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AULA 6 ECONOMIA EMPRESARIAL Prof. Tiago Claudino Barbosa 2 INTRODUÇÃO A aula de hoje foca na análise de cenários, forças e ameaças competitivas que uma empresa enfrenta e quais são algumas das estratégias competitivas mais comuns que permitem a uma empresa se diferenciar das demais do seu mercado e obter lucros acima da média sustentados. O objetivo é entender conceitualmente que fatores interferem na capacidade de uma empresa ter lucros elevados e como esses modelos podem ser aplicados em situações práticas para empresas reais. TEMA 1 – O MODELO DAS CINCO FORÇAS COMPETITIVAS DE PORTER Michael Porter, renomado pesquisador da área de gestão e economia, desenvolveu um modelo para identificar ameaças e potencialidades da competição de uma empresa em um mercado. A partir do uso do modelo para análise de situações reais, é possível traçar estratégias competitivas mais precisas que ajudem a empresa a se consolidar em seu mercado e a obter lucros elevados e sustentados (McGuigan; Moyer; Frederick, 2010). As forças são: • Intensidade da concorrência entre as empresas existentes – poucas empresas podem dominar totalmente seus mercados. Em geral, elas buscam concorrer com empresas rivais de uma forma que não seja muito destrutiva. A intensidade da concorrência existente em um mercado depende de vários fatores, destacam-se três – o número de empresas concorrentes existentes, a taxa de crescimento da indústria e o grau de diferenciação do produto que elas vendem. Quanto maior o número de empresas concorrentes em um mercado, menor o poder de mercado de cada empresa individual devido ao fato de haver maior concorrência sobre a base de clientes existentes, o que reduz suas perspectivas de lucro de longo prazo e vice-versa. Quanto maior a taxa de crescimento de um mercado, maior a base de clientes disponível e menor o grau da disputa por clientes entre as empresas, o que permite lucros mais elevados no longo prazo. Já mercados que estão sofrendo redução no número de clientes podem sofrer com aumentos na disputa entre as empresas pelos escassos clientes, o que pode comprometer ainda mais o preço/lucro dessas empresas. Por fim, quanto maior o grau de diferenciação dos produtos em um mercado, menor o grau de disputa direta entre as 3 empresas; como seu produto é único, uma empresa pode cobrar um preço um pouco maior por seu produto do que cobraria se suas concorrentes vendessem produtos exatamente iguais. Já mercados que vendem produtos homogêneos (exatamente iguais), se uma empresa aumentar o preço do seu produto, perderá todas as suas vendas. Isso reduz sua possibilidade de ter lucros elevados sustentados (McGuigan; Moyer; Frederick, 2010); • Poder dos compradores – empresas/consumidores devem comprar produtos da sua empresa para que ela possa obter receitas e lucrar. Quanto maior o número de compradores e menor o valor das compras deles, menos a empresa é dependente de alguns clientes individuais. Já se ela depender de grandes compras de alguns poucos clientes, eles teriam poder de mercado para requerer um preço menor para a empresa, o que poderia prejudicar seus lucros. Quanto maior o grau de diferenciação dos produtos da indústria, maior o grau de fidelização de alguns clientes para os produtos da sua empresa e maior a possibilidade de a empresa cobrar um preço maior e não perder tantas vendas, ou seja, quanto mais diferenciados os bens, maiores as possibilidades de lucros sustentados. Por fim, quanto mais difícil/custoso é para um cliente (empresas/indivíduos/governos) substituir o produto da sua empresa, menor a ameaça de que sua empresa tenha uma perda nas vendas e em seus lucros. Um cliente fidelizado ou que não tenha muitas opções para substituir o bem da sua empresa por de outra empresa concorrente dificilmente vai abandonar sua empresa, o que aumenta as possibilidades de cobrança de preços maiores, gerando lucros elevados no longo prazo; • Poder dos fornecedores – o gasto com a compra de insumos de fornecedores determina os custos da empresa, o que, por sua vez, influencia a quantidade produzida e o preço que ele cobra por seus produtos, afetando indiretamente sua capacidade de lucrar. Quanto maior o número de fornecedores que uma empresa tem, menor tende a ser o grau de dependência que ela possui de cada fornecedor individual, logo menor a probabilidade de ela ficar presa a uma relação desvantajosa. Já quanto maior o grau de diferenciação dos insumos comprados pela empresa, maior sua dependência de fornecedores específicos. Para alguns insumos, pode ser que haja somente um ou poucos fornecedores no mercado, ou seja, 4 esse mercado é oligopolizado, o que permite ao fornecedor cobrar maiores preços dos seus clientes, aumentando os custos da empresa em questão. Por fim, quanto maior o número/possibilidade de se substituir sem grandes prejuízos os fornecedores existentes por novos, menor o grau de dependência da empresa em relação a fornecedores específicos e maior sua possibilidade de comprar insumos a preços menores e ter lucros maiores no longo prazo. Assim como em todas as forças, essas variáveis são dinâmicas; • Ameaça de entrada de empresas concorrentes – a entrada de concorrentes potenciais pode ameaçar a lucratividade de uma empresa ao aumentar a quantidade ofertada de um produto no mercado e o grau de concorrência entre as empresas do setor. Quanto mais difícil for a entrada de empresas concorrentes no mercado, ou seja, quanto maiores as barreiras à entrada, maior tende a ser a lucratividade da empresa. As barreiras de mercado podem ter diversas fontes. Por exemplo, quanto maior as economias de escala existentes em um setor, mais difícil é para novas empresas adentrarem o mercado, já que para ser viável, a nova empresa deve ter um tamanho elevado, o que vai demandar altos investimentos iniciais. Segundo, quanto maior o nível de investimento inicial em capital produtivo (máquinas, equipamentos, instalações e imóveis utilizados na atividade produtiva), mais custoso/arriscado é para uma nova empresa entrar, logo a ameaça de entrada cai, o que evita aumentos no nível de concorrência do mercado. Por fim, muitos produtos precisam acessar canais de distribuição para que seus produtos alcancem seus clientes, como espaços comerciais, em prateleiras de supermercado, lojas varejistas, entre outros. Quanto mais difícil é o acesso aos canais de distribuição existentes, menor a ameaça de entrada, já que empresa precisaria investir pesadamente na criação de novos canais e/ou em conquistar os canais existentes, o que provocaria a resistência das empresas existentes e demandaria investimentos elevados. Novamente, é sempre importante que o gestor de uma empresa olhe para essas questões como sendo elementos dinâmicos e que podem se fortalecer ou corroer por fatores espontâneos ou por ações intencionais da própria empresa ou das empresas rivais; • Ameaça de substitutos – quanto menor o número de substitutos próximos do produto ofertado pela firma analisada, maior o poder da empresa obter 5 lucros elevados. Em mercados perfeitamente competitivos, como os agrícolas, o produto é homogêneo, logo não há diferenciação, todas as empresas devem cobrar o mesmo preço pelo produto. Em outras estruturas de mercado, os produtos podem ser diferenciados. Além dos substitutos do mesmo mercado relevante, no caso produtos diferenciados de empresas rivais, os substitutos podem vir de mercados relacionados, por exemplo, um suco em caixa pode ser um substituto de um refrigerante. Logo, uma empresa produtora de refrigerantes deve estar atenta não só aos refrigerantes rivais, mas a produtos de outros mercados que podem atender a mesma necessidade que o seu. Em geral, quanto maior o preço/custo do produto substituto em relação ao produto da empresa, menor o grau de ameaçaque esse substituto impõe sobre os lucros da empresa. Quanto mais inelástica a demanda pelo produto da empresa, ou seja, quanto menos sensível for a demanda a variações no preço do produto, maior a possibilidade de a empresa manter lucros elevados, já que ela pode cobrar preços maiores e não ver grandes perdas em seu nível de vendas e vice- versa. Por fim, quanto maior a qualidade/desempenho dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa, maior a ameaça aos lucros da empresa, já que esses bens substitutos são considerados de melhor qualidade e, se diferença de preços entre os produtos for pequena, podem conquistar vendas que seriam da empresa sendo analisada. Um ponto importante a se notar é que essa força, assim como as outras forças competitivas, são dinâmicas, a relação entre os bens substitutos e os bens da empresa pode mudar ao longo do tempo, seja por questões espontâneas, seja pela ação deliberada da empresa e/ou das empresas rivais. A Figura 1 mostra as cinco forças que determinam/ameaçam a lucratividade de longo prazo da empresa segundo o modelo de Porter. O objetivo primordial de toda empresa comercial é maximizar o valor do seu lucro. 6 Figura 1 – Modelo das cinco forças de Porter Fonte: Porter, 2008. TEMA 2 – APLICAÇÃO DO MODELO DE PORTER Uma forma simplificada de aplicar os conhecimentos expressos no modelo de cinco forças de Porter é apresentada a seguir. Trata-se de uma técnica para se operacionalizar os conceitos do modelo. Foram destacadas três variáveis de cada uma das forças, classificadas em ordem crescente de acordo com a intensidade da ameaça que elas representam para a lucratividade sustentável da firma. É possível utilizar mais do que as três variáveis analisadas. Ao final, pode- se saber qual das três variáveis é uma ameaça maior para a empresa e qual é uma ameaça menor, ou seja, uma oportunidade/força (Dobbs, 2014). Veja a seguir a variável que mede a ameaça à lucratividade da empresa. Lucros elevados e sustentados Concorrentes potenciais Intensidade da concorrência Poder do comprador Poder do fornecedor Produtos substitutos Baixo grau de ameaça Alto grau de ameaça 7 A seguir, será apresentado uma espécie de formulário para a aplicação do modelo de Porter a situações reais, serão três variáveis para cada uma das cinco forças competitivas do modelo de Porter. Ao todo, são quinze variáveis nas quais é possível classificar, em uma escala de oito pontos, em que posição a empresa se situa nesse quesito. Quanto mais à esquerda, menor o grau de ameaça dessa variável à lucratividade sustentável da empresa. É interessante, ao final, destacar qual das três variáveis de cada bloco possui o maior e o menor nível de ameaça para a empresa. 2.1 Rivalidade entre as empresas 2.1.1 Número de empresas competidoras existentes Quando maior o número de empresas concorrentes, maior a ameaça à lucratividade da empresa, já que o grau de concorrência no mercado é maior. Já mercados com poucas empresas concorrentes significa que há pressões competitivas menores e maior possibilidade de lucros elevados. 2.1.2 Crescimento da indústria Indústrias com perspectiva de crescimento acelerado da demanda possuem menos ameaças aos lucros das empresas existentes, já que há menor disputa entre as empresas pela base de clientes crescentes. O inverso ocorre se perspectivas são de crescimento baixo das vendas. Nesse caso, haverá um aumento na competição entre as empresas, com consequentes efeitos negativos sobre a lucratividade das empresas. Poucas empresas Muitas empresas Alto Baixo 8 2.1.3 Grau de diferenciação dos produtos na indústria Indústrias com produtos altamente diferenciados conseguem manter margens de lucros elevadas, já que o grau de disputa é menor para cada produto. Já indústrias com baixo grau de diferenciação do produto tendem a ter maior concorrência, porque produtos de uma empresa podem ser perfeitamente substituídos por produtos de outra concorrente. 2.2 Poder dos compradores 2.2.1 Tamanho das compras realizadas pelos clientes Quando há muitos clientes realizando compras pequenas da sua empresa, cada cliente individual tem menos poder sobre as vendas, logo há menor ameaça para o lucro. Se empresa vende apenas para compras grandes para alguns clientes (consumidores/empresas/governos), se ela perder um desses poucos clientes, vai haver um comprometimento de sua receita e lucros. 2.2.2 Grau de diferenciação dos produtos da indústria Se há um elevado grau de diferenciação dos produtos no mercado que a indústria atua, clientes podem aceitar pagar um pouco a mais pelo produto da empresa porque eles acreditam que esse produto é diferenciado, se bens tiverem baixa diferenciação, bens de empresas concorrentes são substitutos quase perfeitos, há assim maior concorrência e menor possibilidade de lucros elevados. Alto Baixo Pequenas Grandes Alto Baixo 9 2.2.3 Custos para clientes mudarem de fornecedor Clientes fidelizados, em geral, só mudam de fornecedores se o preço deles for menor ou se a relação com a empresa analisada se desgastar. Além disso, muitas vezes a relação é mediada por contratos, que não podem ser alterados no curto prazo. Se há custos monetários e não monetários e riscos de se mudar de um fornecedor para outros, os clientes vão ser mais fiéis e a empresa tem maior possibilidade de manter lucros elevados. 2.3 Poder dos fornecedores 2.3.1 Número de fornecedores necessários Se empresa possui vários fornecedores, seu grau de dependência de cada um deles é menor do que se ela tivesse poucos fornecedores. Quanto menos dependente de fornecedores individuais uma empresa é, maior suas oportunidades de compras a preços não abusivos. 2.3.2 Grau de diferenciação dos insumos fornecidos Se insumos comprados dos fornecedores tiverem baixo grau de diferenciação, ou seja, mais homogêneos, maior provavelmente é o número de empresas fornecedores existentes e maior a competição em seu mercado, reduzindo assim o preço do insumo comprado e, por consequência, o custo da empresa. 2.3.3 Possibilidades de substituição dos fornecedores Se há diversos fornecedores qualificados disponíveis, a empresa pode facilmente substituir um fornecedor mais caro/menos competente por outro melhor, reduzindo assim seus custos e riscos operacionais. Alto Baixo Muitos Poucos Baixo Alto 10 2.4 Ameaça de empresas entrantes 2.4.1 Economias de escala existentes Se economias de escala técnicas e mercadológicas existentes para as empresas de uma indústria são altas, o tamanho das empresas existentes também será; essa maior escala torna mais caro/arriscado adentrar um mercado, reduzindo assim ameaças de entrada de empresas concorrentes. 2.4.2 Requerimentos de capital Se o investimento necessário para uma empresa entrar em um mercado for alto, por exemplo, alto custo de máquinas e equipamentos produtivos e elevado tamanho das instalações, mais caro/arriscado é para uma empresa adentrar um mercado, reduzindo ameaças de entrada de empresas concorrentes. 2.4.3 Acesso a canais de distribuição Se canais consolidados de distribuição, como acesso a grandes lojas, prateleiras de supermercados entre outros são limitados para novas empresas, ou seja, canais pertencem ou são fortemente relacionados às empresas existentes, mais difícil é para uma empresa adentrar no mercado e atingir consumidores, diminuindo a ameaça de entrada e assim possibilitando lucros elevados duradouros. Altas Baixas/Inexistentes Altos Baixos Limitado Fácil acesso Alta Baixa 11 2.5 Ameaças de produtos substitutos 2.5.1 Preço/custos dos produtossubstitutos em relação ao produto da empresa Quanto mais caro/custoso um produto substituto ao produto da sua empresa é, menor a ameaça de que ele prejudique as vendas da sua empresa, já que ele é mais caro e clientes sempre buscam produtos mais baratos. 2.5.2 Sensibilidade dos consumidores ao preço do produto Quanto menor a sensibilidade dos consumidores a mudanças no preço do seu produto, ou seja, se aumentos nos preços provocam apenas pequenas reduções nas vendas porque seu produto é relativamente único, maior a possibilidade de a sua empresa poder manter preços e lucros elevados. Se a sensibilidade ao preço for alta, pequenos aumentos no preço levam a grandes reduções nas vendas, prejudicando receitas da empresa analisada. 2.5.3 Qualidade/desempenho dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa Quanto mais baixa a qualidade/desempenho dos produtos substitutos em relação ao produto da sua empresa, maior a possibilidade de o produto da sua empresa manter preços e lucros elevados, já que ele é percebido como melhor do que o produto das empresas rivais. É importante que o gestor da empresa identifique qual das três variáveis de cada uma das forças possui maior nível de ameaça à sua empresa e qual a variável com menor nível de ameaça entre as três. Elencar essas variáveis ajuda a construir um inventário das ameaças/forças competitivas da empresa e pode dar Mais caros Mais baratos Baixa Alta Baixa Alta 12 base para as linhas de ação estratégica que a empresa deve tomar para reduzir o grau de ameaça aos seus lucros no longo prazo. TEMA 3 – ESTRATÉGIAS COMPETITIVAS Há três estratégias competitivas básicas que uma firma pode buscar para tentar garantir lucros elevados sustentáveis – liderança de custos, diferenciação de produto e foco em segmentos de mercado (Porter, 2008). A liderança de custos significa que a estratégia da empresa é ter o menor custo unitário entre as empresas do seu mercado. As fontes dessa liderança podem ser economias de escala, tecnologia proprietária (tecnologia de uso exclusivo por parte da empresa), acesso preferencial a matérias-primas, entre outros. Uma força de trabalho que ganhe experiência e tenha bom treinamento pode também ser fundamental para que empresa seja eficiente. Uma empresa que escolher essa estratégia deve ser capaz de explorar todas as fontes de redução de custos possíveis (Porter, 2008). Em geral, produtores de baixo custo vendem produtos padronizados, sem adicionais, já que o foco é em aumentar a escala e obter vantagens de custos absolutas. Ela pode ter um desempenho acima da média da indústria no longo prazo se conseguir manter sua liderança em custos sem reduzir a qualidade dos seus produtos. Se ela sacrificar a qualidade do seu produto para conseguir os menores custos, ela corre o risco de seu produto ser considerado pelos clientes como um produto inferior ao das empresas rivais. Se consumidores acreditarem que produto da empresa não é tão bom quanto o das concorrentes, a empresa líder em custos deve oferecer descontos consideráveis para manter suas vendas, comprometendo assim suas margens de lucro. Ela deve ser capaz de manter paridade ou proximidade em termos de qualidade do produto para ser capaz de ter lucros acima da média sustentáveis (Porter, 2008). Para a empresa manter um desempenho excepcional, ela deve ser a líder em custos de sua indústria, não uma das várias empresas adotando essa estratégia de ter custos baixos. Essa estratégia só comporta uma empresa por mercado. Se várias empresas estão competindo por essa posição única de líder de custos, empresas passam a ter que disputar mais acirradamente em termos de preços e diferenciação de produto, comprometendo a estratégia de ser a produtora de menor custo unitário (Porter, 2008). 13 Há riscos de uma empresa apostar em uma estratégia de liderança de custos em seu mercado – ela não vai ser sustentável se competidores poderem imitar essa vantagem em custos, se a tecnologia mudar, muitas das competências que a empresa construiu podem se tornar obsoletas, logo há risco de ela perder sua posição de liderança. Nesse sentido, se as bases para liderança de custos se desgastam ou se a proximidade da qualidade do produto em relação aos produtos rivais diminui e o produto da empresa passa a ser considerado pelos consumidores de qualidade inferior, sua capacidade de obter lucros elevados e sustentados estará em risco (Porter, 2008). Outra estratégia competitiva seria diferenciar seu produto de forma a poder obter certo poder de mercado. Em geral, essa estratégia envolve a competição em capacidades, marcas registradas ou endossos de produto. Muitas vezes, o simples fato de um produto conter uma marca conhecida e consolidada garante que empresas possam cobrar um preço um pouco maior em relação aos produtos concorrentes (Porter, 2008). Uma estratégia de diferenciação ocorre quando a empresa busca desenvolver um produto com atributos únicos que seja valorizado por seus consumidores. Não necessariamente o seu produto é de maior qualidade que os produtos rivais, mas ele deve ser percebido pelos clientes como sendo diferenciado. A empresa escolhe um ou mais atributos que ela acha que consumidores valorizam a ponto de pagar um pouco a mais por ele e procura desenvolver capacidades de modo a atender esses elementos. Se for bem- sucedida em gerar um produto diferenciado, ela vai ser capaz de cobrar um prêmio sobre seu preço, ou seja, cobrar um preço um pouco maior do que cobraria para um produto sem esses atributos, já que consumidores valorizam essa diferenciação e aceitam pagar um pouco mais pelo produto (Porter, 2008). Uma firma que consiga atingir e sustentar uma diferenciação bem-sucedida terá um desempenho acima da média de sua indústria se o prêmio de preço cobre os custos adicionais que ela incorre em ser única e diferenciar seu produto. O prêmio de preço é o quanto ela pode cobrar a mais em relação a um produto similar sem essa diferenciação (Porter, 2008). A firma deve sempre buscar diferenciar ao menor preço possível, já que não adianta obter um elevado prêmio sobre o preço se o custo adicional da diferenciação é maior que esse prêmio. Dessa forma, uma firma com uma estratégia baseada na diferenciação deve buscar paridade ou proximidade de 14 custos unitários em relação aos seus competidores para assim maximizar seus lucros em níveis elevados (Porter, 2008). Ao contrário da estratégia de liderança de custos, pode haver várias empresas ao mesmo tempo com diversas estratégias de diferenciação em um mesmo mercado, basta que essa diferenciação seja percebida e valorizada pelos consumidores dessas empresas (Porter, 2008). Há riscos de se adotar uma estratégia de diferenciação do produto – ela não vai ser sustentável se competidores podem imitar os atributos diferenciados do produto em questão a um custo relativamente baixo, se as bases de diferenciação do produto se tornarem menos importantes para os clientes, que vão deixar de pagar o prêmio de preço para o produto da empresa ou se a proximidade de custos da empresa com suas concorrentes acaba, ou seja, se custos da empresa diferenciada são substancialmente maiores que das empresas concorrentes, logo, mesmo que ela cobre um preço mais elevado, seus custos são maiores e, por consequência, sua margem de lucro é reduzida (Porter, 2008). Por fim, a terceira estratégia competitiva que uma empresa pode adotar é focar em segmentos do mercado que não estejam sendo plenamente atendidos. Essa é uma estratégia mais restrita, ao apostar em um segmento, o tamanho do mercado viável se reduz em relação a uma estratégia mais ampla, porém, se a empresa conseguir entender e atender às demandas diferenciadas desse segmento, ela pode ter sucesso no longo prazo (Porter,2008). Após identificar um segmento promissor, a empresa pode adotar duas opções estratégicas – buscar a liderança de custos unitários ou criar um produto diferenciado. Assim como nas duas estratégias anteriores, não basta escolher um segmento, afinal, mesmo que empresa seja pioneira nesse segmento, outras empresas podem imitar suas ações facilmente e também adentrarem esse nicho. É preciso assim construir vantagens dentro desse segmento para que empresa tenha desempenho acima da média sustentado, que podem ser a liderança de custos ou a diferenciação de produto, assim como nas estratégias competitivas que focam em mercados mais amplos (Porter, 2008). Há riscos associados a seguir uma estratégia de focalização de segmentos de mercado – ela não vai ser sustentável se o foco no segmento em questão for imitado por empresas concorrentes, o que em geral é algo relativamente fácil, e a empresa não ter desenvolvido outras vantagens em custos/diferenciação se o segmento se tornar menos atrativo, porque há queda na sua demanda/redução 15 em sua diferenciação em relação a outros segmentos do mercado e se empresas concorrentes identificarem subsegmentos ainda mais específicos e passarem a ofertar produtos para eles, corroendo as vantagens da empresa (Porter, 2008). Uma empresa que invista em mais de uma estratégia competitiva para o mesmo produto poderá ficar “presa no meio” e não terá nenhuma vantagem competitiva consolidada, tendo assim provavelmente um desempenho mediano. Ela só vai ter lucros elevados e sustentados se estrutura da indústria for favorável ou se tiver sorte e todos os seus competidores também seguirem essa mesma estratégia (Porter, 2008). Ser líder em custos e diferenciar são estratégias, em geral, inconsistentes entre si, porque diferenciação exige gastos expressivos, já liderança em custos exige cortar tudo o que for supérfluo e lançar um produto mais padronizado, porém que não tenha qualidade significativamente inferior ao dos concorrentes (Porter, 2008). Cada estratégia exige habilidades e estruturas organizacionais diferentes, o que torna a possibilidade de adotar mais de uma delas ao mesmo tempo arriscada e custosa. Por exemplo, liderança de custos exige sistemas de controle precisos, explorar economias de escala e aprender o máximo sobre o processo produtivo, o que pode conflitar com uma estratégia de diferenciação que exige a criação/teste constante de diferenciais de produto (Porter, 2008). Um gerente deve analisar as possibilidades do seu mercado específico, os atributos que seu produto e os produtos das empresas rivais possuem e as habilidades que sua empresa tem consolidadas. A partir daí, ele deve escolher uma estratégia e desenhar um plano para que as ações e estruturas da empresa consigam atingir os objetivos traçados. TEMA 4 – ANÁLISE ESTRATÉGICA Para traçar uma estratégia, uma empresa deve analisar detalhadamente o cenário competitivo em que ela opera, algo realizado pelo modelo de Porter e/ou outras ferramentas, definir um estado futuro desejado, em geral com lucros altos e sustentados e traçar um plano com objetivos a serem realizados ao longo do tempo para que ela saia de sua situação atual em direção à sua situação desejada. O processo de planejamento estratégico envolve escolhas quanto a que variáveis internas a empresa deve alterar e que variáveis externas ela deve 16 monitorar e buscar influenciar. O gestor não tem controle sobre tudo e as informações são sempre imperfeitas. A Tabela 1 mostra as fontes dos dados necessários para se realizar uma análise utilizando o modelo de Porter (cenário, forças e ameaças competitivas). Tabela 1 – Fonte de dados para a aplicação do modelo de Porter Força Variável Fonte de dados Rivalidade entre empresas existentes Número de empresas competidoras existentes Levantamento por parte da gerência da empresa Crescimento da indústria Estudos e perspectivas de mercado Grau de diferenciação dos produtos na indústria Levantamento por parte do departamento de vendas/marketing da empresa Poder dos compradores Tamanho das compras realizadas pelos clientes Levantamento por parte do departamento de vendas/marketing da empresa Grau de diferenciação dos produtos vendidos da indústria Levantamento por parte do departamento de vendas/marketing da empresa Custos para clientes mudarem de fornecedor Levantamento por parte do departamento de vendas/marketing da empresa Poder dos fornecedores Número de fornecedores necessários Levantamento do departamento de produção da empresa Grau de diferenciação dos insumos fornecidos Levantamento do departamento de compras da empresa Possibilidades de substituição dos fornecedores Levantamento do departamento de compras da empresa Ameaça de entrada de novas empresas Economias de escala existentes Levantamento do departamento de produção da empresa Requerimentos de capital Levantamento do departamento de produção/financeiro da empresa Acesso a canais de distribuição Levantamento do departamento de vendas/marketing da empresa Produtos substitutos Preço/custos dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa Estudos/especulações por parte da empresa Sensibilidade dos consumidores ao preço do produto Levantamento do departamento de vendas/marketing da empresa Qualidade/desempenho dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa Levantamento do departamento de vendas/marketing da empresa Fonte: Barbosa, 2022. Os dados mostram a importância do departamento de vendas/marketing da empresa, ou seja, é importante ter conhecimentos detalhados sobre o perfil e o comportamento dos consumidores de uma empresa e das empresas concorrentes. É importante também conhecer bem a estrutura de produção e custos da empresa para se fazer um planejamento estratégico. 17 A aula de hoje explorou como empresas podem realizar análises de cenários estratégicos e algumas das principais estratégias competitivas a serem implementadas. O gestor, ao realizar suas análises e traçar estratégias, deve sempre ter como foco o objetivo primordial da empresa, que é obter o máximo de lucro, o que na prática se traduz em ter a maior lucratividade possível e conseguir sustentar essa lucratividade no longo prazo. Todas as decisões gerenciais implicam custos e benefícios incertos, contudo, um bom conhecimento dos conceitos da economia empresarial e a criação de bases de dados precisas sobre variáveis como custo, atributos dos produtos da empresa e de empresas rivais e o tipo de concorrência que ocorre em cada mercado ajuda os gestores a tomar as decisões mais eficientes. TEMA 5 – ESTUDO DE CASO E ATIVIDADE PRÁTICA Uma revendedora de carros usados multimarcas hipotética de uma cidade de médio porte quer realizar uma análise do seu cenário competitivo e identificar as principais ameaças/forças que ela possui. Para isso, ela aplica o modelo de Porter. 5.1 Rivalidade entre as empresas 5.1.1 Número de empresas competidoras existentes Há 20 outras revendedoras de carros multimarcas na cidade ou em cidades próximas, logo há um elevado grau de concorrência nesse mercado, empresas provavelmente não podem manter lucros muito elevados devido a esse fato. X 5.1.2 Crescimento da indústria O crescimento da venda de carros usados está em um nível intermediário no período, maior que a de carros novos, que está com preço elevado. Na escala de oito pontos abaixo, coloca-se a taxa de crescimento intermediária no quarto ponto, nem alta, nem baixa. X Poucas empresas Muitas empresas Alto Baixo 18 5.1.3 Grau de diferenciação dos produtos na indústria Os carros usados que as revendedoras vendem são diferenciados entre si, porém todas as 20 concorrentes revendem basicamente os mesmos modelos de carros, logo o grau dediferenciação entre as empresas é muito baixo. X 5.2 Poder dos compradores 5.2.1 Tamanho das compras realizadas pelos clientes Os clientes das revendedoras costumam comprar um carro por vez, logo o tamanho de suas compras é bem pequeno. X 5.2.2 Grau de diferenciação dos produtos da indústria Assim como foi dito anteriormente, o grau de diferenciação dos produtos das revendedoras de carros é basicamente inexistente. X 5.2.3 Custos para clientes mudarem de fornecedor Clientes podem facilmente mudar de uma revendedora para outra, já que produtos são homogêneos e compras são eventuais e pequenas. Porém, uma parte dos clientes acaba se fidelizando a uma revendedora porque a experiência de compra de carro anterior foi satisfatória, logo custos para clientes mudarem de fornecedor (revendedora) são baixos, mas não inexistentes. X Alto Baixo Pequenas Grandes Alto Baixo Alto Baixo 19 5.3 Poder dos fornecedores 5.3.1 Número de fornecedores necessários A revendedora é multimarcas compra carros usados de clientes pessoa física, logo ela tem acesso a centenas de fornecedores de carros usados de diferentes marcas. X 5.3.2 Grau de diferenciação dos insumos fornecidos Os carros são diferenciados entre si em um nível intermediário; há uma dezena de modelos que dominam as vendas. X 5.3.3 Possibilidades de substituição dos fornecedores Os proprietários que vendem seus carros usados à revendedora são centenas de pessoas facilmente substituíveis. X 5.4 Ameaça de empresas entrantes 5.4.1 Economias de escala existentes Há uma escala mínima para ser viável, porém economias de escala são consideradas baixas para esse setor, por isso é fácil um empresário montar uma nova revendedora. X Altas Baixas/Inexistentes Muitos Poucos Baixo Alto Alta Baixa 20 5.4.2 Requerimentos de capital É preciso um valor substancial para locar/comprar um local e a primeira remessa de carros usados, porém esse valor está na casa de alguns milhões de reais, logo essa barreira tem peso relativamente baixo. X 5.4.3 Acesso a canais de distribuição O acesso é considerado muito fácil. X 5.5 Ameaça de produtos substitutos 5.5.1 Preço/custos dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa O principal produto substituto são carros novos, sempre mais caros/custosos, porém considerados de melhor qualidade do que carros usados, logo há um diferencial persistente de preço entre os dois. Fatores que barateiem os carros novos podem ameaçar lucros das revendedoras. X 5.5.2 Sensibilidade dos consumidores ao preço do produto O revendedor acredita que os consumidores são muito sensíveis a variações nos preços dos carros usados (demanda elástica). X Altos Baixos Limitado Fácil acesso Mais caros Mais baratos Baixa Alta 21 5.5.3 Qualidade/desempenho dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa Os carros novos são sempre considerados de melhor qualidade que carros do mesmo modelo usados. X A escala de cada variável tem oito quadrados, quanto mais à direita, maior o grau de ameaça aos lucros sustentáveis da empresa. Valores marcados nas casas de 1 a 3 representam um nível de ameaça baixo, de 4 a 5 intermediário e de 6 a 8 alto grau de ameaça a lucros elevados e sustentados da empresa. A Tabela 2 mostra a intensidade de cada variável e o grau de sua ameaça aos lucros de longo prazo da empresa. Tabela 2 – Intensidade das ameaças/forças competitivas da empresa Variável Intensidade Grau de ameaça Número de empresas competidoras existentes 7 Alto Crescimento da indústria 4 Intermediário Grau de diferenciação dos produtos na indústria 8 Alto Tamanho das compras realizadas pelos clientes 1 Baixo Grau de diferenciação dos produtos vendidos da indústria 8 Alto Custos para clientes mudarem de fornecedor 6 Alto Número de fornecedores necessários 1 Baixo Grau de diferenciação dos insumos fornecidos 5 Intermediário Possibilidades de substituição dos fornecedores 1 Baixo Economias de escala existentes 7 Alto Requerimentos de capital 6 Alto Acesso a canais de distribuição 8 Alto Preço/custos dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa 2 Baixo Sensibilidade dos consumidores ao preço do produto 8 Alto Qualidade/desempenho dos produtos substitutos em relação ao produto da empresa 8 Alto Fonte: Barbosa, 2022. Analisando por força competitiva, considerando a rivalidade da empresa com outras empresas, a maior ameaça é o baixo grau de diferenciação dos produtos vendidos e a menor ameaça é a taxa de crescimento do mercado, de nível intermediário. Já quando se analisa o poder dos compradores, novamente o baixo grau de diferenciação dos produtos aparece como maior ameaça e o fato dos clientes realizarem compras pequenas como menor ameaça (maior força). O Baixa Alta 22 poder dos fornecedores é, em geral, a força menos ameaçadora que a empresa enfrenta. Há muitos fornecedores facilmente substituíveis entre si. As barreiras à entrada são pequenas e não protegem a empresa. Quanto a produtos substitutos (carros novos), eles são sempre mais caros que os produtos da empresa (carros usados), o que é uma força competitiva, porém a qualidade/desempenho do produto substituto é sempre superior ao usado, o que justifica esse diferencial de preços permanente. Além disso, os consumidores são altamente sensíveis a variações nos preços dos produtos da revendedora. Os dados indicam que essa empresa não tem poder de mercado ou um poder muito pequeno, suas principais fontes de força competitiva vêm do pouco poder que seus fornecedores têm, já a facilidade de entrada de concorrentes, o alto grau de substituição entre carros usados e novos e a alta rivalidade entre revendedoras, já que produtos não são diferenciados, representam as principais ameaças a essa empresa. A aplicação do modelo nos mostra quais as maiores ameaças e forças competitivas da empresa, porém a criação de estratégias por parte da gerência depende de informações adicionais e da viabilidade de cada opção estratégica disponível para alteração do cenário em que a empresa compete, elementos esses que tendem a ser muito específicos para cada empresa e setor. Atividade prática: considere a empresa que você está analisando e aplique o formulário apresentado no Tema 2, que mede a intensidade de ameaça de três variáveis relacionadas a cada uma das cinco forças competitivas do modelo de Porter (15 variáveis). Liste as maiores ameaças/forças que você acredita que a empresa que você está analisando possui em relação a cada uma das cinco forças competitivas. 23 REFERÊNCIAS DOBBS, M. E. Guidelines for applying Porter's five forces framework: a set of industry analysis templates. Competitiveness Review, v. 24, n. 1, 2014. MCGUIGAN, J. R.; MOYER, R. C.; FREDERICK, H. D. H. Preços, Produtividade e Estratégia: Concorrência Pura e Monopolista. In: MCGUIGAN, J. R.; MOYER, R. C.; FREDERICK, H. D. H. Economia de Empresas: Aplicações, Estratégias e Táticas. 11. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2010. p. 273-322. PORTER, M. E. Competitive Strategy: the Core Concepts. In: Competitive Advantage, Creating and Sustaining Superior Performance. Nova Iorque: The Free Press, 2008. p. 20-45. Introdução TEMA 1 – O MODELO DAS CINCO FORÇAS COMPETITIVAS DE PORTER TEMA 2 – APLICAÇÃO DO MODELO DE PORTER TEMA 3 – ESTRATÉGIAS COMPETITIVAS TEMA 4 – ANÁLISE ESTRATÉGICA TEMA 5 – ESTUDO DE CASO E ATIVIDADE PRÁTICA REFERÊNCIAS