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INICIAR FALA, LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO NO TEA 01 UNIDADE DESENVOLVIMENTO DE LINGUAGEM PROFª. FLÁVIA AMÉLIA DO NASCIMENTO BARROZO LIVRO DIGITAL INTERATIVO FICHA LIVRO Componente Curricular: Fala, linguagem e comunicação no TEA Autora: Profª. Flávia Amélia do Nascimento Barrozo Unidade 1: Desenvolvimento de Linguagem Ementa: Desenvolvimento de linguagem. Aquisição de linguagem e os marcos esperados de acordo com a idade. Identificação dos transtornos da comunicação. Quais são e como se manifestam os transtornos da comunicação existentes e quais são as semelhanças e diferenças em relação ao TEA. Promoção do desenvolvimento da comunicação no âmbito escolar. Estratégias facilitadoras nos transtornos de comunicação. Promoção de uma melhor comunicação entre o aluno e a escola e vice-versa, envolvendo também outras pessoas que compõem a escola, apresentando práticas que podem facilitar a aprendizagem e o ensino do aluno com TEA. FICHA CATALOGRÁFICA Presidente: Renato Casagrande Vice-presidente: Ronaldo Casagrande Diretora Executiva: Josemary Morastoni Coordenadora de EaD: Isabelle Christine Moletta Designer Instrucional: Fabiane Maria Picheth Revisora: Simony Forchezatto Silva Projeto Gráfico: Fabiano Nichetti Diagramação: Fabiano Nichetti SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 1. AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM 2. HABILIDADES FONOLÓGICAS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS 5 7 18 19 CLIQUE NOS TÍTULOS PARA IR ATÉ A PÁGINA 4 3. PROCESSAMENTO ANALÍTICO DE LINGUAGEM 8 4. PROCESSADOR GESTALT DE LINGUAGEM 14 APRESENTAÇÃO Olá, caros estudantes! Sejam bem-vindos ao componente curricular “Transtornos da Comunicação”. Nosso principal objetivo nesta Unidade é o aprofundamento no desenvolvimento natural da aquisição de linguagem, abordando os principais marcos de fala e linguagem esperados para cada idade, proporcionando uma base sólida para as próximas Unidades. Nesta Unidade, também iremos entender o que devemos esperar em cada idade, pois, assim, podemos identificar alterações (quando houver) como um simples atraso ou um diagnóstico importante. Além disso, iremos ver que o desenvolvimento de linguagem percorre uma trajetória comum nas crianças, embora haja influências sociais e culturais. Por isso, é possível apontar características típicas da comunicação infantil, bem como identificar sinais que indiquem transtornos da comunicação, influenciando um prognóstico precoce. Espero que vocês, educadores, possam ampliar seus conhecimentos a partir deste componente curricular e quebrar barreiras em suas práticas. O objetivo é que todos saiam desta disciplina mais confiantes e aptos para trabalhar por uma verdadeira inclusão. Bons estudos! SUMÁRIO 4Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 01 SUMÁRIO A linguagem é uma faculdade humana, com função simbólica, influenciada pelo processo de desenvolvimento do conhecimento, partindo da capacidade de representação. Embora a linguagem seja elaborada socialmente e estruturada cognitivamente, ela é previamente existente. Além disso, o desenvolvimento da linguagem está associado a um processo maturacional, e está sob o controle genético, sendo esse desenvolvimento sensível aos inputs ambientais e influenciado pelo desenvolvimento de outras funções, como atenção, memória, audição, cognição (BRITTO; BRITTO, 2017). Para uma compreensão eficaz do que é linguagem, é importante entender a definição de três componentes: fala, linguagem e comunicação: Linguagem é o sistema simbólico usado para representar os significados em uma cultura, abrangendo os níveis linguísticos que serão descritos a seguir. Já a fala é o canal que viabiliza a expressão da linguagem e corresponde ao ato motor desta. Em outras palavras, linguagem significa “trocar informações (receber e transmitir) de forma efetiva”, enquanto a fala se refere, basicamente, à “maneira de articular os sons na palavra” (PRATES; MARTINS, 2011). Por fim, a comunicação é o meio pelo qual o indivíduo recebe e expressa a linguagem, sendo este um elemento essencial para a socialização e a integração na comunidade (RUBEN, 2000). Durante o desenvolvimento da linguagem, há atividades linguísticas complexas que abrangem diferentes níveis do sistema linguístico e se entrelaçam, sendo muito importante conhecer suas especificidades e inter-relações para propor ações de desenvolvimento na área (figura 1). AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM 5Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 6 NÍVEIS LINGUÍSTICOS Fonético- fonilógico Morfossintático Semântico- lexical Semântico- pragmático Figura 1 – Níveis Linguísticos. Fonte: elaborada pelo autor. Tanto a fonética quanto a fonologia estudam os sons da língua, porém em situações diferentes. Assim, enquanto a fonética diz respeito à forma como os sons são concretamente produzidos pelos falantes, envolvendo articulação, dentre outras produções motoras, a fonologia se trata da organização mental dos sons (CRISTÓFARO, 1999). Tradicionalmente, a morfologia faz uma análise abaixo do nível da palavra, e a sintaxe analisa a um nível acima das palavras. Entretanto, os níveis se entrelaçam frequentemente, por isso o termo morfossintaxe é aplicado (LOPES, 1999). A pragmática compreende a linguagem nas interações sociais, sendo o uso social da língua, englobando conceitos como: relação dialógica, pistas verbais e não verbais, não explícitas, tomada de turno, noções de tópicos, dentre outros marcadores de discurso (MOUSINHO; CORREA, 2016). Já a semântica está relacionada ao estudo do significado. Assim, a semântica lexical trata do nível da palavra, como o vocabulário é estruturado e como se dá o reconhecimento e o acesso aos itens lexicais; e, quando falamos de semântico-pragmático, consideramos o processo de significação no contexto em que está sendo utilizado. Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 7 Mais do que falar espontaneamente, em um determinado momento, é necessário que tenhamos consciência sobre a linguagem, o que chamamos de metalinguagem. Por isso, há habilidades metalinguísticas altamente relacionadas à aprendizagem, especialmente as habilidades fonológicas . HABILIDADES FONOLÓGICAS 02 HABILIDADES FONOLÓGICAS Consciência Fonológica Memória de Trabalho Fonológico Nomeação Automatizada Rápida Figura 2 – Habilidades Fonológicas. Fonte: elaborada pelo autor. A consciência da existência de algumas unidades, a qual possibilita a reflexão explícita sobre os sons da língua e a manipulação destes, é chamada de “consciência fonológica”. Segundo Savage, Lavers e Pillay, Alves, conceitua a nomeação automatizada rápida, A memória de trabalho fornece o armazenamento breve que ampara a nossa capacidade de pensamento complexo. É um mecanismo dinâmico, que envolve a capacidade de armazenar informação em curtos períodos, enquanto outras atividades com mais demanda cognitiva são exigidas paralelamente (SAVAGE, LAVERS, PILLAY, 2007, p. 186). A Nomeação Automatizada Rápida (Rapid Automatized Naming – RAN) é a habilidade de identificar e reconhecer determinado item pela ativação e concomitante articulação do seu nome, armazenado no léxico mental (ALVES et al., 2016, p. 76). Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 8 O processamento auditivo também é um fator importante a ser considerado, pois os sons precisam ser detectados e interpretados. Escolares com dificuldades nesse processamento apresentam dificuldades em analisar propriedades acústicas da fala, em reconhecer e discriminar determinados sons, gerando dificuldade no seu aprendizado (MOUSINHO; ALVES, 2017). Fr ee p ik Figura 3 – Criança com as letras. PROCESSAMENTO ANALÍTICO DE LINGUAGEM 03 De acordo com Ribas (2023), a linguagem, como uma habilidade específica do ser humano, é adquirida pelas crianças de forma gradual e paulatinamente durante os primeiros anos de vida. A primeira forma de comunicação dos bebês é o choro. Assim, quando os bebês não choram ou demoram a chorar, podemos perceber a sinalização de intercorrências pré e perinatais,os quais são fatores de risco para o desenvolvimento infantil, incluindo o de linguagem (HAGE; PINHEIRO, 2023). O choro é o primeiro recurso de comunicação dos bebês com menos de 3 meses, e, após essa idade, os bebês começam a balbuciar mais. (HAY, 2024). Ao completar 2 meses de vida, é possível observar a produção de vogais e algumas consoantes. Até os 5 meses, esses sons são repetitivos (/aaaa/, /pppp/), e, entre os 6 e 8 meses, os bebês começam a produzir balbucios canônicos, sílabas bem formadas e variadas (/bada/, /padama/), além de imitar sons produzidos pelo cuidador (COPLAN, 1994; FRANKENBURG et al., 2018). Essas produções ganham a Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 9 entonação da língua materna por volta dos 9 meses e dá a sensação de que a criança está falando, mas em uma sequência de sons que não têm significado para quem ouve, o que chamamos de “jargão”. O balbucio é um precursor essencial do desenvolvimento de fala. Por isso, bebês silenciosos devem ser vistos com risco de dificuldades no desenvolvimento da fala e precisam ser acompanhados (HAGE; PINHEIRO, 2023). Além do balbucio, outro marco importante antes do aparecimento das primeiras palavras é a comunicação intencional, que é a manifestação deliberada de uma mensagem a uma outra pessoa, seja por meio de gestos, olhares, vocalizações ou fala. Somente a partir do 8º/9º mês de vida, é que os bebês, de fato, demonstram reconhecer o outro como alguém com quem podem compartilhar seus desejos. Os primeiros atos comunicativos intencionais dos bebês são os pedidos, na sequência ou concomitantemente, aparecem as ações para chamar a atenção para si e, aos 12 meses, os bebês compartilham seu foco de atenção com o outro (HAGE; PEREIRA; ZORZI, 2004). A ausência destes comportamentos é um sinalizador de alterações na reciprocidade social e comunicação não verbal. Entre o 12º e o 18º mês de vida, o vocabulário elementar infantil se inicia. As primeiras palavras que surgem são presas ao contexto (produzidas em contextos limitados: “mama” – pedindo mamadeira), ou têm caráter sociopragmático (“oi”, “tchau”), ou são expressões que indicam estados emocionais. Entre o 18º e o 24º mês, a criança começa a utilizar a palavra de forma referencial, sendo este o resultado de uma capacidade simbólica em que a criança descobre que as palavras podem ser usadas para nomear coisas. As primeiras 50 palavras adquiridas pela criança são substantivos, verbos e adjetivos, referentes mais concretamente observáveis no contexto. Quando as crianças ultrapassam as primeiras 50 palavras, é comum a ocorrência da “explosão do vocabulário”, ou “boom do vocabulário”, em que o número de palavras passa de gradual para abrupto em curto tempo (HAGE; PINHEIRO, 2023). Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 10 O rápido desenvolvimento das habilidades de linguagem na primeira infância coincide com a progressão similarmente acelerada da maturação do cérebro (PUJOL, 2006). Segundo Hage e Pinheiro (2023), o baixo repertório lexical pode ser decorrente da exposição inadequada ao entorno linguístico, por otites de repetição, por estímulo parental pouco comunicativo ou falta de exposição à língua, mas também pode ser o primeiro sinal de transtorno persistente relacionado ao processo de linguagem. Portanto, uma criança de 2 anos que não fala ou tem um repertório restrito de palavras pode estar na condição de atraso de linguagem, devendo ser encaminhada para avaliação fonoaudiológica. Entre o 20º e o 22º mês de idade, tem-se o início da morfossintaxe, quando se observa a combinação de duas palavras que se apresentam na forma de unidades com duas sílabas, e, geralmente, são simplificações de palavras, como /nene mimi/ (o neném quer dormir). E como característica geral, tem-se o “estilo telegráfico”, pela ausência de palavras com função gramatical, tais como artigos, preposições e flexões de gênero (HAGE; PINHEIRO, 2023). Com relação à aquisição dos fonemas, no segundo ano de vida, a criança já demonstra domínio de vogais e diversas consoantes, tais como as oclusivas (/p/, /t/, /k/, /b/, /d/, /g/), as nasais (/m/, /n/, /ɲ/) e as fricativas labiodentais (/f/, /v/) e linguoalveolares (/s/, /z/), mas isso não significa que ela os utilize corretamente na cadeia da palavra. Neste período, os padrões de fala são menos complexos e levam à inteligibilidade de fala por pessoas que não convivem diariamente com a criança, o que não representa uma alteração (HAGE; PINHEIRO, 2023). Do ponto de vista pragmático, a partir dos 8 meses de vida, as crianças já apresentam comunicação funcional com intenção. No segundo ano, entre 12 e 24 meses, as crianças manifestam interesse, pedem, interagem, compartilham a atenção com os interlocutores, inicialmente sem oralidade, e, depois, aos poucos, as intenções comunicativas da linguagem vão sendo expressadas de forma verbal (HAGE; PINHEIRO, 2023). Entre 30 e 36 meses, começam a surgir as primeiras frases coordenadas, junto com os verbos auxiliares “ser” e “estar”, pronomes de primeira, segunda e terceira pessoa e artigos definidos (HAGE; PINHEIRO, 2017). Com 3 anos de idade, a expectativa é de que a criança produza trechos de histórias com 4 ou 5 frases, inicie uma conversação infantil e cante Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 11 músicas. Com essa idade, ela consegue utilizar o “quem”, o “qual” e o “onde”, conjugação de várias orações, “e” e “ai”, “mas” e “por que”, frases negativas, interrogativas e relativas (GONÇALVES et al ., 2021). Crianças com alteração de linguagem dificilmente escaparão de manifestações na esfera sintática (HAGE; PINHEIRO, 2023). Aos 3 anos, a inteligibilidade de fala também evolui bastante, tanto que as crianças são compreendidas por estranhos, mesmo que ainda haja substituições e omissões de determinados fonemas. Além disso, até os 3 anos e 5 meses, as crianças “típicas” têm 95% de domínio dos fonemas plosivos (/p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/), nasais (/m/, /n/, /ɲ/), fricativos, labiodentais, alveolares (/f/, /v/, /s/, /z/) e líquida lateral (/l/), e o fonema líquido não lateral (/R/) é produzido com a mesma porcentagem até 3 anos e 11 meses. A partir dos 3 anos, as crianças usam a linguagem para relatar experiências, contar histórias, explicar e expressar sentimentos (HAGE; PINHEIRO, 2017). É importante salientar que, antes dos 3 anos, a criança aprende novas palavras a partir de fontes diretas, por meio da interação social. Já as crianças acima de 3 anos podem aprender novas palavras de fontes indiretas, como televisão ou leitura de livros feita por um adulto. Por isso, o uso de telas antes dos 24 meses de idade não é recomendado. Por volta dos 3 anos de idade, o vocabulário da criança é constituído aproximadamente por 1.200 palavras (GROLLA; SILVA, 2014). Entre 3 e 4 anos, do aspecto pragmático, espera-se que a criança compreenda uma mensagem transmitida e envie uma mensagem com certo grau de clareza. Ela apresenta maior ocorrência de turnos verbais, simples e coerentes, isto é, faz trocas de turnos dentro de um contexto lógico. Com uma comunicação plurifuncional, ou seja, fazendo o uso de várias funções comunicativas, como por exemplo, fazer nomeação espontânea de pessoas, objetos, ações, fazer comentários, dar informações espontâneas, entre outros. (HAGE et al., 2007). Até os 4 anos, todas as simplificações fonológicas que abarcam fonemas líquidos (/l/, / ʎ/, / ɾ /, /R/) desaparecem, e, ao entrar no Primeiro Ano do Ensino Fundamental, espera-se que as crianças tenham seu sistema fonológico organizado, incluindo a produção de grupos consonantais e consoantes finais (HAGE; PINHEIRO, 2023). Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO IDADE MÉDIA DE AQUISIÇÃO FONOLÓGICA Período Plosivas Nasais Fricativas Líquidas Antes dos 3:0 – 3:5 /p,b,t,d,k,g/ /m,n, ɲ/ /f,v,s,z/ - 3:6 – 3:11 /ʃ, ʒ/ /R/ 4:0 – 4:5 /ʎ/ 4:6 – 4:11 /l,ɾ/ 12 Entre 42 e 54 meses, as diversas estruturas gramaticais são complementadas,de acordo com a utilização do emprego do sistema pronominal, pronomes possessivos e verbos auxiliares. As diversas modalidades do discurso, ou seja, afirmação, negação e interrogação, tornam-se cada vez mais complexas, e, em torno dos 5 anos, a criança alcança o domínio do sistema gramatical básico da língua (HAGE; PINHEIRO, 2017). Entre 4 e 5 anos, há um aumento importante do vocabulário, chegando próximo de 2 mil itens, e isso ocorre em função da aquisição de preposições e outros tipos de palavras gramaticais, o que permite a ocorrência de sentenças com mais de uma oração, bem como a produção de orações relativas, coordenadas e subordinadas (GROLLA; SILVA, 2014). Com relação às habilidades pragmáticas, na faixa de 4 a 5 anos, as crianças ocupam uma parte maior no espaço comunicativo, não se limitando a responder perguntas. O meio de comunicação predominante é o verbal, sendo que as funções comunicativas mais utilizadas são o comentário e o pedido de informação (CERVONE; FERNANDES, 2005). As habilidades do processamento fonológico são muito citadas como qualidades preditoras para a aquisição de leitura e escrita. E, como já mencionadas, essas habilidades consistem na consciência fonológica (ou habilidades metafonológicas), na memória de trabalho fonológica e no acesso ao léxico mental (nomeação automatizada rápida). Tabela 1 – Idade média de aquisição fonológica. Fonte: Ceron e Keske-Soares (2017). Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 13 O desenvolvimento da consciência fonológica parece estar relacionado ao próprio desenvolvimento simbólico da criança, no sentido de dar atenção ao aspecto sonoro das palavras em detrimento do aspecto semântico (FERREIRO; TEBEROSKY, 1986). Em crianças de 5 e 6 anos, é esperada uma consciência fonológica que identifica sons em palavras, mas com lacunas na consciência fonêmica, pois, esta requer experiências específicas, além da mera exposição aos conceitos de rima e aliteração. Ao término do Primeiro Ano do Ensino Fundamental, as crianças já são capazes de combinar e segmentar sons em palavras faladas (O’CONNOR et al., 1993). A influência do meio no qual a criança está inserida tem efeito na tarefa de aquisição de palavras, e inúmeras variáveis caracterizam o desenvolvimento lexical, tornando, assim, difícil apresentar marcos evolutivos do desenvolvimento semântico. Além disso, sabe-se que as aquisições semânticas da linguagem dependem do grau de compreensão do sujeito (nível de experiência e da organização interna do mundo que o rodeia). Diante disso, até os 6 anos, espera-se que a criança apresente estruturas sintáticas mais complexas, e, praticamente, finalize o desenvolvimento morfossintático. A partir dessa idade, é possível observar o aperfeiçoamento das regras gramaticais (GOMES et al., 2021). De acordo com Befi-Lopes e Gândara (2002), por volta do Quinto Ano, o vocabulário da criança é numericamente semelhante ao de um adulto. Segundo Hage, Pereira e Zorzi (2004), com relação aos aspectos pragmáticos, a criança de 5/6 anos possui recursos linguísticos para as diversas funções da linguagem e que vão se tornando mais sofisticados; a narrativa também se mantém organizada a nível temporal dos fatos, e, após os 6 anos, a criança narra com detalhes histórias conhecidas e relatos pessoais, demonstrando habilidade para usar a linguagem, considerando o contexto e o interlocutor. Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 14 PROCESSADOR GESTALT DE LINGUAGEM 04 Até aqui, estudamos o desenvolvimento analítico de linguagem, o qual é caracterizado pela progressão única, previsível e linear, medida por uma variedade de fatores, números de palavras, formação de frase, ordem de aquisição de elementos gramaticais, entre outros. Porém, atualmente, sabe-se que nem todas as crianças caminham pela linguagem da mesma forma. Existem crianças que vão processar a linguagem de outra maneira, é o que chamamos de “Processadores Gestalt de Linguagem”. Peters (1983) se refere a um estilo de aquisição de linguagem que começa com pedaços maiores de linguagem, em oposição ao estilo tradicional de aquisição de linguagem, conhecido como “Processamento Analítico de Linguagem”, que começa com palavras isoladas. Neste sentido, devemos considerar crianças que iniciam sua comunicação por meio de frases completas, ecolalias, em vez começar por uma palavra isolada. Essas crianças que estão no estágio de desenvolvimento de unidade única parecem perceber cada unidade como um todo não analisado, ou seja, elas não estão cientes de que um gestalt (uma frase, uma ecolalia) pode ser composto por palavras individuais combinadas. Peters (1983) verificou algumas semelhanças entre os dois processos de aquisição da linguagem, reconhecendo que, em ambos os processos, as crianças começam com “unidades” únicas e significativas. A primeira unidade no processo analítico é uma única palavra, e a primeira unidade no processo gestalt é um “bloco de palavras”. No estágio de desenvolvimento da linguagem de duas unidades no processo analítico, duas palavras únicas são combinadas (início da formação de frases), enquanto, no processo SAIBA + Acesse o artigo sobre Distúrbios de Fala e da Linguagem na Infância https://ftp.medicina.ufmg.br/ped/Arquivos/2013/disturbiofalaeimagem8p eriodo_21_08_2013.pdf Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 https://ftp.medicina.ufmg.br/ped/Arquivos/2013/disturbiofalaeimagem8periodo_21_08_2013.pdf https://ftp.medicina.ufmg.br/ped/Arquivos/2013/disturbiofalaeimagem8periodo_21_08_2013.pdf SUMÁRIO 15 gestalt, gestalts inteiros da linguagem são segmentados ou “mitigados” em partes menores. Com o tempo, ambos os estilos de aquisição de linguagem avançam em direção a uma gramática flexível e autogerada nos estágios posteriores (PETERS, 1983; PRIZANT, 1983). Figura 4 – Crianças brincando. Fr ee p ik Figura 5 – Criança brincando na areia. Fr ee p ik Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO Processador Gestalt Processador Analítico Gestalts Palavra Gestalt mitigado Duas palavras Palavras isoladas e combinadas Frases Sentenças autogeradas e linguagem criativa Sentenças 16 Blanc (2023) elencou 6 estágios pelo qual as crianças processadoras de linguagem gestalt perpassam. São eles: Estágio 1: uso comunicativo de gestalts de linguagem (frases completas ricas em entonação, ecolalias tardias, blocos de falas ininteligíveis); Estágio 2: mitigação em pedaços; combinações; Estágio 3: isolamento de palavras e geração de frases de duas palavras; Estágio 4: geração de frases mais complexas; Estágio 5: frases originais com gramáticas mais complexas; Estágio 6: frases autogeradas usando um sistema gramatical completo. Para facilitar o entendimento desse novo conceito, pense que é como se os processadores gestalt de linguagem fizessem o caminho inverso ao analítico, começando a comunicação por meio da reprodução de muitas palavras e, ao passar pelos estágios, aproxima-se da mesma linguagem que o processador analítico se encontra, na produção de frases autogeradas e complexas. Para esclarecer a diferença entre os dois processos de linguagem, verifique a tabela 2. Tabela 2 – Processador Gestalt x Processador Analítico. Fonte: elaborada pelo autor. É importante o professor ficar atento a como a comunicação do aluno se inicia, se com palavras isoladas ou com blocos de palavras, e, apesar de ambos fazerem parte do desenvolvimento Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 17 natural de linguagem, existem formas diferentes de estimular cada tipo, as quais serão tratadas com mais detalhes na Unidade 3 desta disciplina. Também é preciso que o professor verifique que a criança consegue se comunicar independentemente da forma como ela processa a linguagem, e nós, como mediadores de sua comunicação, devemos nos atentar ao processo e validar qualquer forma de comunicação. SAIBA + companhe nestas páginas, publicações interessantes na língua inglesa que tratam da comunicaçãoe linguagem: https://www.meaningfulspeech.com/research-and-resources https://communicationdevelopmentcenter.com/ Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 https://www.meaningfulspeech.com/research-and-resources https://communicationdevelopmentcenter.com/ SUMÁRIO 18 Em síntese, vimos como acontece o desenvolvimento de fala e linguagem dentro dos níveis linguísticos, e observamos como cada etapa do caminho percorrido pela criança é importante para um bom desempenho linguístico. Também, compreendemos que há duas formas de se processar a linguagem em um processo natural. Este conhecimento é de extrema importância para um professor, pois é uma figura com quem as crianças têm contato diariamente. Logo, conhecer os marcos do desenvolvimento da linguagem é fundamental para a identificação de alterações. Além disso, todo profissional da educação deve entender o quanto as sintomatologias se afastam do desenvolvimento típico, e, a partir disso, têm autonomia para fazer encaminhamentos adequados e contribuir para o início de intervenções precoce e/ou preventivas. Neste sentido é que encaminharemos nossos estudos para entendermos mais a fundo os transtornos que afetam a comunicação. Sigamos juntos na continuidade dos nossos estudos! CONSIDERAÇÕES FINAIS Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 SUMÁRIO 19 ALVES, L. M. et al. Rapid naming in Brazilian students with dyslexia and attention deficit hyperactivity disorder. Frontiers in Psychology, v. 7, 2016. BEFI-LOPES, D. M.; GÂNDARA, J. P. 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Fala, linguagem e comunicação no TEA - UA1 INÍCIO