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Editora Appris Ltda.
1.ª Edição - Copyright© 2021 do autor
Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.
Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de
acordo com a Lei nº 9.610/98. Se incorreções forem encontradas, serão de
exclusiva responsabilidade de seus organizadores. Foi realizado o Depósito
Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nos 10.994, de
14/12/2004, e 12.192, de 14/01/2010.
 
Catalogação na Fonte
Elaborado por: Josefina A. S. Guedes
Bibliotecária CRB 9/870
S586i
2021
Silva, Sergio Luiz Pereira da 
 O irracionalismo de conveniência: ensaio sobre pós-verdade,
fake news e a psicopolítica do fascismo digital / Sergio Luiz Pereira da
Silva.- 1. ed. - Curitiba: Appris, 2021. 
233 p.; 23 cm. – (Ciências sociais).
Inclui bibliografias
ISBN 9786525013527
1. Fake news. 2. Controle (Psicologia). 3. Fascismo – Internet e
ativismo. 4. Desinformação. 5. Pós-verdade. I. Título. II. Série.
CDD – 320
Livro de acordo com a normalização técnica da ABNT. 
Editora e Livraria Appris Ltda.
Av. Manoel Ribas, 2265 – Mercês
Curitiba/PR – CEP: 80810-002
Tel: (41) 3156-4731 | (41) 3030-4570 
http://www.editoraappris.com.br/
 
http://www.editoraappris.com.br/
 
FICHA TÉCNICA
EDITORIAL
Sara C. de Andrade Coelho
Marli Caetano
Augusto V. de A. Coelho 
COMITÊ EDITORIAL
Andréa Barbosa Gouveia - UFPR
Edmeire C. Pereira - UFPR
Iraneide da Silva - UFC
Jacques de Lima Ferreira - UP
Marilda Aparecida Behrens - PUCPR
EDITORAÇÃO Jhonny Alves dos Reis 
ASSESSORIA EDITORIAL Lucas Casarini
DIAGRAMAÇÃO Danielle Paulino
 CAPA Eneo Lage
REVISÃO Tuca Dantas
GERÊNCIA DE FINANÇAS Selma Maria Fernandes do Valle 
COMUNICAÇÃO
Carlos Eduardo Pereira
Débora Nazário
Karla Pipolo Olegário
LIVRARIAS E EVENTOS Estevão Misael
CONVERSÃO PARA E-PUB Carlos Eduardo H. Pereira 
 
COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS 
DIREÇÃO
CIENTIFICA Fabiano Santos - UERJ/IESP 
CONSULTORES Alícia Ferreira Gonçalves –
UFPB 
José Henrique Artigas de Godoy
– UFPB 
Artur Perrusi – UFPB Josilene Pinheiro Mariz – UFCG 
Carlos Xavier de Azevedo Netto
– UFPB Leticia Andrade – UEMS 
Charles Pessanha – UFRJ Luiz Gonzaga Teixeira – USP 
Flávio Munhoz Sofiati – USP,
UFSCAR 
Marcelo Almeida Peloggio –
UFC 
Elisandro Pires Frigo –
UFPR/Palotina 
Maurício Novaes Souza – IF
Sudeste MG
Gabriel Augusto Miranda Setti –
UnB 
Michelle Sato Frigo –
UFPR/Palotina 
Geni Rosa Duarte – UNIOESTE Revalino Freitas – UFG 
Helcimara de Souza Telles –
UFMG
Rinaldo José Varussa –
UNIOESTE
Iraneide Soares da Silva – UFC,
UFPI Simone Wolff – UEL
João Feres Junior – UERJ Vagner José Moreira –
UNIOESTE
Jordão Horta Nunes – UFG 
A meu vô Manuel
Em memória.
O pensar reifica-se num processo automático e autônomo, emulado à máquina que ele próprio produz para
que ela possa finalmente substituí-lo.
(Adorno e Horkheimer)
PREFÁCIO
A crise do setor financeiro e imobiliário em 2008 nos EUA. A conformação
das novas e perversas dinâmicas do sistema internacional. A ascensão e
previsível queda da Terceira Via inventada, recauchutada, testada e torpedeada
por seu perfil conciliatório e pusilânime com as estruturas sociais brutais do
mundo pós-fordista. A persistência da pauperização, da precarização do
mundo do trabalho, das promessas não cumpridas e tampouco remotamente
entregues no mundo do caráter corroído discutido por Richard Sennett (1999)
há tempos. O suposto empresário de si, o “empreendedor” envolto em fantasias
e automistificações falsamente douradas, incensado a partir de nada, frustrado,
oprimido, adoecendo sistematicamente e criando índices de sofrimento
mental ainda não detectados em outros momentos históricos. A mônada com
pés de barro.
Em meio a tudo isso, enquanto escrevo há ainda a pandemia de Covid-19, 
que denunciou e segue denunciando em cores, áudios, movimento e índices as
diferentes faces da desigualdade em todos os aspectos por todo globo terrestre.
Esta sociedade complexa, intrigante e com traços distópicos incomoda e
pressiona por respostas. É com este momento, em que temos tudo e não temos
nada diante de nós, que Sérgio Silva e seu trabalho se defrontam. Diria que
autor e obra corajosamente defrontam-se com mais uma das grandes crises
modernas nadando de peito aberto em mar revolto. Mas, não obstante a
humanidade já ter passado por momentos disruptivos e francamente
vertiginosos, Sérgio e seu livro ressaltam menos o que há de cíclico em nossa
conjuntura, o retorno da roda, e mais os elementos particularmente trágicos
que singularizam o que vivemos. Trata-se de um trabalho de diagnóstico do
tempo presente.
Antes de prosseguir, penso ser relevante fazer um paralelo com um autor
que se apresenta como alma gêmea e, não obstante a sua ausência no trabalho
de Sérgio, apresentou um opúsculo em 2009 que se coloca em comunicação
tão íntima com a proposta deste livro que podemos dizer que ambos
funcionam como vasos comunicantes. Falo do crítico cultural Mark Fisher
(1968-2017) e seu Realismo Capitalista1.
Sergio Luiz Silva e Mark Fisher são teóricos críticos em estilo livre2. Fisher
assinalava com alguma ironia, por vezes sarcasmo e muita indignação o
cenário de terra arrasada do mundo pós-neoliberal, tudo isso em uma narrativa
que vai da cultura erudita ao pop na velocidade da luz. O ocidente após
Thatcher, Reagan, Consenso de Washington e afins não enveredou
acriticamente somente em fórmulas austericidas que redundaram em índices
assassinos de concentração de riqueza. Esta sociedade que vivemos hoje e que
não nasceu ontem, sendo tudo engendrado nas últimas décadas na verdade,
contaminou algo além da imaginação de editorialistas da mídia convencional,
policy makers e agentes coletivos ou individuais do setor financeiro. Fisher
denunciava nada menos que subjetividade humana mutilada, decepada pela
violência simbólica de slogans como “there´s no alternative” tal como triunfante
já bradou o thatcherismo. Tanto se fez, tanto se repetiu que não há nada além
de capitalismo (e desta modalidade específica de capitalismo), que o homem
comum assim olhou diante de si um abismo que fornece um presente
eternamente cinzento e bárbaro. Um “Dia da Marmota” sem final feliz. E,
como sabemos, no risco de flertar em demasia com o abismo o observador
pode ser engolido confundindo-se simbioticamente com a escuridão.
Neste cenário em que o arbítrio coloca-se como relação necessária e o
interesse mal compreendido impõe uma ontologia postiça é que se apresentam os
sintomas discutidos por Sergio Luiz Silva em nossa contemporaneidade. Pós-
verdade, fake news, barbarizarão da opinião pública, autoritarismo, reedição do
fascismo em versão atualizada 2.0 e necropolítica. Em meio a tudo isso um
capitalismo mais do que anti-iluminista que se apresenta até mesmo com
traços pós-humanos. Pulsão de morte em ritmo de videoclipe.
As consequências desta sociedade não redundaram somente em indivíduos
dopados em um ciclo de consumo dia após dia de sujeitos aprisionados na
maldição da obsolescência programada. O projeto é de uma sociedade de
tiranos e narcisicamente orientada. Algo que a filosofia política há poucos
séculos chamaria simplesmente pelo nome de guerra de todos contra todos.
Minha base humanista não vê a menor chance de isso render bons frutos. E
não tem dado.
Desta franca deterioração situada além dos limites da opinião pública, que
redundou na ressurgência dos projetos autoritários em diferentes graus e
vitoriosos nos processos de concorrência eleitoral, é difícil não reconhecer que
ambos os lados do espectro político contribuíram de maneira direta ou
indireta. Nos governos no flanco esquerdo, para além de abraçarem sem
maiores questionamentos o receituário fiscal, há aquela arrogância costumeira.
Oras, aos campeões morais o sucesso é inevitável! No lado direito,
compartilhando a mesma cartilha de políticas públicas fornecida pelo
ultraliberalismo, a insuficiência de enfrentarem de maneira honesta seus
próprios demônios. Entre progressistas e conservadores, em uníssimo, a faltaFreudiana e o Padrão da Propaganda
Fascista, ele afirma que,
O termo incitador da turba, apesar de censurável por seu desprezo inerente pelas
massas enquanto tais, é em boa medida adequado já que expressa a atmosfera de
agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos
pretensos Hitlers. Se é desrespeitoso chamar as pessoas de turba, é precisamente o
objetivo do agitador transformar estas mesmas pessoas em uma turba, isto é, uma
multidão inclinada à ação violenta sem qualquer objetivo político sensato, e criar a
atmosfera do pogrom. O propósito universal destes agitadores é instigar
metodicamente o que, desde o livro famoso de Gustave Le Bon, é comumente
conhecido como psicologia das massas. (ADORNO, 2011, p. 1).
A psicologia social das multidões ou da massa, presentes na ideia de
Gustave Le Bom (1980),8 aplica-se nesse episódio em que os manifestantes,
conclamados por Trump, arregimentaram de forma orquestrada e massificada,
por meio das mídias sociais, outros tantos simpatizantes, que atuam em regime
anárquico e turbulento. Eles se aglomeram no Parque The Ellipse, em
Washington D.C., num evento denominado “Save America” onde ocorreram
discursos de líderes de extrema-direita, como o político Rudy Giuliani,
(advogado pessoal do presidente Trump) que fez um discurso contra os
resultados das eleições, afirmando que as disputas eleitorais dos EUA
“deveriam ser resolvidas por Julgamento por Combate”. Num claro incentivo à
violência, segundo afirma Anthony Zucher (2021) em seu artigo “Invasão ao
Congresso: o que a violência em Washington significa para o legado de
Trump”, publicado na BBC News.
De fato, aquilo que poderia ter sido um ato simbólico de protesto contra o
resultado das urnas americanas foi transformado num ato terrorista
arquitetado por partidários de Donald Trump, com a invasão do Capitólio,
provocando destruição e mortes naquela tarde. Tal ato terrorista “Salve a
América”, promovido com a anuência de Trump, foi ideologicamente
arquitetado por grupos ultraconservadores, como os Proud Boys (Meninos
Orgulhosos, grupo violento de extrema-direita dos EUA), America First Neo-
Confederados (grupo de xenófobos supremacistas e racistas, que apoiam a
deportação dos imigrantes oriundos da América Latina e do países árabes, que
vivem nos EUA), QAnon (Grupo extremista, classificado como terrorista,
fichado pelo FBI), National Anarquist (grupo de ideologia política
ultraconservadora, nacionalista e radicalmente racista, com origens fascistas) e
Blak Hebrew Israelistes (grupo afro-norte-americano antissemita e racista, que
se julgam “judeus legítimos”, verdadeiros descendentes dos originários
israelitas).
Esse público massificado e orquestrado em forma de turba operou num
nível de articulação digital como um enxame indivíduo/usuários articulados
por mídias sociais. O termo enxame digital é identificado por Han (2018) para
classificar o que ele conceitua como processo de disposição dos indivíduos no
ambiente digital isolados em suas articulações. Eles não se aglomeram como
massa, na forma como caracteriza Le Bom (1980). Mas nos possibilita entender
que sua forma de participação faz acionar outros tipos de articulações e ações
que são presentes nas transformações da esfera pública da sociedade em rede.
Segundo Han,
Claramente, encontramo-nos hoje novamente em uma crise, em uma transição
crítica, pela qual uma outra revolução, a saber, a revolução digital, parece ser
responsável. Mais uma vez, uma formação dos muitos ameaça uma relação de poder e
de soberania. A nova massa é o enxame digital. Ela apresenta propriedades que a
distinguem radicalmente da clássica formação dos muitos, a saber, da massa. [...]. O
enxame digital consiste em indivíduos singularizados. (HAN, 2018, p. 31).
O homo digitalis, que caracteriza, de forma pontual, esse público
massificado e articulado por redes, que participou do episódio que resultou na
invasão do Congresso do EUA, diríamos que vai desde judeus negros e
antissemitas, que acreditam numa pureza essencialista da raça, a extremistas
brancos ultranacionalistas que acreditam num separatismo racial e político do
país, configurando, assim, uma turba de ultraconservadores supremacistas, que
ostentavam símbolos como a bandeira dos confederados racistas, símbolos
tribais, que representavam bárbaros vikings, e fantasias alegóricas de um
passado mítico, complementado por cartazes, com discurso de ódio e camisas
com emblemas antissemitas, que faziam menção a campos de concentração
alemães.
De uma maneira geral, todos, deliberadamente, eram, de forma
autoconsciente, contra os princípios democráticos instituídos pelo estado de
direito, e, por esse motivo, invadir e destruir o patrimônio representado pelo
Capitólio seria um ato ostensivo contra essa democracia que eles negam e que
não reconhecem o seu resultado por meio das urnas. O que seria um protesto
ilegítimo, promovido por Donald Trump, contra o resultado das eleições
americanas nas quais ele foi comprovadamente derrotado, transformou-se
num ato de terrorismo interno, de violenta ação contra a soberania dos EUA,
que resultou em quatro mortes e mais de oitenta prisões de manifestantes. O
episódio foi um completo ato consciente de irracionalismo de conveniência
fascista, instrumentalizado de forma violenta e criminosa. Uma turba em
forma de sublevação popular. Um ato neoliberal que foi arquitetado contra a
democracia estabelecida pelo estado de direito do povo americano,
orquestrado pelo próprio presidente dos EUA. Voltando às questões
levantadas por Fraser (2018) sobre a crise de hegemonia, concordamos com a
autora quando afirma que
O neoliberalismo hiper-reacionário de Trump não constitui um novo bloco
hegemônico, no entanto. É, ao contrário, caótico, instável e frágil. Isso se deve em
parte à peculiar psicologia pessoal de seu porta-estandarte e, em parte, devido à sua
codependência disfuncional com o establishment do Partido Republicano, que tentou e
falhou em reafirmar o seu controle e agora está matando o tempo enquanto procura
por uma estratégia de saída. (FRASER, 2018, p. 55).
A invasão do Capitólio foi a simbolização dessa crise de hegemonia,
somada ao egocentrismo perverso de um líder que não tem legitimidade e
impõe uma doutrina de um tipo de neoliberalismo ultraindividualista, que não
respeita as bases partidárias que o apoiaram.
Trump faz parte desse enxame digital, na forma de líder sem liderança que
acredita que impor o poder, de forma autoritária, transforma-o em um líder.
Alguém que confunde autoridade com autoritarismo. Suas ações de fato
representam uma crise de hegemonia política, sem a coalizão de um grupo e
amparo político. Essas características se afinam com a reflexão de Han (2014)
sobre a egotização do comportamento das psicopolíticas no contexto do
enxame digital. O enxame digital do neoliberalismo exime a existência de um
nós coletivo e articulado pela política democrática.
O sujeito econômico neoliberal não forma nenhum “Nós” capaz de um agir conjunto.
A egotização crescente e a atomização da sociedade leva a que os espaços para o agir
conjunto encolham radicalmente e impede, assim, a formação de um contrapoder que
pudesse efetivamente colocar em questão a ordem capitalista. O socius [“social”] dá
lugar ao solus [“sozinho”]. Não à multidão, mas sim à solidão caracteriza a
constituição social atual. Ela é abarcada por uma desintegração generalizada do
comum e do comunitário. A solidariedade desaparece. A privatização avança até a
alma. (HAN, 2018, p. 40).
Os indivíduos/usuários, ultraconservadores, que atendem à dinâmica
neoliberal, indivíduos típicos do enxame digital contemporâneo (HAN, 2018),
seguem a linha do irracionalismo de conveniência, que líderes
ultraconservadores podem promover. Esse comportamento é fundado em
práticas antidemocráticas e até terroristas, a exemplo da invasão do Capitólio,
articulada por meio de redes, por milícias digitais. Esse exemplo de
irracionalismo de conveniência, proposto por líderes políticos
ultraconservadores, aponta paraum regressivo modo de deslegitimar a
estabilidade das instituições públicas, forjando uma cultura civil de
comportamentos violentos, que objetivam a instauração do pânico moral, da
violência jurídica e política e a efetivação do medo coletivo.
O resultado dessa conduta vai além de atos ostensivos e episódio de turba,
como vimos no dia 6 de janeiro de 2021, os efeitos desse processo apontam
para a continuidade do fortalecimento da colonização do imaginário fascista,
por meio da política manipulação e desinformação que estabelece pânico
moral (MCLUHAN, 1964). E, com isso, torna ainda mais frágeis vários setores
sociais de maior vulnerabilidade e desamparo, ameaçados de extermínio no
cotidiano. O pânico moral foi um conceito discutido por Marshal Mcluhan
que se refere a um sentimento de medo compartilhado, que é espalhado de
forma exponencial para um grande número da população, de que algo muito
ruim, que prejudicará a todos indiscriminadamente, vai ocorrer muito em
breve. Via de regra, o pânico moral circula em primeira mão na mídia de uma
maneira geral e se espalha pela população de forma indiscriminada.
Nos anos 60, Mcluhan  analisou esse conceito em seu livro  Understanding
Media (1964), em que o conceito de pânico moral foi usado para se referir a
uma ameaça geral sobre o comportamento juvenil. De forma próxima a de
Mcluhan, Stanley Cohen (1972) fez uma pesquisa sociológica sobre a relação
entre cultura e mídia juvenil, Folk Devils and Moral Panics, na qual afirma que
tal fenômeno ocorre quando algo ou alguém em grupo ou individualmente
surge e põe em risco ou ameaça o que é considerado, até então, como valores e
interesses sociais legitimados.
Os fascistas contemporâneos apostam na turbulência sócio-institucional,
para desestabilizar e dividir a população, e, consequentemente, as esferas que
possam atuar contra seu movimento turbulento em forma de pânico moral
associado a ideologias abjetas e falhas que apostam na clivagem e divisão dos
grupos, promovendo caos social.
Conforme Stanley (2020), “O sintoma mais marcante da política fascista é a
divisão. Destina-se a dividir uma população em ‘nós’ e ‘eles’”. (p. 15). De forma
conveniente, tais práticas de divisão social atendem a propósitos políticos
escusos, que apostam na circulação e consumo imediato do discurso de ódio,
por meio de notícias falsas, que potencializam polêmicas e mobilizam afetos,
criando cisão entre grupos sociais. Esse processo é fundado na desinformação,
sujeição da opinião pública, por milícias ligadas a líderes políticos que buscam
uma nova forma de afinidade eletiva para estabelecer novas prática populistas
e ultraconservadoras, por meio das redes sociais, como afirma Garbaudo
(2018).
Isso nos ajuda a entender que episódios de turbulência social, promovidos
por grupos supremacistas e milícias digitais, não são questões isoladas dentro
da doutrina ideológica do neoliberalismo ultraconservador e manipulador das
estruturas de tecnologias contemporâneas. Há uma estreita relação entre o
comportamento político de lideranças autoritárias e populistas, representantes
de um fascismo contemporâneo, e os dispositivos de informação, orientação e
controle de dados e informações que incidem sobre a orientação de conduta
dos enxames digitais dos indivíduos/usuários na sociedade neoliberal ligada
por redes. Os comportamentos sociais e o controle dos dados digitais fazem
parte de uma mesma conjuntura psicopolítica.
Hoje uma nova mudança de paradigma se realiza. O panóptico digital não é uma
sociedade disciplinar biopolítica, mas sim uma sociedade da transparência
psicopolítica. E, no lugar do biopoder, entra o psicopoder. A psicopolítica está em
posição para, com ajuda da vigilância digital, ler e controlar pensamentos. A
vigilância digital toma o lugar da ótica inconfiável, ineficiente e perspectivista do Big
Brother. Ela é eficiente porque ela é a perspectivista. A biopolítica não permite
nenhum acesso sutil à psyche de pessoas. O psicopoder, em contrapartida, está em
condições de intervir nos processos psicológicos. (HAN, 2014, p. 158-159).
Essa psicopolítica está consorciada com as estruturas do Big Data, que se
instaura na sociedade em rede, como um novo panóptico digital, que está
vigilante, sobre os comportamentos dos indivíduos/usuários que são pessoas
por trás dos monitores digitais. Na visão de Byung-Chul Han,
El Big Data es un gran negocio. Los datos personales se capitalizan y comercializan
por completo. Hoy se trata a los hombres y se comercia con ellos como paquetes de
datos susceptibles de ser explotados económicamente. Ellos mismos devienen
mercancía. El Big Brother y el Big Deal se alían. El Estado vigilante y el mercado se
fusionan. (HAN, 2014, p. 98).9
Isso nos ajuda a refletir criticamente sobre fake news e a pós-verdade, como
fenômenos que resultam de dispositivos psicopolíticos e biopolíticos de
controle, vigilância e brutalidade de Estado, muitas vezes promovidas
diretamente por posicionamentos e atitudes políticas, que incidem em
pronunciamento de seus líderes ou por grupos próximos a ele, outras vezes
por meio de suas milícias digitais, dentro e fora do Estado. A biopolítica não
tem acesso direto à psique dos indivíduos, como afirma Han (2014); por outro
lado, a psicopolítica e a sua forma de intervenção, configurada como
psicopoder, pode intervir diretamente no campo psicológico dos indivíduos e
nos processos de intersubjetividade coletiva dos grupos sociais.
A questão a destacar é que os mecanismos biopolíticos de controle,
orientação ou mesmo a brutalidade na forma de gerenciamento do Estado,
nesse contexto neoliberal, entrecruzam-se com os mecanismos da
psicopolítica em suas linhas de desinformações e ideologias falhas fundadas,
promovidas por dispositivos ligados em rede. Esse processo de promoção do
controle dos dados do Bigdata e os mecanismos de desinformação, como fake
news, são exemplos da forma como opera o poder de comando psicopolítico.
Nesse contexto neoliberal, as ideologias fascistas encontraram formas de
apropriação dos espaços públicos dentro do Estado, e promoveram formas de
manipulação e controle de dados para estruturar o discurso doutrinário,
ajudado por controle de dados e algoritmos. Na psicopolítica implementada
por governos ultraconservadores, os usos e o controle dos dados digitais
servem para alimentar discursos e pronunciamentos falsos, pautados em
ideologia falhas e propagandas políticas, a serviço do desmonte do Estado e
das instituições democráticas.
A política fascista troca a realidade pelos pronunciamentos de um único indivíduo, ou
talvez um partido político. Mentiras óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo
qual a política fascista destrói o espaço da informação. Um líder fascista pode
substituir a verdade pelo poder, chegando a mentir de forma inconsequente.
(STANLEY, 2020, p. 66).
O processo ideológico dessa psicopolítica fascista, com a propagação de
mentiras e desinformação nas mídias sociais, promove influência às
percepções dentro e fora dos grupos das mídias sociais, e alimenta o enxame
digital desse ator social que classificamos aqui como indivíduo/usuário.
A base da influência sobre as percepções desses reflete-se nos efeitos dos
usos de mensagens e compartilhamento de dados, que são administrados por
algoritmos dessas mídias sociais. Nesse ponto de tangência, o enxame digital
dos indivíduos/usuários, assim como a ressonância emocional dos seus afetos
políticos, encontra tangência no controle e manipulação dos dados digitais,
que está diretamente ligado à estrutura dos algoritmos no novo capitalismo
digital (HAN, 2014).
Nesse contexto, a psicopolítica dos líderes autoritários, a sua ligação com o
enxame digital dos indivíduos/usuários e o gerenciamento de dados dos
algoritmos da sociedade em rede, faz parte desse conjunto proposto pela
ideologia neoliberal, que encontra muita reverberação nos governos
ultraconservadores dentro das democracias.
Destacamos ainda que, do ponto de vista factual, os algoritmos, em sua
estreita relação com as fakenews, atuam calculando comportamento e
tendências a partir de cliques, comandos e mensagens (input/output) fornecidos
pelos indivíduos/usuários, que são capturados por empresas de logística
digital, assim como por agências de governo e grupo ilegais caracterizados
como milícias digitais promotoras de disseminação de fake news e
desinformação generalizada.
Nesse contexto de massificação desinformativa, a ação dos algoritmos lida
com dados que são fornecidos nos processos de interação sociais a partir das
mídias sociais assim como com acesso a banco de dados disponíveis. Muitas
empresas e agentes se beneficiam nesse processo, de input e output de dados.
Isso é parte fundamental, porque a partir dessa logística digital, são
estabelecidas formas de monetarização de empresas de informação, assim
como são criados perfis de indivíduo/usuários, por parte de vários grupos que
armazenam dados e disponibilizam para outras empresas e grupos de
interesses, com fins financeiros e políticos.
Esse processo configura-se como parte de um governo de algoritmo,
fundado numa forma de racionalidade digital, que atende às novas demandas
da biopolítica, atualizada com a psicopolítica. Nesse contexto, o governo dos
algoritmos gerencia dados digitais, que atendem a interesses públicos e
privados dentro do jogo de interesses, seguindo um raciocínio
instrumentalizado do neoliberalismo.
Nenhum dado de usuário, seja essa pessoa física ou jurídica pode ser
disponibilizado ou apropriado sem sua autorização. A disponibilidade não
autorizada dos dados dos usuários é um ato criminoso previsto em lei. A
ilegalidade desse ato está prevista na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD),
Lei n. 13.709, de 2018, promulgada em setembro de 2020, e prevê sansões e
multas em valores altos de até cinquenta milhões de reais e, em alguns casos,
sansões de reclusão. Apresento abaixo a estrutura da lei para um melhor
entendimento.10
Quadro 1 – “Entenda o marco legal de proteção de dados”
Entenda o marco legal de proteção de dados
Estrutura
A Lei 13.709, de 2018, tem 65 artigos, distribuídos em 10 Capítulos. O texto foi
inspirado fortemente em linhas específicas da regulação europeia, o
Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, em sua sigla em inglês).
Hipóteses para o
tratamento de
dados                           
Com o consentimento do titular;
Para o cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo responsável pelo
tratamento;
Pela administração pública, para o tratamento e uso compartilhado de dados
necessários à execução de políticas públicas;
Para a realização de estudos por órgão de pesquisa, sem a individualização da
pessoa;
Para a proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro;
Para a tutela da saúde, com procedimento realizado por profissionais da área da
saúde ou por entidades sanitárias;
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a um contrato do qual é parte o titular quanto a seu pedido;
Para pleitos em processos judicial, administrativo ou arbitral;
Para a proteção do crédito, nos termos do Código de Defesa do Consumidor.
Abrangência
Quaisquer dados, como nome, endereço, e-mail, idade, estado civil e situação
patrimonial, obtido em qualquer tipo de suporte (papel, eletrônico, informático,
som e imagem etc.).
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condição para o fornecimento de produto ou de serviço, o titular deverá ser
informado com destaque sobre isso.
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O texto traz o conceito de dados sensíveis, que recebem tratamento
diferenciado: sobre origem racial ou étnica; convicções religiosas; opiniões
políticas; filiação a sindicatos ou a organizações de caráter religioso, filosófico
ou político; dados referentes à saúde ou à vida sexual; e dados genéticos ou
biométricos quando vinculados a uma pessoa natural.
Entenda o marco legal de proteção de dados
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Quem infringir a nova lei fica sujeito à advertência, multa simples, multa diária,
suspensão parcial ou total de funcionamento, além de outras sanções.
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dados quando, a seu juízo, for verossímil a alegação, houver hipossuficiência
para fins de produção de prova ou quando a produção de prova pelo titular
resultar-lhe excessivamente onerosa.
Fonte: Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
A aprovação desse dispositivo legal no Brasil é importante por criar um
marco regulatório sobre o uso inapropriado de dados e informações digitais
que tem sido uma prática recorrente desde 2016 em várias partes do mundo.
Mas mesmo esse marco regulatório não tem poder de ação contra criminosos
digitais que se apropriam de dados dos indivíduos/usuários do Brasil, como
mostra a matéria pública no El Pais, em 26 de janeiro de 2021, sobre
Um megavazamento de dados pessoais de 223 milhões de brasileiros pela empresa de
segurança digital PSafe pode ser o maior na história do país e tem tudo para ser a
primeira prova de fogo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), criada
a partir da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) em agosto do
ano passado. Também é o primeiro incidente desta magnitude que se tem notícia no
Brasil. A lista com milhões de nomes completos, CPFs e datas de nascimento – de
pessoas vivas e mortas – estava disponível para download gratuito a partir de um
fórum de discussão na deep web – cópias do arquivo original foram feitas e podiam ser
encontradas por qualquer um a partir de buscadores de internet. Em troca de
bitcoins, o perfil anônimo responsável pelo vazamento dizia ser possível obter ainda
retratos, endereço, telefone, declaração do Imposto de Renda, listas de familiares,
renda mensal, score de crédito e muito mais dos alvos em questão. (El Pais,
26/01/2021).
Todos estamos em condição de vulnerabilidade digital, psicológica e física
na sociedade da informação em rede, que cada vez mais, atende a interesses
privados seguindo uma diretriz neoliberal, de privatização dos espaços e dos
interesses públicos. A questão relevante a esse respeito é que o uso
inapropriado dos dados de usuários está diretamente ligado a crimes digitais
que, embora estejam previstos em lei, não impedem o mapeamento de perfis
de indivíduos/usuários. O mapeamento desses perfis de usuários são
fundamentais para a compilação, manipulação e controle sobre o que e quando
os indivíduos/usuários fazem conectados na rede da internet. A caracterização
do acesso, consumo, tipo de equipamento, conexão, localização do dispositivo
e troca de dados, como mensagens recebidas e enviadas, ou qualquer comando
por clic, voz ou gesto, são informações úteis aos algoritmos de mapeamento,
gerenciamento logístico e manipulação de dados digitais. Esse mapeamento,
gerenciamento e manipulação atendem a critérios de classificação de perfil do
indivíduo/usuário que inclui faixa etária, gênero, local de acesso, rede de
conexão, tipo de dispositivo e equipamento usado, tempo de duração da
conexão etc.
Como aponta pesquisa realizada pela Universidade de Oxford, sob a
coordenação da Nahema Marchal, Lisa-Maria Neudert, Bence Kollanyi e
Philip N. Howard, os usos dos dados nas redes sociais por pessoas de gerações
distintas, por exemplo, demonstra que pessoas da terceira idade passaram a ter
mais iniciativa de conectividade e mais tempo on line na mídias sociais de uma
maneira geral, sendo que esse mapeamento possibilita um perfil que usuários
com mais disponibilidade de acesso disponibilizam mais dados pessoais nas
plataformas digitais e são alvos mais vulneráveis às milícias digitais que
propagam mensagens indesejáveis e fake news.
Segundo essa pesquisa, numa comparação entre os anos de 2016 e 2018,
apresentou-se uma relação direta de polarização entreperfis de usuários de
gerações distintas com relação ao acesso e consumo de notícias ligadas às
eleições nos EUA11. Com isso, constatou-se um crescente aumento de
mensagens com conteúdo ultraconservador e abjeto e igualmente uma maior
difusão dessas mesmas mensagens entre grupos de usuários próximos,
classificados por grupos etários distintos que participavam de grupos em
mídias sociais.
A pesquisa aponta para a realidade dos fatos sobre o ano de 2016 em que se
constatou que a distribuição das fake news foi originada em terminais de
computadores da Rússia, e que apresentavam conteúdo ultraconservador de
direita, e que foram acessados por boa parte de usuários de idade mais
avançada tanto no ano de 2016 como no ano de 2018. Os fatos que os dados
apresentavam possibilitavam uma compreensão sobre reprodução de um perfil
de comportamento relativo ao acesso a mensagens e replicação de notícias
falsas ou indesejáveis (entenda-se por notícias de conteúdo indesejável como
notícias abjetas caracterizadas por mensagens xenofóbicas, racistas e de ódio)
por grupos de idade mais jovens e idades mais avançadas.
Seguramente isso demonstra uma instrumentalização do que aqui tratamos
de chamar de práticas do irracionalismo de conveniência fascista, mas
sabemos que tais práticas aparentemente irracionais e desrespeitosas, por
parte de empresas, grupos de milícias digitais ou até mesmo usuários que
compartilham grupos de WhatsApp e outras mídias sociais, que se valem de
fake news e mensagens indesejáveis e abjetas, atendem a propósitos políticos
com fins escusos, conservadores e ultraconservadores, que caracterizam e
condizem com as práticas da ideologia neoliberal associada às práticas do
fascismo contemporâneo.
Voltaremos a refletir sobre os dados dessa pesquisa da Universidade de
Oxford no próximo capítulo, em que trataremos a questão sobre a
governabilidade dos algoritmos. Por ora, retomemos a crítica introdutória
sobre o “irracionalismo” de conveniência fascista.
A nossa análise trata da questão da conveniência da irracionalidade
fascista, no cotidiano digital da sociedade contemporânea, e sua estreita
ligação com dispositivos de persuasão, medo, controle ou pânico moral
(MCLUHAN, 1964), fundado em notícias falsas, e práticas digitais de
desinformação, que circulam nas redes por meio da produção e consumo de
mensagens e propagandas, que visam, de forma direta, à sujeição e
manipulação da opinião pública, por meio da produção, circulação e consumo
de notícias forjadas por especialistas em desinformação, promotores de fake
news.
Como podem perceber, ponho o termo “irracionalismo” entre aspas e o
caracterizo como sendo de conveniência fascista, pois que de irracional os
fenômenos das fake news e a pós-verdade não têm nada, na medida em que
esses fenômenos são provocados por instrumentos ideológicos com propósitos
de colonização subjetiva, como nos ajuda a pensar Quinn Slobodian (2018,
2020), dentro do cenário político neoliberal localizado e globalizado da cultura
do ultraconservadorismo mundial.
Esses fenômenos do binômio fake news/pós-verdade atendem a um
processo mais amplo de desenvolvimento de ideologias ultraconservadoras
que criam fronteira e barreiras simbólicas e materiais dentro das sociedades,
que, a reboque da discussão, corroboram com o neoliberalismo autoritário
vigente, que perpassa de forma intersubjetiva as redes de afetos na sociedade
mundial conectada. Esse processo, no qual se contextualiza a fake news e a pós-
verdade, faz parte de um processo muito maior, que é estruturado por uma
nova onda neoliberal que opera a partir de ideologias forjadas por discursos de
ódio, ideias de tradicionalismos conservadores, mitificação da verdade e
moralismos retóricos, que ajudam a mobilizar a política dos afetos. A esse
conjunto autoritário de demandas ideológicas se juntam os interesses
nacionalistas, trazendo à tona as novas formas de populismos digital, aos
modos de líderes autoritários como Jair Bolsonaro e Donald Trump, que
promoveram formas de governança brutalizadas e antidemocráticas.
O conjunto de todo esse processo acima citado, faz operar capitalismo
digital em rede, que incide na precarização, reificação e na alienação massiva
dessa mesma sociedade em rede, por meio da propagação ideológica da
desinformação generalizada, do controle dos dados dos indivíduos/usuários e
na “uberização do trabalho”, sob a qual os direitos e garantias trabalhistas
perderam espaços, sendo substituídas pelo empreendedorismo individualizado
sem regras. O termo “uberizaçao do trabalho”, refere-se ao contexto de
formação do capitalismo de plataforma digital, a partir do qual a divisão social
do trabalho, na era da sociedade em rede, entra em total precarização, sem
garantias sindicais, de segurança ou direitos adquiridos para a classe
trabalhadora dessas plataformas. Nessas plataformas, o trabalhador assume
todos os riscos do desenvolvimento do seu trabalho e da sua produção, num
processo de mais valia absoluta, com a qual a classe trabalhadora desse setor é
explorada ao máximo em sua jornada de trabalho excessiva.
Esse tipo de capitalismo que genealogicamente deriva de uma mudança
estrutural do capitalismo moderno, resulta hoje em condições perversas de
exploração e concentração de renda e se estrutura numa engenharia
socioeconômica complexas, que seguem diretrizes de uma política neoliberal
(CHAMAYOU, 2020). Em certa medida, essa prática neoliberal, que se
estrutura pela sociedade de plataformas e das informações dos
indivíduos/usuários, se beneficia do controle dos afetos em contextos de crise
social aguda, como a que vivemos. Associado a esse contexto de crise, as
políticas de um estado de exceção (AGAMBEN, 2011) parecem definir as
diretrizes de governantes autoritários e populistas que se valem de uma
política do medo e da insegurança pública, com as quais implementam
controle dos afetos, dos indivíduos na sociedade.
É
É esse contexto neoliberal que funda o irracionalismo de conveniência
estruturado por dispositivos de persuasão, medo e a propagação da mentira
massificada, que se transforma em instrumento de controle nas mãos de
grupos que arquitetam uma engenharia de desinformação, como nos afirma
Empoli (2019). Esses engenheiros da mentira coletiva, promotores do caos
regulam, cotidianamente e de forma eficiente, o funcionamento de uma
engrenagem, que é montada para entender o desejo de manipulação dos afetos,
por meio das mensagens de ódio e abjeções retóricas. Dentro dessa
engrenagem, os afetos “[...] era uma fonte de energia colossal, e que era possível
explorá-la para realizar qualquer objetivo, a partir do momento em que se
decifrassem os códigos e se dominasse a tecnologia.” (EMPOLI, 2019, p. 23). Mas, a
bem da verdade, reiterando o que afirmamos em parágrafo anterior, isso, que
denominamos como irracionalismo de conveniência, de irracional não tem
nada.
Esse é um processo no qual se inserem, de forma bastante objetiva e
instrumental, as fake news, e, a reboque, o fenômeno da pós-verdade, e ambos
estão associados a um processo muito maior, estruturado por uma nova onda
ideológica que tem como mecanismo de reificação a massificação da
desinformação, e, consequentemente, a manipulação dos afetos, em nome de
uma nova ordem de instrumentalização do fazer político fascista no cotidiano
digital da sociedade em rede.
Consideramos as fake news, e sua relação com a pós-verdade, como um
processo ideológico de manipulação informacional que resulta em deformação
da verdade, e, consequentemente, em desinformação. E que se fundamenta na
objetividade do irracionalismo de conveniência das fake news. Esse processo se
caracteriza de forma autoconsciente, e visa chocar, amedrontar, distorcer e
reprimir a verdade dos fatos, transformando-os em desinformação massiva
disseminada oferecida à opinião pública (BOURDIEU, 1996, 2008). Ao mesmo
tempo, esse processo se ancora em dispositivos de brutalidade biopolíticos de
controle institucionais. Que instaura um processo de uma fantasia, muitas
vezes mítica, criadasobre o irreal. Essas formas míticas são inverossímeis e
moldam, de maneira intersubjetiva, a abstração da pós-verdade.
A fake news é caracterizada como notícia com cunho falso que gera
desinformações, que não correspondem à verdade dos fatos e que trafegam de
forma viralizada entre o que aqui conceituamos como indivíduos/usuários
conectados em rede, que reverberam tais desinformações, para a população de
uma maneira geral. Informações e notícias falsas configuram, de fato, a cultura
da desinformação e a política do negacionismo. Isso não é nenhuma novidade,
mas a forma como esses fenômenos são processados no cotidiano digital, dos
nossos dias atuais, são potencializados por meio da hipervisualização da
cultura visual (SILVA, 2020). Essas práticas, por meio das mídias sociais,
causam um estrago devastador do ponto de vista político, econômico, social e
sobretudo emocional. Pois se trata de uma operação de manipulação
algorítmica massificada, que conecta desinformações em rede que, em frações
de segundos, por meio da alta tecnologia de comunicação, promovem uma
turba digital de mentiras objetivas.
O intuito das fake news é conseguir visualizações nas páginas das mais
variadas mídias sociais. Sendo assim, o conteúdo sensacionalista e fora da
normalidade dissemina mensagens de ódio, abjetas e difamatórias contra
pessoas, instituições, empresas, governos etc., que maculam a imagem dos seus
alvos. As empresas especializadas em produção das informações falsas estão
localizadas em ambientes digitais de difícil rastreamento, aos quais grande
parte dos usuários não têm acesso. De maneira geral, as fakes news são criadas
por meio de páginas da internet e mídias sociais que produzem um conteúdo
falso, que os bots12 replicam massivamente a cada instante para milhões de
usuários por meio das redes, ampliando os números de seus destinatários, que
recebem boatos e informações com conteúdo falso por meio da rede,
sobretudo em períodos de processos eleitorais.
Com isso, as fake news são assim instrumentos de operações ideológicas e
ao mesmo tempo instrumentos que possibilitam o funcionamento de uma
grande máquina mantenedora de mentiras com fins específicos, sobretudo de
caráter político e financeiro do neoliberalismo dentro da doutrina de
comportamento digital na estrutura do capitalismo contemporâneo. As
atividades de uma empresa como a Cambridge Analytica simbolizam a síntese
da fusão entre interesses do capitalismo neoliberal associado as doutrinas
ultraconservadoras de líderes de um populismo discursivo do fascismo
contemporâneo. Essa empresa comprovadamente atuou nas eleições de
Donald Trump, na manipulação das informações do BREXIT13 e teve forte
participação na eleição de Jair Bolsonaro, com forte influência de ideólogos
ultraconservadores como Steve Bannon.
Dentro desse contexto neoliberal, por meio das fake news, grupos vêm
sendo ativados para propagar mentiras e manipulações, em favor de interesses
políticos pontuais. Um dos maiores exemplos desse fenômeno foi o BREXIT e
todo conjunto de desinformação e manipulação de informação publicitária
promovido pelo “Vote Leave” que também teve o apoio da empresa Cambridge
Analytica, com obtenção de dados dos usuários do Facebook com a finalidade
de facilitar o disparo de fake news em favor do BREXIT, que mobilizou os
afetos nacionalistas de uma considerada parte do povo britânico e resultou na
escolha pela saída do Reino Unido da União Europeia e, consequentemente,
gerou uma das maiores crises econômicas e políticas da história da Grã-
Bretanha.
Só para se ter uma ideia do poder da desinformação massiva promovido
por esse processo relativo às fake news, o assessor do governo de Boris Johnson
e ideólogo do BREXIT e marqueteiro Dominic Cumming, conhecido pelas
polêmicas que ajudou a promover junto ao parlamento inglês, admitiu que
publicou cerca de um bilhão de anúncios falsos durante a campanha de
referendo do BREXIT, com forte interferência de mensagens oriundas da
Rússia14. Os processos de desinformação, com toda a sua estrutura de
tecnologia ancorada em cálculos algoritmos e uso de dados das mais várias
mídias sociais, como o Facebook, Twitter e WhatsApp, atuaram em rede de
forma pluridirecional, visando persuadir e sujestionar a tomada de posições
políticas, por meio do voto de milhões de usuários ingleses, quanto à saída da
Grã-Bretanha da União Europeia.
Outro exemplo do grande poder dessa indústria ideológica da
desinformação em massa foi a conquista da disputa eleitoral, também em 2016,
de Donald Trump, que venceu a disputa eleitoral com Hilary Clinton, por meio
do uso das fake news, e curiosamente, Trump e todo suporte dos seus
apoiadores conservadores também recorreu à ajuda da Cambridge Analytica,
com forte articulação de Steve Bannon. O fenômeno de desinformação em
massa e mobilizações dos afetos políticos, em nome do sentimento
nacionalista de parte do povo americano, foi decisivo para a eleição dos
ultraconservadores nos EUA. Nesse processo eleitoral, a disputa foi marcada
por uma série de disparos de mensagens falsas e de cunho moralista, machista
e abjeto contra a senadora Hilary Clinton, assim como mensagens e
publicidades de cunho xenófobo e abjeto contra as comunidades latinas e
negras nos EUA.
Nesse sentido, foi usada uma estrutura tecnológica de alta performance
digital em análises e manipulação de dados, que foi fundamental também na
influência das eleições de 2018 no Brasil, que possibilitou a vitória de
Bolsonaro, com mais de 57 milhões de votos no segundo turno das eleições no
Brasil, como já afirmamos. Segundo Garbaudo (2018), as mídias sociais e
empresas especializadas em administração de dados e perfis de usuários em
rede são fundamentais para identificar formas estratégicas a serem usadas para
promover determinados assuntos, anúncios ou mensagens, em que todos
parecem estar antenados a um mesmo tema, ou comentando um mesmo
assunto. Essa é uma estratégia de atrair a atenção dos usuários das redes
sociais, como o Facebook, por exemplo. A jornalista Patrícia Campos Mello,
em seu livro A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e
violência digital, corrobora com essa afirmação acima, ao dizer que,
Outra maneira de criar a impressão de que “todo mundo está falando sobre
determinado assunto” e, assim, ofuscar outros temas é contratar agências que fazem
disparos em massa no WhatsApp. Dessa forma é possível enviar para milhares de
pessoas em milhares de grupos de WhatsApp memes, textos, áudios ou vídeos que
disseminam um ponto de vista. Uma vez “impulsionada”, a narrativa é então
propagada naturalmente pelas redes orgânicas, que são as pessoas de carne e osso que
acreditam naquilo que está sendo veiculado. Os americanos chamam isso de
firehosing, derivado de fire hose, mangueira de incêndio – trata-se da disseminação
de uma informação, que pode ser mentirosa, em um fluxo constante, repetitivo,
rápido e em larga escala. As pessoas são bombardeadas de todos os lados por uma
notícia – sites de notícias, grupos de WhatsApp, Facebook, Instagram – e essa
repetição lhes confere a sensação de familiaridade com determinada mensagem.
(MELLO, 2020, p. 21-22).
Essa mesma jornalista publicou uma matéria-denúncia, no Jornal Folha de
S. Paulo, no dia 06 de outubro de 2020, meses antes da realização das eleições
municipais no Brasil, cujo o título é: “Empresas burlam regras e mantêm
disparos em massa de mensagens eleitorais”, em que mostra a prática de
empresas de tecnologia de informação, oferecendo para candidatos a
vereadores e prefeitos, que disputaram as eleições municipais no mesmo ano,
assessoria tecnológica de disparos de mensagens em massa para eleitores
inadvertidos.
O Tribunal Superior Eleitoral – TSE no mesmo mês de outubro de 2020,
havia proibido a prática de envio de mensagens em massa com fins eleitorais,
além de determinar que o envio de mensagens políticas só poderia ser feito
para usuário já cadastrado de forma gratuita, pelo candidato, pelo partido ou
pela coligação partidária, e que deveriam ser observadasas disposições legais
da lei de proteção dos dados. Isso representava que a lei eleitoral do TSE já
proibia, de modo veemente, a compra de dados cadastrais para fins eleitorais.
Mesmo assim, muitas empresas como a BomBrasil continuam oferecendo
serviços dessa natureza, como se lê na citação abaixo.
A BomBrasil.net, nome fantasia da Brasil Opções de Mercado, oferece em seu site e
no prospecto “Material de campanha eleições 2020” a venda de banco de dados de
celulares com nome, endereço, bairro, renda, data de nascimento, com filtro de
WhatsApp. Um banco com 20 mil números de celular sai por R$ 1.800 – acima disso,
“solicitar orçamento”. “Cadastramos na agenda de seu celular os contatos de
WhatsApp de eleitores de sua cidade” – o envio de WhatsApp sai por R$ 0,15, e o de
SMS, R$ 0,09. A BomBrasil.net também oferece software que permite extrair dados
de usuários do Instagram e do Facebook. Por meio do que se chama “raspagem”,
obtém-se nome e número de celular de usuários do Instagram que tenham usado
determinada hashtag em suas postagens. Por exemplo, seleciona um banco de dados
de pessoas que postaram no Instagram usando #direitoaoaborto ou
#shoppingiguatemi ou de perfis que curtiram uma foto específica. Com essas
informações, forma-se um banco de dados de usuários para enviar mensagens em
massa por WhatsApp, por exemplo. Também oferece envio automático de mensagens
diretas pelo Instagram e comentários automatizados em postagens de determinados
perfis. Segundo a empresa, os softwares têm vários recursos para driblar o filtro de
spam ou o detector de automação das plataformas. (MELLO, Folha de S. Paulo,
06/10/20).15
Esses grupos especializados em logística de informação ofereceram seus
trabalhos de programação de softwares de disparos de múltiplas mensagens,
por meio de aplicativos de celular, para candidatos à Câmara de vereadores.
Em São Paulo, esse fato foi denunciado e foi matéria publicada no jornal Folha
de S. Paulo. Segundo a matéria,
O candidato a vereador em São Paulo Bruno Maia, que concorre pelo PDT com o
nome de Todd Tomorrow, recebeu e-mails e prospecto da BomBrasil oferecendo
esses serviços ilegais. Com o objetivo de fazer uma denúncia, ele ligou para as várias
empresas que enviaram a ele oferta de serviços ilegais e gravou as ligações. Após
informar que era candidato a vereador em São Paulo, Tomorrow ouviu da pessoa que
atendeu na BomBrasil: “Então, eu tenho um banco de dados de quase a cidade inteira
aí. De WhatsApp. Com nome, endereço, telefone, data de nascimento, renda, até
título de eleitor... E a gente faz um filtro. Aí você tem que olhar pro bairro, né. Os
bairros que você quer atingir. Dependendo das quantidades tem os valores, chega até
a R$ 0,05 [por disparo de WhatsApp]”. O preço vale para o caso de o próprio
candidato usar o software e fazer os disparos. Caso a empresa faça, o preço sobe para
R$ 0,12, informou ao candidato esse contato da BomBrasil. (MELLO, Folha de S.
Paulo, 06/10/20).
Por telefone, o representante da empresa Agência Minds chegou a afirmou,
a esse mesmo candidato a vereador na cidade de São Paulo, citado acima, que
poderia fornecer banco de dados com milhões de nomes e celulares segmentados por
cidade, bairro e estado. (MELLO, Folha de S. Paulo, 06/10/20).
Ainda segundo a matéria da Folha, outra empresa, de nome Automatize
Soluções Empresariais, também foi denunciada por abordar candidatos à
Câmara dos vereadores, por meio de aplicativo pelo WhatsApp, informando
que dispunham de serviço de disparo de mensagens com alcance em toda
cidade de São Paulo. Em gravação da conversa pelo celular, ouve-se: “Boa tarde,
me chamo Welbert, peguei seu número no Facebook, onde informa que é candidato a
vereador, trabalho com impulsionamento de campanha, mais visibilidade e alcance de
quase 100% dos moradores de sua cidade” (MELLO, Folha de S. Paulo, 06/10/20).
Sem dúvida isso é um reflexo de uma prática que teve seu marco inaugural
em 2016 nas eleições dos EUA, e ainda hoje aparece como sintoma perverso
dessas formas ilegítimas de apropriação e colonização privada da esfera
pública do Estado, na esteira ideológica desse processo neoliberal e fascista
que vimos discutindo. A partir do ano de 2016, vimos que o uso das mídias
sociais ajudou na aceleração da propagação conteúdo desinformativo e disparo
massivo de mensagens de campanha com fins eleitoreiros. Como já afirmamos,
a campanha eleitoral nas eleições majoritárias nos EUA é um exemplo
importante para entendermos como em 2018 e 2020 essa prática de
apropriação de dados de usuários e disparo de mensagens, eleitoreiras e fake
news são fundamentais para entendermos esse processo ideológico do fascismo
neoliberal que está presente numa eleição de um país que é a maior
democracia do mundo ou numa cidade brasileira qualquer.
A veiculação ideológica, por meio da captura, controle e manipulação de
dados dos indivíduos/usuários, dentro de um processo de ilegalidade digital,
são nosso foco de análise. E esses processos catalisam a mobilização de afetos
dentro de uma onda na qual vemos surgir uma espécie de autoritarismo dessa
nova direita, que tem por característica promover formas de poder
personalista e dominação institucional por meio da alienação moral,
desinformação e intolerância social generalizada.
E dentro desse contexto, as empresas de mídias sociais têm tentado agir de
forma mais incisiva e bloquear e excluir contas vinculadas nesses aplicativos, à
medida que tem sido exageradamente visível e intolerável o conteúdo de
mentira propagadas nessas mídias. Mark Zuckerberg, dono do Facebook, foi
chamado ao Congresso americano para depor sobre a questão da
disponibilização de dados dos usuários para uso com fins políticos, e dentre
outros exemplos relativos a essa questão ética, as empresas de mídias sociais
como o próprio Twitter têm tomado algumas providências quanto à política
de monitoramento de postagens mentirosas e abjetas. A exemplo disso, as
contas no Twitter e do Facebook de Donald Trump, ainda no cargo de
presidente da República nos EUA, foram bloqueadas depois dos atos de
terrorismo interno, com invasão do Capitólio, no dia 06 de janeiro de 2021,
que citamos em linha anteriores.
Ainda dentro desse contexto, esse processo instrumental de captura de
dados de usuários e propagação de desinformação tem objetivado a criação de
outros espaços de mídias sociais alternativas, diferentes das tradicionais como
o Facebook, o WhatsApp e o Twitter, em virtude do controle e fiscalização que
essas empresas têm implementado, a partir de um código de ética, ainda no
ano de 2020. Com isso, os grupos de ultraconservadores têm procurado
alternativas para se manterem atuantes na prática do fascismo digital
cotidiano. Um exemplo disso são a criações de plataformas internacionais, de
propagação de mensagens ultraconservadoras de cunho fascista, como a mídia
social denominada PARLER, que se apresenta como um aplicativo estruturado
como plataforma digital que reúne grupos que se identificam com o
pensamento ultraconservador, e se afirmam defensores da livre expressão, e
afirmam, textualmente, no seu portal de internet que nunca venderão os dados
dos seus usuários, fazendo menção explícita a fatos que foram questionados
relativos ao Facebook.
Isso justifica o fato de o aplicativo PARLER abrir sua página inicial,
https://parler.com, com um parágrafo bastante explícito, quanto aos seus
interesses e os objetivos. Na página de abertura da plataforma, lê-se: Parle is an
unbiased social plataforma focused on open dialogue andu ser engagement. We allow
free speech and do not censor ideas, political parties or ideologies. We protect your
privacy and will never sell your personal data16. Segundo a política do aplicativo, a
plataforma se diz imparcial na publicação do seu conteúdo, possibilitando que
todos os usuários se expressem de forma que melhor lhes aprouver. Vale aqui
ressaltar que a plataforma PARLER foi bloqueada por algumas empresas como
a Appel e o Google por julgarem que essa plataforma não corresponde a
políticasde éticas e segurança digital que condizem com as suas.
A plataforma PARLER é menos regulatória, e tem sido absorvida pelos
adeptos da extrema direita e vários conservadores em nível mundial, que têm
apostado em sua adesão, e em 2021 já soma mais de três milhões de usuários.
Essa mídia social foi criada por John Matze e Jared Thomson, que justificam
sua criação como motivada por acreditarem que a fiscalização e
regulamentação das redes sociais tradicionais ferem a liberdade de expressão, e
que isso tem prejudicado a propagação de um pensamento mais conservador.
Essa plataforma também não esconde o fato de se constituir como uma cópia
do Twitter, com a diferença apenas no número de caracteres disponíveis, que é
quatro vezes maior que no Twitter, possibilitando um aumento do conteúdo
das mensagens, que por sua vez são majoritariamente ultraconservadoras e
com conteúdo fascista, representado por mensagens de ódio explícitas.
Segundo o portal Olhar Digital17,
O aplicativo nasce em 2018 aproveitando-se de uma visão de que as redes sociais
mais poderosas, que são Facebook e Twitter, não estavam trabalhando para proteger
a liberdade de exposição de ideias e agiam de forma mais firme para controlar o
discurso de uma parte específica de seu público: os conservadores. (SANTINO, 2020,
s/p).18
Segundo os criadores do aplicativo afirmam, eles estavam “esgotados com a
falta de transparência em grandes tecnologias, supressão ideológica e abuso de
privacidade” (SANTINO, 2020, s/p).
Um outro aplicativo, esse brasileiro, denominado MANO (PADRÃO,
2019)19, de menor alcance, em termos numéricos de usuários, foi desenvolvido
pelo grupo do clã dos Bolsonaro, como uma forma alternativa de uso de mídia
social com caráter ultraconservador. E vem aglutinando os usuários com esse
perfil, que voluntariamente estão migrando das redes sociais Facebook,
Twitter e Instagram para essa plataforma alternativa.
Questões como essas fazem com que, seguramente, esse tipo de mídia
digital a exemplo do PARLER e MANO desponte como uma plataforma
majoritariamente usada e acessada por grupos sociais que comungam de uma
ideologia de extrema direita. Pois, os mentores desse tipo de ideologia
representam exatamente o tipo de pensamento e interesses do neoliberalismo
autoritário, no qual o fascismo digital cotidiano se faz presente. Mas, sem
dúvida, ainda hoje as mídias sociais mais usadas, como o Facebook, Twitter e
WhatsApp, ainda aglutinam muitos seguidores que compartilham mensagens
conservadoras e procedimentos fascistas, sobretudo em período eleitorais,
como afirmamos, dando apoio a esses líderes neopopulistas de extrema direita
e políticos conservadores oportunistas que pegam carona nessa onda fascista
da política eleitoral.
Porém, mesmo considerando que as empresas de mídia sociais mais usuais
tenham implementado políticas de ética e seguranças de dados, empresas
como Facebook, Twitter e WhatsApp continuam armazenado dados dos
usuários e em todas elas ainda circulam boa parte das desinformações por
meio das fake news do nosso cotidiano digital, que ajudam a manutenção do
populismo de líderes de extremistas da nova direita.
Ou seja, as mídias sociais ainda se apresentam como um dispositivo digital
do biopoder, de controle, persuasão, manipulação, ofensa e ódio social
cotidiano, que funcionam por meio de múltiplos disparos de mensagens,
sobretudo em períodos pré-eleitorais. Na prática, essa estrutura de
armazenamento de dados funciona como um dispositivo que faz uso de
recursos de manipulação de textos, imagens e sons, que são usados sem
grandes fiscalizações e descumprem a lei, seja no Brasil ou nos EUA.
Segundo Garbaudo (2018), de uma maneira geral, as mídias sociais foram e
são propícias para a forte formação de um novo populismo político, com forte
afinidade eletiva com essas novas formas de mídias sociais, que, ao nosso ver,
atende e corrobora com o contexto de formação de um neoliberalismo
autoritário e a propagação de uma ideologia conservadora que se espalha pelo
mundo de uma maneira geral, e o Brasil é um exemplo da reverberação desse
processo.
Social media savviness has in fact been a characteristic of many other populist
movements and dark horse candidates, both on the Right – for example, Nigel
Farage’s UK Independence Party (UKIP) and Marine Le Pen’s Front National – and
on the Left – from Bernie Sanders campaign in the United States to the rise of
Podemos in Spain and Jeremy Corbyn’s impressive performance in the 2017 UK
elections. What we are witnessing across these diverse phenomena is what could be
tentatively described as an ‘elective affinity’ between social media and populism:
social media has favoured populist against establishment movements by providing
the former a suitable channel to invoke the sup- port of ordinary people against the
latter. (GARBAUDO, 2018, p. 747).20
Concordamos com essa perspectiva, sobre as novas formas do populismo
presente na política mundial. Mas devemos destacar que é necessário
contextualizar o conceito de populismo em sua nova análise conceitual, como
o faz Laclau em seu livro A Razão Populista (2013), em que ele apresenta o
conceito de populismo com o detalhamento histórico do conceito, assim como
sua dimensão política aplicada à ordem de poder conservadora ou
revolucionária. Segundo Laclau, o populismo é um conceito “[...] que abrange
extensa variedade de dimensões, que vão desde seu caráter não revolucionário e suas
oposições a luta de classes até [...] seu caráter religioso. (LACLAU, 2013, p. 42). Mas
ao mesmo tempo, para Laclau existe uma dimensão relativa à forma como a
psicologia social tratou o tema do populismo, que evoca a psicologia das
multidões no contexto da psicologia de massa de forma patológica, o que para
Laclau é um equívoco. Pois, No entanto, já não mais se consideram tais fenômenos
como aberrações contingentes destinadas a desaparecer: eles se tornaram
características permanentes da sociedade moderna. [...] enquanto tal, [...] uma nova
tecnologia de poder. (LACLAU, 2013, p. 57).
E dentro desse contexto, entendemos o poder que a desinformação
promovida pelas fake news, e a manipulação e sujeição dos dados digitais das
mídias sociais que influenciam e manipulam a opinião pública, faz parte de
uma nova tecnologia de poder populista, que resulta no fenômeno da pós-
verdade. Pois são objetos de uma reflexão que demanda uma compreensão
crítica baseada em formação conceitual e reflexão teórica que se liga
fundamentalmente a esse processo populista, conservador e autoritário, do
fascismo contemporâneo, que encontra nas fake news um instrumento eletivo
de colonização da mentalidade do senso comum articulado em rede.
Na nossa análise, as fake news são um instrumento que atende a critérios
objetivos da manipulação, indução e sujeição da propagação falsa da opinião
pública. E com isso, seguimos uma orientação conceitual, que não define
apenas a simplificação das fake news como notícias falsas, mas como parte de
um processo bem mais complexo, estrutural e objetivo de criar mecanismo de
desinformação, sujeição e manipulação da opinião pública de forma
pluridirecional orientada por uma política da ideologia neoliberal de
sensibilização, orientação e controle massivo da opinião pública. Por outro
lado, acreditamos também no fato que dentro dessa crise de legitimidade da
formação da opinião pública, há um certo descrédito que tem sido provocado
pela mobilização dos conservadores, contra as mídias tradicionais, que não
corroboram com esse pensamento conservador e/ou ultraconservador. No
Brasil, por exemplo, emissoras de televisão, que sempre estiveram de uma
maneira ou de outra ligadas ao poder, e sempre apoiaram os governos desde o
período da ditadura militar brasileira, hoje enfrentam problemas com um
governo dessa nova direita ultraconservadora, como o do presidente Jair
Bolsonaro.
De uma maneira geral, a formação da opinião pública, anteriormente
formada majoritariamente pelas mídias tradicionais, vem sofrendo descrédito
no embate com os conservadores. E quantoa isso, Garbaudo (2018) ajuda-nos
a refletir sobre a crise dos mecanismos de divulgação de notícia da grande
mídia jornalística, que permitiu, em certa medida, que a difusão de notícias
fosse ocupado por uma série de novos atores, que independente de suas
legitimidades ou não, senso crítico ou não, e fonte confiáveis ou não, passaram
a produzir conteúdos informativos e desinformativos, que se prestaram a
influenciar a opinião pública por meio de mecanismos de redes
pluridirecionais e de forma eficiente. Eficiente sobretudo em períodos de
disputas eleitorais, nos quais esses canais informativos e desinformativos
ocupam grande espaço no cenário da produção de notícias e formação ou
sujeição da opinião pública.
The most notorious example is undoubtedly Breitbart, a news site well-known for its
incendiary opinion and news items. Breitbart has become a platform for the alt-right,
from which the hardcore of sup- port for Trump’s election campaign originated. Its
influence was demonstrated by the fact that, after the elections, its former executive
chairman Steve Bannon, was appointed as White House Chief Strategist. Breitbart has
been characteristic of much right-wing populist media, by spewing hatred against
women and Muslims, as well as flaming rhetoric against ‘globalism’ and ‘political
correctness’ (GARBAUDO, 2018, p. 750).21
De forma explícita, isso caracteriza o processo de mobilização dos afetos
presente no fenômeno da pós-verdade associado às fake news, e nos faz
entender que todo esse conjunto discursivo e retórico, que envolve a
mobilização dos afetos, na formação da opinião pública, envolve uma mística
processual bem estruturada dividida em várias características, como nos fala
Eugenio Bucci (2019) sobre as fake news.
A primeira característica é que o contexto de notícia falsa procura ter uma
estética narrativa de moldes jornalísticos, que serve de forma convincente para
se passar como verdade, no processo da desinformação ideológica. Segundo
essas notícias falsas provêm de fontes desconhecidas e não se sabe quais os
caminhos para chegarmos a essas fontes. Terceiro, têm uma autoria forjada e se
vale de recortes extraídos de texto reais que são usados de forma distorcida.
Quarto, as mensagens falsas lesam os direitos públicos, levando ao engano
sobre decisões que seriam diferentes caso se tivesse acesso à realidade dos
fatos. Quinto, as fake news dependem por completo de uma estrutura de
tecnologia em rede, que envolve sistematização de dados, inteligência artificial
e o uso de algoritmos que agem diretamente sobre os usuários das redes
sociais, orientando seus comportamentos e condutas. Sexto, o volume
utilizado de dados e informações é demasiadamente grande e cria uma
enxurrada de mensagens recebidas em dispositivos móveis, no cotidiano
desses usuários. E sétimo, essas notícias não são apenas falsas, mas também
fraudulentas e objetivam duas coisas: 1) influenciar o direcionamento do
comportamento imediato dos usuários e; 2) lucros milionários diretos a partir
desse comportamento direcionado e tomada de posições desses usuários. Esse
lucro beneficia diretamente empresas privadas e governos neoliberais
conservadores e ultraconservadores em todo o mundo.
Assim como tratamos as fake news de um ponto de vista conceitual,
procuramos fazer o mesmo com o conceito da pós-verdade. Com isso,
partimos do pressuposto de que a pós-verdade advém do processo de
reconfiguração ideológica que se instaura com o capitalismo no século XXI,
promovido pelo fenômeno da hiperdesinformação, que tem mascarado a
realidade social, política e econômica dos fatos por meio de mecanismos
alienantes que visam dificultar a racionalidade crítica dos sujeitos.
Entendemos o termo pós-verdade como um conceito circunstancial que
relaciona ou leva a denotar que os fatos ligados à realidade ou que estejam
vinculados a uma verdade provável, passam a ter menor relevância se
comparados aos valores subjetivos dos indivíduos, nos quais se situam suas
crenças, visões religiosas, valores simbólicos etc. que são incorporados à visão
de mundo desses indivíduos, como forma de alienação contemporânea. Com
isso, afirmamos que a pós-verdade atende a um processo autoconsciente de
colonização intersubjetiva, que encontra nas formas do pensamento
conservador e nas ideologias autoritárias um modo de operação mental dos
indivíduos que fazem com que seja diminuída a capacidade de questionamento
crítico, em favor das crenças pessoais, doutrinas e dogmas. O que
consideramos ser um paradoxo, ou seja, uma nova forma de alienação da
consciência sobre a realidade vivida cotidianamente de forma autoconsciente.
Assumimos com isso o posicionamento conceitual crítico, em relação ao
fenômeno da pós-verdade, considerando que os pressupostos no qual esse
fenômeno se funda é marcado por um irracionalismo coletivo autoconsciente
e em certa medida representam características antiepistemológicas,
anticientíficas, antiéticas e anti-históricas. A pós-verdade, na nossa análise, se
revela como farsa conveniente, que atende ao processo biopolítico e
psicopolítico de dominação desinformativa de poder, que muitos indivíduos
assumem como postura moral ou incorporam como visão de mundo no
cotidiano de suas vidas. Essa premissa nos leva a entender que há um
irracionalismo de conveniência fundado em afetos, que apostam no caos, no
processo que liga as fake news à pós-verdade.
Com a pós-verdade, a farsa discursiva da desinformação cotidiana atende
ao poder da psicopolítica (HAN, 2014) e da biopolítica (FOUCAULT, 2020), à
medida em que há uma determinada manipulação da circulação de mensagens
que são gerenciadas por meio de classificações de dados, extraídos de perfis
dos indivíduos/usuários a partir dos filtros bolhas22 na internet. Dados esses
que, de alguma forma, são disponibilizados para grupos e instituições que se
apropriam, de forma privada, dessas informações para promover disparos de
mensagens. Em particular, esses grupos, em alguma medida, ocupam espaços
públicos na esfera estatal ou estão associados a grupos de milícias digitais que
são algumas vezes financiados pela iniciativa privada.
Esse dispositivo biopolítico, representado, por exemplo, pela logística
algorítmica das grandes empresas de tecnologia, conforma a combinação de
dados com interesses do mercado e políticos, e, nesse sentido, a combinação se
configura como uma dominação estrutural de uma engenharia digital. No caso
mais particular da relação com o processo de disparo de fake news, a partir de
empresas e milícias digitais, que elaboram e estruturam programas que
capturam, por meio da manipulação algorítmica, perfis de usuários, com
interesses de manipulação e sujeição das percepções políticas deles.
E é dentro desse contexto que as fake news tentam se estruturar como
instrumentos de distorção da verdade, no processo de desinformação, que
subverte a realidade e promove alienação moral e emocional, fazendo com que
se diminua o esforço de conhecimento crítico sobre a verdade dos fatos. E,
com isso, o que passa a importar mais é o impacto emocional que a
desinformação da notícia produz, que a checagem que constate a sua
veracidade. O conceito de “verdade, assim, perde a primazia epistemológica nas
discussões públicas e passa a ser apenas um valor entre outros, relativo, negociável, ao
passo que as emoções, por outro lado, assumem renovada importância.” (D’ACONA,
2018, p. 10).
Remetendo essa questão epistemológica ao plano subjetivo dos afetos
individuais, não concordamos com argumentações que afirmam que os
usuários e internautas que corroboram e compartilham os fenômenos da pós-
verdade tenham algum déficit de cognição ou sofram de uma espécie de
“burrice coletiva”. Pelo contrário, tais indivíduos têm ou procuram ter
confiança afetiva e uma certa segurança emocional, nas notícias falsas de
forma deliberada. E isso se dá pelo fato de haver uma identificação política,
moral, religiosa ou de outra natureza, que atendam a ideais conservadores de
alguma forma. É válido ressaltar que muitos indivíduos/usuáriosgostariam
que determinadas fake news fossem de fato verdadeiras, pois muitas notícias
falsas os tocam do plano do desejo ideológico e reiteram valores e seus
sistemas de crenças.
O caos que, aparentemente, está por trás das desinformações da fake news,
atendem a uma nova ordem de ideologia falha no contexto neoliberal, 
que busca se estabelecer por meio de novos controles de dispositivos e
gerenciamentos biopolíticos, na sociedade em rede.
Como afirma Empoli (2009), existe uma ordem nesse caos,
Por trás do aparente absurdo das fake news e das teorias da conspiração, oculta-se
uma lógica bastante sólida. Do ponto de vista dos líderes populistas, as verdades
alternativas não são um simples instrumento de propaganda. Contrariamente às
informações verdadeiras, elas constituem um formidável vetor de coesão. Por vários
ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade,
escreveu o blogueiro da direita alternativa americana Mencius Moldbug. “Qualquer
um pode crer na verdade, enquanto acreditar no absurdo é uma real demonstração de
lealdade – e que possui um uniforme, e um exército.” (EMPOLI, 2019, p. 23).
É dentro dessa lógica que a pós-verdade funciona. A pós-verdade pode ser
vista como o paradoxo da negação sobre o real. Aí reside o processo de
reificação e o poder de alienação promovido pelo fenômeno da pós-verdade e
o dispositivo das fake news. A estética das aparências ajuda a promover uma
reificação da consciência histórica, valendo-me aqui das explicações presentes
no pensamento de Lukács (1969, 1978, 2003).
Assumindo essas perspectivas conceituais e críticas sobre as fake news e a
pós-verdade, procuramos refletir sobre questões fundadas em fatos reais, e,
para isso, procuramos amparo teóricos e conceituais para nos ajudar na
reflexão sobre acontecimentos que foram testemunhados ao longo da história
recente, tentando responder a questões relativas às novas formas de práticas
discursivas e a compreensão de novos dispositivos de poder e produção de
subjetividades e reificação da consciência coletiva nessa nova forma de
alienação social do neoliberalismo, a partir da produção massiva das notícias
falsas e desinformativas, ligadas a processos eleitorais e dispositivos de
governabilidade.
2
DISPOSITIVOS DE VIGILÂNCIA NA PSICOPOLÍTICA
DIGITAL: LINHAS DE CONTROLE, IDEOLOGIAS FALHAS
E DESINFORMAÇÃO
O conceito de dispositivo diz respeito a mecanismos de controle
institucionalizado que fazem parte da estrutura de dominação social, a partir
de regulamentações constituídas nos processos biopolíticos de estruturação do
poder institucional, originalmente com forte influência religiosa, mas que vai
se sofisticando política e juridicamente dentro do Estado laico, a partir do
século XVII, segundo Foucault (1979; 2020), Agamben (2005) e Han (2014).
Esses mecanismos se desdobram em formas de controle institucionais, que
são incorporados, subjetivamente, nos processos das relações institucionais
sobre a influência do poder do Estado. Sobretudo quando esse modelo de
Estado é fundado num modelo de estado de exceção (AGAMBEN, 2011), que
encontra no modelo liberal burguês fortes tendências conservadoras aliadas a
personalismos políticos e populismos autoritários.
Os mecanismos de controle dessa biopolítica conservadora e
ultraconservadora tem sido operada de forma brutal por líderes populistas de
última hora, a exemplo de governos como o Brasil e os EUA, nesses últimos
anos. A biopolítica, como um conceito que surge no final do século XVII,
dentro do modelo político liberal, solidificou-se como instituição de controle
mais efetivo nos séculos XIX e XX. E agora, no século XXI, a biopolítica
transformou-se num mecanismo de brutalidade ostensiva instituída pelo
estado neoliberal, administrada por governos ultraconservadores, que tentam
restaurar um populismo fascista, com forte influência da necropolítica
(MBEMBE, 2018) e do brutalismo do estado de exceção.
Giorgio Agamben (2005) ajuda-nos a entender o conceito de dispositivo
biopolítico e a fundamentação de poder que está presente nesse conceito. O
conceito de dispositivo, segundo Agamben (2005), tem origem no conceito de
coercibilidade, que advém da filosofia positivista, mais particularmente, da
religião positivista, associado à relação de controle nos princípios filosóficos
da religião cristã. Esse aspecto está ligado ao modo de coerção religioso que se
exprimia na relação entre a liberdade autoconsciente e os destinos dos homens
dentro do imaginário cristão. Segundo essa perspectiva, a liberdade é um
conceito que está diretamente relacionada à ordem divina, sobre a qual Deus é
o detentor do poder e das regras que definem essa liberdade.
Para Agamben, “[...] a religião positiva ou histórica compreende um conjunto das
crenças, das regras e dos ritos que em uma determinada sociedade e em um
determinado momento histórico, são impostos aos indivíduos, pelo exterior.”
(AGAMBEN, 2005, p. 10). Agamben continua sua reflexão ancorado numa
citação direta de Hyppolite23, em que se lê:
Uma ‘religião positiva’, escreve Hegel em uma passagem que Hyppolite cita, ‘implica em
sentimentos que vem impressos nas almas através de uma coerção e comportamentos que são
os resultados de uma relação de comando e de obediência e que são cumpridos sem um
interesse direto’ (AGAMBEN, 2005, p. 10).
Esse termo religioso se desdobra ainda no controle cristão que vai se
estabelecer na origem do cristianismo em que o governo de Deus está
associado ao controle da tríade “Pais, Filho e Espírito Santo” em que a
onipresença divina garante uma forma de controle sobre a mente, o corpo e a
propriedade, sendo essa última da ordem da propriedade material dos homens,
por meio das suas posses na sua casa. Aquilo que na Grécia antiga se conhecia
por oikos, de onde deriva o termo economia do lar, que na sociedade moderna
vai ser transformada em economia da vida privada.
Na lógica do governo das almas imposta pelo cristianismo, a casa e todo
seu patrimônio era controlado pelo dispositivo divino, que passava pela esfera
do estado. Deus governava pela presença do espírito santo e de seu filho cristo,
que estava presente na mentalidade e no imaginário do homem cristão. Isso é
um fenômeno do passado, que representa um modelo de poder e dominação,
instituídos a parir de um plano moral religioso, mas que ainda hoje se faz
presente nos nossos dias mediados por mídias digitais e sua aparelhagem de
dominação.
Segundo Han, (2014)
Todo dispositivo, toda técnica de dominación, genera objetos de devoción que se
introducen con el fin de someter. Materializan y esta- bilizan el dominio. “Devoto”
significa “sumiso”. El smartphone es un objeto digital de devoción, incluso un objeto de
devoción de lo digital en general. En cuanto aparato de subjetivación, funciona como el
rosario, que es también, en su manejabilidad, una especie de móvil. Ambos sirven
para examinarse y controlarse a sí mismo. La dominación aumenta su eficacia al
delegar a cada uno la vigilancia. El me gusta es el amén digital. Cuando hacemos clic
en el botón de me gusta nos sometemos a un entramado de dominación. El smartphone
no es solo un eficiente aparato de vigilancia, sino también un confesionario móvil.
Facebook es la iglesia, la sinagoga global (literalmente, la congregación) de lo digital.
(HAN, 2014, p. 26).
Hoje, somado a essa congregação digital, há uma convergência moral
religiosa, que incide sobre o imaginário político do neoliberalismo e do
conservadorismo, que apresentam novas formas de dominação em que o
discurso da ordem, o controle dos desejos e as linhas dos dispositivos fazem-se
também por meio dos mecanismos de desinformação coletiva, com a
propagação das ideologias falhas (STANLEY, 2015). Um exemplo desse
processo pode ser dado pela forma como o neoliberalismo fascista e seus
fenômenos, como as fake news e a pós-verdade, ancoram-se em valores morais
e religiosos de séculos passados, como linhas de mensagens de ideologias
propagadas nos dispositivos da mídias sociais, na vida cotidiana dos
indivíduo/usuários.As propagandas políticas ultraconservadoras veiculadas na
internet, fundadas em desinformações e propagações de mensagens
indesejadas, são dispositivos que visam criar um regime de verdade que
distorce, encobre, e visa dissuadir e criar ilusões irracionais sobre a realidade
social. Esses processos de desinformação discursivos são, em larga medida,
assimilados como verdade como parte de um imaginário falso, por grande
parte dos indivíduos, na esfera pública contemporânea.
Por ideologia falha, com base no conceito desenvolvido por Jason Stanley
(2015), interpretamos isso como um dispositivo de controle, que se funda
numa espécie de roteiro ideológico que determina ou coordena as expectativas
dos indivíduos, que, de forma autoconsciente, são guiados ou orientados por
formas de propagandas e informações públicas que dificultam ou impedem a
criação de um raciocínio ou conhecimento importante e crítico. Essas
ideologias encontram guarida sobretudo quando esses indivíduos
compartilham um sistema de crença próxima às mensagens das propagandas
dessas ideologias falhas.
De forma mais objetiva, Stanley afirma que as ideologias falhas são uma
categoria de ideologia que se transforma em barreiras que impedem a criação
de conhecimento24.
I am arguing that there is a specific subclass of ideologies that have additional
epistemological flaws, and so warrant being considered flawed. Perhaps all ideologies
have varying degrees of these additional flaws; if so, then all ideologies are at least
somewhat flawed. An ideology, in the sense I use, is simply a social “script” that
governs one’s expectations, normative and practical. We all have ideologies, in this
sense, and only some of them are flawed in the relevant sense. The ones that are
flawed in the relevant sense are the ideologies that are genuine barriers to the
acquisition of knowledge. Of course, considered simply as nonideological false
beliefs, the beliefs in question would also be barriers to the acquisition of knowledge.
But the reason flawed ideologies are so problematic is that they are ideologies that
include beliefs that are barriers to the acquisition of important knowledge.
(STANLEY, 2015, p. 200).
Um exemplo disso foi o papel exercido pelo poder da propaganda do
Nacional-Socialismo alemão, por meio do qual a propaganda nazista surtia
efeito de colonização da mentalidade dos simpatizantes, como mecanismo
biopolítico e psicopolítico de sugestionamento, manipulação e controle social.
Essa ideologia falha só tem sucesso mediante sua relação com o sistema de
crença dos indivíduos, que se associam de forma cognitiva a publicidades e
notícias publicadas sobre as quais se estabelecem identificações ou
proximidades de ideias.
Isso nos leva a pensar que a relação entre as fake news e a pós-verdade está
fortemente ligada a esse processo de ideologias falhas, como categoria de
dispositivo que se forja numa guerra de narrativas públicas, por meio das
mídias sociais, que cotidianamente testemunhamos na internet, sobretudo por
meio de pronunciamentos políticos de lideres de governos. Vemos com isso
que, nesse cotidiano digital, parte de um grande público de usuários tem um
forte desejo de legitimar discursos falsos e retóricas muitas vezes abjetas e
preconceituosas, a exemplo de pronunciamentos sexistas, machistas, racistas,
xenofóbicos etc., que são assimilados, por um determinado publico nas mídias
sociais, como conteúdo de ideologias falhas no processo de desinformação das
fake news.
A questão que destacamos, nessa forma de desejo discursivo sobre as falsas
narrativas das fake news e sua relação com a pós-verdade, é que ao contrário
das formas de saberes ilustrados, como as que foram historicamente
apresentadas pelas ciências ao longo da história, esse processo de
desinformação regride a um modelo de pensamento que não se funda em
nenhuma base de pensamento válido epistemologicamente, teoricamente e
metodologicamente, e são fenômenos que se associam ao dispositivo de
distorções discursivas e formulações de mentiras narrativas, fortemente
influenciadas por discursos fascistas, por meio das mídias sociais. E com isso
vemos que o fenômeno da pós-verdade recorre ao modo dispositivo dessas
ideologias falhas, fundadas em mitos, ilusões e fantasias, estruturadas em
esquemas irracionais convenientes, como modo de crença, persuasão e
sugestão dos indivíduos.
A ideologia falha é, de fato, muito eficaz em indivíduos que compartilham
um sistema de crença e valores morais, mais arraigados em valores
conservadores ou que se fundamentem em linhas de pensamentos moralistas
de forma mais evidente. Nesse sentido, esse caráter de análise entre ideologia
falha e personalidade aproxima-se das reflexões de Adorno (1950), sobre o que
o autor chamou de formação da personalidade autoritária. Com isso, a
ideologia falha e o pensamento autoritário forjam um processo perigoso de
reprodução social.
Considera esses elementos de análise entre propaganda, conhecimento,
personalidade, sistema se crenças e conservadorismo como elementos que se
instrumentalizam como mecanismo da biopolítica. Esses elementos ficam
ainda mais fortes e perigosos quando associados às questões religiosas e
crenças que fundamentam a fé dos indivíduos, pois isso faz com que o
imaginário compartilhado por eles se transforme num campo simbólico de
direcionamento do comportamento reificado por uma visão de mudo
obliterada de forma autoconsciente. Na qual o real é um mero desejo de
realidade, uma fantasia sobre a qual o conhecimento e o senso crítico ficam
impedidos de existir, pelas barreiras simbólicas da pós-verdade e suas
vinculações com afetos e valores morais e ideológicos compartilhado de forma
intersubjetiva.
Fazendo uma pequena incursão sobre a relação da religião, dentro de um
plano moral doutrinário, o sistema de crenças como dispositivo de orientação
e conduta social, podemos aventar um compreensão entre o dispositivo da
biopolítica do ultraconservadorismo de governos antidemocráticos e as
condutas orientadas pelas ideologias falhas do binômio pós-verdade e fake
news, relativos as crenças, sobretudo as religiosas, que se fundamentam na fé
cristã, em particular doutrinas de cunho neopentecostal, que orientam
tomadas de decisão políticas no governo Bolsonaro.
Valendo-nos de uma interpretação crítica sobre a compreensão sociológica
da religião, sob o ponto de vista do positivismo conservador e coercitivo da
sociologia durkheimiana, diríamos que a crença e a fé são fenômenos válidos
de compreensão da forma de organização do comportamento social dos
indivíduos, que compartilham um campo simbólico (BOURDIEU, 1989), nos
quais os fatos sociais são sociologicamente explicados em termo de expectativa
de comportamento, dentro de um plano de representações coletivas que
determinam condutas.
Nesse sentido, vemos de forma crítica, embora entendamos que
explicações positivistas, como as durkheimianas, afirmam que a religião é
instrumento que se expressa como mecanismo simbólico de coercibilidade
moral e jurídica, que são determinantes nas expectativas dos fatos sociais
(DURKHEIM, 1981). Ao mesmo tempo, segundo Bourdieu (1989), esse
mecanismo de coerção moral está ligado a uma estrutura estruturante, que
incide sobre a estrutura subjetiva dos indivíduos e ao mesmo tempo se
constitui como instrumento de poder simbólico. No caso as instituições
religiosas propriamente ditas, que se relacionam de forma muito próxima com
o campo político, na qual a intercessão desses campos determina, algumas
vezes, o comportamento e a orientação discursiva, de conduta e fé dos
indivíduos, num cenário social e político mais ampliado, como o cenário do
mundo da vida do cotidiano dos indivíduos. Vemos, com isso, um claro
exemplo de funcionamento biopolítico, ao modo do funcionamento dos
mecanismos de controle social das condutas e comportamentos ancorados no
biopoder, (FOUCAULT, 1979, 2020).
Mas voltando à crítica das interpretações positivistas, vimos que Durkheim
(2001), em seu trabalho clássico da sociologia da religião,de imaginação política e de compreensão das experiências do século XX e das
demandas do século XXI. Neste ínterim, segue o mundo concreto desabando
na cabeça de milhões de pessoas que não sonhavam e não imaginavam mais
qualquer outro tipo de futuro. Eis o cenário em que grassa o chorume
analisado neste trabalho.
Sérgio compreendeu o caráter multivariado das patologias do nosso
tempo. Armou-se com as armas de uma teoria crítica renovada que não
renuncia à tradição do materialismo multidisciplinar. Desejo e necessidade são
olhados com lupa em suas contradições, complementariedades e dinâmicas.
Teoria social, psicanálise, sociologia e epistemologia são ferramentas
habilmente combinadas. Como se não bastasse ainda há Habermas, Foucault,
Adorno, Elias, dentre outros, que são mobilizados criativamente em novas
sínteses arriscadas e que, por vezes, podem fazer com que ortodoxos de
diferentes matizes sintam certo desconforto. Mas, pouco importa. O objeto em
sua complexidade coloca-se em posição de prioridade analítica e as ousadias
teóricas justificam-se mais do que qualquer outra coisa. Importa é
compreender em minúcias o inferno semiótico em que estamos.
O livro de Sergio é crítico e reflexivo. E nos fornece um quadro
interpretativo poderoso para compreendermos como a opinião pública
tornou-se o ringue de vale tudo que conhecemos. E há, também, em meio aos
meandros argumentativos e analíticos que explicam o fascismo nosso de cada
dia, espaço para uma esperança rebelde e sutilmente subversiva. A utopia de
Sérgio envolve a aposta em uma terapêutica do diálogo como cura para a
barbárie. Uma atuação voltada interativamente para o entendimento, um uso
da razão em uma plenitude expressiva muito além do embotamento
coisificado fornecido pela sociedade dos cliques de curtir/descurtir. A utopia
de Sergio é pulsão de vida. É interesse bem compreendido embebido do que há
de melhor na tradição iluminista com a qual Sérgio se agarra angustiado.
Por fim, tal como o título denuncia, temos sim um Irracionalismo de
conveniência cinicamente mobilizado como resposta aos afetos, 
frustrações e desalentos do horizonte árido dado pelo realismo capitalista.
Mas, o trabalho do Sergio apresenta, na verdade, todas as inconveniências deste
irracionalismo. O preço a ser pago pelo uso de tal playbook pode ser alto
demais, insuportável, eu diria. A questão é que temos tempo ainda de
evitarmos um ponto de não retorno. E este livro dá, nas brechas, algumas
possibilidades enquanto nos explica o funcionamento da hidra.
Prof. Dr. George Gomes Coutinho
Professor adjunto de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense – UFF
Referências
FISHER, Mark. Capitalist Realism: is there no alternative? London: Zero Books, 2009.
BERMAN, Marshall. Tudo que é solido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
HOLLERAN, Max. Marshal Berman’s freestyle Marxism. New Republic, New York City, New Republic, n.
14, April 2017.
SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio
de Janeiro: Record, 1999.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 15
1
FAKE NEWS E PÓS-VERDADE: UMA INTRODUÇÃO CRÍTICA AO IRRACIONALISMO DE
CONVENIÊNCIA DO FASCISMO 
CONTEMPORÂNEO NEOLIBERAL 25
2
DISPOSITIVOS DE VIGILÂNCIA NA PSICOPOLÍTICA DIGITAL: LINHAS DE CONTROLE,
IDEOLOGIAS FALHAS E DESINFORMAÇÃO 69
3
FOUCAULT E O GOVERNO DA SUBJETIVIDADE DOS AFETOS COLETIVOS: SOBRE A
VULNERABILIDADE DIGITAL DOS 
INDIVÍDUOS/USUÁRIOS 101
4
ADORNO E A CRÍTICA AO PENSAMENTO MÍTICO: SOBRE A 
NECESSIDADE DE ESCLARECIMENTO NA PÓS-VERDADE 129
5
HABERMAS E NORBERT ELIAS: A SOCIOGÊNESE DA 
AUTOCONSCIÊNCIA E AS IMPOSSIBILIDADES COMUNICATIVAS 
NO IRRACIONALISMO DA PÓS-VERDADE 157
6
O COTIDIANO DIGITAL NA CONFLUÊNCIA DO NEGACIONISMO COM O
IRRACIONALISMO DE CONVENIÊNCIA: DA TERRA PLANA AO BREXIT 175
7
PERVERSÃO NÃO É LOUCURA, É MALDADE MESMO! O CENÁRIO DA VIOLÊNCIA DIGITAL
E DO ÓDIO COMO RETÓRICA NO BRASIL 193
CONSIDERAÇÕES FINAIS 217
REFERÊNCIAS 225
INTRODUÇÃO
A elaboração de um livro é sempre uma tarefa que requer muito cuidado e
atenção, principalmente quando mediado por um processo de concentração e
diálogo com pessoas afins que podem ajudar-nos nesse trabalho. Mas nem
sempre estamos com condições de concentração para desenvolver esse
trabalho, sobretudo quando estamos vivendo um momento pandêmico e de
grande conturbação social, como tem sido esses últimos anos com a ascensão
de um ethos político e comportamental ultraconservador, somado a uma
pandemia do Covid-19 e suas variações letais, no Brasil e no mundo.
Nesses momentos de crise, testemunhamos um estado de violência brutal
por meio das mídias sociais, que nos fez testemunhar violências físicas,
psicológicas e políticas na esfera pública de uma maneira generalizada. Os
espaços públicos das ruas, durante esse período, se mostraram como cenário
de guerra de narrativas emocionadas de grupos e indivíduos, que motivados
por interesses determinados, agrediam-se, entre si, em nome de valores
moralistas, nacionalistas e ideológicos, que estiveram ligados de uma forma ou
de outra aos afetos políticos. As violências nem sempre proferidas por atos de
fala ofensivos ou retóricas de ódio. As falas emocionadas muitas vezes se
transformaram em agressões físicas gratuitas, entre pessoas e grupos sociais
distintos, dentro desse cenário social de crise generalizada.
Diante de tal contexto, encontrar concentração para a realização de um
trabalho intelectual foi uma tarefa árdua, sob pena de nos perdemos em
pensamentos e afetos vividos por nós, que poderiam desorientar nosso labor.
Com isso nos forçamos a focalizar nossas leituras, observações, diálogos e
elaborações textuais, com objetivos específicos que resultaram na criação deste
livro. Gostaríamos de deixar claro com isso que foram dentro dessas condições
sociais, testemunhadas por nossos olhos e ouvidos, que mergulhamos de
cabeça nessa pesquisa para fundamentarmos a escrita deste trabalho. Não foi
uma tarefa fácil, mas foi uma tarefa necessária.
Desenvolver a pesquisa que resultou neste livro foi um trabalho de grande
esforço durante todo o ano de 2020 e início de 2021. Essa publicação é
resultado de um projeto de pós-doutorado desenvolvido na Universidade
Federal da Bahia (UFBA), universidade a qual agradeço muitíssimo o
acolhimento institucional e afetivo de todos.
Nesse sentido, registro o meu agradecimento mais que especial ao
professor Roberto Sidnei Alves de Macedo, supervisor do nosso trabalho e
responsável pelo nosso acolhimento afetivo no grupo FORMACCE, do qual
ele é coordenador, e na FACED, onde ele ocupou o cargo de diretor, no exato
momento em que assumiu a supervisão de nossa pesquisa. A generosidade
crítica do Roberto Sidnei é tamanho família. Devo dizer ainda, em parênteses
mais que especial, que no FORMACCE pude conhecer, de forma generalizada,
pessoas maravilhosas que se abriram voluntariamente ao diálogo comigo e
acolheram nosso projeto de pesquisa de forma inclusiva. Lá pude encontrar
parceiros de pesquisa e fazer novos amigos, que nos ajudaram na crítica e no
compartilhamento de ideias, assim como em debates e conversas produtivas
que estão presentes neste trabalho.
A realização desta pesquisa no âmbito do Programa de Pós-graduação em
Educação, PPGE/FACED/UFBA, então coordenado pela professora Cecilia de
Paula, a quem agradeço pelas orientações institucionais, foi algo muito especial
para mim, pois pude participar de um processo interdisciplinar e solidário de
partilha de conhecimentos. Destaco ainda que no seio da FACED pude
experimentar uma sociabilidade realmente acolhedora, diante de um contexto
tão difícil como o que vivemos durante todo o ano de 2020 com a pandemia e
a perversão política na sociedade brasileira, que relatamos no início dessa
instrução. Sem dúvida, sem a ajuda de todas essas pessoas especiais que
conheci na UFBA, seguramente não teria conseguido desenvolver a escrita
deste livro.
O diálogo que ajudou esta escrita se ampliou e transcendeu o âmbito da
UFBA, atravessou o atlântico e encontroupublicado sob o
título As formas elementares da vida religiosa, discute a questão da fé no desejo
coletivo de Deus, que é fundamental para a formação do sistema de crenças e
seu poder sobre os homens, como um modo de representação coletiva, como
ele apresenta em seu livro Sociologia e Filosofia (DURKHEIM, 1970).
Para Durkheim, esse modelo de análise incide numa forma de explicação
da ordem moral de Deus, como um campo de representação compartilhado de
forma generalizada pelos indivíduos. O que constitui as formas e manutenção
da ordem social moral e que incide na ordem social, por meio de normas de
conduta e formas de solidariedade mecânica/orgânica no tecido social. Nesse
caso específico, o positivismo da sociologia de Durkheim já explicitava o poder
coletivo e coercivo das religiões presentes nas formas elementares de
organização dos tipos de solidariedade mecânica compartilhada
coletivamente. Essas solidariedades representam o modo como um dispositivo
de crença e de controle de regulação da vida social determina, em certa
medida, uma expectativa de comportamento esperado dentro de um quadro de
divisão social que, segundo Durkheim, incidia tanto na manutenção da ordem
e o equilíbrio sociais como nos julgamentos de valor e de realidade por parte
dos indivíduos modernos, segundo sua interpretação sociológica
(DURKHEIM, 1981).
Para Durkheim (2001), a religião e sua relação com a idealização de Deus se
sobressaem como um poder mágico, imaterial e que se impõe de forma
omnipresente, omnisciente e omnipotente como um fenômeno de assimilação
da fé dos indivíduos e o julgamento que esses fazem do seu modo de vida
moral religioso e comportamental. Ao mesmo tempo essa forma de fé, fundada
numa moral divina, proporcionava aos indivíduos um certo raciocínio
simbólico partilhado coletivamente numa dada comunidade, que
compartilhava um único Deus. Diferentemente do pensamento mítico da
antiguidade, em que havia vários Deuses e Deusas, a religiosidade cristã admite
apenas um Deus, sobre o qual o dispositivo do fato social religioso constitui-se
totalmente ligado ao fato moral e ao poder de interdição que esse Deus exerce
sobre os indivíduos nos contextos institucionais regulados pelo Estado.
O fato moral exerce sobre o corpo social, leia-se corpos dos indivíduos,
seus gêneros e suas sexualidades, uma pressão e uma opressão simbólica, geral
e coerciva, que é coletivamente partilhada por todos, indistintamente. Uma
espécie de coerção opressiva, simbólica e autoconsciente, que reproduz um
poder dominante e imaginário compartilhado. As crenças e o temor no poder
da espiritualidade divina são com isso fenômenos relativos a um poder de
ordem superior, que não está na terra e sim na intersubjetividade partilhada,
muitas vezes de forma moral, quer acreditemos nessa ideia de Deus ou não.
Segundo a interpretação de Durkheim (2001), para os indivíduos, a partir
de uma determinação do fato religioso, Deus existe porque se acredita na sua
existência como um ser espiritual que tem poder sobre tudo e todos e
determina um poder de consciência sobre tudo o que se passa no mundo e na
mente dos seus fiéis. Ao mesmo tempo, esse Deus está em todos os lugares de
forma omnisciente, omnipresente e omnipotente no mundo dos homens e fora
desse.
O fato social religioso constitui-se num dispositivo de poder e controle em
que se destaca o imperativo categórico da fé, numa dimensão metafisica que
está representada no poder simbólico que é incorporado pelos indivíduos.
Com isso, o poder da fé explica-se sociologicamente no simples fato de os
indivíduos crerem em si mesmos à medida que acreditam e temem o seu
próprio Deus. Pois dependem desse Deus de forma submissa, obediente e
temerosa. Isso forja um imaginário religioso compartilhado de crença, dentro
de uma lógica cristã ocidental, que numa perspectiva metafisica de
interpretação, Deus é uma espécie de imperativo categórico que antecede o
homem a partir de uma ordem moral religiosa.
Por esse motivo, a relação de Deus com o Estado, na história, sempre se
fundiu numa mesma ordem de valor determinado. Inclusive é dessa fusão que
deriva o termo “estado fundamentalista”. Assim, Deus se torna um dispositivo
de representação coletiva, em que as sociedades partilham cada uma a sua
maneira essa ordem, como mecanismo de controle, obediência e coerção
sociais. Isso nos faz entender que o princípio religioso institucionalizado nos
indivíduos se constitui num fato de absorção subjetiva que justifica o poder da
fé, numa espécie de fato moral compartilhado em nome da obediência do
indivíduo crente no seu Deus. Quando o estado cria políticas públicas forjadas
por valores religiosos, o imperativo categórico do poder divino, por meio do
livro sagrado, como uma Bíblia, tem um poder imperioso sobre os fiéis, pois,
para o crente, ou seja, o fiel a Deus, a lei divina impera sobre a lei dos homens
de forma coerciva.
Durkheim (1981) desenvolve um modelo de análise coercivo da vida social
que se dispõe em pautar os fatos morais como determinantes dos fatos sociais
e consequentemente dos fatos jurídicos. Os quais estabelecem indicativos de
maior ou menor controle sobre a ordem e a estabilidade da sociedade. Esse
modelo de teoria incide sobre a necessidade de interpretações que justifiquem
a preponderância progressiva de uma solidariedade orgânica, contra o estado
de anomia (DURKHEIM, 1981). Para Durkheim, a sociedade só pode existir
fundada no controle coletivo de coerção institucional e só assim seria
igualmente possível estabelecer uma divisão social do trabalho orgânico que
possibilitaria uma estrutura estável de vida social. Para esse tipo de
pensamento, os fatos sociais e o conjunto grupal dos indivíduos são coisas
observáveis, como objeto de reflexão sociológica sobre os quais é possível
realizar explicações que funcionam como dispositivos de conhecimento de
explicações coletivas, morais e religiosas.
Saindo um pouco do plano das explicações teóricas e adentrando numa
questão vivida na experiência histórica recente da esfera política do Brasil, não
foi por acaso, que a exemplos de deputados federais, estaduais e vereadores,
enfim, membro do poder legislativo municipal, estadual e federal, na sociedade
brasileira tem levado a bíblia para fazerem seus discursos no púlpito das
tribunas políticas do poder legislativo. Muitos políticos, com a bíblia na mão
direita, juram fazer política em nome de Deus. Esse fenômeno político se
revelou no ano de 2016, como um dispositivo discursivo durante o golpe que
depôs a Presidenta do Brasil Dilma Rousseff, durante a votação do
impeachment, no Congresso nacional brasileiro.
Nesse episódio político da sociedade brasileira, viu-se deputados da
bancada evangélica e militar, além de outras bancadas conservadoras,
afirmando que estariam votando em nome, sobretudo, de “Deus”, pelo
afastamento da Presidenta da república. Considero esse episódio uma clara
demonstração do exercício do dispositivo biopolítico e psicopolítico
(FOUCAULT, 2020; AGAMBEN, 2005; HAN, 2014) que impediu qualquer
outra forma de conhecimento crítico e técnico sobre o processo ético do
impeachment, em questão. Toda a sociedade brasileira que assistiu pela televisão
e internet a votação do Impeachment testemunhou uma propaganda moral em
forma de discurso político com tons religiosos, sendo proferido como discurso
político, que levou às ruas, às janelas dos prédios e às mídias sociais de forma
generalizada, milhões de brasileiros vestidos de verde e amarelo, exibindo
bandeiras do Brasil e camisas da seleção brasileira na noite da votação do
referido impeachment. Esse efeito pode ser um testemunho exemplar do
funcionamento do dispositivo do biopoder e da psicopolítica, que agiu em
nome de valores dos afetos políticos e das ideologias ultraconservadoras que
viriam a assolar o país a partir daquele momento. Com base nesse efeito,
testemunhado em 2016, vimos emergir com força brutal os discursos de um
ultraconservadorismo que viria se espraiar pelo imaginário do povo brasileiro,
ajudando a legitimare eleger políticos ultraconservadores da nova direita,
sobretudo da bancada evangélica e militar a qual estaria ligado o então
deputado Jair Bolsonaro, que viria se tornar presidente eleito em 2018.
Fazendo um paralelo entre este processo de crise instaurado no país e as
relações de poder e reestruturação do Estado e seu vínculo religioso, gostaria
de voltar sobre o conceito de dispositivo iniciado por Agamben (2005). Com
isso, destacamos que a religião, por meio da sua vinculação com o estado de
direito, é fenômeno que fortalece sobremaneira o poder dos dispositivos
biopolíticos dos governos conservadores diante de uma crise institucional da
política, a partir da qual tenta se justificar o poder militar como mecanismo de
força institucional que dispõe a opressão como dispositivo de ordem.
Refletindo de forma mais crítica, entendemos que o termo dispositivo tem
uma tríade de definição, uma jurídica, uma técnica ou tecnológica e uma
militar, que segundo Agamben (2005) se torna eficiente no controle e
manutenção do poder instituído. Sobre isso ele afirma que as definições do
conceito de dispositivo apresentam três significados, que derivam primeiro de
uma origem relativa à lei “le dispositif”, ou seja, o dispositivo legal, que está
relativo à parte de um processo no qual o julgamento é concluído, com base
numa forma de sentença ou parte de uma sentença ou lei que decide e dispõe a
própria sentença. A segunda derivação está relacionada ao caráter tecnológico
do conceito de dispositivo, que é a parte de um mecanismo de funcionamento
de uma máquina, e que sem o tal mecanismo não há funcionamento mecânico.
E por fim o conceito de dispositivo tem uma acepção militar, em que o termo
dispositivo é relativo a meios e mecanismos disponíveis que estão em
conformidade ou fazem parte de um plano estratégico e tático de ação dentro
de uma guerra, ou num plano ideologicamente justificado de segurança
nacional.
Para Agamben,
Todos os três significados estão, de algum modo, presentes no uso foucaultiano. [...].
Certamente o termo no uso comum, como no foucaultiano, parece se referir à
disposição de uma série de práticas e de mecanismos (ao mesmo tempo linguístico 
e não linguísticos, jurídicos, técnicos e militares) com o objetivo de fazer frente a uma
urgência e de obter um efeito. (AGAMBEN, 2005, p. 11).
Ainda segundo Agamben, a modernidade do conceito de dispositivo está
associada ao caráter de gerenciamento, administração e governabilidade dos
homens, numa perspectiva de administração pública e privada e nos dois
aspectos, a presença do dispositivo divino, no caso do imaginário cristão
ocidental, a exemplo do que afirmamos anteriormente, impera como poder
moral omnipresente, omnisciente e omnipotente, sobre os homens comuns, e
sobre os quais recaiam os dispositivos imperativos da lei. Os homens, dentro
do imaginário cristão, são tementes ao poder de Deus e do estado moderno
com base no seu dispositivo biopolítico.
Nesse sentido, o dispositivo como modus operandi de saber e poder nas
formas de governabilidade dos homens estabelece controles estratégicos sobre
o conhecimento e o imaginário sociocultural nas diversas áreas da vida social.
Agamben resume em três pontos esses aspectos relativos ao conceito de
dispositivo, que para ele são:
1) É um conjunto heterogêneo, que inclui virtualmente qualquer coisa, linguístico e
não linguístico no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de
segurança, proposições filosóficas etc. O dispositivo em si mesmo é a rede que se
estabelece entre esses elementos; 2) O dispositivo tem sempre uma função estratégica
concreta e se escreve sempre em uma relação de poder; 3)
É algo geral (une reseau, uma “rede”) porque inclui em sim uma episteme, que para
Foucault é aquilo que em uma certa sociedade permite distinguir o que é aceito como
um enunciado científico daquilo que não é científico. (AGAMBEN, 2005, p. 9-10).
O termo dispositivo parece figurar filosoficamente como um termo
metafísico sobre as formas críticas de se interpretar o poder instituído nos
modos de controle das organizações sociais. Por esse motivo, observamos tão
pouco senso crítico em teorias sociais, como a de Durkheim que refletimos
acima, que se fundamentam muito mais em aplicar o modelo de dispositivo,
indiretamente nas suas fundamentações interpretativas, que criticá-lo como
elementos de classificação e dominação social.
Seguindo essa linha de raciocínio filosófico e sociológico, os herdeiros
desse tipo de pensamento, como os neopositivistas, como Karl Popper, e todos
os filósofos do ciclo de Viena, esforçaram-se para aperfeiçoar empiricamente
esse raciocínio sociológico. Durante os anos 20 e 30, o neopositivistas da
universidade de Viena advogaram explicações generalizadas fundadas em
empirismos e controle sobre dados e fatos, fundados em explicações de caráter
lógico e sistematizado, e sobre os quais deveriam ser feitas as explicações
científicas do campo da sociologia.
Para esses pensadores do chamado ciclo de Viena, o empirismo assim
como o modelo de fundamento lógico do saber ordenado, era a base da
construção epistemológica do saber científico e filosófico, contra o mito dos
conhecimentos subjetivo e ideológico. Que eles julgavam ser próprios das
correntes metafisicas e do marxismo historicista. O ciclo de Viena não
acreditava na experiência histórica como fonte de saber fundante da própria
ordem social, sobre a qual se fundamentava a ordem da sociedade.
Adorno debateu com esses pensadores da Universidade de Viena e
explicitou suas críticas fundadas em um argumento reflexivo, no qual era
preciso considerar o processo crítico da razão na construção do saber, sem a
qual o esclarecimento de fato não se faria presente, e explicitou ainda o valor
da importância da metafísica nesse processo de conhecimento. Ainda segundo
Adorno (2009) em relação as suas críticas ao Ciclo de Viena, a lógica e o
pensamento sistemático e empírico, fundados no raciocínio matemático,
ajudam, mas não é suficiente para fundamentar uma nova epistemologia
científica.
A escola de Chicago é um outro exemplo do papel do conhecimento
empírico de cientistas sociais aplicados, a compreensão e intervenção dos
fenômenos sociais dentro de uma lógica alinhada com políticas públicas do
estado, nos anos 20 e início dos anos 30. É fato que os pensadores da escola de
Chicago tinham uma perspectiva funcionalista, mas aqui não os identifico
como ideólogos conservadores de Estado. Destaco apenas que o tipo de
conhecimento que se produzia, no círculo da escola de Chicago, sobretudo os
estudos ligados ao aumento da violência e criminalidade nos EUA, tinham um
caráter instrumental e funcionalista, que serviram como dispositivo de
conhecimento alinhados à perspectiva de político do Estado nos EUA, entre os
anos de 1921 e 1933. Período inclusive de governança conservadora no país,
com forte domínio dos políticos republicanos.
Destaco aqui que durante os anos de 1921 a 1933 houve uma sequência de
presidentes conservadores e ultraconservadores do partido republicano, que se
substituíram, eleição por eleição, durante doze anos consecutivos, como, por
exemplo, Warren G. Harding, que foi presidente do período de março de 1921
a agosto de 1923; Calvin Coolindge, que foi presidente do período de agosto
de 1923 a março de 1929 e Herbert Hover, que foi presidente do período de
março de 1929 a marco de 1933. Todas essas figuras políticas presidenciais
foram orientadas por políticas conservadoras, intervencionistas e partidárias
de políticas segregacionistas e racistas. Assim como todos esses líderes tiveram
maioria no congresso e implementaram políticas conservadoras de cunho
moral, como a lei seca, que proibiu, de forma violenta, a produção, circulação,
venda e consumo de bebidas alcoólicas, no território nacional americano. Com
estipulada pela 18ª Emenda da constituição dos Estado Unidos, que vigorou
entre os anos de 1920 e 1933. A 18ª emenda norte-americana foi a aplicação
de um dispositivo de lei, claramente estabelecidopor influências religiosas e
moralistas, que reverberou pelo imaginário conservador de boa parte da
sociedade norte americana. Incidindo inclusive no aumento da violência no
país.
Os anos 30 foram uma época em que, segundo Stanley (2020) o imaginário
americano flertava com o imaginário fascista, e muitos políticos conservadores
do país simpatizavam com o que viam surgir na Alemanha. Mas 1933 foi o ano
em que terminou a hegemonia republicana, em que os conservadores foram
substituídos pelo democrata Franklin D. Roosevelt, que revogou o dispositivo
legal da lei seca e governou os EUA de março de 1933 a abril de 1945, ano em
que a história testemunhou o fim da segunda guerra mundial e da hegemonia
fascista.
Voltando à questão crítica do conceito de dispositivo, Agamben (2005) nos
fala sobre a influência do conhecimento de caráter institucional acadêmico,
aplicado a políticas de estado e controle sociais, que interviram diretamente na
sociedade e criaram dispositivos de conhecimento técnico. A implementação
de conhecimento da área das ciências sociais aplicadas, por exemplo, no campo
de estudo da violência urbana, atenderam, e ainda hoje atendem, a criação de
políticas sociais de controle e intervenção social, sobre demandas da
sociedade, sobretudo em momentos de crise social, como foi o período entre
1920 a 1933, no início do século XX, em que se viu um grande aumento da
violência, da dependência química e do alcoolismo da sociedade norte-
americana, sobretudo no anos de 1929, ano do crash da bolsa dos EUA. Hoje,
isso parece se repetir, vide o exemplo da crise econômica mundial de 2008, que
apontamos no início desse livro, e o resultado de crises consequentes que
ocorreram nessa segunda década do século XXI, no mundo, em que
testemunhamos uma crise estrutural profunda e ampla do ponto de vista
social, político e econômico, vemos ressurgir uma onda de ideologias
ultraconservadoras que envolve uma densidade populacional que adere a esse
imaginário ideológico do fascismo, de forma muito forte.
Em grandes períodos de crise sociais, as instituições promotoras de
conhecimento, sobretudo o acadêmico/técnico, são campos de experiência de
saberes de políticas de estado, sobretudo quando falamos de estado de exceção
(AGAMBEM, 2011), em que o poder de controle sobre a liberdade de
expressão alimenta políticas de governos autoritários e ditatoriais. Operação
institucionais de cunho científico, religioso, artístico e cultural muitas vezes se
confundem numa lógica de operação ideológica de ordem social, forjada por
dispositivos de controle e intervenção política, e nos mostram que esse
conhecimento se transforma em instrumentos de controle coercitivo contra a
própria sociedade (AGAMBEN, 2005; 2011).
O estado de exceção e o autoritarismo de governo, dentro da democracia,
são práticas idealizadas de forma bastante objetiva, que permitem que
ideólogos políticos reforcem o uso da publicidade e da propaganda como
dispositivos de propagação do medo e da insegurança coletivos. As políticas do
medo e dos afetos são parte de um programa de governo autoritário. Por
exemplo, isso ocorreu durante a gestação das ideias do nazismo, em particular
quando Hitler escreveu o livro Mein Kampf (Minha Luta – livro que o autor
escreveu durante o seu período de encarceramento, depois de ter sido preso e
julgado por participar de tentativa de golpe na Alemanha). Esse livro se
transformou em manual para muitos ideólogos, que ajudaram a estruturar o
nazismo como forma de governo consolidado no ódio e na propaganda do
medo.
Aos modos de Hitler, ideólogos e marqueteiros da política
ultraconservadora dos dias atuais, a exemplo de Steve Bannon, usaram da
retórica do ódio e do ressentimento para espalhar medo e criar argumentos de
afetos políticos, que sustentaram o marketing da campanha vitoriosa à
presidência da república de Donald Trump. Steve Bannon, ao seu modo
fascista, usou frases como: “Fomos eleitos com base no ‘Darin the Swamp’ Lock Her
Up, Build a Wall”, (Drenem o Pântano, tranque-a, construa um muro)”. (STANLEY,
2020, p. 65).
O livro Mein Kampf é mais que um simples livro. É um roteiro de um
programa político apresentado em forma de manifesto. Foi escrito com uma
linguagem simples e objetiva, que tocou diretamente os afetos do povo alemão,
que ainda sofria dos efeitos da primeira guerra mundial, e compartilhavam um
imaginário de crise. As ideologias falhas, presentes na forma de mensagens
propagadas do livro de Hitler, ajudavam a acionar o dispositivo psicopolítco
dos afetos de parte de uma sociedade que compartilhava valores muito
próximos àquelas ideias.
Para Umberto Eco (1998), o livro Mein Kampf, de forma clara e precisa,
procurou demonstrar que: “O nazismo tinha uma teoria do racismo e do
arianismo, uma noção precisa da entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia
da vontade de potência e da Übermensch. (ECO, 1998, p. 17). A história mostrou
que o conteúdo discursivo desse livro fascista foi transformado em programa
de governança do Terceiro Reich no período entre 1933 e 1945. Nesse
contexto histórico e ideológico, o conhecimento de toda natureza, científico,
filosófico, teológico, assim como o conhecimento artístico, serviram ao
propósito político e militar do programa de estado nazista que derivou dessas
ideias originadas no livro Mein Kampf. E todo esse programa de barbárie só
pôde ser implementado de forma eficiente com o uso dos dispositivos das
propagandas que tecnicamente foram eficientes como mecanismos de
persuasão e manipulação autoconsciente do povo alemão (ADORNO, 2011).
Corroborando com essa premissa, sobre o poder da propaganda nazista, na
sua eficácia de alienação persuasão, artística-cultural e política, do povo
alemão, Tada e Gracino (2018) afirmam que:
A persuasão utilizada nas propagandas nazistas afetou a população de maneira com
que apoiassem praticamente todas as decisões tomadas pelo governo nesse contexto.
[...] Uma vez que o regime autoritário imposto pelo governo nessa época precisava de
extremo poder de manipulação de massas para manter o controle social, entende-se
que a propaganda foi a principal ferramenta usada – e desenvolvida – pelo nazismo
para o processo de alienação da sociedade. (TADA; GRACINO, 2018, p. 41).
Os autores acima desenvolvem uma análise sobre o papel da eficiência
técnica no processo de reificação da alienação publicitária, com base na
elaboração estética e controle das mensagens nas informações da propaganda
nazista. O uso da técnica de comunicação de massa é talvez o maior exemplo
de eficiência das ideologias falhas (STANLEY, 2015), presentes num conjunto
de propagandas.
Na nossa visão, essas ideologias falhas associam-se aos dispositivos
biopolíticos de poder e controle sociais, que nos ajudam a entender o poder
que os dispositivos de mensagens e linhas de argumentos discursivos 
presentes na colonização da subjetividade (DELEUZE, 1990). A dominação, o
controle ou coerção que derivam saberes, das mais variadas naturezas, a
serviço da institucionalização opressora dos aparelhos do Estado é analisada
por pensadores como Gilles Deleuze de forma bastante crítica. Deleuze (1990)
é um autor que também parte do conceito de dispositivo e sua relação com a
intersubjetividade e as linhas de dominação presentes nela. Ele parte desse
pressuposto para analisar o sistema de poder que está compreendido na
reprodução do conhecimento e na reprodução institucional da opressão
incorporada pela sociedade, somados ao poder de controle e dominação por
parte do Estado.
Para Deleuze (1990), o conceito de dispositivo compreende um
emaranhado de linhas enunciativas de saberes, que se bifurcam de forma
multilinear e exercem pressão de amarras e conexões sobre os sujeitos, em três
aspectos ao mesmo tempo: 1) o aspecto do saber; 2) do poder e 3) da
subjetividade. A subjetividade nunca é algo em si mesma, ela depende do
outro, da alteridade, para acionar a capacidade de ação dos sujeitos, sobre o
que esses veem, pensam e pronunciam, isso em parte é o que se pode
compreender comointersubjetividade. Deleuze afirma ainda que a
historicidade dos dispositivos se dá em regimes de luz, nas quais se constituem
as visualidades estéticas, assim como nos regimes de enunciação, nos quais se
pronunciam linhas de falas, discursos e enunciados que definem as posições
dos sujeitos e suas variáveis de ações e articulações de saber e de fazer, nos
vários campos sociais como o científico, o estético, o político, o jurídico etc. O
dispositivo não pode ser definido no sujeito ou no objeto, mas em formas de
regimes de comportamento, que se deriva e se transforma a partir de
ordenamentos lineares discursivos entrecruzados. Segundo Deleuze “Os
dispositivos têm, então, como componentes linha de visibilidade, linhas de
enunciação, linhas de força, linha de subjetivação, linha de ruptura, de fissura, de
fratura que entrecruzam e se misturam” (1990, p. 04).
Outra característica conceitual importante sobre o dispositivo é que essa
perspectiva rejeita o princípio de uma razão ou poder universal e, em sendo
assim, não é possível entendê-lo como algo em sua totalidade unificada ou um
sistema fechado. Ao contrário disso, ele é uma linha de força singular, um
devir enunciativo singularizado que se ampara e se amplia nas relações dos
sujeitos nos contextos institucionais.
O uno, o todo o verdadeiro, o objeto, o sujeito não são universais, mas processos
singulares, de unificação, de totalização, de verificação, de objetificação, de
subjetivação, processos imanentes a um dado dispositivo. E cada dispositivo é uma
multiplicidade na qual esse processo opera em devir, distintos do que operam em
outros dispositivos. (DELEUZE, 1990, p. 04).
O conceito de devir de Deleuze está associado à vontade de potência, nas
formas carregadas de intencionalidade e poder. Formas essas carregadas de
intencionalidade, que segue uma linearidade discursiva e se bifurca, mudando
seu enunciado, de acordo com novos sentidos e novos interesses que vão se
somando às intenções dos sujeitos e seus interlocutores.
Um ato de fala, uma linha de comando de programação, um clique de
acesso, a definição de um perfil de usuário ou as estruturações informacionais
dos cálculos dos algoritmos, numa matemática subjetiva de identificação de
padrões de comportamento, são formas do poder ampliadas dos dispositivos.
Se aplicarmos o conceito de dispositivo, proposto por Deleuze (1990), às redes
socais da internet, em particular em ambientes de bolhas digitais, veremos que
as estruturas de poder dessa rede serão reproduzidas nas estruturadas das
linhas de lógicas de cálculo de programas algorítmicos que incidem sobre os
aspectos intersubjetivos dos usuários dessas redes. E por meios dessas linhas
intersubjetivas os dispositivos digitais, promovem a propagação de valores que
tendem a orientar comportamentos e promover uma espécie de rizoma, ou
seja, um enraizamento bifurcado de linhas de desinformação ampliada, por
meio de propagação de mensagens falsas.
Esses dispositivos estruturados por algoritmos da internet que
desenvolvem linhas de raciocínio complexos, que são vetorizados e ampliados,
e por isso conseguem calcular a previsão do comportamento dos
indivíduos/usuários, mediante a compilação de dados de input e output
realizada em cada dispositivo digital conectado em rede e o perfil subjetivo de
cada indivíduo que usa a rede. Kaufman (2019) afirma, que os algoritmos são
um “conjunto de instruções matemáticas para manipular dados ou raciocínio através
de um problema” (KAUFMAN, 2019, p. 54). O conceito de problema aqui
referido é a parte inteligente desse sistema aberto que possibilita a vetorização
dos cálculos dos algorítmos para identificar o conjunto de interesses dos
indivíduos/usuários na ponta dos sistemas de informação. É sob esse aspecto
que entendemos as linhas e as mudanças dos dispositivos algorítmicos
próximos ao conceito de dispositivo apresentado por Deleuze (1990). Esses
sistemas complexos são abertos e fazem uso de uma inteligência sistêmica para
aprender com os indivíduos/usuários a forma mais eficaz de ter acesso ao
padrão subjetivo de comportamento dos sujeitos, e com isso ter uma melhor
performance sobre controle das informações.
Os sistemas inteligentes das plataformas não visam, preferencialmente, oferecer o
conteúdo de melhor qualidade aos seus usuários, mas maximizar seu tempo de
permanência na plataforma, promovendo e ampliando ao máximo as interações por
meio de curtidas, compartilhamentos e comentários. Quanto maior o tempo e a
intensidade da interação, mas dados são gerados, favorecendo os modelos de
negócios baseados em dados. (KAUFMAN, 2019, p. 55).
Como afirmamos, os algoritmos são dispositivos vetorizados relativos ao
poder do controle sobre as informações em rede e, nesse sentido, à medida que
as fake news são disseminadas preferencialmente nesses ambientes de rede
sociais, estamos seguros de que boa parte desses dados de perfis de usuários
são destinados ou usados para potencializar a produção da indústria da
desinformação, das fake news, como prática dispositiva de um fascismo digital
cotidiano. Mas como é sabido, o poder dos algoritmos é bem maior que esse, e
atende a outras estruturas de poder bem mais enraizada nos aparelhos de
dominação e controle que passam pelo mercado e pelo Estado, sobretudo nos
processos lineares de tomadas de posição e decisão de governo.
Cada vez mais, os administradores e gestores de empresas privadas e instituições
públicas delegam aos softwares uma série de tarefas e decisões. Em geral, os softwares
possuem diversos algoritmos que foram criados para realizar diferentes cálculos,
classificações e correlações, entre outras atividades mais complexas. Várias decisões,
antes tomadas por pessoas, estão sendo substituídas por decisões adotadas por
algoritmos. (SILVEIRA, 2017, p. 273).
Isso nos leva a entender que o caráter dos algoritmos como dispositivos de
controle, gerenciamento e redistribuição de informação, se funda num poder
de acionamento de decisões na estrutura de sistemas institucionais, que
auxiliam de forma eficiente os instrumentos biopolíticos e psicopolíticos de
tomada decisões. Nesse sentido, as mensagens relativas às persuasões,
manipulações e indução de comportamento atendem aos interesses de
instituições privadas e públicas. Um exemplo claro disso foi o desbaratamento
feito pelo Laboratório Forense Digital que realizou investigação sobre constas
falsas ligadas ao presidente Bolsonaro. Segundo esse laboratório,
“Os dados mostram uma rede conectada a Bolsonaro e aliados dele, usando
funcionários do governo e de deputados, dedicada a manipular informação e criar
narrativas, com ataques a opositores”, diz Luiza Bandeira, pesquisadora do Digital
Forense Research Lab do Atlantic Council e uma das autoras do levantamento. (Folha
de S.Paulo, 08/07/2020).
Essa investigação conseguiu provar que havia uma ligação direta de Tercio
Arnaud, assessor do presidente Jair Bolsonaro, com um esquema de contas
falsas no Facebook, que tinham mais de dois milhões de seguidores e foram
banidas em julho de 2020. A matéria foi apresentada pelo Jornal Folha de
S.Paulo25. Essas contas ligadas diretamente à assessoria do presidente foram
responsáveis por ataques a opositores do governo, ataque a membros de outros
poderes da República e por difundir notícias falsas sobre a epidemia da Covid-
19.
Ainda, segundo a Folha de S.Paulo,
Tércio Arnaud Tomaz e mais cinco ex e atuais assessores de legisladores
bolsonaristas, entre eles um funcionário do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP),
foram identificados como conectados à operação de desinformação no Facebook e no
Instagram. Segundo o relatório, eles usavam contas duplicadas e falsas para escapar
de punições, criavam personagens fictícios fingindo ser repórteres e administravam
páginas simulando ser veículos de mídia. Também usavam perfis falsos que postavam
em grupos não relacionados a política, como se fossem pessoas comuns criticando
opositores de Bolsonaro e promovendo o presidente, de acordo com a empresa. Mais
recentemente, as contasatacaram o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso e
estavam disseminando a visão de que a epidemia de covid-19 não era uma ameaça
séria. (Folha de São Paulo, 08/07/2020).
Esse exemplo nos possibilita entender que as dimensões da desinformação,
promovida por notícias falsas, e o uso de algoritmos dentro da estrutura de
governanças ultraconservadoras, tem forte ligação com uma crítica a ser feita a
sociedade de controle que vem se instaurando com os sistemas de
desinformação das fake news dentro dos aparelhos do Estado. E como esse
processo se constitui de forma ideológica e performativa sobre as percepções
subjetivadas dos indivíduos, à medida que são aparelhos ideológicos ligados a
um sistema de desinformação persuasivo.
Esses algoritmos são dispositivos performativos. Em linguística, um enunciado é
performativo quando ocorre simultaneamente à ação que ele apresenta, ou seja, há
uma coincidência entre palavra e ato. “A performatividade é uma perspectiva
particular sobre a natureza da interação, que é o resultado lógico do tornar-se
(também conhecida como a filosofia do processo) em oposição a uma ontologia do
ser” (INTRONA, 2013, p. 2 apud SILVEIRA, 2016, p. 275).
Voltando ao conceito de dispositivo de Deleuze, entendemos que o poder
de enunciação e visibilidade do dispositivo é definido por meio de linhas,
curvas, retas e bifurcações que influem nos regimes de comportamentos, e tais
linhas se entrecruzam sobre o que é visível e sobre o que é enunciável
(DELEUZE, 1990). Com isso entendemos como as bifurcações das fake News
funcionam como um disposto distorcido da realidade que, orientado por
classificações algorítmicas, são dirigidos aos perfis dos indivíduos/usuários,
influenciando os regimes de comportamentos.
O aspecto da subjetividade relacionado ao processo de massificação das
fake news coliga-se ao fenômeno da pós-verdade, à medida que esse fenômeno
é ancorado em crenças, dogmas e afetos, pautados por valores abstratos,
muitas vezes de cunho moral, que leva os indivíduos a formarem sua opinião e
tomarem posicionamento contra a realidade que está diante dos seus olhos.
Com o fenômeno da pós-verdade, a realidade dos fatos perde total
importância. As pessoas de forma individual ou coletivamente, mobilizados
por afetos, passam a crer e a se comportarem a partir de informações falsas e
desinformações, mesmo que os fatos provem o contrário.
Isso é determinante para os indivíduos/usuários assimilem as fake news e se
permitam associar a propagação de discursos direcionados. Esses dispositivos
de narrativas noticiosas de falsas informações, de mensagens e propagandas
fundadas na desinformação e nas ideologias falhas, direcionados muitas vezes
por fake news, formam um vetor de linha de raciocínio que busca nos
receptores o viés de confirmação ou raciocínio motivado, que reforça a
propagação da notícia falsa, sobretudo quando a mensagem dessa fake news
está ligada à reprodução de ideias conservadoras, que tocam os afetos e as
crenças dos indivíduos/usuários no contexto da pós-verdade, em que a
verdade factual tem menor valor que esses afetos e crenças pessoais.
Entendemos o conceito de raciocínio motivado como um processo
psicológico que está diretamente ligado a tomada de posicionamento por parte
dos indivíduos e formação da opinião pessoal, que estão ligadas a questões
afetivas, emocionais, morais e ideológicas, carregadas de assuntos importantes
para esses indivíduos. Da mesma forma, o conceito de viés de confirmação é,
ao mesmo modo, um processo de tendência que leva os indivíduos a se
identificarem com questões que estão muito próximas as suas escolhas ou suas
interpretações, que resultam na confirmação de seus interesses, crenças ou
opinião. Assim, as motivações ancoradas em linhas de reprodução de
argumentos do irracionalismo discursivo de conveniência, faz com que os
sujeitos motivados por crenças se prestem a corroborar e disseminar ódio e
medo como propaganda de um perigo iminente, que eles assimilam mediante
as ideologias falhas criadas e disseminadas pelo discurso fascista no cotidiano
digital das mídias sociais.
O vetor de linearidades múltiplas dos dispositivos, como afirma Deleuze
(1990), pode ser aplicado como linha de orientação a serviço das formas de
poder, sobretudo um poder instituído pelo Estado, em sua forma de dimensão
mais ampliada de controle e regulamentação, como instituições educacionais,
de saúde, de conhecimento etc. Dentro desse espectro, as fake news são vetores
de linhas de enunciação de uma amarração linear que funciona como uma
máquina de imagem, som e texto, que promove visões de mundos e
enunciações discursivas reificadas na ponta do iceberg de ideologias mais
ampliadas por meio de linhas de pensamento neoliberal e ideologias
ultraconservadoras que atravessam as redes sociais. A imagem, o som e o texto,
a esse respeito, funcionam como elementos simbólicos de orientação da
subjetividade, por meio dos artefatos audiovisuais presentes na cultura visual
da internet (SILVA, 2020).
Os dispositivos de propagação das fakes news têm suas múltiplas formas de
enunciação como um instrumento de desinformação performática e retórico,
“[...] nas quais se distribuem as posições diferenciais dos seus elementos; [...]. Em cada
dispositivo as linhas atravessam limiares em função dos quais são estéticas,
científicas, políticas etc. (DELEUZE, 1990, p. 02). Dentro desse contexto, os
dispositivos funcionam como vetores de orientação e as vezes até controle
sobre a intersubjetividade. O papel que os algoritmos têm nesse processo de
configuração do dispositivo de desinformação é de fundamental importância,
pois os algoritmos têm a característica de antecipar problemas e resolvê-los,
assim como realizar cálculos estruturais de conexões por temas, palavras, faixa
etária, gênero, tipo de equipamento, tipo de mídia usada, tempo de conexão,
locais de acessos etc., identificando e classificando os perfis dos
indivíduos/usuários nas redes sociais.
Se ampliarmos essa questão para um plano político, em que estão inseridos
os dados do perfil ideológico dos indivíduos/usuários, poderemos ter uma
melhor compreensão de como os algoritmos podem funcionar como
instrumento de administração psicopolítica dos afetos desses
indivíduos/usuários. Nesse sentido, dados sobre o posicionamento político e
rede de relações políticas, dentre outras coisas afins, são os elementos
calculáveis sobre a identificação, em maior ou menor grau, da classificação do
perfil conservador desses indivíduos/usuários. Todos os dados relativos a esse
contexto político ajudam a mensurar o grau de interesse e identificação dos
afetos políticos de grande parte dos cidadãos que compartilham valores e
ideais próximos e com isso se sentem motivados a reproduzir esses valores e
ideias dentro de redes de compartilhamentos. E dentro desse contexto, lançar
mão de ideias e atos de fala nacionalistas com temas relacionados ao
patriotismo, cultura nacional, tornou-se uma forma de identificação e
classificação da reprodução dos ideais fascistas, propagados pelo senso comum
na esfera pública da sociedade de uma maneira geral, tanto nas ruas como nos
espaços das mídias sociais.
A exemplo disso, vimos a ocupação da esfera pública no Brasil, a parir de
2016, em que parte da população brasileira decidiu seguir uma onda de
patriotismo, nas mídias sociais e nas ruas. Brasileiros travestidos de patriotas
com bandeiras do Brasil servindo-lhes de capas, fazendo passeatas contra a
democracia e espancando na rua outros brasileiros que não estavam fazendo
uso dos mesmos símbolos ufanistas. Foi uma prática bastante comum que deu
sinal sobre a necessidade de compreensão sobre a propagação do imaginário
fascista no mundo da vida. O perfil desse cidadão nacionalista de última hora
estava bem caracterizado nas mídias sociais e nos grupos de compartilhamento
de mensagens e se reproduzia nas ruas. Nunca se viu na história do Brasil,
tanta gente vestida com camisa da seleção brasileira fora de um período de
copa do mundo ou outro calendárioesportivo oficial de jogos da seleção.
Esse comportamento simbólico, que muitas vezes se mostrou conservador
e violento, se reproduzia como parte de um imaginário compartilhado dentro
e fora dos canais institucionais do Estado. A sociedade parecia reproduzir um
comportamento político orientado por grupos que representavam bancadas
políticas conservadoras, nas várias esferas políticas da sociedade brasileira.
Essas práticas são efeitos de dispositivos mais estruturais que se fazem
presentes dentro dos canais institucionais do Estado. O controle da máquina
estatal adquire a função de vigiar e punir (parafraseando Foucault, 1986) a
todo e qualquer indivíduo que não corrobore com ideologias conservadoras.
Voltando às ideias de Foucault (2020), a biopolítica é um conceito de poder
de governo desde o século XVIII, e implica em utilizar o dispositivo do
conhecimento científico e tecnológico para o controle das populações
nacionais, sobre as quais se administram gestões governamentais que são
mantenedoras da violência como prática de governo. O uso de punições
dentro de um caráter de manutenção da ordem estatal faz parte desse conjunto
coercitivo de dispositivos aplicados pela política dentro da esfera do Estado.
Dentro desse mesmo parâmetro de controle, qualquer dado que possa incidir
em manutenção das formas de poder do Estado é usado como instrumento
biopolítico de controle, inclusive o uso da violência digital, além da violência
física e psicológica.
Com isso, os instrumentos biopolíticos e os dipositivos que incidem sobre
a manipulação dos afetos políticos, persuasão e orientação do comportamento
dos indivíduos, são bem mais complexos e transcendem hoje a esfera do
Estado, pois essas tecnologias aperfeiçoam o poder biopolitico da esfera
estadual e se complementam na esfera social em que as novas mídias e os
aparelhos tecnológicas da sociedade em redes fazem ampliar o poder de
violência instituída na relação sociedade/Estado e o papel dos governos, numa
sociedade em rede, dentro desse contexto. O governo dos afetos e das
informações relativas a esse campo psicopolítico é um instrumento poderoso
nas novas formas de controle da sociedade, assim como uma nova forma de
redimensionamento do capitalismo digital dessa mesma sociedade em rede.
Silveira (2017) e D’Ancona (2018) refletem sobre esses aspectos em seus
trabalhos e destacam que: “[...] as tecnologias da informação trazem vantagens
irrecusáveis para a gestão de governos e instituições dos estados. A aplicação
generalizada do big data na gestão pública tenderá a estruturar um campo bem
maior para o uso dos algoritmos, talvez na mesma direção em que ele são utilizados
no mercado financeiro. (SILVEIRA, 2017, p. 278). Já para D’Ancona (2018): “No
ocidente, é a conexão emocional – sempre parte da tomada de posição política – que
ameaça eclipsar nossa insistência herdada pela verdade como principal critério em
disputas políticas. (p. 36). D’Ancona, mais particularmente, analisa o processo
eleitoral americano, no qual Donald Trump foi vitorioso. Para ele, mesmo
considerando-se que Trump não era um candidato simpático para a opinião
pública e esbravejava palavras de ordem e bravatas que conseguia tocar os
afetos e acionar as emoções do eleitorado médio dos EUA, mobilizou afetos
que converteu em votos, os quais fez com que ele ganhasse a eleição na disputa
com Hilary Clinton.
No contexto da pós-verdade, em que boa parte do eleitorado conservador
acredita e compartilha fake news, esse perfil de indivíduo/usuário é favorável
ao irracionalismo comportamental autoconsciente, que alimentam a
reprodução digital do discurso de ódio, e da perversão presentes em pautas
moralistas e religiosas, que declaradamente criminalizam, grupos LGBTIQ+ e
minorias raciais e de gênero. A manipulação do ressentimento incutido nos
discursos extremistas de indivíduos/usuários com esse perfil, dão a afinação
aos ouvidos da opinião pública conservadora.
Nos EUA, em 2016, boa parte do eleitorado com perfil conservador
apresentava-se desesperançado com o aumento do desemprego, execução
hipotecária, dívidas com planos de saúde, dentre outros problemas relativos a
perda de poder financeiro, diante de um caos pelo qual o país passava. Havia
com isso uma onda de ressentimento provocado pelo descrédito que
aumentava a impopularidade do presidente Barack Obama, que não conseguiu
convencer grande parte do seu eleitorado, de nível médio da sociedade
americana, a votar nos democratas. Como afirma D’Acona, (2018) “[...] o
eleitorado não estava com disposição de ânimo para escutar sobre as qualificações de
Hillary Clinton para o Salão Oval.” (D’ANCONA, 2018, p. 37). Além disso, o
processo de fake news, de caráter difamatório, que foi arquitetado por Steve
Bannon e Roger Stone26, assessores diretos da campanha de Donald Trump em
2016, contra a família Clinton, foi fundamental para deslegitimar ainda mais a
candidata Hillary Clinton.
Roger Stone é conhecido historicamente, dentro dos EUA, como ideólogo
e publicitário profissional de políticos conservadores, tendo trabalhado como
assessor e conselheiro político de vários líderes republicanos desde a década de
70 nos EUA, atuando em trabalhos de propaganda de campanhas como as de
Richard Nixon, Ronald Reagan, Jack Kemp, Bob Dole, Georg W. Bush e por
fim foi inicialmente um dos principais marqueteiros da campanha de Donald
Trump, até deixar o comando dos trabalhos de campanha, por questões de
conflitos de ideias, dentro do partido republicano.
Tanto Stone como Bannon defendiam a ideia de que Donald Trump
deveria representar uma candidatura, mostrando-se como um político
alternativo dentro do cenário da direita conservadora norte-americana,
durante a sua campanha à presidência. Entendendo-se essa direita alternativa
como grupos que representavam um conjunto de ultraconservadores,
nacionalistas, apoiados pelos cidadãos de classe média e classe média baixa,
que deram apoio ao novo populismo que Trump tentava representar. Segundo
Empoli (2019),
[...] em ponto de convergência para a direita alternativa americana – uma tropa
heterogênea de nacionalistas, conspiracionistas, militaristas ou, simplesmente,
indivíduos raivosos – todos decididos a impor um ponto de vista diferente sobre as
principais questões no centro do debate: a imigração, o livre-comércio, o papel das
minorias e os direitos civis. Abrindo uma redação no Texas para seguir de perto o
fenômeno da imigração clandestina, Bannon financiou think tanks, grupos de
pesquisa destinados a estudar os malefícios do establishment em geral e da família
Clinton em particular. (EMPOLI, 2019, p. 29).
Por outro lado, do ponto de vista político, esse mesmo cidadão médio
norte-americano também não demonstrava interesse nos alertas dos cientistas
políticos e nos críticos, que alertavam para a forma fantasiosa com a qual
Donald Trump apresentava falsas verdades e discursos extremistas de
intolerância étnico-racial. A proposta das propagandas políticas de Trump
forjava uma performance de encenação diante das câmeras, em que seus atos
de falas e pronunciamentos públicos e privados não mediam esforços em
apresentar ideias xenófobas, racistas, misóginas, dentre outras abjeções
retóricas.
Isso promovia uma ressonância emocional nos cidadãos médios, de uma
maneira geral, legitimando sua candidatura como a imagem de um político
populista, que não tinha vinculações com o jogo político profissional e com
isso representaria de forma mais identificada os interesses do povo americano.
O senso comum acreditava, com isso, que Trump não teria vínculos com a
estrutura de poder do sistema político do país, o que era um grande engano. O
impacto das mensagens na campanha de Trump procurava atingir os afetos e
as emoções coletivas da população, acionando um sistema de crenças por meio
de retóricas emocionadas. Além disso, outra coisa que caracterizava Donald
Trump era o fato de ele ser um candidato que não distribuía simpatia e não
tinha boa aceitação na opinião pública, por parte do cidadão médio
esclarecido, que nãovotou em Trump. Vale ressaltar que Donald Trump teve
menos votos populares que Hillary Clinton, sua concorrente, no pleito
eleitoral da votação. Seguramente ele não teria sido eleito, não fosse o uso das
fake news.
As fake news, como dispositivo de desinformação política, foi o
instrumento encontrado para a manipulação das informações, por agências
como a Breibart News, que teve um papel fundamental na potencialização da
candidatura de Trump e operou de forma precisa as ideologias falhas, na
coalizão de interesses conservadores. Sob esse aspecto, Steve Bannon foi o
protagonista no papel de manipulação e uso indevido dos dados dos usuários
das mídias sociais e o uso da propaganda, que colonizou a opinião pública
norte-americana, manipulando dados e afetos políticos, por meio das mídias
cinematográficas e mídias sociais. Bannon manipulou discursos, ideologias
nacionalistas e pautas extremistas, que convergiam interesses políticos de
forma estrutural. Com isso, os assessores de campanha de Trump agiram de
forma muito articulada e procuraram recuperar o poder da indústria cultural
de massa para criar propaganda de mídia, para a sensibilizar, do ponto de vista
dos afetos, a opinião pública norte-americana.
Os produtos de campanha com documentários, cartazes, discursos
inflamados nas redes sociais ativaram sentimento sobretudo nacionalista do
povo americano por meio do uso das imagens técnicas fotográficas e
cinematográficas.
Como analisa Empoli, Donald Trump,
[...] foi um dos primeiros entre os novos populistas a entender que “politics is
downstream from culture” – “a política deriva da cultura”. Desde o começo, ele luta
para arrancar da intelligentsia liberal o espectro de hegemonia cultural. Assim, em
Hollywood, dedica-se à produção de documentários superkitsch, recheados de
citações filosóficas e melodias wagnerianas. Esses filmes versam sobre o espírito
americano, o choque de civilizações e a alternância de gerações que, assim, modelam
a História e determinam o curso dos acontecimentos. (EMPOLI, 2019, p. 28).
A forma moralista de apresentação dos fatos e da mobilização dos afetos
políticos, por meio das imagens relacionadas aos fatos criados, incentivou um
novo nicho do mercado da indústria cultural norte-americana, pautado em
criar imagens afetuosas que despertaram a necessidade de identificação com
um sentimento nacional emergente, tentando, com isso, limpar sua imagem de
empresário sem ética, que os americanos conheciam, a partir de Reality Show,
“O Aprendiz” apresentado pela NBC – National Broadcasting Company, no
qual ele protagonizava um chefe que demitia, de forma autoritária, os
participantes desse Reality Show. Vale ressaltar que Trump havia sido
protagonista e coprodutor desse programa, que foi apresentado na televisão
americana no início do ano de 2004 e teve várias temporadas desde então.
A figura de Trump não representava simpatia para o público de uma
maneira geral, mas, paradoxalmente, o programa tinha grande audiência,
sobretudo entre das faixas etárias mais jovens assim como com o público mais
idoso, independente de gênero, classe social e raça. Ou seja, Trump não era
uma figura carismática que transmitia empatia, mas acionava os afetos dos
telespectadores de faixa etárias distintas.
Com analisa D’Ancona (2018),
Trump nunca foi candidato simpático. As pesquisas de opinião mostram que os
norte-americanos estavam perfeitamente conscientes deu suas falhas de caráter. No
entanto, Trump passou para eles uma empatia brutal, enraizada não em estatísticas,
empirismos ou em informações meticulosamente adquiridas, mas em um talento
desinibido para a fúria, impaciência e atribuição de culpa. (D’ACONA, 2018, p. 37).
Seguramente toda essa performance televisiva foi alavancada pela indústria
cultural da mídia tradicional e da mídia das notícias falsas, ancorada nesse
processo de perversão digital da política da pós-verdade. Tudo isso junto
ajudou a manipulação das agências de dados como a empresa, Breibart News
que, “Mobilizou blogueiros e trolls para dominar o debate nas redes sociais,
participando do lançamento de uma sociedade de Big Data aplicada à política.”
(EMPOLI, 2019, p. 28). Isso é apenas um pequeno exemplo de como o
processo estratégico conservador da campanha presidencial de Donald Trump
operou como um dispositivo biopolítico brutal no seu processo político e
eleitoral.
Dentro desse contexto, um estudo da Universidade de Oxford, sobre o
tema: Polarização, Partidarismo e Consumo de Notícias Indesejadas nas
Mídias Sociais Durante as eleições intercalares dos EUA em 2018, nos mostra
de forma mais clara o poder do dispositivo das fake news, como instrumento de
extremo fortalecimento da extrema-direita norte-americana. Essa pesquisa foi
realizada por Nahema Marchal, Lisa-Maria Neudert, Bence Kollanyi e Philip
N. Howard, da universidade de Oxford, e mostra de forma analítica um estudo
que aponta para o fato que, em 2016, a distribuição das fake news era
proveniente de usuários com perfis russos e de sites ultraconservadores da
extrema-direita, e que em 2018 o mesmo tipo de procedimento e conteúdo foi
igualmente disseminado por grupos moderados e conservadores, que não
possuíam um perfil fascista que propagavam o que ele conceituara como
notícias descartáveis e falsas.
Com isso, a pesquisa apresenta um memorando em que se relata a análise
de dados sobre o compartilhamento de notícias indesejadas e notícias falsas
nas eleições de 2018, demonstrado haver um aumento considerável, que
supera em muito as eleições de 2016, nos EUA.
Nos Estados Unidos, as plataformas de mídia social atendem a volumes significativos
de notícias e informações políticas indesejadas durante momentos importantes da
vida política – particularmente nas eleições.
Neste memorando de dados, examinamos as fontes de notícias e informações
políticas que foram compartilhadas por usuários de mídia social nos EUA no período
intermediários até 2018, avaliamos e identificamos o público-alvo principal, com
fontes de conteúdos sensacionais, extremistas, conspiratórios ou que tenha outras
qualidades de notícias indesejadas. Analisando 2,5 milhões de tweets e 6.986 páginas
no Facebook em um período de 30 dias, descobrimos que (1) a quantidade de notícias
indesejadas em circulação nas mídias sociais é maior que a da eleição presidencial dos
EUA em 2016, com usuários compartilhando mais notícias indesejadas do que
notícias profissionais em geral, (2) notícias indesejadas, uma vez consumidas pela
base de apoio do presidente Trump e a extrema-direita agora está sendo consumida
por mais usuários conservadores de mídia social tradicionais e que (3) menos de
cinco por cento das fontes referenciadas as mídias sociais são de órgãos públicos,
especialistas ou dos próprios candidatos políticos. 27
A interpretação dos dados mostra a forte influência que as notícias que
apresentam um conteúdo de medo e que têm caráter extremamente
conservador, promoveram uma mudança de percepção do eleitorado que usa
mídia tradicional, rádio, televisão e jornal e passou a usar as informações de
conteúdo das redes sociais, ampliando a circulação de notícias de caráter
indesejado e extremista, em relação eleitorado médio que mudou de opinião a
partir do uso das mesmas redes sociais. Em ambos os casos, a circulação de
fake news, estruturada por algoritmos, fez aumentar o consumo de notícias
ultraconservadoras, favorecendo apoio à candidatura de Donald Trump.
Quanto a esse contexto político, no qual se situa as eleições de Trump, Han
(2014) aponta que,
En las elecciones estadounidenses, el big data y el data mining se muestran como el
huevo de Colón. Los candidatos adquieren una visión de 360 grados sobre los
electores. Se recopilan enormes datos, incluso se compran e interrelacionan, de
manera que se puedan generar perfiles muy exactos. De este modo también se
adquiere una visión sobre la vida privada, incluso sobre la psique de los electores. Se
introduce el microtargeting para dirigirse con precisión a los electores con mensajes
personalizadosy para influenciarlos. El microtargeting como praxis de la microfísica
del poder es una psicopolítica movida por datos. Asimis- mo, algoritmos inteligentes
permiten hacer pronósticos sobre el comportamiento de los electores y optimizar la
alocución. Las alocuciones individualizadas apenas se distinguen de los anuncios
personalizados. Cada vez se asemejan más votar y comprar, el Estado y el mercado, el
ciudadano y el consumidor. El microtargeting se convierte en praxis general de la
psicopolítica. (HAN, 2014, p. 94).28
Nesse contexto, a psicopolítica dos algoritmos que gerencia as fake news
atuam calculando comportamento, consumo e tendências, incluindo
alfabetização digital por parte de pessoas mais idosas, que aprenderam e
passaram a ter mais iniciativa de interação com computadores, em particular
as mídias digitais, a partir de 2016. O que se destaca com isso é que a mudança
de percepção promovida pelo impacto que notícias menos prováveis de serem
verdadeiras circularam com grande influência pelas redes dos usuários mais
velhos, que passaram a usar de forma mais efetiva as redes sociais e que há um
aumento desse mesmo perfil de notícia entre os usuários mais jovens.
Ainda segundo a análise da pesquisa de Oxford, esse aumento do uso das
tecnologias digitais em rede possibilitou checar que as iniciativas dos usos das
redes indicaram que grande parte do uso tinha motivações políticas ligadas a
notícias indesejadas, comprovadamente fake news, e que as plataformas
reforçaram a vigilância na moderação e no policiamento para remover os
perfis falsos disseminadores de fake news. Mesmo com isso, a pesquisa mostrou
que, “Apesar desses esforços, as notícias indesejadas continuam a se espalhar em
momentos críticos da vida pública nos EUA.” E aponta para o fato de ter siso o
Twitter, a rede social com o maior número de contas de usuários vinculadas à
disseminação de notícias falsas e notícias indesejáveis, com conteúdos abjetos e
mensagens de ódio e preconceitos, durante as eleições do ano de 2016, e que
esses perfis falsos de usuários continuaram ativos, espalhando fake news por
todo o ano de 2018, ano em que ocorreram as eleições majoritárias dos EUA.
Para os pesquisadores da Universidade de Oxford, os dados que foram
visualizados e associados por meio de acesso as redes sociais, em que se
identificou os perfis dos usuários, serviram para a catalogação das informações
e para o rastreamento desses perfis conectados por elos associativos, a partir
dos quais foi possível fazer um mapeamento dos usuários, dos temas e das
palavras-chaves, por meio do algoritmo Fruchterman – Reingold, no cálculo
de rastreamento das visualizações para se poder realizar o mapeamento da
pesquisa.
Visualizar dados de redes sociais é uma poderosa maneira de entender como as
pessoas compartilham informações e associar um ao outro. Usando o selecionado
palavras-chave, contas iniciais e links conhecidos para conteúdo específico, é possível
construir grandes 
visualizações de rede que podem ser examinadas para encontrar comunidades de
contas ou “grupos” que compartilham tipos semelhantes de conteúdo entre si. Os
mapas sociais de rede compreendem nós que representam contas individuais,
conectadas a outros nós no mapa por meio de relações sociais. O algoritmo de
visualização Fruchterman – Reingold pode ser usado para representar os padrões de
conexão entre esses nós. Ele organiza os nós em um 
visualização através de uma força centrífuga que empurra nós para a borda e uma
força coesa que puxa nós fortemente conectados juntos. Esse processo produz
“segmentos” focados de usuários que compartilhem tipos de conteúdo muito
semelhantes e específicos entre si. Segmentos que compartilham algum conteúdo
com uns aos outros são agregados em “grupos”.
No caso, esse conteúdo indesejado, o qual a pesquisa classifica, diz respeito
às fake news de indivíduo/usuário e grupos de compartilhamento que têm o
perfil de identidade digital associado ao acesso do conteúdo das notícias falsas
compartilhadas com maior frequência. Na análise, é identificado que interação
digital e a troca de informação nas redes sociais são feitas por uma associação
de grupos de interesses temáticos entre membros que compartilham um
determinado padrão de mensagens. Esse padrão é associado a critérios de
classificação e armazenados em banco de dados de controle das redes sociais,
que são usados visando a influência da percepção e comportamento na tomada
de decisão dos usuários nas mídias sociais.
Do ponto de vista sociológico, sabemos que a percepção social e a
autopercepção dos indivíduos também estão associadas a formas de vigilância
e autovigilância numa dada condição social de controle (SILVA, 2020) dentro
das redes de cultura visual. O controle da imagem e seus desdobramentos está
associada a um jogo de performance entre o “eu” e o “outro”, identificando o
lugar que cada um ocupa no cenário social, fundado nas motivações,
identificação e orientação de condutas relativas à formação identitária dos
sujeitos, como analisamos em outros trabalhos (SILVA, 2009, 2019).
Nesse contexto, acreditamos que numa sociedade em rede, a eficiência da
vigilância e da autopercepção dos indivíduos/usuários se somam à vigilância e
controle dos afetos, como bem afirma Han (2014).
La vigilância digital es precisamente más eficiente porque es aperspectivista. No tiene
la limitación que es propia de la óptica analógica. La óptica digital posibilita la
vigilancia desde todos los ángulos. Así, eliminan los ángulos muertos. Frente a la
óptica analógica, perspectivista, puede dirigir su mirada incluso hacia la psique (HAN,
2014, p. 86).29
Diante desse processo de pós-verdade, o controle das percepções
subjetivas, por parte dos mecanismos de vigilância digital e dispositivos de
influência e orientação de condutas, vemos que o raciocínio motivado dos
sujeitos atua num campo psicopolítico de forma intersubjetiva. Nesse campo, a
percepção dos interesses e identificações amplifica a solidificação de grupos
que consomem o mesmo padrão de informação e não se leva em conta
informações contrárias a que esses querem crer. É aí que vemos atuar a
biopolítica da vigilância digital, estruturada por algoritmos. Esse processo
induzido por algoritmos opera em sistema de vigilância e controle monitorado
por disseminação de desinformação, sobre as quais as fake news funcionam
como instrumento eficaz na orientação de condutas e na condução da opinião
pública e tomadas de posicionamento político, por parte dos indivíduos,
relativas a temas, ideias, visões políticas que urgem no cotidiano da sociedade
em rede. Essas orientações de condutas e condução da opinião pública ficam
mais evidentes sobretudo quando se trata de consultas à população ou
períodos de eleição, a exemplo de plebiscitos como o BREXIT e as eleições
majoritárias nos EUA e Brasil.
Nessa era de fake news e pós-verdade, parecemos viver num mundo
conectado por dispositivos em que circula uma cultura política de narrativas e
contranarrativas midiáticas em rede, que parecem nos desconectar da vida real
e material. O que não é verdade. Esse mundo virtual de dispositivos
conectados, a partir dos quais circulam os dados de todos os indivíduos,
conectados ou não a ele, é o mundo de uma virtualidade real e não de uma
realidade virtual (CASTELLS, 1999). Com isso, se faz necessário destacar o
conjunto dos interesses políticos que estão presentes nesse processo ideológico
e biopolitico presente nessa cultura da desinformação promovida pelas fake
news, nesse contexto de neoliberalismo conservador. Esse processo de
desinformação é uma estratégia de guerra de narrativas nessa nova realidade
política.
Nessa nova estratégia, os fenômenos do binômio fake news/pós-verdade,
atuam em outros níveis da ideologia, da psicologia de massa e da psicopolítica.
Essas novas formas de controles, presente no binômio fake news/pós-verdade,
então amparadas em modos coletivos de raciocínios motivados, que envolvem
tecnologia de informação e psicologia social, a serviço des interessespolíticos
e ideológicos, que são neoliberais e conservadores. A configuração dessa nova
estrutura de poder atua de forma sofisticada e sutil, sobre o governo da
subjetividade dos afetos dos indivíduos.
3
FOUCAULT E O GOVERNO DA SUBJETIVIDADE DOS
AFETOS COLETIVOS: SOBRE A VULNERABILIDADE
DIGITAL DOS INDIVÍDUOS/USUÁRIOS
Reiterando o que afirmamos no início do livro, procuramos fazer nossas
análises neste trabalho buscando aproximações pertinentes entre autores
importantes, como Foucault e Adorno, que a princípio são distintos em suas
reflexões, mas se aproximam em questões relativas à verdade, ao poder, às
formas de dominação, como nos mostra Deborah Cook, no seu livro Adorno,
Foucault and the Critique of West (2020).
Cook apresenta as proximidades pertinentes entre esses dois pensadores,
pela leitura crítica que ambos fazem de Hegel e Kant, pela influência que
ambos têm de Nietzsche, pela forma como ambos rejeitam a teleologia
histórica do marxismo e como ambos formalizam uma crítica contra o
subjetivismo filosófico na fenomenologia de Husserl. Ainda concordamos
plenamente com Cook quando a autora afirma que seja possível trazer
questões que ligam Adorno a Foucault, a explicações pertinente ao século XXI,
século o qual nenhum dos dois filósofos chegaram a conhecer (COOK, 2020).
Acredito que refletir sobre as novas formas de poder e dominação que
estão fundadas e esferas institucionais e ideologias, presentes na atualidade,
são questões do tempo presente, que ainda cabem uma reflexão pautada nos
argumentos que tanto Adorno quanto Foucault ajudaram a construir, ao longo
de suas trajetórias filosóficas. Adorno e Foucault ainda são muito atuais.
Ambos compartilham origens filosóficas muito próximas e, dentro da tradição
do conhecimento, ambos enfocam, de forma crítica, temas e assuntos que
marcam fortemente o nosso contemporâneo. O caráter antissistêmico no
trabalho de ambos tem papel importante na compreensão e análise do
conhecimento histórico. Os trabalhos de Foucault e Adorno apresentam uma
forte influência da epistemologia histórica, assim como também influência do
pensamento niilista.
Esses dois autores são de fundamental importância para refletirmos sobre
questões antigas, relativas a formas de dominação ideológicas e relações de
poder que se apresentam hoje, por meio de mecanismos de controle que são
forjados numa sociedade em rede e mídias sociais, que nem Foucault nem
Adorno chegaram a conhecer.
Trataremos nesse capítulo terceiro, mais propriamente, da influência de
Michel Foucault na nossa análise sobre a governabilidade das formas
biopolíticas do binômio fake news e pós-verdade, com base na noção raciocínio
motivado. No capítulo quarto, posterior a este, daremos maior atenção à teoria
crítica de Theodore Adorno sobre a necessidade de esclarecimento e crítica ao
pensamento mítico, na sociedade contemporânea. Fazemos esse preâmbulo
para fundamentarmos nosso problema de pesquisa sobre a necessidade da
abordagem do conhecimento teórico das formas de dominação, que são
relativas à crise da racionalidade. Racionalidade essa que parece se perder no
que conceituamos como irracionalismo de conveniência do fascismo digital
cotidiano.
Nesse ambiente tumultuado em que o irracionalismo de conveniência
fascista opera, vemos se formar um elo de ligação entre as forma ideológicas
dos interesses dos setores de classe mais estruturados da sociedade, que
comungam de ideologias falhas ligadas à fusão de interesses religiosos,
comerciais, agroindustriais, militares, dentre outros, e mecanismos ligados a
dispositivos jurídico-políticos e manipulação dos sistemas de informação
pública, que operam numa forma de governabilidade fundada naquilo que
Foucault definiu como
[...] um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições,
organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas,
enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito
e o não dito são elementos dos dispositivos. O dispositivo é a rede que se pode
estabelecer entre esses elementos. (FOUCAULT, 1979, p. 244).
Essa governabilidade biopolítica é “um fenômeno particularmente astucioso,
[...] as técnicas de governo se tornaram a questão política fundamental e o espaço real
da luta política.” (FOUCAULT, 1979, p. 292). E, dentro desse aspecto, os
interesses públicos e privados se confundem. Com base nisso, conseguimos
entender que mediante o jogo de interesse público e privado, várias empresas e
grupos políticos foram patrocinadores do processo de desinformação durante
os processos políticos do ano de 2018, no Brasil. Vimos também se formar um
conjuntura sobre a qual convergiram os interesses dos vários setores
conservadores do país, em favor de uma forma de governabilidade motivada
por afetos políticos generalizados, em que discurso de ódio foram propagados
de forma discriminatória contra vários grupos sociais em vários setores da
sociedade brasileira.
Essa conjuntura foi bastante eficiente em mobilizar instrumentos de uso
operacionais, da política dos afetos, que envolveu ideologias falhas associadas à
pós-verdade, formando um dispositivo psicopolítico (HAN, 2014) eficiente na
colonização das mentalidades e nas expressões das formas de violência
simbólica desses indivíduos/usuários das redes.
Nesse processo de convergência de interesses, questões estão ancoradas em
temas sexual, moral, ideológicos ou de natureza da intimidade, na qual esses
indivíduos têm algum tipo de identificação, são transformados em temas de
motivação política e orientação de condutas dos indivíduos/usuários. Isso
motiva os indivíduos a formarem uma opinião, como viés ofensivo e
defensivo, vinculados a suas visões de mundo, resultando objetivamente num
esforço de construção de narrativas de bases peculiares e valores morais, que
reforçam seus pontos de vistas, dentro daquilo que identificamos ser o
raciocínio motivado por sistema de crenças a partir das ideologias falhas
(STANLEY, 2015). Esse processo reforça questões que confirmam as
expectativas e preconcepções desses indivíduos/usuários, e são traduzidas em
desejos sobre coisas que dizem respeito a eles, de alguma forma.
No processo do raciocínio motivado da pós-verdade, não se leva em conta
informações contrárias as que os indivíduos/usuários querem acreditar, o que
faz aproximar ainda mais daquilo que julgamos ser o dispositivo do biopoder e
da psicopolítica que estrutura o governo de si, dentro do contexto do governo
das mentalidades, como nos ajuda a compreender Foucault (1979) e Han
(2014). O governo de si segundo, Foucault (1979), é determinante para as
relações de poder no uso do controle institucional e dominação intersubjetiva
dos corpos, numa espécie de governo das mentalidades que ele traduz como,
“O conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análise e reflexões, cálculos
e táticas que permitem exercer essa forma bastante específica de poder [...] por
instrumentos essenciais os dispositivos de segurança” (FOUCAULT, 1979, p. 292).
Esse conceito faz parte de uma ordem de poder disciplinar instituído
diretamente sobre o indivíduo e sobre a coletividade por meio das normas de
condutas, estabelecidas nas instâncias institucionais do mundo moderno, que
agora é operada por estruturas algorítmicas de controle de dados e vigilância
digitais.
Segundo Byung-Chul Han (2014), essa é uma forma de biopolítica que tem
lugar no mudo moderno no controle dos corpos sociais como um poder
sistêmico aberto e ampliado.
En lugar de atormentar al cuerpo, el poder disciplinario lo fija a un sistema de
normas. Una coacción calculada atraviesa cada parte del cuerpo y está presente hasta
en el automatismo de las costumbres. Hace del cuerpo una máquina de producción.
Una ortopedia concertada. Las disciplinas son métodos que permiten el control
minucioso de las operaciones del cuerpo, que garantizan la sujeción constante de sus
fuerzas y les imponen una relación de docilidade utilidade. [...]. El poder disciplinario
es un podernormativo. Somente al sujeto a un código de normas, preceptos y
prohibiciones, así como elimina desviaciones y anomalías. Esta negatividad del
adiestramiento es constitutiva del poder disciplinario. (HAN, 2014, p. 36).30
Com o advento da hipermodernidade esse exercício da biopolítica passa a
se constituir por um dispositivo de tecnologia de controle social e
disciplinamento mais sofisticado como a manipulação e vigilância dos dados e
dos indivíduos/usuários, por meio de instrumentos de controle coletivo, sobre
perfis sociais que transcende ao sistema de normas e influenciam diretamente
comportamentos e condutas mediados por um biopoder do corpo social,
orientado sobretudo por desinformações em massa e ideologias conservadoras
e ultraconservadoras, que faz com que esse corpo social assimile um
comportamento disciplinado.
Mais uma vez, o conceito de dispositivo nos possibilita uma crítica ao
conjunto ideológico que está representado no binômio pós-verdade/fake news,
entendendo que entre ideologia e dispositivos, conceitos distintos, pode haver
aproximações explicativas, a partir de linhas de raciocínio crítico que se
dedique a entender o imperativo dessas novas formas de controle,
manipulação, sujeição e disciplinamento de condutas e comportamentos dos
corpos sociais. Isso também nos ajuda a refletir sobre novas formas de saber e
de poder que incidem em perspectivas de crise da racionalidade e dos afetos,
como o medo, por exemplo, que é instrumentalizado como discurso, por
políticos autoritários e populistas que representam os conservadores
contemporâneos, como Donald Trump e Jair Bolsonaro.
Nesse contexto, as fake news e a pós-verdade formam um conjunto de
dispositivos de governabilidade da subjetividade e disciplinamento, dentro de
uma ordem discursiva, pautada na desinformação institucional e no raciocínio
motivado, a serviço de interesses conservadores e declaradamente fascistas,
que acionam mecanismos emocionais e afetos políticos de controle coletivo,
que se reproduzem no disciplinamento imposto pelo medo compartilhado
socialmente. Assim, entendemos que a ordem discursiva de toda sociedade,
como nos mostra Foucault (2004),
[...] é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número
de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu
acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (FOUCAULT, 2004,
p. 9).
Sobre essa questão, Sérgio Amadeu Silveira afirma que,
A proposta da governamentalidade abre espaço para compreender saberes que
redundaram em estratégias e políticas de controle das populações. Também permite
observar a relação dos dispositivos – em interação com o Estado. O termo
governança poderia ser empregado se fosse entendido mais amplamente, no mesmo
sentido que Foucault emprega a expressão governo. (SILVEIRA, 2017, p. 269).
A instrumentalização do poder que o governo formula, na configuração de
suas políticas de controle de estado sobre os indivíduos, é expresso pela forma
de manutenção da violência do discurso, que resulta na prática do vigiar e
punir (FOUCAULT, 1986).
Como Foucault (2004) afirma ainda,
Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o
atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto
não há nada de espantoso, visto que o discurso não é simplesmente aquilo que
manifesta (ou oculta) o desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar –
o discurso não é simplesmente aquilo que se traduz as lutas ou os sistemas de
dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos nos
apoderar. (FOUCAULT, 2004, p. 10).
A biopolítica desenvolvida na perspectiva foucaultiana é a prática de
biopoderes exercidos em contextos locais, a partir da qual a população é ao
mesmo tempo o alvo e o instrumento dessa relação de controle e vigilância,
exercida pelos governos (poder jurídico-político) e pelo mercado (poder
econômico-financeiro) que opera na ordem dos interesses privados e públicos
da biopolítica liberal (FOUCAULT, 2020) e neoliberal (CHAMAYOU, 2020).
No conjunto da análise de Foucault, esse biopoder se desdobra na ordem
do discurso ao longo da história, em que,
As práticas judiciárias – a maneira pela qual, entre os homens, se arbitram os danos e
as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do ocidente, se concebeu  e se
definiu a maneira como os homens podiam ser julgados em função dos erros
que  haviam cometido, a maneira como se impôs a determinados indivíduos a
reparação de algumas de suas ações e a punição de outras, todas essas regras ou, se
quiserem, todas essas práticas regulares, é claro, mas também modificadas sem cessar
através da história – me parecem uma das formas pelas quais nossa sociedade definiu
tipos de subjetividade, formas de saber e, por conseguinte, relações entre o homem e
a verdade que merecem ser estudadas. (FOUCAULT, 1999, p. 8).
As formas de racionalidade jurídico-política e sua relação com a
subjetividade dos indivíduos ajudam-nos a entender melhor essa relação
forjada em acordos instituídos por manutenções de poder sobre esse corpo
social, em que se admitem as práticas disciplinares de vigilância, em nome da
segurança e manutenção da vida de forma autoconsciente, na esfera pública
política e digital da sociedade em rede. Essas são as questões que envolvem a
governança autoconsciente, na política dos afetos e do disciplinamento moral
e comportamental, que são parte do processo do irracionalismo de
conveniência da pós-verdade no neoliberalismo de controle disciplinar. Como
afirma Han, (2014), “El poder disciplinario es un poder normativo. Somete al
sujeto a un código de normas, preceptos y prohibiciones, así como elimina
des- viaciones y anomalías. Esta negatividad del adies- tramiento es constitutiva
del poder disciplinario.” (HAN, 2014, p. 36). Isso nos ajuda a atender a ligação
dos interesses implicados no uso do binômio pós-verdade/fake news, na
configuração das formas de desinformação contemporânea e seus mecanismos
biopolíticos da sociedade neoliberal forjada em rede.
Com base nisso, o processo de desinformação das fake news,
instrumentalizadas por ideólogos do fascismo digital contemporâneo, ajudam
a alimentar o imaginário conservador e ultraconservador vigente nas tramas
das mídias sociais, como um modo de disciplinamento de conduta. E isso faz
demonstrar que o processo de persuasão e orientação de condutas, por meio
das mídias sociais, têm sido eficazes na configuração de consensos coletivos,
motivado por assimilação de valores e raciocínio motivado que incidem na
manipulação da opinião pública e orientação de condutas políticas de muitos
indivíduos/usuários.
Muitos indivíduos/usuários de redes tendem a crer e repassar informações,
sobre as quais eles têm algum tipo de identificação, como nos mostra Barbosa
(2019). Nesse conjunto de indivíduos/usuários, que repassam deliberadamente
as fake news, existem
[...] aqueles que acreditam divulgando até aqueles que repassam mesmo sem acreditar
plenamente – fora os que não se importam se a notícia é verdadeira ou não. Esse quadro é
bem mais complexo do que a tese de que pessoas repassam fake news por ser ignorantes ou
manipuláveis. (BARBOSA, 2019, p. 17).
Acreditamos que o processo de indução do repasse das mensagens falsas,
por parte de quem compartilha, atende a uma trama autoconsciente de
disciplinamento, que se justificam na crença ou desejo de crença, nos
pronunciamentos discursivos, subjacentes aos temas presentes nas fake news.
Nesse contexto, o processo acelerado da desinformação amplia o contexto da
autoconsciência sobre as mentiras na rede. Definimos a autoconsciência como
capacidade de identificação e tomada de posição por parte dos indivíduos nos
processos sociais, sobretudo em contextos de mudanças em que se
testemunham formas de reestruturação institucional, política e econômica que
incidem em modos violência impostas pelo Estado ou por agentes sociais no
tecido social. Logo, essa autoconsciênciabons parceiros de conversa que
também nos ajudaram no construto deste livro. Por isso, devo afirmar que os
diálogos que pude realizar por e-mail com o professor Sérgio Costa, da
Universidade Livre de Berlin, Alemanha, foram pontuais e redirecionaram o
curso de nossos caminhos nessa trajetória de pesquisa. Do mesmo modo, os
diálogos com os professores Frederico Lyra de Carvalho, da Universidade de
Lille, França. Gostaria ainda de agradecer a todos os meus colegas, da
Faculdade de Ciências Sociais FCS/Unirio, e do Programa de Pós-graduação
em Memória Social da PPGMS/Unirio, que nos deram apoio e cobertura
institucional, para que nós pudéssemos desenvolver a pesquisa. Por fim,
gostaria imensamente de agradecer ao professor George Gomes Coutinho, da
Universidade Federal Fluminense (UFF), ao professor Marcos Abraão Riberio,
do Instituto Federal Fluminense (IFF), e ao sociólogo João Arthur Basile
Macieira (PUC-RJ), amigos queridos que nos indicaram leituras importantes
para a pesquisa que resultou nesse livro. Todas essas pessoas foram
fundamentais na ajuda, com seus comentários, que incidiu no tom reflexivo e
crítico, que esse livro pode ter. Logo, destaco que esse trabalho foi construído
num processo dialógico desde seu início, valorizando cada opinião e cada
colaboração que tivemos da parte de todas essas pessoas parceiras e amigas,
que aqui agradecemos. Meu muito obrigado a todos!
Mas ao mesmo tempo, a escrita é também um processo de diálogo conosco.
E, em sendo assim, também tentamos olhar para dentro de nossas ideias,
buscando nos entender nesse processo de escrita crítica, mergulhado num
cenário conturbado social e politicamente. Nos perguntávamos, muitas vezes,
sobre qual seria o nosso papel na construção de uma crítica necessária à nossa
existência, nos dias de agonia que vivemos durante o isolamento social, no
qual nos vimos enclausurados em nossas torres de marfim, hora em Salvador
hora no Rio de Janeiro.
Os fenômenos da realidade vivida que observamos, como a degradação do
respeito coletivo, a crise das instituições públicas e a produção massificada da
mentira, e a ascensão de um fascismo, por meio dos processos das fake news,
nesse novo e absurdo “normal”, conjunturado por problemas por todos os
lados, sobretudo da ordem do político, nos fez perceber o irracionalismo
violento, pelo qual todos estávamos passando. Todos os fenômenos, nessa
diagnose do tempo presente, mostraram algo de fato monstruoso e que
demandaria uma atenção sociológica e interdisciplinar bastante fundamentada
e, ao mesmo tempo, ampliada. Sobretudo, por entendermos que esse processo
era algo que atuava contra o espírito da democracia, no mundo, de uma
maneira geral, não só no Brasil.
Vimos, com isso, que, dentro desse processo, a emergência do advento do
ultraconservadorismo da nova direita e suas ideologias falhas apresentaram-se
como fatos incontestes que atingiam em cheio o ethos democrático e a cultura
política, acelerando o processo de degradação dos valores políticos, sociais e
morais dos nossos dias, no contexto de uma sociedade em rede.
Nesse processo, o fenômeno da mídias sociais, por exemplo, com o uso de
plataformas digitais, portais de notícias e redes sociais, foram recorrentemente
instrumentalizadas por líderes políticos ultraconservadores, a exemplo de Jair
Bolsonaro e Donald Trump, para fazer reverberar suas retóricas de ódio frente
à opinião pública, e, em muitas dessas falas publicadas no Twitter, por
exemplo, constatava-se que vários pronunciamentos eram frutos das
elaborações de argumentos falsos sobre fatos que não correspondiam à
realidade e se reverberavam como desinformações massivas por meio das fake
news. A esfera pública da internet, sobretudo os espaços das mídias sociais,
foram ocupados por indivíduos/usuários que colonizaram esses veículos de
forma intensa, produzindo, consumindo e replicando mentiras deliberadas.
A produção da mentira massificada foi um dos objetos do nosso interesse
nesta pesquisa. Entendemos essa produção de fake news como um forte
instrumento de uso político, que resultava dos novos arranjos articulados pela
ideologia dominante neoliberal, travestida de uma nova direita
ultraconservadora que vimos surgir no século XXI e que se mostrou, de forma
mais intensa, com a grande crise econômica do ano de 2008 no mundo.
Vale ressaltar que, desde 2008, essa conjuntura de crise, em particular um
colapso econômico no mundo de uma maneira geral, potencializou os
primeiros acordes dessas mudanças gerais na conjuntura política mundial. Foi
com a crise de 2008, sobretudo nos EUA, que vimos surgir discursos
conservadores consorciando-se com discursos neoliberais, reivindicando a
reforma do modelo de governo e do estado democrático.
Naquele momento, vimos ressurgir os discursos de um retorno ao
nacionalismo de Estado. E não foi à toa que o próprio governo democrático do
presidente Barak Obama fez uso de um grande volume da verba pública para
socorrer bancos e montadoras, dentre outros setores, nos EUA. A crise
econômica provocada pelo neoliberalismo da bolha imobiliária norte-
americana reforçou o discurso da extrema-direita norte-americana sobre a
necessidade de mudar a política de governo para que se seguisse uma trajetória
mais conservadora, voltada para uma política protecionista e nacionalista.
Paradoxalmente, essa crise ampliou ainda mais o discurso do neoliberalismo,
na esfera do Estado.
Na nossa avaliação, os efeitos perversos dessa crise neoliberal, iniciada em
2008, foram repercutidas pelo mundo globalizado como um todo. Países
europeus, como Itália, Portugal, Grécia e Espanha, dentre outros, sofreram
com uma grande perda econômica, que resultou em cortes salariais de mais de
quarenta por cento, promovendo um empobrecimento abrupto nesses países,
sobretudo porque, além da perda salarial, muitas empresas decretaram
falência, o que provocou um grande aumento da exclusão do mercado formal
de trabalho. Com isso, o endividamento público passou a ser um dos grandes
problemas para esses países de uma maneira geral, pois o Estado teria que
arcar com o custo da crise econômica com políticas de austeridade, o que
prejudicava ainda mais o poder público dos Estados e a falência do sistema de
seguridade social e de implementação de políticas públicas assistenciais,
sobretudo.
Dessa crise econômica, vê-se ampliar uma grande crise política, que tocou
em cheio países emergentes como o Brasil. Lembremos que, a partir de 2008,
muitas outras crises sucederam-se, e o Brasil fez fortes investimentos para
conter os avanços da crise econômica e seus efeitos políticos, ainda sendo um
país comandado por um governo de esquerda.
Nesse contexto, vimos emergir uma forte crise política interna que se
reproduziu na falência da elaboração de políticas públicas no Brasil, assim
como vimos que os acordos internos no país sofreram arranjos em direção a
um neoliberalismo. Com isso, formou-se um conjunto de manobras políticas e
jurídicas, direcionadas para fortalecer grupos conservadores e políticos da
direita no Brasil, que atuaram diretamente no enfraquecimento da gestão
pública da esquerda brasileira, sobretudo no âmbito do Poder Executivo dos
estados e da federação.
A reboque desse processo, em 2013, vimos surgir uma onda popular que se
convencionou chamar de jornadas de junho. Esse movimento já dava sinais de
uma crise de representatividade política e acenava para uma espetacularização
conservadora no país. A ocupação das ruas em junho de 2013 impedia que se
levantassem bandeiras partidárias e sindicais, e se ouvia da voz dos populares:
“a única bandeira que se permite aqui é a bandeira do Brasil”. Tom claramente
ufanista de um nacionalismo emergente, que se afinava com outras
sonoridades ideológicas de cunho ultraconservador. Essas sonoridades
conservadoras se faziam presentes, de uma maneira ou de outra, em grupos
políticos na sociedade globalizada, dando sinais de que dias piores estavam por
vir...
O discurso ultraconservador naquele momento começava a ocupar as
mentes, os corpos e asé marcada pelo campo dos interesses
que definem as identificações dos indivíduos, frente a esses processos de
mudança de comportamento. Com isso, acreditamos que a tomada de
posicionamento nas redes sociais é promotora de uma sociabilidade
autoconsciente de ação, voltada para fins e comportamentos específicos
orientados para esses fins.
Nesse contexto, a disponibilidade de dados dos indivíduos/usuários faz
parte de uma relação de controle autoconsciente, a partir da qual se estabelece
um jogo de interesses entre agentes mediadores do controle das informações e
desinformações na sociedade em rede. A partir desse contexto, governos,
empresas e grupos criminosos e as milícias digitais agem de forma
instrumentalmente eficaz, na exploração das fragilidades dos
indivíduos/usuários e na vulnerabilidade digital a que todos os usuários das
redes estão sujeitos. Existe assim uma autoconsciência compartilhada sobre a
situação da vulnerabilidade digital da vida dos indivíduos que se espelha na
vulnerabilidade cotidiana da vida social material. O capitalismo dos afetos
digitalizados tem suas qualidades e suas vulnerabilidades, e, segundo Han
(2014), o capitalismo das emoções sabe precisamente como explorar esse
contexto, tanto nas redes sociais da internet como na vida diária, fora do
mundo da internet.
A situação de vulnerabilidade digital, material e psicológica em que os
indivíduos se encontram, de uma maneira geral, nesse processo de crise
mundial generalizada e crise pandêmica, provocado pela Covid-19, é uma
situação propícia para a ação de agentes biopolíticos de controle coletivos,
presentes dentro e fora da esfera do Estado. A vulnerabilidade social e digital é
generalizada e compartilhada pela grande camada da sociedade, de uma
maneira geral. A exemplo do que citamos no primeiro capítulo deste livro,
sobre a captura de dados dos indivíduos/usuários, na matéria publicado pelo
El Pais, em 26 de janeiro de 2021, o sequestro do vazamento dos dados deixou
vulneráveis digitalmente 223 milhões de CPFs e CNPJs de brasileiros, que
tiveram os seus cadastros roubados e disponibilizados para usos ilegais.
Conforme a matéria citada, foi confirmada a autenticidade dos dados
cadastrais, de pessoas física e jurídica, de milhões de brasileiros, inclusive
indivíduos mortos, que tiveram seus cadastros de pessoas físicas e jurídicas
disponibilizados na deep web. Os dados desses indivíduos, ainda segundo a
matéria, estão sendo oferecidos para venda ao preço de 100 dólares, por pacote
contendo o cadastro de 1000 pessoas. Esse fato instaurou um estado de
exceção no governo dos algoritmos, estado esse que se associa às políticas
neoliberais de controle no governo da vulnerabilidade digital da sociedade
brasileira.
Esse processo biopolítico de controle dos dados reforça a tese do governo
dos algoritmos, sobre o qual nos alerta Silveira (2017), somada à perversão das
políticas do neoliberalismo e à destruição da privacidade na sociedade
globalizada, qual nos alerta Slobodian (2018; 2020), Han (2014) e Brown
(2019). Isso nos leva a um processo de ruína social e econômica como bem
alerta Brown, com seu livro As Ruínas do Neoliberalismo (2019).
Porém, essa questão relativa à segurança dos dados e às políticas de
desenvolvimento econômico do neoliberalismo, faz parte de uma questão bem
mais ampla. A doutrina neoliberal promove uma propagação do medo
compartilhado pela insegurança generalizada. Isso é um projeto doutrinário 
e ideologicamente estruturado, que já foi instaurado com o liberalismo em
séculos passado, quando se pensava as formas de estabelecimento dos
contratos sociais, pautadas pelo poder do Estado sobre os indivíduos e o
direito de propriedade e vida privada. Safatle (2015), fundado numa visão
hobbesiana, do contrato social, afirma que a vulnerabilidade e o afeto do medo
estão permanentemente latentes na vida social. O que leva a entender a
justificativa de que o indivíduo, pelo afeto do medo, justifica o seu poder de
proteção da propriedade e de defesa da sua liberdade, mediado pelo contrato
social de origem hobbesiana. O discurso ideológico do liberalismo usou esse
medo como dispositivo biopolítico de controle social. Com isso, o medo se
transformou também num afeto político, tendo por base a justificativa de
mecanismo de defesa, por parte dos indivíduos, na estrutura social liberal.
Ainda segundo Safatle,
Trata-se principalmente e de maneira silenciosa, de definir a figura do indivíduo
defensor de sua privacidade e integridade como horizonte, ao mesmo tempo último e
fundador, dos vínculos sociais. [...]. “Integridade” significa aqui também a soma dos
predicados que possuo e que determinam minha individualidade, os predicados dos
quais sou proprietário. Assim, a tese principal é que o medo como afeto político
central é indissociável da compreensão do indivíduo, com seus sistemas de interesses
e suas fronteiras a serem continuamente defendidas, como fundamento para os
processos de reconhecimento. (SAFATLE, 2015, p. 17).
Sua conclusão correta é que esse tipo de afeto é parte constitutiva dos
sistemas políticos e que ele é indissociável de uma produção social do medo
que na nossa visão está diretamente ligado a políticas de segurança pública, em
última instancia políticas ligadas à questão de segurança nacional e às políticas
de controle da informação. Nesse sentido, o maior ou menor grau de
vulnerabilidade, desamparo e precarização da vida social, está ligado também à
conscientização dessa condição de controle dos processos de informação e
políticas de desinformação, nessa sociedade do medo. Com isso, produzir,
reproduzir e consumir informação é fazer parte de um sistema de
compartilhamento de dados, que, de algum modo, explora o medo como
dispositivo de controle e dominação social. A autoconsciência crítica desse
fato e desse contexto, voltando à reflexão sobre a consciência histórica, se
dificulta mediante os processos ideológicos de desinformação em massa, como
a disseminação das fake news e o seu contexto de pós-verdade. 
Isso também é parte do processo de acesso a informação e desinformação, que
está ligada a outros afetos, como o ódio, que faz parte de outras políticas de
controle e disseminação de desinformação, contra aqueles segmentos que se
encontram em condições de vulnerabilidade, precarização e desamparo.
Todo esse contexto ligado às políticas do medo se amplia com o advento da
sociedade neoliberal do capitalismo de plataforma, estruturada numa
sociedade em rede, como nos referimos no início deste livro. Nessa estrutura
social e econômica se faz uso de instrumentos de controle das informações
falsas que incidem diretamente nas condições de dominação da reprodução
social. Isso leva a sociedade, de uma maneira geral, a uma situação de alerta
permanente que ajuda a justificar a intervenção do Estado no controle de todas
as áreas da vida social, numa espécie de doutrina de procedimentos de
controle neoliberal, como afirma Brown (2019). Ou como nos permite
entender que vivemos numa espécie de “democracia totalitária” presente na
genealogia do neoliberalismo contemporâneo, como bem definiu Chamayou
(2020). O que faz Chamayou ainda afirmar que na atual conjuntura do
neoliberalismo, essa democracia totalitária “é, antes de tudo, a retomada de um
lugar-comum apoiado no pensamento reacionário, motivo clássico de uma longa
tradição de ódio à democracia que remonta, no que diz respeito ao período moderno,
ao anti-iluminismo” (CHAMAYOU, 2020, p. 325). Ou seja, o neoliberalismo, e
suas formas biopolíticas de controle, nos leva a um retrocesso no qual o avanço
da sociedade fundada no capitalismo digital, que visa controlar os afetos, os
dados e vulnerabilizar, de forma generalizada, o corpo social.
Do ponto de vista filosófico, consideramos que isso é um avanço para o
atraso, como bem aponta Walter Benjamin e as teses sobre a história. Nas
reflexões benjaminianas sobre o Anjo da História, nas teses sobre história,
Walter Benjamin (1996) descreve um anjo que abre as asas de costas para o
futuro, parase proteger da tempestade, e isso o faz olhar para o passado, que é
destruído pelo progresso do presente. Segundo ele,
Há um quadro de Klee que se chama Ângelus Novus. Seu rosto está dirigido para o
passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única,
que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. [...]. Ele
gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma
tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não
pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente 
para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o
céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN, 1996, p. 226).
Essa tempestade, no nosso caso, é o que chamamos de enxurrada de
políticas de desenvolvimento de um capitalismo excludente e insustentável do
ponto de vista do equilíbrio social de qualquer sociedade, nesta era de
globalização, em que os discursos neoliberais, autoritários e as práticas
antidemocráticas autoconscientes da gestão pública atentam contra o
desenvolvimento do Estado democrático e o desenvolvimento econômico.
Essa mesma tempestade do capitalismo neoliberal atualmente se soma a
práticas ultraconservadoras de populismos digitais de líderes de governo, que
manipulam os afetos dos seus seguidores por meio das mídias sociais. É válido
ressaltar que, dentro desse contexto, há um processo de colonização do
imaginário da doutrina neoliberal. Com isso, o imaginário social dos
indivíduos ancora-se em processos de desinformação e criação de mitos
salvadores que esse neoliberalismo contemporâneo propaga, a exemplo de
líderes políticos como Trump e Bolsonaro, como discutimos anteriormente.
De certa maneira, essa reflexão afina-se com a crítica neoliberal proposta
por Gandesha (2017), em que afirma que “el neoliberalismo se centra em um modo
de governablidad del sujeito” (p. 142), a partir do qual se forja uma ilusão de
liberdade, que promove uma satisfação deliberada de desrespeito e negação da
alteridade, negação do outro por meio de pronunciamentos autoritários que
corrobora, com aquilo que com personalidade autoritária, como nos fez crer
Adorno (1950). Ainda segundo Gandesha, (2017), “Portanto, si el concepto de
personalidade autoritária fora viable em la atualidade, precisamos compreender em
qué modo pued ser entendido em las condiciones actuales del capitalismo.” (p. 135)31.
Nesse sentido, as práticas abjetas e nefastas, que promovem desinformação
nas mídias sociais, pelos atos de fala de líderes populistas, referendam essa
ilusão de liberdade do neoliberalismo autoritário. A ilusão de liberdade, de se
achar no direito de promover desinformação, que essa onda de fake news
provoca, é, na verdade, uma ilusão de liberdade que nos faz regredir
socialmente a formas rudimentares de barbárie da vida social. O personalismo
autoritário e populista de governos como Bolsonaro avançam em direção ao
atraso, proposto pela política de mobilização dos afetos da extrema-direita em
sua versão de doutrina neoliberal. Com bem analisa Barbosa (2019),
O fenômeno Bolsonaro, que é parte de uma realidade mais ampla de ascensão da
extrema-direita, precisa ser entendido na esfera dos valores. A indignação
antissistema e a certeza de que valores familiares criam um ambiente de indiferença
em relação à veracidade na política. Parece ser mais importante proteger um mundo
visto como ameaçado. (BARBOSA, 2019, p. 20).
A doutrina neoliberal conservadora que resulta desse contexto vale-se de
instrumentos ideológicos de persuasão, medo, mentira, violência, e
brutalismos políticos, que alimenta a engenharia de manipulação dos afetos,
como bem analisou Patrícia Campos Mello (2020), em seu livro A Máquina do
Ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital.
Em seu livro, ela cita que,
Na versão moderna do autoritarismo – em que governantes não rasgam a
Constituição nem dão golpes de Estado clássicos, mas corroem as instituições por
dentro –, não é necessário censurar a internet. Nas “democracias iliberais”, segundo o
vernáculo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, basta inundar as redes
sociais e os grupos de WhatsApp com a versão dos fatos que se quer emplacar, para
que ela se torne verdade – e abafe as outras narrativas, inclusive e sobretudo as reais.
Essa avalanche de desinformação muitas vezes é “impulsionada com recursos de
marketing que fazem sobressair determinados conteúdos. No Facebook e no
Instagram, por exemplo, é possível pagar para que um conteúdo atinja mais pessoas,
seja visto mais amiúde ou alcance certos públicos (segmentados por idade, gênero,
localização e outros parâmetros). No Twitter e no Facebook, quanto mais
engajamento (cliques e curtidas) tem um conteúdo, maior destaque ele recebe. No
entanto, muitas vezes usam-se sistemas automatizados, os robôs ou boots, ou então
pessoas contratadas, os trolls, para forjar maior engajamento em certos conteúdos e
dar visibilidade a certo tema, simulando uma popularidade que ele não tem. (MELLO,
2020, p. 29-30).
O conjunto de interesses dessa nova prática de governo atende a uma pauta
do ultraconservadorismo que age de forma violenta, por meio de milícias
digitais dentro da máquina estatal. Essa violência, além de brutalmente
instituída pelo poder político é ao mesmo tempo simbólica e material e está
emaranhada numa trama intersubjetiva de propagação de discursos e práticas
racistas, machistas, homofóbicas, xenofóbicas, preconceituosas e toda sorte de
narrativas abjetas que são dirigidas à sociedade, por meio de dispositivos
discursivos de pânico moral proporcionado por milícias digitais. Como bem
afirma Han (2014): También el medio digital es un medio del afecto. La
comunicación digital facilita la repentina salida de afectos. Ya solo por su
temporalidad, la comunicación digital transporta más afectos que sentimientos.
(HAN, 2014, p. 66). E esses afetos, operados de forma pontual, ajudam a criar
mitos que manipulam emoções e interesses afetivos de formas ideológicas de
pronunciamentos de ideologias falhas (STANLEY, 2015), ao modo como opera
Bolsonaro.
A idealização do mito Bolsonaro é reforçada pela fantasia, atos de fala
abjetos e retórica de ódio, fantasia que procura justificar uma insegurança
generalizada, que ameaça a todos e com isso, procura justificar um retorno do
nacionalismo aos moldes do estado de exceção. A invenção do mito Bolsonaro
se ancora no discurso da segurança nacional e no conservadorismo moralista
idealizados pelo populismo do discurso patriótico nacionalista. As suas
retóricas discursivas são tematizadas com ameaças de que o Brasil vai se tornar
um país comunista, no qual o caos vai se instaurar de forma generalizada, e a
família, a propriedade privada e os valores morais, fundados pelos ideais
cristãos, serão perdidos para sempre. A mitificação discursiva desse tipo de
pronunciamento se reverbera por meio das mídias sociais, visando
arregimentar seguidores que corroborem subjetivamente essa ideia, e que com
isso, passem a se referir ao presidente não como um chefe de Estado, mas
como uma espécie de herói do povo. Dentro desse contexto, os valores
compartilhados de forma intersubjetiva por parte dos indivíduos e os afetos
relativos a esses valores compõem o campo dos elementos operacionais do
raciocínio motivado dos ativistas seguidores desse mito criado em tono do
Bolsonaro.
Dentro desse contexto, a pós-verdade, induzida pelo raciocínio motivado,
prevalece como um dispositivo que aciona o circuito dos afetos, produzindo
uma nova forma de percepção da opinião pública sobre a política, que, no caso
de políticos como Bolsonaro, criam combinações de bravatas nacionalistas e
discursos moralistas de cunho fascista, ancorados em fake news. Como bem
afirma Barbosa (2019),
Hoje, a subjetividade irrompe por toda parte. Perpassa a crença, a vontade e os
valores; questiona a separação entre o público e o privado, entre a alma e o corpo,
entre a cidadania e o íntimo, entre o neutroe o voluntarioso. A ação política exige a
construção de ambientes coletivos que incluam as demandas da subjetividade, mas
focando em valores compartilhados que restabeleçam a confiança no social.
(BARBOSA, 2019, p. 22).
Todo esse processo tem, na nossa análise, um caráter de irracionalismo
autoconsciente fundado numa retórica da paranoia da segurança nacional e do
medo compartilhado, que ajuda a alimentar a política do ódio digital cotidiano,
nesse circuito dos afetos (SAFATLE, 2015).
O medo, como afeto político, tende a construir a imagem da sociedade como corpo
tendencialmente paranoico, preso à lógica securitária do que deve se imunizar contra
toda violência que coloca em risco o princípio unitário da vida social. Imunidade que
precisa da perpetuação funcional de um estado potencial de insegurança absoluta
vinda não apenas do risco exterior, mas da violência imanente da relação entre
indivíduos. (SAFATLE, 2015, p. 24).
O discurso da violência promove uma assimilação de desamparo político e
econômico, que aflige diretamente o corpo social, e tenta se ancorar em
distorções da realidade e pânico moral (MCLUHAN, 1964), sobre temas e
fatos inverossímeis que, muitas das vezes, beiram o absurdo, e distorcem a
realidade de forma violenta e abjeta, a um ponto inimaginável. Acreditamos
que isso promove uma insegurança ontológica, com reflete Giddens em seu
livro As Consequências da Modernidade (1991), que ajuda no aumento do
sentimento de desamparo político de pessoas, que se encontram fortemente
motivadas a agirem mediadas pela dimensão dos afetos, numa sociedade
mobilizada pelo discurso da insegurança e do medo.
Quanto à questão dos afetos coletivos, presentes no corpo social, Safatle
(2015) afirma que,
[...] apostar na crença de que a mobilização libidinal e afetiva que sedimenta os
vínculos sociais, em suas múltiplas formas, seria sempre uma regressão a ser criticada,
como se a dimensão dos afetos devesse ser purificada para que a racionalidade
desencantada e resignada da vida democrática pudesse se impor, esfriando o
entusiasmo e calando o medo. No entanto, há de se insistir ser impossível
descorporificar o social, pois é impossível purificar o espaço político de todo afeto.
(SAFATLE, 2015, p. 25).
A mobilização dos afetos políticos cria uma ressonância de sensibilidades
emocionais, no que toca sobretudo à questão da memória social e política dos
indivíduos. Essa memória entrelaça temporalidade e percepções subjetivadas e
coletivizadas. Com isso concordamos com Han (2014), quando afirma que, “La
memoria es un proceso dinámico, vivo, en el que distintos niveles de tiempo se
interfieren e influyen mutuamente. Está sometida a delimitaciones y reordenaciones.
(HAN, 2014, p. 101). A memória de uma sociedade em rede é aqui vista como
um processo de constituição de experiências compartilhadas, por um corpo
social, que incide numa incerteza do horizonte de expectativas de forma
coletiva, à medida que a pós-verdade resulta de uma desidratação da realidade
e sugere um total desapego da verdade e da temporalidade histórica. A pós-
verdade está voltada para a partilha de valores, crenças e pertenças
indenitárias, em detrimento da experiência ontológica do real vivido pela
experiência material da temporalidade do tempo presente e passado. Com isso,
a pós-verdade é a operação da ideologia agindo sobre as subjetividades
coletivas, e isso se desdobra numa psicopolítica de orientação de
comportamento e de controle, que não se atém ao conhecimento da história
ou da realidade. Nesse sentido, o processo da pós-verdade com o qual opera o
discurso fascista contemporâneo não considera o passado histórico, passando
a substituí-lo por um passado mítico, fantasioso e nostálgico de uma
experiência irreal que nunca existiu. Isso ocorre sobretudo quando se trata de
questões relativas às ideologias que visam restaurar discursos míticos e
símbolos de ordem nacionalista, que apostam na mobilização dos afetos de
uma moral civil dos cidadãos e na crença de valores partilhados por ideologias
conservadoras, amparadas por regimes de opressão impostos pela esfera do
Estado.
Nesse sentido, quando valores coletivos ligados à nação parecem estar em
riscos ou sob ameaça, esse acionamento dos afetos converge como um corpo
social moral que é ideologicamente acionado contra essa ameaça, e faz
milhares de brasileiros simpatizantes da fantasia nacionalista irem às ruas e às
mídias sociais vestidos com adereços simbólicos das cores nacionais
brasileiras, o verde e amarelo, seja numa camisa da seleção brasileira ou na
própria bandeira nacional. Não é por acaso que símbolos nacionais e valores
tradicionais, pautados em discursos, são tão usados por líderes populistas,
como Jair Bolsonaro, na tentativa de angariar legitimação do corpo social, na
luta contra essas ameaças. Nesse sentido, as ideologias falhas usadas nos
mecanismos de propaganda fascista são eficientes em acionar a mobilização do
corpo coletivo, com elementos ligados simbolicamente à ideia de nação, à
medida que propagam valores e símbolos constitutivos em um campo da
política a partir de um prisma moral.
Pautas políticas ligadas aos temas da moral e da tradição familiar, somadas
às questões da sexualidade e da moral da educação sexual são sempre um bom
exemplo de como temas dessa natureza circulam pelos dispositivos das fake
news, demonstrando um sinal de ameaça à nação. E isso faz despertar o
interesse imediato de muitos que se mobilizam em redes sociais, contra
possíveis ameaças desse tipo. Isso ocorre porque os afetos são acionados e com
isso se mobilizam comportamentos e atitudes políticas de cidadãos comuns,
dentro e fora das mídias sociais, contra supostas ameaças, que existem apenas
no plano das ideias incorporadas pela pós-verdade.
Nesse sentido, o governo da mobilização desses afetos, propostos em
práticas de vulnerabilidade biopolítica, sempre desperta a sensação de medo
coletivo, compartilhado de forma generalizada. Em tempos de pós-verdade e
fake news, uma notícia que veicule desinformação sobre assuntos delicados,
como a sexualidade infantil, homoafetividade e questões de gênero, são sempre
as mais eficazes em criar pânico moral, vide o exemplo do “kit gay”, sobre o
qual refletiremos mais adiante.
A persuasão desinformativa cria mecanismos de espraiamento
compartilhado numa ampla rede de tramas desinformativas, na qual os
indivíduos/usuários são os pontos nodais envolvidos. Os dispositivos de
desinformação visam persuadir a opinião pública na tomada de
posicionamentos sobre determinados assuntos, de forma sempre urgente e que
atendam a um conjunto de interesses que influi na memória social falseada
pela pós-verdade. A nossa questão é o quanto esses fenômenos relativos ao
binômio fake news/pós-verdade está diretamente ligado à sujeição e
manipulação da opinião pública, a partir do raciocínio motivado de forma
autoconsciente, nesse processo de governança dos afetos.
A questão da subjetividade dos afetos incide na tomada de posição da
opinião pública de forma direta e indireta, assim como incide na formação da
memória social compartilhada em rede. Assim, a pós-verdade ajuda a fazer
parecer que as mensagens das notícias falsas, e seu conteúdo
performaticamente convincente, toquem interesses a partir do acionamento
dos afetos do corpo social e mobilizam as tomadas de posição da opinião
pública nas redes sociais. A aparência muitas vezes convincente das fake news,
e o volume com que ela se apresenta, sempre causam um impacto emocional
nos receptores das mensagens. Com isso, a urgência dos debates acalorados na
esfera pública sobre as notícias falsas desperta nossa atenção e muitas vezes
acionam nossa ressonância emocional, mediante a mobilização eficaz dos
nossos valores e afetos. Todos estão sujeitos a esse processo, é preciso aprender
a filtrar e checar informações.
Dentro desse contexto, os indivíduos/usuários menos advertidos ficam
sobrecarregados diante da tempestade de desinformação, provocada pelas
notícias falsas e guerras de narrativas de fake news,por meio de mensagens
desinformativas que se apresentam como uma forte chuva de mentiras nas
mídias sociais. O medo, a insegurança, a desconfiança generalizada são parte
constitutiva dos processos promovidos na colonização da subjetividade e com
isso a colonização do nosso imaginário fica sendo um ambiente propício para
circulação de ideologias falhas, como pensa Stanley (2015).
Nesse contexto de instabilidade e medo coletivo, também se instauram
ameaças produzidas por discursos de descrédito ao conhecimento racional, em
particular o conhecimento produzido pelas instituições de conhecimento,
como as universidades. Grande parte da sociedade é levada a desenvolver um
sentimento de descrédito e deslegitimação sobre o papel que as universidades
têm na manutenção da produção do conhecimento para o desenvolvimento
social crítico. O discurso fascista, com isso, amparado em pautas ideológicas
contra a ciência e a intelectualidade, ajuda a promover a disseminação de um
discurso anti-intelectual de desmobilização e desmonte das universidades e da
educação. “A educação, portanto, representa uma grave ameaça ao fascismo, ou se
torna um pilar de apoio para a educação mítica” (STANLEY, 2020, p. 48).
No caso do Brasil, isso se aplica, seguramente. Mas há uma outra questão,
que está ligada à visão ideológica e esotérica, particularmente representada por
assessores do presidente Jair Bolsonaro, como Olavo de Carvalho, que
deliberadamente apresentam ideias contra as universidades, justificando
inclusive o fechamento de instituições importantes de ensino e pesquisa de
renome na sociedade brasileira. Para Olavo de Carvalho, o anti-
intelectualismo é uma luta a ser levada a sério pelo governo Bolsonaro, pois
esse intelectualismo não representa o povo, particularmente o povo sofrido e
excluído do Brasil.
Nas palavras do próprio Olavo de Carvalho, em entrevista apresentada no
livro A Guerra pela Eternidade, de autoria de Benjamin Teitelbaum, o ideólogo
afirma:
“O povo do Brasil – o povo pobre, o povo simples... Eles entendem as coisas muito
melhor que os intelectuais. O povo brasileiro tem uma espécie de instinto de
realidade”. Por quê? (pergunta Teitelbaum). “Acredito que seja porque a vida deles é
muito difícil. Eles não têm tempo para fantasiar.” (TEITELBAUM, 2020, p. 227).
Essa frase explica bem a perspectiva que o pensamento ultraconservador
tem sobre os intelectuais que trabalham com a produção do conhecimento
técnico e científico. E isso passa a ser um discurso que é reproduzido para a
sociedade de uma maneira geral, por pessoas como Bolsonaro, que preferem
crer nas experiências esotéricas de um assessor astrólogo, que em assessores
políticos profissionais que se amparam em experiências institucionais da
administração pública de governo.
O governo da subjetividade, nesse caso, se institui pela sensibilização dos
afetos, que operam no campo do senso comum, que se identificam muito mais
com conhecimento astrológico, esotérico e doutrinas religiosas, que com o
conhecimento da ciência. E isso vai se expressar, mais adiante na nossa análise,
quando tratarmos dos temas ligados aos discursos negacionistas e esotéricos
sobre a terra plana, em capítulos mais à frente. Mas tudo isso, toda essa lógica
abstrata de negar a realidade dos fatos, está ancorada numa forma de
pensamento mitificado. Os mitos atendem a uma demanda do pensamento
fascista, como bem afirma Stanley (2015), e qualquer pensamento fundado em
bases racionais consegue destruir facilmente os argumentos sobre o
pensamento mítico, porém, nem sempre consegue vencer a crença das pessoas
que voluntariamente acreditam nos mitos e nas fantasias criadas pelos mitos,
sobretudo nos mitos que se inventam como salvadores do povo.
Diante desse contexto de carência e vulnerabilidade coletivamente
compartilhados, líderes populistas conseguem facilmente acionar e lidar com
os sentimentos e os afetos de parte da população do país. O que faz com que
facilmente qualquer pronunciamento de líderes populistas seja levado a sério,
mesmo que sejam falas irracionais que defendam o fim da democracia, o
fechamento de instituições universitárias, ou mesmo que a população não deve
usar máscaras numa pandemia que já matou cerca de 500.000 brasileiros até
junho de 2021. É o governo dos afetos, por meio dos mecanismos biopolíticos
e psicopolíticos que fazem operar a manipulação populista das subjetividades
do corpo social.
O termo governo, na perspectiva foucaultiana, tem um aspecto complexo e
amplo e não se restringe apenas a questões relativas à gestão e administração
públicas em forma de decisões políticas tomadas de acordo com a gestão do
Estado, mas também se refere a designações por meio das quais são 
estabelecidas as formas de “[...] conduzir condutas dos indivíduos ou grupos:
governo das crianças, das almas, das comunidades, das famílias, dos doentes”
(FOUCAULT, 2010, p. 244). Os governos populistas e autoritários de líderes
como Bolsonaro representam uma ideologia personificada na construção de
um mito, que conduz um tipo de política da perversidade que se funda na
lógica do vigiar e punir. Ao mesmo tempo, esse mito não se sente confortável e
seguro diante de qualquer questionamento crítico sobre suas atitudes, seja uma
crítica de ordem pessoal, feita por qualquer cidadão, ou um questionamento
institucional da ordem de outros poderes públicos, como o Supremo Tribunal
Federal. 
A todos ele trata com o mesmo desrespeito público.
O populismo midiático das midias sociais desse tipo de líder atende apenas
aos que concordam com suas ideias paranoicas ligadas às ameaças e ao medo
compartilhado. E é a partir da construção de ameaças imaginárias e paranoias
coletivas, associadas ao discurso de ódio, que se caracteriza a governança desse
tipo de político populista na contemporaneidade. A paranoia fascista somada
aos processos da pós-verdade ajuda políticos autoritários, como Bolsonaro, a
reiterar a perversidade do processo de desinformação, como prática de seu
governo. Somado a isso, a instrumentalização das milícias digitais, que
promovem disparos de fake news, a exemplo do gabinete do ódio, reforçam a
articulação das fake news como processo de manipulação da opinião pública.
Há um processo de afinidade eletiva entre a disseminação e circulação de fake
news e a assimilação dessas, por parte de muitos indivíduos/usuários, como
visão política de mundo, no exercício de pensamento do seu senso comum e
suas representações sociais sobre a vida.
Há, com isso, uma espécie de aderência simbólica em relação aos
conteúdos falsos que as fake news ressoam, que se transformam em desejo de
verdade por grande parte de população brasileira. Esses não se preocupam em
compartilhar mentiras massificadas, pois gostariam que essas fossem verdades
absolutas. Isso nos leva a entender, por exemplo, que em processos de fake
news a confiança na emissão da mensagem parece ser mais importante que o
conteúdo falso das mensagens.
Como afirma Pinheiro,
As fake news – sejam aquelas literalmente falsas, sejam aquelas que esticam o sentido
das palavras para ter um impacto radicalmente polarizante – dependem de um
terreno fértil, já preparado para elas: a descrença generalizada em todas as
instituições, em especial na imprensa. A campanha de descrédito de jornais e da
imprensa em geral é uma peça central na promoção de fake news. (PINHEIRO, 2019,
p. 38).
A propósito disso, afirma-se que uma notícia que venha a gerar algum tipo
de confiança é repassada por pessoas próximas e por isso não é devidamente
checada, na sua origem nem no seu conteúdo, pouco importando se essa
notícia é ou não verdadeira. Essa é uma hipótese frustrante que é reforçada
com o fenômeno da pós-verdade. E ao mesmo tempo faz parecer que o usuário
das fake news seria tomado por uma “idiotia”, ou alguém com “déficit de
cognição” ou “incapacidade de discernimento”, o que não é verdade, como bem
afirma Fernanda Bruno e Tatiana Roque (2019).
Por trás das fake news, opera-se uma lógica de funcionamento de rede e
articulações de dispositivosbem mais ampla, com uma malha que envolve
governos e interesses de grupos privados, estruturados numa rede de
tecnologia de informação, com logística algorítmica de última geração, que
trabalham matematicamente com compilação de dados de usuários, na
formação de perfis de contas nas mídias sociais e manipulação de informações,
que são feitas por meio do comando que esses usuários operam nos seus
dispositivos ligados em rede.
Com vimos em páginas anteriores deste livro, os algoritmos são programas
de rotinas lógicas, encadeadas a partir de um conjunto de instruções
previamente introduzidas num sistema de informação, que tem como
propósito resolver problemas (SILVEIRA, 2017), compilar e manipular dados,
que incidem na indução de comportamentos dos usuários (KAUFMAN, 2018).
Os algoritmos reúnem um conjunto de informações e passos que são usados
nos acessos às redes sociais pelos indivíduos/usuários comuns, para realizarem
tarefas específicas por meio de dispositivos móveis, como a de acionar o botão
de likes, nas redes sociais, ou propagar fake news.
Em outras palavras, os nossos celulares, computadores e tablets são usados
como dispositivos na ponta desse sistema complexo, que opera de forma
algorítmica com a logística digital de armazenamento e manipulação de dado.
Esses algoritmos associados a programas de inteligência artificial realizam
tarefas eficazes no processo de promover um cálculo matemático que
contabiliza os comandos e informações que os usuários produzem, em forma
de clicks, criando um padrão numérico de perfil dos usuários. Esses
indivíduos/usuários estão sempre conectados em rede e sempre sendo
monitorados por uma rede mais ampla, que contempla um conjunto de dados
e informações, que são operados por máquinas, à medida que seus dados são
adicionados a esse sistema de compilação de informação.
A manipulação de dados sempre induz comportamento e consumo, além
de servirem a fraudes com o uso dos dados desses indivíduos/usuários.
Destacamos ainda o fato que cada click dado pelos indivíduos/usuários
promove uma monetarização dentro desse sistema. Ou seja, em certa medida,
os promotores dos dispositivos da indústria da desinformação das fake news
lucram financeiramente de forma direta, com a circulação de cada mensagem
relativa e essa prática digital criminosa. Promovemos um lucro direto, a partir
dos nossos cliques e dos dados dos nossos perfis nas redes sociais, fortalecendo
esse mesmo sistema neoliberal, que explora as fragilidades afetivas dos
indivíduos e sua vulnerabilidade digital, dentro de uma nova lógica da mais-
valia emocional da sociedade em rede. A superestrutura do capitalismo de
plataforma usa o afeto como moeda de troca e consumo, e a pós-verdade
funciona como uma espécie de capital emocional nessa lógica do capitalismo
das emoções, no contexto do neoliberalismo.
Esses indivíduos/usuários, na condição de internautas, são parte
importante no funcionamento desse tipo de capitalismo dos afetos, que cria
uma persuasão e induz pensamento e comportamento relativos à esfera do
consumo de ideias e opiniões políticas, assim como consumo de bens
simbólicos e culturais. Esse processo atende a uma nova forma de atuação da
indústria cultural, presente nesse tipo de capitalismo em rede.
Esse processo está ligado às novas formas da alienação promovida pela
indústria cultural contemporânea, que é fruto da cultura do capitalismo, que
Adorno já apontava nos seus escritos sobre teoria crítica (ADORNO; 2002;
2006; 2009). Ao mesmo tempo, essa máquina de desiformação é assim um
dispositivo aperfeiçoado por tecnologias avançadas no modo de operação
biopolítica e psicopolítica, insrumetalizadas pelas redes sociais no governo dos
algoritmos.
A sociedade em rede informacional é o ambiente a partir do qual os
controles programados de informações operam com base em cálculo
estruturais de softwares sofisticados de última geração, “o que implica a ampla
disseminação de algoritmos” (SILVEIRA, 2017, p. 268). Como afirma Silveira,
Celulares, tablets, smart TVs, veículos, semáforos inteligentes, mecanismos de busca
na web, sistema de aprovação de crédito bancário, entre tantos outros exemplos,
corriqueiros, todos esses dispositivos indicam a crescente presença dos algoritmos
em nosso convívio. [...]. Mesmo assim, softwares e algoritmos são invisíveis para a
maioria das pessoas. Esses códigos são apresentados pelo mercado como algo que não
precisamos saber como existem ou como funcionam, desde que cumpram sua
finalidade. (SILVEIRA, 2017, p. 268).
Nesse caso, a finalidade é a de controlar e governar qualquer tipo de
informações a partir de um conjunto de interesses, dentro dos ambientes
digitais de interação input/output. Isso está ligado ao aperfeiçoamento do
conceito de biopolítica que, segundo Foucault (1979, 2020), é definido pelo
cálculo e pela tática com os quais governos e grupos, estruturados por
mecanismos de controle, exercem seu poder de forma específica sobre a
população de uma maneira geral. Os dispositivos dessa governamentalidade
têm um caráter de implementar uma linha de força que incide, ao nosso ver,
em violência informativa e violências de outras naturezas, sobre os corpos
sociais, sob a justificativa de estar promovendo controle e segurança às
populações governadas e influenciadas por esses dispositivos disciplinares.
Mas esse processo biopolítico traduz-se numa ampla rede de dispositivos de
coleta de dados dos indivíduos/usuários, uma Big Data, como afirma Han,
(2014):
Hoy se registra cada clic que hacemos, cada palabra que introducimos en el buscador.
Todo paso en la red es observado y registrado. Nuestra vida se reproduce totalmente
en la red digital. Nuestro hábito digital proporciona una representación muy exacta
de nuestra persona, de nuestra alma, quizá más precisa o completa que la imagen que
nos hacemos de nosotros mismos. (HAN, 2014, p. 93).32
As coletas de dados são linhas de ações desses dispositivos que funcionam
por um conjunto de dispositivos que são estruturados na captura de dados de
toda natureza, em relações aos indivíduos/usuários em rede, que habitam
bolhas digitais, em que dados são compilados a partir de linhas de
programação que avaliam clicks. Esse gerenciamento dos dados dos
indivíduos/usuários é definido a partir do que os analistas e pesquisadores em
rede de segurança digital chamam de filtro de bolhas. As bolhas digitais
funcionam como espaços públicos eletrônicos, sobre os quais os
indivíduos/usuários circulam digitalmente, sociabilizando dados e
compartilhado ações e comportamento. (PARISER, 2011; MANSERA, 2015;
SANTAELA, 2018).
Como afirma Santaella (2018):
Tudo o que você gosta de ver e ouvir em serviços de streaming, quem você curte nas
redes sociais, o que você compra nas lojas online, o que você joga no seu videogame,
suas viagens, seus desejos, suas conversas por e-mail ou mesmo no WhatsApp; tudo
isso está sendo monitorado 24h pelo grande olho da rede. Essa grande máquina social
invisível, fruto da enorme personalização dos ambientes online, usa todos os dados
coletados da sua vida digital para te oferecer tudo aquilo que ela considera relevante
para você. (SANTAELLA, 2018, p. 08).
Esse conjunto de interesses, que não são promovidos por esses usuários,
mas sim por grupos privados e públicos que têm interesses em pautas que
atendam, especificamente, ao desejo de controle sobre novas motivações,
comportamentos e tomadas de posição dos indivíduos, que são espraidas por
redes e grupos sociais. Segundo Han (2014):
El número de direcciones web es prácticamente ilimitado. De este modo es posible
dotar a cada objeto de uso de una dirección en internet. Las cosas se convierten por sí
mismas en proveedores activos de información. Informan sobre nuestra vida, sobre
nuestro hacer, sobre nuestras costumbres. (HAN, 2014, p. 94).33
Isso se enquadra naquilo que vimos a partir de Foucault (2010, 2020) sobre
o governo de si e governo dos outros, a partir dos quais são dirigidas formas de
condutas e manipulações de práticas e costumes, que incidemem
comportamentos esperados. Governar, nesse sentido, é operar de forma
estrutural o campo de atividade dos governados, no sentido de ter uma forma
de gestão sobre o comportamento alheio. Com isso, Silveira argumenta que
esse processo se torna fundamental para que se possa entender a
funcionalidade dos algoritmos, nas novas formas de governança, no sentido de
[...] como os gestores e cidadãos podem pensar o poder em relação aos dispositivos – os
algoritmos – que são criados por empresas que, em muitos casos, buscam objetivos bem
diferentes daqueles declarados pelas leis e pelos programas e projetos formulados no interior
do Estado. (SILVEIRA, 2017, p. 270).
Esse procedimento de governança, em contexto contemporâneo, incide em
políticas de monitoramentos e vigilância das subjetividades, por parte de
grupos que visam disseminar mensagens com os objetivos e propostas muito
bem definidas e muito bem articuladas do ponto de vista do uso das redes
sociais, como é o caso do chamado gabinete do ódio34, na gestão do poder
executivo da Presidência da república brasileira.
Esse exemplo reflete bem como as fake news, dentro do Palácio do Planalto
na gestão do presidente Bolsonaro, são produzidas por grupos privados que
atuam no âmbito do gabinete da Casa Civil da Presidência da República,
segundo investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito Mista – (CPI
Mista), composta por senadores e deputados do Congresso Nacional, que
investiga as fake news ligadas à Presidência da República. Segundo essa CPI
mista constatou, esse grupo criminoso é financiado por empresários e por
membros da sociedade civil, que montaram uma indústria de notícias falsas
que se espraia por outros órgãos públicos e por escritórios privados. Essa ação
criminosa atende a demandas de criação de caos de desinformação, ataques e
assédios contra membros dos poderes, judiciário e legislativo, assim como
promovem ataque contra a imagem de intelectuais, artistas e pessoas públicas
de uma maneira geral.
Gostaria aqui de fazer uma pequena reflexão sobre o uso da imagem como
elemento constitutivo dos dispositivos desinformação e difamação nesse
processo ideológico, no qual os algoritmos e as fake news são usados como
instrumentos. As fake news difamatórias ou as que visam projetar mentiras
sobre pessoas públicas, que trazem em seu contudo um referente imagético da
pessoa alvo, passam a lidar com uma imagem icônica, que reverbera sentidos à
medida que essa imagem está associada a um pronunciamento visual (SILVA,
2020). E isso causa um maior impacto pela representação do ícone que se quer
mostrar. No caso das mensagens nas quais a imagens de líderes populistas
sejam apresentadas no primeiro plano, sejam essas mensagens contra ou a
favor desse líder, faz com que seja destacado o ícone de referência, dentro de
um processo de aderência simbólica (PIRES e SILVA, 2016). A aderência
simbólica é um fenômeno que ajuda a criar uma situação de imagem, na qual
se destaca uma composição que reverencia o ícone que a pessoa retratada
representa, não o retrato em si. O ícone de referência é um processo que
favorece a promoção visual de políticos populistas que têm sempre a sua
imagem circulando de forma permanente no circuito da cultura visual das
mídias sociais (SILVA, 2020). A imagem do ícone se torna a imagem de um
perfil e tudo que esse possa e quer representar.
Seguindo essa linha de raciocínio, o retrato de políticos como Trump e
Bolsonaro estiveram sempre em evidência nas produções da fake news, pelo
fato de fazerem com que seu perfil usual e suas imagens adquiram uma tônica
de ícones de referência de liderança. É nesse ponto que a imagem do perfil do
ícone encontra espaço para a construção da imagem de um mito político.
Nesse sentido, quando um conteúdo de fake news traz a imagem de alguém,
esse conteúdo tem maior assimilação e maior circulação, à medida que a
mensagem visual do retrato transmite o foco do impacto que se deseja
alcançar, pelo afeto que ela pode despertar. Isso se complementa com
conteúdos de desinformação que tragam, além de imagens de pessoas, sons,
textos e figuras associados a conteúdos das mensagens, fazendo com que se
possa acionar a percepção pelos sentimentos e seus afetos de forma mais
instantânea. Não é à toa que as imagens de líderes como Trump ou Bolsonaro
foram forjadas com um perfil tão objetivamente assertivo.
Não é a imagem do político em si, mas a mítica do político que a imagem
representa, ou tenta representar. Não é a verdade que ele traz nas palavras,
mas o impacto que suas palavras têm quando associadas à sua imagem. A
imagem define o perfil que se deseja apresentar. Esse processo funciona como
um modelo de dispositivo da cultura visual, em que a imagem criada é muito
mais aceita que a imagem natural das pessoas. Pois a imagem criada como
ícone de referência tem o poder de promover uma projeção de um conjunto de
valores simbólicos que se difundem na esfera pública acionando afetos e
desafetos públicos, aderência ou rejeição simbólicas. A criação da imagem
pública nem sempre é em si a criação de uma imagem mítica, mas no caso dos
líderes populistas como Trump e Bolsonaro, essa afirmação se justifica. A
imagem de ambos, representam mentira!
Seguindo essa linha de análise, pode-se afirmar que há muitos traços
paralelos no perfil da imagem de Trump e Bolsonaro, como analisa Garbaudo
(2018) e Cesarino (2020). Ambos representam a força de um novo populismo
emergente, que usam a retórica discursiva de extremismos ultraconservador e
os dispositivos das fake news como práticas de políticas pessoais. 
Ambos atendem a uma demanda discursiva de nacionalismos extremistas, que
se pretende criar formas institucionais, de vigilância paranoica e punitiva,
contra inimigos imaginários, criados de acordo com interesses questionáveis e
antidemocráticos. Os seus pronunciamentos e atos de fala são, ao mesmo
tempo, abjetos e moralistas e igualmente atendem a retóricas anti-intelectuais,
contra as instituições de conhecimento e informação. Essas características têm
aderência simbólica ao retrato do mito e a ideologia abjeta que personagens
como Trump e Bolsonaro representam, na cena pública que participam. Os
paralelos na construção da imagem do perfil desses líderes seguem um padrão
de características similares. O caráter dessa similaridade imagética se cristaliza
na construção da imagem ícone de um perfil de um novo populismo que
ambos querem passar. Com isso, Trump e Bolsonaro se valem de um certo
poder de mitificação de líderes e da fantasia que isso propaga. Esse artificio da
imagem mítica passa a ter valor que ajuda a justificar a crença que milhões de
pessoas têm sobre eles e assim os sigam, nas mídias sociais, onde suas imagens
figuram como pessoas acima do bem e do mal, para os seus seguidores. Esse
contexto demonstra que a imagem da racionalidade política e a impessoalidade
nos processos da democracia moderna estão em crise.
Como afirma Agamben (2003), as institucionalizações na modernidade
estão, a todo tempo, em vias de um processo de crise e conflito e por isso os
poderes biopolíticos buscam formas cada vez mais sofisticadas de política e
controle de vigilância do poder, que justificam o policiamento e
monitoramento sociais por parte de quem governa. No caso dos líderes
populistas, ele toma para si o poder de decisão e controle do Estado,
prescindindo de uma racionalidade pública. Isso nos faz procurar entender
como as formas de racionalidade são importantes para lançarmos mão de uma
crítica ao fenômeno da ideologia da desinformação, assim como nos faz
refletir sobre a necessidade de entendermos o papel da verdade pública dentro
de um contexto de racionalidade democrática. Por isso nos embasamos em
autores que se debruçaram sobre uma crítica à racionalidade para, a partir
disso, entendermos o absurdo dos novos sistemas de crenças em valores que
mitificam pessoas e fatos, que são compartilhados por muitos, na sociedade em
rede, na qual a racionalidade pública parece cair em desuso. Isso nos faz
perguntar: comoentender o desuso da razão? Como avaliar o desejo de se crer
em mitos? E como refletir sobre os usos do medo, como modo operante de um
regime político, sobre o qual se faz uso do discurso do ódio, como instrumento
de governabilidade?
Buscamos entender a reprodução dessas questões diante do regime
discursivo, que é legitimado por parte de milhões de indivíduos, que se
identificam com o terror, com o ódio e com várias outras formações
discursivas que incidem racismo, xenofobia, machismo, que reiteram forma de
dominação do dispositivo de governo biopolítico. A reificação presente nessa
nova forma de controle biopolítico aciona afetos como resposta a um conjunto
de proposições ideológicas, em forma de imagens, sons, figuras e ícones que
são propagados massivamente no cenário de emergência dessa nova direita.
Com isso, o processo da pós-verdade e das fake news conseguem produzir uma
violência desiformativa em tempo integral, durante sua a duração online.
Os efeitos da pós-verdade e das fake news, neste contexto contemporâneo,
têm como principal característica o poder de inibir, induzir, condicionar,
convencer, persuadir e mitificar a realidade. O que faz com que se tenha
espaços cada vez mais irracionais para a emergência da forma do pensamento
mítico contra o pensamento racional. Os mitos ressurgem como uma forma de
pensamento mágico e fantasioso, que volta agora em forma da ilusão de uma
mentira, que desperta crenças políticas compartilhadas no presente, dessa
sociedade em rede. Esses fenômenos míticos retornam como fantasia do
irracionalismo ideológico da indústria da desinformação nessa
hipermodernidade em que vivemos. Acredito que a pós-verdade e as fake news
sejam essa espécie de fantasias dessa nova indústria de massa, que assombram
o inconsciente coletivo, fazendo com que sejam eleitos figuras míticas e
autoritárias que assumem um postura populista ultraconservadora.
Retornando pontualmente ao conceito de populismo, de Ernesto Laclau
(2013), diríamos que essa leitura mítica sobre a figura simbólica da esfinge que
devora homens fez parte de uma interpretação do campo da psicologia social
do século XIX, que lidava com o poder das multidões como um monstro
devorador da liberdade. Na visão de Le Bom, “As multidões assemelham-se, de
certo modo, a esfinge da antiga fábula. É necessário chegar a uma solução dos
problemas oferecido por sua psicologia ou então resignaríamos-nos a sermos
devorados por elas” (LE BOM, 1980, p. 52). Sobre esse aspecto, segundo Laclau:
“Le Bom elaborou a descrição mais sistemática da psicologia das massas até então
oferecida, uma descrição que alcançou instantâneo e duradouro sucesso e foi
admirada por muitas pessoas, entre elas Freud” (LACLAU, 2013, p. 57). De fato, o
poder desvanecido da multidão é uma verdadeira odisseia em forma de
colonização cultural e doutrinária do imaginário e colonização da esfera
pública nesse novo contexto de formação da nova direita de grupos políticos
na sociedade. Simbolicamente, concluiríamos este capítulo, afirmando que na
era da pós-verdade as fake news parecem ter um poder mítico sobre uma
grande parte dos indivíduos, que de forma autoconsciente reiteram um valor
de uso à mentira compartilhada.
Esse aspecto mítico nos faz repensar no canto das sereias da Odisseia de
Homero, ou o poder imperioso e implacável da esfinge que foi vencida por
Édipo Rei, como nos mostrou a literatura mítica da Grécia antiga, que foi
também analisada por Adono e Horkheimer (2006). Na Odisseia, um indivíduo
astuto como Ulisses, soube agir de forma racional e objetiva frente ao encanto
das sereias. O binômio fake news/pós-verdade ancorados em raciocínio
motivado e filtros de bolhas digitais, se transforma, hoje, numa espécie de
canto das sereias, que evoca uma razão mítica e cínica, fundadas em
desinformações e atos de falas abjetos que se somam às várias outras formas de
violências, sobre a vulnerabilidade do corpo social. A razão mítica, nessa
odisseia de fake news, provoca a sensibilidade dos afetos e seduz a muitos pelo
prazer da perversão compartilhada nas mídias sociais.
Tudo isso, sem dúvida, prescinde da lógica e da racionalidade crítica e do
poder de esclarecimento e discernimento que nos foram apresentados por
Adorno e Horkheimer (2006). Entendamos um pouco dessa crítica sobre o
mito da pós-verdade e a ilusão ideológica do canto das sereias
contemporâneos das fake news, presentes no irracionalismo de conveniência
do fascismo digital das redes sociais. E para tanto, vamos nos valer da razão
crítica na elaboração do conhecimento filosófico, científico, educacional e
estético, com o papel de contribuir para a formação dos sujeitos com a
consciência livre de reificações.
4
ADORNO E A CRÍTICA AO PENSAMENTO MÍTICO:
SOBRE A NECESSIDADE DE ESCLARECIMENTO NA PÓS-
VERDADE
O esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do mítico.
Theodor W. Adorno.
Bolsonaro não tornou ninguém cruel, preconceituoso, racista, homófobo, misógino, xenófobo,
intolerante e idiota. Essas pessoas sempre existiram, apenas precisavam de um “mito” que desse
voz aos seus pensamentos.
@historialiberta.erika35
Segundo Habermas, em uma breve análise sobre o texto Ulisses ou o Mito do
Esclarecimento, escrito por Adorno e Horkheimer, “O canto das sereias evoca uma
felicidade que outrora a relação flutuante com a natureza concedia; Ulisses entrega-
se às seduções como alguém que se sabe já́ acorrentado” (HABERMAS, 1998, p.
110). Mas, justamente por isso, Ulisses se torna sujeito de si, autoconsciente
pelo uso das suas astúcias. Ser astuto, tático e ardiloso eram as características
de Ulisses (Odisseu) que se aventurou em enfrentar mitos, viagens perigosas
por mares desconhecidos e consegue, às custas de um raciocínio ardiloso,
superar o encantamento de sereias que os seduziram e vencer a fúria faminta
de um gigante que o prendera numa caverna. Ulisses sempre agiu a parir de
uma estratégia individualista e heroica, nas aventuras da Odisseia de Homero.
Ainda, segundo Habermas (1998):
Nas aventuras do errante e astuto Ulisses espelha-se a história original de uma
subjetividade que se subtrai à violência das potências míticas. O mundo mítico não é
a pátria, mas o labirinto em que importa escapar [...]. Sem dúvida que as narrativas
míticas chamam o indivíduo de volta às origens genealogicamente transmitidas
através da cadeia das gerações; mas as práticas rituais que devem fazer vencer e sanar
a 
distanciação culposa aprofundam simultaneamente o abismo. O mito da origem
mantém o duplo sentido do “surgir”: o arrepio ante a erradicação e o respirar aliviado
por ter escapado. Por isso Horkheimer e Adorno seguem a astúcia de Ulisses até ao
fulcro dos ritos sacrificiais; a estes é inerente um momento de engano, na medida em
que os homens se resgatam da maldição das potências vingadoras pela apresentação
de substitutos carregados de valor simbólico (HABERMAS, 1998, p. 110).
Para Adorno e Horkheimer (2006), esse aspecto mítico relativo à crítica à
subjetividade astuta, presente no “Excurso I: Ulisses e o Mito de
Esclarecimento” (2006), diz respeito, em primeiro lugar, a uma crítica da forma
de poder mítico, de imposição ideológica e autocrática, que culminou no
fascismo e no nazismo que conhecemos no século XX. Essa crítica que Adorno
e Horkheimer (2006) revela está ancorada na leitura que eles fazem da filosofia
de Nietzsche, que já havia exposto, de forma crítica, uma contundente reflexão
sobre a maneira pela qual o mito de líderes, reconhecidamente poderosos ao
longo da história, como Napoleão Bonaparte, que vilipendiaram a sociedade
que governavam. Na crítica de Adorno e Horkheimer (2006), Nietzsche aponta
para o fato de que se faz necessário, “Levar esclarecimento para o povo (p. 47).”
Para esses pensadores, da mesma forma que o mito, fundado em líderes
políticos do liberalismo, merece ser analisado criticamente, o mesmo deve ser
feito em relação à forma de governo e de estado que foi forjado por esse
imaginário político-liberal, que ajudou a estruturar o nazismo.
A noção políticade Estado, fundada com o liberalismo do século XVII e
estruturado como modo dominante como Estado-nação na passagem do
século XVII para o XIX, é criação que resulta de um poder ideológico, que foi
forjada pela influência do iluminismo e do pensamento liberal (ADORNO;
HORKHEIMER, 2006). Com isso, é preciso que se faça uma crítica sobre o
papel do Estado, nesse processo mítico de criar líderes, para que se possa fazer
uma reflexão sobre o modo de dominação que esse Estado impõe sobre os
cidadãos, no sentido de exercício de controle e dominação sobre seus
comportamentos.
Para os pensadores da escola de Frankfurt, esse processo instaura uma
alienação política e cultural que faz com que os sujeitos entrem num processo
de reificação subjetiva, na medida em que perdem sua autoconsciência como
sujeitos históricos, mas não perdem a sua autoconsciência como indivíduos
burgueses e liberais. Ainda, para Adorno, essa alienação do sujeito histórico se
amplia em várias outras dimensões do político e artístico-cultural da sociedade
moderna liberal, que vai se instaurar com o capitalismo dominante, nos
séculos XIX e XX, e que na nossa visão se reconfigura no século XXI da
sociedade em rede, sobre a qual se estrutura o capitalismo digital que lida com
o valor de uso das emoções dos indivíduos (HAN, 2014), de forma
instrumental, dentro de uma lógica neoliberal e conservadora contemporânea.
O que destaco desse processo é que tanto na forma do pensamento
foucaultiano, que tratamos nos capítulos anteriores, como no pensamento
adorniano, em ambos os casos, o processo da ontologia do ser social se
distancia da consciência histórica, e com isso diminui a capacidade desses
sujeitos de se verem com agentes de controle e mudanças de suas próprias
histórias, em suas próprias vidas tanto privada como pública. A ideia lançada
pelo iluminismo e suas formas de racionalismo do século XIX de que os
indivíduos são singularizados e livres, ideias que definem o imaginário do
homem burguês individualista, retira do ponto de vista ontológico a
consciência da liberdade do ser social, à medida que a ideia de liberdade vai ser
estabelecida por formas de controle e domínio das condutas coletivas e
individuais, forjada pelo pensamento sociológico positivista.
Sendo assim, tanto para Foucault quanto para os marxistas frankfurtianos,
não existe liberdade na sociedade moderna que é estruturada pela lógica
burguesa liberal. O modo dominante que impera pelo imaginário liberal na
modernidade, solidifica formas de dominação, domesticação, controle e
coisificação do sujeito. A esse respeito, Adorno (2009) e Lukács (2003) veem
como forma de dominação essa ideologia liberal que se estabelece como modo
de reificação e subjetivação da consciência social. Para Adorno, a alienação
política dos sujeitos faz com que haja uma perda de consciência crítica, que é
promovida pelo mito do governante estadista, que age de forma autocrática no
gerenciamento do Estado, a exemplo do governo de Napoleão Bonaparte na
França que se modernizava politicamente e do nazismo da Alemanha após a
primeira guerra.
Da mesma forma, isso se complementa com a questão da dominação
cultural, implementada pelas formas de massificação da cultura, oriundas da
democracia liberal e seus bens culturais desenvolvidos pelo capitalismo
moderno, que vão resultar no que Adorno conceitua como indústria cultural.
Para Adorno, em todos os aspectos, o esclarecimento deve prover a
consciência dos sujeitos. Pois, o esclarecimento ajuda a promover consciência
crítica: “Eis a tarefa do esclarecimento: tornar, para os príncipes e estadistas, todo seu
procedimento uma mentira deliberada [...]” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p.
47). O esclarecimento a partir do iluminismo, que se serviu de uma lógica
capitalista na modernidade, serviu para que governos se valessem do
esclarecimento para alienar a massa do ponto de vista da produção, circulação
e consumo proveniente de uma industrialização da cultura massificada e de
uma cultura de governo em nome do progresso. Segundo esses filósofos, “A
maneira pela qual as massas se enganam acerca desse ponto, por exemplo, em toda
democracia, é extremamente valiosa: o apequenamento e a governabilidade dos
homens são buscados como progresso”. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 47).
Adorno e Horkheimer primam por uma crítica ao racionalismo liberal
iluminista de forma mais estrutural. Dentro dessa perspectiva crítica, eles
apontam para uma duplicidade ambivalente do papel dos processos de
esclarecimento, que deve ser levado em conta, pois, para ambos, o pensamento
esclarecido deve servir para apontar uma crítica contundente ao pensamento
mítico. De outro modo, o esclarecimento não estearia livre do tipo de
pensamento que se funda no poder da mitologia e seus dogmas e lendas. Como
eles apontam, “Através da identificação antecipatória do mundo totalmente
matematizado com a verdade, o esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do
mítico.” (ADORNO e HORKHEIMER, 2006, p. 33). Segundo esses pensadores
isso é um ledo engano, vimos isso com a ascensão do fascismo nos anos 30. E
vemos isso hoje, na segunda década do século XXI.
O ultraconservadorismo da nova direita extremista atual se funda em
discursos míticos e tradicionalismos, como bem descreve Benjamin
Teitelbaum (2020) em seu livro, A Guerra pela Eternidade: o retorno do
tradicionalismo e a ascensão da direita populista, que nos leva a entender que a
capacidade de racionalidade crítica dos indivíduos parece perder força diante
de uma barbárie de pensamento e ação, fundados em dogmatismos míticos e
tradicionalismos insanos no mundo contemporâneo.
Nada mais próximo do pensamento mítico e fantasioso da insanidade
tradicionalista que o que testemunhamos na invasão do Capitólio, no dia 6 de
janeiro de 2021, em que se via indivíduos, vestidos com fantasias de mitos
vikings e cabeça de Minotauro, agindo de forma bárbara contra a democracia
americana, sob o comando de um líder político autocrático, Trump. O episódio
da invasão do Capitólio protagonizou um modo de operação orquestrado pelo
poder da nova indústria cultural das fake news e por uma ideologia fascista da
extrema direita contemporânea, que propagava ações de violência contra a
democracia instituída nos EUA.
Segundo Adorno e Horkheimer, as formas do pensamento contemporâneo
parecem estar alienadas pelo racionalismo ingênuo e pela massificação
cultural, no qual, “O pensar reifica-se num processo automático e autônomo,
emulado a máquina que ele próprio produz para que ela possa finalmente substituí-
lo.” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 33). Os autores da Escola de
Frankfurt procuram refletir sobre o fato de que a sociedade diante de tanta
racionalidade, volta a afundar numa espécie de barbárie mítica moderna, sobre
a qual se instaura um processo de regressão política e cultural, que busca ferir
de morte o esclarecimento que herdamos da razão iluminista, que nos serviu
de base para a construção de um pensamento formal, lógico, racional e crítico,
como nos fala Habermas (1998).
Da mesma forma que Habermas, Anne Marie Gagnebin (2006) afirma que
o esforço que Adorno e Horkheimer fazem é exatamente o de encontrar, uma
forma de explicar
[...] a descrição da construção exemplar de um sujeito racional que, para se construir a si
mesmo como “eu” soberano, deve escapar das tentações e das seduções dos mitos, assegurando
seu domínio sobre a natureza externa e, também, sobre a natureza interna, sobre si mesmo
(GAGNEBIN, 2006, p. 13).
Procuremos entender um pouco esse caráter do mito do esclarecimento,
presente na análise crítica que Adorno e Horkheimer (2006) fazem a partir da
Odisseia de Homero, em sua análise do poder dos mitos sobre os homens. Eles
afirmam que só o sujeito consciente de si, poderia vencer os mitos e as lendas
obscuras e os monstros que foram narrados nos textos homéricos, em que se
descreve o “[...] trajeto de fuga que o sujeito empreende diante das potências míticas”.
(ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 49). Nesse caso, Ulisses, o herói da
Odisseia de Homero,era o sujeito consciente de si, que sempre escapava das
armadilhas dos seu destino. Sua fama, como sujeito, se fazia presente a cada
estágio da Odisseia, em que a literatura o transformava de indivíduo sem
consciência em sujeito consciente de sua materialidade.
O poder mítico e mágico, presente no imaginário literário descrito por
Homero, demonstra como se impunha medo e dominação sobre os homens,
por meio das formas de escravização, sedução e morte, impostos por lendas de
sereias e gingantes violentos. Diante de tal fato, era preciso fazer uso de uma
inteligência singular, caracterizada pelo saber tático e ardil, para se poder
sobreviver nesse mundo, sob pena de sucumbir diante de um poder brutal.
Homero, quando escreveu a Odisseia, encontrou nas figuras lendárias e míticas
uma potência narrativa com a qual descreveu, de forma singular, o poder dos
mitos sobre os homens comuns, ou seja, os mortais. Ulisses, além de astuto, foi
um personagem observado por Zeus que o ajudou em um momento específico
no retorno para sua casa. Fora isso, Ulisses fazia tudo a sua maneira, com o uso
de sua inteligência astuciosa e ardilosa, para sobreviver a todos os perigos que
atravessou seu caminho, durante a sua viagem de dez anos, de retorno a sua
pátria, Ítaca.
Homero conta que Ulisses era rei de Ítaca e marido de Penélope. Esse rei se
aventurou em viagem navegando pelos mares, depois de ter sido derrotado em
Tróia, na guerra contra os gregos. Nessa viagem ele despertou a ira do Deus
Poseidon, quando cegou seu filho, o ciclope Polifemo, que era gigante, forte e
possuía apenas um olho no centro da testa. Polifemo morava com outros
ciclopes, numa ilha distante, qual Ulisses chegou a visitar. O gigante de um
olho só era um Ciclope o que habitava uma caverna e vivia do pasto de ovelhas,
com as quais saia todas as manhãs pela ilha. Ulisses e seus companheiros de
embarcação, curiosos em conhecer esse mito, se aventuraram até a caverna
para ver de perto o ciclope Polifemo. Porém foram surpreendidos pelo gigante
e ficaram presos na caverna. Depois de perdê-los, Polifemo prometeu devorá-
los durante o jantar, mas não antes de saber o nome da sua presa. O gigante
então perguntou qual era o nome de daquele que se aventurava a entrar na de
sua família, de forma tão atrevida. Polifemo morava com seus irmãos na
caverna.
Ulisses respondeu, de forma inteligentemente ardilosa.
– Meu nome é “Ninguém”.
O ciclope passou então a tratá-lo por “Ninguém”. Mesmo preso, Ulisses
decidiu argumentar com gigante Polifemo. E falou para o ciclope que, já que
ele iria devorá-los durante o jantar, ele deveria comê-los acompanhado por um
bom vinho.
Segundo a narrativa de Homero, Ulisses expressou que nada seria melhor
que um vinho de ótima qualidade, para harmonizar com a carne humana,
durante o jantar. Vinho esse que Ulisses traria em seu navio e poderia oferecer
ao ciclope para que ele o bebesse durante o jantar. Convencido de que era uma
boa ideia, Polifemo permitiu que “Ninguém” fosse até a embarcação pegar os
barris de vinho para ele. O ciclope, que não era acostumado a beber vinho,
bebeu até se embriagar e dormiu sem fazer o jantar. Bêbado e indefeso, foi
atacado por Ulisses, que perfurou o seu único olho, deixando-lhes cego e
gritando de dor, ao ponto de chamar atenção dos seus irmãos, os outros
ciclopes que estavam fora da caverna e vieram saber o que havia ocorrido.
Polifemo foi perguntado quem havia furado seu olho, e em resposta, o ciclope
falou repetida vezes.
— Ninguém furou o meu olho.
Isso foi motivo de riso por parte dos seus irmãos ciclopes, que saíram e
deixaram o gigante bêbado dormindo na caverna, achando que ele próprio
havia se machucado e ficado cego. Aproveitando-se desse momento, Ulisses se
escondeu durante toda a noite até o amanhecer e fugiu agarrado a lã da barriga
do carneiro que o gigante, ainda com dor e ressaca, levaria para o pasto na
manhã seguinte. Ao chegar no barco, soltou as amarras da embarcação e se
afastou da ilha. Mas ainda muito próximo à praia, não se conteve e gritou seu
verdadeiro nome ao ciclope.
– O meu verdadeiro nome é Ulisses.
O gigante, tomado pelo afeto do ódio incontido, arremessou uma enorme
pedra na direção do barco, mas não consegui atingi-lo. Polifemo falou do
ocorrido para seu pai, o Deus Poseidon, e pediu a ele que lançasse uma
maldição contra Ulisses, para que ele não conseguisse chegar ao seu destino.
Ulisses se tornara senhor de sua razão, vencendo de forma consciente seus
inimigos míticos, enfrentando-os com o uso subjetivo do pensamento
ardiloso. Ele vence os mitos se fazendo valer do seu próprio esclarecimento
astuto e tático na busca de determinados fins, sobre os quais os meios estariam
justificados, pelo uso da razão. Esse processo faz com que Adorno e
Horkheimer analisem o personagem Ulisses como esse saísse de uma história
romântica da cultura burguesa iluminista, num mundo em que o pensamento
formal racional não existia como modelo de racionalidade de pensamento.
Na Odisseia, o imaginário mítico determina as formas do saber e do agir.
Embriagar o gigante Polifemo foi uma estratégia que o fez sobreviver à
brutalidade da lenda do ciclope, porém ao mesmo tempo negar o seu próprio
nome seria negar o seu próprio feito, coisa que sua razão estratégica não
permitiu, pois se afirmar pelo feito demarcou a sua vitória contra o mito. E
Ulisses não se permitiu a isso à medida que pronunciou sua identidade,
falando em voz alta e de forma individual o seu nome verdadeiro nome
“Ulisses”, para que se soubessem quem ele havia sido o sujeito de tal feito. Um
gesto típico do ego individualista da cultura burguesa. Revelar seu verdadeiro
nome seria deixar sua marca de identidade registrada na odisseia, como mortal
que havia vencido os Deuses. Com isso, seu nome também viraria uma lenda,
pela ressonância da estratégia do seu feito.
Com analisa Adorno e Horkheimer, a astúcia de ocultar seu próprio nome,
e substitui-lo por Ninguém, revela uma negação de si próprio, como tática
astuciosa que aumenta ainda mais a sua fama.
O cálculo que Ulisses faz de que Polifemo, indagado por sua tribo, quanto ao nome do
culpado, responderia dizendo: Ninguém e assim ajudaria a ocultar o acontecido e a
subtrair o culpado à perseguição, dá a impressão de ser uma transparente
racionalização. Na verdade, o sujeito Ulisses renega a própria identidade que o
transforma em sujeito e preserva a vida por uma imaginação mimética do amorfo. [...].
O astucioso Ulisses não pode agir de outro modo: ao fugir, ainda ao alcance das
pedras arremessadas pelo gigante, não se contenta em zombar dele, mas revela seu
verdadeiro nome e sua origem, como se o mundo primitivo, ao qual sempre acaba por
escapar, ainda tivesse sobre ele um tal poder que, por ter se chamado de Ninguém,
devesse temer a voltar a ser ninguém, se não restaurasse sua própria identidade
graças à palavra mágica, que a identidade racional acabara de substituir. (ADORNO;
HORKHEIMER, 2006, p. 63).
A astúcia e o sacrifício eram as formas que Ulisses usava para se sobressair
ao poder imperioso, sobre o qual ele não podia vencer com sua força física. A
sua sobrevivência advinha de sua força subjetiva, que funcionava como um
instinto de autopreservação racional individualizada, que associa meios a fins.
A transformação do sacrifício em subjetividade tem lugar sob o signo daquela astúcia
que sempre teve uma parte no sacrifício. Na inverdade da astúcia, a fraude presente
no sacrifício torna-se um elemento do caráter, uma mutilação do herói astuto
arrojado pelo mar e cuja fisionomia está marcada pelos golpes que desferiu contra si
mesmo a fim de se autoconservar. Aí se exprime a relação entre o espírito e a força
física. O portador do espírito, o que comanda (é assim que o astucioso Ulisses é quase
sempre apresentado) é, apesar dos relatos de suas façanhas, sempre fisicamente mais
fraco do que as potências dos tempos primitivos com as quais deve lutar pela vida.
(ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 54).
Da mesma forma que Ulisses sobreviveu à ira de Poseidon eaos ataques de
Polifemo, ele também fez uso de seu raciocínio tático para sobreviver ao canto
enfeitiçador das sereias. Como bem explica Adorno e Horkheimer (2006),
Ulisses, ao tentar retornar a sua casa, na ilha Ítaca, se aventura em ouvir o
canto das sereias que enfeitiça os homens ao ponto de enlouquecê-los e levá-
los a morte. Até onde se sabe, nenhum homem conseguira sobreviver a tal
encantamento. Mesmo assim, Ulisses se atreve a tal aventura. E para isso ele
desenvolve uma tática bastante astuta para sobreviver à lenda das sereias e
desfrutar do encantamento da arte da música que elas cantam à beira do mar,
na tentativa de atrair suas vítimas para devorá-las.
Nesse episódio em que Ulisses vai se aventurar com as sereias, ele não
confrontará a força brutal de um gigante, mas a sedução da arte, por meio do
canto que enfeitiça as mentes dos homens. O mito da arte na Odisseia
simboliza algo perigoso, que na narrativa de Homero se representa como algo
que seduz, enfeitiça, aprisiona e mata. O canto encanta ao ponto de se fazer
perder a razão e a consciência de si. Nesse caso, o pensamento racional e
astuto de Ulisses se revela da seguinte forma. Ele determinou que toda sua
tripulação deveria ter os ouvidos tapados com cera, para não ouvirem o canto
das sereias, nem os gritos e gemidos dele próprio, ante a exposição da música
sedutora, estando ele com os ouvidos livres. Ulisses pede para ser amarrado ao
mastro do seu barco, com cordas firmes e laços apertados que o impeçam de se
mover. Dessa forma ele poderia ouvir o canto das sereias sem ser encantado
por ele e assim, ele iria desfrutar do prazer sublime de uma arte musical que
seria feita por lendas e não por homens. Essa arte em forma de música lhe
traria um prazer ainda maior. Se ele estivesse solto, ou qualquer homem
estivesse com os ouvidos abertos, todos estariam mortos e assim se tornariam
vítimas de seu próprio desejo de sedução.
Amarrado firmemente ao mastro do seu navio e com os ouvidos livre,
Ulisses pôde sentir o prazer de algo do qual ele não poderia fugir, sem se
deixar levar por algo que o iria iludir. Uma forma de raciocínio de
autopreservação individual diante de um mundo mágico, sobre o qual o uso da
racionalidade tática não era comum. Os marinheiros seguiriam remando, com
seus ouvidos tapados por cera até um ponto seguro, onde a embarcação
seguiria seu rumo ao destino que lhe havia sido traçado por Zeus.
Na reflexão de Adorno e Horkheimer, isso mais pareceria efeito de uma
ideologia individualista autoconsciente, em forma de autoconservação.
O domínio do homem sobre si mesmo, em que se funda o seu ser, é sempre a
destruição virtual do sujeito ao serviço do qual ele ocorre; pois a substância
dominada, oprimida e dissolvida pela autoconservação, nada mais é senão o ser vivo,
cujas funções configuram, elas tão somente, as atividades da autoconservação, por
conseguinte exatamente aquilo que na verdade devia ser conservado. (ADORNO;
HORKHEIMER, 2006, p. 52).
O encantamento é o processo de sedução que faz com que que a
consciência prescinda da razão e se deixe envolver pela emoção ou pelo medo
ou outros afetos. O poder mítico elimina a racionalidade na medida em que se
impõe como forma de pensamento mágico, sobre a verdade dos fatos e
explicações sobre os fenômenos. “Os medos e as idiossincrasias atuais, os traços do
caráter escarnecidos e detratados, podem ser interpretados como marcas de progressos
violentos ao longo do desenvolvimento humano”. (ADORNO; HORKHEIMER,
2006, p. 79).
Dessa forma alegórica, a literatura grega nos mostra como o uso o
pensamento racional e as formas de autoconhecimento, são fundamentais para
a existência da humanidade. Adorno faz em sua análise, uma reflexão bastante
criteriosa sobre o caráter da dominação e do poder mítico na literatura
homérica e da forma como o espírito individualista, astuto e ardiloso, que
lança mão de um raciocínio lógico e instrumental, é a característica de um
poder de discernimento presente na literatura grega. As façanhas de Ulisses
para Adorno e Horkheimer é mais que uma literatura antiga, é uma reflexão
sobre como, na modernidade, aspectos da racionalidade e o conjunto de coisas
que ela proporcionou, como, por exemplo, a razão esclarecida, a lógica e a
possibilidade de pensamento crítico são destruídas pelo modo de pensar
mítico e dominante da política doutrinária do fascismo. Corroborando com os
pensadores frankfurtianos, Stanley (2020) afirma que:
A política fascista invoca um passado mítico puro que foi tragicamente destruído. [...] o
passado mítico pode ser religiosamente puro, racialmente puro, culturalmente puro ou todos
os itens acima. [...] O passado mítico fascista tem uma estrutura particular, que sustenta sua
ideologia autoritária e hierárquica. (STANLEY, 2020, p. 19-20).
Para Adorno, em outro de seus livros importantes, a Dialética Negativa
(2009), sua crítica contra o pensamento mítico está fundamentada na filosofia
de Aristóteles. Como Adorno afirma,
Em Aristóteles, é o mito; o que sobrevive dele nos antimitólogos declarados é a
concepção de que tudo aquilo que é pode ser reduzido àquilo que um dia foi. Em seu
método quantificador que procede do mesmo ao mesmo há tão pouco espaço para o
outro em formação quanto no sortilégio do destino. Não obstante, aquilo que nos
homens, a partir de seus reflexos e contra eles, se objetivou, o caráter ou a vontade, o
órgão potencial da liberdade, também mina essa liberdade. Pois ele incorpora o
princípio dominante ao qual os homens progressivamente se submetem. (ADORNO,
2009, p. 252).
Todo culto à mitificação de algo ou de alguém é uma forma de regressão da
mentalidade coletiva, com isso, Adorno e Horkheimer (2006), ao seu modo
crítico de reflexão, nos fazem entender “o porquê a humanidade, em vez de entrar
em um estágio verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de
barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 11). Isso é paradoxal porque “O
esclarecimento dos tempos modernos esteve desde o começo sob o signo da
radicalidade: é isso que o distingue de toda etapa anterior da desmitologização.”
(ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 79).
Os fragmentos textuais presentes na Dialética do Esclarecimento mostram
uma desconfiança dos autores em relação a algumas certezas, que foram
construídas ideologicamente, no desenvolvimento da história moderna, por
isso Adorno lança mão de uma razão negativa, como análise dialética o sobre o
mito do esclarecimento. Eles se perguntam sobre o projeto no qual se
fundamentou o positivismo científico junto ao liberalismo, que ajudaram a
estruturar o projeto burguês do capitalismo liberal, que se fundamentou em
ordens e certezas sobre as quais se estruturaram novas barbáries, como o
nazismo, por exemplo. Esse modelo de razão avançou em direção ao atraso, e,
como os autores afirmam, o abandono das certezas os leva à desconfiança.
Se uma parte do conhecimento consiste no cultivo e no exame atentos da tradição
científica [...], em compensação, no colapso atual da civilização burguesa, o que se
torna problemático é não apenas a atividade, mas o sentido da ciência. O que os
fascistas ferrenhos elogiam hipocritamente [...]: a infindável autodestruição do
esclarecimento força o pensamento a recusar o último vestígio de inocência em face
dos costumes e das tendências do espírito da época (ADORNO; HORKHEIMER,
2006, p. 11).
Adorno e Horkheimer fizeram essa reflexão para se referirem à barbárie
instaurada como o nazismo, mas o conteúdo desse texto é muito atual. Em
nossos dias, em que se ouve falar do retorno ao pensamento mítico, e o
discurso de ódio e terror contra o conhecimento da verdade, com base nesses
dispositivos de pós-verdades e instrumentos de alienação das fake news, esse
trecho escrito na Dialética do Esclarecimento parece muito atual, ao menos no
Brasil, país que se tornou campeão na propagação de notícias falsas. Pois,
guardadas as devidas proporções, vemos hoje um processo em que a imposição
de falsas verdades sobrepõe-se a cultura das certezas da ciência, imperando oruas. Ali se iniciava uma trajetória rumo a um novo
comportamento político conservador que conclamava as forças militares para
impor ordem, num tom de total desprezo pela democracia. Entretanto, sabe-se
que não era apenas a espontaneidade discursiva que orientava as condutas
conservadoras e antidemocráticas. Por trás de toda aquela encenação, havia
um arranjo de forças políticas e institucionais que se figurava nos corredores
do campo do poder, na conciliação de uma guinada ultraconservadora em
direção à extrema-direita. E isso não era fruto de uma crise nacional apenas.
Reverberavam ali questões de um movimento internacional, que, a reboque da
crise econômica de 2008, e de suas consequências no mundo, deu início a um
processo de mobilização mundial, como a Primavera Árabe que, entre 2010 e
2012, promoveu protestos e mudanças profundas, contra governos políticos
autoritários. Esse movimento mundial, em favor de uma reestruturação da
democracia, envolveu os países do Oriente Médio e uma boa parte dos países
do norte da África.
Por outro lado, mudanças de cunho antagônico em relação à democracia
também foram testemunhadas na reorganização política do antigo Leste
Europeu, no período posterior à crise de 2008. A exemplo disso,
testemunhamos uma guinada para a extrema-direita em países como a
Hungria, onde vimos ressurgir movimentos partidários nacionalistas
ultraconservadores. Esse contexto conjuntural é o cenário em que vemos o ovo
da serpente ser chocado, de forma requentada. O resultado disso foi a onda de
mobilizações de direita em muitos países, tanto no hemisfério norte como em
alguns países do sul. No Reino Unido, vimos o processo do BREXIT e toda a
mobilização da direita inglesa, fazendo-se valer de instrumentos espúrios,
como as fake news, e sua massificação de mentiras em favor de manobras que
resultaram na saída do Reino Unido da União Europeia.
Na esteira desses acontecimentos ideológicos, instrumentalizados por
mentiras massificadas, vimos a consolidação da extrema-direita conservadora
nos EUA, com a eleição de Donald Trump. No hemisfério sul, em particular na
América Latina, e, mais ainda, na Argentina, vimos todos os processos e
instrumentos noticiosos de propagandas falsas, que foram usadas contra a
presidenta Cristina Kirchner. Esse movimento ajudou a eleger o grupo político
da direita naquele país, representado por lideranças neoliberais e
conservadoras, como Mauricio Macri. A esse exemplo, diríamos que Macri
elegeu-se usando os artifícios de um discurso paradoxal, que envolvia uma
espécie de nacionalismo consorciado com o neoliberalismo de austeridade,
que salvaria a Argentina do buraco econômico no qual o país havia entrado,
com as crises sucessivas oriundas da grande crise de 2008, e mesmo outras
antes dessa.
No Brasil não foi diferente. Dentro desse contexto de guinada para a
direita, as forças políticas se arregimentaram num discurso nacionalista de
extrema-direita que criou um contexto favorável ao golpe parlamentar,
derrubando a presidenta eleita, Dilma Rousseff, do cargo de governante do
Executivo federal brasileiro. Esse processo consolidou a extrema-direita com a
eleição de Bolsonaro, e tudo de absurdo que isso pôde representar. Ou seja,
uma nova direita que se articula com as estruturas tecnológicas de uma
sociedade estruturada por redes sociais de influências de comportamento e
posicionamento, biopolítico e psicopolítico, mobilizando afetos nacionalistas
em nome de políticas antidemocráticas.
As lideranças da chamada nova direita hoje se estruturam não apenas no
poder do líder e sua imagem pessoal, mas, por meio das redes de fake news e
mobilização dos afetos políticos com o fenômeno da pós-verdade. Com isso,
os pronunciamentos ideológicos desses líderes, publicados nas várias redes
sociais, correspondem muitas vezes a propagandas abjetas e ideologias falhas
temperadas com retórica de ódio e violência digital. Todo esse contexto
psicopolítico estruturou-se em ações dos exames digitais das milícias
eletrônicas armadas com desinformação e armas de fogo, que ajudaram a
reverberar ideias míticas, a colonizar mentalidades e a promover intervenções
agressivas e controle territorial de comunidades desprezadas pelo poder
público.
A realidade está suspensa nesse contexto de pós-verdade. A mobilização
dos afetos, pela imposição do medo coletivo e do pânico moral, incide de
forma objetiva na colonização da opinião pública. E isso tem sido um caminho
encontrado pelo poder imposto pela nova direita e pela doutrina neoliberal,
para estabelecer formas de controle e orientação de condutas por meio de
mecanismos biopolíticos e psicopolíticos, fundados em doutrinas ideológicas
que decididamente visam destruir a democracia por dentro, como modo
institucional de governo, assim como destruí-la por fora, minando os valores
constitutivos do imaginário democrático da sociedade de uma maneira geral.
Substituindo, também, o regime da democracia pelas práticas da autocracia,
nas formas dos governos de si e governos dos outros, sufocando, com isso, o
ethos democrático, ainda vivo na esfera pública.
Acreditamos que essas ideologias, fruto de uma conjuntura de interesses
espúrios e autoritários, incidem sobre o corpo social de forma exponencial, e,
muitas vezes, faz com que os indivíduos, aqui vistos como indivíduos/usuários
que ocupam os espaços públicos das mídias sociais, percam gradativamente a
capacidade de discernimento, à medida que incorporam valores pautados por
desinformações, fazendo com que sejam obliteradas, de forma autoconsciente,
suas capacidades críticas de consciência intersubjetiva. Nesse processo, a
autoconsciência crítica é substituída pela autoconsciência da condescendência
política, da pós-verdade.
Nesse contexto, o conteúdo falso e desinformativo, somado ao discurso
retórico de ódio, é incorporado por boa parte da população, que corrobora
com esses princípios ultraconservadores de mobilização dos afetos políticos. À
medida que observamos e refletimos sobre esses fenômenos, entendemos
melhor os conceitos de psicopolítica e psicopoder que, na nossa compreensão,
ajustam-se aos conceitos que tínhamos sobre a biopolítica e biopoder,
inaugurados pelo liberalismo de estado, desde o século XVII, e que, agora, se
somam aos dispositivos neoliberais da fake news e da pós-verdade, no século
XXI.
Mais do que isso, procuramos fazer, neste livro, uma imersão em questões
sobre o que consideramos ser o irracionalismo de conveniência, que definimos
como um procedimento instrumental de ação, que promove um caos
instrumentalizado em nome de novas formas de poder e controle, sobre o
comportamento social e suas expectativas de ação, mobilizada por afetos. Um
processo de dominação que incide sobretudo na colonização dos afetos
coletivos e na orientação de comportamentos que lidam com a verdade e a
construção da realidade de forma menos honesta, constituída por ideologias
falhas e colonização de mentalidades. A pós-verdade é uma mentira que se
traveste de orientação ideológica, em que a visão de mundo e o conjunto das
emoções gerais dos indivíduos têm mais poder de convencimento que os fatos
em si.
A verdade não existe na pós-verdade, pois a realidade não está ancorada no
que é verdadeiro, mas sim numa ideologia em forma de desejo de verdade,
dentro de um contexto de desinformação. Essas desinformações são
processadas por pessoas próximas e sobre essas se ancoram algum tipo de
referência de confiança, seja essa de tipo moral, religiosa ou de outra natureza.
Nesse sentido, o circuito da crença está muito mais ligado aos afetos, ou seja,
ao desejo de verdade, não necessariamente aos fatos verdadeiros no mundo
real.
Os afetos, sob esse ponto de vista, são objetos de manipulação ideológica
de valores, por meio de canais de redes de compartilhamento de mídias sociais.
Valores fundados muitas vezes em ideologias de ódio e discursos abjetos que
mobilizam enxames digitais de indivíduos/usuários a agirem de forma
doutrinada. Ou seja, mobiliza-se um irracionalismo de conveniência que,falso, o inverossímil e o mítico.
O mito é o oposto da verdade e o mitômano é um mentiroso patológico
que falta sempre com a verdade, como os disseminadores de fake news, em
gabinetes de ódio e escritórios de crime digital, em que grupos criminosos,
promotores de barbárie digital, são tomados pelo discurso da violência e usam
a imposição do medo coletivo e do pânico moral. Nesse contexto, o ciclope
cego é uma alegoria que nos serve de exemplo para entendermos o discurso
cego pelo ódio, sob o qual milhões aderem de forma autoconsciente, no
contexto do binômio fake news/pós-verdade. Isso pode nos ajudar a entender
como esse tipo de aderência autoconsciente serve para representar o
fortalecimento da ideologia fascista, e suas referências mitológicas num
passado retórico de pureza, em que [...] os mitos fascistas diferenciam-se com a
criação de uma história nacional gloriosa, em que membros da nação governam
devido a conquistas e realizações [...]. (STANLEY, 2020, p. 20).
Hoje, diante do fortalecimento institucional de governos de uma nova
direita populista, com fortes tendências fascistas, as reflexões críticas dos
pensadores frankfurtianos cabem bem. E com isso o mito do canto das sereias
nos serve como alegoria de análise para refletirmos sobre o processo de pós-
verdade, que parece enfeitiçar a capacidade de discernimento dos sujeitos, que
acionam emoções para fundamentarem suas crenças em fatos irreais, ao invés
de esclarecê-los mediante a realidade. As fake news e a pós-verdade cristalizam
o discurso ideológico da fantasia mítica, sobre a qual parte da esfera pública da
política, no Brasil e no mundo, está presa. Os indivíduos/usuários que
corroboram com o compartilhamento de um tipo de ideologia por meio de
mensagens que suscitam ódio, mentira e mitificação da realidade,
complementam esse processo de legitimidade da barbárie, sobre a qual se
instaura a colonização da opinião pública por meio das mídias sociais.
Adorno e Horkheimer (2006) já haviam se dado conta de que a opinião
pública seria dominada e perderia seu poder político, se convertendo em
mercadoria de informação reificada, por meio da reprodução da linguagem
alienada na sociedade massificada pela propaganda fascista. A alienação da
consciência dos indivíduos é estruturada pela superficialidade das narrativas 
de propagandas que se reproduzem nas linguagens falsas e míticas, e
ideologias falhas que reiteram valores moralistas e retrógrados que são
subjetivados de forma afetiva e emocional por parte dos indivíduos, criando
barreiras de produção de conhecimento e esclarecimento.
Essa superficialização da consciência dos indivíduos funciona como uma
película que reflete o processo da desinformação de forma autoconsciente,
vinculada ao conjunto de crenças que esses indivíduos/usuários partilham,
fazendo-os lidar com a realidade de forma simplória, mítica e sem senso
crítico. O modo como pensamento simplório opera no processo da cultura da
desinformação contemporânea, faz permitir sua dominação simbólica, a partir
de valores ideológicos falhos (STANLEY, 2020, 2015), que tem em certa
medida maior facilidade de se propagar. Essa dominação sobre as formas de
pensamento do senso comum é uma dominação consentida e ancora nos
mecanismos dos arquétipos do pensamento mágico, como o esoterismo, a
astrologia, o tradicionalismo, o animismo, ao modo como pensam, ideólogos
de extrema direita, que assessoram políticos ultraconservadores.
Além da forma simplória e mítica, a alienação contemporânea também é
um modo de pensar negacionista, que é uma forma de negação frente ao
conhecimento sobre a realidade. Esse “pensamento negacionista” se funda com
a pós-verdade e ajuda a promover comportamentos autoconscientes, que vão
no sentido oposto à ciência e à razão. Como afirma D’Ancona, “Essas
prioridades da pós-verdade orientam a ascensão do ‘negacionismo científico.’”
(D’ANCONA, 2018, p. 68) que alimenta crenças em ideias que a terra é plana,
que não se devem vacinar e imunizar bebês com vacinas contra doenças letais,
como por exemplo o sarampo, o que fez com que com que caísse a taxa de
imunização em cidades como Londres, onde a doença já havia sido erradicada.
Ainda segundo D’Ancona (2018), esse pensamento negacionista, relativo ao
mito da não vacinação, fez com que no ano de 2018 o sarampo voltasse a ser
uma doença endêmica na Grã-Bretanha.
O pensamento negacionista ganha ainda mais força com a epidemia da
Covid-19, que já matou milhões de pessoas em todo o mundo. Em muitos
casos essa rede de veiculação de pensamento negacionista, fundado pelo
processo de desinformação da Covid-19, se amplia de forma exponencial. A
exemplo desse fato, o portal UOL apresentou uma matéria sobre a pesquisa
realizada pela Agência Avaaz.org36, em que é revelado o resultado em que mais
de seis em cada dez cidadãos brasileiros acreditam em notícias falsas sobre a
Covid-1937. Ou seja mais de 100 milhões de brasileiros, que usam as redes
sociais do WhatsApp e Facebook, acreditam em fake news sobre o Covid-19.
Acreditamos, como isso, haver um irracionalismo autoconsciente sobre as
formas de negação da realidade e reificação do pensamento mítico.
Voltando à reflexão de Adorno e Horkheimer (2006), afirmamos que
cultura moderna que se julga esclarecida, funciona de forma encantada que
nega a realidade racional dos fatos e das experiências de conhecimento.
No mundo esclarecido, a mitologia invadiu a esfera profana. A existência expurgada
dos demônios e de seus descendentes conceituais, assume em sua pura naturalidade o
caráter numinoso que o mundo de outrora atribuía aos demônios. [...]. O preço da
dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos objetos
dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações do homem foram
enfeitiçadas, inclusive a relação de cada indivíduo consigo mesmo. [...] O animismo
havia dotado a coisa de uma alma, o industrialismo coisifica as almas. (ADORNO;
HORKHEIMER, 2006, p. 34).
Complementando o pensamento de Adorno com questões da ordem do
contemporâneo, diríamos que, se o industrialismo cultural capitalista do
século XX coisificou a consciência dos indivíduos, no século XXI, temos algo
que deriva desse processo, que é a produção e consumo de desinformação em
massa, que recria mitos e reifica a negativa da verdade, alienando os sujeitos
por meio de narrativas de fake news que trafegam de forma massificada no
cotidiano digital da sociedade em rede.
A autoconsciência esclarecida do homem nessa hipermodernidade do
século XXI permite-lhes um certo despertar de uma forma de pensamento
mágico, no qual o pensamento torna-se ao mesmo tempo neurótico, paranoico
e funciona contra a racionalidade. A isso se somam as formas conservadoras
de lidar com a realidade. Com isso, a autodeterminação dos valores morais e
conservadores é uma forma de autoconsciência da dominação simbólica, que
ajuda a desenvolver uma espécie de neurose coletiva, a partir da qual se
compartilha um imaginário do medo coletivo e pânico moral, como vimos
anteriormente. O conceito de neurose aqui é estabelecido pela histeria
coletiva, com o retorno de valores ultraconservadores do passado recente
como a retomada dos discursos do fascismo e práticas de irracionalismos
esotéricos dogmáticos e moralismos religiosos (FREUD, 2011) que vem
colonizando o imaginário social contemporâneo. Essa neurose propaga de
forma naturalizada uma histeria coletiva, que desorienta condutas de forma
autoconsciente e subjuga os valores éticos e o imperativo categórico do
respeito social mútuo. Talvez explicações freudianas possam nos ajudar nesse
contexto de pós-verdade, em que vemos o retorno a uma forma de
pensamento primitivo e bárbaro, por parte de muitos indivíduos, que
desenvolvem desejos subjetivados pelo falso, pelo mítico e pelo pensamento
mágico, acionado pelos afetos. A dominação do pensamento mágico e
esotérico acreditam no poder simbólico do mito sobre a verdade e a negação
da realidade.
Uma reflexão sobre a onipresença do pensamento anímico de Freud (2013)
nosajuda a refletir sobre a leitura as formas do irracionalismo autoconsciente
do mito da pós-verdade e os processos intersubjetivos de assimilação de
crenças contemporâneas. Com isso, acreditamos que as formas intersubjetivas
de compartilhamento de crenças assimilam fake news como orientação de
conduta, representa uma forma de regressão ao inconsciente coletivo do
pensamento mítico e primitivo. Freud não escreveu sobre pós-verdade ou
sobre fake news, mas escreveu sobre as formas primitivas do pensamento e seus
sintomas no comportamento dos indivíduos no final do século XIX e início do
século XX. Freud (2013) refletiu sobre a onipresença do pensamento anímico e
primitivo no subconsciente das pessoas e os sintomas da histeria, em seu livro
Totem e Tabu.
Nos parece plausível tentar entender que com o advento da pós-verdade e
a reboque das fake news, todos os interesses perversos presentes nas mensagens
falsas que dão aderência aos créditos da desinformação nos fazem regredir no
tempo simbólico a um imaginário mítico de fantasias e projeções,
compartilhadas como verdades. Regredir a um tempo em que as formas
lendárias pairavam sobre o imaginário do inconsciente coletivo dos
indivíduos, ao ponto de os mitos ressurgirem na intersubjetividade coletiva
compartilhado por um determinado grupo social, persuadindo o imaginário
dos indivíduos e orientando os seus comportamentos.
Crenças e dogmas complementam o poder do imaginário social
compartilhado, no sentido de dar crédito ao que comprovadamente não é
verdade. Mensagens falsas, que são acionadas por dispositivos algoritmos e
compartilhado por diferentes canais de informação, são objeto de crenças
mesmo depois de comprovado que são fake news. Segundo as pesquisadoras
Fernanda Bruno e Tatiana Roque, “Estudos de psicologia, como os de Stephan
Lewandowsky, mostram que uma informação tida inicialmente como válida continua
a influenciar o julgamento das pessoas, mesmo se provada falsa” (BRUNO;
ROQUE, 2019, p. 15)38. É seguro que essas fake news podem acionar uma
crença no inacreditável, como um dispositivo de regressão cognitiva, e por isso
demandam uma explicação psicanalítica para entendermos o nosso tempo
presente. Acreditamos que o desejo de verdade sobre uma informação falsa é
fruto de um desejo onipresente que está recalcado ou omitido na subjetividade
de muitos.
Segundo Freud (2013) a forma de regressão do subconsciente humano
levou a civilização ocidental a um retorno à fantasia, dos tempos antigos, e
com isso se expressavam sintomas de neuroses e psicose sociais no
comportamento dos indivíduos. Como descrito por Freud, “A magia tem de
servir aos propósitos mais diversos: submeter os eventos naturais à vontade do
homem, defender a pessoa dos perigos e dos inimigos e dar-lhe o poder de prejudicar
seus inimigos (FREUD, 2013, p. 48). Ele reflete sobre o processo de fase do
primitivismo animista e narcísico do pensamento, que no caso de sua tese está
ligado ao caráter libidinal, dos seres humanos, em fase precoce. Nas palavras
de Freud (2013):
O animismo é um sistema de pensamento, ele não só́ explica um fenômeno particular,
mas permite compreender o mundo como unidade, a partir de um ponto. No curso
dos tempos a humanidade produziu três grandes visões de mundo, se dermos crédito
às autoridades: a animista (mitológica), a religiosa e a científica. Entre elas, a primeira
criada, o animismo, é talvez a mais consequente e exaustiva, a que explica de maneira
cabal a natureza do mundo. Essa primeira concepção de mundo da humanidade é
uma teoria psicológica. Está além de nosso escopo demonstrar o quanto dela ainda se
acha na vida moderna, seja depreciada, em forma de superstição, ou bastante viva,
como fundamento de nossa linguagem, crença e filosofia. Remontando a esses três
estágios de visões do mundo, fala-se que o animismo em si não é ainda uma religião,
mas contém as premissas sobre as quais depois se constroem as religiões. É também
claro que o mito se baseia em pressupostos animistas; mas os pormenores da relação
entre mito e animismo permanecem não esclarecidos em pontos essenciais. (FREUD,
2013, p. 45).
A explicação freudiana sobre a onipresença mágica e espiritual do
pensamento animista explica que a reflexividade dos indivíduos prescinde de
processos racionais e objetivos e se prendem a formas de pensamentos
primitivos, instituídos pelo medo, em que os mitos se fazem presentes no
inconsciente e despertam a capacidade de acionar de forma profunda o
consciente emocional dos indivíduos. A forma animista e mágica do
pensamento, nesse caso, é um ato de sobrevalorização de crenças em magia e
feitiçaria primitivas do homem, transportada para o seu universo cotidiano,
onde tudo é projetado em forma de delírios, fobias, transtornos, dentre outros
sintomas da ordem da psicanálise. Esses sintomas presentes na mente dos
indivíduos funcionam como um modo de pensamento onipresente que guarda
um inconsciente mágico, que é onipresente como forma de pensamento do
inconsciente, que encobre a repressão dos instintos nos sujeitos, segundo
Freud (2013).
Freud também afirma, em seu outro trabalho, que o mal está na cultura e os
processos civilizatórios estão relacionados ao controle conservador das formas
culturais de dominação e subjugação do modo de vida social nessa passagem
do século XIX para o XX, em que o pensamento religioso promove uma forma
conservadora, assim como uma certa regressão mental, que se constitui no
subconsciente dos indivíduos. Para Freud (2011) em seu livro O Mal-estar na
Civilização, a religião tem o caráter de contribuir para o processo subjetivo da
crença, nas formas em que a moral e o pensamento simples fundados na fé, é
mais eficiente para os indivíduos que o pensamento científico e artístico, por
exemplo. Numa espécie de disputa de racionalidades entre a religião, a arte e a
ciência, o homem simples vai optar sempre pela primeira, porque a fé que eles
despertam subjetivamente tem mais poder de alcance sobre as suas emoções.
Por outro lado, isso também demonstra a força que as formas religiosas
têm na colonização das mentalidades. Nesse sentido, a força da subjetividade
dominada por formas mágicas ou míticas de religiosidade é imperiosa e passa a
ser mais importante que outro tipo de crença no que diz respeito ao valor que
os indivíduos dão à vida. Ter fé em referências de divindades é, seguramente,
bem mais comum que crer na razão científica ou ser sensível à contemplação
da arte.
A ciência e a arte demandam um processo de raciocínio interpelativo,
crítico e não dogmático, que exige dos sujeitos uma mudança subjetiva de
percepção sobre os fatos objetivos. Enquanto a religião aciona apenas a
subjetivação da crença, da fé e dos dogmas desse homem simples. Sobre isso,
Freud (2011) afirma:
Voltemos ao homem comum e à sua religião, a única que deveria ter esse nome. Então
nos ocorrem as conhecidas palavras de um dos nossos grandes poetas e sábios, ao se
manifestar sobre os laços da religião com a arte e a ciência. Elas dizem:
Quem tem ciência e arte,
tem também religião;
Quem essas duas não tem, esse tenha religião!39
Por um lado, a religião é aí colocada em oposição às duas maiores realizações do ser
humano; por outro lado, afirma-se que ela pode representar ou substituir ambas, no
que toca ao valor para a vida. (FREUD, 2011, p. 12).
O pensamento religioso é doutrinário e atua num campo do
conservadorismo dogmático que parece demonstrar ser um caminho com
certa segurança para os indivíduos massificados por esse tipo de pensamento.
A massa religiosa aciona crenças e dogmas para se proteger da paranoia e do
medo que o irracionalismo propaga, a massa política, que segue líderes
populistas mitificados e paternalistas, a exemplo do fascismo, tendem a seguir
o mesmo princípio.
Segundo Reich (1987):
As massas funcionariam por mecanismos irracionais representados pelas ideologias
políticas e a “a política é a expressão irracional dessa doença, constrói uma dicotomia
entre um irracionalismo que é inerente às massas, convocado por ummisticismo que
permite a aceitação das estruturas repressivas.” (REICH, 1987, p. 41).
Nesse sentido, o fenômeno da pós-verdade ajuda a acionar o processo de
obliteração da racionalidade da sociedade de massa, ofuscamento do princípio
da razoabilidade nas atitudes dos sujeitos, que são cada vez mais emocionadas
e individualizada e, muitas delas, fundamentadas em valores religiosos e
moralistas, que tentam se travestir de valores políticos.
De certa fora Adorno (1950), quando publicou seu texto: Introdução à “A
Personalidade Autoritária”, se referia a esse tipo de crítica ao autoritarismo,
que regressa do passado e se ancora em personagens da história do presente
que promovem ilusões coletivas. Segundo ele,
Na história da civilização, tem havido muitos momentos em que as ilusões coletivas
não foram curadas pela propaganda, mas, no final da análise, porque os homens de
ciência e seus hábitos de trabalho insistentes e discretos estudaram o que jaz na raiz
da impostura. Gostaríamos de citar dois exemplos. A crença supersticiosa na feitiçaria
foi superada nos séculos dezessete e dezoito, depois que os homens começaram a
viver sob influência dos resultados da ciência moderna. O impacto do racionalismo
cartesiano foi decisivo. Essa escola filosófica demonstrou que a crença no efeito
imediato dos fatores espirituais no domínio corporal, até então aceita, era ilusória. Os
cientistas naturais que os seguiram fizeram uso prático desse formidável
discernimento. Os fundamentos da crença na magia foram destruídos, pois, uma vez
eliminado aquele dogma, tornado cientificamente insustentável. Como exemplo mais
recente, só podemos pensar no impacto da obra de Sigmund Freud na cultura
moderna. [...]. O presente trabalho, esperamos, encontrará um lugar nesta história de
dependência mútua entre ciência e clima cultural. [...] Ele procura desenvolver e
promover o entendimento dos fatores sociopsicológicos que tornam possível ao tipo
autoritário ameaçar o posto do tipo democrático e individualista dominante em nossa
civilização no último século e meio, assim como os fatores por meio dos quais essa
ameaça pode ser contida. A análise progressista desse novo tipo antropológico, bem
como de suas condições de crescimento, através de sua permanente diferenciação
científica,  fortalecerão as chances de um contra-ataque genuinamente educativo.
(ADORNO, 1950, p. 30).
Esse texto de Adorno é extremamente atual e nos faz perguntar se essa
previsão de Adorno, que reconhece no processo educacional uma forma de
emancipação social dos sujeitos, apontava para o possível aparecimento de
fenômenos de personalidades autoritárias, no século XXI, em que vemos
surgir personalidades autoritárias e populistas? Seguramente essas formas
míticas do presente apostam no desenvolvimento de uma neurose coletiva,
desenvolvidas com os avanços da indústria cultural de massa e seus
desdobramentos na sociedade da informação, ou, melhor falando, sociedade da
desinformação. O fato é que o advento de fenômenos do binômio fake
news/pós-verdade, associado ao pensamento mítico e ao conceito de raciocínio
motivado, tem contribuído para uma espécie de regresso ao primitivismo da
racionalidade, ao mesmo tempo em que tem possibilitado o retorno de um
pensamento neurótico, a partir desse processo de pós-verdade em que as
convicções e o emocional falam mais alto que a verdade.
Segundo D’Acona (2018) nesse processo de pós-verdade, “O que importa não
é a ponderação racional, mas a convicção arraigada (p. 31)”, em que a crença
substitui a verdade. E dentro desse contexto, a frente de dispositivos digitais
providos de hiperinformação falsa, o excesso de notícias não comprovada ou
distorcida, moralismos religiosos, ajudam a criar uma reificação, subjetiva
muito forte, diminuindo em muito a capacidade crítico-reflexiva diante da
narcose das redes sociais que reiteram crenças e paranoias, e tem acionado o
medo como instrumento de controle político.
Segundo Safatle,
O medo como afeto político, por exemplo, tende a construir a imagem da sociedade
como corpo tendencialmente paranoico, preso à lógica securitária do que deve se
imunizar contra toda violência que coloca em risco o princípio unitário da vida
social. Imunidade que precisa da perpetuação funcional de um estado potencial de
insegurança absoluta vinda não apenas do risco exterior, mas da violência imanente
da relação entre indivíduos. Imagina-se, por outro lado, que a esperança seria o afeto
capaz de se contrapor a esse corpo paranoico. No entanto, talvez não exista nada
menos certo do que isso. Em primeiro lugar, porque não há poder que se fundamente
exclusivamente no medo. Há sempre uma positividade a dar às estruturas de poder
sua força de duração. Poder é, sempre e também, uma questão de promessas de êxtase
e de superação de limites. Ele não é só́ culpa e coerção, mas também esperança de
gozo. Nada nem ninguém consegue impor seu domínio sem entreabrir as portas para
alguma forma de êxtase e gozo. (SAFATLE, 2015, p. 24).
Retornando às alegorias mitológicas da literatura grega, diríamos que as
redes sociais e suas fake news funcionam na sociedade contemporânea como
uma espécie de esfinge digital, que impõe medo e devora os usuários
cotidianamente, com mensagens falsas, massificadas e indecifráveis que
entorpece nossas subjetividades. O mito da pós-verdades se transforma em
uma esfinge diante do Édipo40 pós-real, que são os usuários que corroboram
É
com as fake news. Esse Édipo é sufocado e consumido, por um excesso de
informação massificada qual ele não tem capacidade de decifrá-las. As fake
news obliteram a capacidade de questionamento imediato acionando uma
ressonância emocional, qual discutiremos mais à frente. E por não termos
capacidade de discernimento instantâneo, somos emocionalmente afetados e
impedidos de desenvolver qualquer capacidade de reflexão sobre o quem
vemos, ouvimos e lemos. Ou simplesmente se deseja dar crédito a tudo que
seja falso que circule na rede por se acreditar no que se consome nessa
desinformação. A propósito dessa questão vale a pena reafirmar a epígrafe
deste capítulo, em que se lê, “Bolsonaro não tornou ninguém cruel, preconceituoso,
racista, homofobo, misógino, xenófobo, intolerante e idiota. Essas pessoas sempre
existiram, apenas precisavam de um ‘mito’ que desse voz aos seus pensamentos”.
Num misto de neurose e perversão fascista e neoliberal da psicopolítica
contemporânea (HAN, 2014; MACEDO, 2020).
A autoconsciência da perversão e da neurose são partes do mesmo
processo nesse contexto de psicopolítica do neoliberalismo fascista que
coabitam com novas tecnologias de poder (HAN, 2014). Esse processo suscita
ainda uma certa autoconsciência da neurose em forma de perversão, na
medida em que se compartilham fake news, que são deliberadamente,
xenofóbicas, homofóbicas, racistas, sexistas, discriminatórias e fazem parte de
um imaginário fascista que é compartilhado nas redes sociais. Isso tudo junto
faz parte de um jogo perverso em que se compartilham, não apenas mensagens
falsas, mas a crenças no desejo de verdade sobre o falso. Os grupos que
compartilham a fantasia fascistas por meio de suas fake news, lidam com um
desejo de real exclusivo, no sentido semântico radical do termo, aquele que
exclui a tudo e a todos que não farão parte desse imaginário. Esse processo de
fé nas fake news exclui inclusive o próprio princípio da verdade.
A charge do Daniel Paz, que circulou pelo Instagram, ilustra bem esse
exemplo. Na charge, em forma de quadrinho, se vê que há um homem comum
de idade avançada, de pele clara, diante da tela de um computador, tendo ao
lado sua filha adulta, também de pele clara, compondo uma imagem, em que se
lê o seguinte diálogo em espanhol:
-No, Papa es una notícia falsa! (afirma a filha)
-Pero como va ser falsa si disse justo lo que yo pienso? (responde o pai)41
O pensamento do homem comum da charge, para mantermos a expressão
usada por Freud, exposto as redes sociais, assimila como verdade muito do
conteúdo ao qual ele tem acesso, e não desenvolveinteresse crítico sobre a
mensagem.
Voltando à definição sobre o conceito de pós-verdade, encontramos nela
uma ação substantiva que mobiliza emoções a partir da manipulação de
valores e crenças, que se sobressaem como “falsas verdades”, que tem por efeito
um grande impacto obliterador das percepções da consciência coletivas dos
sujeitos conectados em redes sociais, sobretudo quando esse sujeito encontra
afinidade com a mensagem recebida. Além desse aspecto, determinados
usuários preferem acreditar em fake news, pois elas acionam um mercado da
dúvida, e, pelo sim ou pelo não, todos, de uma maneira geral, não veem
problema em compartilhar dúvidas em forma de mensagens. Por outro lado,
muitos desejam acreditar e compartilham com seus grupos de afinidades e,
nesse caso, muitos, além de compartilharem uma mensagem, também estão
compartilhando uma crença ou um conjunto de valores ancorados em dogmas
os quais defendem como verdade absoluta.
O conteúdo de falsa mensagem aciona um imaginário identificado ou
vivido sobre o qual o desejo de verdade é maior que a realidade que o
conteúdo das mensagens falsas tentam ocultar ou deturpar.
A persuasão das fake news se faz mais eficaz quando há um desejo de crença
na notícia ou na mensagem falsa repassada. Aí reside a autoconsciência desse
processo. Além disso, esse processo autoconsciente se faz num contexto em
que forja uma colonização imaginária por crenças, que não se fundam no real,
mas na idealização e desejo de um real que não existe e que é elaborado
ideologicamente como fantasia compartilhada. Querer acreditar em mitos e
lendas, mesmo sabendo que esses fatos não corresponderam à realidade vivida
na história, é um desejo do campo da fantasia abstrata, que corresponde a
referências do imaginário cultural de muitos indivíduos, que agem
corroborando de forma autoconsciente a esse respeito.
Segundo Homi Bhabha (1998), em seu livro O local da cultura, a
colonização do imaginário tem um poder determinante nos processos
hegemônicos de dominações culturais generalizadas. Ele nos cita por exemplo
como esse processo está presente na crítica com que autores pós-coloniais
como Frantz Fanon e Julia Kristeva, que trabalham na análise da cultura, da
identidade e do feminismo etc., que apontam para a relação do imaginário com
as questões ligadas ao psiquismo: “Fanon e Kristeva buscam redefinir o processo
simbólico através do qual o imaginário social – nação, cultura ou comunidade – se
torna o sujeito do discurso e o objeto da identificação psíquica”. (BHABHA, 1998, p.
217). Para esses autores a colonização do imaginário reflete a real dimensão do
poder da colonização.
Guardada as devidas proporções, a pós-verdade tem a intenção mítica de
criar uma fantasia de colonizar imaginários, mediada pela efemeridade da
assimilação dos afetos no processo de desinformação. Com isso a colonização
do imaginário se faz como a configuração de um pensamento único mediado
pelas subjetivações conservadoras, que não aceitam outra forma de valor de
crença, só as de sua pertença coletiva. Como é o caso do pensamento político
fascista, como afirma Stanley (2015).
Os políticos fascistas justificam suas ideias ao aniquilar um senso comum de história,
criando um passado mítico para respaldar sua visão de presente. Eles reescrevem a
compreensão geral da população sobre a realidade distorcendo a linguagem da
idealização por meio da propaganda e promovendo o anti-intelectualismo [...]. Depois
de um tempo, com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de
irrealidade, em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do
debate fundamentado. (STANLEY, 2020, p. 16).
Dentro desse contexto, há uma predisposição a aceitar informação, quando
essa está próxima a coisas em que se acredita, ou quando a determinada
informação é transmitida por alguém próximo ou do círculo de confiança do
receptor da mensagem. Sendo assim, informações inverossímeis e que não
correspondem à verdade dos fatos circulam de forma livre e sobre ela se
instaura um regime de verdade compartilhado por muitos. Isso só acontece
porque, desejo subjetivo que permeia nosso imaginário, se identifica com o
que nos é informado, dentro de um plano de percepção o que nos leva a uma
condição de crentes e não de críticos. Aí reside a reificação subjetiva da
consciência crítica, como analisa Lukács (1978; 2003) e Adorno (2006; 2011).
Mas vale destacar que esse tipo de saber reificado pelo negacionismo
mítico, que a pós-verdade apresenta, fundado por crenças e sistemas de valores
compartilhados, não se sustenta frente a uma interpelação comunicativa e
racional crítica, que interpele sua validade mítica, como verdade
universalmente válida. Mas isso não nos permite afirmar que os indivíduos
que compartilham um tipo de pensamento dogmático, doutrinários, estejam
interessados em mudar sua forma de mentalidade e comportamento, esse é o
paradoxo da pós-verdade.
Os elementos da crença e da mítica, como nos fala Freud (2013) são muito
fortes e forjam inconscientes coletivos como nos possibilitou entender a
psicanálise. Isso nos permite entender que o imaginário mítico propicia uma
percepção estética da fantasia em forma de saber que fundamenta uma forma
de poder, sobre o controle as orientações de comportamentos motivados de
forma intersubjetiva dos indivíduos. O pensamento mítico é ancorado na
forma do pensamento magico de crença, fé ou medo, sobre o que se acredita,
aos modos de uma compreensão religiosa, como discutimos no segundo
capítulo deste livro, a partir das críticas ao positivismo durkehimiano e a
configuração do dispositivo da fé, que analisamos segundo a perspectiva de
Agamben (2005) e Foucault (1979).
A crença e a fé são formas de conhecimento velado por um véu dogmático,
que se fundam em verdade inquestionáveis para quem acredita. Essas verdades
subsistem dentro de um plano coletivamente compartilhado. Não são
explicáveis com os mesmos modelos das formas racionais e lógicas como o
pensamento esclarecido da ciência, fundado em espectros epistemológicos e
metodológicos. Nesse sentido, devemos entender que, para compreendermos e
analisarmos criticamente o tipo de crença que se sustenta num modo de agir
da pós-verdade, devemos nos amparar na crítica do conhecimento fundado
nos interesses, à luz do que nos mostrou Habermas (1968).
Para Habermas, toda forma de conhecimento está compreendida num
certo campo de interesse, essa é a premissa a partir da qual ele fundamenta os
seus escritos Conhecimento e Interesse e Técnica e Ciência como ideologia (1968).
Sobre esse ponto de vista, Habermas afirma que a crença em modelos
paradigmáticos sobre as formas do saber na teoria do conhecimento fundados
com a modernidade, desde a razão metafísica kantiana, passando pela dialética
hegeliana, o materialismo histórico de Marx, o racionalismo do positivismo de
Conte e Durkheim e a fenomenologia de Russerl, dentre outros saberes
epistemológicos, se esforçaram, cada um a seu modo, para criarem explicações
substanciais em relação ao conceito de verdade ligada diretamente à realidade.
E em todos esses modelos paradigmáticos, o modus operandi da razão é
determinante para a produção da verdade. Todos esses modelos atenderam a
um conjunto de interesses que é constitutivo de valores epistemológicos e se
emanciparam ao longo da história.
Como no positivismo, por exemplo. Que é um campo de conhecimento
sistematizado que está ligado a formas de controle fundadas em dispositivos
de poder e de saber. Esse pressuposto epistemológico que Habermas aponta é
contrário a qualquer conhecimento particular, reducionista, mítico ou
dogmático fundado em crenças privadas que se pretendam como verdadeiras,
fora de um regime sistemático de produção de saber. Com isso, nenhum
conhecimento mítico ou fantasioso, que seja fruto de uma produção mágica, é
valido como forma de racionalidade, sobre o qual se possa constituir um
regime de verdade legítimo do ponto de vista epistemológico. As crenças
religiosas e míticas, por mais que se pretendamcoletivas, são subjetivamente
assimiladas de forma particular e só funcionam como regime de controle
partilhado de forma igualmente particular.
Os grupos comunitários, nos quais as pertenças subjetivas dos sujeitos
encontram um certo poder ancorados em mitos, crenças ou fé, que são
coletivamente compartilhados, fazem parte de dimensões que crescem
assustadoramente nos contextos coletivos e se espraiam no tecido social em
foram de ativismo em rede na sociedade globalizada. Nessas redes sociais, o
processo de subjetivação dos sujeitos são, até certo ponto, processos
conscientes de tomada de posição em relação à realidade que tem um grande
poder de influência na relação público/privado, estado/sociedade. Os sujeitos
em sã consciência optam pelo que vão acreditar, logo, têm autoconsciência na
certeza de acreditarem ou procurarem acreditar em algo que atendam a seus
interesses, sobre a realidade, ao ponto de exercer influências em determinadas
políticas públicas, que são objetos de interesses geral de todos os cidadãos, que
não compartilham, corroboram ou tiveram anuência sobre determinadas
tomadas de posição governamentais, estruturadas em agendas conservadoras e
que atendem a pautas moralistas, fundadas em valores religiosos e crenças das
mais variadas.
Essas crenças são fundadas em um jogo de interesses, como bem afirma
Alexander Dugin, cientista político conservador da nova direita americana,
que afirma que “[...] a verdade é uma questão de crença [...] essa coisa de fato não
existe.” (D’ANCONA, 2018, p. 36).
Esse conservadorismo que instiga polêmicas, visando acionar os afetos dos
eleitores, atendem e promovem um conhecimento fundado em interesses nos
quais se amparam governos conservadores e autoritários que tomam decisões
políticas fundadas em práticas de fake news, que atendem a um regime
discursivo e biopolítico de poder, em que, acionar as emoções da opinião
pública é mais eficaz que promover um debate político com o público.
Remetendo essa questão epistemológica ao plano intersubjetivo dos
indivíduos, não concordamos com argumentações que afirmam que os
usuários e internautas que corroboram com o regime discursivo de poder da
pós-verdade, e que repassam as fake news, sejam ingênuos ou sofram de déficit
cognitivo etc. A bem da verdade, eles compartilham um processo
autoconsciente de ignorância coletiva, processado por meio das mídias sociais.
Muitos dos que compartilham fake news têm ou procuram ter confiança nas
notícias falsas de forma deliberada, pelo fato de algumas notícias
corroborarem com ideias e visões de mundo de muitos usuários. Ou seja, de
uma forma ou de outra, esse conjunto de notícias falsas tangenciam o sistema
de crenças desses indivíduos. Muitos usuários de redes sociais gostariam que
determinadas fakes news fossem de fato notícias reais, pois os tocam de forma
emocionalmente forte ou reiteram valores que esses usuários compartilham,
como vimos no exemplo da charge no Instagram, que exemplificamos em
linhas anteriores neste capítulo. Nesse caso, a reverberação emocional das
mensagens é impactante e incide nas formas de assimilação da verdade
desejada. O que ajuda a fortalecer, por parte de determinados grupos
conservadores, a propagação da opinião pública nas redes sociais, em apoio ao
discurso político e social conservador, fundado em medos e afetos.
Segundo as pesquisadoras Fernanda Bruno e Tatiana Roque (2019)
apontam, não se deve esperar que uma verdade comprovada vá substituir uma
avalanche de fake news.
Mensagens que suscitam emoções fortes são particularmente persuasivas: asco, medo,
ou raiva são sensações que levam uma pessoa a repassar imediatamente uma
mensagem. Isso só confirma que o engajamento no repasse de uma mensagem pode
estar menos vinculado à veracidade de seu conteúdo, do que a pertinência de um
conjunto de convicções coletivas. (BRUNO; ROQUE, 2019, p. 21).
Nesse sentido, a obliteração subjetiva tem um caráter autoconsciente e
igualmente deliberado, na crença sobre o fato da fake news. Ou seja, há um
desejo de crença objetivado na assimilação da pós-verdade, o que torna esse
processo cognitivo ainda mais perigoso, por estar de forma autoconsciente
sendo reiterado como prática do senso comum, mesmo tendo sido feito por
indivíduos/usuários esclarecidos. Nesse ponto, o conceito de autoconsciência
que Elias (1990, 1991) trabalha nos permite lançar mão da ideia em que essa
relação dos indivíduos está fundada num certo acordo de consentimento sobre
o que se deseja acreditar. Nesse caso particular, um acordo consentido que
apoia o regime de informação não verdadeira, que se presta à manipulação da
opinião pública em favor de manutenção de poderes, que se justificam com
falsas argumentações e que substituem e subvertem a realidade de fatos,
visando o controle do poder público.
Querer acreditar nas coisas não significa que ela não exista, significa sim
que há um desejo discursivo de crença sobre algo que se gostaria que existisse.
É nesse sentido que se fundamenta o discurso do desejo da crença e da fé,
presente na vontade do saber e do poder do fascismo.
5
HABERMAS E NORBERT ELIAS: A SOCIOGÊNESE DA
AUTOCONSCIÊNCIA E AS IMPOSSIBILIDADES
COMUNICATIVAS NO IRRACIONALISMO DA PÓS-
VERDADE
Alcançar entendimento é o telos inerente da fala humana.
Jürgen Habermas
Consideramos o binômio pós-verdade/fake news um processo de
irracionalismo autoconsciente de conveniência, que choca, distorce, reprime e
ajuda a negar a realidade dos fatos e mobiliza afetos coletivos compartilhados.
Com base nisso, tratamos de entender esse fenômeno de irracionalismo e seus
dispositivos de persuasão intersubjetivos, que visam subverter a ordem da
razão e a opinião pública, e assim, eliminando qualquer possibilidade de
qualquer forma comunicativa que vise o entendimento.
O fenômeno da pós-verdade faz parte de um jogo instrumental de poder
fundado em interesses desinformativos de grandes grupos e políticos, que
disseminam desinformação, com o objetivo de criar instabilidade generalizada
na opinião circulante nas redes sociais sobre determinados assuntos e temas,
visando interesses específicos, como persuadir ou mobilizar a opinião pública
de sociedades inteiras, no sentido de criar pressões de interesses econômicos e
financeiros, como no caso do BREXIT, que resultou na saída do Reino Unido
da União Europeia.
Dentro desse contexto de pós-verdade e seu recurso instrumental em
forma de fake news, funciona como um dispositivo que obliterar a capacidade
de discernimento crítico dos sujeitos, persuadindo-os o orientando-os a
tomarem posições urgentes sobre determinados conjuntos de interesses, sobre
os quais, geralmente, os indivíduos envolvidos não exercem conhecimento,
mesmo assim se mobilizam de forma afetiva, a tomarem posições, ao ponto de
criarem conflitos e situações de violência.
Esse conjunto de interesses, que motiva as fakes news são pautas de
conjunturas locais e internacionais e atendem especificamente ao desejo de
controle imediato sobre as novas formas de opinião pública e política, assim
como sobre as motivações individuais, a partir da esfera pública da internet,
por meio das suas redes sociais. Em particular na manipulação e indução da
opinião dos indivíduos/usuários das mídias sociais, que consomem e
reproduzem informação em larga escala cotidianamente e que estão mais
vulneráveis a crerem em mensagens e informações inverossímeis e a persuasão
de grupos de compartilhamento. Os impactos das fake news nas redes sociais
causam efeitos emocionais nas mais várias camadas da sociedade e repercutem
em todas as classes sociais de forma generalizada, pois, mesmo quando se
prova que determinadas notícias são falsas, muitos continuam desejando que
essas fossem verdadeiras, numa espécie de sistema de pensamento
negacionista fundado num irracionalismo autoconsciente e conveniente.
Quase sempre, a função desse tipo de pensamento negacionista é atuar contra
o pensamento racional científico.
O pensamento da ciência e da filosofia tem o poder de dispor de um saber
pautadoem processos de racionalidades que atendem a níveis de
conhecimento teórico, conceitual, metodológico e hipotético, que foi
acumulado e compartilhado no processo histórico das sociedades. O modo
epistemológico do pensamento racional está fundado em perspectivas de
conhecer e interpretar a verdade dos fatos. A exemplo disso, concordamos
com os interacionistas simbólicos, que herdam da fenomenologia uma maneira
de interpretar os fatos dentro de uma perspectiva relativista, em que se coloca
o conceito de “verdade”. A essa verdade cabe sempre um certo grau de
relativização, pois não existe verdade como essência das coisas, mas como
interpretação, mediante parâmetros epistemológicos. Com isso, o fenômeno
da construção social da realidade é relativo ao posicionamento do sujeito no
mundo e seu modo de interpretá-lo hermeneuticamente a partir dos fatos.
Mas, mesmo assim, há um pressuposto de validade universal para definir a
legitimidade do posicionamento desse sujeito no mundo e o seu papel
interpretativo. E, nesse sentido, a hermenêutica, como método, dentro desse
contexto, exerce um poder de reflexão interpretativa que se legitima como
construção da verdade interpretada. Ao menos esse é o papel do
conhecimento, em particular o social, na tomada de posição sobre as formas de
interpretar os dados, os fatos, os fenômenos e inclusive, na tomada de posição
de pensar o próprio pensamento.
Dentro desse contexto, sociólogos interacionistas, como Berger e
Luckmann (1973) assim como materialistas críticos, como Adorno (2006)
corroboram da mesma premissa em que se afirma que o pensamento é uma
categoria analítica e interpretativa, que se funda no uso da razão reflexiva, para
interpretar fatos e fenômenos. A esse respeito, Adorno afirma que:
Para a mentalidade científica o desinteresse do pensamento pela tarefa de preparar o factual,
a transgressão da esfera da realidade é desvario e autodestruição, do mesmo modo que, para
o feiticeiro do mundo primitivo, a transgressão do círculo mágico traçado para a invocação
[...]. (ADORNO, 2006, p. 33).
Os resultados do conhecimento científico são colocados à prova e
disponibilizados em testes sujeitos à refutação e à contra-argumentação. O que
faz com que a ciência seja plural, busque interpretações sobre o real, fundado
em saberes diferenciados e sistematizados que visem sempre novos resultados,
em nome de uma melhor explicação, sobre os fatos da realidade em todas as
áreas. As mudanças propostas pelo conhecimento científico levam o
conhecimento sistemático a novos patamares de mudança, inovação e
emancipação, que devem incidir em novos resultados relativos às novas
verdades. Quanto a isso, gostaria de recorrer a Habermas (1990), para entender
a crítica epistemológica ao conceito de conhecimento, pensamento e verdade
como espírito absoluto ou incondicionado, que na língua latina significava
summus ens (vide a exegese dos textos antigos) e que nos servirá de base para
formular uma crítica ao seu oposto que é a pós-verdade no século XXI. A
verdade e sua forma de conhecimento e pensamento de ordem púbica está
sendo substituída por um dispositivo que produz desinformações, a partir dos
quais o conhecimento do homem comum perdeu seu poder interpelativo e
crítico.
Como afirmamos logo no primeiro capítulo deste livro, o termo pós-
verdade foi definido como um substantivo que se referencia ao contexto no
qual os valores subjetivos ligado, sobretudo, à mobilização dos afetos, se
sobrepõe ao caráter objetivo dos fatos e ao modo racional de compreendê-los.
É dentro desse contexto que a pós-verdade se mostra como um
posicionamento anticientífico e negacionista, que desconsidera o saber técnico
e o substitui por valores míticos e de natureza esotéricos, ou em publicidade
falsa, dentre outras coisas. Com afirma D’Ancona (2018), em seu texto “Quem
precisa de ciência?”, as prioridades da pós-verdade fazem aflorar a cultura do
“negacionismo científico” e “teorias da conspiração”.
Como D’Ancona afirma:
Quando a verdade desaba como valor social, as continuidades da prática social que
ela apoiou são postas em perigo. [...]. A pós-verdade gera uma volatilidade espantosa.
Quando se confia menos na investigação baseada em provas do que numa coleção de
anedotas e se presta menos atenção à autoridade institucional do que em teoria da
conspiração, as consequências podem ser imprevistas e fatais. (D’ANCONA, 2018, p.
72-73).
Argumentamos com base em Adorno e Horkheimer (2006) que esse
processo é ideológico e cria uma reificação do pensamento, que leva o ato de
pensar a “reifica-se num processo automático e autônomo que ele próprio produz
para que ele possa substituí-lo. O Esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de
pensar o pensamento. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 33). Pois a
ideologia, ao coisificar a consciência dos seres, inibe o potencial crítico de
interpretação e suscita a percepção emocional como modo de operação do
pensamento superficial sobre fatos, objetos e fenômenos. Compreendamos que
a interpretação é um modo formativo e linguístico de produzir saberes. E
quanto mais fundamentado em elementos da realidade estejam essas formas de
saberes, mas válidos serão os processos de formação do conhecimento no
cotidiano por meio das formas de linguagem e desalienação do senso comum.
Berger e Luckmann (1973) fazem uso dos conceitos de realidade e
conhecimento, afirmando que esses termos são mantenedores do princípio da
verdade e ambos os termos fazem parte de uma trajetória epistemológica que
se fundamentam a partir de fenômenos da vida diária, em que se acredita no
“’conhecimento’ como a certeza de que os fenômenos são reais e possuem
características específicas. É nesse sentido que estes termos têm importância para o
homem da rua como para o filósofo”. (BERGER; LUCKMANN, 1973, p. 11).
Habermas não se distancia dessa perspectiva, pois para ele o cotidiano é o
lugar de existência das coisas do mundo da vida, da experiência e do
conhecimento. Porém, no mundo da vida do cotidiano da fake news, a
experiência com a verdade passa longe, pois é justamente o contrário o que
ocorre. O que vigora nesse processo reificado do cotidiano digital das fake
news é a criação de falsas realidades ou uma falsificação sobre o conhecimento
científico no mundo da vida, o que faz colonizar a subjetividade de milhões de
indivíduos/usuário na esfera pública digital da internet, criando mitos ao invés
de criar verdades pautadas em formas de conhecimento racional.
Segundo Habermas, o conhecimento científico é cumulativo, refutável e
emancipatório. Como bem afirma ele, a ciência não é e não pode ser
dogmática, e, da mesma forma, “O poder de disposição que as ciências empíricas
possibilitam não pode confundir-se com o poder do agir ilustrado.” (HABERMAS,
1968, p. 99). Por sua vez, para Habermas, esse conhecimento cumulativo e sua
relação com a autoconsciência dos indivíduos é visto como uma forma de
amadurecimento na relação entre o conhecimento e racionalidade pública, nas
formas comunicativas da esfera pública. O esclarecimento político do
conhecimento é necessário, à medida que a teoria do conhecimento técnico e
científico estão dispostas em formas de controle, sobre as quais os indivíduos
devem se transformar em sujeitos políticos por modos comunicativos de
negociações e entendimentos sociais. Mas, para Habermas, essa questão da
autoconsciência do saber e do conhecimento está associada ao modo como o
conhecimento técnico foi estabelecido pela ciência, e se disponibilizou dentro
de um jogo de forças, marcados por conhecimento e interesse.
Em seu livro Técnica e Ciência como ideologia, Habermas cita que,
As informações de natureza estritamente científico-natural só podem entrar num
mundo social da vida por meio da sua utilização técnica, como saber tecnológico:
prestam-se aqui a ampliação do nosso poder de disposição técnica. Por isso, não se
situam no mesmo plano da autocompreensão, que orienta a ação dos grupos sociais.
Para o seu saber prático, que se exprime na literatura, o conteúdo informativo dasciências não pode, pois, ser relevante sem mediações – só pode adquirir significação
pelo desvio através das consequências práticas do progresso técnico. (HABERMAS,
1968, p. 97).
Essas ideias desenvolvidas por Habermas como crítica ao conhecimento na
modernidade, em particular as críticas que foram estabelecidas pela leitura
feitas a partir de Hegel em seus livros Técnica e ciência como Ideologia (1968) e
Conhecimento e Interesse (1973), é de fundamental importância para
entendermos sua análise sobre a modernidade e os discursos que ela instaurou,
fundados no saber e na ordem instrumental do positivismo. Sua abordagem se
refere às formas de racionalidade que se impôs no mundo social dos sujeitos e
incidiram diretamente nos processos intersubjetivos de comportamento social
de forma autoconsciente.
Norbert Elias (1990) segue um outro caminho, fundado na violência
instaurada no processo civilizatório que configurou o caráter nacional dos
Estados-Nação, que contribuiu para a formação da autoconsciência das formas
de controle, expressas na institucionalização das formas de saber e poder, que
determinam a sociogênese dos indivíduos na sociedade moderna, na
determinação da relação estado e sociedade. Elias (1990, 2013) chama a
sociedade moderna de sociedade complexa, por instaurar novas formas de
regulação dos processos de controle civilizatórios, a partir de acordos
coletivos de relações sociais e institucionais.
As perspectivas de Habermas e Elias são diferentes, mas em ambos os
autores é feita uma crítica sobre as formas de dominação, por meios de
processos do conhecimento e da verdade que se estabelecem de forma
instrumental sobre o controle dos indivíduos nessa esfera social. Habermas e
Elias, cada um ao seu modo, ao tratarem de uma reflexão crítica sobre as
formas do conhecimento e autoconsciência dos indivíduos, nos ajudam na
formulação de uma análise crítica sobre as formas de irracionalismo de
conveniência que se constituem em novas formas de poder e discurso
autoritário na sociedade contemporânea, na qual se propagam a formação de
um novo pensamento ultraconservador e autoconsciente por parte dos
indivíduos.
Habermas afirma que “A autoconsciência, a relação do sujeito cognoscente
consigo mesmo, oferece, desde Descartes, a chave para a esfera interna, absolutamente
consciente, das representações que temos dos objetos.” (HABERMAS, 1989, p. 28).
Porém, quando a ação de cognição envolve linguagem, essa ação passa a fazer
parte de uma lógica comunicativa, e sobre a qual se impinge a necessidade de
entendimento social e reciprocidade reflexiva. Esse argumento habermasiano
que resulta na explicação da razão comunicativa está fundamentado em três
pilares, ou, se preferirem, em três perspectivas, a linguagem, a cognição do
aprendizado e por fim os processos morais que envolvem as formas
normativas da vida social, relativas às ações e procedimentos comunicativos. A
racionalidade comunicativa (HABERMAS, 2012), que sofre forte influência das
explicações de teóricos do interacionismo simbólico, como George Mead, está
presente epistemologicamente nas esferas sociais e precisa ser observada como
elemento contributivo da construção social da verdade, nos processos de
entendimento e acordos sobre a realidade, com base na intenção de
comunicação entre os indivíduos.
A lógica da linguagem, que obedece aos objetivos dos entendimentos na
esfera pública (HABERMAS, 1984) são fenômenos presentes do mundo da
vida (MEAD, 1932) e só se fazem efetivos como atos mediados pela interação
na vida. Segundo Mead (1932), os indivíduos no mundo vivido assumem o
papel e incorporam, de forma intersubjetiva, elementos de ação um dos outros,
com os quais interagem. Essa relação é estabelecida de forma interpessoal e
seguem uma espécie de roteiro social interativo, que se estrutura num
protocolo de sociabilidade ao longo do processo grupal e institucional das
interações sociais. Dependendo da forma como esse processo vá se
desenvolver, os indivíduos vão realizando adaptações nesse roteiro de ação e
mediação de comportamento linguístico e nas formas de comunicabilidade
entre os atores sociais (MEAD, 1932, 1972).
A linguagem, e suas formas de pronunciamento, é o maior fenômeno da
humanidade, e a partir desse fenômeno, os seres iniciaram processos de
mudança e ordenamento da vida coletiva, a partir dos quais a vida social se
tornou emancipada. Com base no uso ordenado da linguagem, sugiram
processos evolucionários, revolucionários e emancipatórios que nos levaram a
uma sociedade com ordenamento da vida social, donde surgem as ideias de
mundo vivido constituídos por espaços públicos, onde os indivíduos comuns
desenvolvem suas interações cotidianas de linguagens, atos de fala e
sociabilidade de conhecimento e interesses. Nessas esferas, vemos se
desenvolver o presente imediato da vida social, mas mesmo que estejamos
totalmente imersos nesse presente imediato, estaremos sempre olhando para
nosso passado recente, como se esse fosse um reflexo desse mundo vivido, a
partir do qual se toma consciência e posicionamento social diante de questões
cotidianas.
Baseado na teoria de Mead, Habermas afirma que:
[...] os fenômenos da consciência sob o ponto de vista de sua formação, que tem
origem em estrutura da interação mediada pela linguagem e pelos símbolos. A
linguagem possui um significado constitutivo para as formas de vida sociocultural.
No homem, a diferenciação funcional mediante a linguagem dá origem a um
princípio de organização totalmente diferente, produzindo não somente outro
indivíduo, como também outro tipo de sociedade. (HABERMAS, 2012, p. 9).
Segundo Habermas, a cognição e o comportamento nascem dos processos
de interação linguística que são operados processualmente no mundo da vida e
sobre os quais são fundamentais os atos de fala. Para Habermas (2012) a teoria
dos atos de fala foi desenvolvida pelo filosofo da linguagem, John L. Austin, o
qual define o ato de fala perlocucionário como um ato que provoca efeito de
influência, no sentido de convencer, persuadir, assustar etc. sobre quem quer
que esteja sujeito ao ato de perlocução, a partir de uma locução diretiva. Os
atos de fala e as ações, como fenômenos da vida social, devem ser voltados para
o entendimento entres os sujeitos no sentido de se buscar formas de
emancipação por meio das interações no mundo da vida e na esfera pública.
Nesse sentido, os pronunciamentos linguísticos e as tomadas de posições
sociais devem resultar numa racionalidade e numa práxis emancipatória que
ajuda a justificar o uso da razão pública, como princípio de orientação política
(HABERMAS, 1984, 1990, 1996). Esse tipo de racionalidade opera dentro de
uma lógica fundada em pressupostos universalmente válidos, no qual os
pronunciamentos, por meio da linguagem política, agem na busca de
expressões de entendimento, do ponto de vista cognitivo e comportamental.
Os atos de fala, nesse contexto, têm essa função. Quanto a isso, Habermas
(2012) se utiliza da distinção que é feita por Austin que nos apresenta três tipos
de atos de fala, a saber, o ato locucionário, o ilocucionário e o perlocucionário.
No ato locucionário, o anunciante, ao expressar a fala, diz algo, e, ao fazê-
lo, expressa um estado de coisas; no ato ilocucionário, ao expressar a fala e a
mensagem, o falante realiza uma ação enquanto diz algo, promovendo um
processo de entendimento; e por fim o ato perlocucionário, em que, ao
expressar o pronunciamento, o falante causa um efeito em que o ouve. Darei
maior atenção a esse último, como crítica de um modelo teleológico que busca
uma finalidade enunciativa, que prescinde de forma de entendimento, acordo
etc. O ato perlocucionário atende a uma forma de razão instrumental e
estratégica, que busca meios para atingir determinados fins, impactando de
alguma forma que estiver sujeito a esse tipo de ato de fala. No caso em questão,
fins que causem impactos e eliminem o poder de reflexão crítica sobre o que
que é dito, visto ou ouvido.
Não quero aqui reduzir o conceito de ato de fala perlocucionárioao
conceito de pós-verdade, em particular aos das fake news. Mas, em certa
medida, as fake news têm uma certa característica perlocucionária, por serem
formas de pronunciamento que causam de imediato impacto emocional,
relativo a crenças e valores dos indivíduos que estão sujeitos às mensagens
falsas, na esfera pública, sobretudo as esferas relativas às mídias sociais.
Na visão de Habermas, a linguagem, a cognição e a assimilação do
desenvolvimento da moral são forjadas no processo de desenvolvimento do
aprendizado da vida social. E esse processo só é possível mediante as formas
de entendimento e acordos estabelecidos pela autoconsciência social e o
comportamento dos sujeitos no mundo da vida social. A linguagem, a cognição
e a moral são vistas por Habermas como três pilares da sociedade. O pilar da
linguagem é um traço distintivo nas passagens dos estágios das fases nas quais
o homem se comunicava por gestos, posteriormente por símbolos e depois
pela linguagem oral, por meio da qual vão se desenvolver os atos de fala e os
atos sociais, dentro de um roteiro social de procedimentos interativos. Isso
proporcionou a emancipação do processo de civilidade nos entendimentos dos
atores sociais. O pilar do desenvolvimento cognitivo e moral formam a base
sobre a qual Habermas ancora sua teoria do agir comunicativo, mediado pelo
processo pedagógico de aprendizagem e comportamento da vida institucional
da sociedade. Os processos coletivos de organização social somam-se ao
desenvolvimento das ações sociais resultantes de aprendizados acumulados
socialmente, que incide sobre os comportamentos.
Essa síntese conceitual nos faz entender que Habermas lança mão de um
processo interdisciplinar, filosófico, sociológico, pedagógico, linguístico e
psicológico, para fundamentar sua teoria da ação social mediada pelos
processos comunicativos de ação social. Com isso, a questão a saber é que atos
de fala, ações sociais e interações mediadas pela linguagem e por símbolos,
assim como formas de comportamentos, são atos de elaboração de um
processo de entendimento coletivo compartilhado de forma autoconsciente no
mundo da vida. Sobre esses atos, percebe-se a relação social e política da vida
púbica nas várias esferas da sociedade, assim como se torna possível uma
compreensão sociológica e psicológica dos processos de tomada de
consciência dos indivíduos. (HABERMAS, 1990).
Os símbolos e as imagens são hoje parte constitutiva desse processo
político de enunciação comunicativa que atende às formas de entendimento
entre atores contemporâneos na esfera pública, na qual se faz uso de imagens
públicas coletivamente compartilhas, dentro da cultura visual. Segundo
Habermas, a ação comunicativa se constitui numa forma de ação racional que
tem propriedades de uma razão pública e auxiliam as tomadas de posição dos
sujeitos no tecido social e político da esfera pública.
Ainda segundo o autor, evoluímos socialmente a partir do uso da
linguagem e nos emancipamos politicamente de acordo com nossa evolução
comportamental mediados por formas coletivas de comunicação
compartilhadas. Somos uma sociedade com Estado porque nos emancipamos
racionalmente ao ponto de criamos uma ordem institucional que nos permita
viver de forma democrática e livre comunicativamente, respeitando nossas
diferenças dos indivíduos e dos grupos sociais. Mas ao mesmo em que somos
diferentes, somos unidos por um projeto emancipatório que nos iguala como
seres comunicantes, mediados por pronunciamentos linguísticos e simbólicos,
compreensões discursivas e afirmações comunicativas, em forma de ações por
parte dos sujeitos. Isso faz com que entendamos a afirmação do Habermas
segundo a qual devemos manter “A unidade da razão na multiplicidade de suas
vozes” (HABERMAS, 1990, p. 151).
Para Habermas (1990) a razão pública une o múltiplo, porque para ele é
necessário termos a unidade diante das diferenças múltiplas, à medida que o
tecido social é constitutivo de tais diferenças que são, a priori, subjetivas,
porém se expressam na esfera pública mediadas por uma razão pública
compartilhada socialmente. Sem o princípio da racionalidade pública, o
processo que une o múltiplo e suas distinções, seria inexequível e com isso
impossível existirmos coletivamente como sociedade. Essa questão já se fazia
presente na visão de Kant, que refletiu sobre a metafisica relativa à razão
subjetiva e universal. Para Kant (2001, 2012), a validade universal da razão é
um imperativo categórico, pois a razão sendo universal nos permite a
percepção do particular e com isso possibilita que a nossa subjetividade se
torne agente de percepção do mundo e nos define como indivíduo, que
participa deste mundo. Ou seja, o particular só existe dentro do universal e,
nesse sentido, o princípio da razão pública nos torna universais.
O primado da razão garante parâmetro à sociabilidade livre e institucional
da sociedade, independente de toda e qualquer diferença que possa haver entre
os indivíduos. Ainda segundo Habermas, o singular e o plural dentro desse
contesto é pressuposto das possibilidades metafisica da razão e da verdade,
assim como identifica os limites cognitivos da perspectiva do mundo mítico,
ainda na crítica que Parmênides fazia à racionalidade mítica, que não tinha
pressuposto de validade universal na Grécia antiga.
O mundo no singular remete sempre a uma origem que não pode ser da mesma
espécie que as forma originárias do mito, que surgem sempre no plural e em disputa
umas com as outras. [...]. E a explicação para os fenômenos objetivados não pode ser
procurada no nível dos próprios fenômenos, mas em algo que subjaz os fenômenos.
(HABERMAS, 1990, p. 154).
O que nos leva a crer que embora os sujeitos sejam distintos em suas
subjetividades, o princípio da racionalidade permite aos sujeitos a base sobre a
qual se construam entendimentos e acordos. Esses entendimentos são
pautados no princípio da razão de valores compartilhados, dentro de cânones
instituídos nas formas de pronunciamento da linguagem, e se constituem, para
Habermas, num agir comunicativo com pretensão de verdade e legitimidade.
Gostaria de complementar essa assertiva afirmando que no contexto do
irracionalismo de conveniência da pós-verdade, todo esse primado da razão
apresentado por Habermas é negado, infelizmente.
A pós-verdade resulta da crise de paradigma da racionalidade moderna que
instaurou o cenário de pós-modernidade. O discurso, a linguagem empregada
na ação da pós-verdade, vem seguindo uma linhagem iniciada com o advento
da pós-modernidade e da crise da razão no terceiro quartel do século XX. Esse
processo, a reboque da crise da razão ocidental, era discutido em outros
patamares, como questões relativas à crise dos modelos de conhecimento e às
velhas críticas sobre as epistemologias do mundo moderno e os modelos de
racionalidade binários de conhecimento. A modernidade é um projeto
discursivo de processos de mudanças contínuas, e a pós-modernidade é uma
certa falência desse processo. A onda pós-moderna rompe com a dialética
estruturada pelo modo de operação da modernidade. Ela inaugura uma
fragmentação da racionalidade e da subjetividade dos sujeitos. A pós-verdade
se apoia nessa fragmentação da consciência na forma autorreferente e
pretensamente autônoma dos sujeitos e seus atos de fala e de comportamento
social em rede.
Para Cristian Dunker,
A pós-verdade seria uma espécie de segunda onda do pós-modernismo. Sua
consequência é ao mesmo tempo lógica e reveladora da verdade brutal e esquecida na
qual ambos se apoiam. Assim como a pós-modernidade trouxe o debate relevante
sobre, afinal, como deveríamos entender a modernidade e principalmente o sujeito
moderno, penso que a pós-verdade inaugura uma reflexão prática e política sobre o
que devemos entender por verdade e sobre a autoridade que lhes é imposta. O traço
maior da subjetividade em termos de pós-verdade será exatamente esta aptidão para a
inversão sem transformação. (DUNKER, 2017, p. 13).
Essa inversão, que iria do pós-moderno ao pós-verdadeiro, traz aindauma
contradição complexa e conflituosa entre ambos em relação à verdade. Da
bricolagem do pós-moderno à intencionalidade das fake news pós-verdadeiras,
o que entra em questão, sem querer reduzir uma coisa a outra, é a evasão do
princípio ético da verdade e o esvaziamento do pressuposto da racionalidade
discursiva, entrando em cena, então, os dispositivos ideológicos de
colonização do imaginário social e político a partir dos quais os sujeitos se
veem influenciados na esfera pública.
A modernidade assim como a pós-modernidade são fenômenos que se
constituem a partir da formação de um discurso de poder instituído na esfera
do Estado e das instituições da sociedade. Segundo Habermas, (1984, 1994,
1995) a modernidade é fundada sobre um discurso e sobre este se instaura um
ideário de valores, que resultam em processo de constituição do
conhecimento, sociopolítico, científico, educacional, cultural, artístico e
estético da sociedade e do Estado. Porém o que Habermas (1984, 1994, 1995)
ressalta é que dentro desse processo a razão relativa à modernidade é
constitutiva de uma construção discursiva, carregada de valores e ideologias
propagadas de forma instrumental na relação entre meios e fins. Mas mesmo
em sendo assim, a própria noção de verdade, no imaginário moderno, atende a
uma construção de princípios éticos, que embora sejam contraditórios e as
vezes até ambíguos, são, a princípio, ética e politicamente válidos, dentro dos
discursos sobre a realidade institucional que a modernidade instaura.
Em outras palavras, a verdade e seus desdobramentos estão ancorados em
dois fatores, a saber, a validade da razão, que permita a sua compreensão assim
como a sua crítica, e a validade ética, que norteia a legitimidade os argumentos
e os comportamentos discursivo dos indivíduos e suas verdades. Assim com
Habermas, Norbert Elias (1993) defende que a relação dos indivíduos no
processo das relações sociais estrutura-se na ética do comportamento dos
indivíduos, amparados nas estruturas institucionais da sociedade, sobre a qual,
segundo Elias, se formam a sociogênese do conhecimento da vida social, que se
pretende civilizada e culturalmente desenvolvida. Dentro desse processo de
sociogênese, com pensa Elias (1993), o princípio da autoconsciência sobre a
verdade e a civilidade fundam-se numa construção que permite a oposição e a
pluralidade das diferenças entre os indivíduos, numa espécie de balança social
entre o “Nós” e os “Eus”, como ele afirma em seu livro A Sociedade dos
Indivíduos (1993).
Os conceitos de conhecimento, verdade, autodeterminação e habitus, na
teoria de Norbert Elias, são fundamentais para definir o princípio do processo
civilizatório e emancipatório dos estados, com caráter nacional e dos
indivíduos com caráter social, numa relação de equilíbrio mediada pela cultura
dentro desse processo. O que destacamos é que essa civilidade e sociabilidade
cultural são elementos incorporados de forma autoconsciente, que permitem
aos indivíduos formularem seus acordos sociais, mediante a relação com o
Estado. Sobre esse aspecto, Habermas e Elias estão de lados distintos,
sociologicamente falando, sobre as dimensões distintivas entre coletivo e o
social e o seu papel, mas se tangenciam sobre o caráter da autoconsciência dos
indivíduos nessa dimensão.
Para Elias (1993) as formas de poder e conhecimento do mundo moderno,
que derivaram em formas de dominação dos estados sobre os indivíduos, são
igualmente avanços de um processo civilizatório que se impuseram aos
indivíduos a partir de parâmetro de controle do saber sobre o processo
civilizatório da vida social, em nome da manutenção das formas de assimilação
da cultura dita civilizada. Ainda segundo Elias (1990), a sociedade moderna
que é caracterizada por uma complexidade institucional e protocolar, que
determina procedimentos de comportamento, é fruto de uma mesma
sociogênese que influi a mudança na vida dos indivíduos e ao mesmo tempo dá
a eles autonomia social e responsabilidade para que eles sejam livres e
responsáveis por si e pelo que fazem conscientemente.
Esses indivíduos têm autoconsciência das suas escolhas e têm igualmente
consciência da necessidade de seus interesses e do limite sobre até onde
podem agir legitimamente a partir de suas liberdades. Porém, nesse mesmo
contexto, surgem também novas formas de dispositivos sofisticados de
controle que são estabelecidas, e sobre as quais esses indivíduos usuários têm
autoconsciência das suas influências. O desenvolvimento das redes sociais e
todo acúmulo de experiência e conhecimento disponíveis nelas, representaria
um processo complexo que atende não apenas a uma superestrutura
tecnológica, mas também a um processo civilizador da informação e não da
desinformação que resulta em brutalidade irracional socialmente
compartilhada.
O processo civilizador é um processo moderno de violência, controle e
interdição, que é fruto do acúmulo de experiência incorporada por costumes e
por leis instituídas por grupos e pelo estado, e por saberes experimentados,
que incidem sobre os indivíduos em forma de dominação autoconsciente que é
incorporada intersubjetivamente. Os indivíduos se civilizam incorporando
controles e maneiras de ser e de estar no mundo individualmente ou em
grupo. Para Elias, “Aquilo que, visto por um aspecto, se apresenta como um processo
de individualização crescente é visto, por outro, um processo de civilização” (ELIAS,
1990, p. 317). Fazendo um paralelo a essa premissa, diríamos que os indivíduos
no desenvolvimento de suas atividades nas redes sociais se pronunciam e se
afirmam perante o mundo, com impulsos espontâneos e reprimidos num jogo
de autocontrole nas interações sociais. E o uso das formas de interação
culturais e comunicativas são as principais formas de interação; nesse
contexto, o comportamento impulsivo em que segundo Elias os indivíduos
reconhecem o lugar do “nos” e do “eu” na rede de relações sociais.
Segundo Elias (1990) “A lacuna e o conflito entre os impulsos mais espontâneos
e os impulsos que cerceiam a ação imediata, sentidos pelas pessoas altamente
individualizadas desse estágio de civilização, são por elas projetados em seu mundo”
(ELIAS, 1990, p. 319). Para Elias, o controle sobre a percepção e o
comportamento do indivíduo fundamenta a regulação e o poder que o Estado
estabeleceu sobre os indivíduos nesse processo civilizatório. Porém isso
também estabelece algo bem mais agudo como mecanismo de controle
modulador de comportamentos na sociogênese do indivíduo na sociedade
complexa das redes sociais, nas quais os indivíduos têm plena consciência do
seu papel.
Nesse contexto, os atos de compartilhamento informativo, desinformativos
e contra-informativos, como os atos de fala, os pronunciamentos, os
enunciados, e postagens em mídias sociais, são constitutivos de impulsos
comportamentais de saber e de poder, que resultam em tomadas de posição
autoconsciente nos espaços públicos e políticos das redes sociais. Nossos
pronunciamentos sociais causam algum tipo de impacto e por menor que seja,
nossos pronunciamentos são constitutivos de um dispositivo de linguagem
que também está associado às formas de saber e de poder de nossa consciência
política sob o nosso autocontrole nos espaços públicos. Com isso, acreditamos
que a performance social do indivíduos/usuários nas mídias sociais é
demarcada pelo autocontrole que os indivíduos têm sobre os seus impulsos e
comportamentos, o que demarca o grau de racionalidade ou irracionalidade
autoconsciente dos indivíduos, mesmo quando esses lidam com situações de
conflito, tensões, emoções e visões de mundo calcadas em opiniões superficiais
sobre assuntos com os quais os indivíduos se identificam, sobretudo quando
reproduzem enunciações de cunho extremista.
Esse jogo de fala e enunciação, muitas vezes fundado em ideologias
religiosas e moralistas, tentam se travestir de opinião política, mas são apenas
imposições de afetos e desafetos que querem impor um sentido discursivo de
poder como regime de verdade, num jogo intersubjetivode poder pessoal ou
grupal. Nesse jogo interpelativo, a emoção, como Doxa42 opinativa, é a regra
determinada por valores que prescinde do direito à diferença e tenta se impor
com verdade nos espaços públicos. A Doxa é assim vista pela filosofia como um
conjunto de juízo de valor que a sociedade cria em determinadas
circunstâncias históricas, partindo da suposição de que tais juízos são
fundados em elaborações de verdades ou evidências de verdade, mas não
passam de crenças ingênuas desprovidas de substância de realidade e
conhecimento válido, que são processados num jogo de disputa de opiniões.
Muitas vezes, esse jogo de opinião e debate prescinde igualmente de
necessário grau de racionalidade que permita o diálogo e, com isso, não é
possível que ajam entendimentos entre os sujeitos que se pronunciam nos atos
de fala ou atos de troca de mensagens, em diálogos nas redes sociais, que
causam mais efeitos pelos impactos das emissões das mensagens, que
discernimento na discussão sobre o que é dito. Não havendo assim, a
possibilidade de entendimento comunicativo, entre os sujeitos do debate
acalorados ancorados em fake news e pós-verdades. Nesse contexto, os
emissores e o receptores não têm condições de entendimento nesses processos
comunicativos, propostos nos espaços públicos das mídias sociais.
Essas relações ruidosas nessas esferas públicas implicam em formas de não
entendimento, que são motivadas por relações forjadas em contextos
ideológicos de poder, sobre os quais a linguagem e a incompreensão da
racionalidade têm fins objetivos de controle dos espaços da fala e se tornam
mecanismos de controle sobre opiniões e comportamentos desse jogo social de
imposição de regimes de verdades e pós-verdades.
O controle da opinião pública, assim como do conjunto de dados e
informações que circula nas redes sociais, é um processo complexo. Há uma
autoconsciência na forma como a opinião é submetida a regimes de pós-
verdade e sobre a qual se buscam formas de controle por meio dos processos
de desinformação da fake news, na esfera pública do mundo da vida da internet.
É
É importante destacar que esse processo concreto de desinformação se
reproduz como forma de dispositivos de controle, que se repercutem em
tomadas de posição de políticas públicas dos indivíduos/usuários, à medida
que são orientados por cálculos algoritmos que analisam hábitos e dados nas
redes sociais, como discutimos ao longo deste livro. Os comportamentos e
práticas dos grupos sociais, que ancoram seus habitus em distorções
informativas como as fake news, o fazem mediante interferência direta na
reprodução de suas vidas cotidianas, à medida que incorporam como verdade
notícias e informações que não correspondem à realidade e circulam de forma
inadvertida nessas esferas públicas eletrônica. Dentro desse contexto, as
informações e os mecanismos de comunicações sociais, assim como os
dispositivos de interdições institucionais do Estado e dos grupos sociais, são
representações de poder e controle social no desenvolvimento da sociogênese
dos indivíduos nesse contexto do mundo da vida digital.
Voltando às explicações de Norbert Elias (ELIAS, 1990, 1993, 1997), vemos
que de forma autoconsciente e com autocontrole, os indivíduos assimilam os
processos informacionais e institucionais que incidem na modulação de suas
vidas. E de forma autoconsciente os indivíduos se sentem livres com o
acúmulo de conhecimento que absorvem na modernidade, ao mesmo tempo
essa autoconsciência os controla a todo momento no desenvolvimento de suas
atividades sociais. Nesse sentido, para Elias, quanto maior o grau de
conhecimento, maior o grau de responsabilidade que os indivíduos terão sobre
suas vidas. Com isso, a autoconsciência associada ao conceito de acordo social,
torna possível a consciência da liberdade de ação dos indivíduos, no processo
da vida pública e política na sociedade. O termo acordo se desdobra no termo
consentimento, termo sobre o qual o espectro de agenciamento das
possibilidades de manutenção do controle sobre os indivíduos é exercido pelo
Estado na sua forma de regulação de comportamento.
O conceito de Habitus43 para Elias (1997) é parte constitutiva do papel de
ingerência do estado sobre os indivíduos, no processo de normativização da
vida social. Para Elias (1997) o estado se reproduz por um Habitus, que são
incorporados na formação dos indivíduos e que também tem um poder de
coerção que impera como um caráter nacional, na formação do processo da
sociogênese da sociedade/Estado. Ainda segundo Elias (2012), a partir desse
Habitus, os indivíduos conseguem constituir, de forma livre e democrática,
uma sociedade/Estado, com controle institucional, normas constitutivas e
ordenamento social autoconsciente, que fazem parte da figuração do que
chamamos de estado nação.
Numa outra forma de visão sobre a autoconsciência dos indivíduos sobre a
relação sociedade estado, para Habermas (1997), o Estado e seu compromisso
com a cidadania e a identidade nacional deve romper com essa lógica de
dominação e cada vez mais deve procurar se estabelecer a partir da
autoconsciência da razão pública, a partir da qual os atores sociais possam agir
comunicativamente na busca de entendimento e acordos democraticamente
estabelecidos, a partir de suas diferenças. Como Habermas afirma,
Esse processo democrático de formação da opinião e de busca de uma decisão
transforma-se na constituição do estado de direito. Numa sociedade pluralista, a
constituição expressa um consenso formal. Os cidadãos querem regular sua
convivência de acordo com princípios que podem encontrar o assentimento
fundamentado de todos, por serem do interesse simétrico de todos (HABERMAS,
1997, p. 280).
Com isso, as diferenças sociais poderiam propor formas negociadas e
racionais de um entendimento público e político, dentro e fora do Estado. O
que parece ser uma utopia nesse contexto de retomada do pensamento do
fascismo contemporâneo e a colonização ultraconservadora do estado de
direito que produz um mal-estar social, ao invés de um estado de bem-estar.
No contexto da pós-verdade, em que populismos autoritários de
colonização do estado nacional imputam valores ultraconservadores
particulares sobre os valores universais da razão pública e disputas de poder
que negam acordos democráticos, vemos a morte do habitus democrático,
assim como a falência da tentativa de uma razão comunicativa.
Segundo Safatle (2017): “Faz parte de uma certa leitura hegemônica da vida
social moderna a ideia de que a razão se realiza necessariamente através da
consolidação de um horizonte de diálogo.” (2017, p. 127), complementando esse
pensamento, diríamos, no qual o estado de direito parece ser o mediador de
um entendimento social. Ainda citando Safatle,
Assim uma sociedade cujas instituições e práticas são racionais, seria necessariamente capaz
de regular seus conflitos a partir da exigência dos sujeitos explicitarem suas razões para agir
e de avaliar tais ações a partir da procura do melhor argumento (2017, p. 127).
Esse fundamento crítico apresentado na citação está estruturado no
argumento de que a racionalidade pública, sobre as quais os sujeitos se
relacionam, possibilitaria acordos e formas de regulação da vida social,
mediado por um certo poder comunicativo. O que tornaria possível um tipo
de racionalidade compartilhada, na qual se buscam forma de entendimento.
Mas dentro do contexto da sociedade contemporânea que desenvolveu a
cultura da desinformação e do irracionalismo de conveniência a partir do
binômio pós-verdade/fake news, qualquer tentativa de uso da ação
comunicativa no exercício da razão pública é em vão. E desse modo,
infelizmente, Habermas não se aplicaria como modelo de análise, ao contexto
de uma sociedade que se funda numa prática de intencionalidade de ação
objetivamente irracional, a exemplo do binômio pós-verdade/fake News. Isso
porque essa sociedade na qual se instaura esse binômio tende a eliminar a
possibilidade de uma razão pública, como forma de entendimento da
sociedade civil política.objetivamente, está ligado ao controle dos afetos coletivos e da sociedade em
rede, orientado por um fascismo digital cotidiano.
Essa premissa é o fio condutor dos argumentos que se seguiram neste livro.
Entretanto, esse fio se liga a várias outras questões que tocamos de forma
conceitual nesta obra, como, por exemplo, o conceito de dispositivo. Tentamos
suscitar compreensões pautadas no entendimento de que esses fenômenos das
mentiras nas redes sociais, e toda fraudulência que isso representa, pode ser
analisado como um dispositivo instrumental de orientação de condutas e
controle dos condicionamentos de mentes e corpos, que circulam no tecido
social contemporâneo.
Sob esse aspecto, o dispositivo de instrumentalização de notícias falsas
atende a interesse específicos, dentro de conjunturas políticas e econômicas, e
se faz funcionar como um instrumento de percepção intersubjetiva que induz,
orienta ou determina comportamentos sociais, motivados por interesses
políticos ou de mercado, estruturados por governos e/ou empresas de forma
deliberada.
Com isso, o nosso livro se divide em sete partes que se complementam,
dando sequência a um roteiro de reflexão que vai de uma introdução crítica
aos conceitos que damos a fake news e a pós-verdade, e atravessa outras
questões que estão ligadas à crise da racionalidade e à retomada do
pensamento mítico e sua relação com a psicanálise. Seguimos objetivando
compreender os processos de sociogênese das novas condições da construção
social da realidade, atreladas às novas relações de poder e novos domínios das
ideologias no cotidiano digital dos nossos dias. Por fim, buscamos entender os
processos do negacionismo doutrinário e a ressonância emocional que usa o
ódio como retórica política abjeta e violenta, com proposições do fascismo
colonizado dos dias atuais.
Esse percurso de análise se divide em duas centenas de páginas, que
escrevemos tentando compreender o nosso fazer sociológico interdisciplinar,
num contexto de uma sociedade, como a brasileira, fraturada, isolada e
vilipendiada, e que, a cada dia, perde milhares de pessoas para a pandemia da
Covid-19, ao mesmo tempo em que também se deixa iludir por governantes
mitômanos.
O Brasil não pode perder o seu poder de força política e muito menos o seu
habitus democrático.
1
FAKE NEWS E PÓS-VERDADE: UMA INTRODUÇÃO
CRÍTICA AO IRRACIONALISMO DE CONVENIÊNCIA DO
FASCISMO CONTEMPORÂNEO NEOLIBERAL
As possibilidades de que a verdade factual sobreviva ao assédio do poder são de fato por demais
escassas; aquela está sempre sobre o perigo de ser ardilosamente eliminada do mundo.
Hannah Arendt
É comum observar, e com razão, que o fascismo eleva o irracional sobre o racional, a emoção sobre
o intelecto.
Jason Stanley
Este trabalho tem, a priori, uma perspectiva interdisciplinar e trata de
refletir sobre a crítica ao irracionalismo de conveniência, que se soma às
formas autoritárias e abjetas do fazer político neoliberal e à colonização da
esfera pública nos últimos anos, por meio de práticas de um fascismo
cotidiano, forjado no mito antirracional da fake news e da pós-verdade.
Segundo o Dicionário Oxford, o termo pós-verdade (post-truth), é considerado
um substantivo “que relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos
objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à
emoção e a crenças pessoais.”3.
Mas se sabe que o termo pós-verdade foi pronunciado pela primeira vez
pelo jornalista Steve Tesich, para se referir às questões dos escândalos relativos
ao Irã na Guerra do Golfo Pérsico, em 1992. Em 2004, foi publicado o livro
The post-truth era, de Ralph Keynes e, em 2010, o termo ressurge associado à
questão propriamente política, como nos afirma Santaella (2018). E é a partir
desse contexto político, somado às questões intersubjetivas, que envolve os
aspectos psicossociológicos e psicopolíticos dos sujeitos e seus afetos, que nos
interessa realizar uma análise crítica e interdisciplinar dos processos da pós-
verdade e sua composição com os fenômenos das fake news.
Essa relação do binômio pós-verdade/fake news alerta-nos para uma
dimensão de análise interdisciplinar em que estão ancoradas questões relativas
à cultura política e à opinião pública, em sua estruturação com ideologias que
atentam contra o estado democrático. A questão relativa a esse problema
político refere-se ao fato de que a opinião cidadã e a cultura da participação
política desses cidadãos, na esfera pública cultural, parecem estar
desconectadas da realidade do estado de direito e das políticas de um estado
democrático.
Na perspectiva de Santaella (2018) e Bucci (2018), as formas pelas quais as
narrativas midiáticas da sociedade em rede atuam, com base no binômio fake
news/pós-verdade, desorientam a participação dos indivíduos, num processo
em que a formação da opinião pública política, derivada das narrativas da
mídia, parece ter se desconectado por completo dos instrumentos com os
quais se discutem, se estruturam e se estabelecem parâmetros para a
implementação de políticas públicas e a participação direta frente ao estado
democrático.
E, para entendermos de forma crítica esse processo, temos que ampliar o
nosso horizonte de perspectiva, tanto do ponto de vista teórico como
conceitual, para um plano interdisciplinar. Pois essas questões, a nosso ver,
estão situadas para além das fake news e sua relação com a pós-verdade. Isso se
amplia e torna-se um problema maior que envolve verdades factuais, dentro de
um plano em que as políticas neoliberais se encontram com ideologias
ultraconservadoras dentro de uma estrutura tecnológica de uma sociedade em
rede, em que o fascismo digital encontra eco, para estabelecer controles, a
partir de novas tecnologias do poder biopolítico e psicopolítico. Esse processo
de dominação que incide na manipulação, controle e indução da opinião
pública ocorre dentro e fora da esfera pública do estado democrático, e tem no
binômio fake news/pós-verdade duas ferramentas que atuam como
dispositivos ideológicos de uma nova sociedade de massa, agora estruturada
em rede.
Partimos de uma perspectiva interdisciplinar, crítica e analítica, na
tentativa de buscar pontos de tangência entres vários autores dos campos da
filosofia, psicanálise e ciências sociais, para nos ajudarem a analisar os
fenômenos que se originam desse autoritarismo neoliberal e fascista, que são
forjados no processo de propagação da desinformação generalizada, por meio
das mídias sociais e tecnologias do poder (HAN, 2014).
Encampamos reflexões fundadas em autores como Michel Foucault e
Theodor Adorno, que nos dão o norte de análise, para discutir os fenômenos
contemporâneos relativos à crise da racionalidade e do sistema de
pensamento. Essa crise apresenta formas de dominação e poder que se
espraiam como linhas de dispositivos bifurcados (DELEUZE, 1995) por meio
de relações com as novas tecnologias da biopolítica (FOUCAULT, 2020), e do
violento brutalismo do neoliberalismo institucional do estado de exceção,
antidemocrático (AGAMBEN, 2011).
Buscamos, com isso, refletir, de forma mais aproximada, sobre questões
relativas às novas formas de dominação que resultam desse processo de crise, e
de como esses criam sistemas de relações de poder sobre os afetos e a
intersubjetividade dos indivíduos, por meio dos instrumentos que se
instauram nas formas de administração política da sociedade contemporânea.
A partir da crítica feita à doutrina neoliberal conservadora, que, segundo
Nancy Fraser (2018), amplia-se como uma crise política de forma global, em
que vimos,
[...] o desastre do BREXIT, no Reino Unido; a declinante legitimidade da União
Europeia e a desintegração dos partidos social-democratas e de centro-direita que a
promoveram; o sucesso crescente de partidos racistas e anti-imigrantes em todo o
norte e centro-leste da Europa; e o aumento de forças autoritárias, algumas se
classificando como protofacistas, na América Latina, Ásia e Pacífico. (FRASER, 2017,
p. 44).
Buscamos analisar os ideais políticos ultraconservadoresAssim também procura eliminar qualquer crença
sociológica sobre os modos civilizados do processo de autoconsciência,
autocontrole e controle social dos indivíduos, na forma como Elias (1993)
analisou o processo civilizador.
Com isso, procuraremos refletir um pouco sobre como esse processo de
irracionalismo de conveniência desse binômio pós-verdade/fake news, atua no
cotidiano digital da sociedade contemporânea e faz ressurgir uma regressão da
racionalidade que se ancora em pensamentos míticos e negacionistas.
6
O COTIDIANO DIGITAL NA CONFLUÊNCIA DO
NEGACIONISMO COM O IRRACIONALISMO DE
CONVENIÊNCIA: DA TERRA PLANA AO BREXIT
Em tempos de ultraconservadorismos contemporâneos, o processo da
racionalidade comunicativa parece não mais oferecer uma base de validade,
por meio da qual se fundamente o uso de uma razão comum que justifique o
diálogo no mundo da vida. O diálogo parecer ser algo que vem perdendo
gradativamente seu poder de constituição de entendimento, diante do
fenômeno da pós-verdade.
O fenômeno da pós-verdade e o conjunto de desinformação proposto por
notícias falsas e discursos fascistas contemporâneos prescindem do diálogo,
assim como negam, distorcem ou reinventam argumentos históricos, que
visam eliminar o pano de fundo da história no nosso cotidiano. O Background
do cotidiano sempre nos serviu como base de experiências vividas, para
ancorarmos nossas projeções imaginárias e nossas indagações sobre o futuro
imediato de nossas vidas. A pretensão de falsificar a história por meio das fake
news se faz à medida que a história se reproduz como farsa no cotidiano. Esse
processo de replicação do falso forja uma colonização subjetiva cotidiana pela
hipervisualidade das fake news, no contexto da cultura visual (SILVA, 2020). O
caráter intersubjetivo, presente na hipervisualidade das fake news, por meio das
montagens audiovisuais e edições textos e imagens fotográficas, tendem a
funcionar como dispositivos de reificação da consciência dos sujeitos no
cotidiano digital das mídias sociais. Essas mensagens perduram num tempo
efêmero e só se desmancham no ar, após causar alguns estragos, emocionais,
políticos e financeiros. Fatos inverídicos criam um forte impacto emocional
por meio de mensagens do tipo fake news, além de servir a um propósito
financeiro fraudulento, do qual milhões de indivíduos/usuários não fazem a
menor ideia.
Esses indivíduos/usuários fazem parte de uma mais-valia digital, que cria
formas de monetarização por cliques, como nos afirma Bucci (2018).
Pessoas mal-intencionadas ainda faturam com a mensagem [...]. Porque as regras
dessa nova indústria digital, permite isso. Quanto maior o número de cliques, mais o
autor arrecada. A mentira é fácil de se reproduzir – é barata – e desperta o furor das
audiências. Despertando emoções intensas nos internautas, mobiliza-os para
propagar o malfeito. (BUCCI, 2018, p. 42).
O malfeito, no caso, é algo bem mais complexo que só a reprodução das
notícias falsas. O processo fraudulento e abjeto é mais amplo, induzido pela
robotização das mensagens com circulação de conteúdo falso somado ao
processo de monetarização desse conteúdo, à medida que cada acesso a uma
mensagem fake news permite um lucro financeiro direto ao agente promotor
da notícia falsa. Como nos informa Empoli (2019), a engenharia do caos das
fake news se alimenta do ódio e da mentira, provocando adeptos e gerando
monetarização e lucro dentro desse novo contexto político. Quanto a isso,
referindo-se à onda das fake news e do populismo de políticos contemporâneos
como Donald Trump, Jair Bolsonaro e outros líderes, Empoli (2019) chama
esse absurdo de Carnaval contemporâneo do caos e inversão da realidade,
propagados com o advento das fake news. Empoli (2019) afirma que,
O Carnaval contemporâneo se alimenta de dois ingredientes que nada têm de
irracional: a cólera de alguns meios populares, que se fundamenta sobre causas sociais
e econômicas reais; e uma máquina de comunicação superpotente, concebida em sua
origem para fins comerciais, transformada em instrumento privilegiado de todos
aqueles que têm por meta multiplicar o caos. (EMPOLI, 2019, p. 24).
Entenderemos que nesse processo de industrialização das fake news, os
indivíduos/usuários das redes são, ao mesmo tempo, a mão de obra voluntária
e gratuita de replicação e consumo desse produto da indústria cultura da
desinformação no Brasil. Esse público é parte de uma rede que objetiva
consumo e circulação de mensagens falsas no cotidiano digital das redes e se
serve da coalizão de interesses que convergem em nome de uma ideologia
ultraconservadora, com a qual se alinha. Como bem analisa Chagas (2020),
“Os grupos de extrema-direita brasileiros vêm ganhando destaque nos últimos anos,
notadamente desde a eleição de Bolsonaro como presidente do Brasil, nas eleições de
2018. [...]. Com várias matizes, a extrema-direita no Brasil junta-se principalmente
aos fãs nostálgicos do regime militar, conservadores neopentecostais, conspiradores
anticomunistas, monarquistas e membros de várias outras tendências que estiveram
encobertas por anos em razão do avanço da agenda progressista nos governos de
esquerda que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. (CHAGAS,
2021, p. 171).
A engenharia da desinformação associada ao discurso ultraconservador
apostou nessa aderência ideológica, voluntária e autoconsciente dos
indivíduos, para conseguir implementar suas pautas dominantes no cotidiano
digital das redes e mídia sociais. Mas além desse processo ideológico, há ainda
um processo de monetarização desse contexto, que é bem mais amplo que
apenas a operação voluntária de alienação no uso das redes sociais. Os
indivíduos/usuários se alienam às novas tecnologias de propagação da
desinformação e os cálculos matemáticos dos algoritmos possibilitam a
manipulação dos dados de indução de informação e monetarização delas. A
publicidade das fake news nas redes sociais é uma forma objetiva de produzir
lucro e mais-valia nesse capitalismo informacional. Segundo Dora Kaufman
(2018),
O Facebook monetariza sua gigantesca base de dados utilizando algoritmos de IA
capazes de mapear a personalidade dos usuários, com 80% de precisão. Com base em
clique e curtidas, contempla atributo como gênero, idade, formação, etnia, “desvios”
de personalidade, orientação sexual, política e religiosa, doenças, uso de substância.
De posse desse “conhecimento” sobre seus usuários, a rede social vende aos
anunciantes uma comunicação hipersegmentada ou personalizada de seus produtos e
serviços. (KAUFMAN, 2018, p. 55).
Com isso, podemos entender o processo de alienação social que é
reproduzido no cotidiano digital da vida ordinária nas redes sociais.
Como bem afirmou Agnes Heller, (1992), o cotidiano se configura como o
mundo da vida do indivíduo. Esse lugar é marcado por conflitos, resistências,
formas de conformações e fragmentações sociais. Alguns autores focam o
cotidiano como um espaço de análise, em que os fenômenos são bem visíveis e
dessa forma pode servir de lugar de observação sociológica. As tendências de
explicações sobre o cotidiano nos ajudam a entendê-lo como um fenômeno da
vida diária, como nos afirmam Heller (1992), Lefebvre (1991), Berger e
Luckmann (1986). Esses autores nos ajudam ainda a entender a formação de
um pensamento político com base no cotidiano. Nesse sentido, o fenômeno do
cotidiano é visto não apenas como uma rotina diária do mundo da vida, mas
como um processo de identificações e afirmações de interesses identitários.
Afirmamos que,
O cotidiano é com isso, uma dimensão multifacetada do mundo da vida, é ao mesmo
tempo um processo de reprodução criativa e rotina alienante da vida diária, assim
como é um fenômeno intersubjetivo de propagação e afirmação de identidades,
coletivas e individuais, criadas no nível do mundo da vida. (SILVA, 2019, p. 57).
O indivíduo comum está absorvido pelas entranhas da vida cotidiana de
forma individual e coletiva e é dentro desse processo que Heller (1992)
acredita que o processo de aprendizageme populistas
(GARBAUDO, 2018) de uma nova ideologia neoliberal que se instaura com a
chamada nova direita, “que declaran abiertamente su intención de destruir el
sistema político en sus fundamentos” (COSTA, 2020, p. 31).
Esse projeto neoliberal se traduz em ideologia perversa de clivagem social,
entre grupos que formulam um modo de pensamento único e extremamente
excludente, que se expressa numa nova forma de fascismo pautada no discurso
do medo, na manipulação dos afetos e na ameaça contra a sociedade e a
democracia (HAN, 2014; SAFLATE, 2015).
Isso se instaura por meio de uma política do “nós” e “eles”, como afirma
Stanley (2020), ou, poderíamos também dizer, do nós contra eles, em termos
de aniquilamento democrático sobre pertenças de gênero, raça, etnia, credo
religioso etc. Consideramos que as práticas dessa perversão fascista se
reproduzem na vida cotidiana, tendo por princípio uma orientação ideológica
aparentemente irracional, oriunda de uma ideologia da direita radical que age
contra todos que não comunguem dessa ideologia.
Esse tipo de pensamento está disseminado em todos os cantos do mundo, e
se faz mais visível em países que optaram por eleger recentemente líderes
políticos que propagam abertamente discursos extremistas e
ultraconservadores, que se coadunam com políticas neoliberais do fascismo
contemporâneo proposto pelo discurso da nova direita. Essa ideologia se
reproduz e afeta a cultura política, dentro e fora das esferas institucionais, e se
espraia pelo mundo da vida, incidindo diretamente na mobilização dos afetos
do corpo social e suas relações digitais cotidianas, da sociedade em rede. Isso
se dá, particularmente, no cotidiano digital desse corpo social, por meio das
mídias sociais, que vêm se transformando numa espécie de esfera pública
eletrônica dos afetos, que gera um inconsciente coletivo digital, como afirma
HAN, (2014), que estrutura um campo da psicopolítica dos afetos.
De este modo se podría acceder al inconsciente colectivo. En analogía con el
“inconsciente óptico”, se podría denominar como inconsciente digital al entramado
microfísica o micropsíquico. La psicopolítica digital sería entonces capaz de
apoderarse del comportamiento de las masas a un nivel que escapa a la conciencia.
(HAN, 2014, p. 98).
Essa psicopolítica forjar-se-ia por uma sociabilidade de intersubjetivação
da política, a partir de um circuito dos afetos (SAFATLE, 2015) acionado pela
guerra de narrativas de desinformação e contrainformação dessa sociedade em
rede.
Consideramos ainda que, à medida que essa energia do afeto político se
reverbera por meio das redes sociais, promove a ampliação da ressonância dos
fenômenos fake news e da pós-verdade, numa relação local/global. Nesse
sentido, advogamos a ideia de que a atualidade da teoria crítica e sua potência
de interpretação interdisciplinar é ainda bastante profícua para a análise desses
fenômenos nessa nova configuração da sociedade de massa, que faz ressurgir
personalismos políticos e populismos autoritários, que fazem uso de ideologias
falhas em propagandas e discurso fascistas (STANLEY, 2015), ao modo das
ideologias dos anos 30, que se atualizam no presente por meio de propagandas
e dispositivos de desinformação, como as fake news e a pós-verdade. Isso nos
possibilita retomar reflexões sobre os processos ideológicos da sociedade de
massa no contexto contemporâneo (ADORNO; HORKHEIMER, 2006) assim
como reflexões do pensamento sobre a personalidade autoritária também sob
o viés adorniano (ADORNO, 1950).
Por um outro viés de análise, acreditamos também que essas questões,
presentes nesse contexto de crise, permitem-nos refletir sobre outras formas
sócio-institucionais e intersubjetivas, que se pautam na compreensão dos
afetos, dentro desse contexto de controle da subjetividade. Para isso, buscamos
amparos conceituais e teóricos sobre o papel do conceito de dispositivos
biopolíticos (FOUCAULT, 1979, 2020) e linhas de controle institucionais
(DELEUZE, 1995), que nos ajudam a refletir sobre as formas de brutalismo
institucionalizado, presentes nessa conjuntura de neoliberalismo autoritário e
fascista (HAN, 2014), dessa nova direita nos nossos dias.
Acredito, como Umberto Eco (1998), que os modos de pensar e sentir o
fascismo, nos nossos dias, se reconfiguram no imaginário político, e estão
novamente se espraiando a partir de práticas sociais e políticas da atualidade.
No seu texto, “O Fascismo Eterno”, publicado no livro Cinco escritos Morais,
Umberto Eco afirma:
Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da
Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil
que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o
fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um chefe carismático, no
corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista
de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação
inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no
antissemitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional,
nascida do Movimento Social Italiano (MSI),é certamente um partido de direita, mas
tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo
preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa,
inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, em sua forma original, esteja
ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira. 
Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias
criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia
há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma
nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro
fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)? (ECO,
1998, p. 15-16).
Umberto Eco escreveu essas palavras originalmente em 1995, para proferi-
las numa conferência que fez na Universidade de Colúmbia, a propósito de
uma celebração anual da libertação da Europa na segunda guerra mundial.
Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016 e testemunhou muita coisa do
fascismo do passado e do atual dos nossos dias, que ele conheceu bem. Chegou
a ver a ascensão de governos ultraconservadores que foram eleitos, como o de
Donald Trump, nos EUA, que representou a ala mais à direita de um partido de
Á
direita, as guerras étnicas na África, a dissolução da Iugoslávia e a guerra civil
na Bósnia, assim como também testemunhou a consolidação do poder de
líderes políticos como Viktor Orbán, da extrema-direita húngara, que, por dois
mandatos, foi o primeiro-ministro mais conservador da Hungria. Todos esses
fatos estão diretamente ligados à ascensão do fascismo contemporâneo no
mundo.
Umberto Eco não testemunhou a ascensão de outros governos
ultraconservadores que assumiram o poder de governo, a exemplo do fascismo
tropical do brasileiro Jair Bolsonaro, presidente eleito por um terço da
sociedade brasileira, na disputa de um segundo turno de uma eleição
majoritária. Acredito que ele iria gostar de analisar o fenômeno Bolsonaro e o
que o bolsonarismo, na sua forma singular de autoritarismo dos trópicos, é
uma mimese caricata, colonizada e perversa que tenta, ao seu modo,
reproduzir ideologias de um discurso fascista, na governança do país.
Mas o importante desse contexto é que todo esse tipo de fascismo
colonizado, atuante no mundo hoje, só é possível à medida que reforça o
imaginário ultraconservador e interdependente, dentro de um mundo
conectado por rede. O fascismo atual está espraiado pelo mundo mediado por
novas formas telemáticas de conexão eletrônica de empresas de mídias sociais,
que estão estruturadas numa logística algorítmica, administradas por grupos
empresariais e milícias digitais. E, com isso, essa conjuntura digital em que o
fascismo contemporâneo se estrutura, e propaga velhas ideologias ancoradas
no ressentimento e no personalismo da sociedade de massas, consegueadquirir uma nova configuração e faz uso de novas ferramentas tecnológicas.
A exemplo do fascismo do passado, os líderes populistas dessa sociedade,
instrumentalizada por dispositivos de mídias sociais, potencializam as ações de
mobilização das emoções e dos afetos, em nome de velhos valores
nacionalistas do passado, que retornam com a eficiência digital do presente.
Isso é um modo de entendermos que os ideais fascistas do passado, fundado
em mitos e tradicionalismos, estão presentes atualmente, travando uma guerra
de narrativas midiáticas para se tornarem eternos a partir de seus valores de
tradicionalismos, como afirma Teitelbaum, (2020).
Lideranças representativas de um autoritarismo ultraconservador, como os
presidentes Donald Trump (que presidiu os EUA de janeiro de 2016 a janeiro
de 2021) e Jair Bolsonaro (cujo mandato começou em janeiro de 2018 e vai até
janeiro de 2022) representaram esse ultraconservadorismo de Estado, nos
nossos dias. Esses personagens políticos são vistos, aqui, como líderes
paternalistas e populistas, que visam a manutenção das formas de poder
autoritárias, que reafirmam populismos e personalismos do passado, dentro de
sociedades democráticas do presente, ao modo como bem descreveu Wilhelm
Reich, em seu livro Psicologia de Massa do Fascismo (1987).
O Estado autoritário tem o pai como seu representante, pois o pai reproduz nos
filhos, especialmente naqueles do sexo masculino, a sua atitude de submissão para
com a autoridade. Desse tipo de relação passiva e obediente vai resultar a relação de
obediência à figura do Führer. [...] Na psicologia de massas, o Führer nacionalista é a
personificação da nação. Essa ligação pessoal com ele só se estabelece se ele encarnar
a nação em conformidade com o sentimento nacional das massas. Ele atrai todas as
atitudes emocionais que foram num dado momento devidas ao pai, severo, mas
também protetor e poderoso na visão infantil. É essa necessidade das massas por
proteção que torna o ditador capaz de conseguir tudo. Nenhuma democracia
autêntica se assenta sobre essa base (REICH, 1987, p. 32).
E, assim como líderes fascistas do passado, como Mussolini (principal
ideólogo do fascismo italiano dos anos 1920) e Hitler (líder nazista do
nacional-socialismo alemão), Trump e Bolsonaro entendem que a ocupação
por vias democráticas é o caminho para dominar as esferas públicas dos afetos,
da economia e do sistema jurídico-político, e assim destruí-los com práticas
autocráticas, que fragilizam de forma brutal as instituições públicas dos
estados democráticos que eles governam.
Como bem observa Stanley (2020),
Os perigos da política fascista vêm da maneira específica como ela desumaniza
segmentos da população. Ao excluir esses grupos, limita a capacidade de empatia
entre outros cidadãos, levando à justificação do tratamento desumano, da repressão
da liberdade, da prisão em massa e da expulsão, até, em casos extremos, o extermínio
generalizado. (STANLEY, 2020, p. 14-15).
Só para não esquecermos, as práticas fascistas voltaram à cena mundial no
final do século XX e foram testemunhadas durante a Guerra da Bósnia, em que
personagens com Radovan Karadzic e Slobodan Milošević, líderes radicais
fascistas, representavam lideranças políticas dos povos sérvios contra todos os
outros da antiga República Iugoslava e implementaram guerras milicianas e
extermínio de populações inteiras de maioria mulçumana, durante os conflitos
na Bósnia, Croácia e Kosovo. As tropas que agiram sob os comandos de
Karadzic e Milošević promoveram crimes brutais contra milhares de
mulçumanos e ambos foram acusados por crimes de guerra contra a
humanidade.
A guerra é um fato em que crimes são cometidos por meio não apenas de
ações táticas e estratégias implementadas dentro de um ideário militar ou
mesmo um ideário miliciano. O fenômeno das guerras incorpora também a
manutenção de um imaginário compartilhado pelas representações sociais
assimiladas de forma intersubjetiva sobre a brutalidade dos afetos.
Dependendo de que lado da guerra se esteja, esse imaginário constitui-se como
uma força identitária que subjuga por completo nossa consciência ética de
tomadas de decisão, fazendo com que os indivíduos se comportem, de forma
autoconsciente, com atitudes bárbaras e brutais, contra seus iguais, numa
guerra de fratricídio, para defender ideais a que esses indivíduos se associam
por conveniência identitária em defesa de ideologia nacionalista e localismos
culturais, étnicos e religiosos, dentre outros.
Como bem afirmou Adorno,
A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal
modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário
justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção.
Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas
a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta
provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência
da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de
inconsciência das pessoas. (ADORNO, 2011, p. 118).
Esse processo ao qual Adorno se refere na citação acima é também um
processo de constituição de um imaginário compartilhado, que se faz
necessário na tomada de consciência. As doutrinas fascistas, que mobilizam
essa violência moral, emocional, física e política, adentram os espaços
intersubjetivos de indivíduos, propensos a ideias conservadoras, e os fazem ver
que, por meio dessa ideologia fascista compartilhada, há sempre um inimigo
imaginário a ser combatido. E muitas vezes os fascistas nem sabem quem são
seus inimigos, por isso sempre inventam um inimigo assim como sempre
inventam um mito fundador para justificar os seus inimigos.
No livro Como Funciona o Fascismo (2020), deparamo-nos com uma citação
de um discurso de Mussolini, proferido no Congresso Fascista realizado em
Nápoles em 1922. Nele se lê:
Nós criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não é necessário que ele seja uma
realidade... Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E a esse mito, essa
grandeza, que queremos transformar numa realidade total, subordinamos tudo.
(MUSSOLINI apud STANLEY, 2020, p. 21).
O imaginário fascista e seus mitos é compartilhado por muitos, no
contexto de toda população mundial, e funciona singularmente como
assimilação de uma ordem doutrinária que é incorporada pelo senso comum e
legitimada na prática da vida cotidiana, seja esse cotidiano do mundo da
realidade concreta, na qual acordamos e vamos dormir todos os dias, ou o
cotidiano da virtualidade real da internet, o qual muitos da população mundial
compartilham por meio das redes e mídias sociais.
Seja qual for a realidade cotidiana, no fascismo de ontem e de hoje sempre
coloca em questão a necessidade de se agir em nome de uma nova ordem
social ou liberdade de expressão, a exemplo do jovem que andou no dia 17 de
junho de 2021 por um shopping na cidade de Caruaru, no Agreste do estado
de Pernambuco, portando uma suástica nazista, no antebraço esquerdo,
argumentando que estava exercendo o seu direito de liberdade de expressão,
até ser detido e expulso por alguns seguranças do shopping. Vale ressaltar que
esse ato é crime federal, cabendo pena de reclusão e multa4. Os clientes se
sentiram ofendido e denunciaram o jovem aos responsáveis pela segurança do
local e durante a condução do jovem para fora do shopping ouvia-se
comentários de pessoas que pronunciavam frases como, “esse idiota, não sabe
nem o que está fazendo”.
O ideário fascista mobiliza os afetos coletivos compartilhando um
imaginário ultraconservador, que visa o desrespeito e eliminação do outro, e
de tudo que não se configure na manutenção do pensamento único do próprio
fascismo. O fascismo é, por natureza, uma prática criminosa e
antidemocrática, mas sua ideologia consegue assumir o poder por via
democrática, e faz com que pessoas comuns se sintam no direito de se
expressarem como fascistas ou usarem adereçossimbólicos ligados à extrema
direita, como uma prática naturalizada na vida cotidiana, como ir a um
shopping. Esse é o paradoxo do imaginário da política fascista numa sociedade
democrática. Mesmo sendo crime as pessoas se acham no direito de entendê-
lo como liberdade de expressão, e de autoconscientemente praticam
barbaridades de forma banal, como se sentissem superiores e acima da lei.
Nesse sentido entendemos que atitudes como essa respeitam ao processo de
uma afinidade eletiva de escolha autoconsciente. Isso ocorreu na década de
trinta do século XX, a exemplo do que a história testemunhou na Itália e na
Alemanha e volta a se repetir no século XXI.
É interessante destacar, como afirmou Adorno (1950), em seu texto
Introdução à Personalidade Autoritária, que a manipulação intersubjetiva dessa
consciência política e doutrinária do fascismo visa ampliar o público de
simpatizantes, atraindo pessoas com propensões conservadoras, que ajudem a
combater e eliminar, se possível de forma violenta, tanto física como
psicológica, todos os outro que não sejam seu igual. É sempre uma relação de
“nós” e “eles”, sendo “eles”, como afirma Stanley (2020), o grupo de inimigos a
serem combatidos, por estarem associados às suas singularidades identitárias,
sejam elas de gênero, étnicas, raciais, religiosas, linguísticas, políticas, culturais
etc. Os fascistas julgam sempre que deva existir um inimigo a ser eliminado,
como afirmamos.
Nesse sentido, as práticas das ações do fascismo desses últimos trinta anos
podem ser vistas em vários eventos de guerra em nome do poder e da ordem
conservadora. Vimos essa ação fascista em forma de conflito bélico tendo sido
posta em prática nas guerras africanas, por exemplo, quando os hutus,
movimento de supremacia étnico-fascista de Ruanda, promoveu o genocídio
contra a comunidade tutsi, na última década do século XX; no Apartheid da
África do Sul, em que os cidadãos negros foram brutalmente assassinados e
presos, simplesmente por serem negros; no governo conservador da República
de Mianmar, que violentou a população rohigya, implementando políticas de
exclusão territorial e cultural, visando eliminar todos os vestígios da religião
mulçumana desse povo, assim como negou à população rohigya o
reconhecimento como cidadã naquela República.
Na Hungria, o governo do primeiro-ministro Viktor Orban, duas vezes
eleito pelo povo húngaro, implementou e manteve por dois mandatos políticas
ultraconservadoras, contra as instituições liberais de forma generalizada
dentro do seu país, sobretudo criando políticas culturais e educacionais
ultranacionalistas que foram aplicadas nos currículos das escolas públicas de
ensino fundamental e médio. Orbán também promoveu a expulsão e o
fechamento de instituições internacionais de ensino e pesquisa que seu
governo julgava não estarem afinadas com as doutrinas do Estado Nacional
Húngaro, sob o seu comando.
Não se trata de comparação de políticas nefastas do fascismo em várias
épocas e lugares da nossa sociedade mundial ontem e hoje, mas sim de tentar
entender como esse imaginário fascista alimenta um sentimento de pertença
que se reproduz em forma de ideias compartilhadas e assimiladas, que vigoram
de forma muito presente no comportamento coletivo de sociedades que se
achavam fortalecidas institucionalmente pelos ideais da democracia liberal,
como os EUA e o Brasil.
Voltado a citar Umberto Eco: “O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às
vezes em trajes civis” (ECO, 1998, p. 21). Essa frase de Umberto Eco pode nos
ajudar a entender coisas da origem da ideologia fascista, dita por Goebbels,
sobre a fragilidade dos regimes democráticos, quando ele afirmou
categoricamente: “This will always remain one of the best jokes of democracy, that
it gave its deadly enemies the means by which it was destroyed.” (STANLEY, 2015,
p. 4)5.
Aos moldes do brutalismo de líderes do fascismo do passado, atualmente,
políticos neoconservadores e radicais da nova direita demonstram um
irracionalismo de conveniência político, que visa à manutenção da dominação
social e estatal por via de novas formas de acomodação do poder
contemporâneo. Por exemplo, o domínio institucional das formas telemáticas
e eletrônicas (por via da rede mundial de computadores – internet) e a
instauração de regimes de manipulação e controle intersubjetivo, por meio de
mídias digitais, são conhecidas como práticas do comportamento de líderes da
nova direita, a exemplo de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Eles tentaram
governar por meio do Twitter, e estimularam, em seus discursos extremistas, a
violência e o ódio, racial, étnico, religioso e de gênero, que resultaram em
conflitos políticos e físicos, entre cidadãos de uma mesma sociedade,
comunidade e grupo social, dentro e fora das redes sociais da internet. O
discurso e mensagens de ódio propagados por milícias digitais, que ocupam as
redes sociais, tem promovido um aumento considerado da violência física e
psicológica, sofrida por grande parte da sociedade, em particular por pessoas
que se encontram em situação de vulnerabilidade, como nos mostra Judith
Butler (2018) em seu livro Corpos em Aliança e a Política das Ruas.
Esses pronunciamentos discursivos extremados, pautados pelo fascismo,
são dirigidos, de forma generalizada, contra minorias, e visam sempre
propagar ressonância emocional na busca de aderência simbólica ao discurso
fascista da maior camada social possível, independente de classe social, raça ou
orientação sexual ou de gênero, que se afine de forma autoconsciente, com a
propagação dessas ideias. O modus operandi das políticas abjetas e da
desinformação, como plataforma de propaganda ideológica e de mobilização
dos afetos por meio das redes sociais, tem se mostrado como um recurso
político eficaz, de colonização do imaginário a partir do discurso do medo que
suscita estabelecer o estado de exceção (AGAMBEN, 2011), por meio da
implementação de políticas antidemocráticas de controle e intervencionismos
autoritários, parte de muitos governantes que desempenham práticas
ultraconservadoras, da nova direita.
O fascismo contemporâneo presente na política conservadora de políticos
neoliberais de discurso nacionalista, a exemplo de líderes como Donald Trump
e Jair Bolsonaro, visam promover discursos nacionalistas e colonização da
opinião pública, por meio das mídias sociais (GARBAUDO, 2018). E, com isso,
apostam de forma objetiva na prática do irracionalismo de conveniência, com
retóricas de ódio explícito, que operam na busca por adesão política, visando
ampliar seu público, na tentativa de encontrar indivíduos/usuários que
venham a corroborar e reproduzir suas ideias, por meio de uma rede de
difamação, abjeção e desinformação.
Tentar entender esse processo é o objetivo deste nosso trabalho,
compreender e analisar criticamente o processo ideológico desses fenômenos
de propagação de um irracionalismo de conveniência, por meio dos processos
das fake news e sua direta correlação com o fenômeno da pós-verdade, numa
análise do processo do biopoder e da psicopolítica do fascismo digital.
Acreditamos que esse propósito nos ajudará a entender que esse conjunto de
coisas atendam a uma doutrina de desinformação coletiva e sujeição
sociopolítica, dentro de uma cultura do cinismo complacente e autoconsciente
(SLOTERDIJK, 2012) e da mobilização dos afetos psicopolíticos (HAN, 2014)
no âmbito do desenvolvimento das doutrinas neoliberais associadas à
propagação do discurso do fascismo contemporâneo e seus efeitos.
Um de seus efeitos, ou causa consequente dos efeitos dessa doutrina
neoliberal, é o processo instrumentalizado de desinformação da sociedade de
massa por meio das redes sociais. A instrumentalização desse processo se faz
por meio de mensagens desinformativas que circulam nos dispositivos das
mídias sociais, visando manipular, influenciar e ou sugestionar a opinião
pública de uma maneira geral. Mas isso é apenas a ponta do iceberg. Por baixo
desse processo, há uma conjuntura política estruturada por uma mentalidade
ultraconservadoraque ocupa espaço na esfera pública do estado democrático.
E atende a interesses definidos de uma ideologia do tradicionalismo mítico
(TEITEBAUM, 2020) que arregimenta grupos e lideranças em nome da
restauração do pensamento fascista por meio de líderes populistas e suas
práticas de comando político, como Trump e Bolsonaro, que representam
modos de mandonismos pessoais fundados em bases moralistas e religiosas,
instrumentalizadas por milícias digitais (MELLO, 2020), dentro das redes
sociais. Além desse aspecto, existem outras semelhanças que ligam Trump e
Bolsonaro, numa conjuntura mais complexa, como apresentado no relatório a
seguir.
Segundo Letícia Cesarino (2020),
Reports and analyses of populist leaders who rose to power in their respective
countries by mastering social media communication often show striking parallels
with the case of Jair Bolsonaro’s meteoric rise in Brazil (HALL, GOLDSTEIN;
INGRAM, 2016; SINHA, 2017; GERBAUDO, 2018; MALY, 2019). Many such
parallels relate to content, involvingdifferent forms of nationalism, anti-elitism, anti-
secularism, legal and vigilante punitivism. Most often however resonances are
structural, suggesting that these political figures’ global span might stem at least in
part from commonly shared mediations. Likely suspects are neoliberal
financialization and the increasingly digitalization oflife under way in large swaths of
the globe since at least the eighties (BROWN, 2019; MIROWSKI, 2019). The recent
rise not just of populist politics but of what has been called post-truth or
disinformation are also part of this broader equation (GERBAUDO, 2018;
WAISBORD, 2018; CESARINO, 2020, p. 1).6
De uma maneira geral, a conjuntura da nova direita, formada por esses
grupos de interesses, visam chocar, distorcer e reprimir a verdade dos fatos,
em busca da manutenção de um poder autoritário e centralizador de líderes
governamentais, que atuam objetivamente contra a democracia.
Como bem afirma Costa (2020), na abertura do seu artigo sobre a nova
direita,
Los éxitos de la derecha y la extrema derecha en votaciones como el referéndum
sobre la salida del Reino Unido de la Unión Europea en 2016, las elecciones generales
de la India en 2014 y 2019, o las elecciones de los Presidentes Trump en los Estados
Unidos en 2016 y Bolsonaro en Brasil en 2018, además de las muchas desgracias en
términos sanitarios, políticos, económicos y sociales que trajeron consigo, han
causado un malestar epistemológico entre los estudiosos de la democracia. (COSTA,
2020, p. 29).7
Líderes como Trump e Bolsonaro são os melhores representantes da
doutrina neoliberal do fascismo contemporâneo em ação por meio da
estrutura de redes sociais. Ambos são ultraconservadores, antidemocráticos,
utilizaram a mesma estrutura ideológica e tecnológica para assumir o poder e
ambos reproduzem um discurso fascista de um nacionalismo de aparência que
se ancoram na reverência aos símbolos nacionais, para ocultar interesses
privados, que se fazem presentes na colonização da esfera pública estatal e na
apropriação dos bens públicos.
Esses líderes ainda comungam de um pensamento e de uma prática de
governo que objetiva a eliminação de grande parte da população com práticas
de uma necropolítica e brutalismo de estado (MBEMBE, 2019), promovendo
políticas de descaso e irresponsabilidade em relação às questões sanitárias
contra a Covid-19, em que milhares de vidas poderiam ter sido poupadas se
ações mínimas de governos houvessem sido implementadas por esses
presidentes, tanto no Brasil como nos EUA.
A doutrina política dessa nova direita neoliberal e fascista aniquila o
presente, promovendo um caos orquestrado. Tentando eliminar o passado,
criando mitos fundadores e fantasias nostálgicas, desestabilizam o projeto de
um futuro imediato de uma geração inteira, à medida que suas práticas
comprometem a estabilidade da segurança social, pública, sanitária, econômica
em que não se é possível vislumbrar um horizonte de expectativa
(KOSELLECK, 2006) para os próximos dias.
Como bem analisa Jason Stanley (2020), ao nos falar sobre os políticos que
representam o fascismo cotidiano dos dias atuais,
Os políticos fascistas justificam suas ideias ao aniquilar um senso comum de história,
criando um passado mítico para respaldar sua visão de presente. Eles reescrevem a
compreensão geral da população sobre a realidade distorcendo a linguagem da
idealização por meio da propaganda e promovendo o anti-intelectualismo, atacando
as universidades e sistemas educacionais que poderiam contestar suas ideias. Depois
de um tempo, com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de
irrealidade, em que teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do
debate fundamentado. (STANLEY, 2020, p. 16).
Complementamos essa reflexão de Stanley, argumentando ainda que esses
mesmos políticos atuam com práticas que objetivam sucatear direitos
adquiridos da população e promover o acirramento das diferenças sociais em
lutas fratricidas com a propagação de discursos de ódio. As bravatas retóricas e
abjetas, de cunho misógino, racista, xenofóbico, dentre outros, somados às fake
news e à mobilização dos afetos por meio da pós-verdade, são exemplos desse
irracionalismo de conveniência, característico do fascismo abjeto, no cotidiano
dos nossos dias, testemunhado dentro e fora das redes sociais.
Dentro desse contexto, há uma crise de hegemonia que vem a reboque do
esgotamento das doutrinas neoliberais das sociedades avançadas. E isso tem
provocado muita insanidade política, que são implementadas de forma
unilateral e sem atender à dinâmica da democracia instituída nas sociedades, a
exemplo da Norte-américa, durante o governo de Donald Trump.
Seguramente, a liderança de Donald Trump foi parte da representação dessa
crise, como bem analisa Fraser (2018):
Donald Trump é o garoto-propaganda dessa crise hegemônica. Mas não podemos
entender sua ascensão sem esclarecermos as condições que permitiram isso. E isso
significa identificar a visão de mundo que o Trumpismo deslocou e mapear o
processo por meio do qual isso se desenrolou. As ideias indispensáveis para esse fim
vêm de Antonio Gramsci. “Hegemonia” é o termo que ele usa para o processo pelo
qual uma classe dominante naturaliza sua dominação instalando os pressupostos de
sua própria visão de mundo como o senso comum da sociedade como um todo.
(FRASER, 2018, p. 45).
O exemplo mais chocante dessa crise de hegemonia foi o apoio dado pelo
presidente Donald Trump ao ato de irracionalismo de conveniência,
orquestrado por grupos supremacistas e neofascistas nos EUA. Abriríamos um
parênteses aqui para nos referirmos ao fato de que o apoio que Donald Trump
deu aos supremacistas, que invadiram o Congresso dos EUA, foi uma clara
política hiper-reacionária de reconhecimento a esses grupos
ultraconservadores.
O ato de irracionalidade, vandalismo e terrorismo, de invasão ao Capitólio,
promovido por grupos da extrema-direita americana, representado sobretudo
por supremacistas brancos, na tarde do dia 06 de janeiro de 2021. O então
presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington DC, por meio da rede
social do Twitter, incentivou uma ação de turba, conclamando parte da
população que o apoiava a agir contra a reunião do Poder Legislativo, que
estava sendo realizada no Congresso dos EUA, a qual ratificaria o nome do
candidato à presidência da República americana Joe Biden, vencedor das
eleições realizadas em dezembro de 2020 nos EUA. O enxame digital de
grupos ultraconservadores articulou-se como massa de manobra para agir em
turba, destruindo por atos de violência, as estruturas físicas do prédio do
Capitólio, quebrando janelas, e invadindo, ameaçando e agredindo, como um
enxame de vândalos fascistas, todos os que ali se faziam presentes. O termo
turba orquestrada por rede, que acionou o enxame digital fascista, talvez seja a
melhor expressão que encontramos para definir esse ato de irracionalismo de
conveniência, que foi a invasão do Congresso dos EUA.
Para Adorno (2011) em seu texto, Teoria

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