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Editora Appris Ltda. 1.ª Edição - Copyright© 2021 do autor Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda. Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98. Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores. Foi realizado o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nos 10.994, de 14/12/2004, e 12.192, de 14/01/2010. Catalogação na Fonte Elaborado por: Josefina A. S. Guedes Bibliotecária CRB 9/870 S586i 2021 Silva, Sergio Luiz Pereira da O irracionalismo de conveniência: ensaio sobre pós-verdade, fake news e a psicopolítica do fascismo digital / Sergio Luiz Pereira da Silva.- 1. ed. - Curitiba: Appris, 2021. 233 p.; 23 cm. – (Ciências sociais). Inclui bibliografias ISBN 9786525013527 1. Fake news. 2. Controle (Psicologia). 3. Fascismo – Internet e ativismo. 4. Desinformação. 5. Pós-verdade. I. Título. II. Série. CDD – 320 Livro de acordo com a normalização técnica da ABNT. Editora e Livraria Appris Ltda. Av. Manoel Ribas, 2265 – Mercês Curitiba/PR – CEP: 80810-002 Tel: (41) 3156-4731 | (41) 3030-4570 http://www.editoraappris.com.br/ http://www.editoraappris.com.br/ FICHA TÉCNICA EDITORIAL Sara C. de Andrade Coelho Marli Caetano Augusto V. de A. Coelho COMITÊ EDITORIAL Andréa Barbosa Gouveia - UFPR Edmeire C. Pereira - UFPR Iraneide da Silva - UFC Jacques de Lima Ferreira - UP Marilda Aparecida Behrens - PUCPR EDITORAÇÃO Jhonny Alves dos Reis ASSESSORIA EDITORIAL Lucas Casarini DIAGRAMAÇÃO Danielle Paulino CAPA Eneo Lage REVISÃO Tuca Dantas GERÊNCIA DE FINANÇAS Selma Maria Fernandes do Valle COMUNICAÇÃO Carlos Eduardo Pereira Débora Nazário Karla Pipolo Olegário LIVRARIAS E EVENTOS Estevão Misael CONVERSÃO PARA E-PUB Carlos Eduardo H. Pereira COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS DIREÇÃO CIENTIFICA Fabiano Santos - UERJ/IESP CONSULTORES Alícia Ferreira Gonçalves – UFPB José Henrique Artigas de Godoy – UFPB Artur Perrusi – UFPB Josilene Pinheiro Mariz – UFCG Carlos Xavier de Azevedo Netto – UFPB Leticia Andrade – UEMS Charles Pessanha – UFRJ Luiz Gonzaga Teixeira – USP Flávio Munhoz Sofiati – USP, UFSCAR Marcelo Almeida Peloggio – UFC Elisandro Pires Frigo – UFPR/Palotina Maurício Novaes Souza – IF Sudeste MG Gabriel Augusto Miranda Setti – UnB Michelle Sato Frigo – UFPR/Palotina Geni Rosa Duarte – UNIOESTE Revalino Freitas – UFG Helcimara de Souza Telles – UFMG Rinaldo José Varussa – UNIOESTE Iraneide Soares da Silva – UFC, UFPI Simone Wolff – UEL João Feres Junior – UERJ Vagner José Moreira – UNIOESTE Jordão Horta Nunes – UFG A meu vô Manuel Em memória. O pensar reifica-se num processo automático e autônomo, emulado à máquina que ele próprio produz para que ela possa finalmente substituí-lo. (Adorno e Horkheimer) PREFÁCIO A crise do setor financeiro e imobiliário em 2008 nos EUA. A conformação das novas e perversas dinâmicas do sistema internacional. A ascensão e previsível queda da Terceira Via inventada, recauchutada, testada e torpedeada por seu perfil conciliatório e pusilânime com as estruturas sociais brutais do mundo pós-fordista. A persistência da pauperização, da precarização do mundo do trabalho, das promessas não cumpridas e tampouco remotamente entregues no mundo do caráter corroído discutido por Richard Sennett (1999) há tempos. O suposto empresário de si, o “empreendedor” envolto em fantasias e automistificações falsamente douradas, incensado a partir de nada, frustrado, oprimido, adoecendo sistematicamente e criando índices de sofrimento mental ainda não detectados em outros momentos históricos. A mônada com pés de barro. Em meio a tudo isso, enquanto escrevo há ainda a pandemia de Covid-19, que denunciou e segue denunciando em cores, áudios, movimento e índices as diferentes faces da desigualdade em todos os aspectos por todo globo terrestre. Esta sociedade complexa, intrigante e com traços distópicos incomoda e pressiona por respostas. É com este momento, em que temos tudo e não temos nada diante de nós, que Sérgio Silva e seu trabalho se defrontam. Diria que autor e obra corajosamente defrontam-se com mais uma das grandes crises modernas nadando de peito aberto em mar revolto. Mas, não obstante a humanidade já ter passado por momentos disruptivos e francamente vertiginosos, Sérgio e seu livro ressaltam menos o que há de cíclico em nossa conjuntura, o retorno da roda, e mais os elementos particularmente trágicos que singularizam o que vivemos. Trata-se de um trabalho de diagnóstico do tempo presente. Antes de prosseguir, penso ser relevante fazer um paralelo com um autor que se apresenta como alma gêmea e, não obstante a sua ausência no trabalho de Sérgio, apresentou um opúsculo em 2009 que se coloca em comunicação tão íntima com a proposta deste livro que podemos dizer que ambos funcionam como vasos comunicantes. Falo do crítico cultural Mark Fisher (1968-2017) e seu Realismo Capitalista1. Sergio Luiz Silva e Mark Fisher são teóricos críticos em estilo livre2. Fisher assinalava com alguma ironia, por vezes sarcasmo e muita indignação o cenário de terra arrasada do mundo pós-neoliberal, tudo isso em uma narrativa que vai da cultura erudita ao pop na velocidade da luz. O ocidente após Thatcher, Reagan, Consenso de Washington e afins não enveredou acriticamente somente em fórmulas austericidas que redundaram em índices assassinos de concentração de riqueza. Esta sociedade que vivemos hoje e que não nasceu ontem, sendo tudo engendrado nas últimas décadas na verdade, contaminou algo além da imaginação de editorialistas da mídia convencional, policy makers e agentes coletivos ou individuais do setor financeiro. Fisher denunciava nada menos que subjetividade humana mutilada, decepada pela violência simbólica de slogans como “there´s no alternative” tal como triunfante já bradou o thatcherismo. Tanto se fez, tanto se repetiu que não há nada além de capitalismo (e desta modalidade específica de capitalismo), que o homem comum assim olhou diante de si um abismo que fornece um presente eternamente cinzento e bárbaro. Um “Dia da Marmota” sem final feliz. E, como sabemos, no risco de flertar em demasia com o abismo o observador pode ser engolido confundindo-se simbioticamente com a escuridão. Neste cenário em que o arbítrio coloca-se como relação necessária e o interesse mal compreendido impõe uma ontologia postiça é que se apresentam os sintomas discutidos por Sergio Luiz Silva em nossa contemporaneidade. Pós- verdade, fake news, barbarizarão da opinião pública, autoritarismo, reedição do fascismo em versão atualizada 2.0 e necropolítica. Em meio a tudo isso um capitalismo mais do que anti-iluminista que se apresenta até mesmo com traços pós-humanos. Pulsão de morte em ritmo de videoclipe. As consequências desta sociedade não redundaram somente em indivíduos dopados em um ciclo de consumo dia após dia de sujeitos aprisionados na maldição da obsolescência programada. O projeto é de uma sociedade de tiranos e narcisicamente orientada. Algo que a filosofia política há poucos séculos chamaria simplesmente pelo nome de guerra de todos contra todos. Minha base humanista não vê a menor chance de isso render bons frutos. E não tem dado. Desta franca deterioração situada além dos limites da opinião pública, que redundou na ressurgência dos projetos autoritários em diferentes graus e vitoriosos nos processos de concorrência eleitoral, é difícil não reconhecer que ambos os lados do espectro político contribuíram de maneira direta ou indireta. Nos governos no flanco esquerdo, para além de abraçarem sem maiores questionamentos o receituário fiscal, há aquela arrogância costumeira. Oras, aos campeões morais o sucesso é inevitável! No lado direito, compartilhando a mesma cartilha de políticas públicas fornecida pelo ultraliberalismo, a insuficiência de enfrentarem de maneira honesta seus próprios demônios. Entre progressistas e conservadores, em uníssimo, a faltaFreudiana e o Padrão da Propaganda Fascista, ele afirma que, O termo incitador da turba, apesar de censurável por seu desprezo inerente pelas massas enquanto tais, é em boa medida adequado já que expressa a atmosfera de agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos pretensos Hitlers. Se é desrespeitoso chamar as pessoas de turba, é precisamente o objetivo do agitador transformar estas mesmas pessoas em uma turba, isto é, uma multidão inclinada à ação violenta sem qualquer objetivo político sensato, e criar a atmosfera do pogrom. O propósito universal destes agitadores é instigar metodicamente o que, desde o livro famoso de Gustave Le Bon, é comumente conhecido como psicologia das massas. (ADORNO, 2011, p. 1). A psicologia social das multidões ou da massa, presentes na ideia de Gustave Le Bom (1980),8 aplica-se nesse episódio em que os manifestantes, conclamados por Trump, arregimentaram de forma orquestrada e massificada, por meio das mídias sociais, outros tantos simpatizantes, que atuam em regime anárquico e turbulento. Eles se aglomeram no Parque The Ellipse, em Washington D.C., num evento denominado “Save America” onde ocorreram discursos de líderes de extrema-direita, como o político Rudy Giuliani, (advogado pessoal do presidente Trump) que fez um discurso contra os resultados das eleições, afirmando que as disputas eleitorais dos EUA “deveriam ser resolvidas por Julgamento por Combate”. Num claro incentivo à violência, segundo afirma Anthony Zucher (2021) em seu artigo “Invasão ao Congresso: o que a violência em Washington significa para o legado de Trump”, publicado na BBC News. De fato, aquilo que poderia ter sido um ato simbólico de protesto contra o resultado das urnas americanas foi transformado num ato terrorista arquitetado por partidários de Donald Trump, com a invasão do Capitólio, provocando destruição e mortes naquela tarde. Tal ato terrorista “Salve a América”, promovido com a anuência de Trump, foi ideologicamente arquitetado por grupos ultraconservadores, como os Proud Boys (Meninos Orgulhosos, grupo violento de extrema-direita dos EUA), America First Neo- Confederados (grupo de xenófobos supremacistas e racistas, que apoiam a deportação dos imigrantes oriundos da América Latina e do países árabes, que vivem nos EUA), QAnon (Grupo extremista, classificado como terrorista, fichado pelo FBI), National Anarquist (grupo de ideologia política ultraconservadora, nacionalista e radicalmente racista, com origens fascistas) e Blak Hebrew Israelistes (grupo afro-norte-americano antissemita e racista, que se julgam “judeus legítimos”, verdadeiros descendentes dos originários israelitas). Esse público massificado e orquestrado em forma de turba operou num nível de articulação digital como um enxame indivíduo/usuários articulados por mídias sociais. O termo enxame digital é identificado por Han (2018) para classificar o que ele conceitua como processo de disposição dos indivíduos no ambiente digital isolados em suas articulações. Eles não se aglomeram como massa, na forma como caracteriza Le Bom (1980). Mas nos possibilita entender que sua forma de participação faz acionar outros tipos de articulações e ações que são presentes nas transformações da esfera pública da sociedade em rede. Segundo Han, Claramente, encontramo-nos hoje novamente em uma crise, em uma transição crítica, pela qual uma outra revolução, a saber, a revolução digital, parece ser responsável. Mais uma vez, uma formação dos muitos ameaça uma relação de poder e de soberania. A nova massa é o enxame digital. Ela apresenta propriedades que a distinguem radicalmente da clássica formação dos muitos, a saber, da massa. [...]. O enxame digital consiste em indivíduos singularizados. (HAN, 2018, p. 31). O homo digitalis, que caracteriza, de forma pontual, esse público massificado e articulado por redes, que participou do episódio que resultou na invasão do Congresso do EUA, diríamos que vai desde judeus negros e antissemitas, que acreditam numa pureza essencialista da raça, a extremistas brancos ultranacionalistas que acreditam num separatismo racial e político do país, configurando, assim, uma turba de ultraconservadores supremacistas, que ostentavam símbolos como a bandeira dos confederados racistas, símbolos tribais, que representavam bárbaros vikings, e fantasias alegóricas de um passado mítico, complementado por cartazes, com discurso de ódio e camisas com emblemas antissemitas, que faziam menção a campos de concentração alemães. De uma maneira geral, todos, deliberadamente, eram, de forma autoconsciente, contra os princípios democráticos instituídos pelo estado de direito, e, por esse motivo, invadir e destruir o patrimônio representado pelo Capitólio seria um ato ostensivo contra essa democracia que eles negam e que não reconhecem o seu resultado por meio das urnas. O que seria um protesto ilegítimo, promovido por Donald Trump, contra o resultado das eleições americanas nas quais ele foi comprovadamente derrotado, transformou-se num ato de terrorismo interno, de violenta ação contra a soberania dos EUA, que resultou em quatro mortes e mais de oitenta prisões de manifestantes. O episódio foi um completo ato consciente de irracionalismo de conveniência fascista, instrumentalizado de forma violenta e criminosa. Uma turba em forma de sublevação popular. Um ato neoliberal que foi arquitetado contra a democracia estabelecida pelo estado de direito do povo americano, orquestrado pelo próprio presidente dos EUA. Voltando às questões levantadas por Fraser (2018) sobre a crise de hegemonia, concordamos com a autora quando afirma que O neoliberalismo hiper-reacionário de Trump não constitui um novo bloco hegemônico, no entanto. É, ao contrário, caótico, instável e frágil. Isso se deve em parte à peculiar psicologia pessoal de seu porta-estandarte e, em parte, devido à sua codependência disfuncional com o establishment do Partido Republicano, que tentou e falhou em reafirmar o seu controle e agora está matando o tempo enquanto procura por uma estratégia de saída. (FRASER, 2018, p. 55). A invasão do Capitólio foi a simbolização dessa crise de hegemonia, somada ao egocentrismo perverso de um líder que não tem legitimidade e impõe uma doutrina de um tipo de neoliberalismo ultraindividualista, que não respeita as bases partidárias que o apoiaram. Trump faz parte desse enxame digital, na forma de líder sem liderança que acredita que impor o poder, de forma autoritária, transforma-o em um líder. Alguém que confunde autoridade com autoritarismo. Suas ações de fato representam uma crise de hegemonia política, sem a coalizão de um grupo e amparo político. Essas características se afinam com a reflexão de Han (2014) sobre a egotização do comportamento das psicopolíticas no contexto do enxame digital. O enxame digital do neoliberalismo exime a existência de um nós coletivo e articulado pela política democrática. O sujeito econômico neoliberal não forma nenhum “Nós” capaz de um agir conjunto. A egotização crescente e a atomização da sociedade leva a que os espaços para o agir conjunto encolham radicalmente e impede, assim, a formação de um contrapoder que pudesse efetivamente colocar em questão a ordem capitalista. O socius [“social”] dá lugar ao solus [“sozinho”]. Não à multidão, mas sim à solidão caracteriza a constituição social atual. Ela é abarcada por uma desintegração generalizada do comum e do comunitário. A solidariedade desaparece. A privatização avança até a alma. (HAN, 2018, p. 40). Os indivíduos/usuários, ultraconservadores, que atendem à dinâmica neoliberal, indivíduos típicos do enxame digital contemporâneo (HAN, 2018), seguem a linha do irracionalismo de conveniência, que líderes ultraconservadores podem promover. Esse comportamento é fundado em práticas antidemocráticas e até terroristas, a exemplo da invasão do Capitólio, articulada por meio de redes, por milícias digitais. Esse exemplo de irracionalismo de conveniência, proposto por líderes políticos ultraconservadores, aponta paraum regressivo modo de deslegitimar a estabilidade das instituições públicas, forjando uma cultura civil de comportamentos violentos, que objetivam a instauração do pânico moral, da violência jurídica e política e a efetivação do medo coletivo. O resultado dessa conduta vai além de atos ostensivos e episódio de turba, como vimos no dia 6 de janeiro de 2021, os efeitos desse processo apontam para a continuidade do fortalecimento da colonização do imaginário fascista, por meio da política manipulação e desinformação que estabelece pânico moral (MCLUHAN, 1964). E, com isso, torna ainda mais frágeis vários setores sociais de maior vulnerabilidade e desamparo, ameaçados de extermínio no cotidiano. O pânico moral foi um conceito discutido por Marshal Mcluhan que se refere a um sentimento de medo compartilhado, que é espalhado de forma exponencial para um grande número da população, de que algo muito ruim, que prejudicará a todos indiscriminadamente, vai ocorrer muito em breve. Via de regra, o pânico moral circula em primeira mão na mídia de uma maneira geral e se espalha pela população de forma indiscriminada. Nos anos 60, Mcluhan analisou esse conceito em seu livro Understanding Media (1964), em que o conceito de pânico moral foi usado para se referir a uma ameaça geral sobre o comportamento juvenil. De forma próxima a de Mcluhan, Stanley Cohen (1972) fez uma pesquisa sociológica sobre a relação entre cultura e mídia juvenil, Folk Devils and Moral Panics, na qual afirma que tal fenômeno ocorre quando algo ou alguém em grupo ou individualmente surge e põe em risco ou ameaça o que é considerado, até então, como valores e interesses sociais legitimados. Os fascistas contemporâneos apostam na turbulência sócio-institucional, para desestabilizar e dividir a população, e, consequentemente, as esferas que possam atuar contra seu movimento turbulento em forma de pânico moral associado a ideologias abjetas e falhas que apostam na clivagem e divisão dos grupos, promovendo caos social. Conforme Stanley (2020), “O sintoma mais marcante da política fascista é a divisão. Destina-se a dividir uma população em ‘nós’ e ‘eles’”. (p. 15). De forma conveniente, tais práticas de divisão social atendem a propósitos políticos escusos, que apostam na circulação e consumo imediato do discurso de ódio, por meio de notícias falsas, que potencializam polêmicas e mobilizam afetos, criando cisão entre grupos sociais. Esse processo é fundado na desinformação, sujeição da opinião pública, por milícias ligadas a líderes políticos que buscam uma nova forma de afinidade eletiva para estabelecer novas prática populistas e ultraconservadoras, por meio das redes sociais, como afirma Garbaudo (2018). Isso nos ajuda a entender que episódios de turbulência social, promovidos por grupos supremacistas e milícias digitais, não são questões isoladas dentro da doutrina ideológica do neoliberalismo ultraconservador e manipulador das estruturas de tecnologias contemporâneas. Há uma estreita relação entre o comportamento político de lideranças autoritárias e populistas, representantes de um fascismo contemporâneo, e os dispositivos de informação, orientação e controle de dados e informações que incidem sobre a orientação de conduta dos enxames digitais dos indivíduos/usuários na sociedade neoliberal ligada por redes. Os comportamentos sociais e o controle dos dados digitais fazem parte de uma mesma conjuntura psicopolítica. Hoje uma nova mudança de paradigma se realiza. O panóptico digital não é uma sociedade disciplinar biopolítica, mas sim uma sociedade da transparência psicopolítica. E, no lugar do biopoder, entra o psicopoder. A psicopolítica está em posição para, com ajuda da vigilância digital, ler e controlar pensamentos. A vigilância digital toma o lugar da ótica inconfiável, ineficiente e perspectivista do Big Brother. Ela é eficiente porque ela é a perspectivista. A biopolítica não permite nenhum acesso sutil à psyche de pessoas. O psicopoder, em contrapartida, está em condições de intervir nos processos psicológicos. (HAN, 2014, p. 158-159). Essa psicopolítica está consorciada com as estruturas do Big Data, que se instaura na sociedade em rede, como um novo panóptico digital, que está vigilante, sobre os comportamentos dos indivíduos/usuários que são pessoas por trás dos monitores digitais. Na visão de Byung-Chul Han, El Big Data es un gran negocio. Los datos personales se capitalizan y comercializan por completo. Hoy se trata a los hombres y se comercia con ellos como paquetes de datos susceptibles de ser explotados económicamente. Ellos mismos devienen mercancía. El Big Brother y el Big Deal se alían. El Estado vigilante y el mercado se fusionan. (HAN, 2014, p. 98).9 Isso nos ajuda a refletir criticamente sobre fake news e a pós-verdade, como fenômenos que resultam de dispositivos psicopolíticos e biopolíticos de controle, vigilância e brutalidade de Estado, muitas vezes promovidas diretamente por posicionamentos e atitudes políticas, que incidem em pronunciamento de seus líderes ou por grupos próximos a ele, outras vezes por meio de suas milícias digitais, dentro e fora do Estado. A biopolítica não tem acesso direto à psique dos indivíduos, como afirma Han (2014); por outro lado, a psicopolítica e a sua forma de intervenção, configurada como psicopoder, pode intervir diretamente no campo psicológico dos indivíduos e nos processos de intersubjetividade coletiva dos grupos sociais. A questão a destacar é que os mecanismos biopolíticos de controle, orientação ou mesmo a brutalidade na forma de gerenciamento do Estado, nesse contexto neoliberal, entrecruzam-se com os mecanismos da psicopolítica em suas linhas de desinformações e ideologias falhas fundadas, promovidas por dispositivos ligados em rede. Esse processo de promoção do controle dos dados do Bigdata e os mecanismos de desinformação, como fake news, são exemplos da forma como opera o poder de comando psicopolítico. Nesse contexto neoliberal, as ideologias fascistas encontraram formas de apropriação dos espaços públicos dentro do Estado, e promoveram formas de manipulação e controle de dados para estruturar o discurso doutrinário, ajudado por controle de dados e algoritmos. Na psicopolítica implementada por governos ultraconservadores, os usos e o controle dos dados digitais servem para alimentar discursos e pronunciamentos falsos, pautados em ideologia falhas e propagandas políticas, a serviço do desmonte do Estado e das instituições democráticas. A política fascista troca a realidade pelos pronunciamentos de um único indivíduo, ou talvez um partido político. Mentiras óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo qual a política fascista destrói o espaço da informação. Um líder fascista pode substituir a verdade pelo poder, chegando a mentir de forma inconsequente. (STANLEY, 2020, p. 66). O processo ideológico dessa psicopolítica fascista, com a propagação de mentiras e desinformação nas mídias sociais, promove influência às percepções dentro e fora dos grupos das mídias sociais, e alimenta o enxame digital desse ator social que classificamos aqui como indivíduo/usuário. A base da influência sobre as percepções desses reflete-se nos efeitos dos usos de mensagens e compartilhamento de dados, que são administrados por algoritmos dessas mídias sociais. Nesse ponto de tangência, o enxame digital dos indivíduos/usuários, assim como a ressonância emocional dos seus afetos políticos, encontra tangência no controle e manipulação dos dados digitais, que está diretamente ligado à estrutura dos algoritmos no novo capitalismo digital (HAN, 2014). Nesse contexto, a psicopolítica dos líderes autoritários, a sua ligação com o enxame digital dos indivíduos/usuários e o gerenciamento de dados dos algoritmos da sociedade em rede, faz parte desse conjunto proposto pela ideologia neoliberal, que encontra muita reverberação nos governos ultraconservadores dentro das democracias. Destacamos ainda que, do ponto de vista factual, os algoritmos, em sua estreita relação com as fakenews, atuam calculando comportamento e tendências a partir de cliques, comandos e mensagens (input/output) fornecidos pelos indivíduos/usuários, que são capturados por empresas de logística digital, assim como por agências de governo e grupo ilegais caracterizados como milícias digitais promotoras de disseminação de fake news e desinformação generalizada. Nesse contexto de massificação desinformativa, a ação dos algoritmos lida com dados que são fornecidos nos processos de interação sociais a partir das mídias sociais assim como com acesso a banco de dados disponíveis. Muitas empresas e agentes se beneficiam nesse processo, de input e output de dados. Isso é parte fundamental, porque a partir dessa logística digital, são estabelecidas formas de monetarização de empresas de informação, assim como são criados perfis de indivíduo/usuários, por parte de vários grupos que armazenam dados e disponibilizam para outras empresas e grupos de interesses, com fins financeiros e políticos. Esse processo configura-se como parte de um governo de algoritmo, fundado numa forma de racionalidade digital, que atende às novas demandas da biopolítica, atualizada com a psicopolítica. Nesse contexto, o governo dos algoritmos gerencia dados digitais, que atendem a interesses públicos e privados dentro do jogo de interesses, seguindo um raciocínio instrumentalizado do neoliberalismo. Nenhum dado de usuário, seja essa pessoa física ou jurídica pode ser disponibilizado ou apropriado sem sua autorização. A disponibilidade não autorizada dos dados dos usuários é um ato criminoso previsto em lei. A ilegalidade desse ato está prevista na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), Lei n. 13.709, de 2018, promulgada em setembro de 2020, e prevê sansões e multas em valores altos de até cinquenta milhões de reais e, em alguns casos, sansões de reclusão. Apresento abaixo a estrutura da lei para um melhor entendimento.10 Quadro 1 – “Entenda o marco legal de proteção de dados” Entenda o marco legal de proteção de dados Estrutura A Lei 13.709, de 2018, tem 65 artigos, distribuídos em 10 Capítulos. O texto foi inspirado fortemente em linhas específicas da regulação europeia, o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, em sua sigla em inglês). Hipóteses para o tratamento de dados Com o consentimento do titular; Para o cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo responsável pelo tratamento; Pela administração pública, para o tratamento e uso compartilhado de dados necessários à execução de políticas públicas; Para a realização de estudos por órgão de pesquisa, sem a individualização da pessoa; Para a proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro; Para a tutela da saúde, com procedimento realizado por profissionais da área da saúde ou por entidades sanitárias; Para a execução de um contrato ou de procedimentos preliminares relacionados a um contrato do qual é parte o titular quanto a seu pedido; Para pleitos em processos judicial, administrativo ou arbitral; Para a proteção do crédito, nos termos do Código de Defesa do Consumidor. Abrangência Quaisquer dados, como nome, endereço, e-mail, idade, estado civil e situação patrimonial, obtido em qualquer tipo de suporte (papel, eletrônico, informático, som e imagem etc.). Contratos de adesão Nos casos de contratos de adesão, quando o tratamento de dados pessoais for condição para o fornecimento de produto ou de serviço, o titular deverá ser informado com destaque sobre isso. Dados sensíveis O texto traz o conceito de dados sensíveis, que recebem tratamento diferenciado: sobre origem racial ou étnica; convicções religiosas; opiniões políticas; filiação a sindicatos ou a organizações de caráter religioso, filosófico ou político; dados referentes à saúde ou à vida sexual; e dados genéticos ou biométricos quando vinculados a uma pessoa natural. Entenda o marco legal de proteção de dados Sanções administrativas Quem infringir a nova lei fica sujeito à advertência, multa simples, multa diária, suspensão parcial ou total de funcionamento, além de outras sanções. Responsabilidade civil O responsável que, em razão do exercício de atividade de tratamento de dados, causar a dano patrimonial, moral, individual ou coletivo, é obrigado a reparar. O juiz, no processo civil, poderá inverter o ônus da prova a favor do titular dos dados quando, a seu juízo, for verossímil a alegação, houver hipossuficiência para fins de produção de prova ou quando a produção de prova pelo titular resultar-lhe excessivamente onerosa. Fonte: Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado) A aprovação desse dispositivo legal no Brasil é importante por criar um marco regulatório sobre o uso inapropriado de dados e informações digitais que tem sido uma prática recorrente desde 2016 em várias partes do mundo. Mas mesmo esse marco regulatório não tem poder de ação contra criminosos digitais que se apropriam de dados dos indivíduos/usuários do Brasil, como mostra a matéria pública no El Pais, em 26 de janeiro de 2021, sobre Um megavazamento de dados pessoais de 223 milhões de brasileiros pela empresa de segurança digital PSafe pode ser o maior na história do país e tem tudo para ser a primeira prova de fogo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), criada a partir da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) em agosto do ano passado. Também é o primeiro incidente desta magnitude que se tem notícia no Brasil. A lista com milhões de nomes completos, CPFs e datas de nascimento – de pessoas vivas e mortas – estava disponível para download gratuito a partir de um fórum de discussão na deep web – cópias do arquivo original foram feitas e podiam ser encontradas por qualquer um a partir de buscadores de internet. Em troca de bitcoins, o perfil anônimo responsável pelo vazamento dizia ser possível obter ainda retratos, endereço, telefone, declaração do Imposto de Renda, listas de familiares, renda mensal, score de crédito e muito mais dos alvos em questão. (El Pais, 26/01/2021). Todos estamos em condição de vulnerabilidade digital, psicológica e física na sociedade da informação em rede, que cada vez mais, atende a interesses privados seguindo uma diretriz neoliberal, de privatização dos espaços e dos interesses públicos. A questão relevante a esse respeito é que o uso inapropriado dos dados de usuários está diretamente ligado a crimes digitais que, embora estejam previstos em lei, não impedem o mapeamento de perfis de indivíduos/usuários. O mapeamento desses perfis de usuários são fundamentais para a compilação, manipulação e controle sobre o que e quando os indivíduos/usuários fazem conectados na rede da internet. A caracterização do acesso, consumo, tipo de equipamento, conexão, localização do dispositivo e troca de dados, como mensagens recebidas e enviadas, ou qualquer comando por clic, voz ou gesto, são informações úteis aos algoritmos de mapeamento, gerenciamento logístico e manipulação de dados digitais. Esse mapeamento, gerenciamento e manipulação atendem a critérios de classificação de perfil do indivíduo/usuário que inclui faixa etária, gênero, local de acesso, rede de conexão, tipo de dispositivo e equipamento usado, tempo de duração da conexão etc. Como aponta pesquisa realizada pela Universidade de Oxford, sob a coordenação da Nahema Marchal, Lisa-Maria Neudert, Bence Kollanyi e Philip N. Howard, os usos dos dados nas redes sociais por pessoas de gerações distintas, por exemplo, demonstra que pessoas da terceira idade passaram a ter mais iniciativa de conectividade e mais tempo on line na mídias sociais de uma maneira geral, sendo que esse mapeamento possibilita um perfil que usuários com mais disponibilidade de acesso disponibilizam mais dados pessoais nas plataformas digitais e são alvos mais vulneráveis às milícias digitais que propagam mensagens indesejáveis e fake news. Segundo essa pesquisa, numa comparação entre os anos de 2016 e 2018, apresentou-se uma relação direta de polarização entreperfis de usuários de gerações distintas com relação ao acesso e consumo de notícias ligadas às eleições nos EUA11. Com isso, constatou-se um crescente aumento de mensagens com conteúdo ultraconservador e abjeto e igualmente uma maior difusão dessas mesmas mensagens entre grupos de usuários próximos, classificados por grupos etários distintos que participavam de grupos em mídias sociais. A pesquisa aponta para a realidade dos fatos sobre o ano de 2016 em que se constatou que a distribuição das fake news foi originada em terminais de computadores da Rússia, e que apresentavam conteúdo ultraconservador de direita, e que foram acessados por boa parte de usuários de idade mais avançada tanto no ano de 2016 como no ano de 2018. Os fatos que os dados apresentavam possibilitavam uma compreensão sobre reprodução de um perfil de comportamento relativo ao acesso a mensagens e replicação de notícias falsas ou indesejáveis (entenda-se por notícias de conteúdo indesejável como notícias abjetas caracterizadas por mensagens xenofóbicas, racistas e de ódio) por grupos de idade mais jovens e idades mais avançadas. Seguramente isso demonstra uma instrumentalização do que aqui tratamos de chamar de práticas do irracionalismo de conveniência fascista, mas sabemos que tais práticas aparentemente irracionais e desrespeitosas, por parte de empresas, grupos de milícias digitais ou até mesmo usuários que compartilham grupos de WhatsApp e outras mídias sociais, que se valem de fake news e mensagens indesejáveis e abjetas, atendem a propósitos políticos com fins escusos, conservadores e ultraconservadores, que caracterizam e condizem com as práticas da ideologia neoliberal associada às práticas do fascismo contemporâneo. Voltaremos a refletir sobre os dados dessa pesquisa da Universidade de Oxford no próximo capítulo, em que trataremos a questão sobre a governabilidade dos algoritmos. Por ora, retomemos a crítica introdutória sobre o “irracionalismo” de conveniência fascista. A nossa análise trata da questão da conveniência da irracionalidade fascista, no cotidiano digital da sociedade contemporânea, e sua estreita ligação com dispositivos de persuasão, medo, controle ou pânico moral (MCLUHAN, 1964), fundado em notícias falsas, e práticas digitais de desinformação, que circulam nas redes por meio da produção e consumo de mensagens e propagandas, que visam, de forma direta, à sujeição e manipulação da opinião pública, por meio da produção, circulação e consumo de notícias forjadas por especialistas em desinformação, promotores de fake news. Como podem perceber, ponho o termo “irracionalismo” entre aspas e o caracterizo como sendo de conveniência fascista, pois que de irracional os fenômenos das fake news e a pós-verdade não têm nada, na medida em que esses fenômenos são provocados por instrumentos ideológicos com propósitos de colonização subjetiva, como nos ajuda a pensar Quinn Slobodian (2018, 2020), dentro do cenário político neoliberal localizado e globalizado da cultura do ultraconservadorismo mundial. Esses fenômenos do binômio fake news/pós-verdade atendem a um processo mais amplo de desenvolvimento de ideologias ultraconservadoras que criam fronteira e barreiras simbólicas e materiais dentro das sociedades, que, a reboque da discussão, corroboram com o neoliberalismo autoritário vigente, que perpassa de forma intersubjetiva as redes de afetos na sociedade mundial conectada. Esse processo, no qual se contextualiza a fake news e a pós- verdade, faz parte de um processo muito maior, que é estruturado por uma nova onda neoliberal que opera a partir de ideologias forjadas por discursos de ódio, ideias de tradicionalismos conservadores, mitificação da verdade e moralismos retóricos, que ajudam a mobilizar a política dos afetos. A esse conjunto autoritário de demandas ideológicas se juntam os interesses nacionalistas, trazendo à tona as novas formas de populismos digital, aos modos de líderes autoritários como Jair Bolsonaro e Donald Trump, que promoveram formas de governança brutalizadas e antidemocráticas. O conjunto de todo esse processo acima citado, faz operar capitalismo digital em rede, que incide na precarização, reificação e na alienação massiva dessa mesma sociedade em rede, por meio da propagação ideológica da desinformação generalizada, do controle dos dados dos indivíduos/usuários e na “uberização do trabalho”, sob a qual os direitos e garantias trabalhistas perderam espaços, sendo substituídas pelo empreendedorismo individualizado sem regras. O termo “uberizaçao do trabalho”, refere-se ao contexto de formação do capitalismo de plataforma digital, a partir do qual a divisão social do trabalho, na era da sociedade em rede, entra em total precarização, sem garantias sindicais, de segurança ou direitos adquiridos para a classe trabalhadora dessas plataformas. Nessas plataformas, o trabalhador assume todos os riscos do desenvolvimento do seu trabalho e da sua produção, num processo de mais valia absoluta, com a qual a classe trabalhadora desse setor é explorada ao máximo em sua jornada de trabalho excessiva. Esse tipo de capitalismo que genealogicamente deriva de uma mudança estrutural do capitalismo moderno, resulta hoje em condições perversas de exploração e concentração de renda e se estrutura numa engenharia socioeconômica complexas, que seguem diretrizes de uma política neoliberal (CHAMAYOU, 2020). Em certa medida, essa prática neoliberal, que se estrutura pela sociedade de plataformas e das informações dos indivíduos/usuários, se beneficia do controle dos afetos em contextos de crise social aguda, como a que vivemos. Associado a esse contexto de crise, as políticas de um estado de exceção (AGAMBEN, 2011) parecem definir as diretrizes de governantes autoritários e populistas que se valem de uma política do medo e da insegurança pública, com as quais implementam controle dos afetos, dos indivíduos na sociedade. É É esse contexto neoliberal que funda o irracionalismo de conveniência estruturado por dispositivos de persuasão, medo e a propagação da mentira massificada, que se transforma em instrumento de controle nas mãos de grupos que arquitetam uma engenharia de desinformação, como nos afirma Empoli (2019). Esses engenheiros da mentira coletiva, promotores do caos regulam, cotidianamente e de forma eficiente, o funcionamento de uma engrenagem, que é montada para entender o desejo de manipulação dos afetos, por meio das mensagens de ódio e abjeções retóricas. Dentro dessa engrenagem, os afetos “[...] era uma fonte de energia colossal, e que era possível explorá-la para realizar qualquer objetivo, a partir do momento em que se decifrassem os códigos e se dominasse a tecnologia.” (EMPOLI, 2019, p. 23). Mas, a bem da verdade, reiterando o que afirmamos em parágrafo anterior, isso, que denominamos como irracionalismo de conveniência, de irracional não tem nada. Esse é um processo no qual se inserem, de forma bastante objetiva e instrumental, as fake news, e, a reboque, o fenômeno da pós-verdade, e ambos estão associados a um processo muito maior, estruturado por uma nova onda ideológica que tem como mecanismo de reificação a massificação da desinformação, e, consequentemente, a manipulação dos afetos, em nome de uma nova ordem de instrumentalização do fazer político fascista no cotidiano digital da sociedade em rede. Consideramos as fake news, e sua relação com a pós-verdade, como um processo ideológico de manipulação informacional que resulta em deformação da verdade, e, consequentemente, em desinformação. E que se fundamenta na objetividade do irracionalismo de conveniência das fake news. Esse processo se caracteriza de forma autoconsciente, e visa chocar, amedrontar, distorcer e reprimir a verdade dos fatos, transformando-os em desinformação massiva disseminada oferecida à opinião pública (BOURDIEU, 1996, 2008). Ao mesmo tempo, esse processo se ancora em dispositivos de brutalidade biopolíticos de controle institucionais. Que instaura um processo de uma fantasia, muitas vezes mítica, criadasobre o irreal. Essas formas míticas são inverossímeis e moldam, de maneira intersubjetiva, a abstração da pós-verdade. A fake news é caracterizada como notícia com cunho falso que gera desinformações, que não correspondem à verdade dos fatos e que trafegam de forma viralizada entre o que aqui conceituamos como indivíduos/usuários conectados em rede, que reverberam tais desinformações, para a população de uma maneira geral. Informações e notícias falsas configuram, de fato, a cultura da desinformação e a política do negacionismo. Isso não é nenhuma novidade, mas a forma como esses fenômenos são processados no cotidiano digital, dos nossos dias atuais, são potencializados por meio da hipervisualização da cultura visual (SILVA, 2020). Essas práticas, por meio das mídias sociais, causam um estrago devastador do ponto de vista político, econômico, social e sobretudo emocional. Pois se trata de uma operação de manipulação algorítmica massificada, que conecta desinformações em rede que, em frações de segundos, por meio da alta tecnologia de comunicação, promovem uma turba digital de mentiras objetivas. O intuito das fake news é conseguir visualizações nas páginas das mais variadas mídias sociais. Sendo assim, o conteúdo sensacionalista e fora da normalidade dissemina mensagens de ódio, abjetas e difamatórias contra pessoas, instituições, empresas, governos etc., que maculam a imagem dos seus alvos. As empresas especializadas em produção das informações falsas estão localizadas em ambientes digitais de difícil rastreamento, aos quais grande parte dos usuários não têm acesso. De maneira geral, as fakes news são criadas por meio de páginas da internet e mídias sociais que produzem um conteúdo falso, que os bots12 replicam massivamente a cada instante para milhões de usuários por meio das redes, ampliando os números de seus destinatários, que recebem boatos e informações com conteúdo falso por meio da rede, sobretudo em períodos de processos eleitorais. Com isso, as fake news são assim instrumentos de operações ideológicas e ao mesmo tempo instrumentos que possibilitam o funcionamento de uma grande máquina mantenedora de mentiras com fins específicos, sobretudo de caráter político e financeiro do neoliberalismo dentro da doutrina de comportamento digital na estrutura do capitalismo contemporâneo. As atividades de uma empresa como a Cambridge Analytica simbolizam a síntese da fusão entre interesses do capitalismo neoliberal associado as doutrinas ultraconservadoras de líderes de um populismo discursivo do fascismo contemporâneo. Essa empresa comprovadamente atuou nas eleições de Donald Trump, na manipulação das informações do BREXIT13 e teve forte participação na eleição de Jair Bolsonaro, com forte influência de ideólogos ultraconservadores como Steve Bannon. Dentro desse contexto neoliberal, por meio das fake news, grupos vêm sendo ativados para propagar mentiras e manipulações, em favor de interesses políticos pontuais. Um dos maiores exemplos desse fenômeno foi o BREXIT e todo conjunto de desinformação e manipulação de informação publicitária promovido pelo “Vote Leave” que também teve o apoio da empresa Cambridge Analytica, com obtenção de dados dos usuários do Facebook com a finalidade de facilitar o disparo de fake news em favor do BREXIT, que mobilizou os afetos nacionalistas de uma considerada parte do povo britânico e resultou na escolha pela saída do Reino Unido da União Europeia e, consequentemente, gerou uma das maiores crises econômicas e políticas da história da Grã- Bretanha. Só para se ter uma ideia do poder da desinformação massiva promovido por esse processo relativo às fake news, o assessor do governo de Boris Johnson e ideólogo do BREXIT e marqueteiro Dominic Cumming, conhecido pelas polêmicas que ajudou a promover junto ao parlamento inglês, admitiu que publicou cerca de um bilhão de anúncios falsos durante a campanha de referendo do BREXIT, com forte interferência de mensagens oriundas da Rússia14. Os processos de desinformação, com toda a sua estrutura de tecnologia ancorada em cálculos algoritmos e uso de dados das mais várias mídias sociais, como o Facebook, Twitter e WhatsApp, atuaram em rede de forma pluridirecional, visando persuadir e sujestionar a tomada de posições políticas, por meio do voto de milhões de usuários ingleses, quanto à saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Outro exemplo do grande poder dessa indústria ideológica da desinformação em massa foi a conquista da disputa eleitoral, também em 2016, de Donald Trump, que venceu a disputa eleitoral com Hilary Clinton, por meio do uso das fake news, e curiosamente, Trump e todo suporte dos seus apoiadores conservadores também recorreu à ajuda da Cambridge Analytica, com forte articulação de Steve Bannon. O fenômeno de desinformação em massa e mobilizações dos afetos políticos, em nome do sentimento nacionalista de parte do povo americano, foi decisivo para a eleição dos ultraconservadores nos EUA. Nesse processo eleitoral, a disputa foi marcada por uma série de disparos de mensagens falsas e de cunho moralista, machista e abjeto contra a senadora Hilary Clinton, assim como mensagens e publicidades de cunho xenófobo e abjeto contra as comunidades latinas e negras nos EUA. Nesse sentido, foi usada uma estrutura tecnológica de alta performance digital em análises e manipulação de dados, que foi fundamental também na influência das eleições de 2018 no Brasil, que possibilitou a vitória de Bolsonaro, com mais de 57 milhões de votos no segundo turno das eleições no Brasil, como já afirmamos. Segundo Garbaudo (2018), as mídias sociais e empresas especializadas em administração de dados e perfis de usuários em rede são fundamentais para identificar formas estratégicas a serem usadas para promover determinados assuntos, anúncios ou mensagens, em que todos parecem estar antenados a um mesmo tema, ou comentando um mesmo assunto. Essa é uma estratégia de atrair a atenção dos usuários das redes sociais, como o Facebook, por exemplo. A jornalista Patrícia Campos Mello, em seu livro A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital, corrobora com essa afirmação acima, ao dizer que, Outra maneira de criar a impressão de que “todo mundo está falando sobre determinado assunto” e, assim, ofuscar outros temas é contratar agências que fazem disparos em massa no WhatsApp. Dessa forma é possível enviar para milhares de pessoas em milhares de grupos de WhatsApp memes, textos, áudios ou vídeos que disseminam um ponto de vista. Uma vez “impulsionada”, a narrativa é então propagada naturalmente pelas redes orgânicas, que são as pessoas de carne e osso que acreditam naquilo que está sendo veiculado. Os americanos chamam isso de firehosing, derivado de fire hose, mangueira de incêndio – trata-se da disseminação de uma informação, que pode ser mentirosa, em um fluxo constante, repetitivo, rápido e em larga escala. As pessoas são bombardeadas de todos os lados por uma notícia – sites de notícias, grupos de WhatsApp, Facebook, Instagram – e essa repetição lhes confere a sensação de familiaridade com determinada mensagem. (MELLO, 2020, p. 21-22). Essa mesma jornalista publicou uma matéria-denúncia, no Jornal Folha de S. Paulo, no dia 06 de outubro de 2020, meses antes da realização das eleições municipais no Brasil, cujo o título é: “Empresas burlam regras e mantêm disparos em massa de mensagens eleitorais”, em que mostra a prática de empresas de tecnologia de informação, oferecendo para candidatos a vereadores e prefeitos, que disputaram as eleições municipais no mesmo ano, assessoria tecnológica de disparos de mensagens em massa para eleitores inadvertidos. O Tribunal Superior Eleitoral – TSE no mesmo mês de outubro de 2020, havia proibido a prática de envio de mensagens em massa com fins eleitorais, além de determinar que o envio de mensagens políticas só poderia ser feito para usuário já cadastrado de forma gratuita, pelo candidato, pelo partido ou pela coligação partidária, e que deveriam ser observadasas disposições legais da lei de proteção dos dados. Isso representava que a lei eleitoral do TSE já proibia, de modo veemente, a compra de dados cadastrais para fins eleitorais. Mesmo assim, muitas empresas como a BomBrasil continuam oferecendo serviços dessa natureza, como se lê na citação abaixo. A BomBrasil.net, nome fantasia da Brasil Opções de Mercado, oferece em seu site e no prospecto “Material de campanha eleições 2020” a venda de banco de dados de celulares com nome, endereço, bairro, renda, data de nascimento, com filtro de WhatsApp. Um banco com 20 mil números de celular sai por R$ 1.800 – acima disso, “solicitar orçamento”. “Cadastramos na agenda de seu celular os contatos de WhatsApp de eleitores de sua cidade” – o envio de WhatsApp sai por R$ 0,15, e o de SMS, R$ 0,09. A BomBrasil.net também oferece software que permite extrair dados de usuários do Instagram e do Facebook. Por meio do que se chama “raspagem”, obtém-se nome e número de celular de usuários do Instagram que tenham usado determinada hashtag em suas postagens. Por exemplo, seleciona um banco de dados de pessoas que postaram no Instagram usando #direitoaoaborto ou #shoppingiguatemi ou de perfis que curtiram uma foto específica. Com essas informações, forma-se um banco de dados de usuários para enviar mensagens em massa por WhatsApp, por exemplo. Também oferece envio automático de mensagens diretas pelo Instagram e comentários automatizados em postagens de determinados perfis. Segundo a empresa, os softwares têm vários recursos para driblar o filtro de spam ou o detector de automação das plataformas. (MELLO, Folha de S. Paulo, 06/10/20).15 Esses grupos especializados em logística de informação ofereceram seus trabalhos de programação de softwares de disparos de múltiplas mensagens, por meio de aplicativos de celular, para candidatos à Câmara de vereadores. Em São Paulo, esse fato foi denunciado e foi matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo. Segundo a matéria, O candidato a vereador em São Paulo Bruno Maia, que concorre pelo PDT com o nome de Todd Tomorrow, recebeu e-mails e prospecto da BomBrasil oferecendo esses serviços ilegais. Com o objetivo de fazer uma denúncia, ele ligou para as várias empresas que enviaram a ele oferta de serviços ilegais e gravou as ligações. Após informar que era candidato a vereador em São Paulo, Tomorrow ouviu da pessoa que atendeu na BomBrasil: “Então, eu tenho um banco de dados de quase a cidade inteira aí. De WhatsApp. Com nome, endereço, telefone, data de nascimento, renda, até título de eleitor... E a gente faz um filtro. Aí você tem que olhar pro bairro, né. Os bairros que você quer atingir. Dependendo das quantidades tem os valores, chega até a R$ 0,05 [por disparo de WhatsApp]”. O preço vale para o caso de o próprio candidato usar o software e fazer os disparos. Caso a empresa faça, o preço sobe para R$ 0,12, informou ao candidato esse contato da BomBrasil. (MELLO, Folha de S. Paulo, 06/10/20). Por telefone, o representante da empresa Agência Minds chegou a afirmou, a esse mesmo candidato a vereador na cidade de São Paulo, citado acima, que poderia fornecer banco de dados com milhões de nomes e celulares segmentados por cidade, bairro e estado. (MELLO, Folha de S. Paulo, 06/10/20). Ainda segundo a matéria da Folha, outra empresa, de nome Automatize Soluções Empresariais, também foi denunciada por abordar candidatos à Câmara dos vereadores, por meio de aplicativo pelo WhatsApp, informando que dispunham de serviço de disparo de mensagens com alcance em toda cidade de São Paulo. Em gravação da conversa pelo celular, ouve-se: “Boa tarde, me chamo Welbert, peguei seu número no Facebook, onde informa que é candidato a vereador, trabalho com impulsionamento de campanha, mais visibilidade e alcance de quase 100% dos moradores de sua cidade” (MELLO, Folha de S. Paulo, 06/10/20). Sem dúvida isso é um reflexo de uma prática que teve seu marco inaugural em 2016 nas eleições dos EUA, e ainda hoje aparece como sintoma perverso dessas formas ilegítimas de apropriação e colonização privada da esfera pública do Estado, na esteira ideológica desse processo neoliberal e fascista que vimos discutindo. A partir do ano de 2016, vimos que o uso das mídias sociais ajudou na aceleração da propagação conteúdo desinformativo e disparo massivo de mensagens de campanha com fins eleitoreiros. Como já afirmamos, a campanha eleitoral nas eleições majoritárias nos EUA é um exemplo importante para entendermos como em 2018 e 2020 essa prática de apropriação de dados de usuários e disparo de mensagens, eleitoreiras e fake news são fundamentais para entendermos esse processo ideológico do fascismo neoliberal que está presente numa eleição de um país que é a maior democracia do mundo ou numa cidade brasileira qualquer. A veiculação ideológica, por meio da captura, controle e manipulação de dados dos indivíduos/usuários, dentro de um processo de ilegalidade digital, são nosso foco de análise. E esses processos catalisam a mobilização de afetos dentro de uma onda na qual vemos surgir uma espécie de autoritarismo dessa nova direita, que tem por característica promover formas de poder personalista e dominação institucional por meio da alienação moral, desinformação e intolerância social generalizada. E dentro desse contexto, as empresas de mídias sociais têm tentado agir de forma mais incisiva e bloquear e excluir contas vinculadas nesses aplicativos, à medida que tem sido exageradamente visível e intolerável o conteúdo de mentira propagadas nessas mídias. Mark Zuckerberg, dono do Facebook, foi chamado ao Congresso americano para depor sobre a questão da disponibilização de dados dos usuários para uso com fins políticos, e dentre outros exemplos relativos a essa questão ética, as empresas de mídias sociais como o próprio Twitter têm tomado algumas providências quanto à política de monitoramento de postagens mentirosas e abjetas. A exemplo disso, as contas no Twitter e do Facebook de Donald Trump, ainda no cargo de presidente da República nos EUA, foram bloqueadas depois dos atos de terrorismo interno, com invasão do Capitólio, no dia 06 de janeiro de 2021, que citamos em linha anteriores. Ainda dentro desse contexto, esse processo instrumental de captura de dados de usuários e propagação de desinformação tem objetivado a criação de outros espaços de mídias sociais alternativas, diferentes das tradicionais como o Facebook, o WhatsApp e o Twitter, em virtude do controle e fiscalização que essas empresas têm implementado, a partir de um código de ética, ainda no ano de 2020. Com isso, os grupos de ultraconservadores têm procurado alternativas para se manterem atuantes na prática do fascismo digital cotidiano. Um exemplo disso são a criações de plataformas internacionais, de propagação de mensagens ultraconservadoras de cunho fascista, como a mídia social denominada PARLER, que se apresenta como um aplicativo estruturado como plataforma digital que reúne grupos que se identificam com o pensamento ultraconservador, e se afirmam defensores da livre expressão, e afirmam, textualmente, no seu portal de internet que nunca venderão os dados dos seus usuários, fazendo menção explícita a fatos que foram questionados relativos ao Facebook. Isso justifica o fato de o aplicativo PARLER abrir sua página inicial, https://parler.com, com um parágrafo bastante explícito, quanto aos seus interesses e os objetivos. Na página de abertura da plataforma, lê-se: Parle is an unbiased social plataforma focused on open dialogue andu ser engagement. We allow free speech and do not censor ideas, political parties or ideologies. We protect your privacy and will never sell your personal data16. Segundo a política do aplicativo, a plataforma se diz imparcial na publicação do seu conteúdo, possibilitando que todos os usuários se expressem de forma que melhor lhes aprouver. Vale aqui ressaltar que a plataforma PARLER foi bloqueada por algumas empresas como a Appel e o Google por julgarem que essa plataforma não corresponde a políticasde éticas e segurança digital que condizem com as suas. A plataforma PARLER é menos regulatória, e tem sido absorvida pelos adeptos da extrema direita e vários conservadores em nível mundial, que têm apostado em sua adesão, e em 2021 já soma mais de três milhões de usuários. Essa mídia social foi criada por John Matze e Jared Thomson, que justificam sua criação como motivada por acreditarem que a fiscalização e regulamentação das redes sociais tradicionais ferem a liberdade de expressão, e que isso tem prejudicado a propagação de um pensamento mais conservador. Essa plataforma também não esconde o fato de se constituir como uma cópia do Twitter, com a diferença apenas no número de caracteres disponíveis, que é quatro vezes maior que no Twitter, possibilitando um aumento do conteúdo das mensagens, que por sua vez são majoritariamente ultraconservadoras e com conteúdo fascista, representado por mensagens de ódio explícitas. Segundo o portal Olhar Digital17, O aplicativo nasce em 2018 aproveitando-se de uma visão de que as redes sociais mais poderosas, que são Facebook e Twitter, não estavam trabalhando para proteger a liberdade de exposição de ideias e agiam de forma mais firme para controlar o discurso de uma parte específica de seu público: os conservadores. (SANTINO, 2020, s/p).18 Segundo os criadores do aplicativo afirmam, eles estavam “esgotados com a falta de transparência em grandes tecnologias, supressão ideológica e abuso de privacidade” (SANTINO, 2020, s/p). Um outro aplicativo, esse brasileiro, denominado MANO (PADRÃO, 2019)19, de menor alcance, em termos numéricos de usuários, foi desenvolvido pelo grupo do clã dos Bolsonaro, como uma forma alternativa de uso de mídia social com caráter ultraconservador. E vem aglutinando os usuários com esse perfil, que voluntariamente estão migrando das redes sociais Facebook, Twitter e Instagram para essa plataforma alternativa. Questões como essas fazem com que, seguramente, esse tipo de mídia digital a exemplo do PARLER e MANO desponte como uma plataforma majoritariamente usada e acessada por grupos sociais que comungam de uma ideologia de extrema direita. Pois, os mentores desse tipo de ideologia representam exatamente o tipo de pensamento e interesses do neoliberalismo autoritário, no qual o fascismo digital cotidiano se faz presente. Mas, sem dúvida, ainda hoje as mídias sociais mais usadas, como o Facebook, Twitter e WhatsApp, ainda aglutinam muitos seguidores que compartilham mensagens conservadoras e procedimentos fascistas, sobretudo em período eleitorais, como afirmamos, dando apoio a esses líderes neopopulistas de extrema direita e políticos conservadores oportunistas que pegam carona nessa onda fascista da política eleitoral. Porém, mesmo considerando que as empresas de mídia sociais mais usuais tenham implementado políticas de ética e seguranças de dados, empresas como Facebook, Twitter e WhatsApp continuam armazenado dados dos usuários e em todas elas ainda circulam boa parte das desinformações por meio das fake news do nosso cotidiano digital, que ajudam a manutenção do populismo de líderes de extremistas da nova direita. Ou seja, as mídias sociais ainda se apresentam como um dispositivo digital do biopoder, de controle, persuasão, manipulação, ofensa e ódio social cotidiano, que funcionam por meio de múltiplos disparos de mensagens, sobretudo em períodos pré-eleitorais. Na prática, essa estrutura de armazenamento de dados funciona como um dispositivo que faz uso de recursos de manipulação de textos, imagens e sons, que são usados sem grandes fiscalizações e descumprem a lei, seja no Brasil ou nos EUA. Segundo Garbaudo (2018), de uma maneira geral, as mídias sociais foram e são propícias para a forte formação de um novo populismo político, com forte afinidade eletiva com essas novas formas de mídias sociais, que, ao nosso ver, atende e corrobora com o contexto de formação de um neoliberalismo autoritário e a propagação de uma ideologia conservadora que se espalha pelo mundo de uma maneira geral, e o Brasil é um exemplo da reverberação desse processo. Social media savviness has in fact been a characteristic of many other populist movements and dark horse candidates, both on the Right – for example, Nigel Farage’s UK Independence Party (UKIP) and Marine Le Pen’s Front National – and on the Left – from Bernie Sanders campaign in the United States to the rise of Podemos in Spain and Jeremy Corbyn’s impressive performance in the 2017 UK elections. What we are witnessing across these diverse phenomena is what could be tentatively described as an ‘elective affinity’ between social media and populism: social media has favoured populist against establishment movements by providing the former a suitable channel to invoke the sup- port of ordinary people against the latter. (GARBAUDO, 2018, p. 747).20 Concordamos com essa perspectiva, sobre as novas formas do populismo presente na política mundial. Mas devemos destacar que é necessário contextualizar o conceito de populismo em sua nova análise conceitual, como o faz Laclau em seu livro A Razão Populista (2013), em que ele apresenta o conceito de populismo com o detalhamento histórico do conceito, assim como sua dimensão política aplicada à ordem de poder conservadora ou revolucionária. Segundo Laclau, o populismo é um conceito “[...] que abrange extensa variedade de dimensões, que vão desde seu caráter não revolucionário e suas oposições a luta de classes até [...] seu caráter religioso. (LACLAU, 2013, p. 42). Mas ao mesmo tempo, para Laclau existe uma dimensão relativa à forma como a psicologia social tratou o tema do populismo, que evoca a psicologia das multidões no contexto da psicologia de massa de forma patológica, o que para Laclau é um equívoco. Pois, No entanto, já não mais se consideram tais fenômenos como aberrações contingentes destinadas a desaparecer: eles se tornaram características permanentes da sociedade moderna. [...] enquanto tal, [...] uma nova tecnologia de poder. (LACLAU, 2013, p. 57). E dentro desse contexto, entendemos o poder que a desinformação promovida pelas fake news, e a manipulação e sujeição dos dados digitais das mídias sociais que influenciam e manipulam a opinião pública, faz parte de uma nova tecnologia de poder populista, que resulta no fenômeno da pós- verdade. Pois são objetos de uma reflexão que demanda uma compreensão crítica baseada em formação conceitual e reflexão teórica que se liga fundamentalmente a esse processo populista, conservador e autoritário, do fascismo contemporâneo, que encontra nas fake news um instrumento eletivo de colonização da mentalidade do senso comum articulado em rede. Na nossa análise, as fake news são um instrumento que atende a critérios objetivos da manipulação, indução e sujeição da propagação falsa da opinião pública. E com isso, seguimos uma orientação conceitual, que não define apenas a simplificação das fake news como notícias falsas, mas como parte de um processo bem mais complexo, estrutural e objetivo de criar mecanismo de desinformação, sujeição e manipulação da opinião pública de forma pluridirecional orientada por uma política da ideologia neoliberal de sensibilização, orientação e controle massivo da opinião pública. Por outro lado, acreditamos também no fato que dentro dessa crise de legitimidade da formação da opinião pública, há um certo descrédito que tem sido provocado pela mobilização dos conservadores, contra as mídias tradicionais, que não corroboram com esse pensamento conservador e/ou ultraconservador. No Brasil, por exemplo, emissoras de televisão, que sempre estiveram de uma maneira ou de outra ligadas ao poder, e sempre apoiaram os governos desde o período da ditadura militar brasileira, hoje enfrentam problemas com um governo dessa nova direita ultraconservadora, como o do presidente Jair Bolsonaro. De uma maneira geral, a formação da opinião pública, anteriormente formada majoritariamente pelas mídias tradicionais, vem sofrendo descrédito no embate com os conservadores. E quantoa isso, Garbaudo (2018) ajuda-nos a refletir sobre a crise dos mecanismos de divulgação de notícia da grande mídia jornalística, que permitiu, em certa medida, que a difusão de notícias fosse ocupado por uma série de novos atores, que independente de suas legitimidades ou não, senso crítico ou não, e fonte confiáveis ou não, passaram a produzir conteúdos informativos e desinformativos, que se prestaram a influenciar a opinião pública por meio de mecanismos de redes pluridirecionais e de forma eficiente. Eficiente sobretudo em períodos de disputas eleitorais, nos quais esses canais informativos e desinformativos ocupam grande espaço no cenário da produção de notícias e formação ou sujeição da opinião pública. The most notorious example is undoubtedly Breitbart, a news site well-known for its incendiary opinion and news items. Breitbart has become a platform for the alt-right, from which the hardcore of sup- port for Trump’s election campaign originated. Its influence was demonstrated by the fact that, after the elections, its former executive chairman Steve Bannon, was appointed as White House Chief Strategist. Breitbart has been characteristic of much right-wing populist media, by spewing hatred against women and Muslims, as well as flaming rhetoric against ‘globalism’ and ‘political correctness’ (GARBAUDO, 2018, p. 750).21 De forma explícita, isso caracteriza o processo de mobilização dos afetos presente no fenômeno da pós-verdade associado às fake news, e nos faz entender que todo esse conjunto discursivo e retórico, que envolve a mobilização dos afetos, na formação da opinião pública, envolve uma mística processual bem estruturada dividida em várias características, como nos fala Eugenio Bucci (2019) sobre as fake news. A primeira característica é que o contexto de notícia falsa procura ter uma estética narrativa de moldes jornalísticos, que serve de forma convincente para se passar como verdade, no processo da desinformação ideológica. Segundo essas notícias falsas provêm de fontes desconhecidas e não se sabe quais os caminhos para chegarmos a essas fontes. Terceiro, têm uma autoria forjada e se vale de recortes extraídos de texto reais que são usados de forma distorcida. Quarto, as mensagens falsas lesam os direitos públicos, levando ao engano sobre decisões que seriam diferentes caso se tivesse acesso à realidade dos fatos. Quinto, as fake news dependem por completo de uma estrutura de tecnologia em rede, que envolve sistematização de dados, inteligência artificial e o uso de algoritmos que agem diretamente sobre os usuários das redes sociais, orientando seus comportamentos e condutas. Sexto, o volume utilizado de dados e informações é demasiadamente grande e cria uma enxurrada de mensagens recebidas em dispositivos móveis, no cotidiano desses usuários. E sétimo, essas notícias não são apenas falsas, mas também fraudulentas e objetivam duas coisas: 1) influenciar o direcionamento do comportamento imediato dos usuários e; 2) lucros milionários diretos a partir desse comportamento direcionado e tomada de posições desses usuários. Esse lucro beneficia diretamente empresas privadas e governos neoliberais conservadores e ultraconservadores em todo o mundo. Assim como tratamos as fake news de um ponto de vista conceitual, procuramos fazer o mesmo com o conceito da pós-verdade. Com isso, partimos do pressuposto de que a pós-verdade advém do processo de reconfiguração ideológica que se instaura com o capitalismo no século XXI, promovido pelo fenômeno da hiperdesinformação, que tem mascarado a realidade social, política e econômica dos fatos por meio de mecanismos alienantes que visam dificultar a racionalidade crítica dos sujeitos. Entendemos o termo pós-verdade como um conceito circunstancial que relaciona ou leva a denotar que os fatos ligados à realidade ou que estejam vinculados a uma verdade provável, passam a ter menor relevância se comparados aos valores subjetivos dos indivíduos, nos quais se situam suas crenças, visões religiosas, valores simbólicos etc. que são incorporados à visão de mundo desses indivíduos, como forma de alienação contemporânea. Com isso, afirmamos que a pós-verdade atende a um processo autoconsciente de colonização intersubjetiva, que encontra nas formas do pensamento conservador e nas ideologias autoritárias um modo de operação mental dos indivíduos que fazem com que seja diminuída a capacidade de questionamento crítico, em favor das crenças pessoais, doutrinas e dogmas. O que consideramos ser um paradoxo, ou seja, uma nova forma de alienação da consciência sobre a realidade vivida cotidianamente de forma autoconsciente. Assumimos com isso o posicionamento conceitual crítico, em relação ao fenômeno da pós-verdade, considerando que os pressupostos no qual esse fenômeno se funda é marcado por um irracionalismo coletivo autoconsciente e em certa medida representam características antiepistemológicas, anticientíficas, antiéticas e anti-históricas. A pós-verdade, na nossa análise, se revela como farsa conveniente, que atende ao processo biopolítico e psicopolítico de dominação desinformativa de poder, que muitos indivíduos assumem como postura moral ou incorporam como visão de mundo no cotidiano de suas vidas. Essa premissa nos leva a entender que há um irracionalismo de conveniência fundado em afetos, que apostam no caos, no processo que liga as fake news à pós-verdade. Com a pós-verdade, a farsa discursiva da desinformação cotidiana atende ao poder da psicopolítica (HAN, 2014) e da biopolítica (FOUCAULT, 2020), à medida em que há uma determinada manipulação da circulação de mensagens que são gerenciadas por meio de classificações de dados, extraídos de perfis dos indivíduos/usuários a partir dos filtros bolhas22 na internet. Dados esses que, de alguma forma, são disponibilizados para grupos e instituições que se apropriam, de forma privada, dessas informações para promover disparos de mensagens. Em particular, esses grupos, em alguma medida, ocupam espaços públicos na esfera estatal ou estão associados a grupos de milícias digitais que são algumas vezes financiados pela iniciativa privada. Esse dispositivo biopolítico, representado, por exemplo, pela logística algorítmica das grandes empresas de tecnologia, conforma a combinação de dados com interesses do mercado e políticos, e, nesse sentido, a combinação se configura como uma dominação estrutural de uma engenharia digital. No caso mais particular da relação com o processo de disparo de fake news, a partir de empresas e milícias digitais, que elaboram e estruturam programas que capturam, por meio da manipulação algorítmica, perfis de usuários, com interesses de manipulação e sujeição das percepções políticas deles. E é dentro desse contexto que as fake news tentam se estruturar como instrumentos de distorção da verdade, no processo de desinformação, que subverte a realidade e promove alienação moral e emocional, fazendo com que se diminua o esforço de conhecimento crítico sobre a verdade dos fatos. E, com isso, o que passa a importar mais é o impacto emocional que a desinformação da notícia produz, que a checagem que constate a sua veracidade. O conceito de “verdade, assim, perde a primazia epistemológica nas discussões públicas e passa a ser apenas um valor entre outros, relativo, negociável, ao passo que as emoções, por outro lado, assumem renovada importância.” (D’ACONA, 2018, p. 10). Remetendo essa questão epistemológica ao plano subjetivo dos afetos individuais, não concordamos com argumentações que afirmam que os usuários e internautas que corroboram e compartilham os fenômenos da pós- verdade tenham algum déficit de cognição ou sofram de uma espécie de “burrice coletiva”. Pelo contrário, tais indivíduos têm ou procuram ter confiança afetiva e uma certa segurança emocional, nas notícias falsas de forma deliberada. E isso se dá pelo fato de haver uma identificação política, moral, religiosa ou de outra natureza, que atendam a ideais conservadores de alguma forma. É válido ressaltar que muitos indivíduos/usuáriosgostariam que determinadas fake news fossem de fato verdadeiras, pois muitas notícias falsas os tocam do plano do desejo ideológico e reiteram valores e seus sistemas de crenças. O caos que, aparentemente, está por trás das desinformações da fake news, atendem a uma nova ordem de ideologia falha no contexto neoliberal, que busca se estabelecer por meio de novos controles de dispositivos e gerenciamentos biopolíticos, na sociedade em rede. Como afirma Empoli (2009), existe uma ordem nesse caos, Por trás do aparente absurdo das fake news e das teorias da conspiração, oculta-se uma lógica bastante sólida. Do ponto de vista dos líderes populistas, as verdades alternativas não são um simples instrumento de propaganda. Contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável vetor de coesão. Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade, escreveu o blogueiro da direita alternativa americana Mencius Moldbug. “Qualquer um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de lealdade – e que possui um uniforme, e um exército.” (EMPOLI, 2019, p. 23). É dentro dessa lógica que a pós-verdade funciona. A pós-verdade pode ser vista como o paradoxo da negação sobre o real. Aí reside o processo de reificação e o poder de alienação promovido pelo fenômeno da pós-verdade e o dispositivo das fake news. A estética das aparências ajuda a promover uma reificação da consciência histórica, valendo-me aqui das explicações presentes no pensamento de Lukács (1969, 1978, 2003). Assumindo essas perspectivas conceituais e críticas sobre as fake news e a pós-verdade, procuramos refletir sobre questões fundadas em fatos reais, e, para isso, procuramos amparo teóricos e conceituais para nos ajudar na reflexão sobre acontecimentos que foram testemunhados ao longo da história recente, tentando responder a questões relativas às novas formas de práticas discursivas e a compreensão de novos dispositivos de poder e produção de subjetividades e reificação da consciência coletiva nessa nova forma de alienação social do neoliberalismo, a partir da produção massiva das notícias falsas e desinformativas, ligadas a processos eleitorais e dispositivos de governabilidade. 2 DISPOSITIVOS DE VIGILÂNCIA NA PSICOPOLÍTICA DIGITAL: LINHAS DE CONTROLE, IDEOLOGIAS FALHAS E DESINFORMAÇÃO O conceito de dispositivo diz respeito a mecanismos de controle institucionalizado que fazem parte da estrutura de dominação social, a partir de regulamentações constituídas nos processos biopolíticos de estruturação do poder institucional, originalmente com forte influência religiosa, mas que vai se sofisticando política e juridicamente dentro do Estado laico, a partir do século XVII, segundo Foucault (1979; 2020), Agamben (2005) e Han (2014). Esses mecanismos se desdobram em formas de controle institucionais, que são incorporados, subjetivamente, nos processos das relações institucionais sobre a influência do poder do Estado. Sobretudo quando esse modelo de Estado é fundado num modelo de estado de exceção (AGAMBEN, 2011), que encontra no modelo liberal burguês fortes tendências conservadoras aliadas a personalismos políticos e populismos autoritários. Os mecanismos de controle dessa biopolítica conservadora e ultraconservadora tem sido operada de forma brutal por líderes populistas de última hora, a exemplo de governos como o Brasil e os EUA, nesses últimos anos. A biopolítica, como um conceito que surge no final do século XVII, dentro do modelo político liberal, solidificou-se como instituição de controle mais efetivo nos séculos XIX e XX. E agora, no século XXI, a biopolítica transformou-se num mecanismo de brutalidade ostensiva instituída pelo estado neoliberal, administrada por governos ultraconservadores, que tentam restaurar um populismo fascista, com forte influência da necropolítica (MBEMBE, 2018) e do brutalismo do estado de exceção. Giorgio Agamben (2005) ajuda-nos a entender o conceito de dispositivo biopolítico e a fundamentação de poder que está presente nesse conceito. O conceito de dispositivo, segundo Agamben (2005), tem origem no conceito de coercibilidade, que advém da filosofia positivista, mais particularmente, da religião positivista, associado à relação de controle nos princípios filosóficos da religião cristã. Esse aspecto está ligado ao modo de coerção religioso que se exprimia na relação entre a liberdade autoconsciente e os destinos dos homens dentro do imaginário cristão. Segundo essa perspectiva, a liberdade é um conceito que está diretamente relacionada à ordem divina, sobre a qual Deus é o detentor do poder e das regras que definem essa liberdade. Para Agamben, “[...] a religião positiva ou histórica compreende um conjunto das crenças, das regras e dos ritos que em uma determinada sociedade e em um determinado momento histórico, são impostos aos indivíduos, pelo exterior.” (AGAMBEN, 2005, p. 10). Agamben continua sua reflexão ancorado numa citação direta de Hyppolite23, em que se lê: Uma ‘religião positiva’, escreve Hegel em uma passagem que Hyppolite cita, ‘implica em sentimentos que vem impressos nas almas através de uma coerção e comportamentos que são os resultados de uma relação de comando e de obediência e que são cumpridos sem um interesse direto’ (AGAMBEN, 2005, p. 10). Esse termo religioso se desdobra ainda no controle cristão que vai se estabelecer na origem do cristianismo em que o governo de Deus está associado ao controle da tríade “Pais, Filho e Espírito Santo” em que a onipresença divina garante uma forma de controle sobre a mente, o corpo e a propriedade, sendo essa última da ordem da propriedade material dos homens, por meio das suas posses na sua casa. Aquilo que na Grécia antiga se conhecia por oikos, de onde deriva o termo economia do lar, que na sociedade moderna vai ser transformada em economia da vida privada. Na lógica do governo das almas imposta pelo cristianismo, a casa e todo seu patrimônio era controlado pelo dispositivo divino, que passava pela esfera do estado. Deus governava pela presença do espírito santo e de seu filho cristo, que estava presente na mentalidade e no imaginário do homem cristão. Isso é um fenômeno do passado, que representa um modelo de poder e dominação, instituídos a parir de um plano moral religioso, mas que ainda hoje se faz presente nos nossos dias mediados por mídias digitais e sua aparelhagem de dominação. Segundo Han, (2014) Todo dispositivo, toda técnica de dominación, genera objetos de devoción que se introducen con el fin de someter. Materializan y esta- bilizan el dominio. “Devoto” significa “sumiso”. El smartphone es un objeto digital de devoción, incluso un objeto de devoción de lo digital en general. En cuanto aparato de subjetivación, funciona como el rosario, que es también, en su manejabilidad, una especie de móvil. Ambos sirven para examinarse y controlarse a sí mismo. La dominación aumenta su eficacia al delegar a cada uno la vigilancia. El me gusta es el amén digital. Cuando hacemos clic en el botón de me gusta nos sometemos a un entramado de dominación. El smartphone no es solo un eficiente aparato de vigilancia, sino también un confesionario móvil. Facebook es la iglesia, la sinagoga global (literalmente, la congregación) de lo digital. (HAN, 2014, p. 26). Hoje, somado a essa congregação digital, há uma convergência moral religiosa, que incide sobre o imaginário político do neoliberalismo e do conservadorismo, que apresentam novas formas de dominação em que o discurso da ordem, o controle dos desejos e as linhas dos dispositivos fazem-se também por meio dos mecanismos de desinformação coletiva, com a propagação das ideologias falhas (STANLEY, 2015). Um exemplo desse processo pode ser dado pela forma como o neoliberalismo fascista e seus fenômenos, como as fake news e a pós-verdade, ancoram-se em valores morais e religiosos de séculos passados, como linhas de mensagens de ideologias propagadas nos dispositivos da mídias sociais, na vida cotidiana dos indivíduo/usuários.As propagandas políticas ultraconservadoras veiculadas na internet, fundadas em desinformações e propagações de mensagens indesejadas, são dispositivos que visam criar um regime de verdade que distorce, encobre, e visa dissuadir e criar ilusões irracionais sobre a realidade social. Esses processos de desinformação discursivos são, em larga medida, assimilados como verdade como parte de um imaginário falso, por grande parte dos indivíduos, na esfera pública contemporânea. Por ideologia falha, com base no conceito desenvolvido por Jason Stanley (2015), interpretamos isso como um dispositivo de controle, que se funda numa espécie de roteiro ideológico que determina ou coordena as expectativas dos indivíduos, que, de forma autoconsciente, são guiados ou orientados por formas de propagandas e informações públicas que dificultam ou impedem a criação de um raciocínio ou conhecimento importante e crítico. Essas ideologias encontram guarida sobretudo quando esses indivíduos compartilham um sistema de crença próxima às mensagens das propagandas dessas ideologias falhas. De forma mais objetiva, Stanley afirma que as ideologias falhas são uma categoria de ideologia que se transforma em barreiras que impedem a criação de conhecimento24. I am arguing that there is a specific subclass of ideologies that have additional epistemological flaws, and so warrant being considered flawed. Perhaps all ideologies have varying degrees of these additional flaws; if so, then all ideologies are at least somewhat flawed. An ideology, in the sense I use, is simply a social “script” that governs one’s expectations, normative and practical. We all have ideologies, in this sense, and only some of them are flawed in the relevant sense. The ones that are flawed in the relevant sense are the ideologies that are genuine barriers to the acquisition of knowledge. Of course, considered simply as nonideological false beliefs, the beliefs in question would also be barriers to the acquisition of knowledge. But the reason flawed ideologies are so problematic is that they are ideologies that include beliefs that are barriers to the acquisition of important knowledge. (STANLEY, 2015, p. 200). Um exemplo disso foi o papel exercido pelo poder da propaganda do Nacional-Socialismo alemão, por meio do qual a propaganda nazista surtia efeito de colonização da mentalidade dos simpatizantes, como mecanismo biopolítico e psicopolítico de sugestionamento, manipulação e controle social. Essa ideologia falha só tem sucesso mediante sua relação com o sistema de crença dos indivíduos, que se associam de forma cognitiva a publicidades e notícias publicadas sobre as quais se estabelecem identificações ou proximidades de ideias. Isso nos leva a pensar que a relação entre as fake news e a pós-verdade está fortemente ligada a esse processo de ideologias falhas, como categoria de dispositivo que se forja numa guerra de narrativas públicas, por meio das mídias sociais, que cotidianamente testemunhamos na internet, sobretudo por meio de pronunciamentos políticos de lideres de governos. Vemos com isso que, nesse cotidiano digital, parte de um grande público de usuários tem um forte desejo de legitimar discursos falsos e retóricas muitas vezes abjetas e preconceituosas, a exemplo de pronunciamentos sexistas, machistas, racistas, xenofóbicos etc., que são assimilados, por um determinado publico nas mídias sociais, como conteúdo de ideologias falhas no processo de desinformação das fake news. A questão que destacamos, nessa forma de desejo discursivo sobre as falsas narrativas das fake news e sua relação com a pós-verdade, é que ao contrário das formas de saberes ilustrados, como as que foram historicamente apresentadas pelas ciências ao longo da história, esse processo de desinformação regride a um modelo de pensamento que não se funda em nenhuma base de pensamento válido epistemologicamente, teoricamente e metodologicamente, e são fenômenos que se associam ao dispositivo de distorções discursivas e formulações de mentiras narrativas, fortemente influenciadas por discursos fascistas, por meio das mídias sociais. E com isso vemos que o fenômeno da pós-verdade recorre ao modo dispositivo dessas ideologias falhas, fundadas em mitos, ilusões e fantasias, estruturadas em esquemas irracionais convenientes, como modo de crença, persuasão e sugestão dos indivíduos. A ideologia falha é, de fato, muito eficaz em indivíduos que compartilham um sistema de crença e valores morais, mais arraigados em valores conservadores ou que se fundamentem em linhas de pensamentos moralistas de forma mais evidente. Nesse sentido, esse caráter de análise entre ideologia falha e personalidade aproxima-se das reflexões de Adorno (1950), sobre o que o autor chamou de formação da personalidade autoritária. Com isso, a ideologia falha e o pensamento autoritário forjam um processo perigoso de reprodução social. Considera esses elementos de análise entre propaganda, conhecimento, personalidade, sistema se crenças e conservadorismo como elementos que se instrumentalizam como mecanismo da biopolítica. Esses elementos ficam ainda mais fortes e perigosos quando associados às questões religiosas e crenças que fundamentam a fé dos indivíduos, pois isso faz com que o imaginário compartilhado por eles se transforme num campo simbólico de direcionamento do comportamento reificado por uma visão de mudo obliterada de forma autoconsciente. Na qual o real é um mero desejo de realidade, uma fantasia sobre a qual o conhecimento e o senso crítico ficam impedidos de existir, pelas barreiras simbólicas da pós-verdade e suas vinculações com afetos e valores morais e ideológicos compartilhado de forma intersubjetiva. Fazendo uma pequena incursão sobre a relação da religião, dentro de um plano moral doutrinário, o sistema de crenças como dispositivo de orientação e conduta social, podemos aventar um compreensão entre o dispositivo da biopolítica do ultraconservadorismo de governos antidemocráticos e as condutas orientadas pelas ideologias falhas do binômio pós-verdade e fake news, relativos as crenças, sobretudo as religiosas, que se fundamentam na fé cristã, em particular doutrinas de cunho neopentecostal, que orientam tomadas de decisão políticas no governo Bolsonaro. Valendo-nos de uma interpretação crítica sobre a compreensão sociológica da religião, sob o ponto de vista do positivismo conservador e coercitivo da sociologia durkheimiana, diríamos que a crença e a fé são fenômenos válidos de compreensão da forma de organização do comportamento social dos indivíduos, que compartilham um campo simbólico (BOURDIEU, 1989), nos quais os fatos sociais são sociologicamente explicados em termo de expectativa de comportamento, dentro de um plano de representações coletivas que determinam condutas. Nesse sentido, vemos de forma crítica, embora entendamos que explicações positivistas, como as durkheimianas, afirmam que a religião é instrumento que se expressa como mecanismo simbólico de coercibilidade moral e jurídica, que são determinantes nas expectativas dos fatos sociais (DURKHEIM, 1981). Ao mesmo tempo, segundo Bourdieu (1989), esse mecanismo de coerção moral está ligado a uma estrutura estruturante, que incide sobre a estrutura subjetiva dos indivíduos e ao mesmo tempo se constitui como instrumento de poder simbólico. No caso as instituições religiosas propriamente ditas, que se relacionam de forma muito próxima com o campo político, na qual a intercessão desses campos determina, algumas vezes, o comportamento e a orientação discursiva, de conduta e fé dos indivíduos, num cenário social e político mais ampliado, como o cenário do mundo da vida do cotidiano dos indivíduos. Vemos, com isso, um claro exemplo de funcionamento biopolítico, ao modo do funcionamento dos mecanismos de controle social das condutas e comportamentos ancorados no biopoder, (FOUCAULT, 1979, 2020). Mas voltando à crítica das interpretações positivistas, vimos que Durkheim (2001), em seu trabalho clássico da sociologia da religião,de imaginação política e de compreensão das experiências do século XX e das demandas do século XXI. Neste ínterim, segue o mundo concreto desabando na cabeça de milhões de pessoas que não sonhavam e não imaginavam mais qualquer outro tipo de futuro. Eis o cenário em que grassa o chorume analisado neste trabalho. Sérgio compreendeu o caráter multivariado das patologias do nosso tempo. Armou-se com as armas de uma teoria crítica renovada que não renuncia à tradição do materialismo multidisciplinar. Desejo e necessidade são olhados com lupa em suas contradições, complementariedades e dinâmicas. Teoria social, psicanálise, sociologia e epistemologia são ferramentas habilmente combinadas. Como se não bastasse ainda há Habermas, Foucault, Adorno, Elias, dentre outros, que são mobilizados criativamente em novas sínteses arriscadas e que, por vezes, podem fazer com que ortodoxos de diferentes matizes sintam certo desconforto. Mas, pouco importa. O objeto em sua complexidade coloca-se em posição de prioridade analítica e as ousadias teóricas justificam-se mais do que qualquer outra coisa. Importa é compreender em minúcias o inferno semiótico em que estamos. O livro de Sergio é crítico e reflexivo. E nos fornece um quadro interpretativo poderoso para compreendermos como a opinião pública tornou-se o ringue de vale tudo que conhecemos. E há, também, em meio aos meandros argumentativos e analíticos que explicam o fascismo nosso de cada dia, espaço para uma esperança rebelde e sutilmente subversiva. A utopia de Sérgio envolve a aposta em uma terapêutica do diálogo como cura para a barbárie. Uma atuação voltada interativamente para o entendimento, um uso da razão em uma plenitude expressiva muito além do embotamento coisificado fornecido pela sociedade dos cliques de curtir/descurtir. A utopia de Sergio é pulsão de vida. É interesse bem compreendido embebido do que há de melhor na tradição iluminista com a qual Sérgio se agarra angustiado. Por fim, tal como o título denuncia, temos sim um Irracionalismo de conveniência cinicamente mobilizado como resposta aos afetos, frustrações e desalentos do horizonte árido dado pelo realismo capitalista. Mas, o trabalho do Sergio apresenta, na verdade, todas as inconveniências deste irracionalismo. O preço a ser pago pelo uso de tal playbook pode ser alto demais, insuportável, eu diria. A questão é que temos tempo ainda de evitarmos um ponto de não retorno. E este livro dá, nas brechas, algumas possibilidades enquanto nos explica o funcionamento da hidra. Prof. Dr. George Gomes Coutinho Professor adjunto de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense – UFF Referências FISHER, Mark. Capitalist Realism: is there no alternative? London: Zero Books, 2009. BERMAN, Marshall. Tudo que é solido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 1989. HOLLERAN, Max. Marshal Berman’s freestyle Marxism. New Republic, New York City, New Republic, n. 14, April 2017. SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 15 1 FAKE NEWS E PÓS-VERDADE: UMA INTRODUÇÃO CRÍTICA AO IRRACIONALISMO DE CONVENIÊNCIA DO FASCISMO CONTEMPORÂNEO NEOLIBERAL 25 2 DISPOSITIVOS DE VIGILÂNCIA NA PSICOPOLÍTICA DIGITAL: LINHAS DE CONTROLE, IDEOLOGIAS FALHAS E DESINFORMAÇÃO 69 3 FOUCAULT E O GOVERNO DA SUBJETIVIDADE DOS AFETOS COLETIVOS: SOBRE A VULNERABILIDADE DIGITAL DOS INDIVÍDUOS/USUÁRIOS 101 4 ADORNO E A CRÍTICA AO PENSAMENTO MÍTICO: SOBRE A NECESSIDADE DE ESCLARECIMENTO NA PÓS-VERDADE 129 5 HABERMAS E NORBERT ELIAS: A SOCIOGÊNESE DA AUTOCONSCIÊNCIA E AS IMPOSSIBILIDADES COMUNICATIVAS NO IRRACIONALISMO DA PÓS-VERDADE 157 6 O COTIDIANO DIGITAL NA CONFLUÊNCIA DO NEGACIONISMO COM O IRRACIONALISMO DE CONVENIÊNCIA: DA TERRA PLANA AO BREXIT 175 7 PERVERSÃO NÃO É LOUCURA, É MALDADE MESMO! O CENÁRIO DA VIOLÊNCIA DIGITAL E DO ÓDIO COMO RETÓRICA NO BRASIL 193 CONSIDERAÇÕES FINAIS 217 REFERÊNCIAS 225 INTRODUÇÃO A elaboração de um livro é sempre uma tarefa que requer muito cuidado e atenção, principalmente quando mediado por um processo de concentração e diálogo com pessoas afins que podem ajudar-nos nesse trabalho. Mas nem sempre estamos com condições de concentração para desenvolver esse trabalho, sobretudo quando estamos vivendo um momento pandêmico e de grande conturbação social, como tem sido esses últimos anos com a ascensão de um ethos político e comportamental ultraconservador, somado a uma pandemia do Covid-19 e suas variações letais, no Brasil e no mundo. Nesses momentos de crise, testemunhamos um estado de violência brutal por meio das mídias sociais, que nos fez testemunhar violências físicas, psicológicas e políticas na esfera pública de uma maneira generalizada. Os espaços públicos das ruas, durante esse período, se mostraram como cenário de guerra de narrativas emocionadas de grupos e indivíduos, que motivados por interesses determinados, agrediam-se, entre si, em nome de valores moralistas, nacionalistas e ideológicos, que estiveram ligados de uma forma ou de outra aos afetos políticos. As violências nem sempre proferidas por atos de fala ofensivos ou retóricas de ódio. As falas emocionadas muitas vezes se transformaram em agressões físicas gratuitas, entre pessoas e grupos sociais distintos, dentro desse cenário social de crise generalizada. Diante de tal contexto, encontrar concentração para a realização de um trabalho intelectual foi uma tarefa árdua, sob pena de nos perdemos em pensamentos e afetos vividos por nós, que poderiam desorientar nosso labor. Com isso nos forçamos a focalizar nossas leituras, observações, diálogos e elaborações textuais, com objetivos específicos que resultaram na criação deste livro. Gostaríamos de deixar claro com isso que foram dentro dessas condições sociais, testemunhadas por nossos olhos e ouvidos, que mergulhamos de cabeça nessa pesquisa para fundamentarmos a escrita deste trabalho. Não foi uma tarefa fácil, mas foi uma tarefa necessária. Desenvolver a pesquisa que resultou neste livro foi um trabalho de grande esforço durante todo o ano de 2020 e início de 2021. Essa publicação é resultado de um projeto de pós-doutorado desenvolvido na Universidade Federal da Bahia (UFBA), universidade a qual agradeço muitíssimo o acolhimento institucional e afetivo de todos. Nesse sentido, registro o meu agradecimento mais que especial ao professor Roberto Sidnei Alves de Macedo, supervisor do nosso trabalho e responsável pelo nosso acolhimento afetivo no grupo FORMACCE, do qual ele é coordenador, e na FACED, onde ele ocupou o cargo de diretor, no exato momento em que assumiu a supervisão de nossa pesquisa. A generosidade crítica do Roberto Sidnei é tamanho família. Devo dizer ainda, em parênteses mais que especial, que no FORMACCE pude conhecer, de forma generalizada, pessoas maravilhosas que se abriram voluntariamente ao diálogo comigo e acolheram nosso projeto de pesquisa de forma inclusiva. Lá pude encontrar parceiros de pesquisa e fazer novos amigos, que nos ajudaram na crítica e no compartilhamento de ideias, assim como em debates e conversas produtivas que estão presentes neste trabalho. A realização desta pesquisa no âmbito do Programa de Pós-graduação em Educação, PPGE/FACED/UFBA, então coordenado pela professora Cecilia de Paula, a quem agradeço pelas orientações institucionais, foi algo muito especial para mim, pois pude participar de um processo interdisciplinar e solidário de partilha de conhecimentos. Destaco ainda que no seio da FACED pude experimentar uma sociabilidade realmente acolhedora, diante de um contexto tão difícil como o que vivemos durante todo o ano de 2020 com a pandemia e a perversão política na sociedade brasileira, que relatamos no início dessa instrução. Sem dúvida, sem a ajuda de todas essas pessoas especiais que conheci na UFBA, seguramente não teria conseguido desenvolver a escrita deste livro. O diálogo que ajudou esta escrita se ampliou e transcendeu o âmbito da UFBA, atravessou o atlântico e encontroupublicado sob o título As formas elementares da vida religiosa, discute a questão da fé no desejo coletivo de Deus, que é fundamental para a formação do sistema de crenças e seu poder sobre os homens, como um modo de representação coletiva, como ele apresenta em seu livro Sociologia e Filosofia (DURKHEIM, 1970). Para Durkheim, esse modelo de análise incide numa forma de explicação da ordem moral de Deus, como um campo de representação compartilhado de forma generalizada pelos indivíduos. O que constitui as formas e manutenção da ordem social moral e que incide na ordem social, por meio de normas de conduta e formas de solidariedade mecânica/orgânica no tecido social. Nesse caso específico, o positivismo da sociologia de Durkheim já explicitava o poder coletivo e coercivo das religiões presentes nas formas elementares de organização dos tipos de solidariedade mecânica compartilhada coletivamente. Essas solidariedades representam o modo como um dispositivo de crença e de controle de regulação da vida social determina, em certa medida, uma expectativa de comportamento esperado dentro de um quadro de divisão social que, segundo Durkheim, incidia tanto na manutenção da ordem e o equilíbrio sociais como nos julgamentos de valor e de realidade por parte dos indivíduos modernos, segundo sua interpretação sociológica (DURKHEIM, 1981). Para Durkheim (2001), a religião e sua relação com a idealização de Deus se sobressaem como um poder mágico, imaterial e que se impõe de forma omnipresente, omnisciente e omnipotente como um fenômeno de assimilação da fé dos indivíduos e o julgamento que esses fazem do seu modo de vida moral religioso e comportamental. Ao mesmo tempo essa forma de fé, fundada numa moral divina, proporcionava aos indivíduos um certo raciocínio simbólico partilhado coletivamente numa dada comunidade, que compartilhava um único Deus. Diferentemente do pensamento mítico da antiguidade, em que havia vários Deuses e Deusas, a religiosidade cristã admite apenas um Deus, sobre o qual o dispositivo do fato social religioso constitui-se totalmente ligado ao fato moral e ao poder de interdição que esse Deus exerce sobre os indivíduos nos contextos institucionais regulados pelo Estado. O fato moral exerce sobre o corpo social, leia-se corpos dos indivíduos, seus gêneros e suas sexualidades, uma pressão e uma opressão simbólica, geral e coerciva, que é coletivamente partilhada por todos, indistintamente. Uma espécie de coerção opressiva, simbólica e autoconsciente, que reproduz um poder dominante e imaginário compartilhado. As crenças e o temor no poder da espiritualidade divina são com isso fenômenos relativos a um poder de ordem superior, que não está na terra e sim na intersubjetividade partilhada, muitas vezes de forma moral, quer acreditemos nessa ideia de Deus ou não. Segundo a interpretação de Durkheim (2001), para os indivíduos, a partir de uma determinação do fato religioso, Deus existe porque se acredita na sua existência como um ser espiritual que tem poder sobre tudo e todos e determina um poder de consciência sobre tudo o que se passa no mundo e na mente dos seus fiéis. Ao mesmo tempo, esse Deus está em todos os lugares de forma omnisciente, omnipresente e omnipotente no mundo dos homens e fora desse. O fato social religioso constitui-se num dispositivo de poder e controle em que se destaca o imperativo categórico da fé, numa dimensão metafisica que está representada no poder simbólico que é incorporado pelos indivíduos. Com isso, o poder da fé explica-se sociologicamente no simples fato de os indivíduos crerem em si mesmos à medida que acreditam e temem o seu próprio Deus. Pois dependem desse Deus de forma submissa, obediente e temerosa. Isso forja um imaginário religioso compartilhado de crença, dentro de uma lógica cristã ocidental, que numa perspectiva metafisica de interpretação, Deus é uma espécie de imperativo categórico que antecede o homem a partir de uma ordem moral religiosa. Por esse motivo, a relação de Deus com o Estado, na história, sempre se fundiu numa mesma ordem de valor determinado. Inclusive é dessa fusão que deriva o termo “estado fundamentalista”. Assim, Deus se torna um dispositivo de representação coletiva, em que as sociedades partilham cada uma a sua maneira essa ordem, como mecanismo de controle, obediência e coerção sociais. Isso nos faz entender que o princípio religioso institucionalizado nos indivíduos se constitui num fato de absorção subjetiva que justifica o poder da fé, numa espécie de fato moral compartilhado em nome da obediência do indivíduo crente no seu Deus. Quando o estado cria políticas públicas forjadas por valores religiosos, o imperativo categórico do poder divino, por meio do livro sagrado, como uma Bíblia, tem um poder imperioso sobre os fiéis, pois, para o crente, ou seja, o fiel a Deus, a lei divina impera sobre a lei dos homens de forma coerciva. Durkheim (1981) desenvolve um modelo de análise coercivo da vida social que se dispõe em pautar os fatos morais como determinantes dos fatos sociais e consequentemente dos fatos jurídicos. Os quais estabelecem indicativos de maior ou menor controle sobre a ordem e a estabilidade da sociedade. Esse modelo de teoria incide sobre a necessidade de interpretações que justifiquem a preponderância progressiva de uma solidariedade orgânica, contra o estado de anomia (DURKHEIM, 1981). Para Durkheim, a sociedade só pode existir fundada no controle coletivo de coerção institucional e só assim seria igualmente possível estabelecer uma divisão social do trabalho orgânico que possibilitaria uma estrutura estável de vida social. Para esse tipo de pensamento, os fatos sociais e o conjunto grupal dos indivíduos são coisas observáveis, como objeto de reflexão sociológica sobre os quais é possível realizar explicações que funcionam como dispositivos de conhecimento de explicações coletivas, morais e religiosas. Saindo um pouco do plano das explicações teóricas e adentrando numa questão vivida na experiência histórica recente da esfera política do Brasil, não foi por acaso, que a exemplos de deputados federais, estaduais e vereadores, enfim, membro do poder legislativo municipal, estadual e federal, na sociedade brasileira tem levado a bíblia para fazerem seus discursos no púlpito das tribunas políticas do poder legislativo. Muitos políticos, com a bíblia na mão direita, juram fazer política em nome de Deus. Esse fenômeno político se revelou no ano de 2016, como um dispositivo discursivo durante o golpe que depôs a Presidenta do Brasil Dilma Rousseff, durante a votação do impeachment, no Congresso nacional brasileiro. Nesse episódio político da sociedade brasileira, viu-se deputados da bancada evangélica e militar, além de outras bancadas conservadoras, afirmando que estariam votando em nome, sobretudo, de “Deus”, pelo afastamento da Presidenta da república. Considero esse episódio uma clara demonstração do exercício do dispositivo biopolítico e psicopolítico (FOUCAULT, 2020; AGAMBEN, 2005; HAN, 2014) que impediu qualquer outra forma de conhecimento crítico e técnico sobre o processo ético do impeachment, em questão. Toda a sociedade brasileira que assistiu pela televisão e internet a votação do Impeachment testemunhou uma propaganda moral em forma de discurso político com tons religiosos, sendo proferido como discurso político, que levou às ruas, às janelas dos prédios e às mídias sociais de forma generalizada, milhões de brasileiros vestidos de verde e amarelo, exibindo bandeiras do Brasil e camisas da seleção brasileira na noite da votação do referido impeachment. Esse efeito pode ser um testemunho exemplar do funcionamento do dispositivo do biopoder e da psicopolítica, que agiu em nome de valores dos afetos políticos e das ideologias ultraconservadoras que viriam a assolar o país a partir daquele momento. Com base nesse efeito, testemunhado em 2016, vimos emergir com força brutal os discursos de um ultraconservadorismo que viria se espraiar pelo imaginário do povo brasileiro, ajudando a legitimare eleger políticos ultraconservadores da nova direita, sobretudo da bancada evangélica e militar a qual estaria ligado o então deputado Jair Bolsonaro, que viria se tornar presidente eleito em 2018. Fazendo um paralelo entre este processo de crise instaurado no país e as relações de poder e reestruturação do Estado e seu vínculo religioso, gostaria de voltar sobre o conceito de dispositivo iniciado por Agamben (2005). Com isso, destacamos que a religião, por meio da sua vinculação com o estado de direito, é fenômeno que fortalece sobremaneira o poder dos dispositivos biopolíticos dos governos conservadores diante de uma crise institucional da política, a partir da qual tenta se justificar o poder militar como mecanismo de força institucional que dispõe a opressão como dispositivo de ordem. Refletindo de forma mais crítica, entendemos que o termo dispositivo tem uma tríade de definição, uma jurídica, uma técnica ou tecnológica e uma militar, que segundo Agamben (2005) se torna eficiente no controle e manutenção do poder instituído. Sobre isso ele afirma que as definições do conceito de dispositivo apresentam três significados, que derivam primeiro de uma origem relativa à lei “le dispositif”, ou seja, o dispositivo legal, que está relativo à parte de um processo no qual o julgamento é concluído, com base numa forma de sentença ou parte de uma sentença ou lei que decide e dispõe a própria sentença. A segunda derivação está relacionada ao caráter tecnológico do conceito de dispositivo, que é a parte de um mecanismo de funcionamento de uma máquina, e que sem o tal mecanismo não há funcionamento mecânico. E por fim o conceito de dispositivo tem uma acepção militar, em que o termo dispositivo é relativo a meios e mecanismos disponíveis que estão em conformidade ou fazem parte de um plano estratégico e tático de ação dentro de uma guerra, ou num plano ideologicamente justificado de segurança nacional. Para Agamben, Todos os três significados estão, de algum modo, presentes no uso foucaultiano. [...]. Certamente o termo no uso comum, como no foucaultiano, parece se referir à disposição de uma série de práticas e de mecanismos (ao mesmo tempo linguístico e não linguísticos, jurídicos, técnicos e militares) com o objetivo de fazer frente a uma urgência e de obter um efeito. (AGAMBEN, 2005, p. 11). Ainda segundo Agamben, a modernidade do conceito de dispositivo está associada ao caráter de gerenciamento, administração e governabilidade dos homens, numa perspectiva de administração pública e privada e nos dois aspectos, a presença do dispositivo divino, no caso do imaginário cristão ocidental, a exemplo do que afirmamos anteriormente, impera como poder moral omnipresente, omnisciente e omnipotente, sobre os homens comuns, e sobre os quais recaiam os dispositivos imperativos da lei. Os homens, dentro do imaginário cristão, são tementes ao poder de Deus e do estado moderno com base no seu dispositivo biopolítico. Nesse sentido, o dispositivo como modus operandi de saber e poder nas formas de governabilidade dos homens estabelece controles estratégicos sobre o conhecimento e o imaginário sociocultural nas diversas áreas da vida social. Agamben resume em três pontos esses aspectos relativos ao conceito de dispositivo, que para ele são: 1) É um conjunto heterogêneo, que inclui virtualmente qualquer coisa, linguístico e não linguístico no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de segurança, proposições filosóficas etc. O dispositivo em si mesmo é a rede que se estabelece entre esses elementos; 2) O dispositivo tem sempre uma função estratégica concreta e se escreve sempre em uma relação de poder; 3) É algo geral (une reseau, uma “rede”) porque inclui em sim uma episteme, que para Foucault é aquilo que em uma certa sociedade permite distinguir o que é aceito como um enunciado científico daquilo que não é científico. (AGAMBEN, 2005, p. 9-10). O termo dispositivo parece figurar filosoficamente como um termo metafísico sobre as formas críticas de se interpretar o poder instituído nos modos de controle das organizações sociais. Por esse motivo, observamos tão pouco senso crítico em teorias sociais, como a de Durkheim que refletimos acima, que se fundamentam muito mais em aplicar o modelo de dispositivo, indiretamente nas suas fundamentações interpretativas, que criticá-lo como elementos de classificação e dominação social. Seguindo essa linha de raciocínio filosófico e sociológico, os herdeiros desse tipo de pensamento, como os neopositivistas, como Karl Popper, e todos os filósofos do ciclo de Viena, esforçaram-se para aperfeiçoar empiricamente esse raciocínio sociológico. Durante os anos 20 e 30, o neopositivistas da universidade de Viena advogaram explicações generalizadas fundadas em empirismos e controle sobre dados e fatos, fundados em explicações de caráter lógico e sistematizado, e sobre os quais deveriam ser feitas as explicações científicas do campo da sociologia. Para esses pensadores do chamado ciclo de Viena, o empirismo assim como o modelo de fundamento lógico do saber ordenado, era a base da construção epistemológica do saber científico e filosófico, contra o mito dos conhecimentos subjetivo e ideológico. Que eles julgavam ser próprios das correntes metafisicas e do marxismo historicista. O ciclo de Viena não acreditava na experiência histórica como fonte de saber fundante da própria ordem social, sobre a qual se fundamentava a ordem da sociedade. Adorno debateu com esses pensadores da Universidade de Viena e explicitou suas críticas fundadas em um argumento reflexivo, no qual era preciso considerar o processo crítico da razão na construção do saber, sem a qual o esclarecimento de fato não se faria presente, e explicitou ainda o valor da importância da metafísica nesse processo de conhecimento. Ainda segundo Adorno (2009) em relação as suas críticas ao Ciclo de Viena, a lógica e o pensamento sistemático e empírico, fundados no raciocínio matemático, ajudam, mas não é suficiente para fundamentar uma nova epistemologia científica. A escola de Chicago é um outro exemplo do papel do conhecimento empírico de cientistas sociais aplicados, a compreensão e intervenção dos fenômenos sociais dentro de uma lógica alinhada com políticas públicas do estado, nos anos 20 e início dos anos 30. É fato que os pensadores da escola de Chicago tinham uma perspectiva funcionalista, mas aqui não os identifico como ideólogos conservadores de Estado. Destaco apenas que o tipo de conhecimento que se produzia, no círculo da escola de Chicago, sobretudo os estudos ligados ao aumento da violência e criminalidade nos EUA, tinham um caráter instrumental e funcionalista, que serviram como dispositivo de conhecimento alinhados à perspectiva de político do Estado nos EUA, entre os anos de 1921 e 1933. Período inclusive de governança conservadora no país, com forte domínio dos políticos republicanos. Destaco aqui que durante os anos de 1921 a 1933 houve uma sequência de presidentes conservadores e ultraconservadores do partido republicano, que se substituíram, eleição por eleição, durante doze anos consecutivos, como, por exemplo, Warren G. Harding, que foi presidente do período de março de 1921 a agosto de 1923; Calvin Coolindge, que foi presidente do período de agosto de 1923 a março de 1929 e Herbert Hover, que foi presidente do período de março de 1929 a marco de 1933. Todas essas figuras políticas presidenciais foram orientadas por políticas conservadoras, intervencionistas e partidárias de políticas segregacionistas e racistas. Assim como todos esses líderes tiveram maioria no congresso e implementaram políticas conservadoras de cunho moral, como a lei seca, que proibiu, de forma violenta, a produção, circulação, venda e consumo de bebidas alcoólicas, no território nacional americano. Com estipulada pela 18ª Emenda da constituição dos Estado Unidos, que vigorou entre os anos de 1920 e 1933. A 18ª emenda norte-americana foi a aplicação de um dispositivo de lei, claramente estabelecidopor influências religiosas e moralistas, que reverberou pelo imaginário conservador de boa parte da sociedade norte americana. Incidindo inclusive no aumento da violência no país. Os anos 30 foram uma época em que, segundo Stanley (2020) o imaginário americano flertava com o imaginário fascista, e muitos políticos conservadores do país simpatizavam com o que viam surgir na Alemanha. Mas 1933 foi o ano em que terminou a hegemonia republicana, em que os conservadores foram substituídos pelo democrata Franklin D. Roosevelt, que revogou o dispositivo legal da lei seca e governou os EUA de março de 1933 a abril de 1945, ano em que a história testemunhou o fim da segunda guerra mundial e da hegemonia fascista. Voltando à questão crítica do conceito de dispositivo, Agamben (2005) nos fala sobre a influência do conhecimento de caráter institucional acadêmico, aplicado a políticas de estado e controle sociais, que interviram diretamente na sociedade e criaram dispositivos de conhecimento técnico. A implementação de conhecimento da área das ciências sociais aplicadas, por exemplo, no campo de estudo da violência urbana, atenderam, e ainda hoje atendem, a criação de políticas sociais de controle e intervenção social, sobre demandas da sociedade, sobretudo em momentos de crise social, como foi o período entre 1920 a 1933, no início do século XX, em que se viu um grande aumento da violência, da dependência química e do alcoolismo da sociedade norte- americana, sobretudo no anos de 1929, ano do crash da bolsa dos EUA. Hoje, isso parece se repetir, vide o exemplo da crise econômica mundial de 2008, que apontamos no início desse livro, e o resultado de crises consequentes que ocorreram nessa segunda década do século XXI, no mundo, em que testemunhamos uma crise estrutural profunda e ampla do ponto de vista social, político e econômico, vemos ressurgir uma onda de ideologias ultraconservadoras que envolve uma densidade populacional que adere a esse imaginário ideológico do fascismo, de forma muito forte. Em grandes períodos de crise sociais, as instituições promotoras de conhecimento, sobretudo o acadêmico/técnico, são campos de experiência de saberes de políticas de estado, sobretudo quando falamos de estado de exceção (AGAMBEM, 2011), em que o poder de controle sobre a liberdade de expressão alimenta políticas de governos autoritários e ditatoriais. Operação institucionais de cunho científico, religioso, artístico e cultural muitas vezes se confundem numa lógica de operação ideológica de ordem social, forjada por dispositivos de controle e intervenção política, e nos mostram que esse conhecimento se transforma em instrumentos de controle coercitivo contra a própria sociedade (AGAMBEN, 2005; 2011). O estado de exceção e o autoritarismo de governo, dentro da democracia, são práticas idealizadas de forma bastante objetiva, que permitem que ideólogos políticos reforcem o uso da publicidade e da propaganda como dispositivos de propagação do medo e da insegurança coletivos. As políticas do medo e dos afetos são parte de um programa de governo autoritário. Por exemplo, isso ocorreu durante a gestação das ideias do nazismo, em particular quando Hitler escreveu o livro Mein Kampf (Minha Luta – livro que o autor escreveu durante o seu período de encarceramento, depois de ter sido preso e julgado por participar de tentativa de golpe na Alemanha). Esse livro se transformou em manual para muitos ideólogos, que ajudaram a estruturar o nazismo como forma de governo consolidado no ódio e na propaganda do medo. Aos modos de Hitler, ideólogos e marqueteiros da política ultraconservadora dos dias atuais, a exemplo de Steve Bannon, usaram da retórica do ódio e do ressentimento para espalhar medo e criar argumentos de afetos políticos, que sustentaram o marketing da campanha vitoriosa à presidência da república de Donald Trump. Steve Bannon, ao seu modo fascista, usou frases como: “Fomos eleitos com base no ‘Darin the Swamp’ Lock Her Up, Build a Wall”, (Drenem o Pântano, tranque-a, construa um muro)”. (STANLEY, 2020, p. 65). O livro Mein Kampf é mais que um simples livro. É um roteiro de um programa político apresentado em forma de manifesto. Foi escrito com uma linguagem simples e objetiva, que tocou diretamente os afetos do povo alemão, que ainda sofria dos efeitos da primeira guerra mundial, e compartilhavam um imaginário de crise. As ideologias falhas, presentes na forma de mensagens propagadas do livro de Hitler, ajudavam a acionar o dispositivo psicopolítco dos afetos de parte de uma sociedade que compartilhava valores muito próximos àquelas ideias. Para Umberto Eco (1998), o livro Mein Kampf, de forma clara e precisa, procurou demonstrar que: “O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. (ECO, 1998, p. 17). A história mostrou que o conteúdo discursivo desse livro fascista foi transformado em programa de governança do Terceiro Reich no período entre 1933 e 1945. Nesse contexto histórico e ideológico, o conhecimento de toda natureza, científico, filosófico, teológico, assim como o conhecimento artístico, serviram ao propósito político e militar do programa de estado nazista que derivou dessas ideias originadas no livro Mein Kampf. E todo esse programa de barbárie só pôde ser implementado de forma eficiente com o uso dos dispositivos das propagandas que tecnicamente foram eficientes como mecanismos de persuasão e manipulação autoconsciente do povo alemão (ADORNO, 2011). Corroborando com essa premissa, sobre o poder da propaganda nazista, na sua eficácia de alienação persuasão, artística-cultural e política, do povo alemão, Tada e Gracino (2018) afirmam que: A persuasão utilizada nas propagandas nazistas afetou a população de maneira com que apoiassem praticamente todas as decisões tomadas pelo governo nesse contexto. [...] Uma vez que o regime autoritário imposto pelo governo nessa época precisava de extremo poder de manipulação de massas para manter o controle social, entende-se que a propaganda foi a principal ferramenta usada – e desenvolvida – pelo nazismo para o processo de alienação da sociedade. (TADA; GRACINO, 2018, p. 41). Os autores acima desenvolvem uma análise sobre o papel da eficiência técnica no processo de reificação da alienação publicitária, com base na elaboração estética e controle das mensagens nas informações da propaganda nazista. O uso da técnica de comunicação de massa é talvez o maior exemplo de eficiência das ideologias falhas (STANLEY, 2015), presentes num conjunto de propagandas. Na nossa visão, essas ideologias falhas associam-se aos dispositivos biopolíticos de poder e controle sociais, que nos ajudam a entender o poder que os dispositivos de mensagens e linhas de argumentos discursivos presentes na colonização da subjetividade (DELEUZE, 1990). A dominação, o controle ou coerção que derivam saberes, das mais variadas naturezas, a serviço da institucionalização opressora dos aparelhos do Estado é analisada por pensadores como Gilles Deleuze de forma bastante crítica. Deleuze (1990) é um autor que também parte do conceito de dispositivo e sua relação com a intersubjetividade e as linhas de dominação presentes nela. Ele parte desse pressuposto para analisar o sistema de poder que está compreendido na reprodução do conhecimento e na reprodução institucional da opressão incorporada pela sociedade, somados ao poder de controle e dominação por parte do Estado. Para Deleuze (1990), o conceito de dispositivo compreende um emaranhado de linhas enunciativas de saberes, que se bifurcam de forma multilinear e exercem pressão de amarras e conexões sobre os sujeitos, em três aspectos ao mesmo tempo: 1) o aspecto do saber; 2) do poder e 3) da subjetividade. A subjetividade nunca é algo em si mesma, ela depende do outro, da alteridade, para acionar a capacidade de ação dos sujeitos, sobre o que esses veem, pensam e pronunciam, isso em parte é o que se pode compreender comointersubjetividade. Deleuze afirma ainda que a historicidade dos dispositivos se dá em regimes de luz, nas quais se constituem as visualidades estéticas, assim como nos regimes de enunciação, nos quais se pronunciam linhas de falas, discursos e enunciados que definem as posições dos sujeitos e suas variáveis de ações e articulações de saber e de fazer, nos vários campos sociais como o científico, o estético, o político, o jurídico etc. O dispositivo não pode ser definido no sujeito ou no objeto, mas em formas de regimes de comportamento, que se deriva e se transforma a partir de ordenamentos lineares discursivos entrecruzados. Segundo Deleuze “Os dispositivos têm, então, como componentes linha de visibilidade, linhas de enunciação, linhas de força, linha de subjetivação, linha de ruptura, de fissura, de fratura que entrecruzam e se misturam” (1990, p. 04). Outra característica conceitual importante sobre o dispositivo é que essa perspectiva rejeita o princípio de uma razão ou poder universal e, em sendo assim, não é possível entendê-lo como algo em sua totalidade unificada ou um sistema fechado. Ao contrário disso, ele é uma linha de força singular, um devir enunciativo singularizado que se ampara e se amplia nas relações dos sujeitos nos contextos institucionais. O uno, o todo o verdadeiro, o objeto, o sujeito não são universais, mas processos singulares, de unificação, de totalização, de verificação, de objetificação, de subjetivação, processos imanentes a um dado dispositivo. E cada dispositivo é uma multiplicidade na qual esse processo opera em devir, distintos do que operam em outros dispositivos. (DELEUZE, 1990, p. 04). O conceito de devir de Deleuze está associado à vontade de potência, nas formas carregadas de intencionalidade e poder. Formas essas carregadas de intencionalidade, que segue uma linearidade discursiva e se bifurca, mudando seu enunciado, de acordo com novos sentidos e novos interesses que vão se somando às intenções dos sujeitos e seus interlocutores. Um ato de fala, uma linha de comando de programação, um clique de acesso, a definição de um perfil de usuário ou as estruturações informacionais dos cálculos dos algoritmos, numa matemática subjetiva de identificação de padrões de comportamento, são formas do poder ampliadas dos dispositivos. Se aplicarmos o conceito de dispositivo, proposto por Deleuze (1990), às redes socais da internet, em particular em ambientes de bolhas digitais, veremos que as estruturas de poder dessa rede serão reproduzidas nas estruturadas das linhas de lógicas de cálculo de programas algorítmicos que incidem sobre os aspectos intersubjetivos dos usuários dessas redes. E por meios dessas linhas intersubjetivas os dispositivos digitais, promovem a propagação de valores que tendem a orientar comportamentos e promover uma espécie de rizoma, ou seja, um enraizamento bifurcado de linhas de desinformação ampliada, por meio de propagação de mensagens falsas. Esses dispositivos estruturados por algoritmos da internet que desenvolvem linhas de raciocínio complexos, que são vetorizados e ampliados, e por isso conseguem calcular a previsão do comportamento dos indivíduos/usuários, mediante a compilação de dados de input e output realizada em cada dispositivo digital conectado em rede e o perfil subjetivo de cada indivíduo que usa a rede. Kaufman (2019) afirma, que os algoritmos são um “conjunto de instruções matemáticas para manipular dados ou raciocínio através de um problema” (KAUFMAN, 2019, p. 54). O conceito de problema aqui referido é a parte inteligente desse sistema aberto que possibilita a vetorização dos cálculos dos algorítmos para identificar o conjunto de interesses dos indivíduos/usuários na ponta dos sistemas de informação. É sob esse aspecto que entendemos as linhas e as mudanças dos dispositivos algorítmicos próximos ao conceito de dispositivo apresentado por Deleuze (1990). Esses sistemas complexos são abertos e fazem uso de uma inteligência sistêmica para aprender com os indivíduos/usuários a forma mais eficaz de ter acesso ao padrão subjetivo de comportamento dos sujeitos, e com isso ter uma melhor performance sobre controle das informações. Os sistemas inteligentes das plataformas não visam, preferencialmente, oferecer o conteúdo de melhor qualidade aos seus usuários, mas maximizar seu tempo de permanência na plataforma, promovendo e ampliando ao máximo as interações por meio de curtidas, compartilhamentos e comentários. Quanto maior o tempo e a intensidade da interação, mas dados são gerados, favorecendo os modelos de negócios baseados em dados. (KAUFMAN, 2019, p. 55). Como afirmamos, os algoritmos são dispositivos vetorizados relativos ao poder do controle sobre as informações em rede e, nesse sentido, à medida que as fake news são disseminadas preferencialmente nesses ambientes de rede sociais, estamos seguros de que boa parte desses dados de perfis de usuários são destinados ou usados para potencializar a produção da indústria da desinformação, das fake news, como prática dispositiva de um fascismo digital cotidiano. Mas como é sabido, o poder dos algoritmos é bem maior que esse, e atende a outras estruturas de poder bem mais enraizada nos aparelhos de dominação e controle que passam pelo mercado e pelo Estado, sobretudo nos processos lineares de tomadas de posição e decisão de governo. Cada vez mais, os administradores e gestores de empresas privadas e instituições públicas delegam aos softwares uma série de tarefas e decisões. Em geral, os softwares possuem diversos algoritmos que foram criados para realizar diferentes cálculos, classificações e correlações, entre outras atividades mais complexas. Várias decisões, antes tomadas por pessoas, estão sendo substituídas por decisões adotadas por algoritmos. (SILVEIRA, 2017, p. 273). Isso nos leva a entender que o caráter dos algoritmos como dispositivos de controle, gerenciamento e redistribuição de informação, se funda num poder de acionamento de decisões na estrutura de sistemas institucionais, que auxiliam de forma eficiente os instrumentos biopolíticos e psicopolíticos de tomada decisões. Nesse sentido, as mensagens relativas às persuasões, manipulações e indução de comportamento atendem aos interesses de instituições privadas e públicas. Um exemplo claro disso foi o desbaratamento feito pelo Laboratório Forense Digital que realizou investigação sobre constas falsas ligadas ao presidente Bolsonaro. Segundo esse laboratório, “Os dados mostram uma rede conectada a Bolsonaro e aliados dele, usando funcionários do governo e de deputados, dedicada a manipular informação e criar narrativas, com ataques a opositores”, diz Luiza Bandeira, pesquisadora do Digital Forense Research Lab do Atlantic Council e uma das autoras do levantamento. (Folha de S.Paulo, 08/07/2020). Essa investigação conseguiu provar que havia uma ligação direta de Tercio Arnaud, assessor do presidente Jair Bolsonaro, com um esquema de contas falsas no Facebook, que tinham mais de dois milhões de seguidores e foram banidas em julho de 2020. A matéria foi apresentada pelo Jornal Folha de S.Paulo25. Essas contas ligadas diretamente à assessoria do presidente foram responsáveis por ataques a opositores do governo, ataque a membros de outros poderes da República e por difundir notícias falsas sobre a epidemia da Covid- 19. Ainda, segundo a Folha de S.Paulo, Tércio Arnaud Tomaz e mais cinco ex e atuais assessores de legisladores bolsonaristas, entre eles um funcionário do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), foram identificados como conectados à operação de desinformação no Facebook e no Instagram. Segundo o relatório, eles usavam contas duplicadas e falsas para escapar de punições, criavam personagens fictícios fingindo ser repórteres e administravam páginas simulando ser veículos de mídia. Também usavam perfis falsos que postavam em grupos não relacionados a política, como se fossem pessoas comuns criticando opositores de Bolsonaro e promovendo o presidente, de acordo com a empresa. Mais recentemente, as contasatacaram o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso e estavam disseminando a visão de que a epidemia de covid-19 não era uma ameaça séria. (Folha de São Paulo, 08/07/2020). Esse exemplo nos possibilita entender que as dimensões da desinformação, promovida por notícias falsas, e o uso de algoritmos dentro da estrutura de governanças ultraconservadoras, tem forte ligação com uma crítica a ser feita a sociedade de controle que vem se instaurando com os sistemas de desinformação das fake news dentro dos aparelhos do Estado. E como esse processo se constitui de forma ideológica e performativa sobre as percepções subjetivadas dos indivíduos, à medida que são aparelhos ideológicos ligados a um sistema de desinformação persuasivo. Esses algoritmos são dispositivos performativos. Em linguística, um enunciado é performativo quando ocorre simultaneamente à ação que ele apresenta, ou seja, há uma coincidência entre palavra e ato. “A performatividade é uma perspectiva particular sobre a natureza da interação, que é o resultado lógico do tornar-se (também conhecida como a filosofia do processo) em oposição a uma ontologia do ser” (INTRONA, 2013, p. 2 apud SILVEIRA, 2016, p. 275). Voltando ao conceito de dispositivo de Deleuze, entendemos que o poder de enunciação e visibilidade do dispositivo é definido por meio de linhas, curvas, retas e bifurcações que influem nos regimes de comportamentos, e tais linhas se entrecruzam sobre o que é visível e sobre o que é enunciável (DELEUZE, 1990). Com isso entendemos como as bifurcações das fake News funcionam como um disposto distorcido da realidade que, orientado por classificações algorítmicas, são dirigidos aos perfis dos indivíduos/usuários, influenciando os regimes de comportamentos. O aspecto da subjetividade relacionado ao processo de massificação das fake news coliga-se ao fenômeno da pós-verdade, à medida que esse fenômeno é ancorado em crenças, dogmas e afetos, pautados por valores abstratos, muitas vezes de cunho moral, que leva os indivíduos a formarem sua opinião e tomarem posicionamento contra a realidade que está diante dos seus olhos. Com o fenômeno da pós-verdade, a realidade dos fatos perde total importância. As pessoas de forma individual ou coletivamente, mobilizados por afetos, passam a crer e a se comportarem a partir de informações falsas e desinformações, mesmo que os fatos provem o contrário. Isso é determinante para os indivíduos/usuários assimilem as fake news e se permitam associar a propagação de discursos direcionados. Esses dispositivos de narrativas noticiosas de falsas informações, de mensagens e propagandas fundadas na desinformação e nas ideologias falhas, direcionados muitas vezes por fake news, formam um vetor de linha de raciocínio que busca nos receptores o viés de confirmação ou raciocínio motivado, que reforça a propagação da notícia falsa, sobretudo quando a mensagem dessa fake news está ligada à reprodução de ideias conservadoras, que tocam os afetos e as crenças dos indivíduos/usuários no contexto da pós-verdade, em que a verdade factual tem menor valor que esses afetos e crenças pessoais. Entendemos o conceito de raciocínio motivado como um processo psicológico que está diretamente ligado a tomada de posicionamento por parte dos indivíduos e formação da opinião pessoal, que estão ligadas a questões afetivas, emocionais, morais e ideológicas, carregadas de assuntos importantes para esses indivíduos. Da mesma forma, o conceito de viés de confirmação é, ao mesmo modo, um processo de tendência que leva os indivíduos a se identificarem com questões que estão muito próximas as suas escolhas ou suas interpretações, que resultam na confirmação de seus interesses, crenças ou opinião. Assim, as motivações ancoradas em linhas de reprodução de argumentos do irracionalismo discursivo de conveniência, faz com que os sujeitos motivados por crenças se prestem a corroborar e disseminar ódio e medo como propaganda de um perigo iminente, que eles assimilam mediante as ideologias falhas criadas e disseminadas pelo discurso fascista no cotidiano digital das mídias sociais. O vetor de linearidades múltiplas dos dispositivos, como afirma Deleuze (1990), pode ser aplicado como linha de orientação a serviço das formas de poder, sobretudo um poder instituído pelo Estado, em sua forma de dimensão mais ampliada de controle e regulamentação, como instituições educacionais, de saúde, de conhecimento etc. Dentro desse espectro, as fake news são vetores de linhas de enunciação de uma amarração linear que funciona como uma máquina de imagem, som e texto, que promove visões de mundos e enunciações discursivas reificadas na ponta do iceberg de ideologias mais ampliadas por meio de linhas de pensamento neoliberal e ideologias ultraconservadoras que atravessam as redes sociais. A imagem, o som e o texto, a esse respeito, funcionam como elementos simbólicos de orientação da subjetividade, por meio dos artefatos audiovisuais presentes na cultura visual da internet (SILVA, 2020). Os dispositivos de propagação das fakes news têm suas múltiplas formas de enunciação como um instrumento de desinformação performática e retórico, “[...] nas quais se distribuem as posições diferenciais dos seus elementos; [...]. Em cada dispositivo as linhas atravessam limiares em função dos quais são estéticas, científicas, políticas etc. (DELEUZE, 1990, p. 02). Dentro desse contexto, os dispositivos funcionam como vetores de orientação e as vezes até controle sobre a intersubjetividade. O papel que os algoritmos têm nesse processo de configuração do dispositivo de desinformação é de fundamental importância, pois os algoritmos têm a característica de antecipar problemas e resolvê-los, assim como realizar cálculos estruturais de conexões por temas, palavras, faixa etária, gênero, tipo de equipamento, tipo de mídia usada, tempo de conexão, locais de acessos etc., identificando e classificando os perfis dos indivíduos/usuários nas redes sociais. Se ampliarmos essa questão para um plano político, em que estão inseridos os dados do perfil ideológico dos indivíduos/usuários, poderemos ter uma melhor compreensão de como os algoritmos podem funcionar como instrumento de administração psicopolítica dos afetos desses indivíduos/usuários. Nesse sentido, dados sobre o posicionamento político e rede de relações políticas, dentre outras coisas afins, são os elementos calculáveis sobre a identificação, em maior ou menor grau, da classificação do perfil conservador desses indivíduos/usuários. Todos os dados relativos a esse contexto político ajudam a mensurar o grau de interesse e identificação dos afetos políticos de grande parte dos cidadãos que compartilham valores e ideais próximos e com isso se sentem motivados a reproduzir esses valores e ideias dentro de redes de compartilhamentos. E dentro desse contexto, lançar mão de ideias e atos de fala nacionalistas com temas relacionados ao patriotismo, cultura nacional, tornou-se uma forma de identificação e classificação da reprodução dos ideais fascistas, propagados pelo senso comum na esfera pública da sociedade de uma maneira geral, tanto nas ruas como nos espaços das mídias sociais. A exemplo disso, vimos a ocupação da esfera pública no Brasil, a parir de 2016, em que parte da população brasileira decidiu seguir uma onda de patriotismo, nas mídias sociais e nas ruas. Brasileiros travestidos de patriotas com bandeiras do Brasil servindo-lhes de capas, fazendo passeatas contra a democracia e espancando na rua outros brasileiros que não estavam fazendo uso dos mesmos símbolos ufanistas. Foi uma prática bastante comum que deu sinal sobre a necessidade de compreensão sobre a propagação do imaginário fascista no mundo da vida. O perfil desse cidadão nacionalista de última hora estava bem caracterizado nas mídias sociais e nos grupos de compartilhamento de mensagens e se reproduzia nas ruas. Nunca se viu na história do Brasil, tanta gente vestida com camisa da seleção brasileira fora de um período de copa do mundo ou outro calendárioesportivo oficial de jogos da seleção. Esse comportamento simbólico, que muitas vezes se mostrou conservador e violento, se reproduzia como parte de um imaginário compartilhado dentro e fora dos canais institucionais do Estado. A sociedade parecia reproduzir um comportamento político orientado por grupos que representavam bancadas políticas conservadoras, nas várias esferas políticas da sociedade brasileira. Essas práticas são efeitos de dispositivos mais estruturais que se fazem presentes dentro dos canais institucionais do Estado. O controle da máquina estatal adquire a função de vigiar e punir (parafraseando Foucault, 1986) a todo e qualquer indivíduo que não corrobore com ideologias conservadoras. Voltando às ideias de Foucault (2020), a biopolítica é um conceito de poder de governo desde o século XVIII, e implica em utilizar o dispositivo do conhecimento científico e tecnológico para o controle das populações nacionais, sobre as quais se administram gestões governamentais que são mantenedoras da violência como prática de governo. O uso de punições dentro de um caráter de manutenção da ordem estatal faz parte desse conjunto coercitivo de dispositivos aplicados pela política dentro da esfera do Estado. Dentro desse mesmo parâmetro de controle, qualquer dado que possa incidir em manutenção das formas de poder do Estado é usado como instrumento biopolítico de controle, inclusive o uso da violência digital, além da violência física e psicológica. Com isso, os instrumentos biopolíticos e os dipositivos que incidem sobre a manipulação dos afetos políticos, persuasão e orientação do comportamento dos indivíduos, são bem mais complexos e transcendem hoje a esfera do Estado, pois essas tecnologias aperfeiçoam o poder biopolitico da esfera estadual e se complementam na esfera social em que as novas mídias e os aparelhos tecnológicas da sociedade em redes fazem ampliar o poder de violência instituída na relação sociedade/Estado e o papel dos governos, numa sociedade em rede, dentro desse contexto. O governo dos afetos e das informações relativas a esse campo psicopolítico é um instrumento poderoso nas novas formas de controle da sociedade, assim como uma nova forma de redimensionamento do capitalismo digital dessa mesma sociedade em rede. Silveira (2017) e D’Ancona (2018) refletem sobre esses aspectos em seus trabalhos e destacam que: “[...] as tecnologias da informação trazem vantagens irrecusáveis para a gestão de governos e instituições dos estados. A aplicação generalizada do big data na gestão pública tenderá a estruturar um campo bem maior para o uso dos algoritmos, talvez na mesma direção em que ele são utilizados no mercado financeiro. (SILVEIRA, 2017, p. 278). Já para D’Ancona (2018): “No ocidente, é a conexão emocional – sempre parte da tomada de posição política – que ameaça eclipsar nossa insistência herdada pela verdade como principal critério em disputas políticas. (p. 36). D’Ancona, mais particularmente, analisa o processo eleitoral americano, no qual Donald Trump foi vitorioso. Para ele, mesmo considerando-se que Trump não era um candidato simpático para a opinião pública e esbravejava palavras de ordem e bravatas que conseguia tocar os afetos e acionar as emoções do eleitorado médio dos EUA, mobilizou afetos que converteu em votos, os quais fez com que ele ganhasse a eleição na disputa com Hilary Clinton. No contexto da pós-verdade, em que boa parte do eleitorado conservador acredita e compartilha fake news, esse perfil de indivíduo/usuário é favorável ao irracionalismo comportamental autoconsciente, que alimentam a reprodução digital do discurso de ódio, e da perversão presentes em pautas moralistas e religiosas, que declaradamente criminalizam, grupos LGBTIQ+ e minorias raciais e de gênero. A manipulação do ressentimento incutido nos discursos extremistas de indivíduos/usuários com esse perfil, dão a afinação aos ouvidos da opinião pública conservadora. Nos EUA, em 2016, boa parte do eleitorado com perfil conservador apresentava-se desesperançado com o aumento do desemprego, execução hipotecária, dívidas com planos de saúde, dentre outros problemas relativos a perda de poder financeiro, diante de um caos pelo qual o país passava. Havia com isso uma onda de ressentimento provocado pelo descrédito que aumentava a impopularidade do presidente Barack Obama, que não conseguiu convencer grande parte do seu eleitorado, de nível médio da sociedade americana, a votar nos democratas. Como afirma D’Acona, (2018) “[...] o eleitorado não estava com disposição de ânimo para escutar sobre as qualificações de Hillary Clinton para o Salão Oval.” (D’ANCONA, 2018, p. 37). Além disso, o processo de fake news, de caráter difamatório, que foi arquitetado por Steve Bannon e Roger Stone26, assessores diretos da campanha de Donald Trump em 2016, contra a família Clinton, foi fundamental para deslegitimar ainda mais a candidata Hillary Clinton. Roger Stone é conhecido historicamente, dentro dos EUA, como ideólogo e publicitário profissional de políticos conservadores, tendo trabalhado como assessor e conselheiro político de vários líderes republicanos desde a década de 70 nos EUA, atuando em trabalhos de propaganda de campanhas como as de Richard Nixon, Ronald Reagan, Jack Kemp, Bob Dole, Georg W. Bush e por fim foi inicialmente um dos principais marqueteiros da campanha de Donald Trump, até deixar o comando dos trabalhos de campanha, por questões de conflitos de ideias, dentro do partido republicano. Tanto Stone como Bannon defendiam a ideia de que Donald Trump deveria representar uma candidatura, mostrando-se como um político alternativo dentro do cenário da direita conservadora norte-americana, durante a sua campanha à presidência. Entendendo-se essa direita alternativa como grupos que representavam um conjunto de ultraconservadores, nacionalistas, apoiados pelos cidadãos de classe média e classe média baixa, que deram apoio ao novo populismo que Trump tentava representar. Segundo Empoli (2019), [...] em ponto de convergência para a direita alternativa americana – uma tropa heterogênea de nacionalistas, conspiracionistas, militaristas ou, simplesmente, indivíduos raivosos – todos decididos a impor um ponto de vista diferente sobre as principais questões no centro do debate: a imigração, o livre-comércio, o papel das minorias e os direitos civis. Abrindo uma redação no Texas para seguir de perto o fenômeno da imigração clandestina, Bannon financiou think tanks, grupos de pesquisa destinados a estudar os malefícios do establishment em geral e da família Clinton em particular. (EMPOLI, 2019, p. 29). Por outro lado, do ponto de vista político, esse mesmo cidadão médio norte-americano também não demonstrava interesse nos alertas dos cientistas políticos e nos críticos, que alertavam para a forma fantasiosa com a qual Donald Trump apresentava falsas verdades e discursos extremistas de intolerância étnico-racial. A proposta das propagandas políticas de Trump forjava uma performance de encenação diante das câmeras, em que seus atos de falas e pronunciamentos públicos e privados não mediam esforços em apresentar ideias xenófobas, racistas, misóginas, dentre outras abjeções retóricas. Isso promovia uma ressonância emocional nos cidadãos médios, de uma maneira geral, legitimando sua candidatura como a imagem de um político populista, que não tinha vinculações com o jogo político profissional e com isso representaria de forma mais identificada os interesses do povo americano. O senso comum acreditava, com isso, que Trump não teria vínculos com a estrutura de poder do sistema político do país, o que era um grande engano. O impacto das mensagens na campanha de Trump procurava atingir os afetos e as emoções coletivas da população, acionando um sistema de crenças por meio de retóricas emocionadas. Além disso, outra coisa que caracterizava Donald Trump era o fato de ele ser um candidato que não distribuía simpatia e não tinha boa aceitação na opinião pública, por parte do cidadão médio esclarecido, que nãovotou em Trump. Vale ressaltar que Donald Trump teve menos votos populares que Hillary Clinton, sua concorrente, no pleito eleitoral da votação. Seguramente ele não teria sido eleito, não fosse o uso das fake news. As fake news, como dispositivo de desinformação política, foi o instrumento encontrado para a manipulação das informações, por agências como a Breibart News, que teve um papel fundamental na potencialização da candidatura de Trump e operou de forma precisa as ideologias falhas, na coalizão de interesses conservadores. Sob esse aspecto, Steve Bannon foi o protagonista no papel de manipulação e uso indevido dos dados dos usuários das mídias sociais e o uso da propaganda, que colonizou a opinião pública norte-americana, manipulando dados e afetos políticos, por meio das mídias cinematográficas e mídias sociais. Bannon manipulou discursos, ideologias nacionalistas e pautas extremistas, que convergiam interesses políticos de forma estrutural. Com isso, os assessores de campanha de Trump agiram de forma muito articulada e procuraram recuperar o poder da indústria cultural de massa para criar propaganda de mídia, para a sensibilizar, do ponto de vista dos afetos, a opinião pública norte-americana. Os produtos de campanha com documentários, cartazes, discursos inflamados nas redes sociais ativaram sentimento sobretudo nacionalista do povo americano por meio do uso das imagens técnicas fotográficas e cinematográficas. Como analisa Empoli, Donald Trump, [...] foi um dos primeiros entre os novos populistas a entender que “politics is downstream from culture” – “a política deriva da cultura”. Desde o começo, ele luta para arrancar da intelligentsia liberal o espectro de hegemonia cultural. Assim, em Hollywood, dedica-se à produção de documentários superkitsch, recheados de citações filosóficas e melodias wagnerianas. Esses filmes versam sobre o espírito americano, o choque de civilizações e a alternância de gerações que, assim, modelam a História e determinam o curso dos acontecimentos. (EMPOLI, 2019, p. 28). A forma moralista de apresentação dos fatos e da mobilização dos afetos políticos, por meio das imagens relacionadas aos fatos criados, incentivou um novo nicho do mercado da indústria cultural norte-americana, pautado em criar imagens afetuosas que despertaram a necessidade de identificação com um sentimento nacional emergente, tentando, com isso, limpar sua imagem de empresário sem ética, que os americanos conheciam, a partir de Reality Show, “O Aprendiz” apresentado pela NBC – National Broadcasting Company, no qual ele protagonizava um chefe que demitia, de forma autoritária, os participantes desse Reality Show. Vale ressaltar que Trump havia sido protagonista e coprodutor desse programa, que foi apresentado na televisão americana no início do ano de 2004 e teve várias temporadas desde então. A figura de Trump não representava simpatia para o público de uma maneira geral, mas, paradoxalmente, o programa tinha grande audiência, sobretudo entre das faixas etárias mais jovens assim como com o público mais idoso, independente de gênero, classe social e raça. Ou seja, Trump não era uma figura carismática que transmitia empatia, mas acionava os afetos dos telespectadores de faixa etárias distintas. Com analisa D’Ancona (2018), Trump nunca foi candidato simpático. As pesquisas de opinião mostram que os norte-americanos estavam perfeitamente conscientes deu suas falhas de caráter. No entanto, Trump passou para eles uma empatia brutal, enraizada não em estatísticas, empirismos ou em informações meticulosamente adquiridas, mas em um talento desinibido para a fúria, impaciência e atribuição de culpa. (D’ACONA, 2018, p. 37). Seguramente toda essa performance televisiva foi alavancada pela indústria cultural da mídia tradicional e da mídia das notícias falsas, ancorada nesse processo de perversão digital da política da pós-verdade. Tudo isso junto ajudou a manipulação das agências de dados como a empresa, Breibart News que, “Mobilizou blogueiros e trolls para dominar o debate nas redes sociais, participando do lançamento de uma sociedade de Big Data aplicada à política.” (EMPOLI, 2019, p. 28). Isso é apenas um pequeno exemplo de como o processo estratégico conservador da campanha presidencial de Donald Trump operou como um dispositivo biopolítico brutal no seu processo político e eleitoral. Dentro desse contexto, um estudo da Universidade de Oxford, sobre o tema: Polarização, Partidarismo e Consumo de Notícias Indesejadas nas Mídias Sociais Durante as eleições intercalares dos EUA em 2018, nos mostra de forma mais clara o poder do dispositivo das fake news, como instrumento de extremo fortalecimento da extrema-direita norte-americana. Essa pesquisa foi realizada por Nahema Marchal, Lisa-Maria Neudert, Bence Kollanyi e Philip N. Howard, da universidade de Oxford, e mostra de forma analítica um estudo que aponta para o fato que, em 2016, a distribuição das fake news era proveniente de usuários com perfis russos e de sites ultraconservadores da extrema-direita, e que em 2018 o mesmo tipo de procedimento e conteúdo foi igualmente disseminado por grupos moderados e conservadores, que não possuíam um perfil fascista que propagavam o que ele conceituara como notícias descartáveis e falsas. Com isso, a pesquisa apresenta um memorando em que se relata a análise de dados sobre o compartilhamento de notícias indesejadas e notícias falsas nas eleições de 2018, demonstrado haver um aumento considerável, que supera em muito as eleições de 2016, nos EUA. Nos Estados Unidos, as plataformas de mídia social atendem a volumes significativos de notícias e informações políticas indesejadas durante momentos importantes da vida política – particularmente nas eleições. Neste memorando de dados, examinamos as fontes de notícias e informações políticas que foram compartilhadas por usuários de mídia social nos EUA no período intermediários até 2018, avaliamos e identificamos o público-alvo principal, com fontes de conteúdos sensacionais, extremistas, conspiratórios ou que tenha outras qualidades de notícias indesejadas. Analisando 2,5 milhões de tweets e 6.986 páginas no Facebook em um período de 30 dias, descobrimos que (1) a quantidade de notícias indesejadas em circulação nas mídias sociais é maior que a da eleição presidencial dos EUA em 2016, com usuários compartilhando mais notícias indesejadas do que notícias profissionais em geral, (2) notícias indesejadas, uma vez consumidas pela base de apoio do presidente Trump e a extrema-direita agora está sendo consumida por mais usuários conservadores de mídia social tradicionais e que (3) menos de cinco por cento das fontes referenciadas as mídias sociais são de órgãos públicos, especialistas ou dos próprios candidatos políticos. 27 A interpretação dos dados mostra a forte influência que as notícias que apresentam um conteúdo de medo e que têm caráter extremamente conservador, promoveram uma mudança de percepção do eleitorado que usa mídia tradicional, rádio, televisão e jornal e passou a usar as informações de conteúdo das redes sociais, ampliando a circulação de notícias de caráter indesejado e extremista, em relação eleitorado médio que mudou de opinião a partir do uso das mesmas redes sociais. Em ambos os casos, a circulação de fake news, estruturada por algoritmos, fez aumentar o consumo de notícias ultraconservadoras, favorecendo apoio à candidatura de Donald Trump. Quanto a esse contexto político, no qual se situa as eleições de Trump, Han (2014) aponta que, En las elecciones estadounidenses, el big data y el data mining se muestran como el huevo de Colón. Los candidatos adquieren una visión de 360 grados sobre los electores. Se recopilan enormes datos, incluso se compran e interrelacionan, de manera que se puedan generar perfiles muy exactos. De este modo también se adquiere una visión sobre la vida privada, incluso sobre la psique de los electores. Se introduce el microtargeting para dirigirse con precisión a los electores con mensajes personalizadosy para influenciarlos. El microtargeting como praxis de la microfísica del poder es una psicopolítica movida por datos. Asimis- mo, algoritmos inteligentes permiten hacer pronósticos sobre el comportamiento de los electores y optimizar la alocución. Las alocuciones individualizadas apenas se distinguen de los anuncios personalizados. Cada vez se asemejan más votar y comprar, el Estado y el mercado, el ciudadano y el consumidor. El microtargeting se convierte en praxis general de la psicopolítica. (HAN, 2014, p. 94).28 Nesse contexto, a psicopolítica dos algoritmos que gerencia as fake news atuam calculando comportamento, consumo e tendências, incluindo alfabetização digital por parte de pessoas mais idosas, que aprenderam e passaram a ter mais iniciativa de interação com computadores, em particular as mídias digitais, a partir de 2016. O que se destaca com isso é que a mudança de percepção promovida pelo impacto que notícias menos prováveis de serem verdadeiras circularam com grande influência pelas redes dos usuários mais velhos, que passaram a usar de forma mais efetiva as redes sociais e que há um aumento desse mesmo perfil de notícia entre os usuários mais jovens. Ainda segundo a análise da pesquisa de Oxford, esse aumento do uso das tecnologias digitais em rede possibilitou checar que as iniciativas dos usos das redes indicaram que grande parte do uso tinha motivações políticas ligadas a notícias indesejadas, comprovadamente fake news, e que as plataformas reforçaram a vigilância na moderação e no policiamento para remover os perfis falsos disseminadores de fake news. Mesmo com isso, a pesquisa mostrou que, “Apesar desses esforços, as notícias indesejadas continuam a se espalhar em momentos críticos da vida pública nos EUA.” E aponta para o fato de ter siso o Twitter, a rede social com o maior número de contas de usuários vinculadas à disseminação de notícias falsas e notícias indesejáveis, com conteúdos abjetos e mensagens de ódio e preconceitos, durante as eleições do ano de 2016, e que esses perfis falsos de usuários continuaram ativos, espalhando fake news por todo o ano de 2018, ano em que ocorreram as eleições majoritárias dos EUA. Para os pesquisadores da Universidade de Oxford, os dados que foram visualizados e associados por meio de acesso as redes sociais, em que se identificou os perfis dos usuários, serviram para a catalogação das informações e para o rastreamento desses perfis conectados por elos associativos, a partir dos quais foi possível fazer um mapeamento dos usuários, dos temas e das palavras-chaves, por meio do algoritmo Fruchterman – Reingold, no cálculo de rastreamento das visualizações para se poder realizar o mapeamento da pesquisa. Visualizar dados de redes sociais é uma poderosa maneira de entender como as pessoas compartilham informações e associar um ao outro. Usando o selecionado palavras-chave, contas iniciais e links conhecidos para conteúdo específico, é possível construir grandes visualizações de rede que podem ser examinadas para encontrar comunidades de contas ou “grupos” que compartilham tipos semelhantes de conteúdo entre si. Os mapas sociais de rede compreendem nós que representam contas individuais, conectadas a outros nós no mapa por meio de relações sociais. O algoritmo de visualização Fruchterman – Reingold pode ser usado para representar os padrões de conexão entre esses nós. Ele organiza os nós em um visualização através de uma força centrífuga que empurra nós para a borda e uma força coesa que puxa nós fortemente conectados juntos. Esse processo produz “segmentos” focados de usuários que compartilhem tipos de conteúdo muito semelhantes e específicos entre si. Segmentos que compartilham algum conteúdo com uns aos outros são agregados em “grupos”. No caso, esse conteúdo indesejado, o qual a pesquisa classifica, diz respeito às fake news de indivíduo/usuário e grupos de compartilhamento que têm o perfil de identidade digital associado ao acesso do conteúdo das notícias falsas compartilhadas com maior frequência. Na análise, é identificado que interação digital e a troca de informação nas redes sociais são feitas por uma associação de grupos de interesses temáticos entre membros que compartilham um determinado padrão de mensagens. Esse padrão é associado a critérios de classificação e armazenados em banco de dados de controle das redes sociais, que são usados visando a influência da percepção e comportamento na tomada de decisão dos usuários nas mídias sociais. Do ponto de vista sociológico, sabemos que a percepção social e a autopercepção dos indivíduos também estão associadas a formas de vigilância e autovigilância numa dada condição social de controle (SILVA, 2020) dentro das redes de cultura visual. O controle da imagem e seus desdobramentos está associada a um jogo de performance entre o “eu” e o “outro”, identificando o lugar que cada um ocupa no cenário social, fundado nas motivações, identificação e orientação de condutas relativas à formação identitária dos sujeitos, como analisamos em outros trabalhos (SILVA, 2009, 2019). Nesse contexto, acreditamos que numa sociedade em rede, a eficiência da vigilância e da autopercepção dos indivíduos/usuários se somam à vigilância e controle dos afetos, como bem afirma Han (2014). La vigilância digital es precisamente más eficiente porque es aperspectivista. No tiene la limitación que es propia de la óptica analógica. La óptica digital posibilita la vigilancia desde todos los ángulos. Así, eliminan los ángulos muertos. Frente a la óptica analógica, perspectivista, puede dirigir su mirada incluso hacia la psique (HAN, 2014, p. 86).29 Diante desse processo de pós-verdade, o controle das percepções subjetivas, por parte dos mecanismos de vigilância digital e dispositivos de influência e orientação de condutas, vemos que o raciocínio motivado dos sujeitos atua num campo psicopolítico de forma intersubjetiva. Nesse campo, a percepção dos interesses e identificações amplifica a solidificação de grupos que consomem o mesmo padrão de informação e não se leva em conta informações contrárias a que esses querem crer. É aí que vemos atuar a biopolítica da vigilância digital, estruturada por algoritmos. Esse processo induzido por algoritmos opera em sistema de vigilância e controle monitorado por disseminação de desinformação, sobre as quais as fake news funcionam como instrumento eficaz na orientação de condutas e na condução da opinião pública e tomadas de posicionamento político, por parte dos indivíduos, relativas a temas, ideias, visões políticas que urgem no cotidiano da sociedade em rede. Essas orientações de condutas e condução da opinião pública ficam mais evidentes sobretudo quando se trata de consultas à população ou períodos de eleição, a exemplo de plebiscitos como o BREXIT e as eleições majoritárias nos EUA e Brasil. Nessa era de fake news e pós-verdade, parecemos viver num mundo conectado por dispositivos em que circula uma cultura política de narrativas e contranarrativas midiáticas em rede, que parecem nos desconectar da vida real e material. O que não é verdade. Esse mundo virtual de dispositivos conectados, a partir dos quais circulam os dados de todos os indivíduos, conectados ou não a ele, é o mundo de uma virtualidade real e não de uma realidade virtual (CASTELLS, 1999). Com isso, se faz necessário destacar o conjunto dos interesses políticos que estão presentes nesse processo ideológico e biopolitico presente nessa cultura da desinformação promovida pelas fake news, nesse contexto de neoliberalismo conservador. Esse processo de desinformação é uma estratégia de guerra de narrativas nessa nova realidade política. Nessa nova estratégia, os fenômenos do binômio fake news/pós-verdade, atuam em outros níveis da ideologia, da psicologia de massa e da psicopolítica. Essas novas formas de controles, presente no binômio fake news/pós-verdade, então amparadas em modos coletivos de raciocínios motivados, que envolvem tecnologia de informação e psicologia social, a serviço des interessespolíticos e ideológicos, que são neoliberais e conservadores. A configuração dessa nova estrutura de poder atua de forma sofisticada e sutil, sobre o governo da subjetividade dos afetos dos indivíduos. 3 FOUCAULT E O GOVERNO DA SUBJETIVIDADE DOS AFETOS COLETIVOS: SOBRE A VULNERABILIDADE DIGITAL DOS INDIVÍDUOS/USUÁRIOS Reiterando o que afirmamos no início do livro, procuramos fazer nossas análises neste trabalho buscando aproximações pertinentes entre autores importantes, como Foucault e Adorno, que a princípio são distintos em suas reflexões, mas se aproximam em questões relativas à verdade, ao poder, às formas de dominação, como nos mostra Deborah Cook, no seu livro Adorno, Foucault and the Critique of West (2020). Cook apresenta as proximidades pertinentes entre esses dois pensadores, pela leitura crítica que ambos fazem de Hegel e Kant, pela influência que ambos têm de Nietzsche, pela forma como ambos rejeitam a teleologia histórica do marxismo e como ambos formalizam uma crítica contra o subjetivismo filosófico na fenomenologia de Husserl. Ainda concordamos plenamente com Cook quando a autora afirma que seja possível trazer questões que ligam Adorno a Foucault, a explicações pertinente ao século XXI, século o qual nenhum dos dois filósofos chegaram a conhecer (COOK, 2020). Acredito que refletir sobre as novas formas de poder e dominação que estão fundadas e esferas institucionais e ideologias, presentes na atualidade, são questões do tempo presente, que ainda cabem uma reflexão pautada nos argumentos que tanto Adorno quanto Foucault ajudaram a construir, ao longo de suas trajetórias filosóficas. Adorno e Foucault ainda são muito atuais. Ambos compartilham origens filosóficas muito próximas e, dentro da tradição do conhecimento, ambos enfocam, de forma crítica, temas e assuntos que marcam fortemente o nosso contemporâneo. O caráter antissistêmico no trabalho de ambos tem papel importante na compreensão e análise do conhecimento histórico. Os trabalhos de Foucault e Adorno apresentam uma forte influência da epistemologia histórica, assim como também influência do pensamento niilista. Esses dois autores são de fundamental importância para refletirmos sobre questões antigas, relativas a formas de dominação ideológicas e relações de poder que se apresentam hoje, por meio de mecanismos de controle que são forjados numa sociedade em rede e mídias sociais, que nem Foucault nem Adorno chegaram a conhecer. Trataremos nesse capítulo terceiro, mais propriamente, da influência de Michel Foucault na nossa análise sobre a governabilidade das formas biopolíticas do binômio fake news e pós-verdade, com base na noção raciocínio motivado. No capítulo quarto, posterior a este, daremos maior atenção à teoria crítica de Theodore Adorno sobre a necessidade de esclarecimento e crítica ao pensamento mítico, na sociedade contemporânea. Fazemos esse preâmbulo para fundamentarmos nosso problema de pesquisa sobre a necessidade da abordagem do conhecimento teórico das formas de dominação, que são relativas à crise da racionalidade. Racionalidade essa que parece se perder no que conceituamos como irracionalismo de conveniência do fascismo digital cotidiano. Nesse ambiente tumultuado em que o irracionalismo de conveniência fascista opera, vemos se formar um elo de ligação entre as forma ideológicas dos interesses dos setores de classe mais estruturados da sociedade, que comungam de ideologias falhas ligadas à fusão de interesses religiosos, comerciais, agroindustriais, militares, dentre outros, e mecanismos ligados a dispositivos jurídico-políticos e manipulação dos sistemas de informação pública, que operam numa forma de governabilidade fundada naquilo que Foucault definiu como [...] um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são elementos dos dispositivos. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos. (FOUCAULT, 1979, p. 244). Essa governabilidade biopolítica é “um fenômeno particularmente astucioso, [...] as técnicas de governo se tornaram a questão política fundamental e o espaço real da luta política.” (FOUCAULT, 1979, p. 292). E, dentro desse aspecto, os interesses públicos e privados se confundem. Com base nisso, conseguimos entender que mediante o jogo de interesse público e privado, várias empresas e grupos políticos foram patrocinadores do processo de desinformação durante os processos políticos do ano de 2018, no Brasil. Vimos também se formar um conjuntura sobre a qual convergiram os interesses dos vários setores conservadores do país, em favor de uma forma de governabilidade motivada por afetos políticos generalizados, em que discurso de ódio foram propagados de forma discriminatória contra vários grupos sociais em vários setores da sociedade brasileira. Essa conjuntura foi bastante eficiente em mobilizar instrumentos de uso operacionais, da política dos afetos, que envolveu ideologias falhas associadas à pós-verdade, formando um dispositivo psicopolítico (HAN, 2014) eficiente na colonização das mentalidades e nas expressões das formas de violência simbólica desses indivíduos/usuários das redes. Nesse processo de convergência de interesses, questões estão ancoradas em temas sexual, moral, ideológicos ou de natureza da intimidade, na qual esses indivíduos têm algum tipo de identificação, são transformados em temas de motivação política e orientação de condutas dos indivíduos/usuários. Isso motiva os indivíduos a formarem uma opinião, como viés ofensivo e defensivo, vinculados a suas visões de mundo, resultando objetivamente num esforço de construção de narrativas de bases peculiares e valores morais, que reforçam seus pontos de vistas, dentro daquilo que identificamos ser o raciocínio motivado por sistema de crenças a partir das ideologias falhas (STANLEY, 2015). Esse processo reforça questões que confirmam as expectativas e preconcepções desses indivíduos/usuários, e são traduzidas em desejos sobre coisas que dizem respeito a eles, de alguma forma. No processo do raciocínio motivado da pós-verdade, não se leva em conta informações contrárias as que os indivíduos/usuários querem acreditar, o que faz aproximar ainda mais daquilo que julgamos ser o dispositivo do biopoder e da psicopolítica que estrutura o governo de si, dentro do contexto do governo das mentalidades, como nos ajuda a compreender Foucault (1979) e Han (2014). O governo de si segundo, Foucault (1979), é determinante para as relações de poder no uso do controle institucional e dominação intersubjetiva dos corpos, numa espécie de governo das mentalidades que ele traduz como, “O conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análise e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer essa forma bastante específica de poder [...] por instrumentos essenciais os dispositivos de segurança” (FOUCAULT, 1979, p. 292). Esse conceito faz parte de uma ordem de poder disciplinar instituído diretamente sobre o indivíduo e sobre a coletividade por meio das normas de condutas, estabelecidas nas instâncias institucionais do mundo moderno, que agora é operada por estruturas algorítmicas de controle de dados e vigilância digitais. Segundo Byung-Chul Han (2014), essa é uma forma de biopolítica que tem lugar no mudo moderno no controle dos corpos sociais como um poder sistêmico aberto e ampliado. En lugar de atormentar al cuerpo, el poder disciplinario lo fija a un sistema de normas. Una coacción calculada atraviesa cada parte del cuerpo y está presente hasta en el automatismo de las costumbres. Hace del cuerpo una máquina de producción. Una ortopedia concertada. Las disciplinas son métodos que permiten el control minucioso de las operaciones del cuerpo, que garantizan la sujeción constante de sus fuerzas y les imponen una relación de docilidade utilidade. [...]. El poder disciplinario es un podernormativo. Somente al sujeto a un código de normas, preceptos y prohibiciones, así como elimina desviaciones y anomalías. Esta negatividad del adiestramiento es constitutiva del poder disciplinario. (HAN, 2014, p. 36).30 Com o advento da hipermodernidade esse exercício da biopolítica passa a se constituir por um dispositivo de tecnologia de controle social e disciplinamento mais sofisticado como a manipulação e vigilância dos dados e dos indivíduos/usuários, por meio de instrumentos de controle coletivo, sobre perfis sociais que transcende ao sistema de normas e influenciam diretamente comportamentos e condutas mediados por um biopoder do corpo social, orientado sobretudo por desinformações em massa e ideologias conservadoras e ultraconservadoras, que faz com que esse corpo social assimile um comportamento disciplinado. Mais uma vez, o conceito de dispositivo nos possibilita uma crítica ao conjunto ideológico que está representado no binômio pós-verdade/fake news, entendendo que entre ideologia e dispositivos, conceitos distintos, pode haver aproximações explicativas, a partir de linhas de raciocínio crítico que se dedique a entender o imperativo dessas novas formas de controle, manipulação, sujeição e disciplinamento de condutas e comportamentos dos corpos sociais. Isso também nos ajuda a refletir sobre novas formas de saber e de poder que incidem em perspectivas de crise da racionalidade e dos afetos, como o medo, por exemplo, que é instrumentalizado como discurso, por políticos autoritários e populistas que representam os conservadores contemporâneos, como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Nesse contexto, as fake news e a pós-verdade formam um conjunto de dispositivos de governabilidade da subjetividade e disciplinamento, dentro de uma ordem discursiva, pautada na desinformação institucional e no raciocínio motivado, a serviço de interesses conservadores e declaradamente fascistas, que acionam mecanismos emocionais e afetos políticos de controle coletivo, que se reproduzem no disciplinamento imposto pelo medo compartilhado socialmente. Assim, entendemos que a ordem discursiva de toda sociedade, como nos mostra Foucault (2004), [...] é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (FOUCAULT, 2004, p. 9). Sobre essa questão, Sérgio Amadeu Silveira afirma que, A proposta da governamentalidade abre espaço para compreender saberes que redundaram em estratégias e políticas de controle das populações. Também permite observar a relação dos dispositivos – em interação com o Estado. O termo governança poderia ser empregado se fosse entendido mais amplamente, no mesmo sentido que Foucault emprega a expressão governo. (SILVEIRA, 2017, p. 269). A instrumentalização do poder que o governo formula, na configuração de suas políticas de controle de estado sobre os indivíduos, é expresso pela forma de manutenção da violência do discurso, que resulta na prática do vigiar e punir (FOUCAULT, 1986). Como Foucault (2004) afirma ainda, Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que se traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos nos apoderar. (FOUCAULT, 2004, p. 10). A biopolítica desenvolvida na perspectiva foucaultiana é a prática de biopoderes exercidos em contextos locais, a partir da qual a população é ao mesmo tempo o alvo e o instrumento dessa relação de controle e vigilância, exercida pelos governos (poder jurídico-político) e pelo mercado (poder econômico-financeiro) que opera na ordem dos interesses privados e públicos da biopolítica liberal (FOUCAULT, 2020) e neoliberal (CHAMAYOU, 2020). No conjunto da análise de Foucault, esse biopoder se desdobra na ordem do discurso ao longo da história, em que, As práticas judiciárias – a maneira pela qual, entre os homens, se arbitram os danos e as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do ocidente, se concebeu e se definiu a maneira como os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido, a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras, todas essas regras ou, se quiserem, todas essas práticas regulares, é claro, mas também modificadas sem cessar através da história – me parecem uma das formas pelas quais nossa sociedade definiu tipos de subjetividade, formas de saber e, por conseguinte, relações entre o homem e a verdade que merecem ser estudadas. (FOUCAULT, 1999, p. 8). As formas de racionalidade jurídico-política e sua relação com a subjetividade dos indivíduos ajudam-nos a entender melhor essa relação forjada em acordos instituídos por manutenções de poder sobre esse corpo social, em que se admitem as práticas disciplinares de vigilância, em nome da segurança e manutenção da vida de forma autoconsciente, na esfera pública política e digital da sociedade em rede. Essas são as questões que envolvem a governança autoconsciente, na política dos afetos e do disciplinamento moral e comportamental, que são parte do processo do irracionalismo de conveniência da pós-verdade no neoliberalismo de controle disciplinar. Como afirma Han, (2014), “El poder disciplinario es un poder normativo. Somete al sujeto a un código de normas, preceptos y prohibiciones, así como elimina des- viaciones y anomalías. Esta negatividad del adies- tramiento es constitutiva del poder disciplinario.” (HAN, 2014, p. 36). Isso nos ajuda a atender a ligação dos interesses implicados no uso do binômio pós-verdade/fake news, na configuração das formas de desinformação contemporânea e seus mecanismos biopolíticos da sociedade neoliberal forjada em rede. Com base nisso, o processo de desinformação das fake news, instrumentalizadas por ideólogos do fascismo digital contemporâneo, ajudam a alimentar o imaginário conservador e ultraconservador vigente nas tramas das mídias sociais, como um modo de disciplinamento de conduta. E isso faz demonstrar que o processo de persuasão e orientação de condutas, por meio das mídias sociais, têm sido eficazes na configuração de consensos coletivos, motivado por assimilação de valores e raciocínio motivado que incidem na manipulação da opinião pública e orientação de condutas políticas de muitos indivíduos/usuários. Muitos indivíduos/usuários de redes tendem a crer e repassar informações, sobre as quais eles têm algum tipo de identificação, como nos mostra Barbosa (2019). Nesse conjunto de indivíduos/usuários, que repassam deliberadamente as fake news, existem [...] aqueles que acreditam divulgando até aqueles que repassam mesmo sem acreditar plenamente – fora os que não se importam se a notícia é verdadeira ou não. Esse quadro é bem mais complexo do que a tese de que pessoas repassam fake news por ser ignorantes ou manipuláveis. (BARBOSA, 2019, p. 17). Acreditamos que o processo de indução do repasse das mensagens falsas, por parte de quem compartilha, atende a uma trama autoconsciente de disciplinamento, que se justificam na crença ou desejo de crença, nos pronunciamentos discursivos, subjacentes aos temas presentes nas fake news. Nesse contexto, o processo acelerado da desinformação amplia o contexto da autoconsciência sobre as mentiras na rede. Definimos a autoconsciência como capacidade de identificação e tomada de posição por parte dos indivíduos nos processos sociais, sobretudo em contextos de mudanças em que se testemunham formas de reestruturação institucional, política e econômica que incidem em modos violência impostas pelo Estado ou por agentes sociais no tecido social. Logo, essa autoconsciênciabons parceiros de conversa que também nos ajudaram no construto deste livro. Por isso, devo afirmar que os diálogos que pude realizar por e-mail com o professor Sérgio Costa, da Universidade Livre de Berlin, Alemanha, foram pontuais e redirecionaram o curso de nossos caminhos nessa trajetória de pesquisa. Do mesmo modo, os diálogos com os professores Frederico Lyra de Carvalho, da Universidade de Lille, França. Gostaria ainda de agradecer a todos os meus colegas, da Faculdade de Ciências Sociais FCS/Unirio, e do Programa de Pós-graduação em Memória Social da PPGMS/Unirio, que nos deram apoio e cobertura institucional, para que nós pudéssemos desenvolver a pesquisa. Por fim, gostaria imensamente de agradecer ao professor George Gomes Coutinho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao professor Marcos Abraão Riberio, do Instituto Federal Fluminense (IFF), e ao sociólogo João Arthur Basile Macieira (PUC-RJ), amigos queridos que nos indicaram leituras importantes para a pesquisa que resultou nesse livro. Todas essas pessoas foram fundamentais na ajuda, com seus comentários, que incidiu no tom reflexivo e crítico, que esse livro pode ter. Logo, destaco que esse trabalho foi construído num processo dialógico desde seu início, valorizando cada opinião e cada colaboração que tivemos da parte de todas essas pessoas parceiras e amigas, que aqui agradecemos. Meu muito obrigado a todos! Mas ao mesmo tempo, a escrita é também um processo de diálogo conosco. E, em sendo assim, também tentamos olhar para dentro de nossas ideias, buscando nos entender nesse processo de escrita crítica, mergulhado num cenário conturbado social e politicamente. Nos perguntávamos, muitas vezes, sobre qual seria o nosso papel na construção de uma crítica necessária à nossa existência, nos dias de agonia que vivemos durante o isolamento social, no qual nos vimos enclausurados em nossas torres de marfim, hora em Salvador hora no Rio de Janeiro. Os fenômenos da realidade vivida que observamos, como a degradação do respeito coletivo, a crise das instituições públicas e a produção massificada da mentira, e a ascensão de um fascismo, por meio dos processos das fake news, nesse novo e absurdo “normal”, conjunturado por problemas por todos os lados, sobretudo da ordem do político, nos fez perceber o irracionalismo violento, pelo qual todos estávamos passando. Todos os fenômenos, nessa diagnose do tempo presente, mostraram algo de fato monstruoso e que demandaria uma atenção sociológica e interdisciplinar bastante fundamentada e, ao mesmo tempo, ampliada. Sobretudo, por entendermos que esse processo era algo que atuava contra o espírito da democracia, no mundo, de uma maneira geral, não só no Brasil. Vimos, com isso, que, dentro desse processo, a emergência do advento do ultraconservadorismo da nova direita e suas ideologias falhas apresentaram-se como fatos incontestes que atingiam em cheio o ethos democrático e a cultura política, acelerando o processo de degradação dos valores políticos, sociais e morais dos nossos dias, no contexto de uma sociedade em rede. Nesse processo, o fenômeno da mídias sociais, por exemplo, com o uso de plataformas digitais, portais de notícias e redes sociais, foram recorrentemente instrumentalizadas por líderes políticos ultraconservadores, a exemplo de Jair Bolsonaro e Donald Trump, para fazer reverberar suas retóricas de ódio frente à opinião pública, e, em muitas dessas falas publicadas no Twitter, por exemplo, constatava-se que vários pronunciamentos eram frutos das elaborações de argumentos falsos sobre fatos que não correspondiam à realidade e se reverberavam como desinformações massivas por meio das fake news. A esfera pública da internet, sobretudo os espaços das mídias sociais, foram ocupados por indivíduos/usuários que colonizaram esses veículos de forma intensa, produzindo, consumindo e replicando mentiras deliberadas. A produção da mentira massificada foi um dos objetos do nosso interesse nesta pesquisa. Entendemos essa produção de fake news como um forte instrumento de uso político, que resultava dos novos arranjos articulados pela ideologia dominante neoliberal, travestida de uma nova direita ultraconservadora que vimos surgir no século XXI e que se mostrou, de forma mais intensa, com a grande crise econômica do ano de 2008 no mundo. Vale ressaltar que, desde 2008, essa conjuntura de crise, em particular um colapso econômico no mundo de uma maneira geral, potencializou os primeiros acordes dessas mudanças gerais na conjuntura política mundial. Foi com a crise de 2008, sobretudo nos EUA, que vimos surgir discursos conservadores consorciando-se com discursos neoliberais, reivindicando a reforma do modelo de governo e do estado democrático. Naquele momento, vimos ressurgir os discursos de um retorno ao nacionalismo de Estado. E não foi à toa que o próprio governo democrático do presidente Barak Obama fez uso de um grande volume da verba pública para socorrer bancos e montadoras, dentre outros setores, nos EUA. A crise econômica provocada pelo neoliberalismo da bolha imobiliária norte- americana reforçou o discurso da extrema-direita norte-americana sobre a necessidade de mudar a política de governo para que se seguisse uma trajetória mais conservadora, voltada para uma política protecionista e nacionalista. Paradoxalmente, essa crise ampliou ainda mais o discurso do neoliberalismo, na esfera do Estado. Na nossa avaliação, os efeitos perversos dessa crise neoliberal, iniciada em 2008, foram repercutidas pelo mundo globalizado como um todo. Países europeus, como Itália, Portugal, Grécia e Espanha, dentre outros, sofreram com uma grande perda econômica, que resultou em cortes salariais de mais de quarenta por cento, promovendo um empobrecimento abrupto nesses países, sobretudo porque, além da perda salarial, muitas empresas decretaram falência, o que provocou um grande aumento da exclusão do mercado formal de trabalho. Com isso, o endividamento público passou a ser um dos grandes problemas para esses países de uma maneira geral, pois o Estado teria que arcar com o custo da crise econômica com políticas de austeridade, o que prejudicava ainda mais o poder público dos Estados e a falência do sistema de seguridade social e de implementação de políticas públicas assistenciais, sobretudo. Dessa crise econômica, vê-se ampliar uma grande crise política, que tocou em cheio países emergentes como o Brasil. Lembremos que, a partir de 2008, muitas outras crises sucederam-se, e o Brasil fez fortes investimentos para conter os avanços da crise econômica e seus efeitos políticos, ainda sendo um país comandado por um governo de esquerda. Nesse contexto, vimos emergir uma forte crise política interna que se reproduziu na falência da elaboração de políticas públicas no Brasil, assim como vimos que os acordos internos no país sofreram arranjos em direção a um neoliberalismo. Com isso, formou-se um conjunto de manobras políticas e jurídicas, direcionadas para fortalecer grupos conservadores e políticos da direita no Brasil, que atuaram diretamente no enfraquecimento da gestão pública da esquerda brasileira, sobretudo no âmbito do Poder Executivo dos estados e da federação. A reboque desse processo, em 2013, vimos surgir uma onda popular que se convencionou chamar de jornadas de junho. Esse movimento já dava sinais de uma crise de representatividade política e acenava para uma espetacularização conservadora no país. A ocupação das ruas em junho de 2013 impedia que se levantassem bandeiras partidárias e sindicais, e se ouvia da voz dos populares: “a única bandeira que se permite aqui é a bandeira do Brasil”. Tom claramente ufanista de um nacionalismo emergente, que se afinava com outras sonoridades ideológicas de cunho ultraconservador. Essas sonoridades conservadoras se faziam presentes, de uma maneira ou de outra, em grupos políticos na sociedade globalizada, dando sinais de que dias piores estavam por vir... O discurso ultraconservador naquele momento começava a ocupar as mentes, os corpos e asé marcada pelo campo dos interesses que definem as identificações dos indivíduos, frente a esses processos de mudança de comportamento. Com isso, acreditamos que a tomada de posicionamento nas redes sociais é promotora de uma sociabilidade autoconsciente de ação, voltada para fins e comportamentos específicos orientados para esses fins. Nesse contexto, a disponibilidade de dados dos indivíduos/usuários faz parte de uma relação de controle autoconsciente, a partir da qual se estabelece um jogo de interesses entre agentes mediadores do controle das informações e desinformações na sociedade em rede. A partir desse contexto, governos, empresas e grupos criminosos e as milícias digitais agem de forma instrumentalmente eficaz, na exploração das fragilidades dos indivíduos/usuários e na vulnerabilidade digital a que todos os usuários das redes estão sujeitos. Existe assim uma autoconsciência compartilhada sobre a situação da vulnerabilidade digital da vida dos indivíduos que se espelha na vulnerabilidade cotidiana da vida social material. O capitalismo dos afetos digitalizados tem suas qualidades e suas vulnerabilidades, e, segundo Han (2014), o capitalismo das emoções sabe precisamente como explorar esse contexto, tanto nas redes sociais da internet como na vida diária, fora do mundo da internet. A situação de vulnerabilidade digital, material e psicológica em que os indivíduos se encontram, de uma maneira geral, nesse processo de crise mundial generalizada e crise pandêmica, provocado pela Covid-19, é uma situação propícia para a ação de agentes biopolíticos de controle coletivos, presentes dentro e fora da esfera do Estado. A vulnerabilidade social e digital é generalizada e compartilhada pela grande camada da sociedade, de uma maneira geral. A exemplo do que citamos no primeiro capítulo deste livro, sobre a captura de dados dos indivíduos/usuários, na matéria publicado pelo El Pais, em 26 de janeiro de 2021, o sequestro do vazamento dos dados deixou vulneráveis digitalmente 223 milhões de CPFs e CNPJs de brasileiros, que tiveram os seus cadastros roubados e disponibilizados para usos ilegais. Conforme a matéria citada, foi confirmada a autenticidade dos dados cadastrais, de pessoas física e jurídica, de milhões de brasileiros, inclusive indivíduos mortos, que tiveram seus cadastros de pessoas físicas e jurídicas disponibilizados na deep web. Os dados desses indivíduos, ainda segundo a matéria, estão sendo oferecidos para venda ao preço de 100 dólares, por pacote contendo o cadastro de 1000 pessoas. Esse fato instaurou um estado de exceção no governo dos algoritmos, estado esse que se associa às políticas neoliberais de controle no governo da vulnerabilidade digital da sociedade brasileira. Esse processo biopolítico de controle dos dados reforça a tese do governo dos algoritmos, sobre o qual nos alerta Silveira (2017), somada à perversão das políticas do neoliberalismo e à destruição da privacidade na sociedade globalizada, qual nos alerta Slobodian (2018; 2020), Han (2014) e Brown (2019). Isso nos leva a um processo de ruína social e econômica como bem alerta Brown, com seu livro As Ruínas do Neoliberalismo (2019). Porém, essa questão relativa à segurança dos dados e às políticas de desenvolvimento econômico do neoliberalismo, faz parte de uma questão bem mais ampla. A doutrina neoliberal promove uma propagação do medo compartilhado pela insegurança generalizada. Isso é um projeto doutrinário e ideologicamente estruturado, que já foi instaurado com o liberalismo em séculos passado, quando se pensava as formas de estabelecimento dos contratos sociais, pautadas pelo poder do Estado sobre os indivíduos e o direito de propriedade e vida privada. Safatle (2015), fundado numa visão hobbesiana, do contrato social, afirma que a vulnerabilidade e o afeto do medo estão permanentemente latentes na vida social. O que leva a entender a justificativa de que o indivíduo, pelo afeto do medo, justifica o seu poder de proteção da propriedade e de defesa da sua liberdade, mediado pelo contrato social de origem hobbesiana. O discurso ideológico do liberalismo usou esse medo como dispositivo biopolítico de controle social. Com isso, o medo se transformou também num afeto político, tendo por base a justificativa de mecanismo de defesa, por parte dos indivíduos, na estrutura social liberal. Ainda segundo Safatle, Trata-se principalmente e de maneira silenciosa, de definir a figura do indivíduo defensor de sua privacidade e integridade como horizonte, ao mesmo tempo último e fundador, dos vínculos sociais. [...]. “Integridade” significa aqui também a soma dos predicados que possuo e que determinam minha individualidade, os predicados dos quais sou proprietário. Assim, a tese principal é que o medo como afeto político central é indissociável da compreensão do indivíduo, com seus sistemas de interesses e suas fronteiras a serem continuamente defendidas, como fundamento para os processos de reconhecimento. (SAFATLE, 2015, p. 17). Sua conclusão correta é que esse tipo de afeto é parte constitutiva dos sistemas políticos e que ele é indissociável de uma produção social do medo que na nossa visão está diretamente ligado a políticas de segurança pública, em última instancia políticas ligadas à questão de segurança nacional e às políticas de controle da informação. Nesse sentido, o maior ou menor grau de vulnerabilidade, desamparo e precarização da vida social, está ligado também à conscientização dessa condição de controle dos processos de informação e políticas de desinformação, nessa sociedade do medo. Com isso, produzir, reproduzir e consumir informação é fazer parte de um sistema de compartilhamento de dados, que, de algum modo, explora o medo como dispositivo de controle e dominação social. A autoconsciência crítica desse fato e desse contexto, voltando à reflexão sobre a consciência histórica, se dificulta mediante os processos ideológicos de desinformação em massa, como a disseminação das fake news e o seu contexto de pós-verdade. Isso também é parte do processo de acesso a informação e desinformação, que está ligada a outros afetos, como o ódio, que faz parte de outras políticas de controle e disseminação de desinformação, contra aqueles segmentos que se encontram em condições de vulnerabilidade, precarização e desamparo. Todo esse contexto ligado às políticas do medo se amplia com o advento da sociedade neoliberal do capitalismo de plataforma, estruturada numa sociedade em rede, como nos referimos no início deste livro. Nessa estrutura social e econômica se faz uso de instrumentos de controle das informações falsas que incidem diretamente nas condições de dominação da reprodução social. Isso leva a sociedade, de uma maneira geral, a uma situação de alerta permanente que ajuda a justificar a intervenção do Estado no controle de todas as áreas da vida social, numa espécie de doutrina de procedimentos de controle neoliberal, como afirma Brown (2019). Ou como nos permite entender que vivemos numa espécie de “democracia totalitária” presente na genealogia do neoliberalismo contemporâneo, como bem definiu Chamayou (2020). O que faz Chamayou ainda afirmar que na atual conjuntura do neoliberalismo, essa democracia totalitária “é, antes de tudo, a retomada de um lugar-comum apoiado no pensamento reacionário, motivo clássico de uma longa tradição de ódio à democracia que remonta, no que diz respeito ao período moderno, ao anti-iluminismo” (CHAMAYOU, 2020, p. 325). Ou seja, o neoliberalismo, e suas formas biopolíticas de controle, nos leva a um retrocesso no qual o avanço da sociedade fundada no capitalismo digital, que visa controlar os afetos, os dados e vulnerabilizar, de forma generalizada, o corpo social. Do ponto de vista filosófico, consideramos que isso é um avanço para o atraso, como bem aponta Walter Benjamin e as teses sobre a história. Nas reflexões benjaminianas sobre o Anjo da História, nas teses sobre história, Walter Benjamin (1996) descreve um anjo que abre as asas de costas para o futuro, parase proteger da tempestade, e isso o faz olhar para o passado, que é destruído pelo progresso do presente. Segundo ele, Há um quadro de Klee que se chama Ângelus Novus. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. [...]. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN, 1996, p. 226). Essa tempestade, no nosso caso, é o que chamamos de enxurrada de políticas de desenvolvimento de um capitalismo excludente e insustentável do ponto de vista do equilíbrio social de qualquer sociedade, nesta era de globalização, em que os discursos neoliberais, autoritários e as práticas antidemocráticas autoconscientes da gestão pública atentam contra o desenvolvimento do Estado democrático e o desenvolvimento econômico. Essa mesma tempestade do capitalismo neoliberal atualmente se soma a práticas ultraconservadoras de populismos digitais de líderes de governo, que manipulam os afetos dos seus seguidores por meio das mídias sociais. É válido ressaltar que, dentro desse contexto, há um processo de colonização do imaginário da doutrina neoliberal. Com isso, o imaginário social dos indivíduos ancora-se em processos de desinformação e criação de mitos salvadores que esse neoliberalismo contemporâneo propaga, a exemplo de líderes políticos como Trump e Bolsonaro, como discutimos anteriormente. De certa maneira, essa reflexão afina-se com a crítica neoliberal proposta por Gandesha (2017), em que afirma que “el neoliberalismo se centra em um modo de governablidad del sujeito” (p. 142), a partir do qual se forja uma ilusão de liberdade, que promove uma satisfação deliberada de desrespeito e negação da alteridade, negação do outro por meio de pronunciamentos autoritários que corrobora, com aquilo que com personalidade autoritária, como nos fez crer Adorno (1950). Ainda segundo Gandesha, (2017), “Portanto, si el concepto de personalidade autoritária fora viable em la atualidade, precisamos compreender em qué modo pued ser entendido em las condiciones actuales del capitalismo.” (p. 135)31. Nesse sentido, as práticas abjetas e nefastas, que promovem desinformação nas mídias sociais, pelos atos de fala de líderes populistas, referendam essa ilusão de liberdade do neoliberalismo autoritário. A ilusão de liberdade, de se achar no direito de promover desinformação, que essa onda de fake news provoca, é, na verdade, uma ilusão de liberdade que nos faz regredir socialmente a formas rudimentares de barbárie da vida social. O personalismo autoritário e populista de governos como Bolsonaro avançam em direção ao atraso, proposto pela política de mobilização dos afetos da extrema-direita em sua versão de doutrina neoliberal. Com bem analisa Barbosa (2019), O fenômeno Bolsonaro, que é parte de uma realidade mais ampla de ascensão da extrema-direita, precisa ser entendido na esfera dos valores. A indignação antissistema e a certeza de que valores familiares criam um ambiente de indiferença em relação à veracidade na política. Parece ser mais importante proteger um mundo visto como ameaçado. (BARBOSA, 2019, p. 20). A doutrina neoliberal conservadora que resulta desse contexto vale-se de instrumentos ideológicos de persuasão, medo, mentira, violência, e brutalismos políticos, que alimenta a engenharia de manipulação dos afetos, como bem analisou Patrícia Campos Mello (2020), em seu livro A Máquina do Ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. Em seu livro, ela cita que, Na versão moderna do autoritarismo – em que governantes não rasgam a Constituição nem dão golpes de Estado clássicos, mas corroem as instituições por dentro –, não é necessário censurar a internet. Nas “democracias iliberais”, segundo o vernáculo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, basta inundar as redes sociais e os grupos de WhatsApp com a versão dos fatos que se quer emplacar, para que ela se torne verdade – e abafe as outras narrativas, inclusive e sobretudo as reais. Essa avalanche de desinformação muitas vezes é “impulsionada com recursos de marketing que fazem sobressair determinados conteúdos. No Facebook e no Instagram, por exemplo, é possível pagar para que um conteúdo atinja mais pessoas, seja visto mais amiúde ou alcance certos públicos (segmentados por idade, gênero, localização e outros parâmetros). No Twitter e no Facebook, quanto mais engajamento (cliques e curtidas) tem um conteúdo, maior destaque ele recebe. No entanto, muitas vezes usam-se sistemas automatizados, os robôs ou boots, ou então pessoas contratadas, os trolls, para forjar maior engajamento em certos conteúdos e dar visibilidade a certo tema, simulando uma popularidade que ele não tem. (MELLO, 2020, p. 29-30). O conjunto de interesses dessa nova prática de governo atende a uma pauta do ultraconservadorismo que age de forma violenta, por meio de milícias digitais dentro da máquina estatal. Essa violência, além de brutalmente instituída pelo poder político é ao mesmo tempo simbólica e material e está emaranhada numa trama intersubjetiva de propagação de discursos e práticas racistas, machistas, homofóbicas, xenofóbicas, preconceituosas e toda sorte de narrativas abjetas que são dirigidas à sociedade, por meio de dispositivos discursivos de pânico moral proporcionado por milícias digitais. Como bem afirma Han (2014): También el medio digital es un medio del afecto. La comunicación digital facilita la repentina salida de afectos. Ya solo por su temporalidad, la comunicación digital transporta más afectos que sentimientos. (HAN, 2014, p. 66). E esses afetos, operados de forma pontual, ajudam a criar mitos que manipulam emoções e interesses afetivos de formas ideológicas de pronunciamentos de ideologias falhas (STANLEY, 2015), ao modo como opera Bolsonaro. A idealização do mito Bolsonaro é reforçada pela fantasia, atos de fala abjetos e retórica de ódio, fantasia que procura justificar uma insegurança generalizada, que ameaça a todos e com isso, procura justificar um retorno do nacionalismo aos moldes do estado de exceção. A invenção do mito Bolsonaro se ancora no discurso da segurança nacional e no conservadorismo moralista idealizados pelo populismo do discurso patriótico nacionalista. As suas retóricas discursivas são tematizadas com ameaças de que o Brasil vai se tornar um país comunista, no qual o caos vai se instaurar de forma generalizada, e a família, a propriedade privada e os valores morais, fundados pelos ideais cristãos, serão perdidos para sempre. A mitificação discursiva desse tipo de pronunciamento se reverbera por meio das mídias sociais, visando arregimentar seguidores que corroborem subjetivamente essa ideia, e que com isso, passem a se referir ao presidente não como um chefe de Estado, mas como uma espécie de herói do povo. Dentro desse contexto, os valores compartilhados de forma intersubjetiva por parte dos indivíduos e os afetos relativos a esses valores compõem o campo dos elementos operacionais do raciocínio motivado dos ativistas seguidores desse mito criado em tono do Bolsonaro. Dentro desse contexto, a pós-verdade, induzida pelo raciocínio motivado, prevalece como um dispositivo que aciona o circuito dos afetos, produzindo uma nova forma de percepção da opinião pública sobre a política, que, no caso de políticos como Bolsonaro, criam combinações de bravatas nacionalistas e discursos moralistas de cunho fascista, ancorados em fake news. Como bem afirma Barbosa (2019), Hoje, a subjetividade irrompe por toda parte. Perpassa a crença, a vontade e os valores; questiona a separação entre o público e o privado, entre a alma e o corpo, entre a cidadania e o íntimo, entre o neutroe o voluntarioso. A ação política exige a construção de ambientes coletivos que incluam as demandas da subjetividade, mas focando em valores compartilhados que restabeleçam a confiança no social. (BARBOSA, 2019, p. 22). Todo esse processo tem, na nossa análise, um caráter de irracionalismo autoconsciente fundado numa retórica da paranoia da segurança nacional e do medo compartilhado, que ajuda a alimentar a política do ódio digital cotidiano, nesse circuito dos afetos (SAFATLE, 2015). O medo, como afeto político, tende a construir a imagem da sociedade como corpo tendencialmente paranoico, preso à lógica securitária do que deve se imunizar contra toda violência que coloca em risco o princípio unitário da vida social. Imunidade que precisa da perpetuação funcional de um estado potencial de insegurança absoluta vinda não apenas do risco exterior, mas da violência imanente da relação entre indivíduos. (SAFATLE, 2015, p. 24). O discurso da violência promove uma assimilação de desamparo político e econômico, que aflige diretamente o corpo social, e tenta se ancorar em distorções da realidade e pânico moral (MCLUHAN, 1964), sobre temas e fatos inverossímeis que, muitas das vezes, beiram o absurdo, e distorcem a realidade de forma violenta e abjeta, a um ponto inimaginável. Acreditamos que isso promove uma insegurança ontológica, com reflete Giddens em seu livro As Consequências da Modernidade (1991), que ajuda no aumento do sentimento de desamparo político de pessoas, que se encontram fortemente motivadas a agirem mediadas pela dimensão dos afetos, numa sociedade mobilizada pelo discurso da insegurança e do medo. Quanto à questão dos afetos coletivos, presentes no corpo social, Safatle (2015) afirma que, [...] apostar na crença de que a mobilização libidinal e afetiva que sedimenta os vínculos sociais, em suas múltiplas formas, seria sempre uma regressão a ser criticada, como se a dimensão dos afetos devesse ser purificada para que a racionalidade desencantada e resignada da vida democrática pudesse se impor, esfriando o entusiasmo e calando o medo. No entanto, há de se insistir ser impossível descorporificar o social, pois é impossível purificar o espaço político de todo afeto. (SAFATLE, 2015, p. 25). A mobilização dos afetos políticos cria uma ressonância de sensibilidades emocionais, no que toca sobretudo à questão da memória social e política dos indivíduos. Essa memória entrelaça temporalidade e percepções subjetivadas e coletivizadas. Com isso concordamos com Han (2014), quando afirma que, “La memoria es un proceso dinámico, vivo, en el que distintos niveles de tiempo se interfieren e influyen mutuamente. Está sometida a delimitaciones y reordenaciones. (HAN, 2014, p. 101). A memória de uma sociedade em rede é aqui vista como um processo de constituição de experiências compartilhadas, por um corpo social, que incide numa incerteza do horizonte de expectativas de forma coletiva, à medida que a pós-verdade resulta de uma desidratação da realidade e sugere um total desapego da verdade e da temporalidade histórica. A pós- verdade está voltada para a partilha de valores, crenças e pertenças indenitárias, em detrimento da experiência ontológica do real vivido pela experiência material da temporalidade do tempo presente e passado. Com isso, a pós-verdade é a operação da ideologia agindo sobre as subjetividades coletivas, e isso se desdobra numa psicopolítica de orientação de comportamento e de controle, que não se atém ao conhecimento da história ou da realidade. Nesse sentido, o processo da pós-verdade com o qual opera o discurso fascista contemporâneo não considera o passado histórico, passando a substituí-lo por um passado mítico, fantasioso e nostálgico de uma experiência irreal que nunca existiu. Isso ocorre sobretudo quando se trata de questões relativas às ideologias que visam restaurar discursos míticos e símbolos de ordem nacionalista, que apostam na mobilização dos afetos de uma moral civil dos cidadãos e na crença de valores partilhados por ideologias conservadoras, amparadas por regimes de opressão impostos pela esfera do Estado. Nesse sentido, quando valores coletivos ligados à nação parecem estar em riscos ou sob ameaça, esse acionamento dos afetos converge como um corpo social moral que é ideologicamente acionado contra essa ameaça, e faz milhares de brasileiros simpatizantes da fantasia nacionalista irem às ruas e às mídias sociais vestidos com adereços simbólicos das cores nacionais brasileiras, o verde e amarelo, seja numa camisa da seleção brasileira ou na própria bandeira nacional. Não é por acaso que símbolos nacionais e valores tradicionais, pautados em discursos, são tão usados por líderes populistas, como Jair Bolsonaro, na tentativa de angariar legitimação do corpo social, na luta contra essas ameaças. Nesse sentido, as ideologias falhas usadas nos mecanismos de propaganda fascista são eficientes em acionar a mobilização do corpo coletivo, com elementos ligados simbolicamente à ideia de nação, à medida que propagam valores e símbolos constitutivos em um campo da política a partir de um prisma moral. Pautas políticas ligadas aos temas da moral e da tradição familiar, somadas às questões da sexualidade e da moral da educação sexual são sempre um bom exemplo de como temas dessa natureza circulam pelos dispositivos das fake news, demonstrando um sinal de ameaça à nação. E isso faz despertar o interesse imediato de muitos que se mobilizam em redes sociais, contra possíveis ameaças desse tipo. Isso ocorre porque os afetos são acionados e com isso se mobilizam comportamentos e atitudes políticas de cidadãos comuns, dentro e fora das mídias sociais, contra supostas ameaças, que existem apenas no plano das ideias incorporadas pela pós-verdade. Nesse sentido, o governo da mobilização desses afetos, propostos em práticas de vulnerabilidade biopolítica, sempre desperta a sensação de medo coletivo, compartilhado de forma generalizada. Em tempos de pós-verdade e fake news, uma notícia que veicule desinformação sobre assuntos delicados, como a sexualidade infantil, homoafetividade e questões de gênero, são sempre as mais eficazes em criar pânico moral, vide o exemplo do “kit gay”, sobre o qual refletiremos mais adiante. A persuasão desinformativa cria mecanismos de espraiamento compartilhado numa ampla rede de tramas desinformativas, na qual os indivíduos/usuários são os pontos nodais envolvidos. Os dispositivos de desinformação visam persuadir a opinião pública na tomada de posicionamentos sobre determinados assuntos, de forma sempre urgente e que atendam a um conjunto de interesses que influi na memória social falseada pela pós-verdade. A nossa questão é o quanto esses fenômenos relativos ao binômio fake news/pós-verdade está diretamente ligado à sujeição e manipulação da opinião pública, a partir do raciocínio motivado de forma autoconsciente, nesse processo de governança dos afetos. A questão da subjetividade dos afetos incide na tomada de posição da opinião pública de forma direta e indireta, assim como incide na formação da memória social compartilhada em rede. Assim, a pós-verdade ajuda a fazer parecer que as mensagens das notícias falsas, e seu conteúdo performaticamente convincente, toquem interesses a partir do acionamento dos afetos do corpo social e mobilizam as tomadas de posição da opinião pública nas redes sociais. A aparência muitas vezes convincente das fake news, e o volume com que ela se apresenta, sempre causam um impacto emocional nos receptores das mensagens. Com isso, a urgência dos debates acalorados na esfera pública sobre as notícias falsas desperta nossa atenção e muitas vezes acionam nossa ressonância emocional, mediante a mobilização eficaz dos nossos valores e afetos. Todos estão sujeitos a esse processo, é preciso aprender a filtrar e checar informações. Dentro desse contexto, os indivíduos/usuários menos advertidos ficam sobrecarregados diante da tempestade de desinformação, provocada pelas notícias falsas e guerras de narrativas de fake news,por meio de mensagens desinformativas que se apresentam como uma forte chuva de mentiras nas mídias sociais. O medo, a insegurança, a desconfiança generalizada são parte constitutiva dos processos promovidos na colonização da subjetividade e com isso a colonização do nosso imaginário fica sendo um ambiente propício para circulação de ideologias falhas, como pensa Stanley (2015). Nesse contexto de instabilidade e medo coletivo, também se instauram ameaças produzidas por discursos de descrédito ao conhecimento racional, em particular o conhecimento produzido pelas instituições de conhecimento, como as universidades. Grande parte da sociedade é levada a desenvolver um sentimento de descrédito e deslegitimação sobre o papel que as universidades têm na manutenção da produção do conhecimento para o desenvolvimento social crítico. O discurso fascista, com isso, amparado em pautas ideológicas contra a ciência e a intelectualidade, ajuda a promover a disseminação de um discurso anti-intelectual de desmobilização e desmonte das universidades e da educação. “A educação, portanto, representa uma grave ameaça ao fascismo, ou se torna um pilar de apoio para a educação mítica” (STANLEY, 2020, p. 48). No caso do Brasil, isso se aplica, seguramente. Mas há uma outra questão, que está ligada à visão ideológica e esotérica, particularmente representada por assessores do presidente Jair Bolsonaro, como Olavo de Carvalho, que deliberadamente apresentam ideias contra as universidades, justificando inclusive o fechamento de instituições importantes de ensino e pesquisa de renome na sociedade brasileira. Para Olavo de Carvalho, o anti- intelectualismo é uma luta a ser levada a sério pelo governo Bolsonaro, pois esse intelectualismo não representa o povo, particularmente o povo sofrido e excluído do Brasil. Nas palavras do próprio Olavo de Carvalho, em entrevista apresentada no livro A Guerra pela Eternidade, de autoria de Benjamin Teitelbaum, o ideólogo afirma: “O povo do Brasil – o povo pobre, o povo simples... Eles entendem as coisas muito melhor que os intelectuais. O povo brasileiro tem uma espécie de instinto de realidade”. Por quê? (pergunta Teitelbaum). “Acredito que seja porque a vida deles é muito difícil. Eles não têm tempo para fantasiar.” (TEITELBAUM, 2020, p. 227). Essa frase explica bem a perspectiva que o pensamento ultraconservador tem sobre os intelectuais que trabalham com a produção do conhecimento técnico e científico. E isso passa a ser um discurso que é reproduzido para a sociedade de uma maneira geral, por pessoas como Bolsonaro, que preferem crer nas experiências esotéricas de um assessor astrólogo, que em assessores políticos profissionais que se amparam em experiências institucionais da administração pública de governo. O governo da subjetividade, nesse caso, se institui pela sensibilização dos afetos, que operam no campo do senso comum, que se identificam muito mais com conhecimento astrológico, esotérico e doutrinas religiosas, que com o conhecimento da ciência. E isso vai se expressar, mais adiante na nossa análise, quando tratarmos dos temas ligados aos discursos negacionistas e esotéricos sobre a terra plana, em capítulos mais à frente. Mas tudo isso, toda essa lógica abstrata de negar a realidade dos fatos, está ancorada numa forma de pensamento mitificado. Os mitos atendem a uma demanda do pensamento fascista, como bem afirma Stanley (2015), e qualquer pensamento fundado em bases racionais consegue destruir facilmente os argumentos sobre o pensamento mítico, porém, nem sempre consegue vencer a crença das pessoas que voluntariamente acreditam nos mitos e nas fantasias criadas pelos mitos, sobretudo nos mitos que se inventam como salvadores do povo. Diante desse contexto de carência e vulnerabilidade coletivamente compartilhados, líderes populistas conseguem facilmente acionar e lidar com os sentimentos e os afetos de parte da população do país. O que faz com que facilmente qualquer pronunciamento de líderes populistas seja levado a sério, mesmo que sejam falas irracionais que defendam o fim da democracia, o fechamento de instituições universitárias, ou mesmo que a população não deve usar máscaras numa pandemia que já matou cerca de 500.000 brasileiros até junho de 2021. É o governo dos afetos, por meio dos mecanismos biopolíticos e psicopolíticos que fazem operar a manipulação populista das subjetividades do corpo social. O termo governo, na perspectiva foucaultiana, tem um aspecto complexo e amplo e não se restringe apenas a questões relativas à gestão e administração públicas em forma de decisões políticas tomadas de acordo com a gestão do Estado, mas também se refere a designações por meio das quais são estabelecidas as formas de “[...] conduzir condutas dos indivíduos ou grupos: governo das crianças, das almas, das comunidades, das famílias, dos doentes” (FOUCAULT, 2010, p. 244). Os governos populistas e autoritários de líderes como Bolsonaro representam uma ideologia personificada na construção de um mito, que conduz um tipo de política da perversidade que se funda na lógica do vigiar e punir. Ao mesmo tempo, esse mito não se sente confortável e seguro diante de qualquer questionamento crítico sobre suas atitudes, seja uma crítica de ordem pessoal, feita por qualquer cidadão, ou um questionamento institucional da ordem de outros poderes públicos, como o Supremo Tribunal Federal. A todos ele trata com o mesmo desrespeito público. O populismo midiático das midias sociais desse tipo de líder atende apenas aos que concordam com suas ideias paranoicas ligadas às ameaças e ao medo compartilhado. E é a partir da construção de ameaças imaginárias e paranoias coletivas, associadas ao discurso de ódio, que se caracteriza a governança desse tipo de político populista na contemporaneidade. A paranoia fascista somada aos processos da pós-verdade ajuda políticos autoritários, como Bolsonaro, a reiterar a perversidade do processo de desinformação, como prática de seu governo. Somado a isso, a instrumentalização das milícias digitais, que promovem disparos de fake news, a exemplo do gabinete do ódio, reforçam a articulação das fake news como processo de manipulação da opinião pública. Há um processo de afinidade eletiva entre a disseminação e circulação de fake news e a assimilação dessas, por parte de muitos indivíduos/usuários, como visão política de mundo, no exercício de pensamento do seu senso comum e suas representações sociais sobre a vida. Há, com isso, uma espécie de aderência simbólica em relação aos conteúdos falsos que as fake news ressoam, que se transformam em desejo de verdade por grande parte de população brasileira. Esses não se preocupam em compartilhar mentiras massificadas, pois gostariam que essas fossem verdades absolutas. Isso nos leva a entender, por exemplo, que em processos de fake news a confiança na emissão da mensagem parece ser mais importante que o conteúdo falso das mensagens. Como afirma Pinheiro, As fake news – sejam aquelas literalmente falsas, sejam aquelas que esticam o sentido das palavras para ter um impacto radicalmente polarizante – dependem de um terreno fértil, já preparado para elas: a descrença generalizada em todas as instituições, em especial na imprensa. A campanha de descrédito de jornais e da imprensa em geral é uma peça central na promoção de fake news. (PINHEIRO, 2019, p. 38). A propósito disso, afirma-se que uma notícia que venha a gerar algum tipo de confiança é repassada por pessoas próximas e por isso não é devidamente checada, na sua origem nem no seu conteúdo, pouco importando se essa notícia é ou não verdadeira. Essa é uma hipótese frustrante que é reforçada com o fenômeno da pós-verdade. E ao mesmo tempo faz parecer que o usuário das fake news seria tomado por uma “idiotia”, ou alguém com “déficit de cognição” ou “incapacidade de discernimento”, o que não é verdade, como bem afirma Fernanda Bruno e Tatiana Roque (2019). Por trás das fake news, opera-se uma lógica de funcionamento de rede e articulações de dispositivosbem mais ampla, com uma malha que envolve governos e interesses de grupos privados, estruturados numa rede de tecnologia de informação, com logística algorítmica de última geração, que trabalham matematicamente com compilação de dados de usuários, na formação de perfis de contas nas mídias sociais e manipulação de informações, que são feitas por meio do comando que esses usuários operam nos seus dispositivos ligados em rede. Com vimos em páginas anteriores deste livro, os algoritmos são programas de rotinas lógicas, encadeadas a partir de um conjunto de instruções previamente introduzidas num sistema de informação, que tem como propósito resolver problemas (SILVEIRA, 2017), compilar e manipular dados, que incidem na indução de comportamentos dos usuários (KAUFMAN, 2018). Os algoritmos reúnem um conjunto de informações e passos que são usados nos acessos às redes sociais pelos indivíduos/usuários comuns, para realizarem tarefas específicas por meio de dispositivos móveis, como a de acionar o botão de likes, nas redes sociais, ou propagar fake news. Em outras palavras, os nossos celulares, computadores e tablets são usados como dispositivos na ponta desse sistema complexo, que opera de forma algorítmica com a logística digital de armazenamento e manipulação de dado. Esses algoritmos associados a programas de inteligência artificial realizam tarefas eficazes no processo de promover um cálculo matemático que contabiliza os comandos e informações que os usuários produzem, em forma de clicks, criando um padrão numérico de perfil dos usuários. Esses indivíduos/usuários estão sempre conectados em rede e sempre sendo monitorados por uma rede mais ampla, que contempla um conjunto de dados e informações, que são operados por máquinas, à medida que seus dados são adicionados a esse sistema de compilação de informação. A manipulação de dados sempre induz comportamento e consumo, além de servirem a fraudes com o uso dos dados desses indivíduos/usuários. Destacamos ainda o fato que cada click dado pelos indivíduos/usuários promove uma monetarização dentro desse sistema. Ou seja, em certa medida, os promotores dos dispositivos da indústria da desinformação das fake news lucram financeiramente de forma direta, com a circulação de cada mensagem relativa e essa prática digital criminosa. Promovemos um lucro direto, a partir dos nossos cliques e dos dados dos nossos perfis nas redes sociais, fortalecendo esse mesmo sistema neoliberal, que explora as fragilidades afetivas dos indivíduos e sua vulnerabilidade digital, dentro de uma nova lógica da mais- valia emocional da sociedade em rede. A superestrutura do capitalismo de plataforma usa o afeto como moeda de troca e consumo, e a pós-verdade funciona como uma espécie de capital emocional nessa lógica do capitalismo das emoções, no contexto do neoliberalismo. Esses indivíduos/usuários, na condição de internautas, são parte importante no funcionamento desse tipo de capitalismo dos afetos, que cria uma persuasão e induz pensamento e comportamento relativos à esfera do consumo de ideias e opiniões políticas, assim como consumo de bens simbólicos e culturais. Esse processo atende a uma nova forma de atuação da indústria cultural, presente nesse tipo de capitalismo em rede. Esse processo está ligado às novas formas da alienação promovida pela indústria cultural contemporânea, que é fruto da cultura do capitalismo, que Adorno já apontava nos seus escritos sobre teoria crítica (ADORNO; 2002; 2006; 2009). Ao mesmo tempo, essa máquina de desiformação é assim um dispositivo aperfeiçoado por tecnologias avançadas no modo de operação biopolítica e psicopolítica, insrumetalizadas pelas redes sociais no governo dos algoritmos. A sociedade em rede informacional é o ambiente a partir do qual os controles programados de informações operam com base em cálculo estruturais de softwares sofisticados de última geração, “o que implica a ampla disseminação de algoritmos” (SILVEIRA, 2017, p. 268). Como afirma Silveira, Celulares, tablets, smart TVs, veículos, semáforos inteligentes, mecanismos de busca na web, sistema de aprovação de crédito bancário, entre tantos outros exemplos, corriqueiros, todos esses dispositivos indicam a crescente presença dos algoritmos em nosso convívio. [...]. Mesmo assim, softwares e algoritmos são invisíveis para a maioria das pessoas. Esses códigos são apresentados pelo mercado como algo que não precisamos saber como existem ou como funcionam, desde que cumpram sua finalidade. (SILVEIRA, 2017, p. 268). Nesse caso, a finalidade é a de controlar e governar qualquer tipo de informações a partir de um conjunto de interesses, dentro dos ambientes digitais de interação input/output. Isso está ligado ao aperfeiçoamento do conceito de biopolítica que, segundo Foucault (1979, 2020), é definido pelo cálculo e pela tática com os quais governos e grupos, estruturados por mecanismos de controle, exercem seu poder de forma específica sobre a população de uma maneira geral. Os dispositivos dessa governamentalidade têm um caráter de implementar uma linha de força que incide, ao nosso ver, em violência informativa e violências de outras naturezas, sobre os corpos sociais, sob a justificativa de estar promovendo controle e segurança às populações governadas e influenciadas por esses dispositivos disciplinares. Mas esse processo biopolítico traduz-se numa ampla rede de dispositivos de coleta de dados dos indivíduos/usuários, uma Big Data, como afirma Han, (2014): Hoy se registra cada clic que hacemos, cada palabra que introducimos en el buscador. Todo paso en la red es observado y registrado. Nuestra vida se reproduce totalmente en la red digital. Nuestro hábito digital proporciona una representación muy exacta de nuestra persona, de nuestra alma, quizá más precisa o completa que la imagen que nos hacemos de nosotros mismos. (HAN, 2014, p. 93).32 As coletas de dados são linhas de ações desses dispositivos que funcionam por um conjunto de dispositivos que são estruturados na captura de dados de toda natureza, em relações aos indivíduos/usuários em rede, que habitam bolhas digitais, em que dados são compilados a partir de linhas de programação que avaliam clicks. Esse gerenciamento dos dados dos indivíduos/usuários é definido a partir do que os analistas e pesquisadores em rede de segurança digital chamam de filtro de bolhas. As bolhas digitais funcionam como espaços públicos eletrônicos, sobre os quais os indivíduos/usuários circulam digitalmente, sociabilizando dados e compartilhado ações e comportamento. (PARISER, 2011; MANSERA, 2015; SANTAELA, 2018). Como afirma Santaella (2018): Tudo o que você gosta de ver e ouvir em serviços de streaming, quem você curte nas redes sociais, o que você compra nas lojas online, o que você joga no seu videogame, suas viagens, seus desejos, suas conversas por e-mail ou mesmo no WhatsApp; tudo isso está sendo monitorado 24h pelo grande olho da rede. Essa grande máquina social invisível, fruto da enorme personalização dos ambientes online, usa todos os dados coletados da sua vida digital para te oferecer tudo aquilo que ela considera relevante para você. (SANTAELLA, 2018, p. 08). Esse conjunto de interesses, que não são promovidos por esses usuários, mas sim por grupos privados e públicos que têm interesses em pautas que atendam, especificamente, ao desejo de controle sobre novas motivações, comportamentos e tomadas de posição dos indivíduos, que são espraidas por redes e grupos sociais. Segundo Han (2014): El número de direcciones web es prácticamente ilimitado. De este modo es posible dotar a cada objeto de uso de una dirección en internet. Las cosas se convierten por sí mismas en proveedores activos de información. Informan sobre nuestra vida, sobre nuestro hacer, sobre nuestras costumbres. (HAN, 2014, p. 94).33 Isso se enquadra naquilo que vimos a partir de Foucault (2010, 2020) sobre o governo de si e governo dos outros, a partir dos quais são dirigidas formas de condutas e manipulações de práticas e costumes, que incidemem comportamentos esperados. Governar, nesse sentido, é operar de forma estrutural o campo de atividade dos governados, no sentido de ter uma forma de gestão sobre o comportamento alheio. Com isso, Silveira argumenta que esse processo se torna fundamental para que se possa entender a funcionalidade dos algoritmos, nas novas formas de governança, no sentido de [...] como os gestores e cidadãos podem pensar o poder em relação aos dispositivos – os algoritmos – que são criados por empresas que, em muitos casos, buscam objetivos bem diferentes daqueles declarados pelas leis e pelos programas e projetos formulados no interior do Estado. (SILVEIRA, 2017, p. 270). Esse procedimento de governança, em contexto contemporâneo, incide em políticas de monitoramentos e vigilância das subjetividades, por parte de grupos que visam disseminar mensagens com os objetivos e propostas muito bem definidas e muito bem articuladas do ponto de vista do uso das redes sociais, como é o caso do chamado gabinete do ódio34, na gestão do poder executivo da Presidência da república brasileira. Esse exemplo reflete bem como as fake news, dentro do Palácio do Planalto na gestão do presidente Bolsonaro, são produzidas por grupos privados que atuam no âmbito do gabinete da Casa Civil da Presidência da República, segundo investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito Mista – (CPI Mista), composta por senadores e deputados do Congresso Nacional, que investiga as fake news ligadas à Presidência da República. Segundo essa CPI mista constatou, esse grupo criminoso é financiado por empresários e por membros da sociedade civil, que montaram uma indústria de notícias falsas que se espraia por outros órgãos públicos e por escritórios privados. Essa ação criminosa atende a demandas de criação de caos de desinformação, ataques e assédios contra membros dos poderes, judiciário e legislativo, assim como promovem ataque contra a imagem de intelectuais, artistas e pessoas públicas de uma maneira geral. Gostaria aqui de fazer uma pequena reflexão sobre o uso da imagem como elemento constitutivo dos dispositivos desinformação e difamação nesse processo ideológico, no qual os algoritmos e as fake news são usados como instrumentos. As fake news difamatórias ou as que visam projetar mentiras sobre pessoas públicas, que trazem em seu contudo um referente imagético da pessoa alvo, passam a lidar com uma imagem icônica, que reverbera sentidos à medida que essa imagem está associada a um pronunciamento visual (SILVA, 2020). E isso causa um maior impacto pela representação do ícone que se quer mostrar. No caso das mensagens nas quais a imagens de líderes populistas sejam apresentadas no primeiro plano, sejam essas mensagens contra ou a favor desse líder, faz com que seja destacado o ícone de referência, dentro de um processo de aderência simbólica (PIRES e SILVA, 2016). A aderência simbólica é um fenômeno que ajuda a criar uma situação de imagem, na qual se destaca uma composição que reverencia o ícone que a pessoa retratada representa, não o retrato em si. O ícone de referência é um processo que favorece a promoção visual de políticos populistas que têm sempre a sua imagem circulando de forma permanente no circuito da cultura visual das mídias sociais (SILVA, 2020). A imagem do ícone se torna a imagem de um perfil e tudo que esse possa e quer representar. Seguindo essa linha de raciocínio, o retrato de políticos como Trump e Bolsonaro estiveram sempre em evidência nas produções da fake news, pelo fato de fazerem com que seu perfil usual e suas imagens adquiram uma tônica de ícones de referência de liderança. É nesse ponto que a imagem do perfil do ícone encontra espaço para a construção da imagem de um mito político. Nesse sentido, quando um conteúdo de fake news traz a imagem de alguém, esse conteúdo tem maior assimilação e maior circulação, à medida que a mensagem visual do retrato transmite o foco do impacto que se deseja alcançar, pelo afeto que ela pode despertar. Isso se complementa com conteúdos de desinformação que tragam, além de imagens de pessoas, sons, textos e figuras associados a conteúdos das mensagens, fazendo com que se possa acionar a percepção pelos sentimentos e seus afetos de forma mais instantânea. Não é à toa que as imagens de líderes como Trump ou Bolsonaro foram forjadas com um perfil tão objetivamente assertivo. Não é a imagem do político em si, mas a mítica do político que a imagem representa, ou tenta representar. Não é a verdade que ele traz nas palavras, mas o impacto que suas palavras têm quando associadas à sua imagem. A imagem define o perfil que se deseja apresentar. Esse processo funciona como um modelo de dispositivo da cultura visual, em que a imagem criada é muito mais aceita que a imagem natural das pessoas. Pois a imagem criada como ícone de referência tem o poder de promover uma projeção de um conjunto de valores simbólicos que se difundem na esfera pública acionando afetos e desafetos públicos, aderência ou rejeição simbólicas. A criação da imagem pública nem sempre é em si a criação de uma imagem mítica, mas no caso dos líderes populistas como Trump e Bolsonaro, essa afirmação se justifica. A imagem de ambos, representam mentira! Seguindo essa linha de análise, pode-se afirmar que há muitos traços paralelos no perfil da imagem de Trump e Bolsonaro, como analisa Garbaudo (2018) e Cesarino (2020). Ambos representam a força de um novo populismo emergente, que usam a retórica discursiva de extremismos ultraconservador e os dispositivos das fake news como práticas de políticas pessoais. Ambos atendem a uma demanda discursiva de nacionalismos extremistas, que se pretende criar formas institucionais, de vigilância paranoica e punitiva, contra inimigos imaginários, criados de acordo com interesses questionáveis e antidemocráticos. Os seus pronunciamentos e atos de fala são, ao mesmo tempo, abjetos e moralistas e igualmente atendem a retóricas anti-intelectuais, contra as instituições de conhecimento e informação. Essas características têm aderência simbólica ao retrato do mito e a ideologia abjeta que personagens como Trump e Bolsonaro representam, na cena pública que participam. Os paralelos na construção da imagem do perfil desses líderes seguem um padrão de características similares. O caráter dessa similaridade imagética se cristaliza na construção da imagem ícone de um perfil de um novo populismo que ambos querem passar. Com isso, Trump e Bolsonaro se valem de um certo poder de mitificação de líderes e da fantasia que isso propaga. Esse artificio da imagem mítica passa a ter valor que ajuda a justificar a crença que milhões de pessoas têm sobre eles e assim os sigam, nas mídias sociais, onde suas imagens figuram como pessoas acima do bem e do mal, para os seus seguidores. Esse contexto demonstra que a imagem da racionalidade política e a impessoalidade nos processos da democracia moderna estão em crise. Como afirma Agamben (2003), as institucionalizações na modernidade estão, a todo tempo, em vias de um processo de crise e conflito e por isso os poderes biopolíticos buscam formas cada vez mais sofisticadas de política e controle de vigilância do poder, que justificam o policiamento e monitoramento sociais por parte de quem governa. No caso dos líderes populistas, ele toma para si o poder de decisão e controle do Estado, prescindindo de uma racionalidade pública. Isso nos faz procurar entender como as formas de racionalidade são importantes para lançarmos mão de uma crítica ao fenômeno da ideologia da desinformação, assim como nos faz refletir sobre a necessidade de entendermos o papel da verdade pública dentro de um contexto de racionalidade democrática. Por isso nos embasamos em autores que se debruçaram sobre uma crítica à racionalidade para, a partir disso, entendermos o absurdo dos novos sistemas de crenças em valores que mitificam pessoas e fatos, que são compartilhados por muitos, na sociedade em rede, na qual a racionalidade pública parece cair em desuso. Isso nos faz perguntar: comoentender o desuso da razão? Como avaliar o desejo de se crer em mitos? E como refletir sobre os usos do medo, como modo operante de um regime político, sobre o qual se faz uso do discurso do ódio, como instrumento de governabilidade? Buscamos entender a reprodução dessas questões diante do regime discursivo, que é legitimado por parte de milhões de indivíduos, que se identificam com o terror, com o ódio e com várias outras formações discursivas que incidem racismo, xenofobia, machismo, que reiteram forma de dominação do dispositivo de governo biopolítico. A reificação presente nessa nova forma de controle biopolítico aciona afetos como resposta a um conjunto de proposições ideológicas, em forma de imagens, sons, figuras e ícones que são propagados massivamente no cenário de emergência dessa nova direita. Com isso, o processo da pós-verdade e das fake news conseguem produzir uma violência desiformativa em tempo integral, durante sua a duração online. Os efeitos da pós-verdade e das fake news, neste contexto contemporâneo, têm como principal característica o poder de inibir, induzir, condicionar, convencer, persuadir e mitificar a realidade. O que faz com que se tenha espaços cada vez mais irracionais para a emergência da forma do pensamento mítico contra o pensamento racional. Os mitos ressurgem como uma forma de pensamento mágico e fantasioso, que volta agora em forma da ilusão de uma mentira, que desperta crenças políticas compartilhadas no presente, dessa sociedade em rede. Esses fenômenos míticos retornam como fantasia do irracionalismo ideológico da indústria da desinformação nessa hipermodernidade em que vivemos. Acredito que a pós-verdade e as fake news sejam essa espécie de fantasias dessa nova indústria de massa, que assombram o inconsciente coletivo, fazendo com que sejam eleitos figuras míticas e autoritárias que assumem um postura populista ultraconservadora. Retornando pontualmente ao conceito de populismo, de Ernesto Laclau (2013), diríamos que essa leitura mítica sobre a figura simbólica da esfinge que devora homens fez parte de uma interpretação do campo da psicologia social do século XIX, que lidava com o poder das multidões como um monstro devorador da liberdade. Na visão de Le Bom, “As multidões assemelham-se, de certo modo, a esfinge da antiga fábula. É necessário chegar a uma solução dos problemas oferecido por sua psicologia ou então resignaríamos-nos a sermos devorados por elas” (LE BOM, 1980, p. 52). Sobre esse aspecto, segundo Laclau: “Le Bom elaborou a descrição mais sistemática da psicologia das massas até então oferecida, uma descrição que alcançou instantâneo e duradouro sucesso e foi admirada por muitas pessoas, entre elas Freud” (LACLAU, 2013, p. 57). De fato, o poder desvanecido da multidão é uma verdadeira odisseia em forma de colonização cultural e doutrinária do imaginário e colonização da esfera pública nesse novo contexto de formação da nova direita de grupos políticos na sociedade. Simbolicamente, concluiríamos este capítulo, afirmando que na era da pós-verdade as fake news parecem ter um poder mítico sobre uma grande parte dos indivíduos, que de forma autoconsciente reiteram um valor de uso à mentira compartilhada. Esse aspecto mítico nos faz repensar no canto das sereias da Odisseia de Homero, ou o poder imperioso e implacável da esfinge que foi vencida por Édipo Rei, como nos mostrou a literatura mítica da Grécia antiga, que foi também analisada por Adono e Horkheimer (2006). Na Odisseia, um indivíduo astuto como Ulisses, soube agir de forma racional e objetiva frente ao encanto das sereias. O binômio fake news/pós-verdade ancorados em raciocínio motivado e filtros de bolhas digitais, se transforma, hoje, numa espécie de canto das sereias, que evoca uma razão mítica e cínica, fundadas em desinformações e atos de falas abjetos que se somam às várias outras formas de violências, sobre a vulnerabilidade do corpo social. A razão mítica, nessa odisseia de fake news, provoca a sensibilidade dos afetos e seduz a muitos pelo prazer da perversão compartilhada nas mídias sociais. Tudo isso, sem dúvida, prescinde da lógica e da racionalidade crítica e do poder de esclarecimento e discernimento que nos foram apresentados por Adorno e Horkheimer (2006). Entendamos um pouco dessa crítica sobre o mito da pós-verdade e a ilusão ideológica do canto das sereias contemporâneos das fake news, presentes no irracionalismo de conveniência do fascismo digital das redes sociais. E para tanto, vamos nos valer da razão crítica na elaboração do conhecimento filosófico, científico, educacional e estético, com o papel de contribuir para a formação dos sujeitos com a consciência livre de reificações. 4 ADORNO E A CRÍTICA AO PENSAMENTO MÍTICO: SOBRE A NECESSIDADE DE ESCLARECIMENTO NA PÓS- VERDADE O esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do mítico. Theodor W. Adorno. Bolsonaro não tornou ninguém cruel, preconceituoso, racista, homófobo, misógino, xenófobo, intolerante e idiota. Essas pessoas sempre existiram, apenas precisavam de um “mito” que desse voz aos seus pensamentos. @historialiberta.erika35 Segundo Habermas, em uma breve análise sobre o texto Ulisses ou o Mito do Esclarecimento, escrito por Adorno e Horkheimer, “O canto das sereias evoca uma felicidade que outrora a relação flutuante com a natureza concedia; Ulisses entrega- se às seduções como alguém que se sabe já́ acorrentado” (HABERMAS, 1998, p. 110). Mas, justamente por isso, Ulisses se torna sujeito de si, autoconsciente pelo uso das suas astúcias. Ser astuto, tático e ardiloso eram as características de Ulisses (Odisseu) que se aventurou em enfrentar mitos, viagens perigosas por mares desconhecidos e consegue, às custas de um raciocínio ardiloso, superar o encantamento de sereias que os seduziram e vencer a fúria faminta de um gigante que o prendera numa caverna. Ulisses sempre agiu a parir de uma estratégia individualista e heroica, nas aventuras da Odisseia de Homero. Ainda, segundo Habermas (1998): Nas aventuras do errante e astuto Ulisses espelha-se a história original de uma subjetividade que se subtrai à violência das potências míticas. O mundo mítico não é a pátria, mas o labirinto em que importa escapar [...]. Sem dúvida que as narrativas míticas chamam o indivíduo de volta às origens genealogicamente transmitidas através da cadeia das gerações; mas as práticas rituais que devem fazer vencer e sanar a distanciação culposa aprofundam simultaneamente o abismo. O mito da origem mantém o duplo sentido do “surgir”: o arrepio ante a erradicação e o respirar aliviado por ter escapado. Por isso Horkheimer e Adorno seguem a astúcia de Ulisses até ao fulcro dos ritos sacrificiais; a estes é inerente um momento de engano, na medida em que os homens se resgatam da maldição das potências vingadoras pela apresentação de substitutos carregados de valor simbólico (HABERMAS, 1998, p. 110). Para Adorno e Horkheimer (2006), esse aspecto mítico relativo à crítica à subjetividade astuta, presente no “Excurso I: Ulisses e o Mito de Esclarecimento” (2006), diz respeito, em primeiro lugar, a uma crítica da forma de poder mítico, de imposição ideológica e autocrática, que culminou no fascismo e no nazismo que conhecemos no século XX. Essa crítica que Adorno e Horkheimer (2006) revela está ancorada na leitura que eles fazem da filosofia de Nietzsche, que já havia exposto, de forma crítica, uma contundente reflexão sobre a maneira pela qual o mito de líderes, reconhecidamente poderosos ao longo da história, como Napoleão Bonaparte, que vilipendiaram a sociedade que governavam. Na crítica de Adorno e Horkheimer (2006), Nietzsche aponta para o fato de que se faz necessário, “Levar esclarecimento para o povo (p. 47).” Para esses pensadores, da mesma forma que o mito, fundado em líderes políticos do liberalismo, merece ser analisado criticamente, o mesmo deve ser feito em relação à forma de governo e de estado que foi forjado por esse imaginário político-liberal, que ajudou a estruturar o nazismo. A noção políticade Estado, fundada com o liberalismo do século XVII e estruturado como modo dominante como Estado-nação na passagem do século XVII para o XIX, é criação que resulta de um poder ideológico, que foi forjada pela influência do iluminismo e do pensamento liberal (ADORNO; HORKHEIMER, 2006). Com isso, é preciso que se faça uma crítica sobre o papel do Estado, nesse processo mítico de criar líderes, para que se possa fazer uma reflexão sobre o modo de dominação que esse Estado impõe sobre os cidadãos, no sentido de exercício de controle e dominação sobre seus comportamentos. Para os pensadores da escola de Frankfurt, esse processo instaura uma alienação política e cultural que faz com que os sujeitos entrem num processo de reificação subjetiva, na medida em que perdem sua autoconsciência como sujeitos históricos, mas não perdem a sua autoconsciência como indivíduos burgueses e liberais. Ainda, para Adorno, essa alienação do sujeito histórico se amplia em várias outras dimensões do político e artístico-cultural da sociedade moderna liberal, que vai se instaurar com o capitalismo dominante, nos séculos XIX e XX, e que na nossa visão se reconfigura no século XXI da sociedade em rede, sobre a qual se estrutura o capitalismo digital que lida com o valor de uso das emoções dos indivíduos (HAN, 2014), de forma instrumental, dentro de uma lógica neoliberal e conservadora contemporânea. O que destaco desse processo é que tanto na forma do pensamento foucaultiano, que tratamos nos capítulos anteriores, como no pensamento adorniano, em ambos os casos, o processo da ontologia do ser social se distancia da consciência histórica, e com isso diminui a capacidade desses sujeitos de se verem com agentes de controle e mudanças de suas próprias histórias, em suas próprias vidas tanto privada como pública. A ideia lançada pelo iluminismo e suas formas de racionalismo do século XIX de que os indivíduos são singularizados e livres, ideias que definem o imaginário do homem burguês individualista, retira do ponto de vista ontológico a consciência da liberdade do ser social, à medida que a ideia de liberdade vai ser estabelecida por formas de controle e domínio das condutas coletivas e individuais, forjada pelo pensamento sociológico positivista. Sendo assim, tanto para Foucault quanto para os marxistas frankfurtianos, não existe liberdade na sociedade moderna que é estruturada pela lógica burguesa liberal. O modo dominante que impera pelo imaginário liberal na modernidade, solidifica formas de dominação, domesticação, controle e coisificação do sujeito. A esse respeito, Adorno (2009) e Lukács (2003) veem como forma de dominação essa ideologia liberal que se estabelece como modo de reificação e subjetivação da consciência social. Para Adorno, a alienação política dos sujeitos faz com que haja uma perda de consciência crítica, que é promovida pelo mito do governante estadista, que age de forma autocrática no gerenciamento do Estado, a exemplo do governo de Napoleão Bonaparte na França que se modernizava politicamente e do nazismo da Alemanha após a primeira guerra. Da mesma forma, isso se complementa com a questão da dominação cultural, implementada pelas formas de massificação da cultura, oriundas da democracia liberal e seus bens culturais desenvolvidos pelo capitalismo moderno, que vão resultar no que Adorno conceitua como indústria cultural. Para Adorno, em todos os aspectos, o esclarecimento deve prover a consciência dos sujeitos. Pois, o esclarecimento ajuda a promover consciência crítica: “Eis a tarefa do esclarecimento: tornar, para os príncipes e estadistas, todo seu procedimento uma mentira deliberada [...]” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 47). O esclarecimento a partir do iluminismo, que se serviu de uma lógica capitalista na modernidade, serviu para que governos se valessem do esclarecimento para alienar a massa do ponto de vista da produção, circulação e consumo proveniente de uma industrialização da cultura massificada e de uma cultura de governo em nome do progresso. Segundo esses filósofos, “A maneira pela qual as massas se enganam acerca desse ponto, por exemplo, em toda democracia, é extremamente valiosa: o apequenamento e a governabilidade dos homens são buscados como progresso”. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 47). Adorno e Horkheimer primam por uma crítica ao racionalismo liberal iluminista de forma mais estrutural. Dentro dessa perspectiva crítica, eles apontam para uma duplicidade ambivalente do papel dos processos de esclarecimento, que deve ser levado em conta, pois, para ambos, o pensamento esclarecido deve servir para apontar uma crítica contundente ao pensamento mítico. De outro modo, o esclarecimento não estearia livre do tipo de pensamento que se funda no poder da mitologia e seus dogmas e lendas. Como eles apontam, “Através da identificação antecipatória do mundo totalmente matematizado com a verdade, o esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do mítico.” (ADORNO e HORKHEIMER, 2006, p. 33). Segundo esses pensadores isso é um ledo engano, vimos isso com a ascensão do fascismo nos anos 30. E vemos isso hoje, na segunda década do século XXI. O ultraconservadorismo da nova direita extremista atual se funda em discursos míticos e tradicionalismos, como bem descreve Benjamin Teitelbaum (2020) em seu livro, A Guerra pela Eternidade: o retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista, que nos leva a entender que a capacidade de racionalidade crítica dos indivíduos parece perder força diante de uma barbárie de pensamento e ação, fundados em dogmatismos míticos e tradicionalismos insanos no mundo contemporâneo. Nada mais próximo do pensamento mítico e fantasioso da insanidade tradicionalista que o que testemunhamos na invasão do Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2021, em que se via indivíduos, vestidos com fantasias de mitos vikings e cabeça de Minotauro, agindo de forma bárbara contra a democracia americana, sob o comando de um líder político autocrático, Trump. O episódio da invasão do Capitólio protagonizou um modo de operação orquestrado pelo poder da nova indústria cultural das fake news e por uma ideologia fascista da extrema direita contemporânea, que propagava ações de violência contra a democracia instituída nos EUA. Segundo Adorno e Horkheimer, as formas do pensamento contemporâneo parecem estar alienadas pelo racionalismo ingênuo e pela massificação cultural, no qual, “O pensar reifica-se num processo automático e autônomo, emulado a máquina que ele próprio produz para que ela possa finalmente substituí- lo.” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 33). Os autores da Escola de Frankfurt procuram refletir sobre o fato de que a sociedade diante de tanta racionalidade, volta a afundar numa espécie de barbárie mítica moderna, sobre a qual se instaura um processo de regressão política e cultural, que busca ferir de morte o esclarecimento que herdamos da razão iluminista, que nos serviu de base para a construção de um pensamento formal, lógico, racional e crítico, como nos fala Habermas (1998). Da mesma forma que Habermas, Anne Marie Gagnebin (2006) afirma que o esforço que Adorno e Horkheimer fazem é exatamente o de encontrar, uma forma de explicar [...] a descrição da construção exemplar de um sujeito racional que, para se construir a si mesmo como “eu” soberano, deve escapar das tentações e das seduções dos mitos, assegurando seu domínio sobre a natureza externa e, também, sobre a natureza interna, sobre si mesmo (GAGNEBIN, 2006, p. 13). Procuremos entender um pouco esse caráter do mito do esclarecimento, presente na análise crítica que Adorno e Horkheimer (2006) fazem a partir da Odisseia de Homero, em sua análise do poder dos mitos sobre os homens. Eles afirmam que só o sujeito consciente de si, poderia vencer os mitos e as lendas obscuras e os monstros que foram narrados nos textos homéricos, em que se descreve o “[...] trajeto de fuga que o sujeito empreende diante das potências míticas”. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 49). Nesse caso, Ulisses, o herói da Odisseia de Homero,era o sujeito consciente de si, que sempre escapava das armadilhas dos seu destino. Sua fama, como sujeito, se fazia presente a cada estágio da Odisseia, em que a literatura o transformava de indivíduo sem consciência em sujeito consciente de sua materialidade. O poder mítico e mágico, presente no imaginário literário descrito por Homero, demonstra como se impunha medo e dominação sobre os homens, por meio das formas de escravização, sedução e morte, impostos por lendas de sereias e gingantes violentos. Diante de tal fato, era preciso fazer uso de uma inteligência singular, caracterizada pelo saber tático e ardil, para se poder sobreviver nesse mundo, sob pena de sucumbir diante de um poder brutal. Homero, quando escreveu a Odisseia, encontrou nas figuras lendárias e míticas uma potência narrativa com a qual descreveu, de forma singular, o poder dos mitos sobre os homens comuns, ou seja, os mortais. Ulisses, além de astuto, foi um personagem observado por Zeus que o ajudou em um momento específico no retorno para sua casa. Fora isso, Ulisses fazia tudo a sua maneira, com o uso de sua inteligência astuciosa e ardilosa, para sobreviver a todos os perigos que atravessou seu caminho, durante a sua viagem de dez anos, de retorno a sua pátria, Ítaca. Homero conta que Ulisses era rei de Ítaca e marido de Penélope. Esse rei se aventurou em viagem navegando pelos mares, depois de ter sido derrotado em Tróia, na guerra contra os gregos. Nessa viagem ele despertou a ira do Deus Poseidon, quando cegou seu filho, o ciclope Polifemo, que era gigante, forte e possuía apenas um olho no centro da testa. Polifemo morava com outros ciclopes, numa ilha distante, qual Ulisses chegou a visitar. O gigante de um olho só era um Ciclope o que habitava uma caverna e vivia do pasto de ovelhas, com as quais saia todas as manhãs pela ilha. Ulisses e seus companheiros de embarcação, curiosos em conhecer esse mito, se aventuraram até a caverna para ver de perto o ciclope Polifemo. Porém foram surpreendidos pelo gigante e ficaram presos na caverna. Depois de perdê-los, Polifemo prometeu devorá- los durante o jantar, mas não antes de saber o nome da sua presa. O gigante então perguntou qual era o nome de daquele que se aventurava a entrar na de sua família, de forma tão atrevida. Polifemo morava com seus irmãos na caverna. Ulisses respondeu, de forma inteligentemente ardilosa. – Meu nome é “Ninguém”. O ciclope passou então a tratá-lo por “Ninguém”. Mesmo preso, Ulisses decidiu argumentar com gigante Polifemo. E falou para o ciclope que, já que ele iria devorá-los durante o jantar, ele deveria comê-los acompanhado por um bom vinho. Segundo a narrativa de Homero, Ulisses expressou que nada seria melhor que um vinho de ótima qualidade, para harmonizar com a carne humana, durante o jantar. Vinho esse que Ulisses traria em seu navio e poderia oferecer ao ciclope para que ele o bebesse durante o jantar. Convencido de que era uma boa ideia, Polifemo permitiu que “Ninguém” fosse até a embarcação pegar os barris de vinho para ele. O ciclope, que não era acostumado a beber vinho, bebeu até se embriagar e dormiu sem fazer o jantar. Bêbado e indefeso, foi atacado por Ulisses, que perfurou o seu único olho, deixando-lhes cego e gritando de dor, ao ponto de chamar atenção dos seus irmãos, os outros ciclopes que estavam fora da caverna e vieram saber o que havia ocorrido. Polifemo foi perguntado quem havia furado seu olho, e em resposta, o ciclope falou repetida vezes. — Ninguém furou o meu olho. Isso foi motivo de riso por parte dos seus irmãos ciclopes, que saíram e deixaram o gigante bêbado dormindo na caverna, achando que ele próprio havia se machucado e ficado cego. Aproveitando-se desse momento, Ulisses se escondeu durante toda a noite até o amanhecer e fugiu agarrado a lã da barriga do carneiro que o gigante, ainda com dor e ressaca, levaria para o pasto na manhã seguinte. Ao chegar no barco, soltou as amarras da embarcação e se afastou da ilha. Mas ainda muito próximo à praia, não se conteve e gritou seu verdadeiro nome ao ciclope. – O meu verdadeiro nome é Ulisses. O gigante, tomado pelo afeto do ódio incontido, arremessou uma enorme pedra na direção do barco, mas não consegui atingi-lo. Polifemo falou do ocorrido para seu pai, o Deus Poseidon, e pediu a ele que lançasse uma maldição contra Ulisses, para que ele não conseguisse chegar ao seu destino. Ulisses se tornara senhor de sua razão, vencendo de forma consciente seus inimigos míticos, enfrentando-os com o uso subjetivo do pensamento ardiloso. Ele vence os mitos se fazendo valer do seu próprio esclarecimento astuto e tático na busca de determinados fins, sobre os quais os meios estariam justificados, pelo uso da razão. Esse processo faz com que Adorno e Horkheimer analisem o personagem Ulisses como esse saísse de uma história romântica da cultura burguesa iluminista, num mundo em que o pensamento formal racional não existia como modelo de racionalidade de pensamento. Na Odisseia, o imaginário mítico determina as formas do saber e do agir. Embriagar o gigante Polifemo foi uma estratégia que o fez sobreviver à brutalidade da lenda do ciclope, porém ao mesmo tempo negar o seu próprio nome seria negar o seu próprio feito, coisa que sua razão estratégica não permitiu, pois se afirmar pelo feito demarcou a sua vitória contra o mito. E Ulisses não se permitiu a isso à medida que pronunciou sua identidade, falando em voz alta e de forma individual o seu nome verdadeiro nome “Ulisses”, para que se soubessem quem ele havia sido o sujeito de tal feito. Um gesto típico do ego individualista da cultura burguesa. Revelar seu verdadeiro nome seria deixar sua marca de identidade registrada na odisseia, como mortal que havia vencido os Deuses. Com isso, seu nome também viraria uma lenda, pela ressonância da estratégia do seu feito. Com analisa Adorno e Horkheimer, a astúcia de ocultar seu próprio nome, e substitui-lo por Ninguém, revela uma negação de si próprio, como tática astuciosa que aumenta ainda mais a sua fama. O cálculo que Ulisses faz de que Polifemo, indagado por sua tribo, quanto ao nome do culpado, responderia dizendo: Ninguém e assim ajudaria a ocultar o acontecido e a subtrair o culpado à perseguição, dá a impressão de ser uma transparente racionalização. Na verdade, o sujeito Ulisses renega a própria identidade que o transforma em sujeito e preserva a vida por uma imaginação mimética do amorfo. [...]. O astucioso Ulisses não pode agir de outro modo: ao fugir, ainda ao alcance das pedras arremessadas pelo gigante, não se contenta em zombar dele, mas revela seu verdadeiro nome e sua origem, como se o mundo primitivo, ao qual sempre acaba por escapar, ainda tivesse sobre ele um tal poder que, por ter se chamado de Ninguém, devesse temer a voltar a ser ninguém, se não restaurasse sua própria identidade graças à palavra mágica, que a identidade racional acabara de substituir. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 63). A astúcia e o sacrifício eram as formas que Ulisses usava para se sobressair ao poder imperioso, sobre o qual ele não podia vencer com sua força física. A sua sobrevivência advinha de sua força subjetiva, que funcionava como um instinto de autopreservação racional individualizada, que associa meios a fins. A transformação do sacrifício em subjetividade tem lugar sob o signo daquela astúcia que sempre teve uma parte no sacrifício. Na inverdade da astúcia, a fraude presente no sacrifício torna-se um elemento do caráter, uma mutilação do herói astuto arrojado pelo mar e cuja fisionomia está marcada pelos golpes que desferiu contra si mesmo a fim de se autoconservar. Aí se exprime a relação entre o espírito e a força física. O portador do espírito, o que comanda (é assim que o astucioso Ulisses é quase sempre apresentado) é, apesar dos relatos de suas façanhas, sempre fisicamente mais fraco do que as potências dos tempos primitivos com as quais deve lutar pela vida. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 54). Da mesma forma que Ulisses sobreviveu à ira de Poseidon eaos ataques de Polifemo, ele também fez uso de seu raciocínio tático para sobreviver ao canto enfeitiçador das sereias. Como bem explica Adorno e Horkheimer (2006), Ulisses, ao tentar retornar a sua casa, na ilha Ítaca, se aventura em ouvir o canto das sereias que enfeitiça os homens ao ponto de enlouquecê-los e levá- los a morte. Até onde se sabe, nenhum homem conseguira sobreviver a tal encantamento. Mesmo assim, Ulisses se atreve a tal aventura. E para isso ele desenvolve uma tática bastante astuta para sobreviver à lenda das sereias e desfrutar do encantamento da arte da música que elas cantam à beira do mar, na tentativa de atrair suas vítimas para devorá-las. Nesse episódio em que Ulisses vai se aventurar com as sereias, ele não confrontará a força brutal de um gigante, mas a sedução da arte, por meio do canto que enfeitiça as mentes dos homens. O mito da arte na Odisseia simboliza algo perigoso, que na narrativa de Homero se representa como algo que seduz, enfeitiça, aprisiona e mata. O canto encanta ao ponto de se fazer perder a razão e a consciência de si. Nesse caso, o pensamento racional e astuto de Ulisses se revela da seguinte forma. Ele determinou que toda sua tripulação deveria ter os ouvidos tapados com cera, para não ouvirem o canto das sereias, nem os gritos e gemidos dele próprio, ante a exposição da música sedutora, estando ele com os ouvidos livres. Ulisses pede para ser amarrado ao mastro do seu barco, com cordas firmes e laços apertados que o impeçam de se mover. Dessa forma ele poderia ouvir o canto das sereias sem ser encantado por ele e assim, ele iria desfrutar do prazer sublime de uma arte musical que seria feita por lendas e não por homens. Essa arte em forma de música lhe traria um prazer ainda maior. Se ele estivesse solto, ou qualquer homem estivesse com os ouvidos abertos, todos estariam mortos e assim se tornariam vítimas de seu próprio desejo de sedução. Amarrado firmemente ao mastro do seu navio e com os ouvidos livre, Ulisses pôde sentir o prazer de algo do qual ele não poderia fugir, sem se deixar levar por algo que o iria iludir. Uma forma de raciocínio de autopreservação individual diante de um mundo mágico, sobre o qual o uso da racionalidade tática não era comum. Os marinheiros seguiriam remando, com seus ouvidos tapados por cera até um ponto seguro, onde a embarcação seguiria seu rumo ao destino que lhe havia sido traçado por Zeus. Na reflexão de Adorno e Horkheimer, isso mais pareceria efeito de uma ideologia individualista autoconsciente, em forma de autoconservação. O domínio do homem sobre si mesmo, em que se funda o seu ser, é sempre a destruição virtual do sujeito ao serviço do qual ele ocorre; pois a substância dominada, oprimida e dissolvida pela autoconservação, nada mais é senão o ser vivo, cujas funções configuram, elas tão somente, as atividades da autoconservação, por conseguinte exatamente aquilo que na verdade devia ser conservado. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 52). O encantamento é o processo de sedução que faz com que que a consciência prescinda da razão e se deixe envolver pela emoção ou pelo medo ou outros afetos. O poder mítico elimina a racionalidade na medida em que se impõe como forma de pensamento mágico, sobre a verdade dos fatos e explicações sobre os fenômenos. “Os medos e as idiossincrasias atuais, os traços do caráter escarnecidos e detratados, podem ser interpretados como marcas de progressos violentos ao longo do desenvolvimento humano”. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 79). Dessa forma alegórica, a literatura grega nos mostra como o uso o pensamento racional e as formas de autoconhecimento, são fundamentais para a existência da humanidade. Adorno faz em sua análise, uma reflexão bastante criteriosa sobre o caráter da dominação e do poder mítico na literatura homérica e da forma como o espírito individualista, astuto e ardiloso, que lança mão de um raciocínio lógico e instrumental, é a característica de um poder de discernimento presente na literatura grega. As façanhas de Ulisses para Adorno e Horkheimer é mais que uma literatura antiga, é uma reflexão sobre como, na modernidade, aspectos da racionalidade e o conjunto de coisas que ela proporcionou, como, por exemplo, a razão esclarecida, a lógica e a possibilidade de pensamento crítico são destruídas pelo modo de pensar mítico e dominante da política doutrinária do fascismo. Corroborando com os pensadores frankfurtianos, Stanley (2020) afirma que: A política fascista invoca um passado mítico puro que foi tragicamente destruído. [...] o passado mítico pode ser religiosamente puro, racialmente puro, culturalmente puro ou todos os itens acima. [...] O passado mítico fascista tem uma estrutura particular, que sustenta sua ideologia autoritária e hierárquica. (STANLEY, 2020, p. 19-20). Para Adorno, em outro de seus livros importantes, a Dialética Negativa (2009), sua crítica contra o pensamento mítico está fundamentada na filosofia de Aristóteles. Como Adorno afirma, Em Aristóteles, é o mito; o que sobrevive dele nos antimitólogos declarados é a concepção de que tudo aquilo que é pode ser reduzido àquilo que um dia foi. Em seu método quantificador que procede do mesmo ao mesmo há tão pouco espaço para o outro em formação quanto no sortilégio do destino. Não obstante, aquilo que nos homens, a partir de seus reflexos e contra eles, se objetivou, o caráter ou a vontade, o órgão potencial da liberdade, também mina essa liberdade. Pois ele incorpora o princípio dominante ao qual os homens progressivamente se submetem. (ADORNO, 2009, p. 252). Todo culto à mitificação de algo ou de alguém é uma forma de regressão da mentalidade coletiva, com isso, Adorno e Horkheimer (2006), ao seu modo crítico de reflexão, nos fazem entender “o porquê a humanidade, em vez de entrar em um estágio verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 11). Isso é paradoxal porque “O esclarecimento dos tempos modernos esteve desde o começo sob o signo da radicalidade: é isso que o distingue de toda etapa anterior da desmitologização.” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 79). Os fragmentos textuais presentes na Dialética do Esclarecimento mostram uma desconfiança dos autores em relação a algumas certezas, que foram construídas ideologicamente, no desenvolvimento da história moderna, por isso Adorno lança mão de uma razão negativa, como análise dialética o sobre o mito do esclarecimento. Eles se perguntam sobre o projeto no qual se fundamentou o positivismo científico junto ao liberalismo, que ajudaram a estruturar o projeto burguês do capitalismo liberal, que se fundamentou em ordens e certezas sobre as quais se estruturaram novas barbáries, como o nazismo, por exemplo. Esse modelo de razão avançou em direção ao atraso, e, como os autores afirmam, o abandono das certezas os leva à desconfiança. Se uma parte do conhecimento consiste no cultivo e no exame atentos da tradição científica [...], em compensação, no colapso atual da civilização burguesa, o que se torna problemático é não apenas a atividade, mas o sentido da ciência. O que os fascistas ferrenhos elogiam hipocritamente [...]: a infindável autodestruição do esclarecimento força o pensamento a recusar o último vestígio de inocência em face dos costumes e das tendências do espírito da época (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 11). Adorno e Horkheimer fizeram essa reflexão para se referirem à barbárie instaurada como o nazismo, mas o conteúdo desse texto é muito atual. Em nossos dias, em que se ouve falar do retorno ao pensamento mítico, e o discurso de ódio e terror contra o conhecimento da verdade, com base nesses dispositivos de pós-verdades e instrumentos de alienação das fake news, esse trecho escrito na Dialética do Esclarecimento parece muito atual, ao menos no Brasil, país que se tornou campeão na propagação de notícias falsas. Pois, guardadas as devidas proporções, vemos hoje um processo em que a imposição de falsas verdades sobrepõe-se a cultura das certezas da ciência, imperando oruas. Ali se iniciava uma trajetória rumo a um novo comportamento político conservador que conclamava as forças militares para impor ordem, num tom de total desprezo pela democracia. Entretanto, sabe-se que não era apenas a espontaneidade discursiva que orientava as condutas conservadoras e antidemocráticas. Por trás de toda aquela encenação, havia um arranjo de forças políticas e institucionais que se figurava nos corredores do campo do poder, na conciliação de uma guinada ultraconservadora em direção à extrema-direita. E isso não era fruto de uma crise nacional apenas. Reverberavam ali questões de um movimento internacional, que, a reboque da crise econômica de 2008, e de suas consequências no mundo, deu início a um processo de mobilização mundial, como a Primavera Árabe que, entre 2010 e 2012, promoveu protestos e mudanças profundas, contra governos políticos autoritários. Esse movimento mundial, em favor de uma reestruturação da democracia, envolveu os países do Oriente Médio e uma boa parte dos países do norte da África. Por outro lado, mudanças de cunho antagônico em relação à democracia também foram testemunhadas na reorganização política do antigo Leste Europeu, no período posterior à crise de 2008. A exemplo disso, testemunhamos uma guinada para a extrema-direita em países como a Hungria, onde vimos ressurgir movimentos partidários nacionalistas ultraconservadores. Esse contexto conjuntural é o cenário em que vemos o ovo da serpente ser chocado, de forma requentada. O resultado disso foi a onda de mobilizações de direita em muitos países, tanto no hemisfério norte como em alguns países do sul. No Reino Unido, vimos o processo do BREXIT e toda a mobilização da direita inglesa, fazendo-se valer de instrumentos espúrios, como as fake news, e sua massificação de mentiras em favor de manobras que resultaram na saída do Reino Unido da União Europeia. Na esteira desses acontecimentos ideológicos, instrumentalizados por mentiras massificadas, vimos a consolidação da extrema-direita conservadora nos EUA, com a eleição de Donald Trump. No hemisfério sul, em particular na América Latina, e, mais ainda, na Argentina, vimos todos os processos e instrumentos noticiosos de propagandas falsas, que foram usadas contra a presidenta Cristina Kirchner. Esse movimento ajudou a eleger o grupo político da direita naquele país, representado por lideranças neoliberais e conservadoras, como Mauricio Macri. A esse exemplo, diríamos que Macri elegeu-se usando os artifícios de um discurso paradoxal, que envolvia uma espécie de nacionalismo consorciado com o neoliberalismo de austeridade, que salvaria a Argentina do buraco econômico no qual o país havia entrado, com as crises sucessivas oriundas da grande crise de 2008, e mesmo outras antes dessa. No Brasil não foi diferente. Dentro desse contexto de guinada para a direita, as forças políticas se arregimentaram num discurso nacionalista de extrema-direita que criou um contexto favorável ao golpe parlamentar, derrubando a presidenta eleita, Dilma Rousseff, do cargo de governante do Executivo federal brasileiro. Esse processo consolidou a extrema-direita com a eleição de Bolsonaro, e tudo de absurdo que isso pôde representar. Ou seja, uma nova direita que se articula com as estruturas tecnológicas de uma sociedade estruturada por redes sociais de influências de comportamento e posicionamento, biopolítico e psicopolítico, mobilizando afetos nacionalistas em nome de políticas antidemocráticas. As lideranças da chamada nova direita hoje se estruturam não apenas no poder do líder e sua imagem pessoal, mas, por meio das redes de fake news e mobilização dos afetos políticos com o fenômeno da pós-verdade. Com isso, os pronunciamentos ideológicos desses líderes, publicados nas várias redes sociais, correspondem muitas vezes a propagandas abjetas e ideologias falhas temperadas com retórica de ódio e violência digital. Todo esse contexto psicopolítico estruturou-se em ações dos exames digitais das milícias eletrônicas armadas com desinformação e armas de fogo, que ajudaram a reverberar ideias míticas, a colonizar mentalidades e a promover intervenções agressivas e controle territorial de comunidades desprezadas pelo poder público. A realidade está suspensa nesse contexto de pós-verdade. A mobilização dos afetos, pela imposição do medo coletivo e do pânico moral, incide de forma objetiva na colonização da opinião pública. E isso tem sido um caminho encontrado pelo poder imposto pela nova direita e pela doutrina neoliberal, para estabelecer formas de controle e orientação de condutas por meio de mecanismos biopolíticos e psicopolíticos, fundados em doutrinas ideológicas que decididamente visam destruir a democracia por dentro, como modo institucional de governo, assim como destruí-la por fora, minando os valores constitutivos do imaginário democrático da sociedade de uma maneira geral. Substituindo, também, o regime da democracia pelas práticas da autocracia, nas formas dos governos de si e governos dos outros, sufocando, com isso, o ethos democrático, ainda vivo na esfera pública. Acreditamos que essas ideologias, fruto de uma conjuntura de interesses espúrios e autoritários, incidem sobre o corpo social de forma exponencial, e, muitas vezes, faz com que os indivíduos, aqui vistos como indivíduos/usuários que ocupam os espaços públicos das mídias sociais, percam gradativamente a capacidade de discernimento, à medida que incorporam valores pautados por desinformações, fazendo com que sejam obliteradas, de forma autoconsciente, suas capacidades críticas de consciência intersubjetiva. Nesse processo, a autoconsciência crítica é substituída pela autoconsciência da condescendência política, da pós-verdade. Nesse contexto, o conteúdo falso e desinformativo, somado ao discurso retórico de ódio, é incorporado por boa parte da população, que corrobora com esses princípios ultraconservadores de mobilização dos afetos políticos. À medida que observamos e refletimos sobre esses fenômenos, entendemos melhor os conceitos de psicopolítica e psicopoder que, na nossa compreensão, ajustam-se aos conceitos que tínhamos sobre a biopolítica e biopoder, inaugurados pelo liberalismo de estado, desde o século XVII, e que, agora, se somam aos dispositivos neoliberais da fake news e da pós-verdade, no século XXI. Mais do que isso, procuramos fazer, neste livro, uma imersão em questões sobre o que consideramos ser o irracionalismo de conveniência, que definimos como um procedimento instrumental de ação, que promove um caos instrumentalizado em nome de novas formas de poder e controle, sobre o comportamento social e suas expectativas de ação, mobilizada por afetos. Um processo de dominação que incide sobretudo na colonização dos afetos coletivos e na orientação de comportamentos que lidam com a verdade e a construção da realidade de forma menos honesta, constituída por ideologias falhas e colonização de mentalidades. A pós-verdade é uma mentira que se traveste de orientação ideológica, em que a visão de mundo e o conjunto das emoções gerais dos indivíduos têm mais poder de convencimento que os fatos em si. A verdade não existe na pós-verdade, pois a realidade não está ancorada no que é verdadeiro, mas sim numa ideologia em forma de desejo de verdade, dentro de um contexto de desinformação. Essas desinformações são processadas por pessoas próximas e sobre essas se ancoram algum tipo de referência de confiança, seja essa de tipo moral, religiosa ou de outra natureza. Nesse sentido, o circuito da crença está muito mais ligado aos afetos, ou seja, ao desejo de verdade, não necessariamente aos fatos verdadeiros no mundo real. Os afetos, sob esse ponto de vista, são objetos de manipulação ideológica de valores, por meio de canais de redes de compartilhamento de mídias sociais. Valores fundados muitas vezes em ideologias de ódio e discursos abjetos que mobilizam enxames digitais de indivíduos/usuários a agirem de forma doutrinada. Ou seja, mobiliza-se um irracionalismo de conveniência que,falso, o inverossímil e o mítico. O mito é o oposto da verdade e o mitômano é um mentiroso patológico que falta sempre com a verdade, como os disseminadores de fake news, em gabinetes de ódio e escritórios de crime digital, em que grupos criminosos, promotores de barbárie digital, são tomados pelo discurso da violência e usam a imposição do medo coletivo e do pânico moral. Nesse contexto, o ciclope cego é uma alegoria que nos serve de exemplo para entendermos o discurso cego pelo ódio, sob o qual milhões aderem de forma autoconsciente, no contexto do binômio fake news/pós-verdade. Isso pode nos ajudar a entender como esse tipo de aderência autoconsciente serve para representar o fortalecimento da ideologia fascista, e suas referências mitológicas num passado retórico de pureza, em que [...] os mitos fascistas diferenciam-se com a criação de uma história nacional gloriosa, em que membros da nação governam devido a conquistas e realizações [...]. (STANLEY, 2020, p. 20). Hoje, diante do fortalecimento institucional de governos de uma nova direita populista, com fortes tendências fascistas, as reflexões críticas dos pensadores frankfurtianos cabem bem. E com isso o mito do canto das sereias nos serve como alegoria de análise para refletirmos sobre o processo de pós- verdade, que parece enfeitiçar a capacidade de discernimento dos sujeitos, que acionam emoções para fundamentarem suas crenças em fatos irreais, ao invés de esclarecê-los mediante a realidade. As fake news e a pós-verdade cristalizam o discurso ideológico da fantasia mítica, sobre a qual parte da esfera pública da política, no Brasil e no mundo, está presa. Os indivíduos/usuários que corroboram com o compartilhamento de um tipo de ideologia por meio de mensagens que suscitam ódio, mentira e mitificação da realidade, complementam esse processo de legitimidade da barbárie, sobre a qual se instaura a colonização da opinião pública por meio das mídias sociais. Adorno e Horkheimer (2006) já haviam se dado conta de que a opinião pública seria dominada e perderia seu poder político, se convertendo em mercadoria de informação reificada, por meio da reprodução da linguagem alienada na sociedade massificada pela propaganda fascista. A alienação da consciência dos indivíduos é estruturada pela superficialidade das narrativas de propagandas que se reproduzem nas linguagens falsas e míticas, e ideologias falhas que reiteram valores moralistas e retrógrados que são subjetivados de forma afetiva e emocional por parte dos indivíduos, criando barreiras de produção de conhecimento e esclarecimento. Essa superficialização da consciência dos indivíduos funciona como uma película que reflete o processo da desinformação de forma autoconsciente, vinculada ao conjunto de crenças que esses indivíduos/usuários partilham, fazendo-os lidar com a realidade de forma simplória, mítica e sem senso crítico. O modo como pensamento simplório opera no processo da cultura da desinformação contemporânea, faz permitir sua dominação simbólica, a partir de valores ideológicos falhos (STANLEY, 2020, 2015), que tem em certa medida maior facilidade de se propagar. Essa dominação sobre as formas de pensamento do senso comum é uma dominação consentida e ancora nos mecanismos dos arquétipos do pensamento mágico, como o esoterismo, a astrologia, o tradicionalismo, o animismo, ao modo como pensam, ideólogos de extrema direita, que assessoram políticos ultraconservadores. Além da forma simplória e mítica, a alienação contemporânea também é um modo de pensar negacionista, que é uma forma de negação frente ao conhecimento sobre a realidade. Esse “pensamento negacionista” se funda com a pós-verdade e ajuda a promover comportamentos autoconscientes, que vão no sentido oposto à ciência e à razão. Como afirma D’Ancona, “Essas prioridades da pós-verdade orientam a ascensão do ‘negacionismo científico.’” (D’ANCONA, 2018, p. 68) que alimenta crenças em ideias que a terra é plana, que não se devem vacinar e imunizar bebês com vacinas contra doenças letais, como por exemplo o sarampo, o que fez com que com que caísse a taxa de imunização em cidades como Londres, onde a doença já havia sido erradicada. Ainda segundo D’Ancona (2018), esse pensamento negacionista, relativo ao mito da não vacinação, fez com que no ano de 2018 o sarampo voltasse a ser uma doença endêmica na Grã-Bretanha. O pensamento negacionista ganha ainda mais força com a epidemia da Covid-19, que já matou milhões de pessoas em todo o mundo. Em muitos casos essa rede de veiculação de pensamento negacionista, fundado pelo processo de desinformação da Covid-19, se amplia de forma exponencial. A exemplo desse fato, o portal UOL apresentou uma matéria sobre a pesquisa realizada pela Agência Avaaz.org36, em que é revelado o resultado em que mais de seis em cada dez cidadãos brasileiros acreditam em notícias falsas sobre a Covid-1937. Ou seja mais de 100 milhões de brasileiros, que usam as redes sociais do WhatsApp e Facebook, acreditam em fake news sobre o Covid-19. Acreditamos, como isso, haver um irracionalismo autoconsciente sobre as formas de negação da realidade e reificação do pensamento mítico. Voltando à reflexão de Adorno e Horkheimer (2006), afirmamos que cultura moderna que se julga esclarecida, funciona de forma encantada que nega a realidade racional dos fatos e das experiências de conhecimento. No mundo esclarecido, a mitologia invadiu a esfera profana. A existência expurgada dos demônios e de seus descendentes conceituais, assume em sua pura naturalidade o caráter numinoso que o mundo de outrora atribuía aos demônios. [...]. O preço da dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos objetos dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações do homem foram enfeitiçadas, inclusive a relação de cada indivíduo consigo mesmo. [...] O animismo havia dotado a coisa de uma alma, o industrialismo coisifica as almas. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 34). Complementando o pensamento de Adorno com questões da ordem do contemporâneo, diríamos que, se o industrialismo cultural capitalista do século XX coisificou a consciência dos indivíduos, no século XXI, temos algo que deriva desse processo, que é a produção e consumo de desinformação em massa, que recria mitos e reifica a negativa da verdade, alienando os sujeitos por meio de narrativas de fake news que trafegam de forma massificada no cotidiano digital da sociedade em rede. A autoconsciência esclarecida do homem nessa hipermodernidade do século XXI permite-lhes um certo despertar de uma forma de pensamento mágico, no qual o pensamento torna-se ao mesmo tempo neurótico, paranoico e funciona contra a racionalidade. A isso se somam as formas conservadoras de lidar com a realidade. Com isso, a autodeterminação dos valores morais e conservadores é uma forma de autoconsciência da dominação simbólica, que ajuda a desenvolver uma espécie de neurose coletiva, a partir da qual se compartilha um imaginário do medo coletivo e pânico moral, como vimos anteriormente. O conceito de neurose aqui é estabelecido pela histeria coletiva, com o retorno de valores ultraconservadores do passado recente como a retomada dos discursos do fascismo e práticas de irracionalismos esotéricos dogmáticos e moralismos religiosos (FREUD, 2011) que vem colonizando o imaginário social contemporâneo. Essa neurose propaga de forma naturalizada uma histeria coletiva, que desorienta condutas de forma autoconsciente e subjuga os valores éticos e o imperativo categórico do respeito social mútuo. Talvez explicações freudianas possam nos ajudar nesse contexto de pós-verdade, em que vemos o retorno a uma forma de pensamento primitivo e bárbaro, por parte de muitos indivíduos, que desenvolvem desejos subjetivados pelo falso, pelo mítico e pelo pensamento mágico, acionado pelos afetos. A dominação do pensamento mágico e esotérico acreditam no poder simbólico do mito sobre a verdade e a negação da realidade. Uma reflexão sobre a onipresença do pensamento anímico de Freud (2013) nosajuda a refletir sobre a leitura as formas do irracionalismo autoconsciente do mito da pós-verdade e os processos intersubjetivos de assimilação de crenças contemporâneas. Com isso, acreditamos que as formas intersubjetivas de compartilhamento de crenças assimilam fake news como orientação de conduta, representa uma forma de regressão ao inconsciente coletivo do pensamento mítico e primitivo. Freud não escreveu sobre pós-verdade ou sobre fake news, mas escreveu sobre as formas primitivas do pensamento e seus sintomas no comportamento dos indivíduos no final do século XIX e início do século XX. Freud (2013) refletiu sobre a onipresença do pensamento anímico e primitivo no subconsciente das pessoas e os sintomas da histeria, em seu livro Totem e Tabu. Nos parece plausível tentar entender que com o advento da pós-verdade e a reboque das fake news, todos os interesses perversos presentes nas mensagens falsas que dão aderência aos créditos da desinformação nos fazem regredir no tempo simbólico a um imaginário mítico de fantasias e projeções, compartilhadas como verdades. Regredir a um tempo em que as formas lendárias pairavam sobre o imaginário do inconsciente coletivo dos indivíduos, ao ponto de os mitos ressurgirem na intersubjetividade coletiva compartilhado por um determinado grupo social, persuadindo o imaginário dos indivíduos e orientando os seus comportamentos. Crenças e dogmas complementam o poder do imaginário social compartilhado, no sentido de dar crédito ao que comprovadamente não é verdade. Mensagens falsas, que são acionadas por dispositivos algoritmos e compartilhado por diferentes canais de informação, são objeto de crenças mesmo depois de comprovado que são fake news. Segundo as pesquisadoras Fernanda Bruno e Tatiana Roque, “Estudos de psicologia, como os de Stephan Lewandowsky, mostram que uma informação tida inicialmente como válida continua a influenciar o julgamento das pessoas, mesmo se provada falsa” (BRUNO; ROQUE, 2019, p. 15)38. É seguro que essas fake news podem acionar uma crença no inacreditável, como um dispositivo de regressão cognitiva, e por isso demandam uma explicação psicanalítica para entendermos o nosso tempo presente. Acreditamos que o desejo de verdade sobre uma informação falsa é fruto de um desejo onipresente que está recalcado ou omitido na subjetividade de muitos. Segundo Freud (2013) a forma de regressão do subconsciente humano levou a civilização ocidental a um retorno à fantasia, dos tempos antigos, e com isso se expressavam sintomas de neuroses e psicose sociais no comportamento dos indivíduos. Como descrito por Freud, “A magia tem de servir aos propósitos mais diversos: submeter os eventos naturais à vontade do homem, defender a pessoa dos perigos e dos inimigos e dar-lhe o poder de prejudicar seus inimigos (FREUD, 2013, p. 48). Ele reflete sobre o processo de fase do primitivismo animista e narcísico do pensamento, que no caso de sua tese está ligado ao caráter libidinal, dos seres humanos, em fase precoce. Nas palavras de Freud (2013): O animismo é um sistema de pensamento, ele não só́ explica um fenômeno particular, mas permite compreender o mundo como unidade, a partir de um ponto. No curso dos tempos a humanidade produziu três grandes visões de mundo, se dermos crédito às autoridades: a animista (mitológica), a religiosa e a científica. Entre elas, a primeira criada, o animismo, é talvez a mais consequente e exaustiva, a que explica de maneira cabal a natureza do mundo. Essa primeira concepção de mundo da humanidade é uma teoria psicológica. Está além de nosso escopo demonstrar o quanto dela ainda se acha na vida moderna, seja depreciada, em forma de superstição, ou bastante viva, como fundamento de nossa linguagem, crença e filosofia. Remontando a esses três estágios de visões do mundo, fala-se que o animismo em si não é ainda uma religião, mas contém as premissas sobre as quais depois se constroem as religiões. É também claro que o mito se baseia em pressupostos animistas; mas os pormenores da relação entre mito e animismo permanecem não esclarecidos em pontos essenciais. (FREUD, 2013, p. 45). A explicação freudiana sobre a onipresença mágica e espiritual do pensamento animista explica que a reflexividade dos indivíduos prescinde de processos racionais e objetivos e se prendem a formas de pensamentos primitivos, instituídos pelo medo, em que os mitos se fazem presentes no inconsciente e despertam a capacidade de acionar de forma profunda o consciente emocional dos indivíduos. A forma animista e mágica do pensamento, nesse caso, é um ato de sobrevalorização de crenças em magia e feitiçaria primitivas do homem, transportada para o seu universo cotidiano, onde tudo é projetado em forma de delírios, fobias, transtornos, dentre outros sintomas da ordem da psicanálise. Esses sintomas presentes na mente dos indivíduos funcionam como um modo de pensamento onipresente que guarda um inconsciente mágico, que é onipresente como forma de pensamento do inconsciente, que encobre a repressão dos instintos nos sujeitos, segundo Freud (2013). Freud também afirma, em seu outro trabalho, que o mal está na cultura e os processos civilizatórios estão relacionados ao controle conservador das formas culturais de dominação e subjugação do modo de vida social nessa passagem do século XIX para o XX, em que o pensamento religioso promove uma forma conservadora, assim como uma certa regressão mental, que se constitui no subconsciente dos indivíduos. Para Freud (2011) em seu livro O Mal-estar na Civilização, a religião tem o caráter de contribuir para o processo subjetivo da crença, nas formas em que a moral e o pensamento simples fundados na fé, é mais eficiente para os indivíduos que o pensamento científico e artístico, por exemplo. Numa espécie de disputa de racionalidades entre a religião, a arte e a ciência, o homem simples vai optar sempre pela primeira, porque a fé que eles despertam subjetivamente tem mais poder de alcance sobre as suas emoções. Por outro lado, isso também demonstra a força que as formas religiosas têm na colonização das mentalidades. Nesse sentido, a força da subjetividade dominada por formas mágicas ou míticas de religiosidade é imperiosa e passa a ser mais importante que outro tipo de crença no que diz respeito ao valor que os indivíduos dão à vida. Ter fé em referências de divindades é, seguramente, bem mais comum que crer na razão científica ou ser sensível à contemplação da arte. A ciência e a arte demandam um processo de raciocínio interpelativo, crítico e não dogmático, que exige dos sujeitos uma mudança subjetiva de percepção sobre os fatos objetivos. Enquanto a religião aciona apenas a subjetivação da crença, da fé e dos dogmas desse homem simples. Sobre isso, Freud (2011) afirma: Voltemos ao homem comum e à sua religião, a única que deveria ter esse nome. Então nos ocorrem as conhecidas palavras de um dos nossos grandes poetas e sábios, ao se manifestar sobre os laços da religião com a arte e a ciência. Elas dizem: Quem tem ciência e arte, tem também religião; Quem essas duas não tem, esse tenha religião!39 Por um lado, a religião é aí colocada em oposição às duas maiores realizações do ser humano; por outro lado, afirma-se que ela pode representar ou substituir ambas, no que toca ao valor para a vida. (FREUD, 2011, p. 12). O pensamento religioso é doutrinário e atua num campo do conservadorismo dogmático que parece demonstrar ser um caminho com certa segurança para os indivíduos massificados por esse tipo de pensamento. A massa religiosa aciona crenças e dogmas para se proteger da paranoia e do medo que o irracionalismo propaga, a massa política, que segue líderes populistas mitificados e paternalistas, a exemplo do fascismo, tendem a seguir o mesmo princípio. Segundo Reich (1987): As massas funcionariam por mecanismos irracionais representados pelas ideologias políticas e a “a política é a expressão irracional dessa doença, constrói uma dicotomia entre um irracionalismo que é inerente às massas, convocado por ummisticismo que permite a aceitação das estruturas repressivas.” (REICH, 1987, p. 41). Nesse sentido, o fenômeno da pós-verdade ajuda a acionar o processo de obliteração da racionalidade da sociedade de massa, ofuscamento do princípio da razoabilidade nas atitudes dos sujeitos, que são cada vez mais emocionadas e individualizada e, muitas delas, fundamentadas em valores religiosos e moralistas, que tentam se travestir de valores políticos. De certa fora Adorno (1950), quando publicou seu texto: Introdução à “A Personalidade Autoritária”, se referia a esse tipo de crítica ao autoritarismo, que regressa do passado e se ancora em personagens da história do presente que promovem ilusões coletivas. Segundo ele, Na história da civilização, tem havido muitos momentos em que as ilusões coletivas não foram curadas pela propaganda, mas, no final da análise, porque os homens de ciência e seus hábitos de trabalho insistentes e discretos estudaram o que jaz na raiz da impostura. Gostaríamos de citar dois exemplos. A crença supersticiosa na feitiçaria foi superada nos séculos dezessete e dezoito, depois que os homens começaram a viver sob influência dos resultados da ciência moderna. O impacto do racionalismo cartesiano foi decisivo. Essa escola filosófica demonstrou que a crença no efeito imediato dos fatores espirituais no domínio corporal, até então aceita, era ilusória. Os cientistas naturais que os seguiram fizeram uso prático desse formidável discernimento. Os fundamentos da crença na magia foram destruídos, pois, uma vez eliminado aquele dogma, tornado cientificamente insustentável. Como exemplo mais recente, só podemos pensar no impacto da obra de Sigmund Freud na cultura moderna. [...]. O presente trabalho, esperamos, encontrará um lugar nesta história de dependência mútua entre ciência e clima cultural. [...] Ele procura desenvolver e promover o entendimento dos fatores sociopsicológicos que tornam possível ao tipo autoritário ameaçar o posto do tipo democrático e individualista dominante em nossa civilização no último século e meio, assim como os fatores por meio dos quais essa ameaça pode ser contida. A análise progressista desse novo tipo antropológico, bem como de suas condições de crescimento, através de sua permanente diferenciação científica, fortalecerão as chances de um contra-ataque genuinamente educativo. (ADORNO, 1950, p. 30). Esse texto de Adorno é extremamente atual e nos faz perguntar se essa previsão de Adorno, que reconhece no processo educacional uma forma de emancipação social dos sujeitos, apontava para o possível aparecimento de fenômenos de personalidades autoritárias, no século XXI, em que vemos surgir personalidades autoritárias e populistas? Seguramente essas formas míticas do presente apostam no desenvolvimento de uma neurose coletiva, desenvolvidas com os avanços da indústria cultural de massa e seus desdobramentos na sociedade da informação, ou, melhor falando, sociedade da desinformação. O fato é que o advento de fenômenos do binômio fake news/pós-verdade, associado ao pensamento mítico e ao conceito de raciocínio motivado, tem contribuído para uma espécie de regresso ao primitivismo da racionalidade, ao mesmo tempo em que tem possibilitado o retorno de um pensamento neurótico, a partir desse processo de pós-verdade em que as convicções e o emocional falam mais alto que a verdade. Segundo D’Acona (2018) nesse processo de pós-verdade, “O que importa não é a ponderação racional, mas a convicção arraigada (p. 31)”, em que a crença substitui a verdade. E dentro desse contexto, a frente de dispositivos digitais providos de hiperinformação falsa, o excesso de notícias não comprovada ou distorcida, moralismos religiosos, ajudam a criar uma reificação, subjetiva muito forte, diminuindo em muito a capacidade crítico-reflexiva diante da narcose das redes sociais que reiteram crenças e paranoias, e tem acionado o medo como instrumento de controle político. Segundo Safatle, O medo como afeto político, por exemplo, tende a construir a imagem da sociedade como corpo tendencialmente paranoico, preso à lógica securitária do que deve se imunizar contra toda violência que coloca em risco o princípio unitário da vida social. Imunidade que precisa da perpetuação funcional de um estado potencial de insegurança absoluta vinda não apenas do risco exterior, mas da violência imanente da relação entre indivíduos. Imagina-se, por outro lado, que a esperança seria o afeto capaz de se contrapor a esse corpo paranoico. No entanto, talvez não exista nada menos certo do que isso. Em primeiro lugar, porque não há poder que se fundamente exclusivamente no medo. Há sempre uma positividade a dar às estruturas de poder sua força de duração. Poder é, sempre e também, uma questão de promessas de êxtase e de superação de limites. Ele não é só́ culpa e coerção, mas também esperança de gozo. Nada nem ninguém consegue impor seu domínio sem entreabrir as portas para alguma forma de êxtase e gozo. (SAFATLE, 2015, p. 24). Retornando às alegorias mitológicas da literatura grega, diríamos que as redes sociais e suas fake news funcionam na sociedade contemporânea como uma espécie de esfinge digital, que impõe medo e devora os usuários cotidianamente, com mensagens falsas, massificadas e indecifráveis que entorpece nossas subjetividades. O mito da pós-verdades se transforma em uma esfinge diante do Édipo40 pós-real, que são os usuários que corroboram É com as fake news. Esse Édipo é sufocado e consumido, por um excesso de informação massificada qual ele não tem capacidade de decifrá-las. As fake news obliteram a capacidade de questionamento imediato acionando uma ressonância emocional, qual discutiremos mais à frente. E por não termos capacidade de discernimento instantâneo, somos emocionalmente afetados e impedidos de desenvolver qualquer capacidade de reflexão sobre o quem vemos, ouvimos e lemos. Ou simplesmente se deseja dar crédito a tudo que seja falso que circule na rede por se acreditar no que se consome nessa desinformação. A propósito dessa questão vale a pena reafirmar a epígrafe deste capítulo, em que se lê, “Bolsonaro não tornou ninguém cruel, preconceituoso, racista, homofobo, misógino, xenófobo, intolerante e idiota. Essas pessoas sempre existiram, apenas precisavam de um ‘mito’ que desse voz aos seus pensamentos”. Num misto de neurose e perversão fascista e neoliberal da psicopolítica contemporânea (HAN, 2014; MACEDO, 2020). A autoconsciência da perversão e da neurose são partes do mesmo processo nesse contexto de psicopolítica do neoliberalismo fascista que coabitam com novas tecnologias de poder (HAN, 2014). Esse processo suscita ainda uma certa autoconsciência da neurose em forma de perversão, na medida em que se compartilham fake news, que são deliberadamente, xenofóbicas, homofóbicas, racistas, sexistas, discriminatórias e fazem parte de um imaginário fascista que é compartilhado nas redes sociais. Isso tudo junto faz parte de um jogo perverso em que se compartilham, não apenas mensagens falsas, mas a crenças no desejo de verdade sobre o falso. Os grupos que compartilham a fantasia fascistas por meio de suas fake news, lidam com um desejo de real exclusivo, no sentido semântico radical do termo, aquele que exclui a tudo e a todos que não farão parte desse imaginário. Esse processo de fé nas fake news exclui inclusive o próprio princípio da verdade. A charge do Daniel Paz, que circulou pelo Instagram, ilustra bem esse exemplo. Na charge, em forma de quadrinho, se vê que há um homem comum de idade avançada, de pele clara, diante da tela de um computador, tendo ao lado sua filha adulta, também de pele clara, compondo uma imagem, em que se lê o seguinte diálogo em espanhol: -No, Papa es una notícia falsa! (afirma a filha) -Pero como va ser falsa si disse justo lo que yo pienso? (responde o pai)41 O pensamento do homem comum da charge, para mantermos a expressão usada por Freud, exposto as redes sociais, assimila como verdade muito do conteúdo ao qual ele tem acesso, e não desenvolveinteresse crítico sobre a mensagem. Voltando à definição sobre o conceito de pós-verdade, encontramos nela uma ação substantiva que mobiliza emoções a partir da manipulação de valores e crenças, que se sobressaem como “falsas verdades”, que tem por efeito um grande impacto obliterador das percepções da consciência coletivas dos sujeitos conectados em redes sociais, sobretudo quando esse sujeito encontra afinidade com a mensagem recebida. Além desse aspecto, determinados usuários preferem acreditar em fake news, pois elas acionam um mercado da dúvida, e, pelo sim ou pelo não, todos, de uma maneira geral, não veem problema em compartilhar dúvidas em forma de mensagens. Por outro lado, muitos desejam acreditar e compartilham com seus grupos de afinidades e, nesse caso, muitos, além de compartilharem uma mensagem, também estão compartilhando uma crença ou um conjunto de valores ancorados em dogmas os quais defendem como verdade absoluta. O conteúdo de falsa mensagem aciona um imaginário identificado ou vivido sobre o qual o desejo de verdade é maior que a realidade que o conteúdo das mensagens falsas tentam ocultar ou deturpar. A persuasão das fake news se faz mais eficaz quando há um desejo de crença na notícia ou na mensagem falsa repassada. Aí reside a autoconsciência desse processo. Além disso, esse processo autoconsciente se faz num contexto em que forja uma colonização imaginária por crenças, que não se fundam no real, mas na idealização e desejo de um real que não existe e que é elaborado ideologicamente como fantasia compartilhada. Querer acreditar em mitos e lendas, mesmo sabendo que esses fatos não corresponderam à realidade vivida na história, é um desejo do campo da fantasia abstrata, que corresponde a referências do imaginário cultural de muitos indivíduos, que agem corroborando de forma autoconsciente a esse respeito. Segundo Homi Bhabha (1998), em seu livro O local da cultura, a colonização do imaginário tem um poder determinante nos processos hegemônicos de dominações culturais generalizadas. Ele nos cita por exemplo como esse processo está presente na crítica com que autores pós-coloniais como Frantz Fanon e Julia Kristeva, que trabalham na análise da cultura, da identidade e do feminismo etc., que apontam para a relação do imaginário com as questões ligadas ao psiquismo: “Fanon e Kristeva buscam redefinir o processo simbólico através do qual o imaginário social – nação, cultura ou comunidade – se torna o sujeito do discurso e o objeto da identificação psíquica”. (BHABHA, 1998, p. 217). Para esses autores a colonização do imaginário reflete a real dimensão do poder da colonização. Guardada as devidas proporções, a pós-verdade tem a intenção mítica de criar uma fantasia de colonizar imaginários, mediada pela efemeridade da assimilação dos afetos no processo de desinformação. Com isso a colonização do imaginário se faz como a configuração de um pensamento único mediado pelas subjetivações conservadoras, que não aceitam outra forma de valor de crença, só as de sua pertença coletiva. Como é o caso do pensamento político fascista, como afirma Stanley (2015). Os políticos fascistas justificam suas ideias ao aniquilar um senso comum de história, criando um passado mítico para respaldar sua visão de presente. Eles reescrevem a compreensão geral da população sobre a realidade distorcendo a linguagem da idealização por meio da propaganda e promovendo o anti-intelectualismo [...]. Depois de um tempo, com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado. (STANLEY, 2020, p. 16). Dentro desse contexto, há uma predisposição a aceitar informação, quando essa está próxima a coisas em que se acredita, ou quando a determinada informação é transmitida por alguém próximo ou do círculo de confiança do receptor da mensagem. Sendo assim, informações inverossímeis e que não correspondem à verdade dos fatos circulam de forma livre e sobre ela se instaura um regime de verdade compartilhado por muitos. Isso só acontece porque, desejo subjetivo que permeia nosso imaginário, se identifica com o que nos é informado, dentro de um plano de percepção o que nos leva a uma condição de crentes e não de críticos. Aí reside a reificação subjetiva da consciência crítica, como analisa Lukács (1978; 2003) e Adorno (2006; 2011). Mas vale destacar que esse tipo de saber reificado pelo negacionismo mítico, que a pós-verdade apresenta, fundado por crenças e sistemas de valores compartilhados, não se sustenta frente a uma interpelação comunicativa e racional crítica, que interpele sua validade mítica, como verdade universalmente válida. Mas isso não nos permite afirmar que os indivíduos que compartilham um tipo de pensamento dogmático, doutrinários, estejam interessados em mudar sua forma de mentalidade e comportamento, esse é o paradoxo da pós-verdade. Os elementos da crença e da mítica, como nos fala Freud (2013) são muito fortes e forjam inconscientes coletivos como nos possibilitou entender a psicanálise. Isso nos permite entender que o imaginário mítico propicia uma percepção estética da fantasia em forma de saber que fundamenta uma forma de poder, sobre o controle as orientações de comportamentos motivados de forma intersubjetiva dos indivíduos. O pensamento mítico é ancorado na forma do pensamento magico de crença, fé ou medo, sobre o que se acredita, aos modos de uma compreensão religiosa, como discutimos no segundo capítulo deste livro, a partir das críticas ao positivismo durkehimiano e a configuração do dispositivo da fé, que analisamos segundo a perspectiva de Agamben (2005) e Foucault (1979). A crença e a fé são formas de conhecimento velado por um véu dogmático, que se fundam em verdade inquestionáveis para quem acredita. Essas verdades subsistem dentro de um plano coletivamente compartilhado. Não são explicáveis com os mesmos modelos das formas racionais e lógicas como o pensamento esclarecido da ciência, fundado em espectros epistemológicos e metodológicos. Nesse sentido, devemos entender que, para compreendermos e analisarmos criticamente o tipo de crença que se sustenta num modo de agir da pós-verdade, devemos nos amparar na crítica do conhecimento fundado nos interesses, à luz do que nos mostrou Habermas (1968). Para Habermas, toda forma de conhecimento está compreendida num certo campo de interesse, essa é a premissa a partir da qual ele fundamenta os seus escritos Conhecimento e Interesse e Técnica e Ciência como ideologia (1968). Sobre esse ponto de vista, Habermas afirma que a crença em modelos paradigmáticos sobre as formas do saber na teoria do conhecimento fundados com a modernidade, desde a razão metafísica kantiana, passando pela dialética hegeliana, o materialismo histórico de Marx, o racionalismo do positivismo de Conte e Durkheim e a fenomenologia de Russerl, dentre outros saberes epistemológicos, se esforçaram, cada um a seu modo, para criarem explicações substanciais em relação ao conceito de verdade ligada diretamente à realidade. E em todos esses modelos paradigmáticos, o modus operandi da razão é determinante para a produção da verdade. Todos esses modelos atenderam a um conjunto de interesses que é constitutivo de valores epistemológicos e se emanciparam ao longo da história. Como no positivismo, por exemplo. Que é um campo de conhecimento sistematizado que está ligado a formas de controle fundadas em dispositivos de poder e de saber. Esse pressuposto epistemológico que Habermas aponta é contrário a qualquer conhecimento particular, reducionista, mítico ou dogmático fundado em crenças privadas que se pretendam como verdadeiras, fora de um regime sistemático de produção de saber. Com isso, nenhum conhecimento mítico ou fantasioso, que seja fruto de uma produção mágica, é valido como forma de racionalidade, sobre o qual se possa constituir um regime de verdade legítimo do ponto de vista epistemológico. As crenças religiosas e míticas, por mais que se pretendamcoletivas, são subjetivamente assimiladas de forma particular e só funcionam como regime de controle partilhado de forma igualmente particular. Os grupos comunitários, nos quais as pertenças subjetivas dos sujeitos encontram um certo poder ancorados em mitos, crenças ou fé, que são coletivamente compartilhados, fazem parte de dimensões que crescem assustadoramente nos contextos coletivos e se espraiam no tecido social em foram de ativismo em rede na sociedade globalizada. Nessas redes sociais, o processo de subjetivação dos sujeitos são, até certo ponto, processos conscientes de tomada de posição em relação à realidade que tem um grande poder de influência na relação público/privado, estado/sociedade. Os sujeitos em sã consciência optam pelo que vão acreditar, logo, têm autoconsciência na certeza de acreditarem ou procurarem acreditar em algo que atendam a seus interesses, sobre a realidade, ao ponto de exercer influências em determinadas políticas públicas, que são objetos de interesses geral de todos os cidadãos, que não compartilham, corroboram ou tiveram anuência sobre determinadas tomadas de posição governamentais, estruturadas em agendas conservadoras e que atendem a pautas moralistas, fundadas em valores religiosos e crenças das mais variadas. Essas crenças são fundadas em um jogo de interesses, como bem afirma Alexander Dugin, cientista político conservador da nova direita americana, que afirma que “[...] a verdade é uma questão de crença [...] essa coisa de fato não existe.” (D’ANCONA, 2018, p. 36). Esse conservadorismo que instiga polêmicas, visando acionar os afetos dos eleitores, atendem e promovem um conhecimento fundado em interesses nos quais se amparam governos conservadores e autoritários que tomam decisões políticas fundadas em práticas de fake news, que atendem a um regime discursivo e biopolítico de poder, em que, acionar as emoções da opinião pública é mais eficaz que promover um debate político com o público. Remetendo essa questão epistemológica ao plano intersubjetivo dos indivíduos, não concordamos com argumentações que afirmam que os usuários e internautas que corroboram com o regime discursivo de poder da pós-verdade, e que repassam as fake news, sejam ingênuos ou sofram de déficit cognitivo etc. A bem da verdade, eles compartilham um processo autoconsciente de ignorância coletiva, processado por meio das mídias sociais. Muitos dos que compartilham fake news têm ou procuram ter confiança nas notícias falsas de forma deliberada, pelo fato de algumas notícias corroborarem com ideias e visões de mundo de muitos usuários. Ou seja, de uma forma ou de outra, esse conjunto de notícias falsas tangenciam o sistema de crenças desses indivíduos. Muitos usuários de redes sociais gostariam que determinadas fakes news fossem de fato notícias reais, pois os tocam de forma emocionalmente forte ou reiteram valores que esses usuários compartilham, como vimos no exemplo da charge no Instagram, que exemplificamos em linhas anteriores neste capítulo. Nesse caso, a reverberação emocional das mensagens é impactante e incide nas formas de assimilação da verdade desejada. O que ajuda a fortalecer, por parte de determinados grupos conservadores, a propagação da opinião pública nas redes sociais, em apoio ao discurso político e social conservador, fundado em medos e afetos. Segundo as pesquisadoras Fernanda Bruno e Tatiana Roque (2019) apontam, não se deve esperar que uma verdade comprovada vá substituir uma avalanche de fake news. Mensagens que suscitam emoções fortes são particularmente persuasivas: asco, medo, ou raiva são sensações que levam uma pessoa a repassar imediatamente uma mensagem. Isso só confirma que o engajamento no repasse de uma mensagem pode estar menos vinculado à veracidade de seu conteúdo, do que a pertinência de um conjunto de convicções coletivas. (BRUNO; ROQUE, 2019, p. 21). Nesse sentido, a obliteração subjetiva tem um caráter autoconsciente e igualmente deliberado, na crença sobre o fato da fake news. Ou seja, há um desejo de crença objetivado na assimilação da pós-verdade, o que torna esse processo cognitivo ainda mais perigoso, por estar de forma autoconsciente sendo reiterado como prática do senso comum, mesmo tendo sido feito por indivíduos/usuários esclarecidos. Nesse ponto, o conceito de autoconsciência que Elias (1990, 1991) trabalha nos permite lançar mão da ideia em que essa relação dos indivíduos está fundada num certo acordo de consentimento sobre o que se deseja acreditar. Nesse caso particular, um acordo consentido que apoia o regime de informação não verdadeira, que se presta à manipulação da opinião pública em favor de manutenção de poderes, que se justificam com falsas argumentações e que substituem e subvertem a realidade de fatos, visando o controle do poder público. Querer acreditar nas coisas não significa que ela não exista, significa sim que há um desejo discursivo de crença sobre algo que se gostaria que existisse. É nesse sentido que se fundamenta o discurso do desejo da crença e da fé, presente na vontade do saber e do poder do fascismo. 5 HABERMAS E NORBERT ELIAS: A SOCIOGÊNESE DA AUTOCONSCIÊNCIA E AS IMPOSSIBILIDADES COMUNICATIVAS NO IRRACIONALISMO DA PÓS- VERDADE Alcançar entendimento é o telos inerente da fala humana. Jürgen Habermas Consideramos o binômio pós-verdade/fake news um processo de irracionalismo autoconsciente de conveniência, que choca, distorce, reprime e ajuda a negar a realidade dos fatos e mobiliza afetos coletivos compartilhados. Com base nisso, tratamos de entender esse fenômeno de irracionalismo e seus dispositivos de persuasão intersubjetivos, que visam subverter a ordem da razão e a opinião pública, e assim, eliminando qualquer possibilidade de qualquer forma comunicativa que vise o entendimento. O fenômeno da pós-verdade faz parte de um jogo instrumental de poder fundado em interesses desinformativos de grandes grupos e políticos, que disseminam desinformação, com o objetivo de criar instabilidade generalizada na opinião circulante nas redes sociais sobre determinados assuntos e temas, visando interesses específicos, como persuadir ou mobilizar a opinião pública de sociedades inteiras, no sentido de criar pressões de interesses econômicos e financeiros, como no caso do BREXIT, que resultou na saída do Reino Unido da União Europeia. Dentro desse contexto de pós-verdade e seu recurso instrumental em forma de fake news, funciona como um dispositivo que obliterar a capacidade de discernimento crítico dos sujeitos, persuadindo-os o orientando-os a tomarem posições urgentes sobre determinados conjuntos de interesses, sobre os quais, geralmente, os indivíduos envolvidos não exercem conhecimento, mesmo assim se mobilizam de forma afetiva, a tomarem posições, ao ponto de criarem conflitos e situações de violência. Esse conjunto de interesses, que motiva as fakes news são pautas de conjunturas locais e internacionais e atendem especificamente ao desejo de controle imediato sobre as novas formas de opinião pública e política, assim como sobre as motivações individuais, a partir da esfera pública da internet, por meio das suas redes sociais. Em particular na manipulação e indução da opinião dos indivíduos/usuários das mídias sociais, que consomem e reproduzem informação em larga escala cotidianamente e que estão mais vulneráveis a crerem em mensagens e informações inverossímeis e a persuasão de grupos de compartilhamento. Os impactos das fake news nas redes sociais causam efeitos emocionais nas mais várias camadas da sociedade e repercutem em todas as classes sociais de forma generalizada, pois, mesmo quando se prova que determinadas notícias são falsas, muitos continuam desejando que essas fossem verdadeiras, numa espécie de sistema de pensamento negacionista fundado num irracionalismo autoconsciente e conveniente. Quase sempre, a função desse tipo de pensamento negacionista é atuar contra o pensamento racional científico. O pensamento da ciência e da filosofia tem o poder de dispor de um saber pautadoem processos de racionalidades que atendem a níveis de conhecimento teórico, conceitual, metodológico e hipotético, que foi acumulado e compartilhado no processo histórico das sociedades. O modo epistemológico do pensamento racional está fundado em perspectivas de conhecer e interpretar a verdade dos fatos. A exemplo disso, concordamos com os interacionistas simbólicos, que herdam da fenomenologia uma maneira de interpretar os fatos dentro de uma perspectiva relativista, em que se coloca o conceito de “verdade”. A essa verdade cabe sempre um certo grau de relativização, pois não existe verdade como essência das coisas, mas como interpretação, mediante parâmetros epistemológicos. Com isso, o fenômeno da construção social da realidade é relativo ao posicionamento do sujeito no mundo e seu modo de interpretá-lo hermeneuticamente a partir dos fatos. Mas, mesmo assim, há um pressuposto de validade universal para definir a legitimidade do posicionamento desse sujeito no mundo e o seu papel interpretativo. E, nesse sentido, a hermenêutica, como método, dentro desse contexto, exerce um poder de reflexão interpretativa que se legitima como construção da verdade interpretada. Ao menos esse é o papel do conhecimento, em particular o social, na tomada de posição sobre as formas de interpretar os dados, os fatos, os fenômenos e inclusive, na tomada de posição de pensar o próprio pensamento. Dentro desse contexto, sociólogos interacionistas, como Berger e Luckmann (1973) assim como materialistas críticos, como Adorno (2006) corroboram da mesma premissa em que se afirma que o pensamento é uma categoria analítica e interpretativa, que se funda no uso da razão reflexiva, para interpretar fatos e fenômenos. A esse respeito, Adorno afirma que: Para a mentalidade científica o desinteresse do pensamento pela tarefa de preparar o factual, a transgressão da esfera da realidade é desvario e autodestruição, do mesmo modo que, para o feiticeiro do mundo primitivo, a transgressão do círculo mágico traçado para a invocação [...]. (ADORNO, 2006, p. 33). Os resultados do conhecimento científico são colocados à prova e disponibilizados em testes sujeitos à refutação e à contra-argumentação. O que faz com que a ciência seja plural, busque interpretações sobre o real, fundado em saberes diferenciados e sistematizados que visem sempre novos resultados, em nome de uma melhor explicação, sobre os fatos da realidade em todas as áreas. As mudanças propostas pelo conhecimento científico levam o conhecimento sistemático a novos patamares de mudança, inovação e emancipação, que devem incidir em novos resultados relativos às novas verdades. Quanto a isso, gostaria de recorrer a Habermas (1990), para entender a crítica epistemológica ao conceito de conhecimento, pensamento e verdade como espírito absoluto ou incondicionado, que na língua latina significava summus ens (vide a exegese dos textos antigos) e que nos servirá de base para formular uma crítica ao seu oposto que é a pós-verdade no século XXI. A verdade e sua forma de conhecimento e pensamento de ordem púbica está sendo substituída por um dispositivo que produz desinformações, a partir dos quais o conhecimento do homem comum perdeu seu poder interpelativo e crítico. Como afirmamos logo no primeiro capítulo deste livro, o termo pós- verdade foi definido como um substantivo que se referencia ao contexto no qual os valores subjetivos ligado, sobretudo, à mobilização dos afetos, se sobrepõe ao caráter objetivo dos fatos e ao modo racional de compreendê-los. É dentro desse contexto que a pós-verdade se mostra como um posicionamento anticientífico e negacionista, que desconsidera o saber técnico e o substitui por valores míticos e de natureza esotéricos, ou em publicidade falsa, dentre outras coisas. Com afirma D’Ancona (2018), em seu texto “Quem precisa de ciência?”, as prioridades da pós-verdade fazem aflorar a cultura do “negacionismo científico” e “teorias da conspiração”. Como D’Ancona afirma: Quando a verdade desaba como valor social, as continuidades da prática social que ela apoiou são postas em perigo. [...]. A pós-verdade gera uma volatilidade espantosa. Quando se confia menos na investigação baseada em provas do que numa coleção de anedotas e se presta menos atenção à autoridade institucional do que em teoria da conspiração, as consequências podem ser imprevistas e fatais. (D’ANCONA, 2018, p. 72-73). Argumentamos com base em Adorno e Horkheimer (2006) que esse processo é ideológico e cria uma reificação do pensamento, que leva o ato de pensar a “reifica-se num processo automático e autônomo que ele próprio produz para que ele possa substituí-lo. O Esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 33). Pois a ideologia, ao coisificar a consciência dos seres, inibe o potencial crítico de interpretação e suscita a percepção emocional como modo de operação do pensamento superficial sobre fatos, objetos e fenômenos. Compreendamos que a interpretação é um modo formativo e linguístico de produzir saberes. E quanto mais fundamentado em elementos da realidade estejam essas formas de saberes, mas válidos serão os processos de formação do conhecimento no cotidiano por meio das formas de linguagem e desalienação do senso comum. Berger e Luckmann (1973) fazem uso dos conceitos de realidade e conhecimento, afirmando que esses termos são mantenedores do princípio da verdade e ambos os termos fazem parte de uma trajetória epistemológica que se fundamentam a partir de fenômenos da vida diária, em que se acredita no “’conhecimento’ como a certeza de que os fenômenos são reais e possuem características específicas. É nesse sentido que estes termos têm importância para o homem da rua como para o filósofo”. (BERGER; LUCKMANN, 1973, p. 11). Habermas não se distancia dessa perspectiva, pois para ele o cotidiano é o lugar de existência das coisas do mundo da vida, da experiência e do conhecimento. Porém, no mundo da vida do cotidiano da fake news, a experiência com a verdade passa longe, pois é justamente o contrário o que ocorre. O que vigora nesse processo reificado do cotidiano digital das fake news é a criação de falsas realidades ou uma falsificação sobre o conhecimento científico no mundo da vida, o que faz colonizar a subjetividade de milhões de indivíduos/usuário na esfera pública digital da internet, criando mitos ao invés de criar verdades pautadas em formas de conhecimento racional. Segundo Habermas, o conhecimento científico é cumulativo, refutável e emancipatório. Como bem afirma ele, a ciência não é e não pode ser dogmática, e, da mesma forma, “O poder de disposição que as ciências empíricas possibilitam não pode confundir-se com o poder do agir ilustrado.” (HABERMAS, 1968, p. 99). Por sua vez, para Habermas, esse conhecimento cumulativo e sua relação com a autoconsciência dos indivíduos é visto como uma forma de amadurecimento na relação entre o conhecimento e racionalidade pública, nas formas comunicativas da esfera pública. O esclarecimento político do conhecimento é necessário, à medida que a teoria do conhecimento técnico e científico estão dispostas em formas de controle, sobre as quais os indivíduos devem se transformar em sujeitos políticos por modos comunicativos de negociações e entendimentos sociais. Mas, para Habermas, essa questão da autoconsciência do saber e do conhecimento está associada ao modo como o conhecimento técnico foi estabelecido pela ciência, e se disponibilizou dentro de um jogo de forças, marcados por conhecimento e interesse. Em seu livro Técnica e Ciência como ideologia, Habermas cita que, As informações de natureza estritamente científico-natural só podem entrar num mundo social da vida por meio da sua utilização técnica, como saber tecnológico: prestam-se aqui a ampliação do nosso poder de disposição técnica. Por isso, não se situam no mesmo plano da autocompreensão, que orienta a ação dos grupos sociais. Para o seu saber prático, que se exprime na literatura, o conteúdo informativo dasciências não pode, pois, ser relevante sem mediações – só pode adquirir significação pelo desvio através das consequências práticas do progresso técnico. (HABERMAS, 1968, p. 97). Essas ideias desenvolvidas por Habermas como crítica ao conhecimento na modernidade, em particular as críticas que foram estabelecidas pela leitura feitas a partir de Hegel em seus livros Técnica e ciência como Ideologia (1968) e Conhecimento e Interesse (1973), é de fundamental importância para entendermos sua análise sobre a modernidade e os discursos que ela instaurou, fundados no saber e na ordem instrumental do positivismo. Sua abordagem se refere às formas de racionalidade que se impôs no mundo social dos sujeitos e incidiram diretamente nos processos intersubjetivos de comportamento social de forma autoconsciente. Norbert Elias (1990) segue um outro caminho, fundado na violência instaurada no processo civilizatório que configurou o caráter nacional dos Estados-Nação, que contribuiu para a formação da autoconsciência das formas de controle, expressas na institucionalização das formas de saber e poder, que determinam a sociogênese dos indivíduos na sociedade moderna, na determinação da relação estado e sociedade. Elias (1990, 2013) chama a sociedade moderna de sociedade complexa, por instaurar novas formas de regulação dos processos de controle civilizatórios, a partir de acordos coletivos de relações sociais e institucionais. As perspectivas de Habermas e Elias são diferentes, mas em ambos os autores é feita uma crítica sobre as formas de dominação, por meios de processos do conhecimento e da verdade que se estabelecem de forma instrumental sobre o controle dos indivíduos nessa esfera social. Habermas e Elias, cada um ao seu modo, ao tratarem de uma reflexão crítica sobre as formas do conhecimento e autoconsciência dos indivíduos, nos ajudam na formulação de uma análise crítica sobre as formas de irracionalismo de conveniência que se constituem em novas formas de poder e discurso autoritário na sociedade contemporânea, na qual se propagam a formação de um novo pensamento ultraconservador e autoconsciente por parte dos indivíduos. Habermas afirma que “A autoconsciência, a relação do sujeito cognoscente consigo mesmo, oferece, desde Descartes, a chave para a esfera interna, absolutamente consciente, das representações que temos dos objetos.” (HABERMAS, 1989, p. 28). Porém, quando a ação de cognição envolve linguagem, essa ação passa a fazer parte de uma lógica comunicativa, e sobre a qual se impinge a necessidade de entendimento social e reciprocidade reflexiva. Esse argumento habermasiano que resulta na explicação da razão comunicativa está fundamentado em três pilares, ou, se preferirem, em três perspectivas, a linguagem, a cognição do aprendizado e por fim os processos morais que envolvem as formas normativas da vida social, relativas às ações e procedimentos comunicativos. A racionalidade comunicativa (HABERMAS, 2012), que sofre forte influência das explicações de teóricos do interacionismo simbólico, como George Mead, está presente epistemologicamente nas esferas sociais e precisa ser observada como elemento contributivo da construção social da verdade, nos processos de entendimento e acordos sobre a realidade, com base na intenção de comunicação entre os indivíduos. A lógica da linguagem, que obedece aos objetivos dos entendimentos na esfera pública (HABERMAS, 1984) são fenômenos presentes do mundo da vida (MEAD, 1932) e só se fazem efetivos como atos mediados pela interação na vida. Segundo Mead (1932), os indivíduos no mundo vivido assumem o papel e incorporam, de forma intersubjetiva, elementos de ação um dos outros, com os quais interagem. Essa relação é estabelecida de forma interpessoal e seguem uma espécie de roteiro social interativo, que se estrutura num protocolo de sociabilidade ao longo do processo grupal e institucional das interações sociais. Dependendo da forma como esse processo vá se desenvolver, os indivíduos vão realizando adaptações nesse roteiro de ação e mediação de comportamento linguístico e nas formas de comunicabilidade entre os atores sociais (MEAD, 1932, 1972). A linguagem, e suas formas de pronunciamento, é o maior fenômeno da humanidade, e a partir desse fenômeno, os seres iniciaram processos de mudança e ordenamento da vida coletiva, a partir dos quais a vida social se tornou emancipada. Com base no uso ordenado da linguagem, sugiram processos evolucionários, revolucionários e emancipatórios que nos levaram a uma sociedade com ordenamento da vida social, donde surgem as ideias de mundo vivido constituídos por espaços públicos, onde os indivíduos comuns desenvolvem suas interações cotidianas de linguagens, atos de fala e sociabilidade de conhecimento e interesses. Nessas esferas, vemos se desenvolver o presente imediato da vida social, mas mesmo que estejamos totalmente imersos nesse presente imediato, estaremos sempre olhando para nosso passado recente, como se esse fosse um reflexo desse mundo vivido, a partir do qual se toma consciência e posicionamento social diante de questões cotidianas. Baseado na teoria de Mead, Habermas afirma que: [...] os fenômenos da consciência sob o ponto de vista de sua formação, que tem origem em estrutura da interação mediada pela linguagem e pelos símbolos. A linguagem possui um significado constitutivo para as formas de vida sociocultural. No homem, a diferenciação funcional mediante a linguagem dá origem a um princípio de organização totalmente diferente, produzindo não somente outro indivíduo, como também outro tipo de sociedade. (HABERMAS, 2012, p. 9). Segundo Habermas, a cognição e o comportamento nascem dos processos de interação linguística que são operados processualmente no mundo da vida e sobre os quais são fundamentais os atos de fala. Para Habermas (2012) a teoria dos atos de fala foi desenvolvida pelo filosofo da linguagem, John L. Austin, o qual define o ato de fala perlocucionário como um ato que provoca efeito de influência, no sentido de convencer, persuadir, assustar etc. sobre quem quer que esteja sujeito ao ato de perlocução, a partir de uma locução diretiva. Os atos de fala e as ações, como fenômenos da vida social, devem ser voltados para o entendimento entres os sujeitos no sentido de se buscar formas de emancipação por meio das interações no mundo da vida e na esfera pública. Nesse sentido, os pronunciamentos linguísticos e as tomadas de posições sociais devem resultar numa racionalidade e numa práxis emancipatória que ajuda a justificar o uso da razão pública, como princípio de orientação política (HABERMAS, 1984, 1990, 1996). Esse tipo de racionalidade opera dentro de uma lógica fundada em pressupostos universalmente válidos, no qual os pronunciamentos, por meio da linguagem política, agem na busca de expressões de entendimento, do ponto de vista cognitivo e comportamental. Os atos de fala, nesse contexto, têm essa função. Quanto a isso, Habermas (2012) se utiliza da distinção que é feita por Austin que nos apresenta três tipos de atos de fala, a saber, o ato locucionário, o ilocucionário e o perlocucionário. No ato locucionário, o anunciante, ao expressar a fala, diz algo, e, ao fazê- lo, expressa um estado de coisas; no ato ilocucionário, ao expressar a fala e a mensagem, o falante realiza uma ação enquanto diz algo, promovendo um processo de entendimento; e por fim o ato perlocucionário, em que, ao expressar o pronunciamento, o falante causa um efeito em que o ouve. Darei maior atenção a esse último, como crítica de um modelo teleológico que busca uma finalidade enunciativa, que prescinde de forma de entendimento, acordo etc. O ato perlocucionário atende a uma forma de razão instrumental e estratégica, que busca meios para atingir determinados fins, impactando de alguma forma que estiver sujeito a esse tipo de ato de fala. No caso em questão, fins que causem impactos e eliminem o poder de reflexão crítica sobre o que que é dito, visto ou ouvido. Não quero aqui reduzir o conceito de ato de fala perlocucionárioao conceito de pós-verdade, em particular aos das fake news. Mas, em certa medida, as fake news têm uma certa característica perlocucionária, por serem formas de pronunciamento que causam de imediato impacto emocional, relativo a crenças e valores dos indivíduos que estão sujeitos às mensagens falsas, na esfera pública, sobretudo as esferas relativas às mídias sociais. Na visão de Habermas, a linguagem, a cognição e a assimilação do desenvolvimento da moral são forjadas no processo de desenvolvimento do aprendizado da vida social. E esse processo só é possível mediante as formas de entendimento e acordos estabelecidos pela autoconsciência social e o comportamento dos sujeitos no mundo da vida social. A linguagem, a cognição e a moral são vistas por Habermas como três pilares da sociedade. O pilar da linguagem é um traço distintivo nas passagens dos estágios das fases nas quais o homem se comunicava por gestos, posteriormente por símbolos e depois pela linguagem oral, por meio da qual vão se desenvolver os atos de fala e os atos sociais, dentro de um roteiro social de procedimentos interativos. Isso proporcionou a emancipação do processo de civilidade nos entendimentos dos atores sociais. O pilar do desenvolvimento cognitivo e moral formam a base sobre a qual Habermas ancora sua teoria do agir comunicativo, mediado pelo processo pedagógico de aprendizagem e comportamento da vida institucional da sociedade. Os processos coletivos de organização social somam-se ao desenvolvimento das ações sociais resultantes de aprendizados acumulados socialmente, que incide sobre os comportamentos. Essa síntese conceitual nos faz entender que Habermas lança mão de um processo interdisciplinar, filosófico, sociológico, pedagógico, linguístico e psicológico, para fundamentar sua teoria da ação social mediada pelos processos comunicativos de ação social. Com isso, a questão a saber é que atos de fala, ações sociais e interações mediadas pela linguagem e por símbolos, assim como formas de comportamentos, são atos de elaboração de um processo de entendimento coletivo compartilhado de forma autoconsciente no mundo da vida. Sobre esses atos, percebe-se a relação social e política da vida púbica nas várias esferas da sociedade, assim como se torna possível uma compreensão sociológica e psicológica dos processos de tomada de consciência dos indivíduos. (HABERMAS, 1990). Os símbolos e as imagens são hoje parte constitutiva desse processo político de enunciação comunicativa que atende às formas de entendimento entre atores contemporâneos na esfera pública, na qual se faz uso de imagens públicas coletivamente compartilhas, dentro da cultura visual. Segundo Habermas, a ação comunicativa se constitui numa forma de ação racional que tem propriedades de uma razão pública e auxiliam as tomadas de posição dos sujeitos no tecido social e político da esfera pública. Ainda segundo o autor, evoluímos socialmente a partir do uso da linguagem e nos emancipamos politicamente de acordo com nossa evolução comportamental mediados por formas coletivas de comunicação compartilhadas. Somos uma sociedade com Estado porque nos emancipamos racionalmente ao ponto de criamos uma ordem institucional que nos permita viver de forma democrática e livre comunicativamente, respeitando nossas diferenças dos indivíduos e dos grupos sociais. Mas ao mesmo em que somos diferentes, somos unidos por um projeto emancipatório que nos iguala como seres comunicantes, mediados por pronunciamentos linguísticos e simbólicos, compreensões discursivas e afirmações comunicativas, em forma de ações por parte dos sujeitos. Isso faz com que entendamos a afirmação do Habermas segundo a qual devemos manter “A unidade da razão na multiplicidade de suas vozes” (HABERMAS, 1990, p. 151). Para Habermas (1990) a razão pública une o múltiplo, porque para ele é necessário termos a unidade diante das diferenças múltiplas, à medida que o tecido social é constitutivo de tais diferenças que são, a priori, subjetivas, porém se expressam na esfera pública mediadas por uma razão pública compartilhada socialmente. Sem o princípio da racionalidade pública, o processo que une o múltiplo e suas distinções, seria inexequível e com isso impossível existirmos coletivamente como sociedade. Essa questão já se fazia presente na visão de Kant, que refletiu sobre a metafisica relativa à razão subjetiva e universal. Para Kant (2001, 2012), a validade universal da razão é um imperativo categórico, pois a razão sendo universal nos permite a percepção do particular e com isso possibilita que a nossa subjetividade se torne agente de percepção do mundo e nos define como indivíduo, que participa deste mundo. Ou seja, o particular só existe dentro do universal e, nesse sentido, o princípio da razão pública nos torna universais. O primado da razão garante parâmetro à sociabilidade livre e institucional da sociedade, independente de toda e qualquer diferença que possa haver entre os indivíduos. Ainda segundo Habermas, o singular e o plural dentro desse contesto é pressuposto das possibilidades metafisica da razão e da verdade, assim como identifica os limites cognitivos da perspectiva do mundo mítico, ainda na crítica que Parmênides fazia à racionalidade mítica, que não tinha pressuposto de validade universal na Grécia antiga. O mundo no singular remete sempre a uma origem que não pode ser da mesma espécie que as forma originárias do mito, que surgem sempre no plural e em disputa umas com as outras. [...]. E a explicação para os fenômenos objetivados não pode ser procurada no nível dos próprios fenômenos, mas em algo que subjaz os fenômenos. (HABERMAS, 1990, p. 154). O que nos leva a crer que embora os sujeitos sejam distintos em suas subjetividades, o princípio da racionalidade permite aos sujeitos a base sobre a qual se construam entendimentos e acordos. Esses entendimentos são pautados no princípio da razão de valores compartilhados, dentro de cânones instituídos nas formas de pronunciamento da linguagem, e se constituem, para Habermas, num agir comunicativo com pretensão de verdade e legitimidade. Gostaria de complementar essa assertiva afirmando que no contexto do irracionalismo de conveniência da pós-verdade, todo esse primado da razão apresentado por Habermas é negado, infelizmente. A pós-verdade resulta da crise de paradigma da racionalidade moderna que instaurou o cenário de pós-modernidade. O discurso, a linguagem empregada na ação da pós-verdade, vem seguindo uma linhagem iniciada com o advento da pós-modernidade e da crise da razão no terceiro quartel do século XX. Esse processo, a reboque da crise da razão ocidental, era discutido em outros patamares, como questões relativas à crise dos modelos de conhecimento e às velhas críticas sobre as epistemologias do mundo moderno e os modelos de racionalidade binários de conhecimento. A modernidade é um projeto discursivo de processos de mudanças contínuas, e a pós-modernidade é uma certa falência desse processo. A onda pós-moderna rompe com a dialética estruturada pelo modo de operação da modernidade. Ela inaugura uma fragmentação da racionalidade e da subjetividade dos sujeitos. A pós-verdade se apoia nessa fragmentação da consciência na forma autorreferente e pretensamente autônoma dos sujeitos e seus atos de fala e de comportamento social em rede. Para Cristian Dunker, A pós-verdade seria uma espécie de segunda onda do pós-modernismo. Sua consequência é ao mesmo tempo lógica e reveladora da verdade brutal e esquecida na qual ambos se apoiam. Assim como a pós-modernidade trouxe o debate relevante sobre, afinal, como deveríamos entender a modernidade e principalmente o sujeito moderno, penso que a pós-verdade inaugura uma reflexão prática e política sobre o que devemos entender por verdade e sobre a autoridade que lhes é imposta. O traço maior da subjetividade em termos de pós-verdade será exatamente esta aptidão para a inversão sem transformação. (DUNKER, 2017, p. 13). Essa inversão, que iria do pós-moderno ao pós-verdadeiro, traz aindauma contradição complexa e conflituosa entre ambos em relação à verdade. Da bricolagem do pós-moderno à intencionalidade das fake news pós-verdadeiras, o que entra em questão, sem querer reduzir uma coisa a outra, é a evasão do princípio ético da verdade e o esvaziamento do pressuposto da racionalidade discursiva, entrando em cena, então, os dispositivos ideológicos de colonização do imaginário social e político a partir dos quais os sujeitos se veem influenciados na esfera pública. A modernidade assim como a pós-modernidade são fenômenos que se constituem a partir da formação de um discurso de poder instituído na esfera do Estado e das instituições da sociedade. Segundo Habermas, (1984, 1994, 1995) a modernidade é fundada sobre um discurso e sobre este se instaura um ideário de valores, que resultam em processo de constituição do conhecimento, sociopolítico, científico, educacional, cultural, artístico e estético da sociedade e do Estado. Porém o que Habermas (1984, 1994, 1995) ressalta é que dentro desse processo a razão relativa à modernidade é constitutiva de uma construção discursiva, carregada de valores e ideologias propagadas de forma instrumental na relação entre meios e fins. Mas mesmo em sendo assim, a própria noção de verdade, no imaginário moderno, atende a uma construção de princípios éticos, que embora sejam contraditórios e as vezes até ambíguos, são, a princípio, ética e politicamente válidos, dentro dos discursos sobre a realidade institucional que a modernidade instaura. Em outras palavras, a verdade e seus desdobramentos estão ancorados em dois fatores, a saber, a validade da razão, que permita a sua compreensão assim como a sua crítica, e a validade ética, que norteia a legitimidade os argumentos e os comportamentos discursivo dos indivíduos e suas verdades. Assim com Habermas, Norbert Elias (1993) defende que a relação dos indivíduos no processo das relações sociais estrutura-se na ética do comportamento dos indivíduos, amparados nas estruturas institucionais da sociedade, sobre a qual, segundo Elias, se formam a sociogênese do conhecimento da vida social, que se pretende civilizada e culturalmente desenvolvida. Dentro desse processo de sociogênese, com pensa Elias (1993), o princípio da autoconsciência sobre a verdade e a civilidade fundam-se numa construção que permite a oposição e a pluralidade das diferenças entre os indivíduos, numa espécie de balança social entre o “Nós” e os “Eus”, como ele afirma em seu livro A Sociedade dos Indivíduos (1993). Os conceitos de conhecimento, verdade, autodeterminação e habitus, na teoria de Norbert Elias, são fundamentais para definir o princípio do processo civilizatório e emancipatório dos estados, com caráter nacional e dos indivíduos com caráter social, numa relação de equilíbrio mediada pela cultura dentro desse processo. O que destacamos é que essa civilidade e sociabilidade cultural são elementos incorporados de forma autoconsciente, que permitem aos indivíduos formularem seus acordos sociais, mediante a relação com o Estado. Sobre esse aspecto, Habermas e Elias estão de lados distintos, sociologicamente falando, sobre as dimensões distintivas entre coletivo e o social e o seu papel, mas se tangenciam sobre o caráter da autoconsciência dos indivíduos nessa dimensão. Para Elias (1993) as formas de poder e conhecimento do mundo moderno, que derivaram em formas de dominação dos estados sobre os indivíduos, são igualmente avanços de um processo civilizatório que se impuseram aos indivíduos a partir de parâmetro de controle do saber sobre o processo civilizatório da vida social, em nome da manutenção das formas de assimilação da cultura dita civilizada. Ainda segundo Elias (1990), a sociedade moderna que é caracterizada por uma complexidade institucional e protocolar, que determina procedimentos de comportamento, é fruto de uma mesma sociogênese que influi a mudança na vida dos indivíduos e ao mesmo tempo dá a eles autonomia social e responsabilidade para que eles sejam livres e responsáveis por si e pelo que fazem conscientemente. Esses indivíduos têm autoconsciência das suas escolhas e têm igualmente consciência da necessidade de seus interesses e do limite sobre até onde podem agir legitimamente a partir de suas liberdades. Porém, nesse mesmo contexto, surgem também novas formas de dispositivos sofisticados de controle que são estabelecidas, e sobre as quais esses indivíduos usuários têm autoconsciência das suas influências. O desenvolvimento das redes sociais e todo acúmulo de experiência e conhecimento disponíveis nelas, representaria um processo complexo que atende não apenas a uma superestrutura tecnológica, mas também a um processo civilizador da informação e não da desinformação que resulta em brutalidade irracional socialmente compartilhada. O processo civilizador é um processo moderno de violência, controle e interdição, que é fruto do acúmulo de experiência incorporada por costumes e por leis instituídas por grupos e pelo estado, e por saberes experimentados, que incidem sobre os indivíduos em forma de dominação autoconsciente que é incorporada intersubjetivamente. Os indivíduos se civilizam incorporando controles e maneiras de ser e de estar no mundo individualmente ou em grupo. Para Elias, “Aquilo que, visto por um aspecto, se apresenta como um processo de individualização crescente é visto, por outro, um processo de civilização” (ELIAS, 1990, p. 317). Fazendo um paralelo a essa premissa, diríamos que os indivíduos no desenvolvimento de suas atividades nas redes sociais se pronunciam e se afirmam perante o mundo, com impulsos espontâneos e reprimidos num jogo de autocontrole nas interações sociais. E o uso das formas de interação culturais e comunicativas são as principais formas de interação; nesse contexto, o comportamento impulsivo em que segundo Elias os indivíduos reconhecem o lugar do “nos” e do “eu” na rede de relações sociais. Segundo Elias (1990) “A lacuna e o conflito entre os impulsos mais espontâneos e os impulsos que cerceiam a ação imediata, sentidos pelas pessoas altamente individualizadas desse estágio de civilização, são por elas projetados em seu mundo” (ELIAS, 1990, p. 319). Para Elias, o controle sobre a percepção e o comportamento do indivíduo fundamenta a regulação e o poder que o Estado estabeleceu sobre os indivíduos nesse processo civilizatório. Porém isso também estabelece algo bem mais agudo como mecanismo de controle modulador de comportamentos na sociogênese do indivíduo na sociedade complexa das redes sociais, nas quais os indivíduos têm plena consciência do seu papel. Nesse contexto, os atos de compartilhamento informativo, desinformativos e contra-informativos, como os atos de fala, os pronunciamentos, os enunciados, e postagens em mídias sociais, são constitutivos de impulsos comportamentais de saber e de poder, que resultam em tomadas de posição autoconsciente nos espaços públicos e políticos das redes sociais. Nossos pronunciamentos sociais causam algum tipo de impacto e por menor que seja, nossos pronunciamentos são constitutivos de um dispositivo de linguagem que também está associado às formas de saber e de poder de nossa consciência política sob o nosso autocontrole nos espaços públicos. Com isso, acreditamos que a performance social do indivíduos/usuários nas mídias sociais é demarcada pelo autocontrole que os indivíduos têm sobre os seus impulsos e comportamentos, o que demarca o grau de racionalidade ou irracionalidade autoconsciente dos indivíduos, mesmo quando esses lidam com situações de conflito, tensões, emoções e visões de mundo calcadas em opiniões superficiais sobre assuntos com os quais os indivíduos se identificam, sobretudo quando reproduzem enunciações de cunho extremista. Esse jogo de fala e enunciação, muitas vezes fundado em ideologias religiosas e moralistas, tentam se travestir de opinião política, mas são apenas imposições de afetos e desafetos que querem impor um sentido discursivo de poder como regime de verdade, num jogo intersubjetivode poder pessoal ou grupal. Nesse jogo interpelativo, a emoção, como Doxa42 opinativa, é a regra determinada por valores que prescinde do direito à diferença e tenta se impor com verdade nos espaços públicos. A Doxa é assim vista pela filosofia como um conjunto de juízo de valor que a sociedade cria em determinadas circunstâncias históricas, partindo da suposição de que tais juízos são fundados em elaborações de verdades ou evidências de verdade, mas não passam de crenças ingênuas desprovidas de substância de realidade e conhecimento válido, que são processados num jogo de disputa de opiniões. Muitas vezes, esse jogo de opinião e debate prescinde igualmente de necessário grau de racionalidade que permita o diálogo e, com isso, não é possível que ajam entendimentos entre os sujeitos que se pronunciam nos atos de fala ou atos de troca de mensagens, em diálogos nas redes sociais, que causam mais efeitos pelos impactos das emissões das mensagens, que discernimento na discussão sobre o que é dito. Não havendo assim, a possibilidade de entendimento comunicativo, entre os sujeitos do debate acalorados ancorados em fake news e pós-verdades. Nesse contexto, os emissores e o receptores não têm condições de entendimento nesses processos comunicativos, propostos nos espaços públicos das mídias sociais. Essas relações ruidosas nessas esferas públicas implicam em formas de não entendimento, que são motivadas por relações forjadas em contextos ideológicos de poder, sobre os quais a linguagem e a incompreensão da racionalidade têm fins objetivos de controle dos espaços da fala e se tornam mecanismos de controle sobre opiniões e comportamentos desse jogo social de imposição de regimes de verdades e pós-verdades. O controle da opinião pública, assim como do conjunto de dados e informações que circula nas redes sociais, é um processo complexo. Há uma autoconsciência na forma como a opinião é submetida a regimes de pós- verdade e sobre a qual se buscam formas de controle por meio dos processos de desinformação da fake news, na esfera pública do mundo da vida da internet. É É importante destacar que esse processo concreto de desinformação se reproduz como forma de dispositivos de controle, que se repercutem em tomadas de posição de políticas públicas dos indivíduos/usuários, à medida que são orientados por cálculos algoritmos que analisam hábitos e dados nas redes sociais, como discutimos ao longo deste livro. Os comportamentos e práticas dos grupos sociais, que ancoram seus habitus em distorções informativas como as fake news, o fazem mediante interferência direta na reprodução de suas vidas cotidianas, à medida que incorporam como verdade notícias e informações que não correspondem à realidade e circulam de forma inadvertida nessas esferas públicas eletrônica. Dentro desse contexto, as informações e os mecanismos de comunicações sociais, assim como os dispositivos de interdições institucionais do Estado e dos grupos sociais, são representações de poder e controle social no desenvolvimento da sociogênese dos indivíduos nesse contexto do mundo da vida digital. Voltando às explicações de Norbert Elias (ELIAS, 1990, 1993, 1997), vemos que de forma autoconsciente e com autocontrole, os indivíduos assimilam os processos informacionais e institucionais que incidem na modulação de suas vidas. E de forma autoconsciente os indivíduos se sentem livres com o acúmulo de conhecimento que absorvem na modernidade, ao mesmo tempo essa autoconsciência os controla a todo momento no desenvolvimento de suas atividades sociais. Nesse sentido, para Elias, quanto maior o grau de conhecimento, maior o grau de responsabilidade que os indivíduos terão sobre suas vidas. Com isso, a autoconsciência associada ao conceito de acordo social, torna possível a consciência da liberdade de ação dos indivíduos, no processo da vida pública e política na sociedade. O termo acordo se desdobra no termo consentimento, termo sobre o qual o espectro de agenciamento das possibilidades de manutenção do controle sobre os indivíduos é exercido pelo Estado na sua forma de regulação de comportamento. O conceito de Habitus43 para Elias (1997) é parte constitutiva do papel de ingerência do estado sobre os indivíduos, no processo de normativização da vida social. Para Elias (1997) o estado se reproduz por um Habitus, que são incorporados na formação dos indivíduos e que também tem um poder de coerção que impera como um caráter nacional, na formação do processo da sociogênese da sociedade/Estado. Ainda segundo Elias (2012), a partir desse Habitus, os indivíduos conseguem constituir, de forma livre e democrática, uma sociedade/Estado, com controle institucional, normas constitutivas e ordenamento social autoconsciente, que fazem parte da figuração do que chamamos de estado nação. Numa outra forma de visão sobre a autoconsciência dos indivíduos sobre a relação sociedade estado, para Habermas (1997), o Estado e seu compromisso com a cidadania e a identidade nacional deve romper com essa lógica de dominação e cada vez mais deve procurar se estabelecer a partir da autoconsciência da razão pública, a partir da qual os atores sociais possam agir comunicativamente na busca de entendimento e acordos democraticamente estabelecidos, a partir de suas diferenças. Como Habermas afirma, Esse processo democrático de formação da opinião e de busca de uma decisão transforma-se na constituição do estado de direito. Numa sociedade pluralista, a constituição expressa um consenso formal. Os cidadãos querem regular sua convivência de acordo com princípios que podem encontrar o assentimento fundamentado de todos, por serem do interesse simétrico de todos (HABERMAS, 1997, p. 280). Com isso, as diferenças sociais poderiam propor formas negociadas e racionais de um entendimento público e político, dentro e fora do Estado. O que parece ser uma utopia nesse contexto de retomada do pensamento do fascismo contemporâneo e a colonização ultraconservadora do estado de direito que produz um mal-estar social, ao invés de um estado de bem-estar. No contexto da pós-verdade, em que populismos autoritários de colonização do estado nacional imputam valores ultraconservadores particulares sobre os valores universais da razão pública e disputas de poder que negam acordos democráticos, vemos a morte do habitus democrático, assim como a falência da tentativa de uma razão comunicativa. Segundo Safatle (2017): “Faz parte de uma certa leitura hegemônica da vida social moderna a ideia de que a razão se realiza necessariamente através da consolidação de um horizonte de diálogo.” (2017, p. 127), complementando esse pensamento, diríamos, no qual o estado de direito parece ser o mediador de um entendimento social. Ainda citando Safatle, Assim uma sociedade cujas instituições e práticas são racionais, seria necessariamente capaz de regular seus conflitos a partir da exigência dos sujeitos explicitarem suas razões para agir e de avaliar tais ações a partir da procura do melhor argumento (2017, p. 127). Esse fundamento crítico apresentado na citação está estruturado no argumento de que a racionalidade pública, sobre as quais os sujeitos se relacionam, possibilitaria acordos e formas de regulação da vida social, mediado por um certo poder comunicativo. O que tornaria possível um tipo de racionalidade compartilhada, na qual se buscam forma de entendimento. Mas dentro do contexto da sociedade contemporânea que desenvolveu a cultura da desinformação e do irracionalismo de conveniência a partir do binômio pós-verdade/fake news, qualquer tentativa de uso da ação comunicativa no exercício da razão pública é em vão. E desse modo, infelizmente, Habermas não se aplicaria como modelo de análise, ao contexto de uma sociedade que se funda numa prática de intencionalidade de ação objetivamente irracional, a exemplo do binômio pós-verdade/fake News. Isso porque essa sociedade na qual se instaura esse binômio tende a eliminar a possibilidade de uma razão pública, como forma de entendimento da sociedade civil política.objetivamente, está ligado ao controle dos afetos coletivos e da sociedade em rede, orientado por um fascismo digital cotidiano. Essa premissa é o fio condutor dos argumentos que se seguiram neste livro. Entretanto, esse fio se liga a várias outras questões que tocamos de forma conceitual nesta obra, como, por exemplo, o conceito de dispositivo. Tentamos suscitar compreensões pautadas no entendimento de que esses fenômenos das mentiras nas redes sociais, e toda fraudulência que isso representa, pode ser analisado como um dispositivo instrumental de orientação de condutas e controle dos condicionamentos de mentes e corpos, que circulam no tecido social contemporâneo. Sob esse aspecto, o dispositivo de instrumentalização de notícias falsas atende a interesse específicos, dentro de conjunturas políticas e econômicas, e se faz funcionar como um instrumento de percepção intersubjetiva que induz, orienta ou determina comportamentos sociais, motivados por interesses políticos ou de mercado, estruturados por governos e/ou empresas de forma deliberada. Com isso, o nosso livro se divide em sete partes que se complementam, dando sequência a um roteiro de reflexão que vai de uma introdução crítica aos conceitos que damos a fake news e a pós-verdade, e atravessa outras questões que estão ligadas à crise da racionalidade e à retomada do pensamento mítico e sua relação com a psicanálise. Seguimos objetivando compreender os processos de sociogênese das novas condições da construção social da realidade, atreladas às novas relações de poder e novos domínios das ideologias no cotidiano digital dos nossos dias. Por fim, buscamos entender os processos do negacionismo doutrinário e a ressonância emocional que usa o ódio como retórica política abjeta e violenta, com proposições do fascismo colonizado dos dias atuais. Esse percurso de análise se divide em duas centenas de páginas, que escrevemos tentando compreender o nosso fazer sociológico interdisciplinar, num contexto de uma sociedade, como a brasileira, fraturada, isolada e vilipendiada, e que, a cada dia, perde milhares de pessoas para a pandemia da Covid-19, ao mesmo tempo em que também se deixa iludir por governantes mitômanos. O Brasil não pode perder o seu poder de força política e muito menos o seu habitus democrático. 1 FAKE NEWS E PÓS-VERDADE: UMA INTRODUÇÃO CRÍTICA AO IRRACIONALISMO DE CONVENIÊNCIA DO FASCISMO CONTEMPORÂNEO NEOLIBERAL As possibilidades de que a verdade factual sobreviva ao assédio do poder são de fato por demais escassas; aquela está sempre sobre o perigo de ser ardilosamente eliminada do mundo. Hannah Arendt É comum observar, e com razão, que o fascismo eleva o irracional sobre o racional, a emoção sobre o intelecto. Jason Stanley Este trabalho tem, a priori, uma perspectiva interdisciplinar e trata de refletir sobre a crítica ao irracionalismo de conveniência, que se soma às formas autoritárias e abjetas do fazer político neoliberal e à colonização da esfera pública nos últimos anos, por meio de práticas de um fascismo cotidiano, forjado no mito antirracional da fake news e da pós-verdade. Segundo o Dicionário Oxford, o termo pós-verdade (post-truth), é considerado um substantivo “que relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.”3. Mas se sabe que o termo pós-verdade foi pronunciado pela primeira vez pelo jornalista Steve Tesich, para se referir às questões dos escândalos relativos ao Irã na Guerra do Golfo Pérsico, em 1992. Em 2004, foi publicado o livro The post-truth era, de Ralph Keynes e, em 2010, o termo ressurge associado à questão propriamente política, como nos afirma Santaella (2018). E é a partir desse contexto político, somado às questões intersubjetivas, que envolve os aspectos psicossociológicos e psicopolíticos dos sujeitos e seus afetos, que nos interessa realizar uma análise crítica e interdisciplinar dos processos da pós- verdade e sua composição com os fenômenos das fake news. Essa relação do binômio pós-verdade/fake news alerta-nos para uma dimensão de análise interdisciplinar em que estão ancoradas questões relativas à cultura política e à opinião pública, em sua estruturação com ideologias que atentam contra o estado democrático. A questão relativa a esse problema político refere-se ao fato de que a opinião cidadã e a cultura da participação política desses cidadãos, na esfera pública cultural, parecem estar desconectadas da realidade do estado de direito e das políticas de um estado democrático. Na perspectiva de Santaella (2018) e Bucci (2018), as formas pelas quais as narrativas midiáticas da sociedade em rede atuam, com base no binômio fake news/pós-verdade, desorientam a participação dos indivíduos, num processo em que a formação da opinião pública política, derivada das narrativas da mídia, parece ter se desconectado por completo dos instrumentos com os quais se discutem, se estruturam e se estabelecem parâmetros para a implementação de políticas públicas e a participação direta frente ao estado democrático. E, para entendermos de forma crítica esse processo, temos que ampliar o nosso horizonte de perspectiva, tanto do ponto de vista teórico como conceitual, para um plano interdisciplinar. Pois essas questões, a nosso ver, estão situadas para além das fake news e sua relação com a pós-verdade. Isso se amplia e torna-se um problema maior que envolve verdades factuais, dentro de um plano em que as políticas neoliberais se encontram com ideologias ultraconservadoras dentro de uma estrutura tecnológica de uma sociedade em rede, em que o fascismo digital encontra eco, para estabelecer controles, a partir de novas tecnologias do poder biopolítico e psicopolítico. Esse processo de dominação que incide na manipulação, controle e indução da opinião pública ocorre dentro e fora da esfera pública do estado democrático, e tem no binômio fake news/pós-verdade duas ferramentas que atuam como dispositivos ideológicos de uma nova sociedade de massa, agora estruturada em rede. Partimos de uma perspectiva interdisciplinar, crítica e analítica, na tentativa de buscar pontos de tangência entres vários autores dos campos da filosofia, psicanálise e ciências sociais, para nos ajudarem a analisar os fenômenos que se originam desse autoritarismo neoliberal e fascista, que são forjados no processo de propagação da desinformação generalizada, por meio das mídias sociais e tecnologias do poder (HAN, 2014). Encampamos reflexões fundadas em autores como Michel Foucault e Theodor Adorno, que nos dão o norte de análise, para discutir os fenômenos contemporâneos relativos à crise da racionalidade e do sistema de pensamento. Essa crise apresenta formas de dominação e poder que se espraiam como linhas de dispositivos bifurcados (DELEUZE, 1995) por meio de relações com as novas tecnologias da biopolítica (FOUCAULT, 2020), e do violento brutalismo do neoliberalismo institucional do estado de exceção, antidemocrático (AGAMBEN, 2011). Buscamos, com isso, refletir, de forma mais aproximada, sobre questões relativas às novas formas de dominação que resultam desse processo de crise, e de como esses criam sistemas de relações de poder sobre os afetos e a intersubjetividade dos indivíduos, por meio dos instrumentos que se instauram nas formas de administração política da sociedade contemporânea. A partir da crítica feita à doutrina neoliberal conservadora, que, segundo Nancy Fraser (2018), amplia-se como uma crise política de forma global, em que vimos, [...] o desastre do BREXIT, no Reino Unido; a declinante legitimidade da União Europeia e a desintegração dos partidos social-democratas e de centro-direita que a promoveram; o sucesso crescente de partidos racistas e anti-imigrantes em todo o norte e centro-leste da Europa; e o aumento de forças autoritárias, algumas se classificando como protofacistas, na América Latina, Ásia e Pacífico. (FRASER, 2017, p. 44). Buscamos analisar os ideais políticos ultraconservadoresAssim também procura eliminar qualquer crença sociológica sobre os modos civilizados do processo de autoconsciência, autocontrole e controle social dos indivíduos, na forma como Elias (1993) analisou o processo civilizador. Com isso, procuraremos refletir um pouco sobre como esse processo de irracionalismo de conveniência desse binômio pós-verdade/fake news, atua no cotidiano digital da sociedade contemporânea e faz ressurgir uma regressão da racionalidade que se ancora em pensamentos míticos e negacionistas. 6 O COTIDIANO DIGITAL NA CONFLUÊNCIA DO NEGACIONISMO COM O IRRACIONALISMO DE CONVENIÊNCIA: DA TERRA PLANA AO BREXIT Em tempos de ultraconservadorismos contemporâneos, o processo da racionalidade comunicativa parece não mais oferecer uma base de validade, por meio da qual se fundamente o uso de uma razão comum que justifique o diálogo no mundo da vida. O diálogo parecer ser algo que vem perdendo gradativamente seu poder de constituição de entendimento, diante do fenômeno da pós-verdade. O fenômeno da pós-verdade e o conjunto de desinformação proposto por notícias falsas e discursos fascistas contemporâneos prescindem do diálogo, assim como negam, distorcem ou reinventam argumentos históricos, que visam eliminar o pano de fundo da história no nosso cotidiano. O Background do cotidiano sempre nos serviu como base de experiências vividas, para ancorarmos nossas projeções imaginárias e nossas indagações sobre o futuro imediato de nossas vidas. A pretensão de falsificar a história por meio das fake news se faz à medida que a história se reproduz como farsa no cotidiano. Esse processo de replicação do falso forja uma colonização subjetiva cotidiana pela hipervisualidade das fake news, no contexto da cultura visual (SILVA, 2020). O caráter intersubjetivo, presente na hipervisualidade das fake news, por meio das montagens audiovisuais e edições textos e imagens fotográficas, tendem a funcionar como dispositivos de reificação da consciência dos sujeitos no cotidiano digital das mídias sociais. Essas mensagens perduram num tempo efêmero e só se desmancham no ar, após causar alguns estragos, emocionais, políticos e financeiros. Fatos inverídicos criam um forte impacto emocional por meio de mensagens do tipo fake news, além de servir a um propósito financeiro fraudulento, do qual milhões de indivíduos/usuários não fazem a menor ideia. Esses indivíduos/usuários fazem parte de uma mais-valia digital, que cria formas de monetarização por cliques, como nos afirma Bucci (2018). Pessoas mal-intencionadas ainda faturam com a mensagem [...]. Porque as regras dessa nova indústria digital, permite isso. Quanto maior o número de cliques, mais o autor arrecada. A mentira é fácil de se reproduzir – é barata – e desperta o furor das audiências. Despertando emoções intensas nos internautas, mobiliza-os para propagar o malfeito. (BUCCI, 2018, p. 42). O malfeito, no caso, é algo bem mais complexo que só a reprodução das notícias falsas. O processo fraudulento e abjeto é mais amplo, induzido pela robotização das mensagens com circulação de conteúdo falso somado ao processo de monetarização desse conteúdo, à medida que cada acesso a uma mensagem fake news permite um lucro financeiro direto ao agente promotor da notícia falsa. Como nos informa Empoli (2019), a engenharia do caos das fake news se alimenta do ódio e da mentira, provocando adeptos e gerando monetarização e lucro dentro desse novo contexto político. Quanto a isso, referindo-se à onda das fake news e do populismo de políticos contemporâneos como Donald Trump, Jair Bolsonaro e outros líderes, Empoli (2019) chama esse absurdo de Carnaval contemporâneo do caos e inversão da realidade, propagados com o advento das fake news. Empoli (2019) afirma que, O Carnaval contemporâneo se alimenta de dois ingredientes que nada têm de irracional: a cólera de alguns meios populares, que se fundamenta sobre causas sociais e econômicas reais; e uma máquina de comunicação superpotente, concebida em sua origem para fins comerciais, transformada em instrumento privilegiado de todos aqueles que têm por meta multiplicar o caos. (EMPOLI, 2019, p. 24). Entenderemos que nesse processo de industrialização das fake news, os indivíduos/usuários das redes são, ao mesmo tempo, a mão de obra voluntária e gratuita de replicação e consumo desse produto da indústria cultura da desinformação no Brasil. Esse público é parte de uma rede que objetiva consumo e circulação de mensagens falsas no cotidiano digital das redes e se serve da coalizão de interesses que convergem em nome de uma ideologia ultraconservadora, com a qual se alinha. Como bem analisa Chagas (2020), “Os grupos de extrema-direita brasileiros vêm ganhando destaque nos últimos anos, notadamente desde a eleição de Bolsonaro como presidente do Brasil, nas eleições de 2018. [...]. Com várias matizes, a extrema-direita no Brasil junta-se principalmente aos fãs nostálgicos do regime militar, conservadores neopentecostais, conspiradores anticomunistas, monarquistas e membros de várias outras tendências que estiveram encobertas por anos em razão do avanço da agenda progressista nos governos de esquerda que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. (CHAGAS, 2021, p. 171). A engenharia da desinformação associada ao discurso ultraconservador apostou nessa aderência ideológica, voluntária e autoconsciente dos indivíduos, para conseguir implementar suas pautas dominantes no cotidiano digital das redes e mídia sociais. Mas além desse processo ideológico, há ainda um processo de monetarização desse contexto, que é bem mais amplo que apenas a operação voluntária de alienação no uso das redes sociais. Os indivíduos/usuários se alienam às novas tecnologias de propagação da desinformação e os cálculos matemáticos dos algoritmos possibilitam a manipulação dos dados de indução de informação e monetarização delas. A publicidade das fake news nas redes sociais é uma forma objetiva de produzir lucro e mais-valia nesse capitalismo informacional. Segundo Dora Kaufman (2018), O Facebook monetariza sua gigantesca base de dados utilizando algoritmos de IA capazes de mapear a personalidade dos usuários, com 80% de precisão. Com base em clique e curtidas, contempla atributo como gênero, idade, formação, etnia, “desvios” de personalidade, orientação sexual, política e religiosa, doenças, uso de substância. De posse desse “conhecimento” sobre seus usuários, a rede social vende aos anunciantes uma comunicação hipersegmentada ou personalizada de seus produtos e serviços. (KAUFMAN, 2018, p. 55). Com isso, podemos entender o processo de alienação social que é reproduzido no cotidiano digital da vida ordinária nas redes sociais. Como bem afirmou Agnes Heller, (1992), o cotidiano se configura como o mundo da vida do indivíduo. Esse lugar é marcado por conflitos, resistências, formas de conformações e fragmentações sociais. Alguns autores focam o cotidiano como um espaço de análise, em que os fenômenos são bem visíveis e dessa forma pode servir de lugar de observação sociológica. As tendências de explicações sobre o cotidiano nos ajudam a entendê-lo como um fenômeno da vida diária, como nos afirmam Heller (1992), Lefebvre (1991), Berger e Luckmann (1986). Esses autores nos ajudam ainda a entender a formação de um pensamento político com base no cotidiano. Nesse sentido, o fenômeno do cotidiano é visto não apenas como uma rotina diária do mundo da vida, mas como um processo de identificações e afirmações de interesses identitários. Afirmamos que, O cotidiano é com isso, uma dimensão multifacetada do mundo da vida, é ao mesmo tempo um processo de reprodução criativa e rotina alienante da vida diária, assim como é um fenômeno intersubjetivo de propagação e afirmação de identidades, coletivas e individuais, criadas no nível do mundo da vida. (SILVA, 2019, p. 57). O indivíduo comum está absorvido pelas entranhas da vida cotidiana de forma individual e coletiva e é dentro desse processo que Heller (1992) acredita que o processo de aprendizageme populistas (GARBAUDO, 2018) de uma nova ideologia neoliberal que se instaura com a chamada nova direita, “que declaran abiertamente su intención de destruir el sistema político en sus fundamentos” (COSTA, 2020, p. 31). Esse projeto neoliberal se traduz em ideologia perversa de clivagem social, entre grupos que formulam um modo de pensamento único e extremamente excludente, que se expressa numa nova forma de fascismo pautada no discurso do medo, na manipulação dos afetos e na ameaça contra a sociedade e a democracia (HAN, 2014; SAFLATE, 2015). Isso se instaura por meio de uma política do “nós” e “eles”, como afirma Stanley (2020), ou, poderíamos também dizer, do nós contra eles, em termos de aniquilamento democrático sobre pertenças de gênero, raça, etnia, credo religioso etc. Consideramos que as práticas dessa perversão fascista se reproduzem na vida cotidiana, tendo por princípio uma orientação ideológica aparentemente irracional, oriunda de uma ideologia da direita radical que age contra todos que não comunguem dessa ideologia. Esse tipo de pensamento está disseminado em todos os cantos do mundo, e se faz mais visível em países que optaram por eleger recentemente líderes políticos que propagam abertamente discursos extremistas e ultraconservadores, que se coadunam com políticas neoliberais do fascismo contemporâneo proposto pelo discurso da nova direita. Essa ideologia se reproduz e afeta a cultura política, dentro e fora das esferas institucionais, e se espraia pelo mundo da vida, incidindo diretamente na mobilização dos afetos do corpo social e suas relações digitais cotidianas, da sociedade em rede. Isso se dá, particularmente, no cotidiano digital desse corpo social, por meio das mídias sociais, que vêm se transformando numa espécie de esfera pública eletrônica dos afetos, que gera um inconsciente coletivo digital, como afirma HAN, (2014), que estrutura um campo da psicopolítica dos afetos. De este modo se podría acceder al inconsciente colectivo. En analogía con el “inconsciente óptico”, se podría denominar como inconsciente digital al entramado microfísica o micropsíquico. La psicopolítica digital sería entonces capaz de apoderarse del comportamiento de las masas a un nivel que escapa a la conciencia. (HAN, 2014, p. 98). Essa psicopolítica forjar-se-ia por uma sociabilidade de intersubjetivação da política, a partir de um circuito dos afetos (SAFATLE, 2015) acionado pela guerra de narrativas de desinformação e contrainformação dessa sociedade em rede. Consideramos ainda que, à medida que essa energia do afeto político se reverbera por meio das redes sociais, promove a ampliação da ressonância dos fenômenos fake news e da pós-verdade, numa relação local/global. Nesse sentido, advogamos a ideia de que a atualidade da teoria crítica e sua potência de interpretação interdisciplinar é ainda bastante profícua para a análise desses fenômenos nessa nova configuração da sociedade de massa, que faz ressurgir personalismos políticos e populismos autoritários, que fazem uso de ideologias falhas em propagandas e discurso fascistas (STANLEY, 2015), ao modo das ideologias dos anos 30, que se atualizam no presente por meio de propagandas e dispositivos de desinformação, como as fake news e a pós-verdade. Isso nos possibilita retomar reflexões sobre os processos ideológicos da sociedade de massa no contexto contemporâneo (ADORNO; HORKHEIMER, 2006) assim como reflexões do pensamento sobre a personalidade autoritária também sob o viés adorniano (ADORNO, 1950). Por um outro viés de análise, acreditamos também que essas questões, presentes nesse contexto de crise, permitem-nos refletir sobre outras formas sócio-institucionais e intersubjetivas, que se pautam na compreensão dos afetos, dentro desse contexto de controle da subjetividade. Para isso, buscamos amparos conceituais e teóricos sobre o papel do conceito de dispositivos biopolíticos (FOUCAULT, 1979, 2020) e linhas de controle institucionais (DELEUZE, 1995), que nos ajudam a refletir sobre as formas de brutalismo institucionalizado, presentes nessa conjuntura de neoliberalismo autoritário e fascista (HAN, 2014), dessa nova direita nos nossos dias. Acredito, como Umberto Eco (1998), que os modos de pensar e sentir o fascismo, nos nossos dias, se reconfiguram no imaginário político, e estão novamente se espraiando a partir de práticas sociais e políticas da atualidade. No seu texto, “O Fascismo Eterno”, publicado no livro Cinco escritos Morais, Umberto Eco afirma: Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um chefe carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no antissemitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do Movimento Social Italiano (MSI),é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, em sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira. Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)? (ECO, 1998, p. 15-16). Umberto Eco escreveu essas palavras originalmente em 1995, para proferi- las numa conferência que fez na Universidade de Colúmbia, a propósito de uma celebração anual da libertação da Europa na segunda guerra mundial. Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016 e testemunhou muita coisa do fascismo do passado e do atual dos nossos dias, que ele conheceu bem. Chegou a ver a ascensão de governos ultraconservadores que foram eleitos, como o de Donald Trump, nos EUA, que representou a ala mais à direita de um partido de Á direita, as guerras étnicas na África, a dissolução da Iugoslávia e a guerra civil na Bósnia, assim como também testemunhou a consolidação do poder de líderes políticos como Viktor Orbán, da extrema-direita húngara, que, por dois mandatos, foi o primeiro-ministro mais conservador da Hungria. Todos esses fatos estão diretamente ligados à ascensão do fascismo contemporâneo no mundo. Umberto Eco não testemunhou a ascensão de outros governos ultraconservadores que assumiram o poder de governo, a exemplo do fascismo tropical do brasileiro Jair Bolsonaro, presidente eleito por um terço da sociedade brasileira, na disputa de um segundo turno de uma eleição majoritária. Acredito que ele iria gostar de analisar o fenômeno Bolsonaro e o que o bolsonarismo, na sua forma singular de autoritarismo dos trópicos, é uma mimese caricata, colonizada e perversa que tenta, ao seu modo, reproduzir ideologias de um discurso fascista, na governança do país. Mas o importante desse contexto é que todo esse tipo de fascismo colonizado, atuante no mundo hoje, só é possível à medida que reforça o imaginário ultraconservador e interdependente, dentro de um mundo conectado por rede. O fascismo atual está espraiado pelo mundo mediado por novas formas telemáticas de conexão eletrônica de empresas de mídias sociais, que estão estruturadas numa logística algorítmica, administradas por grupos empresariais e milícias digitais. E, com isso, essa conjuntura digital em que o fascismo contemporâneo se estrutura, e propaga velhas ideologias ancoradas no ressentimento e no personalismo da sociedade de massas, consegueadquirir uma nova configuração e faz uso de novas ferramentas tecnológicas. A exemplo do fascismo do passado, os líderes populistas dessa sociedade, instrumentalizada por dispositivos de mídias sociais, potencializam as ações de mobilização das emoções e dos afetos, em nome de velhos valores nacionalistas do passado, que retornam com a eficiência digital do presente. Isso é um modo de entendermos que os ideais fascistas do passado, fundado em mitos e tradicionalismos, estão presentes atualmente, travando uma guerra de narrativas midiáticas para se tornarem eternos a partir de seus valores de tradicionalismos, como afirma Teitelbaum, (2020). Lideranças representativas de um autoritarismo ultraconservador, como os presidentes Donald Trump (que presidiu os EUA de janeiro de 2016 a janeiro de 2021) e Jair Bolsonaro (cujo mandato começou em janeiro de 2018 e vai até janeiro de 2022) representaram esse ultraconservadorismo de Estado, nos nossos dias. Esses personagens políticos são vistos, aqui, como líderes paternalistas e populistas, que visam a manutenção das formas de poder autoritárias, que reafirmam populismos e personalismos do passado, dentro de sociedades democráticas do presente, ao modo como bem descreveu Wilhelm Reich, em seu livro Psicologia de Massa do Fascismo (1987). O Estado autoritário tem o pai como seu representante, pois o pai reproduz nos filhos, especialmente naqueles do sexo masculino, a sua atitude de submissão para com a autoridade. Desse tipo de relação passiva e obediente vai resultar a relação de obediência à figura do Führer. [...] Na psicologia de massas, o Führer nacionalista é a personificação da nação. Essa ligação pessoal com ele só se estabelece se ele encarnar a nação em conformidade com o sentimento nacional das massas. Ele atrai todas as atitudes emocionais que foram num dado momento devidas ao pai, severo, mas também protetor e poderoso na visão infantil. É essa necessidade das massas por proteção que torna o ditador capaz de conseguir tudo. Nenhuma democracia autêntica se assenta sobre essa base (REICH, 1987, p. 32). E, assim como líderes fascistas do passado, como Mussolini (principal ideólogo do fascismo italiano dos anos 1920) e Hitler (líder nazista do nacional-socialismo alemão), Trump e Bolsonaro entendem que a ocupação por vias democráticas é o caminho para dominar as esferas públicas dos afetos, da economia e do sistema jurídico-político, e assim destruí-los com práticas autocráticas, que fragilizam de forma brutal as instituições públicas dos estados democráticos que eles governam. Como bem observa Stanley (2020), Os perigos da política fascista vêm da maneira específica como ela desumaniza segmentos da população. Ao excluir esses grupos, limita a capacidade de empatia entre outros cidadãos, levando à justificação do tratamento desumano, da repressão da liberdade, da prisão em massa e da expulsão, até, em casos extremos, o extermínio generalizado. (STANLEY, 2020, p. 14-15). Só para não esquecermos, as práticas fascistas voltaram à cena mundial no final do século XX e foram testemunhadas durante a Guerra da Bósnia, em que personagens com Radovan Karadzic e Slobodan Milošević, líderes radicais fascistas, representavam lideranças políticas dos povos sérvios contra todos os outros da antiga República Iugoslava e implementaram guerras milicianas e extermínio de populações inteiras de maioria mulçumana, durante os conflitos na Bósnia, Croácia e Kosovo. As tropas que agiram sob os comandos de Karadzic e Milošević promoveram crimes brutais contra milhares de mulçumanos e ambos foram acusados por crimes de guerra contra a humanidade. A guerra é um fato em que crimes são cometidos por meio não apenas de ações táticas e estratégias implementadas dentro de um ideário militar ou mesmo um ideário miliciano. O fenômeno das guerras incorpora também a manutenção de um imaginário compartilhado pelas representações sociais assimiladas de forma intersubjetiva sobre a brutalidade dos afetos. Dependendo de que lado da guerra se esteja, esse imaginário constitui-se como uma força identitária que subjuga por completo nossa consciência ética de tomadas de decisão, fazendo com que os indivíduos se comportem, de forma autoconsciente, com atitudes bárbaras e brutais, contra seus iguais, numa guerra de fratricídio, para defender ideais a que esses indivíduos se associam por conveniência identitária em defesa de ideologia nacionalista e localismos culturais, étnicos e religiosos, dentre outros. Como bem afirmou Adorno, A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. (ADORNO, 2011, p. 118). Esse processo ao qual Adorno se refere na citação acima é também um processo de constituição de um imaginário compartilhado, que se faz necessário na tomada de consciência. As doutrinas fascistas, que mobilizam essa violência moral, emocional, física e política, adentram os espaços intersubjetivos de indivíduos, propensos a ideias conservadoras, e os fazem ver que, por meio dessa ideologia fascista compartilhada, há sempre um inimigo imaginário a ser combatido. E muitas vezes os fascistas nem sabem quem são seus inimigos, por isso sempre inventam um inimigo assim como sempre inventam um mito fundador para justificar os seus inimigos. No livro Como Funciona o Fascismo (2020), deparamo-nos com uma citação de um discurso de Mussolini, proferido no Congresso Fascista realizado em Nápoles em 1922. Nele se lê: Nós criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não é necessário que ele seja uma realidade... Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E a esse mito, essa grandeza, que queremos transformar numa realidade total, subordinamos tudo. (MUSSOLINI apud STANLEY, 2020, p. 21). O imaginário fascista e seus mitos é compartilhado por muitos, no contexto de toda população mundial, e funciona singularmente como assimilação de uma ordem doutrinária que é incorporada pelo senso comum e legitimada na prática da vida cotidiana, seja esse cotidiano do mundo da realidade concreta, na qual acordamos e vamos dormir todos os dias, ou o cotidiano da virtualidade real da internet, o qual muitos da população mundial compartilham por meio das redes e mídias sociais. Seja qual for a realidade cotidiana, no fascismo de ontem e de hoje sempre coloca em questão a necessidade de se agir em nome de uma nova ordem social ou liberdade de expressão, a exemplo do jovem que andou no dia 17 de junho de 2021 por um shopping na cidade de Caruaru, no Agreste do estado de Pernambuco, portando uma suástica nazista, no antebraço esquerdo, argumentando que estava exercendo o seu direito de liberdade de expressão, até ser detido e expulso por alguns seguranças do shopping. Vale ressaltar que esse ato é crime federal, cabendo pena de reclusão e multa4. Os clientes se sentiram ofendido e denunciaram o jovem aos responsáveis pela segurança do local e durante a condução do jovem para fora do shopping ouvia-se comentários de pessoas que pronunciavam frases como, “esse idiota, não sabe nem o que está fazendo”. O ideário fascista mobiliza os afetos coletivos compartilhando um imaginário ultraconservador, que visa o desrespeito e eliminação do outro, e de tudo que não se configure na manutenção do pensamento único do próprio fascismo. O fascismo é, por natureza, uma prática criminosa e antidemocrática, mas sua ideologia consegue assumir o poder por via democrática, e faz com que pessoas comuns se sintam no direito de se expressarem como fascistas ou usarem adereçossimbólicos ligados à extrema direita, como uma prática naturalizada na vida cotidiana, como ir a um shopping. Esse é o paradoxo do imaginário da política fascista numa sociedade democrática. Mesmo sendo crime as pessoas se acham no direito de entendê- lo como liberdade de expressão, e de autoconscientemente praticam barbaridades de forma banal, como se sentissem superiores e acima da lei. Nesse sentido entendemos que atitudes como essa respeitam ao processo de uma afinidade eletiva de escolha autoconsciente. Isso ocorreu na década de trinta do século XX, a exemplo do que a história testemunhou na Itália e na Alemanha e volta a se repetir no século XXI. É interessante destacar, como afirmou Adorno (1950), em seu texto Introdução à Personalidade Autoritária, que a manipulação intersubjetiva dessa consciência política e doutrinária do fascismo visa ampliar o público de simpatizantes, atraindo pessoas com propensões conservadoras, que ajudem a combater e eliminar, se possível de forma violenta, tanto física como psicológica, todos os outro que não sejam seu igual. É sempre uma relação de “nós” e “eles”, sendo “eles”, como afirma Stanley (2020), o grupo de inimigos a serem combatidos, por estarem associados às suas singularidades identitárias, sejam elas de gênero, étnicas, raciais, religiosas, linguísticas, políticas, culturais etc. Os fascistas julgam sempre que deva existir um inimigo a ser eliminado, como afirmamos. Nesse sentido, as práticas das ações do fascismo desses últimos trinta anos podem ser vistas em vários eventos de guerra em nome do poder e da ordem conservadora. Vimos essa ação fascista em forma de conflito bélico tendo sido posta em prática nas guerras africanas, por exemplo, quando os hutus, movimento de supremacia étnico-fascista de Ruanda, promoveu o genocídio contra a comunidade tutsi, na última década do século XX; no Apartheid da África do Sul, em que os cidadãos negros foram brutalmente assassinados e presos, simplesmente por serem negros; no governo conservador da República de Mianmar, que violentou a população rohigya, implementando políticas de exclusão territorial e cultural, visando eliminar todos os vestígios da religião mulçumana desse povo, assim como negou à população rohigya o reconhecimento como cidadã naquela República. Na Hungria, o governo do primeiro-ministro Viktor Orban, duas vezes eleito pelo povo húngaro, implementou e manteve por dois mandatos políticas ultraconservadoras, contra as instituições liberais de forma generalizada dentro do seu país, sobretudo criando políticas culturais e educacionais ultranacionalistas que foram aplicadas nos currículos das escolas públicas de ensino fundamental e médio. Orbán também promoveu a expulsão e o fechamento de instituições internacionais de ensino e pesquisa que seu governo julgava não estarem afinadas com as doutrinas do Estado Nacional Húngaro, sob o seu comando. Não se trata de comparação de políticas nefastas do fascismo em várias épocas e lugares da nossa sociedade mundial ontem e hoje, mas sim de tentar entender como esse imaginário fascista alimenta um sentimento de pertença que se reproduz em forma de ideias compartilhadas e assimiladas, que vigoram de forma muito presente no comportamento coletivo de sociedades que se achavam fortalecidas institucionalmente pelos ideais da democracia liberal, como os EUA e o Brasil. Voltado a citar Umberto Eco: “O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis” (ECO, 1998, p. 21). Essa frase de Umberto Eco pode nos ajudar a entender coisas da origem da ideologia fascista, dita por Goebbels, sobre a fragilidade dos regimes democráticos, quando ele afirmou categoricamente: “This will always remain one of the best jokes of democracy, that it gave its deadly enemies the means by which it was destroyed.” (STANLEY, 2015, p. 4)5. Aos moldes do brutalismo de líderes do fascismo do passado, atualmente, políticos neoconservadores e radicais da nova direita demonstram um irracionalismo de conveniência político, que visa à manutenção da dominação social e estatal por via de novas formas de acomodação do poder contemporâneo. Por exemplo, o domínio institucional das formas telemáticas e eletrônicas (por via da rede mundial de computadores – internet) e a instauração de regimes de manipulação e controle intersubjetivo, por meio de mídias digitais, são conhecidas como práticas do comportamento de líderes da nova direita, a exemplo de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Eles tentaram governar por meio do Twitter, e estimularam, em seus discursos extremistas, a violência e o ódio, racial, étnico, religioso e de gênero, que resultaram em conflitos políticos e físicos, entre cidadãos de uma mesma sociedade, comunidade e grupo social, dentro e fora das redes sociais da internet. O discurso e mensagens de ódio propagados por milícias digitais, que ocupam as redes sociais, tem promovido um aumento considerado da violência física e psicológica, sofrida por grande parte da sociedade, em particular por pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade, como nos mostra Judith Butler (2018) em seu livro Corpos em Aliança e a Política das Ruas. Esses pronunciamentos discursivos extremados, pautados pelo fascismo, são dirigidos, de forma generalizada, contra minorias, e visam sempre propagar ressonância emocional na busca de aderência simbólica ao discurso fascista da maior camada social possível, independente de classe social, raça ou orientação sexual ou de gênero, que se afine de forma autoconsciente, com a propagação dessas ideias. O modus operandi das políticas abjetas e da desinformação, como plataforma de propaganda ideológica e de mobilização dos afetos por meio das redes sociais, tem se mostrado como um recurso político eficaz, de colonização do imaginário a partir do discurso do medo que suscita estabelecer o estado de exceção (AGAMBEN, 2011), por meio da implementação de políticas antidemocráticas de controle e intervencionismos autoritários, parte de muitos governantes que desempenham práticas ultraconservadoras, da nova direita. O fascismo contemporâneo presente na política conservadora de políticos neoliberais de discurso nacionalista, a exemplo de líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, visam promover discursos nacionalistas e colonização da opinião pública, por meio das mídias sociais (GARBAUDO, 2018). E, com isso, apostam de forma objetiva na prática do irracionalismo de conveniência, com retóricas de ódio explícito, que operam na busca por adesão política, visando ampliar seu público, na tentativa de encontrar indivíduos/usuários que venham a corroborar e reproduzir suas ideias, por meio de uma rede de difamação, abjeção e desinformação. Tentar entender esse processo é o objetivo deste nosso trabalho, compreender e analisar criticamente o processo ideológico desses fenômenos de propagação de um irracionalismo de conveniência, por meio dos processos das fake news e sua direta correlação com o fenômeno da pós-verdade, numa análise do processo do biopoder e da psicopolítica do fascismo digital. Acreditamos que esse propósito nos ajudará a entender que esse conjunto de coisas atendam a uma doutrina de desinformação coletiva e sujeição sociopolítica, dentro de uma cultura do cinismo complacente e autoconsciente (SLOTERDIJK, 2012) e da mobilização dos afetos psicopolíticos (HAN, 2014) no âmbito do desenvolvimento das doutrinas neoliberais associadas à propagação do discurso do fascismo contemporâneo e seus efeitos. Um de seus efeitos, ou causa consequente dos efeitos dessa doutrina neoliberal, é o processo instrumentalizado de desinformação da sociedade de massa por meio das redes sociais. A instrumentalização desse processo se faz por meio de mensagens desinformativas que circulam nos dispositivos das mídias sociais, visando manipular, influenciar e ou sugestionar a opinião pública de uma maneira geral. Mas isso é apenas a ponta do iceberg. Por baixo desse processo, há uma conjuntura política estruturada por uma mentalidade ultraconservadoraque ocupa espaço na esfera pública do estado democrático. E atende a interesses definidos de uma ideologia do tradicionalismo mítico (TEITEBAUM, 2020) que arregimenta grupos e lideranças em nome da restauração do pensamento fascista por meio de líderes populistas e suas práticas de comando político, como Trump e Bolsonaro, que representam modos de mandonismos pessoais fundados em bases moralistas e religiosas, instrumentalizadas por milícias digitais (MELLO, 2020), dentro das redes sociais. Além desse aspecto, existem outras semelhanças que ligam Trump e Bolsonaro, numa conjuntura mais complexa, como apresentado no relatório a seguir. Segundo Letícia Cesarino (2020), Reports and analyses of populist leaders who rose to power in their respective countries by mastering social media communication often show striking parallels with the case of Jair Bolsonaro’s meteoric rise in Brazil (HALL, GOLDSTEIN; INGRAM, 2016; SINHA, 2017; GERBAUDO, 2018; MALY, 2019). Many such parallels relate to content, involvingdifferent forms of nationalism, anti-elitism, anti- secularism, legal and vigilante punitivism. Most often however resonances are structural, suggesting that these political figures’ global span might stem at least in part from commonly shared mediations. Likely suspects are neoliberal financialization and the increasingly digitalization oflife under way in large swaths of the globe since at least the eighties (BROWN, 2019; MIROWSKI, 2019). The recent rise not just of populist politics but of what has been called post-truth or disinformation are also part of this broader equation (GERBAUDO, 2018; WAISBORD, 2018; CESARINO, 2020, p. 1).6 De uma maneira geral, a conjuntura da nova direita, formada por esses grupos de interesses, visam chocar, distorcer e reprimir a verdade dos fatos, em busca da manutenção de um poder autoritário e centralizador de líderes governamentais, que atuam objetivamente contra a democracia. Como bem afirma Costa (2020), na abertura do seu artigo sobre a nova direita, Los éxitos de la derecha y la extrema derecha en votaciones como el referéndum sobre la salida del Reino Unido de la Unión Europea en 2016, las elecciones generales de la India en 2014 y 2019, o las elecciones de los Presidentes Trump en los Estados Unidos en 2016 y Bolsonaro en Brasil en 2018, además de las muchas desgracias en términos sanitarios, políticos, económicos y sociales que trajeron consigo, han causado un malestar epistemológico entre los estudiosos de la democracia. (COSTA, 2020, p. 29).7 Líderes como Trump e Bolsonaro são os melhores representantes da doutrina neoliberal do fascismo contemporâneo em ação por meio da estrutura de redes sociais. Ambos são ultraconservadores, antidemocráticos, utilizaram a mesma estrutura ideológica e tecnológica para assumir o poder e ambos reproduzem um discurso fascista de um nacionalismo de aparência que se ancoram na reverência aos símbolos nacionais, para ocultar interesses privados, que se fazem presentes na colonização da esfera pública estatal e na apropriação dos bens públicos. Esses líderes ainda comungam de um pensamento e de uma prática de governo que objetiva a eliminação de grande parte da população com práticas de uma necropolítica e brutalismo de estado (MBEMBE, 2019), promovendo políticas de descaso e irresponsabilidade em relação às questões sanitárias contra a Covid-19, em que milhares de vidas poderiam ter sido poupadas se ações mínimas de governos houvessem sido implementadas por esses presidentes, tanto no Brasil como nos EUA. A doutrina política dessa nova direita neoliberal e fascista aniquila o presente, promovendo um caos orquestrado. Tentando eliminar o passado, criando mitos fundadores e fantasias nostálgicas, desestabilizam o projeto de um futuro imediato de uma geração inteira, à medida que suas práticas comprometem a estabilidade da segurança social, pública, sanitária, econômica em que não se é possível vislumbrar um horizonte de expectativa (KOSELLECK, 2006) para os próximos dias. Como bem analisa Jason Stanley (2020), ao nos falar sobre os políticos que representam o fascismo cotidiano dos dias atuais, Os políticos fascistas justificam suas ideias ao aniquilar um senso comum de história, criando um passado mítico para respaldar sua visão de presente. Eles reescrevem a compreensão geral da população sobre a realidade distorcendo a linguagem da idealização por meio da propaganda e promovendo o anti-intelectualismo, atacando as universidades e sistemas educacionais que poderiam contestar suas ideias. Depois de um tempo, com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade, em que teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado. (STANLEY, 2020, p. 16). Complementamos essa reflexão de Stanley, argumentando ainda que esses mesmos políticos atuam com práticas que objetivam sucatear direitos adquiridos da população e promover o acirramento das diferenças sociais em lutas fratricidas com a propagação de discursos de ódio. As bravatas retóricas e abjetas, de cunho misógino, racista, xenofóbico, dentre outros, somados às fake news e à mobilização dos afetos por meio da pós-verdade, são exemplos desse irracionalismo de conveniência, característico do fascismo abjeto, no cotidiano dos nossos dias, testemunhado dentro e fora das redes sociais. Dentro desse contexto, há uma crise de hegemonia que vem a reboque do esgotamento das doutrinas neoliberais das sociedades avançadas. E isso tem provocado muita insanidade política, que são implementadas de forma unilateral e sem atender à dinâmica da democracia instituída nas sociedades, a exemplo da Norte-américa, durante o governo de Donald Trump. Seguramente, a liderança de Donald Trump foi parte da representação dessa crise, como bem analisa Fraser (2018): Donald Trump é o garoto-propaganda dessa crise hegemônica. Mas não podemos entender sua ascensão sem esclarecermos as condições que permitiram isso. E isso significa identificar a visão de mundo que o Trumpismo deslocou e mapear o processo por meio do qual isso se desenrolou. As ideias indispensáveis para esse fim vêm de Antonio Gramsci. “Hegemonia” é o termo que ele usa para o processo pelo qual uma classe dominante naturaliza sua dominação instalando os pressupostos de sua própria visão de mundo como o senso comum da sociedade como um todo. (FRASER, 2018, p. 45). O exemplo mais chocante dessa crise de hegemonia foi o apoio dado pelo presidente Donald Trump ao ato de irracionalismo de conveniência, orquestrado por grupos supremacistas e neofascistas nos EUA. Abriríamos um parênteses aqui para nos referirmos ao fato de que o apoio que Donald Trump deu aos supremacistas, que invadiram o Congresso dos EUA, foi uma clara política hiper-reacionária de reconhecimento a esses grupos ultraconservadores. O ato de irracionalidade, vandalismo e terrorismo, de invasão ao Capitólio, promovido por grupos da extrema-direita americana, representado sobretudo por supremacistas brancos, na tarde do dia 06 de janeiro de 2021. O então presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington DC, por meio da rede social do Twitter, incentivou uma ação de turba, conclamando parte da população que o apoiava a agir contra a reunião do Poder Legislativo, que estava sendo realizada no Congresso dos EUA, a qual ratificaria o nome do candidato à presidência da República americana Joe Biden, vencedor das eleições realizadas em dezembro de 2020 nos EUA. O enxame digital de grupos ultraconservadores articulou-se como massa de manobra para agir em turba, destruindo por atos de violência, as estruturas físicas do prédio do Capitólio, quebrando janelas, e invadindo, ameaçando e agredindo, como um enxame de vândalos fascistas, todos os que ali se faziam presentes. O termo turba orquestrada por rede, que acionou o enxame digital fascista, talvez seja a melhor expressão que encontramos para definir esse ato de irracionalismo de conveniência, que foi a invasão do Congresso dos EUA. Para Adorno (2011) em seu texto, Teoria