme era concebido 
sobretudo durante o período medieval anterior. 
Nietzsche não se opõe aos procedimentos científicos, como a 
experimentação, matematização ou observação, senão à moralidade contida 
nos discursos modernos. Sua crítica gira em torno de uma espécie de 
apolinização da ciência e de todas as concepções morais, éticas e políticas 
criadas desde à modernidade, como se estivessem criando um paraíso na Terra, 
substituindo as promessas religiosas cristãs pelos progressos tecnológicos. A 
ciência moderna foi influenciada pela filosofia de Descartes com a ideia de que 
a razão e a ciência dominariam a natureza e produziriam o bem-estar. A 
modernidade deu as bases para os pensamentos Iluminista e liberal. Kant afirma 
que após a Revoluções Científica e Francesa a humanidade alcançaria a “Paz 
Perpétua”. Hegel considera que após a Revolução Francesa e com o 
conhecimento científico nossa espécie seria conduzida ao “Fim da história”. 
 
 
7 
Comte concebia a ideia de “ordem e progresso”. Todas estas visões são formas 
morais de enaltecimento da razão moderna. 
 A morte de Deus revela o eterno retorno, ou seja, em todas as épocas as 
diferentes morais e deuses morrem, sendo substituídos por outros e novas 
formas de moral. Na modernidade, Deus foi substituído moralmente pela ciência 
e racionalidade. Esse otimismo moral em torno da racionalidade moderna fez 
com que Nietzsche no livro Assim Falava Zaratustra (2000), publicado em 1883, 
denominasse criticamente os indivíduos seduzidos pela moral moderna como 
último homem. No próximo tópico vamos abordar com mais detalhes o conteúdo 
dessa obra e da crítica de Nietzsche ao último homem. 
1.3 Zaratustra e o Super-Homem 
Nos livros Humano, demasiado humano (2005), publicado em 1878 e a 
Genealogia da Moral (1998), Nietzsche se dá conta de que é impossível viver 
sem a moral, levando-o à superação do seu niilismo. Somos os únicos animais 
que vivem em função da moral. Predomina, conforme vimos, o eterno retorno, 
ciclo que se dá entre a morte de Deus ou outros deuses e a origem de novas 
construções morais. A impossibilidade de vivermos sem qualquer moral é 
acompanhada pela ideia na qual todas os valores morais e todos os deuses 
surgem, se desenvolvem, morrem ou desaparecem. 
O filósofo afirma ter sido o primeiro pensador a superar o niilismo. Depois 
de descobrir que a moral é invenção sem valor universal ou verdadeiro e que é 
impossível viver sem nenhum valor moral, Nietzsche irá procurar criar uma nova 
moral, mas agora diretamente ligada à vida e à natureza espontânea, não mais 
aos valores que imaginamos serem verdadeiros ou que tenha origem em 
religiões, filósofos ou modelos políticos, ou seja, forças externas ou alheias a 
cada indivíduo e de caráter apolíneo. 
Nietzsche passa a defender o resgate da vida trágica grega para a nossa 
vida contemporânea, de modo a conciliar as simbologias de Apolo e Dionísio. 
Por isto, Nietzsche toma para si o personagem Zaratustra (ou Zoroastro), 
primeiro entre os profetas, nascido na Pérsia no século VII a.C. e fundador da 
primeira religião monoteísta que se tem conhecimento. Nietzsche, ao escrever 
Assim falava Zaratustra (2000), procura ser ironicamente o último profeta de 
nossa civilização e tem como objetivo criar uma nova moral distante das virtudes 
platônicas e cristãs, já que aposta no resgate da vida trágica grega. Nessa obra, 
 
 
8 
Zaratustra, agora profeta que encarna as ideias do pensador alemão, opõe o 
Super-Homem ao Último Homem. Vejamos no que consiste esta oposição de 
conceito. 
O último homem é uma alegoria da moralidade moderna, conforme vimos 
no item anterior. Nietzsche critica sua conduta, pois suas principais 
características são a busca reduzida a argumentos morais falaciosos pelo bem-
estar e conforto por meio da ciência e da noção de progresso; representa um 
indivíduo medíocre, acomodado, apático e com falta de interesse pela vida, uma 
vez que se submete mais aos valores morais modernos do que nas suas efetivas 
contribuições à humanidade. O último homem possui uma visão apolínea de 
mundo, uma vez que acredita que todos os problemas humanos serão 
solucionados pela técnica e racionalidade. É o conceito que dará origem à noção 
de Cultura de Massas para Escola de Frankfurt no século XX, relacionado 
também à noção de moral dos rebanhos, escravos ou ovelhas. 
No lugar do último homem, Zaratustra de Nietzsche apresenta o que 
concebe como Super-homem ou Além Homem, sendo ele uma crítica à herança 
apolínea na modernidade. Trata-se de resgatar o equilíbrio da vida trágica grega 
(Nietzsche realiza uma nova transvaloração) na modernidade, colocando lado a 
lado os aspectos apolíneos e dionisíacos. Representa o amor à vida, 
considerando suas oscilações e tragédias, além de afirmar um profundo 
individualismo, pois Nietzsche deseja que a moral seja uma invenção de cada 
indivíduo, podendo ser ela alterada conforme o seu interesse. A nova moral 
apresentada por Zaratustra revela que ela é uma construção individual, varia, 
portanto, de indivíduo para indivíduo, é espontânea e liberta da noção de culpa, 
podendo ser reelaborada a cada instante. 
TEMA 2 – MAX WEBER: BUROCRACIA E A JAULA DE FERRO 
Investigaremos no segundo tema a crítica do sociólogo alemão Max 
Weber ao processo de racionalização moderna. Em duas importantes obras, A 
ética protestante e o espírito do capitalismo (2003) e o livro póstumo Economia 
e Sociedade (2009), publicados respectivamente em 1905 e 1922, Weber 
apresenta indícios dos riscos do processo de ascensão e controle da razão sobre 
todos os comportamentos humanos modernos. Esse fenômeno, na visão do 
sociólogo, torna-se mais evidente com o processo de constituição da 
racionalidade econômica capitalista e cuja origem é identificada a partir da ética 
 
 
9 
protestante. O protestantismo, a partir do século XVII, permitiu a elaboração do 
que Weber denomina como ética do trabalho, conduta de vida econômica voltada 
aos negócios, ao caráter metódico das práticas comerciais e resumida no 
princípio de que o trabalho dignifica. 
Segundo a leitura de Weber a partir de sua Ética protestante e o espírito 
do capitalismo (2003), a ética do trabalho deu origem à burocracia moderna e 
reforçou o desencantamento do mundo. No que diz respeito ao 
desencantamento do mundo protestante, o conceito refere-se a uma forma 
racional de organizar o trabalho e a perspectivasobre o mundo, apostando numa 
conduta mais científica e pragmática, jamais fundamentada em crendices e 
superstições. Exemplos disso são os metodistas, que receberam este nome 
porque possuíam como livro de cabeceira o Discurso do Método de Descartes. 
Tal postura influenciou a construção da modernidade em torno de uma 
perspectiva científica da realidade e o trabalho fundamentado na racionalidade 
econômica. Dessa organização racional do trabalho surgirá a burocracia 
moderna. 
Weber possui uma visão ambígua sobre a burocracia. Considera a maior 
invenção da modernidade. No entanto, pode se tornar o maior malefício contra 
a nossa civilização. Burocracia não deve ser compreendida de forma pejorativa 
como um serviço público lento e de má qualidade. Na realidade, a burocracia é 
um sistema de relações sociais racional estabelecida por meio de contratos, leis, 
legislações, decretos, constituições, documentos etc., que tem como objetivo 
garantir a segurança, estabilidade, controle, durabilidade, confiança e 
previsibilidade do convívio social. O que define a burocracia moderna é o fato de 
ela estar presente em praticamente em todas as relações sociais (relações 
econômicas, políticas, matrimoniais e de filiação; educação, moradia etc.). 
No entanto, quanto maior for a sua presença numa sociedade, Weber 
alerta que a burocracia pode se transformar ou se converter numa jaula de ferro 
(ou de aço), de modo que inibe a liberdade, a criatividade e espontaneidade dos 
sujeitos, tornando a relação entre as pessoas meramente mecânica, vazia e sem 
reflexão. Com a concepção de jaula de ferro, Weber é avaliado pelos seus 
intérpretes como pessimista em relação ao capitalismo e à modernidade. 
 
 
 
10 
TEMA 3 – A CRISE DA MODERNIDADE NO PENSAMENTO DA ESCOLA DE 
FRANKFURT 
No tema 3 estudaremos a crise da razão sob a perspectiva da Escola de 
Frankfurt. Essa escola de pensamento surgiu na década de 1920 e foi impactada 
pelas duas Guerras Mundiais, ascensão do nazismo ao lado do emprego dos 
meios de comunicação para fins políticos e comerciais. Todas estas experiências 
conduziram autores como Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin e Marcuse a 
realizarem críticas nas quais se evidencia o modo como o uso da racionalidade 
pode se voltar dialeticamente contra a humanidade, conforme veremos nos 
tópicos abaixo. 
É importante destacar primeiro que o pensamento da Escola de Frankfurt 
teve quatro principais fontes teóricas que a influenciaram. A noção de 
desencantamento do mundo e jaula de ferro de Max Weber nutriu as reflexões 
que apresentavam as ambiguidades do uso da racionalidade moderna. A 
dialética de Marx e os conceitos de alienação e ideologia contribuíram 
igualmente com os frankfurtianos para ilustrar as contradições do capitalismo, a 
perda de consciência de classe entre os trabalhadores, reveladas no consumo 
desenfreado e aceitação passiva das massas diante das informações 
transmitidas pelas propagandas política e comercial disseminadas por governos 
e empresas. Além disso, as concepções nietzscheanas de último homem e moral 
das ovelhas converteram-se nas mãos dos frankfurtianos no conceito de cultura 
de massas, conceito que veremos mais adiante. Outra fundamental influência 
sobre essa escola é o pensamento de Freud (1856-1939) no que diz respeito à 
avaliação do papel do inconsciente, das repressões libidinais, da sublimação e 
canalizações que foram relacionadas, sobretudo por Marcuse, com a cultura do 
consumo presente no capitalismo. 
3.1 Razão instrumental versus Razão reflexiva 
Adorno e Horkheimer perceberão que o desenvolvimento técnico, 
científico e racional promovido desde a Ciência Moderna e Iluminismo podem ter 
se convertido no que definem como sendo dialética negativa. Os meios de 
comunicação, como o rádio e o cinema, resultado dos avanços dessa 
racionalidade, deram origem à sociedade de massas e tornaram possível o 
nazismo. Na primeira metade do século XX, o progresso contraditoriamente 
 
 
11 
evidenciava sua relação com a barbárie, andavam lado a lado com a indústria 
bélica, responsável por milhares de mortes e técnicas sofisticadas de extermínio. 
Em obras importantes como Dialética do Esclarecimento (Adorno; Horkheimer, 
2006, lançada em 1944), O eclipse da Razão (Horkheimer, 2015), A Indústria 
Cultural (Adorno; 2002) e Dialética Negativa (Adorno, 2009), publicadas 
respectivamente em 1946, 1963 1967 os dois pensadores demonstrarão que o 
desenvolvimento racional da cultura ocidental foi dialético, portanto, repleto de 
paradoxos. Por um lado, grandes progressos técnicos e materiais à nossa 
civilização, por outro, a técnica e a ciência serviram como instrumentos de 
dominação e destruição. Nessa direção, definem a existência de duas formas 
distintas de racionalidade, sintetizadas nos conceitos de razão instrumental e 
razão reflexiva (traduzida também como razão crítica ou cognitiva). 
Razão Instrumental – representa um tipo de racionalidade ou uso da 
razão sem fins humanistas. Pode estar relacionada à barbárie ou formas 
autoritárias e alienantes. Envolve o desenvolvimento e progresso da ciência, da 
tecnologia e da indústria com objetivos de dominação ou contra a humanidade. 
Temos como exemplos armas nucleares, o uso da propaganda política feita 
pelos nazistas ou mesmo propagandas comerciais que massificam o 
comportamento dos consumidores. Relaciona-se à Indústria Cultural e Cultura 
de Massas, conforme veremos mais adiante. 
Razão reflexiva – ocorre quando a razão, a ciência e as tecnologias de 
informação enriquecem a cultura, o conhecimento, o senso-crítico e o 
engajamento político. Promove um tipo de racionalidade favorável à humanidade 
e às relações sociais. Está presente na cultura erudita e na cultura popular. 
Músicas, filmes, folclores, canções populares, conhecimentos tradicionais e 
livros com conteúdo reflexivo ou crítico são alguns exemplos, além de avanços 
científicos que promovam o bem-estar de forma democrática e universal. 
A razão instrumental permite que tecnologias de informação (rádio, TV, 
jornais e revistas) possam estar a serviço da barbárie, do fascismo e modelos 
políticos retrógrados. O paradoxo consiste no fato de que o Iluminismo, a 
indústria e a ciência moderna objetivavam livrar a humanidade dos mitos e da 
ignorância e fazer do homem o senhor da natureza (era o que afirma Descartes 
no século XVII). No entanto, ocorre na modernidade e no capitalismo uma 
reviravolta (por isso, o caráter dialético do Iluminismo ou Esclarecimento), na 
qual a natureza e a tecnologia parecem se voltar contra a humanidade, tornam-
 
 
12 
se uma espécie mito, é o que ocorre com a Indústria cultural ao iludir os 
indivíduos, criando um cenário do fetichismo, do consumo e a bajulação às 
figuras autoritárias ou fúteis. Na visão de Adorno e Horkheimer, isto explica por 
que as pessoas se submetem aos produtos e ao consumo massificado. Trata-se 
de uma interpretação pessimista que não somente demonstra a crise da 
racionalidade na cultura ocidental, como também a forma dialética como esta 
razão volta-se contra à civilidade, torna-se meramente instrumental. 
[...] a indústria cultural reflete a irracionalidade objetiva da sociedade 
capitalista tardia, como racionalidade da manipulação de massas. A 
indústria cultural obscurece por razões objetivas, aparecendo como uma 
função pública da apropriação privada do trabalho social. Na continuidade 
de seu próprio desenvolvimento, o esclarecimento se inverte em 
obscurantismo e ocultamento. Para Adorno, a indústria cultural 
corresponde à continuidade histórica de condições sociais objetivas que 
formam a antecâmara de Auschwitz, a racionalização da linha de 
produção industrial – seja fordista, seja flexível – do terror e da morte. 
(Gomes, 2010, p.21-22) 
Um exemplo recente do resultado da aplicação da razão instrumental na 
sociedade moderna são os problemas ambientais. Até meadosda década de 
1970 a consciência e responsabilidade ambiental não eram temas disseminados 
na sociedade. Durante o século XIX até a década de 1970 eram praticamente 
nulos os debates sobre as consequências do progresso industrial e científico 
sobre o meio ambiente. Porém, o movimento ambientalista (Greenpeace + 
WWF) inicia na década de 1970 a problematização a respeito do fato de que 
desenvolvimento industrial e científico contraditoriamente deram origem à 
extinção de animais, destruição de florestas, mudanças climáticas e ameaças 
também à vida humana. Como vemos, a razão instrumental tem uma tendência 
predatória e de promoção da barbárie, como é o caso da Indústria Cultural. 
3.2 A Indústria cultural e a cultura de massas 
O que é a indústria cultural e o que a diferencia da cultura popular? O que 
seria a cultura erudita? 
Cultura popular, para Adorno e Horkheimer representa manifestações de 
tradições e história de um povo; é espontânea, tem caráter único emprega 
elementos artesanais de uma cultura (como é o caso da oralidade, lendas, enfim, 
o passado histórico que é transmitido de geração para geração). Ela é 
heterogênea e não se presta ao consumo, mas sim à atividade lúdica e original 
à medida que reproduz a vida cultural. Ela existe ou existiu principalmente em 
 
 
13 
sociedades pré-capitalistas ou distantes do atual regime econômico, ou seja, 
onde o consumo massificado ainda não atingiu seu apogeu, como é o caso de 
sociedades indígenas, rurais ou até mesmo alguns poucos locais na área 
urbana. A Cultura Erudita, considerada nobre e clássica, diz respeito ao que é 
contemplado por poucos ou um pequeno número de indivíduos. Não representa 
a cultura industrial e massificada, tampouco a cultura popular, embora se 
aproxime mais dessa última, pois expressa a reflexão, a história e uma 
objetividade que não é mercadológica. A cultura erudita é verificada nos museus, 
conservatórios de música clássica e nas universidades. Culturas Erudita e 
Popular tem em comum o fato de representarem a razão reflexiva. 
A Cultura de Massas está relacionada à Indústria cultural. É a forma pela 
qual a produção artística e cultural está organizada no interior no sistema de 
produção capitalista, lançada no mercado e por este consumida. Está igualmente 
presente com o emprego dos meios de comunicação em regimes políticos 
autoritários. A grande questão é que, em seu domínio, a arte deixa de ter o 
caráter único, singular, deixa de ser a representação da genialidade, ou da 
angústia, da dor ou das grandes reflexões de um artista, poeta, escritor. A 
Indústria cultural transforma as expressões artísticas em mercadorias, que 
passam a ser um bem de consumo coletivo, destinado desde o início à venda, 
avaliado segundo sua lucratividade ou aceitação de mercado e não pelo seu 
valor estético, filosófico, literário intrínseco. A obra adquire caráter homogêneo e 
massificado, não produz ou permite reflexão, não reproduz nada que diga 
respeito à história ou tradições. A cultura de massas expressa o contexto fútil, 
burguês e descartável. Costuma ser repetitiva e sempre impõe a novidade. A 
indústria cultural enquanto manifestação da razão instrumental ameaça de forma 
permanente as culturas popular e erudita, à medida que ela pode incorporar e 
transformá-las em mercadorias. 
Walter Benjamin (1989), no ensaio A obra de arte na era da 
reprodutibilidade técnica escrito na década de 1920 buscou opor os conceitos de 
politização da arte e estetização da política. Entende-se como politização da arte 
as produções culturais, ainda que no interior do capitalismo, que produzem 
senso-crítico e reflexão. É interessante notar que o conceito de politização da 
arte de Benjamin se aproxima da noção de razão reflexiva de Adorno e 
Horkheimer. A experiência desse tipo de manifestação foi verificada por 
Benjamin ao analisar o cinema de Charles Chaplin, por exemplo. 
 
 
14 
Quanto à estetização da política, ela diz respeito às manifestações 
estéticas ou culturais voltadas à massificação, ao fascismo e nazismo, à 
alienação e consumo esvaziado de sentido. Dessa forma, a concepção de 
estetização da política se aproxima do conceito de razão instrumental. 
Na obra Eros e Civilização (1968), publicada em 1955, Marcuse avalia a 
possibilidade de uma civilização não-repressiva. Parte do princípio de Freud, 
segundo o qual a história da civilização e o progresso da humanidade estão 
relacionados à repressão. 
Figura 3 – Eros é deus grego que representa o desejo e o erotismo 
 
Créditos: Mistervlad/Adobe Stock. 
Esta repressão é verificada nitidamente por meio da filosofia ocidental que 
enfatizou a razão e atacou os sentidos, paixões e instintos, entre eles a 
sensualidade. Embora haja repressão, Marcuse concorda com Freud ao avaliar 
que há sempre a volta do reprimido. No interior da psicanálise de Freud, os 
impulsos presentes no Id (isso) devem ser processados pelo Ego (eu) devido às 
repressões do Superego (supereu) para que se adapte à realidade, de forma a 
promover a passagem do princípio do prazer para o princípio de realidade 
(racionalidade), portanto um conteúdo reacionário. Promove-se assim a 
sublimação. 
Em Eros e Civilização (1968), Marcuse entende que na sociedade 
capitalista o princípio de realidade é designado como princípio de desempenho, 
 
 
15 
uma forma de domínio sobre a vida. O princípio de desempenho é repressor da 
vida instintiva (sobretudo a sexualidade) e se verifica com a divisão hierárquica 
do trabalho, a empresa, a fábrica, a escola, entre outras certas exigências 
sociais, como o controle público da existência privada. Segundo Marcuse, a 
repressão foi necessária à formação da civilização e para que ela se libertasse 
da escassez. Com a sociedade capitalista, há condições de eliminação da 
escassez, porém predomina o interesse na dominação pela dominação. 
A partir da leitura que Marcuse realizada do pensamento de Freud, o 
filósofo avalia que a "sublimação” diz respeito ao processo psíquico no qual as 
pulsões sexuais são convertidas em satisfação com objetos não sexuais (leitura, 
viagens, passeios, consumo etc.), conduzindo à “dessexualização”, pois, 
representa a inibição da satisfação pulsional em nome de outras formas de 
prazer. Sem a sublimação não seriam possíveis as relações sociais (família, 
trabalho, a amizade etc.). Marcuse se dá conta de que o desenvolvimento do 
capitalismo e as possibilidades de superação da escassez por meio do consumo 
e da propaganda deram origem ao que designou como dessublimação 
repressiva. Esse conceito está relacionado ao fato de que a sociedade 
contemporânea permite maior liberdade e satisfação das necessidades por meio 
da superabundância da produção de bens de consumo. 
No entanto, essa liberdade dialeticamente (ou contraditoriamente) 
produziu mais repressão, dessensibilização e perda mesmo do erotismo por 
meio da indústria cultural, produzindo dessa forma mais repressão. Trata-se da 
deserotização do corpo, ou seja, quando o corpo e o trabalho são instrumentos 
de exploração econômica, verificada com a indústria cultural (o sexo tornou-se 
vendável com filmes, peças teatrais, revistas etc.). A leitura de Marcuse é a de 
que a aparente satisfação tornou-se em mais dominação, perda do desejo e 
dessublimação. 
TEMA 4 – HANNAH ARENDT E A BANALIDADE DO MAL 
No tema quatro vamos investigar a concepção de banalidade do mal 
estabelecido por Hannah Arendt, que foi uma teórica política alemã de origem 
judaica. Atuou também como jornalista e professora universitária. Considerada 
uma das intelectuais mais importantes e influentes do século XX, escapou do 
nazismo em 1933 e viveu em Paris até 1941. Depois viveu nos Estados Unidos 
até sua morte em 1975. Foi uma grande crítica do totalitarismo e do fascismo. 
 
 
16 
No livro Eichmann em Jerusalém (1999), publicado em 1963, o pensamento da 
filósofa ressalta a criseda razão e da ética moderna por meio do estudo do 
julgamento de um oficial nazista após à Segunda Guerra Mundial. Adolf 
Eichmann foi um oficial da Gestapo nazista responsabilizado pela logística de 
extermínio de milhões de pessoas. Foi capturado com documentos falsos na 
Argentina e julgado em Jerusalém no ano de1961. Hannah Arendt foi enviada 
como correspondente pela revista The New Yorker para cobrir as sessões do 
julgamento tornadas públicas pelo governo israelense. 
O ponto central do livro é a maneira como a filósofa interpreta o 
comportamento de Eichmann, pois além de cobrir todo o processo do 
julgamento, ela ainda o entrevistou. Segundo Arendt, Eichmann não era um 
monstro, alguém com um espírito demoníaco e antissemita. Ela o identificou 
como um burocrata, um sujeito medíocre, que de certa forma renunciou a pensar 
nas consequências que os seus atos poderiam ter ao obedecer às regras e leis 
consideradas por ele racionais. Trata-se também de uma crítica às concepções 
éticas de Kant, fundamentadas na deontologia, isto é, um dever moral 
considerado racional que deve ser realizado a todo custo. 
É nesse contexto que Arendt define o conceito de banalidade do mal. 
Representa o fenômeno da recusa do caráter humano, alicerçado na recusa da 
reflexão e na tendência de não responsabilidade frente aos atos bárbaros 
praticados. O indivíduo se afasta da responsabilidade e do domínio de suas 
atitudes, pensamentos e comportamentos, desconectando-se do sentido do que 
é ser humano. Partindo desse pressuposto, é possível compreender como a 
sociedade consegue se manter apática mesmo diante de situações anti 
civilizatórias, como foi o nazismo, as grandes guerras e, atualmente, a 
desigualdade social. A banalidade do mal, portanto, é fruto de uma sociedade 
inspirada num grau e defesa da racionalidade, seja ela moral ou jurídica, sem 
que se faça reflexões ou críticas contra suas consequências. Era o caso de 
Eichmann. 
TEMA 5 – BAUMAN E A CRISE DA MODERNIDADE 
Em duas de suas obras, Modernidade e Ambivalência (1999) e 
Modernidade Líquida (2001), publicadas respectivamente em 1991 e 1999, 
Bauman apresenta sua visão crítica sobre o processo de racionalização na 
cultura ocidental. Bauman faz uma interpretação que expressa contradições a 
 
 
17 
partir da formação da modernidade e de seu projeto fundamentado no progresso 
material, promovido por meio da razão, da ciência e das revoluções tecnologias 
e industriais. 
Bauman concentra seus estudos na análise do período contemporâneo 
relativo à transição dos séculos XX e XXI. É tido como um herdeiro das teorias 
frankfurtianas, sobretudo por criticar o que foi denominado como razão 
instrumental. Enquanto os frankfurtianos se concentraram no estudo da cultura 
de massas entre as décadas de 1930 a 1970 (época de predomínio de direitos 
trabalhistas e existência de meios de comunicação tradicionais como a rádio, TV, 
cinema, revistas), Bauman atualiza a análise para o cenário da cultura de 
massas mais recente, com o fenômeno da Globalização, e diante das novas 
tecnologias de informação, como a internet. Interessa a Bauman estudar o 
consumo e mundo do trabalho mediados e conectados por novas tecnologias de 
informação, redes sociais e consumo direcionado ao caráter descartável 
efêmero. 
Segundo Bauman (1999;2001), desde a criação do conceito de razão 
(logos) entre os gregos, mas principalmente durante o seu desenvolvimento na 
modernidade (nas mãos da ciência moderna, contratualistas, iluministas, 
positivistas e marxistas), sua intenção e objetivo no Ocidente foram classificar o 
mundo, livrar a humanidade de equívocos, desvios e exceções e promover a 
verdade, garantir a previsibilidade e controle da humanidade sobre o mundo ou 
a natureza. Portanto, o objetivo maior da razão foi o de eliminar a ambivalência, 
a possibilidade de dupla interpretação de um fato, de maneiras diferentes de se 
pensar e agir sobre o mundo e, sobretudo, abolir o risco, o irracional, a 
imprevisibilidade, o descontrole e a instabilidade. 
Bauman indica que até a 2ª Guerra Mundial a cultura ocidental nutria 
ainda grande confiança na razão. Supunha-se que a razão, a técnica e a ciência 
trariam a solução a todos os problemas da humanidade. No entanto, a 
experiência das duas guerras mundiais, da indústria cultural e após a década de 
1960 com a expansão das tecnologias de informação e produção, além dos 
problemas ambientais, todos estes eventos modificaram a sensação de 
confiança na razão. A globalização, o neoliberalismo e o Toyotismo expandiram, 
popularizam e introduziram no cotidiano o uso da racionalidade, das tecnologias 
e ciência, conduzindo à sensação e à percepção de risco, descarte, fluidez, 
efemeridade e descontrole em nossa civilização. 
 
 
18 
O mundo pós-guerras e o final da Guerra Fria, além das novas tecnologias 
levaram ao desmoronamento das verdades, muitas delas construídas por toda a 
modernidade (a chamada modernidade sólida). É nesse cenário que o conceito 
de ambivalência se faz mais evidente e notório. O que caracteriza a ambivalência 
na modernidade líquida é o fato de termos amplos processos de aprimoramento 
e a popularização (uso cotidiano) de instrumentos projetados pela razão, 
tecnologia e ciência que visam produzir soluções aos problemas humanos. No 
entanto, quanto mais surgem soluções racionais a estes problemas, de modo 
imprevisível emergem novos problemas, como efeitos colaterais, exigindo de 
nossa cultura novas e sucessivas invenções e desenvolvimento racional. Trata-
se de um movimento incessante, como quem tampa um buraco abrindo outro, e 
assim sucessivamente. Na ambivalência há a busca da ordem almejada pela 
razão, mas que produz a desordem como consequência imprevista. A 
ambivalência para Bauman pode ser entendida como o reverso da ordem, um 
incômodo causado pela multiplicidade presente no mundo, pela incerteza, cuja 
origem está no próprio processo de racionalização. Trata-se de um sentimento 
de profundo desconforto com a impossibilidade de regrar o mundo 
racionalmente. 
As consequências do processo de modernização trazem consigo 
ambivalências. No campo político, a concentração dos meios de poder fundados 
no princípio da racionalidade calculadora deu origem a um dos mais efetivos 
meios de controle social. A tarefa da razão foi a de buscar livrar o mundo 
ordenado das ambivalências, incertezas e contingências que poderiam assolar 
a humanidade. Porém, a razão cria o “mito do progresso infindável”, que afirma 
que a solução dos problemas que vivemos está sempre à frente, será resolvida 
cedo ou tarde, a partir de nossos recursos científicos e técnicos. Essa solução 
faria parte de um rol de novidades salvacionistas sempre evocado e criado 
dentro da noção de progresso. Alguns exemplos atuais seriam: a propagação de 
notícias falsas com o uso de novas tecnologias de informação; os problemas 
ambientais causados pelo progresso da indústria; o cenário permanente de risco 
econômico, entre outros. 
NA PRÁTICA 
Elabore uma pesquisa em jornais, revistas ou documentários em que seja 
possível verificar o caráter contraditório da noção de progresso e 
 
 
19 
desenvolvimento da racionalidade técnica e científica em nossa sociedade. 
Relacione o seu material de pesquisa com alguns dos conceitos estudamos na 
aula, entre eles a razão instrumental, razão reflexiva, jaula de ferro, banalidade 
do mal, ambivalência, entre outros de sua escolha. Em seguida, debata a sua 
pesquisa em grupos e reflita a respeito dos paradoxos identificados em torno do 
progresso da racionalidade. 
FINALIZANDO 
No tema 1 investigamos o pensamento de Nietzsche, considerado grande 
crítico da modernidade e das concepções morais otimistas em torno da 
sociedade do século XIX que iniciava seu processo de massificação. O segundo 
tema analisou as contradições observadas por Max Weber em torno do 
desenvolvimento daracionalidade e da burocracia na modernidade. O tema 3 
dedicou-se à análise do pensamento da Escola de Frankfurt em torno das 
contradições promovidas pelas ideias Iluministas e Modernas, verificadas com 
as duas Guerras Mundiais do século passado e da cultura de massas. O quarto 
tema promoveu a interpretação do pensamento de Hannah Arendt sobre o 
conceito de banalidade do mal, um desvio do emprego ético da razão moderna. 
O último tema abordou as análises de Bauman sobre a razão em meio ao mundo 
atual e globalizado, por meio dos conceitos de modernidade líquida e 
ambivalência. 
 
 
 
20 
REFERÊNCIAS 
ADORNO; H. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2006. 
_____. Dialética negativa. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2009. 
_____. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 
ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras, 
1999. 
BAUMAN. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. 
_____. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 
BENJAMIN, W. A obra de Arte na era da reprodutibilidade técnica. In: Obras 
Escolhidas I. São Paulo, Brasiliense, 1989. 
GOMES. Teoria crítica, educação e política, in: PUCCI, B., ZUIN, A. S.; 
LASTÓRIA, L. A. C. N. (orgs). Teoria crítica e inconformismo: novas 
perspectivas de pesquisa. Campinas: Autores Associados, 2010. 
HORKHEIMER, M. Eclipse da Razão. São Paulo, Editora Unesp, 2015. 
MARCUSE, H. Eros e Civilização. Zahar Editores, Rio de. Janeiro, 1968. 
NIETZSCHE. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 
_____. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 
_____. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 
_____. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 
_____. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 
_____. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 
2005. 
_____. O nascimento da tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 
WEBER, M. A Ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: 
Companhia das letras, 2003. 
_____. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 
Brasília: Ed. UnB, 2009.