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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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Corbin, 1989:73), a higiene 
pessoal e a busca de ambientes salubres. A busca dos “bons ares” motiva tanto o 
desenvolvimento do paisagismo quanto a “fuga para o campo” na Inglaterra – evidentemente 
que causas políticas também contribuíram – e a incitação às viagens pitorescas. Em relação às 
últimas, tratava-se de inserir o lugar apreciado em um quadro, de uma certa distância 
(permitindo a prospect view pitoresca). 
A formulação da observação estética, como fruto de uma “sensibilidade elevada”, 
reflete de fato uma separação espacial entre a produção e o consumo (Williams, 1989:168): 
assim, encontra-se na paisagem rural inglesa, simultaneamente, a geometria regular dos 
cercamentos (terra organizada para a produção, destinada ao trabalhador) e a irregularidade 
dos parques curvilíneos (terra organizada para o consumo, principalmente o usufruto estético 
dos proprietários). O paisagismo se desenvolve também como um “melhoramento” e a partir 
da investigação científica tanto da natureza quanto das modalidades de percepção. Para o 
 
50 Williams (1989:167) nota também que “raramente uma terra em que se trabalha é uma paisagem. O próprio 
conceito de paisagem implica separação e observação”. 
51 Vide próximo capítulo, para uma breve exposição das características da medicina de inspiração hipocrático-
galênica que perdurou na Europa até o século XVIII, pelo menos. 
A ação humana na idéia de Natureza 54 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
homem da época, trata-se de uma “redisposição da ‘Natureza’, de modo a adaptá-la a seu 
ponto de vista” (idem, ibidem, p. 171). 
A estética pitoresca, ainda permeada pelo ideal de ordenação e controle da natureza, 
dará lugar por fim a uma concepção da paisagem (e da natureza) na qual o homem imerge e é 
absorvido pelos elementos: o mais propriamente romântico conceito de sublime. O século 
XVIII é marcado por essa polêmica entre o belo e o sublime em torno da apreciação ou 
repulsa da natureza primitiva. Enquanto o belo valoriza a ordem, o retiro e o isolamento, o 
sublime exclui o repouso de seu código estético, dando preferência ao movimento e à agitação 
– e tal mudança de concepção da natureza é crucial. Reforça a representação da natureza 
como forma religiosa positiva, e a mata como local de privacidade e meditação. O 
romantismo reforça tal idéia ao comparar as florestas a templos, e ler a arquitetura gótica 
como uma espécie de reprodução em pedra das florestas, e tais concepções marcarão as 
doutrinas de autores como os transcendentalistas norte-americanos do século XIX (Ralph W. 
Emerson como o principal expoente). 
A nova concepção “dinâmica” da natureza – que desembocará nas teorias 
evolucionistas do século XIX e, por fim, no triunfo do darwinismo – expressa uma mudança 
fundamental que ultrapassa a mera apreciação estética, mas que também passa por ela. As 
diversas transformações ocorridas ao longo do século XVIII dão força a uma percepção de 
instabilidade, de transitoriedade, e de transformação constante. A nova forma de ver a 
natureza projeta-se a partir da constatação das transformações ocorridas no território com a 
consolidação do capitalismo, tanto no campo (com novas estruturas de produção agropecuária 
e conseqüentes rearranjos sociais) quanto na cidade. 
Pode-se pensar novamente no movimento do pêndulo. Agora, a ordem que se projetou 
do indivíduo à sociedade e à natureza precisa recuar de volta ao indivíduo que, novamente 
introspectivo, tenta reencontrar em si o equilíbrio que vê perder no mundo fora de si. A 
A ação humana na idéia de Natureza 55 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
mudança é expressa, em poesia, na transição da reflexão para a retrospecção: dos poemas que 
elogiam personagens campestres, humildes e honrados, em contraste com a “ambição” e a 
riqueza da cidade e da corte, passa-se a poemas que retratam as virtudes do campo como 
pertencentes ao passado, perdidas. 
O afastamento da virtude de qualquer mundo possível na prática caracteriza, segundo 
Williams, a sensibilidade romêntica, e representa também uma reação “às crises persistentes 
de uma ordem fundamentalmente impiedosa, à qual não havia ainda nenhuma reação social 
adequada” (William, 1989:94). Assim, o Humanismo setecentista52 se orienta para a 
introspecção e levanta a questão da separação. Duas formas de separação são importantes 
aqui: a separação da posse, mas também a separação do espírito, isto é, “o reconhecimento de 
forças das quais fazemos parte, mas que podemos sempre esquecer, e com as quais é preciso 
aprender, em vez de tentar controlá-las” (Williams, 1989:177-8). Desenvolve-se o mito que 
retrata a passagem da sociedade rural para a industrial como decadência, causa e origem das 
convulsões sociais – mito fundamental para o pensamento social moderno (Williams, 
1989:137) – expresso de forma eloqüente por Rousseau53. 
A Natureza é até então concebida como um princípio de ordem, mas também como 
um princípio de criação. A idéia de “harmonia com a natureza” expressava, inicialmente, uma 
confiança na natureza e nos processos naturais que traduz ainda uma confiança no homem, 
 
52 Retratado por Williams (1989:134) como uma “insistência passional em ressaltar a importância de se cuidar 
das pessoas e apiedar-se delas, com base num padrão implícito de uma vida simples, virtuosa e responsável”, e 
uma visão social “que, por um momento, foi dinâmica (...) mas que termina revelando-se estática: um contraste 
ético, e não social, entre riqueza e pobreza”. 
53 Em diversas passagens de sua obra, mas de forma bastante nítida na sua figura do “bom selvagem”, observa-se 
a defesa da idéia de que a civilização representaria uma “degradação” em relação ao “estado de natureza”. 
Rousseau, expressando ainda seu amor pela Mãe Natureza, acaba por se tornar o grande restaurador do 
sentimento religioso no final do século XVIII: “sua não-definição assegura à idéia de natureza (...) uma função 
metafísica e mística (...), passando a designar (...) o que resta do ser quando se elimina o artifício” (Rosset, 
1989:268). Desta forma, a retomada da verdadeira “natureza” da religião está assegurada: a insatisfação diante 
do real conduz à afirmação de uma outra realidade, que deverá ser conhecida por êxtase místico ou alcançada por 
reformas históricas (idem, ibidem). Nos capítulos seguints, são discutidos outros aspectos da fundamental 
influência do pensamento rousseauniano para a apreciação moderna da natureza e da sociedade. 
A ação humana na idéia de Natureza 56 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
que vai-se perder ao longo da segunda metade do século XVIII e marcará o século seguinte de 
forma decisiva. As transformações no meio rural são igualadas à “perda do velho campo” à 
“perda da poesia”; a riqueza, igualada à insensibilidade (pobreza estética), é responsabilizada 
pela destruição da Natureza. Realiza-se, então, uma fusão da natureza ao passado e à infância 
em contraposição à expropriação e cansaço do trabalho no presente (Williams, 1989:194-5). 
Há uma razão, portanto, para essas projeções e idealizações do Romantismo: “trata-se da 
sobrevivência do sentimento humano num contexto de expropriação real” (idem, ibidem, p. 
196). Compreende-se, assim, grande parte das motivações da introspecção e da nostalgia 
romântica: 
A Natureza, pensada até então como uma ordem social, um triunfo da lei e da 
abundância, está sendo vista, de forma alternativa, como uma outra ordem, solitária e 
profética, contendo o amor à humanidade justamente nos lugares onde homens não